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ANO 12 / NÚMERO 141 R$ 14,90

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UMA NOVA ORDEM MANIFESTO A GUERRA NA VIDA
DEVEMOS TER LÍNGUAS INDÍGENAS COMO UMA ENTREVISTA
MEDO DA CHINA? PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE COM MIA COUTO
POR KISHORE MAHBUBANI POR NOAM CHOMSKY E OUTROS POR BEATRIZ BRANDÃO

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LE MONDE 9 771981 752004

BRASIL
diplomatique

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2 Le Monde Diplomatique Brasil ABRIL 2019

EDITORIAL

Adeus ao desenvolvimento
POR SILVIO CACCIA BAVA

© Claudius
urante décadas, desde a cria- se aprofundou porque, entre outros fa- avanço das desregulações do mercado participantes e buscar uma melhor

D ção pelas Nações Unidas da


Comissão Econômica para a
América Latina e o Caribe (Ce-
pal), em 1948, o continente sul-ameri-
cano vem discutindo suas possibilida-
tores, as elites empresariais não acei-
tavam uma tributação corresponden-
te aos seus ganhos.1
O Brasil construiu empresas estra-
tégicas e competitivas nacional e in-
impostas pelo neoliberalismo. Era pre-
ciso defender a incipiente industrializa-
ção onde ela já existia e criar maiores
capacidades de negociação internacio-
nal em relação aos Estados Unidos e aos
negociação do bloco regional com ou-
tros países e regiões. De 1990 a 1994, o
comércio entre os países-membros
aumentou 180%, atraindo a participa-
ção de outras nações na condição de
des de desenvolvimento associadas a ternacionalmente, como a Vale do Rio demais países centrais do capitalismo. membros associados: Bolívia (1996),
processos de industrialização e elabo- Doce, a Petrobras e a Telebras, com A Associação Latino-Americana de Chile (1996), Peru (2003), Equador
ração de tecnologias próprias. grande capacidade técnica, financeira Integração (Aladi) foi criada em 1980, (2004) e Colômbia (2004). Em 2012, a
Quando da criação da Cepal, Raúl e organizacional. sendo um primeiro passo para a inte- Venezuela entrou como membro ple-
Prebisch liderava o debate, propondo Desde meados dos anos 1970, com gração econômica regional. Argenti- no e foi suspensa indefinidamente em
um projeto nacional desenvolvimentis- a ascensão do neoliberalismo em es- na, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, 2016 pelos novos governantes de direi-
ta baseado no modelo de industrializa- cala mundial, a situação dos países pe- Cuba, Equador, México, Panamá, Pa- ta. A situação atual paralisa as nego-
ção para substituição de importações. riféricos, ou subdesenvolvidos, foi se raguai, Peru, Uruguai e Venezuela se ciações, já em estado avançado, de um
Celso Furtado participava dessa visão e modificando para pior. Os termos de uniram na perspectiva de fortalecer a acordo comercial do Mercosul com a
discutiu a industrialização tardia da re- troca com os países centrais do capita- integração econômica da região, ten- União Europeia.
gião, abrindo campo para o debate so- lismo se deterioraram, sua autonomia do como meta a criação de um merca- O sucesso da iniciativa de constru-
bre o subdesenvolvimento e o aprofun- foi progressivamente reduzida e o Es- do comum latino-americano. ção de um bloco regional, assim como
damento da desigualdade. Seu Plano de tado foi atacado em nome da liberdade A partir dos anos 1990, a pressão a rejeição por parte dos governos sul-
Metas atribuía ao Estado um papel es- de ação do capital. dos países centrais e dos organismos -americanos da proposta dos Estados
tratégico para o desenvolvimento. No Brasil, a ditadura que foi de 1964 multilaterais aumentou. Globalmente, Unidos de criação da Área de Livre
A doutrina cepalina assumia que o a 1985 resistiu ao neoliberalismo, con- eles impuseram as regras estabeleci- Comércio das Américas (Alca), em
Estado é o indutor do processo e do ti- trapondo a ele um projeto de desenvol- das pelo chamado Consenso de 2005, abriu uma perspectiva de maior
po de desenvolvimento. Por meio de vimento nacional abraçado pelos mili- Washington, que demandou abertura autonomia regional e de construção
investimentos em infraestrutura, o Es- tares e calcado na estratégia de tornar comercial, desregulamentação cam- de um mundo multipolar, estratégia
tado oferecia condições para a iniciati- o país uma potência intermediária, bial e financeira, “flexibilização” das perseguida também em outros conti-
va privada empreender a industriali- regional. relações de trabalho e desmonte das nentes com a formação de blocos re-
zação do país e afirmava seu papel de No entanto, a partir dos anos 1980 políticas sociais de caráter universal. O gionais, inspirados na União Euro-
regulação da economia e do modelo o Brasil passou a viver um processo de impeachment de Collor retardou sua peia, criada em 1993.
de desenvolvimento. estagnação econômica que continua adoção no Brasil, a qual teve início no A defesa das possibilidades de de-
A estratégia de substituição de im- até hoje.2 De 1985 a 1994, o PIB cresceu governo Fernando Henrique Cardoso. senvolvimento e de uma maior inte-
portações fez o Brasil crescer uma mé- apenas 2,8% ao ano e o crescimento do Nesse cenário, uma maior articu- gração regional passam a andar jun-
dia de 6,31% ao ano de 1930 a 1980, PIB per capita foi de apenas 1% ao ano. lação entre Brasil e Argentina permi- tas. Nenhum país sozinho consegue
uma das maiores taxas mundiais do Tornava-se urgente a criação de ini- tiu a criação do Mercosul, em 1991, in- negociar melhores condições de de-
período. Historiadores identificam a ciativas conjuntas entre os países da re- corporando também Paraguai e senvolvimento com os países centrais
época como a Era Desenvolvimentis- gião para intensificar suas trocas co- Uruguai. A estratégia era intensificar do capitalismo, especialmente com os
ta. No mesmo período, a desigualdade merciais e fazer face, em conjunto, ao as trocas comerciais entre os países Estados Unidos.

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ABRIL 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 3

A TÁTICA DA INFÂMIA

O sucesso do Mercosul e o interesse


de outros países do continente em par-
ticipar levaram, em 2008, muito em ra-
zão de um esforço diplomático do Bra-
sil, à criação da Unasul, uma associação
O cordão sanitário
de doze países da América do Sul que
POR SERGE HALIMI*
soma o Mercosul e a Comunidade An-
dina, com a perspectiva de formar um
bloco regional à semelhança da União
Europeia. A proposta foi ratificada em
2010 e sua estratégia foi de integração
econômica da região, mas também de
uma maior integração social e política.
Foram criados o Banco do Sul, o Parla-
mento Sul-Americano, o Conselho de
Defesa, entre outras iniciativas.
Em 2008, os Estados Unidos reati-
varam sua IV Frota, um impressionan-
te conjunto de forças navais e aéreas,
mais poderoso que qualquer força mi-
litar da região, com a tarefa de patru-
lhar as águas do Atlântico Sul, numa
clara demonstração de força e poder. A
estratégia de recuperar o controle da
América Latina se explicitou em várias
frentes, com tentativas de golpe e de-
posição de presidentes, como ocorreu
na Venezuela em 2002, na Bolívia em
2008, no Equador em 2010, no Paraguai
em 2012, com a deposição do presiden-
te Lugo, e no Brasil em 2016, com o im-
peachment de Dilma Rousseff.

© Tulipa Ruiz
Os esforços de desestabilização
dos governos democráticos populares
articularam as tradicionais oligar-
quias locais contra os governos demo-
cráticos e populares e também atua-
ram nas eleições presidenciais da
região, apoiando fortemente campa-
nhas na sociedade civil para a crimi- urante décadas, o poder eleito- Uma vez designado o alvo, é suficiente mita Os escombros, a Xavier Vallat, co-
nalização das esquerdas e a eleição de
candidatos de direita.
O desmonte do bloco regional em
construção se deu pelos governos elei-
tos de direita da Argentina, Brasil, Co-
D ral da extrema direita serviu
como política de segurança pa-
ra os liberais de esquerda e de
direita: qualquer burrico moderado
facilmente cruzava a linha de chega-
encontrar um julgamento desastrado,
ultrajante ou desprezível na página do
Facebook ou na conta do Twitter de
um membro da corrente política que
se quer desonrar (o Partido Trabalhis-
missário-geral para questões judaicas
sob o regime de Vichy, e a Robert Bra-
sillach, colaborador fuzilado na Liber-
tação. O mentiroso queridinho da mí-
dia teria identificado em Ruffin uma
lômbia, Chile, Paraguai, Peru e Equa- da, contanto que se opusesse a um ta Britânico tem mais de 500 mil mem- “filiação consciente ou sub-reptícia
dor, que se retiraram da Unasul e partido político inadmissível, indese- bros). Então a mídia assume. Pode-se com a prosa de Gringoire”,2 um sema-
acabaram de criar o Foro para o Pro- jável, irrespirável. Nas eleições presi- também buscar destruir um adversá- nário gotejante de ódio antissemita do
gresso da América do Sul (Prosul), em denciais francesas de 2002, o resultado rio, atribuindo-lhe um fantasma an- qual uma das mais famosas campa-
substituição àquela. Em comum, par- de Jean-Marie Le Pen estagnou entre tissemita que lhe seja estranho – do ti- nhas de difamação levou ao suicídio
tilham a cartilha neoliberal e um ali- os dois turnos, passando de 16,8% pa- po: a democracia, o jornalismo e o um ministro da Frente Popular.
nhamento incondicional às políticas ra 17,8%. Ao mesmo tempo, o de seu setor financeiro estão a serviço dos ju- Judeus foram assassinados na Fran-
dos Estados Unidos. rival Jacques Chirac voou de 19,8% pa- deus – tão logo ele formule uma crítica ça e nos Estados Unidos por antissemi-
Os países da América do Sul volta- ra 82,2% dos votos. A mesma operação à oligarquia, à mídia ou aos bancos. tas. Tal tragédia não deveria servir co-
ram à condição de economias subordi- permitiu que Emmanuel Macron ven- E pronto. “Se [Jeremy] Corbyn se mo arma ideológica para Trump, para o
nadas aos interesses norte-americanos. cesse em 2017, ainda que com margem mudasse para Downing Street, seria governo israelense e para intelectuais
Seus regimes autoritários reforçam a menos espetacular. possível dizer que, pela primeira vez falsários. Se é necessário construir um
atuação predatória das empresas multi- O que deu certo contra a extrema desde Hitler, um antissemita governa cordão sanitário, que ele nos proteja so-
nacionais, que extraem do continente direita, os liberais pretendem usar um país europeu”, finge alertar o aca- bretudo daqueles que imputam a seus
suas riquezas naturais e seus produtos contra a esquerda. Eles, portanto, pro- dêmico Alain Finkielkraut.1 A situação adversários uma infâmia da qual sa-
primários, inibindo qualquer iniciativa curam construir, contra sua eventual é igualmente ameaçadora nos Estados bem que são inocentes.
de industrialização ou de políticas autô- progressão, um muro de valores que Unidos, já que, segundo o presidente
nomas. É o novo colonialismo. por sua vez venha a torná-la suspeita e Donald Trump, com a eleição para o *Serge Halimi é diretor do Le Monde
assim obrigar aqueles que não mais Congresso de vários ativistas de es- Diplomatique.
suportam as políticas do poder a se querda, “o Partido Democrata tornou-
1 Marcel Grillo Balassiano, Desempenho da econo- acomodar a elas apesar de tudo, posto -se um partido anti-Israel, um partido
mia brasileira entre 1980 e 2015: uma análise da que consideram ignóbeis seus adver- antijudaico”. “Os democratas odeiam o
desaceleração brasileira pós-2010. Disponível em:
<http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/hand- sários mais poderosos. povo judeu”, acrescentou. Por sua par- 1 “Alain Finkielkraut: ‘Ich bin kein Opfer’” [Alain Fin-
le/10438/18091>. Como que por acaso, a calúnia de te, Bernard-Henri Lévy acaba de asso- kielkraut: “Eu não sou uma vítima”], Die Zeit, Ham-
2 Ricardo Dathein, “Brasil: vinte e cinco anos de estag- uma esquerda tornada antissemita ciar o deputado e jornalista francês burgo, 21 fev. 2019.
nação econômica e as opções do desenvolvimento”. 2 Bernard-Henri Lévy, “Il faut franchir le ‘point God-
Disponível em: <www.ufrgs.br/fce/wp-content/ floresceu ao mesmo tempo na França, François Ruffin ao mesmo tempo a Lu- win’” [É preciso atravessar o “ponto Godwin”], Le
uploads/2015/02/TD08_2005_dathein.pdf>. no Reino Unido e nos Estados Unidos. cien Rebatet, autor do panfleto antisse- Point, Paris, 7 mar. 2019.

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4 Le Monde Diplomatique Brasil ABRIL 2019

CAPA

O propósito velado da
“reforma” da Previdência
O ardil da “reforma” é retirar da Constituição todas as regras do Regime Próprio de Previdência do Servidor (RPPS)
e do Regime Geral da Previdência Social (RGPS), e introduzir nela o regime de capitalização individual. Transformações de
grande monte, sem debate com a sociedade, serão feitas por leis complementares
POR EDUARDO FAGNANI*

l
me dual. Portanto, a verdadeira “reforma” nou-se requisito para o bom funciona-
não é essa que hoje se discute, a qual mento do Welfare State.
apenas introduz meras diretrizes É nesse contexto que se percebe o
o transitórias até que a verdadeira refor- período iniciado pela Constituição
ma seja feita por meio de dezenas de Federal de 1988 como um ciclo inédito
os leis complementares de iniciativa do de restauração da democracia e de
Poder Executivo. Essas mudanças são avanços formais na construção da ci-
mais fáceis de ser aprovadas: enquan- dadania social. A seguridade é o prin-
to uma emenda constitucional exige o cipal mecanismo brasileiro de prote-
apoio de 308 deputados e 49 senado- ção social. Além dos mais de 40
res, em duas votações em cada casa, a milhões de benefícios diretos (previ-
legislação complementar demanda dência urbana e rural, assistência so-
257 votos de deputados, em duas vota- cial e seguro-desemprego) transferi-
do ções, e 41 de senadores, em uma vota- dos para as famílias (a maior parte
oe ção. É na tramitação dessas leis que se equivalente ao piso do salário míni-
pretende acabar com o Estado social mo), a seguridade contempla a oferta
de 1988, e, posteriormente, a continui- de serviços universais proporciona-
dade desse processo poderá ser feita dos pelo Sistema Único de Saúde, pelo
por atos normativos do Executivo e Sistema Único de Assistência Social e
mesmo por medidas provisórias. pelo Sistema Único de Segurança Ali-
Assim se vê que a “nova previdên- mentar e Nutricional.
cia” é o vento que antecede a tempes- A previdência social (urbana e ru-
tade. Sob o “rolo compressor” do Con- ral) e o Benefício de Prestação Conti-
gresso, o que é ruim pode ficar muito nuada (BPC) protegem e provêm renda
pior. Rechaçar essa trama é opção ine- próxima do piso do salário mínimo
vitável dos parlamentares, dos movi- para 82% dos idosos brasileiros, fo-
mentos sociais e dos setores da socie- mentam a agricultura familiar, com-
© Allan Sieber

dade comprometidos com o propósito batem o êxodo rural e regional e pro-


de evitar mais um retrocesso de gran- movem a economia local. Segundo o
de monta no incipiente processo civi- Ipea, em 2014 apenas 8,8% das pessoas
lizatório brasileiro. com 65 anos ou mais viviam com ren-
da menor ou igual a meio salário míni-
PRINCÍPIOS ELEMENTARES DA mo, o que demonstra que a pobreza
SOCIAL-DEMOCRACIA SÃO INACEITÁVEIS entre idosos é hoje praticamente resi-
justar periodicamente o siste- Nesse cenário, prevalece a superfi- Os “capitalistas” brasileiros, antis- dual no país. Caso não houvesse a pre-

A ma previdenciário é usual em
nações desenvolvidas. Mas são
ajustes que não destroem os
respectivos regimes de bem-estar so-
cial. O requisito para debater qualquer
cialidade da ideologia em detrimento
do rigor técnico e do debate qualifica-
do. O artifício para impor as mudan-
ças estruturais pretendidas é o terro-
rismo demográfico, financeiro e
sociais e antidemocráticos, não aceita-
ram sequer a introdução no país de al-
guns princípios basilares
social-democracia. Os constituintes se
da

inspiraram nos êxitos dessa experiência


vidência e o BPC, o percentual de ido-
sos pobres aos 75 anos superaria 65%
do total. Estudo sobre a incidência da
política fiscal na distribuição da renda
realizado pela Cepal1 revela que, no
reforma previdenciária no Brasil é que econômico. Para os financistas do internacional no período 1945-1975, Brasil, o coeficiente de Gini cai 16,4
o governo apresente um diagnóstico mercado e do governo, os destinos da quando políticas econômicas visando pontos percentuais por conta do gasto
técnico qualificado dos reais proble- Nação dependeriam exclusivamente ao pleno emprego e instituições do Es- com educação, seguido pelas aposen-
mas que precisam ser corrigidos. Esse da reforma da Previdência. A desones- tado de bem-estar social passaram a ser tadorias e pensões públicas e pelo gas-
diagnóstico não existe, porque, de fa- tidade intelectual irresponsável con- aceitas como instrumentos para lidar to com saúde.
to, não se quer fazer nenhum ajuste. O duz à profecia de que sem essa especí- com disfunções decorrentes da econo-
real propósito da “reforma” da Previ- fica reforma o Brasil “vai quebrar”. mia de mercado. Os direitos sociais uni- DESTRUIÇÃO DO ESTADO SOCIAL
dência é soterrar o pacto social de versais, parte da cidadania plena, pas- No plano mais geral, o projeto libe-
1988. Ela é peça do projeto ultraliberal O VENTO QUE ANTECEDE A TEMPESTADE saram a ser regidos pelo princípio da ralizante tem por propósito fazer a
que se pretende colocar em prática em O ardil da “reforma” é retirar da solidariedade social (seguridade) em transição da proteção social em duas
marcha forçada. Os espertalhões que Constituição todas as regras do Regi- detrimento da capacidade contributiva direções: da seguridade para o assis-
a formularam ocultam seu projeto me Próprio de Previdência do Servi- individual (seguro). Houve uma combi- tencialismo e da seguridade para o se-
real: forçar uma mudança estrutural dor (RPPS) e do Regime Geral da Pre- nação virtuosa entre a tributação pro- guro social. São transformações estru-
na Constituição, sem nada debater vidência Social (RGPS), e introduzir gressiva e os regimes de bem-estar: a turais de grande monta, que precisam
com a sociedade. nela o regime de capitalização indivi- transferência da renda por essa via tor- ser debatidas pela sociedade.

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ABRIL 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 5

1. Da seguridade social para cio são distintos (respectivamente zação. Um ponto obscuro é o aceno tribuição das classes de maior renda. É
o assistencialismo 100% e 60% da média de todas as con- para a possibilidade da criação de um preciso enfrentar as inconsistências
A “reforma” tende a excluir uma tribuições). Também se cria a pensão “fundo solidário”, organizado e finan- do regime macroeconômico, que não
massa considerável de trabalhadores por morte de primeira e de segunda ciado para a “garantia de piso básico, impõe limite para os gastos financei-
porque cria regras severas que descon- classe (que pode ser inferior ao salário não inferior ao salário mínimo para ros, transferindo, dos pobres para os
sideram a realidade do mercado de mínimo) e restringe-se o acúmulo de benefícios”. Portanto, o próprio gover- ricos, mais de R$ 400 bilhões de juros
trabalho. Cerca de 50 milhões de tra- mais de uma aposentadoria e pensão. no antevê que nem sequer o piso bási- por ano (quase quatro anos da “econo-
balhadores adultos que compõem a A “reforma” cria mais dificuldades co será garantido e não esclarece mia” que o governo espera da “nova
população em idade ativa (PIA) não para a aposentadoria das pessoas com quem vai financiar o tal fundo. previdência”).
trabalham. Mais de 105 milhões de deficiência, que “previamente” serão A “reforma” desconsidera o fracas- A saída para o Brasil não “quebrar”
brasileiros fazem parte da população submetidas a uma “avaliação biopsi- so desse modelo evidenciado pelo ca- também pode ser alcançada mediante
economicamente ativa (PEA). Entre- cossocial”. Após essa avaliação, os be- so chileno e sua reversão em dezenas a reforma tributária. Amplo estudo5
tanto, quase 13 milhões estão desem- nefícios serão concedidos desde que o de países.2 O debate sobre esse tema mostra que é tecnicamente possível
pregados; outros 92 milhões estão segurado comprove: 35 anos de con- não pode avançar sem que antes o go- quase duplicar o atual patamar de re-
ocupados, mas cerca de 35 milhões tribuição (“deficiência leve”), 25 anos verno apresente, de forma criteriosa, a ceitas da tributação da renda, patri-
trabalham sem carteira ou têm algum de contribuição (“moderada”) e vinte estimativa do chamado “custo da mônio e transações financeiras, de R$
vínculo precário. Portanto, aproxima- anos de contribuição (“grave”). transição” da seguridade social para o 472 bilhões para R$ 830 bilhões, um
damente 100 milhões de trabalhado- O acesso ao abono salarial será res- seguro social, bem como os parâme- incremento de R$ 357 bilhões (mais de
res, que já não contribuem para a pre- tringido apenas para quem recebe salá- tros utilizados para esse cálculo. Não três anos de “economia, nos termos da
vidência, terão dificuldades para rio mínimo, excluindo mais de 20 mi- podemos deixar que se repita aqui o proposta encaminhada pelo governo
cumprir as novas regras e não conta- lhões de trabalhadores que recebem que ocorreu no Chile: “Na prática, os Bolsonaro”).
rão com essa proteção na velhice – entre um e dois salários mínimos. custos de transição de um modelo de Esse estudo também aponta para a
quadro que tende a se agravar com o No futuro, os valores dos benefícios previdência para o outro são altíssi- necessidade de rever as isenções fis-
avanço da reforma trabalhista. poderão ser reajustados abaixo da in- mos. Os custos de transição começa- cais, pelas quais o governo federal to-
Nesse cenário, poucos brasileiros flação. A Constituição assegura “o rea- ram a ser pagos em 1981, e ainda esta- do ano deixa de arrecadar cerca de
comprovarão quarenta anos de contri- justamento dos benefícios para pre- mos pagando. São 37 anos e ainda 20% de suas receitas: em 2017, o mon-
buição para ter direito à aposentadoria servar-lhes, em caráter permanente, o devemos, sobretudo, as pensões de tante de isenções totalizou R$ 406 bi-
integral. A aposentadoria parcial ten- valor real”. Mas o novo texto exclui o pessoas que se aposentaram no siste- lhões (mais de quatro anos de “econo-
de a ser inacessível para mais de 35% termo “valor real”. ma antigo. Atualmente, o governo chi- mia”). Também é necessário combater
dos brasileiros, que têm dificuldades Com as novas regras, poucos brasi- leno ainda subsidia o sistema previ- a sonegação de impostos, estimada
de comprovar vinte anos de contribui- leiros conseguirão ter proteção previ- denciário do Chile com US$ 9 bilhões em cerca de R$ 500 bilhões anuais
ção. Observe-se que, em 2015, em fun- denciária e pressionarão, em massa, a anuais”.3 (mais de cinco anos de “economia”).
ção da alta rotatividade do emprego, proteção assistencial, que não exige Em conjunto, esses recursos (isenções
de um período de doze meses, só nove contribuição. Em decorrência, levan- REFORMA JUSTA? fiscais e sonegação) totalizam aproxi-
meses eram realmente trabalhados, ta-se um muro de contenção fiscal, re- O governo estima que a “reforma” madamente 12,8% do PIB, montante
em média. Assim, para completar vin- baixando o valor do Benefício de Pres- geraria economia de R$ 1,165 trilhão superior ao dispêndio da seguridade
te anos de contribuição eram necessá- tação Continuada (BPC) para R$ 400. em dez anos.4 Seu caráter injusto tam- social (11,3% do PIB) que a “nova pre-
rios quase 27 anos de trabalho ininter- Como se sabe, esse benefício é dirigido bém se reflete no fato de que, desse vidência” planeja destruir.
ruptos com carteira assinada. Com a aos idosos e portadores de deficiência, montante, R$ 715 bilhões serão “eco- Portanto, há várias vias alternati-
reforma trabalhista, o período contri- socialmente mais vulneráveis. Atual- nomizados” por cortes nos direitos vas para o país não “quebrar”. Todas
butivo tende a encurtar, dificultando mente, o BPC beneficia mais de 5 mi- dos trabalhadores rurais e urbanos exigem que se desmonte, no Brasil, o
ainda mais o acúmulo de tempo de lhões de pessoas, garantindo renda inscritos no RGPS; e outros R$ 182 bi- maior programa mundial de transfe-
contribuição. mensal de cidadania, no valor de um lhões, por cortes no BPC e no abono rência de renda dos mais pobres para
As regras de transição da aposen- salário mínimo, aos idosos (65 anos ou salarial. Portanto, 75,6% da suposta os ricos.
tadoria por tempo de contribuição são mais) e pessoas com deficiência com economia decorre da subtração de di-
curtas e severas. Em uma das opções, renda familiar per capita inferior a um reitos dos beneficiários desses progra- *Eduardo Fagnani é professor do Instituto
em 2028, os homens passam dos quarto de salário mínimo. Caminha- mas sociais. de Economia da Unicamp, pesquisador do
atuais 96 para 105 pontos (65 anos de remos assim da seguridade para o as- Observe-se que, em 2016, no RGPS, Centro de Estudos Sindicais e do Trabalho
idade mais quarenta anos de contri- sistencialismo, pela via da reforma rea- eram mais de 20 milhões de benefícios (Cesit) e coordenador da rede Plataforma Polí-
buição, por exemplo), um acréscimo lizada por legislação complementar. urbanos, dos quais 54% tinham valor tica Social (www.plataformapoliticasocial.com).
de 9 pontos em dez anos; e as mulhe- igual ou menor do que um salário mí-
res passam dos atuais 86 para 100 2. Da seguridade social para nimo, e 86%, valor igual ou inferior a
pontos, um acréscimo de 14 pontos o seguro social três salários mínimos; no segmento
em catorze anos. A seguridade se diferencia do segu- rural, foram concedidos mais de 10 mi-
Entretanto, nessa “corrida de obs- ro (contrato individual selado com o lhões de benefícios, 98,6% equivalen- 1 Cepal, Panorama Fiscal de América Latina y el
Caribe 2015 – Dilemas y espacios de políticas,
táculos”, o “gatilho” demográfico colo- prestador de serviços). No caso da pre- tes ao piso do salário mínimo; no BPC, Santiago de Chile, 2015.
ca um desafio adicional: a idade míni- vidência, a insegurança é máxima, foram concedidos mais de 5 milhões 2 Isabel Ortiz, Fabio Durán-Valverde, Stefan Urban,
ma poderá ser de 67/64 em 2033, pois esse contrato tem vigência por de benefícios equivalentes ao piso; e Veronika Wodsak e Zhiming Yu, La reversión de la
privatización de las pensiones: Reconstruyendo
porque o texto prevê esse aumento mais de trinta anos. No Brasil, esses mais de 20 milhões de “privilegiados” los sistemas públicos de pensiones en los países
sempre que se eleve a expectativa de riscos são extremos em função da de- que recebem abono salarial também de Europa Oriental y América Latina (2000-2018),
sobrevida aos 65 anos. sigualdade social, da heterogeneidade “pagarão o pato”. Documento de trabalho n.63, OIT, 2019.
3 Daniel Caseiro, “Os 10 mitos do sistema previden-
Na previdência rural, a idade míni- regional e da realidade do mercado de ciário de Paulo Guedes, segundo Andras Uthoff”,
ma da mulher passa de 55 para 60 anos trabalho. CRESCIMENTO E MAIOR EQUIDADE NA Justificando, 18 dez. 2018.
e impõe-se um tempo de contribuição A “reforma” determina a criação de CONTRIBUIÇÃO DAS CLASSES DE MAIOR RENDA 4 Com a apresentação do projeto para a aposenta-
doria dos militares, a economia pretendida caiu
monetária de vinte anos, desconhe- “sistema obrigatório de capitalização O crescimento econômico é requi- para pouco mais de R$ 1 trilhão.
cendo-se a realidade de que 70% das individual” para o RPPS (União, esta- sito para o equilíbrio financeiro da 5 Eduardo Fagnani (org.), A reforma tributária neces-
mulheres do meio rural começam a dos e municípios) e para o RGPS, onde previdência por seus impactos positi- sária – justiça fiscal é possível: subsídios para o
debate democrático sobre o novo desenho da tri-
trabalhar com até 14 anos de idade. se pretende criar a “carteira verde- vos nas receitas que incidem sobre a butação brasileira (documento completo), Anfip/
A aposentadoria por invalidez será -amarela”, portadora de escassos di- folha de salário, o faturamento e o lu- Fenafisco/Plataforma Política Social, Brasília/São
de primeira classe (acidente no traba- reitos trabalhistas. O jovem que come- cro das empresas. Paulo, 2018. Disponível em: <http://plataformapo-
liticasocial.com.br/justica-fiscal-e-possivel-subsi-
lho) e de segunda classe (acidente fora ça a trabalhar poderá “optar” pela O ajuste fiscal também pode ser al- dios-para-o-debate-democratico-sobre-o-novo-
do trabalho), cujos valores de benefí- carteira e aderir ao regime de capitali- cançado pela maior equidade na con- -desenho-da-tributacao-brasileira/>.

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6 Le Monde Diplomatique Brasil ABRIL 2019

CAPA

A desestruturação do
mercado de trabalho
A reforma da Previdência só fará agravar ainda mais
o frágil mercado de trabalho brasileiro, em que a
formalização e a proteção social convivem lado a lado com
a ilegalidade, a precariedade e a vulnerabilidade social
POR MARILANE OLIVEIRA TEIXEIRA*

© Allan Sieber
Q
ualquer que seja a perspectiva que circulam no mercado de trabalho Surpreende o elevado percentual receberem remuneração que corres-
em que se analise a reforma mostra o quanto já é difícil para a de mulheres entre 20 e 39 anos na Pnea, ponde a 75% dos homens quando na
previdenciária, ela aponta ne- maioria conseguir cumprir o atual mí- 22%, enquanto que, entre os homens, ativa, se negras, seus salários equiva-
cessariamente para novas for- nimo de quinze anos de contribuição. para a mesma faixa etária, o percen- lem, em média, a 44% dos do sexo mas-
mas de exclusão social e desigualdade De acordo com os dados da Previ- tual era de 15%. A condição de maior culino. Nos benefícios também há uma
que afetam toda a sociedade e de ma- dência Social1 de 2014, as mulheres pobreza tem sido um obstáculo à in- permanência desse hiato: as mulheres
neira particular as mulheres – bran- aposentadas pelo Regime Geral da Pre- clusão das mulheres no mercado de percebem, em média, o corresponden-
cas, negras, trabalhadoras rurais, as vidência Social (RGPS), seja por tempo trabalho. Dependendo da situação so- te a 85% dos benefícios masculinos.
trabalhadoras domésticas e a popula- de contribuição ou idade, se aposen- cioeconômica e da faixa etária, a taxa Esses condicionantes vão se refletir
ção jovem –, condenando-as à preca- tam em média tendo cumprido 22,4 de participação das mulheres em rela- na presença das mulheres entre a popu-
riedade e à desproteção social. A pro- anos de contribuição. Se considerar- ção à dos homens pode variar. Isso de- lação ocupada. Elas representavam
posta de desmonte despreza as mos o número médio de contribuições monstra o quanto a condição de pobre- 44% do total; no entanto, são maioria
desigualdades estruturais na socieda- ao ano, que é de nove meses de contri- za afeta sobretudo esse gênero. Para entre as pessoas desempregadas – havia
de e no mercado de trabalho, bem co- buição, uma mulher precisará perfazer domicílio com renda per capita de até 12,94 milhões de desempregados no
mo os diferenciais de gênero, e promo- uma vida laboral de 29,8 anos para con- um quarto de salário mínimo, a dife- quarto trimestre de 2018, e as mulheres
ve um desmonte dos direitos e do seguir acumular 22,4 anos de contri- rença de taxa de participação entre os perfaziam 52%. O desemprego entre as
acesso à previdência pública em um buição cheios. Por idade, as mulheres sexos pode alcançar 37,1 pontos entre mulheres praticamente dobrou, cres-
contexto em que se recriam e se ex- alcançam, em média, 18,2 anos de con- 25 e 29 anos. No entanto, quando a ren- cendo 90% na comparação entre os úl-
pandem novas modalidades de exclu- tribuição; pelas novas regras propostas da é de mais de cinco salários mínimos, timos trimestres de 2014 e 2018. Se desa-
são e de segregação no mercado de pela reforma, serão necessários, no mí- a diferença entre os sexos é de apenas gregarmos ainda mais os dados,
trabalho com a ampliação de novas nimo, vinte anos de contribuição, o que 5,4% para a mesma faixa etária. A situa- veremos que as mulheres negras consti-
formas de contratação advindas da re- inviabilizaria o acesso à aposentadoria ção socioeconômica das mulheres é um tuem maioria: elas representavam 33%
forma trabalhista. aos 60 anos ou mesmo aos 62 anos de fator decisivo para sua entrada e per- sobre o total de pessoas desemprega-
Uma das grandes virtudes do siste- idade. Portanto, recuar da idade míni- manência no mercado de trabalho. das. Ou seja, em cada dez desemprega-
ma de seguridade social brasileiro é ma para as mulheres sem alterar o tem- Quanto mais pobres, mais tempo elas dos no Brasil, entre três a quatro são
precisamente a diferenciação das re- po de contribuição é falácia! estarão afastadas do mercado de traba- mulheres negras. A faixa etária em que
gras de acesso, que vem permitindo Em janeiro de 2019, do total de bene- lho. Essa interrupção comprometerá de o desemprego mais se ampliou foi entre
ampliar o número de pessoas benefi- fícios concedidos para as mulheres (ur- forma definitiva sua vida laboral. as pessoas com 60 anos ou mais: mu-
ciadas e compensar, dessa forma, al- banas e rurais), 60% foram por idade, e As tarefas de cuidados são um lheres, 199,3%, e homens, 147,2%, entre
gumas das desigualdades estruturais os demais 40%, por invalidez e tempo grande limitador para as mulheres 2012 e 2018. A reforma promete empre-
do mercado de trabalho. Apesar de to- de contribuição. O valor médio das apo- mais pobres. Em parte, o afastamento go até os 80 anos de idade!
dos os avanços conquistados nas duas sentadorias concedidas corresponde a delas do mercado de trabalho, entre 25 Se ampliarmos o conceito de deso-
últimas décadas, a sociedade e o mer- R$ 1.144,72 por idade e R$ 2.178,49 por e 29 anos, está associado à maternida- cupação incorporando o desemprego
cado de trabalho ainda são marcados tempo de contribuição. Esses são os pri- de e à ausência de equipamentos pú- aberto, a subocupação (insuficiência
por profundas desigualdades, sejam vilegiados da previdência social! blicos, o que impele as mais pobres a de horas efetivamente trabalhadas –
elas de gênero, de raça, regionais ou se afastarem temporariamente de al- em média, as pessoas que estão nessa
uma combinação dessas dimensões. O FRÁGIL MERCADO DE TRABALHO BRASILEIRO guma atividade remunerada para se condição trabalham em torno de 19 ho-
A reforma da Previdência só fará Em 2018, conforme últimos dados dedicarem às atividades de cuidados, ras semanais) e a força de trabalho po-
agravar ainda mais o frágil mercado disponíveis da Pesquisa Nacional por que envolvem grande quantidade de tencial, chegaremos a 26.976.159 pes-
de trabalho brasileiro, em que a for- Amostra de Domicílios (Pnad), a popu- trabalho e não estão restritas ao cuida- soas. Esse é efetivamente o total de
malização e a proteção social convi- lação em idade ativa no Brasil com 14 do das crianças, incluindo também pessoas fora do mercado de trabalho
vem lado a lado com a ilegalidade, a anos ou mais totalizava 170.565.689 idosos, enfermos etc. ou em horas insuficientes. Desse total,
precariedade e a vulnerabilidade so- pessoas. Desse total, 105.197.114 repre- Precisamente, é em razão da dupla as mulheres negras são maioria, 36%. O
cial. São milhões de pessoas que tran- sentavam a população economica- jornada que as mulheres se inserem em desemprego é o dobro entre os menos
sitam entre o desemprego aberto e mente ativa (PEA), e 65.368.574, a po- piores condições para cumprir com as escolarizados. Entre as pessoas com até
oculto e trabalhos com jornadas insu- pulação fora da força de trabalho ou tarefas de reprodução social. Portanto, o ensino fundamental completo, 12%
ficientes, por conta própria ou infor- não economicamente ativa (Pnea). As é absolutamente relevante o debate so- estão desempregadas; entre os de nível
mais. A impossibilidade de manter mulheres representavam 65% desse to- bre a necessidade de preservar o dife- superior, o percentual é de 6%.
contribuições regulares por um perío- tal, e as mulheres negras, 57% sobre o rencial de tempo de contribuição e ida- O propósito da reforma, entre ou-
do mais longo de tempo por aqueles total de mulheres. de para mulheres e homens. Além de tros, é postergar a saída do mercado de

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ABRIL 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 7

trabalho, o que coloca uma pressão so- turo próximo. Em janeiro de 2019, TOTAL DAS PESSOAS OCUPADAS
Negros Brancos
bre os jovens, que enfrentarão maiores 63,4% do valor dos benefícios concedi- COM 14 ANOS OU MAIS, POR POSIÇÃO
barreiras à entrada no mercado de tra- dos para os trabalhadores urbanos e NA OCUPAÇÃO E SEM CONTRIBUIÇÃO
balho. Por causa da dificuldade de in- 99% para os rurais eram de até dois sa- PREVIDENCIÁRIA, POR SEXO E RAÇA Mulheres Homens Mulheres Homens
gressar no mercado formal, reforçada lários mínimos. (4º TRIMESTRE DE 2018) – BRASIL
pela proposta da carteira verde-ama- Uma das maiores conquistas nas
Empregado no setor Total 6.388.873 10.611.255 6.856.379 8.803.027
rela, esses jovens terão suas primeiras duas últimas décadas foi a ampliação
privado com carteira Sem contribuição – – – –
experiências na informalidade e no do emprego formal para ambos os se-
trabalho precário, gerando um círculo xos. Entretanto, desde 2015 observa-se Empregado no setor Total 2.070.487 5.037.153 1.624.846 2.685.336
vicioso de precariedade que os acom- uma reversão dessa tendência, de for- privado sem carteira Sem contribuição 84,6% 90,7% 74,4% 78,5%
panhará durante a maior parte de sua ma que chegamos a 2018 (quarto tri- Trabalhadora Total 1.005.521 122.133 571.266 67.375
vida laboral. Dados de 2018 indicam mestre) com 44.529.429 pessoas na in- doméstica com
carteira Sem contribuição – – – –
que, do total de pessoas desemprega- formalidade (empregos sem carteira,
Trabalhadora Total 2.810.706 188.632 1.368.444 91.513
das, 54% são jovens entre 14 e 29 anos. trabalho doméstico sem carteira, con- doméstica sem
Por outro lado, é manifesta a resis- ta própria e trabalhadores familiares), carteira Sem contribuição 87,9% 88,6% 78,8% 86,7%

tência dos empregadores em contratar o que já corresponde a 50,3% do total Empregado no setor Total 293.119 232.122 397.161 290.819
pessoas a partir de determinada faixa de ocupados, uma evolução de 8% en- público com carteira Sem contribuição – – – –
etária, quando são consideradas “ve- tre 2014 e 2018, enquanto o emprego Total 943.450 579.814 586.078 335.529
Empregado no setor
lhas” para o mercado de trabalho. Com formal recuou na mesma proporção público sem carteira Sem contribuição 27,8% 31,3% 32,0% 36,1%
isso, cresce a inserção em empregos atí- (–8%). Entre as pessoas ocupadas,
Militar e servidor Total 2.139.902 1.783.850 2.291.709 1.639.158
picos para as faixas acima dos 55 anos: tem-se 37,3% sem contribuição previ- estatutário Sem contribuição – – – –
na maior parte, são empregos em do- denciária. Com impactos sobre a con-
micílio e singularizados pela precarie- tribuição previdenciária! Total 420.976 1.100.753 950.684 1.953.300
Empregador
dade – no caso das mulheres, vem cres- Entre os trabalhadores por conta Sem contribuição 31,2% 41,5% 21,0% 25,2%
cendo sua presença como cuidadoras. própria, do total de 23.496.249 pes- Total 4.490.478 8.787.684 3.787.466 6.503.634
Conta própria
soas, 70% não contribuem para a pre- Sem contribuição 76,8% 77,9% 57,7% 58,4%
A INFORMALIDADE E A NÃO CONTRIBUIÇÃO vidência; no trabalho sem carteira as-
Trabalhadora Total 761.814 485.159 585.859 310.077
PREVIDENCIÁRIA sinada, são 11.542.064 pessoas, e 84% familiar auxiliar Sem contribuição 99,9% 99,9% 99,7% 99,7%
A análise do perfil das pessoas ocu- destas não contribuem para a previ-
padas do ponto de vista dos rendimen- dência; no trabalho doméstico sem Total 21.325.326 28.806.422 19.019.892 22.679.768
Total
tos também nos oferece um retrato da carteira, tem-se 4.492.548 pessoas Sem contribuição 41,4% 44,2% 29,5% 30,4%
precariedade de nosso mercado de (maioria mulheres), e 85% não contri- Fonte: PNADC/IBGE – Microdados. Elaboração própria.
trabalho, uma vez que a maioria está buem para a previdência; e 29% dos
concentrada em ocupações de baixa empregadores e 31% dos trabalhadores
produtividade e baixos salários que do setor público sem carteira também
variam entre um e dois salários míni- não contribuem para a previdência. tão fora do sistema de proteção so- condições necessárias para a susten-
mos: 82% das mulheres negras, 63,4% Esses totalizam 34.268.995 milhões de cial. Para a recomposição das recei- tabilidade do sistema.
das mulheres brancas, 72,6% dos ho- pessoas (ver tabela). tas previdenciárias, é essencial criar
mens negros e 50,5% dos homens Se considerarmos as pessoas que empregos melhores e com direitos, *Marilane Oliveira Teixeira é economista e
brancos recebiam até dois salários mí- estão em uma condição de subutili- combater a sonegação, eliminar a in- pesquisadora do Cesit-Unicamp.
nimos no quarto trimestre de 2018. Es- zação da força de trabalho, que so- formalidade, formalizar os vínculos,
sa característica é determinante para mam 26.976.159, teremos 61.244.154 reduzir a rotatividade. Isso, em con- 1 Elaborados por Joana Mostafa e Mário Theodoro,
Boletim Legislativo do Senado Federal, n.65, jun.
a definição dos benefícios em um fu- milhões de pessoas no Brasil que es- junto com outras medidas, criará as
2017.

A falácia dos argumentos pela reforma


A saída apontada é privatizar, transformar um regime de solidariedade em mecanismos especulativos. Os fundos de previdência
vão elevar a captação líquida e seus patrimônios e, o que é importante, vão desobrigar os empregadores de pagar contribuições
sociais, livrando-os de participar da solução dos problemas sociais do país, o que entregará cada um à própria sorte
POR DENISE LOBATO GENTIL*

reforma da Previdência do go- seguidores e aterrorizar a população uma raiz: a despesa previdenciária”. da Previdência, que, nos cálculos

A verno Bolsonaro vem sendo jus-


tificada por argumentos econô-
micos elaborados para gerar
conformismo e adesões sem questio-
namentos. São ideias manipuladoras,
com verdades absolutas e inquestio-
náveis. Vou aqui eleger algumas frases
retiradas da exposição de motivos que
acompanhou a PEC n. 6/2019.
O carro-chefe é a ideia de que “nos-
Uma investigação atenta e honesta so-
bre as contas públicas faz saltar aos
olhos que o nó fiscal são os juros. Nes-
sa rubrica, o país gastou, em média,
6% do PIB ao ano entre 2016 e 2018, o
questionáveis do governo, teria chega-
do a R$ 195 bilhões em 2018. Com um
agravante: juros beneficiam fundos
especulativos, bancos, corporações
não financeiras e pessoas com elevado
reforçadas por representantes do mer- so nó fiscal é a razão primeira para a que equivale a aproximadamente R$ nível de renda, enquanto a previdência
cado financeiro e propagadas ampla e limitação do nosso crescimento eco- 400 bilhões/ano, montante mais de alcança cerca de 28 milhões de pes-
tediosamente pela mídia para fidelizar nômico sustentável. Esse nó fiscal tem duas vezes superior ao alegado déficit soas e, desse total, 23,3 milhões ga-

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8 Le Monde Diplomatique Brasil ABRIL 2019

nham apenas um salário mínimo. O vestimento que possuem. Portanto, o ros, porque a memória de cálculo não contribuinte. As administradoras
requinte de crueldade da comparação crescimento da dívida pública não está disponível. Entretanto, esse resul- acabam abocanhando grande parte
entre os dois tipos de gasto deveria corresponde exatamente ao déficit tado é, obviamente, uma miragem. do que é poupado.
causar vergonha e repúdio. Mas os fiscal do Tesouro supostamente ali- O regime de capitalização, além
meios de comunicação e o governo fa- mentado pelo gasto social, como cos- de muito mais caro para os trabalha-
zem profundo silêncio sobre o monu- tuma alardear o governo, mas ao rit- dores, expõe a população a um risco
mental gasto financeiro, como se essa mo de expansão das operações de financeiro elevado que costuma ser
anomalia da economia brasileira nem valorização financeira do capital es-
O regime de subestimado. Os fundos aplicarão a
sequer existisse. peculativo comandada pela política capitalização, além poupança das pessoas em ações, tí-
O governo costuma ameaçar com monetária do Banco Central. de muito mais caro tulos públicos, imóveis, derivativos e
outra frase escolhida para causar Os números da Nota Técnica n. 47 para os trabalhadores, outros produtos financeiros cujos
impacto, calar os opositores e obs- do Banco Central, de setembro de preços e taxas de retorno sofrem
curecer o debate: “Enquanto nos re- 2018, não poderiam ser mais elucidati-
expõe a população grandes oscilações e dependem, em
cusarmos a enfrentar o desafio pre- vos. Entre 2014 e 2017, a dívida líquida a um risco financeiro parte, do próprio comportamento
videnciário, a dívida pública subirá do setor público passou de 32,6% do elevado imprevisível e compulsivo dos agen-
implacavelmente e asfixiará a eco- PIB para 53,8%. Os juros incorporados tes desse mercado. Perdas rápidas e
nomia”. Não obstante, seria real- nesse período representaram, em ter- profundas são muito comuns. Há um
mente o déficit da Previdência a cau- mos acumulados, 26,4 pontos percen- O coração da proposta do minis- risco financeiro sistêmico não con-
sa do crescimento da dívida? tuais (p.p.), enquanto os déficits pri- tro Paulo Guedes é o regime de capi- trolável pela regulação dos fundos de
Cabe, de partida, esclarecer que mários, apenas 6,6 p.p. Está na hora de talização. Essa transformação estru- previdência.
apenas uma parte da dívida pública é colocar a nu o velho discurso acusató- tural do regime previdenciário A desproteção é o que menos im-
de responsabilidade do Tesouro Na- rio do gasto previdenciário e mostrar brasileiro, além de implodir o siste- porta. A saída apontada é privatizar,
cional, e isso acontece sempre que que a verdadeira reforma que precisa ma de proteção social do país, pro- transformar um regime de solidarie-
ocorrem déficits primários. A outra ser feita é a da política monetária. vocará um gigantesco déficit. Isso dade em mecanismos especulativos.
parte da dívida, a maior delas, é cria- Outra frase proferida para gerar porque há um custo de transição pa- Os fundos de previdência vão elevar
da e gerenciada pelo Banco Central. resignação popular com a reforma da ra sua implantação, que decorrerá enormemente a captação líquida e
Isso significa que a dívida tem se ex- Previdência merece destaque: “A dí- da perda de receita que sofrerá o sis- seus patrimônios e, o que é importan-
pandido substancialmente em fun- vida está em uma trajetória arrisca- tema de repartição, existente hoje, te, vão desobrigar os empregadores de
ção dos elevados juros praticados pe- da. Esse risco é devidamente cobrado quando as contribuições dos novos pagar contribuições sociais, livrando-
lo regime de metas de inflação, das pelos credores por meio de juros al- ingressantes passarem a se destinar -os de participar da solução dos pro-
variações no câmbio e das operações tos”. Para os porta-vozes do mercado às contas individuais do regime de blemas sociais do país, o que entrega-
financeiras que implicam emissões financeiro e do governo, a reforma da capitalização. As receitas cairão ao rá cada um à própria sorte.
líquidas de títulos públicos. Estas úl- Previdência teria, portanto, o poder mesmo tempo que será necessário Por fim, há no discurso oficial do
timas compreendem o que se chama de, ao reduzir a dívida pública, dimi- continuar a pagar o estoque de apo- governo a criação da falsa noção de
de operações compromissadas do nuir também os juros. É de descon- sentados existente. Portanto, a curto que o regime de capitalização per-
Banco Central, isto é, compras e ven- fiar que os representantes do merca- e longo prazos, um regime de capita- mitirá “a construção de um novo
das de títulos que se destinam às do proponham a reforma com o lização não gera economia; ao con- modelo que fortalece a poupança e o
aquisições de reservas internacionais objetivo de reduzir juros, já que a trário, aumenta perigosamente o dé- desenvolvimento no futuro”. Nada
e à regulação das condições de liqui- queda da Selic limitaria a rentabili- ficit da Previdência. Esse custo de mais descolado da realidade brasi-
dez da economia, de forma a garantir dade dos capitais investidos em títu- transição costuma ser muito eleva- leira. A “nova” previdência não favo-
que a taxa de juros de mercado seja los públicos, ainda mais em um mo- do. No Chile, o déficit previdenciário recerá a poupança porque, segundo
compatível com a meta estabelecida mento de baixíssimo crescimento e passou de 3,8% do PIB em 1981, ano dados da Anbima, 92% do patrimô-
pelo Copom. O estoque dessas opera- elevada incerteza, quando justamen- da implantação da capitalização, nio dos fundos de previdência se
ções cresceu exponencialmente, pas- te a fuga para os juros se torna um re- para um patamar acima de 5% do destinam à aquisição de títulos de
sando de 0,5% do PIB, em 2000, para fúgio para os capitais. PIB nos vinte anos seguintes. A equi- renda fixa do próprio governo. De fa-
16,4%, em 2018, quando alcançou R$ Ora, ainda que essa fosse uma pe econômica não mostrou nenhu- to, os fundos de previdência apare-
1,13 trilhão. motivação real para a reforma da ma estimativa desse prejuízo para a cem como os maiores proprietários
Previdência, é inevitável concluir sociedade brasileira. Há, portanto, de títulos nas estatísticas do Banco
que não seria necessário fazê-la, um vácuo de informações que com- Central (25,5% do total). Assim, com
porque a Selic iniciou uma trajetória prometem os rumos do país. Além o regime de capitalização, o governo
A previdência de queda desde fins de 2016 e atingiu disso, o regime de capitalização pro- vai deixar de pagar diretamente
alcança cerca de seu mais baixo patamar nominal em duzirá um resultado que já se sabe aposentadorias e pensões para os
28 milhões de pessoas 6,5% desde abril de 2018, mantendo- nocivo para grande parte da popula- trabalhadores, para pagá-los indire-
-se nesse nível até o presente. A que- ção que não conseguirá poupar, em tamente, a custos elevadíssimos, via
e, desse total, da da meta de juros e da taxa de ju- função de salários baixos, informa- intermediação dos fundos por meio
23,3 milhões ganham ros implícita ocorreu justamente em lidade, desemprego e trabalhos in- da dívida mobiliária do Estado. Um
apenas um salário um período de crescimento da dívi- termitentes. Poucos se aposentarão, péssimo negócio para a ampla maio-
mínimo da pública. É, portanto, obrigatório e os que conseguirem receberão be- ria dos brasileiros.
desconfiar que os juros são determi- nefícios de valores baixos, que aca- Como se vê, a reforma da Previdên-
nados por outros fatores. Retirar o bam em poucos anos, como de- cia não tem nada a ver com ajuste fis-
foco do gasto, da dívida e da previ- monstra a experiência de todos os cal ou com a eliminação de privilégios.
Esses números apontam que são dência é um bom caminho. países da América Latina que adota- É a exacerbação de uma ordem políti-
os gerenciamentos dos juros e das re- O discurso de apresentação da re- ram esse caminho. Criou-se um ca e econômica que serve ao aprofun-
servas as duas principais causas do forma ao Congresso Nacional contém enorme contingente de idosos na damento da acumulação financeira e
crescimento da dívida pública, não a outros argumentos que carecem de ex- pobreza extrema. Os fundos de capi- condena o país ao retrocesso, à dete-
previdência. O Banco Central, por plicações minimamente críveis. Se- talização tendem a derrubar o valor rioração das desigualdades sociais e à
meio das operações compromissa- gundo a narrativa do governo, a refor- das aposentadorias, porque a taxa ausência de democracia.
das, atende, ao mesmo tempo, à de- ma da Previdência gerará uma de administração anual é elevada,
manda de papéis de curto prazo dos economia de recursos de R$ 1 trilhão estando, no Brasil, entre 0,8% e 2% e, *Denise Lobato Gentil é doutora em Eco-
bancos, tanto para remunerar seus em dez anos e de R$ 3,4 trilhões em em certos casos, pode haver mais nomia e professora do Instituto de Economia
excessos diários de caixa como para vinte anos. Até o momento, não se sabe uma taxa de carregamento em torno da Universidade Federal do Rio de Janeiro
compor os ativos dos fundos de in- como o governo chegou a esses núme- de 2% sobre cada depósito feito pelo (UFRJ).

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ABRIL 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 9

UMA NOVA ORDEM GEOPOLÍTICA

Devemos ter medo da China?


A ofensiva partiu dos Estados Unidos antes de se estender para a maioria dos países ocidentais: a China,
com seus produtos, espiões e ambições militares, estaria tentando desestabilizar a ordem internacional estabelecida após
a Segunda Guerra Mundial. Pequim se defende. Xi Jinping montou uma operação de sedução em sua viagem à Europa,
entre 21 e 26 de março. Essa ameaça chinesa existe mesmo?
POR KISHORE MAHBUBANI*

entro de quinze anos, a econo-

D mia chinesa terá ultrapassado a


dos Estados Unidos, tornando-
-se a mais poderosa do mundo.
Com a aproximação dessa virada, um
consenso domina Washington: a Chi-
na pode prejudicar muito os interes-
ses e o bem-estar dos norte-america-
nos. O general Joseph Dunford, chefe
do Estado-Maior das Forças Armadas,
afirma sem rodeios: em 2025, a China
deverá ser “a maior ameaça” (audiên-
cia do Senado, 26 set. 2017). Na estra-
tégia de defesa nacional dos Estados
Unidos de 2018, a China e a Rússia são
citadas como “potências revisionis-
tas”, que procuram “forjar um mundo
compatível com seu modelo autoritá-
rio – obtendo direito de veto sobre as
decisões econômicas, diplomáticas e
de segurança de outras nações”.1 “A
ameaça chinesa”, declara o diretor do
FBI, Christopher Wray, “não está rela-
cionada apenas às questões estratégi-
cas e do conjunto do governo; ela afeta
o conjunto da sociedade, e eu acho
que vamos precisar de uma resposta
na escala do conjunto da sociedade.”
Essa ideia está tão difundida que,
quando o presidente Donald Trump
iniciou sua guerra comercial contra a
China, em janeiro de 2018, ele recebeu
o apoio até mesmo de personalidades
moderadas, como o senador demo- mente conclusão de que um conflito União Soviética, os dirigentes dos Es- da de uma serpente segue sua cabeça.
crata Chuck Schumer. armado entre os dois países parece tados Unidos estão convencidos de E pediu a seus colegas: “Se você acredi-
Duas preocupações alimentam es- mais do que provável. que o destino do Partido Comunista ta em um futuro mais aberto e mais li-
sa inquietação. A primeira é econômi- No entanto, a China não está orga- Chinês (PCC) é ser enterrado junto vre para o povo chinês, você deve apro-
ca: a China teria enfraquecido os Esta- nizando uma força militar capaz de com o Partido Comunista soviético. var este acordo”. Seu sucessor, George
dos Unidos por meio de práticas ameaçar ou invadir a América, não De um extremo a outro do espectro W. Bush, tinha as mesmas convicções.
comerciais desleais, exigindo transfe- tenta intervir nos assuntos domésticos político, eles aceitaram, mais ou me- Na Estratégia de Defesa Nacional de
rências de tecnologia, violando o direi- dos Estados Unidos e não está em nos explicitamente, a tese apresentada 2002, ele afirmou que, “com o tempo, a
to de propriedade intelectual e impon- campanha para destruir a economia por Francis Fukuyama em 1992: “Não China perceberá que as liberdades so-
do barreiras não tarifárias que norte-americana. Apesar dos clamo- somos testemunhas apenas do fim da ciais e políticas são a única fonte de
impedem o acesso a seus mercados. A res a respeito do perigo chinês, deveria Guerra Fria, [...] mas do fim da própria grandeza de uma nação”. Hillary Clin-
segunda é política: seu desenvolvi- ser possível, entretanto, para os Esta- história como tal: a saber, o ponto final ton foi ainda mais explícita. Estenden-
mento econômico não estaria sendo dos Unidos encontrar um meio pacífi- da evolução ideológica da humanida- do o reinado do PCC, os chineses ten-
acompanhado pelas reformas demo- co de lidar com o país que, dentro de de e a universalização da democracia tam, segundo ela, “impedir o curso dos
cráticas liberais previstas pelos gover- uma década, será a maior potência liberal ocidental como uma forma fi- acontecimentos; em vão. Eles não se-
nos ocidentais, principalmente o dos econômica, talvez até geopolítica, do nal de governança humana”.3 rão capazes de fazer isso. Mas tentarão
Estados Unidos. A China estaria se mundo. E fazer isso defendendo seus Quando, em março de 2000, Bill desacelerá-lo o quanto puderem”.
mostrando muito agressiva em suas próprios interesses, mesmo quando Clinton explicou por que apoiava a
relações com as outras nações. Con- eles são contrários aos de Pequim. adesão da China à Organização Mun- PLUTOCRACIA CONTRA MERITOCRACIA
vencido de tais análises, o cientista po- Ainda é preciso começar questio- dial do Comércio (OMC), ele assegurou Pode-se questionar a confiança dos
lítico Graham Allison chega, em um nando uma antiga crença sobre o sis- que a liberalização política seguiria a tomadores de decisão norte-america-
livro intitulado Vers la guerre,2 à depri- tema político chinês. Desde o fim da liberalização econômica, como a cau- nos, que se consideram em posição de

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dar recomendações políticas à China. menta que essa insistência nos parti- vê nisso um sinal premonitório de con- Quanto às questões econômicas,
Ainda que nenhum império tenha acu- cularismos marca uma ruptura com a flito armado. Mas essa mudança na li- elas não requerem menos habilidade
mulado tanto poder econômico, políti- cultura chinesa tradicional, que, como derança do país não transformou de que os assuntos militares e diplomáti-
co e militar como os Estados Unidos, a ilustra a noção histórica de tianxia, era maneira fundamental a estratégia geo- cos. Esse não é o caminho escolhido
assinatura de sua Declaração de Inde- um sistema universal e aberto. Criti- política de longo prazo da China. Esta por Trump. Mesmo com suas justifica-
pendência (1776) tem menos de 250 cando a rejeição radical, por alguns de sempre evitou guerras inúteis. Ao con- tivas duvidosas, a guerra comercial
anos. A história da China começou seus pares “nacionalistas extremis- trário dos Estados Unidos, que têm a que ele desencadeou contra a China
muito antes. Ao longo dos milênios, tas”, de “tudo o que foi criado pelos sorte de ter dois vizinhos pacíficos – lhe valeram um amplo apoio do gran-
seu povo aprendeu que os maiores so- ocidentais”, ele afirma, ao contrário, Canadá e México –, ela tem um relacio- de público, fenômeno que certamente
frimentos sobrevêm quando seu go- que a China sempre teve sucesso por- namento difícil com vários vizinhos põe em evidência um erro chinês: não
verno central está fraco e dividido, co- que sempre esteve aberta. poderosos e altamente nacionalistas, levar em conta as crescentes críticas
mo no século após a Guerra do Ópio No entanto, mesmo um progressis- entre eles a Índia, o Japão, a Coreia do suscitadas por certas práticas desleais.
(1842), ao longo do qual a China foi as- ta como Xu não gostaria que seu país Sul e o Vietnã. Dos cinco membros per- No entanto, tais práticas explicam, por
solada por invasões estrangeiras, guer- reproduzisse o sistema político norte- manentes do Conselho de Segurança si só, a atitude de Trump? Na China e
ras civis, fome e muitos outros males. -americano. Pelo contrário, o profes- da ONU, a China é o único que não dis- em toda parte, cada vez menos se acre-
Desde 1978, o país tirou 800 milhões de sor acha que a China deveria “explorar parou nenhum tiro fora de suas fron- dita nisso. O que os Estados Unidos
pessoas da pobreza e criou a maior suas próprias tradições culturais” a teiras nos últimos trinta anos, desde a desejam é minar a ambição da China
classe média do mundo. Como escre- fim de promover uma “nova tianxia”. breve batalha naval com o Vietnã em de se tornar um líder tecnológico. Co-
veu Graham Allison em um editorial Na frente interna, “os hans e as nume- 1988. Em compensação, mesmo sob o mo observou Martin Feldstein, ex-pre-
para o China Daily, jornal estatal chi- rosas minorias nacionais devem gozar governo do presidente Barack Obama, sidente do Comitê de Conselheiros
nês, “é possível afirmar que houve, em de plena igualdade no plano jurídico e considerado pacifista, as Forças Arma- Econômicos de Ronald Reagan, os Es-
quarenta anos de crescimento mila- em termos de sua situação social; as das dos Estados Unidos lançaram em tados Unidos têm todo o direito de co-
groso, uma melhoria no bem-estar hu- especificidades culturais das diversas um único ano, 2016, 26 mil bombas so- locar em prática políticas para impe-
mano mais rápida do que durante os 4 nacionalidades devem ser respeitadas bre sete países. É bastante evidente dir o roubo de suas tecnologias, mas
mil anos de história da China”. Tudo e protegidas”. No nível diplomático, as que os chineses dominam a arte da isso não os autoriza a bloquear o plano
isso aconteceu enquanto o PCC estava relações com os outros países “devem contenção estratégica. estratégico nacional “Made in China
no poder. E os chineses não deixaram ser definidas pelos princípios do res- Claro que em alguns momentos 2025” – um projeto concebido para de-
de notar que o fim do Partido Comu- peito pela independência soberana do eles estiveram à beira da guerra.8 Com senvolver indústrias de ponta, como a
nista soviético foi acompanhado, na outro, da igualdade de tratamento e da o Japão, por exemplo, por causa das de carros elétricos, a robótica avança-
Rússia, por uma redução da expectati- convivência pacífica”. ilhas Senkaku/Diaoyu. Muito se tem da e a inteligência artificial.
va de vida, pelo aumento da mortalida- O sistema político chinês deverá falado também sobre a possibilidade Para manter sua supremacia nas
de infantil e pela queda da renda. evoluir junto com a situação econômi- de um conflito no Mar da China Meri- indústrias de alta tecnologia, como a
Aos olhos dos norte-americanos, a ca e social. E, em muitos aspectos, já se dional, pelo qual passa, todo ano, cerca aeroespacial e a robótica, os Estados
luta entre seu sistema político e o da transformou consideravelmente – de um quinto do transporte marítimo Unidos não podem se contentar em
China se resume ao enfrentamento abrindo-se. Por exemplo, em 1980, ne- mundial. Em um contexto de sobera- impor barreiras alfandegárias a seus
entre uma democracia, onde as pes- nhum habitante da China estava auto- nia contestada em algumas porções parceiros. Eles precisam investir em
soas escolhem livremente o governo, rizado a viajar para o exterior como dessas águas, a China converteu reci- ensino superior, pesquisa e desenvol-
podem falar o que quiserem e prati- turista. No ano passado, quase 134 mi- fes isolados e baixios nelas localizados vimento; em outras palavras, preci-
cam a religião de sua escolha, e uma lhões de pessoas foram para o exterior em instalações militares. Mas, ao con- sam desenvolver sua própria estraté-
autocracia, onde elas são privadas des- e voltaram para casa por vontade pró- trário do que levam a crer as análises gia econômica de longo prazo para
sas liberdades. Mas, para observado- pria. Da mesma forma, milhões de jo- ocidentais, o país, cuja posição na re- responder à da China.
res menos militantes, a clivagem se vens com mentes brilhantes puderam gião é inegavelmente mais afirmada Tanto no plano político como no
apresenta de outra forma: ela opõe experimentar a liberdade das univer- no plano político, não se tornou mais plano retórico, o governo chinês tem
uma plutocracia norte-americana – na sidades norte-americanas. Em 2017, agressivo do ponto de vista militar. In- uma visão clara do futuro de sua eco-
qual as decisões políticas acabam por oito em cada dez estudantes quiseram clusive, ele poderia facilmente expul- nomia e de sua população. Programas
favorecer os ricos em detrimento das voltar para casa. sar pequenos rivais, como a Malásia, as como o “Made in China 2025” ou o
massas – e uma meritocracia chinesa Filipinas e o Vietnã – mas não fez isso. “Novas Rotas da Seda” (Belt and Road
– na qual as decisões políticas, toma- NENHUM TIRO NOS ÚLTIMOS TRINTA ANOS Initiative, BRI), com seus projetos de
das por funcionários escolhidos pelo No entanto, uma questão perma- BATALHA PELA SUPREMACIA INDUSTRIAL infraestrutura, ilustram o desejo de se
partido com base em suas competên- nece: se as coisas vão bem, por que Xi A rotineira narrativa da “agressão tornar um ator de primeira linha nas
cias, ajudaram a reduzir a pobreza de Jinping impõe uma disciplina mais chinesa” nessa área geralmente deixa novas indústrias. Aliás, os dirigentes
maneira espetacular. Nos últimos rigorosa aos comunistas e por que de mencionar que os Estados Unidos chineses insistem no fato de que seu
trinta anos, a renda mediana do traba- acabou com o limite de mandatos pre- perderam muitas oportunidades de ali- país não pode prosseguir na busca pe-
lhador norte-americano estagnou: en- sidenciais?7 Podemos dar a seu ante- viar as tensões na região. Um ex-embai- lo crescimento ignorando seu custo
tre 1979 e 2013, o salário horário real cessor, Hu Jintao, o crédito por um xador na China, J. Stapleton Roy, decla- social: a desigualdade e a poluição
mediano aumentou apenas 6% – me- crescimento econômico espetacular. rou que, em uma coletiva de imprensa ambiental. Xi reconheceu, em 2017, a
nos de 0,2% ao ano.4 Mas seu mandato também foi marca- conjunta com o presidente Obama, no necessidade de resolver a tensão “en-
Isso não significa que o sistema po- do pelo recrudescimento da corrupção dia 25 de setembro de 2015, Xi fez pro- tre um desenvolvimento desequilibra-
lítico chinês deva persistir em sua for- e do divisionismo, particularmente da postas sobre o Mar da China Meridional do e inadequado e a necessidade cada
ma atual. As violações dos direitos hu- parte de Bo Xilai, líder de Chongqing que incluíam a aprovação de declara- vez maior de uma vida melhor para os
manos, principalmente a detenção de (30,5 milhões de habitantes), e Zhou ções apoiadas pelos dez membros da cidadãos”.9 Ninguém sabe se o gover-
centenas de milhares de uigures,5 con- Yongkang, ex-chefe todo-poderoso da Associação das Nações do Sudeste Asiá- no será capaz de responder a isso. Mas
tinuam sendo um grande problema. segurança interna. Xi está convencido tico (Anase). Ele acrescentou que não pelo menos ele tomou consciência do
Muitas vozes se elevam na China para de que essas tendências podem desle- pretendia militarizar as Ilhas Spratley, problema. Nada impede que os Esta-
exigir reformas. Entre elas, a do pro- gitimar o PCC e atrapalhar a revitaliza- onde obras gigantescas estavam em dos Unidos façam o mesmo.
fessor Xu Jilin,6 que reserva suas críti- ção do país. Para enfrentar esses terrí- curso. A administração Obama não fez Ocorre que, para desenvolver uma
cas mais agudas aos colegas do mundo veis desafios, considera necessário nenhum esforço para dar prossegui- estratégia de longo prazo, os Estados
acadêmico. Ele os acusa de dar exces- restaurar um poder central forte. Ape- mento a essa proposta conciliatória; ao Unidos precisam resolver uma contra-
siva centralidade ao Estado-nação e sar disso (ou graças a isso?), ele conti- contrário, intensificou as patrulhas de dição fundamental em seus próprios
muito destaque às diferenças cultu- nua extremamente popular. sua Marinha. Em resposta, a China ace- princípios. Seus maiores economistas
rais e históricas fundamentais com os No mundo ocidental, muita gente lerou a construção de instalações de- acreditam que as políticas industriais
modelos políticos ocidentais. Xu argu- se preocupa com seu enorme poder e fensivas nessas ilhas. conduzidas sob a liderança dos Esta-

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dos não funcionam e defendem um riam considerar uma participação no ao ver Washington desperdiçando seu Políticas Públicas da Universidade de Cin-
capitalismo de livre mercado. Se tal BRI, para grande satisfação dos países dinheiro em gastos militares inúteis. gapura e autor de L’Occident (s’)est-il per-
crença tem fundamento, então o prin- envolvidos no projeto, muito interes- Se os Estados Unidos conseguissem du? [O Ocidente (se) perdeu?], Fayard, Pa-
cipal negociador comercial de Trump, sados em moderar a preponderância mudar sua visão sobre a China, eles des- ris, 2019. Este artigo é parte de um texto
Robert Lighthizer, não deveria ficar chinesa. Em suma, há muitas oportu- cobririam que é possível desenvolver publicado na revista Harper’s, em fevereiro
alarmado por causa dos esforços de nidades para serem aproveitadas. As- uma estratégia capaz de freá-la e de fa- de 2019.
Pequim para melhorar suas capacida- sim como a Boeing e a General Elec- zer avançar seus próprios interesses.
des tecnológicas. Ele deveria acomo- tric tiraram proveito da explosão do Em um discurso pronunciado na Uni- 1 “Summary of the National Defense Strategy of the
dar-se confortavelmente e aguardar mercado de aviação chinês, empresas versidade de Yale em 2003, Clinton United States 2018” [Resumo da Estratégia Nacio-
até que a iniciativa industrial da China como a Caterpillar e a Bechtel pode- enunciou a filosofia por trás dessa estra- nal de Defesa dos Estados Unidos 2018], Depar-
tamento de Defesa, Washington, DC. Disponível
desmorone por si mesma, saboreando riam se beneficiar das grandes obras tégia, explicando, essencialmente, que em: <https://dod.defense.gov>.
o espetáculo de seu fracasso. realizadas nesses países. Até o mo- a única maneira de conter a próxima su- 2 Graham Allison, Vers la guerre. L’Amérique et la
No entanto, se Lighthizer acredita mento, porém, a aversão ideológica perpotência é criando regras multilate- Chine dans le piège de Thucydide? [Rumo à guer-
ra. América e China na armadilha de Tucídides?],
que o plano de 2025 pode ter sucesso, dos Estados Unidos ao intervencionis- rais e parcerias que a limitem. Odile Jacob, Paris, 2019.
cabe a ele pedir que seus concidadãos mo estatal na economia torna esses Sob o reinado de Xi, a China conti- 3 Francis Fukuyama, La Fin de l’histoire et le dernier
revejam seus postulados ideológicos. cenários improváveis. nua favorável ao fortalecimento da ar- homme [O fim da História e o último homem],
Flammarion, Paris, 2009 (1. ed.: 1992).
Eles poderiam, então, desenvolver Fazia sentido que os Estados Uni- quitetura multilateral mundial criada 4 Lawrence Mishel, Elise Gould e Josh Bivens,
uma estratégia de longo prazo equiva- dos tivessem o maior orçamento de de- pelos Estados Unidos, incluindo o FMI, “Wage stagnation in nine charts” [A estagnação
lente. A Alemanha, aliás, provavel- fesa do mundo quando seu poder eco- o Banco Mundial, a ONU e a OMC. Ela salarial em nove gráficos], Economic Policy Institu-
te, Washington, DC, 6 jan. 2015. Disponível em:
mente a maior potência industrial do nômico deixava em segundo plano forneceu mais forças de manutenção <www.epi.org>.
mundo, já conta com um roteiro como todas as outras nações. Faria sentido da paz do que os outros quatro mem- 5 Ler Remi Castets, “A repressão contra os uigures
esse, chamado Industry 4.0. que a segunda maior economia do bros permanentes do Conselho de Se- no controlado mundo do ‘sonho chinês’”, Le Mon-
de Diplomatique Brasil, mar. 2019.
mundo ainda tivesse o maior orça- gurança. Novas oportunidades de coo- 6 Cf. Xu Jilin, Rethinking China’s Rise: A Liberal Cri-
PRESENTE ESTRATÉGICO PARA PEQUIM mento de defesa do planeta? Agarrar- peração surgirão, portanto, em fóruns tique [Repensando a ascensão da China: uma crí-
Ironia do destino: a colaboração -se a essa supremacia não seria um multilaterais. Mas, para aproveitá-las, tica liberal], Cambridge University Press, 2018.
7 Até março de 2018, o presidente da República não
mais vantajosa para os Estados Uni- presente estratégico para a China? Esta os dirigentes dos Estados Unidos preci- podia ter mais do que dois mandatos.
dos seria justamente aquela que eles aprendeu uma importante lição com o sam aceitar uma realidade: a ascensão 8 Cf. Richard McGregor, Asia’s Reckoning: China,
poderiam estabelecer com a China. colapso do bloco soviético: o cresci- da China (e da Índia) é inevitável. Japan, and the Fate of US Power in the Pacific
Century [O acerto de contas da Ásia: China, Japão
Esta quer apenas utilizar suas reser- mento econômico deve vir antes das e o destino do poder dos Estados Unidos no Sécu-
vas de US$ 3 trilhões para investir despesas com armamentos. Nessas *Kishore Mahbubani é ex-embaixador de lo do Pacífico], Viking, Nova York, 2017.
mais nos Estados Unidos, que pode- condições, Pequim só pode se alegrar Cingapura nas Nações Unidas, professor de 9 Discurso no XIX Congresso do PCC, Xinhua, 18
out. 2017.

KARL MARX
FRIEDRICH ENGELS
ADAPTAÇÃO DE MARTIN ROWSON

MANIFESTO
COMUNISTA
EM QUADRINHOS

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A ESTRATÉGIA POPULISTA EM QUESTÃO

A Espanha vota, o Podemos hesita


Há muito pouco tempo, cada eleição espanhola parecia confirmar o avanço do Podemos. Contudo, são poucos os
que esperam uma vitória do partido nas eleições gerais de 28 de abril. Enquanto a extrema direita avança, como explicar
a retração de uma formação que parecia ter recuperado a esperança dos progressistas europeus?
POR JOSÉ ANTÓNIO GARCÍA SIMON E JAIME VINDEL*

Quando foram criados, esses espaços


tinham por função criar um vínculo
territorial e um ambiente propício à for-
mação de quadros políticos. Mas, in-
quieta ao ver esses círculos serem moto-
rizados pelos Anticapitalistas, a direção
do Podemos preferiu finalmente desti-
tuí-los de poderes efetivos dentro do
partido. Esse processo de concentração
de poder terminou em fevereiro de 2017,
durante a segunda Assembleia Cidadã
do partido, que consolidou uma forma
de centralismo democrático no qual os
círculos perderam peso nos principais
órgãos de decisão.
A máquina de guerra colocada em
marcha para aproveitar a ocasião
apresentada pelas eleições gerais de
2015 priorizou a participação on-line
por meio de diversas plataformas de
voto, debate e elaboração de progra-
mas, como Appgree ou Reddit. O caris-

S
urgido do nada há cinco anos, salta Brais Fernández, cientista políti- mos capitalizou sobre esse mal-estar e ma de Iglesias, capaz de embalar au-
com a ambição de chegar ao to- co, secretário de redação da Viento Sur rapidamente se tornou o voto favorito diências, completou uma concepção
po (da Espanha), o Podemos e membro do Anticapitalistas, uma or- de eleitores entre 25 e 35 anos, com en- midiática da democracia.
parecia ter regenerado a forma ganização trotskista que foi um dos sino superior completo. Para muitos, o De acordo com a estratégia popu-
de falar e de fazer política na Europa. fundadores do Podemos. partido encarnava a única possibilida- lista teorizada por Ernesto Laclau e
Cinco anos depois, ninguém acredita Para a primeira corrente dos “in- de de nova política desejada por esses Chantal Mouffe,2 o Podemos traduziu
na vitória das promessas de ontem, e o dignados”, portanto, “a prioridade é rostos jovens de estilo irreverente. sua crítica à oligarquia econômica e à
partido parece ameaçado de se nor- renovar as pessoas da política”, afirma Para a segunda corrente, mais radi- classe política na forma de um antago-
malizar no seio de uma paisagem polí- Fernández. Em certa medida, as mobi- cal, previamente existente dentro dos nismo entre “as pessoas” e “a casta”, na
tica que o rejeita em bloco. Sua retra- lizações de rua revelaram o descon- “indignados”, a mobilização se carac- esperança de abalar o eixo tradicional
ção atual é uma fase, comum a todas as tentamento das classes médias no im- terizava por seus espaços de socializa- esquerda-direita. A denúncia da crise
lutas desse tipo? Ou reflete o recrudes- passe, com suas ambições de ascensão ção política (as assembleias, as tendas, financeira e da corrupção do establish-
cimento das tensões que persistiam no social abaladas pela crise de 2008. No os encontros etc.) e por uma amplitu- ment político-econômico tornou-se
momento em que o partido nasceu? poder, o Partido Socialista Operário de que tornava possível a emergência um argumento central da contestação
Quando o Podemos irrompeu na Espanhol (Psoe), principal pilar do de uma crítica mais profunda do siste- que os ideólogos do Podemos chamam
cena política espanhola, em 17 de ja- imaginário progressista na Espanha ma político e econômico espanhol. de “regime de 78” – em referência à
neiro de 2014, seus fundadores enten- pós-transição, optou pela austeridade Aqui, a rejeição da classe política Constituição adotada em 1978 com o
diam levar adiante as exigências da – escolha que simboliza a modifica- tomou a forma de uma vontade de au- fim do franquismo. Essa tentativa de
“democracia real” reivindicada pelo ção, no dia 23 de agosto de 2011, do ar- tonomização por meio da formação de flexibilizar a divisão esquerda-direita,
movimento dos “indignados”, que tigo 135 da Constituição para “garantir comunidades de vivência e espaços de contudo, não foi bem-sucedida. Em
ocupou as ruas do país em maio de a estabilidade orçamentária”, ou seja, deliberação, a promoção de uma de- 2015, o crescimento do Ciudadanos
2011.1 Suas reivindicações se desdo- estabelecer o pagamento da dívida pú- mocracia digital, a ambição de poder nas pesquisas – que o presidente do
braram em um grande espectro de slo- blica como prioridade absoluta. revogar os eleitos etc. A criação de as- Banco Sabadell, Josep Oliu, rapida-
gans e propostas, com um denomina- sembleias de bairro foi considerada mente apresentou como um “Podemos
dor comum: o questionamento da ROSTOS JOVENS, ESTILO IRREVERENTE uma forma de colocar em prática essas de direita”3 – reconfigurou o tabuleiro
ordem política (e, em menor medida, O Psoe arcou com o custo dessa aspirações e – por que não? – dissemi- político em quatro forças reagrupadas
da econômica) derivada da passagem política perdendo as eleições legislati- nar as bases de uma nova sociedade. em torno de dois eixos: esquerda e di-
da ditadura franquista (1936-1977) à vas de novembro do mesmo ano. A no- Os partidários dessa corrente rejeita- reita (Psoe e Podemos contra PP e Ciu-
democracia liberal. Em grandes li- va maioria parlamentar e o governo ram a distinção entre as esferas políti- dadanos) e nova e antiga política (Po-
nhas, essa contestação se organizou de Mariano Rajoy (Partido Popular, de ca e econômica, porque estavam con- demos e Ciudadanos contra Psoe e PP).
em torno de dois projetos distintos: de direita) aumentaram um pouco mais vencidos de sua consanguinidade. A estratégia populista elaborada
um lado, um ímpeto de regenerar o os cortes orçamentários com gastos O Podemos tentou reunir essas for- por Errejón e durante muito tempo
sistema; de outro, uma ambição maior sociais. Para os “indignados”, eviden- ças esparsas. Os círculos de simpati- sustentada por Iglesias encontrou eco
de transformação social. Reformar ou temente, a democracia espanhola não zantes, por exemplo, visavam retomar na população: alimentou a crítica ao
transformar: “A tensão entre essas funcionava. o espírito inicial das assembleias de imobilismo da esquerda tradicional –
duas opções se refletirá em seguida Tocado por Pablo Iglesias e Iñigo bairro dos “indignados”, que em 2014 considerada, em geral, cheia de jargões
nos debates internos do partido”, res- Errejón, dois universitários, o Pode- mostraram sinais de esgotamento. e incapaz de compreender o movimen-

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to dos “indignados”. Nas eleições de necessidade de um “novo compromis- franquismo. Como explica Jorge Moru- A estratégia populista, contudo,
novembro de 2011, a Izquierda Unida so histórico”, uma alusão à doutrina no, sociólogo, cofundador do Podemos não estava desconectada da ausência
(Esquerda Unida) – que tem como um defendida na época pelo secretário- e integrante da corrente “errejonista”, de base social do Podemos. A impor-
dos núcleos formadores o Partido Co- -geral do PCI, Enrico Berlinguer, que “trata-se de criar e afirmar outra visão tância conferida por Errejón aos con-
munista Espanhol (PCE) – não soube buscava garantir a estabilidade insti- de país, outra possibilidade de encon- ceitos e à teoria o conduziu a subesti-
traduzir a eclosão do movimento dos tucional da Itália por meio de acordos tro entre os povos da Espanha”. Em re- mar o papel dos movimentos sociais.
“indignados” em força eleitoral: seu com a Democracia Cristã.4 Tratava-se sumo, o reconhecimento da natureza “Até que ponto vocês acham que os
candidato, Cayo Lara, teve apenas 7% de pressionar a ação governamental plurinacional do Estado espanhol. movimentos populares podem ajudar
dos votos, longe do recorde histórico de do Psoe, com vistas à possibilidade de a governar?”, perguntou um jornalista
Julio Anguita em 1996, com 10,5%. um governo de coalizão, preparando- em 2014. Resposta de Errejón: “Para
No entanto, essa linha levou a dire- -se para, no momento certo, assumir o ser franco, muito pouco, porque eles
ção do Podemos a cometer erros, com controle do Estado. Assim, a lógica de Os partidários dessa estão tão embrenhados na cultura da
desdobramentos posteriores. Consi- coalizão de Iglesias foi acompanhada corrente rejeitam a resistência que não se permitem fazer
derando muito facilmente como “eli- do aprofundamento da visão classista distinção entre as as perguntas que precisam ser feitas”.6
tistas” os militantes políticos forma- – retomando a ideia de que a sociedade Mais que um enraizamento social, ele
dos, supostamente saturados em suas se divide em classes sociais com inte-
esferas política e buscava uma aproximação com ou-
experiências, ela acabou atravancan- resses divergentes. Essa nova estraté- econômica, porque tros empreendedores que também de-
do a possibilidade de uma organiza- gia partia da ideia de que a conjuntura estão convencidos de nunciavam a “oligarquia econômica”,
ção democrática, tanto no que se refe- favorável de 2011 seria parecida: a po- sua consanguinidade um projeto que suscitou uma questão:
re à circulação de informação quanto pulação estaria habituada à crise eco- até onde é possível levar um jogo de
na representatividade das diversas nômica e apenas um novo período de alianças como esse quando se chega
tendências do agrupamento nas toma- recessão revelaria sua cólera. Assim, o ao poder?7
das de decisão. Na prática, essa postu- Podemos terminou por ocupar o espa- O objetivo de Errejón? Atingir seto- Do ponto de vista da elaboração
ra populista se caracterizou por uma ço antes ocupado pela Izquierda Uni- res compostos da população: os mais das candidaturas, isso se traduziu por
grande desconfiança das bases mili- da e ainda incorporou alguns quadros precarizados dentro da classe média uma super-representação de profissio-
tantes e acabou por defender implici- militantes dela, assim como ex-inte- (independentes e profissionais libe- nais da política. É o caso, por exemplo,
tamente a conversão de quadros em grantes das juventudes comunistas rais); os partidários da nova política, da plataforma Más Madrid, criada
simples pombos-correios de decisões (onde se formou Iglesias), como Irene que ele qualificou de “amáveis”, em com vistas às eleições em maio próxi-
tomadas no âmbito de uma direção Montero, porta-voz do bloco parla- oposição à “rudeza” das posições de mo. A estrutura uniu o destino de Er-
carismática – atitude próxima ao cesa- mentar Unidos-Podemos. Iglesias (o que incluiu as camadas que rejón ao de Manuela Carmena, prefei-
rismo e que tende a descartar todos os A corrente classista de Iglesias mar- tendiam ao liberalismo do Ciudada- ta da capital e advogada engajada na
debates e referendos on-line. cou uma ruptura em relação à linha nos); e os decepcionados com o Psoe política desde a década de 1970, abra-
A convergência entre Errejón e Igle- populista de Errejón. De acordo com (partido que ainda tinha o apoio de çou a implosão do Podemos e resultou
sias funcionou até as eleições gerais de este último, a crise da esquerda se tra- certos trabalhadores não qualificados da recusa do primeiro de se dobrar ao
junho de 2016. Sem se abalar com as re- duzia por um enfraquecimento do Po- e de desempregados).5 controle estrito que o partido tentou
ticências do primeiro, o segundo deci- demos, em uma sociedade em que a O contexto, porém, não era o mes- lhe impor. Esse evento é a mais recente
diu então fazer aliança com a Izquier- relação entre voto e classe social é frá- mo de 2014. No cenário nacional, o repercussão da queda de braço que já
da Unida. A renovação desse partido, gil. Em vez de cavar trincheiras para “momento populista” da onda desen- dura três anos: Más Madrid e Podemos
sob a batuta de Alberto Garzón, enco- proteger fidelidades ideológicas, levan- cadeada pelos “indignados” experi- concorrem... separadamente. De certa
rajou aqueles que desejavam destituir do em conta o fato de que o Podemos mentou uma fase de recuo e hoje osci- forma, Errejón foi vítima da estrutura
o Psoe como principal força de esquer- não tem uma ancoragem territorial ca- la entre o esquecimento e o deslize piramidal da qual ele mesmo foi um
da por meio da constituição de um blo- paz de consolidar uma base social pela reacionário. Deslize que confirmou a dos principais criadores, desde a pri-
co parlamentar Unidos-Podemos. militância, Errejón optou por em- aparição, nas eleições regionais da meira assembleia cidadã do Podemos,
preender uma batalha no campo dos Andaluzia, do Vox (que obteve 11% em outubro de 2014.
ALIANÇAS CADA VEZ MAIS AMPLAS significantes políticos, ou seja, uma dos votos em dezembro último), um As desventuras do Podemos não se
Essa aliança ambicionava reativar disputa das palavras que estrutura- partido de extrema direita que alia explicam unicamente pelas lutas vis-
a estratégia “eurocomunista” da qual vam o debate: o conceito de pátria e a reabilitação do franquismo e oposi- cerais que o dilaceraram. A irrupção
o Partido Comunista Italiano (PCI) foi ideia mesma de Espanha, monopoliza- ção à “ideologia de gênero”, em um do Vox decorre do cataclismo que a
idealizador no início dos anos 1970. das pela direita e em geral rejeitadas contexto nos últimos anos marcado questão catalã provocou no cenário
Em muitas ocasiões, Iglesias afirmou a pela esquerda, pela associação com o pelo feminismo. político espanhol. Alguns dias depois

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da celebração do referendo sobre a in- (PP, Ciudadanos, Vox) tentam isolá- forças reacionárias no Leste Europeu e sorte do Podemos a médio prazo e a
dependência da Catalunha, em outu- -las. A tática classista sublinha a trans- nos Estados Unidos. possibilidade de ver as reivindicações
bro de 2017 – duramente reprimida pe- versalidade territorial das classes tra- Esse panorama internacional en- dos “indignados” se transformarem
la polícia –, a intervenção televisiva do balhadoras. A tática populista promete corajou a ascensão da extrema direita, em realizações políticas.
rei Felipe VI, que atribuiu a responsa- uma identificação entre povo, Estado e até então pouco visível no cenário po-
bilidade da crise aos independentistas nação que possa desembocar em uma lítico espanhol, e a radicalização de *José António García Simon é escritor e
catalães, marginalizou as forças que, renovação dos pactos constitucionais outras formações conservadoras (PP, Jaime Vindel é professor da Universidade
como o Podemos, mostraram-se favo- de 1978. Apesar da oposição dos con- Ciudadanos). Também reduziu a ca- Complutense de Madri.
ráveis à realização do referendo. A servadores, estes últimos haviam re- pacidade do Podemos de encarnar as
aparição repentina de bandeiras espa- conhecido os direitos sociais da popu- esperanças de transformação que pai-
nholas nas varandas das cidades espa- lação e impediram a recentralização ravam na época de criação do partido.
nholas deixa entrever um retorno do das competências transferidas às co- A experiência acumulada desde
bastião conservador. munidades autônomas. 2015 – graças à gestão de cidades como
A amplitude dos escândalos, contu- Madri, Barcelona, Valência, Cádis, Co- 1 Ler Raúl Guillén, “Alchimistes de la Puerta del Sol”
[Alquimistas da Porta do Sol], Le Monde Diploma-
do, impede a direita de permanecer no ALERTA GREGO runha, Saragoça8 – convida a uma lei- tique, jul. 2011.
poder: o PP aparece envolvido em um O resto do mundo também mudou tura dupla: se facilitou a aquisição de 2 Ler Razmig Keucheyan e Renaud Lambert, “Ernes-
enorme caso de corrupção. Em junho depois do nascimento do Podemos. À saberes indispensáveis a quem aspira a to Laclau, inspirateur de Podemos” [Ernesto La-
clau, inspirador do Podemos], Le Monde Diploma-
de 2018, Rajoy foi obrigado a sair depois época, seus dirigentes expressavam responsabilidades institucionais, tam- tique, set. 2015.
de uma moção de repúdio apresentada abertamente sua admiração pelo pro- bém operou uma normalização de 3 “Josep Oliu propone crear ‘una especie de Pode-
pelo secretário-geral do Psoe, Pedro cesso bolivariano na Venezuela. Hoje, partidos que se pretendiam “diferen- mos de derechas’” [Josep Oliu propõe criar “uma
espécie de Podemos de direita”], El Periódico,
Sánchez, com o aval do Partido Nacio- o caos político-econômico que reina tes”. Além disso, o sucesso dessas ad- Barcelona, 25 jun. 2014.
nalista Basco (PNV), de diversos parti- nesse país constituiu um fardo para ministrações municipais pode ser me- 4 Pablo Iglesias, “Un nuevo compromiso histórico”
dos catalães e do Podemos. O breve go- Iglesias e Errejón, mesmo que tenham dido localmente, mas não foi suficiente [Um novo compromisso histórico], El País, Madri,
9 dez. 2015.
verno socialista fracassa, porém, em tomado distância do governo de Nico- para amputar privilégios das elites. 5 Irene Castro, “El PSOE, el partido al que más votan
encontrar uma solução consensual à lás Maduro. As forças situadas à esquerda do los desempleados” [Psoe, o partido mais votado
crise territorial e se mostra tímido so- Ainda mais determinante foi o re- Psoe – Podemos, Izquierda Unida, En pelos desempregados], El Diario, 22 jun. 2016.
6 Entrevista a Pablo Rivas, “Estamos orgullosos de
bre questões sociais defendidas por sultado do conflito entre Bruxelas e Común Podem (que parece o Pode- que la oligarquía española tenga miedo” [Estamos
Unidos-Podemos (apesar do anúncio Atenas em 2015. O conformismo do mos e outras organizações da Catalu- orgulhosos do medo que a oligarquia espanhola
em dezembro último de aumento do Syriza diante das demandas de seus nha), Más Madrid etc. – ainda gozam demonstra], Diagonal, Madri, 7 nov. 2014.
7 Ler Serge Halimi, “Un peuple en construction” [Um
salário mínimo em 22%). “parceiros” europeus foi um sinal de de importante simpatia popular. Os povo em construção], Le Monde Diplomatique,
Nessa conjuntura, “pablistas” e alerta: a perspectiva de um polo de re- eventos dos próximos dois meses – dez. 2018.
“errejonistas” tentam conjugar as va- sistência contra o neoliberalismo no eleições gerais em 28 de abril e elei- 8 Ler Pauline Perrenot e Vladimir Slonska-Malvaud,
“Dans les villes rebelles espagnoles” [Nas cidades
riáveis sociais e nacionais da crise ca- sul da Europa tornava-se distante – ções europeias, regionais e munici- rebeldes espanholas], Le Monde Diplomatique,
talã, enquanto as formações de direita sentimento reforçado pelo avanço das pais em 26 de maio – determinarão a fev. 2017.

GÊNESE DE UM LUGAR-COMUM

“Os extremos se encontram...”


A fórmula está tão banalizada que poderíamos acreditar que ela está firmemente fundada na geometria:
tanto num círculo como na política, os extremos se aproximam. Desde a Revolução Francesa, esse pseudoteorema
serve como arma de desqualificação em massa, cuja lista de vítimas não para de crescer
POR CONSTANTIN BRISSAUD*

m pequeno jogo muito popular to de Toulouse, do partido Les Répu- palavra serviu durante muito tempo Com a Revolução Francesa, esse te-

U no debate político contempo-


râneo consiste em identificar
um ponto comum entre dois in-
divíduos ou duas correntes a priori
opostos para não dar razão a nenhum
blicains (LR), comentou no Twitter:
“Vimos os dois extremos se encontra-
rem nas barricadas para tentar deses-
tabilizar a República. Condeno essa
conivência e a violência que ela orga-
para condenar temperamentos ou
comportamentos considerados ex-
cessivos. No século XIV, o filósofo Ni-
cole Oresme considerou que “a virtu-
de é a média e os vícios são extremos”.
ma deixou o campo da moralidade pa-
ra ganhar o da política. Em agosto de
1789, a recém-instaurada Assembleia
Nacional deveria decidir sobre o direi-
to de veto real: o rei podia bloquear
deles e condená-los num mesmo mo- niza. Eles semearam o caos e conti- Três séculos depois, Blaise Pascal, uma lei decidida pela Assembleia? À es-
vimento. A França Insubmissa e o Ras- nuam em algumas ruas. Dize-me com também ele apóstolo do “meio-ter- querda da Câmara, os partidários da
semblement National (RN, antiga quem andas e te direi quem és...”. Des- mo”, escreveu: “O ânimo extremo é República se opunham a ela; à direita,
Frente Nacional) criticam ambos os tinada a desqualificar adversários po- acusado de loucura, assim como a os defensores da monarquia constitu-
tratados europeus? Essa é a prova de líticos, essa estratégia de assimilar falta dele. Só a mediocridade é boa”. cional eram a favor. A essa nova divisão
que os extremos se encontram. Ambos água e fogo tem uma longa história. Então, em 1782, foi a vez de o filósofo em breve se somaria outra. A partir de
apoiam o movimento dos “coletes Os “extremos” nunca tiveram boa Louis-Sébastien Mercier afirmar em 1791, começou-se a evocar “a extremi-
amarelos”? Outro sinal de uma alian- reputação. Sem voltar até a Antigui- seu Tableau de Paris [Quadro de Pa- dade da parte esquerda” e “a extremi-
ça objetiva. Após a manifestação que dade, quando Aristóteles elogiava os ris] que “os extremos se tocam” por- dade da parte direita”, sobretudo para
ocorreu em sua cidade em 8 de dezem- benefícios do “meio-termo”, esse que “os grandes e os canalhas se sugerir que essas duas bordas pode-
bro de 2018, Jean-Luc Moudenc, prefei- “equilíbrio entre dois extremos”, a aproximam em seus modos”.1 riam se juntar. Aqueles que, como Tal-

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leyrand, La Fayette ou o abade Sieyès, tido Radical, sobretudo, criado em


defendiam a monarquia constitucio- 1901, usaria esse argumento de forma
nal rapidamente se apresentaram co- implacável contra seus rivais socialis-
mo a encarnação da moderação, da ra- tas e depois comunistas. Antes da
zão. Como escreveu o historiador Uwe eclosão da Primeira Guerra Mundial, o
Backes, “a designação ‘extremo’ tor- Le Radical, principal órgão do partido,
nou-se um dos lugares-comuns da crí- não deixou de virar as costas a belicis-
tica antirrevolucionária”.2 tas e pacifistas. Em 25 de agosto de
Diretor do jornal La Sentinelle e au- 1913, um artigo denunciava aqueles
tor de um panfleto intitulado À Maxi- que pecavam por “excessos antimili-
milien de Robespierre et à ses royalistes taristas” e depois apelava às “pessoas
[Para Maximiliano de Robespierre e honestas”, aos patriotas “que amam
seus monarquistas], Jean-Baptiste seu país com paixão, com decência”. O
Louvet denunciou constantemente a então ministro das Relações Exterio-
existência de um complô unindo “ja- res, Stephen Pichon, era com certeza
cobinos fanáticos” e os partidários da um deles, parabenizado pelo jornal
monarquia absoluta. “O democrata por sua abordagem “sempre cautelosa
Babeuf é apenas um monarquista dis- e moderada” da “questão dos Bálcãs”.
farçado”, fulminou em 12 de maio de Essa abordagem não conseguiu evitar
1796, antes de voltar ao tema três dias o conflito, mas isso pouco importava
depois: Babeuf, “é um aristocrata furio- para os radicais, que continuaram de-

© Laura Erber
so [...], um agente dos príncipes do es- nunciando a convergência dos extre-
trangeiro. E notem que eu pensava as- mos. Em sua edição de 10 de julho de
sim de Marat, de Hébert e de todos os 1918, o Le Radical fustigou então “os
bandidos desse tipo”. Os discursos extremos do imperialismo alemão e
conspiratórios de Louvet foram ampla- do imperialismo socialista dos bolche-
mente celebrados pela imprensa da viques”, que não só “se tocam”, mas
época; seus colegas, que, em sua maior os bandidos”. “A República está entre triunfo do meio-termo, ou a Revolução “estão prestes a se fundir”...
parte, colocariam o ardor reformista a esses dois extremos”, ele escreveu; de Julho e suas verdadeiras consequên- Essa reaproximação entre a Alema-
serviço de Napoleão, louvavam sua co- “ela está na grande maioria dos cida- cias] (1833)...5 –, esse tema foi ferozmen- nha e a Rússia soviética experimenta-
ragem, sua inteligência, sua sagacida- dãos igualmente excluídos pela fac- te ridicularizado pelos caricaturistas. ria, de forma um tanto diferente, uma
de.3 Figura de proa dos defensores da ção monárquica e pela facção dema- Uma litografia de Charles Philipon opõe longa prosperidade com a condenação
monarquia constitucional, depois de ter gógica.” Essas opiniões fariam que, as “armas do povo” (lanças, lanternas, dos “totalitarismos”, uma noção por
apoiado brevemente a Revolução, Ma- sob o Império, ele fosse coberto de vassouras...) e as do meio-termo: uma demais ampla que permite colocar na
dame de Staël também compartilhou condecorações e se tornasse minis- contabilidade realizada pela polícia se- mesma sacola o comunismo, o fascis-
suas análises: “Foi dito com frequência, tro da Justiça. creta, clisteres...6 Da mesma forma, na mo e o nazismo, a fim de defender,
no curso da revolução da França, que os Nos vinte anos que se seguiram à gravura Le Juste Milieu ou le c... entre diante do vazio, o único modelo eco-
aristocratas e os jacobinos tinham a revolução, foram forjados os ingre- deux selles [O meio-termo ou o c... entre nômico e político razoável: a demo-
mesma linguagem, eram também ab- dientes que por mais de dois séculos dois selins], um homem cai no chão, en- cracia liberal e a economia de merca-
solutos em suas opiniões e, de acordo têm sido o tema da “convergência dos tre a cadeira do povo e o trono real. do. Se aparece na Itália da década de
com a diversidade das situações, adota- extremos”, utilizado a fim de desacre- Após as revoluções de fevereiro e ju- 1920 sob a pena de adversários do Du-
vam um sistema de conduta igualmen- ditar qualquer projeto de transforma- nho de 1848, Luís Napoleão Bonaparte ce, esse conceito ganha de fato ares de
te intolerante”, ela escreveu em 1796. ção social: com suas propostas dema- apresentou-se também como o homem nobreza após a Segunda Guerra Mun-
“Essa observação deve ser considerada gógicas e irrealistas, os “extremistas” da reconciliação, promovendo, segundo dial, quando as obras de Hannah
como uma simples consequência do de todas as vertentes enfraqueceriam o historiador Éric Anceau, “um centris- Arendt procuram definir seus contor-
mesmo princípio. As paixões tornam os a comunidade política e arrastariam o mo destinado a absorver os extremos e nos. “Os movimentos totalitários são
homens semelhantes entre si, tal como país para um perigoso declive. Por- destruir as oposições”.7 “Em todos os possíveis onde quer que haja massas
a febre atira no mesmo estado diferen- tanto, é necessário esclarecer o povo países, as necessidades e queixas do po- que, por uma razão ou outra, tenham
tes temperamentos; e, de todas as pai- para guiá-lo rumo ao único caminho vo são formuladas em ideias, em princí- descoberto um apetite pela organiza-
xões, a mais uniforme em seus efeitos é razoável, o da moderação. pios, e formam os partidos. Essas asso- ção política”, ela escreveu em Origens
o espírito de partido.”4 Assim, como o de Napoleão, a ciações de indivíduos [...] colidem entre do totalitarismo, em 1951. Como Carl
maioria dos regimes que se segui- si e se destroem mutuamente, até que a Friedrich e Zbigniew Brzezinski, que
EM 1913, A CRÍTICA DOS “EXCESSOS ram à revolução reivindicava o verdade nacional, formando-se com ba- seria conselheiro de segurança nacio-
ANTIMILITARISTAS” meio-termo, a temperança. Desejo- se em todas essas verdades parciais, seja nal do presidente dos Estados Unidos
Após o golpe do 18 Brumário (9 de so de reconciliar as burguesias de erguida, de comum acordo, acima das Jimmy Carter, outros pesquisadores
novembro de 1799), Napoleão Bo- esquerda e de direita, Luís Filipe ex- paixões políticas. Para consolidar essa tentaram objetivar essa temática, defi-
naparte e seus aliados tentaram apa- pôs, em janeiro de 1831, em uma fra- causa, o poder precisa de um represen- nindo critérios para ela que permitis-
gar a própria noção de divisão política. se que se tornou famosa, a posição tante que não tenha outros interesses sem identificar um “regime totalitá-
O novo regime se apresentou como o de seu governo: “Procuraremos nos senão os delas [das associações de indi- rio”: um partido único de massa co-
único caminho razoável, e esse dis- manter em um meio-termo igual- víduos]”, escreveu Bonaparte já em 1841. mandado por um líder carismático, a
curso seduziu muitos “moderados” da mente distante dos excessos do po- O bom governante seria, assim, aquele banalização do terror, a centralização
década anterior. Advogado, digno re- der popular e dos abusos do poder que se eleva acima da batalha e traça o da economia, o domínio do poder so-
presentante da burguesia liberal e real”. Martelado pelos propagandis- caminho da verdade como um pastor bre os meios de comunicação etc.
conservadora, Antoine Boulay de la tas do rei, que multiplicaram os fo- guiando seu rebanho. Essa linha, que consistia em apro-
Meurthe foi um dos primeiros a acla- lhetos – Le Juste-Milieu dévoilé [O A queda do Segundo Império, em ximar Josef Stalin e Adolf Hitler, negli-
mar o novo cônsul. Em dezembro de meio-termo desvelado] (1832), Le 1870, deslocou o centro de gravidade po- genciando tudo que os separa – a co-
1799, no Le Spectateur du Nord, jornal Juste-Milieu en toutes choses et sur- lítico, mas pouco alterou a substância meçar pelos milhões de soldados
dos aristocratas que tinham fugido da tout en politique [O meio-termo em do discurso. Outrora qualificados como nazistas destruídos pelo Exército Ver-
França, ele defendeu a ordem contra a todas as coisas e especialmente na extremistas, os republicanos modera- melho na Frente Oriental –, alcançou
Revolução, “o trabalho, a indústria, os política] (1832), Le Triomphe du jus- dos afirmavam então encarnar o novo grande sucesso no campo ocidental
talentos, os costumes e quase toda a te-milieu, ou la Révolution de Juillet círculo da razão, com base no qual se durante a Guerra Fria. Ela encontrou
propriedade” contra “os agitadores e et ses véritables conséquences [O avaliavam os limites do possível. O Par- na França retransmissores particular-

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16 Le Monde Diplomatique Brasil ABRIL 2019

mente eficazes. O filósofo Raymond Outro se debruçou sobre “a eurofobia e Depois, veio o referendo sobre o trar muitos pontos em comum entre
Aron integrou os trabalhos de Arendt a antiglobalização”, supostamente co- Tratado Constitucional Europeu (TCE) os “liberais” Angela Merkel e Emma-
em seu curso na Sorbonne desde 1957, muns aos extremos. Esse tipo de ensi- de 2005. Um editorial do Le Monde viu nuel Macron e os “não liberais” Matteo
depois a noção de “totalitarismo” se no se inscreve diretamente na tese cara na vitória do “não” nada além do triun- Salvini e Viktor Orbán: todos celebram
tornaria um dos temas privilegiados ao cientista político Pascal Perrineau – fo de uma “enorme frente de recusa” a propriedade privada e a “classe mé-
da Commentaire, a revista que ele fun- mas contestada no mundo acadêmico composta de votos “dispersos entre ex- dia”, sonham reduzir impostos e con-
dou em 1978: esse termo aparece em – do “esquerdo-lepenismo”, segundo a trema direita, extrema esquerda e abs- tribuições sociais, “flexibilizar” a lei
nada menos que 381 artigos das 162 qual os antigos eleitores comunistas, tenção”. Recusar o TCE, estimou Mar- trabalhista, controlar os “assistidos”
edições da revista publicadas entre definidos principalmente por sua falta tine Aubry, então secretária nacional ou ainda regular mais o direito à greve.
1978 e 2018. Criada em 1982 pelo histo- de recursos econômicos e culturais, do Partido Socialista, é não somente Mas a ideia de apontar essas seme-
riador François Furet para reunir inte- seriam espontaneamente seduzidos exibir seu “populismo” como especial- lhanças não é muito comum nos dis-
lectuais, jornalistas, líderes políticos e pela simplicidade do discurso frentis- mente correr o risco de alimentar “o cursos oficiais e na mídia. E não é as-
empresários “da direita inteligente à ta e, assim, alimentariam a ascensão que levou a Itália de outrora ao que co- sunto de um curso na Sciences Po.
esquerda inteligente”, a Fundação da Frente Nacional. nhecemos”.9 Forma contemporânea da
Saint-Simon também definiu como acusação de convergência dos extre- *Constantin Brissaud é doutorando em
objetivo promover essa grade de leitu- mos, o anátema contra os “populis- Ciência Política na Universidade de Estras-
ra. Denunciando “os extremos”, ela mos” é hoje brandido contra todos os burgo, França.
defendia um “governo racional”, isto é,
“As paixões fenômenos que ultrapassem o espec-
“o que o encontro da inteligência com tornam os homens tro limitado das opções políticas consi- 1 Para as fontes precisas dessas citações e uma ge-
a política pode oferecer de mais feliz”.8 semelhantes entre si, deradas convenientes: a França Insub- nealogia do uso desse termo antes da Revolução
Difundida por personalidades in- missa, o RN, mas também o movimento Francesa, cf. Uwe Backes, “Extrême, extrémité,
tal como a febre atira extrémisme. Une esquisse de l’histoire de ces mots
fluentes como Pierre Rosanvallon, Jac- dos “coletes amarelos”, o Brexit, Do- dans la langue politique française” [Extremo, extre-
ques Julliard e Pierre Nora, ela criou
no mesmo estado nald Trump e Bernie Sanders, a coali- midade, extremismo. Um esboço da história des-
rapidamente uma rede de apoiadores. diferentes zão governamental italiana...10 sas palavras na linguagem política francesa], Mots,
n.55, Paris, jun. 1998.
Suas notas eram publicadas pelo edi- temperamentos” Depois de ter repreendido por mui- 2 Uwe Backes, Les Extrêmes politiques. Un historique
tor Calmann-Lévy, em uma coleção to tempo os “esquerdo-lepenistas”, du terme et du concept de l’Antiquité à nos jours
criada por Raymond Aron, e com mui- Perrineau qualifica agora de “nacio- [Extremos políticos. Um histórico do termo e do con-
ceito da Antiguidade até hoje], Cerf, Paris, 2011.
ta frequência divulgadas pelo diário Le nal-populistas” todos aqueles que cri- 3 Cf. Laura Mason, “Après la conjuration: le Directoi-
Monde, cujo presidente do Conselho Por vinte anos, a ideia de que os ex- ticam a União Europeia. De acordo re, la presse, et l’affaire des Égaux” [Depois da
Fiscal (1994-2008), Alain Minc, era o tremos se encontram acabou por se im- com a análise adotada pela mídia, a ci- conspiração: o Diretório, a imprensa e o caso dos
Iguais], Annales historiques de la Révolution fran-
tesoureiro da fundação. por como um lugar-comum, acomoda- são entre a direita e a esquerda estaria çaise, n.354, Paris, out.-dez. 2008.
do a todos os temperos, da vida política em condições de dar lugar a uma nova 4 Germaine de Staël, De l’influence des passions
O ESPECTRO RESTRITO francesa. Se Le Pen passou para o se- divisão entre apoiadores e opositores sur le bonheur des individus et des nations [Da
influência das paixões na felicidade dos indivíduos
DAS OPINIÕES CONVENIENTES gundo turno da eleição presidencial de da União Europeia, entre “liberais” e e das nações], 1796.
Com todos esses apoios, a teoria da 2002, foi por causa dos “pequenos can- “não liberais”, entre os defensores de 5 Cf. Xavier Landrin, “‘Gauche’, ‘droite’, ‘juste-milieu’:
“convergência dos extremos” reforçou didatos” de extrema esquerda que pre- “empresas abertas” e aqueles que ad- la formalisation politique de l’entre-deux sous la mo-
narchie de juillet” [“Esquerda”, “direita”, “meio-ter-
sua legitimidade acadêmica. Em 2014- cipitaram a derrota do razoável Lionel vogam seu “fechamento”. Há quatro mo”: a formalização política do intermediário sob a
2015, o Instituto de Estudos Políticos Jospin, fazendo assim o jogo da extre- anos, Alain Juppé, mentor do atual pri- monarquia de julho], comunicação à conferência
de Paris, por exemplo, propôs a seus ma direita, da qual eles seriam os alia- meiro-ministro francês, Édouard Phi- “Gauche-droite: usages et enjeux d’un clivage ca-
nonique” [Esquerda-direita: usos e questões de
alunos um curso intitulado “Pensar a dos objetivos. “O voto a favor dos ex- lippe, já anunciava o projeto, nacional, uma divisão canônica], Universidade de Paris
política em seus extremos”. Seu objeti- tremismos também não reflete uma mas também europeu, que se tornaria X-Nanterre, 17 jun. 2008. Disponível em: <www.
vo? “Melhor apreender o extremismo rejeição da complexidade da Europa e o do presidente da República: “Poderá hal.archives-ouvertes.fr>.
6 Grande seringa de metal usada para realizar enemas.
da direita e da esquerda”, a fim de do mundo?”, perguntou o jornalista do ser necessário pensar um dia em cor- 7 Eric Anceau, Napoléon III, Tallandier, Paris, 2012.
“identificar as dimensões comuns aos Libération Jean Quatremer a Pascal tar as duas extremidades da omelete 8 “Droite, gauche, centre. L’exception française: fin
extremistas”. Na segunda parte do Lamy, então comissário europeu para para que pessoas razoáveis governem ou recommencement?” [Direita, esquerda, centro.
A exceção francesa: fim ou recomeço?]. Conversa
curso, intitulada “Pontos de conver- a Concorrência (3 maio 2002). “Os juntas e deixem de lado os dois extre- com Jacques Julliard, Le Débat, n.52, Paris, 1988.
gência”, uma sessão se detinha sobre o franceses entendem a complexidade mos, de direita e de esquerda, que não 9 RTL, 20 mar. 2005. Citado em PLPL, n.24, Paris,
tema “Conspiração e visão antagônica de seu próprio sistema?”, retrucou este entenderam nada no mundo”.11 abr. 2005.
10 Ler “Tous populistes” [Todos populistas], Manière
do mundo”, comparando os textos de último, pouco confiante na inteligên- Exceto que, no jogo das reaproxi- de Voir, n.164, abr.-maio 2019.
Jean-Marie Le Pen e da Luta Operária. cia de seus compatriotas. mações, também poderíamos encon- 11 Le Point, Paris, 1º jan. 2015.

História do estruturalismo A inclusão do outro Viagem à


François Dosse reconstitui as questões teóricas, Acompanha-se com preocupação a ascensão de América do Sul
institucionais e existenciais do estruturalismo posições nacionalistas xenófobas, autoritárias e
e as organiza em dois racistas, que não Durante dois meses, um dos maiores
grandes períodos poucas vezes se poetas da literatura moderna da
distintos: o de sua traduzem em atitudes China, Ai Qing, visitou a América
ascensão em 1945, de grave discriminação do Sul ao ensejo do cinquentenário
até seu apogeu no de pessoas e culturas do poeta Pablo Neruda, de quem era
ano de 1966, objeto diferentes, numa amigo. Essa rica produção de
do primeiro volume, ameaça à democracia poemas é agora reunida pela
e o de seu declínio, a em si. Aqui, Habermas primeira vez em português, numa
partir de 1967, tema nos fornece edição bilíngue traduzida direto dos
do segundo volume. contribuição originais chineses.
Um guia útil para importante para
identificar a diagnosticar as
pluralidade sociedades Produzir conteúdo
intelectual daqueles contemporâneas e Compartilhar conhecimento.
anos e compreender refletir sobre as Desde 1987.
sua influência na questões que delas
www.editoraunesp.com.br
atualidade. emergem.

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ABRIL 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 17

FAKE NEWS OFICIAIS

A maior mentira
do fim do século XX
Apenas as notícias falsas que visam ao partido da reforma e da abertura
econômica deixam indignados os jornalistas profissionais e os líderes liberais.
É a desinformação tradicional, as fake news oficiais; seu eco repercutido o
tempo todo lhes confere um caráter de verdade – sem estimular o ardor das

© Hallina
agências de checagem. Esta seção dedica-se a esmiuçá-las
POR SERGE HALIMI E PIERRE RIMBERT*

inte anos atrás, em 24 de março “feito a escolha pela intervenção”.2 Na Spiegel e confirmado doze anos depois a esse assunto, mas algumas de suas

V de 1999, treze países-membros


da Organização do Tratado do
Atlântico Norte (Otan), incluin-
do Estados Unidos, França e Alema-
nha, bombardearam a República Fe-
primeira página da edição de 8 de abril
de 1999, um artigo de Daniel Vernet
anunciava: “O Plano Ferradura, que
programava a deportação dos kosova-
res”. O jornalista retomou as informa-
pelo ex-ministro búlgaro das Relações
Exteriores. Mais tarde, o documento
teria inspirado mais desconfiança pe-
lo fato de “ferradura” corresponder em
sérvio à palavra potkovica, e não a pot-
consequências ainda pesam na vida
internacional. Por essa que foi sua pri-
meira expedição armada desde seu
nascimento em 1949, a Otan optou por
atacar um Estado que não havia amea-
deral da Iugoslávia. Essa guerra durou ções reveladas no dia anterior pelo mi- kova, como observou, em 15 de abril çado nenhum de seus membros. Ela
78 dias e se alimentou de mentiras da nistro alemão das Relações Exteriores, de 1999, o deputado alemão Gregor usou como pretexto um motivo huma-
mídia destinadas a alinhar a opinião o ecologista Joschka Fischer. Esse Gysi diante do Bundestag. Em março nitário e agiu sem um mandato da
das populações ocidentais com aquela “plano do governo de Belgrado deta- de 2000, o general de brigada alemão ONU. Tal precedente serviu aos Esta-
dos Estados-Maiores. Os sérvios come- lhando a política de limpeza étnica Heinz Loquai expressou em um livro dos Unidos na época de sua invasão ao
tem um “genocídio”, “eles jogam fute- aplicada no Kosovo [...] leva o codino- suas “dúvidas sobre a existência de tal Iraque em 2003, novamente ajudada
bol com cabeças decepadas, esquarte- me ‘Plano Ferradura’, sem dúvida para documento”; sua investigação obrigou por uma campanha de desinformação
jam cadáveres, arrancam os fetos de simbolizar a situação de opressão pela Scharping a admitir que ele não tinha em massa. Alguns anos depois, a pro-
mulheres grávidas mortas e os colocam qual passava a população albanesa”, uma cópia do “plano” original. Ao clamação pelo Kosovo de sua indepen-
para grelhar”, afirmou o ministro da escreveu Vernet, para quem a coisa mesmo tempo, o porta-voz do Tribu- dência, em fevereiro de 2008, enfra-
Defesa alemão, o social-democrata Ru- “parece deixar poucas dúvidas”. nal Penal Internacional para a ex-Iu- queceria o princípio da inviolabilidade
dolf Scharping, cujos comentários fo- Dois dias depois, o jornal retornou goslávia qualificou os elementos do di- das fronteiras. E a Rússia se basearia
ram repetidos pela mídia: eles mata- com todo o ímpeto em reportagem de to plano de “material inconclusivo” nesse precedente ao reconhecer, em
ram “de 100 mil a 500 mil pessoas” (TF1, primeira página: “Como [Slobodan] (Hamburger Abendblatt, 24 mar. 2000); agosto de 2008, a independência da
20 abr. 1999), incineraram suas vítimas Milosevic preparou a depuração étni- e a procuradora Carla Del Ponte nem Abecásia e da Ossétia do Sul, dois terri-
em “fornos, do tipo utilizado em Aus- ca”. “O plano sérvio Potkova progra- mesmo fez referência a ele na acusa- tórios que haviam se separado da
chwitz” (The Daily Mirror, 7 jul.). Uma mava o êxodo forçado dos kosovares ção de Milosevic em 2001. Geórgia, e, em março de 2014, ao ane-
por uma, essas falsas notícias foram desde outubro de 1998. Ele continuou “A guerra”, explicou Plenel logo xar a Crimeia.
sendo desmascaradas – mas depois do a ser posto em prática durante as ne- após o início dos bombardeios, “é o de- Como a guerra no Kosovo era con-
fim do conflito –, notadamente pela in- gociações de Rambouillet.” O Le Mon- safio mais louco para o jornalismo. É duzida por uma maioria de governos
vestigação do jornalista norte-ameri- de evocou um “documento de origem nela que ele prova sua credibilidade, “de esquerda” e apoiada pela maior
cano Daniel Pearl (The Wall Street Jour- militar sérvia” e repetiu as alegações sua confiabilidade.”3 O investigador parte dos partidos conservadores, nin-
nal, 31 dez. 1999), assim como seria dos oficiais alemães, a ponto de repro- bigodudo nunca se debruçou nova- guém tinha interesse em revisitar as
derrotada uma das mais retumbantes duzir a totalidade de uma nota – o que mente sobre essa grande lacuna com falsificações oficiais. E é fácil entender
manipulações do final do século XX: o se chamaria hoje de “elementos da lin- “o amor pelos pequenos fatos verda- que os jornalistas mais obcecados com
“Plano Potkova” (“Ferradura”), um do- guagem” – distribuída aos jornalistas deiros” que proclama em seu livro- a questão das fake news também prefe-
cumento que supostamente compro- pelo inspetor-geral do Exército ale- -panfleto em favor da intervenção da rissem eles mesmos desviar o olhar.
vava que os sérvios haviam programa- mão. Berlim pretendia então justificar, Otan.4 O Le Monde continuaria a evo-
do a “depuração étnica” do Kosovo. Sua com base em uma opinião bastante car o fato falso, mas como se ele sem- *Serge Halimi é diretor e Pierre Rimbert é
divulgação pela Alemanha, em abril de pacifista, a primeira guerra travada pre o tivesse considerado com cautela: da direção do Le Monde Diplomatique.
1999, foi usada como pretexto para a in- pelo Bundeswehr desde 1945, ainda “‘Ferradura’ continua sendo um docu-
tensificação dos bombardeios. Longe por cima contra um país ocupado cin- mento altamente controverso, cuja va-
de serem usuários paranoicos da inter- quenta anos antes pela Wehrmacht. lidade nunca foi provada” (16 fev.
net, os principais desinformadores fo- Esse plano, porém, era uma falsifi- 2002). Especializados nos Bálcãs, os
1 Cf. Serge Halimi, Henri Maler, Mathias Reymond e
ram os governos ocidentais, a Otan, cação: não emanou das autoridades jornalistas Jean-Arnault Dérens e Lau- Dominique Vidal, L’opinion, ça se travaille… Les
bem como os mais respeitados órgãos sérvias, mas foi feito com base em ele- rent Geslin qualificam mais clara- médias et les “guerres justes” [A opinião pública
de imprensa.1 mentos compilados pelos serviços se- mente o Plano Potkova de “arquétipo pode ser trabalhada... A mídia e as “guerras jus-
tas”], Agone, Marselha, 2014.
Entre eles, o Le Monde, jornal cujas cretos búlgaros, depois transmitidos das fake news disseminadas pelos 2 Pierre Georges, vice-diretor de redação do Le Mon-
posições editoriais serviam então co- aos alemães por esse país, que se em- exércitos ocidentais, repetidas por to- de, entrevistado em Marianne, Paris, 12 abr. 1999.
mo referência para o resto da galáxia penhava então em aderir à Otan. O dos os grandes jornais europeus”.5 3 Citado por Daniel Junqua, La Lettre, n.32, abr. 1999,
e reproduzido em Acrimed.org, em nov. 2000.
midiática. Sua redação, dirigida na grande segredo seria revelado em 10 A celebração de um aniversário 4 Edwy Plenel, L’Épreuve [A prova], Stock, Paris, 1999.
época por Edwy Plenel, admitiu ter de janeiro de 2000 pelo semanário Der não teria justificado por si só o retorno 5 La Revue du crieur, n.12, Paris, fev. 2019.

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O PODER COMO “ESTRUTURA CRIMINOSA MAFIOSA”

A Guatemala organiza a impunidade


As vitórias da Guatemala contra a corrupção escaparam dos radares internacionais – mas não dos do presidente Jimmy Morales.
Preocupado, ele acaba de desfazer a comissão internacional formada pela ONU e responsável pelo sucesso das investigações.
Sem sombra de dúvida, a aproximação das eleições presidenciais de 16 de junho o fez acelerar esse movimento
POR CLÉMENT DETRY*

a noite de 17 de fevereiro de 2000], Álvaro Arzú, não se contentaram

N 2007, três deputados salvadore-


nhos do Parlamento Centro-A-
mericano (Parlacen) levavam à
Cidade da Guatemala, em um luxuoso
4×4, duas grandes bolsas de material
em sangrar os movimentos de defesa
dos direitos humanos. Eles estavam
movidos por uma ambição maior: o
controle do Estado e da economia. A
maior parte dos oficiais dos serviços de
esportivo escondidas em um compar- informação da ditadura militar se infil-
timento secreto. Quando mal acaba- trou na criminalidade organizada pró-
vam de cruzar a fronteira entre os dois xima do Estado ou que se encontrava
países, porém, Eduardo d’Aubuisson, em seu interior”, prossegue Gutiérrez.
William Pichinte, José Ramón Gonzá- Em suas conclusões concernentes
lez e seu motorista foram parados por ao caso Parlacen, a Cicig salienta que
uma unidade de polícia perto da cida- os crimes foram planejados e cometi-

© Gov. El Salvador
de de El Jocotillo. Na manhã do dia se- dos por um “complexo clandestino
guinte, os restos ainda enfumaçados incrustado nas forças da ordem e no
dos quatro homens foram tirados do sistema carcerário”. Entre os benefi-
veículo carbonizado. As autópsias evi- ciários dessa organização, vários al-
denciaram inúmeras lesões por balas. tos funcionários responsáveis pela
Posteriormente, descobriram que os Jimmy Morales, presidente da Guatemala, em conferência na Flórida, Estados Unidos segurança que, hoje, estão na prisão
três parlamentares transportavam 20 ou são fugitivos: o ex-chefe da polícia
quilos de cocaína e US$ 5 milhões em criminal Victor Hugo Soto Diéguez, o
dinheiro vivo. Seus assassinos, quatro ex-ministro do Interior Carlos Viel-
policiais, foram presos três dias depois elementos necessários para procurar razão da fragilidade dos meios de in- mann, o ex-diretor da Polícia Civil
e assassinados logo após serem en- os mandantes das nove execuções ex- vestigação do Tribunal Superior Elei- Nacional (PCN) Edwin Sperissen e o
clausurados na prisão provisória. O al- trajudiciárias. Mas trata-se apenas de toral (TSE). No entanto, o esclareci- ex-deputado da província de Jutiapa
to funcionário do Ministério do Inte- um dos primeiros casos abertos, de mento desse caso teria mudado a Manuel de Jesús Castillo.
rior, suspeito de ter ordenado a um total de oitenta, em onze anos. Em distribuição das forças em campo na As pesquisas conduzidas pelo cien-
operação, Victor Rivera, também foi uma entrevista à BBC,2 o comissário campanha para as eleições presiden- tista político e consultor internacional
assassinado no mês seguinte. da Cicig, jurisconsulto e diplomata co- ciais e parlamentares do próximo 16 Luis Jorge Garay Salamanca a propósi-
Um caso como esse poderia ter lombiano Iván Velásquez Gómez, di- de junho, uma vez que evidenciaria to da Colômbia desenvolvem o concei-
passado despercebido na Guatemala, vulga um balanço de trezentas conde- uma das principais falhas que permi- to de “tomada do Estado a curto pra-
um país minado pela violência e pela nações de grandes dirigentes políticos tiram a manobra do Estado guate- zo”.3 Autor de uma memória sobre a
corrupção, onde nove ex-presidentes e do mundo dos negócios que teriam malteco durante os últimos anos: o Guatemala, o pesquisador Ian H. Tis-
foram submetidos a acusações, perse- participado dos Ciacs. financiamento eleitoral ilícito. dale o aplica ao fenômeno de mudança
guições ou estão sob ameaça de pena mafiosa dos Ciacs: “A função mudou –
de prisão. No entanto, graças à criação RECONVERSÃO DOS MILITARES da execução política para a execução
em 2007 da Comissão Internacional “Os Ciacs dos quais se falava nos dos concorrentes no filão ilícito –, mas
contra a Impunidade na Guatemala A Cicig investigou anos logo após o conflito armado eram o método continuou idêntico”.4
(Cicig), por meio de um acordo entre o durante 8 anos para que grupos de ex-militares que dissemina- Nos anos 1990, tornou-se evidente
Estado e a ONU, esse não foi o caso. O a justiça guatemalteca vam o terror para evitar o estabeleci- que a corrupção tinha passado por
objetivo da comissão: “Apoiar, reforçar mento de uma justiça transitória eficaz uma mudança para desempenhar um
dispusesse de elementos
e ajudar as instituições [...] responsá- para as vítimas de crimes de guerra”, papel estrutural no interior do Estado,
veis pelos inquéritos e acusações de necessários para procurar explica-nos o cientista político e ex-mi- levando o Departamento de Estado
infrações que poderiam ter sido come- os mandantes das 9 nistro das Relações Exteriores de 2002 norte-americano a temer uma “ruptu-
tidas em consequência da atividade de execuções a 2004 Edgar Gutiérrez. Como o pro- ra da estabilidade democrática”5
Ciacs – Cuerpos Ilegales y Aparatos cesso de transição democrática os apoiada no aumento do tráfico de dro-
Clandestinos de Seguridad [Organis- ameaçava, eles reagiam com execu- gas no país. Em 2002, o subsecretário
mos ilegais e aparelhos clandestinos ções – muitas vezes de dirigentes de or- de Estado norte-americano, Otto J.
de segurança]”.1 A fragilidade institu- Agora, a comissão terá de sair do ganizações que militavam para que a Reich, denunciou um conluio entre
cional do país, devastado por mais de país. O governo do presidente Jimmy volta à democracia não mergulhasse o “alguns dirigentes do narcotráfico” e
trinta anos de conflito armado (1960- Morales, eleito em 2015, ordenou sua país na amnésia. Esse foi, por exemplo, “os mais altos escalões do Estado”
1996), favorece a impunidade tanto saída antes do fim do mandato da or- o caso do bispo Juan José Gerardi Co- guatemalteco.6 Raros foram os obser-
das exações de ontem como da crimi- ganização, no próximo mês de se- nedera, diretor do projeto interdioce- vadores suficientemente pessimistas
nalidade atual. tembro. Essa medida não impediu a sano de Recuperação da Memória His- para prever uma degradação da situa-
No delito do caso Parlacen, a Cicig continuação do inquérito sobre o fi- tórica (Remhi), assassinado em 1998. ção... até o caso La Línea, que explodiu
investigou durante oito anos para que nanciamento de sua campanha em “No entanto, os oficiais próximos do em 2015 e provocou manifestações de
a justiça guatemalteca dispusesse de 2015, mas limitou seu impacto, em primeiro presidente da transição [1996- uma amplitude inédita, assim como a

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prisão do presidente em exercício, Otto sidencial no caso Manobra do Estado, de surpreendente nisso, uma vez que, não condene as medidas tomadas con-
Pérez Molina (2012-2015). sob o impulso da associação que fize- de acordo com um relatório de 2012 da tra a Cicig e tolere a proibição de per-
O dispositivo então revelado con- ram Velásquez Gómez e Thelma Alda- ONG Acción Ciudadana, as campa- manência emitida contra Velázquez,
siste em um esquema de fraude nas al- na, ex-procuradora e candidata à elei- nhas eleitorais guatemaltecas são as obrigado desde setembro de 2018 a di-
fândegas que, instituído pelo Partido ção presidencial naquele ano. mais caras da América Latina.8 Ao divi- rigir a comissão a partir de Nova York
Patriota (PP) de Pérez Molina bem an- “Deduzimos que não se tratou exata- dir o montante total gasto por todos os – uma medida que o secretário-geral
tes de sua chegada ao poder, financiou mente de um governo cujos membros partidos pelo número de eleitores, seus da ONU, António Guterres, considera
suas campanhas eleitorais de 2007 e cometeram atos de corrupção isola- analistas calcularam uma média de contrária ao mandato que liga as duas
2011. O La Línea – que deu um prejuízo dos, mas de uma estrutura criminosa gastos em torno de US$ 10 por eleitor partes até 1º de setembro de 201911 e
de 280 mil euros por semana para os mafiosa que conquistou o controle do na campanha de 2011 – comparados a que a Corte Constitucional da Guate-
contribuintes guatemaltecos – ilustra Estado por meio das urnas [...] e da US$ 3,39 no México, segunda potência mala recusou, sem que por isso o go-
a facilidade com a qual as estruturas qual os principais dirigentes eram Ot- econômica da região latino-america- verno aceite voltar atrás.
militares mafiosas próximas do nar- to Pérez Molina e Roxana Baldetti”, po- na, onde a compra maciça de votos foi
cotráfico se organizam em forças polí- demos ler no site da Cicig. apresentada no jornal diário El País co- *Clément Detry é jornalista no México.
ticas e ocupam as mais altas funções mo um “segredo de polichinelo”.9
do Estado. O cenário político da tran-
sição democrática guatemalteca for- UM GOVERNO INTRANSIGENTE
neceu ao general Pérez Molina o mer- “A maior parte dos Será que o ativismo judiciário da 1 “Acuerdo entre la Organización de Naciones Uni-
das y el gobierno de Guatemala relativo al estable-
cado de investimento ideal para o oficiais dos serviços Cicig provocou uma reação imprevis- cimiento de una comisión internacional contra la
capital que tinha acumulado durante de informação da ta, sob a forma de um “pacto de cor- impunidad en Guatemala (Cicig)”. Disponível em:
sua juventude. Em primeiro lugar, ele ruptos”, e todos aqueles que ela amea- <www.cicig.org>.
dirigiu os grupos contrainssurrecio-
ditadura militar se ça se aliaram para expulsá-la do país?
2 Gerardo Lissardy, “Iván Velásquez, comisionado
de la Cicig: en Guatemala ‘hay una ruptura del Es-
nais La Cofradía e El Sindicato, que infiltrou na Sem dúvida alguma, sim. Mas outros tado de derecho’”, BBC News Mundo, Nova York,
controlavam, de fato, a maior parte criminalidade fatores tiveram peso. Afinal de contas, 23 jan. 2019.
3 Luis Jorge Garay Salamanca, Eduardo Salcedo-Al-
das alfândegas do país nos anos 1970; organizada” Pérez Molina não era menos poderoso barán, Isaac de León-Beltrán e Bernardo Guerrero,
posteriormente, ele foi membro asso- que seu sucessor Morales. O mandato “La captura y reconfiguración cooptada del Estado
ciado da “rede Moreno”, nome do ex- da Cicig já teria certamente chegado en Colombia”, Fundación Método, Fundación Avina
y Transparencia por Colombia, Bogotá, set. 2008.
-militar e narcotraficante salvadore- ao fim se a administração do presiden- 4 Ian Hadley Tisdale, “The three headed beast: a look
nho Alfredo Moreno Molina, que A Cicig avalia, todavia, que sua efi- te norte-americano Barack Obama, into the evolution of the Guatemalan captura de es-
falsificava em grande escala os docu- cácia judiciária não é suficiente para principal apoiador político externo e tado, and the anticorruption efforts of the Cicig” [A
bestas de três cabeças: uma análise da evolução
mentos fiscais das alfândegas na déca- impedir a eterna volta da corja militar contribuidor financeiro da comissão da manobra de Estado da Guatemala e os esforços
da de 1990. Uma vez no poder, a rede mafiosa no contexto das eleições dis- da ONU, não tivesse interferido para anticorrupção da Cicig], Universidade do Arizona,
de contribuintes clandestinos do PP putadas por uma vasta constelação de exigir sua renovação. Donald Trump nov. 2018. Disponível em: <www.academia.edu>.
5 Otto J. Reich, “Threats to democratic stability in the
não só monopolizou 450 mercados pú- partidos independentes, de formações não se opôs à ideia de sacrificar a Cicig Dominican Republic and Guatemala” [Ameaças à
blicos, mas também, e sobretudo, de- políticas muitas vezes bem efêmeras, em troca do alinhamento geopolítico estabilidade democrática na República Dominica-
terminou as prioridades de diversas com conteúdo ideológico fraco e fi- da Guatemala. Poucas dúvidas subsis- na e na Guatemala], audiência no Comitê de Rela-
ções Internacionais do Congresso, Washington,
grandes administrações – tal como o nanciamentos duvidosos. Um relató- tem no que diz respeito às motivações DC, 10 out. 2002. Disponível em: <ht-
Ministério das Comunicações, das in- rio publicado em 20157 mostra que que impulsionaram o governo Mo- tps://2001-2009.state.gov>.
fraestruturas e da habitação de Alejan- mais da metade dos desembolsos du- rales a deslocar sua embaixada, em Is- 6 Ibidem.
7 “El financiamiento de la política en Guatemala”, Ci-
dro Sinibaldi (2012-2014). Assim, ele rante as campanhas eleitorais de 2011 rael, de Tel Aviv para Jerusalém e a rea- cig, Cidade da Guatemala, 16 jul. 2015.
pôde instituir os programas, projetos e e 2015 eram provenientes de contri- firmar seu engajamento diplomático e 8 “¿Cuánto costó la campaña electoral? Analisis del
prazos financeiros que permitiriam buições ilícitas de oligopólios históri- comercial com Taiwan em detrimento gasto y la rendición de cuentas de los partidos po-
líticos en el proceso electoral del 2011 en Guate-
otimizar a distribuição do dinheiro cos (cimento, açúcar...) ou de organi- de Pequim. mala”, Acción Ciudadana, Cidade da Guatemala,
público para as empresas associadas a zações criminosas. Em outubro de 2018, uma enquete fev. 2012.
ele – um meio ideal de multiplicar as No caso da campanha, em 2015, da do site de informação Nómada revelou 9 Sindy Nanclares, “La compra de votos, un secreto
a voces en México”, El País, Madri, 1º jul. 2018.
retrocomissões destinadas à rede de Frente de Convergência Nacional (FC- que um grupo de personalidades polí- 10 Jody García, “Jimmy, Baldizón y estos mega-em-
Pérez Molina, da vice-presidente Ro- N-Nación), o partido de Morales, um ticas e de homens de negócios próxi- presarios organizaron el lobby contra Todd y la CI-
xana Baldetti e outros. inquérito conjunto do TSE e da Cicig mos do presidente Morales tinha pago CIG (parte 1)”, Nómada, 11 out. 2018. Disponível
em: <https://nomada.gt>.
Daí a reabertura, em 2016, do in- mencionou montantes não declarados a uma empresa de lobby sediada em 11 “Iván Velásquez decidirá nueva organización de
quérito em torno da antiga dupla pre- em torno de US$ 900 mil. Não há nada Washington.10 O objetivo é que Trump Cicig, según la ONU”, EFE, México, 9 jan. 2019.

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DOSSIÊ ESTADO DE CHOQUE

“Que morram”: a greve de fome


e as indiferenças do Estado
O ato extremo de dispor o corpo à oportunidade da morte ataca as arbitrariedades profundamente cortantes,
porém finamente discretas, do fazer burocrático. Confira o terceiro artigo da série Estado de Choque, publicada
no Le Monde Diplomatique Brasil entre fevereiro e julho de 2019
POR ROBERTO EFREM FILHO*

Pessoas executadas pela Polícia Militar que portam réplicas de armamentos, os chama- aceitável, como também há vidas que valem menos do que outras. Em tempos sombrios
dos simulacros. Espaços escondidos no interior das prisões, atrás de placas de aço ou – de dissolução de direitos adquiridos, de propostas autoritárias para a resolução de con-
paredes duplicadas, evidenciando que o segredo é uma das formas estratégicas do poder flitos sociais, de utilização das Forças Armadas para os mais diversos fins –, o presente
político. Corpos desaparecidos, que envolvem ações das forças policiais, as quais mobili- dossiê visa lançar um pouco de luz acerca do horror, do segredo e do abominável que
zam técnicas de fazer sumir, parte integrante de uma ampla maquinaria de produção de marcam as dinâmicas de funcionamento de distintos aparelhos estatais.
morte. Sujeitos que, ao mobilizarem a greve de fome como estratégia política na luta por
direitos, evidenciam que, nos tempos atuais, a defesa da morte não só é publicamente Organização: Fábio Mallart e Luís Brasilino.

Para Jaime Amorim para participar do processo de organi- 19% de Jair Bolsonaro, 8% de Marina Federal e segundo o qual “ninguém se-
zação do movimento no estado brasi- Silva e 6% e 5% de Geraldo Alckmin e rá considerado culpado até o trânsito
leiro que, décadas atrás, deflagrara as Ciro Gomes, respectivamente. À épo- em julgado de sentença penal conde-
uando Jaime Amorim segurou Ligas Camponesas. Ali falava Jaime, ca, sua prisão já era interpretada pelos natória”. A interpretação adotada pelo

Q o microfone diante das cente-


nas de pessoas que se aglutina-
vam em frente ao prédio do Es-
paço 13, no centro do Recife, nós
éramos tristeza. Estávamos perto das
desconfortável dentro de um colete à
prova de balas, enfrentando ameaças
de diversas ordens.
Eu, que o conheço desde os meus
próprios 20 anos, quando, em meados
setores de esquerda e, inclusive, pelos
grevistas como o segundo e definitivo
momento do golpe de Estado inicial-
mente perpetrado em 2016 contra a
presidenta eleita, Dilma Rousseff. O
STF desde 2016 é a de que esse princí-
pio pode ser relativizado, de forma que,
mesmo com recursos em aberto, mes-
mo antes da finalização do processo
judicial e das chances de defesa, mes-
19 horas do domingo, dia 28 de outu- da primeira década dos anos 2000, ain- golpe iniciado com a deposição de Dil- mo antes do “trânsito em julgado”,
bro de 2018, e o resultado parcial das da compunha o núcleo de assessoria ma, sendo assim, completar-se-ia com portanto, um réu condenado em se-
eleições, divulgado pelo Tribunal Elei- jurídica popular da Faculdade de Di- a inelegibilidade de Lula. gunda instância pode ser preso.
toral, já apontava a irreversível vitória reito do Recife, que cheguei a atuar co- Essa interpretação havia sido fun-
de Jair Bolsonaro para a Presidência mo advogado do MST em casos em que damental para a prisão de Lula. Na tar-
do Brasil. Havia mais de 10 pontos per- Jaime, criminalizado em razão da luta de de 4 abril de 2018, quando nossas
centuais de diferença entre Bolsonaro por direitos, era levado à condição de Agitava-se na voz de um atenções se voltavam ansiosas para os
e Fernando Haddad, do Partido dos “réu”, eu, que testemunhei Jaime se co- Jaime derrotado, como ministros do Supremo e o julgamento
Trabalhadores, o candidato das es- locar fisicamente diante de pelotões de nós, evidentemente do habeas corpus preventivo impetra-
querdas, o nosso candidato. choque da Polícia Militar, armas de fo- do pelos advogados de Luiz Inácio
A tristeza que éramos, de tão den- go em riste e autoridades de Estado,
cansado, mas imbuído da com a intenção de garantir sua liber-
sa, podia ser tocada. Materializava-se acreditei estar presenciando, naquela missão de oferecer palavras dade, foi a interpretação firmada no
nas lágrimas e nos abraços partilha- noite de domingo, um dos instantes de esperança e futuro a STF a respeito da relativização da pre-
dos por amigos ou desconhecidos. mais difíceis de sua vida – e, portanto, todos que o escutávamos sunção de inocência que garantiu o
Ecoava num “não saber dizer”, talvez de nossa vida. Foi só aí, no interior cor- lastro narrativo, a justificação jurídica,
uma desolação coletiva, uma solidão tante dessa crença, que eu me dei conta para que, numa decisão apertada, por
cúmplice que parecia nos apartar de do quanto Jaime havia emagrecido, do seis votos a cinco, o pedido de liberda-
um país desacreditado dos valores de- impacto que a greve de fome e a conse- Jaime e os outros seis militantes de fosse rejeitado, o que levaria à pri-
mocráticos que julgamos fundamen- quente perda de 13 quilos trouxeram a empreendiam a greve de fome ante o são. Lula então já havia sido condena-
tais. Agitava-se na voz de um Jaime seu corpo de homem de 58 anos. STF porque lá restava, entre os seus no- do pelo juiz Sérgio Moro em primeira
derrotado, como nós, evidentemente Entre 31 de julho e 25 de agosto de ve ministros e duas ministras, a possi- instância, num processo judicial acu-
cansado, mas imbuído da missão de 2018, Jaime Amorim e seis outros mili- bilidade da liberdade do ex-presidente sado de ilegalidade por inúmeros ju-
oferecer palavras de esperança e futu- tantes de diferentes movimentos so- e, dessa maneira, a possibilidade de ristas,2 mas cuja sentença foi validada
ro a todos que o escutávamos. ciais ligados à Via Campesina1 prota- sua candidatura. Isto porque, naquele em segunda instância por desembar-
Ali, perante a tristeza que éramos, gonizaram uma greve de fome em tribunal, já se achavam pendentes pa- gadores do Tribunal Regional Federal
falava o integrante da direção nacional frente ao Supremo Tribunal Federal, ra julgamento duas Ações Declarató- da 4ª Região, em Porto Alegre.
do Movimento dos Trabalhadores Ru- em nome da liberdade do ex-presiden- rias de Constitucionalidade (as ADCs Acreditava-se, porém, que o julga-
rais Sem Terra; o rapaz que começara te Luiz Inácio Lula da Silva. 43 e 44), ambas sob a relatoria do mi- mento das ADCs poderia trazer mu-
sua militância em 1979, aos 20 anos de Lula era então o principal candida- nistro Marco Aurélio Mello, que obri- danças nesse cenário. É que um da-
idade, quando ingressou na Pastoral to à Presidência da República. Apesar gariam os ministros a novamente se queles seis votos que recusaram o
da Juventude em Guaramirim (SC), e de preso desde abril de 2018, somava, posicionarem acerca da interpretação habeas corpus pertencia à ministra Ro-
que em 1985 participaria do I Congres- de acordo com pesquisa do DataFolha do princípio constitucional da “pre- sa Weber, a princípio contrária à relati-
so do MST; o dirigente popular que em realizada entre os dias 20 e 21 de agos- sunção da inocência” – previsto no in- vização da presunção da inocência e,
1992 passou a morar em Pernambuco to, 39% das intenções de voto, contra ciso LVII do artigo 5º da Constituição desse modo, à posição atual do STF

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ABRIL 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 21

acerca desse tema. Weber, entretanto, preso numa cela em Curitiba. Jair Bol-
votou pela denegação do habeas corpus sonaro, portanto, ocupa a Presidência
porque, segundo ela própria, juízes se do Brasil, mantendo como ministro da
encontram “a serviço de um propósito Justiça o juiz que, um ano e meio antes
institucional”, e não de suas com- de sua posse no governo, decidiu pela
preensões individuais. De acordo com condenação de Lula, o principal ad-
a ministra, o julgamento do habeas versário eleitoral do presidente. Os
corpus de Lula não seria o momento grevistas, no entanto, pareciam com-
adequado para o exercício de novas in- preender a impenetrabilidade daquele
terpretações da Constituição, e sim pa- cerco de togas pretas.
ra a aplicação da já existente posição No texto do nono dia da greve, Jai-
firmada no Supremo sobre o princípio me acusou ministros de traição; te-
da presunção da inocência. Disso se riam eles “se apaixonado pelas dou-
presume que aquele momento ade- trinas conservadoras das elites”.
quado estaria no futuro julgamento Também nesse texto, numa discus-
das ADCs 43 e 44. Daí a esperança no são acerca das tomadas de posição
julgamento das ADCs, daí a greve de dos advogados de Lula, Jaime afir-
fome diante do Supremo Tribunal Fe- mou que os militantes não se acha-
deral. As ações precisavam ser levadas vam em greve de fome para seguir
à pauta de julgamento. Isso dependia, “orientações técnicas de burocratas
contudo, da vontade da presidenta do encantados com as manobras judi-
Supremo, a ministra Cármen Lúcia. ciais”, e sim porque acreditavam que
O ministro Marco Aurélio, relator a greve afetaria as correlações políti-
das duas ADCs, havia devolvido as cas, lançaria luz sobre a injustiça da

© Denny Chang
ações para julgamento pelo plenário prisão de Lula e, assim, mobilizando
do Supremo ainda em dezembro de “a força do povo”, poderia modificar
2017. Desde então, punha-se a pressio- o posicionamento judicial. A greve de
nar Cármen Lúcia para que as ações fome, um “instrumento da luta polí-
fossem julgadas, inclusive antes da tica”, segundo os termos de Jaime,
apreciação do habeas corpus de Lula, prestava-se ao adensamento da orga-
ocorrida, como dito, em 4 de abril de sidente Bernardes, onde se encontra- Essas arbitrariedades se faziam nização popular, ao fortalecimento
2018, algumas semanas após um vam presos etc. presentes tanto na injustificável indis- da disputa democrática.
curioso encontro, na casa da ministra Durante os 26 dias da greve de fo- posição pessoal da ministra Cármen Era, afinal, também a isso que se
Cármen Lúcia, entre ela e o então pre- me, Jaime Amorim escreveu diaria- Lúcia para conduzir as ADCs ao plená- prestava o corpo emagrecido do mili-
sidente Michel Temer. Em junho de mente. No texto do 22º dia da greve, ele rio quanto no apego formalista da mi- tante que falava àquelas centenas de
2018, Marco Aurélio chegou a acusar a afirmou: “Não fizemos greve de fome nistra Rosa Weber a um excessivamen- pessoas em frente ao Espaço 13, na noi-
ministra de “manipulação da pauta”. por Lula como cidadão, estamos em te abstrato “propósito institucional” – o te de 28 de outubro de 2018, perante a
Igualmente em junho, durante uma greve de fome por tudo o que Lula re- qual ela, com seu voto, ajudava a cons- tristeza que nós éramos. Esforçando-
discussão acerca do pedido de liber- presenta neste momento político que truir – que a impedia de modificar a ju- -se para encontrar palavra exatamente
dade de José Dirceu na Segunda Tur- vivemos no Brasil”. De acordo com Jai- risprudência do STF naquele momen- onde emudecíamos, nos interstícios da
ma do STF, o ministro Ricardo Lewan- me, dessa forma, a greve de fome de to, a despeito de ser aquele o mesmo nossa derrota, Jaime Amorim investia
dowski também cobrou que a ministra que ele participava transcendia a liber- plenário, com idêntica composição de em quem seríamos, juntos, naqueles
Cármen Lúcia pautasse as ADCs 43 e dade de Luiz Inácio e, acionando certa ministros, competente para o futuro dias que ainda estavam por vir. Do cor-
44. A ministra, porém, deixou a presi- noção de representatividade, implica- julgamento das duas Ações Declarató- po constrangido pelo colete à prova de
dência do Supremo sem levar as ações va-se na defesa da experiência demo- rias de Constitucionalidade. balas ressoava a voz cansada que não
ao plenário. A greve de fome tampou- crática, daquela que Jaime chamou, no A “resposta de Estado” à greve de se dobraria a órgãos de Estado, proces-
co foi suficiente para afetar as vonta- artigo de 31 de julho, de “sofrida demo- fome foi a indiferença. Dos onze mi- sos eleitorais ou procedimentos buro-
des de Cármen Lúcia. cracia brasileira”. Corpo e democracia nistros do STF, somente três recebe- cráticos, mas que os conduzia, na luta
sofrem, sendo assim, reciprocamente. ram pessoalmente os grevistas em democrática, ao extremo de suas pró-
*** Nas palavras de Jaime e Rubneuza seus gabinetes após pedido de audiên- prias contradições. Aquela voz cansa-
Leandro de Souza, sua companheira cia: as próprias Cármen Lúcia e Rosa da – a nossa voz, enfim – é ainda o que
A greve de fome consiste numa es- e também dirigente do MST em Per- Weber e o ministro Ricardo Lewando- ouço quando, nestes dias difíceis de
tratégia política de reivindicação e nambuco, a greve de fome ante o STF wski. O ministro Edson Fachin se re- nossa história, a esperança vacila.
tem sido empregada por diferentes su- consistiu num “ato extremo” que dis- cusou a receber os manifestantes; sua
jeitos, em diferentes contextos políti- pôs corpos e vidas dos sete militantes chefe de gabinete alegou incompatibi- *Roberto Efrem Filho é professor do De-
cos. Apenas a título de exemplo, po- “a serviço da luta dos trabalhado- lidade de agenda. Questionado sobre a partamento de Ciências Jurídicas da Univer-
dem-se citar a histórica greve de fome res”.3 A extremidade do ato político, greve, o ministro Marco Aurélio afir- sidade Federal da Paraíba.
dos presos políticos pela anistia, que portanto, conduzia o corpo ao extre- mou que, embora se tratasse de uma
ocorreu de 22 de julho a 22 de agosto mo, ao “sacrifício”, à fronteira da de- manifestação popular que se deveria
de 1979; a greve de fome realizada pelo gradação e da morte, num contexto respeitar, o “Supremo não fica sujeito a 1 Ao lado de Jaime, participaram da greve o frei Sér-
bispo Dom Luiz Flávio Cappio contra a em que os ataques à democracia obs- esse tipo de pressão, de forma algu- gio Antônio Gorgen e Rafaela Santos, do Movi-
mento dos Pequenos Agricultores, Luiz Gonzaga
transposição do Rio São Francisco, em taculizavam não só a elegibilidade de ma”. Os ministros lavaram as mãos e, da Silva, o Gegê, da Central dos Movimentos Po-
2007; a greve de fome, de dez dias, rea- Lula, mas os direitos e a vida dos tra- com isso, aceitaram a possibilidade pulares, Leonardo Soares, do Levante Popular da
lizada por seis militantes de movi- balhadores, por isso sua inexorabili- daquelas mortes, corroborando com o Juventude, e Vilmar Pacífico e Zonália Santos, tam-
bém do MST.
mentos sociais que intencionavam dade. Era preciso, como Jaime e Rub- desejo mais explícito expresso por lei- 2 A polêmica sentença de Moro foi analisada por
impedir a aprovação da Reforma da neuza diriam após a greve, “furar o tores nos comentários de uma matéria 122 juristas no livro Comentários a uma sentença
Previdência, no Congresso Nacional, cerco do Judiciário imposto pelos jornalística acerca da greve de fome: anunciada, organizado por Carol Proner, Gisele
Cittadino, Gisele Ricobom e João Ricardo W. Dor-
em dezembro de 2017; a greve de fome golpistas”. O ato extremo de dispor o “Que morram”, diziam. nelles e publicado pelo Projeto Editorial Praxis e
empreendida por Marcola e outros in- corpo à oportunidade da morte ata- O “ato extremo” da greve de fome pela Canal 6 Editora em 2017.
tegrantes do PCC, em novembro de cava as arbitrariedades profunda- não “furou o cerco” das relações de po- 3 Jaime Amorim e Rubneuza Leandro de Souza,
“Fome contra fome: o olhar de Jaime Amorim sobre
2006, em razão das consequências de mente cortantes, porém finamente der interiores ao Supremo Tribunal Fe- a greve de fome de 26 dias”, Revista Debates In-
uma reforma na penitenciária de Pre- discretas, do fazer burocrático. deral. Luiz Inácio, afinal, permanece submissos, v.1, n.2, Caruaru, 2018, p.194-220.

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22 Le Monde Diplomatique Brasil ABRIL 2019

MANIFESTO

PROPOSTA PARA A INCLUSÃO DE LÍNGUAS INDÍGENAS DA


BACIA AMAZÔNICA BRASILEIRA COMO PARTE INTEGRANTE
DO PATRIMÔNIO MATERIAL E IMATERIAL DA HUMANIDADE
POR PIERRE PICA, NOAM CHOMSKY E VALERIA CHOMSKY*

língua e a diversidade linguística práticas, representações, expressões, Assim como na literatura grega clás- colocadas em prática na Europa e nos

A abrangem pelo menos quatro


dos critérios estabelecidos para a
preservação do patrimônio ma-
terial, conforme definido pela Conven-
ção do Patrimônio Mundial de 1972:
conhecimentos e habilidades de comu-
nidades, grupos ou indivíduos.
• Cada língua ou conjuntos de lín-
guas relacionadas representam um
patrimônio cultural específico, trans-
sica e em numerosas outras tradições, o
conhecimento não está unicamente es-
crito, mas igualmente na mente de ho-
mens e mulheres que o transmitem de
geração em geração, sendo, consequen-
Estados Unidos. Hoje, iniciativas mais
coordenadas e oficialmente sanciona-
das são imperativas.
Gostaríamos de apelar aos nossos
colegas para que comecem a preparar
1. Cada língua ou seu respectivo mitido de geração em geração e cons- temente, frágil diante de práticas políti- a documentação pertinente que apoia-
conjunto de línguas relacionadas re- tantemente recriado por comunidades cas e econômicas destrutivas. rá essa candidatura para a inclusão das
presenta uma obra-prima da capaci- e grupos em resposta ao seu ambiente, É importante ressaltar que o reco- línguas indígenas da Bacia Amazônica
dade criativa humana e do significa- sua interação com a natureza, sua his- nhecimento da Unesco ajudaria a ele- brasileira como parte integrante do pa-
do cultural. tória e suas aspirações. Eles proporcio- var ou pelo menos mitigar considera- trimônio material e imaterial da hu-
2. Línguas individuais ou conjuntos nam a essas comunidades um senso velmente as severas ameaças atuais manidade e a se unir para garantir que
de línguas relacionadas carregam um de identidade e de continuidade, ao que colocam essas populações em essa proposta seja levada adiante em
testemunho único ou pelo menos ex- mesmo tempo que promovem o res- grave perigo. vista das atuais ameaças enfrentadas
cepcional da tradição cultural e das ci- peito pela diversidade cultural e pela Consideramos que essas línguas e por essas populações.
vilizações existentes ou desaparecidas. criatividade humana. suas variações constituem uma he- Concluímos esta nota enfatizando
3. Conjuntos de línguas relaciona- Diante dessas considerações, esti- rança cultural única em vários domí- que a inclusão dessas línguas no patri-
das são representativos de uma cul- mulamos a Comissão da Unesco a to- nios, envolvendo a classificação botâ- mônio material e imaterial da humani-
tura e da interação humana com o mar medidas preliminares para pre- nica, a astronomia, a física, a filosofia, dade está em conformidade com a re-
meio ambiente, um assunto de espe- parar e garantir a apresentação da a antropologia e a psicologia, bem co- comendação do parágrafo 137 sobre os
cial importância quando as línguas documentação adequada para a inclu- mo a linguística. bens em série das Diretrizes Operacio-
se tornaram vulneráveis sob o im- são das línguas indígenas da Bacia Incitamos as instituições brasileiras nais para a Implementação do Docu-
pacto de mudanças irreversíveis, im- Amazônica brasileira como parte inte- a tomar as medidas apropriadas para mento da Convenção do Patrimônio
postas externamente. grante do patrimônio material e ima- sustentar os padrões educacionais lo- Mundial (ref. WHC.16/01, de 26 de ou-
4. Conjuntos de línguas relaciona- terial da humanidade. cais e as sociedades e culturas regio- tubro de 2016), uma vez que o grupo de
das estão direta ou tangivelmente as- Recomendamos que, da mesma for- nais, reconhecendo as línguas locais línguas envolvidas constitui realmente
sociados a eventos ou tradições vivas, ma que a Unesco reconhece o valor de dentro das instituições educacionais e, um recurso único para o estudo da
com ideias e crenças, e com obras ar- uma cidade em particular, ela também o mais importante hoje, as medidas pa- criatividade humana e sua variedade.
tísticas e literárias de significado uni- reconheça o imenso valor das línguas da ra proteger essas sociedades altamente
versal insubstituível. Amazônia e da variação observada entre ameaçadas pelo poder econômico e *Pierre Pica é pesquisador associado do Cen-
Além disso, a língua e a diversidade elas e famílias de línguas relacionadas e suas manifestações políticas. tro Nacional de Pesquisa Científica (Paris) e
linguística satisfazem pelo menos dois não relacionadas, como parte central da Grande parte da diversidade que pesquisador associado do Instituto do Cérebro
dos critérios estabelecidos para a pre- existência e criatividade humanas. ainda pode ser observada no Brasil é da UFRN, em Natal; Noam Chomsky é pro-
servação do patrimônio imaterial, con- Reforçamos que o reconhecimento resultado de esforços enérgicos de in- fessor laureado da Universidade do Arizona e
forme definido pela Convenção de 2003: dessas tradições orais é urgente e que, divíduos notórios como os irmãos professor emérito do MIT; e Valeria Chomsky
• Línguas individuais ou conjuntos certamente, a tradição letrada é uma Villas-Bôas e Darcy Ribeiro, em con- é pesquisadora associada do Departamento de
de línguas relacionadas representam as parte estreita da história humana. traste com as políticas destrutivas Linguística da Universidade do Arizona.

PRIMEIRAS ASSINATURAS

Alain Peyraube (Centre de Recherches Linguistiques sur l’Asie Orientale EHESS, Paris), Al- (University of Geneva & University of Siena), Luis Amaral (Spanish & Portuguese Stu-
berto Tonda (Institut National de la Recherche Agronomique, Thiverval-Grignon), Alejan- dies, Amherst University), Manuela Carneiro da Cunha (Department of Anthropology,
dro Maiche (Cognitive Psychology, Universidade de la Republica, Montevideo), Andrea University of Chicago), Marcela Peña (Escuela de Psicología, Pontifical Catholic Univer-
Moro (IUSS & Pontifical Academy of Fine Arts & Letters), Andrés Pablo Salanova (Departe- sity of Chile), Marcus Maia (Departamento de Linguística, Universidade Federal do Rio
ment of linguistics, University of Ottawa), Angel Corbera Mori (Departamento de Linguís- Janeiro), Mariana Ferreira (Medical Anthropology, San Francisco State University),
tica, Unicamp), Antonio Battro (Academia Nacional de Educação, Buenos Aires), Bruna Mauricio Torres (Instituto Amazônico de Agriculturas Familiares, Universidade Federal
Franchetto (Associação Brasileira de Antropologia), Carlos Fausto (Museu Nacional – PP- do Pará), Mauro Almeida (Departamento de Antropologia Social, Unicamp), Mercio Pe-
GAS, UFRJ), Claire Bowern (Departement of Linguistics, Yale University), Douglas Whalen reira Gros (Departamento de Antropologia, UFRJ), Miguel Oliveira Jr. (Associação Brasi-
(Endangered Language Fund [Chair & Board of Directors]), Eduardo Neves (Department of leira de Linguística), Monica Macaulay (Endangered Language Fund [Vice-President]),
Archeology, USP), Fernanda Moreira (Funai, Brasília), Filomena Sandalo (Departamento Patience Epps (Department of Linguistics, University of Texas, Austin), Philippe Descola
de Linguística, Unicamp), François Gros (Collège de France & Académie des Sciences, Pa- (Collège de France & Laboratoire d’Anthropologie Sociale, Paris), Raoni Valle (Programa
ris), George Aaron Broadwell (Departement of Anthropology & Department of Linguistics, de Antropologia e Arqueologia, Universidade Federal do Oeste do Pará), Sergio Menuzzi
University at Albany), Gessiane Picanço (Universidade Federal do Pará), Ildeu Moreira (So- (Departamento de Línguas Clássicas e Vernáculas, Universidade Federal do Rio Grande do
ciedade Brasileira para o Progresso da Ciência), Janaina Weissheimer (Departamento de Sul), Sidarta Ribeiro (Instituto do Cérebro, Natal), Stanislas Dehaene (Laboratoire de Re-
Línguas e Literatura, Universidade Federal do Rio Grande do Norte), Jean-Pierre Changeux cherche en Neuro-éducation & Collège de France, Paris), Suzi Lima (Department of Spa-
(Institut Pasteur & Collège de France, Paris), Johan Rooryck (French Linguistics, Leiden nish and Portuguese, University of Toronto), Tom Roeper (Department of Linguistics,
University), John Kingston (Department of Linguistics, Amherst University), Juan Valle Amherst University), Tonjes Veenstra (Leibniz-Centre General Linguistics, ZAS, Berlin),
Lisboa (Centro de Investigación Básica en Psicología, University of the Republic, Monte- Uli Sauerland (Leibniz-Centre General Linguistics, ZAS, Berlin), Virginia Bertolotti (De-
video), Klaus Scherrer (Institut Jacques Monod, Paris), Kristine Hildebrandt (Endange- partamento de Medios y Lenguajes, Universidad de la República, Montevideo), Wilson de
red Language Fund [President]), Laura Kaczer (Department of Neuroscience, Universi- Lima Silva (Department of Linguistics, Tucson University), Yamila Sevilla (Instituto de
dad de Buenos Aires), Luciana Storto (Departamento de Linguística, USP), Luiggi Rizzi Lingüística, Facultad de Filosofía y Letras, Universidad de Buenos Aires).

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ABRIL 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 23

ESCAVAÇÕES ABERTAS À CONCORRÊNCIA

A arqueologia preventiva ameaçada


pela guerra de preços
As construções modernas submetem também a história ao seu
controle. As escavações necessárias aos trabalhos podem revelar
importantes vestígios, cobertos há séculos por sedimentos, ou
fazê-los desaparecer para sempre... A arqueologia preventiva

© Suryara
permite salvar parte desse patrimônio. Mas a falta de envolvimento
do governo francês desde 2003 afeta duramente essas missões
POR JUDITH CHETRIT*

m Viarmes, a renovação da es- cotidiana, clima, cultos etc.) em mui- maior número possível de escavações, dos tempos de escavação e análise, em

E planada da prefeitura permitiu a


essa pequena cidade do depar-
tamento do Val-d’Oise redesco-
brir seu rico passado medieval. Em ju-
nho de 2013, a ação de desenterrar duas
tos territórios. “Isso permitiu a renova-
ção de algumas problemáticas históri-
cas, concentrando-se em áreas que até
então permaneciam nas sombras,
nunca tendo sido escavadas pela ar-
elas puderam recorrer a uma tarifação
excepcionalmente baixa (–30% a –40%
em certas escavações), o que coloca
em risco a ciência arqueológica”.1
Vários operadores privados (AFT
detrimento da qualidade. As especifi-
cações validadas pelos serviços ar-
queológicos regionais não cumprem
seu papel de salvaguarda: “Quando
olhamos para as propostas, vemos que
torres do século XIII fez reviver a forta- queologia programada, como vilarejos Archéologie, Chronoterre e Archéoloi- a maioria dos prestadores escolhidos é
leza que abrigava a casa dos Chambly, ou fazendas”, detalha Charlotte Blein, re) desapareceram. O primeiro deles, a mais barata. O controle a priori deve-
uma dinastia de camareiros do rei da fundadora do ArcheVive, escritório de Éveha, foi colocado em concordata em ria excluir propostas anormalmente
França. Na primavera de 2017, em Mar- valorização do patrimônio. novembro de 2017 e tem sido objeto de baixas, especialmente na fase pós-es-
selha, escavações realizadas antes da A lei de 2001 estabeleceu um qua- um plano de recuperação desde janei- cavação, de modo que os documentos
construção de um edifício no Boule- dro sólido ao afirmar a vocação cientí- ro de 2019. Público e privado atribuem apresentados não sejam apenas inven-
vard de la Corderie fizeram surgir uma fica e o caráter público da arqueologia a culpa um ao outro. “Perdemos parti- tários. Todos os operadores deveriam
pedreira grega de calcário na qual ti- preventiva, que confiou ao Inrap, insti- cipação de mercado, prova de que ter os mesmos protocolos de estudo e
nham sido esculpidos colunas e sarcó- tuição pública administrativa criada mantivemos nossos preços”, defende- registro”, defende Frederic Joseph, se-
fagos... há 2.600 anos! O caráter excep- para esse fim. Mas este último não co- -se Dominique Garcia, presidente do cretário-geral do Sindicato dos Traba-
cional do local levou à sua classificação bre mais que a metade dos canteiros. Inrap. “Quando começamos, devía- lhadores em Arqueologia na Confedera-
entre os monumentos históricos – ain- Porque uma nova lei, datada de 1º de mos ser mais ou menos duas vezes me- ção Geral do Trabalho (CGT)-Cultura.
da que as manobras da municipalidade agosto de 2003, modificou profunda- nos caros que o Inrap”, lembra Sébas- Para além das dificuldades finan-
e do promotor Vinci tenham limitado o mente o dispositivo: se o diagnóstico tien Varea, fundador da AFT. “É um ceiras do setor, o Tribunal de Contas
perímetro protegido e hipoteticamente ainda depende do setor público (do mundo particular; a mentalidade do salientou recentemente um déficit de
também sua valorização. Inrap ou do serviço arqueológico das meio tem dificuldade em aceitar que enquadramento nacional, gerador de
Nesses dois sítios arqueológicos, co- comunidades que possuem um), as as escavações sejam realizadas pelo disparidades regionais:2 “A arqueolo-
mo em muitos outros, a descoberta de escavações estão abertas à livre con- setor privado.” gia preventiva está intrinsecamente
um patrimônio notável se deveu ao Ins- corrência. Onze empresas privadas e Em 2017, a Éveha apresentou uma ligada à organização de um território”,
tituto Nacional de Pesquisas Arqueoló- cerca de sessenta serviços territoriais queixa contra o Inrap por “apropria- explica Nuria Nin, chefe do departa-
gicas Preventivas (Inrap). Todo ano, disputam com o sistema público o que ção ilegal de lucros”, considerando que mento arqueológico da cidade de Aix-
cerca de 8% dos projetos de construção, é hoje um mercado. É possível ver que a havia uma distorção de concorrência -en-Provence. “Mas a falta de agentes
ou seja, mais de 2 mil em 2017, são exa- concorrência tornou-se ainda mais de- para a atribuição das escavações faz que nem sempre possamos estar
minados a pedido do Estado. Quando letéria quando se constata que esse quando o estabelecimento público fa- em sintonia com o ritmo de constru-
as amostras colhidas aleatoriamente se mercado perdeu metade de seu volu- zia o diagnóstico. O Inrap respondeu ção. Às vezes, passa-se ao largo, quan-
revelam promissoras (em 2% das áreas me entre 2012 e 2017: “Nas comunida- com um processo de difamação. Des- do os organizadores não estão sufi-
de construção, em média), são realiza- des, a diminuição dos créditos para in- de então, o Estado prometeu montar cientemente sensibilizados acerca de
das escavações completas. vestimentos em obras rodoviárias ou uma plataforma informática, reunin- um projeto ou quando os mapas das
Quando se constrói uma nova li- em áreas industriais e comerciais le- do um conjunto de informações pro- zonas de presunção não foram atuali-
nha de TGV [trem de alta velocidade], vou ao colapso do número de cantei- venientes das escavações, aberta a to- zados.” Se o patrimônio raramente es-
encontra-se em média um sítio ar- ros”, explica Étienne Louis, arqueólogo dos os operadores. teve tão na moda, a situação da ar-
queológico por quilômetro, mas muito e curador do patrimônio na comunida- Impulsionada pelos incentivos fis- queologia mostra que nem o mercado
poucos deles são totalmente preserva- de de aglomeração de Douaisis. cais do desconto no imposto de renda nem os programas de televisão podem
dos. Os depósitos são com frequência Em um relatório endereçado à mi- referente à pesquisa, a abertura do substituir uma política pública real.
destruídos pela retomada das obras, nistra da Cultura, em maio de 2015, a mercado à concorrência foi acompa-
mas permanecem listados, sendo as ex-deputada socialista da Gironda nhada da criação de empregos e de *Judith Chetrit é jornalista.
peças mais bonitas preservadas. Co- Martine Faure evocou uma “perda de uma profissionalização da atividade.
mo complemento às prospecções pro- sentido” e uma “competição desen- Mas, desde a reviravolta em 2008, ar-
1 Martine Faure, “Pour une politique publique équili-
gramadas, a arqueologia preventiva freada”: “Algumas empresas privadas queólogos tanto do setor público quan- brée de l’archéologie préventive” [Por uma política
representa hoje o campo que contribui entraram no setor com a principal to do setor privado testemunharam a pública equilibrada de arqueologia preventiva], re-
com mais conhecimentos científicos. preocupação de obter lucros comer- deterioração de suas condições de tra- latório da deputada em missão junto à ministra da
Cultura e da Comunicação, Paris, maio 2015.
Ela estimula a pesquisa, incentivando ciais. Adotando um comportamento balho, uma generalização dos contra- 2 “Relatório Público Anual”, Tribunal de Contas, Pa-
novas abordagens (em termos de vida por vezes predatório, a fim de obter o tos de curto prazo e uma aceleração ris, 2016.

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24 Le Monde Diplomatique Brasil ABRIL 2019

UM PARQUE NACIONAL DEVASTADO EM NOME DO DESENVOLVIMENTO

A rosa seca os lagos da Etiópia


Em 12 de março, o presidente Emmanuel Macron fez a primeira visita de um chefe de Estado francês à Etiópia
desde 1973. Ignorando as críticas quanto à falta de liberdades, ele preferiu destacar o sucesso econômico do país.
Mas, embora o forte crescimento da Etiópia atraia investidores, esse desempenho tem um alto preço social e ecológico
POR CHRISTELLE GÉRAND*, ENVIADA ESPECIAL

as margens do Lago Abijata, na

N Etiópia, o solo range sob os pés


do caminhante, como se fosse
forrado com batatas chips. É
impossível chegar perto das centenas
de flamingos sem correr o risco de
sentir a terra rachar e deixar a água
jorrar. E com razão! Essa extensão
branqueada pelo sal já pertenceu ou-
trora ao lago, cujo tamanho diminuiu
pela metade em trinta anos. Entre
1973 e 2006, sua superfície reduziu de
197 para 88 quilômetros quadrados,

© Ninaras/cc
segundo as imagens de satélite coleta-
das pelo pesquisador Debelle Jebessa
Wako.1 Entre 1970 e 1989, a profundi-
dade das águas caiu de 13 para 7 me-
tros.2 Os peixes desapareceram, su- Lago do Parque Abijatta-Nallas, na Etiópia
cumbindo a uma taxa de salinidade
que aumentava à medida que a quan- Desde 1970 e da criação do parque presa, da qual o governo etíope detém investimento voltado para a exporta-
tidade de água diminuía. Os outros la- nacional de Abijata-Shalla, o lençol 45%, também seriam responsáveis pe- ção é estimulado pelo poder. É por isso
gos na parte central do Vale do Rift freático está oficialmente protegido. Es- lo desaparecimento dos peixes. Berha- que o relatório encomendado pelo go-
(Ziway, Shalla e Langano) enfrentam sa área de 887 quilômetros quadrados, ne Amedie, gerente-geral da Assasc, verno, segundo o qual o projeto de ex-
a mesma ameaça. que inclui dois lagos (Abijata e Shalla), já refuta categoricamente essa acusação: pansão da fábrica “não é recomendá-
Na raiz do problema, o “desenvol- foi uma floresta de acácias. Setenta mil “Não usamos nenhum produto quími- vel do ponto de vista do ambiente”,6
vimento etíope”, o avesso do “milagre pessoas moram ali; seus campos estão co!”, diz sem piscar. quase não impressiona Shirefaw. O en-
econômico” elogiado pelos economis- na área protegida, onde colocam gado Ele nos recebe em seu imponente genheiro até anuncia que “os traba-
tas dominantes.3 O “crescimento de para pastar. Algumas pessoas comple- escritório na sede da empresa em Adis- lhos começarão em um ano, e a produ-
dois dígitos” durante dez anos (de mentam a renda cortando árvores para -Abeba, num encontro para o qual ção, em quatro ou cinco anos”.
2005 a 2015), tão alardeado pelo Banco fazer carvão, que vendem às margens também convidou Worku Shirefaw. Outro setor com forte uso de água e
Mundial, baseia-se principalmente na da estrada principal. Essa prática é pu- Esse engenheiro supervisiona a cons- incentivado pelos planos quinquenais
“expansão da agricultura, da constru- nível com cinco anos de prisão, mas trução de uma nova fábrica, que dessa de “desenvolvimento e transforma-
ção e dos serviços”.4 País sem litoral, a pouco controlada. Os dois veículos dos vez bombeará a água do Lago Shalla. ção” é a horticultura. A primeira fa-
Etiópia faz qualquer coisa para atrair guardas não são suficientes para reali- “A fábrica Abijata é uma instalação-pi- zenda de rosas foi implantada em
investidores estrangeiros: água e ele- zar patrulhas eficazes. Saqueadores loto. A ideia sempre foi construir outra, 2000, e a Etiópia logo se tornou o se-
tricidade quase de graça, e aluguéis também enchem caminhões de areia com mais capacidade. O Lago Shalla é gundo maior exportador dessa flor na
dez vezes mais baixos que os preços que vendem em seguida para constru- muito mais profundo, portanto menos África, depois do Quênia. “Em 2005, o
de mercado, especialmente no setor toras. O diretor do parque, Banki Buda- sujeito à evaporação.” A empresa pre- governo foi nos procurar no Quênia”,
têxtil (ler o boxe). Os que mais perdem mo, não sabe o que fazer: “Dois anos tende aumentar a produção das atuais recorda Michel van den Bogaard, dire-
com isso: as populações rurais e o atrás, um guarda foi morto enquanto 3 mil toneladas para... 200 mil ou até 1 tor financeiro da Afriflora Sher. “Tí-
meio ambiente. tentava impedir um desses roubos. Sete milhão de toneladas. Amedie apresen- nhamos boa reputação.” A populari-
Não muito longe do Lago Abijata, outros foram gravemente feridos”. ta imediatamente um argumento de dade da multinacional holandesa
200 quilômetros ao sul da capital, Adis- Para lutar contra essas degrada- peso: “Esperamos ganhar US$ 150 mi- vinha sobretudo de suas atividades fi-
-Abeba, a cidade de Ziway floresce, im- ções, os 63 guardas estão experimen- lhões por ano”. O bicarbonato de sódio lantrópicas. Em Ziway, por exemplo,
pulsionada pelo dinamismo do setor tando novos métodos. “Estamos ten- é usado para a produção de garrafas de ela financiou um hospital, uma escola,
primário. O grupo francês Castel, o ter- tando ser diplomáticos e sensibilizar vidro e produtos de limpeza, especial- um colégio e uma escola secundária,
ceiro maior produtor de vinho do mun- os moradores”, explica uma entre eles, mente para curtumes locais. O tama- nos quais remunera o pessoal. “Quan-
do,5 plantou vinhas ali. A multinacio- Amane Gemachu. Para os que a veem nho da nova fábrica também permiti- do chegamos, bombeamos água do
nal holandesa Afriflora Sher construiu brincar com os jovens aldeões e con- ria exportá-lo, particularmente para a Lago Ziway, mas desde então corta-
a maior fazenda de rosas do mundo e versar com os mais velhos, a moça de Ásia, e “trazer dólares”. mos nosso consumo pela metade gra-
emprega 1.500 trabalhadores, com re- uniforme militar parece feita para es- A Etiópia importa cinco vezes mais ças a um sistema de gotejamento ge-
muneração de 74 euros por mês. Am- sa abordagem. Quando ela foi contra- do que exporta (US$ 15,59 bilhões con- renciado por computador, à reciclagem
bas as empresas extraem gratuitamen- tada há cinco anos, o lago era “1 quilô- tra US$ 3,23 bilhões em 2017) e lhe fal- de águas residuais e à recuperação da
te a água do Rio Bulbula, que deságua metro mais largo”. Ela questiona a tam divisas. A obtenção de um em- água da chuva”, assegura. “Chove tan-
no Lago Abijata. Já os agricultores lo- Abijata-Shalla Soda Ash Company préstimo em dólares pode levar um to na Etiópia como na Holanda, mas
cais instalam de forma totalmente ile- Share (Assasc), empresa que produz ano, durante o qual as empresas não aqui tudo cai em três meses!”
gal bombas de água – de 5 mil a 6 mil, bicarbonato de sódio e capta a água estão autorizadas a importar mate- Dois milhões de pessoas dependem
segundo as fontes – e, no final, captam diretamente do Lago Abijata. Segundo riais ou maquinários necessários para do Lago Ziway, o único na bacia a ser
ainda mais do que as empresas. ela, os produtos despejados pela em- sua atividade. Ao lado disso, qualquer constituído de água doce. Mas seu ní-

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vel diminui inexoravelmente. A bióloga


Kathleen Reaugh-Flower teme que o A NOVA FÁBRICA DO MUNDO?
lago se torne endorreico, isto é, não flua
mais para o Rio Bulbula, o qual desá-
gua no Lago Abijata. Perto de Harar, P ara desenvolver sua economia, a
Etiópia está apostando no setor de
manufatura têxtil. Adis-Abeba multiplica
balhadores de baixo custo. O salário
mensal etíope, em torno de 35 euros, é
desproporcional, por exemplo, ao dos
O setor têxtil ainda representa apenas
5% do PIB, comparado com 39% da agri-
cultura. Contudo, as autoridades esperam
500 quilômetros a leste da capital, a
cultura comercial do khat, a droga lo- seus esforços para atrair gigantes da empregados chineses (mais de 500 eu- aumentar esse número para 20% nos
cal favorita, exportada para o Chifre da confecção que podem importar suas má- ros em média).1 próximos dez anos. Para isso, continuam a
África e para a Península Arábica, a quinas sem taxas alfandegárias ou ainda Outra vantagem essencial na competi- construir parques industriais, todos feitos
se beneficiar de isenção de impostos por ção global: uma vez sediadas na Etiópia, por empresas chinesas. A Etiópia deverá
cervejaria Harar e o pastoreio em ex-
dez anos. Essa estratégia parece estar essas empresas se beneficiam de vários ter trinta deles em 2025. Cada parque traz
cesso já levaram à secagem total de um valendo a pena: o país agora está em se- acordos comerciais, como a Lei de De- sua parcela de miséria, desalojando os
lençol freático em 2011. Cactos agora gundo lugar – depois do Vietnã – em ter- senvolvimento e Oportunidades Africa- agricultores locais e indenizando-os muito
crescem no que era uma extensão de mos de investimentos estrangeiros na in- nas (Agoa) e o “Tudo Menos Armas”, que pouco. Sem terra, eles não têm mais nada.
água de 16 quilômetros de circunfe- dústria têxtil. lhes permitem exportar com isenção de A disciplina militar e os altos ritmos de pro-
rência: o Lago Alemaya. A qualidade da A Etiópia atrai assim grandes marcas direitos para os Estados Unidos e a Euro- dução na linha de montagem na área têxtil
água também está se deteriorando, o de roupas e calçados, como a francesa pa.2 O setor têxtil gerou 78 milhões de tornam-se sua única opção. (C.G.)
que torna mais caro seu tratamento. Decathlon e a marca sueca de fast euros em exportações no ano fiscal de
“Nesse ritmo, a água não será mais po- fashion barata H&M. A chinesa Huajian, 2017 – longe dos 238 milhões espera- 1 Esse é o salário médio dos empregados no se-
que fabrica sapatos para a Calvin Klein dos este ano pelos planos quinquenais do tor privado na cidade, de acordo com o Anuário
tável em uma década”, preocupa-se Estatístico da China 2018, Pequim.
Amdemichael Mulugeta, diretor da e a Guess, também escolheu esse gran- governo, que fixou como objetivo atingir 2 Ler “Libre-échange, la déferlante” [Livre-comér-
de país do Chifre da África, com seus 880 milhões de euros em exportações e cio, a explosão], Manière de Voir, n.141, jun.-jul.
ONG Wetlands International na Etió-
105 milhões de habitantes e... seus tra- 300 mil empregos criados em 2020. 2015.
pia, “e o lago desaparecerá dentro de
cinquenta a setenta anos. Antes, a cida-
de de Ziway usava água do lago, a qual
bastava tratar um pouco. Agora, a puri- NEM ANTÍLOPES NEM LOBOS que esse número máximo tenha sido 1 Debelle Jebessa Wako, “Settlement expansion
ficação seria muito complexa para as No cargo desde abril de 2018,7 o definido, a ONG planeja alocar uma and natural resource management problems in the
capacidades locais e sobretudo muito novo primeiro-ministro, Abiy Ah- porção para cada parte interessada na Abijata-Shalla lakes national park” [Problemas de
expansão do assentamento e de manejo de recur-
cara. Como resultado, a água é bom- med, colocou simbolicamente um bacia. A ideia seria então cobrar pela sos naturais no Parque Nacional dos Lagos de
beada a 46 quilômetros da cidade...” freio no sistema de favoritismo cons- água. Para não castigar os pequenos Abijata-Shalla], Walia, n.26, Adis-Abeba, 2009.
Em razão da obsessão em atrair in- truído pelo governo anterior. Ele agricultores locais, com recursos mui- 2 Dagnachew Legesse et al., “A review of the current
status and an outline of a future management plan
vestidores estrangeiros, o governo anulou, por exemplo, uma série de to limitados, a Wetlands International for lakes Abijiata and Ziway” [Uma revisão do status
vende a terra barato, em detrimento benefícios públicos concedidos à Me- busca ao mesmo tempo melhorar suas atual e um esboço de um plano de gerenciamento
dos fazendeiros locais. Entre 2016 e tals and Engineering Corporation técnicas de cultivo. Esse projeto-piloto futuro para os lagos Abijata e Ziway], relatório não
publicado, Oromia Environmental Protection Offi-
2018, grandes manifestações forçaram (Metec), um conglomerado de 98 em- de 200 hectares é financiado pelo Mi- ce, Adis-Abeba, 2005.
a renúncia do primeiro-ministro, Hai- presas administrado pelo Exército, nistério das Relações Exteriores holan- 3 Cf. “Ethiopia: A growth miracle” [Etiópia: um mila-
lemariam Mariam Desalegn. Por mui- do qual 26 líderes são hoje processa- dês como compensação por danos das gre do crescimento], Deloitte, Joanesburgo, 2014.
4 “Ethiopia’s great run: The growth acceleration and
to tempo, o regime autoritário da Etió- dos por corrupção. fazendas de horticultura. Por sua vez, how to pace it. 2004-2014” [A grande corrida da
pia se beneficiou de certa complacência Para lagos na área de Ziway, a mu- a Afriflora Sher reduz o consumo de Etiópia: a aceleração do crescimento e como ritmá-
por parte dos observadores interna- dança começa devagar. “Antes, rara- pesticidas usando insetos especial- -la. 2004-2014], Banco Mundial, Washington, DC,
fev. 2016.
cionais, que estavam entusiasmados mente éramos autorizados a visitar os mente trazidos da Europa e aplicados 5 Ler Olivier Blamangin, “Castel, l’empire qui fait trin-
com o crescimento econômico. Os lugares, especialmente as fazendas de com uma espátula nos pés contami- quer l’Afrique” [Castel, o império que faz a África
abusos dos direitos humanos e o fraco horticultura, cujos líderes não cansa- nados para devorar as aranhas verme- beber]”, Le Monde Diplomatique, out. 2018.
6 Kathleen Reaugh Flower “Abijata-Shalla lakes na-
desempenho social foram ignorados, vam de repetir para nós que conhe- lhas que atacam as folhas das rosas. tional park: Assessment of factors driving environ-
sobretudo a taxa de pobreza muito al- ciam fulano ou sicrano... Agora eles Para os antílopes e lobos na Abissínia, mental change for management decision-making”
ta, mas sistematicamente subavalia- têm de sentar na mesa de negociação”, já é tarde demais: não é mais possível [Parque Nacional dos Lagos Abijata-Shalla: avalia-
ção dos fatores que impulsionam a mudança am-
da: ela é calculada pela agência do go- diz Mulugeta. A Wetlands Internatio- encontrá-los no parque. Quanto às biental para a tomada de decisão], The Sustainab-
verno com base em 19,7 birrs por dia nal está supervisionando um estudo aves migratórias, elas fazem parada le Development of the Protected Area System of
(R$ 2,68), quando o limiar de pobreza para determinar a quantidade de água em outro lugar. Ethiopia Program and the Ethiopian Wildlife Con-
servation Authority, Adis-Abeba, 2011.
extrema definido pelo Banco Mundial no Rio Bulbula que pode ser colhida 7 Ler Gérard Prunier, “Éthiopie-Érythrée, fin des hos-
é fixado em US$ 1,90 (R$ 7,48) por dia... sem danificar o Lago Abijata. Uma vez *Christelle Gérand é jornalista. tilités” [Etiópia-Eritreia, fim das hostilidades], Le
Monde Diplomatique, nov. 2018.

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FRACASSO DA POLÍTICA DE ASILO

A Austrália exporta seus refugiados


Em nome do combate aos “coiotes”, pessoas que introduzem imigrantes ilegalmente no país, Camberra terceiriza parte
de sua gestão dos requerentes de asilo para outros países. Essa política inspira governos europeus, ao mesmo tempo que
deixa indignados os defensores dos direitos humanos, já que os refugiados são reduzidos a simples moedas de troca
POR LENA BJURSTRÖM*, ENVIADA ESPECIAL

É
um pequeno restaurante em um gios mortais,4 o governo trabalhista
beco da parte sul de Phnom Pe- reativou acordos de cooperação com
nh, com um balcão, algumas os dois países e endureceu a política
mesas e um cheiro de falafel. O de recepção. Se a Austrália continuava
Mideast Feast oferece especialidades a acolher vários milhares de requeren-
sírias e libanesas – raridade em uma tes de asilo que chegavam legalmente
capital certamente cosmopolita, mas ao seu solo,5 ela agora tinha tolerância
onde as pessoas oriundas do Oriente zero em relação aos clandestinos. “Ne-
Médio não são muitas. Do Camboja, nhum solicitante de asilo que chegar à
Abdullah Zalghanah, o proprietário, Austrália de barco poderá se estabele-
nada sabia até que caiu lá de paraque- cer no território como refugiado”, afir-
das. Sua história é a de um exilado jo- mou o primeiro-ministro Kevin Rudd
gado de um país para outro ao sabor (BBC, 9 jul. 2013). Independentemente
da política de asilo australiana. da legitimidade do pedido de proteção
Zalghanah é sírio. Há oito anos, e das dificuldades encontradas para

© World bank photo


ainda era padeiro e dono de restauran- formulá-lo. Um sírio que apresentasse
te em Daraa, onde morava com a espo- um pedido de asilo para a Europa ou a
sa e quatro filhos. Depois, vieram a Austrália de um país vizinho para o
guerra, as bombas, os combates nas qual conseguisse fugir, como a Tur-
ruas. E, como tantos outros, ele fugiu quia ou o Líbano, era passível de recu-
de sua cidade, transformada em cam- Família Síria em campo de refugiados na Jordânia sa a pretexto de a petição ter sido emi-
po de batalha, para o Líbano. Deixou a tida de um país “seguro”. Conseguir
família para procurar um país onde um visto temporário não era menos
viver em paz. “Eu não via nenhum fu- mais de 2 mil pessoas estavam amon- sobretudo no que se refere ao princípio difícil. Já os ilegais capturados nas re-
turo para meus filhos no Líbano, com toadas ali: requerentes de asilo que ti- de não repressão que figura na Con- des dessa política poderiam escolher
as milícias de Bashar al-Assad ras- nham tentado alcançar ilegalmente a venção de Genebra sobre refugiados, entre um voo de retorno para seu país
treando refugiados, a situação econô- costa australiana, esperando para se- da qual é signatária.1 Ela ignorava seu de origem e uma transferência para os
mica e as consequências da guerra”, rem transferidos para um dos campos dever de receber e proteger refugiados. campos offshore – por um período
conta. Em 2012, ele iniciou um longo de detenção da ilha-Estado de Nauru E seu método fez escola na União Eu- indeterminado.
périplo que o levaria ao outro lado do ou da Papua-Nova Guiné. Nenhum de- ropeia, que desenvolveu políticas de
mundo, impulsionado pela esperança les jamais iria alcançar a Austrália, já “externalização das fronteiras”, como IMPROVÁVEL ACORDO COM O CAMBOJA
de alcançar a Austrália, um país “pací- que, alguns meses antes, Camberra o acordo com a Turquia. Se o acordo com a Papua-Nova
fico” onde, segundo lhe haviam dito, reativara e endurecera sua política ra- Na Austrália, os conservadores que Guiné previa, em teoria, um assenta-
“é possível reconstruir a vida em seis dical de repressão dos boat people fora elaboraram essa estratégia de terceiri- mento permanente de refugiados no
meses”. Zalghanah estava então no de seu território – o que foi chamado zação registraram uma diminuição território, na realidade “as autoridades
Egito, onde trabalhou por um tempo. de “solução do Pacífico”. clara das chegadas ilegais: menos de não lhes conferem status legal”, de-
“Na comunidade síria, dizia-se que Lançada no início dos anos 2000, 150 por ano entre 2002 e 2008, em nunciou um relatório da Anistia Inter-
a Austrália era uma opção melhor que essa política se baseia em acordos fei- comparação com 2.000 a 5.500 por ano nacional.6 As de Nauru recusaram ofi-
a Europa. E eu tinha um irmão lá, que tos com seus dois vizinhos pobres. Em entre 1999 e 2001.2 Essa era a prova, se- cialmente qualquer assentamento
havia ido antes da guerra”, explica. Ele troca de compensação financeira, gundo eles, da eficácia de sua política permanente. Os refugiados recebiam,
foi colocado em contato com coiotes, Nauru e a Papua-Nova Guiné concor- dissuasiva, a qual não era menos cara. na melhor das hipóteses, um visto de
que o embarcaram para a Indonésia, daram em receber os requerentes de Em 2007, um relatório da Oxfam esti- cinco anos, depois um de dez, pago
onde deveria pegar um barco com ou- asilo chegados clandestinamente. Du- mou seu custo total – das intercepta- pelas autoridades australianas. “Os
tras 71 pessoas. Um simples barco a rante o tempo em que seu caso era ções de barcos às taxas de administra- acampamentos offshore, que foram a
motor, para uma travessia de mais de examinado, eles eram detidos nos ção do campo – em mais de 1 bilhão de origem dos lugares de transferência,
400 quilômetros até a Ilha Christmas, chamados acampamentos offshore, ou dólares australianos (R$ 2,8 bilhões) tornaram-se assim centros de deten-
território australiano perdido no meio extraterritoriais, construídos à custa em seis anos,3 para o atendimento de ção permanente, sem outra saída se-
do Oceano Índico. “A viagem foi terrí- de Camberra e administrados por em- menos de 1.700 pessoas. Sob o fogo das não o retorno ao país”, explica Ian Rin-
vel. Depois de um dia, um dos dois mo- presas privadas por meio de contrato críticas, a “solução do Pacífico” foi sus- toul, porta-voz da Refugee Action
tores parou de funcionar. Mais de uma com o governo. Oficialmente, tratava- pensa em 2008 pelo governo trabalhis- Coalition, ONG australiana.
vez pensei que íamos morrer.” Quatro -se de combater as redes de coiotes, ta que chegou ao poder. Os campos de Quando Zalghanah foi transferido
dias e uma noite de angústia, até que desencorajando qualquer tentativa de Nauru e da ilha de Manus (Papua-No- para Nauru em abril de 2014, cerca de
os coiotes indonésios os deixaram na chegar à costa de barco. va Guiné) foram esvaziados... para se- 1.200 pessoas viviam lá. “Dormíamos
praia, onde foram recolhidos por guar- De acordo com organizações de di- rem reabertos quatro anos depois. em cerca de quarenta pessoas em
das australianos e levados para um reitos humanos, a Austrália estava Em resposta a um novo aumento grandes tendas sujas, sem nenhuma
centro de retenção. No verão de 2013, contrariando o direito internacional, das chegadas clandestinas e a naufrá- intimidade. Havia apenas dez banhei-

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ros e dez chuveiros sem portas. Não precedente perigoso que afeta a inte- sado, visto que a combinação entre o pero” e listou “um número alarmante
éramos criminosos, mas aquele cam- gridade do sistema de responsabilida- Camboja e a Austrália terminou ofi- de tentativas de suicídio e casos de au-
po era uma prisão.” Além dessas con- de compartilhada em relação aos refu- cialmente no outono de 2018. Seu fra- tomutilação”.12 Em dezembro de 2018,
dições de vida insuportáveis, era sua giados”, analisou Madeline Gleeson, casso foi tão marcante que não seria 1.200 refugiados e requerentes de asi-
situação, indefinida e sem saída, que o advogada e pesquisadora da Universi- renovado. Dos sete refugiados transfe- lo, apoiados pela associação National
destruía. “Estávamos todos sob efeito dade de Nova Gales do Sul.10 No entan- ridos, quatro já deixaram o país. Justice Project, lançaram um processo
de antidepressivos e soníferos para to, Camberra viu isso acima de tudo “Desde o início, esse acordo foi judicial contra o Estado australiano,
conseguir dormir. A atmosfera conti- como uma porta de saída para uma apenas uma grande piada”, denuncia acusado no Supremo Tribunal de pri-
nuou a deteriorar-se, com brigas que política que se tornara insustentável. Rintoul. “O governo estava desespera- são arbitrária, perseguição, tortura e
pipocavam, mas principalmente sui- do para encontrar uma saída para sua crimes contra a humanidade.
cídios. Lembro-me de um homem que política de asilo offshore. No final, ele Zalghanah se considera um sobre-
engoliu uma caixa de comprimidos, de pagou mais de US$ 40 milhões para vivente. Em janeiro, depois de dois
outro que pôs fogo no corpo...” Zalgha- “A viagem foi terrível. realocar sete pessoas. Alcançaram-se anos de espera, de vários depoimentos
nah perdeu a conta, mas os desapare- picos de absurdo.” Tentativas simila- na imprensa australiana e de diversas
cidos ainda povoam seus pesadelos.
Depois de um dia, res de negociações com outros países, ameaças de greve de fome, sua família
Apesar das restrições de acesso im- um dos dois motores incluindo o Quirguistão, nunca foram finalmente chegou ao Camboja. Pela
postas pelas autoridades, várias inves- parou de funcionar. bem-sucedidas. primeira vez em quase sete anos, ele
tigações sucessivas denunciaram as Mais de uma vez Restou uma saída possível: o acor- abraçou os filhos. E, se seus anos de pe-
condições de vida dos detidos. O Alto do alcançado com os Estados Unidos rambulação e detenção ainda o assom-
Comissariado das Nações Unidas para
pensei que nos últimos meses da presidência de bram, ele começa a viver novamente.
os Refugiados (Acnur), cuja delegação íamos morrer” Barack Obama, pelo qual Washing-
visitou Nauru no final de 2013, evocou ton assumiria até 1.200 refugiados *Lena Bjurström é jornalista.
uma “detenção sistemática e arbitrá- dos campos offshore. Os termos do
ria” contrária ao direito internacional “Com esse acordo, a Austrália es- acordo, concluído em setembro de
e criticou a falta de uma solução a lon- pera ter finalmente encontrado a peça 2016, não foram divulgados, mas, no
go prazo para as pessoas mantidas nu- que faltava em sua política de asilo mesmo mês, Camberra anunciou 1 A Convenção de Genebra sobre Refugiados, de
ma situação de incerteza.7 offshore: uma solução a longo prazo”, planos para acolher um número não 1951, obriga os Estados a examinar o pedido de
A partir do verão de 2014, a campa- ressaltou a pesquisadora. Mas, se o definido de requerentes de asilo sul- proteção de qualquer pessoa que esteja em seu
território ou se apresente em suas fronteiras. O
nha Fronteiras Soberanas, operação acordo era vago sobre as futuras con- -americanos, então em campos ad- princípio da não repressão proíbe a expulsão ou a
militar para empurrar navios ilegais dições de vida dos refugiados desloca- ministrados pelos Estados Unidos, o repressão de um refugiado ou requerente de asilo
para seu ponto de partida, limitou as dos, pelo menos mostrava-se claro que alimentou os rumores de “troca nas fronteiras dos territórios onde sua vida ou liber-
dade estariam ameaçadas (artigo 33).
novas chegadas. Porém, tornou-se ur- num ponto: eles deveriam aceitá-lo de refugiados”, apesar das negativas 2 “Boats arrivals in Australia since 1976” [Chega-
gente encontrar uma solução para os voluntariamente. Porém, os prisionei- do governo australiano.11 das de barcos à Austrália desde 1976], Parla-
cerca de 3 mil refugiados que estavam ros de Nauru não receberam a notícia Contra todas as expectativas, a mento da Austrália, Camberra. Disponível em:
<www.aph.gov.au>.
amontoados em Manus e Nauru. A com entusiasmo. Enquanto ministros eleição de Donald Trump não pôs fim 3 Kazimierz Bem, Nina Campo, Nic Maclellan, Sarah
Nova Zelândia ofereceu-se para aco- do Interior da Austrália e do Camboja à combinação. Embora tenha julgado Meyer e Tony Morris, “A price too high: the cost of
lher 150 deles por ano, porém a Aus- estouravam champanhe em Phnom o acordo “estúpido”, o presidente nor- Australia’s approach to asylum seekers” [Um pre-
ço muito alto: o custo da abordagem australiana
trália recusou a oferta, acreditando Penh, uma nova onda de protestos agi- te-americano prometeu honrá-lo, para os requerentes de asilo], A Just Australia –
que tal perspectiva, muito atraente, só tou os acampamentos entre o final de sem, no entanto, chegar aos números Oxfam Australia, ago. 2007. Disponível em:
reforçaria o trabalho dos coiotes. setembro e o início de outubro de 2014. adiantados por seu antecessor. Desde <www.oxfam.or.nz>.
4 “Boats arrivals in Australia since 1976”, op. cit.
Camberra pensou em encontrar sal- Quando as primeiras delegações cam- o outono de 2016, 445 refugiados trans- 5 Em 2012-2013, 19.998 refugiados e beneficiários
vação na terceirização. bojanas foram até lá, no começo de feridos para Nauru e Manus recebe- de vistos humanitários; 13.759 no ano seguinte.
Em 26 de setembro de 2014, Scott 2015, nenhum voluntário se apresen- ram asilo nos Estados Unidos. Washin- “Australia’s humanitarian program: a quick guide to
the statistics since 1947” [Programa humanitário
Morrison, então ministro da Imigração, tou. “Nos meses que se seguiram, fo- gton teria recusado quase duzentas da Austrália: um guia rápido para as estatísticas
anunciou a assinatura de um acordo mos informados a respeito de pressões outras pessoas, incluindo muitos ira- desde 1947], Parlamento da Austrália, 17 jan. 2017.
inédito com o Camboja. Negociado em exercidas sobre os refugiados, chanta- nianos. E nenhum novo procedimento 6 “Punishment not protection: Australia’s treatment of
refugees and asylum seekers in Papua New Guinea”
segredo pelos executivos dos dois paí- gens, falsas promessas”, diz Rintoul. de transferência para os Estados Uni- [Punição, não proteção: o tratamento da Austrália a
ses, ele previu o assentamento no terri- Em vão: apenas sete deles concorda- dos foi anunciado. refugiados e requerentes de asilo na Papua-Nova
tório cambojano de uma parte dos refu- ram em ser enviados para o Camboja. Guiné], Anistia Internacional, Londres, fev. 2018.
7 “UNHCR monitoring visit to the Republic of Nauru”
giados alojados em Nauru, com Phnom Zalghanah estava entre eles. Em POPULAÇÃO PARA ALÉM DO DESESPERO [Visita de acompanhamento do Acnur à República
Penh recebendo em troca 40 milhões de 2016, ele concordou com sua transfe- De acordo com um relatório do de Nauru], Escritório Regional do Alto Comissaria-
dólares australianos (R$ 111 milhões) rência para Phnom Penh, desde que a Parlamento da Austrália, entre 2012 e do das Nações Unidas para os Refugiados, Cam-
berra, 26 nov. 2013.
em forma de ajuda ao desenvolvimento. Austrália também repatriasse sua fa- 2017 a política de detenção extraterri- 8 Justine Drennan, “... And stay out! Australia signs a
A viagem, a recepção e o assentamento mília, que tinha ficado no Líbano. “No torial de requerentes de asilo teria cus- deal to unload refugees onto Cambodia” [... E fique
dos refugiados também seriam de res- início, eles diziam que a reunião de fa- tado ao Estado quase US$ 5 bilhões, fora! Austrália assina acordo para descarregar re-
fugiados no Camboja], Foreign Policy, Washing-
ponsabilidade da Austrália, que plane- mília era impossível. Mas, depois de sem contar o orçamento de “ajuda ao ton, DC, 26 set. 2014.
java gastar com isso um orçamento glo- um ano, finalmente me disseram que desenvolvimento” prevista nos acor- 9 “UNHCR statement on Australia-Cambodia agree-
bal de US$ 15 milhões (R$ 42 milhões), minha família se juntaria a mim de- dos regionais – uma boa soma para a ment on refugee relocation” [Declaração do Acnur a
respeito do Acordo entre a Austrália e o Camboja
sem maiores detalhes. pois de três ou quatro meses”, conta. detenção de 3.127 refugiados e reque- sobre a realocação de refugiados], 26 set. 2014, Es-
“Um dos países mais ricos do mun- Chegando à capital cambojana em no- rentes de asilo, no total, desde 2012. critório do Alto Comissariado das Nações Unidas
do convenceu um dos mais pobres a vembro de 2016, ele ficou sob os cuida- Mil e quatrocentos deles ainda esta- para Refugiados. Disponível em: <www.unhcr.org>.
10 Madeline Gleeson, “The Australia-Cambodia refu-
receber refugiados que não quer”, re- dos da missão local da Organização riam bloqueados em Manus e Nauru. gee relocation agreement is unique, but does little to
sumiu a revista norte-americana Fo- Internacional das Migrações. Esta o Se os campos estão agora abertos, as improve protection” [O acordo de realocação de re-
reign Policy,8 enquanto António Guter- orientou e o abrigou por três meses, ilhas ainda são prisões para esses ho- fugiados da Austrália e do Camboja é único, mas faz
pouco para melhorar a proteção], Instituto de Política
res, atual secretário-geral das Nações após os quais ele se lançou a um proje- mens, mulheres e crianças que, na de Migração, Washington, DC, 21 set. 2016.
Unidas, então alto comissário das Na- to de restaurante graças a um subsídio realidade, dispõem de uma liberdade 11 “Australia-United States resettlement arrangement”
ções Unidas para os Refugiados, criti- da Austrália. Mas, mais de um ano de- de circulação relativa. Expulsa em ou- [Acordo de reassentamento Austrália-Estados Uni-
dos], Centro Andrew e Renata Kaldor para o Direito
cava a “perturbadora violação das nor- pois de sua chegada, o processo de en- tubro passado pelas autoridades nau- Internacional dos Refugiados, Universidade de
mas internacionais”.9 O acordo era contro com sua família estava parali- ruanas depois de ter passado onze me- New South Wales (UNSW), Sydney, 28 jan. 2018.
realmente único no gênero e, apesar sado. Zalghanah temia ser esquecido ses junto dos refugiados, a ONG 12 “Ce n’est pas MSF qui doit quitter Nauru, ce sont
les réfugiés” [Não é o MSF que tem de deixar Nau-
de não violar explicitamente o direito ou expulso, tendo em vista os docu- Médicos Sem Fronteiras descreveu ru, são os refugiados], Médicos Sem Fronteiras,
internacional, não deixava de ser “um mentos antigos de um acordo fracas- uma população “para além do deses- Paris, 11 out. 2018.

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28 Le Monde Diplomatique Brasil ABRIL 2019

ESTADOS UNIDOS E RÚSSIA NEGOCIAM, CADA UM DE SEU LADO, COM O TALIBÃ

Os três dias que mudaram


a história afegã
Em guerra há quase vinte anos no Afeganistão, os Estados Unidos e seus aliados vão retirar suas tropas. Pelo menos
foi o que prometeu Donald Trump... Dezenas de milhares de mortos depois, um balanço político e diplomático do conflito
pode finalmente ser traçado. E a história se repete, com russos e norte-americanos estendendo a mão aos talibãs
POR GEORGES LEFEUVRE*

o dia 20 de dezembro de 2018, total de mortes desde 2001 chegava a

N os jornais The New York Times e


The Wall Street Journal anun-
ciaram a decisão do presidente
Donald Trump de trazer de volta 7 mil
soldados que estavam no Afeganistão,
58.596, segundo o Watson Institute.5
Mas o Talibã não cede na questão da
retirada dos Estados Unidos, exigin-
do que ela seja total. Até porque nin-
guém sabe o que Trump pretende, na
após o anúncio, na véspera, da retira- prática, com o anúncio da retirada de
da da Síria. No mesmo dia, o secretário 7 mil soldados.
de Defesa, James Mattis, renunciou. Assim, a quarta sessão de Doha, no
Algumas horas depois, o governo afe- final de janeiro de 2019, começou com
gão e os diplomatas lotados em Cabul uma relativa falta de clareza e terminou
acordaram estupefatos: alguns te- com simples declarações de boa vonta-
miam o caos. A decisão era ainda mais de para continuar a discutir quatro tó-
inesperada pelo fato de que, em 2017, o picos: o cessar-fogo, a retirada negocia-
presidente dos Estados Unidos aceita- da, o compromisso de que o Afeganistão
ra – com relutância, é verdade – au- nunca servirá de base terrorista para
mentar em 4 mil homens sua presença ameaçar os Estados Unidos e o com-
militar no país. No entanto, apesar das promisso de que o Talibã converse com
críticas, ele manteve sua decisão, jus- o governo de Ghani. Khalilzad perma-
tificada à sua maneira no canal CBS nece confiante, por causa da personali-
(23 dez.): “Vamos ver o que acontece Homem vítima da guerra descansa na cidade de Cabul dade do novo negociador-chefe do Tali-
com o Talibã. Eles querem paz; estão bã, o mulá Abdul Ghani Baradar,
cansados. Acho que todo mundo está do gasoduto Turcomenistão-Afeganis- distritos, de um total de 407, e disputa- cofundador do movimento junto com o
cansado. Precisamos sair dessas guer- tão-Paquistão-Índia (Tapi). Desde o va um pouco mais de duzentos em mulá Mohammed Omar. Pashtun Dur-
ras intermináveis e trazer nossos rapa- início da intervenção, em 2001, ele re- uma posição de força, deixando ape- rani, da tribo Popalzai – mais acostu-
zes para casa”. presentou a Casa Branca no Afeganis- nas 38% do território sob pleno con- mada com as relações internacionais
Em três dias, a reviravolta à qual tão como enviado especial e depois co- trole da administração do Estado. No do que as outras e da qual também é
Mattis tentou em vão se opor mudou mo embaixador. entanto, em 2018 todos os registros de oriundo o ex-presidente Hamid Karzai
completamente a situação da partici- O negociador foi, portanto, bem es- bombardeios aéreos desde a saída do –, Baradar há muito tempo é partidá-
pação dos Estados Unidos na coalizão colhido – mas o que ele deveria nego- grosso das tropas da Organização do rio das negociações. Ele foi preso em
internacional de 38 países1 contra o ciar? Durante as primeiras reuniões, Tratado do Atlântico Norte (Otan), em Karachi, em 2010, e libertado em outu-
Talibã, assim como o próprio conteú- entre julho e dezembro, o Talibã con- dezembro de 2014, foram ultrapassa- bro de 2018, a pedido dos Estados Uni-
do do diálogo entabulado com o movi- cordou em discutir a troca de prisio- dos: 7.362 mísseis aéreos foram lança- dos. No entanto, a quinta sessão de
mento em Doha no meio do ano. Ela neiros e a remoção de nomes da lista dos, de acordo com o US Air Forces negociações começou, em 24 de feve-
também reforçou a estratégia de Vla- negra do terrorismo, mas nada além Central Command, contra 4.361 no reiro, com a mesma falta de clareza.
dimir Putin, que, em 2016, iniciara um disso, até que os Estados Unidos apre- ano anterior e 947 em 2015.4 O cansaço Somente no dia 28 foi possível conhe-
processo de conversações com o Tali- sentassem um plano de retirada total dos Estados Unidos era palpável. O nú- cer o plano de retirada, revelado pela
bã, a seu ver menos perigoso do que a de suas tropas. Foi a essa exigência que mero de militares mortos entre outu- imprensa norte-americana.6
Organização do Estado Islâmico, inte- Trump parecia ter cedido parcialmen- bro de 2001 e outubro de 2018 foi de O Pentágono propõe repatriar rapi-
grando o movimento às discussões co- te, como uma promessa de boa vonta- 2.401, e o custo da guerra chegou a US$ damente metade de seus 14 mil solda-
mo uma força política inevitável. de e para resolver logo a situação. 900 bilhões, mais que o Plano Mar- dos, dedicando-se os restantes exclu-
Em setembro de 2018, Trump esco- O Talibã obviamente sentiu o vaci- shall. As Forças Armadas dos Estados sivamente a ações de contraterrorismo
lheu Zalmay Khalilzad como repre- lo. “Como todo mundo”, de acordo Unidos já passaram mais de 6 mil dias por um período de três a cinco anos,
sentante especial para a reconciliação com suas próprias palavras, Trump es- no Afeganistão, o que supera o acu- enquanto os 8 mil soldados de outros
no Afeganistão, justamente para dar tava “cansado”, ao passo que os com- mulado nas duas guerras mundiais países da coalizão se ocupariam ape-
um novo fôlego ao diálogo iniciado batentes do Emirado Islâmico do Afe- mais a Guerra da Coreia. nas de treinar e orientar o Exército afe-
com o Talibã em julho. Já bem conhe- ganistão (o Talibã) não paravam de O moral do Exército Nacional Afe- gão. Mas ninguém sabe se o Pentágo-
cido no cenário regional, Khalilzad é ganhar terreno. Os números exatos gão também está baixo. No Fórum de no negociou previamente esse plano
um norte-americano de origem são difíceis de estabelecer, mas as fon- Davos, em janeiro, o presidente Ashraf com seus parceiros. Quanto ao gover-
pashtun, da tribo Noorzai. Diretor de tes cruzadas, sendo a mais otimista a Ghani divulgou um número até então no afegão, ele quer saber se a ajuda
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um ramo do think tank norte-ameri- do US Special Inspector General for considerado segredo de defesa: 45 mil anual de US$ 5,2 bilhões dos Estados
cano Research and Development Cor- Afghanistan Reconstruction (Sigar)2 e membros das forças de segurança afe- Unidos será reduzida, ou mesmo sus-
poration (Rand) no final dos anos a mais pessimista a do site Long War gãs foram mortos desde que substituí- pensa, caso em que “o atual regime
1990, ele negociou com os talibãs, en- Journal,3 indicam que o Talibã estava ram as forças da Otan, no final de 2014 não sobreviverá”, adverte o pesquisa-
tão no poder, a segurança do projeto no controle de pelo menos cinquenta – um aumento exponencial, já que o dor Michael Semple.7

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Claro que o Talibã recusou esse nas províncias de Helmand e Badghis, abandonando a ideia de jihad global” A conferência de Moscou, porém,
plano integralmente. Eles exigem a re- em 28 de fevereiro e 11 de março, resul- (agência Anadolu);10 ou “Estou em con- constrói suas pontes com cautela. O
tirada total de todas as forças estran- taram em quase cinquenta mortos e tato com o Talibã como parte de minha ex-presidente Karzai se reportou a seu
geiras dentro de um período técnico cerca de quarenta presos. O Talibã quer missão diplomática” (BBC, 4 dez. 2016). sucessor, Ghani, sobre sua missão em
razoável de seis a oito meses. Essa mostrar sua eficiência militar, enquan- Desde o início, as conferências de Moscou, apoiando a ideia de criar uma
quinta sessão, prolongada por uma se- to os Estados Unidos, ansiosos para sair Moscou foram realizadas em um con- comissão de negociação interna afegã.
mana, manteve o suspense até 12 de desse inferno, estão contra a parede. texto multilateral. Elas reuniram os Em 4 de março, durante uma visita ao
março e não chegou a nenhuma con- Eles não têm muita coisa a oferecer em países que poderiam compartilhar a Golfo, o ministro das Relações Exte-
clusão tangível. Khalilzad contentou- troca, e menos ainda a impor, que não mesma análise, a saber, Rússia, Afega- riores da Rússia, Sergei Lavrov, apro-
-se em tuitar laconicamente que hou- esteja condicionada à retirada. Nessas nistão, Paquistão, Irã e China, em 29 de veitou seu encontro com o emir do Ca-
ve alguns avanços e um “esboço de condições, qualquer concessão desme- dezembro de 2016, aos quais se soma- tar, Hamad bin Khalifa al-Thani, para
acordo sobre as questões do contrater- dida não seria adequadamente aprecia- ram as repúblicas da Ásia Central, em garantir que, se necessário, estaria
rorismo e da retirada”. Em contrapar- da pela base combatente do Talibã e 15 de fevereiro de 2017. Em 14 de abril pronto a facilitar o diálogo de Doha. O
tida, o porta-voz do Talibã, Zabihullah constituiria um fator de enfraqueci- desse mesmo ano, os Estados Unidos ministro das Relações Exteriores do
Mujahid, declarou no site oficial Voice mento e até de fratura. foram finalmente convidados a parti- Uzbequistão, Abdulaziz Kamilov,
of Jihad que apenas “as questões da re- Fato é que o Talibã não tem a inten- cipar, mas não responderam. Em vez também viajou a Doha, no dia seguin-
tirada total de todas as forças estran- ção de conquistar militarmente a tota- disso, Trump escolheu lançar a “mãe te, para saudar o negociador-chefe do
geiras, o quando e o como, bem como lidade do território – o Exército afegão, de todas as bombas”, a famosa GBU-43, Talibã, Baradar, rezar com ele e asse-
a garantia de não prejudicar ninguém embora fragilizado por suas perdas, de 10 toneladas, em Achin, na provín- gurar-lhe seu desejo de investir na
a partir do solo afegão haviam sido está de pé, ao passo que, em 1994, cia de Nangarhar (leste do Afeganis- economia afegã. A caminho de casa,
discutidas; sem resultado”. E esclare- quando o Talibã fez sua primeira apa- tão). Outra coincidência? Em 9 de no- parou em Cabul para dizer a mesma
ceu que não há “nenhum acordo sobre rição, em plena guerra civil, ele não vembro de 2018, enquanto Washington coisa ao presidente Ghani.
cessar-fogo nem sobre negociações existia. Seja como for, foi isso que o Ta- retomava o diálogo bilateral com o Ta- No entanto, sejam quais forem as
com o governo de Cabul”.8 libã disse na última conferência de libã, sem outro interlocutor, Moscou precauções tomadas – às vezes de ma-
Todo o resto depende, na verdade, Moscou, em 4 e 5 de fevereiro. As nego- organizava uma primeira reunião bi- neira desajeitada –, o regime de Cabul
da retirada e, sem obtê-la, as discus- ciações na conferência foram mais partite entre uma delegação do Talibã tem boas razões para se sentir jogado
sões parecem, segundo fontes confiá- substanciais do que no confronto bila- vinda de Doha e, em vez do governo para escanteio. A resposta de Ghani foi
veis, atoladas na retórica talibã. A pri- teral de Doha. Não se tratou ali tanto afegão stricto sensu, o Alto Conselho convocar uma grande assembleia con-
meira exigência, bastante simples, é de negociações de paz, mas de condi- para a Paz, que é uma emanação dele, sultiva, a Loya Jirga. Ela se reunirá a
uma questão de ordem: primeiro a re- ções prévias para essas negociações – mas tem apenas função consultiva. partir de 27 de abril e formará uma co-
tirada, depois falaremos, entre afe- e, enquanto tais condições não são sa- Na competição entre os dois proces- missão que represente todas as cor-
gãos, sobre o cessar-fogo e sobre a le- tisfeitas, o Talibã ganha terreno. sos, Putin marcou um ponto. Mas, co- rentes da sociedade afegã e possa ser
gitimidade do regime atual. Em mo bom jogador de xadrez, ainda tinha um interlocutor aceitável para o Tali-
compensação, com o Talibã declaran- UM PROJETO NACIONAL DE RECONQUISTA duas jogadas de vantagem após o anún- bã. Algumas declarações da delegação
do-se pronto a romper com grupos que Entre duas sessões do processo de cio-surpresa da retirada parcial das for- talibã em Moscou sugerem que isso
poderiam ameaçar os Estados Unidos, Doha e aguardando uma conclusão ças dos Estados Unidos. Nos dias 4 e 5 não está fora de alcance.
a questão mais espinhosa passa a ser a que nunca chega, Putin aumenta sua de fevereiro de 2019, enquanto as reu- De fato, a última conferência foi te-
definição do rótulo de “terrorista”. vantagem. Quanto aos Estados Uni- niões de Doha patinavam entre duas ma de uma declaração conjunta que re-
O problema não é o Estado Islâmi- dos, já que não venceram a guerra, eles sessões, o presidente russo não convi- vela, em meio a vagas generalidades,
co, que o Talibã combate, mas a Al- gostariam muito de pelo menos não dou ninguém formalmente, mas orga- que “o diálogo interno afegão conti-
-Qaeda, com a qual mantém estreitas perder completamente. E, como estão nizou com a diáspora afegã em Moscou nuará em bases regulares” e que “refor-
relações. De fato, o líder supremo da militarmente envolvidos em campo, o uma conferência, ainda mais inespera- mas sistemáticas serão adotadas após a
Al-Qaeda, o mulá Ayman al-Zawahiri, inimigo com o qual precisam negociar da, entre a mesma delegação talibã e retirada completa das forças estrangei-
prometeu fidelidade ao líder do Talibã, para ter uma saída honrosa é, obvia- uma delegação afegã composta pelos ras [...] e a assinatura de um acordo de
“comandante dos crentes”, o mulá mente, o Talibã. Para a Rússia, as repú- principais oponentes do presidente paz [...] de acordo com os princípios do
Haibatullah Akhundzada. No triunvi- blicas da Ásia Central, a China e até o Ghani: o irmão e os ex-companheiros islã [...], todas as etnias afegãs tendo seu
rato que acompanha este último, en- Irã, o inimigo mortal é o Estado Islâ- do comandante Ahmad Shah Massoud. papel a desempenhar”. O texto tam-
contramos Seraj Haqqani. A rede Haq- mico, a ponto de haver uma guerra de A eles se somaram o líder do partido xii- bém afirma que “os direitos sociais,
qani opera com redes exógenas da números. Zamir Kabulov, enviado es- ta Hezb-e-Wadat (Partido da Unidade econômicos, políticos e educacionais
Al-Qaeda, seja diretamente, seja por pecial de Putin a Cabul, fala em 20 mil Islâmica), Muhammad Mohaqiq, e qua- serão garantidos às mulheres, de acor-
meio do Tehrik-e-Taliban Pakistan a 30 mil militantes do Estado Islâmico tro pashtuns “históricos”: um veterano do com os princípios do islã”.11 Note-se
(TTP, Movimento Talibã do Paquis- no Afeganistão, enquanto um relatório do partido monarquista Maaz; o filho que as duas mulheres da delegação, Fa-
tão), cujos militantes se recolheram de especialistas do Conselho de Segu- de Sibghatullah Mojaddedi, chefe de Es- wzia Koofi, vice-presidente da Assem-
no Afeganistão desde que o Exército rança da ONU estimava, em outubro tado interino em 1992; o ex-embaixador bleia Nacional Afegã, e Hawa Noorista-
paquistanês os expulsou do Waziris- de 2016, que eles teriam passado de taleb no Paquistão; e Mohammad Hanif ni, membro do Alto Conselho para a
tão, no noroeste do país. As rupturas 3.500 para 1.600,9 uma queda prova- Atmar, candidato à eleição presidencial Paz, dirigem-se livremente à delegação
são, portanto, difíceis de concretizar. velmente relacionada à reestruturação contra o atual presidente Ghani, de talibã e que o chefe da delegação de
Além disso, o próprio secretário de Es- do movimento talibã em torno do no- quem foi conselheiro de segurança até Doha, Mohammad Abbas Stanikzai,
tado dos Estados Unidos, Mike Pom- vo chefe, Akhundzada. A situação mu- agosto de 2018. Tudo liderado pelo ex- assegura: “Não queremos o monopólio
peo, chamou os talibãs de “terroris- dou desde então, mas não é tanto o nú- -presidente Hamid Karzai. do poder e não temos nenhuma inten-
tas”. E no fim das contas, argumentam mero de militantes que importa, e sim A humilhação do governo foi ainda ção de tomar a totalidade do Afeganis-
alguns militantes de base, a Al-Qaeda a mobilidade das pequenas células. maior, porque, dessa vez, o Alto Con- tão pela força militar – esse domínio
não atenta contra a segurança dos Es- Do ponto de vista de Putin, o Talibã selho para a Paz não foi convidado. O não traria a paz”.12
tados Unidos há dezessete anos. tem um programa nacional de recon- presidente falou em “traição” e lem-
Esse último argumento pode fazer quista, enquanto o Estado Islâmico tem brou a todos os seus interlocutores que FRATURA SECULAR
você sorrir ou cerrar os dentes. Mas os um programa de terrorismo globaliza- nada pode ter êxito sem a participação Ao jogar a carta do Talibã, Putin
negociadores do Talibã estão preocupa- do que poderia desestabilizar os países do governo legítimo. Tudo se passou quer, na verdade, a mesma coisa que
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dos em não se chocar contra sua base, em seu próprio quintal – na Ásia Cen- como se Putin antecipasse a retirada quiseram, antes dele, os britânicos e,
enquanto a ofensiva da primavera já co- tral, na Chechênia – e na China. Daí a dos Estados Unidos, a fragilização do mais tarde, os paquistaneses: estimu-
meçou, mais cedo que o habitual – bem aproximação operada desde 2016, con- Exército afegão, os avanços territoriais lar o estabelecimento de um regime
no meio das reuniões de Doha. Os ata- forme explica Kabulov: “O Talibã se tor- do Talibã e o abatimento e talvez co- subserviente, controlar o Afeganistão e
ques de duas grandes bases militares nou uma força política incontornável, lapso do atual regime. fazer dele um Estado tampão para se

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há mais de vinte anos – não conse- entender que há ali uma ferida secular,
guem sair do papel por causa da inse- nunca fechada, na qual proliferam as
DE GOLPES DE ESTADO A INTERVENÇÕES ESTRANGEIRAS gurança crônica. Isso ajuda a entender bactérias do terrorismo internacio-
a preocupação dos países envolvidos nal.14 É urgente que o Afeganistão e o
17 de julho de 1973. Golpe de Estado 9 de setembro de 2001. O comandante no processo de paz de Moscou. Todos, Paquistão, vítimas da mesma herança
do general Mohammad Daud Khan, que da Aliança do Norte, Ahmad Shah Mas- salvo o Turcomenistão, pertencem à envenenada da história colonial, sen-
põe fim à monarquia e estabelece a soud, em luta contra o Talibã, é morto por Organização de Cooperação de Xangai tem-se à mesma mesa para conversar,
República. dois membros da Al-Qaeda. Após os
(OCX), o Irã com status de observador. colocando as populações transfrontei-
27 de abril de 1978. Golpe de Estado ataques do 11 de Setembro, Estados
É verdade que ainda há uma com- riças no processo de resolução.
de Nur Mohammad Taraki e seu Partido Unidos lançam uma ofensiva contra o
Democrático Popular do Afeganistão Talibã (Operação Liberdade Duradoura). petição dentro da OCX entre a China,
(PDPA), que estabelece a República Dezembro de 2001. Um acordo é que tem imensos recursos para inves- *Georges Lefeuvre é antropólogo, ex-conse-
Democrática do Afeganistão. assinado em Bonn (5 dez.). Hamid tir, e a Rússia, que é mais pobre, mas lheiro da União Europeia no Paquistão e pes-
14 de setembro de 1979. O primeiro- Karzai, ex-colaborador da CIA, torna-se mantém forte influência nas repúbli- quisador associado do Institut de Relations In-
-ministro Hafizullah Amin assassina o presidente interino. Instala-se uma Força cas da ex-União Soviética. Isso sem fa- ternationales et Stratégiques (Iris), França.
presidente Taraki e toma seu lugar. Tem Internacional de Segurança e Assistência lar da Índia e do Paquistão, membros
início uma guerra de dez anos entre as (Isaf), comandada pela Organização do desde junho de 2017, que entraram em
tropas soviéticas e os mujahidin, apoia- Tratado do Atlântico Norte (Otan). confronto militar em fevereiro passa- 1 Os principais países da coalizão, além dos Esta-
dos pelos Estados Unidos. 4 de janeiro de 2004. Adoção da nova do. Ainda assim, esses países repre- dos Unidos, são (ordenados de acordo com o nú-
24-25 de dezembro de 1979. Interven- Constituição do Afeganistão, que estabe- mero de militares envolvidos): Alemanha (1.300),
sentam 45% da população mundial –
ção do Exército soviético, que ocupa o lece uma República islâmica encabeçada Reino Unido (1.100), Itália (895), Geórgia (870),
apenas 22% do PIB, porém mais de Romênia (733), Turquia (593), República Tcheca
país. Amin é substituído por Babrak por Karzai, eleito presidente.
Karmal. 22 de junho de 2011. Tem início a 30% das reservas mundiais de hidro- (357), Polônia (303), Austrália (300), Mongólia
carbonetos conhecidas, havendo en- (233). Fonte: “Resolute Support Mission (RSM):
30 de setembro de 1987. Mohammad retirada das tropas francesas da Otan, Key facts and figures [Operação Apoio Resoluto:
Najibullah (PDPA) é eleito presidente da concluída no final de 2014. tre eles quatro potências nucleares. principais fatos e números], Otan. Disponível em:
República. 5 de abril de 2014. O ex-economista do Essa força de atração aumenta ainda <www.nato.int>.
14 de abril de 1988. Acordo, em Gene- Banco Mundial Ashraf Ghani é eleito mais a impressão de que o Ocidente 2 “Quarterly report for the US Congress” [Relatório
trimestral para o Congresso dos Estados Unidos],
bra, entre Mikhail Gorbachev e o governo presidente. Os combates e os ataques perdeu a mão, tanto os Estados Uni- Special Inspector General for Afghanistan Recons-
afegão para a retirada das tropas soviéti- continuam. dos, sob a imprevisível presidência de truction (Sigar), Arlington (Estados Unidos), 30
cas, o que se efetivou em 15 de fevereiro Fevereiro de 2016. Um processo de paz Trump, como o Reino Unido, atolado jan. 2019. Disponível em: <www.sigar.mil>.
de 1989. Tem início a guerra civil entre as multipartite é aberto em Moscou. 3 Bill Roggio e Alexandra Gutowski, “Mapping Tali-
no Brexit, e até a Europa, com proble- ban control in Afghanistan” [Mapeamento do con-
tropas governamentais e os mujahidin. 13 de abril de 2017. A maior bomba não
mas cuja voz política não convence. trole talibã no Afeganistão], Long War Journal.
Abril de 1992. Queda do regime. Come- nuclear já utilizada é lançada pelos Disponível em: <www.longwarjournal.org>.
Se vai haver uma retirada das for-
ça a guerra civil entre facções mujahidin. Estados Unidos sobre posições do 4 Combined Forces Air Component Commander
26-27 de setembro de 1996. Talibã Estado Islâmico no leste do Afeganistão. ças dos Estados Unidos, ninguém sabe 2013-2018 [Comandante do Componente Aéreo
funda o Emirado Islâmico do Afeganistão, Fevereiro de 2018. Tem início o diálogo ainda qual será sua escala, seu método das Forças Combinadas 2013-2018], US Air For-
e sua cronologia. As expectativas se ce Central Command, Washington, DC, 31 dez.
uma ditadura baseada na estrita aplica- entre os Estados Unidos e o Talibã em 2018. Disponível em: <www.afcent.af.mil>.
ção da xaria. Doha. concentram em que uma ação brutal e 5 Neta C. Crawford, “Human cost of the Post-9/11
mal calculada por parte de Trump não Wars: Lethality and the need for transparency” [Cus-
precipite o Afeganistão em mais caos, to humano das guerras pós-11 de Setembro: letalida-
de e necessidade de transparência], Watson Institu-
proteger contra insurreições e contra o impérios mais poderosos do que ele, favorecendo o retorno fácil do Talibã. te, Providence (Estados Unidos), nov. 2018.
terror. Nesse caso, é preciso conter e de- sejam os impérios medievais, os impé- A imprensa indiana já está preocupa- 6 Cf. Thomas Gibbons-Neff e Julian E. Barnes, “Un-
pois eliminar o Estado Islâmico, que rios coloniais russo e britânico ou os da com o risco de perder todas as suas der peace plan, US military would exit Afghanistan
within five years” [Sob plano de paz, militares dos
para a Rússia constitui uma grande dois blocos que se confrontaram após conquistas; o Paquistão está bastante Estados Unidos sairão do Afeganistão dentro de
ameaça, tanto em casa quanto em sua a invasão soviética de 1979, sejam hoje confortável com o processo de Doha, cinco anos], The New York Times, 28 fev. 2019.
zona de influência. Ao convidar o Tali- as grandes potências econômicas, an- sem, no entanto, desprezar o de Mos- 7 “Is there hope for peace in Afghanistan?” [Existe
esperança de paz no Afeganistão?], Al Jazeera, 18
bã para reunir-se com uma delegação tigas e emergentes. cou, muito mais avançado, mas que jan. 2019. Disponível em: <www.aljazeera.com>.
da oposição afegã cuja maioria dos O Afeganistão tem recursos mine- faz a aposta perigosa, digna de um jo- 8 “Remarks by spokesman of Islamic Emirate regar-
membros são veteranos da Aliança do rais consideráveis, incluindo cobre, go de pôquer, de contornar o regime ding conclusion of latest round of talks” [Comentá-
rios do porta-voz do Emirado Islâmico sobre a con-
Norte, a qual tomou o poder no final de cobalto, ouro e o precioso lítio. Segun- de Ghani. O Irã quer o fracasso político clusão da última rodada de conversações], Voice
2001, o presidente russo quer que eles do uma estimativa de 2011 do Instituto dos Estados Unidos, mas não à custa of Jihad, 12 mar. 2019. Disponível em: <www.ale-
evitem repetir os erros de 1996, quando de Estudos Geológicos dos Estados de mais instabilidade na porta de casa. marah-english.org>.
9 “Letter dated 4 October 2016 from the Chair of the
colocaram à margem todas as popula- Unidos, acredita-se que a província de A China tem interesses no Afeganis- Security Council Committee established pursuant
ções não pashtuns do norte e se isola- Helmand, no sul do país, contenha tão, na Ásia Central e no Paquistão, to resolution 1988 (2011) addressed to the Presi-
ram no cenário internacional. O ex-ho- mais de 1 milhão de toneladas de ter- país do qual continuará sendo um dent of the Security Council” [Carta de 4 de outu-
bro de 2016 do Presidente do Comitê do Conse-
mem forte da Aliança do Norte, Atta ras-raras. A mina de cobre de Mes Ay- amigo indiscutível em caso de conflito lho de Segurança, instituído nos termos da
Muhammad Nur, não diz outra coisa. É nak, ao sul de Cabul, seria a segunda com a Índia – o Corredor Econômico Resolução de 1988 (2011), dirigida ao Presidente
necessário, declarou ele à Al Jazeera, maior do mundo, e estudos recentes China-Paquistão está em construção. do Conselho de Segurança], Conselho de Segu-
rança da ONU, 5 out. 2016. Disponível em:
“encontrar o caminho para a paz”, for- mostram que as reservas de gás do Os interesses econômicos e estratégi- <http://undocs.org>.
mando inicialmente um governo inte- norte, contíguas aos depósitos do Tur- cos dos países envolvidos nesse novo 10 “Exclusive interview with Russian diplomat Zamir
rino que inclua o Talibã e se encarregue comenistão, são vinte vezes maiores “grande jogo” estão longe de convergir. Kabulov” [Entrevista exclusiva com o diplomata
russo Zamir Kabulov], Anadolu, 31 dez. 2016. Dis-
de organizar eleições transparentes.13 do que afirmam as estimativas soviéti- Isso certamente explica por que, após ponível em: <http://aa.com.tr>.
Um novo “grande jogo” está em cas do período da ocupação (1979- dezessete anos de conflito, as confe- 11 Syed Zabiullah Langari, “Joint declaration issued
curso no Afeganistão. Logo após ser 1989). A isso se somam os depósitos de rências internacionais e regionais ain- after Moscow talks” [Declaração conjunta após
conversações em Moscou], Tolo News, 6 fev.
eleito presidente, Ghani assim discur- petróleo de Herat, no oeste, de Hel- da têm dificuldade para encontrar o 2019. Disponível em: <www.tolonews.com>.
sou na conferência de Londres, em 4 mand, no sul, e de Paktya, no leste. O caminho da paz. 12 Secunder Kermani e Sami Yousafzai, “Taliban ‘not
de dezembro de 2014: “Ou nos torna- conjunto representa uma reserva esti- Como chegamos aqui? Como essa seeking to seize all of Afghanistan’” [Talibã “não
quer conquistar todo o Afeganistão”], BBC News,
mos o centro da integração na Ásia, mada de 5 bilhões de barris – um re- guerra interminável pode permitir o 6 fev. 2019. Disponível em: <www.bbc.com>.
com estradas passando por nós para curso enorme, já que o país consome provável retorno do Talibã, ao qual o 13 “Taliban, Afghan opposition hold Moscow talks
conectar a Ásia Central, a Ásia Meri- apenas 2 milhões por ano. Afeganistão, os Estados Unidos e a without government” [Talibã e oposição afegã vão
a Moscou conversar sem a participação do gover-
dional, a Ocidental e a Oriental, ou nos Isso aguça os apetites. Além do Rússia imploram que aceite uma ne- no], Al Jazeera, 5 fev. 2019. Disponível em: <www.
tornaremos apenas uma rua sem saí- mais, o Afeganistão está no centro das gociação de paz? Basta conhecer a an- aljazeera.com>.
da, e a história nos esquecerá”. Esse é o ambições chinesas das “novas rotas da tropologia política do Talibã e olhar 14 Ler “La frontière afghano-pakistanaise, source de
guerre, clef de la paix” [Fronteira afegã-paquistane-
dilema permanente do país, sempre seda”. Projetos de gasodutos, estradas e para o mapa de seus redutos no cintu- sa: fonte de guerra, chave para a paz], Le Monde
situado no ponto de convergência de ferrovias – alguns deles, como o Tapi, rão pashtun afegão-paquistanês para Diplomatique, out. 2010.

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ABRIL 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 31

O QUE UMA SUBSTÂNCIA NEUTRA REVELA SOBRE A MEDICINA

Paradoxos do efeito placebo


Marginal em muitos países, a homeopatia mantém lugar de destaque no país da Boiron, fabricante líder mundial,
a França. Para entender o sucesso desses medicamentos não baseados em evidências, é necessário destacar os
efeitos de contexto do qual eles sabem tirar proveito
POR RICHARD MONVOISIN E NICOLAS PINSAULT*

ma importante publicação mo lactentes são sensíveis aos estímu- sa fisiologia, reduzindo ou agravando O segundo ingrediente tem a ver

U científica relatou em 2007 a


desventura de um homem de 26
anos que sofreu uma queda de
pressão muito grave e chegou ao pron-
to-socorro suando e tremendo. O pa-
los com placebo, bem como a maioria
dos animais domésticos e do gado.
Por outro lado, o contexto da admi-
nistração de uma substância pode ter
consequências negativas: o efeito no-
os sintomas: dor sentida, condições de
sofrimento, alavancas de controle da
situação. Nisso, e apenas nisso, eles
agem em nosso estado geral.
com o “efeito de expectativa”. O pa-
ciente, tanto mais sugestionável
quanto mais preocupado, tende a
cumprir o objetivo do tratamento e
sente pelo menos alguns dos resulta-
ciente explicou que, depois de uma dis- cebo, do qual foi por um tempo vítima dos que espera ou teme. A informação
cussão com a namorada, engolira 29 o citado jovem que tentava cometer e o quadro em que ela é fornecida fa-
comprimidos de antidepressivos. Es- suicídio. Em 1983, por exemplo, o Bri- Pode-se lamentar, zem parte do processo terapêutico.
sas drogas lhe haviam sido fornecidas tish Stomach Cancer Group [Grupo mas o jaleco branco Ainda assim, seria preciso que todos
como parte de um teste clínico de no- Britânico de Câncer de Estômago] pro- nós fôssemos capazes de responder ao
vas moléculas que deveria durar dois pôs a 411 pacientes um novo trata-
é autoritário: placebo; esse não é o caso. Mas, ao
meses. Depois da injeção de 6 litros de mento quimioterápico, explicando um médico que contrário do que afirmam alguns mi-
solução salina, sua condição permane- que náuseas e queda de cabelo eram finge estar seguro tos teimosos, nenhum perfi l-tipo foi
cia preocupante. Ele então foi informa- prováveis. Mais de 30% deles perde- de si aumenta o destacado, seja com base em critérios
do de que acabara de ter uma “overdo- ram de fato os cabelos e 56% relataram intelectuais, culturais, étnicos ou psi-
se de placebo”, sendo a substância que vômitos... quando o tratamento nem
efeito placebo copatológicos. Em contraste, diferen-
ingerira completamente neutra. Em havia começado! Apenas um placebo ças entre os indivíduos que respon-
menos de quinze minutos, ele recupe- havia sido administrado.2 dem ao placebo e os outros foram
rou todo o ânimo e sua pressão arterial Vários elementos contribuem para observadas em muitos genes em parte
voltou ao normal...1 MELHORA OU PIORA DOS SINTOMAS esse resultado. O primeiro é o condi- responsáveis pela produção de subs-
Se todos os efeitos contextuais (ler o Na busca de uma explicação para o cionamento clássico: uma vez experi- tâncias bastante ativas em termos fi-
glossário) não são assim tão espetacu- fenômeno, o primeiro reflexo seria re- mentada a associação entre um estí- siológicos: dopamina, serotonina, en-
lares, eles acompanham muitos resta- correr a um lugar-comum da contra- mulo, como a absorção de uma cápsula docanabinoides ou opioides.
belecimentos. Por exemplo, um quarto cultura New Age: a mente pode curar o analgésica, e a redução da dor, por Com frequência, atribuem-se ao
dos pacientes com disfunção erétil re- corpo, e talvez possa tudo; para curar, exemplo, pode-se solicitar novamente placebo virtudes que ele não possui.
lata uma melhora acentuada em seus basta querer. Para aqueles que têm a essa associação no paciente, mesmo Pois os cientistas há muito tempo clas-
sintomas quando ingere uma substân- infelicidade de estar doentes e não se com uma cápsula de placebo. A neu- sificaram sob esse termo vários fenô-
cia neutra, pensando se tratar de Via- curar, essa injunção geradora de culpa roimagiologia permite verificar: a in- menos relacionados sobretudo a des-
gra. Em alguns casos de osteoartrite do dava a entender, erroneamente, que a gestão de um placebo mobiliza as vios metodológicos comuns: efeitos
joelho, a cirurgia convencional ou a ci- doença denotaria falta de vontade. mesmas áreas cerebrais que a admi- puramente estatísticos ou efeitos de
rurgia placebo levam à mesma redu- Nós, portanto, nos tranquilizaremos nistração de morfina e estimula a pro- antecipação – quando os pacientes de-
ção da dor. A qualidade de vida de pa- pela metade: não, não se cura por “efei- dução de endorfinas, esses hormônios sejam, por exemplo, agradar a seu te-
cientes que sofrem de mal de Parkinson to placebo”. Os efeitos contextuais não humanos secretados pelo hipotálamo rapeuta... Além disso, o recurso ao cui-
foi melhorada por um transplante de formam um fluido mágico. Em contra- e tão eficazes contra a dor quanto os dado no auge de uma manifestação
cérebro de células fetais... fictício. Mes- partida, eles modificam bastante nos- opioides sintéticos. patológica é seguido por um bem-es-

CHLOË GRACE MORETZ


“primoroso”
- The Guardian -

GRANDE PRÊMIO DO JÚRI

film festival

18/04
NOS CINEMAS
UM FILME DE DESIREE AKHAVAN
JOHN GALLAGHER JR. SASHA LANE
FORREST GOODLUCK JENNIFER EHLE

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32 Le Monde Diplomatique Brasil ABRIL 2019

textuais negativos: extração do meio Se considerarmos as consequên-


familiar, interações e atenção reduzi- cias de uma ação como base do julga-
das à porção mais simples, dificuldade mento moral, prescrever um placebo
de marcar consultas, a lendária atitu- torna-se justo tanto para o paciente
de de desprezo por parte dos grandes quanto... para o médico. Quase meta-
professores, sem mencionar a falta de de dos médicos norte-americanos de
escolha concedida ao paciente. Final- reumatologia e medicina interna afir-
mente, os laços de interesse entre in- mava em 2008 que rotineiramente
dustriais e agências públicas e vários prescrevia tratamentos com placebo,
escândalos de saúde erodiram a con- sem avisar, e 62% deles consideravam
fiança no discurso científico. Portanto, a prática eticamente aceitável.7 Isso
não é surpreendente que a medicina demonstra uma total falta de consen-
hospitalar seja um formidável motor timento esclarecido do paciente. Mas
de efeito nocebo. o que fazer para maximizar os efeitos
contextuais sem mentir (demais)? Al-
DILEMAS ÉTICOS guns propõem, para minimizar o no-
Captando atos lucrativos e patolo- cebo, solicitar o consentimento escla-
gias descomplicadas, agências de recido dos pacientes para que se esteja
saúde privadas podem por sua vez fa- autorizado a... não falar a eles sobre os
zer luzir os cuidados aureolados de efeitos colaterais esperados. Exceto
folclore espiritualista e atrair o clien- que tal pedido pode preocupar demais
te regular graças a uma reputação de pessoas ansiosas e perturbar a relação
apoio “natural e com baixas taxas de de confiança estabelecida com elas.
complicações” (já que os casos graves Sem mencionar o fato de que, na era da
são encaminhados para o setor pú- internet, abundam fontes divergentes,
blico). O placebo revela as aberturas apesar de seus principais vieses de
contextuais da medicina científica, amostragem (o que é chamado por ve-
certamente bem equilibrada e basea- zes de “efeito doctissimo”).
da em evidências, mas absolutamen- Uma solução poderia satisfazer ao
te desinteressante e tão atraente mesmo tempo pacientes que aderem à
quanto um supositório verde admi- medicina baseada em evidências e
nistrado à força. aqueles que dão crédito às medicinas
© Rapha Baggas

Além dessas questões políticas, o alternativas. Ela se situa em três dife-


efeito placebo levanta várias questões rentes níveis. Em primeiro lugar, seria
éticas. Primeiro, é ético testar qual- necessário introduzir desde a escola
quer terapia com placebo? A privação primária, ou no colégio, os conceitos
de cuidados para metade dos pacien- de base das doenças que se resolvem
tar que não se deve ao cuidado em si, cesso de compromisso com o sucesso. tes que sofrem com patologias graves espontaneamente, dos efeitos contex-
mas ao retorno a um estado anterior, Acrescentam-se, nas demandas desse viola a ética mais elementar.4 No en- tuais, de regressões às médias etc. Es-
médio: é a “regressão à média”. tipo de atendimento, a super-repre- tanto, de acordo com a associação Pu- sa seria a oportunidade de fazer os fu-
Os efeitos contextuais autênticos sentação das sintomatologias difusas, blic Eye, aproximadamente 40% dos turos adultos pensarem na injunção
que amplificam a resposta fisiológica para as quais é muito fácil se sentir testes de medicamentos são realiza- moderna para encontrar soluções te-
começam a se tornar bem conhecidos: melhor, ou grupos compostos princi- dos nos países do Sul global, o que leva rapêuticas personalizadas – mesmo
elementos de escassez, de oferta limi- palmente de pacientes com doenças a sérias violações éticas, como a falta que fossem parcialmente fictícias –
tada, de preço alto, impacto de marke- que se resolvem espontaneamente. de consentimento livre e esclarecido para uma gama de afecções que, em
ting... Uma pílula vermelha excita Assim, a regressão à média manterá dos pacientes, e a impossibilidade pa- sua essência, vêm de sofrimentos so-
mais que uma pílula azul; uma injeção uma ilusão de eficácia que conseguirá ra eles de se beneficiarem do melhor ciais ou regridem com o tempo.
intradérmica produz mais efeito que a seduzir todos os públicos, aí incluídos tratamento testado.5 Os casos são nu- A segunda sugestão diz respeito
aplicação de um creme; um nome lati- aqueles conscientes de seus mecanis- merosos: Trovan na Nigéria, Ivermec- aos profissionais de saúde, que pode-
nizado goza de uma aura científica mos. O feitiço funciona perfeitamente. tine ou Tenofovir em Camarões... riam se dirigir aos pacientes da se-
maior. Pode-se lamentar, mas o jaleco A popularidade das terapias não con- Os textos que regem a prática tera- guinte maneira: “O tratamento que es-
branco é autoritário: um médico que vencionais é semelhante àquela da pêutica são formais: apenas os cuida- tou prestes a ministrar em você
finge estar seguro de si aumenta o efei- junk food: é tentador ceder a ela, posto dos correspondentes à melhor avalia- apresenta riscos de efeitos colaterais,
to placebo.3 que nosso cérebro recebe sua descarga ção devem ser propostos. Portanto, a tanto benéficos quanto negativos. Pes-
Primeira consequência notável: os de satisfação rápida. Estamos aqui na prescrição ou o uso de um placebo quisas mostram que, se eu lhe disser
efeitos contextuais funcionam muito definição medieval de placebo: a da equivaleriam a uma prática charlatã. quais são esses efeitos, aumentarei as
bem para os chamados medicamentos sedução. Mas vamos dar uma olhada mais de chances de que você os experimente. É
alternativos ou não convencionais. Es- Por outro lado, embora o efeito pla- perto: mesmo sem usar placebos, os te- por isso que eu gostaria de lhe pedir
sas práticas, cuja eficácia específica cebo acompanhe todos os atos tera- rapeutas são placebos. Eles podem permissão para mencionar apenas as
raramente é demonstrada, assumem pêuticos, a fortiori, quando eles são produzir efeitos positivos por meio da supostas consequências benéficas, a
todos os esplendores aparentes que considerados eficazes, a medicina confiança, dos encorajamentos e das fim de estimular em você várias secre-
maximizam a estimulação simbólica. científica pouco se beneficia disso. Por boas maneiras. Além disso, pelo efeito ções de neurotransmissores. Também
Os terapeutas se ocupam em trocar, exemplo, se é fácil conceber um place- não específico que produz – sobre o so- encorajo você a não se tornar ciente da
personalizar sua abordagem e apre- bo para certas terapias (grânulos ho- frimento, por exemplo –, o placebo é, representação excessiva de certos ca-
sentam seus métodos, até mesmo seus meopáticos, agulhas de acupuntura em última instância, um remédio real. sos na internet. Vou lhe contar tudo no
diplomas, com ostentação. Eles sabem retráteis), para outros isso é, na práti- Usá-lo quando não há outra solução final do tratamento”. Alguns sugerem
recorrer aos léxicos oníricos ou elogiar ca, inconcebível: como criar a ilusão disponível não contraria os princípios um consentimento delegado para o
seus clientes por terem deixado os cui- de um alongamento, de uma massa- éticos, especialmente se isso seja infor- engano: seria permitido ao paciente
dados convencionais para tomar as es- gem ou de uma talassoterapia? Além mado ao paciente. Porque, contra to- designar alguém que servisse de desti-
tradas vicinais do esoterismo. Final- disso, mesmo que os cuidados tenham das as expectativas, saber que toma- natário de todas as informações em
mente, o custo não coberto pela uma eficácia específica demonstrada, mos um placebo não anula seus efeitos, seu lugar e que julgaria por ele o que
previdência social favorece um pro- o ambiente médico gera efeitos con- como estudos recentes mostraram.6 deveria lhe dizer ou não.

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ABRIL 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 33

A terceira proposta diz respeito à quer ser enganado, e esses médicos


organização da saúde. Os profissionais são frequentemente forçados a recei- NÃO CONFUNDIR...
se beneficiariam ao recuperar a parte tá-los ou, melhor dizendo, permitir
do cuidado, da acolhida e da atenção que os pacientes os usem porque que- Efeito específico fígado pelo câncer. Segundo seu
personalizada consubstancial à maxi- rem fazê-lo”. A única virtude do pó de (ou “efeito próprio”) desejo, o paciente passou o Natal em
mização do placebo que eles foram múmia, ele disse, era atrair os peixes Deve ser entendido como o efeito casa, depois voltou ao hospital para,
produzido por um tratamento em na pior das hipóteses, morrer ali algumas
perdendo para os cuidados alternati- em virtude do cheiro... Resta saber se
virtude de seu próprio mecanismo de horas depois. A autópsia revelou que
vos. Basicamente, a estratégia é bas- parte do custo do pó de múmia deve
ação e que não se poderia observar ele não tinha câncer no fígado. O fígado
tante padronizada: orquestrando a es- ser coberta pelo seguro-saúde. sem o dito tratamento. O efeito era afetado apenas por um minúsculo
cassez de recursos, governos sucessivos específico é bastante intuitivo quando nódulo, e o pulmão tinha somente uma
causaram um declínio na qualidade *Richard Monvoisin e Nicolas Pinsault são se trata de uma molécula, mas é mais mancha mínima – nenhum dos quais
dos serviços, o que se pretende preen- codiretores da estrutura federativa de pes- difícil de apreender em intervenções poderia causar a morte. Na verdade,
cher com um custo baixo propondo quisa Pensée Critique [Pensamento Crítico], complexas e que envolvam muitos a área adjacente ao esôfago estava
uma oferta de cuidados alternativos fo- da Universidade de Grenoble-Alpes, França. parâmetros, como a atividade física totalmente ilesa. A cintilografia anormal
ra do sistema de previdência social. As- Respectivamente, especialista em Didática ou o atendimento psicológico. do fígado feita no hospital foi, com toda
sim, os capitais são repatriados, o mu- de Ciências no Laboratório de Pesquisas so- probabilidade, um falso positivo, ou seja,
tualismo e o modelo da previdência bre Aprendizagens em Contexto e no Labo- Placebo e efeito placebo uma anormalidade que não existia.1
O placebo é tradicionalmente descrito Compreende-se por que o doutor Walter
social são fraturados, enquanto proli- ratório de Técnicas de Engenharia Médica e
como uma substância desprovida de B. Cannon chamou esse fenômeno
feram consultórios de “saúde e bem- da Complexidade; e cinesioterapeuta e dire-
qualquer efeito farmacológico. primeiramente de “morte vodu”, causada
-estar” privados. tor do Departamento de Cinesioterapia. Au- Fabrizio Benedetti introduziu uma por um feitiço em que se acredita.
Enquanto isso, a empresa francesa tores de La Sécu, les vautours et moi. Les nuance importante ao descrever o
de produtos homeopáticos Boiron enjeux de la protection sociale [A segurida- placebo não apenas como a substância Efeitos contextuais
desfruta de uma aura contestadora, de, os abutres e eu. Questões da proteção ou o processo inerte, mas também Muitos criticam a terminologia
apesar de uma forma industrial capi- social], Éditions du Détour, Paris, 2017. como “sua administração como parte placebo-nocebo, julgada binária.
talista das mais clássicas e de preten- de um conjunto de estímulos sensoriais A mesma substância inerte pode criar,
sões curativas discutíveis, que lhe ren- e sociais que indicam ao paciente que segundo os pacientes, analgesia ou
deram ações judiciais no Canadá e nos 1 Roy Reeves et al., “Nocebo effects with antide- um tratamento benéfico está sendo hiperalgesia, isto é, reduzir ou aumentar
Estados Unidos. Beneficiando-se de
pressant clinical drug trial placebos” [Efeitos noce- administrado”. Assim, em vez de um a sensibilidade à dor. Tal efeito, como a
bo com placebos de drogas antidepressivas clíni- imunossupressão (a supressão das
efeito placebo, é necessário falar de
uma autorização de comercialização cas], General Hospital Psychiatry, v.3, n.29,
efeitos contextuais ao cuidado, que não reações de defesa do organismo),
“leve”, ela vende seus produtos em far- maio-jun. 2007.
2 JWL Fielding et al., “An interim report of a prospec- são específicos do tratamento pode ser desejado por um paciente e
mácias sem ter de provar sua eficácia, tive, randomized, controlled study of adjuvant che- administrado. temido por outro – uma informação de
mas tirando proveito do reembolso de motherapy in operable gastric cancer: British Sto- que o terapeuta pode tomar ciência bem
30% oferecido pela previdência social. mach Cancer Group” [Relatório provisório de um
Efeito nocebo após a administração do placebo.
estudo prospectivo, randomizado, controlado de
O seguro-saúde informa ter oferecido quimioterapia adjuvante em câncer gástrico operá- Descobriu-se a existência de efeitos O uso de um termo como “efeitos
em 2018 reembolso em 120 milhões de vel: British Stomach Cancer Group], World Journal contextuais não específicos negativos contextuais” evitaria certo número de
produtos homeopáticos, num mon- of Surgery, v.7, n.3, Berlim-Heidelberg, maio 1983. ou indesejados, colocados ainda lugares-comuns sobre o assunto, e
3 Richard Gracely et al., “Clinicians’ expectations in- chamar de “medicina enfeitada” a
tante de 56 milhões de euros. Alguns artificialmente em uma categoria não
fluence placebo analgesia” [As expectativas dos
argumentam que um não reembolso médicos influenciam a analgesia com placebo], homogênea: a do efeito nocebo. O medicina que maximiza os efeitos
empurraria os pacientes para medica- The Lancet, v.325, n.8419, Londres, 5 jan. 1985. exemplo de Sam Londe ficou famoso. contextuais tornaria possível contornar
4 E, em particular, “Principes éthiques applicables à Em 1974, esse vendedor de sapatos as ideias consagradas sobre o placebo.
mentos “reais”, cujos efeitos colaterais la recherche médicale impliquant des êtres hu- de Saint Louis, Estados Unidos, foi
seriam mais custosos. mains” [Princípios éticos para a pesquisa médica
diagnosticado com um carcinoma
A questão moral abrange então envolvendo humanos], Declaração de Helsinque
metastático do esôfago, então 1 Bruce Lipton, The Biology of Belief: Un-
da Associação Médica Mundial. Disponível em:
dois novos aspectos: deve-se autorizar <www.wma.net>. considerado incurável. Apesar de uma leashing the Power of Consciousness, Matter
and Miracles [A biologia da crença: liberando o
a livre comunicação das empresas far- 5 Cf. o dossiê “Violations éthiques et essais cliniques” operação, as coisas pioraram e uma poder da consciência, da matéria e dos mila-
macêuticas, em nome da liberdade de [Violações éticas e ensaios clínicos], Public Eye,
cintilografia revelou uma invasão do gres], Hay House, Londres, 2005.
Lausanne. Disponível em: <www.publiceye.ch>.
todos de terem acesso aos benefícios 6 Ted Kaptchuk et al., “Placebos without deception:
que desejam? Esse foi o argumento do a randomized controlled trial in irritable bowel syn-
cirurgião Ambroise Paré, que escreveu drome” [Placebos sem engano: um estudo contro-
lado randomizado sobre a síndrome do intestino 7 Jon Tilburt et al., “Prescribing ‘placebo treatments’: bo”: resultados de pesquisa nacional de internistas
em 1581, em seu livro sobre bezoares e irritável], PLOS One, v.12, n.5, 22 dez. 2010. Dis- results of national survey of US internists and rheu- e reumatologistas norte-americanos], British Medi-
outros pós de múmia: “É que o mundo ponível em: <https://journals.plos.org>. matologists” [Prescrevendo “tratamentos place- cal Journal, n.337, Londres, 23 out. 2008.

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34 Le Monde Diplomatique Brasil ABRIL 2019

SOCIOLOGIA DOS ENCONTROS ON-LINE

Amor e sexo na era digital


É na escola, no trabalho ou entre os amigos que a maioria dos franceses acha sua alma gêmea.
A essa lista agora se somam os sites de encontro. Acusados de enganar o amor com a frieza do cálculo
econômico, esses casamenteiros da web permitem especialmente a procura por parceiros ao abrigo do olhar
de quem é próximo – uma discrição que altera o modo de viver a sexualidade
POR MARIE BERGSTRÖM*

DO CAÇADOR FRANCÊS AO TINDER Match, com um aumento de 36% em


A emergência dessas ferramentas relação ao ano anterior.
suscitou vivas reações. Elas foram Os recém-chegados ao mercado
acusadas de estimular o “zapping rela- retomaram os padrões instituídos pe-
cional”2 e até mesmo de alimentar los pioneiros sem, de fato, renová-los.
uma “fobia do engajamento”.3 Expos- Constatamos, por exemplo, uma
tos a uma grande oferta de parceiros grande semelhança dos aplicativos
possíveis, os usuários seriam levados a móveis: a maior parte exibe uma
adotar uma atitude consumista e grande fotografia dos perfis, que o
constantemente tentados a procurar usuário passa para a esquerda (os que
“melhores”, em vez de construir uma quiser rejeitar) e para a direita (se qui-
relação. Os encontros on-line teriam, ser pedir para entrar em contato). Um
assim, dado origem a um verdadeiro match ou um crush assinalam que o
mercado sexual e afetivo. interesse é recíproco.
Essas críticas não surpreendem os Esse mercado caracteriza-se, en-
historiadores. No final do século XIX, o fim, por uma forte segmentação, com
surgimento das agências e dos anún- um público-alvo formado por nichos
cios matrimoniais suscitou inquieta- como os “seniores”, os “VIPs” (ou seja,
ções idênticas. Os comentaristas da- os ricos), os negros e os judeus. Esse fe-
quela época os acusavam de fazer do nômeno ilustraria, dizem, um desejo
casamento um comércio lucrativo e se de continuar em seu próprio meio e
perguntavam sobre “a legalidade e a um desenvolvimento do “comunita-
moralidade do ‘proxenetismo em vista rismo”. Na realidade, ele corresponde
do casamento’”.4 O periódico mensal sobretudo às estratégias empresariais
Le Chasseur français, destinado ao experimentadas, que consistem em
mundo rural, publicou seu primeiro atacar os atores dominantes por meio
anúncio matrimonial em 1892. Em se- de uma concorrência lateral (ocupan-

O
último que surgiu se chama Da- ços franceses de encontros. Essa mul- guida, ele se tornou um dos principais do segmentos de mercado) e não mais
ting. Lançado pelo Facebook no tiplicação da oferta é prova de seu su- jornais a abrir suas páginas para soltei- frontal (visando ao grande público).
outono de 2018, veio se juntar a cesso. Uma pesquisa realizada em ros(as) em busca da alma gêmea. No Como explica o responsável por um si-
uma longa lista de aplicativos 2013 avaliou que 18% de quem tem de entanto, o descrédito com relação a es- te norte-americano, “trata-se de uma
especializados em colocar em contato 18 a 65 anos de idade já haviam utili- se novo modo de encontro o condenou questão econômica; é preciso obser-
parceiros amorosos e sexuais. A im- zado um desses sites, o que represen- à marginalidade. Ainda em meados da vá-la do ponto de vista dos empreen-
prensa acompanhou seu lançamento tava cerca de um terço das pessoas década de 1980, menos de 1% dos(as) dedores: você tem mais êxito quando
como um seriado, assim como faz ca- solteiras, divorciadas e viúvas.1 Desde franceses(as) tinham conhecido seu você se focaliza”. Consequentemente,
da vez que surge um serviço desse gê- então, esses números sem dúvida au- par via esse canal, e a grande maioria há uma proliferação de serviços às ve-
nero: “Facebook: como vai funcionar mentaram com a popularidade cres- das pessoas se negava totalmente a zes surpreendentes (para os “apaixo-
seu serviço de encontros” (Le Monde, 2 cente dos aplicativos para celulares, usá-lo como recurso para isso.5 nados por informática e pelas novas
maio 2018); “Enfim, o Dating é opera- tablets e notebooks. A mesma pesqui- Hoje, esses serviços representam tecnologias”, para os “ecologistas”, pa-
cional!” (20 minutes, 22 set. 2018). De- sa mostra que, entre as pessoas de 26 a um mercado próspero. Como outros ra simpatizantes de esquerda ou de di-
pois dos sites pioneiros – Match, Mee- 65 anos de idade que encontraram mercados em desenvolvimento, os no- reita...), a maior parte dos quais conde-
tic ou AdopteUnMec –, investem-se um(a) parceiro(a) entre 2005 e 2013, vos atores foram rapidamente compra- nada a desaparecer. Uma minoria,
nos aplicativos móveis e geolocaliza- pouco menos de 9% o(a) tinham co- dos pelos grupos dominantes. Esse é o capitalizando com base em lógicas
dos: Grindr, Tinder, Happn e Bumble. nhecido por meio de um site especia- caso do Meetic e do Tinder, ambos pro- preexistentes (homogamia), acolhe
Lançadas nos Estados Unidos em lizado. Isso coloca esses serviços na priedade da empresa Match, ela pró- um público numeroso: é o caso dos si-
meados da década de 1990, essas pla- quinta posição nas classificações dos pria pertencente a um grande conglo- tes religiosos e daqueles que visam às
taformas foram rapidamente difundi- espaços de encontro, depois dos locais merado de empresas, o Interactive classes superiores.
das em outros países, entre eles a de estudo e trabalho (24%), das noita- Corp (IAC), que concentra um grande O êxito desses serviços marca a en-
França. Os primeiros sites destinados das entre amigos (15%), em lugares portfólio de marcas supostamente trada tonitruante dos atores privados
ao público francês foram o Netclub.fr públicos (13%) e em casa (9%). Sem ter concorrentes. A cotação desse grupo na vida afetiva. Mas o capitalismo vi-
© Daniel Kondo

© Daniel Kondo

(1997) e o Amoureux.com (1998). Ra- se tornado o modo dominante para na Bolsa alcançou, em 2018, uma quan- venciado como onipresente e que, a
pidamente depois deles surgiram ou- formar um casal, o recurso a essas tidade de negócios equivalente a cerca cada dia, estende suas armadilhas de-
tros: um recenseamento realizado em plataformas é, desde então, uma ma- de 800 milhões de euros, 400 milhões sorganiza nossas práticas? Não neces-
2008 enumera pelo menos 1.045 servi- neira usual de estabelecer relações. dos quais simplesmente para a filial sariamente. Enquanto os idealizado-

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ABRIL 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 35

res propõem critérios de escolha às A novidade reside em outra ques- e que as relações têm menos conse- noitadas em estabelecimentos parti-
vezes muito circunscritos, o que pode- tão. A atenção dada aos aspectos mais quências, os parceiros se engajam culares.8 Uma mesma tendência nas
ria reforçar a homogamia, e apesar da surpreendentes dos sites e dos aplica- mais facilmente nelas. Isso acontece classes populares foi bem detalhada9 e
aparente mescla social na internet que tivos – como o grande número de ins- particularmente no caso das mulhe- é observada também entre os jovens
poderia, ao contrário, atenuar essa ten- critos e a padronização dos perfis e das res, cuja sexualidade continua a ser de todas as classes, com a passagem
dência, os casais formados on-line, modalidades de escolhas – leva à apro- mais controlada do que a dos homens. tendencial de uma “cultura da rua” a
mantendo tudo igual fora dessa cone- ximação de uma característica muito uma “cultura do quarto”.10 Longe de
xão, são tão homogâmicos quanto mais significativa: sua insularidade. representar novas “festas eletrônicas”,
aqueles formados em outros lugares. Os encontros on-line se desenvolvem os encontros on-line acentuam esse
Em outras palavras, observamos neles fora e muitas vezes sem o conheci- Os encontros movimento.
a mesma probabilidade de se unirem a mento dos círculos de sociabilidade. on-line se
um parceiro do mesmo status social.6 Eles operam uma ruptura com ela. desenvolvem fora *Marie Bergström é coordenadora de pes-
Portanto, as lógicas clássicas de forma- Tradicionalmente, as relações íntimas quisa do Institut National d’Études Démogra-
e muitas vezes sem
ção dos casais não foram subvertidas. se dão em espaços da vida, como os lo- phiques. Autora da obra Les Nouvelles lois
cais de trabalho, de estudos, de pas- o conhecimento de l’amour. Sexualité, couple et rencontres
seios e de lazer. Com os sites e os apli- dos círculos de au temps du numérique [As novas leis do
cativos, a busca de parceiros torna-se sociabilidade amor. Sexualidade, casal e encontros em
A norma conjugal uma questão privada, que se realiza tempos digitais], La Découverte, Paris, 2019.
continua forte, apesar num cara a cara discreto pelo smart-
do alarme da imprensa, phone, ao abrigo dos olhares ao redor.
Essa dissociação entre as redes de
que deu como manchete: ESCAPAR DO CONTROLE SOCIAL amigos e profissionais de um lado e os
1 “Étude des parcours individuels et conjugaux
(Epic)” [Estudo dos percursos individuais e conju-
“Como os sites de Essa privatização do encontro é parceiros sexuais do outro significa gais (Epic)], Ined-Insee, 2013-2014. Disponível
encontro mataram um fator importante, ainda que rara- também um atrativo para pessoas em: <https://epic.site.ined.fr>.
2 Pascal Lardellier, Le Cœur Net. Célibats et amours
o amor” mente salientado, do sucesso dos sites com mais idade, mas por motivos dife- sur le Web [O coração net. Solteiros e amores na
e dos aplicativos junto aos mais jo- rentes. Com o avanço da idade, as oca- web], Belin, Paris, 2004.
vens, antes de mais nada, para quem siões de encontros diminuem. Não só 3 Cf., por exemplo, Jean-Claude Kaufmann, Sex@
mour [Sex@mor], Armand Colin, Paris, 2010.
esses serviços permitem flertar, testar seus círculos de amizade têm menos 4 Claire-Lise Gaillard, “Agence matrimoniale” [Agên-
Outro sinal de estabilidade: a nor- e encontrar parceiros longe de outros e pessoas solteiras (a maioria já consti- cia matrimonial]. In: Louis Faivre d’Arcier (org.),
ma conjugal continua forte, apesar do dos pais. Ao contrário dos encontros tui um casal), mas também a sociabili- Mariages [Casamentos], Olivetan, Lyon, 2017.
5 Michel Bozon e François Héran, “La découverte du
alarme da imprensa, que deu como que ocorrem em contextos de sociabi- dade se concentra em círculos mais conjoint, II. Les scènes de rencontre dans l’espace
manchete: “Como os sites de encontro lidade, como nas baladas ou em locais estreitos: as saídas para festas dão lu- social” [A descoberta do casal, II. Os cenários de
mataram o amor” (Huffington Post de estudo, os que se dão on-line não gar aos jantares entre amigos. Como encontro no espaço social], Population, v.43, n.1,
Paris, jan.-fev. 1988.
Québec, 13 jan. 2015). Os jovens conti- geram “histórias”. É assim que Alix, es- explica Bruno, soldador de 44 anos, 6 A única exceção diz respeito às uniões constituí-
nuam a ver no casal um ideal de vida, tudante de 21 anos, explica por que “quando se tem uma certa idade, uma das no local de trabalho ou de estudos que, com-
mesmo que suas primeiras uniões se não quer “sair com um cara da facul- vida profissional [...], nem sempre é paradas às que ocorrem pelos sites, têm mais
chances de reunir dois parceiros que têm ocupa-
deem quando estão com mais idade dade: não tenho vontade de revê-lo to- simples encontrar alguém ao observar ções ou graus de escolaridade semelhantes.
do que no passado. E, se as separações dos os dias se o encontro for ruim. É cada um de seus amigos”. É assim que 7 Wilfried Rault e Arnaud Régnier-Loilier, “La premiè-
se tornaram mais habituais, o mesmo por isso que realmente prefiro que seja os sites favorecem, sobretudo, a for- re vie en couple. Évolutions récentes” [A primeira
vida em casal. Evoluções recentes], Population &
acontece com as formações de casais. longe de tudo”, diz. mação de casais: as relações amorosas Sociétés, n.521, Paris, abr. 2015.
O amor não morreu: foram os percur- As implicações são importantes, que se dão por meio deles são na maior 8 Michel Bozon e Wilfried Rault, “De la sexualité au
sos afetivos que se tornaram mais des- principalmente na área da sexualida- parte das vezes segundas uniões. couple. L’espace des rencontres amoureuses pen-
dant la jeunesse” [Da sexualidade ao casal. O es-
contínuos. O fato de, com 25 anos de de. As relações assim desenvolvidas Embora recente, esse modo de en- paço de encontros amorosos durante a juventude],
idade, ter tido duas relações amorosas tornam-se mais rapidamente sexuais contro se inscreve em uma longa evo- Population, v.67, n.3, 2012.
ou mais agora é comum: 36% das mu- do que as que começam em outros lução. Desde a segunda metade do sé- 9 Olivier Schwartz, Le Monde privé des ouvriers.
Hommes et femmes du Nord [O mundo privado
lheres e 29% dos homens nascidos en- contextos, e muitas vezes têm curta culo XX, constata-se uma migração dos operários. Homens e mulheres do Norte],
tre 1978 e 1982 estão nessa situação, duração. A discrição facilita, de fato, o das práticas de sociabilidade dos luga- Presses Universitaires de France, Paris, 1990.
enquanto essa era uma experiência acesso à sexualidade, sobretudo quan- res públicos para espaços privados e 10 Sonia Livingstone, Young People and New Media.
Childhood and the Changing Media Environment
muito minoritária na geração dos anos do se trata da não conjugal. Uma vez círculos mais estreitos. Os bailes de [Jovens e a nova mídia. Infância e o ambiente com
1950 (6% e 9%).7 que o controle social externo é menor outrora, por exemplo, deram lugar a a nova mídia], Sage, Londres, 2002.

"Uma divertida comédia


sobre a feminilidade em
diferentes estágios e fases".
Hollywood Reporter

04/04
um filme de
SophieFillières
nos cinemas

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36 Le Monde Diplomatique Brasil ABRIL 2019

UMA ENTREVISTA COM MIA COUTO

A guerra na vida dos sobreviventes,


dissidentes e residentes
“Tudo se modifica quando estamos a viver uma guerra. Há um processo de desumanização que atinge o outro, mas também
nos atinge. Para autorizar a violência, eu tenho que desumanizar o outro. Mas esse processo é uma faca de dois gumes: eu
também me desumanizo para me legitimar como autor de violência.” Confira entrevista com o escritor moçambicano Mia Couto
POR BEATRIZ BRANDÃO*

bus carbonizados, como Tuahir e Mui- dar nome. E, em geral, os moçambica- distanciamento. A guerra nunca foi so-
dinga em Terra sonâmbula,1 mas seu nos não gostam de falar desse período mente militar e política, era também
farol de referência continua a ser inal- da guerra. A história de Moçambique é um conflito de natureza religiosa. As
terado. Que abalos e impactos aconte- uma história das guerras que se soma- pessoas estavam na iminência de se-
cem se sua cultura é a mesma e você ram e se seguiram. Esses conflitos ge- rem empurradas para um vazio abso-
não pode trazê-la ao acontecimento? raram sempre situações mal resolvi- luto, e o tempo que vinha, o tempo
Tudo isso ele nos disse nesta entrevista das, e a percepção comum é que o moderno, era um tempo cego para es-
sobre Moçambique, cultura africana e melhor é não recordar esses momen- sas pessoas, para a sua cultura rural e
marcas da guerra e da paz. tos de tensão. O esquecimento é o re- africana, para a sua religiosidade poli-
médio para essas feridas mal saradas. teísta. Nesse outro futuro, as pessoas
LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL Não é um esquecimento fácil; não é, eram dispensadas, descartáveis. Por
– A guerra ocupa um lugar marcante sobretudo, um esquecimento verda- isso, uma parte dos camponeses não
em sua literatura. O que Moçambique deiro, mas funciona. O refúgio que se lutava apenas contra um regime polí-
tem de particular dentro do cenário procura em outro lugar, em outra vida tico, mas contra uma coisa que nem
da guerra? O que aprender com o pós- ou existência, seja o que for, não é uma eles sabiam definir, contra a moderni-
-guerra moçambicano? coisa de agora. Mesmo que uma pes- dade como uma ameaça total. Era
MIA COUTO – Nós próprios, moçam- soa não migre, não saia de seu sítio, ela uma causa desesperada, e só assim se
bicanos, temos um aprendizado muito é um refugiado no sentido de que ela explica a sua violência profunda. No
fluido e nebuloso quase, porque não sai de si mesma à procura de um lugar início eu pensava que não iria escrever
© Daniel Kondo

percebemos o que foi essa guerra. Não utópico, num ilusório paraíso distan- sobre a guerra enquanto houvesse
percebemos, portanto, o que é paz e te. Eu também sou um refugiado, pois guerra; eu já vivia no limiar. A gente se
como ela foi conquistada, pois não foi já vivi num lugar absoluto que era a in- esvazia é nas coisas pequeninas, e não
conquistada só porque houve diálogo fância e agora estou atravessando os nas grandes frustrações. Chegar em
entre forças políticas e militares. A paz meus oceanos. É claro que o meu dra- casa e não ter comida, ter filhos e não
A guerra mostra nasceu de outra maneira que não po- ma é muito menor do que o de alguém ter como dar o que comer, não haver
que somos resistentes ao que demos identificar, isto é, nasceu de um que está atravessando a geografia do energia elétrica, não haver nada nas
podem pensar os militares. desejo de resgatar aquilo que era uma medo num pequeno barco, com riscos lojas. De repente, ficamos paralisados
Mia Couto cultura, cultura antiga e diversa. Essa reais de vida. Os sofrimentos não po- por um envolvente sentimento de im-
cultura inclui uma grande capacidade dem ser comparados, mas, de alguma potência. Não se sabe mais contra
ia Couto é representativo de de escutar o outro, de resolver por con- maneira, acho que criamos um regime quem vamos criar raiva. Eu não era ca-

M um importante papel ao tra-


tar – para além de seus poe-
mas e seus escritos sobre a
vida – de questões sociais por meio da
literatura e dar notoriedade não só à
senso, de aceitar essa grande comple-
xidade da sociedade moçambicana
com todas as suas etnias. Essa capaci-
dade de aceitação acontece em Mo-
çambique não porque o povo seja par-
de viver que obriga quase todos nós a
essa procura de um refúgio que fica
além do horizonte.

Quando a reinvenção de si fica mais


paz de dormir, era visitado pelos ami-
gos que morriam, os meus colegas que
foram assassinados na guerra, e tudo
aquilo não me dava sequer um ampa-
ro de uma causa, de uma vingança, de
guerra, mas também à cultura africa- ticularmente diferente dos outros, evidente na guerra? uma bandeira de luta. Então, a certa
na de Moçambique. Une sua obra – mas porque há uma religiosidade que Tudo se modifica quando estamos altura pensei que tinha que converter
mais de trinta livros traduzidos em 24 é feita de vários deuses. Essa religiosi- a viver uma guerra. Há um processo de em livro essa realidade tão cruel. Eu ti-
países – como escritor (também) dos dade africana está viva e é ainda domi- desumanização que atinge o outro, nha que ficcionar aquela violenta irra-
residentes da/na guerra à sua biografia nante, apesar de conviver com as reli- mas também nos atinge. Ninguém fica cionalidade. Foi o que fiz com o ro-
de filho de migrantes. Traz o olhar tan- giões monoteístas modernas. Essa imune, ileso, nesse processo todo. Pa- mance Terra sonâmbula. É um livro
to daqueles que migram de um país outra religiosidade africana aceita que ra autorizar a violência, eu tenho que delirante, porque foi uma maneira de
para o outro em razão dela quanto da- há vários deuses, e isso obriga a uma desumanizar o outro, porque, se eu o juntar essa gente que deambulava no
queles que a vivem, que se movimen- aceitação de verdades múltiplas. A reconheço como humano, eu tenho limite da sua própria humanidade. A
tam em seu transcorrer, que convivem princípio parece estranho uma pessoa um bloqueio na minha violência. O guerra proporcionou a visão do apoca-
com seus mortos, em sua terra. Como ser católica ou muçulmana e ao mes- outro deve ser convertido numa coisa, lipse, mas também a dimensão infini-
é migrar sem deixar o território, como mo tempo ter outra religião. Aqui isso num rato, num monstro. Mas esse pro- ta da resposta humanizante que as
se movimentar em seu plantar? Como não é visto como estranho. A paz que cesso é uma faca de dois gumes: eu pessoas construíam dentro de si e nas
se refazer sem sua terra ressurgir? A vi- conquistamos resultou dessa capaci- também me desumanizo para me le- relações que estabeleciam com os ou-
vência sem o mover dos corpos, do dade de aceitação do outro. Não sabe- gitimar como autor de violência. No tros. Uma aldeia era atacada, mata-
chão, tendo de ser o mesmo, no mes- mos como foi feito, temos medo ainda caso de uma guerra como a que tive- vam gente e queimavam casas e, no
mo lugar, com a vida diferente. Como de revisitar o passado. Não sabemos mos em Moçambique, uma guerra ci- meio daquele caos, havia logo quem
vivem os que não migram na guerra? dar nomes a esses processos, e ficamos vil, o outro era sempre tão próximo tratasse de reconstituir a vida, e, horas
Talvez migrem de suas casas para ôni- com medo daquilo que não podemos que se tornou difícil esse processo de depois, havia um tambor celebrando e

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ABRIL 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 37

pessoas cantando. E assim impunham contrada no modo como as pessoas é um modo de pensar. A poesia não é
a bandeira da vida acima dos escom- recebem os seus nomes. Em princípio, apenas um gênero literário. É um mo-
bros. A guerra revela essas pequenas o nome é o emblema mais forte e mais do de entender o mundo, de deixar
histórias de resistência. E esses episó- definitivo da nossa identidade. Em que esse cosmo se revele dentro de
dios são muito mais importantes que certo sentido, eu sou o meu nome. Ora, nós. Na verdade, temos caminhos
os relatos militares. Porque a guerra em muitas culturas de Moçambique, múltiplos para perceber o mundo, de
mostra que somos resistentes ao que as pessoas têm vários nomes ao longo sermos este mundo. Um dos professo- O olhar da cidadania
podem pensar os militares. da sua vida. As pessoas atravessam res que me marcaram muito (ao longo
etapas que são bem claras desde que da minha vida tive certamente mais
Morte e vida, silêncio e vozes estão pre- nascem, tornam-se adolescentes, ca- que trinta professores, mas só me lem-
sentes em seus contos, romances e poe- sam-se, tornam-se pais e envelhecem. bro de três. O que aconteceu para que
sias. Como descreve a tessitura de não As pessoas recebem nomes diferentes os outros se tivessem apagado?) era
parecerem contrários, mas parte do
mesmo lugar?
para cada uma dessas etapas. Nesse
aspecto, fui eu que atribuí a mim mes-
um ser sem medo de ser original e sa-
bia que a sua missão não era dar “au- Na luta
Acho que aqui tenho uma vanta- mo o nome de Mia, fui eu que assim las”, mas lições. Esse homem levava-
gem que é este lugar onde nasci, onde me chamei quando tinha 3 anos de -nos para o campo e mandava que
eu vivo, este lugar que sou eu. Não
existe neste lugar lugar para a constru-
idade. Posso dizer que eu fui autor de
meu próprio nome. A ideia de que os
desenhássemos as paisagens. E dizia:
“A vossa mão tem outra maneira de pela
ção de dualidades tal como surgem seres se vão desenvolvendo amarra- pensar. A mão é um outro cérebro e,
nas filosofias europeias. Tudo tem ou- -nos a uma ideia de continuidade a ao desenhar, ela se apercebe de coisas
tra fronteira. A diferença entre morte e partir de um núcleo que, no início da que a vossa cabeça nunca irá enten-
vida, entre voz e silêncio, tudo isso é
definido de outra maneira. Pouco me
nossa ontogenia, já integra aquilo que
é a nossa essência. Desenvolver quer
der”. Eu gosto de pensar assim, que
não pensamos só com o cérebro, pen-
construção
importa saber onde está a verdade: se dizer negar aquilo que nos envolve, re- samos com o corpo todo, e cada parte
no meu lado europeu, se no meu lado tirar essas capas das nossas sucessivas do nosso corpo tem a sua maneira de
africano. Interessa-me saber que exis-
tem e coexistem verdades diversas.
aparências e libertar esse núcleo para
que, num certo momento, ele se revele
apreender as coisas e os outros. O co-
nhecimento resulta não de um estatu-
de uma
Um bom exemplo é o contraste entre o por inteiro. Essa é uma ideia equivoca- to, mas de uma conversa. Muito do
modo como aprendi em criança a vi- da, porque muito daquilo que acredi- mundo é feito de caos, e isso nos dá
ver os momentos de silêncio e como
hoje os vivo. Por exemplo, se nesta
tamos ser uma essência é o resultado
de trocas profundas que nos fazem
medo, porque pensamos que o saber
resulta da arrumação dos conceitos; a
sociedade
conversa ficássemos em silêncio, em nascer e morrer infinitas vezes. Algu- sabedoria tem a aparência ordenada
certo momento isso se tornaria cons- mas culturas moçambicanas aceitam de uma biblioteca. Nem tudo se tra-
trangedor, um de nós teria que dizer
qualquer coisa para rasurar esse incô-
mais esse sentido de mutabilidade, co-
mo se a pessoa viajasse dentro dela,
duz em figura, número, letra. Para isso
que nos chega desse modo caótico, o
mais justa,
modo. Mas aqui em Moçambique, como se fosse se descobrindo pessoas melhor caminho é a intuição. Sou
não. As pessoas podem ficar em silên- diferentes, à medida que ela está em muito sensível à beleza não apenas
cio o tempo que for preciso, como se
não houvesse vazio nem ausência. Por
trânsito. Quando eu chego a um lugar
e surjo como um estranho, as pessoas
pela força estética, mas porque exis-
tem verdades que só se podem dizer solidária e
muito que estejamos calados, persiste querem saber em que estágio da mi- por via da beleza. Recordo uma vez
sempre uma presença, há sempre uma nha viagem me encontro. Uma das que era suposto fazer uma palestra em
voz. Não há essa dualidade entre voz e
silêncio. Como se no silêncio alguém
primeiras perguntas é se sou um pai,
ou uma mãe. Se essa condição paterna
São Paulo e eu levava uma comunica-
ção preparada, mas, quando cheguei sustentável.
estivesse falando e a gente simples- ou materna se confirma, eu terei que ao Parque do Ibirapuera, encontrei
mente tivesse apenas que aprender a ser tratado de outra maneira; o víncu- uma árvore que me desarrumou todo.
escutar. No caso da vida e da morte, lo de relação passa a ser diferente. Aquela criatura causou em mim uma
acontece o mesmo; as pessoas nunca impressão tão forte que eu esqueci tu-
morrem aqui. Os mortos estão vivos do o que trazia para dizer. “Essa árvo-
aqui. É claro que em todo lado se pensa re vai dizer tudo o que quero.” Foto-
que os mortos estão presentes, mas “A gente se esvazia grafei aquela monumental criatura e Quartas, às 17h,
aqui eles não só estão presentes, como é nas coisas pequeninas, projetei a imagem em todos os encon- Rádio USP (São Paulo: 93,7 FM
comandam uma parte da nossa vida. A e não nas grandes tros. E acho que consegui transmitir o
Ribeirão Preto: 107,9 FM)
diferença está no poder que eles parti- meu fascínio. Porque aquela árvore
lham para conduzir a vida. Meu pai
frustrações. Chegar em não era uma criatura. Nela moravam
morreu primeiro que minha mãe, e eu casa e não ter comida, o tempo, a nossa relação com a terra, a Quartas, à meia-noite
pensei que aquele luto seria um teste ter filhos e não ter dar nossa relação com o sagrado.
TV Aberta SP, canais 9 da NET, 8 da
profundo para ver o quanto eu assu- o que comer” Vivo Fibra e 186 da Vivo.
mia a verdade de uma impossível au- *Beatriz Brandão é jornalista, escritora,
sência. Estou convicto de que passei doutora em Ciências Sociais e professora de
nesse teste, porque sinto que ele per- Sociologia da UFRJ. Colaborou Maylta dos
manece vivo e criador da minha vida. Em muitas entrevistas, o senhor diz Anjos, doutora em Ciências Sociais e profes-
Dou por mim espantado a olhar para que tem uma forma caótica de escrita sora do IFRJ.
as minhas mãos e a confirmar que e é levado por alguma coisa a escrever.
aquelas são as mãos dele. Diante disso, poderíamos pensar sobre observatorio3setor
a relação da intuição com o escritor?
A identidade do “não ser” e do “vir a Eu tenho uma certa dúvida sobre
ser” é frequente em sua obra. Autobio- as palavras. O que a gente chama de
grafia, biografia de histórias de vida, intuição? Está sempre implícita não observatorio3setor
histórias da terra ou parte identitária apenas uma distinção, mas uma hie- 1 Considerado um dos dez melhores livros africa-
permanente da guerra? rarquia; intuição é menos que raciocí- nos do século XX. Em 1999, o autor recebeu o
Um exemplo dessa visão da identi- nio, pensamento é menos que senti-
prêmio Vergílio Ferreira pelo conjunto de sua obra www. observatorio3setor.org.br
e, em 2007, o prêmio União Latina de Literaturas
dade como coisa fluida pode ser en- mento. É difícil aceitarmos que sentir Românicas.

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38 Le Monde Diplomatique Brasil ABRIL 2019

MISCELÂNEA

livros internet
NOVAS NARRATIVAS DA WEB
Sites e projetos que merecem o seu tempo

FLORESCER POR MARIELLE


O JOVEM HEGEL Mulher, negra, mãe, lésbica, socialista, militante
2013: E OS PROBLEMAS dos direitos humanos, Marielle Franco ganhou
MEMÓRIAS E DA SOCIEDADE um site em sua memória e de seu motorista,
RESISTÊNCIAS CAPITALISTA Anderson Gomes, assassinados no dia 14 de
Camila Jourdan, György Lukács, março de 2018. “Quem mandou matar Marielle
Editora Circuito Boitempo não imaginou que ela se tornaria milhares, mi-
lhões de sementes”, diz o texto que apresenta
o projeto, que traz, além da história, ilustrações,

A taque sonoro é nome de uma coletânea punk


lançada em 1985. Na capa, dois mísseis, um
norte-americano e um soviético, miravam a cidade de
T alvez nunca tenha havido um tempo menos recep-
tivo a O jovem Hegel, do marxista húngaro György
Lukács, que o nosso. E por isso, passados oitenta anos
grafites, tatuagens, fotos, cartazes e homena-
gens variadas. Oferece ainda download de ima-
gens, vídeos e uma pequena biografia de três
São Paulo, mostrando as forças antagônicas agindo de sua conclusão, é ainda tão incômodo e necessá- ex-assessoras de Marielle eleitas deputadas
em conjunto contra o que não seria governado por rio, não só pela clareza e rigor filosófico, mas por ser estaduais do Rio de Janeiro – uma amostra de
elas. Essa é a descrição da coleção Ataque, organi- um exemplar da potência bélica da crítica materialista. que essas sementes já começaram a germinar.
zada por Acácio Augusto e Renato Rezende em con- A obra deflagra guerra ao irracionalismo – partilha- <www.florescerpormarielle.com.br>
junto com a Editora Circuito. É nessa coleção que se do, hoje, solidariamente por reacionários e setores do
insere o livro de Camila Jourdan, 2013: memórias e campo progressista.
resistências. Escrito curto e rápido, que trabalha so- Sob as maiores tensões do século XX, Lukács não LABORATÓRIO DA CIDADE
bre a própria vida da escritora, assim como as can- se estabeleceu à sombra do poder das forças domi- Dezenas de pesquisadores têm se dedicado,
ções de punk rock. nantes de seu tempo nem se postou criticamente nos nos últimos anos, a acompanhar processos de
Camila esteve nos acontecimentos de 2013, por- aposentos do Hotel abismo, destino de parte da inte- urbanização do Brasil por meio de um labora-
tanto não escreve sobre um fato externo, pressupon- lectualidade. Enfrentou o chamado “neo-hegelianismo tório na Faculdade de Arquitetura e Urbanis-
do uma neutralidade da razão. O livro é dividido entre imperialista”, responsável pela miragem de um Hegel mo da USP. Coordenado pelas pesquisadoras
suas memórias, entrevistas e análises, o que coloca romântico-teológico-irracional, combatendo da primei- Raquel Rolnik e Paula Santoro, o site oferece
vida e pensamento em fluxos relacionáveis, esca- ra à última página as “falsidades históricas de tendên- uma vasta coleção de mapas, textos, imagens
pando da arrogância filosófica e científica capaz de cias fascistizantes”. Não fez concessões, como muitos e vídeos produzidos pelo próprio lab. Há ain-
produzir verdades unitárias – uma forma-estado do o acusaram sem provas, à vulgata stalinista, para quem da o Observatório de Remoções, que recebe
pensamento. O livro começa com a polícia invadindo Hegel não passava de um “cachorro morto”. A demo- denúncias e faz um mapa permanente, partici-
a casa de Camila, na época militante da organização cracia liberal, capitalista, pois, só atraiu de Lukács um pativo, dos lugares ameaçados e das famílias
anarquista Terra e Liberdade (OTL) e da Frente In- único interesse, o crítico e revolucionário. removidas, cruzando esses dados com outros,
dependente Popular (FIP), e levando-a para cela da Ao final dos quatro capítulos, o leitor terá acompa- como os projetos de urbanização. Baita conte-
Polinter sem tomar conhecimento da acusação que a nhado o movimento contraditório que compreende a údo não apenas para quem estuda o assunto,
havia colocado lá. Livro de escrita corajosa em meio crescente apreensão por parte do jovem Hegel das mas também para qualquer cidadão interessa-
a esse processo cujas provas são os depoimentos de condições da sociedade burguesa, o que fez dele do no futuro das cidades.
um policial infiltrado na Frente Independente Popular um realista, ao passo que se manteve limitado pelo <www.labcidade.fau.usp.br>
(FIP). As provas vindas desse único relato foram cas- horizonte burguês, fato materializado na tentativa de
sadas recentemente pelo Supremo Tribunal Federal reconciliar-se com essas mesmas condições. Lukács,
(STF), muito embora o processo ainda corra sem es- à maneira de Marx, Engels e Lenin, reconhecendo in SOM DOS SINOS
sas provas validadas. statu nascendi a contradição entre sistema e método Um projeto poético que busca a intersecção
Patti Smith, em entrevista ao jornal La Nación, em Hegel, expõe o cerne real de sua dialética mistifi- entre memória, sons e novas tecnologias. O
disse que, antes de a palavra “punk” existir como a cada e, assim, o ponto de contato entre Marx e Hegel, foco é o toque dos sinos e o ofício de sineiro.
conhecemos, chamavam-na de liberdade. Após os ou este como precursor daquele. É ao mesmo tempo uma cartografia sonora e
primeiros shows no CBGB e a emergência desse es- Quando a filosofia, longe de se popularizar, vulgariza- uma tentativa de engajamento da sociedade
tilo sonoro nos Estados Unidos, as duas palavras pas- -se na forma de best-seller e parte considerável das civil e da valorização dos indivíduos detento-
saram a se mesclar em uma relação explosiva. Para editoras investe o minguado dinheiro nisso, precisamos res dos saberes registrados como patrimônio
a poeta do rock, o punk se transformou e pode ser elogiar a Boitempo pelo projeto Biblioteca Lukács, cultural. Em algumas cidades de Minas Gerais,
muitas coisas; ele é uma vontade de afirmar outras coordenado por José Paulo Netto e Ronaldo Vielmi são tradicionais mais de quarenta toques dife-
formas de vida. Nesse sentido, Camila não escreve Fortes. Graças a eles e ao tradutor Nélio Schneider, rentes de sinos, que identificam ritos litúrgicos,
sobre Junho de 2013, e sim com o acontecimento. podemos pela primeira vez ler O jovem Hegel e os mortes, tipos de missa, partos, incêndios, ho-
É disso que também tratava Junho: a afirmação de problemas da sociedade capitalista em português. rários sacros. O site mapeia e explica cada um
outros mundos e outras vidas, de práticas de liberda- deles, integrando diversos canais de narrativa,
de. É também por esses caminhos que reverbera a inclusive um longa-metragem.
vida pulsante desse livro em meio aos seus breves e <http://somdossinos.com.br>
corajosos acordes.

[Andre Deak] Diretor do Liquid Media Lab,


[Murilo Leite] Doutorando em Direito pela Universi- professor de Jornalismo na ESPM, mestre em
[Wander Wilson] Doutorando em Ciências Sociais dade Federal de Minas Gerais, onde pesquisa a crítica Teoria da Comunicação pela ECA-USP e dou-
(Antropologia) pela PUC-SP. de Marx ao direito. torando em Design na FAU-USP.

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ABRIL 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 39

CANAL DIRETO SUMÁRIO


LE MONDE
BRASIL

Edição 140 diplomatique


O golpe sempre foi dos Estados Unidos, com a Ano 12 – Número 141 – Abril 2019
anuência dos militares, esses corruptos e incom- www.diplomatique.org.br

petentes que nos mantiveram em ditadura por 21 DIRETORIA


anos alegando combater o comunismo. Querem Diretor da edição brasileira e editor-chefe
Silvio Caccia Bava
voltar para quê? Dizendo ter os Estados Unidos co- Diretores
EDITORIAL
mo modelo, nos deixaram cinquenta anos mais 2 Adeus ao desenvolvimento
Anna Luiza Salles Souto, Maria Elizabeth Grimberg e
Rubens Naves
atrasados que eles ao fim de sua dominação. A me- Por Silvio Caccia Bava
ta agora é nossa aniquilação em busca de um green Editor
Luís Brasilino
card que nunca receberão. A TÁTICA DA INFÂMIA
Sérgio Maia Dias
3 O cordão sanitário Editor-web
Por Serge Halimi Cristiano Navarro

Pequeno manual de conduta e CAPA Editores de Arte

resistência ao controle do discurso e da libido 4 O propósito velado da “reforma” da Previdência


Adriana Fernandes e Daniel Kondo

A sensação que tenho é que o fenômeno Damares Por Eduardo Fagnani Estagiária
A desestruturação do mercado de trabalho Taís Ilhéu
é estrategicamente calculado para acontecer. Ela
Por Marilane Oliveira Teixeira
mesma nem sonha o quanto é usada. Todos ficam Revisão
A falácia dos argumentos em defesa da reforma Lara Milani e Maitê Ribeiro
distraídos com as aberrações que saem de sua bo- Por Denise Lobato Gentil
ca e, enquanto isso, editam-se medidas sem cha- Gestão Administrativa e Financeira
Arlete Martins
mar a atenção. UMA NOVA ORDEM GEOPOLÍTICA
Marcia Regina Rodrigues da Fonseca
9 Devemos ter medo da China? Assinaturas
Por Kishore Mahbubani Viviane Alves

A guerra contra os diferentes A ESTRATÉGIA POPULISTA EM QUESTÃO Tradutores desta edição

O país não está dividido, nunca foi diferente disso. 12 A Espanha vota, o Podemos hesita
Carolina M. de Paula, Frank de Oliveira,
Lívia Chede Almendary, Rita Grillo e Wanda Brant
É só verificar a História desde o marco zero. Ódio Por José António García Simon e Jaime Vindel
Conselho Editorial
de classes forjado especialmente no regime escra- Adauto Novaes, Amâncio Friaça, Anna Luiza Salles
GÊNESE DE UM LUGAR-COMUM
vagista, base de nossa formação. 14 “Os extremos se encontram...”
Souto, Ariovaldo Ramos, Betty Mindlin, Claudius
Ceccon, Eduardo Fagnani, Heródoto Barbeiro, Igor
Leandro Pinto Por Constantin Brissaud Fuser, Ivan Giannini, Jacques Pena, Jorge Eduardo S.
Durão, Jorge Romano, José Luis Goldfarb, Ladislau
Dowbor, Maria Elizabeth Grimberg, Nabil Bonduki,
Ney Matogrosso FAKE NEWS OFICIAIS
Ney é um grande artista. Merece respeito também
17 A maior mentira do im do século XX
Raquel Rolnik, Ricardo Musse, Rubens Naves, Sebastião
Salgado, Tania Bacelar de Araújo e Vera da Silva Telles.
Por Serge Halimi e Pierre Rimbert
pela sua aversão à hipocrisia. No entanto, amigo Assessoria Jurídica
de nós todos, a liberdade a que você se refere, afir- O PODER COMO Rubens Naves, Santos Jr. Advogados

mam filósofos, fica restrita como integrante da so- 18 “ESTRUTURA CRIMINOSA MAFIOSA” Escritório Comercial Brasília
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não pode se desvincular dela. Le Monde Diplomatique Brasil é uma publicação
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Somente para meus olhos Por Roberto Efrem Filho São Paulo/SP – 01220-020 – Brasil
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manter o restante do povo sobre seu tacão. assinaturas@diplomatique.org.br
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23 A arqueologia preventiva ameaçada pela guerra de preços
Impressão
Por Judith Chetrit
Eles têm círculos sociais que não se misturam, por Plural Indústria Gráfica Ltda.
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patente, e consideram os civis abaixo dos solda- UM PARQUE NACIONAL DEVASTADO EM Rodrigues, 700 – Santana de Parnaíba/SP – 06543-001
dos. Na cabeça deles são superiores. Subordinação 24 NOME DO DESENVOLVIMENTO
MISTO
ao poder civil? Converse com um militar. Eles que- A rosa seca os lagos da Etiópia
rem mandar pela força; se você não porta arma, é Por Christelle Gérand, enviada especial
inferior na hierarquia deles.
FRACASSO DA POLÍTICA DE ASILO
Bruno N. Grossi 26 A Austrália exporta seus refugiados Distribuição nacional
Por Lena Bjurström, enviada especial DINAP – Distribuidora Nacional de Publicações Ltda.
Um pouco de bom senso, por Dios! Av. Dr. Kenkiti Shimomoto, 1678 – Jd. Belmonte –
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Sem dúvida, o PIB per capita é um conceito mui- 28 Os três dias que mudaram a história afegã
to enganador e em geral não reflete corretamente LE MONDE DIPLOMATIQUE (FRANÇA)
Por Georges Lefeuvre
a distribuição da riqueza, apenas o total produzi- Fundador
Hubert BEUVE-MÉRY
do. A dividir pelo número total de habitantes, é O QUE UMA SUBSTÂNCIA NEUTRA REVELA
um conceito que, ao querer dizer tudo, não diz
31 SOBRE A MEDICINA Presidente, Diretor da Publicação
Serge HALIMI
nada, ou diz muito pouco, deste país, economi- Paradoxos do efeito placebo
Por Richard Monvoisin e Nicolas Pinsault Redator-Chefe
camente falando. Philippe DESCAMPS
Hugo Silva SOCIOLOGIA DOS ENCONTROS ON-LINE
34 Amor e sexo na era digital
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UMA ENTREVISTA COM MIA COUTO
As cartas são publicadas por ordem de recebimento e,
se necessário, resumidas para a publicação.
36 A guerra na vida dos sobreviventes,
secretariat@monde-diplomatique.fr
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dissidentes e residentes
Os artigos assinados refletem o ponto de vista de seus Por Beatriz Brandão Em julho de 2015, o Le Monde diplomatique contava com 37
autores. E não, necessariamente, a opinião da coordenação edições internacionais em 20 línguas: 32 edições impressas e 5
do periódico. eletrônicas.
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38 ISSN: 1981-7525
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