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XXV JORNADA DO CURSO DE PSICANÁLISE DO IPSM-MG

8:30 – Abertura:
Maria José Gontijo Salum (Diretora geral do IPSM-MG)

9:00 – 10:30: MESA 1


Questões sobre a psicose
Coordenadora: Katia Mariás
Debatedora: Paula Pimenta
1. Primeau, Joyce, Wolfson e as falas impostas – Giselle Gonçalves Mattos
Moreira
2. Observações sobre o conceito de significante e a noção de letra nas psicoses na
década de 1950 – José Marcos Resende Oliveira
3. Da psicose extraordinária à ordinária e os impasses clínicos no caso de João –
Cecília Velloso Gomes Batista

10:30 – 12:00: MESA 2


A clínica das neuroses e seus impasses
Coordenadora: Ana Maria Lopes
Debatedora: Samyra Assad
1. O desejo na neurose obsessiva: um estudo de psicanálise – Ronia Cristina
Gonçalves Soares
2. O que a histérica quer saber? – Graciana Guimarães
3. A histeria e os Nomes do Pai – Daniela Gontijo de Souza

12:00 – 13:00 – BRUNCH

13:00 – 14:30: MESA 3


O discurso analítico
Coordenador: Fernando Casula
Debatedora: Cristiana Pittella
1. Do sintoma ao que resta no final de uma análise – Rodrigo Almeida
2. De um real ao Outro: o corpo e seus impasses na clínica contemporânea, caso
G – Mariana Magalhães Miranda
3. A janela da Escuta: atendimento psicanalítico de adolescentes em Instituições
de Saúde – Thaís de Campos Meneses.

14:30 – Encerramento – Graciela Bessa (Diretora de Ensino do IPSM-MG)


MESA 1: QUESTÕES SOBRE A PSICOSE

Coordenadora: Kátia Mariás

Debatedora: Paula Pimenta

Primeau, Joyce, Wolfson e as falas impostas


Giselle Gonçalves Mattos Moreira

Lacan, em seu Seminário 23: o sinthoma, afirma que o doente vai mais
longe que um homem saudável no que concerne ao testemunho da incidência do
parasitismo da fala. E se questiona: “Como é que todos nós não sentimos que as
falas das quais dependemos são, de algum modo, impostas?” (LACAN, 1975-76,
p.92) Essa questão surge em seu seminário logo após uma apresentação de
paciente conduzida pelo próprio Lacan no hospital Sainte-Anne, o paciente em
questão ficou conhecido por Gerard Primeau. Ao fim da entrevista, Lacan diz aos
ouvintes que eles acabavam de testemunhar uma “psicose lacaniana” e chama a
atenção para a experiência que o próprio paciente nomeou por falas impostas.
Entretanto, o agravante - que deixa Lacan pessimista em relação ao caso - é o
destino dado a essa imposição da fala: Primeau em um segundo tempo formula
frases reflexivas a partir das falas impostas, mas essas reflexões escapavam de seu
controle e podiam ser registradas por outras pessoas. Primeau não podia ajustar
sua própria mente e seus mais íntimos pensamentos estavam a descoberto, ele se
diz um telepata emissor, e essa construção o leva ao pior.

O Automatismo mental
Gaëtan Gatian De Clérambault, psiquiatra francês a quem Lacan designa
como seu único mestre em psiquiatria, em seu conhecido artigo “Automatismo
mental e cisão do Eu” (1920) desenvolve a noção de Automatismo mental, a partir
do relato de três casos de sua clínica. Na sua concepção, esse fenômeno teria uma
primazia em relação à formação do delírio, ou seja, a construção delirante seria
uma reação (interpretativa ou imaginativa) do paciente ao movimento automático
das palavras. Portanto, para Clérambault, seria fundamental fazer uma distinção
entre “o fato primordial, isto é, o automatismo mental” e “a construção intelectual
secundária, a única a merecer o nome de delírio de perseguição” (CLÉRAMBAULT,
1920, p.166). Nesse sentido, diferentes elaborações ou concatenações podem
surgir como tentativas de explicação desse mesmo “material imposto pelo
inconsciente” (idem, p.167), a depender da constituição de cada sujeito.
Nota-se que essa concepção da primazia do Automatismo mental trabalhada
por Clérambault, parece cara à Lacan em sua forma de conceber as repercussões
das falas impostas presentes no caso de Gerard Primeau, como em suas
elaborações advindas dessa apresentação de paciente e desenvolvidas no
Seminário livro 23, o sinthoma: “A questão é antes saber por que um homem dito
normal não percebe que a fala é um parasita, que a fala é uma excrescência, que a
fala é uma forma de câncer pela qual o ser humano é atingido.” (LACAN, 1975-76,
p.92). Lacan insiste em ressaltar o caráter de parasitismo da fala, colocando ênfase
nessa relação da imposição das palavras, que vindas do campo do Outro, atingem o
ser. Portanto, nessa concepção da fala como parasita, o “falasser” seria “em seu
corpo, hospedeiro do uso da palavra” (LAIA, 2001, p.120).
Gerard Primeau testemunha sua experiência com as falas impostas, e - a
pedido de Lacan - dá exemplos de frases que emergem na sua cabeça
desvinculadas de um significado imediato. Nas palavras de Primeau: “Ele vai me
matar o pássaro azul. É um sistema anárquico. É um assassinato político (...) um
“assastinato” político, que é a contração das palavras “assassinato” e “assistência”,
que evoca a noção de assassinato” (LACAN, 1976, p.6). Durante a entrevista, Lacan
retorna a esse ponto - a essa mistura sonora que se dá por um deslizamento entre
assassinato e assistência - ao que G.P. esclarece que essas palavras “emergem”
“espontaneamente” como “explosões”. Ao evocar essa fala de Primeau em seu
seminário, Lacan dirá que vemos muito bem que “o significante se reduz aí ao que
ele é, ao equívoco, a uma torção de voz”. (LACAN, 1975-76, p.92). Mais adiante
G.P. recorre a outro exemplo, ele diz: “’Eles querem governar meu intelecto’ é uma
emergência. ‘Mas a realeza está derrotada’ é uma reflexão” (LACAN, 1976, p.12).
Desse modo, a partir de uma frase imposta, Primeau acrescenta um “mas” que
introduz sua reflexão, numa tentativa de neutralizar a frase anterior.
Essas reflexões poderiam ser uma defesa contra a experiência perturbadora
com as falas impostas, entretanto, Primeau não conseguia mais ajustar sua própria
mente e seus mais íntimos pensamentos estavam a descoberto: ele se diz um
“telepata emissor”. Essa construção o expunha, causando grande “ansiedade”, a
ponto de provocar uma tentativa de suicídio.
Uma reflexão escrita
A partir da experiência de Gerard Primeau com as falas impostas, Lacan
evoca o escritor James Joyce, ao perceber que a relação do escritor com as
palavras também refletia um caráter de imposição: “é difícil não ver que uma certa
relação com a fala lhe é cada vez mais imposta (...), a ponto de ele acabar por
dissolver a própria linguagem.” (LACAN, 1975-76, p.93). Se, por um lado, a defesa
reflexiva de Primeau fracassa, por outro, Lacan localiza que Joyce, no progresso da
sua obra, opera uma reflexão ao nível da escrita:

“Sem dúvida, há aí uma reflexão ao nível da escrita. É por


intermédio da escrita que a fala se decompõe ao se impor como tal, a
saber, em uma deformação acerca da qual permanece ambíguo saber se é
o caso de se livrar do parasita falador (...) ou, ao contrário, de se deixar
invadir por propriedades de ordem essencialmente fonêmica da fala, pela
polifonia da fala.” (LACAN, 1975-76, p.93)

Banhado pelos murmúrios da língua, o ato de Joyce é quebrar, desfigurar as


palavras por intermédio da escrita. E no próprio ato de decomposição, reatar o nó,
produzindo uma amarração sintomática. Como lê Ram Mandil, há “uma dupla
dimensão do sinthoma através desse procedimento da escrita: de uma defesa
frente ao “parasita falador”, mas, ao mesmo tempo, fonte de uma nova satisfação,
de ‘deixar-se invadir ... pela polifonia das palavras’” (MANDIL, 2018)
Deixar-se atravessar por essa língua desmantelada, gozar da desfiguração
das palavras e, por fim, fazer uma tessitura com os pedaços quebrados. Mas, essa
trama vai além da linearidade da história, se aproximando mais de um
encadeamento borromeano, ou como quer Lacan, de um “trançamento de terra e
de ar” (LACAN, 1975-76, p.163). Cada elemento é tomado em sua cardinalidade, é
o que Lacan nota em Finnegans Wake: cada palavra é escrita de forma
“particularíssima”, ainda que o sentido comum se perca.

O Schizo e as línguas
Depois de recolher algumas pistas sobre a experiência com a imposição da
fala em Primeau e Joyce, passemos a Louis Wolfson, escritor norte-americano,
autor do livro Le Schizo et les langues (1970). Wolfson se nomeia, sempre no
impessoal: “o jovem homem esquizofrênico”, “o doente mental”, ou ainda, “ o
estudante de línguas esquizofrênico”. Trata-se, para o autor, de escrever em livro
exatamente o procedimento no qual ele submete a língua, sendo este quase um
empreendimento científico.
Wolfson opta por escrever em francês pelo fato do inglês, sua língua
materna, lhe causar as maiores perturbações. Deleuze, no prefácio que escreve ao
livro Le Schizo et les langues, descreve bem o “procedimento linguístico de
Wolfson”, que vai além de uma simples tradução do inglês para o francês:

“O que o estudante faz é o seguinte: dada uma palavra da língua


materna, encontrar uma palavra estrangeira com sentido similar, mas que
tenha sons ou fonemas comuns (de preferência em francês, alemão, russo
ou hebraico, as quatro línguas principais estudadas pelo autor).”
(DELEUZE, 1970, p. 17).

Como localiza Deleuze, o procedimento de Wolfson consiste em fazer uma


tradução que não privilegia apenas o sentido das palavras, mas que busca
encontrar em outras línguas sons semelhantes, fazendo uma combinação fonética.
Para não precisar de se servir do inglês, Wolfson diz preferir fazer uma língua
“original dele mesmo” (WOLFSON, 1970, p.221).
Do livro Le Schizo et les langues, retiro a descrição de uma situação em que
determinadas palavras são de algum modo impostas ao estudante de línguas.
Trata-se de grandes caracteres vermelhos escritos em inglês: “sore throat”. Esse
enunciado, que acompanha a propaganda de um remédio, se encontrava espalhado
por toda a cidade e atraia involuntariamente os olhos de Wolfson, causando um
estado de estupor. Imediatamente uma antiga lembrança infantil era despertada: o
prelúdio de uma amigdalectomia, em que sua mãe se dirige a uma enfermeira
elogiando sua “baguette mágica”. A obsessão por esse pensamento paralelo fazia
com que seu cérebro se tonasse um órgão oco. Desse modo, a frase “sore throat”
deixava sua mente dominada. Wolfson encontra uma possível saída para essa
perturbação através de seu procedimento linguístico, ele diz:

“Mas finalmente - como por quase todas as outras palavras


inglesas que o chateava ou o angustiava, - o estudante de línguas
esquizofrênico encontra os vocábulos estrangeiros, ou ele se lembra deles,
nos quais ele poderia pensar por obter o grande alívio quando se aborrece
pela expressão sore throat.” (WOLFSON, 1970, p.118).

Aplicando seu procedimento, Wolfson converte sore (dor) nas palavras


alemãs: schmerzhaft, schmerzlich, schmervoll, substituindo o s da palavra inglesa
pelo sch alemão, de forma que o sentido e o som fossem considerados. Ele desliza
essa substituição até chegar em souffrant (francês), passando ainda por palavras
do hebraico, do russo, etc... Desse modo, Wolfson tenta barrar o que ele mesmo
nomeia por “pensamentos parasitas”, recorrendo aos vocábulos estrangeiros e
deformando - a seu modo irônico - a língua inglesa. (WOLFSON, 1970, p.121).
Como localiza Deleuze, o estudante de línguas vive com distanciamento a
conversão da palavra de origem no novo vocábulo estrangeiro, sustentando sempre
um tom protocolar e impessoal, intensificado pela escrita em terceira pessoa: “O
procedimento linguístico gira em falso e não reagrega um processo vital capaz de
produzir uma visão (...). Em Wolfson o procedimento é ele mesmo seu próprio
acontecimento.” (DELEUZE, 1970, p.21). Portanto, o “procedimento linguístico”
seria um fazer, ou mesmo uma ajuda contra a construção delirante e contra a voz
da mãe, “empurrada” sobre sua cabeça através de palavras injuriosas. Podemos
pensar nessa função, mesmo que ele ainda esteja preso, como ressalta Deleuze, às
semelhanças de som e sentido entre as palavras de origem e as palavras
transformadas pelas línguas estrangeiras, faltando-lhe uma sintaxe criadora.
Wolfson diz encontrar um grande prazer no estudo das línguas, assim como
na escrita detalhada de seu procedimento: “Mas, mesmo a sua maneira louca,
senão imbecil, era agradável estudar as línguas!” (WOLFSON, 1970, p.70). Ou
ainda, quando questionado por tamanho trabalho, ele reconhece não receber
nenhum dinheiro por isso, e diz: “Mas eu existo!” (p.192). Por fim, Wolfson localiza
que seu procedimento linguístico - ou nas suas palavras: “o saber ativo, em ato,
em operação” (p.249) - lhe retirava da paralisia que a experiência com as falas
impostas lhe causava. Por meio de seus estudos, ele diz se deparar com o belo, e
mais ainda, com a possibilidade de ‘gozar da vida’.

Três loucuras absolutamente distintas?


A partir das diferentes experiências com o parasitismo da fala - em Primeau,
Joyce e Wolfson - fica evidente como cada um encontra uma solução diferente e
absolutamente própria para esse fato primordial que é o automatismo mental,
descrito desde Clérambault.
Sobre Primeau, temos o registro da entrevista conduzida por Lacan no
hospital Sainte-Anne, diante de um público de analistas e psiquiatras. Durante a
entrevista, Lacan aposta na habilidade do paciente em operar com a ambiguidade
significante, dizendo que ele seria “incontestavelmente um poeta”, entretanto essa
tentativa de nomeação (um poeta) parece não se sustentar e Lacan não localiza um
saber apontado por Primeau, a partir do qual, pudesse regular a perturbadora
experiência com as falas impostas. A tentativa de construir uma defesa reflexiva
frente ao gozo da língua parece fracassar.
Em Joyce, é a partir de sua obra, como de sua biografia, que Lacan percebe
que a relação do escritor com as palavras também refletia esse caráter de
imposição. Se a partir das falas impostas, Primeau faz uma reflexão ao nível do
pensamento, de outra forma, a reflexão de Joyce se dá ao nível da escrita. Se
Joyce encontra um ponto de amarração sintomática - no caso sua obra, essa “coisa
tão particular” - Lacan não diz o mesmo de Primeau. Ainda no Seminário: o
sinthoma, Lacan retoma a relação de Joyce com as epifanias, que é também uma
técnica da escrita joyceana: “É totalmente legível em Joyce que a epifania é o que
faz com que, graças à falha, inconsciente e real se enodem.” (LACAN, 1975-76,
p.151). Para Lacan, a epifania é uma consequência do erro do nó, falha que solta o
Imaginário. Desse modo, através de sua obra, Joyce faz um laço estreito entre
simbólico e real, ou uma “tessitura das palavras impostas”, como quer Sérgio Laia
(2001).
Por fim, Wolfson. Como destaca Deleuze, seu livro não é nem uma obra de
arte, nem um experimento cientifico legítimo, seu aspecto original está no fato de
ser um “protocolo de experimentação”. Se Joyce se deixa invadir pela polifonia da
fala, Wolfson, por intermédio de seu procedimento linguístico, tenta destruir a
língua materna. Por vezes, Wolfson se culpa por gozar através de suas
investigações linguísticas, duvidando da moralidade de suas façanhas intelectuais.
De uma oposição radical entre vida e saber, Wolfson, por fim, toma seu
procedimento como condição de sair da paralisia e consente com a possibilidade do
saber se tornar meio de vida.
Seriam três loucuras absolutamente distintas? Primeau, Joyce e Wolfson
encontram diferentes soluções diante da experiência com as palavras impostas,
seja através de uma defesa reflexiva ao nível do pensamento no caso Primeau, da
obra como reflexão escrita em Joyce ou de um protocolo de experimentação como
faz Wolfson. Entre amarrações e desamarrações Wolfson, Joyce e Primeau, cada
um a seu modo, lançam mão de recursos que tratam, compensam, ou mesmo
fracassam em fazer uma defensa frente ao gozo da língua.
Referências Bibliográficas
CLÉRAMBAULT, Gaëtan. (1920) “Automatismo mental e cisão do Eu (Apresentação
de pacientes)”, Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, São
Paulo: vol.2 n.1, 1999, p. 160-168.
DELEUZE, Gilles. (1970) “Louis Wolfson, ou o procedimento”, In: Crítica e Clínica.
São Paulo: Editora 34, 1997.
LACAN, Jacques. (1975-1976) O Seminário. Livro XXIII: O sinthoma. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2007.
LACAN, Jacques. (1976) “Uma psicose lacaniana: entrevista conduzida por Jacques
Lacan”, Opção Lacaniana, São Paulo, abril/2000, p. 5-16.
LAIA, Sérgio. (2001) Os escritos fora de si – Joyce, Lacan e a loucura. Belo
Horizonte: Autêntica/FUMEC, 2001.
MANDIL, Ram. “Los signos discretos de la locura en James Joyce”, Revista
Mediodicho, Córdoba. No prelo.
WOLFSON, Louis. (1970) Le Schizo et les Langues ou la Phonétique chez lê
psychotique. Paris: Gallimard, 1970.

Observações sobre o conceito de significante e a noção de letra nas

psicoses na década de 1950

José Marcos Resende Oliveira

O conceito de significante e a noção de letra são essenciais na direção de um


tratamento na clínicas das psicoses. E são indispensáveis para a Literatura e a
Linguística. Freud sustentou que o conhecimento literário era primordial para a
formação dos analistas. Por sua vez, Lacan ressaltou a importância da criação
literária na psicose. Ao teorizar sobre as psicoses, Freud se apoiou em um texto
escrito por Schreber, Memórias de um doente dos nervos. Muito tempo depois,
Lacan, a partir da leitura de Finnegans Wake, do escritor irlandês James Joyce,
elaborou a noção de Sinthomme, de um quarto nó, que amarraria os outros nós
borromeanos, constituindo uma suplência à inexistência da metáfora paterna,
impedindo os nós de desatarem-se completamente.
Significante e letra são temas que Lacan perseguiu no artigo “A instância da
letra no inconsciente e a razão desde de Freud” que foi apresentado na Sorbonne
para estudantes de letras, na década de 1950. “Designamos por letra esse suporte
material que o discurso concreto toma emprestado da linguagem” (LACAN, 1998, p.
498), escreveu Lacan, acompanhando o sentido da letra em Ferdinand de
Saussure, linguista suíço (1857-1913), autor do signo linguístico. Mas Lacan
subverteu o signo saussuriano: retirou o círculo que o delimitava, eliminou as setas
que indicava a relação biunívoca entre significado e significante, deu a primazia ao
significante em relação ao significado e ressaltou que a barra que os separava era
resistente à significação.
A significação de um significante se cria ao remeter-se a outro que lhe é
anterior no tempo. “Ora, a estrutura do significante está, como se diz comumente
da linguagem, em ele ser articulado” (LACAN, 1998, p. 504), resumiu Lacan. A
letra, naquele momento teórico, seria “a estrutura essencialmente localizada do
significante.” (LACAN, 1998, p. 504). E os significantes, por serem articulados
seguindo as ordens de uma lei fechada, formam “cadeias significantes” que são
como “anéis cujo colar se fecha no anel de um outro colar feito de anéis.” (LACAN,
1998, p. 505).
Atento às cadeias significantes e amparando-se nos trabalhos de Saussure e
de Roman Jakobson, linguista russo (1896-1982), Lacan notou a importância dos
processos metonímicos – “palavra em palavra” -, e metafórico – “uma palavra por
outra” (LACAN, 1998, p. 506-9) – na estrutura da linguagem. No entanto, ressaltou
Lacan, Freud já tinha escutado a sonoridade das palavras nos sonhos, a via régia
para o inconsciente, no relato dos pacientes. Freud ouvira, claramente, que a
fonética era fundamental nos processos de condensação e deslocamento das
representações inconscientes.
O sonho é um rébus e é necessário soletrá-lo ao pé da letra. A instância da
letra no inconsciente segue uma estrutura de fonemas em que os significantes são
articulados. Lacan aproximou os processos metafóricos e metonímicos descritos por
Roman Jakobson aos processos de condensação e deslocamento observados por
Freud em sua “Ciência dos sonhos”. Assim, a formação dos sonhos segue uma
estrutura, aos moldes do que ocorria na linguagem. Segue as leis dos significantes.
Nada ali era por acaso.
Lacan definiu a tópica do inconsciente no algoritmo S/s. A barra que separa
o significante do significado é o recalque. Na metonímia não há a transposição do
recalque. Na metáfora, há a transposição, criando a significação. E o sujeito surge
ali, entre dois significantes, para novamente desaparecer. O sintoma aparece como
resultado de um processo metafórico e o desejo, um corisco, um lampejo de um
instante, como um resto de um processo metonímico.
Significante e letra retornam noutro artigo da década de 1950, “De uma
questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”, que é central no estudo
das psicoses. “A instância da letra” e “De uma questão preliminar” estão marcados
pelo seminário sobre as psicoses, ocorrido entre 1955-1956.
Em quase todos os parágrafos do artigo “De uma questão preliminar”,
encontramos, direta ou indiretamente, referências ao conceito de significante. O
significante Nome-do-pai, como processo da metáfora paterna, é importante na
formação do recalque e na estruturação do psiquismo. Assim, o funcionamento da
cadeia significante se faz pela presença e ausência do significante. No entanto coisa
bem diversa é a inexistência do significante o Nome-do-pai, como no caso das
psicoses. Ressaltemos: este significante está ausente na estrutura das psicoses: ele
falta.
A partir da leitura de “A negativa” de Freud, Lacan ressaltou a importância
dos processos da Bejahung e da Austossung no acontecimento do sujeitoi. Haveria
um tempo mítico em que nada seria estranho ao eu. Uma expulsão marcaria a
primeira distinção entre um dentro e um fora. Um “não” está ligado ao processo de
Austossung, uma expulsão fundante do real. Há um além do significante. Alguns
significantes são liberados do inconsciente e podem ser articulados à cadeia
discursiva. O uso do “não” permite que o significante recalcado surja ao mesmo
tempo que mantém o recalque.
Em “A negativa”, as funções de juízo no aparelho psíquico são duas: o juízo
de atribuição e o juízo de existência. O primeiro atribui ou nega uma qualidade: “eu
quero comê-lo/cuspi-lo”. É o esboço topológico de um dentro e um fora. O dentro
será incorporado ao eu. O fora permanecerá como representativo daquilo que é
mau, daquilo que eu quero expulsar do eu. O juízo de existência estabelece a
representação de uma coisa, ou seja, será índice da existência dela. Algo que foi
representado no inconsciente poderá ser encontrado na percepção. A Bejahung,
espécie de afirmação primeira, está ligada a uma inclusão significante e comporta
uma Austossung: “uma expulsão do eu, que constitui o real excluído da ordem do
simbólico.” (VIDAL, data, p.96)
Nas psicoses, está excluída toda e qualquer possibilidade de Bejahung e isto
terá como efeito a ausência da afirmação primeira do Nome-do-pai. À inexistência
da Bejahung, há um buraco no qual faltará ao sujeito o suporte da cadeia
significante. Isto também acarretará numa impossibilidade de constituição de uma
representação de corpo no psiquismo, como nos revelam os casos mais graves de
esquizofrenia, em que a vivência do corpo é vista como despedaçada.
Pois na falência da metáfora paterna, a cadeia significante não se articula
como nas neuroses, não ocorrendo, portanto, a estruturação do inconsciente como
uma linguagem e não havendo, por consequência, a possibilidade da existência do
processo metafórico do recalque. Sabemos que a metáfora inconsciente se dá pela
substituição de um significante por outro, em que o significante Desejo da mãe é
elidido, provocando, como resultado do processo, o Nome-do-pai, a emergência do
inconsciente, e o Falo como uma significação metonimicamente possível. A visada
estruturalista do ensino de Lacan na década 1950, ainda é fundamental para a
condução dos casos clínicos de psicose, porque nos apresenta uma perspectiva de
uma hipótese diagnóstica orientadora na condução clínica, que terá
desdobramentos no manejo transferencial e na constituição da realidade desses
pacientes.
Por outro lado, a noção de letra surge de forma indireta, não tão
destacada, com suas implicações teóricas e clínicas. Se não há o significante Nome-
do-pai nas psicoses, há a presença da letra em sua materialidade. Em “De uma
questão preliminar”, a letra está representada tipograficamente nos diversos
esquemas lacanianos L, R e I. Está apresentada na fórmula matemática da
metáfora paterna, em relação ao desejo da mãe, S(I/s). É descrita também pelas
sulcagens, inscrições, rasuras que apontam para a falência do significante Nome-
do-pai. Por fim, a letra está presente nas diversas referências à criação literária:
autores, romances e poemas. Vale ressaltar esse ponto: Lacan cita muitas
personalidades de uma vasta e ampla tradição literáriaii.
O vocábulo lettre, em francês, é rico em homofonias, que se perde na
tradução portuguesa. Letra pode ser a letra em seu aspecto tipográfico. A caligrafia
de uma pessoa é singular. A letra pode ser também uma carta que se desloca entre
os missivistas, tanto como mensagem quanto em seu aspecto material, por
exemplo, um envelope. Por fim, a letra pode se referir à expressão l’être, o ser. O
ser pode ser um objeto. E Lacan leu a letra na pluralidade semântica e esta
pluralidade se perdeu na tradução.
Se encontramos a cada página de “De uma questão preliminar”,
várias referências ao significante, a noção de letra aparecerá, distinta do
significante, somente neste trecho, e ainda muito próxima a ele:
Isso é simplesmente cometer um erro sobre a dimensão que a letra se
manifesta no inconsciente, e que, em conformidade com sua instância
própria de letra, é bem menos etimológica (precisamente, diacrônica) do
que homofônica (precisamente, sincrônica). (...) De resto, o inconsciente
preocupa-se mais com o significante que com o significado e, nele, “fogo
meu pai” pode querer dizer que este era o fogo de Deus, ou então ditar
contra ele a ordem fogo! / Feita essa digressão, o que importa é que,
nesse ponto, estamos num para-além do mundo, bem compatível com um
adiamento indefinido da realização de seu objetivo. (LACAN, 1998, p.
576).

Neste trecho, podemos perceber como a noção de letra se encontra como


suporte material do significante. O inconsciente está mais preocupado com o
significante do que com o significado. No entanto, aponta para um para-além do
significante. Ao abordar a noção da letra, Lacan vai se alinhando com a literatura e,
paradoxalmente, se afastando da noção tradicional de mímesis, ou seja, da
representação, apontando, para um “para-além do mundo”. Lacan já sinalizava em
“De uma questão preliminar” para “os problemas da criação literária na psicose”.
Anos mais tarde, em seu artigo “Lituraterra”, afastando-se do Simbólico e rumo ao
Real, Lacan aprofundará nessas questões e sublinhará que a escrita literária nas
psicoses pode ser uma saída aos moldes de uma psicanálise. Desta forma, nos
parece, em “De uma questão preliminar”, há um indício de que a letra,
distintamente do significante, vai caminhando em direção ao Real, ao passo que o
significante ficará ancorado no Simbólico. A letra, em seu aspecto litoral, entre
registros heteróclitos, faz grampos entre o Real e o Simbólico.
Não poderíamos finalizar o nosso percurso sem nos referirmos ao termo
Lalíngua, embora ele fuja do recorte cronológico que fizemos, que é a década de
1950, - e deixaremos o tema para futura investigações -, algumas palavras
precisam ser ditas. Especialmente em O seminário, livro 20: mais, ainda, Lacan
forjou o termo Lalangue que foi traduzido como “alíngua”. Haroldo de Campos
discordou da escolha deste vocábulo em “O afreudisíaco Lacan na galáxia de
lalíngua (Freud, Lacan e a escritura) porque o prefixo “a” carrega consigo a ideia de
negação ou falta. “Ora, LALANGUE, pode-se dizer, é o oposto de não-língua, de
privação de língua. É antes uma língua enfantizada, uma língua tensionada pela
“função poética”, uma língua que “serve a coisas inteiramente diversas da
comunicação.” (CAMPOS, data, p. 154). Há, então, aí, um limite “daquilo de que
podemos dar conta a título de linguagem”, porque “o ‘idomaterno’ – LALÍNGUA –
nos ‘afeta’ com ‘efeitos’ que são ‘afetos’ resume Lacan, mostrando que sabe jogar
com mestria o jogo que enuncia.” (CAMPOS, data, p. 155). Lacan já havia notado
que ele não fazia linguística, mas linguisteria, porque “(...) a língua ultrapassa em
muito o que podemos dar conta a título de linguagem.” (LACAN, 1985, p. 190). Por
fim, significante e letra ganham novos contornos e desdobramentos clínicos e
teóricos, a partir de Lalangue.

Referências Bibliográficas

CAMPOS, Haroldo de. O afreudisíaco Lacan na galáxia de Lalíngua (Freud,


Lacan e a escritura). Correio.
FREUD, Sigmund. O caso Schreber.
FREUD, Sigmund. A negativa. (Edição Standard brasileira das obras
psicológicas completas de Sigmund Freud. O ego e o id, uma neurose demoníaca do
século XVII e outros trabalhos, v. 19. Rio de Janeiro: Imago, 1976. P. 295-302)
LACAN, Jacques. A instância da letra no inconsciente ou a razão desde de
Freud.IN: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 496-533.
LACAN, Jacques. De uma questão preliminar a todo tratamento possível da
psicose. IN: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 537-590.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 3: as psicoses. Rio de Janeiro: Zahar,
1985.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar,
1985.
VIDAL. Eduardo A. Comentários sobre “Die Verneinung”. Revista da Letra
Freudiana. P. 16-31.

Notas:

Sobre o assunto, ver o texto de Eduardo A. Vidal, “Comentários sobre ‘Die Verneinung’.
No texto, são frequentes as referências a uma longa e diversificada tradição literária, como,
por exemplo: Telêmaco (Mitologia grega. Neto de Laerte e filho de Penélope com Odisseu),
Narciso (Mitologia grega, personagem que morre ao se ver fascinado pela própria imagem),
Nietzsche (Friedrich Nietzsche, filósofo prussiano, 1844-1900. A referência é o livro Assim falou
Zaratustra, 1891), Charles Baudelaire (poeta francês, 1821-1867, tradutor das obras de Edgar
Allan Poe para o francês), Fausto, personagem de toda uma tradição germânica. (No texto,
uma alusão ao Fausto de Goethe, escritor do império Romano-Germânico, 1749-1832), Byron
(poeta britânico, 1788-1824. No texto, especificamente, uma referência ao poema dramático
intitulado Manfred, escrito entre 1816-1817. Lê-se: “o herói morre da maldição lançada sobre
ele pela morte do objeto de um incesto fraterno”, p. 567), Heráclito (filósofo pré-socrático, 535
a.C-475 a.C.), Homero (poeta épico da Grécia antiga, séc. IX a.C. e séc. VIII a.C.), Satyricon
(obra do prosador romano Petrônio, 27 d.C. escrita, provavelmente no ano 60 d. C).
DA PSICOSE EXTRAORDINÁRIA À ORDINÁRIA E OS IMPASSES
CLÍNICOS NO CASO JOÃO
Cecília Velloso Gomes Batista

A psicose ordinária é apresentada por Miller como uma nomeação frente à


experiência clínica. Essa nos coloca cada vez mais, diante de casos em que o
binário psicose e neurose parecem não estar facilmente localizados. Se a clínica
fora pautada pelo binarismo, ou neurose ou psicose, inscrição ou ausência do
Nome- do- pai, os sujeitos contemporâneos parecem situar-se em um entre
fronteiras. O significante psicose ordinária nos retira da rigidez binária e opera
como “um eco no clínico, no profissional.” (MILLER, 2010) – como pensar os casos
que não se encontram claramente definidos?
Para tentarmos responder a essa pergunta, a passagem da chamada
primeira clínica à segunda clínica de Lacan, parece nos indicar o caminho. Se em
um primeiro momento o paradigma é a neurose – operação da metáfora paterna
que impõe a estrutura – em seguida, ao tomar a foraclusão como ponto de partida,
ou seja, para todo sujeito a um sem nome, um indizível, o Nome-do-Pai é apenas
uma das suplências possíveis.
Trabalharei brevemente nesse ensaio algumas pontuações sobre a psicose e
suas manifestações, assim como um fragmento de um caso clínico que me coloca
diante de algumas questões. O caso de João me impôs dificuldades até em sua
escrita, há um esforço de circunscrever um ponto para uma sensação que muitas
vezes eu apenas conseguia localizar como algo de estranho na lógica desse sujeito.
Em “De uma questão preliminar” Lacan (1957-58) apresenta a fórmula da
metáfora do Nome-do-Pai – “metáfora que coloca esse Nome em substituição ao
lugar primeiramente simbolizado pela operação da ausência da mãe.”(LACAN,
1957-58, pag 563) – para então conceber uma posição subjetiva em que há, não a
ausência do pai real, mas sim do próprio significante.
O que a metáfora opera? Ela introduz uma ordem, uma estrutura a um
mundo imaginário instável, de forma que a introdução de um terceiro elemento –
Nome-do-Pai – permite interpretar o desejo do Outro pela significação fálica.

“A pergunta é: qual é o significado? O que quer essa mulher ai? Eu bem


que gostaria que fosse a mim que ela quer. Há outra coisa que mexe com
ela – é o x, o significado. E o significado das idas e vindas da mãe é o
falo.”(LACAN, 1957-1958, pag 181)
E se o Nome-do-Pai está foracluido? Não há, portanto, possibilidade de
significação fálica e diante da questão da existência “pode pois responder no Outro
um puro e simples furo, o qual, pela carência do efeito metafórico, provocará um
furo correspondente no lugar da significação fálica.”(LACAN, 1957-1958, pag 564).
É a partir dessa noção da foraclusão e da ausência de significação fálica que
Lacan trabalha o desencadeamento – “é preciso que o Nome-do-Pai, verworfen,
foracluído, isto é, jamais advindo no lugar do Outro, seja ali invocado em oposição
simbólica ao sujeito.”(LACAN, 1957-1958, pag 584). Ou seja, ali onde o sujeito é
chamado a responder a um nome, se não há operação da metáfora, encontra no
Outro apenas um buraco não dialetizável. O desencadeamento, portanto, se dá pelo
encontro com um terceiro termo que coloca em cheque o par imaginário a- a’ até
então estabilizado.

“ É a falta do Nome- do- Pai nesse lugar que, pelo furo que abre no
significado, dá início à cascata de remanejamentos do significante de onde
provem o desastre crescente do imaginário, até que seja alcançado o nível
em que significante e significado se estabilizam na metáfora
delirante.”(LACAN, 1967-1958, pag 584)

A ocorrência dos fenômenos elementares denunciam o desencadeamento e


essas ausências – Nome-do-Pai e significação fálica. A manifestação da psicose é,
portanto, marcada por uma ruptura. Ligado à foraclusão do Nome-do-Pai, tem-se
as alucinações e alterações da linguagem, as alucinações verbais e fenômenos do
pensamento. E do lado da ausência da significação fálica, não há significante que
faça a mediação entre os sexos, observado pelas ideias delirantes sobre o corpo e a
sexualidade. (DRUMMOND, 2000)
O que Lacan nos propõe nesse momento de seu ensino como uma solução,
uma estabilização possível seria a construção de uma metáfora delirante, ideia que
retira dos estudos sobre o caso Schreber – “Schreber consegue, progressivamente,
arranjar para si um mundo onde é possível viver. Lacan diz então que, na verdade,
ele não tem uma metáfora paterna, mas bem mais uma metáfora delirante”
(MILLER, 2010)
A clínica, portanto, se pautada por essa concepção que brevemente
trabalhamos, seria uma clínica em que “todo tratamento possível da psicose
deveria considerar a metáfora delirante como ‘ponto de mira’ e ‘de chegada’ da
construção subjetiva delirante estabilizadora do sujeito” (BENNETI, 2005) por isso
dizemos de uma clínica em que o simbólico é privilegiado.
E quando estamos diante de casos em que não se localiza um
desencadeamento? Quando não há fenômenos elementares, ou grandes delírios?
Mas que também não há a “assinatura da neurose, nem a estabilidade, nem a
constância, nem a repetição da neurose?” (MILLER, 2010)
A medida em que o inconsciente é tomado não apenas como efeito
significante, de sentido, mas também como gozo, é possível pensar que para todo
sujeito há um indizível, um ponto de foraclusão. Dessa forma, “todos os discursos
não passam de defesas contra o real (...) não é somente na psicose que há um
incifrável. Em todos os casos a relação sexual permanece incifrável e dela
reaparecerá sempre algo no real.” ( KAUFMANNER, 2000, pag 42)
Podemos pensar então, que há uma mudança no lugar do Nome-do-Pai, que
de significante que faz falta no Outro, passa a ser uma resposta à falta. A metáfora
paterna enquanto defesa do sujeito frente ao real é, portanto, delirante – “A vida
não tem nenhum sentido. Atribuir sentido já é delirante.”(MILLER, 2010). Essa
constatação nos parece importante, pois indica que o Nome-do-Pai é um
suplemento dentre outros.
Estamos diante da segunda clínica lacaniana em que o Nome-do-Pai não é
tomado mais como operador de uma distinção estrutural. Miller formula que o que
é privilegiado nesse momento é o ponto de capitoné, ou seja, fomos do significante
Nome-do-Pai, a um sistema de atar os três registros, real, simbólico e imaginário –
no qual o Nome-do-Pai aparece como uma forma de atar.

“Se considerarmos que as neopsicoses valorizam o significante no real e não


sua articulação na cadeia, o enodamento dos três registros e não sua
subordinação à única instância do simbólico, o caráter criativo da psicose e
não sua dimensão deficitária, o lugar do analista poderá ser definido de uma
maneira diferente daquela do lado da morte e da lei, isto é, do universal. O
que nos guia é menos a consideração de uma clínica da estrutura do que a
sustentação da invenção do sujeito em seu trabalho sobre a lalíngua, sua
capacidade de encontrar uma solução singular que concilie o vivo e o laço
social.”(BORIE et al, 2012)

Vejamos em seguida a partir de um fragmento de caso o que


podemos pensar sobre essa solução singular.

CASO JOÃO
João tem 21 anos e procura atendimento porque é “irritado” e tem
problemas de convivência com a família, quem o aconselha a procurar um
tratamento é seu chefe. Nas sessões apresenta um corpo inquieto, ao mesmo
tempo que boceja significantemente e tem um andar arrastado. Viveu dos dois
anos aos quinze nos Estados Unidos, junto com a mãe e uma tia e desde que
retornou ao Brasil, mora com a avó materna. A mãe – a quem descreve como uma
alcoólatra, deprimida e gorda – foi morar com um namorado e passa seus dias
“fumando e bebendo” sendo sustentada pela família. Sente-se invadido pelas
pessoas de sua família, “sou um funcionário que tem que resolver tudo”. As coisas,
no entanto, eram piores no tempo que morou fora, relata que sofreu muito
“bullying” por estar sempre acima do peso e que cuidar da mãe era uma tarefa
difícil, nesse período de sua vida a mãe foi internada algumas vezes, estava sempre
servindo a mãe e ajudando-a, sente que nunca foi olhado por ela.
Acha que nesse momento esteve muito deprimido, não tinha amigos e as
pessoas a sua volta eram “interesseiras” significante que utiliza para descrever a
maioria de suas relações, ele é sempre usado pelo outro. Começou a apresentar
dificuldades no aprendizado, “simplesmente não conseguia aprender a ler e
escrever” e com os colegas “ficava muito irritado e isolado” – frente a essas
questões a escola encaminha João para tratamento psiquiátrico e o transfere para
uma escola “para crianças com problemas de comportamento”, sobre esses
problemas diz pouco, “achava que todo mundo estava me olhando e me tirando,
ficava muito irritado, briguei com alguns colegas, tive uma experiência
homossexual, essas coisas”, mas não fala sobre esses acontecimentos.
Do psiquiatra recebeu em diferentes momentos o diagnóstico de TDAH,
depressão e transtorno bipolar – diagnósticos os quais não questiona, apenas diz
que foi o único momento em que a mãe voltou a atenção para ele.
Ao falar da família da mãe com quem tem maior convivência diz que é mal
tratado e mal visto porque sua mãe sempre foi sustentada e seu pai é pobre e que
por isso ele seria para eles “um saco de pancadas” assim como a mãe o é – “minha
mãe é um saco de pancadas, eu sou um saco de pancadas”.
Na fala de João sobre sua história percebo que há um certo desligamento
daquilo que ele relata e frente a algum questionamento da analista sobre o que ele
diz há uma completa incompreensão frente a qual não consegue produzir nenhum
sentido. Sua fala não faz apelo a uma resposta, não há dialética ou vacilação, como
ele mesmo aponta: “Não acho, tenho certeza”. Apesar dos poucos dados sobre esse
momento significativo na vida de João, poderíamos pensar que houve um
desencadeamento?
Sérgio Laia (2000) em seu texto “Psicose Unplugged” coloca em questão os
casos em que não há uma ruptura catastrófica como vemos na psicose clássica,
mas que talvez poderíamos pensar em certos desligamentos que ocorrem de forma
muito discreta e que dificultam o diagnóstico. Os diagnósticos múltiplos que João
recebe da psiquiatria parecem ser uma marca disso. Outro ponto que gostaria
de isolar para o propósito desse trabalho é a função dos significantes “irritado” e
“funcionário”. João descreve sua infância e adolescência como um momento de
solidão extrema – morando em outro país sentia-se na relação com o outro sempre
o estrangeiro excluído e sem valor, invadido pelo outro frente ao qual passava ao
ato. Para além da localização geográfica, em sua família, é nesse lugar que se
reconhece: o de fora, o “saco de pancadas”.

Quando retorna ao Brasil há uma mudança enfaticamente marcada por ele,


o sotaque americano carregado o mantém estrangeiro, no entanto, em terras onde
o que é norte americano é sempre melhor, passa a ser valorizado por isso o que lhe
atribui um saber. . Todos o procuram e pedem-lhe as coisas porque ele sabe
resolver – um funcionário exemplar. João parece assumir o lugar do estrangeiro
que carrega certa ambiguidade, ao mesmo tempo em que reclama do abuso do
outro, é o que permite seu laço. O “ser irritado” mantém o outro a certa distância,
“quando alguém tá folgando já dou logo uma resposta e não mexe comigo mais”.

Ao longo de seu tratamento me questionava frequentemente o que podia a


análise para esse sujeito que a cada sessão me relatava as situações que vivia sem
endereçar uma questão. Ser alguém a quem o outro busca, ser o funcionário
trabalhador, opera para esse sujeito uma amarração? Sempre no lugar do dejeto,
um sujeito que não se localiza no desejo da mãe que tem a droga como objeto, o
lugar do “funcionário” o retira de um isolamento e permite de certa maneira um
laço com o outro ainda que conflituoso – ora invasivo, ora apaziguador. Fica
evidente a precariedade dessa tentativa de situar-se no mundo, pois por maior que
seja seu esforço vê-se frequentemente isolado, descreve momentos em que não
consegue fazer nada, passa dias sozinho no quarto, um corpo pesado que se
arrasta, como testemunho a cada sessão.
Miller (2010) esclarece que um ponto importante para ficar atento quando
se trata de uma psicose ordinária, seria o que Lacan chamou de “uma desordem
provocada na junção mais íntima do sentimento de vida do sujeito” e uma marca
dessa desordem seria a externalidade social, ou seja a relação desse sujeito com a
realidade, de forma que para alguns essa relação aparece como extremamente
difícil e precária – “quando existe uma espécie de fosso que constitui
misteriosamente uma barreira invisível.” (MILLER, 2010).
De que forma, portanto, manejar o tratamento de João sem fazer vacilar
algo que o sustenta e ao mesmo tempo possibilitar suas invenções?

Referências Bibliográficas
BENNETI, A. (2005) “Do discurso do analista ao nó borromeano: contra a metáfora delirante.”
Opção lacaniana online. Disponível em:
http://www.opcaolacaniana.com.br/antigos/n3/pdf/artigos/ABDiscurso.pdf . Acesso em: agosto
2018.
BORIE, Jacques, RABANEL, Jean-Robert & VIRET, Claude. “Clínica da suspensão”
In. Batista, M. C. D e Laia, S. (Organizadores) (2012). A Psicose Ordinária: Convenção de
Antibes. Belo Horizonte. Scriptum livros.
DRUMMOND, C. (2000) “Formas de desencadeamento”. In: Curinga 14. Belo Horizonte:
Escola Brasileira de psicanálise – seção minas.
KAUFMANNER, H. (2000) “Índices de foraclusão: da fala à escritura”. In: Curinga 14. Belo
Horizonte: Escola Brasileira de psicanálise – seção minas.
LACAN, J. (1959/1998) “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”. In:
Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
LACAN, J. (1957-58/ 1999) “A metáfora paterna”. In: O seminário, livro 5: as formações do
inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
LAIA,S. (2000) “Psicose unplugged” In: Curinga 14, Belo Horizonte: Escola Brasileira de
Psicanálise – seção minas
MILLER, J.A. (2010) “Efeito de retorno à psicose ordinária”. Opção Lacaniana online.
Disponível em:
http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_3/efeito_do_retorno_psicose_ordinaria.pdf .
Acesso em: agosto 2018.

MESA 2: A clínica das neuroses e seus impasses

Coordenadora: Ana Maria Lopes

Debatedora: Samyra Assad


O DESEJO NA NEUROSE OBSESSIVA: um Estudo de Psicanálise
Rônia Cristina Goncalves Soares

O “Desejo‟ é um tema essencial na constituição do sujeito para a teoria


psicanalítica. Inicialmente pensou em descrever o “Desejo‟ como conceito, mas
diante da sua importância e abrangência nas neuroses, percebeu-se que o “Desejo‟
é para além de um conceito, e sim um acesso para se constituir um sujeito e
localizar sua estrutura.

1- O percurso do Desejo na teoria psicanalítica

O desejo é determinante na vida do sujeito e surge por vias da transferência e das


representações, nem sempre identificadas. Em sua obra “O projeto para uma
psicologia científica” (1895), Freud institui que os neurônios tendem a livrar-se de
toda excitação que recebem – princípio da inércia neuronal, que se refere a uma
tendência a descarga completa e imediata, correspondente a fuga do estímulo,
sendo este toda fonte de excitação externa ou endógena. Como cita:

“O organismo humano é, a princípio, incapaz de promover essa ação


específica. Ela se efetua por ajuda alheia, quando a atenção de uma
pessoa experiente é voltada para um estado infantil por descarga através
da via de alteração interna. [...] não tenho dúvida de que na primeira
instância essa ativação do desejo produz algo idêntico a uma percepção –
a saber, uma alucinação. Quando uma ação reflexa é introduzida em
seguida a esta, a consequência inevitável é o desapontamento” (FREUD,
1895/1950, p.370, 372).

Resumidamente, pode-se dizer, uma “experiência de satisfação inicial seria


buscada e não mais encontrada”, ou ainda “atração positiva para o objeto desejado,
ou mais precisamente, por sua imagem mnêmica” (Hanns, 1996, p.139),
demonstrando um estado de desamparo original.
Na obra “A interpretação dos sonhos” (1900/1992b), herdeira do Projeto, a
representação do desejo se dá pelos mecanismos de condensação (estrutura de
superposição – as idéias inconscientes se juntam e condensam numa só) e
deslocamento (o meio adequado para despistar a censura – maneira pela qual o
recalcado se transveste). Desse modo, Freud (1900/1992b) diz que “Sem dúvida,
nos terá surpreendido a todos saber que os sonhos não passam de realizações
desejos”, e ainda descreve três origens possíveis para esse desejo:

“[...] (1) É possível que ele tenha sido despertado durante o dia e, por
motivos externos, não tenha sido satisfeito; nesse caso, um desejo
reconhecido do qual o sujeito não se ocupou fica pendente para a noite.
(2) É possível que tenha surgido durante o dia, mas tenha sido repudiado;
nesse caso, o que fica pendente é um desejo de que a pessoa não se
ocupou, mas que foi suprimido.
(3) Ele pode não ter nenhuma ligação com a vida diurna e ser um daqueles
desejos que só á noite emergem da parte suprimida da psique e se
tornam ativos em nós” (FREUD, 1900/1992b, p.141).

A compreensão do desejo apóia na busca, intrínseca ao organismo, de


manter-se livre de excitações, sendo um desdobramento da busca pelo prazer,
como “uma corrente... que arranca [o aparato psíquico] do desprazer e aponta ao
prazer, chamamos desejo” (Freud, 1900/1992b, p.588). Lacan (1957-58/1999),
sobre essa questão, ressalta:

“Vocês conhecem a afirmação de Freud a respeito do sonho – que o sonho


exprime um desejo. Mas, afinal, nem sequer começamos a nos perguntar
o que e esse desejo do sonho de que falamos. Há mais de um no sonho.
São os desejos do dia que dão ao sonho o ensejo, o material, embora,
como todos sabem, o que nos interessa seja o desejo inconsciente. [...]
Aparentemente, não há nada no sonho que corresponda aquilo através do
qual um desejo se manifesta gramaticalmente. Não existe nenhum texto
no sonho, a não ser o que deve ser traduzido numa articulação mais
profunda, porem, no nível dessa articulação, que é mascarada, latente, o
que enfatiza aquilo que o sonho articula? Aparentemente, nada” (LACAN,
1957-58/1999, p.281).

Assim, o que é reconhecido por Freud, como desejo no sonho, não passa de
uma alteração da necessidade, em que é de forma mascarada, posto num material
que o transforma. “O que fornece a lei da expressão do desejo no sonho é
justamente a lei do significante” (LACAN, 1957-58/1999, p.282).
Miller (2013) em entrevista ao Le Point, publicada em 06/06/2013, diz “que
o desejo não é uma função biológica”:

“[...] Ele não é um instinto, se com isso entendemos um saber infalível


inscrito no real do corpo e que o conduziria direto ao objetivo: seu bem-
estar, sua vida, a sobrevivência da espécie. Muito pelo contrario, o desejo
se extravia. [...] Desde sempre se deplorou e se censurou suas
aberrações, suas extravagâncias, suas errâncias. Tentou-se de tudo para
educá-lo, regulá-lo, dominá-lo, mas em vão: ele só faz o que lhe da na
cabeça” (MILLER, 2013, pág.1).
Desta forma, Miller (2013), esclarece que o desejo não é decorrente da
natureza – “ele se deve a linguagem”, “um efeito do simbólico”.
Lacan, no “Livro 6 – O desejo e sua interpretação” (1958-59/2016)– Lacan
relembra o que Freud diz sobre o desejo infantil: “que, em toda formação do sonho,
ele é o capitalista, e que este encontra seu empresário num desejo atual. Esse
outro desejo, que por sua vez, está longe de ser sempre inconsciente, é aquele que
se exprime no sonho e é, a rigor, o desejo do sonho” (LACAN, 1958-1959/2016,
p.113).
Para Lacan, é no despertar da puberdade ou durante ela, que o sujeito
encontra o signo do seu desejo, como descreve: “O sujeito sempre aliena seu
desejo num signo, numa promessa, numa antecipação, em algo que comporte,
como tal, uma perda possível. Devido a essa perda possível, o desejo se acha
ligado à dialética de uma falta” (LACAN, 1958-1959/2016, p.116).
Quanto ao desejo do sujeito, há uma questão fundamental quanto a sua
estruturação, conforme Lacan esclarece – “é uma aventura primordial do que se
passou em torno do desejo infantil, o desejo de ser desejado. O que se inscreve no
sujeito ao longo dessa aventura fica permanente ali, subjacente”. Dessa forma, “o
que se estrutura do sujeito passa sempre pela intermediação do mecanismo que faz
com que seu desejo já seja, como tal, moldado pelas condições da demanda”
(LACAN, 1957-58/1999,p.282).
Já no Livro 10 – a Angústia, Lacan (1962-63/2005) diz que “o desejo do
homem é o desejo do Outro”. E mais adiante, ele explica:

“O Outro existe como inconsciência constituída como tal. O Outro


concerne o desejo na medida do que lhe falta e de que ele não sabe. E no
nível do que lhe falta e do qual ele não sabe que sou implicado da maneira
mais pregnante, porque, para mim não há outro desvio para descobrir o
que me falta como objeto de meu desejo” (LACAN, 1962-1963/2005,
p.32-33).

Diante disso, para Lacan, o Outro é lugar do significante, de modo que para
o desejo não há sustentação em algum objeto qualquer, nem tão pouco acesso por
via deste, e sim na dependência do sujeito em relação ao Outro, e descreve que “a
relação do desejo do sujeito como o desejo do Outro é dramática, na medida em
que o desejo do sujeito tem de se situar perante o desejo do Outro, o qual, no
entanto, o aspira literalmente e o deixa sem recursos” (LACAN, 1958-1959/2016,
p.454).
2- A neurose obsessiva

Em 1926, Freud afirma que a neurose obsessiva, possivelmente, é o objeto


de investigação analítica, mais interessante e recompensador. E destaca um ponto
de convergência entre a neurose obsessiva e a histeria: “A situação de partida da
neurose obsessiva é provavelmente a mesma da histeria: a necessidade de
defender-se das exigências libidinais do complexo de Édipo” (FREUD, 1926, p.49).
Na neurose obsessiva o “motor da defesa” é o complexo de castração, e
como “alvo da defesa” tem-se as tendências do complexo de Édipo, e ainda, os
processos de criação e consolidação do Super-eu, assim como o estabelecimento de
barreiras éticas e estéticas no Eu, vão além da medida normal na Neurose
obsessiva.
Desta forma, o Super-eu torna-se intransigente, severo, mais duro e
atormentador, e em obediência a ele, o Eu desenvolve formações reativas elevadas,
como descritas por Freud (1926):

“[...] o Super-eu se torna particularmente rigoroso e inclemente, o Eu


desenvolve, em obediência ao Super-eu, elevadas formações reativas:
conscienciosidade, compaixão, asseio. Com severidade implacável – e,
portanto, nem sempre bem sucedida – condena-se a tentação de
prosseguir a masturbação infantil, que agora se apóia em idéias
regressivas (sádico-anais), mas que representa a parte não subjugada da
organização fálica (FREUD, 1926, p.51)”.

Assim, observa-se um novo mecanismo de defesa, com as formações


reativas no Eu do neurótico obsessivo, além da regressão e da repressão. Como
divisor de águas no desenvolvimento da neurose obsessiva, apresenta-se a
puberdade. Após sofrer uma interrupção na infância, a organização genital, reinicia-
se com vigor. Trava-se, sob a bandeira da ética, uma luta contra a sexualidade,
devido à camuflagem das tendências eróticas e também devido às formações
reativas no Eu, poderosas, por sinal.
Os desejos eróticos são combatidos pelas demandas violentas e cruéis que
são enviadas a consciência, fazendo o Eu se rebelar. E, desse modo, “o severíssimo
Super-eu insiste mais energicamente na supressão da sexualidade, depois que ela
adota formas tão repulsivas”. Com isso, Freud (1926), diz que “na neurose
obsessiva o conflito é exacerbado em duas direções: aquilo que exerce a defesa se
torna mais intolerante, aquilo que deve sofrê-la se torna mais insuportável; ambas
as coisas sofrem influencia do mesmo fator, a regressão libidinal” (FREUD, 1926,
p.53).
3- O Desejo na Neurose obsessiva

O sujeito obsessivo está sempre solicitando alguma permissão, como


descreve Lacan:
“Pedir permissão é, justamente, ter como sujeito uma certa relação com a
própria demanda. Pedir permissão, na medida mesma em que a dialética
com o Outro – o Outro como falante – é posta em causa, posta em
questão, ou ate posta em perigo, é dedicar-se, afinal de contas, a
restaurar esse Outro, é colocar-se na mais extrema dependência
dele”(LACAN, 1957-58/1999, p.425).

O obsessivo necessita de um desejo para além da demanda, de um desejo


insatisfeito, assim como as histéricas. “O obsessivo resolve a questão do
esvaecimento de seu desejo fazendo dele um desejo proibido”. A proibição sustenta
o desejo desde que este se apresente, assim o desejo é camuflado. ”Ao mesmo
tempo ele o mostra e não mostra. [...] Qualquer emergência de seu desejo seria,
para ele, um ensejo para a projeção ou para o medo de retaliação que inibiram
todas suas manifestações” (LACAN, 1957-58/1999, p.428).
A respeito ao reconhecimento do desejo do outro, Lacan diz: “Quase todos
os analistas, em sua comunidade, tomam atualmente por auge e supra-sumo
daquela feliz realização do sujeito a que chamam maturidade genital o acesso a
oblatividade – ou seja, ao reconhecimento do desejo do outro como tal”(LACAN,
1957-58/1999, p.428).

No Livro 8 – A transferência (1960-61/1992), Lacan descreve o campo da


oblatividade ao fazer referencia à demanda anal, em que descreve “o campo da
dialética anal é o verdadeiro campo da oblatividade”, e que ela se trata de uma
fantasia obsessiva, em que descreve: “Tudo para o outro, diz o obsessivo, e é isso
mesmo o que ele faz, pois, estando na perpétua vertigem da destruição do outro,
ele nunca faz o bastante para que o outro se mantenha na existência”.
Na fase anal, “o sujeito só satisfaz uma necessidade para a satisfação de um
outro”. Foi ensinado a reter essa necessidade para satisfazer o outro. Por
consequência, o desejo passa a ser simbolizado pelo que é suprimido na operação,
como descreve Lacan (1960-1961), “o desejo, literalmente, vai à merda” (LACAN,
1960-1961/1992, p.255).
No decorrer de sua obra - Livro 6 – O desejo e sua interpretação” (1958-
59/2016), Lacan descreve que o obsessivo é alguém que permanece fora do jogo,
alguém que jamais esta realmente ali onde pode estar o seu desejo, pois “ali” ele
corre risco aparentemente. Para o obsessivo sua relação de engajamento com seu
desejo verdadeiro é sempre para amanhã; o que faz com que na espera “desse
amanhã” ele não consiga engajar nada, e sim se por a prova. E ainda mais, como
diz Lacan: “pode até chegar a considerar o que faz como meio de granjear méritos.
Mérito em quê? Na reverência do Outro para como seus desejos (LACAN, 1958-
59/2016, p.458).

4- Concluindo

Assim, as relações do obsessivo articuladas ao desejo com a função de suprir


suas necessidades, são levadas a almejar a destruição do Outro, em que o próprio
desejo vem a desaparecer. No obsessivo há uma barreira libidinal em que seu
desejo esbarra, ele necessita de um desejo para além de uma demanda, desejo
este insatisfeito, proibido, evanescente, uma busca constante por tentativas de não
lidar com a castração.

Referência Bibliográfica

FREUD, S. (1900-1901). “A interpretação dos sonhos” – Segunda parte e sobre os sonhos.


In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud.
Rio de janeiro: Imago, vol. 5.

FREUD, S. (1926-1929). “Inibição, sintoma e angustia”, In: Obras Completas. Rio de


janeiro: Companhia das Letras, vol. 17, 2014. p. 13-123.

FREUD, S. (1895[1950]). “Projeto para uma psicologia cientifica”, In: Edição Standard
Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de janeiro:
Imago, vol. 4, 1996. p. 335-454.

HANNS, L. A. (1996). Dicionário comentado do alemão de Freud. Rio de Janeiro: Imago.

LACAN, J. (1998). O estádio do espelho como formador da função do eu. In: Lacan,
Escritos. (V. Ribeiro, trad.; pp.96-103). Rio de Janeiro: Zahar. (original publicado em
1996).

LACAN, J. (1999). Seminário 5: as formações do inconsciente. (V. Ribeiro, trad) Rio de


Janeiro: Zahar.

LACAN, J. (1960/1961[2010]). Seminário 8: a transferência. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.-

LACAN, J. (1962-1963[2005]). Seminário 10: a angústia. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

MILLER, Jacques-Alain. (2013). Lacan, professor do desejo. In:Opção Lacaniana online.


Ano IV, n° 12, Dez.2013. Disponível em:
http://www.opcaolacaniana.com.br/nranterior/numero12/texto1.html. Acesso em: 22 maio.
2018.
A histeria e os nomes do Pai
Daniela Gontijo de Souza

Uma inquietude contemporânea vem dando nova forma a subjetividade. A


palavra contemporânea diz da atualização que a modernidade faz com essa
inquietude, que já está posta desde os primórdios do psiquismo. A maneira de
lidarmos com isso se modifica concomitante ás transformações culturais.
Segundo Campos [1], “uma nova ordem, já prenunciada no apagar das
luzes do século XX, emerge como fruto de uma precarização da eficiência simbólica,
da fugacidade do imaginário e das eventualidades do real”. As mudanças culturais
vividas nas ultimas décadas, nos colocam em impasses com a civilização e nos
fazem romper com as tradições. Vivemos uma modernidade pautada nos discursos
da ciência e do capitalismo que promovem uma desorganização simbólica, que nos
traz como uma das consequências a pluralização do nome do pai.
Com a intenção de localizar as questões que a contemporaneidade me traz,
me interessou discutir a histeria, quando não servimos mais como antes do nome
do Pai, e sim dos nomes dele.

A precariedade do Pai
Vivemos uma mudança de paradigma em todo cenário social, cultural e
consequentemente analítico. A fragilidade simbólica é constatada na fluidez das
relações e na falência das hierarquias. Miller,[2] no seu texto Em direção à
adolescência, aponta que “entre essas mutações da ordem simbólica,
primeiramente a principal, a saber é o declínio do patriarcado.
A precariedade do nome do pai é evidenciada pelas “mutações simbólicas” e
confirmada pela prevalência dos discursos da ciências e do capitalismo. Otoni [3]
nos esclarece que “O mundo hoje não é mais freudiano, ele é lacaniano. E a tarefa
incessante da falsa científica, não é mais lançar um novo objeto, mas fabricar em
série, infinitas réplicas do único objeto que interessa: o objeto a no Zênite
social. Talvez, seja desde essa virada, visando eliminar o impossível e alcançar
o ilimitado infinito, que vimos um desenvolvimento cientifico desenfreado
visando novas tecnologias – tecnologias voltadas para fabricação de toys para
satisfação do imperativo de gozo.”
Campos [4] conclui que a crise do simbólico tem afetado todas as ideologias,
todavia, fez incrementar o discurso cientificista das manipulações genéticas, das
falsas ciências e o discurso das novas tecnologias.
Sabemos que as ideologias políticas se esvaem neste contexto atual e nos
traz um outro indicativo da precariedade paterna. No percurso histórico assistimos
a verdade do totalitarismo, que se encontrava em um único lugar, ser dividida na
democracia. Em Instituições milanesas, Miller[5] esclarece que “o totalitarismo (...)
era a esperança de suprimir a divisão da verdade, de instaurar o reino do Um na
política. E diz que “o triunfo da democracia que vai de vento em popa no
pensamento contemporâneo (...) não gera o mesmo entusiasmo, podendo inclusive
ser avaliado por um efeito depressivo; ele o comporta na medida em que implica a
aceitação da divisão da verdade.”
A divisão abre uma fenda, aponta uma falta que o Um do
totalitarismo parecia preencher. Abre-se então um buraco que a ciência promete
cobrir. Cada vez mais, objetos são produzidos e oferecidos como garantia da
totalidade. Somos levados à consumir desenfreadamente, criando um ciclo de gozo
sem fim.
O que o discurso da ciência em aliança com o capitalismos prometem, na
verdade não se cumpri e a ‘falta” aparece a cada vez que esse objeto fracassa em
sua promessa. A função paterna, nos tempos de hoje, desprovida de sua força
simbólica, faz sintoma e segundo Miller[6], em instituições milanesas, o sintoma
aparece como o regime próprio ao gozo, o sujeito – ou mais precisamente o ser
vivente que fala – experimentando-o necessariamente como tal”.
As consequências analíticas das transformações citadas são vistas também
na clínica da contemporaneidade que nos traz, cada vez menos, sujeitos da
dúvida. Partimos de interpretações que davam um sentido, pautadas na clínica do
Nome do Pai, do complexo de Édipo de Freud, para a clínica do real, de Lacan, do
sem sentido. Lacan[7] afirma que “na atualidade a interpretação ocupa um lugar
ínfimo, e não porque ela tenha perdido o sentido, mas porque a abordagem do
sentido traz sempre um embaraço.

Do Versagung às estruturas psíquicas


Sabemos que o sujeito, antes de nascer, já faz parte de uma estrutura
simbólica (familiar, cultural, social). O “outro” que representa o simbólico, anterior
ao sujeito, terá influências determinantes em sua estruturação psíquica e em sua
maneira de estar no mundo.
Freud, [8] em 1912 nos disse que “o motivo mais evidente, mais fácil de ser
descoberto e mais compreensível para o adoecimento neurótico reside no fator
externo que, de maneira geral, pode ser descrito como impedimento (Versagung).”
O impedimento tratado por Freud diz de um impedimento ao estado anterior
à linguagem, “trata-se, portanto, de um conflito entre a exigência pulsional e a
reclamação da realidade e isso acarreta um efeito patogênico , pois represa a libido
e , assim, submete o individuo a uma prova de quanto tempo pode tolerar esse
aumento da tensão psíquica, e que caminhos irá tomar para se livrar dele.” Afirmou
Freud [9]em, Cisão do Eu no processo de defesa.
Os caminhos escolhidos dirão das estruturas psíquicas que se formaram a
partir deste impedimento. Acredita-se que houve uma perda de um estado de
completude e a maneira com que cada um irá lidar com isso, dirá da sua estrutura.
Parte desta equação é recalcada e algo se perde. Esta perda faz uma “fenda” no
sujeito que representará a falta de um objeto. Lacan,[10] em 1956, nos diz que
“Jamais, em nossa experiência concreta da teoria analítica, podemos prescindir de
uma noção de falta do objeto como central. Não é um negativo, mas a própria mola
da relação do sujeito com o mundo”.

Um confronto neurótico
A fenda que marca o sujeito e dá início a sua vida psíquica irá colocá-lo
diante da castração. Sabemos que a castração nos aponta uma perda simbólica,
uma falha que ocorre na tentativa de traduzir o real em linguagem.
O sujeito neurótico é confrontado com a castração do Outro. Ciente dessa
castração, o recalque desloca esse saber para o inconsciente na tentativa de livra-
se da angústia que o saber da falta produz.
Todas as estruturas neuróticas passam por esse processo e as
particularidades de cada uma, se diferenciam nas posições que os sujeitos têm
diante das tentativas de retorno do que foi recalcado.
Pierre Naveau [11], em O que do encontro se escreve nos diz que “Na
relação do sujeito com a castração, trata-se de sua relação com a castração do
Outro e, mais exatamente, da consequência, no que concerne à sua relação com a
castração do Outro e cita Lacan no seminário A transferência < sem dúvida, existe
algo mais neurotizante que perder o falo, é não querer que o Outro seja castrado
>.

Falo, desejo e o édipo


Na constituição do sujeito, ao nascer, a criança ocupa o lugar de falo da
mãe, ou seja , aquilo que supostamente completa essa mulher. Neste lugar, de ser
o que a mãe deseja, a relação que se estabelece entre ela e o filho fica desprovida
de qualquer possiblidade da dimensão do desejo, pois só o filho lhe basta .
Com Barros [12], em O desejo da mãe, vimos que “a mãe, portanto, não é
um sujeito, mas um desejo. Com todo desejo, ela tem um objeto, ela tem um
objeto que poderíamos chamar de ilimitado. Esse objeto determina o lugar da
criança no mundo, que por sua vez não é ilimitado. A criança vai surgir como
significado desse desejo, ou seja, como ponto de irrupção no que há de ilimitado no
desejo materno.
Na medida em que a mãe começa a desejar algo para além do filho, o que é
marcado pela presença do pai (outro), surge na criança questionamentos a cerca
do desejo dessa mãe. Toda essa trama traz para ela a possibilidade do desejo e a
faz verificar que a questão do desejar está mediatizada por um Outro. Isto nos
indica uma condição estrutural do sujeito sobre o seu desejo, que é o enigma do
desejo do Outro.
Considerei importante passar por estas articulações do desejo, para marcar
mais uma vez que é pela falta que se constitui o sujeito e dizer que para histérica,
a falta é determinante. A mãe, ao se referenciar ao Outro para dizer do seu desejo,
esse outro, supostamente, é entendido como o que falta à ela, o pênis (falo). Este
ponto anatômico faz toda dissimetria entre as estruturas marcando um caminho
especifico para as histéricas no percurso do Édipo.
Lacan[13] em 1956, nos adverte que “ Não há, propriamente, diremos nós,
simbolização do sexo da mulher como tal. Em todo o caso, a simbolização não é a
mesma, não tem a mesma fonte, não tem o mesmo modo de acesso que a
simbolização do sexo do homem. E isso, porque o imaginário fornece apenas uma
ausência, ali onde alhures há um símbolo muito prevalente”. Isso nos aponta que a
identificação sexual da mulher passa pela falta no real.
Enquanto no complexo de Édipo do menino, ele segue com seu objeto de
amor - a mãe - e só o abandona pela angústia de castração, que seria a ameaça do
pai de eliminar o falo – o pênis – e então faz com que ele abra mão desta posição
de objeto do desejo da mãe, possibilitando sua saída do complexo de Édipo,
recalcando estas pulsões. Já a menina precisa, neste percurso, abandonar seu
objeto de amor pela angústia da castração - a falta do pênis (falo)- e seguir até o
pai – o outro- na tentativa de que esse outro possa dar a ela o que ela não tem.
Freud [14], 1933, nos disse que “ a menina permanece nele por tempo
indeterminado, só o desconstrõe mais tarde e de maneira incompleta.” A menina
precisa ir até o outro para significar essa falta.
Lacan [15], 1956 dirá que “ um dos sexos é forçado a tomar a
imagem do outro sexo por base de sua identificação(...) O fato não pode ser
interpretado senão na perspectiva em que é a ordenação simbólica que regula
tudo”. No entanto, o significante dado por esse outro não recobre toda a falta e o
que fica descoberto é recalcado.

Impasses histéricos
Neste movimento identificatório que é posto a menina – ora com a mãe, ora
com o pai – apresenta-se o enigma, traz questões que dizem da histeria: o que as
mulheres desejam nos homens? o que os homens desejam nas mulheres?
Este ato de tomar para si a castração do Outro, faz com que a histérica
assuma a posição de um não saber. A questão com o saber esta posta para
histérica desde o inicio. “Lacan no seminário 17 [16] irá dizer que há uma relação
primitiva entre o saber e o gozo.” Perde-se alguma coisa e é preciso compensar
essa perda. O movimento compensatório faz gozo. Lacan vai nos mostrando como
as questões que acompanham a histérica, neste contexto de querer saber, faz com
que o seu desejo esteja sempre implicado pela via do Outro, além de modular o seu
modo de gozo.
As questões são pontos fundamentais na estrutura da histeria. As perguntas
sobre “o que desejar, o que é ser mulher , o que o homem deseja, irão funcionar
como um guia na sua busca de respostas para sua vida. [17]“O que a histérica
quer é um mestre” nos disse Lacan,1970. Porém, ainda que a histérica se
apresente querendo saber, na verdade esse saber faz revelar a castração do outro,
o ponto gerador de sua angústia, então há um recuo diante deste saber.
Retomando Lacan [18] , no seminário 17, “para estruturar corretamente um
saber , é preciso renunciar a questão das origens”. A histérica, para suportar a
angústia da castração do outro – um saber ordinário- renuncia e a cada
possibilidade de um retorno do que foi renunciado – recalcado- é elegido um outro
que supostamente saiba responder às suas questões.
Isto se torna um ciclo no movimento da histeria, [19]“ela quer que o outro
seja um mestre, que saiba muitas e muitas coisas, mas, mesmo assim, que não
saiba demais (...)” afirmou Lacan,1970.
Haverá sempre questões que a fará ir em busca de respostas, que serão
insuficientes marcando sua insatisfação, fazendo com que reinicie a busca pelo
saber. A insatisfação funcionaria aí como um recurso para afastá-la da angústia e
colocá-la sempre em movimento.
No contexto vigente onde impera o discurso da ciência que quer garantir
tudo na era do capitalismo, e da pluralização dos nomes do Pai, quando assistimos
um deslocamento do saber organizado pela lógica fálica para tantos outros modos
de organização do saber em sua relação com o furo, perguntaria: como fica o
movimento das histéricas, que segundo Laurent [20], seu sintoma “advém do amor
ao pai” ?
Aqui, não pretendia responder as questões, o trajeto que anunciei, de
fundamentá-las, se cumpre e deixa um desejo enorme de seguir na investigação de
tantas outras questões com as quais me encontro depois desta tentativa de cobrir
um “furo” encontrado nesta jornada dos estudos, não podia ser diferente!

Referências bibliograficas
[1] CAMPOS, Sergio Passos Ribeiro, 2011, Apresentação de uma nova
ordem, CURINGA 32- Confins do Simbólico
[2] MILLER, Jacques-Alain, Em direção à adolescência, 2015
[3] BRISSET, Fernanda Otoni de Barros, 2012, Não basta mais cochichar no
ouvido dos príncipes
[4] idem, 1
[5] MILLER, Jacques-Alain, Instituições milanesas, 2011 – Opção Lacaniana
– ano 2 – número 5
[6] idem, 5
[7] LACAN, J. A direção do tratamento e os princípios do seu poder, 1958
[8] FREUD,S. Sobre tipos neuróticos de adoecimento, 1912 – Neurose,
Psicose, Perversão – Obras incompletas de Freud , ed autentica, 2016
[9] FREUD, S. A cisão do eu no processo de defesa, 1940 – Compêndio de
psicanálise e outros escritos inacabados - – Obras incompletas de Freud, ed
autentica, 2014
[10] LACAN, J. As três formas da falta de objeto, 1956 – Livro quatro – A
relação de objeto, ed Zahar, 1995.
[11] NAVEAU, P. O que do encontro se escreve, estudos lacanianos 2017,
EBP editora
[12] BARROS, Romildo do Rêgo, O desejo da mãe – MÃES , 2015, editora
Subversos, RJ
[13] LACAN, J. A questão histérica (II): “O que é uma Mulher?”, 1956 – livro
3- as psicoses, ed. ZAHAR 1988.
[14] FREUD, S. A feminilidade – Conferência XXXII, 1933 – Amor,
sexualidade, amor – Obras incompletas de Freud, ed. Autentica, 2018
[15] idem, 13
[16] LACAN, J. Produção dos quatros discursos,1969 – Livro 17, o avesso
da psicanálise, ed. ZAHAR 1992.
[17] LACAN, J. Do mito à estrutura, 1970 – livro 17, O avesso da
psicanálise, ed. ZAHAR, 1992.
[18] idem, 17
[19] idem, 18
[20] LAURENT, E. Falar com seu sintoma, falar com seu corpo, 2012, VI
ENAPOL

O QUE A HISTÉRICA QUER SABER?


Graciana Guimarães

Neste trabalho pretendo investigar a posição que a histérica se coloca frente


a sua busca por saber. Na tentativa de localizar o saber no Outro, a histérica
esquiva-se do seu próprio saber sobre seu gozo, como tentaremos averiguar a
seguir.

O saber em psicanálise
A palavra saber deriva do latim sapere que se refere a “ter conhecimento,
ciência, informação ou notícia” e “ter sabor, agradar ao paladar” (CUNHA, 1982, p.
695). No decorrer do ensino de Lacan, esta palavra adquire um sentido diferente,
se afastando dos termos conhecimento, ciência, informação para, então, o saber
flertar com o sabor da verdade.
O saber em psicanálise difere do conhecimento, e é isso que Lacan explicita
“o que descobrimos na experiência de qualquer psicanálise é justamente da ordem
do saber, e não do conhecimento ou da representação”. O saber está relacionado a
um encadeamento significante, “trata-se precisamente de algo que se liga, em uma
relação de razão, um significante S1 a um outro significante S2”, e não ao acúmulo
de conhecimento, informações acerca de uma realidade. (LACAN, 1969-70/1992, p.
30).
Lacan, no seminário 17 explica que “saber é coisa que se diz, que é dita... o
saber fala por conta própria – eis o inconsciente” (LACAN, 1969-70/1992, p. 73).
Neste sentido, saber e inconsciente se parelham, podendo sugerir que o saber é
inconsciente, um saber que não se sabe. É pela surpresa, quando o sujeito se sente
ultrapassado, pelo que Freud denominou fenômenos do inconsciente, é que esse
saber aparece. Nesse tropeço, nessa hiância, produz-se um achado, que para o
sujeito tem um valor único, de verdade (LACAN, 1964/2008).
Também neste seminário 17, Lacan estabelece os quatro discursos,
importantes para a compreensão do que pretendemos neste trabalho, sendo eles o
discurso do mestre, o discurso da universidade, o discurso da histérica e o discurso
do analista. Luiz Henrique Vidigal, em Ensaios sobre os discursos em Lacan (sd),
lança luz a como esses discursos são constituídos. Em cada um desses discursos
observa-se que se delimitam quatro lugares ocupados por quatro letras diferentes.
Essas letras circulam na mesma orientação e ocupam lugares de acordo com o
discurso a que se referem, como pode ser visto abaixo:

O S1 corresponde ao significante mestre, S2 ao saber, $ ao sujeito, e a letra


a corresponde ao mais-de-gozo. Os lugares são de agente, Outro, produção e
verdade que se posicionam da seguinte forma:
O lado esquerdo,
onde estão os lugares de agente e verdade pode ser entendido como sendo o
campo do próprio, do íntimo, daquele que sustenta o discurso. O lado direito sendo
o campo da alteridade, onde estão os lugares do Outro e da produção (VIDIGAL,
sd).
No seminário O avesso da psicanálise, como explicita Vidigal, “Lacan
substitui o campo do Outro pela bateria de significantes (S 2) que forma um campo
não disperso, já estruturado de um saber” (VIDIGAL, sd, p. 16). Um significante
externo (S1) intervém no campo já constituído de outros significantes (S 2) e a
articulação desses significantes faz surgir $, denominado de sujeito dividido. Desse
trajeto de S1 a S2 aparece algo definido como uma perda, designado pela letra a
como objeto a, mais-de-gozo (LACAN, 1969-70/1992).
Essa articulação de significantes importa para compreender as nuances do
saber. O saber deriva do traço unário, em que um significante S 1 faz uma primeira
marca, e a partir daí se liga a um outro significante S 2. Essa ligação S1-S2, de uma
articulação significante, de um saber em trabalho, instaura a dimensão do gozo. O
saber trabalhando produz uma entropia, uma perda introduzida pela repetição, em
que se estabelece um mais-de-gozar a recuperar. O gozo seria um movimento de
recuperação desta perda, de algo que se perdeu por esse trabalho do saber
instaurado na articulação significante. Como tentativa de preencher essa perda,
surgem então objetos, objeto oral, anal, escópico e vocal, denominados objeto a. É
a partir do saber como meio de gozo que se busca um sentido, mencionado por
Lacan como um sentido obscuro, que é o da verdade (LACAN, 1969-70/1992).
Lacan em Radiofonia nos diz “É que, da verdade, não temos que saber tudo.
Basta um bocado...”, e ainda, “o real não é antes de mais nada para ser sabido”, “a
verdade situa-se por supor o que do real faz função no saber” (Lacan, 1970/2003,
p. 442 e 443). Uma verdade que só é acessível por um semidizer, alerta Lacan no
seminário 17, que não pode ser dita por inteira, porque para além de sua metade é
indizível (LACAN, 1969-70/1992).
Em Radiofonia, Lacan ironiza que com a verdade não se pode estabelecer
relação amorosa possível, a não ser ao qual ele garante ser segura, com a
castração (LACAN, 1970/2003). “O amor à verdade é o amor a essa fragilidade cujo
véu nós levantamos, é o amor ao que a verdade esconde, e que se chama
castração”. Então, a verdade se liga a impotência. O amor à fraqueza, à
impotência, isso é a essência do amor, é dar o que não se tem a fim de reparar
essa fraqueza original (LACAN, 1969-70/1992, p. 54).

A histérica e o saber
Nos quatro discursos elaborados por Lacan, o saber, S 2, ocupa diferentes
lugares em cada um deles, e neste trabalho deterei principalmente nos discursos do
mestre e da histérica, os quais nos ajudarão a compreender de certa forma a
relação da histérica com o saber.
No discurso do mestre, o saber está essencialmente no lugar do Outro, o do
escravo, que possui um saber-fazer referente à produção de gozo. E o mestre por
sua vez busca extorquir o escravo a fim de recuperar o resto de um gozo perdido
(NAVAEAU, 2017).
No discurso histérico o saber está colocado no lugar de gozo e o mestre é
quem trabalha para produzi-lo. A histérica se embaraça, interroga o mestre, S 1,
sobre sua relação com o saber, S 2, como visto no seu discurso essa relação
sugerida, S1/S2. Esse questionamento remete-se ao valor de a, sobre o que ela
mesma seria, uma pergunta lançada no campo do Outro sobre algo que está no seu
próprio campo, $/a, e o que escapa ao saber (NAVAEAU, 2017).
Ela quer que o Outro seja um mestre, daí S1 situado à direita acima no
discurso da histérica. E que este mestre saiba de muitas coisas, mas não tantas a
ponto de acreditar ser ela o prêmio máximo de todo o seu saber. Ela quer um
mestre sobre o qual ela reine e ele não governe (LACAN, 1969-70/1992).
No discurso histérico está instituída a pergunta sobre o que vem a ser a
relação sexual, de como um sujeito pode sustentar ou não esta relação. Colocando
o Outro como lugar deste saber, o sujeito histérico mostra-se estranho ao que de
fato está em jogo no saber sexual, permanecendo assim um saber recalcado
(LACAN, 1969-70/1992).
O sujeito histérico se aliena do significante-mestre o qual efetua a divisão do
sujeito e se recusa a dar-lhe corpo, explicitado por Helenice de Castro (2018) como
“uma recusa do corpo ao efeito de castração determinada pela incidência do S1”. Na
recusa do corpo, o sujeito não se coloca como escravo frente ao significante-
mestre. A histérica faz a seu modo, então, uma espécie de greve, como disse Lacan
no seminário 17, e não entrega o seu saber. Ela desmascara a função do mestre,
mas permanece solidária valorizando o que há de mestre no que é o Um,
esquivando-se assim de ser objeto de desejo (LACAN, 1969-70/1992).
Para a histérica o não saber ser a mulher a coloca em uma posição de
enunciação, onde o gozo do homem é posto como um saber da mulher. E que ela,
por sua vez, acredita não saber como proceder e nem do que é preciso fazer para o
gozo do homem. E ainda, acredita existir a mulher detentora desse saber. O
problema para a histérica não é o gozo feminino, mas sim o gozo masculino. “É
saber se o homem é um homem, se ele sustenta o Um”, se ele não tem medo da
castração, se ele consegue ser um mestre e se é capaz de colocar em jogo o Um da
vida. Então ela se direciona a outra em que ela julga ter esse saber, do gozo do
homem, e a faz seu objeto de admiração e adoração (NAVAEAU, 2017, p. 165).
A hiância entre a histérica e a mulher, a que sabe, instaura um conflito em
que mesmo a histérica não alcançando o gozo todo da mulher, que é impossível,
ela não cansa de desejar esse todo, permanecendo o seu desejo sempre insatisfeito
e recusando os gozos relativos.
Nesse sentido a histérica se vê dividida entre o gozo e o desejo,
caracterizado pela relação que ela estabelece com a mulher. A histérica não é nem
a mulher, a que sabe, nem uma mulher, a única de um homem (NAVAEAU, 2017).

O saber de Dora: o que ela nos ensina?


O caso Dora, publicado por Freud em 1905, exemplifica a relação da
histérica com o saber, e é relembrado por Lacan em diversos momentos em que
aborda a temática da histeria. Dora chega a Freud levada pelo pai, a perda da
consciência após uma breve discussão com este pai, foi o acontecimento último
que, mesmo relutante, a fez aceitar o tratamento. As intrigas em que Dora se
envolveu na relação que se estabeleceu entre ela, o Sr. K., a Sra. K. e seu pai, diz
da forma como ela conseguiu lidar com cenas nomeadas por Freud como
traumáticas. A cena do lago em que o Sr. K. fez uma investida amorosa a Dora e
uma cena anterior, quando esta tinha quatorze anos, em que o Sr. K. a imprensa
num vão de janela e a beija. Associado a isso, o pai que mantém um caso amoroso
com a Sra. K., sendo visto basicamente pela filha, enquanto a mãe pouco aparece,
envolvida apenas com as tarefas domésticas (FREUD, 1905/1996).
A relação estabelecida entre a Sra. K e seu pai faz sustentar para Dora o
desejo do pai idealizado. Lacan, no seminário 17, relembra a situação delicada de
saúde do pai de Dora, que escancara o homem castrado, e isso inclusive em
relação sua potência sexual. O pai em sua destinação simbólica, como um ex-
combatente, ex-genitor, está sempre em potência de criação. Esse papel-mestre
em que o pai ocupa no discurso da histérica, sob a perspectiva de potência de
criação, é o que faz sustentar sua posição em relação à mulher, mesmo este pai
estando fora de forma, como disse Lacan (LACAN, 1969-70/1992). Como aquele
que já não possui, e ao mesmo tempo possui o órgão, faz com que o pai não possa
ser castrado, pois já o é desde sempre. A histérica mantém o pai nesta posição
idealizada, tirando-o do combate, o que faz sustentar a crença de acesso a um gozo
absoluto. Com o vislumbre ao gozo absoluto, a histérica recusa o gozo sexual, já
que neste ela se depara com o gozo relativo que surge do embaraço da relação
com o outro, dos entraves da questão da potência e impotência do órgão masculino
(CASTRO, 2018).
Não é o órgão de Sr. K. que Dora disputa com a Sra. K., mas sim a joia que
seu pai, impotente, dá a sua amante. No caso de Dora, a Sra. K. ocupa a posição
de suposto saber, em que ela dirige sua admiração e adoração. A Sra. K. é a
mulher que sabe o que fazer para o gozo do homem, neste caso, o de seu pai, e é
a ela em que Dora se interroga o que é o gozo. Dora demonstra como a
transferência na histérica é orientada em direção à mulher, e como esse amor se
endereça ao saber (NAVEAU, 2017).
Na cena do lago, algo que se sustentava na relação entre o quarteto, Sr. e
Sra. K., Dora e seu pai, se desmorona. Quando Dora questiona ao Sr. K. sobre sua
mulher e este diz “minha mulher não é nada para mim”, ela se depara com duas
situações. Tem-se, então, a queda da mulher, a quem ela julgava ter o saber sobre
o gozo e a quem sustentava o desejo do pai idealizado. E também, neste momento,
o gozo do Outro é ofertado diretamente a ela, o que ela rapidamente recusa,
esbofeteando o Sr. K., porque, na verdade, o que ela quer é o saber como meio de
gozo (LACAN, 1969-70/1992).
No segundo sonho de Dora, seu pai está morto e ela é convidada a
comparecer ao enterro. Ela até tenta ir, mas se vê em sua casa vazia, folheando
um grande livro, um dicionário. Neste sonho, observa-se a passagem pelo pai
idealizado, o pai está morto, e evidencia a manobra histérica de instalar o saber
como meio de gozo, quando Dora escolhe folhear o dicionário. Dora encontra um
substituto para este pai em um livro, um livro em que se ensina o que diz respeito
ao sexo, como salienta Lacan. E isso demonstra o que de fato importa a Dora, para
além inclusive da morte de seu pai, é o que ele produz de saber, de um saber sobre
a verdade (LACAN, 1969-70/1992). Dora, ao fazer confusões com as intrigas
envolvendo seus familiares, é levada a Freud como mentirosa e é no percurso da
análise que ela pôde fazer valer a sua verdade (LAURENT, 2007 apud CASTRO,
2018). “Isto é o que lhe bastará da experiência analítica. Essa verdade em que,
preciosamente, Freud a ajuda” (LACAN, 1969-70/1992, p.102).
Este momento, como salienta Helenice de Castro (2018), teria sido uma
virada na análise de Dora, que caso tivesse continuado, poderia ter construído um
saber que a aproximasse de seu modo particular de gozo, desvinculado daquele
ligado a privação em que ela se encontrava.

Conclusão
A partir da escrita deste trabalho foi possível verificar que este
questionamento da histérica ao Outro, de buscar o saber no campo do Outro, só a
faz distanciar mais do seu próprio saber sobre o seu gozo. A histérica, então, não
quer saber nada sobre o seu próprio gozo e isso, de certa forma, seria uma defesa.
Ao sustentar um mestre potente, detentor de um saber total, a histérica esquiva-se
de deparar com a impotência, com a castração. Com a possibilidade de um trabalho
em análise, como visto no caso Dora, essa figura de mestre pode se esvair aos
poucos. Com isso, é possível dar lugar a construção de um saber sobre a própria
verdade, sobre o que há de particular no gozo de cada histérica.

Referências Bibliográficas:
CASTRO, H. de. (2018) Neurose sem Édipo: Enxame#1. Disponível em:
<http://jornadaebpmg.blogspot.com/2018/05/enxame-2-2-pingos-nos-is.html> Acesso em:
13 jun. 2018.
CUNHA A. G. da. Dicionário etimológico nova fronteira da língua portuguesa. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1882.
FREUD, S. (1905) ”Fragmento da análise de um caso de histeria”, In: Edição Standard
Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud v. VII. Rio de Janeiro:
Imago, 1996.
LACAN, J. (1969-70) O Seminário. Livro XVII: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Ed., 1992.
______ (1964) O Seminário, Livro XI: Os quatro conceitos fundamentais da
psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.
______ (1970) “Radiofonia”, In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p.
403-447.
NAVEAU, P. O que do encontro se escreve. Estudos Lacanianos. Belo Horizonte: EBP,
2017.
VIDIGAL, L. H. Ensaios sobre os discursos em Lacan. Belo Horizonte: Editora Tahl, sd.
MESA 3: O discurso analítico
Coordenador: Fernando Casula
Debatedora: Cristiana Pittella

DO SINTOMA AO QUE RESTA NO FINAL DE UMA ANÁLISE


Rodrigo Almeida

A questão da eficácia da psicanálise está posta desde seu início. Freud, em


seus textos sobre a técnica, mostra preocupação tanto com aquele que exerce a
psicanálise quanto com a efetividade de seus resultados.
Em “Análise terminável e interminável”, de 1937, notamos um tom
pessimista com relação às dificuldades no caminho de um tratamento analítico.
Esse texto traz pontos importantes sobre as alterações do EU, a força da pulsão de
morte, as resistências do analisante e seu fator impeditivo para que a análise
chegue a seu termo. Além disso, Freud também percebe um ponto residual do
sintoma que resiste e que pode ser um risco ao resultado final da análise. É
importante ressaltarmos, ainda, o questionamento sobre a possibilidade de impedir
não só uma nova neurose, mas também o retorno dos sintomas já tratados.
Em um extrato de uma carta de Freud a Fliess sobre o tratamento de uma
paciente que está chegando ao fim da análise, Freud fala de sua preocupação com
os resíduos de seu sintoma:

Estou começando a entender que a natureza aparentemente interminável


do tratamento é algo determinado por lei e depende da transferência.
Espero que esse resíduo não prejudique o sucesso prático. Compete
apenas a mim decidir se o tratamento deve ser ainda mais prolongado,
mas raiou em mim que tal prolongamento constitui uma conciliação entre
estar doente e estar bom que os próprios pacientes desejam e na qual,
por essa razão, o médico não deve consentir (FREUD,1996d, p. 229).

Ao afirmar que “há quase sempre fenômenos residuais” (1996d, p. 244),


Freud se refere a algo que não foi removido de seu lugar durante o tratamento. Sua
preocupação sobre o retorno dos antigos sintomas ao final de uma análise ou de
uma nova neurose nos coloca diante daquilo que o sintoma traz para a psicanálise
como “o que há de mais real” (2011) 1. Na conferência de 1917, “Os caminhos da
formação do sintoma”, Freud expõe o sintoma como formação do inconsciente mais
duradoura, que possui um sentido; portanto, pede interpretação. Os sintomas são
formações de compromisso entre as exigências pulsionais e a realidade.
Sabemos que o sintoma traz o singular a cada sujeito, porém ele guarda em
si algum traço da identificação ao Outro. A psicanálise traz a identificação como um
traço, que constitui e instaura o aparato psíquico do sujeito. Assim, a identificação
faz sintoma, pois o Outro é a referência, e o sujeito vai tentar responder ao que o
outro quer dele.
Freud, durante seu percurso, vai se deparando com impasses na construção
de sua teoria a partir dos efeitos observados em sua clínica. Um ponto que parece
importante e que sempre nos confronta na clínica é o que ele nomeou como reação
terapêutica negativa. No capítulo 5 de “O ego e o id” (1996b), ele diz que este é o
mais poderoso de todos os obstáculos à cura, pois há um apego ou ganho com a
enfermidade, em que ele nota que algo ainda resta e resiste, “a necessidade da
doença levou a melhor” (1996b, p. 62).
Em “O problema econômico do masoquismo” (1996c), Freud traz uma
importante elucidação sobre a reação terapêutica negativa no que ela se relaciona
com a satisfação do sentimento inconsciente de culpa e sua relação com o
masoquismo moral, no qual o que importa é o sofrimento. Freud, diante desse
impasse que configura a resistência ao processo de análise e de cura do sintoma,
questiona a eficácia do tratamento.
Notamos, então, que, na identificação presente no sintoma, há algo que
resta e resiste ao tratamento analítico. Este resíduo, portanto, tem relação com a
identificação. Lacan retoma o tema da identificação não apenas como algo do outro
com o qual nos identificamos, mas também como identificação ao significante. Ele
aponta a identificação ao traço – esse traço não no sentido mítico da identificação,
mas que possibilita a própria cadeia significante, um traço único ao sujeito.
Portanto, esclarece-nos sobre a identificação e seu lugar na formação do sintoma.
Lacan afirma que “o sintoma é o significante de um significado recalcado da

1
Disponível em:
<http://www.ebpsp.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=579:ler-um-sintoma-
jacques-alain-miller&catid=23:textos&Itemid=54>. Acesso em: 19 jun. 2016.
consciência do sujeito” (1998, p. 282). Será em torno desse significante que o
sujeito perguntará: o que quer dizer isso? Isso seria o pedido de deciframento do
analisante de seu sintoma e que remete a algo desconhecido sobre seu modo de
gozo. Ao aproximar a letra do sintoma, Lacan articula o simbólico e o real pelo viés
do significante.

Assim é que se o sintoma pode ser lido, é por já estar inscrito, ele
mesmo, num processo de escrita. Como formação do inconsciente, ele
não é uma significação, mas a relação desta com a estrutura significante
que o determina (LACAN, 1998, p. 446).

Lacan, ao propor que a letra faz o ciframento do gozo, traz a ideia do


sintoma como uma inscrição, e em sua articulação no inconsciente é possível que
ele seja lido.
Dizer que é possível ler o sintoma vai em direção a privar o sintoma de
sentido, vai da escuta do sentido à leitura do fora de sentido, vislumbra-se um
resto mais além da interpretação freudiana. Assim esse resíduo comporta algo a se
considerar na clínica, um além dos efeitos de uma análise. Miller nos esclarece
sobre a prática:

Nossa prática se prolonga mais além do ponto em que Freud considerava


que há finais de análise, mesmo se houver que retomar a análise, nossa
prática vai mais além do ponto que Freud considerava como fim de
análise. Em nossa prática, assistimos, então, à confrontação do sujeito
com os restos sintomáticos. Passamos, certamente, pelo momento de
decifração da verdade do sintoma, mas chegamos aos restos sintomáticos
e ali, não dizemos stop. O analista não diz stop e o analisante não diz
stop. A análise nesse período se dá pela confrontação direta do sujeito
com o que Freud chamava de restos sintomáticos e aos quais damos outro
estatuto muito diferente. Sob o nome de restos sintomáticos, Freud
chocou-se com o real do sintoma, com o que, no sintoma, é fora de
sentido (MILLER, 2011, s. p.).

O real do sintoma que persiste e que é observado por Freud talvez seja o
que dê o tom pessimista de “Análise terminável e interminável”, mas ao pensarmos
em um ir além, podemos contar, numa saída de análise, com a fecundidade de tais
restos sintomáticos, pois não há sintoma sem resto e este ponto que marca o fora
de sentido do sintoma.
Saber ler o sintoma pelo fora de sentido é a possibilidade de tocar o gozo
no que o sintoma guarda de mais original ao sujeito. A proposta não é de uma
análise infinita, mas de um final em que o sujeito passa a um saber fazer com o
particular de seu sintoma.
Trata-se de um ponto que só pode ser observado a partir de uma análise
levada ao seu final. Não se trata de tentar remodelar esse resíduo, nem para o
analisante ao final da análise, nem para o analista em seu fazer clínico. É de suma
importância para o “sucesso” de uma análise que o analista toque em algo do real,
onde se encontra a singularidade de cada sujeito.
Observamos isso nos testemunhos de Passe, dispositivo criado por Lacan
diante do impasse freudiano sobre o final de análise. Para o analisante que se
propõe analista, o fim de análise vai trazer a possibilidade de um novo saber. Há
um um resíduo ao final de análise, com o qual o sujeito tem que se haver. Bassols
(2009, s. p.) nos diz deste resíduo e sua importância:

[...] o destino dessa manifestação residual parece então crucial no vir a


ser e no futuro da psicanálise, naquilo que ela pode nos demonstrar como
a novidade inédita do desejo do analista. Ele é o testemunho disso que
insiste para além das formações do inconsciente do sujeito como seu
verdadeiro parceiro sintoma.

Como nos lembra Cosenza, o final da análise desemboca na relação do


sujeito com o gozo pulsional, quando ele fará uma nova aliança com a pulsão,
assumindo assim algo do real, e este real extraído da construção fantasmática, pela
qual o sujeito ao final da análise não mais se determina.
Portanto, o resto sintomático, irredutível, notado por Freud que o leva a
questionar a eficácia de sua técnica, é um ponto com o qual cada sujeito vai se
reencontrar no percurso de sua análise, um resto cujo lugar o próprio inconsciente
se encarregará de mostrar. Nas experiências do passe, notamos o lugar final deste
resto para cada analisante. Há sempre um destino evidenciado pelo singular em
cada fim de análise.

Referências Bibliográficas
BASSOLS, Miquel ____O Resto a Demonstrar – Algumas notas para além das formações do
inconsciente. In: <institutopsicanalise-mg.com.br/horizontes/textos/Oresto.doc > Acesso
em: 19 jun. 2016.

DE INCONSCIENTES. Fin de Análisis / Domenico Cosenza. Publicado em 17 de julho de


2017 na plataforma YouTube. Disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=xDVzNy4Husc>. Acesso em: 07 set. 2018.

FREUD, S. Conferência XXIII: Os caminhos da formação do sintoma – Vol. XVI. In:----.


Obras completas psicológicas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996a, p. 361-
378.

_________. O ego e o id – Vol. XIX. In: _____. Obras completas psicológicas de


Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996b, p. 15-80.

________. O problema econômico do masoquismo – Vol XIX. In:______. Obras completas


psicológicas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996c, p. 175-188.

_______. Análise terminável e interminável – Vol. XXIII. In: ______. Obras completas
psicológicas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996d, p. 231-270.

_______. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In: ___. Escritos. Rio de
Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1998, p. 238-324.

______. A psicanálise e seu ensino. In: ______. Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar
Editor, 1998, p. 438-460.

______. A instância da letra no inconsciente ou a razão em Freud. In:______. Escritos. Rio


de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1998, p. 496-533.

MILLER, J. Ler um sintoma (2011). Disponível em: <http://ebp.org.br/sp/ler-um-sintoma/>.


Acesso em: 07 set. 2018.

DE UM REAL AO OUTRO: O CORPO E SEUS IMPASSES NA CLÍNICA

CONTEMPORÂNEA, CASO G.

Mariana Magalhães Miranda

Desde a década de 70 o ensino de Lacan nos coloca frente ao real e ao


advento da ciência bem como os atravessamentos do mesmo nos sintomas dos
sujeitos contemporâneos. Atualmente, vivemos em um mundo em que o uso das
palavras é cada vez mais precário para nos apropriarmos de algum sentido frente
ao real dos corpos e a não existência da relação sexual. Pois bem, diante desse
contexto, exponho aqui fragmentos de um caso clínico que comecei a atender logo
que me formei em psicologia no ano de 2016 e pode vir a nos ensinar algo da
clínica contemporânea e a direção do tratamento na mesma.
“G” tem 25 anos e me procura a partir do encaminhamento de um projeto
universitário de atendimento à alunos de uma faculdade privada de Belo Horizonte.
No primeiro contato, pelo telefone, “G” diz: ““ Ei Mariana, tudo bom? Me passaram
seu número e de uma outra pessoa. Como faço, ligo para a outra pessoa também?
Já te contei que machuquei minha mão? “(sic)”. Marcamos a primeira sessão em
que” G” diz a seguinte frase : “ Sou um cara muito ansioso e tenho tido crises de
ansiedade muito pesadas , sabe ?! “(sic). “G” menciona que acabou de sair de
casa, ingressou em vários cursos universitários e não conseguiu concluí-los. “G” diz
não ter controle de quando essas crises de ansiedade podem acontecer. “Às vezes
guardo as coisas por muito tempo e aí explodo, te contei o que aconteceu com
minha mão? “(sic). “G” me conta que em uma discussão entre seu cunhado e sua
noiva, seu cunhado teria ficado muito agressivo o que o deixa com medo e nervoso
de um dia ele fazer algo com sua noiva. Relata que teve vontade de “avançar” nele,
mas sua noiva o impediu. No entanto, quando “G” retorna à sua casa ele pega uma
faca, esfaqueia o sofá inúmeras e repetidas vezes até cortar sua mão e romper com
um ligamento no dedinho, o que segundo ele o impediria de ser cirurgião, seu
grande sonho.
Em outras sessões aparece para “G” o corpo como um recurso para lidar
com o mal-estar nas relações, principalmente em relação à sua mãe e sua noiva.
“G” relata uma cena em que viu sua mãe fazendo xixi de porta aberta e aquilo lhe
foi insuportável de tal maneira que ele desejou dar um tapa na cara da mãe. O
corpo em cena aparece então como um recurso para “G” para lidar com o real, a
falta. Em análise, na maior parte das sessões, ao sentar-se e colocar-se diante do
lugar de fala, “G” dizia: “Estou enjoado” (sic), “É só chegar aqui que fico enjoado”
(sic) ou “Sai daqui semana passada enjoado, com a boca seca” (sic). A analista,
nesse sentido sempre insistia no convite para falar sobre esses enjoos, crises de
enxaqueca entre outros mal-estares que “G” trazia, bem como em marcá-los na
sessão.
Bom, o que se configura ao longo atendimento de “G” é uma marca frente à
castração, marca essa que ele coloca o corpo em cena, seja um corpo doente ou
um corpo agredido. “G” me conta em uma das sessões que quando pequeno, toda
vez que se irritava com sua mãe bêbada ( a mãe de G é alcoólatra) se trancava em
seu quarto e dava socos na parede para não ter que bater nela e liberar sua raiva ,
“ dava adrenalina” ele diz. No que tange sua relação com sua mãe “G” diz que ela
nunca ou amou e que por muitas vezes se sentia envergonhado de ter que busca-la
em bares bêbada.
Em uma sessão, “G” relata um episódio em que tivera a vontade dar um
tapa na cara de sua mãe. Em uma ocasião, na infância, ao ver a mãe fazendo xixi
de porta aberta “G” fica irritado e sai correndo para esmurrar a parede de seu
quarto. A frequência de “G” nas sessões era muito instável, bem como sua
dificuldade de estabelecer um emprego e um curso de graduação na faculdade. Por
conta de uma dificuldade financeira, “G” interrompe a análise, logo depois de uma
briga com sua noiva.
A noiva de “G” sofria de uma doença crônica grave, que segundo ele quando
ela estava estressada piorava. Por ocasião de uma briga com o irmão, a noiva de
“G” foi internada e a relação dos dois que já não estava boa, veio a se diluir. “G”
manda uma mensagem para analista muito angustiado e lhe pedindo uma sessão
com urgência. A sessão é marcada e logo depois, “G” entra em contato com a
analista dizendo que havia batido com a cabeça na parede e estava a caminho da
UPA por conta de uma discussão com a noiva no hospital.
Após esse episódio “G” retorna às sessões e consegue fazer uma leitura da
sua posição em relação à noiva, e sua ansiedade para falar com ela, protege-la e
casar-se com ela. Os dois decidem romper com o relacionamento, de maneira que
“G” diz em analise estar decido a dar continuidade ao curso de graduação e decide
interromper a análise. Na última sessão ele me diz “Mariana, eu preciso de
interromper agora porque preciso de juntar dinheiro, sair da casa da minha mãe e
continuar com meu curso. Eu não vou parar, não posso parar assim como paro tudo
em minha vida. Pretendo voltar.” (sic)
Bom, o que pretendo recortar e procurei expor nessa construção do caso de
“ G” é o lugar que o corpo ocupa na constituição do seu sintoma e como o mesmo
lhe serve como uma defesa frente à castração, ao real. Freud em “ O sentido dos
Sintomas” , nos ensina que os sintomas neuróticos tem seu sentido assim como os
atos falhos e os sonhos, de tal forma que estabelecem uma relação com a vida de
quem os detém. No mesmo texto Freud (1916) se refere a neurose obsessiva como
uma manifestação louca para época ,ele nos ensina também que a ação obsessiva
está ligada à uma cena obsessiva e portanto promove a repetição da mesma.
Se tomarmos aqui, o que “G’ repete tanto nas sessões de análise quanto a
nas cenas que descreve, vemos que o corpo tem um lugar privilegiado. Um corpo
que se associa com a frase dita por “G” ao ver a mãe bêbada: “Minha mãe não me
ama” (sic) e ao se ver diante do desamparo do Outro, se adoece e se violenta. Não
pretendo me ater à associação da frase dita por “G” e sua relação com o corpo em
cena, até porque o mesmo não deu continuidade aos atendimentos para poder
elaborar algo sobre isso. Mas o ponto que nos interessa aqui, é como o corpo é
uma tentativa de resposta frente ao real, ao sem sentido na relação com outro, ora
a noiva, o cunhado ou a mãe de “G”.
Lacan em o Livro seminário 23, Sinthoma nos ensina que o real é um
pedaço, um caroço que não se liga a nada e que padece de sentido. Ao mesmo
tempo ele aponta que esse pedaço de real, se repete, não cessa de não se
inscrever na linguagem e por sua vez podemos lê-lo da seguinte forma: “A pulsão
de morte é o real na medida em que ele só pode ser pensado como impossível.
Quer dizer que, sempre ele mostra aponta do nariz ele é inapreensível. Abordar
esse impossível não poderia constituir uma esperança, por que é impensável, é a
morte- e o fato de a morte não poder ser pensada é o fundamento do real.” (Lacan,
p. 121)
Esse impossível que podemos ler como, a pulsão de morte deixa marca,
registro para cada sujeito e é de certa forma o que podemos ler no modo como “G”
se apresenta com seu corpo frente à castração e o furo no outro. Em: o livro os
quatros conceitos fundamentais da psicanálise, seminário 11, Lacan se dedica em
uma lição a explicar o conceito de Tiquê e Automaton. No seguinte trecho ele
coloca:

Primeiro a tiquê que tomamos emprestada, eu lhes disse da última vez,


do vocabulário de Aristóteles em busca de sua pesquisa da causa. Nós a
traduzimos por encontro do real. O real está para além do autômaton,do
retorno, da volta, da insistência dos signos, aos quais, nos vemos
comandados pelo principio do prazer. O real é o que vige sempre por trás
do automaton, e do qual é evidente, em toda a pesquisa de Freud, que é
o que dele cuida. (Lacan, p.59)

Para Lacan o conceito de Tiquê com o qual me interessa trabalhar nesse


contexto pode ser lido como o encontro com o real. Um real que antecede o
automaton e como ele coloca o que Freud dedicou-se fielmente aos estudos ao
longo de seu trabalho na clínica. O encontro com o real, é singular, isso a
psicanálise nos ensina. De tal maneira que para cada sujeito fica uma marca e uma
forma de responder á esse real. Em um outro momento da mesma lição Lacan
apregoa que o real sendo da ordem do inassimilável está, portanto, ligado ao
trauma, ao traumatismo.
O trauma como vemos em o “Sentido dos sintomas” é o que vem dar forma
ao sintoma. Há algo desse traumático, de um real para aquele sujeito, nesse caso “
G” que não cessa de se inscrever colocando seu corpo em cena. No entanto, minha
proposta nesse artigo era de trazer não somente parte da leitura da representação
no corpo desse impossível para “G”, mas apontar também a cautela e os impasses
que , nesse caso, se fizeram presentes para a continuidade da análise de “G”.
Como apontei, “G” se endereça várias vezes à analista com seu corpo. Ao
chegar ou ao sair da sessão, é o corpo que fala mais do que as palavras. Procurei
acolher aquilo que “G” trazia e à medida que era possível falar desse corpo e desse
outro tão perturbador (às vezes muito grande, paranóico) “G” conseguia relativizar
a proporção da dor que a falta do outro lhe causava e procurar outros caminhos
possíveis para dar continuidade à sua vida, trabalho, volta à faculdade. No entanto,
Lacan nos alerta sobre a repetição desse real, dessa tiquê na transferência, o que
tomo como hipótese aqui, para pensar o porque esse sujeito interrompe seu
tratamento.
“G” interrompe a análise e diz que não gostaria de parar, assim como para
com tudo em sua vida, mesmo frente ao convite da analista que marca a
importância de dar lugar a esses conflitos com o outro que retornam sobre o seu
corpo. Acredito que a pergunta e direção que esse recorte nos deixa é: O que pode
a transferência frente à uma clínica tão tomada pelo real (in) corporado? A aposta
que fiz como analista era de fazer falar e dar sentido a esse real a partir das
palavras, promover um certo esvaziamento, mas que não foi suficiente para
sustentar a transferência bem como o querer se valer das palavras na para dar um
novo sentido ao seu sintoma.

Referências Bibliográficas
FREUD, Sigmund. O sentindo dos sintomas in: Conferências introdutórias à
Psicanálise [1916-1917] p.343. Tradução: Sergio Tellaroli. São Paulo: Companhia das
Letras, 2010, 629p.
LACAN, Jacques, 1975-76. O seminário, livro 23 o sinthoma / Jacques Lacan.
Tradução: Sérgio Laia. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. 251p.
LACAN, Jacques, 1964. O seminário, livro 11 os quatro conceitos fundamentais
da psicanálise/ Jacques Lacan. Tradução: M. D Magno. Rio de Janeiro: Zahar, 2008,279 p.
A JANELA DA ESCUTA: ATENDIMENTO PSICANALÍTICO DE
ADOLESCENTES EM INSTITUIÇÕES DE SAÚDE

Thaís de Campos Meneses

INTRODUÇÃO

Atualmente, vemos cada vez mais analistas sendo convocados a intervir e


atuar dentro de instituições como hospitais, escolas, internatos, centros de sócio
educação, presídios, entre outros.
O presente artigo lança mão do ambulatório “A Janela da Escuta”, ao escutar
os adolescentes que lá chegam, para discutir sobre a atuação de diversos
profissionais guiados pela ética da psicanálise em instituições que atuam dentro da
saúde do adolescente.
Para pensarmos o lugar do analista nessas instituições, se faz necessário
compreender sobre a psicanálise aplicada.

A PSICANÁLISE APLICADA

Lacan (1967) sugeriu os termos “extensão” e “intensão” para assinalar a


diferença entre a psicanálise propriamente dita, que faz parte da formação do
analista e que visa resultar no passe, e a psicanálise possível no corpo social. Em
seus termos:

“Psicanálise em extensão, ou seja, tudo o que resume a função de nossa


Escola como presentificadora da psicanálise no mundo, e a psicanálise em
intensão, ou seja, a didática, como não fazendo mais do que preparar
operadores para ela”. (LACAN, 1967, p. 251).

Para Miller (2008), o analista dentro das instituições não irá possibilitar um
lugar de escuta como é nos consultórios isolados e, também ali, o sujeito analisante
não é convidado a falar o que quiser. Nas instituições vemos “[...] um lugar de
respostas, um lugar em que falar à toa assume a forma de questão e a própria
questão, a forma da resposta.” (Miller, 2008, p. 9)
Na psicanálise aplicada, a partir de certo dizer esclarecedor, o analista pode
“[...] separar o sujeito da desordem contra a qual ele se insurge [...]. Disso resulta
frequentemente um efeito de alívio, proporcional ao efeito de liberação de um
destino que acorrenta o sujeito à sua certeza”. (SANTOS, 2005, p. 46)
Os efeitos psicanalíticos alcançados nas instituições

“[..] resultam não apenas do enquadre, como também do discurso, isto é,


da instalação de coordenadas simbólicas por alguém que é analista e cuja
qualidade profissional não depende do terreno apropriado do consultório,
nem da natureza da clientela, e sim da experiência em que ele se
engajou”. (Miller, 2008, p. 8)

Para que o sujeito possa se beneficiar da psicanálise nos ambientes


institucionais, produzindo uma retificação subjetiva, não é necessário um logo
período de tempo como vemos muitas vezes na psicanálise pura.
Sobre o tempo, Santos (2005) nos aponta que “[...] a abreviação do tempo
seleciona o material. Não se falará de tudo: ali onde “isso sofre” não é
necessariamente onde “isso fala”” (Santos, 2005, p. 47). O analista tentará
organizar de alguma forma a questão do sujeito, dirigindo assim o assunto a ser
trabalhado nos encontros.
No atendimento no ambulatório “A Janela da Escuta” propõe-se que seja
realizado em torno de dezesseis atendimentos com cada sujeito adolescente.

A ADOLESCÊNCIA

Freud (1905) nos relata que com a entrada da puberdade, a vida sexual da
criança se configura decididamente. Antes desta fase, a pulsão sexual era
basicamente auto erótica e as zonas erógenas independiam umas das outras. Com
a entrada na puberdade surge novo alvo sexual: a zona genital.
Segundo o autor, tanto para o menino quanto para a menina “A afeição
infantil pelos pais é sem dúvida o mais importante, embora não o único, dos
vestígios que, reavivados na puberdade, apontam o caminho para a escolha dos
objetos” (FREUD, 1905, p. 215).
Na adolescência, ainda segundo Freud (1914), o sujeito precisa buscar
formas de se separar de seus pais, buscar novas referências, novos ideais.
Para Lacan (1954), os meninos adolescentes não pensariam em fazer amor
com as mocinhas sem o despertar de seus sonhos. Isso não é satisfatório, pelo
contrário, é mal sucedido para todos uma vez que a sexualidade faz furo no real.
Os adolescentes necessitam da fantasia para encontrar formas de lidar com a
sexualidade.
Miller (2015) relata que os adolescentes são quem inicialmente percebem as
consequências do que ele nomeia como declínio do Nome-do-Pai na
contemporaneidade. Para ele, diante de uma vasta gama de objetos ofertados aos
sujeitos, estes passam a buscar o saber não mais no campo do Outro, uma vez
que, supostamente, a voz do pai perde sua importância.
Sendo assim, o que vemos na contemporaneidade são adolescentes que não
encontram tão facilmente novas referências, passando então a serem orientados
pelo gozo e não mais pelo ideal. São sujeitos que estão sempre em busca de um
gozo que se encontra sem limites, sujeitos guiados por um imperativo que manda-
os gozarem sempre mais e mais.
Recorremos novamente a Miller (2015), ao citar Hélène Deltombe, em seu
artigo “Les enjeux de l’adolescence”, para dizer que novos sintomas relacionados ao
laço social se apresentam diante do enfraquecimento do Outro. Esses sintomas
podem se tornar fenômenos de massa ou epidemias, como alcoolismos,
toxicomanias, delinquências, tentativas de autoextermínio ou de suicídio, etc. São
sintomas contemporâneos, todos relacionados ao excesso de gozo.
Guerra (2012) acrescenta que

“Incessante e inadiável, tomado como imperativo na contemporaneidade,


o gozo, infinito e mortífero do qual o sujeito se vê refém, pode incitar o
sujeito a atos agressivos contra si mesmo e ou contra o outro. Esses atos
podem ser pensados como tentativas de se esvaziar desse excesso [...].
Daí a possibilidade de se considerarem tais atos como soluções
sintomáticas na adolescência [...]”. (GUERRA et al, 2012, p. 257).

Os psicanalista que atuam nas instituições se deparam com sujeitos que


estão “desconectados” do laço social. Para Miller (2008), “Na linguagem
administrativa contemporânea, a desconexão social tem um nome comum:
desinserção.” (MILLER, 2008, p. 13); e é nesta desinserção social que muitas vezes
encontramos os adolescentes que chegam às instituições.

O LUGAR DOS ADOLESCENTES NA SAÚDE

Nos deparamos com esses sintomas contemporâneos citados anteriormente


nos diferentes dispositivos institucionais em que os adolescentes são inseridos na
sociedade: escola, instituições de acolhimento, instituições de saúde, entre outros.
Mas, segundo Cunha (2017), nas instituições de saúde, percebe-se certa recusa
diante do acolhimento destes adolescentes. Para a autora, pontos como a
sexualidade, conflitos e dificuldade escolares, geralmente são questões abordadas
pela saúde, quando o são, pela via da patologização, encaminhamentos para a
saúde mental, medicalização ou até mesmo pela via da judicialização.
Os adolescentes encaminhados para essas instituições são “[...]
adolescentes “completamente descontrolados”, que não aderem ao tratamento, que
“fracassam” na escola, que se recusam a comer, que se cortam, que se drogam,
que infracionam” (CUNHA, 2017, p. 3). Esses sujeitos muitas vezes são colocados
no lugar de dejeto nas instituições.
Lembrando que, para Miller (2010), dejeto é o rejeitado, “[...] É o que cai, é
o que tomba quando, por outro lado, algo se eleva. É o que se evacua, ou que se
faz desaparecer, enquanto o ideal resplandece” (MILLER, 2010, p. 228)
Ainda segundo o autor, para que o sujeito não seja rebaixado a dejeto, é
necessário que uma parcela do gozo seja sublimada, socializada. “O que chamamos
de “sublimação” efetua uma socialização do gozo.” (MILLER, 2010, p. 229) O gozo
então se integra ao laço social e passa a ser colocado a trabalho do discurso do
Outro.
O autor nos lembra que a sublimação é “[...] o meio por onde o gozo, [...]
entrelaça-se com o discurso do Outro e vem se inscrever no laço social. [...] apenas
através da sublimação que o gozo faz laço [...]” (MILLER, 2010, p. 229)
Os jovens que procuram ajuda nas instituições de saúde são sujeitos que,
como já foi dito, estão em busca de novas referências, novos ideais, mas o que
encontram é o enfraquecimento do Outro, uma falta de algo que barre um gozo
sem limites.
Diante deste cenário, o ambulatório “A Janela da Escuta” possibilita aos
jovens um ambiente de acolhimento e escuta, um espaço para que eles possam
dizer de suas angustias.

A JANELA DA ESCUTA

O ambulatório “A Janela da Escuta” faz parte do Núcleo de Saúde do


Adolescente do Hospital das Clínicas da UFMG e está inserido no CIEN - Centro
Interdisciplinar de Estudos sobre a Criança do Campo Freudiano – como o
laboratório A Janela da Escuta.
No ambulatório nos deparamos com “[...] uma clínica do resto [...] na qual o
singular acede a uma dimensão política. No centro da construção, preserva-se o
lugar vazio, em torno do qual as narrativas podem ser tecidas” (CUNHA, 2017, p.
3).
Para o ambulatório, mais do que diagnosticar e excluir doenças orgânicas, é
necessário, segundo Cunha (2014), “abrir a janela da escuta”, considerar a
subjetividade e escutar o saber do adolescente. “A aposta desse trabalho é a
construção de um intervalo, de um tempo, mesmo fugaz, de elaboração”. (CUNHA,
2014, p. 27)
O ambulatório tem como objetivo

“Acolher os casos que se constituem como impasses para as políticas


públicas e, a partir da construção do caso que resgata o saber do jovem,
inventar novas formas de intervenções clínicas e de articulações políticas,
apostando que a construção pode provocar o surgimento de uma equipe
concernida a cada caso. Dessa forma, há um deslocamento de uma
prática rígida, protocolar, pautada por ideais impostos aos jovens e
também de uma posição de recusa ao acolhimento vivo do adolescente,
para uma prática norteada pela singularidade, pela invenção que
ultrapassa o caso, ao considerá-lo como exceção e paradigma, a um só
tempo”. (CUNHA, 2017, p. 3)

No “Janela da Escuta” nos deparamos com profissionais de diversas áreas


que realizam atendimento multiprofissional guiado pela psicanálise: lá vemos
médicos, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, psicopedagogos, artistas,
entre outros, que acolhem o adolescente e sua família. Sobre o atendimento no
ambulatório, Cunha (2017) nos diz que “A interlocução interdisciplinar preserva o
lugar central no qual o saber do adolescente pode emergir e nos guiar” (CUNHA,
2017, p. 4).
Santos (2005) nos lembra que o ato analítico vai em direção contraria dos
avanços do discurso da ciência e suas formas de lidar com a gestão da saúde
mental e mal-estar da sociedade. A psicanálise, diferentemente da ciência,
responsabiliza o ser falante por sua posição enquanto sujeito, como nos diz Lacan
(1965), possibilitando que o próprio sujeito encontre o saber sobre si e nos mostre
o percurso de trabalho, pois, como nos fala a coordenadora do ambulatório,
Cristiane Cunha, “o adolescente é especialista de si mesmo”.

CONCLUSÃO

Os jovens no contemporâneo muitas vezes estão diante de certo desamparo


social, fora do laço e sem lugar nas instituições de saúde, como vimos
anteriormente. Isso é agravado ao considerarmos ainda as angustias e o
desamparo que já são próprios à adolescência.
O ambulatório “A Janela da Escuta” colabora, ao dar lugar e voz a esses
sujeitos, para que eles possam sair da posição de dejeto da sociedade, encontrando
suas próprias formas de fazer laço.
A partir de um trabalho guiado pela psicanálise aplicada, o ambulatório
possibilita que algo seja construído junto ao adolescente, que este sujeito possa
elaborar algo sobre si, sobre a queixa que o trouxe até a instituição e, a partir daí,
possa encontrar certo efeito de alivio diante de suas angustias.

Referências Bibliográficas
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Horizonte: Scriptum, 2014, p. 19-179.
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