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Negra nobreza:

reis, rainhas
e a aristocracia
no imaginário
negro
REINALDO DA SILVA
SOARES é doutor em
Antropologia Social pela
Universidade de São
Paulo.

H
INTRODUÇÃO

á, no imaginário popular
brasileiro, freqüentes re-
ferências a elementos da
monarquia. As histórias
infantis estão repletas de reis,
rainhas, príncipes e princesas,
convivendo com bruxas malé-
volas e fadas generosas. As
pessoas que se distinguem por
seu talento excepcional, ou as
celebridades, logo recebem “tí-
tulos de nobreza”. Dentre uma
variedade de exemplos podemos
REINALDO DA SILVA SOARES Agradeço as sugestões dos profes-
sores João Baptista Borges Pereira e
Renato da Silva Queiroz. Também
sou grato ao amigo Rubens Silva
pela leitura crítica do trabalho.

citar: Pelé, o rei do futebol, o rei africanas – prisioneiros de guer-


Roberto Carlos, Xuxa, a rainha ra – vendidos como escravos,
dos baixinhos, Luiz Gonzaga, o que tentaram reconstruir na di-
rei do baião…1. áspora suas formações políticas
O objetivo deste artigo é re- e religiosas (Schwarcz, 1999). O
fletir sobre o significado de sím- caso do príncipe Obá II talvez 1 O discurso de uma mulher negra
(cuja filha participava do reality
show Big Brother Brasil) durante
bolos monárquicos e da nobreza seja o mais emblemático: negro entrevista à Rede Globo, no dia
28/2/2004, às 20h, enfatiza
no imaginário das associações liberto, veterano da Guerra do a reatualização dos elementos
da monarquia no imaginário
negras. Paraguai e filho de monarcas popular: “Eu queria que a Cida
fosse uma princesa e ganhasse
O advento do regime escravo- africanos, se auto-intitulava uma coroa, uma carruagem e
até um príncipe”.
crata no Brasil ocasionou a de- rei africano. Seu reino – cons- 2 Para Silva (2003), Dom Obá II
foi um pioneiro do Movimento
portação de membros de elites tituído por africanos, crioulos Negro. Apesar de a elite da
época considerá-lo uma figura
e mestiços, que poderiam ser folclórica, o povo negro seguia
sua liderança e o venerava
como príncipe real, o “príncipe
libertos, escravos ou homens do povo”. Obá II asseverava
que o valor dos homens estava
livres – localizava-se próximo ao no mérito pessoal e não na
cor da pele. Para ele, as raças
Paço Imperial, região conhecida eram essencialmente iguais,
por conseqüência, o combate
como “Pequena África”, que ao racismo era um dos pontos
centrais da sua teoria e prática
política.
abrigava um número significa-
3 Um exemplo representativo de
tivo de africanos (Schwarcz, reinado paralelo é o caso de
Chico Rei. Lendário líder negro
que foi aprisionado na África,
1999; Chalhoub, 1990; Carvalho, no início do século XVIII, na
chegada ao Brasil foi vendido
1987). Obá era recebido, fre- como escravo. Da viagem só
sobreviveram Francisco e seu
qüentemente, por D. Pedro II, a filho, sendo encaminhados
para trabalhar como escravos
quem prestava reverências. Por nas minas de Vila Rica, Minas
Gerais. Francisco uniu-se a seu
filho e conseguiram a liberdade
sua vez, o imperador tratava-o através da compra das cartas
de alforria. Posteriormente con-
como um monarca legítimo2. seguiram libertar os membros
da sua tribo africana, formando
Além de Obá, outros reis afri- uma espécie de colônia. “Fran-
cisco foi aclamado rei daquela
canos desterrados continuaram comunidade; daí ter passado à
história e à lenda com o nome
de Chico Rei. Com sua segunda
a ser tratados como tais, apesar mulher, uma negra com quem
se casou no Brasil, seu filho e
da escravidão. Sendo assim, a a nora, formou uma ‘família
real’ em Vila Rica. A mulher
monarquia oficial convivia com era a rainha, o filho e a nora
príncipe e princesa. Diz a lenda
realezas “paralelas” e reinados que a comunidade de Chico
Rei conseguiu comprar com os
próprios recursos a riquíssima
fictícios constituídos nas festas mina da Encardideira ou o
Palácio do Velho. Com o ouro
populares3. extraído, conseguiu Chico Rei a
libertação de inúmeros negros”
As congadas realizadas por (Moura, 2004, p. 99)
escravos e negros libertos eram manifesta- consolidar a unidade nacional através da
ções populares que simulavam os embates figura do rei como o grande líder nacional,
entre mouros e cristãos. No ritual, o rei nas festas o povo reverenciava um rei mítico,
do Congo representava o soberano dos religioso e atemporal (Schwarcz, 1999).
cristãos, que recebia a embaixada do rei Por tudo o que foi dito até aqui pode-
dos mouros, acontecendo o combate em mos constatar que, apesar da escravidão,
razão da recusa dos mouros à conversão. A houve certa identificação dos negros com
luta termina com a vitória do cristianismo a monarquia, como indica a significativa
(Schwarcz, 1999). quantidade de negros que tatuavam o corpo
O mês de março era marcado pela eleição com a coroa imperial.
do rei e da rainha do Congo, que podiam ser
escravos ou homens livres, e exerciam uma “[…] Havia uma mentalidade de monar-
ascendência ritualística sobre seus súditos; quista, por assim dizer, circulando entre
dessa forma, ao menos no nível simbólico, os negros, que parece ter sido recriação de
conseguiam debochar dos senhores. concepções africanas de lideranças refor-
Atualmente, o congado continua sendo çadas em uma colônia, e depois um país,
uma importante referência na construção governados por cabeças coroadas. É aliás
da identidade negra. Analisando o conga- conhecida a popularidade de D. Pedro II
do em Minas Gerais, Silva (1999) revelou entre os negros cariocas, inclusive por sua
haver em tais manifestações uma estrutura simpatia pelo abolicionismo. A visão do rei
hierárquica complexa. Além das reverên- como fonte de justiça, comum entre a plebe
cias ao rei e rainha congos, há também as rebelde na Europa, existia igualmente nas
homenagens aos reis e rainhas perpétuos e Américas, inclusive entre os escravos […]”
aos reis, rainhas, príncipes e princesas que (Reis, 1996, p. 32).
representam coroas vinculadas aos santos
de devoção (Nossa Senhora do Rosário, Historiadores, antropólogos e cientistas
São Benedito, Santa Efigênia). políticos têm abordado essa temática e ela-
Em face de todas as atrocidades do re- borado algumas hipóteses relativas à adesão
gime escravocrata, as festas e a eleição dos dos negros à monarquia. Segundo Carvalho
reis do Congo proporcionavam aos negros (1987), a monarquia foi derrubada justamente
o sentimento de pertencimento a um grupo. quando gozava de maior prestígio popular em
Reverenciando seus reis e santos peculiares, função da Abolição da escravidão. A repulsa
os negros inventaram uma nação muito es- dos republicanos aos pobres e negros teria se
pecífica que se comunicava com o Brasil da expressado através da perseguição, no Rio
monarquia, de origem européia. Mas esses de Janeiro, aos bicheiros e capoeiras e na
“reinados negros” também poderiam ser destruição do cortiço Cabeça de Porco, em
sinônimos de revolta. Muitas lideranças de 1892, provocando mudanças na paisagem
levantes de escravos se autodenominavam urbana, “empurrando” os pobres e os negros,
reis e rainhas, restaurando, no Brasil, uma especialmente os negros, para os subúrbios
possível autoridade exercida na África. No e morros.
mais conhecido quilombo brasileiro sua Em relação à participação política ins-
maior liderança recebia o tratamento de rei titucionalizada, a maior parte da população
de Palmares. No quilombo do Urubu, em foi excluída do voto. O pré-requisito da
Salvador, além de um rei e uma rainha havia alfabetização privava a maior parte da
também o cargo de vice-rei (Reis, 1996)4. nação do direito de escolher seus gover-
O imaginário monárquico consolidou-se nantes, uma vez que o governo não era
junto às camadas populares, justamente por obrigado a oferecer o ensino primário à
4 Em extensas regiões interiora-
nas da Bahia, notadamente haver uma “comunidade de sentidos” que população.
na área que foi palco do mes-
siânico Antonio Conselheiro, proporcionava a utilização e manipulação A República, que propunha uma maior
o visitante é recebido com as dos símbolos da monarquia pelo povo. En- participação popular no cotidiano, revelou-
expressões “sente-se, meu Rei”
ou “fale, meu Rei”. quanto as elites estavam preocupadas em se um sistema de governo que excluía a

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massa, fazendo com que, paulatinamente, Em São Paulo, depois da Abolição, os
se materializasse a antipatia popular. negros dividiam-se entre os que já nasceram
Na mesma direção, Chalhoub (1990) livres e saudavam a República com entusias-
afirma que a popularidade da monarquia mo, e os recém-libertos, que não confiavam
entre os negros, no início do século XX, era nos fazendeiros e acreditavam que a monar-
resultado da política urbana, que implicava quia havia sido benevolente com os negros,
uma intolerância com a cultura popular ao pois, além de promover a Abolição, a justiça
demolir cortiços e perseguir capoeiras; os imperial teria sido uma alternativa importante
republicanos não alteravam apenas a esté- na defesa dos direitos dos negros. Apesar de
tica da cidade, mas destruíam territórios os mesmos nem sempre terem conseguido
que representavam a luta dos pobres por êxito contra os senhores nas disputas judiciais
espaços alternativos. Essa “cidade negra” (Andrews, 1998).
era um ícone da luta dos negros para fazer Uma manifestação pública da recepti-
soçobrar a instituição da escravidão no Rio vidade da monarquia pela população negra
de Janeiro. paulistana ocorreu com a expulsão dos re-
publicanos das instalações do Clube 13 de
“[…] A formação da cidade negra é o proces- Maio (uma organização negra, localizada na
so de luta dos negros no sentido de instituir a cidade de Jundiaí) pelos associados monar-
política, ou seja, a busca da liberdade – onde quistas, resultando em represálias e brigas
antes havia fundamentalmente a rotina. Ao fora da sede do clube. Mas a demonstração
perseguir capoeiras, demolir cortiços, mo- mais radical de reconhecimento de ex-es-
dificar traçados urbanos – em suma, ao pro- cravos à princesa Isabel foi a Guarda Negra,
curar mudar o sentido do desenvolvimento organização liderada por José do Patrocí-
da cidade –, os republicanos atacavam na nio5, fundada em 28 de setembro de 1888,
verdade a memória histórica da busca da com o intuito de dispersar manifestações
liberdade. Eles não simplesmente demoliam públicas favoráveis à República. A Guarda
casas e removiam entulhos, mas procuravam Negra ficou conhecida por seus métodos
também desmontar cenários, esvaziar sig- violentos, chegando a encetar lutas de rua
nificados penosamente construídos na luta com os republicanos, que reclamavam o fim
da cidade negra contra a escravidão […]” do Império. Sua atuação, além de resultar
(Chalhoub, 1990, p. 186). em um grande número de feridos, chegou
a ocasionar mortes (Moura, 2004).
Em As Barbas do Imperador, Schwarcz Uma personalidade representativa da
(1999) assevera que, durante os primeiros adesão parcial da população negra paulista
anos da República, a monarquia, para os à monarquia foi Arlindo Veiga dos Santos,
negros, ainda representava, ao menos sim- que, em 1931, fundaria a mais representa-
bolicamente, a libertação. A princesa Isabel tiva organização do meio negro: a Frente
e D. Pedro II desfrutavam de significativa Negra Brasileira.
popularidade entre os negros que atribuíam A insatisfação com o espaço perdido
a Abolição ao fato de ter havido uma inter- pela Igreja na República proporcionou a
venção decisiva da monarquia. instauração do patrianovismo, em 1928,
Para Guimarães (2001), os negros apoia- movimento conservador liderado, entre
vam a monarquia porque o imperador era outros, por Veiga dos Santos. Para os pa-
5 José do Patrocínio nasceu no
mais inclinado à emancipação dos cativos trianovistas a nação se degenerara, invadida Rio de Janeiro, em 1853.
do que os próprios fazendeiros. Além disso, por ideais liberais, socialistas e comunistas, Era filho de uma quitandeira
com um padre. Formou-se em
a “política cultural de europeização dos cos- e somente uma proposta antidemocrática farmácia e exerceu a atividade
tumes” era um fator de descontentamento e centralizadora poderia restabelecer a de jornalista, destacando-se por
sua militância abolicionista.
entre os negros. Só com Getúlio Vargas, em ordem: a monarquia corporativista. Nesse Escreveu para a Gazeta da
Tarde e foi uma das lideranças
1930, as massas negras iriam simpatizar ponto residia o ineditismo do patrianovismo da Confederação Abolicionis-
com um governante, de forma semelhante frente aos movimentos políticos autoritários ta. Patrocínio foi uma figura
de destaque no movimento
ao que ocorreu com a realeza. da época: a instauração da monarquia e de abolicionista.

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um processo de recatolização da sociedade,
de uma nova nação voltada para a tradição.
Para divulgar o movimento, os militantes
procuraram atuar em diversos meios, in-
cluindo a Frente Negra Brasileira, através
da liderança de Arlindo Veiga dos Santos.
O objetivo da Frente era a revalorização do
negro por meio da sua integração à economia
industrial. Segundo o discurso ideológico
da organização, o II Império visou à so-
lução do problema da escravidão, que só
não se concretizou plenamente em função
do advento da República, que favoreceu as
“imigrações arianas” para substituir o negro.
Portanto, o retorno da monarquia coloca-
va-se como única opção para a questão do
negro (Malatian, 1988).
O tema da realeza não se manifestou
apenas nas organizações sociais negras de
caráter político. No campo religioso, os
símbolos monárquicos estão presentes até
os dias de hoje, constituindo um aspecto
relevante do éthos do povo-de-santo.
Segundo a cosmogonia ioruba, a mo-
narquia é uma instituição criada por Deus.
Xangô representa a figura do grande rei, que
foi divinizado após sua morte. Seus atributos
são: força, poder, justiça e virilidade. Nos
ritos do candomblé, a realeza é dramatizada
e materializada em determinados signos
distintivos como o cajado, cetro e coroa.
Em trabalho recente, Santos (2006) in-
vestigou a performance ritual de um terreiro
localizado na Zona Norte da cidade de São
Paulo adjetivado como o rei do candomblé
do Brasil. No cotidiano, ou durante a rea-
lização das festas, os símbolos da realeza A atribuição dos termos rei e rainha a
ganham evidência. Há, no terreiro, um trono determinados pais e mães-de-santo funciona
e flâmula com brasão real, além disso o rei como uma forma de atribuir prestígio e po-
do candomblé (o babalorixá da casa) usa der, ressignificando, dessa forma, a imagem
uma coroa e vestes reais. do candomblé, historicamente, maculada
Uma das festas mais importantes rea- pelo preconceito.
lizadas pelo terreiro homenageia Oxóssi, Afirmamos, inicialmente, que nosso
principal orixá da casa. A festa dura sete propósito era refletir sobre a influência
dias e inclui uma procissão na qual o pai- dos ícones da monarquia no imaginário
de-santo é transportado em uma charrete, negro. A seguir iremos tratar do objeto
acompanhado da comitiva real. No evento, mais específico da nossa investigação, as
o rei do candomblé se apresenta protegido duas associações paulistanas reconhecidas
com um enorme guarda-sol (ícone da rea- por agregar um grande número de negros:
leza em algumas etnias africanas) até ser o Grêmio Recreativo e Cultural Escola de
conduzido ao trono. Samba Vai-Vai e o Aristocrata Clube.

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refletem a posição do monarca na estrutura
A MONARQUIA E O CARNAVAL hierárquica, como chefe de Estado.
Quais são as hipóteses explicativas para
O cordão carnavalesco Vai-Vai foi funda- essa notória referência à monarquia?
do em 1930 e, inicialmente, era formado por Para tentar responder a essa indagação
jovens negros do bairro do Bexiga (atualmen- é preciso voltar ao contexto histórico do
te o nome oficial do bairro é Bela Vista)6. A surgimento da agremiação.
agremiação adotou o preto e o branco como O fim da escravidão não representou uma Figura 1
cores oficiais. Os primeiros ensaios eram mudança significativa na posição social do
realizados nas casas dos fundadores. Com negro paulistano. Sem nenhuma lei que os
a colaboração financeira dos comerciantes e favorecesse, sem qualquer reparação pelo
moradores do Bexiga, o Vai-Vai conseguiu trabalho exercido no cativeiro, os negros
confeccionar as primeiras fantasias e desfilar foram sendo substituídos pela mão-de-obra
6 Em 1972, o Vai-Vai passou a
pelas ruas do bairro (Soares, 1999). estrangeira, restando-lhes as posições mais ser estruturado como escola
O cordão, apesar de modesto, já estava aviltantes no mercado de trabalho (Fernan- de samba. A referência será
feita sempre no masculino
constituído, mas era preciso escolher um des, 1965). pelo fato de a denominação
ícone para representá-lo. Qual foi o sím- Nas primeiras décadas do século XX, oficial ser Grêmio Recreativo
e Cultural Escola de Samba
bolo escolhido? Uma coroa adornada por uma grande quantidade de negros migrava Vai-Vai (Soares, 1999).
dois ramos de café (Figura 1). É importante do interior para a cidade de São Paulo em 7 Em São Paulo, a referência à
realeza é expressa na deno-
atentarmos para a influência da monarquia busca de empregos, concentrando-se, prin- minação de uma agremiação
nas manifestações carnavalescas: cipalmente, nos bairros do Bexiga, Barra formada em 1994: Império da
Casa Verde. Ainda em relação
Funda e Baixada do Glicério. Além de es- à nomenclatura das escolas de
“[…] O Rei Momo, as princesas do carnaval tarem situados próximo ao centro comercial samba, outro fato recorrente é
a presença do termo “unidos”.
e o Rei Congo (ou Zulu) que abrem o desfile da cidade, esses bairros proporcionavam Alguns exemplos: Unidos de
Vila Isabel, Unidos do Porto
das escolas de samba cariocas e as rainhas oportunidades de trabalho e moradias a da Pedra, Unidos do Viradouro,
da bateria, todos devidamente paramenta- baixo custo em função da desvalorização Unidos do Jacarezinho e Unidos
do Peruche. Em estudo realiza-
dos e portadores de distintivos reais, como dos terrenos, situados em fundo de vale do na década de 1980, Borges
Pereira revelou que um dos
coroas, cetros e faixas; as roupas nobres do – sujeitos a inundação – ou em áreas muito principais desafios das organi-
mestre-sala e da porta-bandeira e sua dança íngremes (Simson, 1989; Lowrie, 1938). zações negras paulistanas era
criar um nexo de lealdade que
que mistura o antigo minueto das cortes com Outra possibilidade de interpretação para a unisse os negros de diferentes
o samba; os nomes de algumas escolas de concentração dos negros nesses bairros era matizes em torno de um mesmo
projeto político. A consciência
samba cariocas: Imperatriz Leopoldinense, o contato com outros negros que já estavam dos negros de que sua desunião
inviabilizava os planos políticos
Império Serrano, Império da Tijuca, Lins havia mais tempo nessa região e já possuíam era manifestada de diversas
Imperial e Engenho da Rainha […]” (Reis, um maior conhecimento da cidade – fator formas. Uma delas era no “nível
da nominação institucional,
1996, p. 61)7. de grande valia para os recém-chegados quando historicamente escolas
de samba ou grupos de folia
(Britto, 1986). vêm incorporando, quase que
É interessante notar como os vaivaienses Portanto, a Abolição da escravidão não obrigatoriamente, em seus
nomes, as palavras unidos,
tomaram de empréstimo símbolos muito representou um lenitivo para a situação união, etc., ou quando, hoje,
representativos da monarquia brasileira. do negro; da senzala para a precariedade o movimento político mais
expressivo e ambicioso, for-
Após a Independência do Brasil era preciso dos cortiços, do trabalho escravo para o mado em São Paulo, se intitula
Movimento Negro Unificado”
criar uma identidade para a nova nação que desemprego ou subemprego, o negro não (Borges Pereira, 1982). Essa
emergia. A nobreza exibia brasões com os conseguia obter o estatuto de cidadão. era uma forma de compensar
no nível simbólico a desunião
símbolos do Estado brasileiro: o verde, o O Vai-Vai era composto por esses negros, e as intensas divergências que
ocorriam no cotidiano dos
amarelo, o tabaco e o café. O café, eleito trabalhadores de baixa qualificação (polidor movimentos negros. A análise
como um dos ícones de brasilidade, além de e lavador de carros, marceneiro, empregada dos aspectos simbólicos da
denominação das agremiações
representar nossa opulência econômica, era doméstica…), que lutavam para criar um carnavalescas também revela
uma prova da especificidade do emergente espaço de sociabilidade onde pudessem se a tentativa de dar um caráter
nobilitante a essas associações,
país tropical (Schwarcz, 1999). divertir, estabelecer relações interpessoais, representado pelo uso freqüen-
te do termo “acadêmico”:
A coroa, o cetro e o manto, mais do que sem ser discriminados. Acadêmicos do Salgueiro,
simples adereços, são insígnias que tradu- Voltemos agora à argumentação sobre a Acadêmicos do Grande Rio,
Acadêmicos da Rocinha e
zem o poder, o prestígio, a dignidade real e adesão dos negros à monarquia. Carvalho Acadêmicos de Santa Cruz.

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e Chalhoub afirmam que a persecução dos jeto de país, os vaivaienses incorporavam
republicanos aos negros e pobres resultou na um signo da nação à sua agremiação para
antipatia pelo novo regime e também numa reafirmar seu desejo de integração à socie-
certa nostalgia e apreço pela monarquia. dade. Fato que ganha maior relevância em
É provável que essa teoria possa explicar virtude de a agremiação localizar-se em um
a escolha da coroa e do café como símbo- bairro composto, predominantemente, por
los do Vai-Vai, pois havia uma expectativa imigrantes italianos.
entre os negros de que sua situação me- Os “reinados negros”, citados anterior-
lhorasse com o fim da escravidão; mas, no mente, utilizavam os espaços das festas e
decorrer dos anos, ficou demonstrado que procissões para o exercício da sociabilidade
a República não reservara, no seu projeto (Schwarcz, 1999). O Vai-Vai também fun-
político, um lugar para o negro. O mesmo cionava como local de reunião de famílias
viu-se discriminado no mercado de traba- negras, estabelecendo um feixe de relações
lho, marginalizado socialmente, enquanto que não se limitavam ao samba, mas que es-
os imigrantes estrangeiros ficavam com as tavam interligadas à religião e ao futebol.
melhores oportunidades. Esse quadro ex- Os vaivaienses construíram um “mundo
tremamente desfavorável deve ter resultado paralelo”8, um microcosmo negro que fun-
em uma aversão pela República, mas não cionava como alternativa à discriminação
seria, no caso do Vai-Vai, possível produzir sofrida na sociedade global, sem deixar de
interpretações alternativas? manter contato com os brancos, já que se
Mais do que alusão a uma herança de relacionavam com os italianos, seja como
organizações políticas africanas de um moradores do mesmo bairro, no vínculo
passado longínquo, a referência à coroa patrão/empregado, seja como colabora-
parece ser uma forma – ao menos no nível dores do cordão. Nesse “mundo negro”,
simbólico – de tentar reverter o estereótipo os integrantes imperavam absolutos, com
imputado ao negro, decorrente da herança autonomia para gerir seus ensaios, festas e
escravocrata e da sua situação de margi- desfiles da forma que melhor lhes aprou-
nalidade social, nas primeiras décadas do vesse, sem interferências externas. Com o
século passado. A coroa representa o poder, tempo puderam consolidar seu “reinado do
a dignidade, a vitória; sua posse é um sinal samba”, com suas rainhas e princesas do
de distinção, de liderança. Sua colocação carnaval, rainha da bateria, e com a nobreza
na cabeça lhe atribui um significado emble- do mestre-sala e da porta-bandeira.
8 Utilizamos aqui o conceito mático: representando não só os valores da
elaborado por Borges Pereira cabeça, como um dom vindo de cima, ela
(1983): “[…] Contidos pelo
preconceito e pela discrimina- revela o aspecto transcendente de qualquer
ção, os negros ‘fabricaram’
um mundo institucional paralelo
realização bem-sucedida (Chevalier & Ghe- OS ARISTOCRATAS NEGROS
ao dos brancos onde puderam, erbrant, 2002). Era um modo de vincular o
como negros e como pobres,
encontrar em contextos urbanos cordão carnavalesco a algo positivo, já que, Destacaremos, a seguir, a outra insti-
as condições mínimas para no bojo do processo de discriminação do tuição negra, citada anteriormente: o Aris-
desenvolver sua sociabilidade,
e, livremente, exercitar suas negro na sociedade brasileira, sua imagem tocrata. Esse clube nasceu em um período
práticas e cultivar seus valores
culturais. Esse conjunto de institui- é freqüentemente desqualificada. de efervescência no meio negro paulistano,
ções espalhadas por diferentes A escolha do ramo de café também é momento de surgimento de várias associa-
pontos das grandes cidades
brasileiras pode ser visto como emblemática e sua inclusão no referido ções como o Clube Coimbra, que promovia
uma espécie de territorialidade,
ao mesmo tempo física, social
símbolo foi sugerida por um dos fundadores jogos e festas, freqüentado, principalmente,
e cultural dos negros. Algumas do Vai-Vai que aprendeu, em um livro de por empregadas domésticas, e o Clube 220,
delas como as escolas de
samba e terreiros religiosos história, que o café era um símbolo do país que promovia bailes e o concurso da beleza
são autênticos prolongamentos (www.vaivai.com.br, 1998). A escolha de negra (Pinto Silva, 1997).
de outros grupos, como grupos
domésticos de vizinhança, que um ícone nacional para compor o símbolo do O Aristocrata foi fundado em 1961 por
dentro de outros princípios orga-
nizatórios e nesses novos planos cordão é muito significante, pois, enquanto integrantes de dezenove famílias que deci-
reorganizam-se em segmentos a República, nos seus primeiros anos, não diram unir-se para formar um clube negro
maiores com outros objetivos e
funções […]”. reservava um lugar ao negro em seu pro- que lhes oferecesse uma opção de lazer. As

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primeiras reuniões eram realizadas, alterna- com a participação de médicos, advogados,
damente, na casa dos fundadores. Quanto à policiais, fato muito raro, pois os negros
escolha da denominação, dois nomes foram eram conhecidos, muitas vezes, por serem
propostos: Alvorada9 e Aristocrata Clube, e “bagunceiros”. Sendo assim, era preciso
o segundo venceu por uma pequena margem que fossem primeiramente “educados”, e
de votos (Soares, 2004). só depois poderiam participar do grupo.
“Educar” teria o sentido de inculcar valores
“[…] O Aristocrata é um marco na história e impor comportamentos condizentes com
dos clubes negros, pois pela primeira vez o prestígio de um grupo em ascensão social
havia a preocupação com o patrimônio fi- (Soares, 2004).
nanceiro, e ainda em estabelecer diferenças Esse grupo de negros de classe média
no seio da própria comunidade. Entre os era proveniente do processo de crescimento
membros que compunham o grupo original, econômico do país, que resultou, a partir
a maioria era policiais, advogados, funcio- de 1939, em maiores oportunidades de
nários do Fórum, empresários e comercian- emprego para negros e brancos.
tes […]” (Pinto Silva, 1997, p. 147). O avanço industrial gerava novos pos-
tos de trabalho, as empresas começaram a
Os associados organizavam almoços, incorporar o negro, ainda que em funções
nos quais os participantes contribuíam com pouco qualificadas (Fernandes, 1965).
dinheiro, até que foi possível comprar a sede Além disso, o fim da imigração estrangeira
social, uma sala em um prédio do centro e a reserva de mercado para o trabalhador
da cidade. Nela, o departamento femini- brasileiro implicaram o aproveitamento de
no organizava bailes, jantares e matinês um grande contingente negro e mestiço,
dominicais; tais atividades viabilizaram a proveniente do interior de São Paulo, Mi-
compra de um terreno no Bairro do Grajaú nas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia, dentre
(Zona Sul da cidade), onde foi construído outros (Guimarães, 2001).
o clube de campo. O resultado da integração do negro
O Aristocrata representava um dife- à sociedade de classes foi a mudança de
rencial dentre as associações negras. Era padrão de vida daqueles que passaram a
composto, em sua maior parte, por negros compor a elite negra:
de classe média. Quando falamos “classe
média negra”, temos como referencial a “[…] Possuir rádio, rádio-vitrola, geladei-
situação da maioria dos negros que estavam ra, máquina de lavar roupa, televisor, uma
em situação de pobreza, sem pretender e mesmo duas ou três casas, automóvel,
estabelecer uma analogia com a classe uma conta bancária, empregada, já não é
média branca. algo privativo das ‘classes altas’ e, muito
Segundo o Dicionário Aurélio Eletrôni- menos, ‘privilégio dos brancos’. Algumas
co – Século XXI, “aristocracia” é uma “forma das famílias da classe média de cor chegam
de organização social e política em que o a participar plenamente desse padrão; outras
9 É preciso lembrar que tal
governo é monopolizado por uma classe alcançam-no de forma parcial. Apenas uma denominação já havia sido
privilegiada; classe da nobreza; casta; fidal- constante particulariza essas tendências no utilizada pela imprensa negra.
O jornal O Clarim da Alvorada
guia; nobreza; distinção; superioridade”. A ‘meio negro’. Ainda persistem a ansiedade foi fundado por José Coréia Leite
e Jayme de Aguiar, em 1924,
denominação do clube já funciona como um pela mesa farta, a aspiração de afirmar-se como um dos instrumentos para
traço distintivo, uma forma de demonstrar pela aparência brilhante da roupa ou do cal- combater a discriminação e
viabilizar a integração do
que os seus integrantes se consideravam çado e, principalmente, o ideal de imitar o negro à sociedade. Em 1945,
o jornal Alvorada era fundado
como um estrato diferenciado no interior estilo de vida da elite senhorial da transição para divulgar as idéias da Or-
do grupo negro10. do século. Esta preocupação é tão absorven- ganização do Negro Brasileiro
(Ferrara, 1986).
Um dos associados, que participou da te, que uma das principais associações da
10 A classe média negra norte-ame-
fundação do clube, afirmou que o Aristo- ‘gente negra’ em ascensão social recebeu ricana, formada no início do sé-
crata era formado por “negros de bem”, o nome sintomático de Aristocrata Clube culo XX, também era conhecida
por “aristocracia” (aristocracy).
pela elite negra, contando em seus quadros […]” (Fernandes, 1965, p. 149). Ver Landry, 1987.

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Esse grupo de negros que conseguia nima, “o negro-metido”, categoria utiliza-
se destacar não encontrava muitas opções da, indistintamente, por brancos e negros
de lazer na cidade, e a idéia de formar a para classificar aqueles que cobram um
associação teve como uma das principais tratamento igualitário, negando qualquer
motivações a recusa dos clubes brancos inferioridade.
em aceitar a presença de negros em suas A categoria “negro-metido” é utilizada
dependências sociais. para desqualificar os integrantes das as-
Os “aristocratas” não queriam apenas sociações que mobilizam a classe média
“imitar a elite senhorial”, mesmo porque negra. No caso específico do Aristocrata
na vida em sociedade é improvável que se as críticas recaem sobre a denominação.
encontre um grupo que seja a cópia pura e Afinal, como um grupo de negros pode
simples de outro grupamento, pois nesse requerer a adjetivação que lembre certa
processo alguns aspectos são incorporados, nobreza, fidalguia ou distinção?
outros são alterados e há ainda aqueles que Estamos diante das reminiscências do
são totalmente descartados. Os integrantes paternalismo, que cobra do negro uma
do Aristocrata pretendiam inaugurar um postura subserviente, mesmo que ele tenha
novo estilo de vida que os distinguisse alcançado uma ascensão econômica ou
tanto dos brancos de classe média quanto algum tipo de elevação social. O “negro-
dos negros pobres (Soares, 2004). metido” seria o negro “fora de lugar’’, que
Analisando as manifestações de pre- não reconhece sua “inferioridade natural”, a
conceito na cidade de São Paulo, Bastide e qual não pode ser suplantada pela educação
Florestan afirmam que o paternalismo servia ou mérito profissional.
como um instrumento de manutenção de A ostentação de alguns sinais exteriores
relações raciais do tempo da escravidão. O de riqueza, como o vestuário ou mudança
negro só era aceito se assumisse uma posi- de residência, da mesma forma que outras
ção de subserviência em relação ao branco. técnicas de demonstração de prestígio, como
Afirmar sua condição de inferioridade era o casamento inter-racial, relações sociais
pré-requisito para uma convivência não- com os brancos, ou mesmo apadrinhamento,
conflitiva com o branco, como demonstra- foram classificadas por Fernandes como
vam as atitudes das famílias mais abastadas “status fictício”. Muitos dos integrantes da
em relação aos negros. classe média negra possuíam um “status
real” de classe baixa, mas, em função de
“[…] Essas famílias tradicionais não acei- possuir profissões estáveis, podiam imitar
tam o ‘novo negro’, que se veste ‘à ameri- os brancos de classe média.
cana’, ousado e empreendedor, que, numa Se considerássemos apenas a lógica da
palavra, ‘não sabe ficar no seu lugar’. Que razão prática, poderíamos corroborar as as-
filho de empregada senta-se numa poltrona sertivas de Fernandes, mas a razão simbólica
em vez de ficar respeitosamente em pé. Que é fundamental para compreendermos aspec-
recusa um convite para almoçar se for servi- tos subjacentes que conformam a cultura de
do na copa em vez de na sala de jantar […]” determinado grupo social (Reis, 1995).
(Bastide & Fernandes, 1971, p. 149). Os artifícios citados por Fernandes eram
utilizados pela classe média negra como
A mudança de atitude dos negros em sinal de distinção na tentativa de obter uma
ascensão social – que incluía, além do con- maior visibilidade social. A aquisição de
sumo de bens materiais, a adoção de uma bens materiais, o comportamento puritano,
vida social mais sofisticada – gerou muitas a participação em associações ou clubes
críticas de brancos e negros que classifica- como o Aristocrata implicavam a tentativa
ram essas manifestações como “esnobismo de romper com o estigma racial do negro
vazio” (Bastide & Fernandes, 1971). na sociedade global.
As acusações de “esnobismo vazio” A classe média negra emergente, ciente
persistem até hoje em uma expressão sinô- de suas limitações em termos de capacidade

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de consumo, buscava, através de associa- Uma das estratégias adotadas pelas as-
ções como o Aristocrata, uma posição, sociações negras para obter respeitabilidade
provavelmente, mais próxima da nobreza do social era a adoção de normas rígidas, além
que da burguesia. Isso ocorria pois, apesar de uma severa escolha dos participantes. O
do processo de ascensão, havia a consciência puritanismo funcionou como mecanismo
da impossibilidade de competir – no que diz para diferenciar os integrantes das organi-
respeito à posse de bens materiais – com a zações da “elite negra” do “negro massa”,
classe média branca. Dito de outra forma: pois havia uma ênfase no cumprimento
a classe média negra, em seu momento das normas de etiqueta social. Dessa for-
inicial, poderia ser categorizada não como ma, procuravam romper com o estigma do
classe social, mas como “grupo de status”. negro na sociedade global (bêbado, pobre,
Ou seja, um conjunto de pessoas que goza vagabundo…).
de um prestígio social que o diferencia de Reiteramos que a “elite negra” poderia
outros grupos, mesmo sem ter um grande ser classificada como grupo de status, pois,
poder econômico (Weber, 1979). apesar de não ter o poder de consumo da clas-
se média branca, esse segmento procurou,
através das suas organizações sociais, criar
um estilo de vida diferenciado. Segundo
Weber (1979), o que singulariza a “situação
de status” não é a posse de bens, mas sim
o fato de os integrantes do grupo comparti-
lharem um estilo de vida específico.
Portanto, quando os aristocratas decidi-
ram fundar o clube buscavam desfrutar um
estilo de vida diferenciado, em que pudes-
sem ter um espaço de lazer e de encontro,
idealizando um lugar no qual não fossem
discriminados.
A escolha do nome do clube pode ser
interpretada como uma tentativa de inver-
ter, simbolicamente, o lugar do negro na
sociedade. Ou seja, alçá-lo da invisibilidade
e marginalidade social a uma posição de
destaque retratada pela noção de aristo-
cracia. O Aristocrata Clube é o exemplo
de uma das diversas formas de luta dos
negros brasileiros contra a discriminação
e representa a busca por respeitabilidade e
visibilidade social.

CONCLUINDO
Para encerrar, levantamos a seguinte in-
dagação: o que haveria de invariante entre as
manifestações populares do período escra-
vocrata, que reverenciavam a monarquia, e
as duas associações negras contemporâneas
que também fazem referências à realeza e
a nobreza?

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As irmandades religiosas, a eleição dos dade. Persistindo no tempo, tais associações,
reis do Congo, as festas, apesar de não mudar de uma forma bem peculiar, conseguiram
a condição de escravo, tinham significado proporcionar diferentes formas de ser negro
para o negro como espaços e momentos no Brasil.
nos quais se criavam “lealdades próprias”, A história do negro é marcada não apenas
onde era possível compartilhar o sentimento pela luta por sobrevivência material, mas
de pertencimento a um grupo e resgatar a pela produção de bens simbólicos, dentro
auto-estima (Schwarcz, 1999). da dinâmica cultural configurada pela troca,
As agremiações carnavalescas consegui- pela aquisição de elementos culturais, que
ram mobilizar os negros e foram fundamen- foram reinterpretados e utilizados como
tais na luta por um espaço de lazer na cidade, traços distintivos.
criando uma rede de relações sociais que
extrapolou os limites do samba, envolven- “[…] Repensada,recriada, a cultura parece
do, como se afirmou anteriormente, times ter permitido, após séculos de domínio, sub-
de futebol, clubes de dança e instituições missão e violência, reconhecer a presença de
religiosas (Soares, 1999). um universo negro na realidade brasileira.
Os clubes negros, que surgiram na década Reconhecer, independente da natureza,
de 1960, foram referências importantes para graus de intensidade, etc., que a ideologia
o convívio social de negros trabalhadores ou oficial dominante não conseguiu, apesar de
negros de classe média; eram espaços alter- todo o intento, banir a cor em quase todo
nativos aos clubes da classe média branca, aspecto social e cultural existente no país
que vetavam a presença de negros. […]” (Gusmão & Simson, 1989, p. 240).
O que há de comum entre essas organi-
zações é a capacidade que elas tiveram de Apropriações de ícones da monarquia e
reunir os semelhantes, sem necessariamente da aristocracia foram instrumentais simbó-
formar guetos, já que os negros estavam em licos utilizados pelos negros para reatualizar
constante diálogo com os brancos. antigos regimes políticos africanos; para
Essas instituições foram relevantes tam- elevar a auto-estima e para servir de sinais
bém como instrumentos para a superação de distinção entre os próprios negros. O que
da adversidade no contexto aviltante da estrutura as organizações negras é a sua efi-
escravidão e, posteriormente, no “racismo ciência no sentido de construir um espaço de
à brasileira”. Tais associações são exemplos sociabilidade para os seus componentes, de
da “resistência inteligente” do povo negro, viabilizar um sentimento de fazer parte de um
pois utilizaram o âmbito da cultura para grupo e proporcionar uma afirmação social
conseguir um lugar na estrutura social, tra- positiva, enfim, de lutar pela dignidade do
duzindo, portanto, a capacidade do negro em negro. Se dignidade é sinônimo de nobreza,
negociar espaços específicos na sociedade a busca pela respeitabilidade inserida na atu-
(Gusmão & Simson,1989). ação cotidiana dessas organizações implica
A resistência negra implicou sua insis- a invenção de uma nobreza bem específica:
tência em construir a diferença, a especifici- uma nobreza negra.

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