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The Psychological Record, 2007 , 57 , 169-186

EVENTOS E CONSTRUCTOS

NOEL W. SMITH
State University of New York Plattsburgh

A psicologia tem ignorado largamente a distinção entre constructos e


eventos e o que compreende um constructo científico, embora essa
distinção seja central na disciplina. Vários tipos de constructos são
identificados e comparados com eventos, e o uso impróprio desses
constructos, a exemplo da “mente”, é notado. Após indicar alguns
problemas com a falha em se manter uma distinção entre constructos e
eventos e de se estabelecer constructos baseados em eventos, uma
lista de critérios para o emprego científico de constructos é proposta
como um meio de clarificar e avançar trabalhos em psicologia. Um
exemplo de uma abordagem baseada-em-constructos e uma baseada-
em-eventos provê um contraste quanto a orientação científica de forma
que só a segunda a psicologia pode remediar sua fragmentação e fazer
avanços como ciência.

Os psicólogos hoje não estão somente em desacordo quanto ao seu objeto de


interesse, mas também seu campo está altamente fragmentado em suas abordagens
teóricas e metodológicas. Isso se deve, em parte, às crescentes especializações mas
também a velhos desacordos sobre os constructos da psicologia. A psicologia é sobre
consciência, self, e processamento de informação? É o estudo de uma mente e suas
representações do mundo? É o estudo do comportamento influenciado por uma mente
cognitiva? É somente comportamento? É a ação do cérebro sobre o organismo? É a
interação entre o organismo e os objetos em um contexto? Ou são as ações da mente e
do corpo? Muitos desses desacordos decorrem da falha em se distinguir eventos e
constructos e em se construir constructos científicos derivados de eventos ao invés de se
começar com constructos e interpretar eventos observados de acordo com esses
constructos. Isso é, a falha é dupla: a confusão entre constructos e eventos e a falha
resultante em se desenvolver constructos científicos validos. Alguns acadêmicos como
Skinner (e.g., 1953, 1990) e Kantor (e.g., 1922, 1953, 1981), atacaram o problema
repetidamente em um período de muitas décadas. Kantor (1963-1969) atribuiu a causa
subjacente do problema à nossa cultura espiritualista: os constructos não vem de
observação mas de crenças culturais. Frequentemente constructos que caem em
descrédito científico meramente tomam outros nomes. Por exemplo, alma se tornou
mente que se tornou poderes cerebrais ou processamento. Esses constructos continuam
em uso apesar de seu status científico duvidoso.
Em um livro sobre questões teóricas da psicologia, Bem e Loren de Jong (1997)
descreveram o exemplar como um “guia compreensivo” e ainda assim não mencionam a
questão crítica dos constructos. Os autos estão em companhia venerável, pois os debates
de muitos séculos sobre a mente e o corpo também falharam em reconhecer a natureza 

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dos constructos e a sua confusão com eventos, provavelmente por causa de suposições
culturais. A confusão continua hoje como exemplificado por Reber e Reber (2001) que
afiram em seu dicionário psicológico que “alguém inferido um constructo sempre que se
pode estabelecer uma relações entre vários objetos ou eventos” (p. 148). Não é o
constructo que é inferido, mas a inferência é um constructo. Constructos objetivos ou
científicos como antônimos de constructos culturais como a mente em um corpo são
baseados na interação observada entre objetos e eventos. Eles poderiam tomar a forma
de uma correlação, diagrama, descrição, ou outros designação.
Este artigo aborda os dois tópicos: (a) a distinção entre eventos e constructos e (b)
o uso adequado dos constructos. Uma vez que a ciência é construída sobre observações
de eventos dos quais constructos são derivados um completo entendimento da distinção
entre eles e o uso apropriado do ultimo é de crítica importância para o avanço da ciência.
A falha em se fazer essa distinção tem sido um grande impedimento nas tentativas de se
desenvolver uma ciência da psicologia. Em um contexto ou outro e em vários graus esse
problema tem sido abordado por outros, tais como alguns dos citados aqui; mas esse
artigo vai se concentrar primariamente no problema da tentativa de identificá-los. Vai
fornecer exemplos de usos e usos errôneos e vai sugerir alguns critérios que podem ser
aplicados à investigação cientifica. Mesmo com a forte influência cultural que apoia usos
errôneos, os critérios podem prover diretrizes para se evitar alguns dos danos.

A Distinção entre Constructos e Eventos


Um constructo (ou construção) é, como o nome indica, algo que é construído ao
invés de um evento observado. Ele é uma invenção. Na verdade qualquer coisa que não
é um evento mas representa, ou pretende representar um é um constructo: uma teoria,
uma hipótese, um princípio, uma formula matemática, uma medida. Esses são todos
constructos. Mesmo uma descrição é um constructo, pois não é a própria coisa que
descreve. O trabalho científico é, em maioria, um procedimento de desenvolvimento de
constructos; mas, como Kantor (1957) notou, “entidades hipotéticas não podem ser
criadas arbitrariamente” (p. 59). Ele se referiu às precauções necessárias para cada um
dos três tipos de constructos. Constructos Descritivos, ele afirmou, são mais válidos e
úteis quando derivam do contato com os eventos; e sua validade e utilidade decresce
quando eles são (a) analogia, (b) emprestados de outros campos como biologia ou física,
e (c) invenções totais, tal qual o cérebro como um órgão psicológico. Constructos
Explicativos (causalidade) podem relacionar psicologia com biologia, química, e eventos
sociais mas não podem ser reduzidos a eles. Esses são formas mais analíticas de
relacionar coisas ou eventos do que a simples descrição (Kantor, 1983) mas ainda podem
estar restritos a formas de descrição. Explicações constroem um corpo de conhecimento
quando uma descrição funcional - uma descrição de relações ou interações - é integrada
com outra que foi funcionalmente relacionada com outras mais. Constructos Manipulativos
são assim chamados pois eles são reafirmados ou modificados para facilitar a
investigação. Eles envolvem problemas, teorias, e hipóteses que podem ser validados
somente se “seguramente conectados com eventos” (Kantor, 1957, p. 59).
A alma de Descartes, mônada de Leibnitz, impressões de Hume, ideias e
sensações de Locke, molas cerebrais de La Mettrie, unidade transcendental de
apercepção de Kant, energias específicas de nervos de Müller, química cerebral de J. S.
Mill’s, sensações Titchener, imorfismos de Woodsworth O, Köhler, e os impulsos de Hull,
para dizer só alguns, são todos constructos das história da psicologia. O que é crítico para
a psicologia científica , entretanto, como alguns autores notaram em um período de quase
meio século (e.g., Ebel, 1974; Kantor, 1947, 1953, 1957; Lichtenstein, 1984; Moore, 1998;
Observer, 1983; Smith, 1993a, 2001), é se o constructo derivou de um evento ou foi
imposto sobre ele. Em todas as instancias históricas citadas, os constructos foram
extraídos de fontes culturais e impostos sobre os eventos. Por exemplo, Titchener 

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observou os relatos de seus participantes e suas respostas a a tarefas experimentais mas


assumiu que estava investigando elementos mentais e impôs esse constructo sobre os
relatos. Esses constructos históricos tem continuidade com alguns atuais, tal como o de
representações mentais, armazenamento e recuperação, processamento, consciência, e
self que são pervasivos na psicologia tradicional. Os eventos são o ver, acreditar, lembrar,
pensar, imaginar, e outras ações humanas concretas1. Um evento é algo que acontece,
quer nós saibamos sobre ele ou não. Eventos podem ser examinados e conhecidos
através de (a) observação direta com ou sem o uso de instrumentos mas com um mínimo
de manipulação do evento alvo, (b) contato transformador envolvendo manipulação, e (c)
observação remota requerendo contato indireto e inferência (Kantor, 1953, pp. 15-16). Em
trabalhos científicos a conexão permanece firme não importa quantos elos existam entre o
investigador e o evento.
A distinção entre eventos e constructos é crítica. Ela determina, por exemplo, se
devemos tratar o cérebro como um determinante do comportamento ou como um
participante, a percepção como uma representação ou como uma interação organismo-
objeto, lembrar como armazenamento ou reencenação, inteligência como um poder ou
descrição, atividade humana como conexões mente-corpo ou interações em um contexto.
Wundt afirmou que ele não podia conhecer a consciência e somente seus efeitos. E ele
estava certo na medida em que não podemos conhecer ume constructo etéreo. Mas ele
precisava invocar a consciência ou ele poderia simplesmente se referir às respostas que
ele estava efetivamente medindo como a consciência? Estavam os participantes de
Titchener fazendo introspecção de suas sensações elementares, átomos mentais, ou
fazendo discriminações sensoriais de objetos e eventos? Posner e Raichel (1994, p. 24)
ilustraram bem a confusão entre eventos e constructos. Eles fizeram um gráfico no qual
afirmaram ter representado o cérebro no eixo horizontal e a mente no vertical. Eles
representaram como diferentes níveis de detalhes as técnicas aplicadas ao cérebro, mas
a mente acabou sendo o tempo e foi representada como tal. Skinner (1963) apontou a
mente é eventualmente usada como uma “estação mental” para preencher as lacunas
entre as variáveis dependentes e independentes.
Como outro exemplo de confusão entre constructos e eventos, em um esforço para
justificar o não observado em psicologia, Bornstein (1988) afirmou que “psicólogos
investigam processos internos como sentimentos e motivação” (p. 820). Aqui ele inclui na
mesma categoria um evento, sentimentos, e um constructo, motivação, sob outro
constructo, processos internos. Vamos examinar cada um desses. (a) Sentimentos: se
alguém ganha na loteria, seu comportamento alegre é um evento real. Um sentimento,
então, é uma pessoa em interação com aquilo que provoca o sentimento, tal como a
alegria sentida ao ver o número premiado. (b) Motivação: Por que alguém compra um
bilhete da loteria? Esse alguém deve estar motivado. Mas o que é um motivo? Não é algo
em si mesmo, mas deve ser um referente específico em eventos identificáveis. Talvez o
comprador decidiu que os proventos do bilhete são destinados a uma causa justa. Um
motivo é um constructo de causalidade, não um evento, mas ele pode ser um termo útil
se tem referentes identificáveis que no caso, podem ser expressos de forma conveniente
através constructo. Entretanto, ao contrario de Bornstein, nós não investigamos o motivo
como tal; uma vez que ele é só uma abstração, um constructo. O que nós investigamos
são as condições específicas que levam a um comportamento em particular, tal qual o

1 Todos os eventos precisam ser de fato ou potencialmente observáveis em algum nível. Como toda
observação científica, se pode inventar varias formas de se fazer observações mesmo que a maioria dessas
formas sejam imperfeitas. Em alguns casos nos podemos observar o estímulo mas não a respostas e vice
versa. Mas, como em outras investigações científicas, nós podemos investigar pelo menos algum
componente da interação. Em psicologia nós temos a vantagem sobre a maioria das ciências não humanas
de recorrermos ao auto-relato (Smith, 1987). Em adição, a metodologia Q (Brown, 1980, 1994-95;
Stephenson, 1953) prove um meio objetivo de determinação de comportamentos subjetivos.
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comportamento preferido por um professor ou um empregado ao qual nos referimos como


motivado. (c) Processos internos: o exemplo final de Bornstein e sua generalidade
pretendida são também constructos ao invés de eventos. Ele assume que a natureza está
dividida em duas partes, interna e externa. Se os referentes para “processos encobertos”
podem ser especificados, então a distinção encoberto-descoberto não cabe mais; para
eventos identificáveis da natureza - o comportamento alegre do bilhete premiado, o
desejo de apoiar uma causa justa - se torna o foco ao invés de uma dualidade construída
entre encoberto e descoberto. Mas esse constructo de processos internos é usualmente
um dualismo mente-corpo, e esse dualismo não possui tais referentes. Ele é, nos termos
de Freeman (2001) (depois de Ryle, 1949), um erro de categoria - um erro que ele atribui
a uma história de três séculos (na verdade aproximadamente vinte e dois séculos no
mundo ocidental e talvez 3000 anos na India: veja Kantor, 1963-1969; Smith, 2001). Um
mundo está dentro, o outro está fora. Skinner (1990) chamou isso de “teoria da cópia” - o
mundo real copiado dentro da mente ou do cérebro - o que requer algo para ver a cópia.
Ela também requer que o sistema nervoso central seja um causa de si próprio.
Bornstein tentou justificar os inobserváveis da psicologia afirmando que a
gravidade é um inobservável que a física estuda indiretamente. Ainda, de acordo com a
teoria em física, a gravidade não é um inobservável mas é um evento envolvendo a
interação dos corpos no espaço; e essa interação pode ser observada, medida, e descrita
matematicamente, sendo que a medida e a descrição matemática são constructos úteis
derivados dos eventos. São definidos por e consistem nessas propriedades e talvez de
outras que ainda serão observadas (que podem vir a ser constructos se forem
postuladas). Nós podemos, de forma similar, observar eventos nas interações de seres
humanos com seu ambiente e descrevermos essas interações ao invés de iniciarmos com
constructos culturais e os impor sobre nossa investigação. Schlinger (2003) descreveu o
problema desta forma: “Em vez de construírem definições formais a priori e então
começarem a buscar instancias delas, os cientistas devem descobrir a definição … Isso é
feito se analisando experimentalmente o comportamento e então buscando ordem” (p.
23).
A despeito de algumas afirmações de que “termos teóricos” (constructos) e termos
observáveis são igualmente inferidos e não confiáveis, Clark e Paivio (1989) citaram
vários estudos empíricos desses termos que apontam para a maior confiabilidade e
validade destes em detrimentos daqueles, além da clara distinção entre os dois. As
investigações revelaram que “termos observáveis se referem mais diretamente a
fenômenos observáveis do que termos teóricos, e são relativamente mais estáveis e
definitivos em seus significados” (p. 510). Além disso,

os dados sugerem que cientistas pretendem e mantém atitudes distintas


quanto a termos observáveis e teóricos quando pensam em comunicar ideias
científicas. Termos observáveis tem significados mais estáveis e universais, e
participam de afirmativas que podem ser empiricamente validadas em virtude
de seus referentes concretos. (p. 510)2

Kantor (1959) produziu um sistema de postulados que podem ser usados como guia para
investigações científicas (veja Clayton, Hayes, e Swain, 2005), mas mesmo esse sistema
de postulados começa com eventos observáveis sobre os quais os constructos são
construídos.
Uma escolha primordial para a investigação é se o sistema será baseado-em-
constructos ou baseado-em-eventos. Isto é, as investigações começam com constructos
dos quais serão interpretados os eventos ou elas começam com eventos e os constructos

2 Ironicamente, os autores basearam seus estudos em constructos cuja base referencial é questionável.
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serão construídos a partir desses? Kantor (1981) argumentou que “Em geral uma lógica
válida da ciência precisa está fundamentada em uma apreciação completa das relações
entre eventos e constructos” (p. 6) incluindo-se a clara distinção entre eles. Lichtenstein
(1984) avançou em um ponto similar:

Quando alguém segue cuidadosamente o que se sabe sobre o trabalho científico


nós temos uma base para distinção entre os dados, investigar operações e
constructos. A fase de construção se torna particularmente importante quando é
percebido que aqui que a maioria dos desentendimentos em ciência surge. Os
constructos são mais provavelmente ouvidos se derivam de contato direto com
os eventos, tenham sido eles manipulados e medidos ou não. Infelizmente,
cientistas presos na tradição parecem não estar cientes desse fato. Então os
astrônomos acharam as orbitas circulares para os planetas razoáveis e os
biólogos descreveram em detalhes os homúnculos dentro dos espermatozóides.
(p. 471)

Constructos válidos cientificamente requerem um apoio nos eventos em todos os


estágios do empreendimento científico, e tal apoio requer que reconheçamos o que são
constructos e o que são eventos.

Constructos com Coordenadas Tempo-Espaço


Constructos são necessários na ciência e, quando usados propriamente, sempre
tem um referente concreto: Eles se referem a uma coisa ou evento. Inferências, que são
comuns na ciência, são constructos e têm um papel importante no avanço científico. Na
passagem do 4º para o 5º século A.C., Democrito observou o comportamento da matéria
e inferiu que era composta de algumas pequenas partículas que ele chamou de “átomos”.
Embora ele não pudesse verificar sua existência, eles tinham coordenadas espaço-tempo,
que dava a eles o potencial de serem observados caso existissem. No século XX o
desenvolvimento da instrumentação adequada finalmente permitiu a verificação dessas
partículas inferidas. Em contraste, os constructos históricos impostos sobre a ação
humana não tinham coordenadas espaço-tempo, mas transcendiam o espaço e o tempo.
Por essa razão, analogias foram inventadas - constructos sobre constructos - e o cérebro
como um órgão concreto se tornou um substituto para esses agentes imateriais. Mas
como um órgão psicológico o cérebro é, ele mesmo, um constructo. Ele claramente
exerce funções de coordenação biológica; mas, como apontado por Bennett e Hacker
(2001), Delprato (1979), Kantor (1947), e Uttal (2001), ninguém nunca o observou e
executando também comportamentos como pensar, aprender, perceber, desejar, ou sentir.
Com instrumentação apropriada como a tomografia por emissão de pósitron (PET) e os
escaners de imagem de ressonância magnética funcional (fMRI), alguém pode inferir a
participação em algumas dessas atividades, mas não como um diretor, produtor, ou
contêiner dessas. De outras formas nós podemos também observar outras condições de
participação, como características de estímulos, histórias de estímulos e respostas, e
condições de set. Ainda assim, quando os psicólogos começam com o constructo do
cérebro como um produtor de atividade psicológica eles geralmente ignoram a
necessidade equivalente desses outros participantes e interpretam os eventos como
causados somente pelo cérebro (Bennett e Hacker, 2001; Kantor 1959, p. 227).
Valenstein (1998) mostrou que em psiquiatria seus praticantes frequentemente
assumem que desordens comportamentais tem origem somente biológica e, sendo assim,
precisam somente de uma pílula ou medicação; mesmo o prazer é visto como um produto
da atividade de dopamina no cérebro, enquanto o resto é ignorado. Então, o cérebro se
torna um constructo imposto de diretor ou produtor, não tendo referente com coordenadas
espaço-tempo. Por que o constructo não é nada além de uma abstração - somente seu
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referente é concreto - ele jamais pode ser observado e permanece sempre além da
investigação. O que acontece na prática, entretanto, é que os eventos são verificados
através de investigação e relatados como operações de constructos, tais como mente ou
processamento ou armazenamento de memórias, que são confundidos com os próprios
eventos observados. Ainda assim, coisas e eventos são tudo que qualquer um em
qualquer lugar já observou ou pode observar. Constructo científicos devem ter referentes
em eventos concretos, eventos com coordenadas espaço-tempo. Quando os
investigadores testam hipóteses e teorias, que são afirmações sobre como as coisas e os
eventos podem interagir uns com os outros, eles estão na verdade testando os eventos
que os constructos predizem.

Constructos Circulares
Todos os constructos muito comuns se tornam circulares. Barber (1981) apontou
que a hipnose foi tipicamente definida por um estado de transe: Nós sabemos que alguém
está hipnotizado por ele ou ela está em transe. Então nós explicamos o comportamento
hipnótico da pessoa através do transe. Em outras palavras, a definição de hipnose como
um estado de transe não é independente do que o transe deveria explicar. Barber
descartou o constructo de transe completamente e descreveu a hipnose como uma
imaginação dirigida que é continua com outros comportamentos com os quais estamos
familiarizados. Um entendimento da hipnose, ele argumentou, não requer um constructo
hipotético como o transe. Distinguindo o constructo do evento ele estava apto a
desenvolver um entendimento da hipnose que levasse em consideração, e fosse uma
descrição amarrada às observações. A circularidade também entra em um constructo
fundamental da psicanálise: Freud originalmente definiu libido como necessidades
sexuais e então começou a usar a libido para explicar comportamentos sexuais.
Similarmente, é circular afirmar que uma criança é distraída por causa de um déficit de
atenção de hiperatividade (TDAH). O termo se refere somente ao interesse da criança por
algo além daquilo que o professor quer ensinar (como no constructo motivação acima) e
os outros comportamentos que as vezes acompanham esse. McHugh (1999) apontou
para a circularidade em categorias diagnosticas como dissociação, estresse pós-
traumático, personalidade múltipla, e déficit de atenção. Um exemplo de dissociação: “Por
que eu não lembro da primeira série?/ Por que você dissociou sua memória./ Como você
sabe disso?/ Por que você não se lembra da primeira série” (p. 36).
Assim como outros exemplos de constructos circulares, há mais de 30 anos Ebel
(1974) apontou para a inteligência, a motivação, e a criatividade. Nós escutamos que, por
que uma pessoa apresenta alguns comportamentos ela é inteligente, e nós sabemos que
ela é inteligente por que ela se comporta daquela maneira. Ou, nós escutamos que um
indivíduo trabalha duro por que ele é motivado, e nós sabemos que ele é motivado por
que trabalha duro. Ebel comparou esses constructos explicativos com três ninfas
(“dríades”) e outros poderes animistas de caçadores. O título de seu artigo, “E as Dríades
Ainda Persistem,” indica sua tese de que nós ainda não expurgamos essas explicações
animistas da psicologia. Três décadas depois nós ainda não o fizemos. Elas persistem
como inteligência, traços de personalidade, libido, processamento, e outros. Nós ainda
nos referimos a várias inteligências, motivação, e criatividade como se fossem coisas com
alguma quantidade. Constructos como inteligência são importantes, mas deveriam, ele
argumenta, ser limitados a uma indicação de relações funcionais; para essas relações
existe tudo o mais que explicações podem ser (veja também Schlinger, 2003). Kantor
(1983) afirmou que constructos explicativos são fundamentalmente descritivos. Eles são
formas analíticas de relacionar coisas e eventos. Eles ocorrem quando uma descrição
funcional é integrada com outra que já foi funcionalmente relacionada com outras mais.
Para além disso, Ebel notou que nós não deveríamos permitir que a complexidade de
nosso objeto de interesse
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nos impedisse de reconhecer nossas dríades pelo que elas são — descrições
parciais mascaradas de explicações causais. Isso não pode prevenir nosso
entendimento do quão inúteis elas são em nossa busca para entender o
fenômeno comportamental. Fiquemos atentos às suas pretensões enganosas.
Façamos da ciência comportamental, limitada e imperfeita como ela é, inabitável
para elas. Elas só podem enfraquecê-la. (p. 491)

Os Constructos de Mente e Consciência


Em suas várias encarnações a mente é o maior constructos na psicologia. Não é
um evento observado mas deriva de uma longa tradição cultural (Smith, 1993b). Se
usamos a mente para nos referirmos diretamente a eventos como pensar, saber,
discriminar, e imaginar - um mero substituto para esses eventos específicos - ela pode ser
um constructo útil, desde que reconheçamos que ela não é esse conjunto de eventos, e
também não os causa. Se ela é considerada uma força causal separada e inobservável
intervindo entre o mundo e o corpo, então ela não atende aos critérios para que seja um
constructo científico. Ao invés disso, é uma repaginação dos velhos constructos
teleológicos de psiquê e alma - uma coisa, processo, agente ou poder que se torna um
constructo reificado. A declaração a seguir, feita por Simon (1992) ilustra as
consequências da reificação assim como o erro de categoria de Freeman (2001): “A
mente humana é um sistema adaptativo. Ela escolhe os comportamentos à luz de seus
objetivos, e como apropriados para o contextos particular em que está operando” (p. 156).
O autor transformou o constructo em uma coisa, e o deu poderes autonômicos. Ele
começou com mente como um constructo e a usou para explicar os comportamentos que
ele observou. É ao mesmo tempo, reificado e circular. Oakley (2004) designou a
esperança e o desespero como funções da mente que por sua vez é uma função do
cérebro, assim, usando o cérebro como um constructo causal ao invés de como uma
condição necessária, mas não suficiente; isto é, ele o usou como um determinante ao
invés de um participante no evento. Ele assume completamente uma interação cartesiana
entre mente e corpo: “Quando uma experiência é psicológica, não física, ela ocorre toda
na mente” (p. 32). Na revisão de Bennett e Hacker (2001) dos estudos em neurociência e
na interpretação desses estudos eles concluem

as relações causais entre o cérebro e o corpo, e o conceito geral da relação


entre o ‘interno’ e o ‘externo’ que foi consagrado nos soldados mais ou menos
intactos do pensamento dualista clássico, o cérebro sendo concebido para
preencher muito da mesma função da mente Cartesiana. (p. 540)

Em uma tentativa de definir consciência, Sutherland (1996) a descreveu como um


“fenômeno esquivo”; e, por que ela não tinha nenhum referente concreto, ele concluiu que
“Nada que valha a pena ser lido foi escrito sobre ela” (p. 95). A propriedade esquiva da
consciência está na confusão de que ela é um “fenômeno”3 ao invés de reconhecer que
ela é um constructo. Reese (2001) notou que depois de um século de esforços nós não
estamos mais próximos de uma definição satisfatória do que está estávamos antes. Isso
ocorre pois todos esses esforços começam com a palavra e assumem que deve existi
algo a que essa palavra corresponda. Revertendo isso, e começando com eventos
observáveis, seria possível ter um termo, um constructo, que se referisse a tais eventos.
As vezes a consciência parece ser o mesmo que a mente, e outras vezes o autor
não deixa claro se ele ou ela está usando duas palavras para se referir à mesma coisa ou
a coisas diferentes. Em um período de um pouco mais de 50 anos se pode encontrar uma
lista de diferentes significados de consciência que poderiam muito bem ser aplicados à

3Isso assume que o autor quer dizer (a) uma coisa ou evento ao invés de (b) O Kantiano objeto de
percepção mentalmente representado como distinto da coisa-em-si. Se ele se refere ao segundo, está além
da paleta da investigação e permanecerá para sempre desconhecido.
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mente (e.g., Chapin, 1985; English e English, 1958; Natsoulas, 1978, 1983; Reber e
Reber, 2001; Wolman, 1989), mas a lista oferece pouco progresso na distinção entre os
dois, indubitavelmente por que eles são meras palavras sem qualquer referente concreto.
Em uma definição Reber e Reber (2001) apresentaram a consciência como “um domínio
da mente que contém sensações, percepções e memórias das quais alguém está
momentaneamente consciente, isto é, os aspectos da vida mental presente aos quais
alguém está atendendo” (p. 147). Apesar da confusão com a mente, a definição dá
alguma atenção ao concreto “atender” mas está redigida em um quadro de constructos
tradicionais e é até mesmo considerada um contêiner. Assim como a definição de Reber e
Reber sugere, a consciência parece ser usada no contexto de atender ou perceber um
objeto. Se assim for, o que é a consciência separada da cor, odor, forma, significado
percebido e assim por diante? O que mais é seu referente? A palavra recentemente se
tornou o centro de diversas conferências e de uma efusão de livros (Shapiro, 1997).
Raramente qualquer um desses a reconhece como um constructo (Smith, 1997). Há mais
de um quarto de século Grossberg (1972) notou que o cérebro recebe um “fantasma
residente chamado consciência” (p. 249), e isso não mudou.

Modos de Expressão
As vezes, alguém pode encontrar recomendações para que se refira aos termos
psicológicos como verbos e não substantivos” sentir ao invés de sensação, saber ao invés
de sabedoria, pensar ao invés de pensamento, imaginar o invés de imaginação.
Woodworth (1929) foi um advogado precoce desse procedimento.

Ao invés de “memória,” nós deveríamos dizer “lembrar,” ao invés de


“pensamento,” nós deveríamos dizer “pensar,” ao invés de “sensação,” nós
deveríamos dizer “ver,” “ouvir,” etc. Mas como outros ramos do pensamento, a
psicologia é propensa a transformar verbos em substantivos. Então o que
acontece? Nos esquecemos que nossos nomes são meros substitutos para
verbos e vamos à caça das coisas denotadas por esses nomes; mas essas
coisas não existem, elas são somente as atividades que nós começamos como
ver, lembrar, e assim por diante. Inteligência, consciência, o inconsciente não
são, para ser correto, nomes, nem mesmo adjetivos ou verbos. Ele são
advérbios. O fato é que os indivíduos agem inteligentemente - mais ou menos -
agem conscientemente ou inconscientemente, assim como podem agir
habilidosamente, persistentemente, excitadamente. É uma regra segura então,
ao encontrar qualquer nome psicológico ameaçador, despi-lo sua máscara
linguística, e ver que forma de atividade ela esconde. (p. 82)

Similarmente, White (1939) argumentou que o problema mente-corpo seria


eliminado se nos referíssemos a “mentear” ao invés de “mente”. Essa recomendação para
que se use verbos nos alerta para o fato de que estamos lidando com constructos ao
invés de coisas. E sem dúvida isso ajuda, mas se pode transformar inteligência ou
personalidade em verbos, mesmo sabendo-se que eles só podem se referir a algum
padrão de ações para o qual o rótulo é uma forma conveniente de referência. Além disso,
mesmo a forma de verbo falha em indicar que a ação é na verdade uma interação; isto é,
quando nós pensamos, nós pensamos sobre algo; quando nós sentimos, nós sentimos
algo; quando nós falamos, nós falamos sobre alguma coisa. Apesar disso, substituir
nomes por verbos sempre que isso for possível pode ajudar a evitar a reificação.
Considere a afirmação de Kosslyn (1995): “As pessoas experimentam imagens
visuais mentais” (p. 6). As pessoas experimentam imagens ou elas imaginam? O primeiro
se refere ao constructo e o segundo ao evento. A premissa é bem diferente entre os dois:
a filosofia dualista tradicional ou a confiança em observações, respectivamente. O
primeiro pode olhar primariamente para os achados sobre imagens do cérebro para
explicar o comportamento, enquanto o segundo pode bem incluir a atividade cerebral
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como uma condição necessária, mas também olha para a historia de interações do
organismo e para a função do contexto no qual elas ocorrem (Smith, 2006). Outros modos
de expressão podem invocar tanto um dualismo mente-corpo como referir-se à pessoa
como um todo, ou ao comportamento de uma pessoa. Por exemplo, é necessária uma
mente esperta para se solucionar um problema, ou uma pessoa se comportando de forma
altamente inteligente? A personalidade histriônica que causa problemas ou a pessoa se
comporta de forma inapropriada? O roteirista usa sua imaginação ou ele escreve
imaginativamente? Em resumo, nós damos crédito à pessoa ou nós invocamos um
constructo impessoal para conduzir a ação? Nós começamos com um constructo ou com
um evento observado? Note o caráter impessoal e autônomo da mente na passagem de
Simon (1992) que pioneiramente usou analogias com o computador na psicologia
cognitiva: “Ela [a mente] escolhe comportamentos à luz de seus objetivos, e como
apropriados para o contextos particular em que está operando … ela pode aprender” (p.
156). Ainda, “A mente humana é um sistema adaptativo. Ela escolhe comportamentos à
luz de seus objetivos, e como apropriados para o contextos particular em que está
operando” (p. 156). O autor continuou a tratar o constructo, que ele aparentemente não
reconhece como tal, como uma coisa com poderes autonômicos. Ele começou com a
mente como um constructo e não somente impôs ela sobre o evento de escolher, em um
caso clássico de circularidade, mas também à usou para explicar o comportamento que
ele observou.

Critérios Propostos para Constructos


A lista de critérios a seguir para o uso de constructos é consistente com os
argumentos apresentados aqui e aqueles avançados por Kantor (1957, 1978, 1981) e
suplementa estes. Eles são propostos como um passo essencial para se atingir um uso
mais científico dos constructos.
• Distinguir cuidadosamente entre os constructos de todos os tipos - tais como
descritivos, explicativos, e manipulativos - e os eventos originais.
• Questionar todos os constructos derivados de fontes tradicionais, culturais e
filosóficas.
• Começar todas as investigações com observações das quais os constructos podem
ser derivados; evite começar com constructos e a interpretar os resultados nos
termos desses constructos.
• Quando as formas de se obter uma informação crítica estão faltando, certifique-se
de que os constructos têm potencial para serem observados.
• Note que somente os constructos derivados de eventos observados podem ter
validade.
• Mantenha os constructos interpretativos em consonância com os eventos
observados; não os baseie em outros constructos, como em analogias.
• Pegue uma amostra adequada de eventos de formas que as relações entre eventos
possam ser observadas. Isso significa examinar uma matriz de eventos mais ampla
do que genes, neurônios, reforçamentos, condições de estímulos, histórias de
estímulos e respostas, ou processos sociais. Amostragem adequada significa levar
em consideração o contexto e seus componentes relevantes como na pesquisa em
eventos set (Brown, Bryson-Brockman, e Fox, 1986).
• Ancorar todos os constructos como inteligência, motivação, personalidade, e
atitudes em referentes observáveis e evitar dar a eles existência independente como
coisas ou causas.
• Evitar transformar condições de participação ou aquelas que podem ser necessárias
para o evento em condições determinantes. Por exemplo, o cérebro é uma condição
necessária para todos os eventos psicológicos mas ele é só uma das várias
condições necessárias que provocam o evento.
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• Evite adotar inobserváveis ou analogias para o que é desconhecido e entenda a


ignorância científica como uma virtude.
• Use somente os constructos que são observáveis em princípio, uma vez que é
somente através da observação que a ciência é possível. O processamento cerebral
de informações não é passível de observação. Embora eventos neurais como
impulsos eletromagnéticos sejam observáveis, tais constructos como
armazenamento, recuperação, e consciência não são, enquanto que atender,
discriminar, aprender, e assim por diante são ações concretas que podem ser
observadas.

Uma Abordagem Baseada-em-Constructos e uma Abordagem Baseada-em-Eventos em


Contraste
No trabalho que Gander (2003) considera o manifesto da psicologia evolutiva,
Barkow, Cosmides, e Tobby (1992) afirmam que o cérebro recebe inputs ambientais dos
órgãos do sentido, faz computações complexas, e produz tanto representações na mente
quanto outputs comportamentais. De acordo com Pinker (1997), esses processos
mecânicos de processamento de informação reduzem a psicologia a operações mentais e
algoritmos cerebrais que são inatos. A identificação de tais algoritmos dão um rigor
científico para uma abordagem da mente. Eles nos possibilitam especificar as formas
como os mecanismos da mente evoluíram através da seleção natural no nosso ancestral
caçador-coletor, e persistem através das gerações até hoje. Esses mecanismos,
chamados de “módulos mentais”, provêem uma seleção inata de parceiros, práticas de
criação de filhos, reconhecimento facial, e dúzias de outros que já foram propostos. Eles
são padrões para todas as mentes humanas e podem ser estudados através de
experimentos de laboratório ou comparações entre culturas.
Como exemplo de um módulo, os pais que são capazes de fazer os melhores
investimentos em seus filhos passam esse traço adiante para suas crianças. O módulo
possibilita cada pai ou mãe calcular inconscientemente o quanto deve investir em cada
criança, dependendo de sua saúde, força, idade e sexo. A existência desse módulo é
defendida, de acordo com seus proponentes, pelo fato que através de diversas culturas,
pais mais bem sucedidos economicamente investem mais em seus filhos do que em suas
filhas (Gander, 2003). Isso significa que nossos ancestrais caçadores-coletores fizeram o
mesmo de acordo com sua condição na tribo: Machos de status elevado seriam mais
agressivos na manutenção desse status e iriam garantir o bem estar de seus filhos
machos, garantindo assim que o gene fosse passado adiante e o status mantido através
das gerações. A única referência a eventos é aquela feita à correlação entre o status
socioeconômico e o investimento de recursos de acordo com o sexo de cada criança. O
psicólogo evolucionista pressupõe o constructo tradicional de uma mente humana, e
adiciona que ele evoluiu através de seleção natural e possibilitou a sobrevivência da
espécie. Para isso são adicionados ainda constructos análogos à computação,
processamento de informação, e algoritmos, aos quais as notas de Gander (2003) dão
uma aparência de ciência moderna. Os psicólogos evolucionistas aparentemente não
reconhecem os constructos como tais e os tratam como eventos. Então eles usam esses
constructos de forma circular para explicar a correlação observada para prover uma teoria
aparentemente precisa e científica dos eventos.
Psicólogos evolucionistas são às vezes acusados de bolar histórias “assim mesmo”
(desde histórias populares até as histórias de Rudyard Kippling) por exemplo como as
girafas vieram a ter um pescoço longo ou os leopardos pintas. Se eles começaram com
estudos entre-culturas ou achados de laboratório e então incluíram outros
comportamentos em tais eventos concretos tais como comportamento cultural (funções
compartilhadas de estímulos: Kantor, 1982) e sua evolução, e históricos interacionais de
desenvolvimento de crianças incluíndo fatores biológicos e comportamentais, as
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acusações podem ser evitadas. Eles podem também desenvolver teorias cujo status
científico está na ligação próxima entre esses constructos e os eventos observados, ao
invés de usar constructos em forma de analogia emprestados de outras ciências. Mas
isso seria incompatível com ignorar o extensivo corpo de conhecimento, o qual, como
Lickliter (2006) notou, mostra que o comportamento se desenvolve em muitos níveis.
Seria também incompatível com a afirmação desses psicólogos de que o histórico de
interações e o contexto não tem relevância exceto como gatilhos para processos
computacionais inatos. Somente o desdobramento putativo dos traços da genética
interessa a eles. Então, os constructos impedem as correções que uma abordagem
baseada-em-eventos poderia prover. É preciso mencionar, entretanto, que alguns
psicólogos evolucionistas, especialmente aqueles que se auto intitulam “ecologistas
comportamentais de humanos” (e.g., Barrett, Dunbar e Lycett, 2002) incorporam uma
maior quantidade de evidências mesmo que ainda mantenham uma forte ênfase no
reducionismo biológico e no pré determinismo. Por exemplo, em um estudo feito por
Richerson e Boyd (1998) no qual membros de um grupo simularam “ultra-sociabilidade”
se comportando de forma altruística ao invés de forma egoísta em relação a outros
indivíduos do mesmo grupo, fortalecendo assim a convivência dentro do grupo, Barrett et.
al. (2002) concluiu que “a impressionante coordenação, cooperação e divisão do trabalho
observada em sociedades ocidentais modernas pode ser rastreada em instintos sociais
anciãos combinados com instituições culturais modernas” (p. 90).
Uma abordagem oposta, baseada-em-eventos, em conformidade com os critérios,
e portanto em contraste marcante com a psicologia evolucionista, é o trabalho de Baxter
(1994; 2006) sobre problemas de aprendizagem em escolas elementares. Ele nota cinco
deficiências na forma como as escolas lidam com esses problemas: (a) o indivíduo é
diagnosticado fora da situação na qual o problema ocorre, geralmente no escritório do
psicólogo da escola através de algum teste padronizado que produz um constructo como
percepção reversa ou desorientação, aprendizagem atrasada, reversão sequencial de
memória, ou dislexia. (b) O especialista que faz a avaliação normalmente não está
familiarizado com as interações que ocorrem na situação de aprendizagem. (c) A situação
é largamente ignorada enquanto ênfase é dada para as deficiências do aprendiz. Em
quase todos os casos é a criança, e não o método instrucional, que é imputável. (d) Os
diagnósticos são baseados em médias grupais que não dizem quase nada sobre os
indivíduos. (e) A modificação da situação raramente é recomendada. Se o atraso na
aprendizagem é apontado como causa, esperar é o remédio. Se a espera não produz
melhorias, não ocorrem ações posteriores.
A abordagem de Baxter é a da “aprendizagem direta”. No caso de uma criança que
troca números, os componentes dos números são ensinados à criança, então ela pratica
algumas vezes até que a reversão não ocorra mais. No ensino de números o professor
pode mostrar que os números de 1 a 9 podem ser divididos em três grupos de acordo
com a direção na qual as linhas começam a ser desenhadas. Agrupando os membros de
cada grupo juntos, e ensinando cada grupo com um intervalo de tempo entre eles,
reversões e outras confusões são minimizadas. Podemos lidar de forma similar com
outros problemas observando os comportamentos envolvidos no contexto e usando
métodos de ensino que vão de acordo com essas observações. O sucesso dessa
abordagem baseada-em-eventos é defendida por um estudo exaustivo (Stebbins, St.
Pierre, Proper, Anderson, e Cerva, 1977) e pelos estudos de follow-up de Adams e
Engelmann (1996) os quais foram quase que totalmente ignorados (Watkins, 1988). De
acordo com Baxter (1994) o ensino efetivo requer “comunicações instrutivas, em
acompanhamento com outras variáveis em interação que definem o evento, tais como as
presentes na interação entre o professor e o aprendiz, no ambiente físico, e no
histórico” (p. 37). Ele descartou os constructos e procedimentos institucionalizados na
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educação elementar, se virou para os eventos como guias, e abriu a porta para
resultados mais promissores.
Similarmente, uma revisão de pesquisas que aderem aos critérios acima e utilizam
diferentes metodologias, demonstra que ao mover-se além da mente e da consciência e
seus muitos derivados tal qual a biologia como um produtor e contêiner de eventos
psicológicos, o caminho está aberto para “se descobrir relações independentes como elas
ocorrem na natureza e desenvolver constructos interpretativos que estejam de acordo
com as relações observadas” (Smith, 2006, p. 132).

Conclusões
Mentalistas e não mentalistas usam abordagens amplamente diferentes dos
eventos e dos constructos. A história mostra que é primariamente o constructo dualista de
mente-corpo, seus derivados, e as reações a ele que criaram na psicologia desacordos
tão vastos sobre o que compreende seu objeto de estudo (Kantor, 1963-1969; Smith,
1993a, 2001). Esses desacordos começaram a emergir após a idade média quando a
alma se tornou um tópico cada vez mais problemático, tanto lógico quando
empiricamente. Alternativas a esses constructos e ao reducionismo biológico estão
disponíveis desde os tempos de Aristóteles como numerosos escritores mostraram (e.g.,
Everson, 1997; Kantor, 1963-1969; Randall, 1960, Shute, 1944; Smith, 1993a), mas
quando os psicólogos não consideram as alternativas e permitem que as premissas
culturais do passado determinem o caráter das abordagens, então os problemas surgem.
Poucos psicólogos, aparentemente, entendem a distinção entre constructos e
eventos e como usá-los propriamente no trabalho científico. Como resultado, muito da
psicologia é baseado-em-constructos, e há pouco acordo sobre esses constructos, uma
vez que eles não são baseados em eventos. Esse artigo focou primariamente na distinção
entre constructos e eventos afim de dar uma visibilidade intensificada a essa distinção.
Um melhor entendimento da distinção e o uso apropriado dos constructos poderia abrir o
caminho em direção a uma plataforma científica para toda a psicologia, que, sendo
baseada-em-eventos, poderia unir seus fragmentos e facilitar seu avanço científico. Esse
artigo busca contribuir em direção a esse objetivo.

Referências no original em inglês

LINK: http://opensiuc.lib.siu.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1101&context=tpr