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TELEVISÃO: UM “FAST FOOD” ENVENENADO PARA A ALMA - Parte I: A

televisão em si mesma (e seu uso)

Marcelo Andrade oferece um muito abrangente e certeiro estudo sobre os malefícios da


televisão, do qual publicamos hoje a primeira parte. A seguir: A televisão e o homem -
corpo e alma; Televisão, sociedade e ideologia; e finalmente, uma Análise detalhada
dos diversos gêneros da televisão, assim como uma Apertada análise de alguns outros
instrumentos modernos. O corpo de Referências bibliográficas virá igualmente
publicado no final.
TELEVISÃO:
UM “FAST FOOD” ENVENENADO PARA A ALMA

SUMÁRIO
INTRODUÇÃO.. 5 PARTE 1– A TELEVISÃO EM SI MESMA (E O SEU USO) 6
1.1 - O APARELHO TELEVISOR.. 7 1.2 - A TELEVISÃO E O SEU USO.. 7 1.3 -
CARACTERÍSTICAS DA PROGRAMAÇÃO EM GERAL. 9 1.4 – TELEVISÃO,
IMAGEM, SOM E TEXTO.. 12 1.5 - IMAGEM... 12 1.6 - SOM E MÚSICA.. 16 1.6.1
- SONS E “EFEITOS SONOROS”. 16 1.6.2 - AS “PARADAS DE SUCESSO”. 18
1.6.3 - OS “JINGLES”. 19 1.6.4 - TELEVISÃO E ROCK.. 20 1.7 - TEXTO.. 22 1.7.1 -
A NARRATIVA NA TELEVISÃO.. 22 1.7.2 - SENSACIONALISMO.. 27 1.7.3 -
TELEVISÃO E O SILOGISMO.. 29 1.7.4 - A TELEVISÃO E O TRIVIUM... 31 1.8 -
TEORIA DA COMUNICAÇÃO, A TELEVISÃO E O MEIO.. 32 1.8.1 - TEORIA DA
COMUNICAÇÃO. 32 1.8.2 - TELEVISÃO, A COMUNICAÇÃO, O MEIO E O FIM...
33 1.9 - MENSAGEM SUBLIMINAR.. 36 1.10 - REALIDADE E TELEVISÃO.. 39
1.10.1 COR, “CLOSE”, VELOCIDADE, FRAGMENTAÇÃO E FLUXO. 39 1.10.2 -
IRREALIDADE DOS CENÁRIOS TELEVISIVOS.. 40 1.10.3 - DETURPAÇÃO DO
REAL E A CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA REALIDADE 42 1.10.4 -
INTERMEDIAÇÃO DA EXPERIÊNCIA.. 45 1.10.5 DETURPAÇÃO EM
CONCRETO.. 46 3.12.2 - REFERÊNCIAS.. 108

Os insensatos desprezam
a sabedoria e a doutrina.
(Pv 1,7)
INTRODUÇÃO
Muito se estuda sobre a televisão, sob os mais variados ângulos. Há análises dela
como mídia de massa, relações com o poder, “marketing”, aspectos sociológicos etc.
Pesquisa-se, também, sua relação com a saúde, especialmente com a obesidade e o seu
liame com a violência. Obviamente, há um grande estudo, “de dentro”, ou seja, de
pessoas que trabalham para e pela televisão, necessário para abastecer e manter sua
vasta programação e sua razão de ser. Porém, apesar do vastíssimo material que se
encontra sobre a televisão, não são muito populares os estudos feitos contra ela. Há
pouca bibliografia especificamente sobre isto, mesmo em outras línguas. Encontra-se
facilmente algo contra determinados programas (ou gênero deles), mas não contra a
televisão em si mesma, contra ela como meio. Isto é algo suspeito, já que a televisão é
um equipamento poderoso e presente na maioria esmagadora dos lares e em muitos
locais públicos, em todo o mundo. Segundo dados do IBGE, 96,9% dos domicílios do
Brasil possuíam ao menos um aparelho televisor no ano de 2011.[1] No mundo
desenvolvido, a porcentagem é similar. Nosso trabalho estará focado mais no ataque ao
meio que ao conteúdo, ainda que nos anexos, abordemos certas classes de programas.
Mas, há sentido em atacar a televisão como meio, já que este seria normalmente
imparcial? Não haveria sentido em atacar apenas o conteúdo televisivo em espécie?
Não. A tecnologia, em muitíssimos casos, é portadora de uma mentalidade intrínseca a
ela, pouco importando o seu uso concreto. Destaca Mander (1978) que a própria
natureza do fato televisivo estaria assim condicionando definitivamente os conteúdos
em função do meio, tornando impossível outro uso da televisão, que não o atual. A
tecnologia da televisão, a programação, o seu jeito de ser, foram forjados de tal modo
que o meio e o conteúdo estão intimamente ligados. Uma analogia proposta por Mander
(1978) são os armamentos. Não se usam armas de guerra para a paz, para evitar mortes,
mas para matar. É verdade que um país pode e deve se defender de uma agressão injusta
mas, mesmo assim, as armas serão usadas para o combate e para a destruição de vidas.
E pouco importa o armamento em espécie - se é uma granada ou se é um fuzil, os dois
têm a mesma finalidade - variando apenas o grau de letalidade. Assim, se fôssemos
contrários aos armamentos de guerra, não precisaríamos atacar espécie por espécie,
bastaria o enfrentamento do gênero. Entendemos a televisão, atualmente, de modo
similar, como portadora de uma mentalidade própria. Na realidade, como detentora de
uma ideologia, independentemente de seu conteúdo programático. Desta forma, é
possível um ataque à televisão como meio. Com base neste objetivo, nasceu este
modesto trabalho. Ele é dividido em quatro partes para melhor didática: a análise da
televisão em si mesma (e o seu uso), os efeitos que ela causa no homem (corpo e alma),
a influência dela na sociedade e sua ideologia (mais a conclusão) e os “anexos” nos
quais analisaremos algumas classes de programas (e alguns outros instrumentos
modernos). É bem verdade que as partes se cruzam, de modo que um tópico ou uma
análise pode repercutir em todas as divisões. PARTE 1– A TELEVISÃO EM SI
MESMA (E O SEU USO) 1.1 - O APARELHO TELEVISOR A definição
encontrada na Wikipedia é esta: A Televisão (do grego tele - distante e
do latim visione - visão) é um sistema eletrônico de reprodução de imagens e som de
forma instantânea. Funciona a partir da análise e conversão da luz e do som em ondas
eletromagnéticas e de sua reconversão em um aparelho — o televisor — que às vezes
recebe erroneamente também o mesmo nome do sistema ou pode ainda ser chamado de
aparelho de televisão. As câmeras e microfones captam as informações visuais e
sonoras, que são em seguida convertidas de forma a poderem ser difundidas por
meio eletromagnético ou elétrico, via cabos; o televisor ou aparelho de televisão capta
as ondas eletromagnéticas e através de seus componentes internos as converte
novamente em imagem e som.[2]
1.2 - A TELEVISÃO E O SEU USO
Uma emissora ou estação de televisão é uma organização, companhia ou empresa que
transmite conteúdo através da televisão aberta. Uma transmissão televisiva pode ser
realizada via sinais analógicos ou via sinais digitais, tanto por meio de cabos quanto por
meio aéreo. O conteúdo de um programa de televisão pode ser:
Factual: telejornais, documentários, reality shows, programas de auditório, entrevistas
etc. Ficcional: seriados, telenovelas, minisséries, telefilmes, desenhos animados etc.
Alguns autores acrescentam um terceiro tipo: lúdico. Normalmente, as emissoras
possuem uma grade de programas bastante variada[3]. Muitos canais (podem ser mais
de cem, se somarmos os ditos “pagos”) podem ser sintonizados. Como cada emissora
tem sua grade de programação própria: o que marca o uso da televisão é a abundância
de programas desconexos, assistidos em sequências ilógicas. Assim, assiste-se a um
telejornal, depois a um filme, depois a uma partida de futebol, depois a uma novela e
assim por diante. Tudo isto recheado por publicidade, que igualmente não possui liame
lógico entre si. O que se vê é algo extremamente resumido em suas partes, fragmentado,
superficial e misturado. Somando-se a isto uma mudança frequente de canais feita pelos
telespectadores[4]temos, como resultado do produto televisivo, um amálgama feito
como um corpo justaposto, cujas partes tornam-se indistintas. Esse é o uso próprio da
televisão feito pelo telespectador. Trata-se de uma das atividades mais difundidas no
mundo. Na Europa se gastam quatro horas por dia, nos Estados Unidos, cinco horas por
dia[5] e no Brasil, segundo o IBGE, seriam mais de três horas por dia. Segundo Dorr
(1986), citado por Nascimento (2006, p.39), aos 65 anos de idade, as pessoas teriam
passado nove anos na frente do televisor. É a terceira atividade mais realizada pelo
homem, depois do trabalho e do sono. A massificação da televisão começou nos anos
50 do séc. XX, nos Estados Unidos. No Brasil, o processo se deu a partir dos anos 60. É
a mídia dominante dos últimos 50 anos.
1.3 - CARACTERÍSTICAS DA PROGRAMAÇÃO EM GERAL
Sobre a programação em geral, podemos dizer que ela possui onze características
principais: informação visual, imediatismo, alcance, índice de audiência, envolvimento,
instantaneidade, superficialidade, fragmentação, mudança rápida, repetição e fluxo
informativo. De acordo com Paternostro (1999, p. 64-65), são sete as características do
telejornal, as quais podemos estender facilmente para a televisão em geral: Informação
Visual, Imediatismo, Alcance, Índice de Audiência, Envolvimento, Instantaneidade e
Superficialidade. 1) Informação Visual: transmite mensagens através de uma linguagem
que independe do conhecimento de um idioma ou da escrita por parte do receptor(...). 2)
Imediatismo: transmite informação contemporânea quando mostra o fato no momento
exato em que ele ocorre através da imagem – o signo mais acessível à compreensão
humana. A TV tem hoje uma agilidade muito grande, porque o aparato técnico para uma
transmissão está muito simplificado. Pequenas emissoras já possuem unidades móveis
de jornalismo para reportagens ‘ao vivo’ que são instaladas com rapidez e velocidade.
Os satélites mostram fatos do outro lado do mundo. 3) Alcance: a TV é um veículo
abrangente e de grande alcance. Ela não distingue classe social ou econômica, atinge a
todos. O jornalismo na TV tem, portanto, que considerar como vai tratar uma notícia, já
que ela pode ser ‘vista’ e ‘ouvida’ de várias maneiras diferentes. 4) Índice de Audiência:
a medição do interesse do espectador orienta a programação e cria condições de
sustentação comercial. O índice de audiência interfere de modo direto, a ponto de a
emissora se posicionar dentro de padrões (trilhos) que são os resultados de aceitação por
parte do público-telespectador. 5) Envolvimento: a TV exerce fascínio sobre o
telespectador, pois consegue transportá-lo para ‘dentro’ de suas histórias. 6)
Instantaneidade: a informação da TV requer ‘hora certa’ para ser vista e ouvida – a
mensagem é momentânea, instantânea. Ela é ‘captada’ de uma só vez, no exato
momento em que é emitida. Não tem como ‘voltar atrás e ver de novo’, ao contrário de
jornal ou revista. 7) Superficialidade: o timing, o ritmo da TV proporciona uma natureza
superficial às suas mensagens. Os custos das transmissões, os compromissos comerciais
e a briga pela audiência impedem o aprofundamento e a análise da notícia no telejornal
diário (...). Para se desenvolver um tema e/ou uma tese são necessárias muitas páginas
no caso de meio impresso. No caso de uma exposição oral, seriam necessárias horas e
mais horas. Ora, as emissoras não disponibilizariam tanto tempo para algum tema, pois
isto afugentaria a audiência, daí a necessidade de se abordar os temas de modo raso.
Podemos acrescentar mais quatro características às sete supra elencadas: a
fragmentação, a mudança rápida, a repetição e o fluxo. 8) Fragmentação. Coelho (1987,
p. 32) sustenta: Basicamente, através da multiplicação não de informações, mas
de trechos de informações, apresentadas como que soltas no espaço, sem reais
antecedentes (a não ser a eventual repetição anterior de informações análogas à em tela,
mas que não são sua causa e sem consequências). E essas "informações" não revelam
aquilo que lhes está por trás, mas servem exatamente para ocultar o que representam;
servem para interpor-se entre o receptor e o fato, e não para abreviar o caminho entre
ambos. (grifo nosso). E ainda Duarte[6] (2004, p. 74), citado por Leal (2006, p. 5): O
surgimento do controle remoto delegou ao telespectador a tarefa de seleção e ordenação
de fragmentos de programas que ele próprio optava para ver. A montagem desse
verdadeiro quebra-cabeça (...) fez com que a própria televisão passasse a oferecer
programas tão fragmentados que produzissem eles próprios o efeito de sentido do
zapping. Com essa excessiva fragmentação, há uma exclusão de temas centrais: os
produtos televisivos se constroem como fluxos resistentes ao significado, combinando a
fragmentação temática com a incessante rotação dos mesmos elementos, de forma, pelo
menos aparentemente, aleatória.(grifo nosso). 9) Mudança rápida (ou velocidade). De
acordo com Setzer (2009): Como o telespectador está normalmente num estado de
consciência de sonolência, ou semi-hipnótico, as emissoras enfrentam um grande
problema: como impedir que ele passe desse estado para o sono profundo? (Algumas
pessoas tem uma proteção natural e adormecem logo depois de ligarem a TV,
independente do programa – aliás, isso mostra que o estado normal de sonolência não
depende do programa.) Os diretores de imagem usam justamente o truque de mudarem
a imagem constantemente para chamarem, pelo menos um pouco, a atenção do
telespectador. (grifo nosso). Estas “mudanças rápidas” podem ocorrer dentro dos
programas, que toda hora devem mudar os “quadros”, alterar os ângulos, cambiar
constantemente os focos nos apresentadores e nos atores, etc. As mudanças se operam
também mediante a alternância dos programas. Não existe um que dura o dia todo, por
exemplo. E ainda, subsistem nas interrupções abruptas provocas pelos intervalos
comerciais. 10) Repetição (ou circularidade). É sempre “mais do mesmo”. Todo dia há
sempre os mesmos programas nos mesmos horários[7]. Quando não, as “atrações” são
hebdomadárias. Outro item que reforça a repetição são as reprises que ocorrem com
frequência, seja de novela, seja de filmes etc. A programação que se repete – todos os
dias haverá as novelas, os mesmos telejornais e todas as semanas os programas se
distribuem de maneira fixa pelos dias certos na grade de programação das emissoras –
introduz uma temporalidade particular marcada, inexoravelmente, por novos começos.
A matriz cultural do tempo organizado pela televisão é dependente da lógica da
repetição e do fragmento. Instaura-se, portanto, um tempo ritual que é, também, rotina.
(BARBOSA, 2007, p. 14). (grifo nosso). 11) Fluxo constante. A televisão não para, há
uma sequência ininterrupta de programas, publicidades, avisos etc. Em nenhum
momento ela se desliga ou congela a imagem de propósito. Williams (2005) caracteriza
a televisão como “fluxo” ininterrupto de imagens, um ritmo a partir do qual seus
produtos seriam elaborados e no qual estariam integrados. Estas onze características são
a essência da programação televisiva, sem as quais a televisão não seria o que é. Em
especial, a superficialidade, a fragmentação, a mudança rápida, a repetição e o fluxo
constante são nefastos para o telespectador e serão abordados neste trabalho em vários
tópicos.
1.4 – TELEVISÃO, IMAGEM, SOM E TEXTO
Na televisão existem a imagem, o som e o texto, que são percebidos nos primeiros
segundos ao ligar o aparelho. Nosso sentido mais elevado é a visão. Na análise de S.
Tomás, a vista está livre da modificação do órgão e do objeto, é o mais espiritual dos
sentidos, o mais perfeito e o mais universal[8]. Depois vem a audição, e estes dois
sentidos são os que fazem a vida intelectual. Por isso, as imagens e os sons são muito
importantes. Eles são os elementos mais graves que “entrarão” em nossas almas.
Segundo Platão e Fiorin (1996): "Um texto é uma ocorrência linguística, escrita ou
falada de qualquer extensão, dotada de unidade sociocomunicativa, semântica e formal.
É uma unidade de linguagem em uso.”[9] O texto, na televisão, combinará a imagem e o
som e com eles formará as três “potências” da televisão. Segundo Duarte[10] (2002,
p.2): Os textos televisivos constroem-se a partir de diferentes linguagens sonoras e
visuais. Trata-se de textos complexos que articulam o verbal, o musical, a diferentes
sistemas de significação visuais; cenários, iluminações, cores, vestuário, gestos,
expressões faciais etc. O texto fará a “síntese” entre a imagem e o som (BARBOSA,
2007). Na televisão, como veremos nos tópicos seguintes, os três elementos têm as
mesmas características da fragmentação, da repetição, da mudança rápida, da
superficialidade e do fluxo.
1.5 - IMAGEM[11]
Imagem é o que procede de outro de maneira a se lhe assemelhar na espécie. Assim
um ovo não é imagem de outro ovo.[12] Já um desenho de um ovo é a sua imagem. E
imagem não implica igualdade. É possível “ler” imagens. O Papa S. Gregório Magno
escreveu: “(...) A razão pela qual se usam as representações nas igrejas é a de que
aqueles que são iletrados possam ler nas paredes o que não podem ler nos livros
(...)[13] Esta afirmação do papa é muito citada e discutida. De fato a imagem encerrará
uma mensagem. Quanto mais elaborada ela é, mais rica será a mensagem ou
ensinamento. Mas, mesmo que a as imagens sejam pobres e não mostrem nenhum
conteúdo, ainda assim serão importantes. Podemos dizer que a estruturação das imagens
em movimento pode ser feita de três formas: por montagem, por colagem ou por
bricolagem. Na estruturação por montagem, cujo melhor exemplo é o cinema, a
construção das imagens segue um liame lógico, na qual a sequência de imagens é
necessariamente hierárquica, em razão de um enredo, de uma narrativa ou estória que se
quer contar e/ou mostrar, tendo como finalidade uma obra terminada. Ou seja, o filme
resultante deste trabalho terá unidade, com começo meio e fim, permitindo a quem
assistiu entendê-lo e interpretá-lo. Como um livro que se lê. Assim, por exemplo, uma
cena de duelo com esgrima na qual o derrotado foi morto, seguirá necessariamente uma
cena sem o derrotado vivo. Na colagem, o mecanismo de estruturação das imagens é
feito mediante a justaposição destas, sem ter em mente uma obra final, com começo
meio e fim. Tais emendas de imagens seguem propósitos estranhos a um enredo e/ou a
uma estória. Não se tem a ideia de fim, tampouco de obra acabada. Inexistem hierarquia
e lógica na sucessão das imagens. Um exemplo por analogia: uma criança que colou
fotos aleatórias numa cartolina. Na bricolagem, a estruturação de imagens é justaposta,
sem lógica ou hierarquia como na colagem, mas resulta em uma obra acabada,
divergindo da colagem e se aproximando da montagem neste ponto. Exemplo por
analogia: uma colcha de retalhos, na qual a união dos retalhos não segue liame lógico
nenhum, mas que se ultimou numa colcha, num produto final uno e útil.[14] Na
televisão, a estruturação se opera por colagem, por suas características de mudanças
rápidas, fragmentação, repetição e fluxo. Assim, um telejornal mostrará notícias sem
liame nenhum, com blocos interrompidos por publicidades, que também não respeitarão
sequência lógica nenhuma. E findo o telejornal, por exemplo, pode advir um programa
de “talk shows” cujas “entrevistas” não terão ligação nenhuma. A justaposição de
informativos, programas musicais, concursos, programas dramáticos etc., engrenados
todos eles em cadeia pelos blocos publicitários, propicia o transvasamento, a
identificação e o amálgama, mais do que o contraste ou a surpresa crítica.
(ERAUSQUIN et. al, 1983, p. 69-70) Machado (2005, p. 110) analisando os telejornais
afirma: “... uma colagem de depoimentos e fontes numa sequência sintagmática, mas
essa colagem jamais chega a constituir um discurso suficientemente unitário, lógico ou
organizado a ponto de ser considerado ‘legível’ como alguma coisa ‘verdadeira’ ou
‘falsa’”. (grifo nosso). E Leal (2006, p.2) ao comentar o telejornal fala em recortes: “em
seus aspectos “mecânicos”, o que na tevê seria operacionalizado, entre outros, pelo
cinegrafista, ao recortar o real em imagens. [Acredita-se], portanto, [em] um real dado,
estável, pré-estabelecido [como] um material a ser recortado (...)” Ao fim e ao cabo,
inexiste na televisão a figura de “obra acabada” com começo meio e fim. Na realidade,
nada termina e tudo se perde num fluxo de imagens (WILLIAMS, 2005) “sem pé nem
cabeça”, agravada por uma velocidade exagerada. Nós vivemos num mundo obcecado
por imagens, mas curiosamente pobre no poder de analisá-las. Talvez porque o esforço
para interpretá-las seja mínimo. Pio XI[15], discorrendo sobre o cinema, ensina: (...) O
poder do cinema provém de que ele fala por meio da imagem, que a inteligência
recebe com alegria e sem esforço, mesmo se tratando de uma alma rude e primitiva,
desprovida de capacidade ou ao menos do desejo de fazer esforço para a abstração e a
dedução que acompanha o raciocínio. Para a leitura e audição, sempre se requer atenção
e um esforço mental que, no espetáculo cinematográfico, é substituído pelo prazer
continuado, resultante da sucessão de figuras concretas. No cinema falado, este poder
atua ainda com maior força, porque a interpretação dos fatos se torna muito fácil e a
música ajunta um novo encanto à ação dramática. (...) (grifo nosso) No mesmo sentido,
Setzer (2009) comenta que as imagens não requerem esforço intelectual por parte do
espectador: Comparemos com a leitura (em relação à imagem). Quando uma pessoa lê,
ela é forçada a prestar atenção no que está lendo, pois caso contrário perde o fio da
meada. Quando se lê um romance, é necessário imaginar os personagens, o ambiente em
que a ação se passa, etc.; quando se lê algo filosófico ou científico, é necessário associar
conceitos constantemente. Em ambos os casos, o pensamento está muito ativo. Mas na
TV, as imagens já vêm prontas; por outro lado, é impossível acompanhá-las
conscientemente, pensando-se no que elas significam, associando-se ideias ou
lembranças a elas, etc., pois, como justificaremos adiante, elas necessariamente
sucedem-se com muita rapidez. Com isso, não se consegue nem prestar atenção durante
um tempo razoável, nem criticar calmamente o que está sendo transmitido e compará-lo
com nosso conhecimento prévio como o permite um livro – na velocidade individual de
cada leitor. Em razão das imagens serem de fácil apreensão, elas são mais sedutoras que
textos e jogos, por exemplo. Muanis (2005) afirma: Como se vê, desde o início a
televisão opera algum afastamento do lúdico, dos jogos e das brincadeiras. Por ser
imagem a televisão fala à compreensão mais elementar do interlocutor, a de interpretar
o que está vendo. A competição com a imagem, portanto, é bastante difícil, já que suas
narrativas são extremamente sedutoras, trabalhadas pela forma, pela riqueza de
informação, pela beleza e pela facilidade de absorção. E o principal na televisão é a
imagem: Nas salas de redação utiliza-se de forma ordinária a definição de que tevê é
imagem. Um assunto de interesse público, como, por exemplo, uma mudança no
sistema de ensino, que vai afetar a vida de milhares de pessoas, mas que não oferece
imagens de apelo que prendam a atenção do telespectador, pode simplesmente deixar de
ser divulgado por um telejornal se, em virtude do pouco tempo do noticiário, houver
algo menos importante, mas com uma dose de adrenalina maior, como cenas de uma
perseguição policial, por exemplo.. (...) a tevê se tornou refém da imagem,
independentemente de sua importância no contexto social ou político. É a tevê se
alimentando e sendo alimentada pela "ditadura da imagem" (VIEIRA BARBOSA,
2005, P.66) As imagens sempre foram veículos para ideologizar as pessoas, dada a sua
importância e capacidade de influência. Fugiria ao escopo deste trabalho, avançar no
tema, mas a título de exemplo: Lênin, na época da Revolução Russa de 1917, já
afirmava: “De todas as artes, o cinema é para nós a mais importante. Deve ser e será o
principal instrumento cultural do proletariado”; orientação que foi seguida atentamente
pelos principais líderes de regimes socialistas, como Josef Stálin, Mao Tsé-tung e Fidel
Castro. (PEREIRA, 2005, p.2)[16] Como o objeto da visão são as cores[17]estas são
importantíssimas, assim se utiliza muito na televisão a manipulação delas com o intuito
de embutir uma ideologia sorrateiramente. Segundo Guimarães (2003, p. 29), as cores
servem para hierarquizar, direcionar, destacar, etc. Desta forma, quando a televisão quer
por em destaque um tema, usa uma cor, quando quer depreciar um fato usa outra e
assim por diante. O azul, por exemplo, é muito usado para dados positivos e o vermelho
para coisas negativas. Tudo isto mostra que as imagens são muito poderosas e o seu
manuseio inadequado pode conduzir o telespectador para pensamentos inadequados ou
até mesmo para a ausência deles. E é isto que a televisão faz.
1.6 - SOM E MÚSICA

1.6.1 - SONS E “EFEITOS SONOROS”


O som não está adstrito à música na televisão. A televisão cria muitos sons com o
objetivo de gerar certo comportamento e/ou expectativa para o telespectador, assim, um
conjunto de sons “x”, por exemplo, está vinculado a uma determinada programação.
Quando o telespectador ouve tais sons, já se prepara para determinada “atração”
televisiva. Similar ao som do telefone: quando este aparelho “toca”, sabe-se que há
alguém do outro lado da “linha” que quer falar. O espectador está sendo continuamente
alertado. Durante todo o tempo o espectador recebe sinais, mais ou menos sutis, a
depender, sobre aquilo que vai acontecer, sobre aquilo que teria acontecido, sobre o
próprio veículo televisivo, e, até, sobre aquilo que deverá fazer ou desejar para que
possa fruir, ao máximo, o prazer que a programação lhe oferece. O espectador é o
consumidor, sem dúvida, porém acaba sendo, também, o grande produto desta máquina
refinada. (SÁ in NOVAES et al, 1999, p. 138) Isto é bem diferente dos sons da
natureza. Assim, reconhece-se de imediato um cantar de um pássaro, mas isto não gera
uma ação ou uma expectativa em quem ouviu o canto. A televisão cria, então, situações
artificiais, treinando os telespectadores para reagir ante determinados sons. São as
“chamadas”. Isto é parecido com o que se faz com cães treinados, nos quais
determinados gestos ou sons emitidos pelo dono e/ou treinador geram ações por parte
do cachorro. Estes sons, estas “chamadas”, são diferentes umas das outras e se alternam,
de modo que o som do anúncio de um telejornal será diferente de uma “chamada” de
um “talk show” que o seguirá, reforçando a característica da fragmentação e da
mudança rápida. Isto somado ao fato destes sons serem pobres e muito curtos, muitos
distantes de belas melodias, reforça um quadro de pobreza cultural que a televisão
espelha. Os “efeitos sonoros” são sons criados ou editados artificialmente para enfatizar
os programas televisivos, o cinema, os jogos eletrônicos etc. Podem emular risos,
aplausos, choros etc., são explorados para atrair a atenção do telespectador ou buscar
sua adesão ou concordância. Deste modo, por exemplo, para mostrar que uma piada
tola, que algum apresentador contou, teria sido engraçada, ouvem-se risos (o efeito
sonoro) ao fundo. Mais uma vez é um mecanismo artificial que pode levar o
telespectador a uma compreensão falsa ou a um sentimento forçado. Assim como as
imagens, o resultado final é uma colagem de sons, jingles, músicas que, no final, não
segue lógica nenhuma, totalmente desarmônico.
1.6.2 - AS “PARADAS DE SUCESSO”
A televisão fomenta, para não dizer cria, muitos “hits” ou “paradas de sucesso”. Cuida-
se de músicas sentimentais que povoam as rádios, atormentado os ouvidos nos mais
variados locais e sendo repetidas ad nauseam. Tornam-se “sucessos musicais”, cuja
notoriedade é inversamente proporcional à qualidade. Estas “canções” seguem uma
mesma lógica e natureza, sempre abusando do ritmo e possuindo uma mesma estrutura
temporal periódica ou cíclica (STEFAN SCHADLER, citado por MARCONDES
FILHO, 1988, p.72) Para Marcondes Filho (1988, p. 73): As canções trabalham com
temas populares (amor, prazeres, vida), isto é, fantasias que, por serem mais comuns,
são chamadas modais (o termo vem da estatística e quer dizer o mais frequente). Além
disso, os grandes sucessos de público geralmente têm melodias de estrutura simples e
esquemas repetitivos de fácil memorização. Esta é uma exigência para que uma canção
se torne altamente popularizada: a rejeição de uma estrutura complexa que, apesar de
mais rica e artisticamente mais nobre, dificulta a aprovação da massa de consumidores
porque não se enquadra em sua cultura musical, normalmente pouco sofisticada. Estas
músicas ou “discos” devem atender a uma mentalidade mercadológica, pois a fama
proporcionada pela veiculação na televisão gerará enorme venda, quer em formato
físico quer em formato eletrônico. Há uma perfeita interação entre a televisão e as
empresas de selo musical. E é claro que os cantores ficarão famosos, engrossando o
coro das “celebridades”. Deles se esperam as mesmas músicas e os mesmos
“comportamentos” dos “famosos”. Para aumentar ainda mais a renda da televisão e das
empresas de selo musical haverá, em breves intervalos de tempo, a alternância dos
“sucessos musicais”. Tudo à custa da indução ao consumismo e o que é pior, do
empobrecimento musical e da tortura nos ouvidos.
1.6.3 - OS “JINGLES”
A fragmentação está para a imagem assim como os “jingles” estão para a música. A
INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, no
XXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, em Campo Grande-MS,
definiu o “jingle” como sendo a “mensagem publicitária em forma de música,
geralmente simples e cativante, fácil de cantarolar e recordar, criada e composta para a
propaganda de uma determinada marca, produto ou serviço”[18] A música, como uma
arte nobilíssima, busca a elevação do homem. Já esses “jingles” procuram “grudar” na
cabeça das pessoas a lembrança de algum produto, seja um eletrodoméstico, seja um
produto televisivo, etc. Não passam de um “chiclete de orelha” que custa para ser
desgrudado. Neste sentido, Sampaio[19] (2003, p.72), citado por Monteiro (2008, p. 2):
A grande vantagem do jingle é que, por ser música, acaba tendo um expressivo poder de
“recall”, pois é aquilo que a sabedoria popular chama “chiclete de orelha”. As pessoas
ouvem e não esquecem. Assobiam ou cantam, mas guardam o tema consigo. O jingle é
algo que fica, como provam as peças veiculadas durante um período e tiradas do ar, mas
que muitos e muitos anos depois ainda são lembradas pelos consumidores. E
Sacks[20] (2007, p.51) citado por Monteiro (2008, p. 5 ). A música entrou e subverteu
uma parte do cérebro [...] Um jingle publicitário ou a música-tema de um filme ou
programa de televisão podem desencadear esse processo para muitas pessoas. Isso não é
coincidência, pois a indústria da música cria-os justamente para “fisgar” os ouvintes,
para “pegar” e “não sair mais da cabeça”, introduzir-se à força pelos ouvidos ou pela
mente. Trata-se de um mau procedimento, pois obriga as pessoas a se lembrarem de
coisas sem importância. E mais, o “jingle” é desleal, pois tenta conquistar a mente não
com raciocínio, mas com subterfúgios e ardis. Há, ainda, um ataque à gramática nos
“jingles”, com o uso de linguagem coloquial, com “slogans” e até com erros mais
grosseiros. Todo texto publicitário é coloquial. Ele pode ser mais ou menos jovem, pode
conter gírias ou não, mas, mesmo falando com consumidores sérios, como executivos
ou senhores da terceira idade, a abordagem a ser utilizada deve ser sempre leve,
informal, coloquial. Nós partimos do princípio de que já temos alguma intimidade com
o consumidor. [...] Por isso, sempre que se escreve em publicidade, é necessário falar a
língua do consumidor, usar seus adjetivos, externar suas emoções, ver o mundo por seus
olhos, refletir sua ideologia. (FIGUEIREDO[21], 2005, p. 41, citado por SANTOS e
HEINIG, 2012, p.7) O “jingle”, portanto, é o oposto da retórica, que prima pela boa
gramática, pela lealdade no convencimento de ideias, via raciocínio, e pela elegância.
1.6.4 - TELEVISÃO E ROCK[22]
Não é coincidência que a massificação da televisão tenha ocorrido em paralelo com a
do rock. Há uma grande afinidade entre eles. Um apoia o outro. Toda forma musical
tem três elementos: melodia, harmonia e ritmo. Nas melhores músicas, estes três
elementos estão dispostos de forma hierárquica nesta sequência: a) A melodia é a
sucessão de sons cuja escrita linear constitui uma forma, é o arranjo particular das notas
musicais. é o tema de uma sinfonia, de uma cantiga popular que diferencia uma peça
musical de outra (LABOUCHE , 2002, p.4). b) A harmonia é o conjunto de princípios
sobre os quais se baseia o emprego de sons simultâneos, a combinação das partes
instrumentais ou das vozes; é a ciência, a teoria dos acordes e da simultaneidade dos
sons. A harmonia é arte de juntar, de combinar sons, em função de uma linha melódica
(LABOUCHE, 2002, p.5). c) O ritmo dá uma estrutura à melodia. A frase melódica se
desenvolveu segundo a cadência imposta pelo compositor. A natureza que nos cerca
está cheia de ritmos: as estações, as batidas do coração, o galope dos cavalos, o canto
dos pássaros, as ondas do mar (LABOUCHE, 2002, p. 6). Pois bem, interpretando a
televisão sob o ângulo da música, temos na televisão o primado do ritmo, no qual a
sucessão de eventos e programas segue mais rápida do que deveria. Tudo é veloz, há um
abuso do ritmo, que se revela o elemento mais importante dentro desta análise. “Há a
prevalência do ritmo (na televisão) sobre outros elementos narrativos” (BARBOSA,
2007, p. 17) Não existe harmonia na televisão, pois ela, como já exposto no tópico 1.3,
faz combinações desconexas com os programas exibidos, ou seja, ela é “desafinada”. A
melodia, que seria como o conteúdo dos programas se revela pobre, superficial, de
baixo nível. A televisão subverteu a lógica dos três elementos da forma musical. A
estrutura do rock é similar a da televisão: “O ritmo é o elemento mais importante no
rock, ninguém pode negar. De fato, não se pode conceber a “música rock” sem o ritmo,
que pode ser classificado de tirânico” (LABOUCHE, 2002, p.17). “A harmonia no rock
consiste e se limita ao uso de acordes essencialmente dissonantes ou empobrecidos, em
número restrito e repetidos constantemente” (LABOUCHE, 2002, p.18). “A melodia,
esse elemento essencial da arte musical não é importante no rock. Aqui a rainha da
música não passa de uma miserável” (LABOUCHE 2002, p.19). Por que na televisão e
no rock há uma “obsessão” pelo ritmo? Porque tanto num quanto no outro há um
materialismo vil. Os ritmos são constantes na natureza, assim existem as estações do
ano, o ciclo do dia, o vai e vem das ondas etc. São elementos integrantes do mundo
material. A melodia se refere a construções espirituais, a elementos metafísicos. O
correto seria o ritmo servir à melodia, assim como o corpo serve à alma. Ao inverter
esta lógica, o rock e a televisão se revelam muito mundanos, sujeitando o espiritual ao
material. Quanto mais selvagem é o povo, menos melódica é a sua música. Entre os
selvagens só se conhecia o ritmo e era comumente associado a danças imorais e a
transes. Como o rock hoje em dia. Pior do que a televisão e o rock é a fusão dos dois. E
isto existe. .O videoclipe ou teledisco, na sua versão mais comum, é caracterizado por
uma montagem fragmentada e acelerada, com planos (imagens) curtos, justapostos e
misturados, narrativa não linear, multiplicidade visual, riqueza de referências culturais e
forte carga emocional nas imagens apresentadas[23], tudo isto ao som da música do
estilo rock. Cuida-se de algo extremamente irracional. E o que é o rock para audição, é
o videoclipe para a visão. Se quisermos “ver” o rock basta assistir ao videoclipe, se
quisermos “ouvir” o videoclipe basta escutar o rock. O cardeal Joseph Ratzinger, futuro
Papa Bento XVI disse certa vez: "O rock é uma expressão básica das paixões que, em
grandes plateias, pode assumir características de culto ou até de adoração, contrários
ao cristianismo." Isto se aplica bem ao videoclipe, como um culto pagão, ilógico,
despertador de baixas paixões e obcecado por um ritmo literalmente alucinante. Ver
anexo 4.5: videoclipe.
1.7 - TEXTO

1.7.1 - A NARRATIVA NA TELEVISÃO


Narrativa é originária do latim e quer dizer conhecer, transmitir informações. É um
meio de se contar uma história, seja ela real ou ficcional. Existe a narrativa de aventura,
literária etc. Gérad Genette define narrativo como uma representação de um
acontecimento ou de uma série de acontecimentos, reais ou fictícios, por meio da
linguagem, e mais particularmente da linguagem escrita. Convencionalmente, o enredo
da narração pode ser assim estruturado: a) exposição (apresentação das personagens
e/ou do cenário e/ou da época), b) desenvolvimento (desenrolar dos fatos apresentando
complicação e clímax) c) desfecho (arremate da trama).[24] A narrativa na televisão
é sui generis dada suas particularidades, marcada por um fluxo interminável de
informações, combinado por uma fragmentação, por mudanças rápidas de programas e
situações etc. A televisão, em virtude do sensacionalismo reinante em vários programas,
exagera o “clímax”, há uma sucessão artificial deles. A exposição e o desfecho acabam
por servir a ele, pervertendo a lógica narrativa. Veja-se, por exemplo, o que ocorre com
a estruturação narrativa de novelas, minisséries que, pela fragmentação em blocos, são
obrigadas a múltiplos clímax para garantir com o suspense a permanência do espectador
até o próximo bloco, depois dos comerciais. (DUARTE 2002, p. 7) A noção de tempo é
pervertida na narrativa televisiva: A lógica narrativa da programação da TV é construída
por essas sequências de “agoras”. Após um programa um novo agora introduz um
outro. E, assim, numa sequência interminável que se repete no outro dia. As emissões
cerimoniais, nesse jogo, introduzem a ideia de instante. Não é um novo agora que marca
a emissão, mas um corte abrupto interrompendo de maneira arbitrária o tempo, o agora.
Mas ambos, instante e agora, são tempos narrados. (BARBOSA, 2007, p.17) E a
narrativa televisiva volta-se para a imagem: A narrativa da TV destaca a imagem. Mais
do que o mundo das coisas contadas está em cena o mundo das coisas vistas. A luz que
permite a construção imagética reproduz pessoas em presença, lugares conhecidos ou
desconhecidos, caleidoscópio de imagens múltiplas (BARBOSA, 2007, p.15) Há um
“tudo misturado, ao mesmo tempo, e agora”. E pouco importa a natureza do programa,
se é ficcional ou factual. Barbosa (2007, p.12) afirma: A narrativa da televisão – seja ela
de que gênero for – produz a transição entre a experiência que precede a construção do
texto e a que lhe é posterior (a do público) e só ganha sentido quando passa a figurar
nesse novo mundo. Introduz uma espécie de suspensão do tempo – o presente do
telespectador – por um passado que agora está na tela e é apresentado como presente
vivido, instaurando “o mundo das coisas contadas” (RICOUER[25], 1995, p. 115-
116). Neste sentido, não há diferença entre narrativa ficcional ou não ficcional. Daí
também o embaralhamento de significações que o público produz em relação aos
gêneros televisuais, misturando ficcional e factual. [grifo nosso). Uma telenovela é por
definição uma ficção, frequentemente há esta advertência nos “créditos”, aliás. Porém,
as pessoas ao comentaram sobre o capítulo “da noite anterior”, fazem-no como se a
novela fosse factual. Assim, é comum ouvir frases como: “tal comportamento não é
compatível com a vida real”, “no dia-a-dia não é assim”, “a novela mente” etc. Isto só é
possível porque a televisão confunde, de propósito, a narrativa ficcional e a real. Assim,
conforme o interesse das emissoras e/ou dos produtores será dito que tal programa se
baseia na realidade ou não. A manipulação ideológica desta forma é mais fácil. Pouco
importa, também, de qual gênero narrativo se trata, se é drama, comédia etc. O que vale
é o fluxo e o ritmo, segundo Barbosa (2007, p.4): O ritmo e a composição das cenas
televisivas são governados pela ideia de fluxo: um contínuo de imagens que não faz
distinção dos programas constitui, para Williams (op. cit.), a forma televisão. Para
Barbero (2001)[26], o fluxo televisivo produz a metáfora mais real da substituição dos
grandes relatos pela equivalência de todos os discursos (informação, drama,
publicidade, dados financeiros, etc), pela inter-penetrabilidade de todos os gêneros e
pela transformação do efêmero em chave de produção e em proposta do gozo estético da
TV. Ainda Barbosa (2007, p.11) afirmando que a televisão abusa das sensações: A
narrativa da televisão se constrói apelando ao sensório. Valores próprios de um
imaginário governado pelo afeto, pela afetação e pelas sensações são colocados diante
do público. O sensorial é o discurso dominante: um mundo que se constitui sob a forma
de imagens e uma época marcada pelas imagens do mundo Caldas (2008, p. 30) endossa
que a televisão perverteu a narrativa ao comentar: Com a televisão, temos um monólogo
controlável e uma representação do real (ângulo da câmera, seleção das imagens etc)
que nos é imposta. Em “A comunicação do grotesco”, Sodré afirma que o veículo
impõe ao receptor a sua maneira especialíssima de ver o real” (1971:61). O código
televisivo nos limitaria a uma experiência de consumidor-dominado, aspecto este que
Edgar Morin, autor com certa influência na obra de Sodré, já destacara quando analisara
a cultura de massa. Para Sodré, ao ligarmos a televisão, já estaríamos fazendo parte de
uma teleorganização, cujo uso do código compete ao emissor. A tevê, aí, é forma social,
e o meio técnico serve para manter essa relação imagem/receptor Na narrativa televisiva
não há argumentos nem linearidade nem fim nem começo. Sodré (2001) comenta: E.
Verón chamou de indiciário. A socialização com gestos, nas flexões, nos sinais. Tudo
isso que compõe o universo oral e que vem para a mídia eletrônica. No indiciário, não
há linearidade discursiva, não há argumentação, não há princípio nem fim. Há, sim, a
estética das aparências. Isso tudo é incompatível com o que nós entendemos como
discurso crítico, como argumentação. A televisão entra aí. Entra nesse regime de
visibilidade pública, pontuada pelo indiciário. A televisão é o grande médium indiciário.
Ela não precisa, não aposta na argumentação crítica, não aposta nos conteúdos
Kaplan[27] (1987, p.63) diferencia o cinema da televisão, citado por Trevisan (2011,
p.46): enquanto isso é familiar dos gêneros clássicos de Hollywood, existe
uma diferença importante que novamente sugere uma deslizada para dentro do pós-
modernismo. Na maioria dos gêneros de Hollywood mencionados, o mistério é
resolvido no final; nós estamos dando explicações para o que é mostrado, para que o
espectador deixe o cinema seguro de que está vivendo num mundo racional. Este não é
o caso da maioria dos vídeos descritos: nós nunca sabemos por que certas coisas
acontecem, ou até precisamente o que está acontecendo. Nós somos forçados a existir
num universo não racional, onde por acaso não podemos esperar qualquer desfecho do
tipo comum. O enredo de uma narrativa é uma sucessão de eventos conduzidos
forçosamente pela relação de causa de efeito, com começo, meio e fim, resultando num
todo uno. Vimos por todos os exemplos supracitados que a televisão não segue esta
ótica. A narrativa da televisão é ilógica e sem enredo, na realidade. Todo enredo
envolve narrativa, mas nem toda narrativa envolve o enredo.[28] Ao proceder assim, a
televisão lembra a ideologia nominalista, na qual inexiste o liame de causa e efeito.
Existem só os fatos. As narrativas factuais, fundadas na existência real de
acontecimentos são ditas “cheias”, porque seria impossível esgotar todas as visões
possíveis do acontecido, cada testemunha poderia dizer um detalhe, um aspecto
diferente, mas complementar ao de outra testemunha. O resultado final seria uno, com
um relato fortalecendo e complementando o outro. As narrativas ficcionais são ditas
“vazias”, pois não se pode acrescentar nada mais ao relato, pois o fato a que ele se
refere inexistiu, foi o resultado da criação de um escritor. Num caso de um evento
mentiroso inventado e/ou combinado por duas pessoas, por exemplo, seria comum a
contradição, pois como o acontecimento imaginário não existiu, a invencionice
produziria testemunhos díspares. Cada parte ao querer enriquecer o pseudoevento diria
uma irrealidade diferente da outra parte. Um relato destrói o outro, anulando-se. A
mentira produz a contradição, a verdade produz a unidade. Ao misturar a ficção com a
não ficção, combinado com outras características, a televisão cria o relato factual
“vazio”. Neste caso, embora, os acontecimentos tenham existido, ao passar pelo filtro
modificador da televisão, ele se torna como se fosse uma ficção. Permitindo a
contradição e a confusão. A mídia cria diariamente a sua própria narrativa e a apresenta
aos telespectadores (...) como se essa narrativa fosse a própria história do mundo. Os
telespectadores, embalados pelo “estado hipnótico” diante da tela de televisão,
acreditam que aquilo que veem é o mundo em estado “natural”, é “o” próprio mundo
(ARBEX 2001, p.103).
1.7.2 - SENSACIONALISMO
As narrativas na televisão, muito comumente, são sensacionalistas. O sensacionalismo,
a busca pelo espetáculo, se transformou em pedra angular de diversos programas
televisivos. A onda popularesca, que mescla reportagens sobre aberrações com
entrevistas que desnudam por completo a intimidade alheia, ocupa, agora, o horário
nobre da televisão brasileira. (VIEIRA BARBOSA, 2005, p. 67). No mesmo sentido
escrevem CASALI et al. e VIEIRA BARBOSA, entre outros. Para Amaral (2011, p.
21), a técnica sensacionalista serve a determinados propósitos midiáticos: O
sensacionalismo tem servido para caracterizar inúmeras estratégias da mídia em geral,
como superposição do interesse público; a exploração do interesse humano; a
simplificação; a deformação; a banalização da violência, da sexualidade e do consumo;
a ridicularização das pessoas humildes; o mau gosto; a ocultação de fatos políticos
relevantes; a fragmentação e descontextualização do fato; o denuncismo; os
prejulgamentos e a invasão de privacidade tanto de pessoas pobres quanto de
celebridades. Segundo Pedroso (1994, p. 47-48), o discurso sensacionalista tem as
seguintes características: a) variedade na apresentação gráfica; b) exploração de
estereótipos sociais; c) valorização da emoção em detrimento da informação; d)
exploração do caráter extraordinário e vulgar dos acontecimentos; e) adequação
ideológica às condições culturais, políticas e econômicas; das classes sociais; f)
exploração exacerbada do caráter singular dos acontecimentos; g) destaque do aspecto
insignificante e duvidoso dos acontecimentos; h) omissão de aspectos dos
acontecimentos; i) acréscimo de aspectos dos acontecimentos; j) discurso repetitivo,
motivador, despolitizador e avaliativo; k) discurso informativo de jornais em fase de
consolidação econômica e empresarial; l) modelo informativo que torna difusos os
limites entre o real e o imaginário. Ou seja, é um discurso totalmente apelativo e
forçado. Segundo Marcondes Filho (1986) [29], citado por Angrimani (1995, p.15), o
sensacionalismo é feito pelo trinômio: escândalo-sexo-sangue. Cuida-se, então, de atrair
a audiência pelos motivos mais baixos possíveis. (a imprensa sensacionalista) não se
presta a informar, muito menos a formar. Presta-se básica e
fundamentalmente satisfazer as necessidades instintivas do público, por meio de formas
sádica, caluniadora e ridicularizadora das pessoas. (MARCONDES FILHO, 1986,
citado por ANGRIMANI, 1995, p. 15) De acordo com Vieira Barbosa (2005), o
sensacionalismo tem raiz na imagem, pois quando mais escabrosa for uma cena, mais
atrativa ela será. E há todo um exagero na construção das imagens e, se for o caso, nos
cenários gráficos. Para Casali et al. (2008, p. 1): “A atenção do telespectador brasileiro
tem sido mantida muito mais por shows de luzes, sons, cores, choros e súplicas do que
pela relevância do conteúdo narrado na televisão”. Outra característica da narrativa
sensacionalista é a “onisciência” (PEDROSO, 1994, p. 45). Ao anunciar uma
determinada manchete, a televisão, por meio de um apresentador, dá a entender que
conhece todos os aspectos do fato a ser relatado e se arvora em senhora máxima dos
eventos, detendo o poder de realçar, diminuir, exagerar etc. (de acordo com as
características supracitadas) os acontecimentos conforme lhe apetece. Como se fosse
dona absoluta da realidade. E pouco importa se, realmente, os fatos são “espetaculares”,
o que interessa é a versão fabricada que se fez dos acontecimentos da vida para captar a
atenção dos telespectadores. “O jornalismo sensacionalista extrai do fato, da notícia, a
sua carga emotiva e apelativa e a enaltece. Fabrica uma nova notícia que a partir daí
passa a se vender por si mesma.” (MARCONDES FILHO, 1986, citado por
ANGRIMANI 1995, p. 15) “Sensacionalismo é tornar sensacional um fato jornalístico
que, em outras circunstâncias editoriais, não mereceria esse tratamento. Como o
adjetivo indica, trata-se de sensacionalizar aquilo que não é”. (ANGRIMANI, 1995, p.
16). Ou seja, cuida-se de uma farsa completa. As notícias, por meio da televisão,
tornaram-se um engodo. Outro absurdo é fazer as “manchetes” mais importantes que o
conteúdo, característica esta generalizada em praticamente todos os programas
televisivos.
1.7.3 - TELEVISÃO E O SILOGISMO
A televisão tem uma estrutura antissilogística. O silogismo, que é a forma de pensar
humana, compreende a premissa maior, a premissa menor e a conclusão. Um exemplo
clássico: todo homem é mortal, Sócrates é homem, logo Sócrates é mortal. Há nesta
estrutura um encadeamento lógico, na qual a conclusão se depreende das premissas.
Como as características do conteúdo televisivo englobam a fragmentação, a repetição, a
superficialidade etc, dos temas abordados, cuida-se do oposto do fundamento do
silogismo. A televisão tem conteúdo circular, próprio dos sofismas. Sfez (1994, p.13)
criou o neologismo “Tautismo”, que explica bem a natureza ilógica da televisão:
neologismo formado pela contração da palavra ‘tautologia’ (o ‘repito, logo provo’ tão
atuante na mídia) e o ‘autismo’ (o sistema de comunicação torna-me surdo-mudo,
isolado dos outros, quase autista) (...) O tautismo é, pois, aquilo pelo qual uma nova
realidade chega a nós, sem distância entre o sujeito e o objeto. Mas é também uma grade
que permite interrogar campos, aparentemente heteróclitos, mas atingidos pela mesma
doença tautística. Interrogando esses campos, ele revela o seu jogo de espelhos e pouco
a pouco os unifica. Ora, é justamente aí que a origem epistêmica esfuma-se e o tautismo
torna-se a forma simbólica da comunicação. Seu poder desdobra-se nas práticas e,
retomando esses elementos constitutivos (tecnologia como imperativo e tecnologias do
espírito), confere-lhes um segundo vigor. Passando por esses canais, o tautismo
desempenha seu papel em várias frentes ao mesmo tempo: produção, distribuição,
formação permanente, educação, gadgets culturais, publicidade, relações públicas,
relações na empresa, marketing, televisão, rádio etc., chegando a influenciar a própria
imprensa escrita, a produção cinematográfica e a produção dos editores de romances e
de ensaios. Na televisão são utilizadas várias falácias, como, por exemplo,
do Argumentum ad novitatem (apelo à novidade, as coisas são boas porque são novas),
do apelo à multidão, do apelo à emoção, etc. Algumas das formas mais fortes de
“argumento”, na televisão, são: a estatística, o número, a quantidade e o “opinionismo”
Isto leva o telespectador a pensar sempre em termos quantitativos e não em termos
qualitativos. Mander (1978, p. 327): na televisão, a quantidade é mais fácil que
qualidade. O maior será sempre o melhor. Nesta linha: o melhor cantor seria
o maisouvido, um determinado carro por ter sido o mais vendido, seria o melhor etc.
Exagera-se a importância das pesquisas de opinião, nas quais se infere o que o maior
número de pessoas “acha” de determinado assunto e isto será a verdade definitiva. Ora,
a verdade independe da estatística, da opinião etc. ela se impõe por si mesma e a razão
do homem é capaz de compreendê-la. O homem moderno perdeu a capacidade de
raciocinar e a televisão contribuiu com isto.
1.7.4 - A TELEVISÃO E O TRIVIUM
O trivium[30] é formado pelas artes liberais da gramática, da lógica e da retórica. Por
meio dele, estudam-se a natureza e a função da linguagem. Segundo Hugo de São Vítor,
no Didascálicon[31]: “A gramática é a ciência de falar sem erro. A dialética (ou lógica)
é a disputa aguda que distingue o verdadeiro do falso. A retórica é a disciplina para
persuadir sobre tudo o que for conveniente.” Ou seja, a gramática nos dá a regra no
falar, a lógica nos dá o raciocínio e a retórica, a eficácia, a elegância no falar. A longa
decadência intelectual que o mundo conhece, que já dura séculos, é proporcional à
eversão do ensino do trivium. A linguagem televisiva é opoente per
diametrum do trivium. Ela não é cultora da gramática, além do que foi dito no tópico
dos “jingles” acrescentamos Houaiss (1990, p.22): A primeira condição para escrever é
ter lido muito. E continuar a ler para descobrir as virtudes que se pode tirar dos outros e
incorporar a si próprio. A verdade é que a grande maioria dos repórteres com quem se
vai dialogar são de uma pobreza vocabular espantosa. Nos cursos de Comunicação, eles
ouviram muito mais do que leram. Um curso sério é muito mais um direcionamento de
leitura do que um débito para com a palavra oral.[32] A definição de lógica para S.
Tomás é: “arte diretiva dos atos próprios da razão para que o homem alcance a ciência,
de maneira ordenada, facilmente e sem erro”[33] Confrontando esta definição com a
televisão, podemos dizer que não há lógica na televisão, pois ela é um instrumento per
si ilógico. A estruturação, na forma de colagem, da imagem, do som e do texto, como já
foi desenvolvido nos tópicos anteriores demonstra que a natureza da televisão passa ao
largo da lógica. A retórica é formada pelo logos, pelo pathos e pelo ethos. O primeiro
requer que o emissor prove a veracidade do que é dito. O segundo requer que o emissor
ponha os ouvintes numa disposição favorável ao seu propósito. O terceiro requer que o
emissor inspire boa reputação, bom caráter e moral.[34]Vemos que a televisão não
respeita essa estrutura, já que o logos é falseado na televisão, quando ela subverte a
realidade, levando à confusão do factual com a ficção. Em relação ao pathos, a televisão
exagera na emoção e apela ao sensacionalismo. Em relação ao ethos, a televisão usa
ardis, como a mensagem subliminar, para provar seu discurso, não há lealdade. Outra
coisa que fere a retórica é que a televisão usa sempre uma linguagem familiar,
nivelando as pessoas. O correto é tratar as pessoas de modo desigual, em razão de cargo,
idade, etc., assim deve-se tratar um pai diferente de um amigo. Na televisão são todos
“amigos” e o pronome usado é sempre “você”, provocando uma perversão na dignidade
dos tratamentos.
1.8 - TEORIA DA COMUNICAÇÃO, A TELEVISÃO E O MEIO

1.8.1 - TEORIA DA COMUNICAÇÃO.


Na teoria da comunicação, alguns elementos são fundamentais: a) Emissor: quem
emite a mensagem. Pode ser uma pessoa, um grupo, uma empresa, uma instituição etc.
b) Receptor: a quem se destina a mensagem. Pode ser uma pessoa, um grupo etc. c)
Código: é o modo pela qual a mensagem é feita. Ele é formado por um conjunto de
sinais, organizados de acordo com determinadas regras. Pode ser a língua, oral ou
escrita, gestos, código Morse, sons etc. d) Canal: é o meio no qual a mensagem circula.
Pode ser a voz, o papel etc. e) Mensagem: é o objeto da comunicação, é constituída pelo
conteúdo das informações transmitidas. f) Referente: o contexto, a situação à qual a
mensagem se refere.
1.8.2 - TELEVISÃO, A COMUNICAÇÃO, O MEIO E O FIM
A televisão implodiu as relações saudáveis entre os elementos da comunicação. A
mensagem, que é o objeto de toda a comunicação, se perde. O objeto da televisão, em
vez de ser algo que se comunica, torna-se ela mesma. “A televisão fala menos do
mundo exterior e mais de si mesma, num processo de auto referencialidade. Sobrevive
dizendo ao telespectador “eu estou aqui, eu sou eu e eu sou você” (Eco, citado por
Sodré, 2006, p.20) Sodré (2001, p.21) reforça que a televisão subverteu a lógica
narrativa: O essencial dela (TV) é o código, a sua própria forma, essa aderência
sensorial a que ela convida as pessoas. Ora, sendo por tanto prioritariamente forma,
sendo sensorialidade, sendo estética, os conteúdos são minimizados, como que
exterminados, são liquidados pela pregnância desse envelope, desse invólucro que é a
televisão. Habermas, citado por Inês Sampaio (2004, p. 51-52): O comportamento do
público, sob coação do “don’t talk back”, assume uma outra configuração. Os
programas que as novas mídias emitem, se comparadas com comunicações impressas,
cortam de um modo peculiar as reações do receptor. Eles cativam o público, enquanto
ouvinte e espectador, mas, ao mesmo tempo, tiram-lhe a distância da emancipação, ou
seja, a chance de poder dizer e contradizer O discurso da televisão tem formato de um
diálogo, mas sem dar a possibilidade ao telespectador de falar, ou seja, é uma
contradição. Ela propõe uma conversa na qual só ela pode falar. Não deixa de ser um
controle: “a forma de poder exercido pela tevê decorre de sua absoluta abstração com
respeito à situação concreta e real da comunicação humana. Nesta abstração baseia-se o
controle social do diálogo” (SODRÉ, 1977, p.22, citado por CALDAS, 2008, p.30). A
televisão pode ser apresentada como uma incomunicação, termo já usado por alguns
estudiosos. Baudrillard, citado por Moreira (1979) afirma que: o que caracteriza os
meios de comunicação de massa, é que são antimediadores, intransitivos, que
fabricam a não comunicação, se aceita definir comunicação como um intercâmbio,
como o espaço recíproco de uma palavra e de uma resposta, portanto de uma
responsabilidade, e não uma responsabilidade psicológica ou moral, mas uma correlação
pessoal entre um e outro no intercâmbio. O que acontece na esfera dos media, é que se
fala de tal maneira que nunca se pode responder [grifo nosso]. Outros autores que usam
a expressão “incomunicação” são Baitello Júnior et. Al. (Os Meios da Incomunicação,
2005) e Fausto Neto (1976) E para Marcondes Filho (2004), citado por Ferreira (2010,
p.6): “a sociedade da comunicação é uma sociedade em que a comunicação real vai
ficando cada vez mais rara, remota, difícil e vive-se na ilusão da comunicação, na
encenação de uma comunicação que, de fato, jamais se realiza em sua plenitude.” O
meio e o conteúdo, em razão da natureza física da televisão, estão mais ligados, do que
poderia parecer à primeira vista. Uma certa programação foi construída para a televisão
e vice-versa. Toda ação humana é dividida em finalidade, meios e execução.[35] O
primeiro, em importância, é a finalidade: compreende-se, por exemplo, que se deva
escrever um texto. Segue-se a análise sobre qual meio seria melhor, se é a máquina de
escrever ou um editor de texto no computador: opta-se pela segunda opção, por
exemplo. E finalmente se executa a ação. A televisão viola a relação da finalidade com
o meio. Normalmente, as pessoas dizem que vão assistir à televisão e não a um
programa específico. Há uma confusão entre “meio e fim”. Marshall McLuhan[36], um
dos autores mais citados pelos estudiosos de televisão e mídia em geral, cunhou uma
expressão que se tornou famosa. Segundo ele, na televisão: “o meio é a
mensagem”. Esta pequena frase diz muito sobre a televisão, porque ao invés dela ser um
canal pelo qual se teria acesso a determinado conteúdo, ela seria o próprio “produto
final”. As pessoas assistem à televisão e não a um programa na televisão. Segundo
Williams (2005) existe a impossibilidade de análise individual do produto, separado da
programação. Ele estaria intrinsecamente ligado à dinamização do canal, onde, por mais
fragmentada que seja a programação - que é eivada de publicidades, “chamadas”,
diversidade de gêneros etc. - faria parte de uma mesma unidade não acabada e com
limites pouco marcados dado o fluxo contínuo de imagens, sons e texto que nunca se
encerram. Desta forma, as pessoas gostam de assistir às novelas “em abstrato” e não a
uma “em concreto”. Pouco importa quais são os atores ou o tema, o que importa é que
seja uma novela. Ramalhete (2013) menciona a relação estabelecida por Marshall
McLuhan entre a televisão e o cubismo. Essa escola de arte moderna pretende, de modo
delirante, a apreensão “totalinstantânea” de alguma coisa. Assim, se há a pintura cubista
de uma pessoa, as costas estarão do lado de uma orelha que estará do lado do pé, por
exemplo. A televisão, ao apresentar as imagens e informações de modo desconexo,
ilógico e fragmentado, possui o mesmo mecanismo. Também em relação ao tempo, no
qual a televisão pretende o domínio completo, ao querer mostrar tudo quase que
instantaneamente, funcionaria essa comparação. Cubismo e televisão formam uma
combinação perfeita e horrível. Barbero, citado por Marcondes Filho (1988, p. 41), diz
que não tem sentido analisar a TV apenas a partir do texto, do conteúdo falado, do
enredo de seus programas. A fascinação vem da forma espetacular e não do que se
transmite oralmente. Como exemplo, temos os telejornais. Neles, as notícias são
apresentadas de modo rápido e em sequências sem liame nenhum. Assim, fala-se sobre
crise no Oriente Médio, depois, anuncia-se o aumento do preço do pão e finalmente,
noticiam-se os resultados de competições desportivas. Na realidade, tanto faz a notícia,
pouco se aprende, o que interessa é o meio, o assistir a um telejornal num determinado
canal, ouvir sua “música” - na realidade um conjunto de sons ilógicos - e ver o
apresentador preferido. O meio é a mensagem. O que vale é o “espetáculo da notícia” e
não a notícia em si mesma. Se o telespectador mudar de canal e assistir às mesmas
notícias em outro telejornal, não ficará satisfeito. Ele está ligado ilogicamente a um
determinado canal. Ver anexo 4.4 : Telejornal. É interessante observar, na linha da
confusão entre meio e finalidade, que muitos dispositivos eletrônicos modernos
seduzem de tal forma, que as pessoas realizam a compra deles não tendo em vista o que
se vai fazer com eles (finalidade), mas pelo aparelho em si mesmo (meio). Televisores
de “LCD” e “LED” e mais recentemente “3D” estão entre os mais sedutores. Quanto
mais funções tiverem, melhor será. Ainda que sejam inúteis para determinados usuários.
Abandona-se a economicidade e a ordenação à finalidade por completo.
1.9 - MENSAGEM SUBLIMINAR
Subliminar é qualquer estímulo abaixo do limiar da consciência que produz efeito na
atividade psíquica (CALAZANS 2006 ,p. 39). Ou seja, a pessoa não percebe ou não
sabe que viu ou ouviu uma determinada imagem, mas essa gera alguma consequência na
sua mente. A técnica subliminar é conhecida desde os anos 50 (CALAZANS, 2006)
quando foram feitas algumas pesquisas inaugurais e importantes. A televisão está
infestada deste tipo de técnica como, por exemplo, os anúncios não endereçados ao
consumo consciente. Eles são como pílulas subliminares para o subconsciente, cm o fito
de exercer um feitiço hipnótico (McLUHAN 1979, citado por CALAZANS, 2006)
Segundo Wilson Key (1993)[37], citado por Machado, Magron e Silva (2002) podem
ser seis as categorias das mensagens subliminares: a) inversão de figura / fundo: As
percepções visuais e auditivas podem ser divididas em figura e fundo.
Inconscientemente os homens distinguem a figura do fundo, e focalizam somente a
figura, enquanto o subconsciente assimila e guarda o fundo na memória. b) método de
embutir imagens: Os anúncios feitos com adição de imagens sobrepostas são
caríssimos, pois são muito trabalhosos e devem ser feitos de modo que as imagens não
fiquem explícitas. Eles aparecem como se um artista tivesse escondido engenhosamente
figuras obscenas ou consideradas tabus dentro de um anúncio. Essas propagandas são
feitas para serem vistas rapidamente, e não para serem estudadas pelos leitores. Quando
vemos uma imagem cheia de enxertos, na maioria das vezes não os percebemos
conscientemente, pois eles estão muito bem escondidos. Porém nosso inconsciente
capta essas imagens, e por mais rápido que viremos a folha, elas já ficaram gravadas na
memória. As imagens com enxertos são construídas colocando cuidadosamente
desenhos, pinturas ou fotos dentro de outra imagem, de modo que quando vemos essa
imagem não percebemos conscientemente esses enxertos. São pintadas várias coisas,
geralmente remetendo a assuntos tabus, como sexo, homossexualidade etc. c) duplo
sentido: O duplo sentido é uma técnica subliminar muito utilizada por ser dificilmente
detectado. Em algumas propagandas os publicitários escrevem uma frase, que associada
ao desenho, pode possuir diversos sentidos e interpretações. d) projeção taquicoscópica:
O taquicoscópio foi projetado pelo doutor Hal Becker, e patenteado em 1962. Esse
instrumento é um projetor de flashes usado em uma tela de cinema ou mesa de luz para
exibir imagens e palavras em alta velocidade. A velocidade é tão alta (1 segundo /
3000), que o que for projetado só é percebido pelo nosso inconsciente. e) luz de baixa
intensidade e som de baixo volume: Essa técnica da luz é utilizada para sombrear partes
de uma figura, de modo que ela passe a apresentar palavras ou frases escondidas. Com
um pouco de treino para a investigação perceptiva relaxada, qualquer pessoa pode
perceber conscientemente dúzias de palavras SEX enxertadas em algumas
ilustrações. A técnica do som em baixo volume é utilizada em algumas lojas para evitar
roubos. Ao mesmo tempo em que tocam músicas, mensagens são emitidas em baixo
volume, com frases dizendo: “Não roubo”, “Eu sou honesto”, “Não sou ladrão”. Essas
frases são percebidas inconscientemente, e influenciam o comportamento das pessoas,
que acabam não furtando nenhum objeto ou mercadoria. Hal Becker, patenteador do
taquicoscópio de alta velocidade, também fabrica e vende processadores que inserem
mensagens subliminares em trilhas sonoras. Ele explica que os sinais audíveis e
subliminares são mixados, e que o estímulo subliminar aproxima-se tanto das mudanças
de volume na música audível que seria impossível provar que a mensagem contém
informação subliminar f) luz e som de fundo: A luz e o som de fundo são amplamente
utilizados nas produções de filmes. Se bem elaborados e aplicados, criam efeitos de
emoção em quem assiste as cenas. Um som de rua, por exemplo, para ser aplicado num
filme deve ser todo montado. São usadas gravações de barulhos de carros, crianças,
pássaros, apitos, sirenes, todas mixadas. O resultado final é uma ilusão precisa da
realidade. Se for bem construída, esta ilusão é mais satisfatória emocionalmente do que
o seria a realidade de fato, mas ela permanece subliminar. Numa cena as músicas são
acrescentadas para dar um fundo dramático, criar suspense ou expectativa. Os silêncios
também fazem parte do som inserido. Sons e silêncios são alternados, de modo a criar
efeitos diferentes nos expectadores. Às vezes, a cena nem é tão forte, mas devido à
música triste, melancólica, desperta lágrimas nos espectadores. Ainda para Key, os
efeitos do estímulo subliminar são sentidos nos seres humanos, no mínimo em dez
áreas: Sonhos, Memória, Percepção consciente, Reação emocional, Comportamento
intuitivo, Limites de percepção, Comportamento verbal, Níveis de adaptação ou
valores de julgamento, Comportamento aquisitivo, Psicopatologia. A conclusão do
autor é de que: Os seres humanos podem ser programados por aqueles que controlam a
mídia para terem determinadas perspectivas culturais (ou conceitos) ou trabalharem com
determinados grupos de percepção. O comportamento do grupo é mensurável e
previsível em termos de probabilidades estatísticas..[38]
1.10 - REALIDADE E TELEVISÃO

1.10.1 COR, “CLOSE”, VELOCIDADE, FRAGMENTAÇÃO E FLUXO.


A imagem da TV analógica é extremamente grosseira; no sistema NTSC (e que vale
para o PAL-M do Brasil) cada linha exibe cerca de 640 pontos, havendo 480 linhas
efetivas. A imagem digital é melhor e chega a ser 1080X1920 linhas. Mesmo assim, são
imagens muito pobres. As cores não são fidedignas. Todas elas são formadas por apenas
três cores básicas. De acordo com o Wikipédia[39]: RGB é a abreviatura do sistema
de cores aditivas formado por Vermelho (Red), Verde (Green) e Azul (Blue). O
propósito principal do sistema RGB é a reprodução de cores em dispositivos eletrônicos
como monitores de TV e computador, "datashows", scanners e câmeras digitais, assim
como na fotografia tradicional. Como as imagens formadas não são boas, surge a
necessidade de fazer sempre “close” nos personagens e/ou focar em exagero o que se
quer mostrar. Isto é absolutamente artificial e cria uma “intimidade” que inexiste com
atores, personagens, apresentadores, etc. Para Eco (1979, 343): a presença agressiva de
rostos que nos falam em primeiro plano, em nossa casa, cria a ilusão de uma relação de
cordialidade, que, com efeito, não existe”. E na natureza não é assim, nem sempre
vemos as coisas de maneira próxima. . Duarte (2002, p.4) comenta: Um outro aspecto
decorrente das tecnologias empregadas nesse processo comunicativo advém do fato de
os aparelhos televisivos funcionarem com baixa resolução; em razão disso a televisão
vê-se impelida a optar por uma forma de captação de imagens que evite a profundidade
de campo, visto que, com essa técnica, elas perderiam a nitidez, o que a obriga a operar
preferencialmente com enquadramentos em planos médios ou fechados Como muito
bem notou Setzer (2009): “É interessante notar que, se um telespectador aproxima-se da
tela, ele não vê a imagem mais nítida, pois começa a ver os pontos. Isso contraria a
experiência que temos com a visão de objetos no mundo real.” As mudanças que vemos
na natureza não são abruptas, mesmo quando há velocidade envolvida. Por exemplo,
quando observamos um pássaro voando: a ave voa tendo como fundo uma paisagem
quase fixa que muda aos poucos. Na televisão tudo muda rápido: quer uma paisagem de
fundo quer um pássaro voando. Ela impõe uma velocidade que não existe no mundo
real. Não vemos fragmentação na natureza, uma árvore viva se apresenta inteira e não
aos pedaços. Tampouco temos um fluxo constante, pois se pode repousar a vista numa
paisagem, por exemplo.
1.10.2 - IRREALIDADE DOS CENÁRIOS TELEVISIVOS
Os cenários[40] que fazem parte de vários programas televisivos[41] são irreais, não
guardam relação de analogia com o mundo natural nem com os ambientes que nos
cercam, sejam internos: salas, quartos, cozinhas etc., sejam externos: ruas, fachadas de
casas, exterior de edifícios etc. Um cenário de uma peça de teatro comum, por exemplo,
se procura reproduzir a natureza, as casas, as ruas, os interiores de moradias, os móveis
etc. Na televisão, pelo contrário, evolui-se de um cenário mais parecido com o teatro
para um cenário virtual, sem liame com a realidade. Neste sentido, mostram Adam et al.
(2003, p. 157): “Em todos os cenários analisados, obervamos que a grande maioria das
figuras é abstrata e estilizada, não havendo um compromisso com a representação da
realidade” E Leopoldseder, citado por Cardoso, (2002, p.37) observa: “Nós não
tratamos com elementos de uma realidade atual, mas com uma nova realidade
sinteticamente gerada” A construção destes cenários virtuais conta com o uso de
técnicas computadorizadas e visam somente aparecer na televisão: “este cenário não se
encontra instalado em nenhum palco ou estúdio, ocupa tão somente o espaço na tela da
televisão” (CARDOSO, 2002, p.34. Os materiais usados são distintos dos usuais e
comuns: “não é construído em madeira, ferro, tecido ou qualquer outro material de
nosso mundo físico” (CARDOSO 2002, p.34) Trata-se de elementos voltados para a
irrealidade: “Podemos observar que os programas que se encontram hoje no ar trazem
cenários futuristas com superfícies lisas, metalizadas, extremamente
limpas”(CARDOSO, 2002, p. 35) O telespectador frente a eles é iludido: “Ao observar
um homem em um espaço virtual, o telespectador, neste momento, está sendo induzido
a uma espécie de ilusão”. (CARDOSO, 2002, p. 37)
1.10.3 - DETURPAÇÃO DO REAL E A CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA
REALIDADE
A televisão mostra imagens da realidade e não a realidade. É muito importante levar
isso em conta: quando a televisão reproduz uma cena, um acontecimento da vida, isto é
uma imagem, não é a cena. Assim por exemplo, se alguém diz que viu um
“atropelamento na TV”, não viu realmente. O que se viu foi uma representação ou uma
imagem deste atropelamento. O único modo de alguém ter visto esta cena seria
mediante a presença física próxima do acontecimento. Tanto é verdade que, quando se
vê atores nas ruas, eles parecem diferentes de quando “estão” na televisão.
Normalmente, na vida real, eles são mais baixos, velhos e mais “feios” que nos vídeos.
A televisão sempre “embeleza” os atores com excessos de maquiagem e ângulos
favoráveis, criando uma aparência artificial. Ainda que a televisão tenha mostrado com
nitidez, isto não deixa de ser uma representação ou imagem do ocorrido. Não existe
identidade, pode existir, no máximo, semelhança. Ora, não é porque a televisão
apresenta uma imagem familiar imediatamente reconhecível da realidade que se pode
considerar como equivalentes a imagem que ela propõe e a realidade (Toussaint, 1999,
p.11) E a representação oferecida pela televisão será sempre distorcida porque ela
mostrará a cena com o filtro das características da reprodução televisiva, em razão da
imagem, do som e da narrativa já comprometidas. Para Arbex (2001): “A televisão (...)
não é mera “observadora” ou “repórter”: tem o poder de interferir nos acontecimentos.”
O que a televisão mostra, na realidade, é um simulacro da realidade. Mesmo nos
programas ditos factuais. Há dois efeitos desta representação da realidade: a) distorção
do real. b) construção de uma nova realidade. Isto leva o telespectador a uma confusão
entre o real e a imagem do real. Faz tomar o mapa pelo território. Ou ainda, faz dar mais
valor à representação que o representado, neste sentido último, conforme Novaes (1999,
p. 9) e Fragoso (2000, p.6) E Sfez (1994, p. 13) nota que ele “passa a tomar a realidade
representada como realidade diretamente expressa, confusão primordial e fonte de todo
delírio.” Muitos estudiosos, com as particularidades de suas análises afirmam a mesma
coisa. Moniz afirma: a televisão cria um ambiente simulativo. Ela cria uma outra
realidade e amplia sua própria realidade, onde o indivíduo imerge. Então não é apenas
a questão do efeito de conteúdo que está em jogo. O que está em jogo ali é uma
administração do tempo do sujeito, administração das consciências, a criação de uma
vida vicária, substitutiva.[grifo nosso]. A televisão cria um novo espaço e tempo para
Bucci e Kehl (2004, p.31) : A televisão não mostra lugares, não trás lugares de longe
para muito perto- a televisão é um lugar em si. Do mesmo modo, ela não supera os
abismos de tempo entre os continentes com suas transmissões na velocidade da luz: ela
encerra um outro tempo. Setzer (2009) sustenta: Uma palavra sobre a irrealidade da
imagem e da fala da TV. Esta, como o cinema, permite que se transmitam imagens e
falas mudando em curtos períodos tanto o espaço como o tempo. Em outras palavras, se
uma cena de curta duração transmite algo relativo a uma certa localidade e um certo
tempo, a próxima cena pode transmitir algo que se passa em outra localidade totalmente
diversa, e no passado ou no futuro em relação à cena anterior. Compare-se com o teatro:
nele, cada cena dura um tempo relativamente longo, e se passa na velocidade humana
normal. Dessa maneira, o espectador de uma peça de teatro pode, em cada cena,
identificar-se com ela, acompanhar o que está ocorrendo, colocar-se na pele de cada
personagem. Em outras palavras, o telespectador é colocado numa situação
totalmente irreal – o que é também o caso do cinema. Talvez por isso seja muito
comum sair-se de uma sala cinematográfica e levar-se alguns momentos para se 'baixar
novamente à Terra', isto é, passar-se a vivenciar o mundo real tal qual ele é. Quem sabe
por isso o cinema e, hoje, a TV, quando transmitem filmes ou novelas, sejam
considerados 'fábricas de sonhos'. Realmente, o espectador é colocado mentalmente
num mundo que não é o real e pode observar toda sorte de situações que conflitam
com as 'leis' da natureza. No entanto, no sonho as imagens são criadas pelo próprio
sujeito. [grifos nossos]. Mander (1978, p.51), no seu primeiro argumento contra a
televisão, diz: Ao passarmos a viver em ambientes completamente artificiais, rompeu-se
o nosso contacto direto com o planeta, alterando-se o nosso conhecimento do mesmo.
Desligados, como astronautas flutuando no espaço, não podemos agora distinguir o alto
do baixo ou a verdade da ficção. Estas condições favorecem a implantação de
realidades arbitrárias. televisão é neste contexto um exemplo recente, um exemplo
grave, uma vez que acelera grandemente o problema.[tradução nossa] Barbero, citado
por Marcondes Filho (1988, p. 37): “A notícia tornou-se mais verdadeira que a própria
verdade, a imagem, mais real do que a realidade” “O telejornalismo cria, portanto, uma
outra natureza, uma segunda natureza, que impõe a milhões de lares no país, como se
fosse essa a verdade e não aquela do mundo real”.(MARCONDES FILHO, 1988, p. 56)
Fuerbach, embora tenha vivido no século XIX, tem palavras podem ser aplicadas hoje
em dia: Nosso tempo, sem dúvida, prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a
representação à realidade, a aparência ao ser. O que é sagrado não passa de ilusão, pois
a verdade está no profano. Ou seja, à medida que decresce a verdade a ilusão aumenta, e
o sagrado cresce a seus olhos de forma que o cúmulo da ilusão é também o cúmulo do
sagrado. (Essência do Cristianismo, 1842) Para Ferreira, citado por Marcondes Filho
(2009, p. 343): Filosoficamente, temos aqui um momento importante que marcará o
paradigma pós-moderno: a imagem não representa mais o real, mas o supera. A
codificação da imagem por signos é substituída pelos simulacros. Enquanto nos antigos
regimes de produção as imagens procuram captar ou representar o real, na TV temos
simulacros que simulam a presença do real por meio da saturação, exagero, estilização e
síntese. Por assim dizer a imagem televisiva vai além do real, tornando-se tão fascinante
que o real não mais é tomado por si, mas a partir de simulações feitas anteriormente
dele. Segundo Schmidt, citado por Marcondes Filho (1988, p. 30), analisando o uso
social da televisão como meio de informação e de documentação, afirma que ela se
transformou na, sociedade contemporânea, numa espécie de corporificação do próprio
princípio da realidade. Para Fragoso (2000, p.5): No caso da televisão, o aparente
realismo das imagens em movimento produzidas com câmera se associa à possibilidade
de transmissão ao vivo, produzindo uma ilusão ainda mais intensa de que o mundo
esteja sendo representado 'como realmente é'. E para Eco (1979, p. 335): Singular
situação de quem se apresta para um contato com o real bruto, e assimila ao contrário,
um real humanizado, filtrado e feito argumento. (...) Fácil veículo de fáceis sugestões, a
TV é também encarada como estímulo de uma falsa participação, de um falso sentido
do imediato, de um falso sentido de dramaticidade. Todas estas análises demonstram
que a televisão pretende perverter a realidade.
1.10.4 - INTERMEDIAÇÃO DA EXPERIÊNCIA
Dentro da lógica de deturpação da realidade, a televisão também media ou substitui as
experiências. Assim, por exemplo, em um programa de viagens que mostra o
apresentador em Veneza, o telespectador, por causa da turvação da realidade que a
televisão produz, acha que “conheceu” Veneza, que “percorreu” os canais, que já teve a
“experiência” da visita, ainda que virtual. Ora isto não é verdade: Primeiro porque,
como já foi dito, que o que foi visto é uma imagem ou representação e não o fato em si.
Segundo porque a televisão é incapaz de explorar os sentidos do tato e do olfato. Desta
forma, não se sentiu o clima do local, tampouco, perceberam-se os aromas. Para
Marcondes Filho (1988, P. 30): O telespectador torna-se casa vez mais consumidor de
experiências estranhas e de comunicação, as quais aparecem como integrantes
complexas – pois interessantes – do seu horizonte perceptivo (Williams, 1986). Ele se
torna consumidor de ambientes, os quais ele não poderia experimentar de outro modo
diferente da comunicação. E ainda, Reyher, citado por Marcondes Filho (1988, p. 42),
diz que “vivem-se as emoções dos outros, vê-se ar puro em vez de respirá-lo, imaginam-
se gostos, em vez de experimentá-los”. A televisão, ao intermediar as experiências,
altera as noções tradicionais: Intromissão de eventos distantes na consciência cotidiana,
num processo mediante o qual são alteradas as noções tradicionais de familiaridade e
experiência, que são redimensionadas pelo acesso dos agentes a elementos referenciais
presentes nesse plano global de comunicação (INÊS SAMPAIO, 2004, p.38) Outro
exemplo disso são os desenhos animados. Em muitos desenhos animados são mostrados
animais que conversam, espaçonaves em planetas longínquos. Ora, tudo isto não existe.
Imagine-se a confusão na cabeça de uma criança. As brincadeiras normais das crianças
envolvem elementos da realidade: carros, cavalos, aviões etc. A criança usa os
brinquedos e completa a realidade com sua imaginação, assim ela brinca com um carro
e o faz pular vários metros. Há uma harmonia saudável entre a realidade e a imaginação.
Na televisão, a criança só terá o irreal, o delirante. Sem falar que a linguagem e o tema
encontrados nos desenhos são sempre pobres, quando não totalmente impróprios. E
depois os bordões comuns (e ridículos) dos desenhos povoarão a mente das crianças,
podendo fazê-las repetir sem parar as mesmas frases. Ver o anexo 4.2: Desenhos
animados.
1.10.5 DETURPAÇÃO EM CONCRETO
Nos tópicos anteriores, vimos que a construção de uma nova realidade faz parte da
natureza da televisão e se opera em abstrato para todos os programas, independendo da
vontade da maioria dos operadores da televisão, ela é “automática”. Neste tópico,
explora-se, na televisão, a deturpação da realidade mediante ação deliberada para nublar
a veracidade dos fatos, servindo a propósitos específicos, para situações concretas.
Niceto Blázquez[42] (1999, p. 501-5), citado por Frazão (2007, p.7) detalhou alguns
padrões utilizados pela grande imprensa – especialmente a televisão – para alterar,
omitir ou rejeitar a veracidade dos fatos, os quais seguem resumidos abaixo: • Via da
citação: onde a notícia é passada omitindo detalhes nos quais poderia ser percebida a
notícia como um todo e não cortada; • Via da reconstrução: na qual a notícia é
construída novamente pelo profissional que a manuseia, da forma como este deseja
informar os fatos ou como a empresa jornalística em questão assim preferir; • Via do
comentário: a opinião do jornalista (apresentador, comentarista, articulista) é levada em
consideração, sobre o fato exposto; • Via da ocultação: na qual um fato de grande
relevância é exposto apenas com uma versão dos fatos; • Via de mudança: a qual discute
que o silêncio e a mudança têm seus efeitos comparados á censura; • Via do silêncio:
também chamada “desertização audiovisual” ocorre quando o silêncio, ou seja, a
omissão dos fatos se dá intencionalmente, seja por interesses ideológicos, funcionais,
dogmáticos ou políticos. Para Arbex (2001, p. 103): A mídia cria diariamente a sua
própria narrativa e a apresenta aos telespectadores (...) como se essa narrativa fosse a
própria história do mundo. Os telespectadores, embalados pelo “estado hipnótico”
diante da tela de televisão, acreditam que aquilo que veem é o mundo em estado
“natural”, é “o” próprio mundo. Mas até mesmo a deturpação da imagem, por seu turno,
pode ser feita facilmente, pois as câmaras permitem uma adulteração completa por meio
de ângulos e “closes”. Assim, por exemplo, uma manifestação que se queira mostrar
como “poderosa”, deve ter muita gente. Ora, se na realidade não houve muitas pessoas
presentes, a televisão pode fazer um “close” e/ou aproximação de forma a não se
perceber espaços vazios.

[1] IBGE, disponível em


<http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/imprensa/ppts/00000010135709212
012572220530659.pdf>. Acesso: 30 ago 2013.

[2] TELEVISÃO. In: WIKIPEDIA. Disponível em: <pt.wikipedia.org/wiki/Televisão>.


Acesso em: 20 set. 2013.

[3] Basta consultar as “grades de programação” de emissoras na internet. Em muitas


delas se contam mais de 24 “atrações” por dia.

[4] “Hoineff resgata a pesquisa publicada em setembro de 1988 pela revista Channels,
de Nova York. De acordo com ela, 48,5% dos telespectadores (portadores de controle
remoto) mudam de canal durante um programa, embora 48% achem menos agradável
assistir à TV dessa forma. Outros 14,3% entendem que é divertido mudar
constantemente de canal. Mais alguns dados referentes à pesquisa: entre os
telespectadores que adotam a postura de mudar de canal durante um programa, 29,4%
justificam essa atitude dizendo que o programa estava aborrecido. Outros 28,4%
afirmam mudar de canal para “ter certeza de que não estão perdendo um programa
melhor”2. Já 22,7% mudam de canal para evitar os comerciais. Dados mais atuais
reforçam essa tendência dos telespectadores. Segundo pesquisa feita pelo Ibope Mídia,
de 1993 a 2001, o número de casas com TV com controle remoto aumentou de 30%
para 88%. Já um levantamento feito pela MTV mostra que 73% do seu público muda de
canal até durante o programa favorito”. (Revista Comunicação & Educação • Ano XI •
Número 1 • jan/abr 2006 -Roseane Andrelo). Disponível
em www.revistas.usp.br/comueduc/article/download. Acesso em 5 set. 2013.

[5] LIMA,Thaís Pinheiro. Correlação entre o hábito de assistir televisão e o risco de


desenvolver diabetes. 2011. Disponível em:
< http://cientifico.cardiol.br/cardiosource2/diabetes/int_artigo13.asp?cod=325> Acesso
em: 2 set. 2013

[6] DUARTE, Elizabeth Bastos. Televisão: ensaios metodológicos. Porto Alegre:


Sulina, 2004.
[7] Basta consultar a “grade de programação” das emissoras.

[8] I, Q.78,a.3,Rep.

[9] TEXTO. In: WIKIPEDIA. Disponível em: <pt.wikipedia.org/wiki/Texto>. Acesso


em: 20 set. 2013.

[10] DUARTE, Elizabeth Bastos.

[11] Quando falamos sobre imagens, estamos nos referindo somente às que são relativas
à visão. Assim, estão excluídas imagens relativas ao gosto, aos sons etc.

[12] I. Q.35, a.1, Rep.

[13] Carta a Sereno, IX, 105.

[14] É melhor se ater antes aos conceitos do que as palavras que os definem, pois pode
haver diferença na nomenclatura usada pelos autores. Esta classificação foi baseada,
com algumas adaptações, em Leange Severo Alves, 1983, p.379. Disponível em
<http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/seminasoc/article/view/7371/6516>. Acesso
em 2 set. 2013.

[15] Vigilanti Cura. Disponível


em: http://www.vatican.va/holy_father/pius_xi/encyclicals/documents/hf_p-
xi_enc_29061936_vigilanti-cura_po.html

[16] PEREIRA, Wagner. O Poder das Imagens: Cinema e Propaganda Política nos
Governos de de Hitler e Roosevelt(1933 - 1945). 2005. O autor escreveu um livro sobre
este tema e uma pequena resenha sobre ele está disponível
em: http://anpuh.org/anais/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S23.1602.pdf

[17] Segundo S. Tomás.

[18] http://www.intercom.org.br

[19] SAMPAIO, Rafael. Propaganda de A a Z: como usar a propaganda para


construir marcas e empresas de sucesso. 3ª ed. Rio de Janeiro: Campus, 2003.

[20] SACKS, Oliver. Alucinações musicais: relatos sobre a música e o cérebro.


(MOTTA, Laura Texeira, tradução). São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

[21] FIGUEIREDO, Celso. Redação publicitária: sedução pela palavra. São Paulo:
Pioneira Thomson Learning, 2005

[22] Para saber mais, além de Labouche (2002), ver: <http://www.montfort.org.br/o-


rock-pode-ser-usado-para-a-evangelizacao/> e
<http://www.montfort.org.br/old/index.php?artigo=rock&lang=bra&secao=cadernos&s
ubsecao=arte>
[23] VIDEOCLIPE. In: WIKIPEDIA. Disponível em:
<pt.wikipedia.org/wiki/Videoclipe>. Acesso em: 20 set. 2013.

[24] Foge ao objetivo deste trabalho esmiuçar todas as características da narrativa e sua
relação com o “discurso”, por isso nosso estudo é resumido. O esquema foi feito com
base no livro O Trivium de Irmã Miriam Joseph, p. 265, São Paulo: Realizações Editora.
2011. É fundamentado em Aristóteles.

[25] RICOEUR, Paul Tempo e Narrativa. Vol. I, II e III Campinas: Papirus, 1994-1995.

[26] BARBERO, Jesus-Martin e REY, German. Os exercícios do ver. Hegemonia


audiovisual e ficção televisiva. São Paulo: Editora SENAC, 2001.

[27] KAPLAN, E. Ann escreveu um livro sobre o tema: Rocking around the clock:
Music Television, postmodernism and Consumer Culture. London: Methuen, 1987. E
também organizou outro livro que inclui a mesma temática: O mal-estar no pós-
modernismo – teorias, práticas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1993.

[28] Segundo Aristóteles, p. 264 do livro O trivium.

[29] Marcondes Filho, O capital da Notícia, 1986

[30] Junto com o quadrivium (aritmética, astronomia, geometria e música) formavam as


antigas “sete artes liberais”.

[31] P. 13 livro do trivium

[32] HOAISS, Antonio. Imprensa, junho de 1990.

[33] S. Tomás. I Post. Anal., lec.1, n.2-3.

[34] P. 261 livro trivium

[35] S. Tomás, I,q108,a6

[36] Interessante observar que este autor escreveu um livro sobre o trivium, mas não era
contra a televisão globalmente.

[37] Wilson Key é autor do livro A era da manipulação.1993. Scritta Editorial.

[38] Há várias provas do uso de mensagem subliminar na televisão. Foge ao escopo


deste trabalho relacioná-las. Mas, a título de exemplo, citamos o caso da empresa
Disney, que, em 1999 de forma discreta, reconheceu uma imagem subliminar em um de
seus desenhos. Um outro exemplo ocorreu em 1997, envolvendo crianças japonesas que
assistiam a determinado desenho animado, estilo “mangá”, no qual, em uma fase, foram
emitidas mais de 50 imagens muito coloridas (que seriam as mensagens subliminares)
em apenas 5 segundos, o que fez ocasionar um “curto circuito” no cérebro das crianças
gerando ataques epiléticos. Centenas delas tiveram de ser internadas.
[39] RGB. In: WIKIPEDIA. Disponível em: <pt.wikipedia.org/wiki/rgb>. Acesso em
21 set. 2013.

[40] A definição dada pelo Wikipedia é: “Um cenário, a cena em grego: skené, ou
a decoração em francês: décor 1 , é composto de elementos físicos e/ou virtuais que
definem o espaço cênico, bem como todos os objetos no seu interior, como
cores, texturas, estilos, mobiliário e pequenos objetos, todos com a finalidade de
caracterizar a personagem, e tendo como base os perfis psicológico e econômico
determinados na sinopse ou em um briefing”.

[41] Programas de auditório, “talk show”, telejornais etc.

[42] BLÁZQUEZ, Niceto. Ética e meios de comunicação. São Paulo: Paulinas, 1999

Um fast food envenenado para a alma –


Parte 2: A televisão e o homem – corpo e
alma

A televisão briga com a inteligência, amolece a vontade e enxerta paixões na sensibilidade. E

também o corpo sente os efeitos do uso constante da televisão. Leia também a primeira

parte deste estudo.

2.1 – TELEVISÃO, O CORPO E A SAÚDE

2.1.1 – TELEVISÃO E O CORPO

É interessante observar que a televisão “fala” ao corpo. O corpo de alguma forma sente os

efeitos do uso constante da televisão.

De acordo com Barbosa (2007, p. 4-5):

“É a lógica de fluxo que faz também com que todos os sentidos humanos sejam como que

aprisionados pela televisão. Como mostrou Derrick de Kerckhov (1997) – a partir de um

experimento realizado diante de emissões, no qual procurava exprimir o que gostava ou não

em imagens sucessivas que mudavam a cada 15 segundos, experiência gravada e que indicou
que todas as alterações foram percebidas no corpo do pesquisador submetido ao experimento

-, a televisão fala, em primeiro lugar, ao corpo e não à mente. Na sua avaliação, a tela

do vídeo impacta diretamente o sistema nervoso e as emoções dos telespectadores. Portanto,

para Kerckhov o regime de processamento da informação da televisão se realiza na tela.”

Sodré (2001, p.19) sustenta que: “A televisão não se dirige à mente das pessoas. Ela se dirige

ao corpo do indivíduo”.

“O que importa é esse espraiamento sensorial estético da mídia, espraiando a vida da gente,

fazendo que a gente habite, more dentro dessa prótese chamada médium” (Sodré 2001, p.21)

Mander, no seu terceiro argumento contra a televisão (1978, p.155):

“A tecnologia televisiva desencadeia respostas neurofisiológicas nos seus espectadores. Pode

criar doenças e decerto gera confusão e submissão a um mundo externo de imagens. Em

termos globais, os efeitos observados traduzem o condicionamento necessário ao controle

autocrático” (tradução nossa).

Setzer (2009, p. 3) com muita propriedade, descreve a interação do telespectador com o

aparelho televisor, por isso reproduziremos seu texto:

“Uma observação fenomenológica do telespectador revela o seguinte. Ele está fisicamente

estático (a menos de casos muito excepcionais, como programas de ginástica). O ambiente é

mantido em penumbra, isto é, com pouca luz. Dos seus órgãos de sentidos, apenas a visão e

a audição estão sendo incentivados, e de maneira extremamente parcial: a tela encontra-se

parada, portanto a distância é sempre a mesma, não exigindo acomodação de profundidade

(variação do cristalino e convergência dos eixos dos olhos). A luminosidade varia muito pouco,

de modo que a pupila também quase não muda de abertura.

Normalmente, os olhos não param de se mover, tateando o objeto sendo observado. A figura

acima foi copiada do livro de Patzlaf (2000, p. 18). Ela mostra, à direita, o movimento de um

olho de uma pessoa vendo a foto à esquerda durante alguns minutos; cada traço mostra um

movimento do olho. Note-se como a imagem é “tateada”, com maior frequência nos olhos, na

boca e na risca do cabelo, que realmente chama a atenção.


Em uma pessoa vendo TV os olhos praticamente ficam parados, como se a pessoa estivesse

em um estado de desatenção. No caso das telas grandes, esse efeito é diminuído, pois o olho

deve mover-se pelos vários trechos da tela. Aliás, essa é uma diferença fundamental da TV

para o cinema, pois nesse a tela grande exige que o olho, e até mesmo a cabeça, movimentem-

se, o que ajuda a diminuir o estado de sonolência descrito a seguir.

Como o telespectador está fisicamente estático, não faz ação física nenhuma. Antigamente,

era necessário levantar-se para mudar de canal; agora, com os controles remotos, nem mesmo

esse pequeno esforço é exigido. Não há também necessidade de se fazer um esforço mental

para prestar atenção. De fato, o pensamento consciente está praticamente abafado. Esse é

um ponto absolutamente crucial do efeito do aparelho de TV sobre o telespectador, e por isso

vou alongar-me sobre ele.

Estudos neurofisiológicos mostraram que, poucos minutos, à vezes somente ½ minuto, de

assistir TV já colocam normalmente as ondas cerebrais, como medidas por

eletroencefalograma, em um estado semelhante ao de sonolência (isto é, de desatenção) ou

semi-hipnótico (Krugman 1971, Emery e Emery 1976, Kubey e Csikszentmihalyi 1990).

Normalmente, no telespectador existe predominância de ondas teta, lentas, do EEG, de 4 a 7

Hz. Uma pessoa no escuro, ou com olhos fechados, apresenta a mesma predominância de

ondas lentas. Em estado de alerta, passam a predominar as ondas beta de 12 a 30 Hz. Essa

predominância das ondas lentas cerebrais indica estado de desatenção, de sonolência.

O estado de sonolência e a inatividade mental são tão acentuados, que o gasto de energia de

uma pessoa vendo TV é menor do que uma pessoa deitada sem dormir, como foi constatado

por Klesges, Shelton e Klesges (1993).

Basta olhar para um telespectador e ver-se-á que a expressão de seu rosto não é de alguém

que está prestando atenção ao que está observando. Ao contrário, a expressão é de olhar

amortecido (olhar de “peixe morto”), faces e boca em geral também sem demonstrar

praticamente nada, enfim, tem-se a impressão de “cara de bobo”. Isso é mais nítido em

crianças, que tem um rosto mais maleável do que o adulto. Enfim, certamente não é a

expressão de alguém observando atentamente o que se passa ao seu redor ou em reflexão

profunda.

Pode-se fazer uma experiência muito simples para constatar que o telespectador normalmente

não está absorvendo o que está sendo transmitido. Basta perguntar a uma pessoa que acabou

de assistir um noticiário quais notícias ela lembra, obviamente sem contar antes que ela será

sujeita a esse teste. Emery e Emery (1976) relatam que, em San Francisco, uma enquete feita
por telefone mostrou que mais da metade das pessoas não se lembrava de nenhuma notícia

sequer! O prof. Anderson Paulino, da Baixada Fluminense, hoje diretor de escola pública nessa

região, testou esse fato em uma de suas palestras: de 15 manchetes de um noticiário que ele

projetou numa TV a partir de uma gravação, nenhuma pessoa conseguiu lembrar de 3, e

apenas algumas lembraram de 2 – por sinal, as 2 notícias mais violentas (comunicação

pessoal).”

2.1.2 – TELEVISÃO E OBESIDADE

Há vários estudos realizados demonstrando correlação entre obesidade e televisão: World

Health Organization (2003), MH Proctor et al (2003) “Framingham Children’s Study”, Sónia

Livingstone (2006) “Does TV advertising make children fat?”, Hancox, Milne e Poulton

(2004),Magalhães (2007).

No Brasil, por exemplo, temos Borges et. al. (2007) e Nascimento (2006, p. 113) que, em seu

trabalho, chegou à seguinte conclusão:

“A partir dos estudos realizados, foi possível constatar que a televisão, enquanto meio de

comunicação de massa, pode ser considerado um fator ambiental associado à ocorrência de

sobrepeso e obesidade.

Através dela, a população, sobretudo de crianças e adolescentes, é exposta a maciça

veiculação de propaganda de alimentos que, do ponto de vista nutricional, não contribuem

para uma dieta saudável e equilibrada.

Estas propagandas possuem elementos de caráter persuasivo que vão desde a intensa

estimulação sensorial dos indivíduos, através de técnicas gráficas de alta tecnologia, até a

manipulação de sentimentos e ideias em determinadas situações, favorecendo a identificação

do consumidor com o produto promovido”.

Setzer(2009) sustenta:

“devido à inatividade física e mental, consome menos energia do que uma pessoa deitada sem

dormir. Só isso já contribuiria para o aumento de peso, pois em média cada pessoa vê mais
de 4 horas de TV por dia. Some-se a essa inatividade o fato de o telespectador estar comendo

salgadinhos, docinhos e refrigerantes, induzido pela propaganda transmitida, sem qualquer

valor nutritivo mas que contribuem decisivamente para o ganho de peso, e tem-se uma

fórmula para esse ganho. Cria-se ainda um círculo vicioso: pessoas com excesso de peso

tendem a fazer menos exercício físico, pois este exige mais esforço devido à carga adicional

de peso, e com isso engordam mais, fazendo ainda menos exercício”.

A televisão impõe uma triste contradição: “vende” o ideal do corpo perfeito em sua

programação e “entrega” ao telespectador a obesidade em decorrência de seu uso prolongado.

2.1.3 - OUTROS PROBLEMAS DE SAÚDE FÍSICA E MENTAL

Muitíssimos estudos apontam liame entre distúrbios físicos e/ou mentais e a televisão, além

da obesidade. Em especial, em crianças e jovens.

Hacocx et. al. (2004) apontam que muito tempo na televisão causa efeitos duradouros na

saúde, como colesterol alto, tabagismo e baixa capacidade cardio-respiratória.[1]

BMC – Public Health associa o uso da televisão com problemas relativos ao sono e diabetes.[2]

Thompson e Christakis (2005) apresentaram estudos relacionando problemas com sono e

televisão para crianças.[3]

Piazzi (2008, p.43), sem mais explicações ou referências, diz que: “ há fortes suspeitas de que

uma criança exposta à TV antes dos 4 anos de idade desenvolva uma forma branda de

deficiência mental”

Waldman et. al. (2006) em seu estudo relacionaram a televisão com autismo[4]

Landhuis et. al. (2007) [5] mostraram haver relação entre assistir muita televisão na infância

e déficit de atenção(DDA) na adolescência.

No mesmo sentido, Johnson (2007) mostrando que assistir muita televisão até os 14 anos

gera déficit de atenção (DDA) e dificuldades no aprendizado.[6]


Há vários outros estudos demonstrando relação da televisão com distúrbios psicológicos

ligados ao desenvolvimento cognitivo das crianças, incluindo a compreensão da leitura,

habilidade matemática, memorização de números, resolução de problemas e vocabulário.[7]

2.2 – TELEVISÃO HIPNÓTICA

Se nós entendermos a hipnose como um conjunto de técnicas psicológicas e fisiológicas usadas

para a modificação gradual da atenção, então a televisão é hipnótica.

Muitos autores entendem da mesma maneira, exemplos: Arbex (2001), Barbosa, (2007),

Mander (1978), Setzer (2009).

Mander (1978, p.158), para exemplificar, colheu gravações informais de cerca de 2.000

entrevistas e descrições escritas a respeito da televisão. As 15 frases usadas com maior

frequência foram:

1)”Eu me sinto hipnotizado quando assisto à televisão”.

2) “A televisão suga minha energia”.

3) “Sinto como se passasse por uma lavagem cerebral”.

4) “Sinto-me como um vegetal quando estou diante do tubo da TV”.

5) “A televisão me deixa fora de órbita”.

6) “A televisão é um vício e eu estou viciado”.

7) “Meus filhos se parecem com zumbis quando assistem à TV”.

8) “A TV está destruindo minha mente”.

9) “Meus filhos parecem sonâmbulos por causa dela”.

10) “A televisão está tornando as pessoas estúpidas”.


11) “A televisão transforma minha mente em uma bagunça”.

12) ” Se a TV está ligada, não posso desviar meus olhos dela”.

13) “Sinto-me hipnotizado por ela”.

14) “A TV está colonizando meu cérebro”.

15) “Como posso manter meus filhos distantes da TV e voltar a viver?”.

Todas estas frases que, aliás, são bens comuns, retratam que a televisão atrai a atenção de

modo hipnótico.

2.3 – OS SENTIDOS INTERNOS E A SUA RELAÇÃO COM


A TELEVISÃO

2.3.1 – OS SENTIDOS INTERNOS

Os cinco sentidos externos[8] do homem captam as informações do mundo exterior e

registram nos sentidos internos, que serão a base para o trabalho intelectual.

São quatro os sentidos internos, segundo S. Tomás[9]: sentido comum, imaginação, memória

e cogitativa.

a) Sentido comum.

Por meio do sentido comum, o homem percebe a realidade de modo unificado. Ele recebe as

imagens obtidas pelos sentidos exteriores compara-as e julga-as.

S. Tomás ensina que o olho não distingue o branco do doce, quem faz esta distinção é o sentido

comum.

b) Imaginação

Não basta receber as informações, é necessário retê-las. O ser sensitivo precisa percebê-las

enquanto estiverem ausentes também.


Esta é a função da imaginação, que abstrai as impressões para que sejam usadas no futuro.

De acordo com S. Tomas é o “tesouro das formas recebidas pelo sentido”.

c) Memória

A fim de que as imagens não se percam é necessário existir um “arquivo” onde possam ser

armazenadas, este “arquivo” é a memória.

d) Cogitativa

A cogitativa compara as informações armazenadas e pode criar novas situações. Ela prepara

as imagens particulares fazendo-as mais perfeitas de conteúdo em potência para que sejam

transformadas em ato (universal) pelo intelecto.

O intelecto vai até os sentidos internos e abstrai ou extrai a sua essência (quididade). O

intelecto humano, unido ao corpo, tem como objeto próprio a quididade ou a natureza

existente na coisa corpórea, que ele abstrai do imaginário.

2.3.2 – A TELEVISÃO E OS SENTIDOS INTERNOS

A televisão turva os sentidos internos, bombardeando com muitas imagens desconexas a visão

e com muitos sons desarmônicos a audição.

Quando estas informações chegam ao sentido comum, este terá dificuldade para unificar e

julgar.

Quando vemos uma árvore e um som de um pássaro não temos problema em defini-los.

Porém, se víssemos uma árvore borrada, sem contornos, teríamos dificuldade em julgar o que

é.

A finalidade da visão é a percepção da realidade, quando esta é corrompida pela televisão, o

que a vista percebe pode ser algo confuso. A televisão, por assim dizer, borra os sentidos.

Em relação à imaginação, como a sucessão de eventos na televisão é rápida, não há tempo

de retenção de todas as imagens, não se conhece em ato muitas coisas simultâneas[10] . E


mais, o que pode ser retido, são imagens aleatórias ou sem importância e não as que se

quereria escolher.

Disse Santa Teresa que “a imaginação é a louca da casa”, ora, a televisão vai ajudar a

enlouquecer mais ainda.

Segundo ensinamento de S. Antonio Maria Claret[11]:

“Procura sempre tê-la ocupada (a imaginação) em pensamentos úteis e proveitosos, cuidando

com toda a diligência evitar os maus pensamentos; porque se os deixares entrar uma vez, não

poderás depois lançá-los fora tão facilmente”.

A televisão fará o contrário: povoará a mente com maus pensamentos.

Sabe-se que a memória é mais eficaz quando se estuda relacionando temas conexos. A

televisão, por sua natureza, não produz imagens conexas, contribuindo assim para a

desmemória. E mais, a sucessão rápida das imagens também provoca a amnésia, neste

sentido ver Arbex (2001).

Com os três sentidos internos prejudicados, a cogitativa restará naturalmente comprometida.

Não haverá perfeição de conteúdo, por causa da “mistura” deles obtida ao assistir à televisão.

Os sentidos internos precisam subordinar sua atividade ao império da razão e da vontade[12],

a mortificação dos pensamentos inúteis é a mortificação dos pensamentos maus[13]. Isto é

uma exigência para o progresso espiritual, é mister dar mais lugar ao trabalho da inteligência

e da reflexão, e menos às faculdades sensíveis.

Como fazer isto com a televisão, que é uma fonte de imagens perigosas ou inúteis?

Um exemplo disso é o intervalo comercial. Nele, várias publicidades se seguem sem nexo e

podem instigar o telespectador a comprar determinado produto de que não necessita.

Estas imagens de bens de consumo, somados aos “jingles” podem povoar o imaginário por

muito tempo, fazendo o telespectador perder tempo em pensamentos do tipo “compro ou não

compro”.

2.4 - AS POTÊNCIAS DA ALMA E A TELEVISÃO


O estudo das potências da alma em S. Tomás está na parte I, Q77 até Q83. Trata-se de algo

profundo. Dependendo do ângulo que se estude ou se “olha”, o número das potências pode

variar (ver Q78, a1). Porém, tendo em vista o nosso estudo, interessam-nos as seguintes

potências: o intelecto, inteligência ou “potências intelectivas” (I, Q 79), a vontade (I, Q. 82) e

a sensibilidade (I, Q.81). Esta é a tríade principal.

A potência da inteligência será abordada no tópico: “o trabalho intelectual e a televisão”, a

sensibilidade, que se subdivide em concupiscível e irascível, será abordada no tópico “televisão

e concupiscência” e a vontade no tópico de mesmo nome.

Interessante observar que a função da linguagem é tripla, visando comunicar pensamento,

volição e emoção.[14]

A linguagem, ao comunicar pensamento, visa atingir a inteligência, ao comunicar a volição,

visa atingir à vontade e ao comunicar emoção visa à sensibilidade.

As peças se encaixam harmoniosamente.

Quando a linguagem é de alto nível e respeita o trivium, a alma se rejubila. Todas as potências

dela foram instigadas para o bem. Por exemplo, um sermão de São João Crisóstomo. Ele

arrebata, o voo é alto.

Um pensamento elevado do sermão faz a inteligência compreender uma verdade, com a

volição, exorta o ouvinte a seguir a verdade, e com a correta emoção (que envolve a retórica)

leva o ouvinte a amar a verdade.

A televisão briga com a inteligência, amolece a vontade e enxerta paixões na sensibilidade,

como veremos nos tópicos seguintes. Conduz para a baixeza.

A linguagem na televisão é o oposto dos sermões dos santos.

Crisóstomo significa “boca de ouro”, a televisão é a “boca da inópia”.

Ela vai despertar as paixões e as emoções sem razão. Pio XI, na encíclica Vigilante Cura, já

alertava que as produções inadequadas excitam as paixões inferiores[15]


As paixões são movimentos impetuosos do apetite sensitivo para o bem sensível com

repercussão mais ou menos forte sobre o organismo.[16]

Um exemplo disso são transmissões ao vivo de futebol. Aliás, o amor a este desporto no Brasil

se aproxima de algo patológico.

As narrações dos jogos na televisão são dramáticas, principalmente nas finais. Se o time perde

o jogo, para o torcedor parece ser o “fim do mundo”. A paixão estimulada neste caso é o

desespero que é causado pela impossibilidade da aquisição do bem amado – no caso do

futebol, a vitória em algum campeonato.

Isto leva a alma a um estado desnecessário e ruim. Pode causar choro, revolta, etc.

Ver tópico 3.1.3.

2.5 – O TRABALHO INTELECTUAL E A TELEVISÃO

De acordo com Hugo de São Vítor:

“Duas coisas principalmente concorrem para a aquisição da ciência, a leitura e a

meditação“[17]

Por leitura, entende-se tanto a leitura de um livro quanto a assistir a aulas[18].

A televisão não compreende nem a leitura nem a meditação.

A meditação exclui a velocidade. Requer vagar, pensar e repensar. E a meditação ajuda a

memória[19]. Mais uma razão pela qual a televisão destrói a memória.

O que os medievais pensavam a respeito de estudo é confirmado por pesquisadores atuais. É

uma sequência de aula e/ou leitura, seguido de meditação e/ou estudo repetido que produzirá

a ciência e o saber.

E segundo S. Tomás[20], quando a potência intelectiva apreende alguma coisa este ato é

a inteligência. Quando ordena o que ela aprendeu para conhecer ou operar alguma coisa, é
a intenção, quando persiste na investigação, é a reflexão. Quando se examina o que se refletiu

em razão de princípios certos, é a sabedoria.

O modo de ser da televisão combate tudo isto.

A apreensão quase simultânea de várias imagens e/ou falas é mortal para o intelecto.

“O “saber” supõe o uso da reflexão e do julgamento, a televisão, devido à sucessão rápida e

ininterrupta de imagens luminosas não concede tempo para a reflexão nem para o julgamento;

ela só pode engendrar crenças sem fundamento razoável, ou pior, julgamentos temerários

para o bem ou para o mal”. (TURGEON, J.P. – La télévision, p.20, citado por MIRANDA[21])

Segundo Peixoto (1996, p. 180):

“A televisão contrapõe-se radicalmente à contemplação. Em primeiro lugar porque na TV a

imagem passa por frações de segundo, sem exigir do observador a distância que

convencionalmente requer um quadro ou uma paisagem. Assistimos à TV com uma atenção

dispersa, sem concentração, apenas deixando que aquele fluxo ininterrupto nos atravesse”.

Existe uma hierarquia no saber. Há coisas que tem mais importância que outras. Assim, o

saber teológico e o catecismo estão em primeiro lugar; a filosofia, que estuda as causas

primeiras, em segundo posto, assim por diante.

É próprio do sábio ordenar, segundo Aristóteles.

As futilidades da vida não estão em lugar nenhum, pois nem deveriam ser conhecidas.

A televisão dá mais importância às frivolidades e às inutilidades que os temas mais elevados

(se é que são abordados). Nela, há uma inversão tanto qualitativa, do que se deve saber,

quanto quantitativa, do quanto se deve saber de determinado assunto.

Enquanto a hierarquia do saber é como um arco ogival que aponta para o alto, a televisão é

um arco invertido que aponta para baixo.

Segundo Bertrand (1999, p.115), os meios de comunicação “sofrem de uma falta de

hierarquia. Eles deveriam diferenciar melhor as notícias recreativas e importantes, e privilegiar

aquelas que podem afetar a vida de um grupo social, da sociedade de um país a humanidade”.
De acordo com S. Tomás[22], raciocinar é ir de um objeto conhecido a outro, em vista de

conhecer a verdade inteligível.

A televisão leva nada a lugar nenhum.

De acordo com Barbosa (2007, p. 4-5):

“É a lógica de fluxo que faz também com que todos os sentidos humanos sejam como que

aprisionados pela televisão. Como mostrou Derrick de Kerckhov (1997) – a partir de um

experimento realizado diante de emissões, no qual procurava exprimir o que gostava ou não

em imagens sucessivas que mudavam a cada 15 segundos, experiência gravada e que indicou

que todas as alterações foram percebidas no corpo do pesquisador submetido ao experimento

-, a televisão fala, em primeiro lugar, ao corpo e não à mente. Na sua avaliação, a tela

do vídeo impacta diretamente o sistema nervoso e as emoções dos telespectadores. Portanto,

para Kerckhov o regime de processamento da informação da televisão se realiza na tela. A

segunda conclusão do autor, a partir de seu experimento, é que a televisão é hipnoticamente

envolvente. Qualquer alteração na tela atrai a atenção. Essa fixação não permite a volta do

pensamento, a reflexão. A imagem fica numa espécie de zona de sombra encoberta do

consciente. Portanto, cognitivamente a televisão foi construindo uma linguagem que

desobriga, no momento da emissão, a reflexão” (grifo nosso)

Depreende-se do texto, então, que a televisão não atende à mente e tenta introduzir ideias

sem passar pela reflexão. Isto é extremamente perigoso, pois treina as pessoas, como um

cachorro.

Ao abrir uma torneira deixando passar com muita força a água, pouco dela ficará retida na

palma da mão. Segundo Alain Ehrenberg, citado por Tacussel (2001, p.84), a televisão é uma:

“torneira de imagens”

Assim é o cérebro, muita informação fará com que pouca coisa seja retida.

Muitos já perceberam e já é quase um chavão que vivemos numa época de muita informação

e pouco conhecimento.

2.6. TELEVISÃO E CONCUPISCÊNCIA


2.6.1 SENSIBILIDADE E CONCUPISCÊNCIA EM GERAL

A sensibilidade se subdivide em concupiscível e irascível.

A paixão pode afetar a potência do concupiscível gerando a concupiscência da carne e dos

olhos.

“Porque tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, e concupiscência dos olhos, e

soberba da vida”. (1 Jo 2, 16).

As duas concupiscências serão comentadas, em parte, nos tópicos abaixo.

E a soberba da vida é o amor desordenado da nossa própria excelência, de tudo o que possa

enfatizá-la, não importa quão difícil ou duro isso possa vir a ser. É muito comum este vício nas

“celebridades” (ver item 3.1.1).

A paixão não afeta o irascível? Sim. Mas, no caso da televisão não será importante, porque as

paixões da faculdade do irascível têm como objeto o bem ou o mal tomados como árduos. E a

televisão “amolece”, leva à preguiça e não instiga à ação.

2.6.2 CONCUPISCÊNCIA DA CARNE

A concupiscência da carne é o amor desordenado dos prazeres dos sentidos.[23]

A vista é por ele infeccionada, visto ser pelos olhos que começa a sorver o veneno do amor

sensual.[24] A “vista excita os desejos dos insensatos” (Sb 15, 5)

“Não lances os olhos daqui e dali pelas ruas da cidade, não vagueies pelos caminhos” (Eclo 9,

7). Ora, o que faz ao assistir a televisão é oposto do que é dito, deixa-se os olhos vaguear.

A audição é por ele infectada, quando por meio de conversas perigosas e cantos eivados de

moleza acendem as chamas no amor impuro.[25]

A televisão aguça esta concupiscência, pois com muita frequência municiará os olhos e os

ouvidos com imagens e sons perigosos.


Neste sentido, o que Pio XI fala sobre o cinema, serve bem para a televisão:

(…) Se nos entreatos (dos filmes) se acrescentam danças e variedades, as paixões recebem

excitações das mais perigosas, que avultam vertiginosamente.”[26]

Pio XII[27], na carta encíclica MIRANDA PRORSUS (sobre o cinema, televisão e rádio):

“Quem poderá dizer quantas ruínas de almas, especialmente juvenis, provocam tais imagens,

que pensamentos impuros e que sentimentos podem despertar, e quanto contribuem para a

corrupção do povo, com grave prejuízo até da prosperidade da nação?”

“Não useis, porém, a liberdade para dar ocasião à carne.” (Gl 6,13)

2.6.3 TELEVISÃO E PORNOGRAFIA

A televisão é infestada de pornografia em todas as suas formas[28], formando um quadro

trágico para a moral, a decência e a modéstia.

O Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais (1989) [29] definiu a pornografia (item

9):

(…) Entende-se por pornografia, neste contexto, a violação, por meio do uso de técnicas audio-

visuais, do direito à privacidade do corpo humano em sua natureza masculina e feminina,

violação que reduz a pessoa humana e o corpo humano a um objeto anônimo destinado a uma

má utilização com a intenção de obter gratificação concupiscente.

E no item 11 adverte:

É evidente que um dos efeitos da pornografia é o pecado. A participação voluntária na produção

e na difusão destes produtos nocivos deve ser considerada como um sério mal moral. Além

disso, esta produção e difusão não poderiam ter lugar, se não existisse uma demanda. Assim

pois, os que fazem uso destes produtos não só se prejudicam a si mesmos, mas também

contribuem para a promoção de um comércio nefasto.

O que pensar das atrizes de televisão que se mostram indevidamente?


E não há a desculpa de ser uma simulação de um ato. Pois, a mera exposição do corpo já é

em si mesma uma indecência. Diferente da simulação de um assassinato, por exemplo, no

qual não houve o crime.

Só por esta razão, a televisão deveria ser apartada dos olhos, como cumprimento do 6º e do

9º mandamentos.

2.6.4 CONCUSPICÊNCIA DOS OLHOS – CURIOSIDADE

Uma das concupiscências dos olhos é a curiosidade doentia.

A curiosidade é desejo imoderado de ver, ouvir, conhecer o que se passa no mundo.[30]. Este

ver está distante da finalidade da visão, que é a realidade, volta-se apenas para ver e ver em

si mesmo, sem objetivo último nenhum. O meio se torna o fim.

Ora, a televisão atende a esta imoderação. Por meio dela, acaba-se sabendo das notícias mais

inúteis, das fofocas mais abjetas e das informações mais irrelevantes possíveis.

A televisão tanto instiga como busca saciar esta vã curiosidade que só prejudica a alma.

Sobre esta curiosidade, Bossuet escreveu:

Porquanto, tudo isso não mais é mais que uma intemperança, uma doença, um desregramento

do espírito, um entibiamento do coração, um miserável cativeiro, que não nos deixa tempo de

pensar em nós, enfim uma fonte de erros[31]

S. Pedro Alcântara ensina que a curiosidade impede a devoção:

Impede o vício da curiosidade, assim dos sentidos como do entendimento, o que é querer ouvir

e ver e saber muitas coisas e desejar coisas polidas, curiosas e bem lavradas, porque tudo isto

ocupa o tempo, embaraça os sentidos, inquieta a alma e a derrama em muitas partes e assim

impede a devoção.[32]

E o papa Francisco:
O espírito de curiosidade nos afasta do espírito de sabedoria, porque ele só está interessado

nos detalhes, notícias, pequenas notícias todos os dias. E o espírito de curiosidade não é um

bom espírito: é o espírito de dispersão, de afastamento de Deus, o espírito de falar muito. E

Jesus também vai nos dizer algo interessante: esse espírito de curiosidade, que é mundano,

nos leva à confusão.[33]

A televisão leva o homem a evagatio mentis. Isto acontece quando o homem perde interesse

na finalidade das coisas, dos atos e quer apenas vagar em divertimentos, em futilidades etc.

que não o levam a lugar nenhum. E isto é facílimo na televisão, já que esta não tem

propriamente um norte.

Sodré (2001) fala em “espraiamento sensorial”, que é justamente isto, além de o corpo se

esparramar no sofá, a mente se esparrama nas imagens da televisão.

Um exemplo mais agressivo desta evagatio, é a busca frenética de programação por meio das

mudanças de canais (“zapping”).

Segundo S. Tomás, a evagatio inclui a curiosidade e é uma das filhas da acídia. É uma

verdadeira “dissipação do espírito”, e a acídia é uma tristeza da alma[34].

. A televisão, leva portanto, à tristeza.

Um exemplo desta curiosidade doentia na televisão é o “reality show”, que parece ser o apogeu

da abjeção em matéria de programa televisivo. Nele, os participantes devem fazer algumas

provas ou simplesmente conviver numa mesma casa. Há muitos impropérios no linguajar,

relações indevidas, acusações etc. Quanto mais grotesco o quadro maior a audiência.

Evidentemente, o interesse do telespectador por este tipo de programa é a vã curiosidade, na

qual ele quer saber o que o participante “a” disse para o participante “b”, o que fizeram, o

que deixarem de fazer etc.

Ora, tais conhecimentos são absolutamente dispensáveis para a vida.

Ver o anexo 4.3: “Reality shows”.

2.7 – VONTADE
A vontade é, no homem, a faculdade mestra, que governa as demais faculdades.[35].

Porém, ela depende do que a inteligência compreendeu, pois será impossível querer algo que

não se conhece.

A televisão, como vimos, ataca a intelecção, deste modo ataca a vontade indiretamente, já

que se quererá algo já viciado provocado por um mau entendimento.

Outra razão para o enfraquecimento da vontade é a concupiscência.

Já dizia S. Agostinho : “A concupiscência tomou seus membros, excitou e deleitou sua vontade

no mal”.

Além disto, Tanquerey enumera alguns obstáculos[36], de ordem interior e de ordem exterior,

que impedem o homem de tornar a vontade dócil para servir a Deus.

Dentre os primeiros, destacamos dois:

Irreflexão. Não pensar antes de uma ação, seguir o impulso do momento, a paixão, a rotina.

Ora, a televisão como já foi explicado é uma atividade per si irreflexiva, que instiga a paixão,

logo será meio ótimo para obstar a vontade de fazer o bem.

Negligência. A preguiça, a falta de energia que atrofia as forças da vontade.

Isso é justamente o que a televisão causa nas pessoas, a preguiça, a má vontade.

Além do que já foi dito, a televisão produz passividade massiva (Mander 1978, p.349) e suga

a vontade das pessoas (Mander 1978, p.158).

Dois obstáculos de ordem exterior:

Respeito Humano[37]. Torna-nos escravos dos outros, temerosos de críticas e zombarias.

Em muitos casos, a televisão obriga as pessoas ao seu próprio juízo. Quem não assiste à

televisão é visto como alguém “extraterrestre” e quem não se harmoniza com as opiniões e as

análises da televisão está “por fora”.

Maus exemplos. Como o homem tem necessidade de modelos sociais, os maus exemplos

arrastam as pessoas para o erro.


A televisão é mestra nos maus exemplos, quer em função de sua própria natureza que é anti-

intelectual e cultora de falsas ideologias quer pelos “modelos” que promove, (ver tópico 3.1.1

, o seguinte).

Segundo S. Tomás, o objeto da vontade é bem universal[38], a televisão leva a vontade a

desejar coisas fúteis, quando não imorais.

Ou ainda a adesão um “mal universal”, dado o alcance da televisão que generaliza as coisas

erradas.

[1] Disponível em <http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0140673604166750>

Acesso em 28 set. 2013.

[2] Disponível em <http://www.biomedcentral.com/bmcpublichealth> Acesso em 28 set.

2013.

[3] Disponível em <http://pediatrics.aappublications.org/content/116/4/851.full> Acesso em

28 set. 2013.

[4]Disponível em <http://enfrentandooautismo.blogspot.com.br/2012/04/relacao-autismo-x-

ver-muita-tv-na.html> Acesso em 28 set. 2013.

[5] Disponível em

<http://moon.ouhsc.edu/dthompso/cdm/ebhc2007/articles/childhood%20tv%20viewing.pdf.

>

Acesso em 28 set. 2013

[6]Disponível em:< http://www.columbia.edu/cu/news/07/05/teenTV.html> Acesso em 28

set. 2013

[7] Anderson, Huston, Schmitt, Linebarger, & Wright, 2001; Christakis, Zimmerman,

DiGiuseppe, & McCarty, 2004; Foster & Watkins, 2010; Greenfield, Camaioni, Ercolani, Weiss,

Lauber, & Perucchini , 1984; Linebarger & Piotrowski, 2009; Linebarger & Walker, 2005; Rice,

1984; Rice, Huston, Truglio, & Wright, 1990; Rice & Woodsmall, 1988; Subrahmanyam &
Greenfield, 1994; Wright et al., 2001; Zimmermann & Christakis, 2005; Zimmermann &

Christakis, 2007

[8] Visão, audição, olfato, tato e paladar.

[9] I, Q78, a4. Um bom estudo baseado no Aquinate: O processo do conhecimento humano

em Tomás de Aquino, Marcos Roberto Nunes Costa.

[10] I, q86, a.2. res. 3

[11] Caminho Reto, p. 279, tópico: mortificação da imaginação.

[12]Tanquerey Compendio de Teologia Ascética e Mística. Item 780

[13] Ibidem, item 780.

[14] Livro do Trivium, p. 31

[15] Vigilante Cura, tópico 14.

[16] Tanquerey, Item 785.

[17] Didascalicon, Hugo de São Vitor, L1, C1

[18] Interessante observar que a palavra inglesa “lecture” significa “palestra”, mas a sua raiz

tem origem na palavra “ler”.

[19] Conforme Aristóteles, repetido por S. Tomás.

[20] I, Q. 79, a.10, sol.3.

[21]http://www.montfort.org.br/old/index.php?secao=veritas&subsecao=politica&artigo=tv&

lang=bra

[22] I, Q.79,a.8,rep.

[23] Tanquerey, item 193

[24] Ibidem item 195


[25] Ibidem item 195

[26] Vigilante Cura tópico 19

[27] Disponível em: http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-

xii_enc_08091957_miranda-prorsus_po.html

[28] Segundo a revista Veja (26/07/1995), no Brasil: “A cada 131 minutos, um termo chulo;

a cada 113 minutos, uma cena de nudez; a cada 145 minutos, uma cena que simula o ato

sexual. Durante uma semana a criança poderá assistir 95 cenas de nudez, 8 palavras chulas,

90 diálogos maliciosos e 74 atos sexuais”. E a mesma revista em outra reportagem: uma

criança de 5 anos que fique na frente do aparelho duas horas por dia, ao fim de uma no terá

sido exposta aa 1.168 piadas sobre sexo, 7.446 cenas de nudez e mais 12.600 estampidos de

tiros” (04/07/1990). O artigo citado é de 1995. Calcule-se o quanto terá crescido a frequência

de exposição da pornografia na televisão nos últimos anos!

[29] PORNOGRAFIA E VIOLÊNCIA NAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS UMA RESPOSTA

PASTORAl http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/pccs/documents/rc_pc_pc

cs_doc_07051989_pornography_po.html

[30] Tanquerey, Item 199

[31] Ibidem. Item 199

[32] P. 119, Tratado da Oração e da Meditação. Petrópolis: Vozes, 2008

[33] Discurso de 14 de novembro de 2013. Disponível em:

http://pt.radiovaticana.va/news/2013/11/14/o_esp%C3%ADrito_de_curiosidade_afasta-

nos_da_sabedoria_e_da_paz_de_deus_%E2%80%93/por-746533 Acesso em 18 nov. 2013.

[34] II-II, q.35, a.4

[35] Tamquerey item 811.

[36] Ibidem, item 812.

[37] Este termo aqui é empregado em sentido estrito, como usado nos manuais de teologia e

não em um sentido “moderno”.


2.1 - TELEVISÃO, O CORPO E A
SAÚDE
2.1.1 - TELEVISÃO E O CORPO
É interessante observar que a televisão “fala” ao corpo. O corpo de alguma forma sente
os efeitos do uso constante da televisão. De acordo com Barbosa (2007, p. 4-5): "É a
lógica de fluxo que faz também com que todos os sentidos humanos sejam como que
aprisionados pela televisão. Como mostrou Derrick de Kerckhov (1997) - a partir de um
experimento realizado diante de emissões, no qual procurava exprimir o que gostava ou
não em imagens sucessivas que mudavam a cada 15 segundos, experiência gravada e
que indicou que todas as alterações foram percebidas no corpo do pesquisador submetido
ao experimento -, a televisão fala, em primeiro lugar, ao corpo e não à mente. Na sua
avaliação, a tela do vídeo impacta diretamente o sistema nervoso e as emoções dos
telespectadores. Portanto, para Kerckhov o regime de processamento da informação da
televisão se realiza na tela." Sodré (2001, p.19) sustenta que: “A televisão não se dirige à
mente das pessoas. Ela se dirige ao corpo do indivíduo”. “O que importa é esse
espraiamento sensorial estético da mídia, espraiando a vida da gente, fazendo que a gente
habite, more dentro dessa prótese chamada médium” (Sodré 2001, p.21) Mander, no seu
terceiro argumento contra a televisão (1978, p.155): "A tecnologia
televisiva desencadeia respostas neurofisiológicas nos seus espectadores. Pode criar
doenças e decerto gera confusão e submissão a um mundo externo de imagens. Em
termos globais, os efeitos observados traduzem o condicionamento necessário ao controle
autocrático" (tradução nossa). Setzer (2009, p. 3) com muita propriedade, descreve a
interação do telespectador com o aparelho televisor, por isso reproduziremos seu
texto:"Uma observação fenomenológica do telespectador revela o seguinte. Ele está
fisicamente estático (a menos de casos muito excepcionais, como programas de
ginástica). O ambiente é mantido em penumbra, isto é, com pouca luz. Dos seus órgãos
de sentidos, apenas a visão e a audição estão sendo incentivados, e de maneira
extremamente parcial: a tela encontra-se parada, portanto a distância é sempre a mesma,
não exigindo acomodação de profundidade (variação do cristalino e convergência dos
eixos dos olhos). A luminosidade varia muito pouco, de modo que a pupila também quase
não muda de abertura.

Normalmente, os olhos não param de se mover, tateando o objeto sendo observado. A


figura acima foi copiada do livro de Patzlaf (2000, p. 18). Ela mostra, à direita, o movimento
de um olho de uma pessoa vendo a foto à esquerda durante alguns minutos; cada traço
mostra um movimento do olho. Note-se como a imagem é "tateada", com maior frequência
nos olhos, na boca e na risca do cabelo, que realmente chama a atenção. Em uma pessoa
vendo TV os olhos praticamente ficam parados, como se a pessoa estivesse em um
estado de desatenção. No caso das telas grandes, esse efeito é diminuído, pois o olho
deve mover-se pelos vários trechos da tela. Aliás, essa é uma diferença fundamental da
TV para o cinema, pois nesse a tela grande exige que o olho, e até mesmo a cabeça,
movimentem-se, o que ajuda a diminuir o estado de sonolência descrito a seguir.Como o
telespectador está fisicamente estático, não faz ação física nenhuma. Antigamente, era
necessário levantar-se para mudar de canal; agora, com os controles remotos, nem
mesmo esse pequeno esforço é exigido. Não há também necessidade de se fazer um
esforço mental para prestar atenção. De fato, o pensamento consciente está praticamente
abafado. Esse é um ponto absolutamente crucial do efeito do aparelho de TV sobre o
telespectador, e por isso vou alongar-me sobre ele. Estudos neurofisiológicos mostraram
que, poucos minutos, à vezes somente ½ minuto, de assistir TV já colocam normalmente
as ondas cerebrais, como medidas por eletroencefalograma, em um estado semelhante ao
de sonolência (isto é, de desatenção) ou semi-hipnótico (Krugman 1971, Emery e Emery
1976, Kubey e Csikszentmihalyi 1990). Normalmente, no telespectador existe
predominância de ondas teta, lentas, do EEG, de 4 a 7 Hz. Uma pessoa no escuro, ou
com olhos fechados, apresenta a mesma predominância de ondas lentas. Em estado de
alerta, passam a predominar as ondas beta de 12 a 30 Hz. Essa predominância das ondas
lentas cerebrais indica estado de desatenção, de sonolência. O estado de sonolência e a
inatividade mental são tão acentuados, que o gasto de energia de uma pessoa vendo TV é
menor do que uma pessoa deitada sem dormir, como foi constatado por Klesges, Shelton
e Klesges (1993). Basta olhar para um telespectador e ver-se-á que a expressão de seu
rosto não é de alguém que está prestando atenção ao que está observando. Ao contrário,
a expressão é de olhar amortecido (olhar de "peixe morto"), faces e boca em geral também
sem demonstrar praticamente nada, enfim, tem-se a impressão de "cara de bobo". Isso é
mais nítido em crianças, que tem um rosto mais maleável do que o adulto. Enfim,
certamente não é a expressão de alguém observando atentamente o que se passa ao seu
redor ou em reflexão profunda. Pode-se fazer uma experiência muito simples para
constatar que o telespectador normalmente não está absorvendo o que está sendo
transmitido. Basta perguntar a uma pessoa que acabou de assistir um noticiário quais
notícias ela lembra, obviamente sem contar antes que ela será sujeita a esse teste. Emery
e Emery (1976) relatam que, em San Francisco, uma enquete feita por telefone mostrou
que mais da metade das pessoas não se lembrava de nenhuma notícia sequer! O prof.
Anderson Paulino, da Baixada Fluminense, hoje diretor de escola pública nessa região,
testou esse fato em uma de suas palestras: de 15 manchetes de um noticiário que ele
projetou numa TV a partir de uma gravação, nenhuma pessoa conseguiu lembrar de 3, e
apenas algumas lembraram de 2 – por sinal, as 2 notícias mais violentas (comunicação
pessoal).”
2.1.2 - TELEVISÃO E OBESIDADE
Há vários estudos realizados demonstrando correlação entre obesidade e televisão:
World Health Organization (2003), MH Proctor et al (2003) “Framingham Children’s Study”,
Sónia Livingstone (2006) “Does TV advertising make children fat?”, Hancox, Milne e
Poulton (2004),Magalhães (2007). No Brasil, por exemplo, temos Borges et. al. (2007) e
Nascimento (2006, p. 113) que, em seu trabalho, chegou à seguinte conclusão: "A partir
dos estudos realizados, foi possível constatar que a televisão, enquanto meio de
comunicação de massa, pode ser considerado um fator ambiental associado à ocorrência
de sobrepeso e obesidade. Através dela, a população, sobretudo de crianças e
adolescentes, é exposta a maciça veiculação de propaganda de alimentos que, do ponto
de vista nutricional, não contribuem para uma dieta saudável e equilibrada. Estas
propagandas possuem elementos de caráter persuasivo que vão desde a intensa
estimulação sensorial dos indivíduos, através de técnicas gráficas de alta tecnologia, até a
manipulação de sentimentos e ideias em determinadas situações, favorecendo a
identificação do consumidor com o produto promovido". Setzer(2009) sustenta: "devido à
inatividade física e mental, consome menos energia do que uma pessoa deitada sem
dormir. Só isso já contribuiria para o aumento de peso, pois em média cada pessoa vê
mais de 4 horas de TV por dia. Some-se a essa inatividade o fato de o telespectador estar
comendo salgadinhos, docinhos e refrigerantes, induzido pela propaganda transmitida,
sem qualquer valor nutritivo mas que contribuem decisivamente para o ganho de peso, e
tem-se uma fórmula para esse ganho. Cria-se ainda um círculo vicioso: pessoas com
excesso de peso tendem a fazer menos exercício físico, pois este exige mais esforço
devido à carga adicional de peso, e com isso engordam mais, fazendo ainda menos
exercício". A televisão impõe uma triste contradição: “vende” o ideal do corpo perfeito em
sua programação e “entrega” ao telespectador a obesidade em decorrência de seu uso
prolongado.
2.1.3 - OUTROS PROBLEMAS DE SAÚDE FÍSICA
E MENTAL
Muitíssimos estudos apontam liame entre distúrbios físicos e/ou mentais e a televisão,
além da obesidade. Em especial, em crianças e jovens. Hacocx et. al. (2004) apontam que
muito tempo na televisão causa efeitos duradouros na saúde, como colesterol alto,
tabagismo e baixa capacidade cardio-respiratória.[1] BMC – Public Health associa o uso
da televisão com problemas relativos ao sono e diabetes.[2] Thompson e Christakis (2005)
apresentaram estudos relacionando problemas com sono e televisão para
crianças.[3] Piazzi (2008, p.43), sem mais explicações ou referências, diz que: “ há fortes
suspeitas de que uma criança exposta à TV antes dos 4 anos de idade desenvolva uma
forma branda de deficiência mental” Waldman et. al. (2006) em seu estudo relacionaram a
televisão com autismo[4] Landhuis et. al. (2007) [5] mostraram haver relação entre assistir
muita televisão na infância e déficit de atenção(DDA) na adolescência. No mesmo sentido,
Johnson (2007) mostrando que assistir muita televisão até os 14 anos gera déficit de
atenção (DDA) e dificuldades no aprendizado.[6] Há vários outros estudos demonstrando
relação da televisão com distúrbios psicológicos ligados ao desenvolvimento cognitivo das
crianças, incluindo a compreensão da leitura, habilidade matemática, memorização de
números, resolução de problemas e vocabulário.[7]

2.2 - TELEVISÃO HIPNÓTICA


Se nós entendermos a hipnose como um conjunto de técnicas psicológicas e fisiológicas
usadas para a modificação gradual da atenção, então a televisão é hipnótica. Muitos
autores entendem da mesma maneira, exemplos: Arbex (2001), Barbosa, (2007), Mander
(1978), Setzer (2009). Mander (1978, p.158), para exemplificar, colheu gravações
informais de cerca de 2.000 entrevistas e descrições escritas a respeito da televisão. As 15
frases usadas com maior frequência foram: 1)”Eu me sinto hipnotizado quando assisto à
televisão”. 2) "A televisão suga minha energia". 3) "Sinto como se passasse por uma
lavagem cerebral". 4) "Sinto-me como um vegetal quando estou diante do tubo da TV". 5)
"A televisão me deixa fora de órbita". 6) "A televisão é um vício e eu estou viciado". 7)
"Meus filhos se parecem com zumbis quando assistem à TV". 8) "A TV está destruindo
minha mente". 9) "Meus filhos parecem sonâmbulos por causa dela". 10) "A televisão está
tornando as pessoas estúpidas". 11) "A televisão transforma minha mente em uma
bagunça". 12) " Se a TV está ligada, não posso desviar meus olhos dela". 13) "Sinto-me
hipnotizado por ela". 14) "A TV está colonizando meu cérebro". 15) "Como posso manter
meus filhos distantes da TV e voltar a viver?". Todas estas frases que, aliás, são bens
comuns, retratam que a televisão atrai a atenção de modo hipnótico.

2.3 - OS SENTIDOS INTERNOS E A SUA


RELAÇÃO COM A TELEVISÃO
2.3.1 - OS SENTIDOS INTERNOS
Os cinco sentidos externos[8] do homem captam as informações do mundo exterior e
registram nos sentidos internos, que serão a base para o trabalho intelectual. São quatro
os sentidos internos, segundo S. Tomás[9]: sentido comum, imaginação, memória e
cogitativa. a) Sentido comum. Por meio do sentido comum, o homem percebe a realidade
de modo unificado. Ele recebe as imagens obtidas pelos sentidos exteriores compara-as e
julga-as. S. Tomás ensina que o olho não distingue o branco do doce, quem faz esta
distinção é o sentido comum. b) Imaginação Não basta receber as informações, é
necessário retê-las. O ser sensitivo precisa percebê-las enquanto estiverem ausentes
também. Esta é a função da imaginação, que abstrai as impressões para que sejam
usadas no futuro. De acordo com S. Tomas é o “tesouro das formas recebidas pelo
sentido”. c) Memória A fim de que as imagens não se percam é necessário existir um
“arquivo” onde possam ser armazenadas, este “arquivo” é a memória. d) Cogitativa A
cogitativa compara as informações armazenadas e pode criar novas situações. Ela
prepara as imagens particulares fazendo-as mais perfeitas de conteúdo em potência para
que sejam transformadas em ato (universal) pelo intelecto. O intelecto vai até os sentidos
internos e abstrai ou extrai a sua essência (quididade). O intelecto humano, unido ao
corpo, tem como objeto próprio a quididade ou a natureza existente na coisa corpórea, que
ele abstrai do imaginário.
2.3.2 - A TELEVISÃO E OS SENTIDOS INTERNOS
A televisão turva os sentidos internos, bombardeando com muitas imagens desconexas a
visão e com muitos sons desarmônicos a audição. Quando estas informações chegam
ao sentido comum, este terá dificuldade para unificar e julgar. Quando vemos uma árvore
e um som de um pássaro não temos problema em defini-los. Porém, se víssemos uma
árvore borrada, sem contornos, teríamos dificuldade em julgar o que é. A finalidade da
visão é a percepção da realidade, quando esta é corrompida pela televisão, o que a vista
percebe pode ser algo confuso. A televisão, por assim dizer, borra os sentidos. Em relação
à imaginação, como a sucessão de eventos na televisão é rápida, não há tempo de
retenção de todas as imagens, não se conhece em ato muitas coisas simultâneas[10] . E
mais, o que pode ser retido, são imagens aleatórias ou sem importância e não as que se
quereria escolher. Disse Santa Teresa que “a imaginação é a louca da casa”, ora, a
televisão vai ajudar a enlouquecer mais ainda. Segundo ensinamento de S. Antonio Maria
Claret[11]: "Procura sempre tê-la ocupada (a imaginação) em pensamentos úteis e
proveitosos, cuidando com toda a diligência evitar os maus pensamentos; porque se os
deixares entrar uma vez, não poderás depois lançá-los fora tão facilmente". A televisão
fará o contrário: povoará a mente com maus pensamentos. Sabe-se que a memória é mais
eficaz quando se estuda relacionando temas conexos. A televisão, por sua natureza, não
produz imagens conexas, contribuindo assim para a desmemória. E mais, a sucessão
rápida das imagens também provoca a amnésia, neste sentido ver Arbex (2001). Com os
três sentidos internos prejudicados, a cogitativarestará naturalmente comprometida. Não
haverá perfeição de conteúdo, por causa da “mistura” deles obtida ao assistir à televisão.
Os sentidos internos precisam subordinar sua atividade ao império da razão e da
vontade[12], a mortificação dos pensamentos inúteis é a mortificação dos pensamentos
maus[13]. Isto é uma exigência para o progresso espiritual, é mister dar mais lugar ao
trabalho da inteligência e da reflexão, e menos às faculdades sensíveis. Como fazer isto
com a televisão, que é uma fonte de imagens perigosas ou inúteis? Um exemplo disso é o
intervalo comercial. Nele, várias publicidades se seguem sem nexo e podem instigar o
telespectador a comprar determinado produto de que não necessita. Estas imagens de
bens de consumo, somados aos “jingles” podem povoar o imaginário por muito tempo,
fazendo o telespectador perder tempo em pensamentos do tipo “compro ou não compro”.

2.4 - AS POTÊNCIAS DA ALMA E A


TELEVISÃO
O estudo das potências da alma em S. Tomás está na parte I, Q77 até Q83. Trata-se de
algo profundo. Dependendo do ângulo que se estude ou se “olha”, o número das potências
pode variar (ver Q78, a1). Porém, tendo em vista o nosso estudo, interessam-nos as
seguintes potências: o intelecto, inteligência ou “potências intelectivas” (I, Q 79), a vontade
(I, Q. 82) e a sensibilidade (I, Q.81). Esta é a tríade principal. A potência da inteligência
será abordada no tópico: “o trabalho intelectual e a televisão”, a sensibilidade, que se
subdivide em concupiscível e irascível, será abordada no tópico “televisão e
concupiscência” e a vontade no tópico de mesmo nome. Interessante observar que a
função da linguagem é tripla, visando comunicar pensamento, volição e emoção.[14] A
linguagem, ao comunicar pensamento, visa atingir a inteligência, ao comunicar a volição,
visa atingir à vontade e ao comunicar emoção visa à sensibilidade. As peças se encaixam
harmoniosamente. Quando a linguagem é de alto nível e respeita o trivium, a alma se
rejubila. Todas as potências dela foram instigadas para o bem. Por exemplo, um sermão
de São João Crisóstomo. Ele arrebata, o voo é alto. Um pensamento elevado do sermão
faz a inteligência compreender uma verdade, com a volição, exorta o ouvinte a seguir a
verdade, e com a correta emoção (que envolve a retórica) leva o ouvinte a amar a
verdade. A televisão briga com a inteligência, amolece a vontade e enxerta paixões na
sensibilidade, como veremos nos tópicos seguintes. Conduz para a baixeza. A linguagem
na televisão é o oposto dos sermões dos santos. Crisóstomo significa “boca de ouro”, a
televisão é a “boca da inópia”. Ela vai despertar as paixões e as emoções sem razão. Pio
XI, na encíclica Vigilante Cura, já alertava que as produções inadequadas excitam as
paixões inferiores[15] As paixões são movimentos impetuosos do apetite sensitivo para o
bem sensível com repercussão mais ou menos forte sobre o organismo.[16] Um exemplo
disso são transmissões ao vivo de futebol. Aliás, o amor a este desporto no Brasil se
aproxima de algo patológico. As narrações dos jogos na televisão são dramáticas,
principalmente nas finais. Se o time perde o jogo, para o torcedor parece ser o “fim do
mundo”. A paixão estimulada neste caso é o desespero que é causado pela
impossibilidade da aquisição do bem amado - no caso do futebol, a vitória em algum
campeonato. Isto leva a alma a um estado desnecessário e ruim. Pode causar choro,
revolta, etc. Ver tópico 3.1.3.

2.5 - O TRABALHO INTELECTUAL E A


TELEVISÃO
De acordo com Hugo de São Vítor: "Duas coisas principalmente concorrem para a
aquisição da ciência, a leitura e a meditação"[17] Por leitura, entende-se tanto a leitura de
um livro quanto a assistir a aulas[18]. A televisão não compreende nem a leitura nem a
meditação. A meditação exclui a velocidade. Requer vagar, pensar e repensar. E a
meditação ajuda a memória[19]. Mais uma razão pela qual a televisão destrói a memória.
O que os medievais pensavam a respeito de estudo é confirmado por pesquisadores
atuais. É uma sequência de aula e/ou leitura, seguido de meditação e/ou estudo repetido
que produzirá a ciência e o saber. E segundo S. Tomás[20], quando a potência intelectiva
apreende alguma coisa este ato é a inteligência. Quando ordena o que ela aprendeu para
conhecer ou operar alguma coisa, é a intenção, quando persiste na investigação, é
a reflexão. Quando se examina o que se refletiu em razão de princípios certos, é
a sabedoria. O modo de ser da televisão combate tudo isto. A apreensão quase
simultânea de várias imagens e/ou falas é mortal para o intelecto. "O "saber" supõe o uso
da reflexão e do julgamento, a televisão, devido à sucessão rápida e ininterrupta de
imagens luminosas não concede tempo para a reflexão nem para o julgamento; ela só
pode engendrar crenças sem fundamento razoável, ou pior, julgamentos temerários para o
bem ou para o mal". (TURGEON, J.P. - La télévision, p.20, citado por MIRANDA[21])
Segundo Peixoto (1996, p. 180): "A televisão contrapõe-se radicalmente à contemplação.
Em primeiro lugar porque na TV a imagem passa por frações de segundo, sem exigir do
observador a distância que convencionalmente requer um quadro ou uma paisagem.
Assistimos à TV com uma atenção dispersa, sem concentração, apenas deixando que
aquele fluxo ininterrupto nos atravesse". Existe uma hierarquia no saber. Há coisas que
tem mais importância que outras. Assim, o saber teológico e o catecismo estão em
primeiro lugar; a filosofia, que estuda as causas primeiras, em segundo posto, assim por
diante. É próprio do sábio ordenar, segundo Aristóteles. As futilidades da vida não estão
em lugar nenhum, pois nem deveriam ser conhecidas. A televisão dá mais importância às
frivolidades e às inutilidades que os temas mais elevados (se é que são abordados). Nela,
há uma inversão tanto qualitativa, do que se deve saber, quanto quantitativa, do quanto se
deve saber de determinado assunto. Enquanto a hierarquia do saber é como um arco
ogival que aponta para o alto, a televisão é um arco invertido que aponta para baixo.
Segundo Bertrand (1999, p.115), os meios de comunicação “sofrem de uma falta de
hierarquia. Eles deveriam diferenciar melhor as notícias recreativas e importantes, e
privilegiar aquelas que podem afetar a vida de um grupo social, da sociedade de um país a
humanidade”. De acordo com S. Tomás[22], raciocinar é ir de um objeto conhecido a
outro, em vista de conhecer a verdade inteligível. A televisão leva nada a lugar nenhum.
De acordo com Barbosa (2007, p. 4-5): "É a lógica de fluxo que faz também com que todos
os sentidos humanos sejam como que aprisionados pela televisão. Como mostrou Derrick
de Kerckhov (1997) - a partir de um experimento realizado diante de emissões, no qual
procurava exprimir o que gostava ou não em imagens sucessivas que mudavam a cada 15
segundos, experiência gravada e que indicou que todas as alterações foram percebidas no
corpo do pesquisador submetido ao experimento -, a televisão fala, em primeiro lugar,
ao corpo e não à mente. Na sua avaliação, a tela do vídeo impacta diretamente o sistema
nervoso e as emoções dos telespectadores. Portanto, para Kerckhov o regime de
processamento da informação da televisão se realiza na tela. A segunda conclusão do
autor, a partir de seu experimento, é que a televisão é hipnoticamente envolvente.
Qualquer alteração na tela atrai a atenção. Essa fixação não permite a volta do
pensamento, a reflexão. A imagem fica numa espécie de zona de sombra encoberta do
consciente. Portanto, cognitivamente a televisão foi construindo uma linguagem que
desobriga, no momento da emissão, a reflexão" (grifo nosso) Depreende-se do texto,
então, que a televisão não atende à mente e tenta introduzir ideias sem passar pela
reflexão. Isto é extremamente perigoso, pois treina as pessoas, como um cachorro. Ao
abrir uma torneira deixando passar com muita força a água, pouco dela ficará retida na
palma da mão. Segundo Alain Ehrenberg, citado por Tacussel (2001, p.84), a televisão é
uma: “torneira de imagens” Assim é o cérebro, muita informação fará com que pouca coisa
seja retida. Muitos já perceberam e já é quase um chavão que vivemos numa época de
muita informação e pouco conhecimento.

2.6. TELEVISÃO E CONCUPISCÊNCIA


2.6.1 SENSIBILIDADE E CONCUPISCÊNCIA EM
GERAL
A sensibilidade se subdivide em concupiscível e irascível. A paixão pode afetar a
potência do concupiscível gerando a concupiscência da carne e dos olhos. “Porque tudo o
que há no mundo é concupiscência da carne, e concupiscência dos olhos, e soberba da
vida”. (1 Jo 2, 16). As duas concupiscências serão comentadas, em parte, nos tópicos
abaixo. E a soberba da vida é o amor desordenado da nossa própria excelência, de tudo o
que possa enfatizá-la, não importa quão difícil ou duro isso possa vir a ser. É muito comum
este vício nas “celebridades” (ver item 3.1.1). A paixão não afeta o irascível? Sim. Mas, no
caso da televisão não será importante, porque as paixões da faculdade do irascível têm
como objeto o bem ou o mal tomados como árduos. E a televisão “amolece”, leva à
preguiça e não instiga à ação.
2.6.2 CONCUPISCÊNCIA DA CARNE
A concupiscência da carne é o amor desordenado dos prazeres dos sentidos.[23] A vista
é por ele infeccionada, visto ser pelos olhos que começa a sorver o veneno do amor
sensual.[24] A “vista excita os desejos dos insensatos” (Sb 15, 5) “Não lances os olhos
daqui e dali pelas ruas da cidade, não vagueies pelos caminhos” (Eclo 9, 7). Ora, o que faz
ao assistir a televisão é oposto do que é dito, deixa-se os olhos vaguear. A audição é por
ele infectada, quando por meio de conversas perigosas e cantos eivados de moleza
acendem as chamas no amor impuro.[25] A televisão aguça esta concupiscência, pois com
muita frequência municiará os olhos e os ouvidos com imagens e sons perigosos. Neste
sentido, o que Pio XI fala sobre o cinema, serve bem para a televisão: (...) Se nos
entreatos (dos filmes) se acrescentam danças e variedades, as paixões recebem
excitações das mais perigosas, que avultam vertiginosamente.”[26] Pio XII[27], na carta
encíclica MIRANDA PRORSUS (sobre o cinema, televisão e rádio): "Quem poderá dizer
quantas ruínas de almas, especialmente juvenis, provocam tais imagens, que
pensamentos impuros e que sentimentos podem despertar, e quanto contribuem para a
corrupção do povo, com grave prejuízo até da prosperidade da nação?" "Não useis,
porém, a liberdade para dar ocasião à carne." (Gl 6,13)
2.6.3 TELEVISÃO E PORNOGRAFIA
A televisão é infestada de pornografia em todas as suas formas[28], formando um quadro
trágico para a moral, a decência e a modéstia. O Pontifício Conselho para as
Comunicações Sociais (1989) [29] definiu a pornografia (item 9): (...) Entende-se por
pornografia, neste contexto, a violação, por meio do uso de técnicas audio-visuais, do
direito à privacidade do corpo humano em sua natureza masculina e feminina, violação
que reduz a pessoa humana e o corpo humano a um objeto anônimo destinado a uma má
utilização com a intenção de obter gratificação concupiscente.E no item 11 adverte: É
evidente que um dos efeitos da pornografia é o pecado. A participação voluntária na
produção e na difusão destes produtos nocivos deve ser considerada como um sério mal
moral. Além disso, esta produção e difusão não poderiam ter lugar, se não existisse uma
demanda. Assim pois, os que fazem uso destes produtos não só se prejudicam a si
mesmos, mas também contribuem para a promoção de um comércio nefasto. O que
pensar das atrizes de televisão que se mostram indevidamente? E não há a desculpa de
ser uma simulação de um ato. Pois, a mera exposição do corpo já é em si mesma uma
indecência. Diferente da simulação de um assassinato, por exemplo, no qual não houve o
crime. Só por esta razão, a televisão deveria ser apartada dos olhos, como cumprimento
do 6º e do 9º mandamentos.
2.6.4 CONCUSPICÊNCIA DOS OLHOS -
CURIOSIDADE
Uma das concupiscências dos olhos é a curiosidade doentia. A curiosidade é desejo
imoderado de ver, ouvir, conhecer o que se passa no mundo.[30]. Este ver está distante da
finalidade da visão, que é a realidade, volta-se apenas para ver e ver em si mesmo, sem
objetivo último nenhum. O meio se torna o fim. Ora, a televisão atende a esta imoderação.
Por meio dela, acaba-se sabendo das notícias mais inúteis, das fofocas mais abjetas e das
informações mais irrelevantes possíveis. A televisão tanto instiga como busca saciar esta
vã curiosidade que só prejudica a alma. Sobre esta curiosidade, Bossuet
escreveu: Porquanto, tudo isso não mais é mais que uma intemperança, uma doença, um
desregramento do espírito, um entibiamento do coração, um miserável cativeiro, que não
nos deixa tempo de pensar em nós, enfim uma fonte de erros[31] S. Pedro Alcântara
ensina que a curiosidade impede a devoção: Impede o vício da curiosidade, assim dos
sentidos como do entendimento, o que é querer ouvir e ver e saber muitas coisas e
desejar coisas polidas, curiosas e bem lavradas, porque tudo isto ocupa o tempo,
embaraça os sentidos, inquieta a alma e a derrama em muitas partes e assim impede a
devoção.[32] E o papa Francisco: O espírito de curiosidade nos afasta do espírito de
sabedoria, porque ele só está interessado nos detalhes, notícias, pequenas notícias todos
os dias. E o espírito de curiosidade não é um bom espírito: é o espírito de dispersão, de
afastamento de Deus, o espírito de falar muito. E Jesus também vai nos dizer algo
interessante: esse espírito de curiosidade, que é mundano, nos leva à confusão.[33] A
televisão leva o homem a evagatio mentis. Isto acontece quando o homem perde interesse
na finalidade das coisas, dos atos e quer apenas vagar em divertimentos, em futilidades
etc. que não o levam a lugar nenhum. E isto é facílimo na televisão, já que esta não tem
propriamente um norte. Sodré (2001) fala em “espraiamento sensorial”, que é justamente
isto, além de o corpo se esparramar no sofá, a mente se esparrama nas imagens da
televisão. Um exemplo mais agressivo desta evagatio, é a busca frenética de programação
por meio das mudanças de canais (“zapping”). Segundo S. Tomás, a evagatio inclui a
curiosidade e é uma das filhas da acídia. É uma verdadeira “dissipação do espírito”, e a
acídia é uma tristeza da alma[34]. . A televisão, leva portanto, à tristeza. Um exemplo
desta curiosidade doentia na televisão é o “reality show”, que parece ser o apogeu da
abjeção em matéria de programa televisivo. Nele, os participantes devem fazer algumas
provas ou simplesmente conviver numa mesma casa. Há muitos impropérios no linguajar,
relações indevidas, acusações etc. Quanto mais grotesco o quadro maior a audiência.
Evidentemente, o interesse do telespectador por este tipo de programa é a vã curiosidade,
na qual ele quer saber o que o participante “a” disse para o participante “b”, o que fizeram,
o que deixarem de fazer etc. Ora, tais conhecimentos são absolutamente dispensáveis
para a vida. Ver o anexo 4.3: “Reality shows”.

2.7 - VONTADE
A vontade é, no homem, a faculdade mestra, que governa as demais faculdades.[35].
Porém, ela depende do que a inteligência compreendeu, pois será impossível querer algo
que não se conhece. A televisão, como vimos, ataca a intelecção, deste modo ataca a
vontade indiretamente, já que se quererá algo já viciado provocado por um mau
entendimento. Outra razão para o enfraquecimento da vontade é a concupiscência. Já
dizia S. Agostinho : "A concupiscência tomou seus membros, excitou e deleitou sua
vontade no mal”. Além disto, Tanquerey enumera alguns obstáculos[36], de ordem interior
e de ordem exterior, que impedem o homem de tornar a vontade dócil para servir a Deus.
Dentre os primeiros, destacamos dois: Irreflexão. Não pensar antes de uma ação, seguir o
impulso do momento, a paixão, a rotina. Ora, a televisão como já foi explicado é uma
atividade per si irreflexiva, que instiga a paixão, logo será meio ótimo para obstar a
vontade de fazer o bem. Negligência. A preguiça, a falta de energia que atrofia as forças
da vontade. Isso é justamente o que a televisão causa nas pessoas, a preguiça, a má
vontade. Além do que já foi dito, a televisão produz passividade massiva (Mander 1978,
p.349) e suga a vontade das pessoas (Mander 1978, p.158). Dois obstáculos de ordem
exterior: Respeito Humano[37]. Torna-nos escravos dos outros, temerosos de críticas e
zombarias. Em muitos casos, a televisão obriga as pessoas ao seu próprio juízo. Quem
não assiste à televisão é visto como alguém “extraterrestre” e quem não se harmoniza com
as opiniões e as análises da televisão está “por fora”. Maus exemplos. Como o homem
tem necessidade de modelos sociais, os maus exemplos arrastam as pessoas para o erro.
A televisão é mestra nos maus exemplos, quer em função de sua própria natureza que é
anti-intelectual e cultora de falsas ideologias quer pelos “modelos” que promove, (ver
tópico 3.1.1 , o seguinte). Segundo S. Tomás, o objeto da vontade é bem universal[38], a
televisão leva a vontade a desejar coisas fúteis, quando não imorais. Ou ainda a adesão
um “mal universal”, dado o alcance da televisão que generaliza as coisas erradas.

[1] Disponível em <http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0140673604166750>


Acesso em 28 set. 2013.

[2] Disponível em <http://www.biomedcentral.com/bmcpublichealth> Acesso em 28 set.


2013.

[3] Disponível em <http://pediatrics.aappublications.org/content/116/4/851.full> Acesso em


28 set. 2013.

[4]Disponível em <http://enfrentandooautismo.blogspot.com.br/2012/04/relacao-autismo-x-
ver-muita-tv-na.html> Acesso em 28 set. 2013.

[5] Disponível em
<http://moon.ouhsc.edu/dthompso/cdm/ebhc2007/articles/childhood%20tv%20viewing.pdf.
> Acesso em 28 set. 2013

[6]Disponível em:< http://www.columbia.edu/cu/news/07/05/teenTV.html> Acesso em 28


set. 2013
[7] Anderson, Huston, Schmitt, Linebarger, & Wright, 2001; Christakis, Zimmerman,
DiGiuseppe, & McCarty, 2004; Foster & Watkins, 2010; Greenfield, Camaioni, Ercolani,
Weiss, Lauber, & Perucchini , 1984; Linebarger & Piotrowski, 2009; Linebarger & Walker,
2005; Rice, 1984; Rice, Huston, Truglio, & Wright, 1990; Rice & Woodsmall, 1988;
Subrahmanyam & Greenfield, 1994; Wright et al., 2001; Zimmermann & Christakis, 2005;
Zimmermann & Christakis, 2007

[8] Visão, audição, olfato, tato e paladar.

[9] I, Q78, a4. Um bom estudo baseado no Aquinate: O processo do conhecimento


humano em Tomás de Aquino, Marcos Roberto Nunes Costa.

[10] I, q86, a.2. res. 3

[11] Caminho Reto, p. 279, tópico: mortificação da imaginação.

[12]Tanquerey Compendio de Teologia Ascética e Mística. Item 780

[13] Ibidem, item 780.

[14] Livro do Trivium, p. 31

[15] Vigilante Cura, tópico 14.

[16] Tanquerey, Item 785.

[17] Didascalicon, Hugo de São Vitor, L1, C1

[18] Interessante observar que a palavra inglesa “lecture” significa “palestra”, mas a sua
raiz tem origem na palavra “ler”.

[19] Conforme Aristóteles, repetido por S. Tomás.

[20] I, Q. 79, a.10, sol.3.

[21] http://www.montfort.org.br/old/index.php?secao=veritas&subsecao=politica&artigo=tv&l
ang=bra

[22] I, Q.79,a.8,rep.

[23] Tanquerey, item 193

[24] Ibidem item 195

[25] Ibidem item 195

[26] Vigilante Cura tópico 19

[27] Disponível em: http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-


xii_enc_08091957_miranda-prorsus_po.html
[28] Segundo a revista Veja (26/07/1995), no Brasil: “A cada 131 minutos, um termo chulo;
a cada 113 minutos, uma cena de nudez; a cada 145 minutos, uma cena que simula o ato
sexual. Durante uma semana a criança poderá assistir 95 cenas de nudez, 8 palavras
chulas, 90 diálogos maliciosos e 74 atos sexuais”. E a mesma revista em outra
reportagem: uma criança de 5 anos que fique na frente do aparelho duas horas por dia, ao
fim de uma no terá sido exposta aa 1.168 piadas sobre sexo, 7.446 cenas de nudez e mais
12.600 estampidos de tiros” (04/07/1990). O artigo citado é de 1995. Calcule-se o quanto
terá crescido a frequência de exposição da pornografia na televisão nos últimos anos!

[29] PORNOGRAFIA E VIOLÊNCIA NAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS UMA RESPOSTA


PASTORAl http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/pccs/documents/rc_pc_p
ccs_doc_07051989_pornography_po.html

[30] Tanquerey, Item 199

[31] Ibidem. Item 199

[32] P. 119, Tratado da Oração e da Meditação. Petrópolis: Vozes, 2008

[33] Discurso de 14 de novembro de 2013. Disponível em:


http://pt.radiovaticana.va/news/2013/11/14/o_esp%C3%ADrito_de_curiosidade_afasta-
nos_da_sabedoria_e_da_paz_de_deus_%E2%80%93/por-746533 Acesso em 18 nov.
2013.

[34] II-II, q.35, a.4

[35] Tamquerey item 811.

[36] Ibidem, item 812.

[37] Este termo aqui é empregado em sentido estrito, como usado nos manuais de teologia
e não em um sentido “moderno”.

[38] l, lI, q. 2, a. 8:

3.1 CELEBRIDADES, CULTO AO


CORPO, MODA E ESPORTES
3.1.1 AS CELEBRIDADES E O MODELO SOCIAL
É natural aos homens ter como ideal de vida outros homens. São os “modelos sociais”.
Aquiles foi o modelo máximo para os gregos. Na Idade Média, os modelos eram os santos.
No Renascimento, foram os gênios, como Leonardo da Vinci.[1] Hoje em dia, o modelo é a
celebridade, é o jogador de futebol, o roqueiro, o artista de televisão, o apresentador de
telejornal, etc. O nível é tão baixo que seria mais apropriado falar em antimodelos. Ou
seja, o que as celebridades fazem é exatamente o que não se deve fazer. E na televisão,
dentro do ambiente de futilidades que a cerca e ela fomenta, criou-se o culto destes novos
“modelos”. O fenômeno do estrelato consiste em tudo o que é publicamente disponível
sobre astros (...) a imagem de um astro é também o que pessoas, críticos ou
comentaristas dizem ou escrevem sobre ele, e a maneira como a imagem é usada em
outros contextos, propagandas, romances, canções populares e, finalmente, a forma pela
qual o astro se torna parte da conversa diária (...) As imagens dos astros são sempre
extensivas, multimídia e intertextuais. (DYER citado por HERSCHMMAN, 2005, P. 49)
Cuida-se de uma vida vicária. Os fãs vivem, em parte, em função da celebridade. Tudo
que é relacionado a ela faz parte integrante da vida dos fãs. E não basta as fofocas
tomarem conta do dia-a-dia das pessoas, é preciso mais: “(...) tornaram-se o polo de
identificação do espectador contemporâneo que não se conforma mais com a observação,
ele quer entrar na vida do famoso, viver suas experiências, ele quer ser essa outra
pessoa” (SILVA, 2011, p. 75) Curioso notar que, normalmente, cultua-se a celebridade, em
abstrato, e não uma celebridade, em concreto. Assim, se algum “famoso” recair no
ostracismo, perder o “glamour”[2] ou falecer, os fãs vão buscar outra celebridade para
“cultuar”. Há uma satisfação ou gozo pelo “culto” em si mesmo, pouco importando se ele
se consubstanciará neste ou naquele “artista”. Isto é causado pela concupiscência dos
olhos (ver tópico 2.6.4) As celebridades gozam de um prestígio extremo, de modo que
tudo o que opinam, mesmo que não entendam do tema, torna-se importante. Morin (1989),
citado por Silva (2011, p.85): “as celebridades são consultadas sobre todos os problemas,
simples ou extraordinários, e as respostas que dão servem de guia para os crentes nos
caminhos espinhosos da vida” E ainda para Silva (2011, p. 85): O uso do nome das
celebridades nos discursos midiáticos pode ser analisado do ponto de vista da retórica
como argumento ad verecundiam, também conhecido como “apelo à autoridade”.
Citações, frases de efeito ou conselhos ditos por olimpianos (as celebridades) em sua
existência extraordinária são constantemente repetidos por sujeitos não famosos na vida
cotidiana. É como se com isso os anônimos evocassem para si a autoridade dessas
celebridades. É interessante observar que a autora, Dayana Silva, usa bem o nome
“olimpianos” para as celebridades, pois ela associa os “deuses” e ‘semideuses’ da Grécia
antiga aos novos “semideuses”: as celebridades. A televisão ditará, conforme a moda, o
“astro” do momento. “A mídia produz as celebridades para poder realimentar-se delas a
cada instante em um movimento cíclico e ininterrupto” (SILVA, 2011, p.75). Há uma
simbiose: as celebridades aumentam a audiência e esta as cria. Dão-se credibilidade
recíproca, de modo que uma apoiará a outra, realimentando o sistema indefinidamente. A
televisão é uma mídia da fofoca. “esses veículos de comunicação assumem um ritual
midiático fundamentado pela fofoca e pela idolatria” (SILVA, 2011, p. 74) Obviamente, as
celebridades nunca serão exemplo de virtudes. A vida íntima delas, coisa que a televisão
adora revelar, mostra-se sempre permeada pelos vícios. Assim, por exemplo, é raro ver
um “famoso” ter um casamento estável. Normalmente, na vida deles, há uma sucessão de
“casamentos” e “separações”. Outro dado marcante dos famosos é a afetação, que é uma
simulação, uma ausência de naturalidade no agir e no falar. Combina com a televisão,
que é também afetada, por forjar um simulacro da realidade (tópico 1.10). Assim, por
exemplo, os famosos sempre serão vistos fazendo “poses” e rindo artificialmente.
Interessante observar, também, que o que sobra em fingimento nas celebridades, falta em
inteligência e virtude. E há nelas uma verdadeira ostentação de soberba de vida, um
excesso de amor próprio e uma vontade exagerada de “aparecer”, de se mostrar, o que
leva até à exposição indevida do corpo e à pornografia. A televisão é uma caixa de
vaidades. E as celebridades exsurgem como a faceta mais explícita disto. Um exemplo de
programa, que retrata bem esta “soberba de vida” por parte dos “famosos” é o “talk show”
(ver “anexo 4.6”).
3.1.2 CULTO AO CORPO E A “BOA APARÊNCIA”
A televisão estimula como nunca a “corpolatria”. Por culto ao corpo, entende-se um
conjunto de cuidados a serem tomados com o objetivo de se chegar próximo de uma
aparência dita “perfeita”, estabelecida, no caso, pela televisão. Não deixa de ser um ritual,
como uma “religião”. O invólucro corporal torna-se o resultado de uma atenção obsessiva,
com ritos quase religiosos de um culto profano (Courtine, 1995, p. 102). Como apontou B.
Turner (1992), a recompensa pela prática de culto ao corpo não é – como no interior das
práticas religiosas – a salvação espiritual, mas a beleza da aparência que resultaria num
eu mais disputado e com maiores oportunidades sociais: a punição para o não
cumprimento das obrigações relativas aos cuidados de si é aplicada aqui na terra e nesta
vida mesmo.(CASTRO 2003, P. 78) A mídia é “o agente difusor do culto ao corpo como
tendência de comportamento” (CASTRO, 2003, P.18) A todo o momento é buscado o ideal
de um corpo perfeito. Dá-se a entender que o objetivo da vida é o cultivo do corpo e não a
riqueza interior, da alma. Aquele se tornou o centro de referência para o homem conhecer
e interagir com o mundo (KNOPP, 2008, p.6) É claro que devemos cuidar do corpo, é uma
obrigação. O problema é que só se cuida dele e exageradamente, de forma doentia, numa
relação inversamente proporcional aos cuidados com a alma. E há toda uma mercadologia
para servir a isto. Toda uma série de produtos e serviços foi criada para sustentar a
vaidade do culto ao corpo. Knopp (2008, p.10): A mídia e a publicidade, agindo em
conjunto com a indústria da corpolatria, estimulam e reforçam a cultura do culto ao corpo
na sociedade contemporânea. Cirurgias plásticas, academias de ginástica, alimentos
light/diet e cosméticos servem como canais para a obtenção do tão propagado corpo
esteticamente perfeito e atraente, utilizado como instrumento de socialização, competição
e poder. É importante considerarmos que toda a gama de estereótipos corporais
construídos no discurso midiático (e presente no imaginário coletivo) e a apologia ao
consumo têm em comum uma “moral” da aparência. Os atores e atrizes escolhidos para
os papéis principais das novelas são sempre os mais fotogênicos, não se vê muita gente
feiosa na televisão. Até nos telejornais, a “boa aparência” é exigida para os
apresentadores: Eles (os apresentadores) têm em comum um trabalho de composição de
personagem que se articula através de seus corpos e do discurso que produzem sobre si
mesmos e que se configura pela imposição da própria telinha: aparência saudável,
fotogenia, credibilidade e boa aparência. (MARTINS, 2006, p. 131-132, citado por MELO,
2009, p.6) Ora, isto flerta com a eugenia, que é a busca pelo ser perfeito e a apartação dos
imperfeitos do convívio social. Kopp (2008, p.5): Raramente uma pessoa não atraente é
apresentada como garoto-propaganda nos filmes publicitários, justamente por
acreditar-se que a atratividade física aumenta a eficácia do efeito da propaganda nos
telespectadores e, com isso, incrementará a venda do produto anunciado. A atratividade
física tornou-se recurso de persuasão e tentativa de melhoria da atitude do consumidor
para com o produto, com a marca e incremento na sua intenção de compra
(BRUMBAUGH, 1993). A atratividade física é o elemento visível que as pessoas dispõem
e utilizam para formar opiniões e fazer julgamentos acerca da personalidade, status e
posição social de outras pessoas [grifo nosso]. A televisão, que supostamente é
“democrática”, tem na sua programação o sonho dos ideólogos da “raça perfeita”. A
eugenia, pelo menos sua face mais radical, fracassou no mundo, mas no ambiente virtual
da televisão venceu. E azar de quem não tenha a “boa aparência” reclamada pela
televisão. Kopp (2008, p.6-7): Aqueles que não alcançam o padrão de beleza vigente ficam
estigmatizados, desprezados e com menos oportunidades (CASTRO, 2003). “Ou se é um
corpo espetacular ou se é um João ou Maria Ninguém” (COSTA, 2004: 231) 3.1.2 -
MODA NAS ROUPAS A moda, nas roupas, hoje em dia, é marcada pela renovação
acelerada, pelo sucesso efêmero, pela sedução (LIPOVETSKY, 1989). É o apogeu do
fugaz, do passageiro, do apego ao “agora” e da superficialidade. E também, em muitos
casos, da imoralidade. Assim, em um ano, por exemplo, o amarelo será a “cor da moda”,
mas no ano seguinte, o azul se tornará a “cor da moda”. Não há a mínima lógica. A moda
é feita de modo artificial e imposta por capricho. A televisão endossará a irracionalidade
da moda, além de estimular as roupas imorais e deselegantes. Por causa de uma novela
de sucesso, ou de um programa popular, muita gente vai querer usar uma vestimenta
similar à da estrela ou à do astro principal. Ou até mesmo vai querer copiar o jeito de agir e
de se comportar dos “famosos”. Na produção das telenovelas, os figurinistas aproveitam a
construção dos personagens da trama para lançar tendências tanto no vestuário como na
maneira de se comportar e agir, despertando interesses e necessidades de consumo por
parte da sociedade. (OTTONI 2008, p.20) Durand (1988, p.99), citado por Sttefen (2008, p.
2) dá a notícia de que em uma novela de 1979, só porque a atriz principal usava uma calça
de marca “x”, isso fez saltar as vendas da empresa de 40.000 para 300.000 unidades
mensais. A figurinista de uma importante emissora, ao comentar o poder das novelas em
ditar as modas, disse: Quando vi que eu tinha o poder de criar estilos e maneirismos, me
senti uma verdadeira deusa da moda. A ficha caiu logo depois, é claro, quando engoli a
seco a sensação de onipotência (...) passei a curtir a brincadeira de tentar, sempre,
adivinhar o que vai pegar a próxima estação (CARNEIRO, 2003, p.39). E: “o figurinista,
quando vê que suas ideias viram mania, sabe que os louros da criatividade também se
devem aos bons ventos do Ibope, no caso, da novela” (CARNEIRO, 2003, p. 49) Houve
tempo que a moral católica ditava o que se podia ou não usar. Agora é a televisão. Pio XII
ensinou: Moda e modéstia devem andar de mãos dadas como duas irmãs, porque ambas
as palavras têm a mesma etimologia: elas derivam do latim “modus”, significando a medida
certa, e qualquer desvio em uma direção ou outra é considerada não reta, não razoável.
Mas a modéstia não é algo apartado da moda. Muitas mulheres, como pobres, tolas
criaturas que perdem o instinto de autopreservação e a ideia de perigo, e então jogam-se
em incêndios e rios, têm esquecido a modéstia cristã por causa da vaidade e da ambição:
caem miseravelmente em perigos que podem significar a morte de sua pureza. Elas
entregam-se à tirania da moda, mesmo que a moda seja indecente, de forma a não
parecer nem mesmo suspeitarem que isso é inconveniente. Elas perderam o próprio
conceito de perigo: elas perderam o instinto de modéstia. (PIO XII Alocução às meninas da
Ação Católica, 1940). (grifo nosso) Pio XII utilizou a palavra correta: “tirania”. As pessoas
se tornaram cabides ambulantes de roupas que a televisão (ou outro meio difusor)
promove. Não é lícito pensar, é preciso obedecer, é preciso usar o que a “moda dita”. E as
pessoas fazem propaganda para as empresas de graça, fazendo questão de expor a
marca, reforçando a ideia do “todo mundo está usando, também vou usar, é a última
moda”, dando ainda mais poder para o modismo e fortalecendo o liame entre as “grifes” e
a televisão. 3.1.3 - OS DESPORTOS E O FUTEBOL Dentro da lógica do “culto ao
corpo”, das celebridades, do materialismo e da publicidade intensa, a televisão entra em
turbilhão de quatro em quatro anos, por causa das Olimpíadas e da “Copa do Mundo”. A
excitação provocada pela televisão na “Copa do Mundo” é tão intensa que: Para assistir
aos jogos do campeonato mundial de futebol, por exemplo, é preciso se vestir
especialmente para a festa comunhão. A camisa da seleção brasileira, a corneta que emite
grunhidos incessantes ou mesmo as unhas pintadas com as cores da bandeira, tudo
compõe o ritual para se tornar público diante dessas emissões festivas. (BARBOSA, 2007,
P. 7) Há uma intensa louvação dos desportos, os atletas são exaltados ao máximo,
tornando-se “heróis”, ainda que estejam antes a serviço do patrocínio e da vaidade. Os
eventos desportivos são mais espetáculo que esporte: “Os desportos na televisão estão
prisioneiros do espetáculo” (MAÇÃS, 2005, p. 29). Os atletas são artistas (MAÇÃS, 2005,
p.13) É evidente que a prática de atividade física é importante para a saúde e os esportes
são atividades lícitas. Porém, ao exagerar as qualidades dos desportos e de seus atletas,
a televisão leva o telespectador a uma visão distorcida de suas reais características e
qualidades. Curiosamente: (...) um estudo realizado por Tucker (1993,cit. por Escórcio,
1996) demonstrou que os adultos que passam mais tempo a ver programas desportivos
acabam por fazer menos exercício (MAÇÃS, 2005, p. 32) No Brasil, dentre todos os
esportes, o futebol é a grande “paixão” e a televisão incita isto nas propagandas, nos
programas, nas análises dos “especialistas”, etc. Transmite ao vivo (ou em “videotape”)
uma grande quantidade de jogos. Em grande parte por causa da televisão, já há algum
tempo, o ludopédio é um caso patológico para muitos torcedores. Num jogo de futebol
evidenciam-se rivalidades, disputas e desafios entre torcedores. Psicologicamente, o
torcedor da equipe vitoriosa coloca-se em superioridade perante a equipe perdedora e
seus fãs. Pelo menos nesta hora, Zé-ninguém é alguma coisa. (...). Sua equipe vinga por
ele os dissabores da vida. (MARCONDES FILHO, 1988, p. 71) Cáceres (2010, p.72) fez
um estudo no qual entrevistou vários torcedores de futebol em Porto Alegre. Uma de suas
conclusões, que, aliás, confirma o senso comum, é: O nível de identificação do torcedor
fanático e apaixonado com seu clube é muito grande, fazendo derrotas e vitórias do time
se transformarem em vitórias e derrotas pessoais do torcedor. Muitas vezes essa relação
acaba passando de um limite desejável e se tornando disfuncional, causando prejuízos
diretos, inclusive, à saúde do próprio torcedor.

3.2- O FUGAZ, O “FAST FOOD” E A


PAISAGEM
3.2.1 - O FUGAZ
A televisão é o mundo moderno empacotado. Quem assiste à televisão, na realidade,
assiste ao mundo. Toda a corrupção hodierna e toda a mentalidade anticatólica estão
enlatadas na televisão. Um dos aspectos modernos presente na televisão é o da obsessão
pela mudança. A televisão leva as pessoas a entender tudo em termos de processo em
curso. Nada é estável, nada tem valor de definitivo, tudo evolui. Segundo Sodré, citado por
Coelho (1987, p. 23): O indivíduo deixa de existir e é substituído por esse "indivíduo da
estatística", por esse indivíduo-fetiche que é a massa. Para isso concorre ainda o fato de
que, ao invés de produzir a sensação da perenidade, da imortalidade, a TV propõe
exatamente seu oposto: o circunstancial, o efêmero, o passageiro. Nada permanece
na ou pela . TV: da moda ao comprometimento político, tudo passa e tende a perder-se
num magma indistinto — num mosaico onde também o homem se perde (grifo nosso).
Curiosamente há uma inversão dialética, vive-se para este mundo como se ele fosse o
definitivo e as coisas que deveriam não são apresentadas como se definitivas fossem. Ou
ainda, a mudança em si mesma seria boa. Ora, as coisas não boas porque são novas ou
antigas. No primeiro erro, temos a cobiça pelas coisas novas e o culto ao presente que a
televisão fomenta. No segundo erro, temos o passadismo, no qual tudo era melhor no
passado. Ora, as coisas são boas ou ruins em razão de si mesmas, independente do
tempo. A televisão vincula o bom ao tempo, há um culto ao presente (BARBOSA, 2007,
p.10). Interessante observar que a televisão é o oposto do mito da Medusa, no qual quem
olhasse para a górgona restava petrificado, simbolizando a verdade, já que esta é estável
e imutável. Quem olha para a televisão é forçado a cultuar o dueto mudança-presente. A
televisão, desta forma, estimula cabalmente o materialismo. Não somente porque aguça o
consumismo via publicidade, mas como mídia, ela distancia o telespectador da abstração,
levando-o apenas ao concreto, ao presente à mudança e ao fugaz. A morada definitiva,
para os que salvam sua alma, é o céu, a eternidade, a morada de Deus, que não muda, e
não a “eterna mudança” da televisão. Calabrese (1987, p. 59), dentro da lógica da “estética
da repetição” relaciona os programas de televisão com a fabricação de automóveis: um
baixo número de invariantes estruturais, denominadas «modelo-base», um alto número de
invariantes figurativas, um altíssimo número de variáveis reguladas, e, finalmente, um
imenso número dos chamados opcionais, os pequenos pormenores que dão
personalidade ao automóvel. De fato, dentro do culto ao presente, do alto valor dado à
mudança, o que se vê nas ruas são carros com modelos que mudam todo ano. Há uma
obsessão pelo novo, se um modelo permanece igual durante muito tempo, ele será
considerado “defasado”, ainda que seja belo. Algo bem similar à lógica televisiva.
3.2.2 - “FAST FOOD” E TELEVISÃO[3]
Uma combinação mortal para os cinco sentidos é o “fast food” conjugado com a televisão.
É muito comum as pessoas comerem “fast food” assistindo à televisão. A televisão entra
pelos dois sentidos mais elevados: a visão e a audição, o “fast food” se encarrega do
resto. O “fast food” é um tipo de comida preparada e servida rapidamente, em forma de
pizza, pastel, sanduiche etc. A versão no formato “hambúrguer” é a mais comum e a mais
típica. Sua venda é dominada por grandes redes de alimentação, que povoam os
“shopping centers” e muitas ruas. Os “salgadinhos”, aliás, nada saudáveis, também
guardam relação com a televisão, pois ambos não satisfazem e em ambos existe o fluxo.
Os salgadinhos, nos quais é “impossível comer um só”, por serem salgados e temperados
demais, geram um fluxo de comer e comer, que termina não pela satisfação, mas porque o
“pacote” acabou. O “fast food” tem muito das notas da televisão[4]: 1) Ele é veloz: Essa é
sua razão de ser: tem de ser preparado quase instantaneamente. 2) Ele é superficial: não
se esperam sabores intensos e elevados. 3) Ele é voltado para as massas, igualitário. 4)
Ele é ingerido rapidamente, a dentadas. 5) Ele é deselegante, em muitos casos come-se
com a mão. 6) Ele é dominado por grandes empresas. 7) O “melhor” é o que é o mais
vendido. Ele interage diretamente com a televisão, pois há publicidade intensa do “fast
food” nela.[5] O “fast food” funciona como uma reposição de refil ou um recarregar de
bateria. Ele preenche o vazio do estômago da forma mais vil. A televisão preenche o vazio
existencial e o tempo, da forma mais baixa. O “fast food” é a televisão para o paladar. A
televisão é o “fast food” para a visão. Ou ainda: “A televisão é um “fast food” envenenado
para a alma”. Frank Lloyd Wrigh disse certa vez: “a televisão é um chiclete para os
olhos”[6]. Tal frase é interessante também, já que o chiclete - que, aliás, é algo horrível -
pretende dar sabor sem alimentação, quase sem “matéria”. E a televisão dá informação
sem conhecimento. Os dois podem dar gastrite, o chiclete perturba o estômago e a
televisão causa certa “azia espiritual”.
3.2.3 - TELEVISÃO COMO PAISAGEM E
DECORAÇÃO
Em muitos ambientes, vê-se a televisão ligada e pouca gente prestando atenção. Cuida-
se dela como decoração e/ou paisagem. Neste sentido, Barbosa (2007, p.9) afirma: Se
desde a sua implantação, a TV passou a fazer parte da paisagem das pequenas praças
das cidades do interior, nas últimas décadas a materialidade televisão se espalhou por
restaurantes, bares, shoppings, aeroportos, entre dezenas de lugares públicos. Com a
diminuição da espessura do aparelho, torna-se espécie de ornamento na parede de onde
saem imagens agora em alta definição. A realidade parece ser intrínseca à televisão. Só
existe nela e a partir dela. No burburinho dos lugares públicos, a televisão é apenas
ornamento na paisagem e, de quando em vez, telespectadores dispersos se conectam
com as imagens que fluem como num turbilhão. Caleidoscópio de cores que compõe o
cenário e sons que se misturam no ar. Não se sabe mais que sonoridade vem da televisão
e qual faz parte do ambiente urbano. Para Nelson Rodrigues, a televisão matou a janela.
Para alguns, seria uma janela para o mundo, para outros, uma janela para o inferno. Para
Sodré (2002, p.130) a televisão é uma janela para o “disgusto chocante” Não basta a
televisão em casa, ela tem estar no metrô, nos restaurantes, nas repartições públicas, nos
hospitais, etc. A televisão guarda uma relação intensa com a paisagem nas grandes
cidades, que é fragmentada, os prédios não tem relação uns com os outros, tudo é voltado
para as massas, tudo é rápido. E a arquitetura atual é tão superficial quanto a televisão. O
mobiliário urbano, a poluição visual, as publicidades dos “outdoors” nos dão a ideia da
fragmentação, do fluxo contínuo e das “mudanças rápidas”, tudo em sintonia com as
características da televisão. Neste sentido: o mundo de imagens que nos circunda é cada
vez mais cacofônico, desarmônico, ruidoso, proteiforme e pretensioso, as cidades se
tornaram por sua vez mais e mais complexas, discordes, ruidosas, confusas e
massacrantes. Imagens e cidades vão bem juntas. Observem essa quantidade de imagens
urbanas que tudo submergem: placas de sinalização, gigantescos anúncios de neon sobre
os tetos, cartazes e pôsteres publicitários, vitrines, telas de vídeo, bancas de jornais (...).
(WENDERS, 1994, p. 184, citado por SALGADO et. Al. 2005, p. 12) A televisão orna,
também, com os “shopping centers”. Estes estabelecimentos em formatos de grandes
caixotes destinam-se ao consumo. Neles, são criados artificialmente casas, jardins etc. e
busca-se uma limpeza obsessiva, levando a um verdadeiro ambiente artificial. Cuida-se de
um simulacro da realidade, assim como na televisão, neste sentido os analisa Marcondes
Filho (1988, p.46).

3.3 - PUBLICIDADE, PROPAGANDA E


TV
3.3.1 - PUBLICIDADE EM GERAL E TV
Normalmente, distingue-se propaganda de publicidade. Neste sentido, por exemplo,
Benjamin (2002): Não se confundem publicidade e propaganda, embora, no dia-a-dia do
mercado, os dois termos sejam utilizados um pelo outro. A publicidade tem um objetivo
comercial, enquanto a propaganda visa um fim ideológico, religioso, filosófico, político
econômico ou social. Fora isso, a publicidade, além de paga, identifica seu patrocinador, o
que nem sempre ocorre com a propaganda[7] Curiosamente, é mais correto dizer que
os telespectadores é que são “vendidos” para as grandes empresas. A emissora detém
uma audiência, ou seja, uma massa de pessoas que perdem seu tempo na frente da
televisão. Ela vende o tempo dessa massa de observadores para as empresas por um
determinado preço. Os telespectadores são enganados, portanto, pois não ganham nada
em dar o seu tempo aos anunciantes. O dinheiro fica com a emissora. E ainda compram
os aparelhos televisores e os canais ditos “pagos”. Nestas publicidades, que infestam as
televisões, toda a sorte de produtos é anunciada. Como são gastos bilhões de dólares com
propaganda[8], é porque realmente funciona. Nenhuma empresa gastaria tanto dinheiro se
fosse inútil. Ou seja, os telespectadores são influenciados por ela, vindo a sofrer de
consumismo e, em muitos casos, adquirindo produtos inúteis. Segundo Mander (1978,
p.126) as publicidades existem apenas para fornecer produtos de que as pessoas não
precisam. Geram necessidades artificiais. Não é preciso haver um comercial para levar as
pessoas a comprarem o que precisam, elas sabem. As publicidades “pensam” pelas
pessoas, definindo o que elas devem ou não comprar, inverte-se a razão. Para Sartori
(1999, p.130), “o produtor é que produz o consumidor”. E mais, a publicidade corrompe a
relação entre fim e meio. As ações do homem começam investigando a finalidade, depois
passam à escolha do meio e por fim executa-se o plano. A publicidade apresenta os
produtos, que por definição são meio, sem a investigação da finalidade. Desta forma, o fim
servirá ao meio na ordem da publicidade televisiva. Como se ela dissesse: “compre este
bem porque ele tem tais e tais características e resolverá tais e tais problemas”. Porém,
não são abordadas nos comerciais, as necessidades em si mesmas, não há um estudo
acerca da “finalidade”. O correto seria o consumidor pensar em suas reais necessidades,
considerando a “finalidade”. Depois passaria ao exame dos meios para saciá-las, que
seriam os produtos, bens ou serviços. Nesta linha, o consumidor sempre seria ativo e
senhor dos seus atos. Na publicidade televisiva, o consumidor está passivo, bombardeado
constantemente com oferta de “meios”, levando-o a procurar um “fim” para satisfazer o
“meio”, o produto, o bem anunciado. Mander (1978, p.261), no seu quarto argumento
contra a televisão: Juntamente com a venalidade dos que a controlam, a tecnologia
televisiva predetermina os limites do seu conteúdo. Algumas informações são transmitidas
na íntegra, outras apenas em parte e uma parte nem é transmitida. As telecomunicações
mais eficazes consistem nas mensagens e programas fáceis, simples e lineares,
adaptáveis às intenções de quem controla a mídia para fins comerciais. A publicidade
transformou-se no maior trunfo da televisão. Isto não pode ser alterado. Esta tecnologia
implica manipulação. (tradução nossa).
3.3.2 - MATERIALISMO E A ONTOLOGIA NA
PUBLICIDADE
Pela própria natureza das publicidades, elas não existem para fomentar o espírito nem a
riqueza espiritual. Elas atendem ao materialismo. Este, no sentido que estamos usando
em relação à publicidade, pode ser definido como: “uma orientação que considera bens
materiais e dinheiro como sendo importantes para a felicidade e desenvolvimento social de
uma pessoa” (WARD e WACKMAN,1972, p. 54 citados por SANTOS e FERNANDES,
2011, p. 173) Os consumidores adquirem determinados produtos não somente pelo seu
uso prático, mas pelo seu simbolismo: “É comumente aceito pelos pesquisadores de
marketing e do comportamento do consumidor que os indivíduos consomem produtos e
marcas pelas suas propriedades simbólicas, tanto quanto por seus benefícios funcionais
(LEVY, 1959; RITSON; ELLIOTT, 1999, citados por SANTOS e FERNANDES, 2011)” Há
uma inversão da relação do ser com o ter. A visão correta, ontológica, é: eu sou por
isso tenho. A causa é o ser e o efeito é o ter. Assim, por exemplo, um músico terá a
necessidade de ter um instrumento musical porque é músico. A mera posse de um violino
não tornará seu dono um violonista. Na publicidade, temos o inverso: eu tenho por
isso sou. O ter é a causa e o ser é o efeito. A publicidade, como tal, com frequência, vende
a ideia de que a compra de determinado produto fará o consumidor se sentir superior ou
ser alguma coisa diferente. Assim, as publicidades anunciam: “as pessoas inteligentes ou
desportistas consomem isto, então, se você consumir será igual a eles etc”. Marschall
(2003, p.152): “Um objeto carrega em si símbolos, ícones, fetiches, ideologias, fantasias,
sensações, status, alegria, luxo, conforto etc. É imanente ao objeto hoje a sua qualidade
como um bem de sentido social” No mesmo sentido, Rocha (1990, p. 27): O “consumo” de
anúncios não se confunde com o “consumo” de produtos. Podemos até pensar que o que
menos se consome num anúncio é o produto. Em cada anúncio “vende-se” “estilo de vida”,
“sensações”. “emoções”, “visões de mundo”, “relações humanas”, “sistemas de
classificação”, “hierarquia” em quantidades significativamente maiores que geladeiras,
roupas ou cigarros. Há certa magia[9] presente, na qual determinado produto terá a
propriedade de transformar o consumidor em outra pessoa, levá-lo a um nível mais alto
etc. Ora, isto não é verdade, se se comprar determinado produto não se deixará de ser o
que se é. Rocha (1990, p. 25): Como nos mitos das sociedades tribais, também nos
anúncios os animais falam e os feitos mágicos são constantes. Fascina-me o mistério que
faz com que não nos assuste a economia do seu jogo simbólico. Entre nós, na sociedade
da razão, um compromisso silencioso e tácito de acreditar no impossível. E, assim, o
anúncio vai costurando uma outra realidade que, com base nas relações concretas de vida
dos atores sociais, produz um mundo idealizado. A felicidade está na contemplação da
verdade. Na publicidade, altera-se a definição da felicidade para a posse de bens
materiais. O consumismo causa dois tipos de insatisfação: 1) Provocada pela ausência do
bem. O consumidor não pode comprar determinado produto e por isso fica angustiado e/ou
triste. 2) Provocada pela insuficiência das qualidades do bem adquirido. Após a aquisição
de determinado bem, há uma euforia, depois passa logo, esgota-se. O produto não é “tudo
aquilo”, “esperava-se mais dele” etc. Como os bens nunca satisfazem totalmente, o
consumidor partirá para outra compra, depois para outra e assim por diante, podendo
chegar a um consumismo desenfreado. Funciona como uma água salgada, que dá a
impressão de saciar, porém, quanto mais se bebe mais dá sede.[10] O que sacia o ser
humano são os bens espirituais. Se ele fulcrar a sua vida nos bens materiais será sempre
infeliz.
3.3.3 - PUBLICIDADE E AS CRIANÇAS
Em relação às crianças, o quadro é trágico, pois elas estão indefesas ante os anúncios.
Setzer (2009) comentando o trabalho de Susan Linn: Susan Linn Crianças do Consumo: a
infância roubada (Linn 2006), onde ela expõe a situação da propaganda dirigida para
crianças. Por exemplo, ela cita algo muito interessante: as empresas de propaganda
fazem mais pesquisa em psicologia do que as universidades e institutos de pesquisa –
para descobrirem como empurrar seus produtos. Ela revela que, se um produto é dirigido a
alguma idade, a propaganda televisiva mostra crianças alguns anos mais velhas, pois
crianças sempre querem ser mais velhas. Ela mostra também como certas propagandas
induzem uma mentalidade totalmente errada, como por exemplo uma com o grotesco
palhaço, que leva crianças para um concerto, para um museu, e outros locais culturais,
onde se as vê bocejando de monotonia. Aí ele as leva a uma lanchonete e as crianças
aparecem felizes, brincando, gritando, etc., obviamente comendo o típico junk food lá
oferecido. Uma total inversão de valores! Outras propagandas são dirigidas explicitamente
para ensinar as crianças a chocarem-se contra os pais, para convencê-los a comprar o
que elas querem. Ora, tudo isto é um absurdo e “rouba” um pouco da inocência das
crianças. As grandes empresas não estão preocupas com a saúde psicológica delas, mas
sim com lucros. Linn (2006) em outro ponto : A sociedade industrial está fazendo tudo para
quê as crianças evitem de brincar, fazendo estas passarem muitas horas em frente a tevê.
É importante se levantar contra as corporações que afetam a vida das crianças e seus
prejuízos. Pra mim a luta é por uma campanha livre de publicidade infantil e para que as
crianças desenvolvam sua criatividade livremente. A brincadeira é que faz as crianças
felizes. A publicidade desloca o foco da brincadeira para obtenção de determinado
produto. Então, em vez das brincadeiras, a mera obtenção de determinado bem é que
satisfaria as crianças. Segundo Linn (2006) as publicidades também podem diminuir a
criatividade das crianças, já que nas suas brincadeiras, os brinquedos são apenas 10%
por cento e a criatividade são os outros 90%. A publicidade subverte esta lógica infantil.
3.3.4 - PUBLICIDADE, PROPAGANDA E
IDEOLOGIA
Ante o exposto, parece claro que a publicidade é uma propaganda, pois é inerente a ela
um materialismo, uma visão de mundo na qual o importante é ter determinados produtos
para ser feliz ou ser igual ou similar ao famoso, ao desportista, ao cantor etc. Qualquer que
seja a publicidade, ela é propaganda de uma ideologia. Ideologia é um conjunto de
pensamento divorciado da realidade. Assim, o comunismo é uma ideologia, pois está
dissociado da realidade. No mundo da propaganda tudo pode ser perfeito pela posse dos
bens materiais. Neste sentido, Rocha (1990, p. 25): Mundo onde produtos são sentimentos
e a morte não existe. Que é parecido com a vida e, no entanto, completamente diferente,
posto que sempre bem sucedido. Onde o cotidiano se forma em pequenos quadros de
felicidade absoluta e impossível. Onde não habitam a dor, a miséria, a angústia, a questão.
Mundo onde existem seres vivos e, paradoxalmente, dele se ausenta a fragilidade
humana. Lá, no mundo do anúncio, a criança é sempre sorriso, a mulher é sempre desejo,
o homem plenitude, a velhice beatificação. Sempre a mesa farta, a sagrada família
reunida, a sedução. Mundo nem enganoso nem verdadeiro, simplesmente porque seu
registro é o da mágica. Ora, a vida não é assim, há tristezas e alegrias nela, enquanto nas
propagandas só há alegria. É propriamente uma utopia. E ainda para Rocha (1990, p. 26):
O discurso publicitário fala sobre o mundo, sua ideologia é uma forma básica de controle
social, categoriza e ordena o universo. Hierarquiza e categoriza produtos e grupos sociais.
Faz do consumo um projeto de vida.
3.3.5 - PROPAGANDA POLÍTICA
A propaganda política na televisão se revela trágica. De quatro em quatro anos, é
anunciada uma classe de produtos para consumo instantâneo: os políticos. A propaganda
televisiva trata os políticos como “produtos”, são anunciadas as suas qualidades, suas
características, o que eles podem fazer ou não. Determinados consumidores, ditos
“eleitores”, fascinam-se pelas qualidades do produto eleitoral e fazem sua aquisição que
se substancia num apertar de botão num computador especialmente projetado para a
finalidade, dito “urna eletrônica”.[11] Os destinatários dos votos são como um “fast food” de
baixa qualidade que se consome rapidamente, ou como um programa de celular barato
que é “baixado”, ou ainda como um “gadget” defeituoso. Ou seja, não cumprem com o
prometido, trata-se sempre de propaganda enganosa. A diferença é que no caso de uma
comida estragada, ou de um produto com defeito, consegue-se a devolução do dinheiro ou
a troca do bem. Na política, é necessário esperar quatro anos para efetuar a “devolução”.
Uma digestão difícil e longa. O problema é que todos os políticos se parecem demais, é
sempre “mais do mesmo”. Troca-se de produto, ou de político, e eles continuam com os
mesmos defeitos. Isto sem falar na “amnésia coletiva”, na qual todos os erros dos atuais
governantes são esquecidos e o voto é repetido. De quatro em quatro anos é a mesma
rotina e assim finge-se que existe democracia. Interessante observar que as onze
características da televisão (tópico 1.3) estão presentes na propaganda política: a) Há
informação visual: logotipos, cenários, “santinhos” etc. b) Imediatismo: a propaganda
eleitoral só vale para aquela eleição, passado o dia da votação, torna-se inútil. c) A
propaganda tem de alcançar muita gente em todo lugar, para maximizar a quantidade de
votos. d) Índice de audiência: sempre são feitas as pesquisas para saber a opinião dos
eleitores, quem está na frente etc. e)Envolvimento. Se a propaganda não comove o eleitor,
não funcionará. f) Instantaneidade: as propagandas tem hora para passar na TV. g)
Superficialidade. O programa dos candidatos é sempre mostrado com superficialidade,
mesmo porque não há nada de elevado a ser veiculado. h) Fragmentação. Os programas
eleitorais se alternam uns aos outros. i) Mudança rápida. Os políticos são mestres em
mudar de assunto (e de opinião) rapidamente. j) Repetição. É regra. Até parece que um
programa político copia o outro. Reitera-se sempre a mesma demagogia. l) Fluxo
constante: o fluxo de bobagens é constante e não quer ter fim.

3.4 - ANTIPAIDÉIA, NOMADISMO E


PAGANISMO
Diz Jaeger (1995), que os gregos deram o nome de Paidéia: “A todas as formas e
criações espirituais e ao tesouro completo da sua tradição, tal como nós o designamos
por Bildung ou pela palavra latina, cultura" Daí que, para traduzir o termo Paidéia "não se
possa evitar o emprego de expressões modernas como civilização, tradição, literatura, ou
educação; nenhuma delas coincidindo, porém, com o que os gregos entendiam por
Paidéia. Cada um daqueles termos se limita a exprimir um aspecto daquele conceito
global. Para abranger o campo total do conceito grego, teríamos de empregá-los todos de
uma só vez." (Jaeger, 1995, p.1). Os gregos compreenderam também, dentro do conceito
de Paideia, que não existe nada neutro: ou as coisas formam ou deformam. Mesmo que se
diga que, na televisão, não se está formando, mas são só trazendo informações “neutras”,
isto não é verdade. Segundo Eco (1990, p. 381-2) citado por Guimarães (2003, p. 32), toda
mensagem indica alguma coisa. Não considera apenas os processos de denotação, mas
todos os processos de conotação, mesmo se a intenção referencial tende a reduzir ao
mínimo o campo semântico que se cria em torno de um signo e a enfocar a intenção do
receptor sobre um único referente. Confrontando o termo paidéia com o que dissemos
sobre televisão vemos que ela é uma antipaidéia feita, portanto, para deformar. Ela atenta
contra a tradição, pois dá valor somente para o momento, para o fugaz e não cultiva a
memória. Em relação à pedagogia, ela deseduca, pois ataca a intelecção. Uma das razões
pelas quais a televisão é, além de tudo, antipedagógica é por causa do abuso das
imagens. Estas, como já foi explicado, são poderosas e não exigem esforço mental para
sua compreensão, atrapalhando a intelecção. Piazzi (2008) diz que o uso da televisão é
inversamente proporcional ao aprendizado. Ela é contra a arte (ver tópico 3.8), demole a
estrutura narrativa, oposta ao trivium, etc. A televisão é “nômade” (Peixoto in Novaes,
1999, p. 77), por isso é contra a cultura. Cultura é uma palavra que pode designar tanto o
trato da terra para produção de espécies vegetais úteis ao consumo do homem, quanto
o complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e
todos os outros hábitos e capacidades adquiridos por certa sociedade. Isto não é apenas
uma coincidência terminológica. As grandes culturas da história foram produzidas por
povos não nômades. Quanto mais selvagem é o povo, mais nômade ele é. O selvagem,
quando vê esgotado o espaço que o cerca, busca outro local para satisfazer suas
necessidades. Ele vive o instante, sem se preocupar com o futuro, por isso não edifica
cidades nem cria artes elaboradas, nem tem vocabulário rico, às vezes, nem possui
escrita, nem valoriza a tradição. Tende ao materialismo mais tosco e baixo. A televisão ao
buscar o instante e o presente, ao não valorizar a tradição, ao trocar as imagens
freneticamente, ela é nômade, ela não se fixa num tema, ela rodeia, ela esgota
rapidamente os “recursos” de certo assunto e/ou imagem e parte para outras temáticas. A
televisão não permite que haja construções sólidas de saber na mente das pessoas, ela
faz com que haja somente “tendas” precárias de conhecimento que podem ser derrubadas
facilmente por qualquer brisa de informação. Dizia-se que havia pessoas que eram o
“último livro lido”, hodiernamente, há pessoas que são o “último programa assistido”. Em
outras palavras, ela é a estética do selvagem, da anticivilização, do nomadismo. A
televisão tem muito de paganismo. Os mitos pagãos eram sempre circulares, pois faltavam
neles a noção de finalidade.
Segundo Hugo de São Vítor:Aquele que diante de uma multidão de livros não guarda o
modo e a ordem da leitura, é como que andando em círculos no meio de uma densa
floresta, perde-se do reto caminho. É de pessoas assim que a Sagrada Escritura diz que
estão sempre aprendendo, mas nunca chegam ao conhecimento da verdade (Didascalicon
V)
Exatamente como é a televisão que, com um monte de informações desconexas e sem
hierarquia, faz as pessoas andarem em círculos. Como a televisão perverteu o conceito
de fim, ela é circular. Nada nela termina, sempre volta ao começo. É um
“ouroboros”[12] tecnológico. Ela encerra a ideia do perpétuo retorno, no qual o início é
igual ao fim. As novelas nunca terminam, pois quando uma acaba, começa outra similar.
As tramas são requentadas, os atores mudam, mas os personagens não. O futebol nunca
termina, todo ano acontecem os mesmos campeonatos. No telejornal parece ser ainda
mais nítida a circularidade, pois nele, flagrantemente, o meio é a mensagem. Como se
alguém lesse o mesmo livro indefinidamente. Ou ouvisse a mesma música sem parar.
Outro dado que reforça isto é que, como a programação de televisão nunca termina, o
telespectador desliga o aparelho porque ele se cansou ou quer dormir e não em razão de
um começo, meio e fim. Calabrese (1987) fala em “estética da repetição”. E para Garcia e
Martinez (2009, p. 50): “A ficção televisiva, assim como o relato jornalístico, tende à não
conclusão. Os pontos de informação essencial que marcam o ritmo tendem a não fechar a
história”

3.5 - O GROTESCO, O “ÍNDICE DE


AUDIÊNCIA” E A VIOLÊNCIA
3.5.1 - GROTESCO E “ÍNDICE DE AUDIÊNCIA”
Se a televisão é tão ruim, como se pretende mostrar neste trabalho, porque ele gera
audiência? Justamente porque é ruim que gera audiência. Se a televisão só mostrasse
conteúdo inteligente, ela teria mínima assistência. Por causa do pecado original, todos nós
temos tendência para o mal. Tendência para tudo que é grotesco e sujo. A televisão
explora isto. Criou-se uma simbiose, o homem moderno se alimenta da sujeira da televisão
e esta se alimenta da sujeira do homem. A televisão, por causa da audiência, oferece o
que se quer ver. Nas salas informatizadas das redações das TVs comerciais,
computadores oferecem os resultados da medição instantânea do Ibope, permitindo
acompanhar qualquer mudança de pontuação nos programas veiculados. Essa
monitoração, minuto a minuto, permite que se identifique com clareza que tipo de assunto
dentro do programa faz a audiência aumentar ou diminuir, levando o público a mudar de
canal (VIEIRA BARBOSA, 2005, p.73). Os programas podem ser tirados do ar em razão
da audiência: É o critério do índice de audiência – definidor do valor da inserção comercial
– que garantirá, ou não, se um programa terá sucesso de público ou se, em caso contrário,
deverá passar por reformulações ou, mesmo, ser tirado do ar. Um ponto a mais no Ibope,
instituto de pesquisa privado que praticamente exerce o monopólio sobre a aferição de
audiência da TV no Brasil, significa o acréscimo de milhares de telespectadores. Quanto
mais pontos, mais público para o programa e, conseqüentemente, maior visibilidade para
os produtos ou serviços anunciados (VIEIRA BARBOSA, 2005, P.107) E ainda Vieira
Barbosa (2005, p. 86): O produtor norte-americano Tom Naughton, responsável por séries
de programas educativos para a tevê a cabo, fez uma séria crítica sobre o conteúdo da
programação colocada à disposição dos americanos: “Televisão não tem nada a ver com
educação ou com a oferta de notícias e informação. Televisão tem a ver com contar
estórias e manter a maior audiência pela maior parte do tempo. Os profissionais da tevê
farão qualquer coisa que puderem para conseguir isso”. Ou seja, mesmo que haja um
programa de alto nível, se ele não tiver audiência, será retirado do ar. Sodré (2002, p.133):
“A audiência, não é vítima, e sim cúmplice passivo de um ethos a que se
habituou.” Ethos esse totalmente corrompido. Parece que quanto mais grotesco é o
programa, mais audiência tem. Isto pode ter algumas razões: 1) Pela própria atração do
grotesco, em razão do ser humano procurar só baixezas em decorrência de sua natureza
decaída. 2) Pela satisfação em saber dos infortúnios que os outros sofrem. O famoso
“pimenta nos olhos dos outros é refresco”. É uma inversão da misericórdia e da caridade.
3) Para vender mais produtos, por contraste. Assim, um mundo grotesco é apresentado,
mas a propaganda dos produtos espetaculares salvará o telespectador deste mundo
sanguinolento. A televisão, ao incitar a visão do grotesco, briga com a “bem aventurança
da misericórdia” e estimula o pior lado do homem.
3.5.2 - VIOLÊNCIA
Muito se estuda sobre a relação da televisão com a violência. Gerbner, citado por Rangel
(2004, p.54), fez as contas e descobriu que: a violência prevalece em oito de cada dez
programas. Além do mais, uma média de cinco ou seis incidentes violentos ocorrem a
cada hora. E nos desenhos, os preferidos das crianças? Estes contêm mais violência –
pelo menos dezoito atos de agressão a cada hora. Segundo os parâmetros de pesquisa
norte-americanos, um pré-adolescente com doze anos de idade já terá assistido na vida,
em média, a pelo menos 100.000 atos agressivos na TV. A televisão contribui para a
violência? Segundo boa parte dos estudos feitos nos Estados Unidos, sim. Rangel (2004,
p. 52) nos dá a informação de que: National Commission on the Causes and Prevention of
Violence foi a primeira a concluir, baseada em revisão de literatura disponível, que a
televisão é um dos muitos fatores que contribuem para o comportamento agressivo ou
transgressivo. Outro exemplo é o Surgeon General’s Scientific Advisory Committee on
Television and Social Behavior que concluiu, baseado em novos estudos, que o
comportamento agressivo ou anti-social de pelo menos uma parcela de jovens
telespectadores aumentou através da violência na televisão. O relatório do National
Institute of Mental Health confirmou o impacto da violência na TV em um comportamento
agressivo subseqüente dos telespectadores. O relatório da American Psychological
Association concluiu, dentre outras coisas, que o conteúdo da TV americana contém um
padrão de violência bastante elevado. Segundo o relatório, este quadro tem persistido
durante anos, demonstrando, também, uma clara evidência de que a violência exibida
quotidianamente pode influenciar atitudes e comportamentos agressivos. E por que a
televisão mostra tanta violência? Setzer (2009) sustenta: Pois bem, juntemos a grosseria
da imagem aos sons berrantes e ao excesso de movimentos. O resultado é… violência!
Violência é o que a TV transmite melhor! Note-se como os esportes violentos, como o
Futebol, ou os movimentados como o Basquete, são apreciados. E note-se como um jogo
de tênis é monótono, apesar do esforço dos operadores das câmeras e do diretor de
imagem. Cremos que a grande atração da transmissão das corridas de Fórmula 1 é a
expectativa de um grande acidente - e quanto mais grave, melhor. O ideal é se o carro
espatifar-se, pneus voarem para o alto, sendo uma explosão o máximo do que os
telespectadores querem apreciar. Note-se o que ocorre depois de um desses acidentes:
passa-se a repetir seguidamente as imagens do mesmo – afinal, aí é que a TV atinge o
máximo da adequação do transmitido às características do aparelho e ao estado do
telespectador. Em oposição, imagine-se a chatice que seria assistir pela TV um jogo de
xadrez. Há também muita exibição da violência por causa da audiência. “Em meio à
disputa feroz pela audiência, sob a permanente pressão das pesquisas do Ibope, a tevê
acaba recorrendo ao sensacionalismo, com o estímulo ao consumismo e a
espetacularização da violência.” (VIEIRA BARBOSA, 2005, p. 107)

3.6 - TELEVISÃO E FAMÍLIA


3.6.1- TELEVISÃO E “FAMÍLIA UNIDA”
Algum tempo atrás, quando a televisão era custosa, era mais comum haver apenas uma
na casa, que ficava na sala principal. Muitas publicidades exploravam este fato,
sustentando que isto era bom, pois as famílias ficariam unidas por causa da televisão.
Justamente porque as famílias ficariam juntas por causa da televisão era ruim. As famílias
têm de ficar juntas por outras razões mais elevadas. Hodiernamente, é bastante comum
cada quarto de uma casa ter sua televisão. Na realidade, a televisão pode unir fisicamente
a família, mas acaba por separá-la moral e psicologicamente. Pio XII já alertava para seus
perigos. A televisão atomiza as pessoas, a relação é sempre “TV-indivíduo” e não “TV-
família” ou “TV-conjunto de pessoas”. Neste sentido: O homem apaixonado pela televisão
recusa-se a dar seu tempo e seu coração àqueles que o cercam; durante horas, ele
prefere apiedar-se ou alegrar-se com situações fictícias ou longínquas; ele priva, assim,
seu próximo da compreensão e da simpatia que tem para oferecer. É aí que começa o
processo da separação e da solidão... Vivendo diante de seu aparelho de televisão, o
telespectador dá as costas aos outros. (TURGEON, J.P. - Le telespectateur, G-13, citado
por MIRANDA)[13]. Disse certa vez, David Frost: "Televisão é um invento que permite que
você seja entretido na sala por pessoas que você não deixaria entrar em sua casa." Assim,
pessoas estultas, imorais, grotescas farão parte de seu convívio familiar dentro de uma
caixa de vaidades, a televisão. Dirão o que se deve vestir, o que se deve comer, o que se
deve pensar e falar, etc. “más companhias corrompem bons costumes” (1 Cor15, 33)
Exemplo de um programa que atenta violentamente contra as famílias: telenovelas.
Segundo a “Wikipédia”: Cuida-se de uma história de ficção desenvolvida para
apresentação na televisão. Ela tem a característica de ser dividida em capítulos, em que o
seguinte é a continuação do anterior. O sentido geral da trama é previsto inicialmente, mas
o desenrolar e o desenlace não. Durante a exibição – que pode levar de seis a dez meses,
em episódios diários –, novos rumos e personagens podem ser
inseridos.[14] Melodramática, irracional e completamente imoral. Padre Paulo Ricardo
(2012), com toda razão, mostra que as novelas são um meio para moldar o
comportamento social e destruir as famílias. É uma forma de “engenharia social”.[15] Ver
anexo 4.1: Telenovelas.
3.6.2- TELEVISÃO E CRIANÇA
A televisão é mais nefasta ainda com as crianças. Afastá-la dos programas
inconvenientes é obrigação grave para os pais, conforme ensinou Pio XII na
encíclica Miranda Prorsus: (...) afastá-los (as crianças) dos programas inconvenientes,
incumbem, como grave dever de consciência aos pais e aos educadores(...) Uma pequena
porção de fermento corrompe toda a massa". Se na vida física dos jovens um gérmen de
infecção pode impedir o desenvolvimento normal do corpo; quanto mais, um elemento
permanentemente negativo na educação poderá comprometer o equilíbrio espiritual e o
desenvolvimento moral! E quem não sabe como, tantas vezes, a própria criança que
resiste ao contágio de uma doença na rua, se mostra falta de resistência se a fonte do
contágio se encontra na própria casa? E é obrigação ensinada pelo próprio Cristo: “E
qualquer que escandalizar um destes pequeninos que crê em mim melhor lhe fora que lhe
pusessem ao pescoço uma mó de atafona, e que fosse lançado ao mar “(Mc 9, 42) Ora,
nos programas atuais os pequenos são escandalizados a toda hora. A abjeção chega a
atingir níveis inacreditáveis. Danças imorais são ensinadas às crianças, “jingles” infames
são impostos aos lábios infantis. Até mulheres de má vida tornaram-se apresentadoras de
programas para crianças. Sobre as apresentadoras, comentam Morassi e Matos (2001, p.
5),: Observamos que o corpo e as vestimentas são assim representados: sapatos de
saltos altos, roupas colantes, decotes, mini-saias, tomara-que-caias, maquiagens, roupas
coloridas.” Segundo as mesmas autoras, a televisão promove a erotização precoce das
crianças. A televisão ensina às crianças que o vício é a virtude e a virtude é o vício. Todo
dia, em vez dos pais, as crianças são doutrinadas por outras pessoas. Dorr cita por
exemplo a comparação do político norte-americano S. I. Hayakawa: Suponha . . . que suas
crianças . . . sejam roubadas de você por três a quatro horas por dia por um poderoso
feiticeiro. Este feiticeiro é um contador de histórias e um fabricante de sonhos. Ele toca
músicas encantadoras, ele é uma fonte infalível de entretenimento. Ele faz as crianças
rirem, ele ensina músicas para cantar, ele sugere boas coisas para comer e brinquedos
maravilhosos para seus pais comprarem. . . . O feiticeiro é sempre fascinante, tanto que
[as crianças] sentam à sua frente como se estivessem drogadas, absorvendo mensagens
que seus pais não formularam e frequentemente desconhecem (Dorr, 1986, pp. 64-65
citado por Fragoso, 2000, p.1) Em relação ao prejuízo que a televisão causa à atividade
cognitiva das crianças, além do que foi dito no tópico 2.1.3, gostaríamos de destacar os
seguintes estudos: Linda Pagani (2013)[16], em estudo feito com quase 2.000 crianças de
dois anos, relacionou o uso intenso da televisão (mais de duas horas por dia) com o
empobrecimento do vocabulário, diminuição das habilidades matemáticas, queda no nível
de atenção, entre outros problemas. Isto confirma outro estudo feito pela mesma
pesquisadora em 2010, no qual ela diz que: “mesmo uma pequena exposição à televisão
nessa idade (dois anos) pode atrasar o desenvolvimento infantil”.[17] Neste estudo, a
pesquisadora acompanhou um grupo de pouco mais de 1300 crianças de idades de dois
anos e meio a quatro anos e meio até quando estas mesmas crianças completaram dez
anos. Iniciou-se em 1997 e 1998. Foi solicitado aos pais que relatassem o quanto as
crianças viam de televisão aos dois anos e meio de idade e de novo aos quatro anos e
meio. Quando as crianças completaram dez anos foi feita uma inquirição para saber seu
desempenho escolar. Linda Pagani (2010), afirmou: “Pensávamos que os impactos
negativos da exposição precoce à televisão desapareceriam com o tempo. Não foi bem
assim. Em classe, os bebês mais expostos à televisão tornaram-se crianças menos
autônomas, menos perseverantes e menos hábeis em termos sociais”. Ou seja, a televisão
é uma bomba de efeito retardado para crianças de tenra idade. Na França foi proibida a
programação voltada para crianças de até três anos de idade, sob a justificativa de que a
televisão nesta faixa etária é prejudicial ao desenvolvimento delas.[18]

3.7- MASSA E FASCISMO


3.7.1- IGUALITARISMO, MASSA E POVO
O metrô, tão comum nos grandes centros, é destinado ao transporte subterrâneo de
massas de pessoas para destinos já previamente definidos. A televisão é como um metrô,
que de forma sub-reptícia, é um meio de transporte de massa com um destino já definido:
Idiotização. A televisão é voltada para o grande público e visa atrair o maior número
possível de telespectadores. Ora, as pessoas são desiguais. As inteligências são variadas,
os interesses e os hábitos são diversos. Como fazer programas adequados para todas
elas? Impossível. Logo, os possíveis programas de alto nível são evitados. A programação
é voltada para um nível mínimo de exigência intelectual. Este nivelamento perverte a
inteligência e fomenta o igualitarismo porque dará para espectadores diferentes o mesmo
programa. “A programação é, cada vez mais, ditadora de moda de uma nota só”.(
FURTADO, citado por SOUZA, 2004, p. 55). Na comunicação do grotesco, Sodré, citado
por Caldas (2008, p. 29) ressalta o problema: O código que rege a produção das
mensagens de massa tem de se tornar mais pobre para aumentar o índice de percepção
por parte dos receptores. E isto implica, com frequência, num empobrecimento da
mensagem com relação à original (da cultura elevada)” (1971:16). E ainda Mander (1978,
p. 261): “As telecomunicações mais eficazes consistem nas mensagens e programas
fáceis, simples e lineares”. De acordo com a lição do papa Pio XII, as massas são movidas
pelas paixões e o povo é movido por princípios. As massas são facilmente influenciadas
por pressões externas, o povo não. Ora, fica claro que pelo foi exposto que a televisão cria
a massa, harmoniza com ela e destrói o conceito de povo. Segundo Mander (1978), a
televisão prepara o terreno para um governo autocrático. Tenta-se imbecilizar a população,
fazendo-se ela acreditar no que a televisão quer que se acredite. Esta diz o que precisa
ser consumido e adquirido, o que se deve pensar, qual música se deve ouvir, quais as
notícias mais importantes, o que se deve comentar nas rodas de amigos etc. Ou seja, a
televisão é um instrumento de comando e controle. Os contatos entre elas além de formais
e contratuais, não exigem um sentido moral , uma vez que a ética encontra-se em declínio.
Enquanto não há uma estrutura moral apropriada e valores consistentes, uma ordem
espúria e ineficaz surgirá e as pessoas irão se voltar para uma falsa moral. O que
agravaria a crise moral da sociedade. Nesse contexto, a cultura de massa funciona como
uma das principais fontes de moral ineficaz. Sem organizações mediadoras os indivíduos
tornam-se vulneráveis , manipulados e explorados pelos meios de comunicação e
pela cultura de massa.(BRANDÃO[19],2002, pg.1, citado por LANTELME DA SILVA,
2005, p. 13). (grifo nosso). E ainda, Baudrillard, citado por Tucussel (2001, p.84): “A TV é,
pela sua presença mesma, o controle social a domicílio”.
3.7.2 - FASCISMO E DEMOCRACIA
A televisão é antidemocrática. É uma contradição do mundo moderno, já que ele cultua
obcecadamente a democracia. Todo o conteúdo da televisão é monopolizado por grandes
empresas. No Brasil: Seis grandes empresas de mídia controlam, praticamente, todo o
mercado de TV no Brasil, que gira mais de U$3 bilhões por ano.[20] Nos Estados Unidos:
Seis grandes empresas controlam 90% da mídia., e 70% do conteúdo das televisões a
cabo. No mundo seriam pouco mais de 20 empresas que controlam a maioria da mídia. E
outras grandes empresas financiam a televisão, por meio de publicidade. Onde está a
democracia nisto? Pela própria natureza da televisão, as pessoas não tem como fazer
seus próprios programas nem tem como fazer propaganda do que quiserem. Não se tem
nem o comando do tempo: A televisão não é alternativa. Ela é tirana, o que é muito ruim.
Ninguém assiste ao telejornal na hora que quer, a não ser uma camada específica que tem
seu videocassete. Todos nós assistimos àquilo que o “gênio de plantão” decide – “gênio de
plantão” é o nome que dou àquele sujeito que manda na programação das televisões;
função que até já exerci. Então, o telejornal tem que ser assistido às oito horas (WALTER
CLARK, citado por SOUZA, 2004, p.57). (grifo nosso). A televisão na sua forma atual, na
realidade, é um instrumento fascista. A diferença entre um Estado fascista e um Estado
socialista do tipo marxista, é que o primeiro executa um projeto socialista imoral e
anticatólico, por via indireta e o segundo viabiliza o mesmo projeto pela via direta do
Estado. Os meios de comunicação de massa, assim, funcionariam como um sistema para
comunicar mensagens e símbolos às massas em geral – com a missão de divertir, entreter
e informar, como também de inculcar nos indivíduos valores, crenças e códigos de
comportamento que os integrarão em estruturas institucionais da sociedade mais ampla.
Fica mais fácil perceber as características do sistema quando as alavancas do poder estão
nas mãos de uma burocracia estatal e se recorre à censura oficial. Elas se tornam menos
perceptíveis quando a mídia está nas mãos da iniciativa privada e inexiste a censura
formal, ostensiva. (FERREIRA in NOVAES et al, 1999, p.159) Goldberg (2009, p.326)
sustenta: “É razoável dizer que relações incestuosas entre corporações e governos são
fascistas”. Este autor chama este liame de “barganha fascista”. O fascismo definido por ele
é: Uma religião de Estado. Ele presume a unidade orgânica do corpo político e almeja um
líder nacional afinado com a vontade do povo. É totalitário no sentido de que vê tudo como
político e sustenta que qualquer ação do Estado é justificada quando se trata de alcançar o
bem comum. Ele assume responsabilidade por todos os aspectos da vida, inclusive nossa
saúde e nosso bem estar, e busca impor uniformidade de pensamento e ação, seja pela
força ou por meio de regulamentações e pressão social. Tudo, inclusive a economia e a
religião, tem de estar alinhado com seus objetivos. (GOLDBERG 2009, p. 32-33) A via
indireta do Estado fascista, em conluio, conta com grandes empresas privadas para seus
objetivos. Coelho (1987, p. 33) comenta: Adorno e Horkheimer (os primeiros, na década de
1940, a utilizar a expressão “indústria cultural” tal como hoje a entendemos) acreditam que
esta indústria desempenha as mesmas funções de um estado fascista (...) na medida
em que o individuo é levado a não meditar sobre si mesmo e sobre a totalidade do meio
social circundante, transformando-se em mero joguete e em simples produto alimentador
do sistema que o envolve. (grifo nosso). No segundo argumento contra a televisão,
Mander (1978, p. 113) diz: Não é acidental que a televisão seja controlada por um
punhado de corporações poderosas. Nem é por acaso que ela tem sido usada para recriar
seres humanos em novas formas, adaptadas aos ambientes artificiais e comerciais. Uma
conspiração de tecnologia e fatores econômicos tornou isto inevitável e continua a sê-lo.
(tradução nossa) Existe uma grande simbiose: as “celebridades” precisam da televisão
para satisfazer a suas vaidades, os políticos necessitam dela para dar vazão a suas
demagogias e as grandes empresas querem a televisão para fazer publicidade e vender
mais produtos. E a televisão precisa de todos eles para garantir financiamento e audiência.
Gore Vidal, citado por Ferreira in Novaes et al (1999, p. 160): Os dois estudos demonstram
exatamente como uns poucos manipulam a opinião pública. Para início de conversa, a
casa do americano médio mantém um televisor ligado sete horas por dia. Isso significa que
o americano médio já viu 350 mil comerciais ao chegar aos dezessete anos. Como a
opinião da maioria é controlada agora por 29 corporações, conclui-se que os 29
executivos-chefes são da mesma espécie de um politburo ou colégio de cardeais,
encarregados daquilo que o povo deve ou não deve pensar. Além disso, eles escolhem os
presidentes e o Congresso – ou, para ser preciso, determinam até sobre o que os políticos
podem falar em época de eleição. Exemplo: são as grandes fundações privadas que
financiam boa parte das campanhas pró-aborto no mundo[21]. E a televisão segue esta
agenda. A televisão não deixa de ser uma “máquina gramsciana”, pois é instrumento do
marxismo cultural.
3.7.3 - TELEVISÃO, TEMPO, VIDA, DIVERSÃO E
VÍCIO
É muito comum ouvir das pessoas que elas assistem à televisão para passar ou “matar” o
tempo. Ouvir isto dá a impressão de um suicídio a conta-gotas. Nós não temos outra vida,
o nosso tempo é contado e curto. Será que não existem coisas mais interessantes e
elevadas para fazer do que assistir à televisão? As pessoas reclamam que não tem tempo
para nada e ainda assim assistem à televisão. Ela vicia, existem até neologismos
empregados por estudiosos para descrever o viciado: “teledependentes”, “vidiotas”, “homo
videns”, “homo zappiens” etc. Quando se liga a televisão, um mundo de possibilidades se
descortina pelo controle remoto, parecendo que haverá um lazer gratificante. Porém, é a
ilusão dos vícios. Todo vício começa bem, com doçura, mas termina com amargor.
Quando a televisão é desligada, o tédio se impõe, o tempo perdido mostra sua face. O
lado amargo se apresenta. Pouco ou nenhum conhecimento foi apreendido. A leitura de
um bom livro é o oposto, a tarefa parece árdua no início, mas no decorrer da leitura, a
doçura desabrocha por causa da intelecção. É a voz da virtude, porque se contemplou
alguma verdade. Ouve-se também que a televisão é “diversão” ou lazer. Ora, é um preço
muito caro por uma diversão só traz malefícios à alma e ao corpo. Só traz insatisfação,
como é próprio dos vícios. Kaplan (1987), citado por Trevisan (2011,P. 43): O mecanismo
do “a seguir‟ (coming up next) que é o básico de todos os seriados, é um aspecto
intrínseco do minuto-a-minuto do assistir MTV “... Nós somos pegos na armadilha da
esperança constante de que o próximo vídeo irá finalmente satisfazer, e fisgados pela
promessa sedutora da plenitude imediata, nós continuamos consumindo infinitamente os
pequenos textos (KAPLAN, 1987 p.4). E Trevisan comenta (2011, p.43), citando mais
uma vez Kaplan: Assim, para a autora, a razão da sedução pela TV se dá porque ela
oferece “um desejo que é insaciável – promete conhecimento completo em algum futuro
distante e que nunca é experimentado (experienciado). A estratégia da TV é manter-nos
consumindo infinitamente na esperança de satisfazer nosso desejo” (KAPLAN, 1987, p.4)
(grifo nosso) Só se destrói o que foi substituído. Assim, só se extermina um hábito ruim
colocando-se um bom no lugar. Deve-se desligar o aparelho televisor para sempre e usar
o tempo dedicado a ele para outras atividades. Assim haverá duplo ganho, primeiro porque
afasta-se a influência negativa da televisão e segundo porque o tempo será usado para
atividades mais elevadas. Qualquer coisa boa, e isto é raro, que a televisão tenha
produzido (ou produza) de bom, pode ser visto na internet, de modo que ela é totalmente
dispensável para quem quiser se abster dela. A felicidade está na contemplação da
verdade, conforme definição de S. Tomás. E a televisão não encerra nem uma coisa nem
outra, logo, da televisão, só pode advir tristeza.

3.8 - TELEVISÃO, SUA DEFINIÇÃO E


METAFÍSICA
Diante de tudo que foi exposto, já à guisa de conclusão, podemos confrontar a televisão
com alguns princípios relacionados à metafísica, além dos que já foram abordados como
lógica, trivium, realidade etc. 1) Analogia do ser A televisão não é análoga ao mundo nem
ao homem, muito menos a Deus. E mais, mostra uma certa repulsa ao ser, quando, por
exemplo, subverte a realidade. 2) Causa e efeito Como já foi exaustivamente abordado, a
televisão confunde “causa e efeito” e “meio e fim” atacando um dos princípios básicos da
lógica. 3) Identidade e não contradição Há muito de dialética hegeliana presente na
televisão: inversão da realidade onde o mais perto é mais nítido – na televisão conhece-se
o distante, mas ignora-se o vizinho; muita informação e pouco conhecimento; atomização
do telespectador e ao mesmo tempo a massificação; “corpo perfeito’ e obesidade; ente
representado absorvido pela representação, etc. Tudo isto faz a televisão ser contraditória
e a faz violar esse princípio metafísico. 4) Ordenação ao superior. Como muito bem disse,
Pio XI, na Encíclica Vigilanti cura (sobre o cinema): necessário e urgente procurar que,
também, nesta matéria dos progressos da arte, da ciência e mesmo da perfeição da
técnica humana, posto que são verdadeiros dons de Deus, se ordenem à gloria de Deus e
à salvação das almas, e sirvam, na prática, para a expansão do reino de Deus na terra.
Como a televisão, atualmente, está distante disso! Tudo tem de ser ordenado para Deus,
se não o for, já está ordenado ao príncipe deste mundo. 5) Beleza. Segundo S. Alberto
Magno, a beleza é o resplendor da forma na proporção da matéria.[22] A forma da
televisão é feita de imagens, sons e texto. Como foi exaustivamente abordado neste
trabalho, o que a televisão apresenta é uma gigantesca desproporção entre todos os
elementos que a compõem. Logo, a televisão está da distante do belo e da arte já que esta
depende daquele e mais, arte é fazer com reta intenção. E a intenção da televisão é, no
mínimo, “torta”. A televisão é um produto final que se consome, como um “fast food”, mais
do que um simples “meio”, como já foi discutido. É verdade que há vários programas uns
mais inofensivos, como os de “culinária” e outros péssimos como novela e telejornais, mas
isto não fere a unidade de seu discurso. Todos os programas, na realidade, parecem ser
um programa só. A televisão é um contínuo de imagens em que o telejornal se confunde
com o anúncio de pasta de dentes, que é semelhante à novela, que se mistura com a
transmissão do futebol. Os programas mal se distinguem uns dos outros. (PEIXOTO 1996,
p. 180) Nesta linha de raciocínio, como defini-la, sob o ângulo da metafísica, afinal? Se
fôssemos fazê-lo, com poucas palavras, seria assim: “A televisão é um instrumento dotado
de imagens dinâmicas, sons e textos, que são a sua forma, todos articulados de modo
antimetafísico.” Se fôssemos dizer qual seria sua finalidade precípua, seria assim: “A
finalidade da televisão é a instalação na mente dos espectadores de um pensamento
anticatólico por meio da destruição da intelecção, em razão de sua estrutura programática,
e da exibição de conteúdo superficial e ideológico”. Seria possível outra televisão? Para a
televisão ser um bom meio, deveria haver uma reengenharia completa, toda a mentalidade
que a construiu precisaria ruir e uma nova surgir. Obviamente, seria muita ingenuidade
acreditar que isto seria possível. A televisão é produto de uma sociedade decadente e o
que ela faz é só realimentar esta degeneração.

3.9 - TELEVISÃO, ANTÍPODA DA MISSA


O exterior das Igrejas barrocas é, em geral, pobre e o interior é faustoso, para mostrar
que o importante é a riqueza interior da alma e não os bens exteriores ligados ao corpo. A
televisão inverte isto, pois é aparentemente rica no exterior, em razão de sua vasta
programação, mas é paupérrima no conteúdo. A televisão substituiu o oratório nas casas.
As salas exclusivas para “home theater” substituíram as capelas nas casas grandes e nas
sedes de fazendas. Os oragos foram trocados pelos ídolos modernos, “artistas de TV”,
roqueiros etc. O ofício divino cambiou-se para a grade de programação televisiva. A hora
do Angelus foi trocada pela hora da novela. A adoração ao Deus verdadeiro foi posta de
lado. Um novo deus falso foi entronizado. A vela foi apagada e a televisão foi acesa. A
televisão é o oposto da missa[23]. Na missa, o padre atua in persona Christi, e nos
programas televisivos os artistas atuam em nome da vaidade mundana, quando não em
nome do príncipe deste mundo. Na missa está presente o sacrifício, na TV, a preguiça. Na
missa há o canto gregoriano, na TV, o rock satânico, o sertanejo etc. A missa é voltada
para Deus, a TV é voltada para as massas. A missa é a cidade de Deus, a TV é a cidade
do homem. Quem vai à missa, ajoelha-se, quem vê TV se esborracha no sofá. Quem sai
da missa, sai fortalecido, quem desliga a TV está enfastiado. A missa ensina e é
sacramento, a TV deseduca e deforma. A missa é uma janela para o céu, a TV é uma
janela artificial e terrena. A missa eleva o homem decaído pelo pecado original, a TV
acentua a queda, rebaixa ainda mais o homem. A missa enriquece nosso interior, a TV
apodrece a vida espiritual e volta-se somente para a vida exterior. A missa é uma ponte do
natural para o sobrenatural, A TV é uma ponte do natural para o ilusório e o grotesco. A
missa fomenta a virtude, TV é uma caixa de vaidades. A missa satisfaz, a TV gera
insatisfação constante. Na missa temos a graça, na TV, a desgraça.

3.10 - PRINCIPAIS NOTAS NEFASTAS


DA TELEVISÃO
1) Construção de um mundo próprio e deturpação da realidade. 2) Indução ao
materialismo, principalmente na publicidade. 3) Fomento à violência. 4) Engenharia social
visando a destruição da família, mormente nas novelas. 5) Malefícios à saúde, em especial
, no quesito obesidade. 6) Atividade anti-intelectual, combate ao raciocínio e ao trivium. 7)
Incitação à concupiscência da carne e dos olhos. 8) Estimulo à vaidade e ao culto ao
corpo. 9) Fomento das músicas ruins, em especial a do rock. 10) Criação de uma
sociedade de massas, oposta ao conceito de povo, de mentalidade fascista. 11) Tomada
de tempo das pessoas que poderiam fazer algo mais elevado no lugar de assistir à
televisão. 12) Escândalo das crianças, ou pelo menos, roubo de uma parte de sua
inocência. 13) Exagero na virtude dos desportos, estimulando uma visão patológica do
futebol. 14) Obstáculo ao progresso espiritual. Insatisfação. 15) Antimetafísica. Confusão
entre o meio e o fim.

3.11 - CONCLUSÃO
A televisão é um armamento pesado. É uma arma de destruição em massa para as
mentes. Ela encarcerou as consciências. As pessoas se tornaram reféns de sua ideologia.
A televisão forjou, em boa parte, o que as pessoas falam, pensam, consomem e como
agem. Mesmo quando as pessoas comentam algo contrário ao que a televisão disse, ela
já ganhou, pois propôs o tema. E as análises destas temáticas são efêmeras, esgota-se
rapidamente e depois parte-se para outro assunto, no ritmo proposto pela televisão. E a
regra é sempre o tema fútil. Serve-se às paixões do momento. Tudo é fugaz. Menos o
gosto pelo passageiro e pela futilidade. Comentava-se antigamente em Constantinopla
sobre a Santíssima Trindade nas esquinas. Hodiernamente, comenta-se sobre tal e tal
novela, sobre este e aquele “artista”. A televisão é o instrumento mais poderoso para
formar, ou melhor, deformar, os homens num jeito de ser anticatólico. Deus criou o mundo
a Sua imagem e por causa disto o mundo O reflete. Assim, analogicamente, vemos a
maioria esmagadora dos seres da natureza porque eles refletem a luz solar. A televisão
não reflete a luz solar, pelo contrário, quanto mais luminosa a luz exterior que a ilumina,
pior é para a televisão. Ela tem luz própria, então, porque não reflete o que é elevado e
espiritual. Ela se ordena aos vícios da criatura e não ao Criador. A televisão é como um
morcego que odeia a luz solar e assim como o horrendo animal suga o sangue, a televisão
suga a virtude dos que a assistem. O melhor a fazer é desligar a televisão, antes que ela
desligue alguma coisa importante na alma. Platão dizia que para conquistar uma cidade,
bastava fazer tocar músicas ruins nela. Isto porque ele não conhecia a televisão...
Parafraseando um belo poema medieval[24], a televisão munida de “Falsedatz e
desmesura” empreende batalha contra a “vertat e drechura”. E vence. Porém, é uma
vitória da “cidade dos homens”[25] apenas.
"Non puesc dire l’error
Del fals segle trachor
Que fai de blasme lauzor
E de sen folia
Den prec per sa dousor
Que-ns gar d’enfernal dolor,
E-ilh Verge Maria"[26]
(Peire Cardenal)
Ah! Triste século imoral Que faz da virtude sujeira Que faz do vício bandeira E a covardia
habitual
Triste século irracional Faz a verdade passageira Faz a mentira lisonjeira E a coragem
irreal
Que faz da alma ficção Que faz do corpo ideal E o céu uma iniqüidade
Faz do espírito ilusão Faz da matéria ritual E o inferno sua realidade
Marcelo Andrade, na festa de Nossa Senhora da Apresentação. São Paulo, 21 de
novembro de 2013.

3.12 - AUTORES E REFERÊNCIAS


3.12.1 - AUTORES
Mander (1978), dos Estados Unidos, fez uma crítica feroz que auxiliou muito nosso
trabalho. Na França, Baudrillard, Sfez e Boudrieu são críticos contumazes. Na Espanha,
temos Erausquin (1983). Karl Popper e Adorno são opositores históricos. Na Inglaterra
temos Williams (2005). Umberto Eco também critica e analisa bem a televisão, mas não a
ataca globalmente. No Brasil, Muniz Sodré, com suas peculiaridades terminológicas, faz
um grande trabalho de análise do qual somos tributários. Marcondes Filho
(1988) escreveu um livro bem inteligente e é muito citado por vários autores. Arbex (2002)
foi demolidor em relação aos telejornais. Somos muito devedores, também, de Setzer
(2009) que compreendeu bem os malefícios da televisão. Há muitos estudos curtos em
“pdf” disponíveis na internet. Muito destes trabalhos são de nível surpreendente, por
exemplo: Marialva Barbosa (2007) Obviamente, tudo isto não significa adesão a todas as
ideias destes e de outros autores que subsidiaram este trabalho. Muito da crítica da
televisão é oriunda de uma visão marxista ou de uma índole semiótica, com as quais não
concordamos. Bom nível de crítica existe, o que falta é divulgação. A televisão exerce tal
poder, que as críticas são sempre abafadas. O que é estranho é que muitos autores que
fizeram análises inteligentes e veem notas negativas na televisão não fazem um
enfrentamento global.
3.12.2 - REFERÊNCIAS
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PARTE 4 - ANEXOS
Nos anexos passaremos a analisar, com apoio em estudos relacionados aos temas,
algumas classes de programas televisivos.
ANEXO 4.1 - TELENOVELAS
Os estudos: Novelas e fertilidade: evidências do Brasil (2008) e Televisão e divórcio:
evidências de novelas brasileiras (2009)[27] mostram que o índice de fertilidade das
mulheres brasileiras diminuiu drasticamente de 1970 até 2000 em locais nos quais o
sinal da emissora chegava normalmente. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE): “a taxa total de fecundidade foi de 6,3 em 1960, 5,8 em
1970, 4,4 em 1980, 2,9 em 1991 e 2,3 em 2000”, uma queda de mais de 50% em 40
anos e estes números continuam decrescendo. Em uma entrevista para a revista Época,
Alberto Chong[28], economista que coordenou os estudos supracitados, disse: A família
pequena é uma imposição da produção, que tem limitações de elenco. Para que a
história aconteça, são necessários pelo menos cinco ou seis núcleos. Então nenhum
pode ser grande demais. Por um tempo essa família tão reduzida era irreal. Com o
tempo, porém, a repetida exposição desse perfil influenciou fortemente na preferência
por menos filhos e pelo custo financeiro mais baixo dessa escolha. Ao longo dos anos,
essa queda na taxa de fertilidade foi caindo mais em áreas alcançadas pela
televisão do que em áreas que não recebiam o sinal. (grifo nosso). Quando o
economista foi questionado sobre a influência das novelas em relação ao aumento do
número de divórcios, respondeu: Estima-se que as taxas aumentaram de 3,3 em cada
cem casamentos em 1984 para 17,7 em 2002, mais do que em qualquer outro país
latino-americano [...] Nosso estudo avança na hipótese de que os valores da televisão,
mais precisamente das novelas, contribuíram de fato para esse aumento, principalmente
a partir do momento em que no Brasil há um alcance desse tipo de programa como em
nenhum outro país. A novela é, de longe, a maior atração da TV e é veiculada pela Rede
Globo, que tem mantido um domínio quase absoluto do setor por cerca de três décadas.
Percebemos que, quando a protagonista de uma novela era divorciada ou não era
casada, a taxa de divórcio aumentava, em média, 0,1 ponto porcentual. Ele diz com
todas as letras: “As telenovelas moldaram o Brasil”. Em relação à narrativa e à estória, a
telenovela é de uma miséria ímpar. Os personagens são sempre estereotipados, Comenta
Marcondes Filho (1988, p.63): “O padre, o delegado, o prefeito, geralmente tipos-
padrão, estereotipados, não tem absolutamente nada que ver com os casos reais — são
apenas "lembranças padronizadas" deles.”. Há sempre os supostos “chavões” das
classes sociais, ao gosto de uma ideologia anticatólica: a moça trabalhadora e liberal da
classe média, o empresário corrupto, o padre modernista “amigo dos pobres” etc. Leite e
Guerra (2002, p.109) mostram que os “núcleos dramáticos” são sempre os mesmos: De
acordo com Comparato (1995), Gilberto Braga, roteirista de novelas: A novela é dotada
de três núcleos dramáticos, divididos em classe sociais: uma da alta, outro da classe
média e o terceiro da classe baixa (todos eles com “plots”, trama que gera conflito). Por
meio de componentes dramáticos, esses três núcleos com seus respectivos “plots”
começam a interagir, a confluir e a misturar-se”.[29] Nas novelas, há um abuso do ritmo
na narrativa, os capítulos são sempre formados por miniquadros, sempre superficiais.
Marcondes Filho (1988, p. 62): Assim, temos transcursos acelerados de cena com
episódios curtos, submetidos a uma distribuição de espaço e tempo bastante econômica.
O ritmo impede que se proceda ao retardamento das ações, que provocaria uma relação
intensiva com a imagem: não há a representação desapressada do ambiente, do silêncio,
do fitar, nem outras formas despreocupadas; não há o desperdício, a reflexão, o erro. O
vagar desinteressado, o respirar, a apreciação dos transcursos cênicos com lentidão- não
cabem na telenovela. Há uma rejeição consciente do prolongamento dos diálogos, em si
enriquecedor, que, para a lógica da telenovela, e antieconômico e dispersivo. Vistas
globalmente, as novelas são excessivamente longas e duram conforme os interesses
mercadológicos. O final, no qual toda a trama se destrinchará, pode ser apresentado na
hora em que se quiser. Não há início, meio e fim pré-programados, tudo segue ao sabor
do capricho. A história iniciada no primeiro capítulo continua ao longo de toda a série,
até o desfecho final no último capítulo, mas pode arrastar-se indefinidamente,
repetindo ad infinitum as mesmas situações ou criando situações novas, enquanto
houver índices de audiência (ARLINDO MACHADO, 1999, p. 11)[30] Curioso notar
que é muito comum que as novelas terminem mostrando uma festa de casamento, bem
ao gosto romântico, como se este sacramento fosse o fim e não o começo de uma vida a
dois. Há sempre forte carga emotiva, com exagero de clímax para prender o
telespectador. Os cenários e ambientes são sempre os mesmos, sem criatividade,
resumindo-se a salas, quartos, cozinhas etc. Marcondes Filho (1988, p.67): “Poucas
externas, estúdios que se repetem, reduzindo os palcos da ação a residências e
escritórios”. Isto sem falar no “merchandising”, na interação com a propaganda e com o
consumismo materialista. Remetemos o leitor que quiser saber mais sobre as ideias na
ficção, a seguinte aula gravada: http://www.youtube.com/watch?v=79jaY4kOWo8.
ANEXO 4.2 - DESENHOS ANIMADOS
Reportagem da revista Veja (2011): Crianças pequenas que assistem a programas de
televisão com ritmo acelerado e com um enredo fantástico – como o desenho Bob
Esponja - podem acabar desenvolvendo problemas de aprendizado e de comportamento.
É o que afirma um estudo conduzido pela Universidade da Virgínia, nos Estados
Unidos, e que será publicado na edição de outubro do periódico
médico Pediatrics. Para chegar aos resultados, psicólogos da universidade analisaram
crianças de quatro anos imediatamente após elas assistirem a nove minutos de Bob
Esponja. Descobriu-se, então, que a função executiva dessas crianças (habilidade de
prestar atenção, resolver problemas e de ter um comportamento moderado) havia sido
seriamente comprometida, frente às crianças de quatro anos que passaram os nove
minutos assistindo a um programa com ritmo mais lento e realista, ou desenhando. De
acordo com Angeline Lillard, pesquisadora chefe do estudo e professora na
Universidade da Virgínia, pode haver duas razões pelas quais esses programas têm um
impacto tão negativo no aprendizado e no comportamento infantil. “É possível que o
ritmo acelerado, com personagens em movimento constante, e a fantasia
prejudiquem a habilidade que a criança tem de se concentrar”, diz. Segundo ela,
uma segunda possibilidade seria que, ao se identificar com os personagens sem foco e
frenéticos, a criança acabe por adotar essas características. Consequências - Para
Lillard, os pais devem considerar esses fatores quando forem decidir o que o filho pode
ou não assistir. “Programas como o Bob Esponja podem comprometer a capacidade de
aprendizagem e de comportamento”, diz. De acordo com a pesquisadora, aos quatro
anos as crianças estão numa fase importante do desenvolvimento. Assim, assistir à TV,
e suas consequências, podem ter efeitos duradouros – a pesquisa de Lillard, no entanto,
estava focada apenas em efeitos imediatos. “Crianças pequenas estão começando a
aprender como se comportar e como aprender”, diz. “Na escola, elas devem se
comportar adequadamente. Elas precisam se sentar, comer de maneira correta e serem
respeitosas. Tudo isso requer funções executivas. Se uma criança assistiu apenas a um
programa de TV que prejudicou essas habilidades, não podemos esperar que ela se
comporte em seu nível normal em todas as situações do dia”, diz Lillard. A especialista
recomenda, então, que os pais usem atividades criativas de aprendizado, como blocos
para construção e jogos de tabuleiro. “A função executiva é extremamente importante
para o sucesso da criança na escola e na rotina”, diz Lillard. “É importante para sua
saúde mental e física”[31] (grifo nosso). Mainardi (2007) faz uma curiosa análise: Os
cães de gravata Há fases em que a humanidade melhora e há fases em que ela piora.
Nada representa com tanta clareza o barateamento intelectual do nosso tempo
quanto os desenhos animados de Hanna-Barbera" Cada um escolhe seu próprio
inimigo. O meu morreu no mês passado, aos 95 anos. Era Joseph Barbera, um dos
fundadores dos estúdios Hanna-Barbera. No começo de janeiro, morreu também um de
seus principais colaboradores, Iwao Takamoto, criador do Scooby-Doo. Estou com
sorte. Livrei-me de dois inimigos em menos de um mês. Atribuo grande parte do meu
fracasso pessoal aos desenhos animados de Hanna-Barbera. O fato de ter assistido a
todos os episódios dos Herculóides, da Tartaruga Touché e dos
Flintstones comprometeu meu futuro. O dano causado por horas e horas de Space
Ghost, de Wally Gator e de Jonny Quest foi definitivo. Muitas de minhas falhas
intelectuais e de personalidade podem ser imputadas a eles. De nada adiantou ler
Montaigne mais tarde. No deserto mental provocado por Frankenstein
Júnior, pelos Irmãos Rocha e pela Formiga Atômica, Montaigne simplesmente não
frutifica. Até a década de 1960, um episódio de Tom e Jerry ou de Pernalonga era feito
com algo entre 25.000 e 40.000 desenhos. Joseph Barbera e seu sócio bolaram um jeito
de produzir suas séries com menos de 2.000, abatendo seus custos. A técnica recebeu o
nome de "animação limitada". Os personagens permaneciam estáticos. A única parte de
seu corpo que se movia era a cabeça, que pulava compulsivamente da direita para a
esquerda, ora com a boca fechada, ora com a boca aberta. Para facilitar o corte, todas as
figuras tinham o pescoço encoberto por um colarinho ou por uma gravata. Nos desenhos
da Hanna-Barbera, sempre há um cachorro de gravata, um super-herói de gravata, um
dinossauro de gravata. As paisagens sofreram o mesmo tratamento reducionista. Os
personagens dos desenhos de Hanna-Barbera habitam um mundo claustrofobicamente
circular. De dois em dois segundos eles passam pela mesma pedra, pelo mesmo veículo
espacial, pelo mesmo homenzinho careca e bigodudo de terno azul. A angústia de
pertencer a um universo que se repete continuamente só é superada pelo fato de que
ninguém se dá conta disso. Maguila, Simbad Júnior e os Brasinhas do Espaço parecem
desprovidos de memória. As tramas também se repetem de uma série para a outra.
Muda apenas o mote de cada personagem, a sua frase característica, como "Saída pela
esquerda", "Shazam!" ou "Oh, querida Clementina", recitada por um mau dublador.
Joseph Barbera e Iwao Takamoto empobreceram minha vida. Assim como
empobreceram a vida de todos os meus contemporâneos. Há fases em que a humanidade
melhora e há fases em que ela piora. Nada representa com tanta clareza o barateamento
intelectual do nosso tempo quanto os desenhos animados de Hanna-Barbera. Cada
quadro economizado por eles significou para nós uma ideia a menos, um pensamento a
menos, uma sinapse a menos. Os pioneiros de Hanna-Barbera acabam de morrer, mas
nossa época está irremediavelmente perdida. O único consolo é que esquecemos a
miséria em que vivemos de dois em dois segundos.[32]
ANEXO 4. 3 - “REALITY SHOWS”
Millan (2006) analisa bem os “reality shows” em seu trabalho: “Reality shows - uma
abordagem psicossocial”[33] Destacamos este excerto: Assolado pela angústia frente à
perda de contato com sua própria subjetividade, pressionado pela velocidade do mundo
da produção, destituído de seu lugar de agente nas relações sociais sem contrato, sem
regras ou sistema de valores definido e impelido ao consumo desenfreado, o ser humano
busca eco para suas vivências em "reality shows". Como disse Novaes (1996), somos
atraídos pelo fútil, pela curiosidade ávida de sensacionalismo e pela excitação banal,
deixando de lado nossa potência de pensar e agir. Os "reality shows" nos proporcionam
tudo isso, adormecendo nossa capacidade crítica já tão abalada pela alienação de nossas
consciências. A versão pós-moderna do teatro grego aparece destituída da profundidade
do drama e do impacto da tragédia. As experiências humanas ficam reduzidas a uma
gama de pequenos conflitos que retratam a superficialidade e o caráter fugidio das
relações sociais. O que se vê é a pulverização dos relacionamentos em atitudes
impulsivas, intrigas e falas desarticuladas, denotando manifestações emocionais
caricatas e previsíveis. Segundo Baudrillard (2001), o Big Brother é o espelho e o
desastre de toda uma sociedade presa da insignificância que se curva diante de sua
própria banalidade. É uma farsa integral, uma imagem reflexa de sua própria
realidade. Para o autor, a audiência é grande graças à debilidade e nulidade do
espetáculo: ou as pessoas assistem porque ali se reconhecem e/ ou assistem para se
sentirem menos idiotas que os protagonistas. Reafirmando essas colocações, pode-se
dizer que, em um estilo "fast food", engolimos as ações-reações de personagens vazios,
que lutam cegamente por sua sobrevivência individual. Consumimos a exposição de
pessoas que, ávidas por exibirem-se e ganharem fama, ainda que fugaz, submetem-se à
superexposição. O narcisismo explícito promove o aparecimento de relações imaturas,
permeadas pela escotomização e pela negação das experiências emocionais mais
profundas. (grifo nosso).
ANEXO 4.4 - TELEJORNAL
Em certo sentido, o pior programa da televisão é o telejornal. Pois nele, há intensa
mistura entre meio e fim, turvação da realidade, indução à confusão e ao consumismo e
forte conteúdo ideológico. Arbex (2002) cunhou um neologismo de nome
“showrnalismo”. Nesta linha, o objetivo do telejornal é o espetáculo e não a notícia.
Tudo terá um caráter de “sensacional” para atrair a audiência. Segundo Bucci (2000, p.
142-3): O noticiário da atualidade constrói pequenas novelas diárias ou semanais cujos
protagonistas são tipos da vida real absorvidos por uma narrativa que funciona como se
fosse ficção. Programas jornalísticos na televisão desenvolvem-se como se fossem
filmes – de ação, de suspense, de romance, de horror. (...) a seqüência dramática do
telejornalismo é precisamente melodramática, segue a estrutura das narrativas das
telenovelas, que fundaram no público nacional o ato de ver televisão. É esse o estilo
brasileiro pelo qual a imagem preside a notícia. O massacre de trabalhadores sem-terra
em Eldorado dos Carajás, no interior do Pará, em abril de 1996, só foi a manchete
porque veio acompanhado de cenas vibrantes. Assistir a um telejornal é como assistir a
qualquer “show” televisionado. Poucas coisas são mais distantes que a imparcialidade e
o telejornal. É risível contraditar isto. A mera escolha do que será noticiado já faz a
prova da parcialidade. Ao deixar no ostracismo um acontecimento já se mostrou a
parcialidade. Ao rejeitar ou dar o caráter de “sensacional” a uma notícia já se mostrou o
viés ideológico desejado. Segundo Leal (2006, p.5-6): A pergunta fica mais premente
quando se percebe o telejornal, tal como faz MACHADO (2000), como “... uma
colagem de depoimentos e fontes numa sequência sintagmática, mas essa colagem
jamais chega a constituir um discurso suficientemente unitário, lógico ou organizado a
ponto de ser considerado ‘legível’ como alguma coisa ‘verdadeira’ ou ‘falsa’”
(MACHADO, 2000, p.110). Ou ainda, como faz DUARTE (2004), ao afirmar que “...ao
promoverem os acontecimentos enquanto os dizem e ao transformarem atores sociais
em discursivos, os telejornais fazem emergir uma verdade que é discursiva, não
coincidindo, obrigatoriamente, com a verdade dos fatos: trata-se de operações com
efeitos de sentido” (DUARTE, 2004,p.110/111). É interessante observar que a
publicidade ganha força nos intervalos dos telejornais e se operam em conjunto com as
notícias. Nos telejornais se mostra muita desgraça, quanto mais, melhor, assim a
publicidade exsurge como salvadora. A publicidade “vende” o mundo perfeito e o
telejornal a desgraça máxima Esta oposição é proposital, pois piorando a realidade, os
produtos serão aqueles meios que levarão o telespectador de um mundo cruel para o
idílio, quanto maior o contraste, melhor. Os acontecimentos da vida mais escabrosos
serão os maiores motivadores para a aquisição de produtos. As más notícias são a
publicidade invertida. Como o telejornal é um produto, há um comércio torpe de
notícias: Como produto, a notícia tem um preço, definido em cada situação: pode ser
baixo, como a compra de uma fita de vídeo com imagens de um acidente de trânsito
feitas por um cinegrafista amador, e que normalmente é adquirida pelas tevês por um
valor médio de R$ 100,00 (início de 2004); ou ter um preço mais salgado, como o
estipulado pela Agência Reuters de notícias, por exemplo, durante o seqüestro de três
civis japoneses no Iraque, em abril de 2004, quando ofereceu um pacote de serviços
para permitir às tevês do mundo todo cobrir o fato. No memorando enviado às redes de
tevê, era oferecido um canal com 1 hora e 10 minutos de duração para entradas ao vivo
direto do Iraque ao preço de US$ 1.000,00, cobrando-se US$ 500,00 por cada 5 minutos
adicionais. (VIEIRA BARBOSA, 2005, p. 75) Na realidade, não vale o conteúdo e a
explicação das notícias, mas elas em si mesmas, o que vale é o LEAD[34], a manchete,
o anúncio delas. O desenvolvimento do tema é irrelevante. Melo (2009) em “O
espetáculo do Jornal Nacional como guia orientador dos telejornais regionais”[35] faz a
seguinte análise: O espetáculo da informação Inserido na estratégia da televisão de se
manter na hegemonia como o veículo de informação e entretenimento, o telejornal
assume o espetáculo entre os seus recursos, com a supervalorização da imagem, a
supremacia da emoção, a dramatização na narração, a fragmentação, entre outros. No
pano de fundo do discurso da objetividade no trato com o “real”, contextualizado pelas
disputas de mercado, o telejornal se preocupa com a sua atratividade perante o público.
Ao optar pelos mecanismos que se direcionam ao fascínio do telespectador, o
telejornalismo desencadeia a produção de relatos de acontecimentos subjugados pela
emoção. O espetáculo da notícia é privilegiado. Para tanto, principalmente as tevês
comerciais em seus telejornais: Apelam ao sensacionalismo, dramatizam a narração e,
muitas vezes, supervalorizam a imagem em detrimento do conteúdo. Muitas das notícias
exibidas pelo noticiário são descontextualizadas ou apresentadas de forma fragmentada,
o que impede o espectador de compreender o tema na sua integralidade. (Souza &
Wenzel, 2008, p. 124-125) A trivialidade e falta de aprofundamento dos telejornais não
são nenhuma novidade. Representam o risco assumido da espetacularização dos fatos
pelos noticiários. Em meio às análises sobre o papel do telejornalismo, Machado (2003)
faz uma alerta. Antes de ser encarado como um dispositivo de reflexão espetacular dos
acontecimentos ou como veículo de aproximação de fatos distantes, o telejornal deve
ser percebido como um efeito de mediação. São por meio de mediadores, entre
repórteres, testemunhas e inúmeros sujeitos falantes, que os eventos se apresentam.
Trata-se de um gênero¹ televisivo que trabalha essencialmente com mediações,
dispostas por técnicas, lógicas econômicas e profissionais. O grande problema em
relação à compreensão do telejornalismo, segundo Machado (2003), é o pressuposto de
que sua função básica é informar, bem ou mal. Entretanto, de acordo com sua dinâmica,
os noticiários colocam em circulação e em confronto um encaixe de vozes e relatos,
produzindo uma “desmontagem” dos discursos sobre os fatos: Num certo sentido,
podemos dizer que o telejornal é uma colagem de depoimentos e fontes numa sequência
sintagmática, mas essa colagem jamais chega a constituir um discurso suficientemente
unitário, lógico ou organizado a ponto de poder ser considerado legível como alguma
coisa “verdadeira” ou “falsa”. As informações constituem um processo em andamento.
(...) nenhum desses depoimentos são suficientemente eloquentes para emoldurar o
acontecimento. (Machado, 2003, p. 110-111) As notícias são constituídas por inúmeros
enunciadores, entonações e níveis de dramaticidade, que se revezam entre repórteres e
protagonistas. A sua estrutura significante é a apresentação pessoal (Machado, 2003).
Deve-se levar em conta, portanto, que os noticiários serão sempre pontos de vistas e
abordagens. Por mais que se diigam capazes e assumam discursos narrativos fechados,
nunca representam de forma totalizante o fato em si. No universo dos media,
evidentemente que os conteúdos se articulam com os artifícios para o fascínio do
telespectador. Como um produto cultural de mediação, os produtos jornalísticos querem
conquistar e criar um vínculo afetivo com o público por meio de seu próprio espetáculo.
A dramatização ou a notícia-drama faz parte do telejornalismo como um caminho de
conquista de audiência (Bazi, 2001; Bucci, 2000). O estilo narrativo dramatizado das
notícias, com histórias conflitantes, apresenta-se como uma fórmula eficiente de
espetacularização do “real”. A notícia se mostra como um minidrama, com um
problema e desfecho, aproxima a informação do drama de ficção e provoca a
emotividade (Bazi, 2001). O telejornalismo soube acrescentar, à regra geral da
espetacularização, um andamento melodramático, quase como se fosse, ele próprio, uma
peça de ficção. (Bucci, 2000, p. 27) Para Bucci (2000), uma das constantes da televisão
no Brasil é o fato de seu telejornalismo se organizar como melodrama. Segundo o autor,
ao jornalismo não basta somente informar, ele precisa chamar a atenção, precisa
surpreender, assustar. Nesta mesma perspectiva, Coutinho (2005) também enfatiza a
estrutura das notícias baseada em narrativas dramáticas como um produto nacional das
tevês brasileiras. Assim como observa Amaral (2007), o recurso de comunicação
melodramático do jornalismo tem como desafio abranger um universo de público
heterogêneo, mesmo privilegiando plateias pouco ilustradas, que vivem longe das
esferas de poder. Caracteriza-se pela reunião do público e do privado, trabalha com o
sentimento de comunidade e tem forte tempero emocional. Além disso, O melodrama
estreita a intimidade do público com as personagens e procura a identificação entre
ambos, por intermédio de várias sensações, como o terror e a piedade. (Amaral, 2007, p.
118) Encontrados nos critérios de noticiabilidade e na estrutura das notícias, a
característica do melodrama comporta o apelo aos sentimentos e aos dramas dos
indivíduos e isto se mantém apesar de suas modificações e novas funções assumidas ao
longo do tempo com as estratégias de popularização (Amaral, 2007). O viés
melodramático se torna perceptível no telejornalismo, quando se sensibiliza para o fato
de as notícias se restringirem a destacar a singularidade dos fatos ao máximo em
detrimento do particular que contextualiza, sem abandonar, evidentemente, certa relação
com o interesse público (Amaral, 2007). Sendo assim, os discursos narrativos dos
telejornais remetem a estética própria da televisão, o espetáculo.
ANEXO 4.5 - VIDEOCLIPE
Umas das características do videoclipe é a colocação do principal cantor, o líder da
banda, em evidência máxima, em nítida posição de domínio, de narcisismo, de auto
exaltação, no qual ele surge como um “modelo”, um “ídolo” a ser reverenciado por
onde anda. E a narrativa do videoclipe é delirante, completamente non sense. Para
Kaplan (1987)[36], comentado por Trevisan, (2011, p.42) mesmo nos vídeos que
parecem reter alguma vaga ideia de narrativa, as relações de causa-efeito, tempo-espaço
e continuidade se apresentam obliterados, junto com a concepção usual de personagem.
tudo muda na passagem de um plano a outro: a indumentária dos intérpretes, o lugar
onde se ambienta a canção, a luz que banha a cena, o suporte material (filme ou vídeo
de bitolas distintas) e assim por diante. Os planos de um videoclipe (...) são unidades
mais ou menos independentes, nas quais as ideias tradicionais de sucessão e de
linearidade já não são mais determinantes, substituídas que foram por conceitos mais
flutuantes, como os de fragmento e dispersão.” (MACHADO, 2005, p. 180) Para
Kaplan (1987), citado por Trevisan (2011, p.43), “o canal (MTV[37]) hipnotiza mais do
que os outros porque se constitui de uma série de textos extremamente curtos que
mantém o espectador em um estado excitante de expectativa”. Os videoclipes geram
insatisfação constante: O mecanismo do “a seguir‟ (coming up next) que é o básico de
todos os seriados, é um aspecto intrínseco do minuto-a-minuto do assistir MTV “... Nós
somos pegos na armadilha da esperança constante de que o próximo vídeo irá
finalmente satisfazer, e fisgados pela promessa sedutora da plenitude imediata, nós
continuamos consumindo infinitamente os pequenos textos (KAPLAN, 1987 p.4, citado
por Trevisan 2011 P. 43). A estética do videoclipe é deprimente, é a da selvageria. O
videoclipe demonstra o desejo por uma estética, talvez, galgada no êxtase da
superficialidade, remontando-nos a uma espécie de cultura do escombro, da ruína e do
desperdício, propondo, portanto, como já advertiu Omar Calabrese, um prazer através
da série, da repetição, do gozo desta série e do mesmo. O mais do mesmo (SOARES
2004, p. 37, citado por Trevisan, 2011, p. 60): Os cenários são artificiais e o trabalho
com as cores é infame. Há o domínio de composições irreais, como na televisão em
geral, levando o telespectador a um mundo imaginário. Para Soares (2005, p.7) [38]: A
manipulação digital de cores e formas pode gerar, no videoclipe, uma artificialidade na
composição imagética através de transformações geométricas, destacamentos
cromáticos ou efeitos gráficos. Neste sentido, podemos falar de uma proximidade do
videoclipe com o conceito de consciência de realidade simulada. Constituintes de edição
como a fusão e a sobreposição de imagens acarretam numa dissolução das unidades de
planos, com possibilidade de gerar conflitos de ângulos e enquadramentos. Landi se
remete também a uma montagem rápida (planos que duram pouco na tela), a uma
precisão na edição (corte) e ao uso de iluminação em semelhança com os spots
publicitários. Tais elementos, logicamente, mais do que inseridos numa estrutura, fazem
parte de uma prática comunicacional, gerando, com isso, uma dependência entre forma
e conteúdo acarretando numa interdependência contínua. Para Goodwin (1992, p.16),
citado por Trevisan (2011, p.51): “A MTV é considerada como um abandono
esquizofrênico da razão, com um discurso que cria um universo niilista amoral”
ANEXO 4.6 - “TALK-SHOWS”
Nos programas de “talk show”, na realidade, o entrevistador entrevista a si mesmo.
Ele é a “estrela”, ele é o centro e não o entrevistado. O convidado é apenas um pretexto
para o entrevistador aparecer. Ele é o “sabe tudo”, opina sobre os mais variados temas
com alto grau de autoridade, usa e abusa do humor sempre a seu favor. Seus
comentários não são questionados, os do entrevistado sim. Hausermann, citado por
Marcondes Filho(1988, p.70): A regra é o apresentador responder à pergunta que ele
mesmo fez, pois sabe melhor que o entrevistado aonde quer chegar. E continua: a
televisão é dona da palavra, tanto na exibição de filmes como nos programas de
auditório (...) Nas pseudo entrevistas há monólogo, porque não se considera aquilo que
o espectador entrevistado fala. (...) tudo pode ser bloqueado com as expressões “nosso
tempo é escasso”, “estamos em cima da hora”. É um claro exemplo de circularidade,
item visceral na programação televisiva, porque o entrevistador fará uma pergunta ao
entrevistado para ele mesmo responder depois, que poderá se externar com
concordância, com alguma emenda, com uma pergunta tampão ou com uma contradita.
Ele funciona como um juiz de todas as circunstâncias. É o show, ele (o apresentador) é
o mais importante que tudo. Mostrar sua versatilidade e seu controle sobre o show
constitui duas grandes estratégias para o objetivo de se construir como “showman”.
Todos os elementos da peça funcionam como aparato de apoio para a encenação bem
sucedida da estrela. (FONSECA, 2002, p. 177) Pouco importa quem será o entrevistado
da noite, o que vale é o “talk show” em si mesmo, o brilho do apresentador-
entrevistador que se funde com o meio, com o canal. Assim, é indistinto dizer: “vou
assistir ao programa “talk show” x” ou “vou assistir ao apresentador deste mesmo “talk
show””. Nesta comunicação, a “mensagem”, o conteúdo pouco vale e o entrevistado é
absorvido pelo entrevistador. Salvo se conseguir ser mais celebridade que o
entrevistador. Cuida-se de um claro exemplo de soberba de vida.
ANEXO 4.7 - SERIADOS
Segundo Lilian Moreira[39] (2007, p.8) existem basicamente três tipos principais de
narrativas seriadas de televisão: 1)Teledramas ou telenovelas e alguns tipos de
minisséries que se ocupam de uma única narrativa que acontece ao longo de vários
capítulos cujo último dará o fechamento da história. 2) Os seriados, caso em que cada
emissão é uma história completa e autônoma, com começo, meio e fim e o que se repete
no episódio seguinte são apenas os personagens principais calcados numa mesma
intenção narrativa. Ou seja, utiliza-se de um protótipo básico que se multiplica em
variantes diversas. 3)E o terceiro tipo de serialização é o que preserva, nos vários
episódios, apenas o espírito geral da história, ou a temática, porém, em cada unidade os
personagens são diferentes, os atores e até os roteiristas e diretores. Lorenzo Vilches
(1984, p.57-70), citado por Lilian Moreira: define a serialização como um conjunto de
sequências sintagmáticas baseadas na alternância desigual: cada novo episódio reproduz
um conjunto de elementos já conhecidos e que, portanto, já fazem parte do repertório do
receptor, ao mesmo tempo em que introduz algumas variantes incluindo elementos
novos E ainda, Lilian Moreira comentando: Essa forma de produção seriada da televisão
vem sendo analisada por Omar Calabrese como uma dinâmica que brota da relação
entre elementos invariantes e variáveis, inaugurando uma “estética da repetição. O
seriado é um programa do tipo “mais do mesmo”. Há um gosto pela circularidade, na
qual sempre se espera a mesma coisa do seriado. Como se fosse sempre a mesma
história que se gosta de ver e/ou ouvir e para não enjoar, ela vem modificada um pouco.
Para Zanetti (2009) [40]: Tratando especificamente de produções baseadas em
narrativas seriadas (as “séries”), Eco (1989: 123) afirma que: Na série, o leitor acredita
que desfruta da novidade da história enquanto, de fato, distrai-se seguindo um esquema
narrativo constante e fica satisfeito ao encontrar um personagem conhecido, com seus
tiques, suas frases feitas, suas técnicas para solucionar problemas. O “retorno ao
idêntico”, portanto, é um aspecto fundamental no processo de produção – e também de
fruição – de uma produção seriada, o que resulta numa espécie de consolo, pois o
espectador se sente confortável ao encontrar o já conhecido, ao saber como a trama será
mais ou menos conduzida e como os conflitos serão resolvidos. Essa é também uma
forma de manter o engajamento e a fidelidade do telespectador ao produto. Isto revela
um desgosto pela ideia da finalidade, da obra acabada. Mais uma vez é troca do fim pelo
meio, muito comum na televisão. Garcia e Martinez (2009, p. 70): Em outras palavras,
ainda que esses repertórios de tramas e funções mostrem agrupamentos amplos, sendo
sua amplitude variável pelas características do corpus, parece existir um grupo bastante
reduzido de tipos de trama, assim como de funções, cuja presença se dá em muito maior
medida. Isso permite supor que as séries recorrem à alternância rítmica desses
elementos constantes com outros de natureza variável e de aparição muito menos
frequente. Isto é contra a intelecção já que, como nunca termina o seriado, não se parte
para outra temática. Como se se fizesse a leitura do mesmo capítulo de um livro várias e
várias vezes. A repetição ad nauseam da mesma coisa ajuda a fixar um único conceito e
não vários, gerando a pobreza no pensar, contrariando a atividade intelectual. Fere-se
totalmente a lógica da obra literária, que tem começo, meio e fim. Às vezes, o seriado,
já nasce “iniciado” reforçando que só o meio é o importante, ou seja, os personagens
aparecem sem saber de onde vieram. Abandona-se por completo a ideia de unidade.
Não é necessário assistir ao primeiro episódio para compreender o “fio da meada”,
diferente de um livro, por exemplo, ou de um filme. Bastam alguns minutos de qualquer
capítulo, dada a superficialidade, para compreender-se a trama. E quem viu um
episódio, “viu todos”, dada a mesmice. E mais, como cada episódio é igual ao anterior
mais alguma variação, não é possível acrescentar algo mais elaborado a sua pobre
trama, não há ganho de profundidade e/ou complexidade. Tampouco aos personagens é
permitida uma elaboração maior. O clímax é vulgarizado porque tem de existir ao
menos um por capítulo. O quadro final resta simplório e desta forma, joga-se na água
rasa a concepção da bela literatura ficcional. As séries duram anos e anos a fio e só
terminam quando o repertório de novidades, do componente variável acrescentado em
cima do elemento invariável, esgotou-se. Neste caso, adveio o tédio e a “enrolação” não
é mais possível. Ou seja, o seriado termina não em razão de um epílogo ou de uma
conclusão, necessários à sua lógica. O herói do seriado sempre será invencível e
estereotipado e, por tabela, o ator que o representa torna-se uma celebridade. O modelo
em que um núcleo central de três ou quatro personagens estereotipados que trazem suas
características intrínsecas toda semana (repetição) e que interagem com outros
personagens e tramas (inovação) que ficam presas aos 20 ou 40 minutos de episódio e
não aparecem mais na diegese durante os outros (TRENTO E CORREIA, 2012, P.2) Os
seriados são a televisão sem tirar nem por, reiterando as podres características dela.
ANEXO 4.8 - PROGRAMAS DE
AUDITÓRIO
Os programas de auditório seguem a regra comum da televisão: a baixeza. Eles são
fragmentados e são como um circo: “Os programas de auditório prendem a atenção do
público e do telespectador pela variedade de atrações apresentadas num só programa,
aproximando-se da mesma linguagem utilizada pelo circo”. (SOUZA, 2004, p. 94) Em
todos os circos existem palhaços. No caso dos programas de auditório, parece que os
telespectadores é que são feitos de palhaços, tamanho o acúmulo de bobagens
concentrado neste tipo de “atração”. Há necessidade de o apresentador sempre
comandar o programa, na base de ardis. Um organizador de um programa de auditório
disse: “Na época [década de 50] eu fui o primeiro. Lidar com o auditório é no gogó
mesmo. Você antes bate um papinho com a turma... Pede para a turma: ‘Olha, quando
entrar o fulano, vamos aplaudir’” (SOUZA, 2004, p. 95) O sensacionalismo está
presente, com o abuso da exploração de pessoas comuns: Os programas de auditório –
gênero antigo na programação televisiva- são palco principal desse sensacionalismo na
grande mídia brasileira, por meio de espetáculos que ridicularizam e/ou constrangem
seus participantes. Esses programas de auditório primam pelas sensações sobre a
consciência, pela emoção sobre o raciocínio. E enquanto a mídia ridiculariza as
situações cotidianas de pessoas comuns, a sociedade assiste a sua exploração como se
fosse natural (CASALI et al. 2008, p. 2). Há sempre uma mercantilização da notícia,
dos próximos “quadros” ou atrações, comum também nos telejornais, na qual o que vale
é o anúncio dela em si mesma e não do seu conteúdo, e estas “chamadas” são repetidas
várias vezes ad nauseam. o grau mais radical de mercantilização da informação: tudo o
que se vende é aparência e, na verdade, vende-se aquilo que a informação interna não
irá desenvolver melhor do que a manchete (MARCONDES FILHO, 1989, p. 66)
ANEXO 4.9 - APERTADA ANÁLISE DE
ALGUNS OUTROS INSTRUMENTOS
MODERNOS
A 4.9.1 - COMPUTADOR
O computador é um instrumento multifacetado. Bem diferente da televisão, há grande
interação ativa entre os usuários e os computadores. Não há somente passividade, como
na televisão. Há trabalho intelectual possível. Ele pode ser usado como uma máquina de
escrever sofisticada para os operadores do direito, como calculadora financeira para
economistas etc. Nestes usos, os computadores não passam de ferramentas eficientes. E
não há nada de errado nisto. Porém, pode-se utilizar o computador como um jogo
eletrônico e como televisão, por exemplo. Nestes casos, o computador vai se comportar
exatamente e com os mesmo vícios destes aparelhos.
A 4.9.2 - “INTERNET”
A quase omnipresente rede mundial de computadores também é um meio
multifacetado e extremamente poderoso, ainda mais que a televisão. Mereceria estudo
autônomo. Como o computador, a internet também pode ser usada como ferramenta de
trabalho. Pode ser usada como meio facilitador do dia a dia, no caso de acesso a “sites”
de bancos para transferências, pagamentos etc. Ou como um tipo de correio, com o e-
mail. Pode ser usada como televisão e jogo eletrônico, padecendo dos mesmos vícios
deles. E mais, já que a internet “criou” novas atividades, como as famigeradas “redes
sociais”. O uso indiscriminado da internet pode ser até pior que a televisão, já que pode
somar os vícios comuns da televisão com mais alguns. A grande diferença é que, ao
contrário da televisão e do videojogo, a internet pode ser bem usada. Um bom uso da
internet é assistir a aulas, ler textos inteligentes etc. Há possibilidade de intensa
atividade intelectual.
A 4.9.3 - VIDEOJOGO
Muito do que foi falado sobe televisão é aplicável ao videojogo. Os videojogos ou
jogos eletrônicos ou, ainda, “videogames”, são jogos nos quais o jogador interage com
imagens enviadas a um dispositivo que as exibe, geralmente uma televisão ou um
monitor de diversos tamanhos.[41] O termo é usado tanto para “softwares” específicos
que processam estes jogos, encontrados em celulares, “tablets”, laptops e computadores
de mesa, quanto para consoles de diversos modelos, que não passam de computadores
com a finalidade precípua de executá-los. A interação entre o jogador e o equipamento é
feita mediante teclados, joysticks, pistolas de brinquedo etc. Como há muita variedade
de videojogos, concentraremos a análise nos mais comuns, que são aqueles nos quais o
indivíduo joga contra a máquina e obtém pontuação mediante determinadas ações, como
apertar botões, mover o joystick etc. São jogos que simulam lutas, guerras, corridas etc.
A atratividade desta atividade lúdica consiste na obtenção de pontos, vitórias virtuais,
etc. advindos da superação de obstáculos e da ultrapassagem de etapas cada vez mais
difíceis, que exigem cada vez mais habilidade do jogador. Sons e músicas estimulantes
e cenários coloridos e multiformes completam o quadro. Apesar de o jogador interferir
nas imagens, coisa que não ocorre na televisão, esta interação é limitada. A atividade
física feita pelo jogador é mínima e consiste em apertar botões e/ou mover instrumentos
(joystick, por exemplo). E o que é pior não passa pela inteligência, mas pelos instintos.
Ou seja, nestes jogos ela não é estimulada. Há muitas notas da televisão no videojogo:
“mundo próprio”, deturpação da realidade, fragmentação, superficialidade, “mudanças
rápidas”, fluxo e circularidade, além de tomar muito o tempo dos jogadores. Confunde a
imaginação e ataca a memória com o bombardeio exagerado de imagens e sons. Feito
para o gozo momentâneo, é distante da elevação e do enriquecimento da vida interior.
Normalmente os sons e músicas são de baixo nível, o que ajuda a piorar o quadro. Não
se pode confundir esta recreação com jogos que podem estar no computador, mas que
são reproduções de jogos de tabuleiros reais. Como por exemplo o xadrez. O xadrez é o
oposto do videogame. Há tempo para pensar, todas as jogadas são refletidas. Com
estudo se pode progredir. Não requer habilidade manual. A atratividade dele é
puramente intelectual. E há simbolismo envolvido. --------------------------------------------
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[1] Ver artigo “De Aquiles a Boy
George” http://www.montfort.org.br/old/index.php?secao=veritas&subsecao=politica&
artigo=aquiles&lang=bra

[2] “Glamour”, no sentido corrente, é uma qualidade excitante e/ou extraordinária que
faz com que certas personalidades ou coisas pareçam atrativas, charmosas e na moda.

[3] Curiosamente, talvez um dos programas menos nocivos da televisão, seja o de


“culinária”, pois neste há uma lógica necessária a ser seguida, a da receita. Assim, há
começo meio e fim, há de se mostrar os ingredientes, efetuar as combinações deles e
finalmente apresentar a receita pronta. E, além disso, convida o telespectador a repetir a
receita no mundo real. Evidentemente, haverá muitas mudanças rápidas de foco,
interrupção para anúncios, comentários estultos do apresentador etc.

[4] KERCKHOVE (1997, p. 49) já havia feito alguma comparação entre os dois.

[5] “De acordo com French, Story e jeffrery (2001), nos Estados Unidos, em 1997, os
restaurantes fast food gastaram 95% de suas verbas publicitárias com propagandas de
televisão”. P. 33 Paula C. B. D. Nascimento, Tese de mestrado (2006).

[6] Ver aqui: http://www.oexplorador.com.br/site/ver.php?codigo=31206

[7]http://jus.com.br/artigos/4982/influencia-da-publicidade-na-relacao-de-
consumo#ixzz2e8gErEO0. Página acessada em 5 de setembro de 2013

[8] Segundo o site “marketfinancial”, foram gastos em 2006, 391 bilhões de dólares em
propaganda no mundo inteiro, neste valor está incluída a propaganda gasta na
televisão. http://www.themarketfinancial.com/provision-interactive-set-to-revolutionize-
the-billion-dollar-advertising-market-otcpvho-ob/832

[9] Podemos definir magia como uma desproporção entre a causa e o efeito. Assim, pela
magia, uma palavra: ‘abracadabra’ geraria como efeito de sua verbalização o poder de
abrir portas de um cofre, por exemplo.

[10] Exemplo dado por São Francisco de Sales referente aos bens materiais.

[11] A urna eletrônica substituiu as “complicadíssimas” cédulas, nas quais era


necessário escrever o nome e/ou o número do candidato. Desta forma, eliminou-se um
“árduo” trabalho intelectual.

[12] Ouroboros é um símbolo representado por uma serpente ou dragão mordendo a


própria cauda.

[13] http://www.montfort.org.br/old/index.php?secao=veritas&subsecao=politica&artig
o=tv&lang=bra

[14] TELENOVELA. In: WIKIPEDIA. Disponível em:


<pt.wikipedia.org/wiki/telenovela>. Acesso em 21 set. 2013.
[15]As Novelas e a Engenharia Social. Produção de Padre Paulo Ricardo. Mato Grosso.
2012. Mídia em formato digital. Disponível em
<http://padrepauloricardo.org/busca?utf8=%E2%9C%93&search=novela>. Acesso em:
10 set. 2013.

[16] http://www.nature.com/pr/journal/v74/n3/fig_tab/pr2013105a_ft.html

[17] Estudo completo disponível no site (em


inglês): http://archpedi.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=383160&resultClick=3

[18] http://veja.abril.com.br/noticia/variedade/franca-proibe-programas-criancas-
304887.shtml

[19] BRANDÃO, Cristina. Televisão e cultura

[20] Segundo dados do livro Batalha da Mídia de Dênis de Moraes.

[21] Como a fundação


Ford: http://www.fordfoundation.org/grants/grantdetails?grantid=114139

[22] Ver aqui: http://www.montfort.org.br/a-beleza-no-mundo-no-homem-e-em-deus-a-


filosofia-da-arte-a-sabedoria-de-deus-na-criacao-e-a-vida-espiritual/

[23] Cuida-se aqui da missa tridentina.

[24] De Peire Cardenal, sec. XIII.

[25] No sentido dado por S. Agostinho.

[26] Tradução: “Indizível o erro deste século falso e traidor que faz do crime, uma honra
e da razão, loucura. Possa Deus em Sua bondade, proteger-nos da dor infernal e também
a Virgem Maria”

[27] Os dois estudos são do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

[28] Disponível em: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI26593-


15295,00-
ALBERTO+CHONG+AS+TELENOVELAS+MOLDARAM+O+BRASIL.html

[29] LEITE, Adriana ; GUERRA, Lisette. Figurino: uma experiência na televisão. São
Paulo: Editora Paz e Terra, 2002.
<http://www.portcom.intercom.org.br/pdfs/46140310463454463791961765374966402
108.pdf>

[30] MACHADO. Arlindo. Pode-se falar em gêneros na televisão?. 1999. Revista


Famecos, n 10. Porto Alegre.
[31] Revista Veja. 2011. Disponível em
< http://veja.abril.com.br/noticia/saude/programas-de-tv-acelerados-e-fantasticos-
podem-prejudicar-o-aprendizado-e-o-comportamento-infantil> Acesso em 20 set. 2013.

[32]Mainadi, Diogo. Os cães de gravata. Revista Veja. 2007. Disponível em


< http://veja.abril.com.br/310107/mainardi.html>. Acesso em 19 set. 2013.

[33]MILLAN, Marília Pereira Bueno. Reality shows - uma abordagem psicossocial.


Psicol. cienc. prof. vol.26 no.2 Brasília June 2006. Disponível em
<http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1414-98932006000200003&script=sci_arttext>.
Acesso em 21 set. 2013.

[34] Jargão que significa: a primeira parte de uma notícia, geralmente posta em destaque
relativo, que fornece ao leitor a informação básica sobre o tema e pretende prender-lhe o
interesse.

[35] MELO, Carolina Abbadia. O espetáculo do Jornal Nacional como guia orientador
dos telejornais regionais. 3º Encontro de Pesquisa em Comunicação e Cidadania.2009.
Disponível em < http://mestrado.fic.ufg.br/uploads/76/original_jornal_nacional.pdf>
Acesso em 4 set. 2013.

[36] KAPLAN escreveu um livro sobre o tema: Rocking around the clock: Music
Television, postmodernism and Consumer Culture. London: Methuen, 1987. E também
organizou um outro livro que inclui a mesma temática: O mal-estar no pós-modernismo
– teorias, práticas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1993.

[37] “Music Television” é uma rede de televisão focada em videoclipes.

[38] SOARES, Thiago. Videoclipe, o elogio da desarmonia: Hibridismo,


transtemporalidade e neobarroco em espaços de negociação. Trabalho apresentado ao
NP 07 – Comunicação Audiovisual, do IV Encontro dos Núcleos de Pesquisa da
Intercom. 2005. Disponível em
<http://www.portcom.intercom.org.br/pdfs/34993058721904594029607013385137403
671.pdf> . Acesso em 28 set. 2013. O mesmo autor escreveu o livro: Videoclipe – O
Elogio da Desarmonia, LivroRápido, 2004.

[39] Lílian Fontes Moreira. A narrativa seriada televisiva: O seriado Mandrake


produzido para a TV a cabo HBO. 2007. Disponível em
<www.uff.br/ciberlegenda/ojs/index.php/revista/article/download>. Acesso em 15 out.
2013

[40] Zanetti, Daniela. Repetição, serialização, narrativa popular e


melodrama Repetition, serialization, popular narrative and melodrama. matrizes Ano 2
– Nº 2 primeiro semestre de 2009. Disponível em
<http://www.revistas.usp.br/matrizes/article/viewFile/38230/41004>. Acesso em 10 out.
2013.

[41] JOGO ELETRÔNICO. In: WIKIPEDIA. Disponível em:


<pt.wikipedia.org/wiki/jogo eletrônico>. Acesso em 21 set. 2013.