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12/04/2019 Por que os juros são tão altos no Brasil: uma atualização, com proposta de reforma bancária.

ancária. – Pragmatic Economics and Sustain…

Pragmatic Economics and Sustainable Finance

Building solutions for a better world, by Rodrigo Zeidan

BANKING SECTOR, DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, FINANÇAS


CORPORATIVAS, FINANCIAL MANAGEMENT

Por que os juros são tão altos no Brasil: uma


atualização, com proposta de
reforma bancária.

Date: 24/02/2018 Author: rodzeidan 1 Comment


O post original sobre as razões pelas altíssimas taxas de juros no Brasil é o mais acessado na
minha página. Por isso, vou usar parte da minha pesquisa recente para atualizar as
informações do artigo original – uma versão em inglês foi publicada na Americas Quarterly.
Dei uma longa entrevista ao Globo sobre o assunto, que toca nesse e em outros assuntos sobre
regulação do sistema financeiro.

Existe uma clara relação entre desenvolvimento do sistema financeiro, com boas condições de
crédito, e bem-estar social. No Brasil, contudo, ainda vivemos uma situação em que tanto
consumidores quanto a maioria das empresas pagam um custo absurdo por empréstimos,
com uma exceção, os créditos subsidiados (educacional e imobiliário no caso das famílias e via
BNDES no caso das empresas). É fundamental que as taxas de juros cheguem a níveis
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razoáveis para destravar o crescimento e criação de mais pequenas empresas, além de permitir
planejamento de longo prazo para todos os agentes econômicos, inclusive as famílias
brasileiras.[1]

As taxas de juros no Brasil são as segundas maiores do mundo, perdendo somente para
Madagascar, e mais do que o dobro do terceiro colocado, Malawi. E não existe um só culpado
– o Banco Central, normas jurídicas, Tesouro Nacional e o comportamento dos bancos
comerciais são responsáveis por uma situação peculiar: o único país de renda média com juros
estratosféricos.

Taxa de Juros
Ranking País
Real
1 Madagascar 47.8%
2 Brasil 41.6%
3 Tajiquistão 24.4%
4 Uganda 19.7%
5 Quirguistão 19.3%
16 Peru 12.4%
17 Paraguai 12.2%
Tabela – Ranking dos países por taxa de juros real, 2017. Fonte: Banco Mundial.

A tabela acima mostra a taxa de juros real, descontada a inflação, de alguns dos países com
maiores juros reais. Na América Latina, o Peru e o Paraguai só aparecem na lista de maiores
juros do mundo na 16o e 17o posições, com juros que são menores que um terço dos
brasileiros. É importante notar que estou extrapolando uma análise baseada em taxas que não
são exatamente comparáveis, porque os termos e condições dos empréstimos podem variar,
entre os países. Ainda assim, a nossa percepção de que no Brasil os juros são absurdos parece
ser corroborada quando comparamos o Brasil com o resto do mundo.

Dois dados podem mostrar como o Brasil é um outlier, uma exceção ruim: o primeiro é a taxa
de juros paga pelos devedores privados (normalmente aqui não entram as gigantescas taxas
de cartões de crédito ou do cheque especial) e o segundo, o spread entre os juros pagos pelos
agentes privados e os da dívida pública (geralmente, os títulos considerados sem risco dentro
da economia nacional). Em ambos os casos, o Brasil é o país com maior juros do mundo. O
mapa mundial com os dados da taxa de juros dos devedores privados mostra que somente a
Argentina tem juros no mesmo nível brasileiro e, mesmo assim, nossos hermanos tem uma
taxa de juros bem mais baixa, 31%, contra 52% no Brasil.

Taxa de juros de empréstimo bancário para o setor privado. Fonte: Banco Mundial.

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Os juros altos, no Brasil, podem ser explicados por restrições de oferta, causadas por um
Banco Central excessivamente preocupado com segurança e um comportamento conservador
e possivelmente colusivo dos bancos comerciais. Um equilíbrio onde inovação e eficiência são
deixadas de lado para manter um sistema financeiro estável e robusto – e estático.

Os spreads brasileiros são 16% maiores, em termos reais, que os da Itália e incomparáveis com
os baixos spreads em outros países desenvolvidos. Obviamente, os agentes brasileiros, no
agregado, são pouco endividados. Embora hoje a relação entre total de crédito e PIB esteja na
média da América Latina, quase todo o crescimento do crédito no século XXI veio de créditos
subsidiados. O que é um resultado óbvio, já que temos uma das maiores taxas de juros do
mundo, mas não explica a grande questão, que é: porque as taxas aqui são tão altas?

As razões dos juros estratosféricos no Brasil.

Os juros são altos no Brasil por causa de uma combinação de decisões do Banco Central,
direcionamento de crédito, comportamento colusivo dos bancos, ineficiência jurídica e
escolhas sociais.

Em relação ao Banco Central, desde a crise bancária dos anos 90 a principal preocupação da
instituição é com a solidez do sistema bancário. E quanto digo solidez, eu realmente quero
dizer solidez – o Banco Central regula de forma ferrenha o sistema financeiro para não deixar
que qualquer início de crise se espalhe pelo sistema. É por isso que a crise financeira de 2008
não contaminou o sistema financeiro local e porque, diferente de outros lugares do mundo,
como Itália e Grécia, não precisamos nem pensar em reativar algo como o PROER ou
mecanismos de socorro aos bancos. O sistema bancário brasileiro é sólido e está preparado
para sobreviver a muitas crises, inclusive o aumento brutal da inadimplência causado pela
recente crise econômica. Mas isso tem um imenso custo social: os bancos comerciais tem muito
pouco poder discricionário sobre a principal fonte de recursos para empréstimos, os depósitos
à vista. Em qualquer aula de macroeconomia se aprende sobre o multiplicador monetário, que
é o processo pelo qual os bancos comerciais criam crédito (e moeda) em uma economia: os
bancos usam o dinheiro dos depositantes para emprestar a empresas e consumidores. Esse
dinheiro volta ao sistema financeiro, que torna a emprestá-lo, em um ciclo no qual o depósito
inicial se multiplica na economia. Para que os bancos não se alavanquem muito e possam
quebrar, iniciando uma crise financeira, em qualquer país há mecanismos que resguardam o
sistema financeiro, principalmente através do recolhimento de reservas compulsórias. Nesse
caso, um banco não pode emprestar todos os recursos dos depósitos à vista, recolhendo parte
desses recursos junto ao Banco Central, sem serem remunerados. No mundo, a média das
reservas compulsórias fica abaixo de 10%, enquanto no Brasil esse total é de 25% dos
depósitos à vista. Qualquer deficiência diária deve ser paga ao Banco Central com uma taxa de
juros iguais à SELIC mais 4% ao ano. Nos recursos à prazo, as reservas compulsórias são de
33%. Ou seja, no Brasil cobramos muito mais reservas dos bancos para recursos à prazo do
que no mundo, para recursos à vista! O resultado é um sistema super sólido, mas que limita
os recursos a serem emprestados, encarecendo-os. Podemos ver a distribuição dos depósitos
compulsórios no mundo na figura abaixo.

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Depósitos compulsórios no mundo, 2018. Fonte: Central Bank News.

Além disso, no Brasil escolhemos direcionar grande parte dos recursos dos bancos para
subsidiar diversos tipos de consumidores. Por exemplo, 65% dos recursos da poupança são
alocados a empréstimos imobiliários, sendo 80% desse montante nas regras do SFH e os
outros 20% a taxas de mercado. Essas distorções fazem, por exemplo, que muitas vezes bancos
comerciais aloquem quase automaticamente recursos de depósitos à vista como à prazo,
pagando aos correntistas uma remuneração por isso. Ou seja, o nível de distorção é de tal
monta que os bancos comerciais voluntariamente pagam aos correntistas que mantém
elevados montantes em depósitos à vista, para diminuir o montante de reservas obrigatórias.

O mercado bancário não é somente muito concentrado, mas tem ficado cada vez mais
concentrado ao longo dos anos. Concentração em si só não é ruim, mas se levar à
oligopolização e, portanto, colusão entre os agentes, aumenta preços e diminui a eficiência da
competição. No caso do setor bancário, contudo, somente a concentração não explica o
comportamento colusivo e, portanto, os altos preços cobrados pelos bancos. Podemos ver que
os cinco maiores bancos concentram mais de 80% dos ativos bancários no país, participação
que quase dobrou desde o início do século.

Cinco maiores bancos comerciais – % dos ativos totais do sistema. Fonte: Banco
Mundial.

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É também relevante saber se o mercado é contestável, ou seja, se há possibilidade de entrada


de novos concorrentes, para determinar o grau de eficiência do setor. No caso brasileiro, o
mercado é concentrado e a entrada basicamente impossível, pois a regulação é de tal forma a
prover segurança acima de tudo que diminui a competição e eleva a taxa de juros para todos
os agentes econômicos, tanto públicos como privados. Os bancos comerciais brasileiros se
aproveitam da falta de contestabilidade do mercado para extrair dos consumidores um dos
maiores spreads do mundo.

Sobre as escolhas sociais, no Brasil temos um tratamento completamente diferente, para os


devedores, do que no resto do mundo. A legislação não permita a criação de um cadastro
negativo permanente, e as punições aos devedores (como o nome no SPC, por exemplo) são
extremamente brandas. Mesmo a criação de um cadastro positivo, com histórico de bom
pagador, ainda não vingou no Brasil, embora haja uma reforma em curso. Com isso, os bancos
não conseguem diferenciar, temporalmente, os prospectos de potenciais bons e maus
pagadores. Os riscos são maiores e, assim, a taxa de juros sobe para todos. Como exemplo de
outro arranjo institucional, nos EUA, um país extremamente puritano, o escore de crédito
acompanha o indivíduo durante toda a sua vida e, portanto, um histórico de pagamentos em
dia leva a menor taxa de juros, enquanto calotes (especialmente sucessivos) encarecem o
crédito dos indivíduos por toda a sua vida. Isso limita o risco moral dos consumidores, ou
seja, o incentivo ao calote pela baixa punição a ele. Claro que o sistema americano também
tem suas deficiências, punindo por tempo demais problemas que podem ser temporários, mas
os juros são muito menores que os brasileiros também porque, diferente daqui, um calote
acompanha o indivíduo por muito mais tempo. Há outros fatores de escolhas sociais que são
diferentes no Brasil, como a inviolabilidade do bem de família, que não pode ser penhorado.
Por último, a ineficiência jurídica, em termos de tempo, insegurança jurídica e visão favorável
aos consumidores limitam a cobrança de dívidas bancárias, encarecendo, previamente, o
preço (juros) das mesmas.

O resultado dessa excessiva proteção aos devedores e insegurança jurídica é desastroso. Como
podemos ver abaixo, o Brasil está na pior categoria em termos de força do direito de
recuperação por parte dos emprestadores (o índice é uma das categorias do relatório de Doing
Business do Banco Mundial).

Força do direito de recuperação de crédito. Fonte: Banco Mundial.

Ou seja, como os bancos somente dispõe de poucos recursos livres para empréstimos, tem
proteção regulatória contra a concorrência, não podem discriminar pessoas através de escores
de crédito de longo prazo (risco moral), e não conseguem recuperar parte significativa da
inadimplência, os valores a serem emprestados se tornam muito caros. As absurdas taxas de
juros no Brasil são, então, resultados da combinação de todos esses fatores. Por um lado,
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temos um sistema financeiro seguro, mas por outro lado, pouco inovador e muito caro. A
maior prova desse equilíbrio ruim para todos está no fato de que os bancos brasileiros não são
muito mais lucrativos do que no resto do mundo. Embora sejam comuns as notícias de que os
lucros dos bancos brasileiros bateram recordes, na verdade os bancos não estão distantes da
média mundial. As figuras abaixo apresentam os retornos dos bancos comerciais em relação
aos ativos totais e patrimônio líquido. Nossos bancos não são os mais lucrativos do mundo.

Retorno sobre o patrimônio líquido (após impostos) dos bancos comerciais. Fonte:
Banco Mundial.

Retorno sobre ativos totais (após impostos) dos bancos comerciais. Fonte: Banco
Mundial.

Precisamos abaixar os juros para aumentar a oferta de crédito, principalmente para as


pequenas e médias empresas. Analisando os custos e benefícios do desenho institucional
brasileiro, podemos sim ter juros bem mais baixos, mas isso não viria de graça.

Reforma Bancária e Juros no Brasil.

Alguns pontos precisam ser modificados para que os juros caiam e essa é a ordem que deveria
ser seguida, para garantir que o comportamento colusivo das empresas não limite a queda dos
juros:

1 – Abertura à maior competição bancária. Isso não significa abertura à existência de muito
mais bancos comerciais, embora isso possa acontecer. Precisamos impedir maior concentração
e, principalmente, liberar inovação (via fintechs, por exemplo). O Banco Central precisa deixar
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de ser tão conservador. Afinal, nossa concentração bancária limita inovação e reduz incentivos
à competição entre, principalmente, os grandes bancos.

2 – Diminuir consideralvemnte o crédito direcionado. Precisamos querer proteger tudo e


todos direcionando crédito para os mais diversos setores. Existe alguma justificativa para
crédito para agricultura e casa própria. Mas temos que acabar com penduricalhos e,
principalmente, diminuir o compulsório sobre reservas. Precisamos liberar empréstimos. Isso
não vai nos deixar abertos à crise. Somos seguros em excesso. O índice de liquidez dos bancos
brasileiros é de mais de 220%, um absurdo. Não deveria ser mais de 100%.

3 – Mudanças legais sobre os consumidores: precisamos aumentar as punições aos devedores


e criar mecanismos de cadastro positivo para que as taxas de juros possam cair fortemente
para as empresas e consumidores que são “responsáveis”. Precisamos limitar o risco moral
associado ao tratamento brando para os devedores. O novo cadastro positivo pode ajudar
nesse ponto.

4 – Marco regulatório sobre relações de consumo bancário. Todos os agentes econômicos estão
sujeitos à ineficiência jurídica no Brasil, mas quanto maiores as garantias de resoluções
rápidas e estáveis sobre as relações entre consumidores e bancos comerciais, menor a taxa de
juros. Um exemplo está no empréstimo para compra de automóveis. Como a garantia do
empréstimo é o próprio veículo e a retomada do mesmo é conseguida de forma rápida, com
muito mais empresas disputando esse mercado (já que cada montadora tem um braço
financeiro para isso), os juros são muito menores do que a média dos outros empréstimos e
temos, diferentemente das outras modalidades de empréstimo a famílias ou pequenas
empresas, um mercado competitivo com taxas razoáveis.

O Banco Central brasileiro é extremamente competente em garantir a segurança do sistema


financeiro brasileiro. Contudo, exagera na busca de segurança vis à vis competição. Essas
reformas equilibrariam essa relação, de forma a permitir a queda dos juros sem criar riscos à
estabilidade do sistema financeiro nacional.

[1] Escrevi um texto técnico sobre a evolução do sistema financeiro brasileiro com Ernani
Torres e Luiz Macahyba. Vale a leitura para aqueles que querem saber mais sobre como o
Banco Central brasileiro estabeleceu os trade-offs entre solidez e eficiência do sistema
financeiro nacional.

BNDES COMPETIÇÃO SISTEMA FINANCEIRO SUBSÍDIOS TAXAS DE JUROS

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