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Leituras do Proença

Ponto 03 – Vera Helena – Introdução de capítulo sobre contratos de distribuição

Os contratos de distribuição

- Os “contratos de distribuição”, no âmbito empresarial, são aqueles utilizados entre


empresários para a colocação no mercado dos produtos ou serviços, produzidos ou prestados
por um deles. Os distribuidores são os intermediários profissionais que atuam para a colocação
do produto e a divulgação da marca alheia no mercado.

- São contratos de distribuição: a comissão, a agência, a representação comercial autônoma, a


concessão mercantil e a franquia. Todos estes são contratos típicos, ou seja, seu perfil está
delineado na lei e não se confundem com qualquer outro tipo contratual (ex: compra e venda
continuada, como acontece no contrato de fornecimento).

- Os contratos de distribuição são contratos regulamentados pela lei, que impõe que, ao lado
das cláusulas emanadas da vontade das partes, a inclusão de cláusulas obrigatórias de molde a
tutelar o distribuidor. O distribuidor deve se submeter aos preços e condições de pagamento e,
no mais das vezes, a um modelo de publicidade pré-determinada pelo fabricante.

- Os contratos de distribuição podem representar verdadeira manifestação de abuso de poder


econômico, com a opressão dos distribuidores devido a cláusulas de “metas de venda” e
apresentação de relatórios demonstrativos de vendas efetivas, sob pena de rescisão. Por conta
desse comportamento abusivo de uma parte sobre a outra, a lei é bastante rígida em sua
regulamentação.

Ponto 03 – Orlando Gomes – Contratos

Comissão

- Pelo contrato de comissão, uma parte (o comissário) se obriga a vender ou comprar bens em
seu próprio nome, mas por conta da outra parte (o comitente), em troca de certa remuneração
desta. A comissão é mandato sem representação.

- O comissário não é gestor de negócios do comitente, nem seu procurador, porque conclui os
negócios por conta deste e no seu interesse. Para que a comissão aconteça, é necessário que a
parte que realize os negócios o faça em seu próprio nome. Para alguns autores, é indispensável
que o comissário exerça também a atividade praticada de forma profissional (que seja
empresária).

- O comissário também não é representante comercial e nem agente. O Comissário contrata em


nome próprio, e o comprador ou vendedor não sabe que ele está agindo por conta de outrem,
o comitente. Na representação comercial ou agência, a contraparte sabe que o representante
ou agente age às custas e no nome de outrem.

- A atividade do comissário não é aproximar pessoas que desejam contratar, é efetivamente


celebrar, ele próprio, os contratos e assumir a responsabilidade por sua execução.

- O contrato de comissão tem caráter pessoal porque tem mecanismo semelhante à


representação (o comitente confia no comissário para fazer determinada tarefa). É possível que
a comissão seja transformada em mandato pela ratificação do comitente (se ele aparecer para
a contraparte do contrato firmado pelo comissário e falar “ei, você está contratando comigo,

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oi”). Se isso acontecer, passa o comitente a ter ação direta contra a parte que contratou com o
comissário.

Representação imperfeita

- O comissário representa os interesses do comitente, entretanto não age em nome deste, e,


por isso, não é seu representante direto. A doutrina indica haver representação indireta, ou seja,
é uma modalidade de mandato sem representação, que produz efeitos análogos aos deste
contrato, mas se distingue pelo modo de agir do representante. No mandato, o representante
age em nome do representado; na comissão, em nome próprio (o comissário não conta para a
contraparte que ele tem um contrato de comissão com o comitente).

Disciplina legislativa

- Não há disciplina legislativa extensa sobre o tema, porque ele é regulamentado pela própria
prática comercial. A lei presume o comissário autorizado a conceder prazo para pagamento na
conformidade dos usos locais, se o comitente não o proibir, ou dispuser diversamente. Além
disso, a revogação sem justa causa pode dar lugar a indenização do prejuízo sofrido pelo
comissário (se o comissário está negociando e teve gastos com isso, e o comitente revoga
unilateralmente o contrato, o comissário tem pretensão à indenização; se o comissário continua
a negociação e conclui o negócio com o terceiro apesar de ter sido revogado o contrato, ele
responde perante o comitente e perante o terceiro perante os danos causados). Não pode o
comissário se exceder no exercício da atividade, exceto quando traz vantagem ao comitente, ou
quando a conclusão do negócio não comporta retardamento (?).

Objeto

- O objeto da comissão é a aquisição ou venda de bens por conta de outrem. A compra ou venda
de bens no próprio nome, mas por conta de outra pessoa, pode ocorrer habitual ou
ocasionalmente.

Direitos e obrigações do comissário

- O comissário tem obrigação de concluir o negócio, realizando-o em seu próprio nome. Ele não
possui plena liberdade para fazê-lo, visto que age por conta do comitente. O comissário tem
direito a ser reembolsado pelas despesas que efetuou para realizar a operação e pelos eventuais
prejuízos que vier a sofrer. O comissário tem direito a remuneração fixada de acordo com os
usos comerciais da região, caso não tenha sido acordada (geralmente se calcula a remuneração
por porcentagem do valor do negócio). Se o comissário não realizar o negócio, tem ele direito à
remuneração proporcional pelo que fez.

Responsabilidade do comissário

- O comissário é responsável: (i) pelo prejuízo que der causa (1) se concluir o negócio após ter
sido revogada a autorização do comitente ou (2) se agir contrariamente às orientações do
comitente; (ii) se cometer excesso no exercício da “representação”; (iii) se não prestar contas;
(iv) se não guardar os bens com zelo; etc.

- Pela insolvência do terceiro responde o comissário somente se for manifesta ao tempo da


conclusão do negócio. Não é, porém, responsável se, na ocasião, ainda não se revelara. Não
responde, também, pelas obrigações do terceiro, salvo se tiver garantido ao comitente a
execução do negócio por parte do terceiro contraente (cláusula del credere).

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Contrato do comissário consigo mesmo

- Existe o questionamento se o comissário pode adquirir para si as coisas que deve vender – ou
seja, ao invés dele vender para terceiro, ele mesmo compra o bem. O autor indica que nada
impede que isso seja feito, situação na qual intervém no contrato uma só pessoa, que declara,
entretanto, duas vontades, a própria, como adquirente, e a que produz efeitos na esfera jurídica
da pessoa por conta de quem realiza o contrato.

- A lei, entretanto, estabelece algumas condições para que isso seja feito: precisa ser feito
mediante autorização do comitente (se o comitente fala que não, não pode, mas se não se
estabelece nenhuma cláusula no contrato sobre isso, a tendência é que pode). A autorização,
portanto, não precisa ser expressa.

- Também, mesmo que se considere a possibilidade de permissão implícita do comitente, não


se admite o autocontrato se o seu conteúdo se determina por forma que revela a existência de
conflito de interesses (o preço e o objeto devem estar muito bem definidos, ou seja, o comissário
que vai contratar consigo mesmo não deve ter nenhum poder de decidir sobre essas coisas, se
não fica com conflito de interesses e cria-se uma desproteção ao comitente).

- Se o comissário firmar contrato consigo mesmo, ele não perde o direito à remuneração (que,
na prática, vai ser um desconto que ele vai ter no pagamento da mercadoria que comprou).

Direitos e obrigações do comitente

- Obriga-se o comitente pela execução do contrato concluído pelo comissário na conformidade


daquilo que falou que queria contratar. É muito comum que, na venda de mercadorias, o
comitente transfira as mercadorias ao comissário antes da venda: situação na qual o comissário
se torna depositário de tais bens, em depósito com nome específico (consignação, o comissário
é consignatário). O comitente permanece com a propriedade desses bens, portanto.

- A doutrina majoritária indica que o comitente não tem ação contra a pessoa que contratou
com o comissário, porque a relação não foi firmada em seu nome. O comissário é formalmente
o titular do crédito, entretanto, segundo Gomes, este crédito pertence ao comitente, de modo
que faz sentido ele ter direito a ação contra o terceiro. Não é substituição processual, mas ação
por direito próprio.

- A comissão devida pelo comitente deve ser paga depois de concluído o negócio, nada
impedindo, entretanto, que seja adiantado o seu pagamento. O direito ao recebimento da
comissão não é condicionado à execução do contrato, nascendo com sua conclusão.

Cláusula del credere

- Quando no contrato de comissão constar cláusula del credere, o comissário assume a


responsabilidade de pagar o preço da mercadoria que vendeu, garantindo desse modo a
execução do contrato. Não assume propriamente um risco segurável, nem se apresenta ao
comitente como fiador da dívida contraída pelo terceiro, simplesmente contrai a obrigação de
pagá-la (seja se não conseguiu firmar contrato com terceiro, ou se o terceiro inadimpliu o
contrato firmado em comissão).

- É uma forma de garantir ao comitente que o comissário não vai assumir nenhum negócio
prejudicial, porque caso o faça, isso pode reverberar em seu patrimônio. Essa cláusula tem que
se expressa, não pode ser presumida.

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Agência ou representação comercial

- Por meio do contrato de agência, uma das partes se obriga, mediante pagamento, a promover
habitualmente, a realização por conta da outra, em determinada zona, de operações mercantis,
agenciado pedidos para esta.

- São elementos deste contrato: (i) a obrigação do agente de promover a conclusão de contratos
por conta do proponente; (ii) habitualidade do serviço; (iii) a delimitação da zona onde deve ser
prestado; (iv) direito do agente à retribuição do serviço que presta; (v) a exclusividade e a
independência de ação, o traço marcante é a autonomia na prestação do serviço.

- Não necessariamente o contrato de agência será exclusivo. É admissível que aquele que
contrata com o agente coloque outros vários agentes para a venda de suas mercadorias na
mesma zona. A regra é a exclusividade, mas isso pode ser acordado em contrário entre as partes.

- Não há subordinação hierárquica entre o agente e o preponente (até porque se tivesse esse
contrato seria uma relação de emprego). Não há subordinação no sentido do direito do trabalho,
mas há subordinação no sentido de que os encargos do agente devem ser executados conforme
as instruções do preponente, a quem deve prestar contas de sua atividade. O agente goza de
autonomia quando vai executar o trabalho pelo qual foi contratado.

Distinção com outros contratos

- A agência é diferente do mandato pela natureza da atividade desenvolvida pelo agente, pela
extensão de sua responsabilidade e pela natureza de sua colaboração, que não é ocasional. (o
estilo sintético do Orlando Gomes faz com que eu não entenda direito o que ele fala às vezes :/)

- A agência é diferente do contrato de emprego porque não existe subordinação no sentido do


direito do trabalho. O agente é trabalhador autônomo.

- A agência não é prestação de serviços porque ela é contínua, e a prestação de serviços é


pontual. (???)

- A agência é diferente da mediação, porque na agência os encargos devem ser cumpridos de


forma habitual, e não eventualmente, o que ocorre na mediação (???).

- A agência é diferente da comissão porque o comissário age em nome próprio e por conta do
comitente, enquanto que na agência, o agente não age em nome próprio e nem por conta
própria.

Figuras características

- Existem diversas áreas industriais ou comerciais que obrigatoriamente se utilizam do contrato


de agência para a venda de seus produtos. Exemplos:

a. Agente depositário: encarrega-se do armazém (depósito) do preponente ou dele


próprio, entregando a mercadoria diretamente ao comprador. Não se trata de contrato
coligado ao de depósito, é contrato distinto.
b. Agente livreiro: incumbe de promover a venda de livros por conta das editoras mediante
remuneração em determinada zona, geralmente com exclusividade.
c. Agente propagandista: comum nas indústrias farmacêuticas, é a pessoa que vai nos
consultórios médicos entregar amostras grátis e vender remédio para as farmácias.

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d. Agente cinematográfico teatral: associa-se com ator e se encarrega de promover
contratos no nome do promitente em determinada zona para a exibição de filmes ou
peças teatrais.
e. Agente esportivo: vender o atleta.

Qualificação profissional do agente

- Nas legislações que disciplinam o contrato de agência, somente se considera agente quem se
obriga a promover habitualmente negócios por conta de outrem em determinada zona. O autor
indica que a pessoa deve ser empresária. Não devem ser considerados agentes aqueles que
praticam estas atividades na qualidade de empregados.

Agentes, viajantes e pracistas

- Viajantes e pracistas fazem a mesma coisa que o agente, mas eles são empregados da empresa
que representam (possuem subordinação em relação à empresa). Os agentes estão do lado de
fora da empresa, constituem, eles mesmos, uma empresa autônoma.

Cláusula de exclusividade

- É a regra do contrato de agência (nem o preponente pode ter mais de um agente na mesma
região, nem o agente promover negócios para outro preponente – isso porque provavelmente
ele venderia o mesmo produto, e ficaria conflituoso ele vender coisas parecidas de empresas
diferentes).

- A exclusividade pode ser afastada pelas partes mediante ajuste expresso, podendo ela ser
unilateral (exclusividade para uma das partes só) ou recíproca (para as duas).

Agenciamento e distribuição

- O exercício da profissão de agente que trabalha exclusivamente para um preponente


confunde-se com a do distribuidor que se compromete a só vender os produtos de determinada
marca. Esse distribuidor não é agente, mas comerciante independente que negocia por conta
própria. Ele compra a mercadoria para revende-la com exclusividade em determinada zona,
obrigando-se o fabricante a não vendê-la a outro negociante na mesma zona.

- o autor descreve características do contrato de distribuição.

Obrigações e direitos do agente

- Surgem do contrato de agência direitos e obrigações recíprocas.

- O agente deve exercer sua atividade conforme as instruções dadas pelo preponente. A
transgressão dessas instruções constitui justa causa para a resilição do contrato.

- Cabe ao agente, também, transmitir ao preponente informações das condições do mercado e


a perspectiva de venda, além da solvabilidade da clientela e atuação dos concorrentes.

- Não necessariamente o contrato precisa ter cláusula a respeito do volume de negócios que o
agente precisa firmar.

Direito do agente à remuneração

- Pelo exercício de sua atividade, faz o agente jus à remuneração, que pode ser fixa ou variável
conforme o número de negócios que promove em nome do preponente. A remuneração deve
ser paga quando o contrato for firmado.

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Resilição do contrato

- Se o contrato for firmado por tempo determinado, a resilição somente se justifica se uma das
partes violar obrigação contraída, situação na qual são devidas pela parte inadimplente perdas
e danos. Se o contrato for firmado por tempo indeterminado, a resilição pode ser feita a
qualquer tempo, sem justa causa (se for com justa causa, são devidas perdas e danos à outra
parte; se sem justa causa, são necessários 30 dias de aviso-prévio e o pagamento de
indenização). Essa forma de lidar com os motivos de resilição com justa causa e sem é bastante
semelhante à forma feita no direito do trabalho.

- A lei brasileira enuncia quais são as justas causas que podem dar causa à resilição contratual:

a. Rescisão do contrato pelo preponente:


a. Desídia do representante no cumprimento das obrigações;
b. Prática de atos que importem descrédito comercial do representado;
c. Condenação por crime infamante;
b. Rescisão do contrato pelo agente:
a. Redução da zona de atividade;
b. Quebra da exclusividade, se prevista no contrato;
c. Prática de atos tendentes a impossibilitar o exercício regular da atividade do
representado;
d. Mora no cumprimento da obrigação de retribuir o representado.