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Processo nº _______-58.2013.814.

0301
Ação de Guarda e Alimentos
Requerente: R W DE A S, representados por sua genitora M R DA
S B M
Requerido: R DE A S

MM. Juiz:
Tratam os presentes autos de ação de promovida pelo
menor R W DE A S, representados por sua genitora M R DA S B M,
em face de R DE A S.

Consta na exordial que o Autor é filho do Requerido,


conforme certidão de nascimento juntada aos autos. Aduz que os
genitores do Requerente se separaram ainda durante a gravidez
e nunca contribuiu para o sustento do filho. Esclarece que a
responsável do menor vive da pensão previdenciária decorrente
do falecimento de seu marido no valor de R$ 1.010,48, quantia
com a qual tem que sustentar também mais dois filhos
adolescentes, frutos de seu casamento. Alega que o Requerido
trabalha como supervisor de segurança do Shopping Pátio Belém
e recebe dois mil, setecentos e quatro reais mensais. Afirma
ainda que o Requerido possui outro filho e para este presta
alimentos no valor correspondente a 20% de seus vencimentos.
Requer, ao final, sejam fixados alimentos no valor
correspondente a 20% dos vencimentos e vantagens do Requerido.

O MM. Juiz fixou alimentos provisórios nos termos do


pedido.

Realizada audiência de instrução em 08 de agosto de


2013, as partes não chegaram a consenso.

O Requerido apresentou contestação escrita,


oferecendo alimentos no valor equivalente a 10% dos seus
vencimentos. Justifica que já presta alimentos a outro filho,
no percentual de 20%, além de arcar com a mensalidade do
colégio e do curso de inglês deste.

Em réplica, a defesa do Autor sustentou que a


contestação do Réu evidencia que o mesmo pretende dar
tratamento diferenciado aos filhos.

Apenas as partes prestaram depoimento pessoal, não


sendo apresentadas testemunhas. A responsável legal do Autor
indicou as despesas que possui com o filho, apontando gastos
com fraudas, alimentação e babá. O Réu, por sua vez, reafirmou
que possui gastos com outro filho, destacando que presta
alimentos no valor de 20% de seus vencimentos e ainda paga
duzentos e sessenta reais de escola e mais cinquenta reais com

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o curso de inglês; e que no momento não tem sequer a intenção
de reduzir a pensão do outro filho.

As partes apresentaram alegações finais orais em


audiência, mantendo seus posicionamentos anteriores.

Após vieram os autos a esta Promotoria de Justiça


para exame e parecer.

Sobre os alimentos dispõe o artigo 1.694 do Código


Civil, verbis:

Art. 1.694. Podem os parentes, os cônjuges ou


companheiros pedir uns aos outros os alimentos de
que necessitem para viver de modo compatível com a
sua condição social, inclusive para atender às
necessidades de sua educação.

§ 1o Os alimentos devem ser fixados na proporção


das necessidades do reclamante e dos recursos da
pessoa obrigada.

§ 2o Os alimentos serão apenas os indispensáveis à


subsistência, quando a situação de necessidade
resultar de culpa de quem os pleiteia.

Assim, nos termos da lei civil, são pressupostos da


obrigação de prestar alimentos:

 A existência de um vínculo de
parentesco;
 A necessidade do alimentado;
 A possibilidade do alimentante;
 A proporcionalidade entre a necessidade
do alimentado e possibilidade do
alimentante.

Tratando-se os Autores de filhos menores, a


necessidade dos alimentados é presumida, ou melhor, a obrigação
alimentar para com os filhos menores e submetidos ao pátrio
poder “independe da necessidade deles” (Yussef Said Cahali, Dos
Alimentos, p. 402). Com outras palavras leciona o Desembargador
Carlos Roberto Gonçalves, verbis:

“O dever de sustentar os filhos menores é expresso


no art. 1.566, IV, do Código Civil e é enfatizado
nos arts. 1.634, I, e 229, este da Constituição.
Decorre do poder familiar e deve ser cumprido

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incondicionalmente, não concorrendo os
pressupostos da obrigação alimentar. Subsiste
independentemente do estado de necessidade do
filho, ou seja, mesmo que este disponha de bens,
recebidos por herança ou doação. Cessa quando o
filho se emancipa ou atinge a maioridade, aos 18
anos de idade. Nessas hipóteses, deixa de existir o
dever alimentar decorrente do poder familiar, mas
pode surgir a obrigação alimentar, de natureza
genérica, decorrente do parentesco (CC, art.
1.694).”
( . . . )
“É indeclinável a obrigação alimentar dos genitores
em relação aos filhos incapazes, sejam menores,
interditados ou impossibilitados de trabalhar e
perceber o suficiente para a sua subsistência em
razão de doença física ou mental. A necessidade,
nesses casos, é presumida.” (GONÇALVES, Carlos
Roberto, Direito Civil Brasileiro – Direito de
Família, volume 6, 8ª edição, editora Saraiva, São
Paulo, 2011, p. 535 e 539)

Da mesma forma, o espectro do dever alimentar entre


pais e filhos menores é mais extenso que nos demais casos
previstos em lei. Neste sentido escreve Rolf Madaleno, verbis:
“Já na solidariedade familiar entre pais e filhos
menores de dezoito anos e, portanto, ainda sob o
poder familiar, vige um dever alimentar ilimitado,
sem restrições, podendo atingir o extremo de ser
exigida a venda de bens pessoais dos pais para
assegurar, por todas as formas, o constitucional
direito à vida, e nisso todos os esforços devem ser
envidados pelos genitores para atender a toda a
sorte de necessidades dos filhos ainda menores e
incapazes.” (Rolf Madaleno, Curso de Direito de
Família, 3ª edição, editora Forense, Rio de
Janeiro, 2009, p. 274)

O cerne da questão se resume então à possibilidade


do alimentante, restando incontroverso, no entanto, que por
piores que sejam as condições financeiras (possibilidades) dos
pais, ainda assim não poderão se eximir do ônus. Assim leciona
o Desembargador gaúcho Arnaldo Rizzardo:
“De outra parte, não vinga aqui a isenção por falta
de condições dos progenitores. Por mais pobres que
eles sejam, devem contribuir com alguma parcela
para o sustento dos filhos. Fator determinante para
se obrigar é a percepção de rendimentos. O dever se
sustentar, aqui, sobrepõe-se ao direito de terem os
pais o suficiente para si. É que, diante do incapaz
de se sustentar por ser menor e não haver
desenvolvido qualquer habilidade ou capacidade,
cede o direito dos pais. Isto menos diante da
incapacidade física e material de desenvolver
algum trabalho por doença, ou idade avançada, ou
total inexistência de emprego. Não, porém, em
virtude de compromissos econômicos assumidos com

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outras pessoas, ou de total endividamento. Do
contrário, a falência do devedor, ou a penhora de
todos os seus bens, ou a insolvência civil, trariam
a isenção de qualquer responsabilidade. (Arnaldo
Rizzardo, Direito de Família, 6ª edição, editora
Forense, São Paulo, 2008, p. 764)

O Requerido possui, pelo menos, um ganho certo


devidamente comprovado nos autos, sendo bastante fácil analisar
suas possibilidades a partir deste fato provado.

O tema predominante para a solução do litígio versa


sobre a aplicação do princípio da igualdade às prestações
alimentícias.

De fato, a Constituição Federal de 1988 estabeleceu


como princípio expresso a igualdade entre todos os filhos, nos
termos do artigo 227, §6º.

A observância da igualdade das prestações


alimentícias entre os filhos do alimentante é matéria já
bastante reconhecida na jurisprudência,verbis:
AGRAVO DE INSTRUMENTO - AÇÃO DE ALIMENTOS CUMULADA
COM MODIFICAÇÃO DE GUARDA - ALIMENTOS PROVISÓRIOS -
INSURGÊNCIA COM O QUANTUM FIXADO - OBSERVÂNCIA AO
BINÔMIO NECESSIDADE E POSSIBILIDADE - ORIENTAÇÃO DO
ART. 1.694, § 1º, DO CÓDIGO CIVIL - PRINCÍPIO DA
IGUALDADE ENTRE OS FILHOS - RECURSO PARCIALMENTE
PROVIDO. "[. . .] Não apontada justificativa para
diferenciação entre os alimentos prestados aos dois
filhos e ausente a demonstração da vontade de
revisão da obrigação fixada ao filho anterior, ao
menos neste momento de cognição sumária, devem as
verbas alimentares ser equiparadas, diante do
princípio da igualdade entre os filhos (art. 227, §
6º, da CRFB/88)"(TJSC, AI n. , de Timbó, rel. Des.
Subst. Henry Petry Júnior, j. em 16-12-2008).

AÇÃO DE ALIMENTOS. VERBA ALIMENTAR PROVISORIAMENTE


ARBITRADA AO FILHO MENOR. PRETENDIDA REDUÇÃO.
ALIMENTANTE QUE JÁ PRESTA ALIMENTOS A OUTROS DOIS
FILHOS. PRINCÍPIO DA IGUALDADE ENTRE A PROLE.
REDUÇÃO DO QUANTUM FIXADO. RECURSO PARCIALMENTE
PROVIDO (AI n. , da Capital/Estreito, rela. Desa.
Maria do Rocio Luz Santa Ritta, j. em 17-2-2009).
Não havendo motivos nos autos para a
diferenciação na fixação dos alimentos, apesar da
diferença de idade verificada entre a prole, o
mais justo é a minoração dos alimentos fixados na
sentença para o mesmo patamar pago ao outro filho,
ou seja, 50% (cinquenta por cento) de um salário-
mínimo (TJSC ACv n. , de Itajaí, rel. Des. Subst.
Henry Petry Júnior, j. em 6-5-2008).

APELAÇÃO. DIREITO CIVIL. FAMÍLIA. AÇÃO DE


ALIMENTOS, CUMULADA COM GUARDA E REGULAMENTAÇÃO DE

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VISITAS. FILHA MENOR. PRINCÍPIO DA IGUALDADE. I - A
fixação dos alimentos deve atender ao binômio
necessidade do credor, que, tratando-se de menor, é
presumida, e possibilidade do alimentante. Por
força do princípio da igualdade entre os filhos,
recomendável a equivalência na fixação do quantum
alimentar, para que não haja desproporção na pensão
alimentícia devida aos filhos.(TJ-RS - AC:
70049776842 RS , Relator: Liselena Schifino Robles
Ribeiro, Data de Julgamento: 08/08/2012, Sétima
Câmara Cível, Data de Publicação: Diário da Justiça
do dia 10/08/2012)

AGRAVO DE INSTRUMENTO. ALIMENTOS. OBRIGAÇÃO DO


ALIMENTANTE COM OUTRO FILHO. PRINCÍPIO DA ISONOMIA.
REDUÇÃO DA PENSÃO ALIMENTÍCIA. Por força do
princípio da igualdade entre os filhos,
recomendável a equivalência na fixação do quantum
alimentar, para que não haja desproporção na pensão
alimentícia devida aos filhos, mostrando
recomendável a redução. Agravo de instrumento
provido, de plano. (Agravo de Instrumento Nº
70046043279, Sétima Câmara Cível, Tribunal de
Justiça do RS, Relator: Jorge Luís Dall'Agnol,
Julgado em 20/01/2012)

Ocorre, no entanto, que a igualdade jurídica


evidentemente não corresponde à igualdade matemática. Como
disse Rui Barbosa, na célebre “Oração aos Moços”, proferida
durante a formatura dos acadêmicos de 1920 da Faculdade do
Largo de São Francisco, ”a regra da igualdade não consiste
senão em aquinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em
que se desigualam”.

No caso sub examine, a pensão ao filho G foi


estabelecida muito antes do nascimento do Autor e existe grande
diferença de idade entre os menores. Tais situações certamente
justificariam a desigualdade de situações desiguais, para
assegurar a igualdade jurídica.

Não obstante, analisando por outro prisma, a postura


do Réu, tanto na defesa técnica como também em autodefesa,
deixa transparecer claramente a intenção de diferençar o
tratamento dos filhos. O próprio Requerido trouxe aos autos
prova de que despende com G mais de 25% dos seus ganhos
oficiais e não tem intenção de alterar esta realidade em
decorrência do nascimento do segundo filho. Ao filho RW oferece
apenas 10% de seus ganhos declarados.

Diante deste quadro, atende aos princípios legais de


proporcionalidade entre as possibilidades do alimentante e
necessidade do alimentado, que pelo menos a pensão pecuniária

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seja igualada, de forma que cada filho receba o valor
correspondente a 20% dos vencimentos e vantagens do pai.

Ante o exposto, manifesta-se o Ministério Público


pela procedência parcial da ação, com a fixação dos alimentos
em valor correspondente a 20% dos vencimentos e vantagens do
Requerido, excluídos os descontos obrigatórios.
Belém-PA, 23 de agosto de 2013.

Alexandre Batista dos Santos Couto Neto


5º Promotor de Justiça de Família da Capital