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5ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS CÍVEIS e CRIMINAIS DA

BAHIA

PROCESSO Nº 0023661-39.2013.8.05.0001
CLASSE: RECURSO INOMINADO
RECORRENTE: JEFERSON SANTOS GUIMARÃES
RECORRIDOS: ADMINISTRADORA CONSÓRCIO NACIONAL HONDA LTDA. E
SALVADOR MOTOS LTDA. (NOVO TEMPO)
JUIZ PROLATOR: JOÃO BATISTA ALCÂNTARA FILHO
JUIZ RELATOR: ROSALVO AUGUSTO VIEIRA DA SILVA

EMENTA

RECURSO INOMINADO. CONSÓRCIO. VENDA SIMULADA DE


VEÍCULO PELO SISTEMA DE CONSÓRCIO, REALIZADA POR
PREPOSTO DA CONCESSIONÁRIA, CAUSANDO PREJUÍZOS
MATERIAIS E MORAIS AO CONSUMIDOR. ATUAÇÃO DAS
EMPRESAS EM REGIME DE SOLIDARIEDADE. SENTENÇA
QUE EXTINGUIU O FEITO SEM JULGAMENTO DE MÉRITO.
PROVIMENTO PARCIAL DO RECURSO DO CONSUMIDOR
PARA ORDENAR A DEVOLUÇÃO DOS VALORES POR ELE
PAGOS, CONDENANDO, AINDA, AS EMPRESAS ENVOLVIDAS
AO PAGAMENTO DE INDENIZAÇÃO PELOS DANOS MORAIS
CONFIGURADOS.

Dispensado o relatório nos termos do artigo 46 da Lei n.º 9.099/95.

Circunscrevendo a lide e a discussão recursal para efeito de registro,


saliento que o Recorrente, JEFERSON SANTOS GUIMARÃES, pretende a reforma da
sentença lançada nos autos que reconhecendo a incidência da coisa julgada extinguiu o feito
sem julgamento de mérito, buscando a condenação dos Recorridos, ADMINISTRADORA
CONSÓRCIO NACIONAL HONDA LTDA. E SALVADOR MOTOS LTDA. (NOVO
TEMPO), a restituírem a quantia pertinente ao consórcio que aderiu para compra da
motocicleta descrita no processo, cuja contratação se deu mediante simulação realizada por
preposto da segunda empresa, condenando-as, ainda, ao pagamento de indenização por
danos morais.

Presentes as condições de admissibilidade do recurso, conheço-o,


apresentando voto com a fundamentação aqui expressa, o qual – rogando a incidência do art.
515, § 3º, do CPC, porquanto configuradas as condições necessárias à apreciação de todos os
aspectos fáticos e jurídicos apresentados pelas partes nas respectivas peças trazidas ao
processo, especialmente às relacionadas ao mérito da causa – submeto aos demais membros
desta Egrégia Turma.

VOTO

Nos limites traçados pela lide, onde a parte autora precisou os fatos
salientando o regime de solidariedade entre as empresas, as Recorridas têm inequívoca
legitimidade para atuarem no polo passivo da ação discutida. Se elas devem ou não ser
responsabilizadas pelo evento debatido, ou se a situação provocou ou não os prejuízos
indicados pela parte recorrente, são questões que exigem o exame do cerne do litígio
instaurado, não podendo, assim, o processo ser extinto sem sua resolução.

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No mérito, assiste razão ao Recorrente, senão vejamos:

Restou provado que preposto da Recorrida, SALVADOR MOTOS LTDA.


(NOVO TEMPO), iludiu o Recorrente, simulando a contratação de consórcio para compra
da motocicleta descrita no processo, levando-o a pagar a quantia de R$ 2.626,88 (dois mil,
seiscentos e vinte e seis reais e oitenta e oito centavos), cujo bem não foi entregue, já que,
de fato, a contratação não houve.

Como o golpe aplicado ao Recorrente foi perpetrado por seu preposto, a


Recorrida, SALVADOR MOTOS LTDA. (NOVO TEMPO), deve assumir todas as
consequências da atuação ilícita, nos precisos termos do art. 34 do CDC, que reza: “O
fornecedor do produto ou serviço é solidariamente responsável pelos atos de seus prepostos
ou representantes autônomos.”

Por outro lado, face à autuação conjunta das empresas recorridas voltado
ao lucro, incide entre elas a solidariedade também preconizada no CDC, que iguala todos os
que participam da mesma cadeia de fornecedores, face aos riscos inerentes as suas atividades
econômicas, sendo todos responsáveis perante o consumidor, independentemente do grau de
culpa e de atuação no fornecimento do serviço ou produto, podendo ser acionados conjunta
ou individualmente, nos termos do parágrafo único, de seu art. 7º, hipótese caracterizada nos
autos, onde a simulação da venda do produto discutido envolvia o consórcio administrado
pela Recorrida, ADMINISTRADORA CONSÓRCIO NACIONAL HONDA LTDA.,
negociado por seu representante comercial, SALVADOR MOTOS LTDA. (NOVO
TEMPO), conforme documentos coligidos, interligando as atuações, cabendo-lhes, assim, a
responsabilidade pelo resultado lesivo.

Assim, provado que o Recorrente foi enganado em sua boa fé, pagando por
negócio não concretizado, mostra-se necessária a ordem de devolução do valor total pago.

De igual modo, devem as Recorridas responder pelos inegáveis prejuízos


morais suportados pelo Recorrente.

Encontrando previsão no sistema geral de proteção ao consumidor inserto


no art. 6º, inciso VI, do CDC, com recepção no art. 5º, inciso X, da Constituição Federal, e
repercussão no art. 186, do Código Civil, o dano eminentemente moral, sem consequência
patrimonial, não há como ser provado, nem se investiga a respeito do animus do ofensor.
Consistindo em lesão de bem personalíssimo, de caráter subjetivo, satisfaz-se a ordem
jurídica com a demonstração do fato que o ensejou. Ele existe simplesmente pela conduta
ofensiva, sendo dela presumido, tornando prescindível a demonstração do prejuízo concreto.

Com isso, uma vez constatada a conduta lesiva e definida objetivamente


pelo julgador, pela experiência comum, a repercussão negativa na esfera do lesado, surge a
obrigação de reparar o dano moral.

Na situação em exame, o Recorrente não precisava fazer prova da


ocorrência efetiva dos danos morais relacionados aos fatos apurados. Os danos dessa
natureza se presumem pelo engodo de que foi vítima, levando-o a acreditar que tinha
adquirido o bem que almejava, não havendo como negar que ele se desgastou
emocionalmente, sofrendo frustração pela venda simulada, angústia e aborrecimento na
busca de uma solução, não obtendo êxito sem a intervenção judicial, tendo a esfera íntima
agredida ante a atividade ilícita dos fornecedores envolvidos que, repita-se, respondem
solidariamente pelo evento.

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Com isso, atendendo às peculiaridades do caso e à míngua de outros dados
tangíveis que pudessem auxiliar na justa quantificação, entendo que emerge a quantia de R$
5.000,00 (cinco mil reais), como o valor próximo do justo, o qual se mostra capaz de
compensar, indiretamente e na medida dos fatos apurados, os sofrimentos e desgastes
emocionais advindos ao Recorrente e trazer a punição suficiente aos agentes causadores, sem
centrar os olhos apenas na inegável estabilidade econômica das fornecedoras.

Assim sendo, ante ao exposto, voto no sentido de CONHECER e DAR


PROVIMENTO ao recurso interposto pela parte recorrente, JEFERSON SANTOS
GUIMARÃES, para, reformando integralmente a sentença hostilizada, condenar as
Recorridas, ADMINISTRADORA CONSÓRCIO NACIONAL HONDA LTDA. E
SALVADOR MOTOS LTDA. (NOVO TEMPO), solidariamente, ao pagamento de
indenização a título dos danos morais, aqui arbitrada na importância de R$ 5.000,00 (cinco
mil reais), acrescida de juros, contados da citação e correção monetária a partir do
julgamento do recurso, ordenando, ainda, a restituição, na forma simples, da quantia de R$
2.626,88 (dois mil, seiscentos e vinte e seis reais e oitenta e oito centavos) paga
indevidamente pelo consumidor.

Não se destinando a regra prevista no art. 55, caput, da Lei 9.099/95, ao


recorrido, mas somente ao recorrente, integralmente vencido, deixo de condenar a
Recorrida ao pagamento das custas e honorários advocatícios.

Salvador, Sala das Sessões, 30 de junho de 2015.

Rosalvo Augusto Vieira da Silva


Juiz Relator

COJE – COORDENAÇÃO DOS JUIZADOS ESPECIAIS


TURMAS RECURSAIS CÍVEIS E CRIMINAIS

PROCESSO Nº 0023661-39.2013.8.05.0001
CLASSE: RECURSO INOMINADO
RECORRENTE: JEFERSON SANTOS GUIMARÃES
RECORRIDOS: ADMINISTRADORA CONSÓRCIO NACIONAL HONDA LTDA. E
SALVADOR MOTOS LTDA. (NOVO TEMPO)
JUIZ PROLATOR: JOÃO BATISTA ALCÂNTARA FILHO
JUIZ RELATOR: ROSALVO AUGUSTO VIEIRA DA SILVA

EMENTA

RECURSO INOMINADO. CONSÓRCIO. VENDA SIMULADA DE


VEÍCULO PELO SISTEMA DE CONSÓRCIO, REALIZADA POR
PREPOSTO DA CONCESSIONÁRIA, CAUSANDO PREJUÍZOS
MATERIAIS E MORAIS AO CONSUMIDOR. ATUAÇÃO DAS
EMPRESAS EM REGIME DE SOLIDARIEDADE. SENTENÇA
QUE EXTINGUIU O FEITO SEM JULGAMENTO DE MÉRITO.
PROVIMENTO PARCIAL DO RECURSO DO CONSUMIDOR
PARA ORDENAR A DEVOLUÇÃO DOS VALORES POR ELE
PAGOS, CONDENANDO, AINDA, AS EMPRESAS ENVOLVIDAS
AO PAGAMENTO DE INDENIZAÇÃO PELOS DANOS MORAIS
CONFIGURADOS.

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ACÓRDÃO

Realizado julgamento do Recurso do processo acima epigrafado, a


QUINTA TURMA, composta dos Juízes de Direito, WALTER AMÉRICO CALDAS,
EDSON PEREIRA FILHO e ROSALVO AUGUSTO VIEIRA DA SILVA decidiu, à
unanimidade de votos, CONHECER e DAR PROVIMENTO ao recurso interposto pela
parte recorrente, JEFERSON SANTOS GUIMARÃES, para, reformando integralmente a
sentença hostilizada, condenar as Recorridas, ADMINISTRADORA CONSÓRCIO
NACIONAL HONDA LTDA. E SALVADOR MOTOS LTDA. (NOVO TEMPO),
solidariamente, ao pagamento de indenização a título dos danos morais, aqui arbitrada na
importância de R$ 5.000,00 (cinco mil reais), acrescida de juros, contados da citação e
correção monetária a partir do julgamento do recurso, ordenando, ainda, a restituição, na
forma simples, da quantia de R$ 2.626,88 (dois mil, seiscentos e vinte e seis reais e oitenta
e oito centavos) paga indevidamente pelo consumidor. Não se destinando a regra prevista no
art. 55, caput, da Lei 9.099/95, ao recorrido, mas somente ao recorrente, integralmente
vencido, deixo de condenar a Recorrida ao pagamento das custas e honorários advocatícios.

Salvador, Sala das Sessões, 30 de junho de 2015.

JUIZ WALTER AMÉRICO CALDAS


Presidente

JUIZ ROSALVO AUGUSTO VIEIRA DA SILVA


Relator