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Teorias da cultura

Lidia Zuin
Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.
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(Jeane Passos de Souza - CRB 8a/6189)

Zuin, Lidia
Teorias da cultura / Lidia Zuin. – São Paulo: Editora Senac
São Paulo, 2018. (Série Universitária)

Bibliografia.
e-ISBN 978-85-396-2433-1 (ePub/2018)
e-ISBN 978-85-396-2434-8 (PDF/2018)

1. Cultura 2. Estudos de cultura 3. Multiculturalismo l. Autor ll.


Título. IlI. Série

18-013u CDD – 353.7


BISAC POL017000

Índice para catálogo sistemático


1. Cultura – 353.7
TEORIAS DA CULTURA

Lidia Zuin
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Sumário
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Capítulo 1 Capítulo 4
Homem, cultura e sociedade, 7 O conceito de cultura em
Bauman, 67
1 Homem, cultura e sociedade, 8
2 Cultura e identidade, 16 1 O conceito de cultura em Bauman, 68
3 Cultura e desenvolvimento, 18 2 Cultura como estrutura, 72
4 Cultura e integração com a 3 Cultura como práxis, 74
sociedade, 21 Considerações finais, 79
5 Os componentes da cultura Referências, 80
(concepções), 23
Considerações finais, 25 Capítulo 5
Referências, 26 Multiculturalismo e cultura
brasileira, 83
Capítulo 2
Cultura e hibridismo cultural, 29 1 Multiculturalismo e cultura
brasileira, 84
1 Cultura e hibridismo cultural, 30 2 Multiculturalismo e relativismo
2 Desterritorialização, 32 cultural, 89
3S  ociedade fragmentada e 3M  ulticulturalismo e democracia
hibridismo cultural, 35 racial, 91
4 O relativismo cultural na visão de Considerações finais, 96
Canclini, 40 Referências, 97
Considerações finais, 45
Referências, 46 Capítulo 6
Cultura e globalização, 99
Capítulo 3
1 O processo de globalização, 100
Estudos culturais, 49
2 Globalização: contradições, 105
1 Estudos culturais, 50 3 Efeitos da globalização, 108
2 Conceito de identidade cultural Considerações finais, 112
nos estudos culturais britânicos e Referências, 113
latino-americanos, 54
3A  contribuição de Canclini e
Stuart Hall, 60
4 O Centro de Estudos Culturais e a
contemporaneidade, 62
Considerações finais, 63
Referências, 64
Capítulo 7 Capítulo 8
Cultura de massa e indústria Cultura na sociedade em
cultural, 115 rede, 129
1 Escola de Frankfurt e indústria 1 Cultura e comunicação, 130
cultural, 116 2 A relação de troca entre a
2 Cultura de massa, 120 sociedade, a cultura e as
3C  ultura de massas no século XX – novas tecnologias de base
Edgar Morin, 123 microeletrônicas, 132
Considerações finais, 126 3 Redes e redes sociais, 136
Referências, 127 4C  ultura de massa e internet:
transformações e
permanências, 138
5 Inclusão e exclusão na cultura
digital, 141
6D  esafios à sociedade do
conhecimento, 144
Considerações finais, 148
Referências, 149

Sobre a autora, 153


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Capítulo 1

Homem,
cultura e
sociedade

Ao longo da disciplina teorias da cultura entraremos em contato com


diferentes concepções de cultura, indo desde um ponto de vista mais
antropológico e semiótico até abordagens mais políticas e contempo-
râneas, estudando autores como Néstor García Canclini e chegando até
a noção de pós-modernidade com Zygmunt Bauman e seu conceito de
modernidade líquida. Em seguida, trataremos ainda da multiplicidade
da cultura, em específico a brasileira, mas também levando em conta
o contexto internacional e os efeitos da globalização na cultura, para
então chegarmos às noções de cultura de massa e indústria cultural
com base nos teóricos da Escola de Frankfurt. Por último, ainda aborda­
remos a cultura em ambiente digital, observando como a internet
transformou a noção de cultura de massa e se tornou uma nova ferra-
menta de inclusão.

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Neste capítulo, em específico será abordado o conceito de cultura

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com base em sua origem etimológica e desenvolvimento histórico-filo-
sófico, até chegar à antropologia e à semiótica da cultura, disciplina em
que ganham destaque autores como Iuri Lotman e Ivan Bystrina, este
responsável pela proposição da teoria das raízes da cultura e da cultura
como uma ferramenta para resolver as assimetrias simbólicas. Tal vi-
são acaba nos pondo também em contato com a obra do antropólogo
Edgar Morin e o seu conceito de segunda existência.

Em seguida, abordaremos as manifestações indenitárias por meio


da cultura, indo desde o âmbito étnico ao econômico, no que diz res-
peito à relação entre cultura e desenvolvimento, até chegarmos na re-
flexão sobre a cultura como veículo que promove a inclusão social pela
educação e pelos projetos socioculturais. Por fim, investigaremos as
várias concepções de cultura no que tange à abrangência do termo e ao
questionamento do paradigma sobre a alta e a baixa cultura.

1 Homem, cultura e sociedade


Por vezes entendida como uma oposição ao que é natural, ou seja,
tudo aquilo que o homem (e não a natureza) produz, é no próprio ambien-
te da lavoura, do plantio, que o termo “cultura” tem sua origem etimológi-
ca, já na Roma Antiga. Em A ideia de cultura (2003), Terry Eagleton ainda
ressalta o cognato coulter, que tem o significado de “lâmina do arado”,
indo ao encontro da expressão de Francis Bacon no que diz respeito à
cultura como uma forma de “adubação das mentes”.

É com base nessa ideia que Bacon, que ficou conhecido como fun-
dador da ciência moderna, transpõe o significado inerentemente ma-
terialista do termo para trabalhar um sentido mais subjetivo e múltiplo
que se desenvolveu a partir do termo latino colere. Flexível, a palavra
pode ser entendida por desde cultivar até habitar ou mesmo prestar cul-
to e proteger. Disso se desdobram ainda as expressões colunus, que

8 Teorias da cultura
deu origem ao “colonialismo”, bem como cultus, que ganhou qualidade
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religiosa na palavra “culto” durante a Era Moderna, período histórico que


vai do século XV ao XVIII.

Sendo essa uma época de transição entre a produção feudal para


o capitalismo, foi nesse cenário que as noções de cultura e religião
se confundiam e geravam a ideia de uma arte (ou cultura) superior.
Essa crença, caracterizada por uma autoridade religiosa, é mais
tarde posta em xeque com base em novas questões filosóficas e
políticas no que diz respeito à “liberdade e determinismo, atividade
e resistência, mudança e identidade, o que é dado e o que é criado”
(EAGLETON, 2003, p. 12).

Com base nisso, o antropólogo britânico Edward Tylor fez a sugestão


de um novo conceito moderno de cultura como um “complexo que inclui
o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos
os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro
da sociedade” (LARAIA, 1986). Contudo, por conta de sua abrangência,
a definição de Tylor continuou sendo revisitada e analisada por diferen-
tes áreas do conhecimento, indo desde a antropologia até a filosofia, as
ciências sociais ou, ainda, a semiótica, disciplina concentrada em uma
teoria geral das representações, isto é, dos signos que podem ser mani-
festados ou não pela língua.

É nesse sentido que a semiótica se desdobra em diferentes corren-


tes representadas por autores como Charles Sanders Peirce ou mesmo
Ferdinand de Saussure, que esteve mais concentrado em um âmbito
linguístico, enquanto a semiótica russa (Escola Semiótica de Tártu-
Moscou) e do leste europeu se dedicou à literatura e à semiótica da
cultura. Teóricos como Vilém Flusser, Iuri Lotman e Ivan Bystrina são
alguns dos nomes que ganharam destaque por suas contribuições à
área, especialmente no que diz respeito à obra de Bystrina.

Em 1995, o semioticista veio ao Brasil para apresentar uma confe-


rência que foi transformada em uma apostila com o título de “Tópicos

Homem, cultura e sociedade 9


de semiótica da cultura” (2009), na qual desenvolve o conceito de raízes

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da cultura, sendo estas:

1. Sonho.

2. Jogo ou brincadeira.

3. Variantes psicopatológicas.

4. Estados alterados de consciência.

1.1 Homem e produção de cultura

Para a escola de semiótica da cultura, defendida por Bystrina (2009),


a ideia de signo se dá com um objeto material que é criado por um
produtor de signos, isto é, o homem ou qualquer outro ser vivo – afinal,
segundo o autor, não existem signos produzidos por seres inanimados.
Nesse processo estão ainda incluídos o receptor que consome esse sig-
no e, a partir disso, produz uma interpretação. É dentro dessa dimensão
pragmática que reside a dimensão semântica e sintática, isto é, o sig-
nificado e a formulação dos signos que são organizados em conjuntos
referidos como textos tanto por Bystrina quanto por Iuri Lotman (2000).

Conforme explica Bystrina (2009), textos e signos, em si, têm uma


função comunicativa, participativa e informativa ao mesmo tempo em
que também têm função estética, emotiva, expressiva e social. Textos
de cultura, portanto, estão presentes em nossa sociedade desde as
épocas mais remotas do processo de hominização. Enquanto alguns
permaneceram conservados até o nosso tempo, outros se perderam:
não sabemos como era a mímica, os gestos e como os seres humanos
começaram a falar, como conversavam, com quais ritmos e melodias
dançavam e cantavam.

Ou seja, textos não dizem respeito apenas à palavra escrita, mas a


um universo de códigos que abrange imagens, sons, gestos, cheiros

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e tudo aquilo que possa ser percebido pelos sentidos: “Cada objeto
conhecido por nós contém em si uma informação latente, que nós
percebemos pelos nossos sentidos. Neste momento, aquela informa-
ção latente modifica-se e se transforma numa informação atualizada”
(BYSTRINA, 2009, p. 3).

Com isso, o autor identifica que os primeiros vestígios de textos cul-


turais já apareceram nos restos e nos ritos de sepultamento pratica-
dos pelos homens de Neanderthal. Estes depositavam flores em seus
túmulos que deixaram vestígios de pólen, posteriormente descobertos
na Turquia. A partir daí, as pinturas do Paleolítico deram abertura para
outros formatos e técnicas de gravura e pequenas estatuetas feitas de
chifres e ossos.

Figura 1 – Pinturas do Paleolítico

A hipótese de que as primeiras manifestações culturais se deram


com rituais de sepultamento acaba encontrando paralelo à argumenta-
ção que Sigmund Freud faz em Escritos sobre a guerra e a morte (2009)
quanto ao momento em que o homem primitivo teria descoberto a

Homem, cultura e sociedade 11


morte do outro e, por consequência, sua própria finitude. Isso o fez re-

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fletir não somente sobre sua existência, mas também sobre como nor-
tear suas decisões de sobrevivência, de modo que isso o faz transpor
sua condição nômade para se tornar sedentário, daí adaptando o am-
biente às suas necessidades ao criar ferramentas, criar gado e plantar,
construindo moradias e erguendo cidades nas quais sistemas políticos,
religiosos, sociais e econômicos foram estabelecidos.

Para Bystrina (2009), à medida que a linguagem e os sistemas cultu-


rais ocidentais acabam se baseando em relações binárias, isto é, saú-
de/doença, prazer/desprazer, céu/terra, foi da oposição vida e morte
que nasceu a maior assimetria entre polos: “A morte é mais forte que
a vida, na percepção comum. Por isso, em todas as culturas o homem
aspira sempre a uma imortalidade, ou seja, a vida após a morte” (p. 9).

Para enfrentar esse desequilíbrio, o homem cria, então, uma “segun-


da realidade”, uma realidade imaginária que se desdobra, como aponta-
do por estruturalistas como o antropólogo Claude Lévi-Strauss, em uma
esfera de “rituais sociais, cotidianos, rituais sagrados e profanos”, isto é,
em manifestações artísticas e culturais que servem como uma forma
de solucionar a assimetria com base em ferramentas como: 1) identifi-
cação (como no provérbio do Antigo Egito, “o que está acima também
está abaixo”); 2) supressão da negação a partir da inclusão de um novo
elemento em uma tríade (ao se adicionar a Terra no duo Céu e Inferno,
os valores positivo e negativo da dupla se anulam na neutralidade da
Terra); 3) inversão (elementos negativos, como o sangue, deixam de ex-
pressar a morte para tratar da vida, como na expressão “sangue vivo”).

Todas essas soluções aparecem, invariavelmente, a partir dos textos


culturais que são criados com base nas quatro raízes apontadas por
Bystrina (2009), a começar pelo sonho.

12 Teorias da cultura
1.2 Sonho
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Para Bystrina (2009), os primeiros textos imaginativos e criativos


produzidos e vivenciados pelo homem estão no âmbito do sonho. Na
mitologia dos aborígenes australianos, o mito de criação trata de um
criador que sonha o mundo para então desenhá-lo em rochas, transfor-
mando-as, então, em outras formas de vida, como plantas, animais e
seres humanos. De forma semelhante, na mitologia cristã, Javé, como
escultor, molda a vida a partir do barro e lhe confere um espírito com um
sopro. Curiosamente, a palavra “espírito” tem origem na palavra latina
spiritus, que significa sopro, enquanto seu equivalente grego, pneuma,
também está relacionado ao vento e, no hebraico, a alma (ruach) e o
espírito (neshama) estão relacionados à respiração.

É nesse sentido que o autor também identifica uma forte relação en-
tre o sonho, o sono e a morte, a começar pela mitologia grega, na qual
Hipnos, deus do sono, é irmão gêmeo de Tânato, deus da morte. Para
filósofos gregos como Xenofonte, é no momento do sono que estamos
mais próximos da morte, mas também quando nossa psique, nossa
imaginação, mostra-se mais livre.

Desse modo, o sonho acaba por ser considerado uma das raízes
da cultura, justamente por ser uma experiência criativa que se mate-
rializa em cultura e arte, mas que ao mesmo tempo também nos põe
mais próximos da morte, como acreditava Xenofonte e a mitologia gre-
ga. A morte, como nossa maior assimetria, no entanto, também nos é
uma inspiração criativa e raiz da cultura conforme enfrentamos esse
desequilíbrio a partir da criação de uma segunda realidade (BYSTRINA,
2009), conceito que vai ao encontro da noção de segunda existência,
de Edgar Morin.

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Figura 2 – Sono e morte carregando o corpo de Sarpedon para Lícia (1805)

PARA SABER MAIS

Em O enigma do homem, o antropólogo francês Edgar Morin discorre


sobre a agonia do homem que, diante da morte como algo inevitável,
recusa-a e a transpõe para o nível dos mitos e ritos. Esses recursos
são também trabalhados em outro livro do autor, O homem e a morte,
no qual ele descreve como o homem acaba amenizando a assime-
tria ao mesmo tempo em que também convive com os conceitos de
vida e morte de maneira que um não anule o outro.

1.3 Jogo ou brincadeira

Segundo Bystrina (2009), o comportamento lúdico é encontrado tanto


entre os seres humanos quanto entre os animais, porém as brincadeiras
entre os seres humanos não se limitam à infância: elas se tornam parte

14 Teorias da cultura
da vida e os acompanham até a morte. Essa ideia, também debatida por
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Johan Huizinga em sua obra Homo ludens (2014), tem como defesa a
sugestão de que o jogo tem como finalidade nos ajudar na adaptação
à realidade, facilitando nosso aprendizado e comportamento cognitivo.

O interessante é que, sem saber onde termina o jogo e começa a


realidade, o comportamento lúdico pode ter seus ambientes específi-
cos, como um palco ou um campo de futebol, ao mesmo tempo em
que também é caracterizado por uma fluidez, no sentido em que não há
regras estabelecidas para o nosso “jogo da vida”. Outros teóricos, como
o semioticista Charles Sanders Peirce, entendem ainda que a vida, para
além de um jogo ou desempenho, também pode ser vista como um
“drama interior”.

Em Peirce e a abordagem do self (2014), o pesquisador americano


Vincent Colapietro discorre sobre a teoria de Peirce de que a “mente é um
teatro onde ‘as deliberações que de fato e honestamente agitam nossos
corações sempre assumem uma forma dialógica’” (GATTAMORTA, 2012,
p. 88, tradução nossa). Nesse sentido, “‘pensar sempre precede à forma de
um diálogo, um diálogo entre diferentes fases do ego’, (...) então é neces-
sário usar signos e símbolos que são acessíveis à esfera pública” (idem).

Enquanto Peirce entende a personalidade humana como um “con-


junto de hábitos” (COLAPIETRO, 2014, p. 139), estes são adquiridos a
partir da experiência, do aprendizado que se dá de forma lúdica, com
base na ideia de que cultura e jogo andam lado a lado, como apontado
por Bystrina (2009) e também já visto nas obras de Huizinga e Roger
Caillois, autor de Os jogos e os homens: a máscara e a vertigem (1990):
“Depois que a cultura se constituiu, o jogo se tornou um de seus mais
influentes fatores. Huizinga acha que as grandes atividades originais
da espécie humana são todas entremeadas com o lúdico” (BYSTRINA,
2009, p. 21).

Junto com o sonho, o jogo se tornou parte da cultura, conforme vá-


rias manifestações acabam por se inscrever em um âmbito lúdico e fa-
cilmente identificável, como são os casos dos esportes, torneios, circos,

Homem, cultura e sociedade 15


carnaval, dança, teatro, balé, etc. Por fim, Bystrina (2009) ainda propõe

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a reflexão: “A cultura não é tanto uma questão de razão, embora a razão
também participe ativamente. A cultura é condicionada essencialmente
pelo inconsciente” (p. 21).

2 Cultura e identidade
Passamos, então, a refletir sobre a relação entre cultura e identidade
ou mesmo uma “identidade cultural”. Para além da obra de arte como
expressão da subjetividade do artista, a identidade dos textos de cultura
se dá também com base em um ponto de vista antropológico.

Depois de termos visto que Peirce entende a personalidade humana


como um conjunto de hábitos, há ainda a visão de Ruth Benedict em Os
padrões de cultura (2013), que define antropologia como a ciência que
estuda os seres humanos como “produtos da vida em sociedade” (apud
CHICARINO, 2014, p. 54). Isto é, entende-se que as sociedades são, con-
sequentemente, compostas por hábitos, características físicas, técni-
cas, convenções e morais que as diferenciam em comparação umas
com as outras.

É com base nessas especificidades de cada grupo que se forma


uma noção de identidade de acordo com seus produtos culturais. Para
a antropologia cultural, é justamente o comportamento dos indivíduos
que revela o funcionamento das instituições pertencentes a sua socie-
dade. Conforme explica François Laplantine em Aprender antropologia,

a cultura não é nada mais que o próprio social, mas considera-


do (...) sob o ângulo dos caracteres distintivos que apresentam
os comportamentos individuais dos membros desse grupo, bem
como suas produções originais (artesanais, artísticas, religiosas...)
(LAPLANTINE, 2003 apud CHICARINO, 2014, p. 59).

16 Teorias da cultura
Portanto, em um trabalho de campo, antropólogos buscam estu-
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dar o que pensam, como reagem e como se comportam os indivíduos,


especialmente diante de grandes eventos e acontecimentos, como a
morte, o nascimento ou a doença. É com base nessas variáveis que o
antropólogo cultural estuda também o lado social de cada grupo, levan-
do em conta os “processos de contato, difusão, interação e aculturação,
isto é, de adoção (ou imposição) das normas de uma cultura por outra”
(LAPLANTINE, 2003, p. 122).

As questões de trocas e imposições, aliás, são especialmente ca-


ras aos países que passaram por um processo de colonização, como
é o caso do Brasil. No que diz respeito à cultura e à identidade, são
temas como a identidade nacional (e o nacionalismo) que procuram
em conceitos como “tradição” uma forma de se definir. Contudo, es-
ses elementos podem não ser referências tão sólidas se levarmos em
conta, por exemplo, o que o historiador Eric Hobsbawm chama de “in-
venção de tradições”.

Em outras palavras, o que o autor sugere é que, muitas vezes, as


práticas e os elementos considerados tradicionais são criações artifi-
ciais que não têm a ver com hábitos, convenções ou rotinas comuns
em uma sociedade e que são realizadas sem um significado simbólico.
Tradições, portanto, “são construções que vão se impor pela repetição e
que precisam ser liberadas de seu uso prático para que possam ser ple-
namente utilizadas de forma simbólica e ritual” (HOBSBAWN; RANGER,
1984, p. 13).

Por outro lado, as tradições são inventadas como uma maneira de


demarcar uma ruptura ou uma passagem de um estado ou momen-
to para outro. Chicarino (2014, p. 173) cita o exemplo da Revolução
Francesa ou então da formação de um país, sendo que a criação de
novos símbolos e acessórios faz parte desse processo regido por
movimentos e Estados Nacionais, responsáveis por criar novos ele-
mentos identitários, como o hino e a bandeira nacional, bem como uma

Homem, cultura e sociedade 17


forma de personificação da “nação” a partir de símbolos ou imagens so-

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ciais (por exemplo, a águia como forma de representação da identidade
nacional dos Estados Unidos).

Essas práticas, no entanto, não se reservam apenas ao âmbito da


nacionalidade. A identidade cultural também se manifesta na represen-
tatividade de etnias, orientações sexuais, tribos urbanas (subculturas),
práticas religiosas ou mesmo para aqueles que exercem determinada
profissão ou fazem parte de determinada instituição. No mundo cor-
porativo, a busca por uma “cultura” dentro das empresas tem sido o
desafio de empreendedores e administradores que veem em organi-
zações como Google e Facebook dois exemplos de inovação no que
diz respeito a ter uma cultura e identidade próprias, as quais são capa-
zes de conectar as pessoas em um mesmo propósito e as diferenciar
dentro do contexto corporativo.

PARA SABER MAIS

Para saber mais sobre questões referentes à cultura corporativa, o


livro Tribal Leadership: Leveraging Natural Groups to Build a Thriving
Organization (2008), de Dave Logan, mapeia os diferentes tipos de
perfis profissionais dentro de uma empresa com base no conceito
de “liderança tribal”, como engajar os funcionários com a criação de
uma filosofia ou cultura.

3 Cultura e desenvolvimento
Se, por um lado, é possível falar sobre uma cultura interna das em-
presas, também é importante ressaltar o papel da cultura no desenvol-
vimento da sociedade. Apesar de comumente entendermos desenvol-
vimento do ponto de vista econômico, isto é, com base nos programas

18 Teorias da cultura
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e leis de incentivo à cultura, bem como as iniciativas privadas, foi nos


anos 1960 que a cultura passou a ser reconhecida no debate acadêmi-
co como um fator importante no desenvolvimento da sociedade.

Um dos primeiros movimentos nesse sentido foi trazer o reconheci-


mento da identidade e da diversidade cultural dentro de um país. O apoio
e a representatividade dos hábitos e das expressões culturais se dão com
projetos que mobilizam o cenário econômico ao promover a geração de
empregos e de renda, ao mesmo tempo em que também contribuem com
a arrecadação tributária e representam um papel importante em setores
como o turismo. Nesse sentido, é importante observar como o turismo
cultural é capaz de fazer com que uma cidade ou região se desenvolva
econômica e socialmente pela entrada de investimento nesse setor.

Em 2004, Newton Freitas, presidente do Instituto Cultural Oboé, de


Fortaleza, publicou o artigo “Cultura e desenvolvimento social” para fa-
zer a defesa da importância da cultura como sinal de desenvolvimento
de uma sociedade. Citando Sócrates ao dizer que “da riqueza não vem a
cultura, mas da cultura vem a riqueza”, o autor argumenta que, enquan-
to o ponto de vista econômico é capaz de dar uma possível dimensão
quantitativa do desenvolvimento, a cultura, por outro lado, possibilita
uma visualização do desenvolvimento de forma qualitativa.

De acordo com Beatriz Azeredo, ex-diretora das áreas de Desenvolvimento


Social, Infraestrutura Urbana e Planejamento do Banco Nacional de
Desenvolvimento (BNDES):

A arte, a cultura e o esporte são instrumentos poderosos de cons-


trução de valores, identidades e perspectivas de futuro. Esses ins-
trumentos deixaram de ser vistos como meras atividades comple-
mentares (e frequentemente como simples ocupação do tempo
livre) para serem considerados fundamentais em processos de
transformação e inserção social. As atividades de lazer e cultura
propiciam o resgate da autoestima, a sedimentação de valores de
cidadania e novas perspectivas de vida (FREITAS, 2004).

Homem, cultura e sociedade 19


Ainda, conforme apontado em relatório publicado no Portal Brasil

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em 2009, o crescimento dos setores criativos no Brasil foi até mesmo
superior ao PIB dos últimos anos, representando 6% em comparação
à média de 4,3% do produto interno bruto. Ao entender que “a cultura
pode ser usada para incentivar o desenvolvimento econômico justo e
sustentável do país (...), as atividades culturais são estratégicas e geram
trabalho, emprego e renda, além de promover inclusão social, especial-
mente entre jovens” (PORTAL BRASIL, 2009).

Tal constatação deu origem ao Atlas econômico da cultura brasi-


leira (2017), um desenvolvimento proveniente de uma parceria entre o
Ministério da Cultura e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Com três volumes publicados, a obra aborda questões teóricas e me-
todológicas no que diz respeito a empreendimentos culturais, mão de
obra do setor, investimentos públicos e comércio exterior, bem como
cadeias produtivas como audiovisual, games, mercado editorial, músi-
ca, museus e patrimônio.

Segundo o ex-ministro da cultura Roberto Freire, um maior en-


tendimento da cultura nacional é necessário justamente por con-
ta de seu já demonstrado impacto no desenvolvimento econômico
e social brasileiro:

A cultura será cada vez mais central na economia. (...) O Atlas vai
mostrar o quanto do que se produz de riqueza vem da área cultural,
o que levará à conscientização do governo de que, em vez de se
cortar recursos da cultura em um momento de crise, é importante
fazer o contrário: investir em cultura para movimentar a economia
e fazê-la crescer (MATOS, 2017).

A isso se soma, portanto, a maneira como a movimentação econô-


mica é capaz de gerar também a inclusão social pela cultura, tema que
será abordado no próximo tópico.

20 Teorias da cultura
4 Cultura e integração com a sociedade
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Órgãos como a Organização das Nações Unidas para a Educação,


a Ciência e a Cultura (Unesco) têm justamente como foco o uso da
cultura como forma de incluir os indivíduos de uma sociedade, ao
entender que:

[...] fundamento da identidade, da energia e das ideias criativas dos


povos, a cultura, em toda sua diversidade, é fator de desenvolvi-
mento e coexistência em todo o mundo. Nesse sentido, a Unesco
elabora e promove a aplicação de instrumentos normativos no âm-
bito cultural, além de desenvolver atividades para a salvaguarda do
patrimônio cultural, a proteção e o estímulo da diversidade cultural,
bem como o fomento ao pluralismo e ao diálogo entre as culturas
e civilizações (ONUBR, [s.d.]).

Atuando no Brasil com o fortalecimento de museus, salvaguarda do


patrimônio nacional, promoção e proteção da diversidade cultural do
país, a Unesco também oferece atividades de formação e políticas cul-
turais em áreas como o artesanato, as indústrias culturais e o turismo
cultural. Apoiar o ensino e o desenvolvimento cultural tem sua importân-
cia como ferramenta de inclusão, como argumentado no livro Inclusão
social e cultural (2009), de Gabriela Suzana Wilder. Em sua obra, a autora
discorre sobre a relevância de se ter o museu como um lugar pedagógi-
co e de integração para a sociedade, especialmente no que diz respeito
às crianças.

Abordando ações culturais que envolvem a arte, o livro propõe


formas melhores de se trabalhar com a diversidade cultural, levan-
do em conta questões relacionadas a educação, ética e cidadania.
Desse modo, a prática artística é então vista como capaz de pro-
piciar uma “observação mais atenta do mundo, amplia a capaci-
dade crítica do educando, facilita a tomada de decisões e amplia o

Homem, cultura e sociedade 21


vocabulário das crianças, além de exercitar a transposição de linguagens”

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(EQUIPE INCLUSIVE, 2010).

Portanto, no que diz respeito ao uso da cultura como forma de inte-


grar a sociedade, é com a educação e iniciativas de cunho educativo e
pedagógico que tal objetivo pode ser alcançado. A questão, no entanto,
são as diferentes formas de se entender educação, a começar pela in-
terpretação de Saviani (1986, p. 82), que estabelece uma diferenciação
entre a educação escolar (culta, erudita) e a difusa ou popular (cultura
de massa). Por outro lado, há ainda a visão de Paulo Freire de que edu-
cação, em si, está mais próxima de ser um processo de conscientização
do que de “formatação”.

Segundo Freire, valores, atitudes, comportamentos só serão váli-


dos se estiverem correlacionados à libertação, que significa a to-
mada de consciência do sujeito sobre o seu estar aqui e agora no
mundo que o rodeia. Deve, pois, significar instrumento de promo-
ção da liberdade do indivíduo em sua relação com o mundo, para
poder, assim, interferir nele (CORRÊA, 2012, p. 123).

A educação, desse modo, como indica Corrêa (2012), encontra-se


disseminada na sociedade e passa a prestar serviço ao libertar ou ao
oprimir as pessoas pela doutrinação, por exemplo. “Tanto a educação
informal como a formal estão disseminadas na sociedade, por meio de
diferentes instituições e é por estas que realiza sua função política, ten-
do como protagonistas diferentes sujeitos sociais” (p. 123).

Por conta disso, a autora ressalta a necessidade de se diversificar e


apoiar o ensino de cultura, entendendo que a noção de diversidade cul-
tural é essencial para o problema do preconceito racial e da intolerância
contra minorias. Conforme indica Corrêa:

A aparente redescoberta da cultura como categoria-chave na re-


lação de ensino-aprendizagem manifesta-se como um dos cami-
nhos contemporâneos possíveis de incluir na escola grupos sociais
cujas culturas dela estiveram ausentes (CORRÊA, 2012, p. 137).

22 Teorias da cultura
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Isto é, nesse processo, não é importante apenas “incluir e fazer parte,


mas o significado tácito (implícito) e simbólico que essa manifestação
de grupo tem em termos daquilo que a cultura representa para a apren-
dizagem do aluno na escola” (idem).

NA PRÁTICA

Um exemplo de case sobre a relação entre cultura e inclusão social


é a dissertação Inclusão social e atividades culturais: o Centro Cultu-
ral Banco do Brasil no Rio de Janeiro (2008), de Rodolfo Muanis Fer-
nandes de Castro. A pesquisa investiga como as atividades culturais
realizadas no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro pro-
porcionaram benefícios de inclusão social, destacando a realidade
histórica do país e de seu processo de urbanização.

5 Os componentes da cultura (concepções)


Assim como Corrêa (2012) abordou, entre outras, uma visão de
educação mais formativa, isto é, voltada ao que é considerado erudi-
to, Gomes (2008) também apresenta uma interpretação do sentido de
cultura como estritamente reservado às manifestações consideradas
eruditas, como a literatura, a filosofia e a história. Essa ideia tem origem
no século XVIII, quando a tradição da filosofia idealista alemã passou a
equivaler cultura com formação, no que diz respeito à constituição e ao
desenvolvimento tanto do indivíduo quanto da sociedade.

Assim, o indivíduo tem cultura como parte de sua formação inte-


lectual e comportamental, seguindo padrões considerados supe-
riores e refinados, mas não necessariamente relacionados a clas-
ses endinheiradas. E um povo tem cultura como uma tradição que
é respeitada, cultuada e ao mesmo tempo renovada e refinada. A
literatura, a ciência, a aplicação tecnológica, mas também o aca-
tamento às leis e o comportamento comedido fariam parte dos

Homem, cultura e sociedade 23


atributos de um povo “com cultura”. Assim, haveria homens com

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mais ou menos cultura, assim como haveria nações com culturas
mais pujantes e consolidadas (GOMES, 2008, p. 34).

No entanto, é justamente a antropologia que questiona esse tipo de


definição que acaba por criar julgamentos e rótulos para manifestações
artísticas e culturais como “populares” e, nesse sentido, inferiores. Mas
tanto a música clássica e o teatro quanto danças folclóricas e música
de viola caipira são cultura, como defende o autor:

Cultura seriam as manifestações e a produção artística de um


povo. Esse sentido está dentro do interesse da antropologia, às
vezes como folclore, às vezes como tradição, às vezes como ritos
culturais e até como cultura material (GOMES, 2008, p. 34).

Uma outra concepção de cultura se dá, como já mencionado, com


base nos “hábitos e os costumes que representam e identificam um
modo de ser de um povo” (GOMES, 2008, p. 34). Isto é, como exemplifica
Gomes (2008), hábitos como comer rapadura com farinha no Nordeste
ou ir à praia aos domingos no Rio de Janeiro fazem parte de uma defini-
ção de cultura como um “todo comportamental, incluindo o emocional
e o intelectual, de um povo ou, em menor escala, de uma coletividade”
(p. 34), a qual também é interessante à antropologia como a noção de
cultura como identidade, formada por elementos simbólicos (valores,
por exemplo) compartilhados entre os indiví­duos. Por outro lado, de um
ponto de vista mais abstrato, mesmo as atitudes e comportamentos
de um povo são considerados pela disciplina que busca entender o que
está “por trás” de um sistema ou estrutura com base no estudo do com-
portamento, das ideias e dos posicionamentos dos pertencentes.

Por fim, Gomes (2008) salienta a definição geral feita pelo antropólo-
go Edward Tylor, a qual falamos no começo deste capítulo, adicionando
sua própria sugestão:

24 Teorias da cultura
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Cultura é o modo próprio de ser do homem em coletividade, que se


realiza em parte consciente, em parte inconscientemente, consti-
tuindo um sistema mais ou menos coerente de pensar, agir, fazer,
relacionar-se, posicionar-se perante o Absoluto, e, enfim, reprodu-
zir-se (GOMES, 2008, p. 36).

Nesse sentido, em que o autor engloba os predicados de cultura


como elementos de sua concepção, a começar pela linguagem como
ato de consciência e veículo de pensamento e comunicação, por onde
se estrutura e se compõe a cultura a partir de “um sistema de símbolos
convencionados como significados que são compartilhados incons-
cientemente por uma comunidade de falantes” (Gomes, 2008, p. 37).
Para entender como esse processo se dá, os próximos capítulos serão
dedicados à abordagem de como os símbolos se manifestam em pro-
duções culturais, de acordo com a visão de autores como Néstor García
Canclini, Richard Hoggart, Stuart Hall e Zygmunt Bauman.

Considerações finais
Depois de entendermos a cultura como composta por elementos e
produtos criados pelo ser humano, visitamos o conceito de raízes da
cultura apresentado por Ivan Bystrina, que entendeu o sonho e a morte,
bem como o jogo, os estados alterados de consciência e variantes psi-
copatológicas como algumas das motivações por trás do nosso fazer
cultural, seja ele desenvolvido com base na arte, nos ritos, nas religiões,
nos costumes, nos gestos, na linguagem, na culinária, etc.

Desse modo, também levamos em conta a particularidade de cada


grupo, seja ele gerado por uma identificação étnica ou nacional, por
exemplo, entendendo a cultura e seus produtos como uma forma de de-
fesa e elaboração de uma identidade social. Esses produtos, quando es-
timulados por um ponto de vista empreendedor, podem gerar desenvol-
vimento econômico e cultural na sociedade, seja com o turismo cultural

Homem, cultura e sociedade 25


ou ações pedagógicas que, por outro lado, também funcionam como

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uma maneira de integrar os membros de uma comunidade e gerar não
só mais conhecimento e apreensão da diversidade cultural como tam-
bém mais tolerância entre os indivíduos.

Por último, ainda fizemos um breve panorama sobre diferentes con-


cepções de cultura, partindo da visão generalista de Edward Tylor para
entender a multiplicidade, a fluidez e a flexibilidade das práticas e das
manifestações culturais, de modo que não se faça diferenciação entre o
que seria a alta e a baixa cultura, mas que tudo seja encarado como um
texto, uma manifestação cultural capaz de conectar as pessoas por se
utilizar de uma mesma linguagem.

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