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As pessoas andam sempre ocupadas, muito ocupadas, pelo que não dispõem

de tempo para interessar-se pelos vizinhos e semelhantes. Assim, é nosso

dever falar de nós mesmos e de nosso trabalho,

até fazê-las parar, deixar de lado o que estão fazendo

e prestar-nos atenção.

Konstantinos Kaváfis

(Tradução de José Paulo Paes)


POLEMAS INTACTOS

1993

Celso Nogueira
Polemas: problemas na prole,

pobrema entre a patroa e a empregada.

Polemas intactos: embora parte da casa desabada.


Para o Gado

A fonte:

Do alto a corda

rola ao acordo

do braço, volta

ao barro, saca

a água do poço.

A trama:
Ao longo do ano

a força assombra

o povo, alça

moços, faz a forca

bruta no pasto.

O líquido:

Tornará do dono

ao gado, magro.

Não há gota para

bolo, arroz, na

rua suja do lado.


Claro

Escuro. Mulher dá à luz um grito

como só as mulheres cria.

Carrega o ato, e muito.

Do fato disforme o fel,

feeling de anestesia.

O filhote, o longo falo, o afeto

não se projetam no leito.


Ocorrem, qual dia do juízo final.

Nasce mais um negro na enfermaria.


A Bíblia e Moby Dick

Me chama de beletrista, moço,

ou Ishmael, o tal macho que Deus ouve,

bastardo de Abraão e Hagar, criada de Sara.

Catador de palavras no lixo,

por ofício operário do texto.

Da testa tiro o sustento

e das horas vigas, tiro, apoio,


para construir o abrigo bambo

que estendo com mão dupla na avenida

- vai prá lá e vem prá cá -

e cometo palavras destas,

tímidas do título de poema.

Assim, nas altas tentações,

a alma afunda, confortável.


Não está na hora

Não está na hora do otimismo

nem do automobilismo, que os carros andam tão caros.

Não está na hora de dar as costas,

nem de abrir as portas, que as fechaduras seguem tão frágeis.

Não está na hora de dar as cartas,

nem de abrir as coxas, embora para o prazer não se admita demora.

(insignificativamente, os vermes vão minando;

gorgomilam, instintivamente: nem em cima da hora eles colaboram)

Não está na hora de dobrar a língua,

nem de morrer à míngua, que a vida não passa, esbarra.


Noite de Caraguá

A noite é uma rede,

Que sustenta apenas as dor das mágoa.

Sai de um rolo compressor como uma teia tênue,

Que quase não te sustenta, imbecil.

Técnica, trópica, acompanha os tremoços dos três traseiros.

Basta um banco de bar.

Melhor um toma já do que dois te darei.

Antes a plataforma típica do meio-dia físico.

As pulambentas pedalando pelas estradas,

o ciclismo vil das meias, idades,

o madamascar dos poderosos do lugar.

Mas não, a noite. No meu quarto, em Madagascár, Caraguá.

Passados perdidos d'Angola, passos à frente da janela.

Perdidas as argolas: todos soltos.

Cada pássaro, compenetrado ao luar, une nádega ao batom.


Lena

Não nasci do ovo, como o primeiro.

Eu saí de dentro da barriga da minha mãe.

Poderia mudar o mundo inteiro com a força do pensamento,

se não estivesse aqui, esperando a vez, na fila do banheiro.

Passa tarde em Ubatuba

Não pinta no-haole

Inteligível tem de ser a Folha

O mar não se choca com a praia,

Nem é bonito, é bonito.

Babaca tem de ser Caymmi

Chove pacas na província

Urbana tem de ser São Paulo

Caí num buraco na estrada

Astúcia tem que ter escama.


Da palavra ofício

Não vender palavras como quem banca na feira

Mas como quem sua preto na fronte ao forno em queima

nas férias intermináveis de um jornal.

A tinta aponta ao peixe que embrulhará amanhã,

até imerecidamente, às poucas vezes.

Gastar palavras profissionais

como o sal do salário, o sal do saleiro,

qual o Silva da sapataria.

Congada de Ilhabela

Antes as Antilhas

do que apenas pesar

aqui, nesta ilha

de casas sem ucharia.

Debalde tentar espaços;

pois os vãos, do irredutível,

só podem ser percorridos:

quem chega do outro lado

do mar, deixa, para trás,

um desejo da partida.
Irmandade em Atlas

Talvez dissesse a um irmão, se o tivesse:

Deixo uma lágrima no seu travesseiro

com, mais do que importante, uma explicação:

Não há urubus em nosso bairro, apesar do matadouro,

quanto menos abutres que nem nos filmes de faroeste.

Nem fígados à grega para roer das apenas as pessoas

que fazem cada uma mais uma feira na sexta-feira,

escolhendo legumes, frutas e verduras, por favor.


E na sala sem janelas dividem o também pão multiplicado

que o diabo amassou, tal qual se o inferno ínfimo fosse o outro,

e não aquele pingo d'água do olho íntimo que rolou.

Cálculos aproximados

O aço: muito antes da panela, a lâmina

O quarto: muito perto do espelho, a cama.

O asco: pouco antes da promessa, a trama.

O rumo: posto perto do caminho, o mapa.


A casa rachada

Estruturas de concreto

ameaçando ruir

sobre os transeuntes.

Não precisa esperar muito:

o desabamento foi previsto

para qualquer instante.

Nos fundos do prédio


um forno de cerâmica

imenso e em funcionamento

aguarda impávido que o tempo

complete a tarefa anterior

de esculpir e queime o vaso redondo.

A planta genial do arquiteto

infiltrou-se, no abandono

do mato e deficiência na

impermeabilização da laje.

Já o vaso, numa bolha única,

estourou de estalo, súbito.


Esferas

Depois de viajar o país inteiro

Instalou seu ateliê na cidade do interior

aquele homem alto que fazia estátuas.

Suas obras não demonstravam nada

do que havia aprendido nas andanças.

Eram textos secos, cardos, caçambas

e até quintais aléxicos de quinta.

Um verdadeiro mistério para os críticos,

embora os compradores pagassem satisfeitos


pela solidez adquirida do granito.
Vegetarianas

As partes do quebra-cabeças do boi nunca mais se encaixam

para formar de volta o boi que um dia foi.

E a alma bovina que talvez nem teve

se reparte em peças, quartos, desossada,

para se deitar na brasa, já picanha ou alcatra assada.

Nem sombra de mugido, isso sim inseparável da essência bovina.

E o boi grita:

Não se conforma que depois suas peças, plásticas,


acabam por se repartir, elásticas, prontas para mastigar.

Pasta o bom apetite que, indiferente à sua sorte,

tritura feliz o sangue, fingindo que não matou.


Quero-Quero

Quero os olhos de bêbado, para enxergar a beleza

em qualquer cara às duas da madrugada, como no adesivo,

mas sem o porre da euforia e os estragos da ressaca contribuinte.

Quero as pernas do retirante, pedaço de homem

Que Deus permitiu nascer, daqueles que não morrem antes do tempo

e não fogem sem ver de quê, como dizem nos cordéis.

Quero as rugas da Coca-cola de antigamente, que saía sem prazo

de validade, ocultando sua oxidação lenta como madame plastificada antes


do código de defesa do consumidor.

Quero os lábios do marinheiro de Neruda, que beijam e se vão,

com a diplomática ausência de menção ao fato

de que se tratava de uma interlocutora tão cais, tão apropriada.

Quero o ouvido ávido da bicha ao escutar a piada

do quero-quero e do pica-pau, e sorrindo comprar passagem

para as asas do desejo ao alcance das imagens.

Quero as cordas vocais dos cães que ladram para a calota giratória

dos automóveis na avenida,

alheios ao fato de que a caravana passa não mais agora.

Quero o sexo das atrizes do cinema pornô, cujo uso deixa a boca

[torta,

e os direitos autorais decorrentes de seu ato mágico malabarístico

solitário coletivo, meu bem.

Quero, enfim, o que não me deram, mas está aí, apetrechado

como Américas de retirante, horizontes de navegante,

como mundos de moribundo, mais prá lá do que prá cá.


o nascimento de Catarina num vaso de barro

feto rompe a porta sólida e aponta a cabeça redonda para a luz quando as

pernas paredes de barro se abrem qual mar vermelho e dão passagem para

um caminho ainda a ser traçado por outros pois criança deve esperar ainda

anos até se soltar dos peitos e mãos dadas da mãe e do pai para atravessar

a rua e só então sair definitivamente de sua casca embrionada por um triz.

pais e mães dão parcos cuidados possíveis mas Catarina não sabe ainda o

que a espera na vida que se prepara com mãos sujas de argila e finalmente
uma expressão sensual de parto e porta de barro e hora de dedos e

angústias manifesta nos apertos e desapertos da cerâmica do parto se revela

no rosto artista da mãe e na presente ausência de um pai atento pero alheio

participante
Persianas gregas

Que o barco corte a água quando quiser:

o mar, sabe, cicatriza.

Guardamos dos gregos navegantes mensagens,

e do persa, rico, nem o arco nem o aviso:

No mar sacro não jogar detrito

nem, ao fogo, um único palito.

Presentes dos monstros, saques e ressentimentos:

Ulisses, esperto, em livro.


Enquanto um tapete no máximo bonito, enfeita

ridículo uma casa, rico.

Esquecidos persas, árabes, numerais antigos

e até mesmo o al, artigo definido.


Lê, Mina

Contra esta força bruta não há luta.

A cura desta coisa louca está no beijo na boca.

Jura pouco, pois a jabuticaba tem seu doce independentemente.

Como os bichos cruzam, somos o acidente da vontade,

em hora e local demarcados, em trechos espremidos

na briga por um instante, por um vidro,


arrancando o líquido a pontatiros do perigo.

Cada um sugando, e sendo o próprio canudinho

entre a boca e a coca-cola.


O Brasil é...

Um velho coroca

numa terra de meia tigela.

Uma vida marca barbante

numa pastelaria de vento.

Um gigante adormecido

por entre esperanças de araque.

A andorinha, desnorteada,
vê o tirar-do-sol:

Caldo de carne e morte diet


Revistas velhas

Benigno, o longínquo,

como Banquo, era contínuo

nunca centro das atenção.

Colega iníquo berra na firma:

Vem cá, Benigno, pega o lixo

e toma estas revistas para você.

Benigno punha o lixo prá fora


e levava as revistas no trem,

debaixo do braço, pensando no filho

que estudava Direito em Campinas.


Parada Dura

Assim como a vaga em rua perto é raro, toda hora

A onda varre a areia, recorta mapas de borbulhas e línguas, veias.

(O mar, quando quebra na praia, é molhado, é molhado.)

Estacionar. Perder paradas.

Procurar é andar um pouco.

O trânsito também vai e volta,

abafa e enfarofa o ar com nanquim


de ruídos e partículas:

uns deixam ecos, outros deixam tragos.

Quantos dizem dentro dos carros:

Quando for fim de semana desço,

Vou prá praia, engarrafo, desengarrafo, arregaço.

Ei-los como choferes de táxi, ou motoristas de praça:

Engatam a primeira e se vão.

Amortecem, com o rodar macio,

a ânsia de adquirir no mercado uma praia particular.


Paura

Estraga o show do sol a falta

de uma boa assessoria de imprensa.

Horários mais adequados, talvez.

Aí falhou a produção, também.

Podia vim uma banda junto,

mas de graça você queria o quê?

Pior é se ele não pintar um dia

qual um Tim Maia provocador.

Aí só restará o debaixo da ponte raivoso

a freada brusca, o susto insano.

E o sol em greve, como o corvo, nunca mais.


Dois pontos

Do sol a alvura, do sol a altura, do sol o círculo.

Do alto o olho único ciclope fixa um ponto.

No grão de areia, na minha veia, na aranha fêmea.

No centro do espaço múltiplo projeto lento.


Crepúsculo no Itaguá

Cocô flutua na barra da lagoa,

Inanimado vaticínio do porvir.

Sol vermelho vaginal de melancia

Sangra morno sobre os barcos da baía

Correm todos ao fugir da tempestade

Que esguicha o mar bravio como um mijo.

Enquanto o bando vai entrar no restaurante:


É a parentada que desceu com o navegante.

Pedir pizza mozarela e calabresa

Sóis bordôs num espalmo de amarelo,

Massa fina que está que é uma beleza.

Prá formar a massa mole do futuro,

Que escorrendo pelos canos e valetas,

Vai tornar o mar tranquilo num monturo.


Escultura

Passagem de paisagem superposta:

camadas vagamente em chapa dura,

nas fibras da madeira onde encosta

a pedra facetada, a prata pura.

Ondula a superfície, forma valas

Por cima se complica num arbusto

Arrasta pelos planos tuas malas


E trai por trás de tudo o teu susto.
Banais bananais

Sobram termos distintos, sinônimos polpudos

definem bafo inumano na boca do ser igual:

Matador, assassino, homicida. Acaba, chacina, liquida,

elimina, trucida, massacra. E enterra nas bananeiras.

Ler no livro de mistério, na notícia de jornal

o afinal nos seres, chamados semelhantes.

Vai entender a rotina de tirar a vida alheia.


Ronda

Não fora a falta de orgasmos não haveria a noite.

Batem ponto na boemia solos em cordões descordurados

outros afoitos sem desternura - o avesso do acesso.

Tantos em busca bronca, endiabrados, pagam à vista,

assuntam a prazo, negam crédito ao amanhã.

Franzem os olhos para o dia, par de aspas entre

a penúltima e a primeira saia entrevista, entre

a próxima dose entornada e a saideira - ainda é cedo.


Mas sempre é cedo para o precoce, para o insosso, para o inócuo,

para o obeso de cabelo oleoso e bafo de alho azedo.

Mesmo que subam executivos, zanzando pelo elevador no dia seguinte,

até o topo do edifício mais alto ao sol das onze da matina.

Mesmo que durante o dia claro não passem de apenas gente dura,

e só escolham as sombras para que manifestem seu lado trágico.


Aos pés da cruz da múltipla escolha

Pai! Dai-nos a nós que temos sido tão vis

a vizinhança do assíduo.

Pai! Deixai para trás, pelo pó dos caminhos,

os tais carimbos do visto.

Pai! Guiai os perdidos que a vós não conhecem

pelos meandros do arquivo.

Pai! Estendei a bondade na qual sois perito

aos paralelos do ritmo.


Pai! Perdoai os equívocos dos mais imperfeitos

na confecção do cadastro.

Pai! Permiti a esperança, a fé e o alento

aos que dormem no ponto.


Maré remota

Desassossego invisível, constrangimento da ignorância

em vão.

Pés gelados no riacho, arroio, ribeirão:

a ciência.

Sacudindo o pó dos absurdos, lavando a égua

peralta.

Na moda explícita dos impactos cínicos:

conta
Compostos de afeto aquático os gestos apontam

as ondas

Que para as crianças brincando continuam apenas

sonoras.

Em vão a ciência peralta conta as ondas sonoras

em vão.
O enterro dos mortos

De T.S. Eliot - The Waste Land

Abril, dos meses é o cruel demais, parindo

lilases da terra morta, mixando

memória e desejo, agitando

raízes lerdas na primavera, à chuva caindo.

(...)

Eu vou mostrar a você coisa diferente tanto

da sua sombra que pela manhã segue às costas

quanto da sua sombra vespertina que se ergue adiante;

Eu vou mostrar a você medo num punhado de pó.


Não às Drogas

No meio da festa, na hora do espelho,

falou sério, aproveitando a cara de careta:

Acho o fim da picada essa história

de cheirar cocaína.

Pausa.

Você não tem aí uma seringa?

Muito embora ele mesmo não gostasse disso.


Refrão

Paz - porque não há.

Guerra - porque encerra.

Mata - porque sustenta.

Serra - porque se ergue.

Sexo - porque dou três.

Corpo - porque apodrece.


Alma - porque não vê.

Filho - porque me espanta.


As pessoas andam sempre ocupadas, muito ocupadas, pelo que não dispõem

de tempo para interessar-se pelos vizinhos e semelhantes. Assim, é nosso

dever falar de nós mesmos e de nosso trabalho,

até fazê-las parar, deixar de lado o que estão fazendo

e prestar-nos atenção.

Konstantinos Kaváfis

Qual

Abrir sorriso, ou outra lata?

Fechar a cara, ou um negócio?

Pintar o sete, ou a mulata?

Matar o tempo, ou o meu sócio?

Aos trancos e barrancos,

ao longo dos anos.

A cada instante, o vento

assoa as árvores.

Em cada passo a nova escolha,

novinha em folha.
Água e óleo

Querer o aceite

é querer do canto

dos pássaros que

se misture em água.

Que aceite é de banco,

duplicata vencida,

arte culinária

da península ibérica.
Não com tal óleo

lubrificam entes

bípedes, antes

tristes, sempre

de dedo em riste.
Oração aos moços

O negócio é zoar feliz,

na mordomia.

O grande lance, se dar bem

naquela moleza.

O maior barato é viajar numa boa,

sem sair do lugar.

Descolar mil coisas no ato,


na maior sopa.

O máximo é pegar uma coisa louca

prá se ligar.

Tudo isso tá na mão, de graça,

por incrível que pareça,

mocozado na biblioteca.
Topo de Secretária

Bem me quere, mal me quere

com sotaque português.

Será a vida mais do que

um software com acento

nos porquês?
Alf Layla

Vó Sinhá, quando passava a vassoura

no chão da velha casa de Tremembé,

sabia que não era nenhuma princesa,

e que o príncipe encantado não viria buscá-la

a bordo de um tapete voador dourado.

Porque, desde menina, varrer já a salvara.

Até sua devoção ao Bom Jesus tinha

essa coisa assim, de terra.

Sabia acordar cedo prá missa,

ajudar padre na igreja,

tricotar casaquinhos de lã,

para as crianças pobres com frio.

Aliás, quando falava em vassoura

que dizia assim, Bassorah,

eu logo pensava nas mil e uma noites,

ainda moleque, e já homem, incorrigível,

enquanto sonhava com jabuticabas, e as comia,

sonhando com Xerazade, a quem nunca comeria.

E enquanto ela vivia lá, na real,

assando frango recheado com farofa,

os meninos, netos, brincavam

de super-herói, correndo no quintal

que naquele tempo antigo

ainda não tinha piscina nem escorregador.


Porto de São Sebastião

Prioridades contraditórias coabitam

nas agruras casas da rua dos prazeres.

Porções de peitos balangam nas janelas:

Salpicadas de bicos, elas - prostitutas e janelas -

se abrem de par em par, e de perna em perna

qual mariscos abstratos afrodisíacos,

agarram-se à sopa pobre da sua pesca.


Como sugam, e do vaivém se reproduzem

na maré que alimenta e mata, é de graça

o perpétuo abre e flecha, arco e fecha

de abismos mútuos e marítimos.


Garçom

Traga um ego do tamanho

de um ovinho de codorna,

que tenho fome às pampas

de malhar nesta bigorna.

Não preciso do que quero,

mas preciso do fazer.


Cadê a barata tonta

louca de tanto correr?


Quem mandou

Da festa da imobiliária

papai voltaria tarde e bêbado

só para gritar comigo

só porque tinha razão.

Minha mãe não perderia por nada

aquela magnífica chance, either.


Também, não fiz a lição de inglês:

Mais uma que tinha razão.

Desde pequeno vejo na porta

gente que bate pedindo pão.

Invejo muito eles,

que só passam fome

e desprezam quem tem razão.

Pior que encoxar a mãe

lavando roupa no tanque

aprendi, desde pequeno,

é a maldita ditadura

dos grandes que têm razão.


Chato de festa

Sou bardo, cara!

Pai do velho mago,

bisavô do cientista.

Sei que vim fora de hora

mas tem gente que nem eu

que nada impede que insista.

Você precisa ver uma coisa

que eu trouxe de longe e fora.


Ah! Desculpa. Claro, esta pressa sua

eu também adivinhava, agora,

Pois meu nome de guerra é vate.


Lula não é polvo

Mar: o ilimite da liberdade cria em cada canto um carrasco.

Guimarães Rosa

O calamar não tem tanto poder assim.

Estronda ainda o oceano, quando dele

foge o camarão, em bando silenciado

também do barco de pesca a bombordo,

com suas redes que não escolhem entre


predador e vítima, como o decreto.

Sobrevoado por gaivotas e outras aves

segue solto o te pego e como do mar.


Soneto

A água química que aceita sais

puxando a lua levanta e estronda

se chama mar, e não quer mais

calar no copo, só virar onda.

Busca no impacto, como em esporro

moer da costa as pedras teimas.


Nem na baía oculta ao morro

encontra calma: nas frias queimas

brancas de sal, enche de areia

a tanta duna, só beduína

quando se afasta a maré cheia

envergonhada como menina

farta do jogo do vai e vem.

A força física, sempre mantém.


Ritmo Fraturado

Um carro passa, é um jaguar que brilha.

e eu aqui vivendo a minha vida fusca.

Quase dói sentir o movimento lento da hora certa,

sonho da família.
Parcialmente

Pitágoras, um peregrino

parcialmente completo

seguia a Aparecida

de ônibus expresso.

Saiu lá cedo da praia

para a santa da devoção.


Não disse nada à patroa:

a sua mulher virou crente

dessas de bíblia na mão.


Lembra

Quando era ela, quando ela era

um sonho al dente.

Quando ela era a minha audácia

meu caldo quente.

Quando era ela a sedutora

mais exigente.

Quando ela era bicho em pelúcia


sabor picante.

Quando era ela quem mais gritava

em corpo e mente.

Quando ela era um rumo vago

e ardor presente.

Quando era ela só piaçava

varrendo a frente.

Quando ela era em cada trago

minha aguardente.
Mulheres Também

Enerve, carregue e tente

atiçar o facho.

Acalme, bafeje na janela

o nome dela.

Agarre, pegue na ponta da veia

o sangue, macho.

Pague, combine o preço por todos


os servícios prestados.

Patroa, corrija o sal deste, de todos

os molhos de tomate.

Parir: um feto, para dar sentido

ao acalanto.
Pôr dentro e por fora

Primeiro:

afagar as nádegas

daquela dona

infincar a vara

naquela roça

Depois:
passar o prato.

Enquanto houver

um asco próprio

não seremos sumo

de nossos vícios.

Agora a carne,

na sua mão,

é mole.

Retomar:

O meigo veludo,

o couro, as tachas,

as cordas amarradas

na cama,

que ela gosta

é de apanhar.
Minas da Academia

Percorreram cada passo do caminho

e não aprenderam nada.

Carpiram cada contorno da estrada

e não carregaram nada.

Tocaram cada canto do meu ninho

e não atracaram nada.

Comeram cada quota de minh'alma


e não comoveram nada.

Pescaram cada peixe desta selva

e não escamaram nada.

Como os Luíses de França,

Nunca esqueceram nada,

E não aprenderam nada.


Causal da espera

Não quero mais, me deixa em paz

Catso!

Eu quero sim, me traz agora

Droga!

Veneno velho, para um rapaz

Porra!

Ou sangue novo, velha senhora


Chora!

Quero comprar carro do ano

Zero!

Pegar mulher com a lataria

Ferro!

Viver na praia como cigano

Corte!

Ou impotente, quando queria

Grelo!
Restos cortar

Por agora arrasto em asco esta titica

E me escondo que eu não quero encontrar.

Amar sem ser amado é uma dor tanta

que não cura toda a pinga deste bar,

e nem o mar, se for de puro álcool noventa.

É o orgulho que com prego crucifica


o que sinto e prefiro omitir:

Quando mostro o quanto gosto da menina,

viro um porra dum panaca a latir

qual cachorro cuja sarna é uma sina.


Cotovelo

Vivo em ritmo de tango velho:

Chafurdando na tristeza, hoje vejo em desatino

Que tu foste em meu destino uma mulher e nada mais.

Tua exótica beleza trouxe calor a meu ninho

E me deste o teu carinho num amor doido incontido

Que não havias sentido e não sentirá jamais.

Tchã Tchã
Fadado

O terno carinho afetuoso do amor

o jardineiro português reserva às rosas vermelhas

molhadas de orvalho ou do esguicho irrigador.

Perdeu a paciência com as cachopas

- que aqui no Brasil era marca de cera

e lá na terrinha moça faceira.

Recorda com despeito sentimental


o amor maternal desencontrado

e desconsola com a dificuldade

de explicar com tanto sotaque

o que lhe vai dentro do peito.

Melhor as rosas, não reclamam

dos gases por causa da feijoada.


Quodlibet

Olhos moventes, de esguelha,

olhos em soslaio, dissimulados.

Olhos capitulares, dispostos,

como no começo de um parágrafo

Um olho, ciclópico, prometia,

o outro, fechado, enganava.


A vesga por dentro fitava sadia

o verme no prato de salada.


Hora do vamover

Apesar que eu tomei banho, ainda me sobrou chulé - só no pé.

Minha alma cheira talco, como bumbum de nenê - de nenê.

Vire-se de costas que assim não pode ser - pode ver.

Eu estou pelado mas também estou cansado de perder - de meter.

Agora vou saindo proutro lado de fininho sem pensar - nem pensar.

Ficou tarde prá cacete e eu sei que o macete é dormir - vai dormir.
Luiza

Bombons de cereja não saciam a fome canina.

Coitado do lobo mau!

Não há sombras ao meio dia nem à meia noite.

Pela porta afora eu vou bem sozinha

levar estes doces...

Permanecer. Percorrer botecos.


Começar pela cerveja clara a virar a mesa,

a matar a sede, a dar passo em falso.

Rodar a baiana, botar salto alto

com ponto falso no calcanhar

Pode-se perder um bolero no bar Esperança

Pode-se pedir um bocado no bar Esperança.

Zuzo bem.
Dia dos Namorados

aflição solidão contusão monotonia

os males do casamento são

recriminação pentelhação melancolia

os entraves do amor são

Mamão, feijão, coração, aletria.

Sem rango na mesa não!


Acaba com a alegria,

instaura a confusão:

Amar é...

enfermidade e vocação
João e Maria

O destino é o nome que a gente dá

para o nome daquilo que a gente não quer olhar.

Na vida de ninguém tem sina não, dona Maria.

Cada um que atrai o de legal ou de ruim.

Quem toca o barco não é vento nem correnteza

não, mas o braço do João que rema.


Ao largo

Barcos velam pelo mar

imenso como gota d'água.

Pequena canoa, qual uma cascata,

vaga (privada de outras vogais),

balança, salta, ataca:

parca palavra paz.

Mas o peixe abunda hoje:


a desproporção, retórica,

não impede a pesca, latina.

A diferença entre vela e rede,

no entanto, é nada, um buraco

onde ser é o que falta.


Área micada

É manha, você nem liga

para o dia cinza, com o cimento

armado da metrópole.

Nem quer ir à praia pelo gosto

de brisa na face iluminada,

mas por ter casa lá,

de frente para o mar.


Casa mineira

A cozinha chama-se

no fogão aceso;

nada à lavadora,

branca, subaquática.

Ou geladeira oposta

embora tenha dentro

ardente pimenta vermelha.

A fria interna reclama

de quando em quando:
zumbe elétrica.

Entre quadradas, desenquadra-se

a mesa redonda com, ao redor,

assentos das nádegas, tão mornas

enquanto cozinham, sociais.

Mas a faca alinha

no fio da lâmina.
Toussaint L'Ouverture, Pierre

Posar de pé, impassível no patíbulo

nem pensar: ao negão, negar isso.

Projetaria sua causa, seu calor

como não esperavam franceses imperiais

dos pretos como sua sombra no trópico.

Napoleão negro, ainda bóia

no Caribe: Haiti uma pinóia.

Silêncio em soluços. Certo


qual falsa gota de sangue,

água vivo no mar extensa.


Mistério

Escolhe mixirica nada

Pega qualquer uma

de tanta nomenclatura.

Laranja pacífica

de perfume vário.

Poncã, morgote,

identidade secreta d'óleo

nuvem borrifada.

Estranhamento em bergamota
tal qual aquela moça

atiçada e olorosa.

Sob trocentos títulos

a mesma casca, a calda

e nada igual na caixa,

tangerina geográfica.
Festa no vizinho

Observar, o olhar perdido,

e ver o peso, a pouca temperatura.

Sentir na pele o quanto arde

o lado de fora, a sala escura.

Do travesseiro, o gosto fofo

de esquecimento e fui embora.

Na casa ao lado, som de amaro.


Que festa estúpida, e eu sem hora

de levantar no dia outro,

e outro eu, que não desforra.


Latim de fósforo

Perguntaram

você não estava ao par

Compreensível

do emprendimento não sabia chongas

Estranhamente

deixou cadarço no banco mancomunado

Suspeitíssimo

alegou uso campeão do sítio incongruente


Analfabeto

pediu ao meretríssimo: Fiat Lux!


Ovos de codorna

Velhos senis

parcos senões

a impedir

o bote.

Broncofenil

tarja na mente

e aquela dor
no cóccix.

Saia esfregada

passa na estrada

ouvi dizer

que fode.
Aquário

Peixes pedem para andar de bicicleta.

Minha jamanta transporta um ovo.

Moro na praia, ói eu de corvo

entre gaivotas seguindo o bar.

Camarões feitos pomados nas janelas,

feriados, entra e sai, peles morenas.

Arranha a marcha, pasta o carro


volta o sossego, que nada adianta.
Perequê

O entorpecido por despertar

ele se desenconcha em pane.

No ar cabeceia a pipa:

tarde de praia e morna.

No mar se atira a poita:

espelho inverso até no peso.

Faz um véu terrível neste dia

todo dos fios e cordas onde vãos


os sonhos, o maranhão, o ferro em craca.

Nem uma brecha na nublada.

Paisagem de impecável alegria.


Punica Fides

Quem per família não pune

e trai a si?

Qual não cerca de cordas

feito boxeador, ali?

Se decifrar a charada

que conte a mi.

Eu não sei nem onde pus o papel

que perdi.
Quadra

A união faz açúcar,

bonito tá na peixaria;

a vida é uma merda,

como vovó não dizia.


Passado a sujo

O quero domesticado, ambulo.

Fui lá, achei nada, um muro.

Vi lacunas no oceano, o plano.

No muro nada, fresta à mão.

Barra, barras e mais nenhum.

Dia, hora local: nunca é um só.

Marcado a tempo, a ferro.


Batido ao sino, eu choro.

Marquei touca, sim senhor.

Estou aqui, e agora?

Pronto e só como um atum.

Estive lá, sabia? Nunca fui um.


Verbiagem

Alvas puras aragens da tarde

Altas nuvens paisagens do forte

A morte vai branca, pimenta que arde

E corta qual pata do coelho da sorte.

Infinca esse esquife na cova chinfrim

Na noiva o vestido só faz de ataúde

Casar foi a morte que escolhi para mim


Queria viver mas não quis e não pude.

Agora acordei de um sonho ruim

Tou duro tou preto tou quieto tão só

Compacto fragmento intacto confim

Fantasma cordato rebelde bocó.


Capenga

Eu me levanto todo dia,

escovo os dentes, uso a privada,

apóio as mãos na beira da pia,

olho bem para o rosto no espelho

e eu me pergunto quem sou eu.

Ando de casa até o trabalho


subo a escada, abro a porta

ligo a máquina e parto pro malho

e eu me pergunto quem sou eu.

Volto de noite, nem sei para onde

caio na cama, depois do jantar

olho pro teto, a mosca se esconde

e eu me pergunto quem sou eu.


Discordância

Somos nós quem paga o pato;

mas não temos queixa: fomos traído.

Dos amantes, a maior parte são traídos,

e por enquanto a maior parte dos cientistas

não encontrou saída para isso.

Portanto, é bom cautela, é preciso perícia

para lidar com os amores e as dores incontidos.


Boemia

Lua minguante

baita bolacha

quem te mordeu?
Ladrão de fígados

Chave micha

preciosa

quando abre entranha

nervosa
Feito paina

Qual travesseiro

te descabela?

Leda Beatriz

dantesca de Assis

quantos caminhos

se etruscam

por um triz?

Atriz atroz
atrás há três

há mais, há mil

por hora.

Nenhuma roupa

mal lavada

se joga fora.
Aeroporto de Congonhas

Voracidade:

te devorarei na íntegra

aos nacos

Velocidade:

passa o ruído surdo

dos jatos.
Casais

Eles elas semerecem

perfeitos de couro e linho:

uns pagam sem receber

outras dão sem entregar

nos leitos, entre lençóis de cetim

bordados de Ibitinga;

carros penados, almas lavadas.


Mas rá rá vão passar

a vida chupando o dedo,

só o dedo, oraora vejam só.


Porto Inseguro

Que não sois de ferro eu sei,

de sandálias inda se preparam praias lindas.

Não vos cabe a insone ânsia dos vampiros.

Pegar a pena de ganso,

penar de espaços nas mãos brancas.

Peraí. Há lagartos aqui.


Testa

Tive a intuição

que teu verso permaneceria:

das navalhas faiscam saliências.

Há tantas atenções nas entrelinhas.

Prossiga, como se cantasses

a vida da tua tia,

como a parisiense escolhida.


Busca

No sombrio

não há sol

do meio-dia

que dê jeito.
Sucessão dos vikings

Logo após o início intrépido

trêmulo

seguiu o longo esgarçar

das telas

e a morte do marido

traído.

Aproximou de outro para oferecer


a viuvez

Como semivirgem em holocausto

disposta

a dançar samba, tango

ou calipso.

Para agarrar por uma das cabeças

o homem

Medo da porcaria que vinha assim

ao luto,

sem acompanhar nem uma batata frita

ao ponto.
Anti-Buarque

Não cantarei as mãos dadas

os ternos abraços em Porto Seguro.

Não cantarei nada,

que nem violão toco.

(falarei de travesseiro)

Não gozarei de quem conta trocados

a olhar ávido o extrato bancário


na busca do que dê até o fim do mês.

Não gozarei de ninguém,

que nem carro novo eu tenho.

(lembrarei do toque entre olhos)

Não rezarei por perdão

como cartão de crédito para o reencontro.

Não rezarei nunca

que nem o Pai nosso eu sei mais.

(descreverei aquelas feridas)


Controle de má qualidade

Troque riso ao acaso

por deliberada euforia.

Procure no balcão ao lado

a receita da epidemia.

Siga em fila até a praia

e entre grito na água fria.

Confira pizza no bar lotado

fature alguém para companhia.


Compare os preços do supermercado

e reclame da carestia.

Leve cerveja no engradado

e arrote olhando a baía.


Vagagina

Alvinegra, nua e crua,

sua a sua no vão.

Guarda preta a saliva,

que escorre pelos costões.

Tá bão. Vamos ficar o bíduo.


Gato

Pode pôr o gato prá fora, menina,

e tirar seu prato da mesa,

e tirar seu cavalo da chuva,

menina.
Marca

O que é uma mulher, do que feita,

nunca soube, nunca saberei.

Até onde uma pode ir e vir, lisa,

nos tranco da zinha descobri.

Aos barrancos, capotando carro

e casa e fundo em terremoto

aquela eu acabei correndo.

Nunca mais vivi, passei os dias

daí em diante comendo,

as noites sonhei suado,

saboreando tudo que pensei

daquela mina, daquela onda,

do quando em quando, do nome dela,

que impede a venda de dizer aqui.


Um fado

Tendo acordado tenso, acovardado,

tarde demais talvez para ir ao trabalho,

combinou com o espelho: um caso,

um pacto. Anime-se, disse.

E tirou assim da cara a trava,

a placa adonde lia:

Fechado para balanço.

E parou na porta, e tomou café


e foi pastar o fardo.
O fazedor de canoas

Com aquele machado tosco

O bronco caiçara racha o tronco.

Regurgita a mata o pau, cansaço

do capiau não impede o lento

cavoucar do branco caule, até

tomar forma a nau, entre cascas

extraída, a golpes de ferro mau.


Aos inaptos inadequados

Pinóia Óptica, ninfa anidra olímpica,

algoza do orgasmo, estabeleceu

regras básicas para a convivência

(influência da lua nos cataclismos)

prática entre crianças práticas.

Haveria pai ao léu, ríspido.

Controlaria o volante, imóvel,


mas não o movimento, imenso.

Quinta roda, quinta coluna.

Receberia - praga! ou sentença,

jamais verso, impacientemente.

É, do lado direito do Pai, o pai

passaria, passado prá trás,

ia prás cucuias.
O Centauro

Eu peguei seu filho no colo

na noite do abajur ao lado da cama

e o entreguei para gáudio de seus braços dorminhocos

e seio aceso - dar de mamar.

Eu peguei você no colo,

e levei para passear nas estradas pretas

como os pneus pretos do carro.

E quando pintou a noite preta eu botei você na cama


e a coberta por cima - fazia frio.

Eu sempre usei sapatos de sola de borracha,

para não fazer barulho.

Mas agora quando você acordou falando em estalos,

pancadas de cascos com ferradura,

olhei para baixo.

Ando de leve, falo manso, piso macio

para não acordar ninguém, de hábito.

Mas agora também ouço o traque,

o baque dos cascos escuros nas tábuas do assoalho.

Cadê o pneu? Cadê a sola? Sou o centauro.

E você treme porque não quer ir no colo do centauro.

Tudo bem. Isso, colo, o centauro não tem mesmo.

Sabe, eu a levaria para galopar

sem a garantia da borracha,

sem a suavidade da prancha de surf

a deslizar no mar.
Não posso mais esconder as ferraduras, os coices,

viver na impostura.

Posso ainda - todavia - estender os braços de fora.

Mas não pegar você no colo - nem quero.

O centauro está aí, na sala,

na beira da porta entreaberta do quarto,

na espera do escancaro. Não faz por menos.

Posso, até, quem saber? oferecer o tal galope,


mostrar a face tímida, as mãos delicadas

e as patas brutas.

Só que quem quer andar a cavalo

tem primeiro que montar.

Aquela besta, aquela fera, não é feliz.

Mas pode ser aplacada.

A nada, a ninguém, a lugar nenhum pertence.

E, no entanto, sente a barra, a lama na cara,

a hora da farra, da fauna e da flora.

Corcoveia, espalha a terra, o pó, a areia.

Veja o centauro. Sou eu, aquele cavalo,

garanhão de ferro e bufo,

acordado, espalhafato.

No roso meigo de criança, no potro

desperto que empina, uma parada de um segundo.

A volta é cara.

Subir no lombo, um risco. Existo. Escolha.

É a hora.
As feliz

Diva Edredon e Lexotânia

eram amigas de Bel Prazer,

aquele bucetão da Praia Grande.

Todas nádegas. Diva, a versátil,

a qualquer lado, a qualquer momento,

frente e verso e prosa.

Lexotânia, aos vinte e sete,

não é que ainda não conhecia o orgasmo?


Seu namorado chispava - ejaculação precoce.

E haja sol, e tempo.

Cultura de praia, carnes no lugar

e coliformes fecais.

Cabelos a agitar, pela manhã,

para pegar o cérebro no tranco.

Andando pelo Baguari, tomando uma aqui,

outra ali, cuidando de sorrir

cheias de dentes e dengos e requebros.

Três mina feliz.


Mais praia

Nas vergas as velas altas

Nas veias as vidas curtas

Nas vias a pista enxuta

Nas saias a viga exulta

Nas meias a parte astuta

Na vista a pica ereta

Na praia a mina esperta


Escalação

Sim, o titular do time,

oficial, vitalício, pega

a bola nos pés, arisco.

Pode ser até um craque,

entre os críticos.

Mas ele tem de fazer gol,

sabia, estropício?
Mesa rima

Pediu, pediste

ao chato, alpiste.

Um xote, um chiste

na mesa existe

um bar ao léu.

O pau comeu

não fui só eu

que entristeceu.
E em noite falha

puxou navalha,

pois quem não olha

não tem escolha.

Do lado, ao vento,

sobre um lamento

eu bem que tento

sem ter alento.


Por cima da carne seca

Você entra e sai pela porta afora

Vem e vai pela porta adentro

Você passa, seca a água da minha casa

Deixa secar ao sol o pano de prato da pia.

Você passa e não me molha,

Você olha e não me vê.

Sou pano de chão passado

pelos cantos esturricados de pó


e teias de aranha, empoeirados.

Eu sou o pó que não vê água,

a terra que não germina,

a cara que não levou cuspida

porque não disse oi tesão.

Pois então, quando eu aprendia

a me tornar menor, não sentia tanta dor.

Mas um dia venta, lá isso venta.

E você, que dorme antes e acorda depois

vai abrir o olho seco e tirar a camisola dura,

e daí um tempo - quanto?

Perceberá atônita que eu me fui

como a chuva que evapora.

E o nunca visto se abrirá em pranto,

e o nunca isto encarará o cisco,

e a terra seca se empastará em pântano,

mas nada lá brotará - sabia?

Que ainda não inventaram a lágrima sem sal

na puxa, uma mulher daquelas.


A moça da padaria

Daqui um tempo ninguém se lembrará mais

da moça da padaria, que com imensa sabedoria

fazia o troco para quem comprava pão.

Saber, mesmo, só sabia sorrir e ser formosa,

mãos finas, coxa grossa, pele morena, dentes brancos, seios quase,

e cuidava da filha, ainda pequena.

Quem era, e o que fazia a moça da padaria?


Por que levou facada do marido,

Por que era tão bonita, no caixa,

a dar bala de troco, sem saber, como sabe

o portador do vírus, que sua morte aproximava?

Indagação anêmica. Indginação bombando no sistema,

estupefato apenas, eu.


Apenas dois

Seios quase

a despontar, a pespontar, a me espantar

Seios base

ocultos, vulneráveis como calcanhar

Seios pares

protegidos alvos pelo pano sutiã

Seios setas

apontados para o alto num cancan


Seios próprios

agradáveis assim de manusear

Seios retos

não os há: são os dois das curvas todas o lugar.

Seios fartos

mamãe eu quero mamar, mamãe eu quero

Seios pego

e não te largo nunca mais, eu juro

Seios calvos

lisos círculos como bola de bilhar

Seios alvos

entrevistos numa pressa a balançar

Seios truques

certos cúmplices compactados na retina

Seios súplices

apontando sob a blusa da menina

Seios dela

onde a carne é salgada como um ar

Seios tanto

que eu não sei aonde mais quero chegar.


Quem sou eu, diacho?

Quem és tu, caramba?

Quem é quem, cacilda!

Quem é ele, catso?

Quem ocupa - espaço.

Quem perdeu - seu tempo.

Quem não sabe - acha.

Quem é puro - escracho.


Peixaria

Percomorfos, parvo estorvo

a todos secará o sol do meio-dia.

Cações, marlins vermelhos, pequenas manjubas

cristos de escama ou couro

sacados da água, atirados ao cesto,

náufragos às avessas para remessa

ao mercado de peixe, deixados

nas bancas em gelo, sem bronca


nem ronco nem silvo nem uivo.

Sal do silêncio, sal na barriga,

salto abafado, brilho da antiga

soltura arrancado da água

e jogado no sol da quentura da tarde,

rasgado, prontinho pro pasto, bem seco, esfaimado.


Hora Extra

Eu? Sou apenas um lutador,

o que não é pouca porcaria:

Melhor o pugilato do que Pôncio Pilatos.

E quando subo no ringue do ginásio

da companhia de ônibus, deixo

as engrenagens e as polias para trás,

e a graxa entranhada na unha


se oculta dentro da luva,

como a minha dor de dentro,

que quase nem sinto quando

apanho e bato e jogo ou caio

de boca na lona logo no terceiro assalto.

Tal qual os golpes ao peito, pouco importam

aos meus ouvidos os berros lançados por entre

as dentaduras sujas de cigarro ordinário

dos velhos desdentados no velho barracão enfumaçado

que serve para tais espetáculos.

Não hesito. Não me exibo. Não me excito.

Não vejo nada, nem meu outro eu na minha frente,

de calção de outra cor, nem, por um momento,

por um simples e rápido momento, vejo

a minha outra dor, de dentro. Até soar o gongo,

só.
Papai do Céu

Minifada, a intifada te intimida tanto?

Miséria nossa, como a roça de mandioca mansa.

Cada marca, cada travo, cada amargo puro:

Nas cabeças paira uma sentença de morte besta.

Passam todos, em procissão bem lenta.

Dores várias, como únicos grãos de areia

formam praias, dunas brancas como aveia.

Papai do céu, estende sobre nós teu véu.

Se a dor é tanta, e tão distinta

conforme o ente, conforme o crente,

e não peneira fiel de ateu,

a misericórdia é vasta, minha nossa,

e todos os humanos pedem em uníssono,

que se abra a larga asa do espírito santo

e nos banhe a luz, e nos seque o pranto.


Na ordem natural das coisas

Pai, meu Pai que paira tão presente,

e tão inexistente como o eco

numa imensa sala escura.

Pai, meu Pai, dai a meu filho

não o sucesso absoluto ou

a fortuna imensa na Bolsa de Valores.

Não o contrato esportivo milionário

nem o estrelato no mundo do rock


ou da medicina alternativa.

Pai, Pai Nosso, dai a nossos filhos

apenas a existência meiga

e inocente de criança, a balança

de corda e tábua, a gangorra.

E a mim, que antes dele eu morra.


Festa do Divino em Paraty

Banda, Folia e Fanfarra

Despertam o povo na alvorada musical.

A música, mesmo a música dos desafinados

sobe até o céu onde mora a pomba.

Mesmo a música dos velhos da roça,

de quem se troça, por que tropeçam

nas pedras irregulares da rua,

nas rimas impraticáveis dos versos


simples como cascatas, sobe ao céu

onde mora a pomba.

O Festeiro comanda a distribuição

dos quinhentos e tantos quilos de carne.

Todos querem comer, e se celebra

nesta festa a alma, o fim da fome, a vara

erguida no alto com a bandeira.

Fiéis fazem promessas, comem pastel

e tomam pinga nas barraquinhas.

Junto com o óleo da fritura,

no meio do bochicho das estudantes,

sobe ao céu, espalha-se como no

tempo do imperador, a prece.


Enquanto se canta e dança e reza,

trinta mulheres cuidam de pratos e talheres.

Preparam o arroz com feijão de graça,

para encher as barrigas de quantos

enfrentarem a fila tensa,

para encher de grãos de esperança os

longos dias de fome e carestia que virão,

para manter a tradição das avós,

e, acima de tudo, para mostrar


naquele sábado colonial, a força senhora

que dão ao fogo vermelho e ao prato branco:

louvor ao Divino Espírito Santo

de alma lavada e barriga cheia.


O sapo de Plutarco

As meninas atiram pedras de folia

no sapo que mora na lagoa

e a morte dele, embora à toa

Não é farra, é fato e dor mesmo.

Palavras pulam da minha boca aberta

em baixos teores, parecem light ou diet

como eram antes. Mas caem qual metal pesado,


perfuram tímpanos, mesmo em voz baixa

calcinam neste circo dos horrores.

Se fazem fato, instrumento, ganham corpo,

espaço; vibram qual guitarra solo,

e ferem com sua panca de sucesso.

Proteja-se, sapo otário de Plutarco,

Acautele-se e tome canja de galinha

Cuidado com as palavras de euforia:

tais petardos, impávidos colossos,

são fatais palhaçadas em que embarco.


Much Ado

Nós, náufragos da mesma nau

somos feitos do mesmo sangue,

saldo do único dinossauro

que sobreviveu ao casório polêmico.

Não precisamos do pânico:

recriminar explicar justificar

pensamentos palavras e obras

viagens feitas ou a compra


daquele cobertor lilás

onde você se meteu entre quatro e cinco

da tarde ou da manhã tanto faz

naquela terça ou quinta-feira de Carnaval

explicar recriminar justificar

não dá; não precisa; não adianta picas.

Não leva a nada. Tudo pura perda de tempo.

É que nem mancha de batom na meia

de macho, na região da coxa.


Sim, eu sei, no meio da pedra

tinha um caminho. Eu sei sim.

No meio das pernas tinha um joelho,

tinha um joelho no meio das pernas.

Os anos podem passar, mas nunca mais

me esquecerei que ter tinha,

mas acabou-se tudo na chuva de verão

do ano da graça de mil e novecentos e noventa e quatro

quando fiz quarenta anos de idade e cantei:

Podemos ser amigos sexualmente


coisas do amor nunca mais.

Podemos sem amigos sexualmente

Amigos simplesmente e nada mais.

Memorando - os imperativos absolutos

de segurança exigem apenas que, cada um,

ao cruzar a sua rua, olhe para os dois lados,

e só depois siga em frente na faixa do amor.

Que panela velha só dá comida boa

quando areada com força e sapóleo na pia

até rebrilhar, igualzinho ao primeiro dia.

Sinal aberto no caminho da roça.

De lagosta e casa limpa todo mundo gosta.

Se o sal do tempo é a gente quem dosa

sair de cena é um ato de volta.


Domingo, primeiro de maio

No dia em que a velocidade morreu,

alguns versos em câmera lenta soariam

falsos como homenagem do Fantástico,

gratuitos como um passe livre para os boxes,

inúteis como um incentivo gritado do alto

da arquibancada para um piloto zunindo na reta oposta.

No dia em que a velocidade morreu


cada um, por um minuto, não tirou o pé do acelerador

nem a mão do volante, nem pisou no freio como garantia.

Ninguém deixou de comer frango ou macarronada na mãe,

não largou mulher e filha nem saiu de cueca na calçada

berrando toda a dor que sentia.

No dia em que a velocidade morreu

os pais gritaram mais alto com os filhos,

cortaram a grama e lustraram os carros com cera

Grand Prix mais energia, sem que os filhos soubessem

ou entendessem o que então se perdia.

No dia em que a velocidade morreu

não se criou uma lenda para ajudar brasileiros a

aguentar melhor aquele e outros dias.

Nessa época de heróis instantâneos, outros virão

para guidar maços de cigarros travestidos de carros

e quase nenhum risco de vida. A não ser que seja um domingo,

aquele dia do aviso. Aquele único dia.


Nos Andes

Chilena, no deserto da tua cama passei

foi zás trás de lagarto andino

em ziguezague no mato seco.

Na planura pedregosa do teu sexo

entre duas coxas cabeludas

deixei o álcool, o pó finíssimo,

a essência da alma da esperança.

Tremores de terra, convulsões na hora da espera,


para atravessar a faixa árida que ainda,

apesar do encontro, nos separa.

Ata-me. Ataca-me. Aplaca-me.


Neusa

Você dedica quatro horas por dia

para chegar à perfeição.

Outros tantos diriam, travados

para tanto espetáculo, se ali admitidos:

tesão é superfície. Bem feito.

Mas no traje preto de festa

se transforma a trama em temas,

e - não tema - acontecerá o triplo


no amanhecer do Tenório ou Lázaro.

Atormentará o êxtase dos que moram

no Itaguá, atravessará a bruma

onde está, a trovejante de Ubatuba.

Siga em frente, cretina. Atrás há trevas.


Sujeito singular

Veja o homem moderno

atravessando a rua de terno

escravo de seu cuidado,

sujo de cinza, calado.

Vai ao retorno da gana

invoca o grito da alma

embora não saque o caminho


que lhe afrouxe o colarinho.

Sente no salto a pontada:

o prego não fura nada

que furado já não esteja

como um Cristo de igreja.

Neste ponto o sapato

arrisca o primeiro ato

da comédia insinuante:

e o leva até o volante.


Nós dois

Who is so safe as we where none can do

Treason to us, except one of we two. (Donne)

Na ilha deserta, entre as ondas em série

ocupam a forma de nossas pegadas

centenas de ancestrais do passado remoto.

Não estamos a sós, não somos nós mesmos


a passear pela praia macia.

Andamos na areia, e como quem cria

seus galos de briga e os joga na rinha

sabendo que outros esperam a vez de matar ou morrer,

estocamos fantasmas de nossas famílias

sacamos a rolha da garrafa à maré

e explodem os gênios do contos de fadas

na praia isolada, as máscaras rudes,

mosaicos de tantos que vivem em nós.


Tem hora

Tem hora em que a gente é lírico

Tem hora em que é pornográfico

Tem hora em que é religioso

Tem hora em que é político.

Também tem hora em que a gente chora

Tem hora em que canta e samba

Tem hora em que a gente manda


Tem hora em que é pau mandado

Tem hora em que a gente dá uma

Tem hora em que abre os olhos

Tem hora em que fecha a cara

Tem hora em que desce à cova.


Aos gatos de ferro

Aqui, nesta casa vazia

levo a vida vadia dos gatos.

Aliás, em sua companhia.

E enquanto sirvo ao bichano

a deliciosa sardinha

e enquanto recebo o ronrono felino

penso que, apesar do silêncio

apenas cortado pelos miados famintos


penso que, apesar de faminto

eu ainda me sinto incapaz de ser companhia.

Muito embora perdido no meu labirinto

feito de entranhas e meus intestinos,

faço das tripas mais um coração,

e andando calado pelos quartos vazios

peço um amor fundido no ferro,

forjado em instinto, capaz de um berro

que se compare na noite aos miados do cio,

e traga a meu corpo cansado da estiva

da vida encantada uma outra fatia,

do arame cinzento uma trama completa

suas múltiplas pontas caminhos queridos

e não percorridos por falta de amplos.

Permaneço um estranho no meu elemento

fechado como porta de aço trançado

a não ser para o gato, imune ao perigo.


A poesia do poeta não morre

A agonia lenta do poeta Mário Quintana aos oitenta e sete anos:

mal aguarda o momento de reunir-se a Homero e outros tantos,

cartão de embarque na mão dos poemas. Não há sofrimento,

fora a constatação de que a obra é imortal.

Que o espírito permanece, não o dele, ardil de um corpo,

mas o humano, a sombra e a voz de todos os deuses do Olimpo,

feitas de tinta e papel impresso em Porto Alegre, no Sul.

Lá onde não habitam heróis, ele já desfruta, por antecipação,


de sua maldade. Cometeu versos pelos quais pagou com a vida.

E nisso, só nisso, se equipara a Ayrton Senna, o das pistas.

No mais, reduzido a notinha em pé da página nos jornais,

desaparece da física para abordar, pirata, a nau da literatura.

Projeta, não sua sombra pessoal, porém o texto de que foi

veículo, jamais piloto, seu motivo de tanto desgosto.

Não às Drogas

No meio da festa, na hora do espelho,

falou sério, aproveitando a cara de careta:

Acho o fim da picada essa história

de cheirar cocaína.

Pausa.

Você não tem aí uma seringa?

Muito embora ele mesmo não gostasse disso.


Caleidoscópio

Eu pensava a vida era

um quebra-cabeças preciso

que a gente precisa encaixar

para fazer figura, sentido.

E não adianta achar peça

que falta, toda torta

e diferente entre tantas

outras peças parecidas.

Eu sonhava enxergar

a indistinta junção

de fragmentos de vidro

em imagens construída.

E vi a matéria da vida

é feita dos cacos partidos

em cada partida, que se fazem

desenhos de coisas queridas

nas luzes refletidas

dos caleidoscópios à toa.

A vida das cores é boa.


Em vídeo

A verdade impinge-se por esta fresta

formada de pontos minúsculos

como se fosse um músculo

retesado em gesto inútil

contra o piscar da tela

nesta sala deserta

contra a última aresta

onde a gente finge-se


e falseia os crepúsculos.
Banho de sol

O fácil é sorrir dos tímidos

e apontar a porta da rua

aos inconvenientes que vieram

pedir paz, ou um pedaço de pão

com pouca manteiga, tanto faz.

O difícil é acariciar a teta

caída da amante pensa na curva,


na penumbra daquela tarde

onde, lá e cá, o sol se põe

como um arisco primata.


Silêncio: é madrugada

No morro da Casa Verde

a raça dorme em paz.

Adoniran Barbosa