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Ciências Sociais e Representações do Brasil nos anos 1950

Aparecida Maria Abranches

Em “A Problemática da Realidade Brasileira” ( 1956) , Guerreiro Ramos faz a


seguinte observação : “ a realidade social é, atualmente, „questão disputada‟ tendo sido,
aliás uma categoria mais pressuposta do que explícita entre os sociólogos.”(p.79)
Quando, há pouco tempo atrás, retomei o referido texto e li esse trecho, percebi que ele
ia ao encontro de algumas reflexões às quais o desenvolvimento da tese de doutorado
me levou a respeito de um aspecto, não menos importante que outros, da constituição
das Ciências Sociais no Brasil. Trata-se da produção de conceitos com os quais se
nomeia o tipo de convívio social em uma dada experiência histórica. Como sugere o
autor, o uso de categorias e conceitos não é algo pacífico, pois são instrumentos através
dos quais representações conflitantes da vida social são elaboradas e veiculadas. Mais
que isso, eles traduzem também projetos e ações políticas desejáveis na direção
indicada pela maneira com que a “realidade social” é representada.
É como disputa que desejo abordar duas formas conceituais com que a vida
coletiva brasileira foi apreendida nos anos 1950 no âmbito das Ciências Sociais em seu
processo de institucionalização. Refiro-me aos conceitos de nação e sociedade e
focalizo-os não como representações mutuamente excludentes ou unilateralmente
submetidas ao que seria a superioridade e competência que uma teria para explicar a
outra. Ao proceder desta forma, procuro abstrair-me da institucionalidade dos
conceitos, isto é, da dignidade e autoridade explicativa que eles vieram ou não a
adquirir. É como parte constitutiva e construtiva de um processo social, em que este
suscita a imaginação sociológica do passado, presente e futuro da experiência coletiva
que se deseja conhecer e nela intervir, que desejo analisar estes conceitos ou
representações.
Neste texto procuro analisar a forma de elaboração de conceitos pelas Ciências
Sociais nos anos 1950. Para este fim, tomo como de apoio textos de Florestan
Fernandes, Maria Isaura Pereira de Queiróz e de Guerreiro Ramos. A partir desses três
autores focalizo as representações do país no âmbito do que seria a delimitação de três
campos das Ciência Sociais: a Sociologia, a Antropologia e Sociologia política. No
primeiro, analiso o que seria uma compreensão do país em termos de sociedade e que
tem como referência o Brasil urbano-industrial. No segundo, uma reflexão que

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privilegia o conceito de nação e que se sustenta na idéia de um passado cultural. No
terceiro, também estaria presente uma representação em termos de nação, mas que
rejeita a idéia de antigas tradições culturais, identificando a nação com o que seria a
modernização política do país.

1.2 Sociologia, Antropologia e os seus objetos

De acordo com Giddens, a sociologia deriva sua especificidade da relação que mantém
com o alvorecer da ordem urbano industrial enquanto a Antropologia de uma reflexão
que tem como objeto culturas estranhas aquele universo. Essa maneira de designar as
duas disciplinas parece ter incidido diretamente sobre o secionamento de objetos na
definição das duas disciplinas no Brasil. À Sociologia caberia investigar fenômenos
sociais vinculados à civilização industrial, cuja universalidade derivada da sua
incontestável marcha triunfante no mundo imprime no objetos oferecidos por ela o
mesmo caráter. Daí a possibilidade de a Sociologia dispor de um arcabouço de
conceitos e técnicas de investigação homogêneos e universais.1 A Antropologia
refletiria em outras sociedades a vocação que lhe traz ao mundo europeu, isto é,
incumbir-se do conhecimento de formas de interação social e de mentalidades não
afetadas pelas transformações econômicas, sociais e políticas do Ocidente.
Não se pode desvincular dessas duas formas de conhecimento a dialética entre
uma nova ordem social, cujo dinamismo impõe e promete seu triunfo no mundo e
“outras ordens” destinadas ao desaparecimento. Assim que a Antropologia, ainda que
produto do mesmo fenômeno histórico com o qual antagoniza, constrói a sua identidade
a partir de fenômenos sociais totais entendidos como particulares em relação a uma
ordem mundial que promete tornar-se única. Desse modo, a Antropologia na Europa só
é fenômeno endógeno no que diz respeito aos móveis sociais, políticos e econômicos
que lhe nutrem a imaginação de outros mundos. Porém, os objetos que a estruturam
como forma de saber são encontrados alhures.
Pode-se dizer que as expansões colonialistas do final do século XIX ao
promoverem o “encontro” entre uma forma de existência social entendida como o ápice
das realizações humanas com outras, que vistas numa perspectiva etnocêntrica, põem

1
Para esta reflexão considero pertinente a seguinte observação: “A expansão do mundo capitalista
constitui, também, a expansão de um regime de racionalidade que lhe é inerente. Em outros termos:

2
em operação formas de classificação já elaboradas pelo pensamento europeu na
compreensão das mudanças estruturais sofridas internamente. Refiro-me a conceitos
como tradição ou tradicionalismo, solidariedade mecânica, comunidade, pré-capitalismo
formulados para a melhor compreensão do que fora o passado daquelas nações. Tais
conceitos expressariam a idéia de uma experiência social tida como intocada, pré
existente ao mundo urbano industrial e civilizado. Acredito que essas imagens
produzidas internamente contribuíram para a compreensão de formas sociais extra-
européias e, mais que isso, forneceram o arcabouço conceitual da Antropologia, que
junto com o particularismo das sociedades estudadas, corroboram a definição e
delimitação do campo dessa disciplina.
O ponto que interessa focalizar aqui é como esta definição abrangente das duas
disciplinas informou a delimitação dos campos da sociologia e da Antropologia no
Brasil. Além disso, como desta delimitação derivaram-se formas distintas de
representação da sociedade brasileira pelas ciências sociais. No que se segue, tomo
como ilustração dois cientista sociais, uma antropóloga, Maria Isaura Pereira de Queiróz
e um sociólogo, Florestan Fernandes. Os textos analisados têm em comum o caráter
historiográfico. Conforme será visto, ambos propõem não uma história das duas
disciplinas isoladamente mas das Ciências Sociais. No entanto, observa-se que
perspectivas distintas orientam o projeto de modo que acaba se afirmando duas
identidades disciplinares, cujas particularidades têm estreita relação com os objetos
eleitos e com a finalidade que orienta os estudos. Não cabe aqui analisar as relações
entre sociologia e antropologia no curso de suas respectivas elaborações e construções
na história das Ciências Sociais brasileiras. O objetivo na análise dos autores é tão
somente mostrar como de alguma forma as duas disciplinas repõe no nosso cenário
intelectual as duas vocações assinaladas acima. E ao fazerem isso, nos permitem
visualizar no período que compreende as décadas de 1930 a 1950 a convivência
conflituosa de duas representação do Brasil. De um lado, uma imagem da nação que vai
buscar no passado a existência tanto de um pensamento quanto de um ser brasileiro. De
outro, uma visão que abandona o passado e busca no presente tanto as condições do
pensamento quanto o devir da sociedade que se deseja.

aquilo que aparece na história das ciências como universalização do campo do saber científico precisaria
ser analisado como uma das face do processo da expansão capitalista” ( Villas Bôas & Jardim, 1982 )

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1.3 Sociologia, Antropologia e representações do Brasil

Florestan Fernandes2 associa o desenvolvimento da Sociologia, na Europa, a


dois condicionamentos: um, que manifesto na própria vida social, consagra um modo
racional de compreensão da existência humana e outro relativo à criação de instituições
de pesquisa em que tem lugar a elaboração de padrões que devem reger a atividade
científica e orientar maneiras de intervenção na realidade social. Os dois, no entanto,
seriam dependentes da formação de uma ordem social diferenciada e estratificada na
qual verifica-se uma divisão social do trabalho capaz de concentrar nas mãos de
indivíduos especializados as atividades intelectuais.
No Brasil, uma mentalidade sociológica só se teria tornado possível a partir da
desagregação do sistema escravocrata o qual, na sua caracterização, aparece como
um complexo de tradicionalismo e conservantismo que obliterava qualquer exercício
intelectual transcendente à ordem senhorial. Só para fins do século XIX é que
transformações ocorridas nas esferas econômica, política e cultural passam a favorecer
a formação de uma mentalidade que doravante se desenvolveria até o estágio em que a
Sociologia se encontrava na década de 1950. Florestan identifica o surgimento dos
suportes sociais da nova mentalidade no decorrer do século XIX. A partir da vinda da
família real para o Brasil, as necessidades administrativas e aquelas relacionadas à
expansão econômica teriam pressionado no sentido da educação de um maior número
de pessoas, o que levou à criação de escolas superiores e à criação de “núcleos urbanos
de atividade intelectual”. Por outro lado, a própria expansão da ordem social
escravocrata e o interesse em manter a influência política pelo senhor rural exigiu o
deslocamento das atenções deste para o mundo urbano. Com isso, Florestan identifica
na formação de centros urbanos o elemento auspicioso para o desenvolvimento do saber
racional.
Enquanto na Europa, o pensamento social se desenvolveu paralelamente às
transformações ligadas à passagem da desagregação do feudalismo à revolução
industrial, estando, portanto, estruturalmente vinculado à existência social e material
daqueles povos, no Brasil a interdependência entre o pensamento e mudanças estruturais
não seria perceptível. O autor reafirma a desvinculação entre as condições reais e

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Baseio-me nos seguinte textos do autor: “Ciência e Sociedade na Evolução Social do Brasil” ;
“Desenvolvimento Histórico-social da Sociologia no Brasil e “Padrão do Trabalho Científico dos

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materiais de existência e a produção intelectual, à qual seria nutrida e recebida
“preformada” dos centros intelectuais europeus. Ressalta porém como isso teria
favorecido uma identidade engajada aos intelectuais brasileiros que exerceriam aqui,
antes, influências “culturalmente criadoras” do que “estruturais”.
Desse breve resumo quero destacar dois elementos. Em primeiro lugar, o
direcionamento da análise histórica de Florestan para o florescimento dos centros
urbanos. Se por um lado é realçada a ausência de condições materiais e sociais mais
amplas, ou estruturais, como suporte do pensamento, por outro a cidade vai aparecendo
como capaz de fornecer o solo que teria permitido o desenvolvimento do saber racional.
Em segundo lugar, a atenção dada às instituições de ensino voltadas para a formação
técnica e intelectual. Desses dois elementos destacam-se dois pares dicotômicos que
estruturam à análise: cidade X rural e saber racional X saber não racional.
A respeito desta última dicotomia, Florestan parece sugerir como saber não
racional aquele praticado pelo clero no complexo escravocrata. Embora o catolicismo
tenha significado uma oportunidade para inculcar um tipo de conhecimento racional,
isto é, independente daquele emanado da ordem social escravocrata, ele foi abrangido
por esta mesma ordem. As razões se deviam ao fato de os problemas emergidos da
escravidão para os princípios cristãos não serem resolvidos dentro da “ordem
eclesiástica colonial”, e em segundo lugar, devido a solidariedade da igreja com os
interesses colonizadores do Reino. Desse modo a igreja acabava por reafirmar uma
mentalidade formada no âmbito das relações domésticas.
Por saber racional, então, podemos entender que Florestan identifica aquele que
seria tanto capaz de promover uma percepção do público como espaço distinto do
espaço doméstico e uma emancipação de valores culturais e sociais e formas de
administrar oriundos do domínio doméstico. Da análise do que seja o saber racional e o
não racional, temos então mais uma dicotomia: privado X público. Cidade, instituições
de ensino e domínio público aparecem como categorias que vão indicando a maneira
como Florestan compreende as condições que permitirão o florescimento do saber
sociológico. Das três categorias, porém, uma configura o ideal a ser alcançado por uma
intelligentzia criadora: o público. Este seria o elemento ausente no decorrer do anos
analisados. Obviamente, a explicação do porquê da ausência é a mesma que explica a
submissão dos princípios cristãos à ordem senhorial. Os domínios doméstico e rural

Sociólogos Brasileiros” Todos foram originalmente publicados em 1956, 1957 e 1958, respectivamente.
Ultima publicação em 1977, indicada na bibliografia.

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seriam suficientemente absorventes de modo a comprometer possíveis princípios
universalistas de ordenação social. A vida política é compreendida como
patrimonialista, de modo que o Estado é descartado da possibilidade de vir a
desempenhar qualquer papel de emancipação.
Vou me deter um pouco na questão de como na ausência de mudanças
estruturais à maneira européia, a cidade forneceu o ponto de apoio cognitivo3 para uma
imaginação da vida coletiva em termos de sociedade e como esta mesma referência
geográfica fornecerá os ingredientes para a representação da nação como tradição.
Embora Florestan Fernandes ressalte a falta de interdependência entre a
produção intelectual e as transformações materiais e sociais, destacando o papel da
intelligentzia na condução de tais mudanças, algum tipo de condicionamento empírico
lhe é imprescindível. Este será encontrado no florescimento da cidade. É dispensável
escrever sobre a importância que a cidade, especialmente a cidade de São Paulo, teve na
produção de seus intelectuais. É através da experiência da vida citadina, com o frenesi e
estupor causados e registrados por Paulo Prado (1998), que uma imaginação da vida
moderna advém aos homens e mulheres que puderam experimentar o que Morse (1978)
chama de ruptura abrupta com o mundo agrário. As greves e o ir e vir de trabalhadores,
tudo isso forneceu ingredientes para uma dedução daquilo que os livros e as viagens
diziam ser a sociedade moderna. Os que vivem numa grande cidade sabem que mais do
que um lugar geográfico, a cidade é onírica, propicia o sonho e a imaginação de outros
mundos e de outras épocas através dos seus museus, das agências de viagens, dos
jornais e revistas estampados nas bancas, dos turistas, etc. Talvez, parte disso tudo ainda
não existisse no início do século XX nas cidades brasileiras, mas não é isso que
importa. O que me importa assinalar é como para uma parcela importante de intelectuais
brasileiros para os quais a cidade foi tão crucial para a produção intelectual, esse
ambiente de sonho deve ter favorecido um desprendimento cognitivo em relação a uma
empiria puramente geográfica. Chama-me atenção o fato de que nos estudos sobre a
vida coletiva brasileira de um Euclides da Cunha ou Oliveira Vianna a geografia
fornece o ponto de partida para a compreensão de hábitos e modos de vida das
populações. Categorias como litoral, sertão, corte e província são utilizadas como
recursos teóricos na busca de uma explicação sociológica do Brasil.

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Tomo essa expressão emprestada de Richard Morse ( 1978)

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Esses contrastes sociais indicados por uma antropogeografia também
comparecem na análise de Florestan. No início do texto analisado, como vimos, o autor
se utiliza do recurso campo X cidade. É em relação à idéia de campo ou rural, categorias
indicativas do atraso, que a cidade aparece sinalizando um devir, um futuro
supostamente melhor e racional. Mais adiante no mesmo texto4, porém, a cidade parece
prescindir de um oposto geográfico, passando a ser ela referência de si mesma e em
relação à qual uma outra representação do atraso vai ser elaborada.
Trata-se do momento do texto em que Florestan dirige-se diretamente à cidade
de São Paulo nos anos 1950. A cidade já não aparece apenas como um lugar destacado
do mundo rural capaz de propiciar um afastamento dos influxos da vida doméstica no
pensamento e nas atitudes políticas. Ela é o lugar onde mudanças de caráter estrutural
estão ocorrendo. Trata-se do processo “adiantado” de industrialização, graças ao qual
uma “nova mentalidade” estaria em formação. A idéia de industrialização configura
como a que permite tanto extrapolar da representação da cidade como um lugar onde se
vive de determinada forma para uma representação mais abrangente da coletividade
inteira. Com a industrialização estariam presentes, também, as condições que
permitiriam o florescimento da sociologia.
Trata-se de uma perspetiva que designa para a Ciência Social condições sociais
e culturais entendidas como próprias da ordem urbano- industrial. Tal compreensão,
todavia, não é sem problemas num contexto híbrido, onde passado e presente, atraso e
moderno, irracionalidade e racionalidade convivem. É o que veremos na próxima
citação. A cidade vai apresentar um outro tipo de problema que será focalizado tanto
como um obstáculo ao saber racional como também objeto a ser estudado e superado.
sociologia. A partir dessa análise, quero também sublinhar como a apreciação daqueles
problemas permite a construção de mais uma dicotomia. Desta vez descolada da empiria
geográfica e mais abstrata e abrangente no que diz respeito à vida coletiva brasileira.
Trata-se da relação com o “tradicional” Escreve Florestan Fernandes:

“o irracional continua a possuir, sem dúvida grande importância na vida cotidiana dos
indivíduos. A magia de origem folclórica continua a existir e a ser praticada, crenças
religiosas ou mágico- religiosas, que apelam para o misticismo e valores exóticos,
encontram campo propício para desenvolvimento graças às inseguranças subjetivas,
desencadeadas pelas incertezas morais e fricções sociais do mundo urbano.”
(1977a,p.22)

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Ciência e Sociedade na Evolução Social do Brasil.

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No entanto tal mentalidade deveria ser considerada sobrevivência, resíduo,
deduzimos, já que “... no fundo, a civilização que se vincula a este mundo, é por
necessidades internas, a civilização por exelência da tecnologia racional, da ciência e
do pensamento racional” ( p.22) No Brasil daqueles tempos a Sociologia além de
técnica de conhecimento e solução dos problemas do mundo urbano industrial era
também um projeto de modernização. Os suportes sociais que lhe permitiam
desenvolver-se, Florestan reconhece só existiam “em determinadas regiões, nas quais a
industrialização acelera a desagregação da antiga ordem tradicional e patrimonialista e
precipita o processo de desenvolvimento das classes sociais” ( p.23-24).
Observa-se que Florestan às representações sociais tomar o pensamento como
indicadores do atraso e do moderno, supondo estar subjacentes a eles formas sociais
específicas correspondentes, é coerente com a perspectiva adotada na análise que busca
a relação entre conteúdo do pensamento e estrutura social. Porém esta forma acaba
indicando uma limitação do pensamento racional ou científico na medida em que só lhe
seria possível abarcar as formas sociais que lhe dão suporte, ou seja aquelas em que a
civilização já tivesse penetrado e formado demandas. Tomando como suporte desta
mentalidade nova a cidade de São Paulo, com os problemas que ela gera em termos de
exigência de uma intervenção técnica, o pensamento racional coincidiria com
formação de um saber técnico premido pelas necessidades da cidade. Deste modo, o
racional se encontra “no plano do serviços públicos, no das construções e da engenharia,
na medicina,etc” ( p.22). Vê-se que nesta análise, em que a racionalidade do
pensamento que tem como condição à racionalidade do contexto, a qual é definida pelo
tipo de exigência que faz ao conhecimento ou à ciência, só pode ser técnica. Auela
desenvolvidas em instituições profissionais e ag6encias de planejamento. Neste sentido,
as Ciências Sociais só poderiam ser tidas como forma de saber racional na medida em
que fossem capazes de atender as necessidades emergidas com a industrialização e
urbanização. As preocupações de Florestan com a educação revelam o modo como a
Sociologia deveria intervir naquele contexto, solução que parece necessária à superação
da mentalidade atrasada.
Nesta análise da Sociologia por Florestan, as formas “mágicas” de origem
folclórica de pensamento, consideradas irracionais, parecem não caber no repertório de
objetos da Sociologia. Na medida em que condiciona os objetos desse saber à
capacidade deles expressarem “concepções secularizadas da existência” acaba

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limitando-os às agências técnicas, onde tais concepções já se fariam presentes. O
cotidiano de uma sociedade percebida em transição para o moderno parece não
encontrar na Sociologia conceitos e técnicas adequados à sua compreensão.
Os dados de Glaúcia Villas Bôas sobre a produção em livro das Ciências
Sociais no período de 1945 a 1960 sugerem dificuldades da Sociologia no período de
45 a 55 no cumprimento de uma pauta de estudos definida pela civilização urbano-
industrial. A autora seleciona os livros a partir de dois critérios “obras sobre a
disciplina” e “temas específicos”. Chama-se atenção aqui para o segundo critério, o
qual é composto dos seguintes temas: a) mudança social, industrialização e
desenvolvimento; b) meio rural; c) mobilidade histórica e social; d) meio urbano; c)
religião e d) educação. Nota-se que os dados registram no período de 45 a 55 apenas 1
livro sobre o tema a e nenhum sobre o tema da letra d. Situação diversa é registrada no
período de 1955 a 1966, quando os dois temas somam juntos 28 obras ( 20 sobre a e 8
sobre d ). Esses dados são significativos por que indicam um descompasso entre objetos
tidos como próprios da sociologia por se referirem às condições advindas com a
industrialização e urbanização e a circunstância social a que pretende aplicá-la no
contexto de 45 a 55. O cotidiano só irá favorecer a atividade cognitiva designada
própria da Sociologia a partir de 55 quando é intenso o processo de urbanização e
industrialização.
Ainda tomando como referência o estudo de Villas Bôas, situação diversa parece
configurar as realizações da Antropologia. Esta conta com 70 obras no período de1945
a 1955 e 71 no transcurso de 1956 a 1966. Os temas abrangidos são: tradições
populares, grupos étnicos específicos; formação étnico cultural; religiões afro-
brasileiras e cultura rural. Se comparadas as produções da sociologia e da Antropologia
observa-se que o cotidiano considerado místico e folclórico por Florestan e fora do
alcance da Sociologia encontra na Antropologia acolhida favorável. Partindo do estudo
de Maria Isaura Pereira de Queiroz, que ilustra um passado mais longo nas Ciências
Sociais brasileiras remontando-o às pesquisas etnográficas realizadas pelo Instituto
Histórico, Geográfico e Etnográfico Brasileiro, fundado em 1838, Gláucia Villas Boas
identifica nos temas da Antropologia daquele período uma reatualização dos temas
tradicionais que constituíram o campo da Antropologia no Brasil.
Estes temas tradicionais estariam vinculados a uma preocupação com a
brasilidade. De acordo com Maria Isaura Pereira de Queiroz (1989), de 1840 a 1870, as
pesquisas etnográficas têm como objeto os índios brasileiros cujo objetivo seria

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“afirmar que os brasileiros eram os legítimos filhos da terra, muito mais do que gente de
além mar: o selvagem era a marca da brasilidade” ( p.380). Esta preocupação com o
nacional se estende pelo final do século XIX e XX sob outros enfoques:

“Novas questões começaram a ser estudadas no Brasil por volta de 1870. A


variedade de traços culturais existentes na sociedade brasileira – hábitos arcaicos
provenientes de Portugal, costumes africanos, práticas indígenas - , encontrados no
cotidiano de todas as camadas sociais independentemente de sua origem étnica,
compunha uma miscelânea que contrastava com a homogeneidade que os letrados
brasileiros julgavam existir nos países europeus e na civilização ocidental. A sociedade
e a cultura do país passavam a constituir o foco de atenção para o estudo que foram se
avolumando com o correr do tempo e ainda hoje compõem o objeto preferencial dos
cientistas sociais. (p.380)

Importa ressaltar nesta maneira como o campo da Antropologia é constituído


primeiro, como uma busca de compreensão do nacional consubstancia o
desenvolvimento deste saber; segundo, como ela constrói uma maneira própria de
compreensão do nacional, na medida em que irá nutrir-se de temas não comprometidos
com a civilização urbano industrial e terceiro como o tema da nacionalidade vai
delimitando o campo e os objetos que lhe são considerados próprios. Conforme visto
acima, Maria Isaura remonta a história da Antropologia aos estudos etnográficos, os
quais têm como alvo os aborígenes e afirmação da brasilidade. Sucede a esta fase
outras interligadas pela preocupação com a brasilidade. Na Segunda fase assinalada pela
autora, de 1870 até por volta da década de 1920 do século XX, o interesse pelo que é
próprio à sociedade brasileira é motivado pela dúvida quanto a “possibilidade de existir
um „ser brasileiro‟. Estudos de Nina Rodrigues, especialmente, revelariam “um
profundo preconceito racial e cultural, que se voltava, especialmente, contra o africano,
cuja presença no cotidiano da sociedade brasileira era muito mais forte do que a do
indígena”(380). A partir das décadas de 20 e 30, o preconceito racial cede diante de
uma visão positiva quanto a existência de um ser brasileiro e a mestiçagem é aceita e
proclamada.
Observa-se que este modo de compreensão das duas disciplinas acaba indicando
um corte entre dois campos, o da Sociologia e o da Antropologia. Corte este definido
mais pelos objetos que suscitam a tarefa de conhecer do que pela epistemologia das
duas disciplinas. Nota-se que nos dois casos noções de distância e de proximidade
entre o objeto e formas cognitivas são também fundamentais na estruturação da
história dos dois campos, o que permite também indicar as possibilidades de existência

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do saber. No caso da Antropologia, a distância é fundamental, o que pode ser explicado
pela maneira própria como ela se constitui na Europa em vista do estranhamento entre
o mundo europeu e os outros mundos. Quanto à Sociologia, a exigência é a de um
parentesco entre objeto e as formas de pensá-lo e investigá-lo estribado em
condicionamentos históricos análogos.
Observa-se que essas duas trajetórias das Ciências Sociais no Brasil
apresentadas pelos dois autores conduzem a um secionamento da sociedade brasileira
naquele período. De um lado, uma realidade favorável ao conhecimento em virtude
mesmo do que de um outro ponto de vista, o da sociologia, é a permanência do
tradicional. De outro, o não tradicional, ou moderno, mas que acaba se revelando não
existente ou pelo menos com uma existência precária e ideal, malogrando o projeto da
Sociologia. Neste secionamento pode-se identificar a produção, pelas Ciências Sociais,
de duas imagens do Brasil: de um lado, o país tradicional expressado pela mentalidade
folclórica e de outro, o Brasil moderno, representado pela cidade, urbanização e
constituição de centros de ensino e pesquisa e de agências de planejamento.
Interessante notar neste secionamento uma redefinição da perspectiva dualista
que orientou o ensaísmo de Sílvio Romero e Euclides da Cunha. Redefinição porque
enquanto nesses autores a dualidade, manifesta na obra, expressa a geografia nacional,
através de formas concretas e particulares de experiência social, agora trata-se de uma
dualidade que organiza o saber científico ou douto. É como se a dualidade se
desprendesse da sua materialidade e passasse a consubstanciar uma forma de
representação douta do país. A dualidade migra da empiria para o pensamento. Mas
neste nível, de acordo com a historiografia, ela não se manifesta como constitutiva da
elaboração das formas de conhecimento da sociedade brasileira pelas Ciências Sociais.
Isto porque na história sobre o processo de afirmação deste saber, registra-se também o
processo de autonomização de cada um os seus campos. Ao solucionarem-se os
impasses com que as Ciências Sociais se defrontam nos anos 40 e 50 definindo-se os
campos em função da pertinência dos objetos, soluciona-se também o hibridismo de
uma realidade social onde os limites entre o que é entendido como tradição e moderno
são tênues. Na medida em que cada uma das duas disciplinas constrói seu campo a
partir de uma das faces da dualidade, esta desaparece da realidade configurando-se cada
uma delas um mundo exclusivo. De um lado, o mundo da antropologia, de outro, o da
sociologia. Ou, de um lado, a nação, dispondo de um tempo longo de existência, e de
outro, a sociedade, de configuração recente.

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O meu propósito até aqui foi analisar como uma representação de nação foi
elaborada em relação a idéia de sociedade no contexto da institucionalização das
ciências sociais. Gostaria agora de me utilizar dessa mesma discussão do método e
objetos da sociologia e da antropologia para realçar os sentimentos em relação à
cidadania que envolveu o debate nas ciências sociais. Com isso desejo dimensionar um
pouco mais aquele contexto para além do âmbito das ciências sociais para tentar dar
conta tanto do que as ciências sociais significaram em termos dos anseios democráticos
da época quanto da maneira como o pensamento de Guerreiro Ramos participa dessas
aspirações da época.

1.4 Ciências Sociais e cidadania

Só de um ponto de vista típico-ideal que se pode delimitar tão claramente os


limites de cada uma das disciplinas em função dos objetos naquele período. A escassa
produção da Sociologia demonstrada na tese de Gláucia Villas Boas não deve ser vista
como sugestão da inatividade desta disciplina, mas dos dilemas que ela enfrenta na
conformação entre a sua epistemologia e a realidade social com que se defronta.
Richard Morse ao mencionar a reclamação de George Gurvitch da sociologia paulista
não está sugerindo tal inatividade mas o debruçar-se sobre um temática destoante dos
propósitos que a traz ao mundo. O que Richard Morse qualifica como temas de
“fascinação primitiva”, identificando neles uma preocupação com a identidade nacional,
pode ser o que Maria Arminda do Nascimento Arruda (1995) caracteriza como “objeto
de estudo nitidamente antropológico” ao se referir aos estudos de Florestan Fernandes:
A organização social dos Tupinambá ( tese de mestrado defendida em 1947) e A função
social da guerra na sociedade tupinambá ( tese de doutorado defendida em 1951). Com
base nesses estudos, Maria Arminda tece comentários a cerca da relação entre
sociologia e antropologia naquele momento das Ciências Sociais:

“..., a investigação sociológica das sociedades indígenas, realizada por Florestan


Fernandes, expressa um momento característico das Ciências Sociais no Brasil, onde as
distinções entre Sociologia e Antropologia encontram-se nubladas” ( p.147)

Se o objeto não assegura a distinção entre os campos, caberá ao método tal


tarefa: “...as distinções dizem respeito ao modo como se interpreta e se analisa o objeto.

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O que significa, explicitamente a maneira de sua construção” ( Arruda, p.148). A
discussão sobre o método apropriado, preciso, é inseparável dessa fase de
institucionalização e legitimação das Ciências Sociais, em especial da Sociologia. Maria
Arminda observa uma “obsessão teórico-metodológica” na personalidade intelectual de
Florestan Fernandes:

“A obsessão teórico-metodológica, da mesma forma, ganha relevo, a partir da natureza


do empreendimento: tratava-se de atribuir legitimidade acadêmica à disciplina
sociológica. Florestan, ao viver à condição peculiar de scholar, buscou realizar a tarefa
que coube a Durkheim e a seus discípulos na França: assentar as bases da Sociologia
acadêmica. A ênfase na importância da teoria segue a lógica do grupo francês. Inclusive
o estilo da exposição onde encontra-se ausente a erudição de tipo literário, deslocada
pela preocupação categorial, guarda parentesco com as ações do mestre francês e de
sua entourage. Ao impor novos padrões de feitura das obras e transmiti-los aos seus
discípulos, Florestan Fernandes criou a maneira acadêmica de reflexão, rompendo os
modelos do passado” ( Arruda, p.144)

É através dessa preocupação com o método que se pode apreender a segunda


condição da Sociologia apontada por Florestan: a existência de “um complexo suporte
institucional e estrutural” o qual nas sociedades européias e americana se formou
paralelamente ao desenvolvimento da sociedade capitalista. ( p.25) Conforme se verá
mais adiante, a elaboração e observação de métodos rigorosos é consubstancial à
institucionalização das Ciências Sociais. Ainda que a Sociologia apareça capitaneando
este processo, observa-se que o método configura-se como uma solução para os
impasses quanto a delimitação dos campos. O método ganha força universalizante capaz
de se impor ao particularismo dos objetos que por sua vez ameaçam projetar-se sobre
as diferentes disciplinas.
Por ora é importante especular sobre o significado das preocupações com o
método não apenas como esforço de legitimação da Sociologia, mas também como
consubstancial a uma compreensão do que seja o moderno e do empenho de
modernização do país.
Destaca-se na citação acima o desejo de rompimento com o tipo de reflexão
realizado no passado. Trata-se do rompimento com o estilo ensaístico e literário que
caracterizaram as chamadas “grandes interpretações do Brasil” . Para Florestan
Fernandes, a mudança de estilo permitida pela observação do rigor científico significava
a superação de um tipo de escrita comprometido com uma “visão estamental da cultura”
(citado por Arruda p.133 ). Esta ênfase no método e no rigor contra a visão estamental

13
pode ser vista de um outro ângulo, se se considera a importância que a universidade tem
na vida pessoal e profissional de Florestan. Pode-se deduzir que a defesa de uma
reflexão estribada na ciência, para além do rigor, significava também a defesa de
democratização quanto ao acesso à atividade intelectual. A existência de um espaço
legítimo de elaboração dos cânones científicos e consequentemente de legitimação da
atividade intelectual permitiria a formação de uma comunidade cujos membros se
distinguiriam pelo mérito acadêmico. O talento, não o privilégio, constituiria o acesso à
atividade intelectual.
Façamos uma incursão pelos caminhos que levam Florestan à defesa do método
e a perspectiva institucional e sociológica pelo ângulo apontado acima. O texto utilizado
é a sua autobiografia: “Em Busca de Uma Sociologia Crítica e Militante” (1977)
Oriundo da classe social baixa, cujo universo, na São Paulo dos anos 20,
descreve como um mundo social a parte, praticamente invisível à elite da cidade, a
universidade revelou-se-lhe um lugar onde o talento se impõe num mundo habitado por
“tubarões e sardinhas”. É na universidade, também inóspita ao “cheiro de ralé”, que os
preconceitos de classe cedem diante do jovem talentoso, cioso e crítico dos
ensinamentos que lhe permitiam olhar com novas lentes um mundo cujos
compartimentos só se revelam através de “frestas”. Florestan se ufanava da universidade
que encontrara ? Não.
Iniciado no saber Sociológico na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras,
Florestan desde logo percebe-se novamente confinado. Entre a universidade e o mundo
que desde cedo conhecera havia uma imensa distância. Incomoda-se então com os
limites impostos à eficácia do saber adquirido. Limites estes que impunham o risco de
substituir-se um „provincianismo cultural‟ por um „artificialismo intelectual‟ “vazio”. A
universidade promovia um novo modo de pensar, mas não lograva conhecer a
realidade, também condição de emancipação do pensamento face ao saber
transplantado. O que tornava precário aquele ensino. Naquela metade dos anos 40,
Florestan testemunha tentativas cegas de superação do colonialismo cultural, o que em
parte se devia a auto-satisfação que o prestígio conferido pela universidade permitia.
Em meio as circunstâncias que favorecem o seu sucesso pessoal, uma deixa entrever o
ufanismo reinante no meio universitário. Chama-lhe atenção a repercussão própria que
adquire através dos artigos publicados na revista Sociologia, em O Estado de São
Paulo e a Folha da Manhã, o que lhe conferia “prestígio de letrado”. A repercussão se
devia a “uma certa densidade e uma certa intensidade na comunicação do „público‟ com

14
o „escritor‟”( p.164-165), o que fazia crer que as “proezas da Europa” poderiam ser
realizadas aqui através dos „monstrinhos sagrados da ciência‟. Florestan sugere uma das
razões de tanto sucesso e engano. O público da universidade era a própria universidade.
A memória de Florestan sugere que o confinamento da universidade era ele
próprio causa e efeito da distância que mantinha com a sociedade. De um lado, a
impermeabilidade da sociedade e, consequentemente, a ausência de pressão sobre a
atividade intelectual. De outro, a auto-satisfação de uma elite letrada comprazida pelo
prestígio, impedida de se perceber mera repetidora das luzes européias.
Se a universidade era causa e efeito daquela distância, caberia também ser ela
causa e efeito da aproximação. A mudança do efeito deveria vir pela percepção e
crítica dos limites do saber transplantado, a partir dos “choques” com a realidade
circundante:

“Todo ensino transplantado é, forçosamente, precário. No processo de aprender e


transformar-se, o colonizado ignora a natureza do drama. Todavia, quando ele procura,
por uma razão ou por outra, explorar praticamente os conhecimentos, as técnicas e
instituições transplantados, se estabelecem os choques com a realidade e termina o
„sono letárgico‟. Aí a implantação passa a ser vista sem os óculos cor-de-rosa dos
agentes externos da operação: os limites mostram se ela contém algum êxito ou se deve
ser abandonada” ( p.165)

A partir dessas linhas, que parecem exortar: “transponhamos o muro!”, se inicia


talvez, aquela obsessão pelo método, apontada por Maria Arminda. Neste ponto,
também o início da polêmica que iria marcar esta fase da institucionalização das
Ciências Sociais. Aquela entre Guerreiro Ramos e Florestan Fernandes. No horizonte
da ênfase no método e no rigor científico estavam em mira dois objetivos. Construir o
campo das Ciências Sociais no Brasil, o que pressupunha um certo grau de
independência com relação ao saber adquirido. Esta independência se lhe afigurava
inextrincavelmente ligada à pesquisa, o que permitiria tanto a aplicação do saber quanto
uma personalidade própria à sociologia no Brasil em virtude da especificidade das
temáticas a serem abordadas. A pesquisa por sua vez pressupunha e promovia a
institucionalização do papel de sociólogo. Como se observa na citação abaixo, a
universidade, através das atividades de ensino e pesquisa, adquire um papel central na
moldagem de um padrão ( por que não dizer?) “nacional” da Ciência Social no Brasil:

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“O que impediu que essa acomodação se desse não foi a pressão externa da sociedade e
da história , às quais seria possível adaptar um novo tipo de inércia cultural, mas a
compulsão dos papéis intelectuais institucionalizados, que nos obrigava a “dizer algo”,
seja para o estudante, nas salas de aula, seja para os especialistas e o público, através da
pesquisa. E esse algo tinha de ser dito segundo certo padrões, muito altos, que nos
encadeava ao processo de ensino e de pesquisa como ele e desenrolava no exterior, no
centros de investigação dos quais importamos nossos modelos.” ( p.167-168)

Outro objetivo, o que mais de perto interessa aqui, é o descobrimento da


sociedade brasileira. Conforme se pode observar o seu descontentamento com o ensino
da Sociologia vinha do fato de ela não lograr a aproximação entre a universidade e
sociedade. A pesquisa seria o meio através do qual isso seria possível. Na resposta que
dá, em 1958, às críticas de Guerreiro Ramos ao estudo dos “detalhes da vida social”,
Florestan ressalta tanto a importância desses estudos no desenvolvimento da ciência
quanto no conhecimento da realidade nacional:

“Além disso é preciso atentar para o significado da investigação dos „detalhes da vida
social‟ num país como o Brasil. A sociedade brasileira caracteriza-se pelo fato de
congregar regiões que apresentam graus diferentes de desenvolvimento interno, seja
econômico, seja sócio- cultural. Por isso, a escolha conveniente e o estudo intensivo de
„detalhes‟ típicos de certas regiões representam uma alternativa realmente segura de
conhecimento das „estruturas nacionais e regionais‟” ( 1977, p.69)

Desta breve incursão nas reflexões de Florestan sobre a fase de


institucionalização da Ciências Sociais ressaltam-se algumas considerações a respeito
da relação entre ela e a sociedade brasileira naquele contexto. Em primeiro lugar, a
universidade como lugar de realização de aspirações democráticas, o que segundo a
experiência pessoal do sociólogo paulista é representado pela possibilidade de acesso à
atividade intelectual através do mérito. Além disso, esta possibilidade seria tanto mais
“real” na medida em que padrões para o exercício intelectual fossem definidos através
da teoria e do método. Em segundo, o escrutínio da sociedade brasileira através de
pesquisas minuciosas.

1.5 Guerreiro Ramos: Ciências Sociais e Nação

Assim como o pensamento de Florestan Fernandes se estriba no que seriam as


indicações do moderno, também vamos encontrar em Guerreiro Ramos uma reflexão da
vida coletiva brasileira que privilegia o que seria a sua configuração moderna. No

16
entanto, de acordo com a citação que fiz logo no início, Guerreiro Ramos pede cautela
quanto a forma de nomear essa entrada no moderno. A cautela diz respeito ao uso da
palavra sociedade. A razão por que dever-se-ia proceder desta forma era o fato de que o
uso “corrente” do conceito de sociedade conduzia a uma visão “coisificada” da
sociedade brasileira, o que significava considerar a sociedade como um dado, como
“realidade social produzida” e não “em produção” Eis os termos com que ele explica a
diferença entre esses dois tratamentos:

“Ainda vigoram, em nossos dias, correntes que implícita ou explicitamente, admitem


uma noção empírica da realidade social considerando-a como algo „coisificado‟,
objetivado, exterior ao homem. A essa atitude, sem dúvida, corresponde uma redução da
perspectiva à sociedade produzida, isto é aos aspectos objetivos da realidade social, aos
aspectos em se no apresenta externamente, em seu revestimento empírico. É certo que
essa realidade nos é dada diretamente, na forma empírica de seus ingredientes, na qual
se incluem não só seus elementos visíveis, sua base geográfica, sua população, etc.
como outros elementos igualmente concretos, porém menos materiais como as atitudes,
os símbolos, as condutas padronizadas. Todos esses elementos nos são dados
empiricamente, sem dúvida. Todavia não se alcança satisfatoriamente a realidade social
enquanto se pretende reduzi-la a tais ingredientes.”...
“Esses ingredientes, na verdade constituem a realidade social produzida. Existe,
porém a realidade social em produção, em particípio presente, e que em última análise
se reduz à mediação. Os ingredientes empíricos da realidade se dinamizam pela
mediação do homem... A realidade social, como diz Heller, é efetividade humana,
realidade efetuada pelo homem.”(1960a p.80)5

Em outro texto, Condições Sociais do Poder Nacional (1960b)6, novamente


Guerreiro se refere ao termo sociedade pedindo que “suspendamos a compreensão
corrente” da palavra e invoca os significados a ela dados por autores como Hans Freyer,
Lorenz Von Stein e Treitscke. Sem dúvida, podemos atribuir a preocupação do
sociólogo com uso de conceitos a mesma que encontramos na discussão epistemológica
congênita ao surgimento da ciências sociais, como a clássica entre Weber e o
positivismo. Nessa discussão clássica, a questão do método adequado ao objeto das
ciências sociais se impõe. No entanto, sem descurar da presença desse tipo de
preocupação, ou seja, sobre os fundamentos epistemológicos das ciências sociais,
Guerreiro Ramos a introduz no debate dos anos 1950, atentando mais para uma
preocupação substantiva a cerca do significado da modernização do Brasil. Além de
produzir métodos e conceitos adequados à pesquisa, os cientistas sociais também

5
Conforme esclarece o autor, esse texto constituiu Conferência inicial do curso extraordinário ministrado
pelo ISEB em 1955 no auditório do Ministério da Educação e Cultura.
6
Aula inaugural do curso regular do ISEB em 1957

17
deveriam alcançar uma compreensão “global” do que significava naqueles dias o
ingresso do país na modernidade7.
O uso do termo “global” pelo autor, ao referir-se ao que seria uma teoria
desejável, aparece de imediato como ponto de apoio à crítica que ele faz ao que
qualifica como uma sociologia das “minudências” , que estaria sendo praticada através
dos estudos de comunidade. Este é um aspecto da polêmica, em que o autor se envolve,
bastante ressaltado pelos historiadores. Sem contrariar a perspectiva que apreende a
polêmica dessa forma, acredito que ela reduz um pouco o debate e o que nele está em
jogo, na medida em que se acentua mais a discussão a respeito do método. O termo
global e, claro, a defesa de uma teoria global sugere antes o que para Guerreiro seria
uma dificuldade das ciências sociais em apreender o significado propriamente político
da modernização, o significado em termos de um novo tipo de relação dos indivíduos
com o poder político constituído.
Na consulta que faz a Lorenz Von Stein e Treitschke, Guerreiro destaca o
seguinte:
“Para o primeiro a „sociedade‟ é a ordem dos homens, determinada pela repartição dos
bens e pelo trabalho entre eles. Diz Von Stein: „o lugar de cada um no sistema de
relações sociais de dependência, aparece à sua consciência sob a forma de interesses. O
interesse, é portanto, o princípio motor da sociedade‟. Treitschke define a „sociedade”
como „o sistema de múltiplos esforços isolados dos membros do povo, aquela rede de
dependências de todas as classes que surgem pelo intercâmbio‟ (1960b p.28)
O elemento que parece relevante nessas citações é o interesse ou a tomada de
consciência de seus interesses por parte dos membros da sociedade. Quando na crítica
dele, tal como mencionei antes, é destacado o fato da mediação humana como algo que
estaria ausente da perspectiva que consideraria a sociedade como realidade produzida e
não em produção, observamos que Guerreiro está chamando atenção para um
voluntarismo ou uma atitude mais reflexiva dos indivíduos que a sociologia
“positivista” deixaria às escuras. Com isso, então é que ela deixaria de captar o que para
Guerreiro seria realmente significativo na história social e política brasileira naquela
“fase” do seu desenvolvimento histórico.
Significativo para ele é, então, o que seria melhor conceituado com o termo
“nação”, entendida como o surgimento do “povo” como suporte do poder político.

7
Os termos moderno, modernidade, modernização não são oriundos dos textos dos autores.

18
Conforme demonstrarei a seguir, com o conceito de nação, Guerreiro procura apreender
o que entende ser uma vontade coletiva, possibilitada mesmo pelo fato de que na esfera
individual os interesses aparecem como motor capaz de levar à atitudes coletivas em
favor dos interesses de cada um ou de grupos. Trata-se de uma concepção de nação
distinta daquela produzida pelo romantismo alemão que Montserrat Guibernau qualifica
essencialista por considerá-la uma entidade natural, eterna. Ou ainda que parte da
“afirmação de antigas tradições” e de “uma concepção orgânica da sociedade” conforme
assinala João Trajano Santo-sé, citando Girardet.(1999 p.117). A idéia de nação de
Guerreiro se aproxima mais do conceito de “vontade geral” de Rousseau, ao qual ele se
refere como vontade ausente no país enquanto fatores estruturais emergentes só a partir
da década de 1930 não foram capazes de alterar a subjetividade dos brasileiros.
Guerreiro associa o surgimento da nação a fatores econômicos e à formação de redes de
comunicação capazes de criar tanto pressões populares por níveis mais alto de
existência material, quanto de uma solidariedade interna entre os membros dispersos
pelo território nacional.
Na crítica à sociologia positivista, Guerreiro acentua a predominância que nela
teria a observação dos “fatos sociais”. Citando Durkheim, destaca a regra segundo à
qual os fatos devem ser tratados como “coisas” como data. Problemático nesse
tratamento é que nele estaria ausente o papel fundamental da práxis e ainda, citando
Ernst Bloch, os fatos assim considerados impede serem apreendidos como “indícios de
um processo” nos quais se deve procurar “conexões efetivas e atuantes, que não são
precisamente fatos, nem descrição deles, mas produto da função do pensar, que recebe o
nome de conhecimento” ( p.82) Novamente esta citação sugere a preocupação do autor
em encontrar o lugar de um sujeito pensante e reflexivo na sua existência efetiva.
Guerreiro não está preocupado apenas com o ser cognoscente da teoria social, mas com
aquele envolvido diretamente no processo social, o homem comum. É na busca desse
ser pensante, que interfere na realidade e aproduz, que a história aparece como um
recurso necessário à teoria; mais que isso, como um elemento constitutivo da teoria
social. Embora o conceito de nação de Guerreiro refira-se a configuração moderna da
sociedade brasileira, que exclui, portanto, a invocação de um passado longínquo e
tradicional, para ele, a nação se inscreve num processo.
A data inaugural desse processo é 1822, com a independência política do país.
Desde aquela época até 1930, a nação se concretizava apenas na forma territorial e na
forma jurídica. Com a organização territorial, dispúnhamos de um dos ingredientes de

19
organização de qualquer tipo social: o poder. Na definição de poder, o autor recorre a
Max Weber para o qual o poder é „a oportunidade que possui um indivíduo, ou um
grupo, de impor sua vontade na ação comum, mesmo contra a resistência de outros que
dela participam” ( p.18). De acordo com esta definição, o poder é um fato ordinário de
qualquer comunidade humana, sempre houve e haverá um grupo que manda e outro que
obedece. Ao definir o poder, Guerreiro o distingue do “poder nacional”. O poder
nacional é o “conjunto de todos os grupos e indivíduos dirigentes que desempenham
papel ativo na organização de um país, de todos elementos políticos por excelência que
concentram em suas mãos a direção econômico-social, o poder militar e as funções
administrativas.” ( p.18). O poder nacional é o que caracteriza as sociedades
organizadas na forma de nação. No Brasil, a ausência de poder nacional teria tornado a
organização jurídico-política numa ficção.
Ao isolar esses elementos, que configuram o Estado moderno, Guerreiro segue o
pensamento político clássico sobre a formação das nações modernas da qual não se
pode ignorar o papel que o estado assume na organização das sociedades. Por isso,
pensar a sociedade brasileira nos anos 1950 implicava também refletir a respeito do
poder político e sobre o tipo de relação entre este poder organizado na forma de Estado
e a sociedade política. Naqueles anos, a formação da sociedade política era o que para
ele constituía o fato inédito na vida pública brasileira. Baseando-se em autores como
Visconde de Uruguai, Oliveira Vianna, Gilberto Amado, Guerreiro faz uma sociologia
da história política brasileira. O núcleo da análise é a categoria “povo”, seguindo esses
autores, constata que até os anos 1930 o povo era o elemento até então ausente, de
forma que o pensamento político não poderia ir além de uma compreensão da dinâmica
das oligarquias e seu revezamento no poder. Nos seus dias já seria possível uma
sociologia política capaz de apreender o papel das classes sociais na reconfiguração do
poder político.
Atestaria esse fato o que ele qualifica uma “parlamentarização” do regime,
entendida como “o incremento da participação popular na direção da sociedade
brasileira” (p. 23). A parlamentarização sinalizava a diminuição da predominância do
executivo tanto na definição de resultados eleitorais quanto na agenda política, que
então passava a incorporar uma maior diversificação de interesses emergentes com a
configuração urbano-industrial do país. Os novos componentes sociais que formariam a
sociedade política seriam a “população obreira e uma burguesia empreendedora, cujos

20
interesses dependem do consumo interno, e que, compondo a matriz de um verdadeiro
povo, constituem hoje a maior força política do Brasil” (23)
A razão principal por que o povo teria sido um dado ausente na nossa história
independente era o que denomina a “lei estrutural básica” do país: a
“complementaridade” da economia brasileira8. Numa análise sociológica desse dado
econômico, Guerreiro atribui ao caráter complementar da nossa economia, a qual
comparecia no cenário internacional como fornecedora de bens primários, o fato de que
por tanto tempo no Brasil, os fazendeiros e as oligarquias rurais foram dominantes.
Políticamente dominantes, também controlavam a política econômica, impedindo que
uma direção fosse dada rumo a industrialização do país e com isso impedindo o
aparecimento de novas classes sociais e, mais que isso, alterações subjetivas capazes de
promover atitudes políticas e eleitorais emancipadas do controle dos fazendeiros.
Nos anos 1930, o fato auspicioso do redirecionamento econômico, social e
político fora oferecido pela crise internacional dos anos 1920, que diminuindo a nossa
capacidade de importação obrigava a produção interna de bens manufutarados. No
entanto, esse fora um processo “deflagrado por conjunturas externas” e não
“autocomandado”. Daí que naqueles dias o Estado seria imprescindível na condução da
política econômica e a direção mais acertada seria a que procurasse alterar a situação de
economia complementar. Embora uma demiurgia do Estado seja sugerida, observa-se
que Guerreiro Ramos respalda a atitude do Estado na existência já de um “poder
nacional”, o povo tal como definido acima. Não se tratava de agir por cima dos
interesses, ao contrário, ir ao encontro desses interesses “novos”, o que significa seguir
o programa de industrialização do país, para o quê a máquina estatal era imprescindível.
Dessa intervenção do Estado na economia, dependeria o próprio avanço da cidadania
política e social no país, uma vez que incrementaria o processo de formação e
diversificação de interesses e consequentemente das classes sociais e com isso a
possibilidade de um conflito real. Este conflito, por sua vez, deveria ser organizado. A
maneira de organização adviria de um reajustamento dos partidos políticos à nova
condição social do país.
Na sociologia política de Guerreiro, há uma grande preocupação com os
partidos. Embora fosse possível observar uma maior atividade do Congresso nacional,
isso não autorizava concluir a respeito de uma boa organização dos partidos, traduzida

8
Esta compreensão da história econômica do Brasil advém de Inácio Rangel, cujo livro Dualidade Básica
da Economia Brasileira (1957) é prefaciado por Guerreiro Ramos.

21
em programas bem definidos e comunicação com o eleitorado. Por causa disso era que o
Congresso exercia uma força “proporcionalmente menor do que o seu poder real” , de
forma que ele “não poderia deixar de refletir em seu nível ideológico a escassa
integração dos partidos nas massas eleitorais.” ( 24)
Em A Crise do Poder no Brasil ( 1961) Guerreiro dá continuidade a análise tanto
da história dos partidos políticos no Brasil quanto da situação deles à época. Se o
fenômeno que ele identifica como “Bonapartismo”, ilustrado pela conduta de Jânio
Quadros na Presidência da República, era uma “das possibilidades contidas” naquela
situação política do Brasil, isso se devia ao fato de os partidos não estarem ainda
ajustados às mudanças que se operavam no nível do eleitorado. Não vou me deter nesta
questão dos partidos. Importa-me mais salientar a importância que a vida política
organizada e institucionalizada assume no pensamento de Guerreiro. Desta forma que
Estado e Sociedade e as formas de mediação entre as duas esferas compõem o que o
que para ele é o quadro de uma nação. No entanto, embora a nação já se configurasse na
forma de povo, isso não queria dizer que ela já estivesse pronta. Daí a importância que o
voluntarismo ou a interferência consciente dos sujeitos, fossem eles os intelectuais, os
políticos, os industriais, os trabalhadores, etc, tem para ele na realização de um projeto
de nação.

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BIBLIOGRAFIA

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Nacional do Brasil. Rio, ed. Saga
RAMOS, A Guerreiro ( 1961) A Crise do Poder no Brasil. Rio, Zahar Editores
SENTO-SÉ, J. Trajano ( 1999) Brizolismo. Rio. FGV/ Espaço e Tempo

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