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CURSO SOBRE PÁRA-RAIOS

Aplicação em redes de distribuição,


subestações e linhas de transmissão

CEMIG – Belo Horizonte - MG


26 a 29 de agosto, 2008

Organização:
Franco Engenharia Ltda.

Apoio:
ÍNDICE

Tema abordado Página

1. Natureza das sobretensões, classificação dos 1


isolamentos, efeitos das sobretensões sobre os
solamentos e princípios básicos de coordenação do
isolamento
1.1 Natureza das sobretensões 1
1.1.1 Sobretensões temporárias 2
1.1.2 Sobretensões de frente lenta 5
1.1.3 Sobretensões de frente rápida 7
1.1.4 Sobretensões de frente muito rápida 8
1.2 Classificação da isolação e efeito das sobretensões sobre 9
os isolamentos
1.3 Princípios básicos de coordenação do isolamento 23
1.3.1 Método estatístico de coordenação do isolamento 24
1.3.2 Método determinístico (ou convencional) de 24
coordenação do isolamento
1.4 Referências bibliográficas 29
2 Evolução dos dispositivos de proteção contra 33
sobretensões
2.1 Centelhadores com dielétrico de ar 34
2.2 Pára-raios tipo expulsão 35
2.3 Pára-raios de Carbeto de Silício (SiC) 36
2.4 Pára-raios de Óxido de Zinco (ZnO) sem centelhadores 37
2.5 Pára-raios de Óxido de Zinco (ZnO) com centelhadores 38
2.6 Pára-raios de Óxido de Zinco ZnO com invólucro 39
polimérico
2.7 Referências bibliográficas 43
3 Aplicação de pára-raios 45

3.1 Terminologia aplicada aos pára-raios 45


3.1.1 Tensão nominal 45
3.1.2 Máxima tensão contínua de operação 45
3.1.3 Corrente de referência 45
3.1.4 Tensão de referência 46
3.1.5 Disrupção 46
3.1.6 Tensão disruptiva 46
3.1.7 Corrente de descarga 46

I
Tema abordado Página

3.1.8 Corrente de descarga nominal do pára-raios 47


3.1.9 Tensão residual 47
3.1.10 Corrente de seguimento ou corrente subseqüente 47
3.1.11 Capacidade de absorção de energia 47
3.1.12 Estabilidade térmica do pára-raios 48
3.2 Classificação dos pára-raios 48
3.2.1 Pela corrente de descarga nominal 48
3.2.2 Pela classe de descarga de linhas de transmissão 49
ou corrente de longa duração
3.2.3 Pela classe de alívio de sobrepressão ou corrente 50
suportável de falta
3.3 Característica de proteção dos pára-raios 51
3.3.1 Característica de proteção dos pára-raios com 52
centelhadores
3.3.2 Característica de proteção dos pára-raios sem 53
centelhadores
3.4 Princípio de operação dos pára-raios 54
3.4.1 Princípio de operação dos pára-raios com 55
centelhadores
3.4.2 Princípio de operação dos pára-raios sem 57
centelhadores
3.5 Critérios para seleção e aplicação dos pára-raios na 65
proteção dos sistemas elétricos
3.6 Referências bibliográficas 83
4 Pára-raios para aplicação em redes de distribuição 85
4.1 Aspectos construtivos 85
4.2 Critérios básicos para seleção dos pára-raios para redes 94
de distribuição
4.3 Análise do efeito dos cabos de ligação na proteção dos 99
equipamentos
4.4 Referências bibliográficas 103

5. Pára-raios para aplicação em subestações 105


5.1 Aspectos construtivos 106
5.1.1 Pára-raios de ZnO com invólucro de porcelana 106
5.1.2 Pára-raios de ZnO com invólucro polimérico 107
5.2 Desempenho dos pára-raios instalados em subestações 117
5.3 Critérios para a seleção e aplicação dos pára-raios para 120
subestações

II
Tema abordado Página

5.3.1 Seleção da tensão nominal 121


5.3.2 Definição da corrente de descarga nominal 123
5.3.3 Determinação da capacidade de absorção de 125
energia dos pára-raios
5.3.4 Definição da corrente suportável de curto-circuito 130
5.3.5 Condições de serviço (ambientais) 131
5.3.6 Características de proteção dos pára-raios para 131
sobretensões transitórias de frente rápida e de
frente lenta
5.3.7 Seleção ou determinação da suportabilidade 132
da isolação
5.3.8 Avaliação da coordenação do iaolamento 132
5.4 Referências bibliográficas 142
6. Descargas atmosféricas em linhas de transmissão 145
6.1 Aspectos a serem considerados no estudo da incidência 145
de descargas atmosféricas em linhas de transmissão
6.1.1 Característica das descargas e freqüência de 145
ocorrência
6.1.2 Parâmetros característicos das correntes de 149
descarga
6.2 Descargas atmosféricas em linhas de transmissão 153
6.2.1 Incidência das descargas atmosféricas diretas em 154
linhas de transmissão
6.2.2 Desempenho das linhas de transmissão devido a 156
descargas atmosféricas
6.2.2.1 Descargas incidindo diretamente sobre 157
linhas de transmissão sem cabos pára-raios
6.2.2.2 Descargas incidindo diretamente sobre 161
linhas de transmissão com cabos pára-raios
6.2.2.3 Efeito das descargas atmosféricas em caso 174
de falha de blindagem de linhas protegidas
com cabos pára-raios
6.2.2.4Tensões induzidas por descargas 174
atmosféricas incidindo nas proximidades das
linhas de transmissão e redes de distribuição
6.3 Referências bibliográficas 176
7. Métodos empregados para a melhoria do desempenho 179
das linhas de transmissão
7.1 Aumento da isolação das linhas de transmissão 180
7.2 Melhoria do sistema de aterramento 183

III
Tema abordado Página

7.3 Instalação de cabos pára-raios e/ou melhoria do ângulo 184


de blindagem
7.4 Pára-raios 185
7.5 Referências bibliográficas 189
8. Pára-raios para aplicação em linhas de transmissão 191
8.1 Histórico 191
8.2 Princípio de funcionamento dos pára-raios de linha 192
8.3 Aplicação e localização dos pára-raios 195
8.3.1 Aplicação de pára-raios em estruturas localizadas 196
em regiões com solos de elevada resistividade
8.3.2 Aplicação de pára-raios em estruturas localizadas 197
em regiões montanhosas
8.3.3 Aplicação de pára-raios em estruturas localizadas 197
próximas às subestações
8.3.4 Aplicação de pára-raios em linhas novas 197
8.3.5 Aplicação de pára-raios em linhas existentes 199
8.4 Experiência das empresas brasileiras na instalação e no 200
desempenho de pára-raios de linha
8.5 Referências bibliográficas 203
9. Ensaios em pára-raios 205
9.1 Classificação dos ensaios 205
9.1.1 Ensaios de tipo 205
9.1.2 Ensaios de rotina 205
9.1.3 Ensaios de recebimento 205
9.2 Normas técnicas aplicáveis a ensaios em pára-raios 205
9.2.1 Ensaios aplicados a pára-raios com centelhadores 207
9.2.2 Ensaios aplicados a pára-raios sem centelhadores 208
9.3Verificação das características de proteção e de 210
operação
9.3.1 Ensaios de verificação das características de 210
proteção
9.3.2 Ensaios de verificação das características de 214
operação
9.4 Ensaios aplicáveis a pára-raios poliméricos 223
9.5 Referências bibliográficas 223

IV
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
Franco Engenharia Ltda.

1 Natureza das sobretensões, classificação dos isolamentos,


efeitos das sobretensões sobre os isolamentos e princípios
básicos de coordenação do isolamento.

1.1 Natureza das sobretensões

Os sistemas elétricos estão submetidos esporadicamente a várias formas de


fenômenos transitórios, envolvendo variações súbitas de tensão e de corrente
provocadas por descargas atmosféricas, faltas no sistema ou operação de
disjuntores e chaves seccionadoras.

Os estudos de sobretensões nos sistemas elétricos têm adquirido uma maior


importância nos últimos anos, à medida que se tem elevado os níveis de tensão
dos sistemas e devido à necessidade de sistemas cada vez mais confiáveis e
econômicos.

De acordo com a Norma NBR 6939 /1/ uma sobretensão pode ser definida como
qualquer tensão entre fase e terra, ou entre fases, cujo valor de crista excede o
valor de crista deduzido da tensão máxima do equipamento (Um.√2 / √3 ou Um.√2,
respectivamente).

Entende-se por tensão máxima de um sistema, a máxima tensão de linha eficaz


que pode ser mantida em condições normais de operação, em qualquer instante e
em qualquer ponto do sistema.

A determinação das sobretensões que podem ocorrer em um sistema elétrico é de


fundamental importância, uma vez que fornece subsídios para a coordenação do
isolamento de redes de distribuição, linhas de transmissão e subestações, bem
como para a especificação dos equipamentos.

De uma maneira acadêmica, as sobretensões podem ser classificadas em dois


grupos distintos:
- Sobretensões de origem externa, provenientes de causas externas ao
sistema considerado, como por exemplo, as descargas atmosféricas que
agem diretamente sobre os sistemas elétricos ou nas suas proximidades.
- Sobretensões de origem interna, causadas por eventos dentro do sistema
em consideração, tais como curto-circuito ou manobras de equipamentos.
Os níveis das sobretensões de origem interna podem ser determinados a
partir de avaliações durante a fase projeto, que consistem em: estudar as
condições de ocorrência de curto-circuito no sistema e determinar as
possíveis sobretensões causadas pelas operações de manobra.

Essa classificação não atende, no entanto, aos interesses relacionados a


especificação dos equipamentos, sendo mais adequada a seguinte classificação
para as sobretensões, definida pela norma NBR 6939 /1/ de acordo com a forma
da sobretensão, sua duração e seu efeito sobre a isolação ou sobre o dispositivo
de proteção:

1
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
Franco Engenharia Ltda.

• Sobretensão temporária – caracterizada por uma sobretensão de freqüência


fundamental de duração relativamente longa.

Podem originar-se de faltas nos sistema, operações de chaveamento (como por


exemplo, rejeição de carga), condições de ressonância, não linearidades (ferro-
ressonância) ou por uma combinação dessas.

• Sobretensão transitória – caracterizada por uma sobretensão de curta


duração, com tempo de duração de alguns milisegundos ou menos, de natureza
oscilatória ou não oscilatória, e usualmente fortemente amortecida.

De acordo com a NBR 6939, as sobretensões transitórias apresentam a


seguinte classificação:

- Sobretensões de frente lenta: sobretensão transitória, usualmente


unidirecional, com tempo até a crista tal que 20 µs < T1 ≤ 5000 µs, e tempo
até o meio valor (na cauda) T2 ≤ 20 ms. Podem originar-se de faltas,
operações de chaveamento ou descargas atmosféricas diretas nos
condutores de linhas aéreas.

- Sobretensões de frente rápida: sobretensão transitória, usualmente


unidirecional, com tempo até a crista tal que 0,1 µs < T1 ≤ 20 µs, e tempo até
o meio valor (na cauda) T2 ≤ 300 µs. Podem originar-se de operações de
chaveamento, descargas atmosféricas ou faltas nos sistemas.

- Sobretensões de frente muito rápida: sobretensão transitória, usualmente


unidirecional, com tempo até a crista tal que T1 ≤ 0,1 µs, duração total
Tt ≤ 3 ms, e com oscilações superimpostas de freqüências
30 kHz < f < 100 MHz. Podem originar-se de faltas ou operações de
chaveamento em subestações isoladas a gás (GIS);

• Sobretensão combinada (temporária, frente lenta, frente rápida e frente


muito rápida) - consiste de duas componentes de tensão simultaneamente
aplicadas entre cada um dos terminais de fase de uma isolação fase-fase (ou
longitudinal) e a terra. É classificada pela componente de maior valor de crista.

Podem ter qualquer uma das origens mencionadas acima. Ocorrem entre as
fases de um sistema (fase-fase) ou na mesma fase entre partes separadas de
um sistema (longitudinal).

1.1.1 Sobretensões temporárias:

As sobretensões temporárias são caracterizadas por suas amplitudes, forma de


onda e duração. Todos esses parâmetros dependem da origem das sobretensões
e as amplitudes e forma de onda podem inclusive variar durante o seu período de
ocorrência.

2
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
Franco Engenharia Ltda.

As sobretensões temporárias são de natureza oscilatória, de baixa amplitude (em


geral inferior a 1,5 pu), duração relativamente longa (tempo de duração superior a
dezenas de milisegundos) e fracamente amortecida ou não amortecida. Essas
sobretensões também chamadas de sobretensões sustentadas permanecem no
sistema até que o sistema seja modificado ou que a causa que lhe deu origem
seja eliminada.

Apesar das suas amplitudes serem inferiores às demais sobretensões, as


sobretensões temporárias podem ser determinantes no projeto dos isolamentos
internos e externos e na especificação dos equipamentos, que terão de suportar a
essas sobretensões por um longo tempo. No caso dos pára-raios, por exemplo, as
sobretensões temporárias têm importância fundamental na definição da tensão
nominal do pára-raios, tomando-se como base a necessidade dos pára-raios
serem capazes de absorver a energia associada a essas sobretensões.

Para fins de estudos de coordenação do isolamento, a sobretensão temporária


representativa é considerada como tendo a forma da tensão normalizada de
freqüência fundamental de curta duração (1 minuto). Sua amplitude pode ser
definida por um valor máximo assumido, um conjunto de valores de crista ou uma
distribuição estatística completa de valores de crista. A amplitude selecionada da
sobretensão temporária representativa deve levar em conta:

- a amplitude e duração da sobretensão real em serviço;


- a característica amplitude / duração da suportabilidade a freqüência
fundamental da isolação considerada.

Se esta última característica não for conhecida, a amplitude selecionada pode ser
definida como sendo igual à máxima sobretensão real em serviço, que tenha uma
duração real de menos que um minuto, e a duração pode ser considerada como
de um minuto.

As sobretensões temporárias são geralmente causadas por:


- Faltas nos sistemas;
- Perda súbita de carga (rejeição de carga);
- Efeito ferranti;
- Ressonância e ferro-ressonância;
- Sobretensões longitudinais durante sincronização.

Em sistemas com tensões máximas de operação até 242 kV, geralmente as faltas
que ocorrem nos sistemas são as responsáveis pelas máximas amplitudes das
sobretensões temporárias. No entanto, as demais fontes de sobretensões
temporárias também devem ser levadas em consideração durante os estudos.

O tipo de falta mais comum que aparece em um sistema é o curto-circuito


monofásico. A ocorrência de uma falta fase-terra em um dado ponto do sistema
acarreta na elevação de tensão nas fases sãs, sendo as amplitudes diretamente
relacionadas com o tipo de aterramento do neutro do sistema no ponto em
consideração. A duração da sobretensão corresponde a duração da falta.
3
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
Franco Engenharia Ltda.

As amplitudes das sobretensões temporárias devido a faltas que ocorrem nos


sistemas podem ser determinadas, de forma simplificada, pela equação a seguir:

TOVSIST. = K ⋅ U max

TOVSIST. Amplitude da sobretensão no ponto considerado;


K Fator de sobretensão (fator de aterramento), que depende do tipo do
aterramento do neutro do sistema;
Umax Amplitude da máxima tensão fase-terra de operação do sistema
antes da ocorrência da falta = Ûm / √3

O fator de aterramento consiste na relação entre o máximo valor eficaz de tensão


fase-terra de freqüência fundamental em uma fase sã, durante uma falta fase-terra
afetando uma ou mais fases em qualquer ponto do sistema, e o valor eficaz de
tensão fase-terra de freqüência fundamental que seria obtido no mesmo local na
ausência de tal falta, ou seja, em condições de regime permanente.

Desprezando o efeito da resistência de falta, o fator de aterramento para uma falta


fase-terra pode ser definido por:

 3⋅ Z0 
 Z1 
K = 0,5 ⋅  ± j⋅ 3 
 2 + 0
Z 
 Z1 

Z0 Impedância de seqüência zero do sistema → Z0 = R0 + jX0


Z1 Impedância de seqüência positiva do sistema → Z1 = R1 + jX1

Para sistemas com neutro efetivamente aterrado (0 ≤ X0 / X1 ≤ 3 e 0 ≤ R0 / X1 ≤ 1)


o fator de aterramento é inferior a 1,4, ou seja, as sobretensões temporárias
atingem no máximo 80% da tensão fase-fase do sistema. Nesta condição, a
tensão nas fases sãs será:

TOVSIST. ≤ 1,4 . Umax.

A duração das sobretensões devido a uma falta fase-terra para um sistema


efetivamente aterrado é normalmente inferior a 0,2 segundos para proteção de
linha e 1 segundo no caso de proteção de retaguarda “Back-up”.

Para sistemas com neutro isolado as sobretensões nas fases sãs podem exceder
à tensão fase-fase do sistema, ou seja, o fator de aterramento é de 1,73 ou acima.
Isto se deve ao fato de que esse tipo de sistema é acoplado à terra através de
suas capacitâncias parasitas. Nesta condição a tensão nas fases sãs será:

TOVSIST. = 1,73 . Umax. , ou acima.

4
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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A duração da falta pode ser de poucos segundos a algumas horas, em função da


corrente de falta e da característica e sensibilidade dos dispositivos de detecção /
abertura da falta.

Existe ainda a condição de sistemas com o neutro aterrado por impedância. Neste
caso, as sobretensões nas fases sãs podem atingir a tensão fase-fase do sistema.

A Tabela 1.1 apresenta os valores típicos normalmente utilizados para o fator de


aterramento em função do tipo de aterramento do neutro do sistema.

Tabela 1.1 - Fatores de aterramento – Valores típicos

Tipo de Sistema Caracterização Fator de aterramento K


A Multi aterrado ≤ 1,30
B Eficazmente aterrado ≤ 1,40
C Não eficazmente aterrado 1,73
D Isolado ≥ 1,73 (1,90)

Maiores informações referentes às sobretensões temporárias, tais como suas


causas e características principais, podem ser encontradas em literaturas
específicas /2/, /3/, /4/.

1.1.2 Sobretensões de frente lenta

As sobretensões de frente lenta se caracterizam como sobretensões entre fase-


terra ou entre fases, em um dado ponto do sistema, devido a operação de um
equipamento de manobra, uma falta ou a outra causa qualquer, cuja forma de
onda apresente tempos até a crista com durações entre algumas dezenas e
alguns milhares de microsegundos e tempos até o meio valor (tempos de cauda)
com durações da mesma ordem de magnitude. Essas sobretensões em geral são
fortemente amortecidas.

As sobretensões de frente lenta normalmente se originam de:

- Energização e religamento de linhas;


- Aplicação e eliminação de faltas;
- Rejeição de carga;
- Energização de transformadores;
- Chaveamento de correntes capacitivas e indutivas;
- Descargas atmosféricas nos condutores fase de linhas aéreas, incidindo em
um ponto distante do ponto considerado no estudo.

Em muitos dos casos, a amplitude e duração dessas sobretensões dependem dos


parâmetros do sistema, da sua configuração e das condições em que o sistema se
encontra no instante da manobra. Assim, para uma determinada condição de
manobra pode-se obter diferentes valores de sobretensões, uma vez que esse

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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valor dependerá não somente da dispersão nos instantes de fechamento dos


contatos do disjuntor, como também do instante da onda de tensão onde ocorreu
o fechamento.

Esta variação significativa na amplitude das sobretensões faz com que seja
extremamente difícil se prever o valor máximo de sobretensão que irá ocorrer
para uma manobra específica. Daí advém o conceito de sobretensão de manobra
estatística, definida como uma sobretensão de manobra, aplicada a um dado
equipamento, devido a uma perturbação específica no sistema, cujo valor de crista
tem uma probabilidade estatística de 2% de ser excedido.

U2% = U50 . ( 1 + 2,05 . σ )

No caso de descargas atmosféricas incidindo nos condutores fase de linhas


aéreas, sobretensões de frente lenta ocorrem quando a corrente de descarga que
incide sobre o condutor é suficientemente baixa para não provocar a descarga
disruptiva da isolação da linha e quando a descarga ocorre a uma distância
suficientemente longa do ponto considerado no estudo, de modo a produzir uma
sobretensão de menor amplitude e de frente lenta, devido aos efeitos de
atenuação e distorção na onda de tensão.

Para fins de estudos de coordenação do isolamento, a forma de onda da tensão


representativa é o impulso de manobra normalizado utilizado nos ensaios,
apresentando tempo até a crista de 250 µs e tempo até o meio valor de 2500 µs. A
forma de onda típica é apresentada na Figura 1.1 /5/.

Figura 1.1 – Forma de onda utilizada para ensaios de impulso de manobra

Maiores informações referentes às sobretensões de frente lenta, suas causas e


características principais, podem ser obtidas nas referências /2/, /3/ e /4/.

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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1.1.3 Sobretensões de frente rápida:

As sobretensões de frente rápida se caracterizam como sobretensões entre fase-


terra ou entre fases, em um dado ponto do sistema, devido a uma descarga
atmosférica ou a outra causa qualquer, cuja forma de onda apresente tempos até
a crista com durações entre 0,1 µs a 20 µs e tempos até o meio valor (tempos de
cauda) até 300 µs. Essas sobretensões em geral são fortemente amortecidas.

Essas sobretensões normalmente se originam de:

- Sobretensões devido às descargas atmosféricas incidindo diretamente nos


condutores fase de linhas aéreas, nos cabos pára-raios ou nas estruturas
de linhas de transmissão ou por descargas a terra ou em estruturas
próximas à linha considerada (sobretensôes induzidas);
- Sobretensões devido às descargas atmosféricas afetando as subestações;
- Operações de manobra e faltas.

O efeito das sobretensões devido a incidência de descargas atmosféricas nas


subestações e suas taxas de ocorrência dependem basicamente:

- do desempenho das linhas aéreas conectadas a subestação frente às


descargas atmosféricas;
- do arranjo físico da subestação, seu tamanho e, em particular, do número de
linhas conectadas a ela;
- do valor instantâneo da tensão de operação no momento da descarga.

A severidade dessas sobretensões nos equipamentos de uma subestação é


determinada pela combinação desses três fatores e diversas etapas são
necessárias para assegurar uma adequada proteção /2/.

Sobretensões de manobra de frente rápida ocorrem quando o equipamento é


conectado ou desconectado do sistema através de conexões curtas,
principalmente em subestações. Sobretensões de frente rápida podem também
ocorrer quando da ocorrência de uma descarga disruptiva na isolação externa de
um equipamento. Tais eventos podem causar solicitações particularmente severas
sobre isolações internas próximas (por exemplo, sobre enrolamentos) /2/.

Como a ocorrência simultânea de sobretensôes de manobra de frente rápida em


mais de uma fase é altamente improvável, pode-se assumir a não existência de
sobretensões entre fases com amplitudes maiores do que as que ocorrem entre
fase e terra.

Para fins de estudos de coordenação do isolamento, a forma de onda da tensão


representativa é o impulso atmosférico normalizado utilizado nos ensaios,
apresentando tempo até a crista de 1,2 µs, e tempo até o meio valor de 50 µs. A
forma de onda típica é apresentada na Figura 1.2 /5/.

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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A amplitude representativa é dada ou como um valor máximo assumido ou por


uma distribuição de probabilidade de valores de crista em função da taxa de
retorno das sobretensões.

Figura 1.2 – Forma de onda utilizada para ensaios de impulso atmosférico

Maiores informações referentes às sobretensões de frente rápida, suas causas e


características principais, podem ser obtidas nas referências /2/, /3/ e /4/.

1.1.4 Sobretensões de frente muito rápida:

Sobretensões de frente muito rápida são decorrentes da operação de


seccionadores ou de faltas dentro de uma subestação isolada a SF6 (GIS), devido
à disrupção rápida da isolação gasosa e à propagação praticamente não
amortecida do surto dentro da GIS. Suas amplitudes são rapidamente amortecidas
ao sair da GIS, por exemplo, nas buchas, e seus tempos de frente são geralmente
aumentados, atingindo a faixa dos tempos representativos de sobretensões de
frente rápida. Sobretensões de frente muito rápida podem também ocorrer em
transformadores secos de média tensão com conexões curtas aos equipamentos
de manobra.

A forma da sobretensão é caracterizada por um rápido aumento da tensão até um


valor próximo ao seu valor de crista, resultando num tempo de frente geralmente
inferior a 0,1 µs. Para operações de seccionadores esta frente é tipicamente
seguida por uma oscilação com freqüências acima de 1 MHz. A duração dessas
sobretensões é inferior a 3 ms, podendo ocorrer várias vezes. A amplitude da
sobretensão depende do projeto construtivo do seccionador e da configuração da
subestação.

Nos terminais de equipamentos conectados a uma GIS através de uma linha


aérea de transmissão de alta tensão curta, as oscilações das sobretensões

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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apresentam freqüências na faixa de 0,2 MHz a 2,0 MHz e amplitudes de até 1,5
vezes a tensão de descarga. Por outro lado, o conteúdo de freqüências das
sobretensões pode ainda causar grandes solicitações internas em enrolamentos
de transformadores por causa de ressonâncias em parte dos enrolamentos.

A representação desse tipo de sobretensão em laboratório ainda não pode ser


estabelecida, uma vez que padronizações adequadas não estão ainda
disponíveis.

Detalhes sobre as classes e formas das solicitações de tensão, definidas pela


NBR 6939 são apresentados na Figura 1.3 /1/.

Figura 1.3 – Representação das classes e formas das solicitações de tensão

1.2 Classificação da isolação e efeito das sobretensões sobre os


isolamentos

Os isolamentos utilizados nos sistemas elétricos abrangem os espaçamentos de


ar, os isolamentos sólidos, os imersos em liquido isolante e os gases, podendo ser
classificados como sendo para uso externo ou interno.

Os materiais isolantes de equipamentos utilizados nos sistemas elétricos têm um


comportamento que depende do tipo de solicitação elétrica aplicada /4/, sendo o
processo de disrupção do meio dielétrico influenciado por vários fatores /2/:

- a amplitude, forma do impulso e a polaridade da tensão aplicada;


- a distribuição do campo elétrico na isolação: campo elétrico uniforme ou não
uniforme, eletrodos adjacentes ao espaçamento considerado e seu potencial;
- o tipo de isolante utilizado, se gasoso, líquido, sólido ou compósito;
- o conteúdo de impurezas e a presença de não-homogeneidades localizadas;

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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- o estado físico da isolação: temperatura, pressão e outras condições


ambientais, solicitações mecânicas, etc.;
- a deformação da isolação sob solicitação, os efeitos químicos, os efeitos de
superfície dos condutores, etc.

O comportamento da isolação ante aos ensaios dielétricos normalizados é o


indicador disponível sobre a sua adequação às sobretensôes que ocorrem ao
longo dos sistemas elétricos. No entanto, essas sobretensões apresentam um
comportamento no tempo diferente dos valores normalizados, fato que exige o
desenvolvimento de técnicas que permitam uma melhor avaliação do
comportamento da isolação diante de solicitações não padronizadas /4/.

Para o estudo de sobretensões há a necessidade de se diferenciar o


comportamento dos materiais isolantes, pois o efeito das sobretensões sobre os
isolamentos dos sistemas elétricos / equipamentos depende basicamente das
características de suportabilidade e de regeneração da isolação. A importância
desta classificação pode ser observada quando se consideram os critérios
probabilísticos de projeto e os critérios de ensaio.

A falha de isolamento em um transformador, por exemplo, resulta na


indisponibilidade do transformador e na necessidade de sua retirada do sistema.
Já em uma linha de transmissão, a descarga disruptiva no isolamento externo de
uma cadeia de isoladores acarreta no desligamento transitório ou permanente do
sistema, sem, no entanto provocar danos permanentes à cadeia.

Desta forma, há a necessidade de se diferenciar os tipos de isolação em função


do seu comportamento frente a uma descarga. Dentro desse conceito, as
isolações podem ser classificadas, de acordo com a NBR 6939 /1/, como isolação
auto-recuperante ou isolação não auto-recuperante.

As isolações auto-recuperantes (também conhecidas como auto-regenerativas),


são aquelas que recuperam integralmente as suas propriedades isolantes após a
ocorrência de uma descarga disruptiva provocada pela aplicação de uma tensão
de ensaio. Os isolamentos externos em ar, alguns isolamentos internos em gás e
alguns isolamentos líquidos apresentam propriedades auto-recuperantes.

Em um sistema elétrico, esse tipo de isolação pode ser encontrado nas superfícies
externas de cadeias de isoladores; parte externa das buchas e transformadores,
bem como nos isolamentos em ar, correspondentes aos espaçamentos entre
condutores, condutor-estrutura e barramento-estrutura.

A descarga disruptiva num espaçamento em ar é fortemente dependente da


configuração do espaçamento, da polaridade e da forma da onda da tensão
aplicada. Além disso, as condições atmosféricas relativas afetam a rigidez
dielétrica, independentemente da forma e da polaridade da solicitação de tensão
aplicada. O comportamento associado dos parâmetros atmosféricos implica em
diferentes suportabilidades do isolamento em ar, assumindo um caráter de
natureza probabilística.
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Em geral, a tensão disruptiva para uma dada distância no ar cresce com a


densidade ou umidade do ar. No entanto, quando a umidade relativa excede cerca
de 80%, o comportamento da tensão disruptiva se torna irregular, em especial
quando a descarga ocorre ao longo da superfície isolante /5/.

Desta forma, as características da rigidez dielétrica do ar, provenientes de


medições em laboratório são referidas às condições atmosféricas normalizadas de
referência, definidas na NBR 6939 /5/:

- temperatura (t0): 20°C;


- pressão (b0): 101,3 kPa (1013 mbar);
- umidade absoluta (h0): 11 g/m3.

Com base nos parâmetros normalizados é determinado o fator de correção do


isolamento, mais conhecido como fator de correção atmosférico, conforme
equação abaixo:
K = K1 ⋅ K 2

K é o fator de correção atmosférico;


K1 se refere ao fator de correção para a densidade do ar;
K2 se refere ao fator de correção para a umidade.

Os procedimentos para obtenção do fator de correção dependem da Norma


considerada. A Norma NBR 6939 /5/ considera o seguinte procedimento:

K1 = (δ )
m

δ corresponde a densidade relativa do ar:

 b 273 + t 
δ =  ⋅ 0

 b0 273 + t 

b0 e t0 correspondem a pressão e temperatura normalizadas, respectivamente;


b e t correspondem a pressão e a temperatura medidas no laboratório;
m expoente extraído da NBR 6936.

K 2 = (K )
W

K parâmetro que depende do tipo da tensão de ensaio, sendo que para


aplicações práticas pode ser obtido como uma função de relação da
umidade absoluta h e da densidade relativa do ar.

h
K=
δ

w expoente extraído da NBR 6936.


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As isolações não auto-recuperantes são aquelas que perdem parcialmente ou não


recuperam integralmente as suas propriedades isolantes após a ocorrência de
uma descarga disruptiva provocada pela aplicação de uma tensão de ensaio, ou
seja, após uma descarga ocorre a danificação parcial ou total das suas
propriedades dielétricas. Os dielétricos sólidos apresentam propriedades não
recuperantes.

A isolação não auto-recuperante é normalmente uma parte interna dos


equipamentos de um sistema de potência e consiste de uma combinação de
diferentes tipos de materiais sólidos, líquidos ou gasosos. Sua finalidade é prover
a separação entre diferentes elementos condutores sem que haja falhas quando
submetidas a condições operativas.

Equipamentos importantes, tais como transformadores de distribuição e de força,


parte interna de transformadores de corrente e de potencial, entre outros,
apresentam esse tipo de isolamento.

É importante ressaltar que as definições acima se aplicam somente quando a


descarga disruptiva é causada pela aplicação de uma tensão de ensaio durante
um ensaio dielétrico. Descargas disruptivas que ocorrem nos sistemas podem
fazer com que uma isolação auto-recuperante perca parcialmente, ou
completamente as suas propriedades isolantes originais.

O comportamento de suportabilidade de uma isolação frente às sobretensões


apresenta, em geral, uma natureza aleatória. Uma isolação submetida a uma
solicitação dielétrica devido a uma sobretensão poderá apresentar descarga.
Portanto, é possível associar o comportamento do material isolante à
probabilidade de falha da isolação. Ao se considerar sobretensões de mesma
forma de onda, porém com diferentes amplitudes, é possível associar para cada
amplitude Ui uma probabilidade de falha da isolação P(Ui).

Quando essa probabilidade depende somente do valor da tensão de ensaio Ui, o


comportamento da isolação pode ser completamente representado por uma
função P (U), definida como função probabilidade de descarga disruptiva da
isolação, conseqüência dos processos físicos que ocorrem quando a descarga se
desenvolve.
F (u ) = P(u ≤ U ) = ∫ f (u )du
u

−∞

Para aplicações práticas, esta função pode ser aproximada utilizando-se uma
expressão matemática dependente de pelo menos dois parâmetros, usualmente a
tensão de descarga disruptiva a 50% (U50) e o desvio padrão z /5/.

Exemplos típicos dessa função são derivados das funções densidade de


probabilidade de Gauss (ou Normal), de Weibull ou de Gumbel. Para os mesmos
parâmetros de U50 e z, essas funções podem ser consideradas equivalentes
quando p está na faixa de 0,02 a 0,98 /5/.

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A distribuição normal é a mais importante das distribuições contínuas, pois muitas


variáveis aleatórias de ocorrência natural ou de processos práticos obedecem a
esta distribuição. Suas características fundamentais são a média e o desvio
padrão. Para essa distribuição, a função densidade de probabilidade tem a forma:

1  ( x − µ )2  (− ∞〈 x〈∞ )
f (u , µ ,σ ) = ⋅ exp − 

σ 2π  2σ 2

Na prática se deseja calcular probabilidades para diferentes valores de µ e σ. Para
isso, a variável X cuja distribuição é N(µ,σ2) é transformada numa forma
padronizada Z com distribuição N(0,1) (distribuição normal padrão) pois tal
distribuição é tabelada. A quantidade z é dada por:

x−µ
z= 
 σ 

e a função densidade de probabilidade toma a forma:

1  − z2 
f (z ) = ⋅ exp 
2π  2 

Figura 1.4 – Função densidade de probabilidade normal reduzida

A função probabilidade de descarga disruptiva da isolação pode ser obtida por:

 1 
2
z u

F (u ) = P(u ≤ U ) = 0,5 − F ( z ) = 0,5 −  ⋅ ∫ e 2 du 
 2.π 0 
 

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A Figura 1.5 apresenta detalhes da curva de probabilidade de descarga disruptiva


da isolação.

Figura 1.5 – Curva de probabilidade de descarga da isolação

Para isolações auto-recuperantes, os parâmetros U50 e z e o tipo da função de


probabilidade de descarga disruptiva p(U) podem ser determinados através da
realização de ensaios elétricos, onde é realizado um número elevado de
aplicações de tensão, desde que durante esses ensaios, as características do
corpo-de-prova não variem de maneira significativa ou que, quando os ensaios
são executados em vários corpos-de-prova de um mesmo tipo, esses não
possuam variações apreciáveis em suas características isolantes. A partir da
obtenção desses parâmetros é possível estabelecer a probabilidade de descarga
disruptiva da isolação.

Dois métodos de ensaios têm sido usualmente utilizados:

- Método dos níveis múltiplos – Classe 1 pela NBR 6936:

Este método consiste em aplicar sobre o isolamento uma quantidade N (pelo


menos dez) de impulsos em cada um dos níveis de tensão de ensaio Ui,
mantendo-se a forma de onda definida. A variação da amplitude entre os níveis de
tensão ∆U deve ser aproximadamente igual ao desvio padrão σ.

Para cada amplitude de tensão Ui devem ser aplicadas N solicitações. A


probabilidade de descarga disruptiva do isolamento para cada solicitação, poderá
ser definida pela relação n/N, onde n corresponde ao número de descargas
disruptivas verificadas no isolamento para uma dada solicitação. Quanto maior o
número de aplicações N, mais precisos serão os resultados obtidos. A partir dos
resultados obtidos é traçada em um papel adequado, uma reta que melhor
represente esses pontos, determinando-se dessa forma, o valor da tensão com
50% de probabilidade de ocorrência de descarga disruptiva.

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- Método de acréscimo e decréscimo – Classe 2 pela NBR 6936

Neste método também conhecido como “Up and Down”, são efetuadas várias
séries de m aplicações de tensão com mesma forma de onda e valor de crista em
diferentes níveis de tensão Ui. De acordo com o resultado da série de aplicações
precedentes, o nível de tensão Ui para cada série de aplicações deve ser
acrescido ou reduzido, em relação ao nível anterior, de um valor ∆U.

Dois procedimentos têm sido normalmente utilizados: o procedimento de


acréscimo e decréscimo suportável e o procedimento de acréscimo e decréscimo
disruptivo. O primeiro é utilizado para a determinação de níveis de tensão
correspondentes a baixas probabilidades de descargas, enquanto que o segundo
é utilizado para elevadas probabilidades de descarga /5/.

Durante o ensaio pelo procedimento de acréscimo e decréscimo suportável, o


nível de tensão Ui é aumentado se não ocorrer nenhuma descarga disruptiva em
uma série de m aplicações do nível anterior. Por outro lado, o nível de tensão Ui é
reduzido quando da primeira ocorrência de descarga disruptiva no nível anterior.

O procedimento de acréscimo e decréscimo suportável estima o valor Up para


uma probabilidade de descarga disruptiva p dada por:

p = 1 − (0,5)
1
m

Em um ensaio pelo procedimento de acréscimo e decréscimo disruptivo, aumenta-


se o próximo nível de tensão Ui quando da primeira ocorrência de uma aplicação
que não resulte em descarga no nível anterior, ou reduz-se o próximo nível de
tensão Ui se todas as aplicações do nível anterior resultarem em descarga
disruptiva. Para este procedimento, se obtém a estimativa de Up para uma
probabilidade de descarga disruptiva p maior do que 50%, considerando a
expressão abaixo:
p = (0,5)
1
m

Como m é um número inteiro, apenas tensões correspondentes a valores


discretos de probabilidade de descarga disruptiva podem ser determinadas /5/. A
NBR 6936 apresenta uma tabela exemplificando o número de aplicações m
necessárias para se obter diferentes probabilidades de descarga disruptiva p.
Algumas dessas informações estão apresentadas na Tabela 1.2 abaixo:

Tabela 1.2 – Número de aplicações m para uma probabilidade de descarga p

Número de aplicações m por série 70 34 7 1


Procedimento suportável - p 0,01 0,02 0,10 0,50
Procedimento disruptivo - p 0,99 0,98 0,90 0,50

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Quando m =1, os dois procedimentos são coincidentes e correspondem ao


método de acréscimo e decréscimo com 50% de probabilidade de descarga
disruptiva. Neste caso, se após uma aplicação de tensão Ui não ocorrer descarga
disruptiva no isolamento, a próxima aplicação terá um valor de tensão Ui + ∆U,
que corresponde ao degrau de tensão aproximadamente igual ao desvio-padrão σ.
Se não ocorrer descarga disruptiva na tensão Ui a próxima solicitação deverá
apresentar uma amplitude Ui - ∆U. O mesmo procedimento deverá se repetir para
as demais aplicações, devendo ser aplicadas pelo menos 20 solicitações de
tensão.

O valor de tensão com 50% de probabilidade de descarga disruptiva (U50) e seu


respectivo desvio padrão σ, podem ser obtidos a partir das equações abaixo:

U 50 =
∑ n ⋅U
v v
±
∆U
∑n v 2

  ∑ (nv ⋅ U v )2 
∑ nv ⋅ U v −  
2

1,62   ∑ nt 
δ = ⋅ + 0,047 ⋅ ∆U
∆U ∑ nt
nv Número de descargas ou não descargas, dependendo qual o menor
∆U Degrau de tensão utilizado durante o ensaio

O sinal da equação para a determinação de U50 é negativo quando o cálculo se


baseia em descargas e positivo em caso contrário.

De acordo com a NBR 6936, o valor de tensão com 50% de probabilidade de


descarga disruptiva (U50) pode ser obtido por:

U 50 =
∑ n ⋅U v v

∑n v

Nv.Uv corresponde ao número de aplicações n à tensão Ui

A Norma NBR considera um desvio padrão de 3% para impulsos atmosféricos e


de 6% para impulsos de manobra.

Exemplo 1:

Procedimento para a determinação da tensão crítica de descarga (tensão com


50% de probabilidade de descarga) para impulso atmosférico em um isolador
polimérico, aplicado a sistemas com tensão nominal de 230 kV, pelo método de
acréscimos e decréscimos.

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Os valores obtidos durante o ensaio estão apresentados na Tabela 1.3 abaixo:

Tabela 1.3 – Resultados obtidos durante o ensaio

Aplicação Polaridade positiva Polaridade negativa


Uens (kV) descarga não desc. Uens (kV) descarga não desc.
1 1507 X 1557 X
2 1462 X 1510 X
3 1507 X 1559 X
4 1462 X 1512 X
5 1416 X 1557 X
6 1462 X 1512 X
7 1507 X 1557 X
8 1462 X 1513 X
9 1507 X 1557 X
10 1462 X 1513 X
11 1507 X 1557 X
12 1462 X 1512 X
13 1417 X 1557 X
14 1462 X 1513 X
15 1507 X 1467 X
16 1462 X 1513 X
17 1507 X 1560 X
18 1462 X 1513 X
19 1417 X 1557 X
20 1462 X 1513 X
21 1507 X 1559 X
22 1462 X 1513 X
23 1507 X 1560 X
24 1462 X 1512 X
25 1507 X 1560 X
26 1461 X 1513 X
27 1417 X 1559 X
28 1462 X 1513 X
29 1417 X 1468 X
30 1462 X 1513 X

1416 0 5 1467 0 2
1462 5 10 1512 2 13
1508 10 0 1557 13 0

A partir dos valores apresentados na tabela obtêm-se os valores de tensão com


50% de probabilidade de descarga disruptiva de 1469,7 kV e 1528,5 kV, para as
polaridades positiva e negativa, respectivamente. Esses valores devem ser
corrigidos para as condições atmosféricas normalizadas, considerando os
procedimentos anteriormente descritos.

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Para isolações não auto-recuperantes, não é viável economicamente definir-se a


probabilidade de descarga disruptiva através de ensaios elétricos.

Para esse tipo de isolação, a suportabilidade elétrica pode ser alterada devido a
dois fatores: o primeiro, em virtude dos ciclos térmicos e mecânicos que alteram a
composição física e química dos materiais isolantes, tendendo a reduzir a
suportabilidade, que deve ser, portanto projetada a partir de ensaios de
envelhecimento acelerado. O segundo fator corresponde a uma excessiva tensão
em um determinado ponto específico da isolação, resultando em um processo de
ionização sustentado que pode acarretar uma falha localizada na isolação e
posterior dano total a isolação.

Desta forma, uma isolação não auto-recuperante deve ser projetada de modo que
a tensão de início de ionização em pontos críticos seja bastante superior à
máxima solicitação a que a isolação possa estar submetida sob condições de
regime normal de operação /3/.

Uma vez conhecida a probabilidade de 50% de descarga disruptiva de uma


isolação, é possível se obter uma dada probabilidade (p) de suportabilidade dessa
isolação, para uma determinada solicitação de tensão, a partir da equação
mostrada abaixo:

U P = U 50 ⋅ (1 − Z ⋅ σ )

UP Tensão suportável da isolação para uma probabilidade p;


U50 Tensão com 50% de probabilidade de descarga disruptiva;
Z Valor obtido da Tabela A.1, apresentada no Anexo A /6/;
σ Desvio padrão, o qual depende praticamente do tipo de solicitação, sendo
considerado 3% para impulsos atmosféricos e 6% para impulsos de
manobra.

Com base nessa equação é possível definir alguns conceitos de suportabilidade,


fundamentais para a seleção dos pára-raios e para o estudo de coordenação do
isolamento:

- Tensão Crítica de Descarga do isolamento (U50):

Corresponde a amplitude de tensão, para uma determinada forma de onda, que


aplicada a um determinado tipo de isolação tem 50% de probabilidade de provocar
a falha dessa isolação. Para avaliação de riscos de falha de uma isolação, é
conveniente expressar as curvas de probabilidade de descarga em termos da sua
tensão crítica de descarga.

Uma curva típica da tensão crítica de descarga de um dielétrico em função do tipo


de solicitação é apresentada na Figura 1.6 /7/.

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Figura 1.6 – Característica ‘tensão crítica de descarga x tempo”

- Tensão suportável assumida convencional de impulso atmosférico


(ou de impulso de manobra):

Valor de crista especificado de uma tensão de impulso atmosférico (ou de


manobra), para o qual o número de descargas disruptivas tolerado é zero, ou seja,
não deve ocorrer descarga disruptiva na isolação submetida a um número
determinado de aplicações, em condições especificadas. Este conceito é aplicável
somente a isolações não auto-recuperantes.

U CONV. = U 50 ⋅ (1 − 3 ⋅ δ )

UCONV. Tensão suportável assumida convencional de impulso atmosférico (ou


de impulso de manobra)
σ Desvio padrão

- Tensão suportável estatística de impulso atmosférico (ou impulso de


manobra):

Valor de crista de uma tensão de ensaio de impulso atmosférico (ou de manobra),


para o qual a probabilidade de ocorrerem descargas disruptivas na isolação é de
10%, ou seja, a probabilidade de suportabilidade da isolação é de 90%. Esse
conceito é aplicável a isolações auto-recuperantes.

U CONV. = U 50 ⋅ (1 − 1,29 ⋅ δ )

UEST Tensão suportável estatística de impulso atmosférico (ou de manobra)


σ Desvio padrão

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A Figura 1.7 apresenta detalhes da curva de probabilidade de suportabilidade da


isolação considerando a tensão suportável convencional (U0,13) e a tensão
suportável assumida (U10) de impulso /3/.

Figura 1.7 - Curvas de probabilidade de suportabilidade da isolação

Os valores de tensão correspondentes às tensões suportáveis assumida


convencional e estatística para impulsos atmosféricos e de manobra são
geralmente definidas como o nível de isolamento a impulso atmosférico ou de
manobra, respectivamente.

Desta forma, podemos considerar as seguintes definições:

TSNIA Tensão suportável nominal para impulso atmosférico (estatística ou


convencional)
TSNIM Tensão suportável nominal para impulso de manobra (estatística ou
convencional)

Os valores de crista das tensões suportáveis normalizados de impulso atmosférico


e de manobra são definidos pela NBR 6939 em função das tensões máximas dos
equipamentos.

Exemplo 2:

A partir dos resultados obtidos no exemplo 1, determinar as tensões suportáveis


estatísticas de impulso atmosférico do isolador para as polaridades positivas e
negativas.

Considere os fatores de correção devido às condições atmosféricas de 0,95 e 0,96


para as polaridades positiva e negativa, respectivamente.

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Os valores obtidos para a tensão crítica de descarga do isolador nas polaridades


positiva e negativa foram de 1469,7 kV e de 1528,5 kV, respectivamente.
Considerando o fator de correção devido às condições atmosféricas, os valores de
tensão crítica de descarga corrigidos são de 1547 kV para a polaridade positiva e
de 1592,2 kV para a polaridade negativa.

Considerando o desvio padrão de 3% para impulsos atmosféricos:

U10 (+ ) = U 50 ⋅ (1 − 1,29 ⋅ δ ) = U 50 ⋅ (1 − 0,0387 ) = U 50 ⋅ 0,9613 = 1487,1kV

U10 (− ) = U 50 ⋅ (1 − 1,29 ⋅ δ ) = U 50 ⋅ (1 − 0,0387 ) = U 50 ⋅ 0,9613 = 1530,6kV

Exemplo 3:

Calcular o risco de falha de um equipamento com isolação não auto-recuperante


apresentando uma tensão suportável assumida convencional para impulso de
manobra de 1050 kV, com σ = 6%, em condições atmosféricas padronizadas, para
uma sobretensão de 2,9 pu em um sistema de 460 kV.

Para uma isolação não auto-recuperante:

U CO = U 50 ⋅ (1 − 3 ⋅ δ ) = U 50 ⋅ (1 − 0,18) = U 50 ⋅ 0,82

UCONV. = 1050 kV ⇒ U50 = 1281 kV

Uma sobretensão de 2,9 p.u. equivale a: 2,9 x ( 460 . √2 / √3 ) = 1090 kV

1090 = 1281 . ( 1 – Z . 0,06 ) ⇒ 0,06 . Z = 1 – (1090 / 1281) ⇒ Z = 2,49

Da Tabela A.1, para Z = 2,49 → F(2,49) = 1 – (0,5 + 0,4936) = 0,0064

A probabilidade de descarga disruptiva na isolação para uma sobretensão de


manobra de 2,9 p.u. será de 0,64%.

- Tensão suportável normalizada de freqüência fundamental de curta


duração:

Valor eficaz especificado da tensão de freqüência fundamental, que um


equipamento deve suportar em condições de ensaio especificadas e durante um
período de tempo igual a 1 minuto.

Os valores eficazes das tensões suportáveis normalizados de freqüência


fundamental de curta duração são definidos pela NBR 6939, em função das
tensões máximas dos equipamentos.

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- Faixas para a tensão máxima do equipamento:

A NBR 6939 define as tensões máximas normalizadas dos equipamentos, as


quais são divididas em duas faixas:

- Faixa 1: Superior a 1,0 kV e igual ou inferior a 245 kV.


- Faixa 2: Superior a 245 kV.

A faixa 1 abrange os sistemas de distribuição e de transmissão. Os diferentes


aspectos operacionais devem, no entanto, serem levados em consideração na
seleção do nível de isolamento nominal do equipamento.

Para sistemas situados na faixa 1, o principal risco para os equipamentos advém


das descargas atmosféricas diretas, indiretas e induzidas nas redes de distribuição
e linhas de transmissão aéreas conectadas. Em sistemas com cabos não
conectados a linhas aéreas, as sobretensões devido a faltas ou operações de
manobra têm maior probabilidade de ocorrência. Em casos raros, entretanto,
sobretensões de origem atmosférica induzidas podem também ser geradas.

Para sistemas situados na faixa 2, em adição aos fatores da faixa 1, sobretensões


de manobra tornam-se fenômenos importantes, aumentando sua importância para
sistemas com tensões mais elevadas.

De acordo com a NBR 6939, o nível de isolamento normalizado do equipamento é


definido pelas seguintes tensões suportáveis normalizadas:

• Para equipamentos na Faixa 1:

- Tensão suportável normalizada de impulso atmosférico, e


- Tensão suportável normalizada de freqüência fundamental de curta duração;

• Para equipamentos na Faixa 2:

- Tensão suportável normalizada de impulso de manobra, e


- Tensão suportável normalizada de impulso atmosférico;

Os níveis de isolamento normalizados definidos pela NBR 6939, estão


apresentados nas Tabelas A.2 e A.3 do Anexo A.

É importante salientar que a característica de suportabilidade de um material


isolante é dependente das condições ambientais e da altitude. As características
dielétricas de um isolante se reduzem para altitudes superiores a 1.000 metros,
podendo-se obter o fator de correção para a altitude a partir da seguinte equação:

m.( H −1000 )

FCORREÇÃO = e 8150

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H Altitude da instalação em relação ao nível do mar;


m expoente que depende do tipo de solicitação: m=1 para tensões de impulso
atmosférico e de freqüência fundamental para espaçamentos em ar e
isoladores limpos; m é variável para impulsos de manobra.

Maiores informações referentes a isolação dos equipamentos e o efeito das


solicitações de tensão sobre os isolamentos podem ser obtidos em /1/ e /2/.

1.3 Princípios básicos de coordenação do isolamento

Os transformadores e demais equipamentos do sistema devem suportar as


sobretensões que podem ocorrer nos sistemas elétricos, de modo a permitir que
esses realizem a sua função de transportar energia de forma contínua, confiável e
econômica. Para tal, é necessário que as características de isolação dos
equipamentos e das redes elétricas sejam compatíveis com as sobretensões
encontradas no sistema.

A norma NBR 6939 /1/ define a coordenação do isolamento como um conjunto de


procedimentos utilizados na seleção de equipamentos elétricos, tendo-se em vista
as tensões que podem se manifestar no sistema e levando-se em conta as
características dos dispositivos de proteção, de modo a reduzir a níveis econômico
e operacionalmente aceitáveis, a probabilidade de danos aos equipamentos e/ou
interrupções do fornecimento de energia, causadas por aquelas tensões.

Em outras palavras, a coordenação do isolamento é um processo de correlação


da suportabilidade dielétrica dos equipamentos elétricos com as sobretensões
esperadas e as características dos equipamentos para proteção contra surtos. A
coordenação de isolamento envolve a determinação das sobretensões aos quais
as redes de distribuição, linhas de transmissão e equipamentos no interior da
subestação estão submetidos, seguido da seleção adequada das suportabilidades
elétricas e das distâncias de isolamento, levando-se em consideração as
características dos dispositivos de proteção disponíveis.

Existem dois métodos em uso para se definir a coordenação do isolamento em


função das sobretensões transitórias: o método determinístico (ou convencional) e
o método estatístico. No entanto, muitos dos procedimentos aplicados consistem
em uma combinação de ambos métodos. Por exemplo, alguns fatores utilizados
no método determinístico foram derivados de considerações estatísticas, assim
como algumas variações estatísticas têm sido desprezadas no método estatístico.

Devido a extensão e complexidade do tema, nesta seção serão abordados


somente os princípios básicos de coordenação do isolamento, considerando os
aspectos referentes a interação entre os pára-raios e os equipamentos protegidos.
Informações mais detalhadas sobre os procedimentos para a coordenação do
isolamento de linhas de transmissão, redes e subestações podem ser obtidas nas
referências /2/, /3/ e /4/.

23
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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1.3.1 Método estatístico de coordenação do isolamento /2/

O método estatístico tenta quantificar o risco de falha através de uma análise


numérica de natureza estatística das sobretensões e da suportabilidade elétrica da
isolação, para ser utilizado como índice de segurança na determinação da
isolação.

Esse método é baseado na freqüência de ocorrência de uma origem específica;


na distribuição da probabilidade de ocorrência de sobretensões devido a esta
origem; e na probabilidade de descarga da isolação.

Alternativamente, o risco de falha pode ser determinado combinando a


sobretensão e o cálculo de probabilidade de descarga simultaneamente, surto por
surto, levando em conta a natureza estatística das sobretensões e das descargas
disruptivas na isolação por procedimentos adequados, por exemplo, usando
método de Monte Carlo. Repetindo os cálculos para diferentes tipos de isolações e
para diferentes estados da rede, pode-se determinar a taxa de falha total do
sistema devido a ocorrência de descargas disruptivas na isolação.

Assim, a aplicação da coordenação do isolamento estatística dá a possibilidade de


estimar a freqüência das falhas diretamente como uma função dos aspectos de
projeto do sistema considerado. Em princípio, mesmo a otimização do isolamento
pode ser possível, se os custos das falhas puderem ser relacionados aos
diferentes tipos de ocorrência. Na prática isto é muito difícil de ser realizado devido
a dificuldades de se avaliar as conseqüências mesmo para falhas da isolação em
diferentes modos de operação do sistema e devido à incerteza do custo da
energia não suprida. Assim, é usualmente melhor sobre dimensionar ligeiramente
a isolação do sistema do que otimizá-la. O projeto da isolação do sistema baseia-
se então na comparação dos riscos correspondentes às diferentes alternativas.

A aplicação desse método é mais apropriada à isolação auto-recuperante, na qual


sua suportabilidade estatística pode ser determinada através das descargas
disruptivas.

1.3.2 Método determinístico (ou convencional) de coordenação do


isolamento

O método determinístico é normalmente aplicado quando não se dispõe de


nenhuma informação estatística (obtida mediante ensaios) sobre as taxas de
falhas esperadas para o equipamento durante a sua operação /2/.

Este método consiste no dimensionamento dos isolamentos de maneira que esses


apresentem níveis de suportabilidade mínimos superiores às máximas
sobretensões possíveis de serem impostas ao isolamento, através da utilização de
uma margem de segurança. O nível de isolamento é determinado de forma a se
obter uma margem suficiente entre a máxima sobretensão esperada e a
suportabilidade mínima da isolação.

24
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Essa margem, definida como margem de proteção, determina um fator de


segurança que não deve ser inferior a um valor adequado, geralmente
considerado em função da experiência em instalações existentes, e destina-se a
cobrir as incertezas na determinação das sobretensões incluindo o efeito –
distância; os desvios nas características do isolamento dos equipamentos; e as
características dos dispositivos de proteção; incertezas essas que podem resultar
em falha parcial ou total do equipamento / sistema.

Tensão suportável mínima do isolamento


MP = -----------------------------------------------------------------
Máxima sobretensão imposta ao isolamento

Pela equação acima fica evidente a necessidade de se reduzir o efeito das


máximas sobretensões que são impostas aos isolamentos dos equipamentos e
sistemas, garantindo assim um aumento na confiabilidade desses.

A Tabela 1.4 apresenta as margens de proteção mínimas usualmente


recomendadas entre o nível de suportabilidade da isolação e as máximas tensões
impostas ao isolamento:

Tabela 1.4 – Margens de proteção recomendadas

Tensão máxima de Sobretensões Sobretensões de


operação (kVef) atmosféricas manobra
1 a 245 1,20 -----
> 245 1,25 1,15

Dentre os possíveis dispositivos atualmente utilizados para reduzir o efeito das


sobretensões sobre os equipamentos instalados nas redes elétricas o pára-raios
tem se mostrado como o mais eficaz. Os pára-raios têm como função principal
limitar as sobretensões transitórias elevadas que aparecem nos terminais dos
equipamentos / sistemas por ele protegidos a níveis pré-estabelecidos, de modo
que após a ocorrência de uma sobretensão os isolamentos desses equipamentos
não fiquem com as suas características comprometidas.

O método determinístico vem sendo amplamente utilizado para o


dimensionamento da isolação dos equipamentos instalados nos sistemas elétricos
em todas as faixas de tensão, em especial em sistemas até 245 kV. O princípio
básico deste método é apresentado na Figura 1.8.

A curva superior em azul indica a característica de suportabilidade mínima de uma


isolação qualquer, enquanto que a curva inferior em preto indica as características
do dispositivo de proteção, no caso um pára-raios. A curva pontilhada em
vermelho estabelece o limite para as máximas sobretensões que podem aparecer
na isolação de modo a garantir a margem de proteção mínima recomendada.

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Figura 1.8 - Coordenação do isolamento em equipamentos: método determinístico

O entendimento dessa figura é de fundamental importância para se definir a


localização correta dos pára-raios, objetivando a proteção adequada de um
sistema elétrico, especialmente no caso de pára-raios instalados em subestações,

Geralmente, a tensão máxima imposta ao isolamento do equipamento protegido é


superior a tensão nos terminais dos pára-raios, devido à presença de oscilações
nos cabos de ligação e da distância elétrica entre os pára-raios e o equipamento
protegido. Esta elevação de tensão ocorre pelo efeito dos cabos de conexão e
pelo efeito da distância de separação, e será discutida em seções posteriores.

Desta forma, para uma determinação precisa das tensões nos terminais dos
equipamentos protegidos deve-se incluir o efeito da distância de separação entre
o(s) pára-raios e o(s) equipamento(s) protegido(s), quando esse for significativo.

Existem três relações de proteção que estabelecem, de forma simplificada, uma


relação entre os níveis de proteção dos pára-raios e os níveis de suportabilidade
do equipamento protegido, conforme mostram as equações abaixo. Essas
equações são válidas quando os efeitos de separação entre o pára-raios e o
equipamento protegido, bem como o efeito das conexões de ligação do pára-raios
podem ser considerados desprezíveis. Neste caso, as sobretensões máximas na
isolação correspondem aos níveis de proteção oferecidos pelos pára-raios.

TSIACF
MP1 =
NPFO

TSIACF Tensão suportável de impulso atmosférico cortada do equipamento


NPFO Nível de proteção do pára-raios para frente de onda

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TSNIA
MP2 =
NPIA
TSNIA Tensão suportável nominal de impulso atmosférico do equipamento
NPIA Nível de proteção do pára-raios para impulso atmosférico

TSNIM
MP3 =
NPIM
TSNIM Tensão suportável nominal de impulso de manobra do equipamento
NPIM Nível de proteção do pára-raios para impulso de manobra

Em estudos de sobretensões de manobra é possível determinar a máxima


sobretensão imposta ao sistema, a partir da distribuição das sobretensões de
manobra registradas ao longo da linha (V50) e o seu respectivo desvio padrão σV.
Esta máxima sobretensão corresponde a um valor de tensão de crista com uma
probabilidade estatística de 2% de ser excedida.

VMAX. = V50 ⋅ (1 + 2,05 ⋅ σ V )

Utilizando-se uma margem de proteção de 1,15 entre a sobretensão máxima e a


tensão suportável mínima da isolação, haverá uma probabilidade muito pequena
de descarga no isolamento, sendo possível determinar a máxima tensão crítica de
descarga do isolamento, conforme mostrado a seguir:

Tensão suportável mínima do isolamento


MP = 1,15 = -------------------------------------------------------------
V50 (1 + 2,05 . σV )

Considerando um isolamento auto-recuperante, a tensão suportável mínima do


isolamento será dada por:

U SUP = U 50 ⋅ (1 − 1,29 ⋅ δ )

Portanto:
1,15 ⋅ V50 ⋅ (1 + 2,05 ⋅ σ V )
U 50 =
(1 − 1,29 ⋅ σ )
U50 é a máxima tensão crítica de descarga de um isolamento auto-recuperante
para atender as condições de coordenação do isolamento.

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Exemplo 4:

Utilizar o método determinístico de coordenação do isolamento para determinar as


margens de proteção oferecidas pelo pára-raios a um equipamento com tensão
máxima de operação de 145 kV, apresentando uma tensão suportável para
impulso atmosférico de 550 kV.

Dados do pára-raios: Tensão nominal: 120 kV


Tensão residual para impulso íngreme - 10 kA: 344 kV
Tensão residual p/ impulso atmosférico - 10 kA: 324 kV
Tensão residual p/ impulso de manobra - 0,5 kA: 244 kV

Desprezar os efeitos dos cabos de conexão e da distância de separação entre o


pára-raios e o equipamento a ser protegido.

Determinação da margem de proteção 1 (ondas de frente íngreme)

TSIACF = 1,15 . TSNIA → TSIACF = 1,15 . 550 → TSIACF = 633 kV


NPFO = 344 kV

TSIACF 633
MP1 = MP1 = MP1 = 1,84 = 84%
NPFO 344

Determinação da margem de proteção 2 (impulso atmosférico normalizado)

TSNIA = 550 kV NPIA = 324 kV

TSNIA 550
MP2 = MP2 = MP2 = 1,70 = 70%
NPIA 324

Determinação da margem de proteção 3 (impulsos de manobra)

TSNIM = 0,83 . TSNIA → TSNIM = 0,83 . 550 → TSNIM = 457 kV


NPIM = 244 kV

TSNIM 457
MP3 = MP3 = MP3 = 1,87 = 87%
NPIM 244

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1.4 Referências bibliográficas

/1/ NBR 6939 / 2000 – “Coordenação do Isolamento - Procedimento”


1o Projeto de Revisão da NBR 6939 / 1987.
/2/ NBR 8186 / 2001 – “Guia de Aplicação de Coordenação do Isolamento”
1o Projeto de Revisão da NBR 8186 – 1983.
/3/ Dájuz, Ary. Et alii, “Transitórios Elétricos e Coordenação de Isolamento –
Aplicação em Sistemas de Potência de Alta Tensão”, Furnas Centrais
Elétricas, Universidade Federal Fluminense / EDUFF, 1987.
/4/ Zanetta Junior, L. C., “Transitórios Eletromagnéticos em Sistemas de
Potência”, Editora da Universidade de São Paulo – Edusp, 2003.
/5/ NBR 6936 / 1992 – “Técnicas de ensaios elétricos em alta tensão –
Procedimento.
/6/ Lapponi, J. C., “Estatística usando EXCEL 5 e 7”, Lapponi Treinamento e
Editora Ltda., 1997.
/7/ Lucas, J. R., “High Voltage Engineering”, University of Moratuwa, Sri Lanka,
Lectures 2001.
/8/ Dájuz, Ary. Et alii, “Equipamentos Elétricos – Especificação e Aplicação em
Subestações de Alta Tensão”, Furnas Centrais Elétricas, Universidade
Federal Fluminense / EDUFF, 1985
/9/ Harper, G. E., “Técnicas Computacionales en Ingenieria de Alta tensión”,
Editora Limusa, 1987.
/10/ Gervás, F., “Guia para la Coordinación de Aislamiento en Subestaciones de
Alta Tension”, 1981.
/11/ Chagas, F. A. & Verdolin, R. T., “Análise Estatística dos Resultados dos
Ensaios de Alta Tensão”, I Encontro Nacional sobre Técnicas de Ensaios de
Alta Tensão, São Paulo, Novembro – 1987.

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Tabela A.1 – Área submetida pela curva normal reduzida de 0 a Z /6/.

Z 0 0,01 0,02 0,03 0,04 0,05 0,06 0,07 0,08 0,09


0,00 0,5000 0,5040 0,5080 0,5120 0,5160 0,5199 0,5239 0,5279 0,5319 0,5359
0,10 0,5398 0,5438 0,5478 0,5517 0,5557 0,5596 0,5636 0,5675 0,5714 0,5753
0,20 0,5793 0,5832 0,5871 0,5910 0,5948 0,5987 0,6026 0,6064 0,6103 0,6141
0,30 0,6179 0,6217 0,6255 0,6293 0,6331 0,6368 0,6406 0,6443 0,6480 0,6517
0,40 0,6554 0,6591 0,6628 0,6664 0,6700 0,6736 0,6772 0,6808 0,6844 0,6879
0,50 0,6915 0,6950 0,6985 0,7019 0,7054 0,7088 0,7123 0,7157 0,7190 0,7224
0,60 0,7257 0,7291 0,7324 0,7357 0,7389 0,7422 0,7454 0,7486 0,7517 0,7549
0,70 0,7580 0,7611 0,7642 0,7673 0,7704 0,7734 0,7764 0,7794 0,7823 0,7852
0,80 0,7881 0,7910 0,7939 0,7967 0,7995 0,8023 0,8051 0,8078 0,8106 0,8133
0,90 0,8159 0,8186 0,8212 0,8238 0,8264 0,8289 0,8315 0,8340 0,8365 0,8389
1,00 0,8413 0,8438 0,8461 0,8485 0,8508 0,8531 0,8554 0,8577 0,8599 0,8621
1,10 0,8643 0,8665 0,8686 0,8708 0,8729 0,8749 0,8770 0,8790 0,8810 0,8830
1,20 0,8849 0,8869 0,8888 0,8907 0,8925 0,8944 0,8962 0,8980 0,8997 0,9015
1,30 0,9032 0,9049 0,9066 0,9082 0,9099 0,9115 0,9131 0,9147 0,9162 0,9177
1,40 0,9192 0,9207 0,9222 0,9236 0,9251 0,9265 0,9279 0,9292 0,9306 0,9319
1,50 0,9332 0,9345 0,9357 0,9370 0,9382 0,9394 0,9406 0,9418 0,9429 0,9441
1,60 0,9452 0,9463 0,9474 0,9484 0,9495 0,9505 0,9515 0,9525 0,9535 0,9545
1,70 0,9554 0,9564 0,9573 0,9582 0,9591 0,9599 0,9608 0,9616 0,9625 0,9633
1,80 0,9641 0,9649 0,9656 0,9664 0,9671 0,9678 0,9686 0,9693 0,9699 0,9706
1,90 0,9713 0,9719 0,9726 0,9732 0,9738 0,9744 0,9750 0,9756 0,9761 0,9767
2,00 0,9772 0,9778 0,9783 0,9788 0,9793 0,9798 0,9803 0,9808 0,9812 0,9817
2,10 0,9821 0,9826 0,9830 0,9834 0,9838 0,9842 0,9846 0,9850 0,9854 0,9857
2,20 0,9861 0,9864 0,9868 0,9871 0,9875 0,9878 0,9881 0,9884 0,9887 0,9890
2,30 0,9893 0,9896 0,9898 0,9901 0,9904 0,9906 0,9909 0,9911 0,9913 0,9916
2,40 0,9918 0,9920 0,9922 0,9925 0,9927 0,9929 0,9931 0,9932 0,9934 0,9936
2,50 0,9938 0,9940 0,9941 0,9943 0,9945 0,9946 0,9948 0,9949 0,9951 0,9952
2,60 0,9953 0,9955 0,9956 0,9957 0,9959 0,9960 0,9961 0,9962 0,9963 0,9964
2,70 0,9965 0,9966 0,9967 0,9968 0,9969 0,9970 0,9971 0,9972 0,9973 0,9974
2,80 0,9974 0,9975 0,9976 0,9977 0,9977 0,9978 0,9979 0,9979 0,9980 0,9981
2,90 0,9981 0,9982 0,9982 0,9983 0,9984 0,9984 0,9985 0,9985 0,9986 0,9986
3,00 0,9987 0,9987 0,9987 0,9988 0,9988 0,9989 0,9989 0,9989 0,9990 0,9990
3,10 0,9990 0,9991 0,9991 0,9991 0,9992 0,9992 0,9992 0,9992 0,9993 0,9993
3,20 0,9993 0,9993 0,9994 0,9994 0,9994 0,9994 0,9994 0,9995 0,9995 0,9995
3,30 0,9995 0,9995 0,9995 0,9996 0,9996 0,9996 0,9996 0,9996 0,9996 0,9997
3,40 0,9997 0,9997 0,9997 0,9997 0,9997 0,9997 0,9997 0,9997 0,9997 0,9998
3,50 0,9998 0,9998 0,9998 0,9998 0,9998 0,9998 0,9998 0,9998 0,9998 0,9998
3,60 0,9998 0,9998 0,9999 0,9999 0,9999 0,9999 0,9999 0,9999 0,9999 0,9999
3,70 0,9999 0,9999 0,9999 0,9999 0,9999 0,9999 0,9999 0,9999 0,9999 0,9999
3,80 0,9999 0,9999 0,9999 0,9999 0,9999 0,9999 0,9999 0,9999 0,9999 0,9999
3,90 1,0000 1,0000 1,0000 1,0000 1,0000 1,0000 1,0000 1,0000 1,0000 1,0000
4,00 1,0000 1,0000 1,0000 1,0000 1,0000 1,0000 1,0000 1,0000 1,0000 1,0000

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Tabela A.2 Níveis de isolamento normalizados para 1 kV < Um ≤ 245 kV /1/

Tensão máxima do Tensão suportável normalizada Tensão suportável normalizada


equipamento de freqüência fundamental de de impulso atmosférico
Um curta duração
[kVeficaz] [kVeficaz] [kVcrista]
0,6* (nota 1) 4* -
1,2* 10 30*
20
3,6 10
40
40
7,2 20
60
60
12 28 75
95
95
15* 34*
110*
75
17,5 38
95
95
24 50 125
145
145
36 70 170
200*
52 95 250
325
72,5 140
350*
92,4* 150* 380*
185 450
123 (185) 450
230 550
145 (185) (450)
230 550
275 650
170 (230) (550)
275 650
325 750
245 (275) (650)
(325) (750)
360 850
395 950
460 1050
NOTAS
1 O nível de isolamento correspondente à Um = 0,6 kV só é aplicável a secundário de transformador, cujo
primário tem Um superior a 1 kV.
2 Se os valores entre parêntesis forem considerados insuficientes para provar que as tensões suportáveis fase-
fase especificadas são satisfeitas, ensaios adicionais de suportabilidade fase-fase são necessários.
* Indica valores não constantes na IEC 60071-1.

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Tabela A.3 – Níveis de isolamento normalizados para Um > 245 kV /1/

Tensão suportável normalizada de impulso de manobra Tensão


Tensão máxima Isolação suportável
do equipamento longitudinal Fase-terra normalizada de
Fase-fase
Um (nota 1) (relação para o impulso
valor de crista atmosférico
[kVeficaz] [kVcrista] fase-terra) [kVcrista]
[kVcrista]

850
300 750 750 1,50
950
950
750 850 1,50
1050
950
362 850 850 1,50
1050
1050
850 950 1,50
1175
1050
420 850 850 1,60
1175
1175
950 950 1,50
1300
1300
420/460* 950 1050 1,50
1425
1175
525 950 950 1,70
1300
1300
525/550* 950 1050 1,60
1425
1425
950 1175 1,50
1550
1550
550* 950 1300 1,50
1675
1675
765 1175 1300 1,70
1800
1800
765/800* 1175 1425 1,70
1950
1950
1175 1550 1,60
2100
NOTAS
1 Valor da componente do impulso do ensaio combinado aplicável.
2 A introdução de Um 1050 kV e 1200 kV e das tensões suportáveis associadas estão sob consideração.
* Indica valores não constantes na IEC 60071-1.

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2 Evolução dos dispositivos de proteção contra sobretensões


A função básica dos dispositivos de proteção contra sobretensões é a de reduzir
as amplitudes das sobretensões transitórias nos terminais dos equipamentos ou
dos sistemas protegidos a níveis pré-estabelecidos e operacionalmente aceitáveis,
de modo que após a ocorrência destas solicitações a isolação dos equipamentos
ou dos sistemas protegidos não fique comprometida.

Dentre os dispositivos existentes para este fim, os pára-raios têm se mostrado


geralmente como os mais eficazes e efetivos.

Os pára-raios quando corretamente selecionados e aplicados possibilitam uma


redução nos custos dos demais equipamentos, uma vez que a isolação dos
equipamentos constitui uma parcela significativa no custo final de um
equipamento, especialmente àqueles aplicados em sistemas de alta e extra alta
tensões.

É possível definir um pára-raios ideal como sendo um dispositivo de proteção


contra sobretensões que apresente as seguintes características:

- Uma impedância infinita entre os seus terminais em condições de regime


permanente do sistema, ou seja, comportar-se como um circuito aberto até a
ocorrência de uma sobretensão no sistema;

- Ter a capacidade instantânea de entrar em condução quando da ocorrência de


uma sobretensão com valor prospectivo próximo ao da tensão nominal do
sistema, mantendo esse nível de tensão de início de condução durante toda a
ocorrência da sobretensão;

- Parar de conduzir, ou seja, retornar a condição de circuito aberto assim que a


tensão do sistema retornar ao seu estado inicial.

Tal operação não deveria causar nenhum distúrbio ou degradação ao sistema ou


ao próprio dispositivo de proteção.

No entanto, os pára-raios atualmente disponíveis não têm capacidade de atender


plenamente a nenhum dos requisitos do pára-raios ideal, apresentado acima.

Atualmente a tecnologia mais aprimorada e próxima de um pára-raios ideal é


representada pelo pára-raios de Óxido de Zinco (ZnO) sem centelhadores, os
quais representam o estado da arte de uma longa seqüência de
desenvolvimentos e aperfeiçoamentos sucessivos que teve início nos
centelhadores a ar, ainda hoje utilizados em algumas aplicações específicas.

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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2.1 Centelhadores com dielétrico de ar

O primeiro dispositivo utilizado como pára-raios foi um simples centelhador,


denominado de centelhador tipo “chifre”, instalado entre a fase e o terra nas
terminações de linha e equipamentos importantes, e que utilizava como meio
dielétrico o próprio ar.

Esse dispositivo, entretanto, apresenta alguns pontos negativos à sua utilização,


sendo as suas principais desvantagens:

- A forte influência das suas características disruptivas com as condições


atmosféricas;
- A incapacidade de extinguir na maioria das aplicações o arco elétrico de
baixa impedância formado quando da sua disrupção, ocasionando a
passagem da corrente de curto-circuito do sistema, corrente essa que será
mantida até que a proteção contra sobrecorrentes atue e a falta seja
eliminada pelo sistema de proteção;
- Durante a operação do centelhador, há um corte brusco da tensão
disruptiva (elevado efeito dv/dt), que ocasiona uma solicitação muito severa
na isolação entre espiras dos enrolamentos de transformadores e reatores;
- A elevada corrente de arco produz uma rápida erosão dos eletrodos dos
centelhadores, ocasionando uma variação progressiva nos seus níveis de
proteção.

Detalhes construtivos dos centelhadores com dielétrico de ar, aplicados em redes


de distribuição, são apresentados na Figura 2.1.

Figura 2.1 – Detalhes construtivos dos centelhadores tipo “chifre”

Outro fator crítico para os primeiros projetos de centelhadores, apresentado na


Figura 2.1 (a) é a disrupção acidental provocada pela “queda” de pássaros,
provocando um curto-circuito no sistema seguido pelo seu desligamento.

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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De modo a evitar desligamentos “acidentais”, um novo projeto de centelhador foi


desenvolvido, onde uma haste metálica foi instalada no ponto central do
centelhador, Figura 2.1 (b). A distância (d/2) entre a haste central e a extremidade
do centelhador deve ser dimensionada de maneira a garantir a suportabilidade
dielétrica a freqüência fundamental. Desta forma, a “queda” acidental de pássaros
não provoca a disrupção do centelhador evitando, desta forma, a ocorrência de
curto-circuitos acidentais. Devido a sua simplicidade e ao baixo custo, este tipo de
centelhador ainda hoje é utilizado em aplicações menos críticas, tais como em
redes rurais longas.

Centelhadores com dielétrico de ar também têm sido utilizados por algumas


empresas concessionárias de energia elétrica na entrada de subestações com
tensões nominais até 138 kV. Nesta aplicação, a distância entre os centelhadores
deve ser ajustada para operar somente em situações transitórias quando o
disjuntor da subestação estiver em condição aberta. Detalhes de montagem de um
centelhador aplicado na entrada de uma subestação de 138 kV são apresentados
na Figura 2.2.

Figura 2.2 - Detalhes de montagem de um centelhador


para aplicação na entrada de subestações

2.2 Pára-raios tipo expulsão

Devido aos problemas encontrados com o uso de centelhadores a ar surgiram, por


volta de 1920, os primeiros pára-raios do tipo expulsão. Estes eram constituídos
basicamente por dois centelhadores montados em um tubo isolante e conectados
em série. Uma vez que os dois centelhadores possuíam diferentes espaçamentos

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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e eram constituídos por diferentes materiais dielétricos, não existia uma


distribuição uniforme de tensão entre esses, e o início da disrupção era sempre
determinado pelo centelhador montado na parte superior do pára-raios. Com a
disrupção do centelhador superior, toda a tensão passava a ser aplicada sobre o
centelhador inferior, que iniciava o processo de formação do arco no seu
dielétrico, constituído por um material fibroso com a propriedade básica de gerar
gases que provocavam a deionização do arco, provocando a interrupção da
corrente de freqüência fundamental de forma natural quando da passagem da
corrente pelo zero.

O princípio de funcionamento do pára-raios de expulsão é o mesmo atualmente


adotado para os elos fusíveis de expulsão e chaves corta-circuito. A sua principal
desvantagem era a vida útil pequena, limitada a durabilidade do material utilizado
para a deionização do arco elétrico.

2.3 Pára-raios de Carbeto de Silício (SiC)

Os pára-raios do tipo expulsão tiveram uma vida muito curta, sendo substituídos
pelos pára-raios tipo “válvula”, os quais foram desenvolvidos em paralelo com os
pára-raios tipo expulsão e acabaram por substituí-los totalmente. Estes pára-raios
eram formados basicamente por centelhadores montados em série com resistores
não-lineares (denominados nas normas ANSI como elementos válvula). Vários
tipos de materiais foram originariamente empregados para a confecção dos
resistores não-lineares, tais como Hidróxido de Alumínio, Óxido de Ferro e Sulfeto
de Chumbo.

Posteriormente, foram desenvolvidos resistores não-lineares de Carbeto de Silício


(SiC) formado a partir dos cristais de Carbeto de Silício. Estes pára-raios, ainda
hoje utilizados nos sistema elétricos, apresentam um conjunto de centelhadores
montados em série os blocos de resistores não-lineares de SiC.

Neste tipo de pára-raios os centelhadores apresentam duas funções: (a) "isolar" o


pára-raios do sistema sob condições de regime permanente, uma vez que sem a
presença dos centelhadores os elementos de SiC apresentam, sob condições
normais de operação, uma elevada amplitude de corrente de freqüência
fundamental, provocando perdas apreciáveis e um aquecimento excessivo nos
resistores não-lineares de SiC, fato que ocasionaria a sua falha em poucos ciclos;
(b) auxiliar na extinção da corrente subsequente que flui através dos elementos
não-lineares quando da proximidade do zero ou da sua passagem pelo zero,
dependendo do projeto construtivo do centelhador.

Projetos mais modernos, aplicados a pára-raios classe distribuição utilizam


centelhadores parcialmente ativos, formados por resistores equalizadores,
utilizados para minimizar o efeito de distribuição não uniforme de tensão ao longo
dos centelhadores, especialmente em condições de ambientes poluídos. Projetos
de centelhadores mais complexos foram aplicados a pára-raios classe estação.

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Apesar das melhorias sucessivas, a presença dos centelhadores na montagem


dos pára-raios tornou-se indesejável, principalmente devido aos fatores
apresentados abaixo:

- A montagem dos centelhadores é feita geralmente de forma “artesanal”


propiciando erros de montagem, detectados somente quando da inspeção
através de ensaios de rotina;
- Dispersões significativas nos valores das tensões disruptivas de freqüência
fundamental e impulsivas;
- O processo de disrupção dos centelhadores representa um transitório na
tensão, transitório esse que ao atingir os enrolamentos dos equipamentos
protegidos pode causar uma solicitação entre espiras muito severa;
- A dispersão dos centelhadores dificulta a aplicação de pára-raios em
paralelo, fundamental na proteção de grandes bancos de capacitores série,
de estações HVDC e alguns sistemas de Extra Alta Tensão, onde elevados
níveis de absorção de energia são requeridos pelos pára-raios.

A impossibilidade de se conseguir melhorias tecnológicas substanciais nas


propriedades não-lineares dos resistores a base de Carbeto de Silício visando a
redução ou eliminação das correntes subsequentes, limitou a evolução tecnológica
desse tipo de varistor.

Apesar das limitações tecnológicas, ainda existe uma quantidade significativa de


pára-raios de SiC instalados nos sistemas elétricos, seja nas redes de distribuição
rurais e urbanas ou nas subestações.

2.4 Pára-raios de Óxido de Zinco (ZnO) sem centelhadores

A tecnologia dos varistores de SiC perdurou sem concorrência até o final da


década de 60, quando um novo tipo de dispositivo utilizado para a proteção contra
sobretensões foi desenvolvido pela Matsushita Electrical Co. Ltd.

Este dispositivo, formado por elementos cerâmicos a base de Óxido de Zinco


(ZnO) e pequenas quantidades de outros óxidos metálicos adicionados ao ZnO,
apresenta um elevado grau de não linearidade na sua característica “tensão x
corrente”, proporcionando aos elementos de ZnO baixos valores de corrente na
região de operação, associado a uma boa estabilidade quando continuamente
solicitados pela tensão normal de operação.

Esses elementos não-lineares a base de ZnO começaram a ser produzidos em


escala industrial a partir de 1968, sendo inicialmente destinados a proteção de
circuitos eletrônicos, caracterizados por baixos valores de tensão e de energia. A
partir desse desenvolvimento, diversas empresas sob a licença da Matsushita,
iniciaram estudos visando o desenvolvimento de resistores não-lineares de alta
capacidade de absorção de energia que pudessem ser utilizados em sistemas
elétricos de potência.

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Os primeiros pára-raios de ZnO desenvolvidos para sistemas de potência foram


lançados no mercado no final de década de 70 pela Meidensha Electric
Manufacturing Company Ltda. Na década de 80 diversas empresas japonesas,
européias e americanas desenvolveram e produziram pára-raios de ZnO para
aplicação em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão.

Os pára-raios de ZnO são constituídos basicamente por um conjunto de resistores


não-lineares à base de ZnO. A ausência dos centelhadores (elementos
indispensáveis na montagem dos pára-raios de SiC) neste tipo de pára-raios deve-
se a elevada não-linearidade na característica "tensão versus corrente" dos
elementos de ZnO, associadas a sua estabilidade térmica e a sua elevada
capacidade de absorção de energia para sobretensões temporárias e transitórias.
A não utilização dos centelhadores torna os projetos de pára-raios de ZnO mais
simplificados, além de oferecer muitas vantagens em suas características de
proteção e de operação.

No entanto, pelo fato de não possuírem centelhadores série esses pára-raios além
de estarem permanentemente submetidos a tensão fase-terra de operação do
sistema e a condições climáticas algumas vezes bastante adversas, podem ser
eventualmente solicitados por sobretensões temporárias ou transitórias que,
impõem aos pára-raios uma quantidade de energia que deve ser dissipada para o
meio externo, afim de garantir a sua estabilidade térmica. Portanto, cuidados
devem ser tomados quando da seleção das características dos pára-raios, em
função das reais necessidades dos sistemas.

Pára-raios de Óxido de Zinco (ZnO) sem centelhadores vêm sendo largamente


utilizados na proteção dos sistemas elétricos. Em alguns países, como por
exemplo, o Japão, praticamente a totalidade dos pára-raios instalados em seu
sistema elétrico são a base de ZnO sem centelhadores. No Brasil, empresas
concessionárias de energia elétrica e grandes consumidores industriais vêm
adquirindo pára-raios de ZnO para a substituição de pára-raios convencionais de
SiC ou para novos projetos / ampliações de redes de distribuição e subestações.

2.5 Pára-raios de Óxido de Zinco com centelhadores

Outro tipo construtivo de pára-raios utilizado principalmente na aplicação em redes


de distribuição é o de Óxido de Zinco com centelhadores.

Neste projeto, os centelhadores são adicionados em série aos elementos não-


lineares de ZnO e têm como função principal "isolar" o pára-raios do sistema sob
condições de regime permanente, reduzindo a possibilidade de degradação dos
elementos de ZnO, que são geralmente de características inferiores àqueles
utilizados na montagem dos pára-raios sem centelhadores. Desta forma, os
centelhadores utilizados nesse projeto podem ser de construção simplificada,
quando comparados aos utilizados na montagem dos pára-raios de SiC.

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Entre as vantagens desse tipo de pára-raios em relação aos pára-raios de SiC,


pode-se citar a maior não-linearidade na característica "tensão x corrente" dos
elementos não-lineares de ZnO, que reduz a amplitude da corrente subsequente a
valores muito baixos; e menores valores de tensão residual.

As características “tensão x corrente” transitórias dos pára-raios de “desempenho


ótimo” (pára-raios ideal), e dos pára-raios de Carbeto de Silício (SiC) e Óxido de
Zinco (ZnO) são apresentadas nas Figuras 2.3a, 2.3b e 2.3c.

Figura 2.3 – Características “V x I” transitórias dos pára-raios

2.6 Pára-raios de Óxido de Zinco (ZnO) com invólucro polimérico

Uma evolução tecnológica bastante significativa surgiu em meados da década de


80, com a utilização de invólucros poliméricos. Até então, praticamente todos os
pára-raios produzidos utilizavam o invólucro de porcelana.

Diversos estudos realizados apontam a penetração de umidade devido a perda de


estanqueidade do invólucro de porcelana como sendo a principal causa de falha
verificada nos pára-raios ao longo do tempo. A perda de estanqueidade pode
ocorrer por vários motivos: danificação das gaxetas de vedação durante o
processo de fechamento dos pára-raios; envelhecimento das gaxetas ao longo do
tempo com perda de suas propriedades, facilitando a penetração de umidade;
trincas ou fissuras que se formam ao longo do tempo na porcelana ou na
cimentação entre a porcelana e os flanges terminais, no caso de pára-raios classe
estação; por variações bruscas de temperatura; descolamento da cimentação,
entre outras causas.

Além da penetração de umidade, outros fenômenos podem provocar a


degradação dos elementos não-lineares e dos centelhadores (no caso dos pára-
raios de SiC ou ZnO com centelhadores) ao longo do tempo, alterando as

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características de operação dos pára-raios. Estas alterações podem conduzir o


pára-raios a uma degradação parcial ou a falha total, neste último caso com a
conseqüente passagem da corrente de curto circuito do sistema.

Em caso de eventual falha parcial ou total de um pára-raios com invólucro de


porcelana haverá o fluxo de uma corrente de freqüência industrial, cuja amplitude
será função da impedância equivalente dos blocos de ZnO no momento da falha.
Devido as suas características construtivas (espaçamento interno de ar entre a
parte ativa do pára-raios e a parte interna do invólucro), a passagem dessa
corrente estabelece um arco interno no interior do pára-raios. Os gases ionizados
causam um rápido aumento da pressão interna que tende a provocar a
fragmentação do invólucro ou até mesmo a explosão violenta do pára-raios, caso
este não possua um dispositivo de alívio de alta pressão.

Em pára-raios providos de dispositivos de alívio de sobrepressão o aumento de


pressão interna “força” a abertura dos diafragmas de vedação, permitindo o
escapamento dos gases ionizados através dos dutos de ventilação. Como os
dutos nas duas extremidades estão geralmente direcionados um contra o outro, o
resultado é um arco externo proporcionando, desta forma, o alívio de pressão que
impede a fragmentação ou até mesmo a explosão violenta do invólucro isolante.

Os dois grandes problemas verificados nos pára-raios ao longo do tempo: perda


de estanqueidade e fragmentação com ou sem explosão do invólucro, vêm sendo
bastante minimizados com a utilização de pára-raios com invólucros poliméricos,
cujo início de produção em escala industrial se deu em meados da década de 80.

A experiência de campo tem mostrado que os pára-raios poliméricos, em especial


os projetos sem espaçamentos internos de ar entre as partes ativas e a parte
interna do invólucro, são bem menos propensos a perda de estanqueidade por
penetração de umidade quando comparados aos pára-raios com invólucros de
porcelana, reduzindo a causa mais comum de falha nos pára-raios.

É importante ressaltar que uma eventual falha do pára-raios não acarreta somente
na perda do equipamento, podendo causar também distúrbios severos no sistema,
bem como a danificação de outros equipamentos adjacentes (como por exemplo,
buchas de transformadores), em caso de fragmentação ou explosão do invólucro
isolante ou desprendimento dos elementos de ZnO.

Em adição, os pára-raios com invólucro polimérico apresentam outras vantagens


adicionais em relação aos pára-raios com invólucro de porcelana, tornando a sua
utilização mais atrativa:

- Redução das perdas de energia provenientes da menor corrente de fuga


fluindo através dos invólucros poliméricos, especialmente em ambientes
com umidade elevada;

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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- Maior distância de escoamento do invólucro polimérico, para um mesmo


comprimento, o que permite a montagem de pára-raios com invólucros de
menor comprimento, facilitando a montagem. Em pára-raios classe estação
aplicados em subestações, está redução pode ser de até 20% ou mais;

- Menor peso em relação aos pára-raios com invólucro de porcelana


(tipicamente menos de 50% do peso no caso de pára-raios sem
espaçamentos internos de ar para aplicação em subestações), acarretando
em menores esforços mecânicos sobre as estruturas e permitindo uma
maior versatilidade na montagem dos arranjos;

- Maior facilidade de transporte, armazenamento, manuseio e instalação,


proporcionando uma redução significativa de custos. Tais facilidades são
mais significativas a medida que se aumenta os níveis de tensão.

- Não necessitam, geralmente, de dispositivos de alívio de sobrepressão


(pára-raios sem espaçamentos internos de ar para aplicação em redes de
distribuição, linhas de transmissão e subestações), tornando os projetos
dos pára-raios mais simples e com menor custo;

- Não apresentam problemas de trincas ou lascas nas saias, ocasionadas por


transporte, mau manuseio durante a instalação ou vandalismo, e que
podem vir a comprometer a estanqueidade do pára-raios ao longo do
tempo;

- Possuem uma melhor capacidade de dissipação de calor, aumentando as


suas propriedades térmicas e melhorando a sua capacidade de absorção
de energia;

- Melhor desempenho sob contaminação, bem como uma melhor distribuição


de tensão ao longo do pára-raios:

A contaminação externa do invólucro tem se apresentado como um fenômeno


bastante crítico para a degradação dos pára-raios de SiC e de ZnO com invólucros
de porcelana, podendo ter efeito no desempenho desses pára-raios ao longo do
tempo, especialmente em projetos de pára-raios aplicados a subestações. Este
efeito poderá ser mais crítico em pára-raios com invólucros de porcelana providos
de mais de uma unidade e para menores valores de distância de escoamento.

Depósitos de materiais contaminantes nas superfícies dos invólucros dos pára-


raios, associada à umidade externa, podem causar uma elevação da corrente de
fuga pelo invólucro, provocando uma distribuição de tensão não uniforme interna e
externa ao longo do pára-raios.

Esse efeito pode causar um aquecimento excessivo em alguns dos elementos de


ZnO que compõem os pára-raios de Óxido de Zinco, provocando a degradação
desses elementos com aumento gradual da componente resistiva da corrente de

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fuga e das perdas, e a conseqüente redução na capacidade de absorção de


energia desses pára-raios. Em pára-raios de SiC, podem ocorrer alterações
significativas nas características disruptivas dos seus centelhadores.

Além disso, a contaminação do invólucro pode gerar o fenômeno de ionização


interna no interior dos pára-raios de SiC e de ZnO, que pode acarretar em
degradação desses pára-raios. Investigações de campo e laboratoriais têm
mostrado que qualquer variação de tensão ao longo da porcelana, resultante de
chuva, fumaça ou poluição, é capaz de gerar descargas internas que produzem
alterações irreversíveis na composição interna do gás, através de reações
químicas no gás de enchimento, queima de oxigênio e criação de componentes
químicos. A ausência de Oxigênio e a criação de novos gases químicos gerados
pelas descargas parciais podem acarretar no envelhecimento acelerado de todos
ou de alguns dos elementos de SiC ou de ZnO utilizados na montagem dos pára-
raios, podendo levar a falha desses pára-raios ao longo dos anos. Alterações nas
características disruptivas dos centelhadores também têm sido verificadas.

O efeito da contaminação externa do invólucro torna-se mais crítico em pára-raios


constituídos por mais de uma seção, onde a corrente de fuga externa pelo
invólucro da seção superior pode ser transferida para a parte interna da seção
inferior devido a transferência galvânica através dos flanges metálicos,
aumentando consideravelmente a componente resistiva da corrente e as perdas
através dos elementos de ZnO em pára-raios de ZnO e afetando a distribuição de
tensão dos centelhadores em pára-raios de SiC.

O efeito da contaminação externa do invólucro, crítico em pára-raios com


invólucros de porcelana, pode ser bastante atenuado quando da utilização de
invólucros poliméricos. Isto se dá pela maior distância de escoamento dos projetos
de pára-raios poliméricos comparados aos de porcelana de mesmo comprimento,
associada a capacidade de hidrofobicidade apresentada por materiais poliméricos,
especialmente os polímeros a base de silicone.

Maiores detalhes sobre os efeitos da contaminação no desempenho dos pára-


raios para aplicação em redes de distribuição e subestações são apresentados
nos Capítulos 4 e 5, respectivamente.

Devido ao fato de apresentarem menor peso, maior facilidade e flexibilidade de


montagem, e pela não fragmentação ou explosão do invólucro com
desprendimento dos elementos de ZnO (em projetos sem espaçamento interno de
ar), este tipo de pára-raios tem sido instalado mais próximo aos equipamentos a
serem protegidos, melhorando de modo considerável as características de
proteção desses equipamentos quando da ocorrência de sobretensões
atmosféricas de frente rápida, através da redução das tensões impulsivas nos
seus terminais devido ao menor comprimento dos cabos de conexão (pára-raios
aplicados em redes de distribuição) e a menor distância elétrica em relação aos
equipamentos protegidos (pára-raios aplicados em subestações).

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Em alguns casos tem sido prática a instalação dos pára-raios diretamente junto a
bucha dos transformadores. Para redes de distribuição, este procedimento reduz
de forma considerável a tensão nos terminais dos equipamentos protegidos pelos
pára-raios, através da redução das tensões impulsivas devido ao menor
comprimento dos cabos de conexão entre o pára-raios e o equipamento por ele
protegido.

Devido às vantagens técnicas e econômicas apresentadas em projetos de pára-


raios com invólucros poliméricos, quando comparadas aos projetos de pára-raios
de porcelana, a utilização desse tipo de pára-raios vem crescendo de uma
maneira bastante acentuada em subestações.

No Brasil, as empresas concessionárias de energia elétrica e grandes


consumidores industriais vêm utilizando este tipo de pára-raios desde o início da
década de 90. Desde então, o processo de aquisição de pára-raios poliméricos
vem crescendo ano a ano, com uma grande quantidade de pára-raios com
invólucros poliméricos atualmente instalados em redes de distribuição, em linhas
de transmissão e em subestações com tensões nominais até 500 kV.

Embora os materiais poliméricos apresentem propriedades bastante superiores à


porcelana, existem alguns aspectos negativos que devem ser considerados
quando da escolha do material a ser utilizado. Geralmente os polímeros
apresentam maior complexidade na utilização uma vez que podem sofrer
degradação elétrica, mecânica e química em condições de serviço, quando não
adequadamente selecionados e/ou utilizados.

Este problema tem sido minimizado a partir do melhor conhecimento e


entendimento das propriedades dos materiais poliméricos quando aplicados em
tensões mais elevadas.

No caso da aplicação em sistemas de extra alta tensão, ou em regiões de elevado


nível de contaminação, cuidados devem ser tomados com relação às
características do material polimérico empregado na fabricação do invólucro, em
especial com relação às características de hidrofobicidade, envelhecimento por
exposição de raios ultravioleta, erosão e trilhamento elétrico.

2.7 Referências bibliográficas

/1/ Martinez, M. L. B., “Pára-raios para sistemas de Média Tensão –


Características Técnicas e Aplicação a Sistemas de Potência”; Dissertação
de Mestrado, EFEI, Dezembro 1992.

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3. Aplicação de pára-raios
Neste capítulo serão apresentadas informações referentes às terminologias
aplicadas aos pára-raios e a sua classificação, aspectos referentes ao princípio de
funcionamento dos diferentes tipos de pára-raios, sua aplicação na proteção dos
sistemas e aspectos da especificação, seleção e aplicação dos pára-raios.

3.1 Terminologia aplicada aos pára-raios

3.1.1 Tensão nominal:

A tensão nominal de um pára-raios é o valor de tensão de freqüência


industrial para o qual o pára-raios é projetado, sendo utilizada como um
parâmetro de referência para a especificação das características de
proteção e de operação dos pára-raios. Geralmente a tensão nominal é o
limite para as sobretensões dinâmicas permissíveis no sistema, sendo
permitido ultrapassar este valor somente nas condições estabelecidas
explicitamente pelo fabricante do pára-raios considerado.

Em pára-raios com centelhadores, a tensão nominal é definida como a


máxima tensão eficaz de freqüência fundamental que pode ser aplicada
continuamente entre os terminais de um pára-raios e para o qual esse deve
operar corretamente sem modificar as suas características. Com este valor
de tensão o pára-raios é submetido ao ensaio de ciclo de operação.

Em pára-raios de ZnO sem centelhadores, a tensão nominal consiste no


valor de tensão eficaz a freqüência fundamental que é aplicado aos
terminais do pára-raios e para o qual o pára-raios é projetado para operar
corretamente e manter a sua estabilidade térmica sob condições de
sobretensão temporária durante 10 segundos, após a absorção de uma
energia prévia, conforme estabelecido no ensaio de ciclo de operação.

3.1.2 Máxima tensão contínua de operação (MCOV):

Consiste no maior valor eficaz de tensão de freqüência fundamental que


permanentemente aplicado aos terminais de um pára-raios de ZnO sem
centelhadores, permite que esse opere continuamente e sem alteração em
suas propriedades térmicas e elétricas.

3.1.3 Corrente de referência:

A corrente de referência consiste no valor de crista (em caso de assimetria


o maior valor entre as duas polaridades) da componente resistiva da
corrente de freqüência fundamental utilizada para determinar a tensão de
referência do pára-raios. Valores típicos para a amplitude da corrente de
referência estão compreendidos na faixa de 1 mA a 20 mA.

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3.1.4 Tensão de referência:

A tensão de referência consiste no valor de crista da tensão de freqüência


fundamental dividida por √2 que é aplicada aos terminais do pára-raios
quando por este flui a corrente de referência.

A tensão de referência é aplicada somente a pára-raios de ZnO sem


centelhadores e define o ponto de transição entre as regiões de baixas
correntes e de elevada não-linearidade, sendo utilizada como parâmetro
para a especificação das características de operação desses pára-raios.

A medição da tensão de referência é utilizada para a seleção dos corpos-


de-prova utilizados nos ensaios de ciclo de operação, característica “tensão
de freqüência fundamental - tempo” e corrente suportável de longa duração.

3.1.5 Disrupção:

Descarga disruptiva entre todos os eletrodos utilizados na montagem do


centelhador série do pára-raios.

3.1.6 Tensão disruptiva:

A tensão disruptiva de um pára-raios consiste no valor de crista da tensão


de ensaio, que aplicada aos terminais de um pára-raios causa a sua
disrupção. A tensão disruptiva está relacionada com a freqüência
fundamental, com o impulso atmosférico e com o impulso de manobra,
sendo aplicada somente a pára-raios com centelhadores série (SiC e ZnO
com centelhadores).

• Tensão disruptiva de frequência fundamental:


Valor da tensão de freqüência fundamental, medida como o valor de crista
dividido por √2 que causa a disrupção dos centelhadores série.

• Tensão disruptiva de impulso:


Maior valor de tensão de impulso atingido antes da disrupção, quando aos
terminais de um pára-raios com centelhadores é aplicado um impulso de
tensão com forma de onda, amplitude e polaridade pré-estabelecidos. Este
conceito é aplicável para impulsos atmosféricos e de manobra.

3.1.7 Corrente de descarga:

Consiste na corrente de impulso que flui através do pára-raios, sendo


caracterizada pela sua forma de onda, amplitude e polaridade.

No caso dos pára-raios com centelhadores essa corrente aparece


imediatamente após a disrupção dos centelhadores série.

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3.1.8 Corrente de descarga nominal do pára-raios:

Valor de crista da corrente de descarga com forma de impulso 8/20 µs


utilizado para classificar o pára-raios. Em pára-raios com centelhadores é
com essa corrente que se inicia a corrente subsequente no ensaio de ciclo
de operação.

3.1.9 Tensão residual:

Consiste no valor de crista da tensão que aparece entre os terminais de um


pára-raios durante a passagem da corrente de descarga, sendo a sua
amplitude função de dois fatores:
− da forma de impulso e da taxa de crescimento da corrente;
− da amplitude da corrente de descarga.

Em pára-raios com centelhadores, a tensão residual consiste na tensão


total que é aplicada aos terminais do pára-raios após a descarga disruptiva
dos centelhadores.

Em pára-raios sem centelhadores, a tensão residual serve para definir as


características de proteção oferecidas pelos pára-raios. Neste caso, faz-se
necessário determinar a tensão residual para impulsos de frente íngreme;
para impulsos atmosféricos e para impulsos de manobra.

3.1.10 Corrente de seguimento ou corrente subseqüente:

Consiste no valor de crista da corrente de freqüência fundamental que flui


pelos pára-raios com centelhadores após a passagem da corrente de
descarga, enquanto o pára-raios está solicitado pela tensão do sistema.

3.1.11 Capacidade de absorção de energia

A capacidade de absorção de energia pode ser entendida a partir das


propriedades intrínsecas dos elementos varistores (capacidade de absorção
de energia intrínseca) e das propriedades térmicas dos projetos de pára-
raios (capacidade de absorção de energia térmica).

A capacidade de absorção de energia intrínseca é relacionada a energia


para um único impulso “single impulse energy absorption capability”, e está
associada a uma solicitação de energia instantaneamente injetada durante
um único impulso de energia de poucos micro ou milisegundos que não
pode exceder a um valor de energia para o qual os resistores não-lineares
sofrem uma severa solicitação termo-mecânica. Desta forma, solicitações
com elevadas densidades de corrente e de energia podem acarretar uma
variação súbita de temperatura em partes dos resistores não-lineares,
associados com severos esforços de tração e de compressão atuando

47
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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sobre esses elementos. Estas solicitações podem provocar trincas


“quebras”, perfuração ou descarga na isolação dos resistores não-lineares.

A capacidade de absorção de energia térmica “thermal energy absorption


capability” está associada com a capacidade de um determinado projeto de
pára-raios de absorver uma máxima quantidade de energia, para uma dada
forma de onda e amplitude de corrente, e ser capaz de dissipar esta energia
para o meio externo em forma de calor, mantendo a sua estabilidade
térmica e sem que ocorram alterações significativas em suas propriedades
térmicas e elétricas.

A capacidade de absorção de energia é geralmente declarada pelos


fabricantes em termos de kJ / kV (nominal ou da MCOV), e está associada
a um impulso de corrente com forma de onda e amplitude de corrente
definidas.

Um fator importante que deve ser considerado quando da análise da


capacidade de absorção de energia de um pára-raios é a relação entre a
capacidade de absorção de energia e a corrente de descarga que flui pelos
resistores não-lineares, visto que a capacidade de absorção de energia
apresenta uma dependência com as características da corrente de
descarga. A análise deste comportamento será mostrada em detalhes na
Seção 3.5.4, e é fundamental para a seleção adequada dos pára-raios
instalados próximos a bancos de capacitores.

3.1.12 Estabilidade térmica do pára-raios

Um pára-raios é considerado termicamente estável se após o ensaio de


ciclo de operação, a temperatura resultante nos resistores não-lineares que
compõem o pára-raios decresce com o tempo, quando o pára-raios é
energizado na tensão de operação contínua. Essa terminologia é aplicada a
pára-raios sem centelhadores.

3.2 Classificação dos pára-raios

As Normas técnicas NBR /1/, /2/ e IEC /3/, /4/, classificam um pára-raios de acordo
com a sua corrente de descarga nominal; a classe de serviço; e as características
de proteção (os dois últimos em pára-raios com centelhadores):

3.2.1 Pela corrente de descarga nominal:

Os pára-raios com e sem centelhadores podem ser classificados, de acordo com


sua corrente de descarga nominal em:

48
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- Pára-raios com centelhadores:

Pára-raios classe estação: 20 kA (1) 15 kA (1) 10 kA


Pára-raios classe de distribuição (2): 5 kA
Pára-raios classe secundária: 2,5 kA (3) 1,5 kA

(1) Valores descritos somente na NBR 5287 /1/


(2) A IEC define os pára-raios de 5 kA como intermediário ou distribuição,
dependendo da sua série.
(3) Valor descrito na IEC 99.1 /3/

Os pára-raios de 10 kA podem ser ainda classificados em dois tipos:

• Pára-raios para serviço pesado:

Este tipo de pára-raios deve ter capacidade para descarregar a energia


armazenada nas capacitâncias entre os condutores e o terra de uma linha de
transmissão correspondentes aos sistemas aos quais esses são destinados.

• Pára-raios para serviço leve:

Adequados para condições de utilização menos severas do que as


estabelecidas para o serviço pesado. Os pára-raios para serviço leve são
usualmente empregados em redes de distribuição.

- Pára-raios sem centelhadores:

20 kA 10 kA 5 kA 2,5 kA 1,5 kA

3.2.2 Pela classe de descarga de linhas de transmissão ou corrente de


longa duração

Os pára-raios com centelhadores de 20 kA, 15 kA e 10 kA serviço pesado podem


ser de classe 1 a 5, dependendo das características de dissipar as energias das
manobras de linhas de transmissão.

As Normas IEC aplicadas a pára-raios com e sem centelhadores estabelecem


cinco classes de descarga de linhas de transmissão. Segundo a Norma
IEC 60099.4 /4/, aplicada a pára-raios sem centelhadores, os pára-raios de 10 kA
podem ser classificados como classes 1 a 3, enquanto que os pára-raios de 20 kA
correspondem as classes 4 e 5.

Os pára-raios de 10 kA serviço leve com centelhadores e os pára-raios de 5 kA


com ou sem centelhadores, devem ser submetidos ao ensaio de corrente
suportável de longa duração, com amplitude e forma de onda definidas em norma.

49
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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3.2.3 Pela classe de alívio de sobrepressão ou corrente suportável de falta

A classe de alívio de sobrepressão (aplicável a pára-raios com espaçamentos


internos de ar) ou a corrente suportável de falta (aplicável a pára-raios sem
espaçamentos internos de ar) de um pára-raios está relacionada com a sua
capacidade de suportar correntes internas de falta de alta e de baixa intensidades
após uma eventual falha do pára-raios, sem que haja violenta fragmentação do
invólucro ou desprendimento dos elementos de ZnO.

As normas NBR 5287 /1/ e IEC 99,1 /3/ aplicadas a pára-raios com centelhadores
estabelecem cinco classes de alívio de sobrepressão:

Classe de alívio de Classe do pára-raios Valor eficaz mínimo da


sobrepressão corrente de falta (kA)

A 20 kA, 15 kA e 10 KA 40
serviços leve e pesado

B 10 kA serviços leve e 20
pesado

C 10 kA serviços leve e 10
pesado

D 5 kA 16

E 5 kA 5

A duração mínima de circulação da corrente de falta durante o ensaio deve ser de


0,2 s para correntes de alta intensidade e 1 s para baixas correntes.

A IEC 60.099.4 /4/, aplicável a pára-raios sem centelhadores, estabelece os


seguintes níveis eficazes de corrente presumível de falta para os pára-raios classe
estação e distribuição:

Corrente de Corrente de
descarga Valor eficaz da corrente de falta (kAef) baixa
nominal intensidade
Nominal Correntes reduzidas (Aef)

20 kA ou 10 kA 80 50 25 600 ± 200

20 kA ou 10 kA 63 25 12 600 ± 200

20 kA ou 10 kA 50 25 12 600 ± 200

50
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Corrente de Valor eficaz da corrente de falta (kAef) Corrente de


descarga baixa
nominal intensidade

Nominal Correntes reduzidas (Aef)

20 kA ou 10 kA 40 25 12 600 ± 200

20 kA ou 10 kA 31,5 12 6 600 ± 200

20, 10 ou 5 kA 20 12 6 600 ± 200

10 kA ou 5 kA 16 6 3 600 ± 200

10, 5, 2,5 kA 10 6 3 600 ± 200


ou 1,5 kA

10, 5, 2,5 kA 5 3 1,5 600 ± 200


ou 1,5 kA

A duração mínima de circulação da corrente de falta durante o ensaio deve ser de


0,2 s para correntes de alta intensidade e 1 s para baixas correntes.

A Norma ANSI C62.11 /5/ estabelece duas classes de alívio de sobrepressão:

- Pára-raios estação: 40 e 65 kA
- Pára-raios intermediários: 16,1 kA

Para corrente de baixa intensidade a Norma estabelece um valor de corrente


eficaz de 600 ± 200 A, com duração de 1 s.

A Norma ANSI C62.11 /5/ classifica os pára-raios de ZnO com ou sem


centelhadores de acordo com os ensaios realizados em:

- Pára-raios tipo estação: 20 kA, 15 kA e 10 kA


- Pára-raios tipo intermediário: 5 kA
- Pára-raios tipo distribuição serviço pesado: 10 kA
- Pára-raios tipo distribuição serviço normal: 5 kA
- Pára-raios tipo distribuição serviço leve: 5 kA

3.3 Característica de proteção dos pára-raios

Para o estudo de coordenação do isolamento é necessário conhecer as


características de proteção dos pára-raios, que dependem basicamente do tipo de
pára-raios utilizado e devem estar abaixo dos valores normalizados.

51
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As características de proteção dos pára-raios devem ser definidas em função dos


níveis de suportabilidade dos equipamentos a serem protegidos; do grau de
importância dos equipamentos e das linhas onde os pára-raios serão aplicados e
do tipo de instalação do pára-raios em relação ao equipamento a ser protegido.

Isto visa garantir uma proteção adequada aos equipamentos contra surtos
atmosféricos e de manobra. Os níveis de proteção oferecidos pelos pára-raios são
apresentados nos catálogos dos fabricantes.

3.3.1 Características de proteção dos pára-raios com centelhadores

No caso de pára-raios com centelhadores as características de proteção são


definidas pelas Normas NBR 5287 /1/ e IEC 99.1 /3/, pela combinação das
seguintes curvas características:

• Tensão disruptiva de impulso atmosférico x tempo para disrupção:


Curva que relaciona a tensão disruptiva de impulso atmosférico ao tempo para
disrupção, obtida a partir de ensaio de tipo para uma forma de onda e
polaridade definidas, porém variando-se as amplitudes.

• Tensão residual x corrente de descarga 8/20 µs:


Curva que relaciona a tensão residual do pára-raios à corrente de descarga
com forma de onda 8/20 µs

• Tensão disruptiva de impulso de manobra x tempo para disrupção (*):


Curva que relaciona a tensão disruptiva de impulso de manobra ao tempo para
disrupção, obtida a partir de ensaio de tipo em pára-raios de 10 kA com
tensões nominais superiores a 100 kV e pára-raios de 15 kA (**) e 20 kA (**).

(*) Não aplicável ao projeto de norma da NBR referente a pára-raios de


ZnO com centelhadores.
(**) Utilizados somente na NBR 5287, aplicável a pára-raios de SiC.

O nível de proteção para impulso atmosférico é definido pelo valor máximo


entre a tensão disruptiva de impulso atmosférico cortado na frente dividida por
1,15; a tensão disruptiva de impulso atmosférico normalizado; e a tensão residual
à corrente de descarga nominal do pára-raios.

O nível de proteção para impulso de manobra é definido pelo valor máximo


entre a tensão disruptiva de impulso de manobra e a tensão residual para uma
dada corrente de descarga.

Nos pára-raios com centelhadores as características de proteção são geralmente


definidas pelas características das tensões disruptivas de impulso do pára-raios.

52
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3.3.2 Características de proteção dos pára-raios sem centelhadores

No caso dos pára-raios sem centelhadores as características de proteção são


definidas pela IEC 60099-4 /4/, pela combinação dos seguintes ensaios:

• Tensão residual para impulso de corrente com frente íngreme de 1 µs;


• Curva característica "tensão residual x corrente de descarga 8/20 µs”;
• Tensão residual para impulso de manobra.

Detalhes sobre os ensaios acima descritos são apresentados no Capítulo 9.

A Figura 3.1 ilustra as características de proteção de um determinado pára-raios


com tensão nominal de 192 kV, aplicado em sistemas de 230 kV.

600

550
Tensão residual (kV)

500
450
400
350
300

250
200
10 100 1000 10000 100000
Corrente de descarga (A)

Ures para impulso de manobra (mínimo)" Ures para impulso de manobra (máximo)
Ures para impulso atmosférico (mínimo) Ures para impulso atmosférico (máximo)
Ures para frente íngreme (máximo) Steep current (maximum)

Figura 3.1 – Características de proteção de um pára-raios

O nível de proteção para impulso atmosférico do pára-raios é definido pelo


valor máximo entre a tensão residual para impulso de corrente com frente íngreme
à corrente de descarga nominal dividido por 1,15 e o maior valor de tensão
residual para impulso atmosférico à corrente de descarga nominal, obtidos para os
corpos-de-prova durante os ensaios de tipo.

O nível de proteção para impulso de manobra é definido como o valor máximo


da tensão residual para impulso de manobra a uma amplitude de corrente
especificada, obtido para os corpos-de-prova durante os ensaios de tipo.

As características de proteção dos pára-raios são apresentadas nos catálogos


técnicos de diversos fabricantes. No entanto, em caso da não disponibilidade
dessas informações, pode-se considerar os valores apresentados nas Tabelas 3.1
a 3.3 abaixo, extraídas das Normas técnicas publicadas pela IEC /3/ e /4/:

53
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Tabela 3.1 – Níveis máximos de proteção de pára-raios com centelhadores /3/

Tensão Forma de onda aplicada


Nominal Imp. Frente ingreme Imp. atm. normalizado Tensão residual
Ur(kVef) 5 kA 10 kA 5 kA 10 kA 5 kA 10 kA
1,2 a 10 4,15.Ur ----- 3,60.Ur ----- 3,60.Ur -----
10 a 120 3,85.Ur 3,20.Ur 3,33.Ur 2,80.Ur 3,33.Ur 2,80.Ur

Tabela 3.2 – Níveis máximos de proteção de pára-raios sem centelhadores /4/

Tensão Tensão residual – Forma de onda aplicada


Nominal Impulso de frente Impulso atmosférico Imp. de manobra
Ur rápida 1/20 µs 8/20 µs 30/60 µs

(kVef) 2,5 kA 5 kA 2,5 kA 5 kA 2,5 kA 5 kA


0,175 a 2,9 3,7 a 5,0.Ur 2,7 a 4,0.Ur 3,3 a 4,5.Ur 2,4 a 3,6.Ur ----- -----
3 a 29 4,0.Ur 2,7 a 4,0.Ur 3,6.Ur 2,4 a 3,6.Ur ----- -----
30 a 132 4,0.Ur 2,7 a 3,7.Ur 3,6.Ur 2,4 a 3,3.Ur ----- -----

Tabela 3.3 – Níveis máximos de proteção de pára-raios sem centelhadores /4/

Tensão Tensão residual - Forma de onda aplicada


Nominal Impulso de frente Impulso atmosférico Imp. de manobra
Ur rápida 1/20 µs 8/20 µs 30/60 µs

(kVef) 10 kA 20 kA 10 kA 20 kA 10 kA 20 kA
3 a 29 2,6 a 4,0.Ur ----- 2,3 a 3,6.Ur ----- 2,0 a 2,9.Ur -----
30 a 132 2,6 a 3,7.Ur 2,6 a 3,1.Ur 2,3 a 3,3.Ur 2,3 a 2,8.Ur 2,0 a 2,6.Ur 2,0 a 2,3.Ur
144 a 342 2,6 a 3,7.Ur 2,6 a 3,1.Ur 2,3 a 3,3.Ur 2,3 a 2,8.Ur 2,0 a 2,6.Ur 2,0 a 2,3.Ur
360 a 756 2,6 a 3,1.Ur 2,6 a 3,1.Ur 2,3 a 2,8.Ur 2,3 a 2,8.Ur 2,0 a 2,3.Ur 2,0 a 2,3.Ur

3.4 Princípio de operação dos pára-raios

Para um perfeito entendimento da filosofia de aplicação dos pára-raios para a


proteção dos equipamentos instalados ao longo das redes de distribuição, linhas
de transmissão e subestações, torna-se necessário entender o princípio de
funcionamento dos diferentes tipos de pára-raios atualmente existentes.

54
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3.4.1 Princípio de operação dos pára-raios com centelhadores:

Seja um pára-raios com centelhadores conectado entre uma fase e o terra de um


determinado sistema elétrico e energizado com uma tensão alternada de
freqüência fundamental – Figura 3.2:

Em condição de regime permanente a impedância do conjunto de centelhadores


série é da ordem de centenas de MΩ, muito maior do que a impedância dos
resistores não-lineares, da ordem de dezenas de Ω (no caso pára-raios de SiC) a
alguns kΩ (no caso de pára-raios de ZnO com centelhadores).

Figura 3.2 – Circuito representativo de um pára-raios com centelhadores

Nesta condição a tensão do sistema Vt estará aplicada quase que em sua


totalidade sobre o conjunto de centelhadores, originando uma corrente de fuga
que flui através do pára-raios da ordem de dezenas de µA a alguns mA,
dependendo do projeto construtivo do centelhador utilizado. Em pára-raios
aplicados a redes de distribuição, essa corrente apresenta uma característica
predominantemente capacitiva.

A representação da curva característica "tensão disruptiva de impulso (atmosférico


ou de manobra) x tempo para disrupção" desse tipo de pára-raios é mostrada na
curva A da Figura 3.3.

Figura 3.3 – Princípio de funcionamento dos pára-raios com centelhadores

55
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Ao ocorrer uma sobretensão de origem atmosférica ou de manobra no sistema


(curva B da Figura 3.3), caracterizada por uma forma de onda, amplitude e
duração, haverá a disrupção do conjunto de centelhadores no instante em que a
amplitude da sobretensão atingir o ponto da curva característica “tensão disruptiva
de impulso x tempo” do pára-raios (curva C da Figura 3.3).

Imediatamente após a disrupção dos centelhadores flui pelo pára-raios uma


corrente de descarga, cuja amplitude depende das características do sistema e do
pára-raios. Devido as características não-lineares dos blocos de SiC (ou de ZnO)
a impedância dos elementos não-lineares durante a passagem de uma corrente
de descarga é de alguns poucos Ω.

O produto da corrente de descarga que flui pelo pára-raios com a impedância dos
elementos não-lineares produz uma tensão através dos resistores não-lineares.
Se desprezarmos a tensão de arco dos centelhadores essa tensão, denominada
por tensão residual, estará aplicada entre os terminais do pára-raios.

Pelo fato do conjunto de centelhadores do pára-raios ainda estarem conduzindo


após a ocorrência da sobretensão, fluirá pelo pára-raios uma corrente de
freqüência fundamental, denominada corrente subseqüente. A amplitude dessa
corrente depende: da amplitude da tensão de freqüência fundamental; da
impedância dos resistores não-lineares (que tende a retornar aos valores iniciais
de regime permanente); e da polaridade da sobretensão em relação ao instante da
sua ocorrência sobre a onda de tensão de freqüência fundamental.

O pára-raios desempenhará satisfatoriamente o seus ciclo de serviço se houver a


extinção do arco nos centelhadores e a conseqüente interrupção da corrente
subseqüente. Este processo ocorre geralmente após a primeira passagem da
corrente subseqüente pelo zero (no caso de pára-raios com centelhadores
passivos ou parcialmente ativos) e antes do zero, no caso dos centelhadores
ativos, providos de bobina de sopro magnético /6/.

O ciclo de operação para esse tipo de pára-raios é mostrado na Figura 3.4.

Figura 3.4 – Ciclo de operação de um pára-raios com centelhadores

56
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Em pára-raios de SiC, a amplitude da corrente subseqüente está geralmente na


faixa de 50 a 200 Acr para os pára-raios classe distribuição e de 100 a 250 Acr em
pára-raios classe estação. Pára-raios de ZnO com centelhadores apresentam
geralmente amplitudes de corrente da ordem de centenas de mA a 1Acr.

Deve ressaltada a importância da não-linearidade na característica "tensão x


corrente" dos elementos para o bom desempenho dos pára-raios, os quais devem
apresentar: (1) - uma impedância elevada em condições de regime permanente e
posteriormente a passagem do impulso de corrente, de modo a facilitar a extinção
do arco nos centelhadores quando da passagem da corrente subseqüente;
(2) - uma impedância de valor mais baixo possível, quando da passagem do
impulso de corrente, de forma a permitir uma proteção adequada aos
equipamentos.

Em projetos de pára-raios com centelhadores, cuidados devem ser tomados com


relação ao desempenho permanente e transitório desses pára-raios sob condições
de ambientes poluídos, e com relação aos efeitos das capacitâncias na
distribuição de tensão ao longo dos centelhadores que compõem os pára-raios.
Em pára-raios aplicados a sistemas de Alta e Extra Alta Tensões, o efeito das
capacitâncias parasitas também deve ser considerado /6/.

3.4.2 Princípio de operação dos pára-raios sem centelhadores:

Neste tipo de pára-raios a ausência dos centelhadores (elementos indispensáveis


na montagem dos pára-raios de SiC) se deve a elevada não-linearidade na
característica “tensão - corrente” dos elementos de ZnO, associadas a sua
estabilidade térmica e a elevada capacidade de absorção de energia para
sobretensões temporárias e transitórias. A não utilização dos centelhadores torna
os projetos de pára-raios de ZnO mais simplificados, além de oferecer muitas
vantagens em suas características de proteção e de operação.

No entanto, pelo fato de não possuírem centelhadores os pára-raios de ZnO além


de estarem permanentemente submetidos a tensão fase-terra de operação dos
sistemas e a condições climáticas algumas vezes bastante adversas, podem ser
eventualmente solicitados por sobretensões temporárias ou transitórias que impõe
aos pára-raios uma quantidade de energia que deve ser dissipada para o meio
externo afim de garantir a estabilidade térmica do pára-raios, e sem provocar
alterações nas características físicas e elétricas dos elementos de ZnO.

A característica típica "tensão - corrente" de um elemento de ZnO é apresentada


na Figura 3.5, onde é possível verificar a existência de três regiões bem distintas:

- A região de baixas correntes, correspondente a região de operação dos pára-


raios em condições de regime permanente;

57
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- A região altamente não-linear de tensões intermediárias, onde pequenas


variações na tensão acarretam em grandes variações na corrente. Para esta
região verifica-se uma pequena dependência da temperatura;

- Região de altas correntes, onde há a predominância dos grãos de ZnO.

Figura 3.5 – Característica típica “V -I” dos elementos de ZnO

A despeito da ocorrência de descargas atmosféricas e das solicitações de


manobra onde os pára-raios atuam como equipamentos limitadores, é esperado
que os pára-raios de ZnO apresentem uma propriedade isolante em condições de
operação em regime permanente. Esta propriedade é essencial para a extensão
da vida útil dos pára-raios e para a operação confiável de um sistema de potência.

O princípio básico de operação de um pára-raios de Óxido de Zinco (ZnO) pode


ser entendido a partir do circuito elétrico equivalente simplificado para um
elemento de ZnO, apresentado na Figura 3.6.

Figura 3.6 - Circuito equivalente simplificado para um elemento de ZnO

58
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Na figura r representa a resistência dos grãos de ZnO, RCI a resistência não-linear


da região intergranular e CCI a capacitância formada pelos grãos de ZnO
separados pela região intergranular. Os valores de RCI e CCI são dependentes do
campo elétrico e da freqüência, sendo RCI fortemente dependente da temperatura.

Seja um pára-raios de ZnO sem centelhadores conectado entre uma fase e o terra
de um sistema elétrico e energizado com uma tensão alternada de freqüência
fundamental. Em condições de regime permanente a relação entre a resistividade
do material que compõe a região intergranular e a resistividade dos grãos de ZnO
é da ordem de 1010 Ω.cm. Desta forma, durante a operação em regime
permanente a tensão aplicada ao pára-raios é distribuída sobre a região
intergranular e os elementos de ZnO apresentam uma impedância extremamente
elevada da ordem de MΩ, produzindo uma corrente denominada por corrente de
fuga, da faixa de µA.

A corrente de fuga total que flui internamente pelos pára-raios de ZnO possui duas
componentes: a componente capacitiva, predominante na tensão de operação do
pára-raios e com forma de onda senoidal, sendo pouco influenciada pelo efeito da
temperatura; e a componente resistiva, responsável pelas perdas no pára-raios,
caracterizada por apresentar distorções harmônicas face às características não
lineares das regiões intergranulares e cuja resistividade é variável e fortemente
dependente do campo elétrico aplicado, da temperatura e da freqüência.

A corrente de fuga total que flui pelo pára-raios para uma dada tensão aplicada
será, portanto, o somatório das componentes capacitiva e resistiva, tomado
instantaneamente. Uma vez que esta corrente apresenta características não
senoidais, pode-se utilizar a Série de Fourier para a determinação de suas
componentes e do conteúdo de harmônicos presentes.

Aplicando-se a Série de Fourier aos pára-raios, tem-se:


I0
i(t) = + A1 ⋅ sen (wt) + B1 ⋅ cos (wt) + A 3 ⋅ sen (3wt) + B3 ⋅ cos (3wt) +
2
............ + A n ⋅ sen (nwt) + Bn ⋅ Cos(nwt)

Assumindo que a corrente de fuga i(t) que flui pelo pára-raios apresenta uma
característica de modo que as formas de onda dos ciclos positivos e negativos
sejam simétricas, o termo “I0/2” será nulo e a série de Fourier dessa função
conterá somente harmônicos ímpares.

Considerando-se a tensão com forma de onda senoidal v(t) = Vm .sen(wt), os


termos em seno correspondem a componente resistiva da corrente, enquanto que
a componente capacitiva é definida pelos termos em coseno. Desta forma, as
componentes resistiva e capacitiva da corrente apresentam as seguintes
características:

i RES(t) = A1 ⋅ sen (wt) + A 3 ⋅ sen (3wt) + A 5 ⋅ sen (5wt) + ........... + A n ⋅ sen (nwt)

i CAP(t) = B1 ⋅ cos (wt) + B3 ⋅ cos (3wt) + B5 ⋅ cos (5wt) + ........... + Bn ⋅ cos (nwt)
59
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Os termos A1.sen(wt) e B1.cos(wt) constituem a componente fundamental da


corrente total (também denominada de 1o harmônico), enquanto que An.sen(nwt) e
Bn.cos(nwt) constituem o n-ésimo termo e correspondem ao n-ésimo múltiplo
inteiro da freqüência fundamental.

A característica da corrente de fuga que flui pelo pára-raios de ZnO quando da


aplicação da tensão máxima de operação de um pára-raios é apresentada na
Figura 3.7 /7/. A componente resistiva da corrente corresponde a amplitude da
corrente no instante em que a tensão atinge a sua amplitude máxima.

Figura 3.7 – Característica da corrente de fuga de um pára-raios

Pára-raios novos apresentam na condição de tensão operativa do sistema, uma


componente resistiva com amplitude da ordem de 10% a 20% da corrente total.
Detahes da corrente total que flui pelo pára-raios e das componentes capacitiva e
resistiva são mostrados na Figura 3.8.

Figura 3.7 – Corrente de fuga total e suas componentes capacitiva e resistiva

60
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Conforme descrito anteriormente, na região de baixas correntes existe uma forte


dependência da resistência não linear da camada intergranular com o campo
elétrico e com a temperatura.

A Figura 3.8 mostra a variação da corrente total e de sua componente resistiva


com o campo elétrico aplicado e a temperatura, para um elemento de ZnO.

3,50

3,00
Tensão aplicada (kVef)

2,50
Itotal-20
Itotal-60
2,00 Itotal-100
1,50 Iresistiva-20
Iresistiva-60
1,00
Iresistiva-100
0,50

0,00
1,0 10,0 100,0 1000,0 10000,0

Corrente de fuga (uAcr)

Figura 3.8 - Variação da corrente total e da componente resistiva


com o campo elétrico e a temperatura

Verifica-se na figura uma forte dependência da temperatura e do campo elétrico


sobre a componente resistiva da corrente na região de operação do pára-raios (no
exemplo, para tensões de 2,0 a 2,5 kV).

Para baixos valores de tensões até as proximidades da máxima tensão contínua


de operação observa-se uma característica aproximadamente linear para os
elementos de ZnO, com uma variação da componente resistiva da corrente
aproximadamente constante em relação a corrente total, ou seja, a resistividade
da camada entre grãos se mantém aproximadamente constante.

Para tensões acima deste valor, observa-se um aumento da componente resistiva


da corrente em relação a corrente total, fato que pode ser entendido pela redução
da resistividade das camadas entre grãos com o aumento do campo elétrico. O
aumento da componente resistiva da corrente em relação a corrente total pode ser
bem visualizado para tensões próximas a tensão de referência dos elementos de
ZnO, onde há uma predominância da componente resistiva para a corrente total,
devido a uma redução significativa da resistividade das camadas entre grãos.

61
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Com relação a temperatura, observa-se o efeito do coeficiente de temperatura


negativo para a resistência. Um aumento de temperatura através dos elementos
de ZnO acarreta em um aumento na componente resistiva da corrente que flui
através desses elementos. A variação da componente resistiva da corrente com a
temperatura para um elemento de ZnO, quando da aplicação da máxima tensão
contínua de operação, pode ser melhor visualizada na Figura 3.9.
Corrente resistiva (mAcr)

10

0,1
0 20 40 60 80 100 120 140
Temperatura (graus Celcius)

Figura 3.9 – Variação da componente resistiva da corrente com a temperatura


para um elemento de ZnO - diâmetro de 75 mm

Observa-se da figura uma variação exponencial da componente resistiva da


corrente com a temperatura, obedecendo a expressão abaixo:

−φ B

I RT = I RT 0 ⋅ e KT

IRT Componente resistiva da corrente à temperatura T;


IRT0 Componente resistiva da corrente à temperatura T0
ΦB Energia de ativação a tempertura T → ΦB = f(E)
K Constante de Boltzman
T Temperatura considerada

O comportamento da componente resistiva da corrente em função da temperatura


é de fundamental importância para a avaliação e o diagnóstico corretos dos pára-
raios instalados nos sistemas. O aumento da corrente resistiva que flui pelos pára-
raios, para uma dada solicitação de tensão, acarreta em um aumento das perdas,
reduzindo a capacidade de absorção de energia dos pára-raios, fato que pode
conduzir à sua instabilidade térmica (incapacidade de dissipar uma determinada
quantidade energia proveniente de uma sobretensão temporária ou transitória),
que leva a falha parcial ou completa do pára-raios.

62
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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De forma a se detectar pára-raios degradados ou em fase de início de


degradação, empresas concessionárias de energia elétrica e grandes
consumidores industriais têm estabelecido procedimentos para medições
periódicas da componente resistiva da corrente de fuga ou de seus componentes
harmônicos, associado a um diagnóstico confiável das informações obtidas em
campo. Estes procedimentos têm possibilitado, em muitas das vezes, a detecção
de pára-raios envelhecidos e a retirada programada desses pára-raios de serviço
antes da ocorrência da falha.

Quando da ocorrência de sobretensôes transitórias de origem atmosférica ou de


manobra, caracterizadas por uma forma de onda, amplitude e duração haverá
uma maior condução de corrente pelo pára-raios no instante em que as
amplitudes dessas sobretensôes atingirem o ponto da curva característica "tensão
residual x corrente de descarga" do pára-raios.

Nesse instante, a resistência das regiões intergranulares se reduz abruptamente a


valores da ordem de alguns poucos Ω, fluindo uma corrente de descarga cuja
amplitude é função basicamente das características do sistema e do pára-raios.

A tensão residual que aparece através dos terminais do pára-raios consiste no


produto da corrente de descarga pela impedância elementos de ZnO.

Terminada a sobretensão, os terminais dos pára-raios ficarão novamente


submetidos a tensão do sistema. Com a redução da tensão aplicada nos terminais
dos pára-raios os elementos de ZnO deverão retornam imediatamente a uma
condição de elevada impedância.

No entanto, para que este tipo de pára-raios desempenhe satisfatoriamente o seu


ciclo de serviço é necessário que o projeto do pára-raios seja capaz de dissipar as
energias absorvidas pelos resistores não-lineares de ZnO durante as
sobretensões temporárias e transitórias, e manter-se termicamente estável,
quando da aplicação de uma tensão alternada de freqüência fundamental,
posteriormente a ocorrência da sobretensão. Diz-se que um pára-raios de ZnO é
termicamente estável se após um ciclo de operação, responsável pela elevação
de temperatura do pára-raios, a temperatura dos elementos de ZnO decresce com
o tempo, enquanto o pára-raios é submetido a uma tensão contínua de operação
especificada.

Conforme descrito anteriormente, os pára-raios de ZnO estarão submetidos


permanentemente a uma tensão de serviço fase-terra, além de eventuais
solicitações devido às sobretensões temporárias e aos surtos atmosféricos ou de
manobra. Tais solicitações podem provocar uma degradação progressiva na
estrutura físico-química dos elementos de ZnO, que pode vir a afetar a
estabilidade térmica do pára-raios. Portanto, a estabilidade térmica consiste em
um ponto de especial atenção nos projetos de pára-raios sem centelhadores.

63
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Existe uma temperatura crítica que depende: do projeto do pára-raios; da


temperatura ambiente; das características térmicas do invólucro; e da tensão
aplicada; acima da qual os elementos de ZnO apresentam dificuldades de dissipar
o calor gerado por efeito Joule. Ao absorver uma determinada quantidade de
energia elevada há um rápido aumento na temperatura dos elementos de ZnO,
com uma redução nas suas resistências (decorrente do efeito do coeficiente de
temperatura negativo para a resistência). Verifica-se então um aumento da
componente resistiva da corrente de fuga com o aumento da temperatura dos
elementos de ZnO. Se o calor gerado pelos elementos de ZnO exceder a
capacidade de dissipação de calor do projeto pára-raios ocorrerá uma avalanche
térmica, resultado de uma realimentação positiva dada por: aumento de
temperatura → aumento da componente resistiva da corrente → aumento das
perdas → aumento da temperatura.

A compreensão do comportamento dos pára-raios de ZnO quanto a estabilidade


térmica é feita com base na Figura 3.10.

Figura 3.10 - Curvas com as características da potência consumida por um


elemento de ZnO e da potência dissipada pelo invólucro

Como pode ser observado na figura, existem dois pontos de interseção entre as
curvas de potência consumida pelos elementos de ZnO e a capacidade de
dissipação de calor pelo invólucro: o ponto de operação a baixa temperatura,
denominado ponto de operação estável; e o limite de estabilidade, denominado
ponto de limiar da estabilidade. Em ambos os pontos há a condição de equilíbrio
térmico, ou seja, a potência gerada nos elementos de ZnO é igual a potência
dissipada para o meio externo. Porém este equilíbrio é estável somente no ponto
de operação estável.

Se a potência gerada pelos elementos de ZnO exceder a capacidade de


dissipação de potência pelo invólucro, haverá um excesso de energia sobre os
elementos de ZnO com o aumento progressivo da temperatura, causando a

64
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instabilidade térmica e a danificação do pára-raios, se a temperatura estiver acima


do limite de estabilidade. Se a temperatura estiver abaixo do ponto de operação,
haverá uma tendência de sua elevação até o ponto de operação. Por outro lado,
se a potência dissipada pelo invólucro exceder a potência gerada pelos elementos
de ZnO, a temperatura através dos elementos de ZnO diminuirá com o tempo,
tendendo a atingir a temperatura correspondente ao ponto de operação.

Para assegurar a estabilidade térmica estando o pára-raios de ZnO operando no


seu ponto de operação (ponto de equilíbrio estável), a elevação de temperatura
dos elementos de ZnO, após uma solicitação temporária ou transitória
(correspondente a uma sobretensão atmosférica ou de manobra), deverá ser
inferior a variação de temperatura entre os pontos de operação e de limite de
estabilidade. Este conceito está diretamente relacionado a capacidade de
absorção de energia térmica do pára-raios.

A degradação físico-química acarreta em um aumento da potência gerada pelos


elementos de ZnO para uma determinada condição de tensão e temperatura.
Como conseqüência, há um deslocamento na curva de potência gerada pelos
elementos de ZnO, estabelecendo-se novos pontos de operação e de limiar de
estabilidade. Este deslocamento da curva acarreta em uma redução na máxima
elevação de temperatura permitida para assegurar a estabilidade térmica do pára-
raios, reduzindo a capacidade de absorção de energia térmica desse pára-raios.

Comparando os princípios de funcionamento dos pára-raios com e sem


centelhadores, pode-se verificar uma série de vantagens para os pára-raios sem
centelhadores, entre as quais se destacam:
- A simplicidade da construção, devido a ausência dos centelhadores, que
aumenta a confiabilidade dos pára-raios;
- Características de proteção bem definidas devido a ausência dos
centelhadores;
- Ausência de tensões disruptivas, eliminando os efeitos bruscos sobre os
enrolamentos de transformadores e reatores;
- Ausência de correntes subseqüentes;
- Melhor desempenho sob contaminação, proveniente de uma melhor
distribuição de tensão ao longo do pára-raios;
- Maior capacidade de absorção de energia, com a possibilidade de repartição
de corrente através da utilização de pára-raios em paralelo;
- Os pára-raios de ZnO entram e saem de condução suavemente.

3.5 Critérios para seleção e aplicação dos pára-raios na proteção dos


sistemas elétricos

Os pára-raios ao serem instalados nos sistemas elétricos têm por finalidade


proteger os equipamentos contra sobretensões atmosféricas ou de manobra.
Quando aplicados na proteção de redes de distribuição ou linhas de transmissão,
a função principal é a proteção contra descargas atmosféricas.

65
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Vários aspectos devem ser considerados para a proteção dos equipamentos,


entre os quais: as características de proteção dos pára-raios (seção 3.3 - Capítulo
3) e o nível de suportabilidade dos equipamentos a serem protegidos (seção 1.2 -
Capítulo 1). Apesar de a proteção coordenada ser importante para todos os
equipamentos de um sistema, esta proteção é mais importante para os
transformadores, devido ao custo e a complexidade do seu isolamento interno.

O correto dimensionamento dos pára-raios de Óxido de Zinco (ZnO) às


características dos sistemas para os quais são aplicados propicia uma proteção
adequada aos equipamentos protegidos, além de uma otimização na relação entre
benefício e custo para aquisição dos pára-raios.

De uma maneira geral, os seguintes passos devem ser considerados para a


seleção e aplicação adequada dos pára-raios em um sistema elétrico:

• Seleção do pára-raios adequado ao sistema e determinação das suas


características de proteção;
• Seleção ou determinação da suportabilidade da isolação;
• Avaliação da coordenação do isolamento entre os pára-raios e os
equipamentos protegidos;

A seguir são apresentados os passos a serem seguidos para um estudo de


seleção e aplicação dos pára-raios visando a coordenação do isolamento pelo
método determinístico:

3.5.1 Determinar a máxima tensão eficaz fase-terra a freqüência


fundamental, a ser considerada no ponto de instalação do pára-raios:

Esse parâmetro servirá como referência e corresponde a 1,0 pu.

3.5.2 Seleção da tensão nominal do pára-raios:

O critério de seleção da tensão nominal dependerá do tipo de pára-raios utilizado:

A aplicação dos pára-raios com centelhadores requer a garantia de que em caso


da ocorrência de uma sobretensão temporária no sistema, não ocorra a disrupção
dos centelhadores série evitando, desta forma, a absorção de uma energia que o
pára-raios não possui condições de dissipar e que resultaria em sua falha.

Neste caso, para se evitar a falha do pára-raios devido a uma sobretensão


temporária a seleção da tensão nominal do pára-raios (Un) deve ser igual ou
superior a máxima sobretensão temporária no ponto de aplicação do pára-raios.

No caso da aplicação de pára-raios sem centelhadores, a escolha da tensão


nominal será baseada em duas premissas, descritas a seguir:

66
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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(a) Os pára-raios sem centelhadores apresentam um valor limite de tensão


eficaz de freqüência fundamental que pode ser aplicado continuamente
entre os seus terminais sem alterações no seu desempenho elétrico. Este
valor de tensão é definido como a Máxima Tensão Contínua de Operação
(MCOV) do pára-raios.

(b) Devido a elevada capacidade de absorção de energia dos elementos de


ZnO é possível que esses absorvam, por um determinado tempo, uma
quantidade de energia proveniente de sobretensões temporárias, e tenha
condições de dissipá-la sem afetar as suas características de operação e
de proteção. Essa característica do pára-raios é definida pela curva
“Tensão de freqüência fundamental x tempo” (TOVPR) e depende
basicamente das características dos elementos de ZnO utilizados.

Desta forma, quando da utilização de um pára-raios sem centelhadores, deve-se


garantir que:

• A MCOV do pára-raios seja igual ou superior à máxima tensão


operativa do sistema no ponto de aplicação do pára-raios e que,

• Quando da ocorrência de uma sobretensão temporária, a característica


tensão de freqüência fundamental versus tempo do pára-raios deve
exceder a característica amplitude da sobretensão temporária versus
duração para o sistema.

Curvas típicas “tensão de freqüência fundamental versus tempo”, bem como os


procedimentos para a seleção da tensão nominal de pára-raios aplicados em
redes de distribuição e subestações são apresentadas nos capítulos 4 e 5.

Outra forma bastante conservativa para se definir a tensão nominal do pára-raios


de ZnO consiste na determinação da sobretensão temporária equivalente a
10 segundos, a partir da sobretensão temporária encontrada no sistema. Neste
caso, a amplitude e a duração das sobretensões temporárias com durações entre
0,1 s e 100 s, podem ser convertidas para uma amplitude equivalente - Ueq, com
uma duração de 10 s (correspondente ao tempo de aplicação da tensão nominal
no ensaio ciclo de operação):
m
T 
U eq = U t ⋅  t 
 10 

Ueq Amplitude da sobretensão temporária equivalente de 10 s;


Ut Amplitude da sobretensão temporária;
Tt Duração da sobretensão temporária em s;
m Expoente que descreve a característica “tensão em freqüência fundamental
versus tempo” de um pára-raios. Para diferentes projetos de pára-raios este
expoente varia entre 0.022 e 0.018. Valor médio considerado 0.02.

67
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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De acordo com esse método a tensão nominal do pára-raios deve ser igual ou
superior ao valor de crista por √2 da sobretensão equivalente obtida para 10
segundos. Isso garante a condição mínima do pára-raios de atender aos requisitos
prescritos no ensaio de ciclo de operação.

3.5.3 Estimar a intensidade e a forma de onda da mais severa corrente de


descarga através do pára-raios:

Como regra geral a corrente de descarga nominal de um pára-raios pode ser


selecionada considerando-se:

- A importância e o grau de proteção desejado: os níveis de proteção


determinados por correntes de maiores amplitudes e taxas de crescimento
aumentam com a confiabilidade da proteção;

- Número de linhas conectadas quando da operação do pára-raios: devido a


reflexões de ondas viajantes, a corrente de descarga do pára-raios depende
da impedância de surto de linhas e cabos conectados em paralelo;

- O nível de isolamento da linha: as correntes de descarga atmosférica


prospectivas aumentam quando as linhas são providas de um maior nível de
isolamento (como por exemplo, postes de madeira totalmente isolados), a
menos que a descarga ocorra tão próxima ao pára-raios que a impedância e o
isolamento da linha não possam influenciar o surto;

- A probabilidade de ocorrência das descargas atmosféricas de amplitude


elevada: as amplitudes das correntes das descargas atmosféricas variam
dentro de uma ampla faixa de valores. As linhas construídas em áreas de alta
densidade de descarga para a terra possuem uma maior chance de serem
atingidas por correntes de amplitudes mais elevadas;

- Desempenho da linha e as condições ambientais: as correntes de descarga


atmosférica e suas taxas de crescimento são funções das taxas de ocorrência
das descargas de retorno e das taxas de falha de blindagem das linhas (ou
taxas de disrupção quando de linhas não blindadas) que estão dentro de
alguma distância limite das subestações. Taxas de falha mais altas (mais
baixas) aumentam (diminuem) a provável amplitude e taxa de crescimento da
corrente de descarga através do pára-raios.

As correntes de coordenação apropriadas para surtos atmosféricos dependem


fortemente da eficiência da blindagem da linha.

Como visto anteriormente, no caso de linhas completamente blindadas o seu


desempenho frente às descargas atmosféricas se baseia nas suas taxas de falhas
de blindagem e de descarga de retorno. Se a posição do(s) cabo(s) pára-raios em
relação aos condutores fase é tal que a linha possa ser considerada efetivamente
blindada (protegida por descargas diretas), então o número de falhas da linha

68
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devido às descargas diretas nos condutores de fase é desprezível, sendo então as


descargas de retorno o mecanismo predominante de descarga sobre a isolação da
linha. Em ambos os casos a amplitude da corrente de descarga do pára-raios
pode ser estimada por:

I MAX = IC =
(2,4 ⋅ U CFO − Vr )
Z0

IMAX Corrente de descarga que flui pelo pára-raios, em ampères;


IC Corrente de coordenação do pára-raios;
UCF0 Tensão disruptiva crítica de polaridade negativa da linha ou rede, em volts;
Vr Tensão residual do pára-raios para impulso atmosférico (para o valor
estimado da corrente de coordenação), em volts.
Z0 Impedância de surto monofásica da linha, em ohms.

Esta relação assume que a descarga disruptiva da linha ocorra à uma distância
considerável da subestação, ou que os condutores fase são atingidos sem que
isso resulte em uma descarga disruptiva. De outra forma, a porção da corrente de
descarga total descarregada através do pára-raios pode variar consideravelmente
em função de todos os parâmetros envolvidos.

Quando a blindagem não abrange toda a extensão da linha, torna-se provável


uma maior corrente de descarga nos pára-raios. Neste caso, é necessário
considerar:

(1) A densidade de descargas para terra;


(2) A probabilidade de descargas na linha que excedem um valor determinado;
(3) O percentual da corrente de descarga total que descarrega através do pára-
raios.

Para redes de distribuição e no caso de pára-raios instalados no final de linha uma


estimativa da intensidade máxima de corrente de descarga que flui pelo pára-raios
pode ser determinada pela seguinte equação:

I MAX =
(2 ⋅ E 0 − Vr )
Z0

IMAX Corrente de descarga que flui pelo pára-raios, em ampères.


E0 Corresponde a 1,2 vezes o nível de isolamento para impulso atmosférico da
linha, em volts.
Vr Tensão residual do pára-raios para impulso atmosférico, em volts.
Z0 Impedância de surto da linha, em ohms.

A experiência indica que um grau de proteção satisfatório é obtido se as seguintes


recomendações forem observadas em função dos valores de tensão:

69
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Faixa 1 - acima de 1 kV (Seção 1.2): Pára-raios de 5 kA, 10 kA ou 20 kA

- Em sistemas da faixa 1 nos quais as distâncias entre os pára-raios são


pequenas (menos de 5 km), os pára-raios dos transformadores de distribuição
projetados para uma corrente de descarga nominal de 5 kA têm se mostrado
suficientemente confiáveis, mesmo quando no caso dos transformadores
conectados a linhas com postes de madeira e cruzetas não aterradas.

- Em sistemas com tensões até 72,5 kV pára-raios projetados para uma corrente
de descarga nominal de 5 kA podem ser adequados em áreas com baixa
densidade de descargas para a terra e quando de linhas aéreas efetivamente
blindadas e com baixa impedância de aterramento. Os pára-raios com uma
corrente de descarga nominal de 10 kA são mais adequados para instalações
importantes particularmente em áreas com alta densidade de descargas para a
terra ou de elevada resistência de aterramento.

- Em sistemas com tensões superiores a 72,5 kV pára-raios com corrente de


descarga nominal de 10 kA são geralmente recomendados.

Faixa 2: Pára-raios de 10 kA ou 20 kA

- Para sistemas com tensões menores ou iguais a 420 kV pára-raios com


corrente de descarga nominal de 10 kA geralmente são suficientes.

- Sistemas com tensões superiores a 420 kV podem requerer pára-raios com


corrente de descarga nominal de 20 kA.

3.5.4 Determinar a energia a ser absorvida pelos pára-raios:

Além de suportarem as energias provenientes das sobretensões temporárias, os


pára-raios de ZnO devem ser capazes de absorver as energias provenientes das
sobretensões transitórias que ocorrem nos sistemas, causadas por :

- Energização ou religamento de linhas longas;

- Abertura de bancos de capacitores ou cabos, através de disjuntores que


permitam o reacendimento (“restrike”);

- Descargas atmosféricas diretas sobre os condutores fase das redes aéreas de


distribuição e linhas de transmissão; descargas sobre as estruturas ou sobre
os cabos pára-raios de linhas e redes, provocando descargas disruptivas de
retorno ”backflashover” nas cadeias de isoladores; ou descargas sobre as
estruturas próximas às redes, linhas e subestações.

Para uma especificação adequada dos pára-raios, ou em casos de sistemas mais


críticos, estudos específicos envolvendo simulações computacionais devem ser

70
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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realizados, de modo a se obter as máximas energias a serem absorvidas pelos


pára-raios. A partir desses estudos, é definida a capacidade mínima de absorção
de energia dos pára-raios, que deve ser maior do que as energias máximas
obtidas nos estudos. No caso de pára-raios aplicados a sistemas de alta e de
extra-alta tensão devem-se avaliar principalmente as energias absorvidas devido
às sobretensões resultantes das manobras nos sistemas.

Em muitos dos casos a realização de estudos computacionais mais específicos


não é de fácil implementação. Nessas condições, uma vez conhecidos os níveis
de proteção dos pára-raios, é possível se estimar, de forma conservativa, as
energias absorvidas pelos pára-raios a partir das equações seguintes,
apresentadas no Guia de Aplicação de pára-raios – referência IEC 60.099.5 /7/.

• Descargas atmosféricas:

   2 ⋅ U CFO   U pl ⋅ Td
E PR = 2 ⋅ U CFO − N ⋅ U pl ⋅ 1 + ln  ⋅
  U pl   Z0
 

EPR Energia absorvida pelo pára-raios durante a descarga atmosférica (joules);


Upl Nível de proteção para impulso atmosférico do pára-raios (volts);
UCFO Tensão disruptiva crítica (polaridade negativa) de isolamento da linha
de transmissão ou da rede de distribuição (volts);
Z0 Impedância transitória monofásica da linha de transmissão / rede (ohms);
N Número de linhas conectadas ao pára-raios;
Td Duração equivalente da corrente de descarga atmosférica (em segundos),
incluindo a primeira descarga e as subsequentes. Valor típico: 300 µs.

A equação acima é obtida da integração de uma sobretensão com decaimento


exponencial.

• Energização e religamento de linhas:

E PR = 2 ⋅ U ps ⋅ (U L − U ps ) ⋅
Td
Z0

EPR Energia absorvida pelo pára-raios durante a manobra (joules);


Ups Nível de proteção para impulso de manobra do pára-raios (volts);
UL Amplitude da sobretensão no ponto de aplicação do pára-raios, não
considerando a presença do pára-raios ( volts );
Z0 Impedância transitória monofásica da linha / rede (ohms);
Td Tempo de transito da onda viajante ao longo da linha, igual ao comprimento
da LT dividido pela velocidade de propagação da onda na linha (segundos).

71
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• Manobra de bancos de capacitores ou cabo:

Os bancos de capacitores atualmente instalados em empresas concessionárias de


energia elétrica e consumidores industriais variam de poucas dezenas a várias
centenas de MVAR, sendo atualmente conectados tanto em Delta como em
Estrela, podendo ser neste caso configurado em estrela aterrada ou isolada.

Apesar de uma parcela significativa dos disjuntores atualmente instalados ser livre
de reacendimento “restrike”, em muitos dos casos estes bancos são chaveados
várias vezes ao dia, aumentando a probabilidade da obtenção de transitórios
elevados resultantes dessas manobras.

Além disso, os procedimentos para a verificação do comportamento do disjuntor


de “restrike-free” incluem um número limitado de aplicações e ensaios. Desta
forma, a utilização de pára-raios na proteção de bancos de capacitores não
somente fornece proteção ao banco em caso de ocorrência de reacendimento
“restrike”, como também reduz a sua probabilidade de ocorrência, uma vez que a
carga residual armazenada sobre os capacitores é reduzida.

A aplicação de pára-raios na proteção de bancos de capacitores pode ser


justificada por uma série de fatores, sendo os principais descritos a seguir /8/:

- Evitar as falhas nos capacitores ou falha nos disjuntores em caso da


ocorrência de reacendimento “restrike” ;
- Reduzir a probabilidade da ocorrência de reacendimentos “restrikes” múltiplos
em disjuntores;
- Prolongar a vida útil dos capacitores instalados, através da redução dos
elevados valores de sobretensões resultantes dos chaveamentos dos bancos;
- Proteger os bancos de capacitores conectados às linhas contra sobretensões
transitórias de origem atmosférica.

A referência /7/ apresenta a seguinte equação para a determinação da energia


absorvida pelos pára-raios durante manobras de bancos de capacitores:

E PR =
1
2
⋅ C ⋅ (3 ⋅ Vsis ) −

2
( )
2 ⋅ Vr 
2



EPR Energia absorvida pelo pára-raios durante a manobra do banco (joules);


C Capacitância do banco de capacitores ou do cabo (µF);
VSIS Tensão de operação fase-terra, valor de crista (kV);
VR Tensão nominal do pára-raios (valor eficaz) (kV).

A equação acima considera a situação mais crítica, correspondente a ocorrência


de reacendimento em disjuntores durante a manobra do banco de capacitores.

72
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Um fator importante que deve ser considerado quando do estudo da absorção de


energia devido a manobras de bancos de capacitores, é a relação entre a
capacidade de absorção de energia e a corrente de descarga que flui pelo pára-
raios. De acordo com as referências /8/ e /9/, a capacidade de absorção de
energia dos elementos de ZnO apresenta uma dependência com as
características da corrente de descarga.

A energização de um banco de capacitores ocasiona a circulação de correntes


transitórias (correntes de “inrush”) de amplitudes elevadas e de curta duração,
cuja freqüência depende basicamente da capacitância do banco de capacitores e
das indutâncias do circuito. A amplitude e os efeitos dessas correntes podem ser
reduzidos por meio da utilização de equipamentos de manobra com pré-inserção
de resistores série, ou reatores em série com os bancos, ou ainda uma
combinação de ambos.

Para um melhor entendimento do fenômeno, consideremos o circuito equivalente


da Figura 3.11, representativo do fechamento monofásico de um banco de
capacitores trifásico de 50 MVAr em uma subestação de 230 kV, com uma
corrente de curto-circuito de 20 kA /10/.

Figura 3.11 – Circuito para análise de fechamento de um banco de capacitores

A partir das características do sistema, obtém-se o valor da capacitância do banco


de 2,51 µF e uma indutância série equivalente de 17,6 mH.

A referência /10/ descreve os procedimentos passo a passo para a análise das


sobretensões resultantes de abertura e de fechamento de bancos de capacitores,
obtendo as seguintes equações para a determinação da amplitude da corrente e
da freqüência envolvida na manobra de um único banco de capacitores:

E0 − EC 1
i (t ) = ⋅ sen(w0t ) f =
L
C 2π ⋅ L ⋅ C

i(t) Corrente transitória de energização do banco de capacitores (A);


E0 Valor de crista da tensão de alimentação do sistema (V)
Ec Tensão armazenada no banco de capacitores (V)

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Considerando que não há tensão armazenada no banco de capacitores, para esta


condição de fechamento tem-se uma corrente transitória de energização de
2,24 kA com uma freqüência de 750 Hz. Em caso de existência de um pára-raios
próximo a este banco teríamos uma corrente de descarga inferior a 600 A fluindo
através do pára-raios.

Da mesma forma, em caso de abertura de um banco de capacitores sem


reacendimento do disjuntor têm-se baixas correntes de descarga fluindo através
do pára-raios.

Uma situação crítica para os pára-raios ocorre em caso de abertura de um banco


com reacendimento do disjuntor meio ciclo após a sua abertura. Nesta condição a
tensão da fonte de alimentação tem o seu valor máximo em oposição a tensão
armazenada no capacitor e a amplitude da corrente de manobra dobra de valor
em relação a corrente de energização.

A Figura 3,12 ilustra o comportamento das correntes fluindo pelo banco de


capacitores (curva em verde) e pelo pára-raios (curva em vermelho). Observa-se
da figura que a corrente de descarga pelo pára-raios apresenta uma amplitude da
ordem de 3,05 kA.
5000

[A]

4000

3000

2000
Corrente no pára-raios

1000

-1000

-2000

-3000
19 20 21 22 23 24 25 [ms] 26
(file Banco_capacitores.pl4; x-var t) c:4 -5 c:4 -6

Figura 3.12 – corrente fluindo belo banco de capacitores e pelo pára-raios devido
ao reacendimento do disjuntor em um tempo meio ciclo após a abertura

Geralmente a duração das correntes de descarga que fluem pelos pára-raios


resultantes das manobras de bancos de capacitores com reacendimento, é muito
menor do que as durações das correntes transitórias obtidas durante o ensaio de
descarga de linhas de transmissão, definido pela norma técnica IEC 60.099-4 //4/.
Por outro lado, a amplitude das correntes de descarga provenientes desta
condição de manobra geralmente são maiores do que a amplitude das correntes
representativas de manobras de linhas de transmissão estabelecidas na IEC.

74
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Desta forma, para se definir a capacidade de absorção de energia requerida para


os pára-raios quando da proteção de bancos de capacitores, torna-se necessário
determinar, além das energias a serem absorvidas, as características das
correntes de descarga que fluem pelo pára-raios, resultantes das manobras do
banco de capacitores considerando a possibilidade de reacendimento.

A referência /10/ sugere a seguinte equação para se obter a energia máxima


absorvida por um pára-raios em caso de abertura de um banco de capacitores
com reacendimento meio ciclo após a abertura:

4 ⋅ E0 − (U REs − E0 )
2 2
1
EMAX = ⋅ C ⋅ U RES ⋅
2 U RES − E0

EMAX Máxima energia absorvida pelo pára-raios (J);


C Capacitância do banco (µF);
URES Tensão residual do pára-raios à corrente considerada (kV);
E0 Valor de crista da tensão de alimentação do sistema (kV)

Uma estimativa para a determinação da corrente que flui pelo pára-raios durante a
abertura de um banco de capacitores conectado em estrela aterrada com
reacendimento, é proposta na referência /9/:

IA =
(2,6 ⋅ Vsis
2
− (VR − 0,82 ⋅ Vsis ) ⋅
2
) (I F ⋅ C)
39 ⋅ Vsis

IA Corrente que flui pelo pára-raios ( kA );


Vsis Tensão nominal do sistema ( kV valor eficaz fase-fase );
VR Tensão residual para surto de manobra do pára-raios à corrente IA ( kV );
IF Corrente de falta do sistema no ponto de localização do pára-raios ( kA );
C Capacitância monofásica do banco de capacitores ou do cabo ( µF ).

Para capacitores shunt instalados em um banco trifásico aterrado, a capacitância


monofásica do banco pode ser dada por:

Q bc ⋅ 106
C= 2
3 ⋅ ω ⋅ Vsis

C Capacitância monofásica do banco de capacitores ( µF );


Qbc Potência reativa trifásica do banco de capacitores ( MVar );
Vsist Tensão nominal do sistema - valor eficaz fase-terra ( kV );

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De acordo com a referência /9/, em caso de reacendimento a energia máxima


absorvida pelo pára-raios pode ser estimada por:

2
0,8 ⋅ VSIS ⋅ VR ⋅ I A
EMAX =
(VR − 0,82 ⋅ VSIS ) ⋅ I F

As equações apresentadas acima servem como uma boa referência para uma
estimativa das grandezas corrente de descarga e energia absorvida por um pára-
raios quando da manobra de um banco de capacitores com reacendimento. No
entanto, para uma análise mais detalhada recomenda-se a realização de estudos
utilizando-se ferramentas computacionais.

Um tema ainda em discussão se refere a real capacidade de absorção de energia


de um pára-raios em função das características da corrente de descarga. Uma
pesquisa detalhada está sendo desenvolvida pelo WG A3.17 do CIGRÉ,
resultando em alguns informes técnicos de real interesse /11/.

A referência /9/ propõe uma relação entre a capacidade de absorção de energia


do pára-raios em função da corrente de descarga que flui por esse, cuja curva é
apresentada na Figura 3.13. Verifica-se na figura uma redução na capacidade de
absorção de energia dos pára-raios a partir de uma amplitude de corrente de
descarga estabelecida pelo fabricante.

1,00
Capacidade de absorção de

0,90
Energia (pu)

0,80

0,70

0,60

0,50
1,00 1,50 2,00 2,50 3,00 3,50
Corrente (pu da corrente de descarga máx.)

Figura 3.13 – Relação entre a capacidade de absorção de energia e


a corrente de descarga que flui pelo pára-raios

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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A curva apresentada na figura é específica para um determinado fabricante /9/. É


recomendável que os fabricantes apresentem informações referentes aos seus
pára-raios, para uma análise mais criteriosa e precisa do comportamento dos
pára-raios quando da manobra de bancos de capacitores. No entanto, na ausência
dessas informações, é sugerido considerar a relação apresentada na figura acima.

Outro fator importante é conhecer a máxima corrente de descarga, a partir da qual


poderá ocorrer uma redução na capacidade de absorção de energia do pára-raios.

A referência /8/ sugere considerar a capacidade de absorção de energia do pára-


raios para descargas de bancos de capacitores como uma energia equivalente a
80% do valor para a “energia de um impulso”, apresentado em seus catálogos
técnicos.

Detalhes específicos quanto a determinação da capacidade de absorção de


energia em pára-raios aplicados em redes de distribuição e subestações
encontram-se nos capítulos 4 e 5, respectivamente.

Uma vez determinada as energias mínimas requeridas pelos pára-raios para os


diferentes eventos, e conhecendo-se a tensão nominal do pára-raios utilizado, é
possível obter-se a energia necessária para os pára-raios, em kJ / kV.

Outros casos podem resultar em grande absorção de energia pelo pára-raios


como, por exemplo, a utilização de fusíveis limitadores de corrente, ou quando da
instalação de pára-raios com baixo nível de proteção.

As Figuras 3.14 a 3.16, a seguir, apresentam informações com base em ensaios


experimentais realizados em laboratório quanto às energias específicas
absorvidas pelos pára-raios em kJ / kV nominal em função da relação entre a
tensão residual do pára-raios e a sua tensão nominal /12/.

Figura 3.14 - Energia específica ( kJ / kV nominal) em função da relação entre a


tensão residual (Ua) e a tensão nominal (Ur) – Descarga de linhas de transmissão

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Figura 3.15 - Energia específica ( kJ / kV nominal) em função da relação entre a


tensão residual (Ua) e a tensão nominal (Ur) – Impulso de corrente elevada 4/10µs.
O nível de proteção válido para a amplitude da corrente considerada.

Figura 3.16 - Energia específica ( kJ / kV nominal) em função da relação entre a


tensão residual (Ua) e a tensão nominal (Ur) – Impulso de corrente 8/20 µs.
O nível de proteção válido para a amplitude da corrente considerada.

3.5.5 Requerimentos de suportabilidade a correntes de falta:

De modo a evitar riscos às pessoas e avarias aos demais equipamentos


instalados, os pára-raios devem ser projetados para suportar mecanicamente os
efeitos das correntes de curto-circuito, em caso de sua eventual falha.

No caso de pára-raios com invólucros de porcelana ou polimérico apresentando


espaços internos de ar entre os elementos ativos e a parte interna do invólucro, o
dispositivo de alívio de sobrepressão deve atuar, de modo a evitar a fragmentação

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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ou a explosão do invólucro. No caso de pára-raios poliméricos cujo projeto não


apresente espaços internos de ar, esses devem suportar mecanicamente os
esforços da corrente de curto-circuito sem liberação ou desprendimento de sua
parte ativa.

Em caso de uma eventual falha do pára-raios flui através desse uma corrente
correspondente a corrente prospectiva de curto-circuito do sistema, cujo valor
simétrico pode ser determinado por:

PCC (MVA)
I FALTA =
3 ⋅ VSIS

IFALTA Corrente de curto-circuito do sistema no ponto de instalação do PR’s, (kAef)


PCC Potência de curto-circuito do sistema no ponto de instalação dos
pára-raios (MVA)
Vn Tensão nominal do sistema (kVef).

Conhecendo-se a corrente de curto-circuito do sistema é possível estabelecer a


corrente de alívio de sobrepressão (pára-raios com espaçamentos internos de
arde porcelana) ou a corrente suportável de falta (pára-raios polimérico). Desta
forma, os pára-raios devem ser dimensionados em função da máxima corrente de
curto-circuito do sistema, no ponto de instalação do pára-raios.

3.5.6 Condições de serviço (ambientais):

Quando da especificação de um pára-raios deve-se levar em consideração as


condições ambientais em relação ao ponto de instalação do pára-raios.

Os níveis de poluição aplicados a invólucros de porcelana são definidos pela


norma técnica IEC 60.815 /13/ de acordo com 4 níveis:

- Nível de poluição leve: distância de escoamento de 16 mm / kVfase-fase


- Nível de poluição moderado: distância de escoamento de 20 mm / kVfase-fase
- Nível de poluição alto: distância de escoamento de 25 mm / kVfase-fase
- Nível de poluição muito alto: distância de escoamento de 31 mm / kVfase-fase

O usuário deve especificar a distância mínima de escoamento em função das


características da região onde os pára-raios serão instalados.

Pára-raios com invólucros de porcelana apresentam geralmente distâncias de


escoamento na ordem de 20 mm / kVfase-fase, enquanto que os pára-raios com
invólucros polimérico apresentam valores superiores a 25 mm / kVfase-fase

79
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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3.5.7 Determinar as características de proteção do pára-raios escolhido:

Uma vez definidos os parâmetros de operação do pára-raios, o próximo passo é


definir os seus níveis de proteção para impulsos atmosférico e de manobra em
função das características dos sistemas a serem protegidos.

A característica de proteção dos pára-raios depende basicamente do tipo de pára-


raios utilizado, devendo estar abaixo dos valores normalizados.

Informações sobre as características de proteção dos pára-raios com e sem


centelhadores são apresentados na Seção 3.3.2 deste Capítulo.

3.5.8 Localizar o pára-raios o mais próximo possível do equipamento a ser


protegido:

Os pontos de aterramento dos pára-raios e dos equipamentos a serem protegidos


devem, sempre que possível, ser interligados eletricamente.

3.5.9 Determinar a tensão na isolação a ser protegida, que resultará da


limitação imposta ao pára-raios, levando em conta as distâncias de
separação e outros fatores aplicáveis ao ponto de utilização:

No Capítulo 1, foram apresentadas informações sobre os princípios básicos de


coordenação do isolamento não sendo considerados, no entanto, os efeitos dos
cabos de conexão e da distância de separação entre os pára-raios e os
equipamentos protegidos.

De forma a otimizar a proteção dos equipamentos devido as sobretensões, deve-


se determinar a tensão nos terminais dos equipamentos protegidos considerando
os efeitos dos cabos de conexão e da distância de separação.

As correntes de descarga ao fluírem através da indutância dos cabos de ligação


dos pára-raios provocam uma queda de tensão (VL = L . di / dt) que deve ser
adicionada a tensão residual do pára-raios correspondente a amplitude da
corrente de descarga. O comprimento total desses cabos é medido do ponto no
qual é realizada a conexão da linha ao terminal de alta tensão do pára-raios até o
ponto em que é feita a interconexão do ponto de neutro pára-raios com o terra do
equipamento protegido.

Um valor de tensão usualmente utilizado é de 5,25 kV / metro de cabo de ligação,


para uma taxa de crescimento da corrente de 4 kA / µs.

Embora as tensões nos cabos de ligação dos pára-raios desenvolvidas para


correntes de coordenação do isolamento de 10 kA e 20 kA com forma 8/20 µs
sejam aproximadamente um quarto e metade do valor de 5,25 kV / metro,

80
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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respectivamente, é importante manter os comprimentos tão curtos quanto


possível. O efeito do comprimento dos cabos de conexão é mais crítico em redes
expostas a descargas diretas e localizadas em regiões com elevada incidência de
descargas atmosféricas, onde as correntes de descarga podem apresentar
amplitudes e taxas de crescimento bem superiores às usualmente consideradas.
Por exemplo, para uma taxa de crescimento da corrente de 10 kA/µs, o acréscimo
de tensão devido aos efeitos de conexão será de aproximadamente 13 kV/m de
conexão.

Comprimentos excessivos dos cabos de ligação podem eliminar o fator de


segurança definido para a margem de proteção para impulsos atmosféricos.

Os pára-raios de distribuição são utilizados freqüentemente para proteção de um


único equipamento e, portanto, devem ser conectados tão próximos quanto
possível dos equipamentos protegidos o que reduz os efeitos da distância de
separação.

Já os pára-raios classe estação apresentam geralmente uma distância de


separação em relação aos equipamentos protegidos, distância esta que provoca
uma tensão que deve ser adicionada a tensão residual dos pára-raios quando da
determinação da tensão nos terminais dos equipamentos protegidos. Como regra
geral a tensão no equipamento protegido é maior que a tensão residual do pára-
raios. Por conseguinte, é sempre recomendável a redução da distância de
separação entre o pára-raios e o equipamento protegido a um valor mínimo
possível.

Detalhes quanto aos procedimentos para a determinação do efeito da distância e


de separação são apresentados nos Capítulos 4 e 5.

3.5.10 Determinar as tensões suportáveis nominais de impulso da isolação a


ser protegida (ver seção 1.2 – Capítulo 1).

3.5.11 Verificar se as margens de proteção estão adequadas:

A margem de proteção para sobretensões transitórias de frente lenta e de frente


rápida é definida como a diferença entre o nível mínimo de suportabilidade do
equipamento e o nível máximo de proteção do pára-raios para as sobretensões
acima, acrescidos dos efeitos dos cabos de conexão e da distância de separação,
quando necessário.

Quanto maior for a margem de proteção, menores serão os riscos de danos dos
equipamentos protegidos associados às sobretensões.

A proteção adequada de um equipamento pode ser realizada com base em


comparações de pontos distintos da curva “tensão x tempo”.

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Existem três relações de proteção em uso que comparam os níveis de proteção


com os níveis de suportabilidade correspondentes, conforme apresentado na
seção 1.3.2, adicionando-se os efeitos dos cabos de conexão e da distância de
separação.

TSIACF
MP1 =
NPFO + ∆V(t )

TSIACF Tensão suportável de impulso atmosférico cortado na frente;


NPFO Nível de proteção do pára-raios para frente de onda;
∆V Tensão a ser adicionada ao nível de proteção do pára-raios devido
aos efeitos dos cabos de conexão e da distância de separação entre
o pára-raios e o equipamento protegido.

Para isolamento em óleo, em ar e sólidos de origem inorgânica a tensão


suportável de impulso atmosférico cortado na frente pode ser considerada como
sendo igual a 1,15 vezes a tensão suportável nominal de impulso atmosférico.
Para isolamento sólido de origem orgânica a tensão suportável de impulso
atmosférico cortado é considerada como sendo igual a tensão suportável nominal
de impulso atmosférico.

TSNIA
MP2 =
NPIA + ∆V(t )

TSNIA Tensão suportável nominal de impulso atmosférico;


NPIA Nível de proteção do pára-raios para impulso atmosférico;
∆V Tensão a ser adicionada ao nível de proteção do pára-raios devido
aos efeitos dos cabos de conexão e da distância de separação entre
o pára-raios e o equipamento protegido.

TSNIM
MP3 =
NPIM

TSNIM Tensão suportável nominal de impulso de manobra


NPIM Nível de proteção do pára-raios para impulso de manobra

Equipamentos aplicados em sistemas de Alta e Extra Alta tensões apresentam as


características de suportabilidade para surtos de manobra definidas (Tabela A.3 –
Seção 1.2 – Capítulo 1).

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Para os equipamentos aplicados a sistemas de distribuição e de transmissão com


máximas tensões operativas até 245 kV (Tabela A.2 – Seção 1.2 – Capítulo 1),
não se dispõe geralmente das informações referentes a suportabilidade a surtos
de manobra. Neste caso, pode-se considerar a suportabilidade para surtos de
manobra como sendo equivalente a 83% da tensão suportável nominal de impulso
atmosférico.

Como regra geral, as margens de proteção MP1 e MP2 devem ser no mínimo de
20% a 25%. Todavia, na prática, tem-se observado a existência de sistemas de
proteção com margens de proteção (MP) muito acima desses valores. Quando os
pára-raios são conectados diretamente ao equipamento protegido os efeitos de
separação e dos cabos de conexão são minimizados. Neste caso, a margem de
proteção MP1 usualmente pode ser desprezada.

3.6 Referências bibliográficas

/1/ NBR 5287 / 1988, "Pára-raios de resistor não-linear a Carboneto de Silício


(SiC) para circuitos de potência de corrente alternada – Especificação”.
/2/ NBR 5309 / 1991, "Pára-raios de resistor não-linear a Carboneto de Silício
(SiC) para circuitos de potência de corrente alternada – Método de
Ensaios”.
/3/ IEC 99-1 / 1991 “Surge Arresters - Part 1: "Non-linear resistor type gapped
surge arresters for a.c. systems".
/4/ IEC 60099-4 / 2006 Ed. 2.1, “Surge Arresters - Part 4: Metal-Oxide surge
arresters without gaps for a.c. systems", 2001.
/5/ ANSI IEEE Std. C62.11 / 2005, "IEEE Standard for Metal-Oxide surge
arresters for AC power circuits".
/6/ Martinez, M.L. B., “Pára-raios Convencionais a Carboneto de Silício”,
Seminário Técnico - Técnicas e Critérios de Monitoramento de Pára-raios
de SiC e ZnO em Subestações e Avaliação dos Resultados, Rio de Janeiro,
29 e 30 de Abril de 2002.
/7/ IEC 60099-5 / 2000 Ed. 1.1, “Surge Arresters – Part 5: Selection and
application recommendations”.
/8/ ABB Technical information “Guidelines for Selection of surge Arresters for
Shunt Capacitor Banks”.
/9/ Ohio Brass Co., “Application Guide – DynaVar Metal-Oxide Surge
Arresters”, Bulletin EU-HR 10/90.
/10/ Zanetta Junior, L. C., “Transitórios Eletromagnéticos em Sistemas de
Potência”, Editora da Universidade de São Paulo – Edusp, 2003.
/11/’ Hinrichsen, V. Et alii, “Energy Handling of High-Voltage Metal Oxide Surge
Arresters – Part 2: Results of a Research Test Program”, CIGRÉ Session
2008 (a ser apresentado).
/12/ Strenstron L., “Proposal for a test procedure to determine the arrester
energy capability as function of the duration of current flow”, SC33-92
(WG11) IWD.

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/13/ IEC 60.815 / 2002, “Parts 1 e 2: Selection and dimensioning of high-voltage


insulators for polluted conditions”.
/14/ Dájuz, Ary. Et alii, “Equipamentos Elétricos – Especificação e Aplicação em
Subestações de Alta Tensão”, Furnas Centrais Elétricas, Universidade
Federal Fluminense / EDUFF, 1985.
/15/ CEPEL / ELETROBRÄS, “Curso sobre Pára-raios de Distribuição, Estação
e Linhas de Transmissão – CPAR”, Outubro 1977.
/16/ Martinez, M. L. B., “Pára-raios para sistemas de Média Tensão –
Características Técnicas e Aplicação a Sistemas de Potência”; Dissertação
de Mestrado, EFEI, Dezembro 1992.
/17/ De Franco, J. L., “Curso sobre pára-raios”, CEPEL, Novembro 1986.
/18/ ANSI IEEE Std C62.22 / 1991, “IEEE Guide for the Application of Metal-
Oxide surge Arresters for Alternating-Current Systems”.

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4. Pára-raios para aplicação em redes de distribuição

4.1 Aspectos construtivos:

Existem atualmente três filosofias de pára-raios produzidos industrialmente para


aplicação em redes de distribuição: pára-raios de Carbeto de Silício (SiC); pára-
raios de Óxido de Zinco (ZnO) com centellhadores; e pára-raios de Óxido de Zinco
(ZnO) sem centelhadores. Para cada filosofia, existem diferentes concepções de
projeto e montagem, que são geralmente apresentadas pelos fabricantes em seus
catálogos técnicos.

Os pára-raios com centelhadores são encapsulados em invólucros de porcelana e


apresentam a corrente de descarga nominal de 5 kA .

Os pára-raios de ZnO sem centelhadores têm sido produzidos com invólucros de


porcelana e poliméricos. Os pára-raios com invólucro de porcelana são
geralmente de 5 kA, enquanto que os pára-raios poliméricos apresentam projetos
para correntes de descarga nominais de 5 kA e 10 kA.

Existem ainda no Brasil algumas empresas de energia elétrica que adotam a


instalação de centelhadores com dielétrico de ar em alguns pontos de redes de
distribuição rurais. A Figura 4.1 ilustra detalhes de um centelhador com dielétrico
de ar instalado em uma rede de distribuição rural de 13,8 kV.

Figura 4.1 – detalhes de montagem de um centelhador com dielétrico de ar

Considerando que os pára-raios de distribuição apresentem bons projetos elétrico


e mecânico dos sistemas de vedação, bem como sejam adequadamente
selecionados e instalados nas redes elétricas estima-se que a sua vida útil seja de
aproximadamente 15 – 20 anos.

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No entanto, na prática, alguns projetos de pára-raios de distribuição não vêm


apresentando o desempenho esperado, sendo constatadas alterações
significativas no seu desempenho que resultam, em muitas das vezes, na
operação inadequada ou até mesmo na falha parcial ou total dos pára-raios com
menos de cinco anos de operação comprometendo, desta forma, a confiabilidade
do pára-raios e a continuidade no fornecimento de energia elétrica.

Embora a maioria dos pára-raios atualmente adquiridos pelas empresas de


energia sejam do tipo ZnO com invólucro polimérico, ainda existem vários pára-
raios de SiC instalados nas redes elétricas. A taxa de falha anual dos pára-raios
atualmente instalados nos sistemas de distribuição é estimada entre 2 a 5%,
havendo uma tendência de redução significativa dessa taxa devido a substituição
progressiva dos pára-raios com centelhadores por pára-raios de ZnO com
invólucro polimérico ao longo dos últimos 10 anos.

Estudos realizados por empresas concessionárias de energia e laboratórios de


pesquisa têm identificado as principais causas que afetam o desempenho dos
pára-raios com invólucro de porcelana. Todos os estudos realizados apontam
como a principal causa de falhas a penetração de umidade por perda de
estanqueidade do invólucro, sendo esta causa responsável por aproximadamente
80 a 90 % de todas as falhas verificadas em pára-raios de distribuição.

Um resumo do trabalho desenvolvido pela Ontario Hydro /1/, o qual descreve o


percentual do número total de pára-raios falhados atribuídos às diferentes causas
de falhas é apresentado na Figura 4.2.

85.6
penetraç ão de
80
umidade
Percentual do total de falhas

60
c ontaminaç ão

des c arga aplic aç ão


40
inadequada

20 des c onhec ida

5.9 4.5 2.5 1.5


0
Caus as de falhas

Figura 4.2 - Causas de falhas atribuídas a pára-raios de distribuição /1/

A perda de estanqueidade em pára-raios de distribuição com invólucro de


porcelana pode ocorrer por vários motivos: danificação das gaxetas de vedação
durante o processo de fechamento dos pára-raios; envelhecimento das gaxetas ao
longo do tempo com perda de suas propriedades, facilitando a penetração de
umidade; e trincas ou fissuras na porcelana. Devido ao espaçamento interno de ar

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existente nos pára-raios com invólucros de porcelana, a penetração de umidade


pode resultar em condensação de umidade e corrosão de seus componentes
metálicos.

Informações sobre os aspectos envolvendo a entrada de umidade em pára-raios


com invólucros poliméricos serão apresentadas mais adiante.

Literaturas apontam as falhas de projeto como responsáveis por aproximadamente


53% das falhas verificadas por penetração de umidade em pára-raios de
porcelana. O envelhecimento do sistema de vedação corresponde a pelo menos
18% dessas falhas /2/.

Pára-raios de SiC com presença de umidade em seu interior apresentam,


geralmente, variações significativas nas suas características disruptivas. Em
muitos casos, os níveis da tensão disruptiva a freqüência fundamental chegam a
valores tão baixos em relação aos valores de projeto que uma sobretensão
temporária seria suficiente para provocar a disrupção dos centelhadores, com a
conseqüente falha do pára-raios.

Com relação aos elementos não-lineares, a absorção de umidade afeta


significativamente a característica “tensão x corrente”. Nos blocos de Carbeto de
Silício verifica-se um aumento significativo nas amplitudes das correntes
subsequentes, reduzindo a possibilidade de sua extinção; e em alguns casos, um
aumento brusco nos valores de tensão residual à corrente de descarga nominal,
aumento esse que pode comprometer a isolação do equipamento protegido
quando da operação do pára-raios. Há registros comprovados de queima de
transformadores pela operação de pára-raios com seus níveis de proteção
comprometidos.

No caso de elementos a base de ZnO, a presença de umidade altera


significativamente a característica “tensão x corrente” em toda a faixa de
operação do pára-raios, provocando o aumento da componente resistiva da
corrente na tensão de operação do pára-raios, com conseqüente redução da sua
capacidade de absorção de energia (Seção 3.4.2 – Capítulo 3); bem como os seus
níveis de proteção, podendo comprometer a isolação dos equipamentos
protegidos.

Em síntese, a penetração de umidade altera de forma significativa as


características dos pára-raios de distribuição, alterações estas que podem
conduzir a uma falha parcial ou total do pára-raios seguida da passagem de uma
corrente de freqüência industrial. Conforme visto anteriormente, em razão das
características construtivas dos pára-raios com invólucro de porcelana
(espaçamento interno de ar entre a parte ativa do pára-raios e a parte interna do
invólucro) a passagem da corrente de falta do sistema produz a formação de
gases de alta pressão que tendem a provocar a fragmentação do invólucro ou até
mesmo a explosão do pára-raios, caso esse não possua características
mecânicas suficientes para suportar e eliminar esses gases.

87
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
Franco Engenharia Ltda.

De acordo com as informações disponíveis na Figura 4.2 as descargas


atmosféricas são responsáveis por aproximadamente 6% das falhas verificadas
nos pára-raios. Se atentarmos para o fato de que muitos dos pára-raios falhados
devido ao efeito das descargas atmosféricas apresentavam presença de umidade
em seus elementos ativos (blocos de resistência não-lineares e centelhadores,
quando presentes) pode-se imaginar que a descarga atmosférica foi uma
conseqüência, sendo a causa principal da falha a presença de umidade. Desta
forma, pode-se concluir que aproximadamente 90% das falhas que ocorrem nos
pára-raios de distribuição com invólucros de porcelana se deve a presença de
umidade no interior dos pára-raios.

A contaminação também tem uma parcela significativa no índice de falhas em


pára-raios de distribuição. No caso de pára-raios com centelhadores, o efeito da
contaminação deve-se em parte a má distribuição de tensão na parte interna dos
pára-raios e a transferência de arco que se dá entre a parte externa e interna da
porcelana, proveniente da corrente de fuga externa que flui pelo invólucro. Os
fatores acima descritos acarretam em disrupção dos centelhadores série em
freqüência fundamental. Já nos pára-raios sem centelhadores a causa principal é
a degradação dos elementos de ZnO, proveniente da distribuição de tensão não
uniforme na porcelana seguida pela geração de descargas internas que produzem
alterações irreversíveis na composição interna do gás, afetando as características
dos elementos de ZnO.

A Figura 4.3 apresenta detalhes construtivos de projetos de pára-raios de SiC e de


ZnO com invólucros de porcelana.

Figura 4.3 – Detalhes construtivos de pára-raios com invólucro de porcelana

88
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
Franco Engenharia Ltda.

A experiência de campo com a aplicação de pára-raios com invólucros poliméricos


tem demonstrado que este tipo de projeto de pára-raios é menos propenso a
penetração de umidade, quando comparado aos pára-raios com invólucro de
porcelana, bem como apresenta geralmente uma melhor distribuição de tensão
interna em ambientes contaminados. Isso se deve ao fato dos projetos de pára-
raios para aplicação em redes de distribuição geralmente não apresentarem
espaços internos de ar.

Existem basicamente três concepções de projetos para pára-raios poliméricos:

- Na primeira, o invólucro polimérico é moldado e posteriormente encapsulado


sobre o conjunto de blocos de ZnO envoltos geralmente em um material de
fibra de vidro impregnado em resina epóxi. A interface entre o material de fibra
de vidro e a parte interna do invólucro polimérico é geralmente preenchida por
fluído de silicone. Portanto, para este projeto os processos de preenchimento
dos possíveis espaços de ar e de fechamento do pára-raios são essenciais
para o bom desempenho do pára-raios. Essa concepção de projeto está
ilustrada na Figura 4.4.

Figura 4.4 – Detalhes do projeto construtivo de pára-raios moldado


Fotos de pára-raios de fabricação Ohio Brass

- Na segunda concepção de projeto existe, de forma similar a primeira, o


conjunto de blocos encapsulado em um material geralmente de fibra de vidro
impregnado em resina epóxi. A diferença dessa concepção está no processo
de aplicação do invólucro polimérico, que neste caso é feito através de injeção
direta. Essa concepção de projeto apresenta como maior vantagem em
relação a primeira a ausência da flange para o fechamento do pára-raios,
reduzindo de forma significativa a possibilidade de penetração de umidade no
interior do pára-raios. O processo de montagem do invólucro diretamente sobre

89
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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o conjunto encapsulado também reduz os riscos de existência de espaços de


ar. No entanto, há a necessidade de um controle visando um processo de
injeção homogêneo, de forma a evitar a formação de bolhas de ar, que podem
resultar na formação de descargas parciais que podem conduzir a uma
degradação do pára-raios ao longo do tempo.

As duas concepções de projeto acima são conhecidas como “wrapped design”


devido seu princípio de montagem e representam as concepções de projeto
dos primeiros pára-raios poliméricos desenvolvidos para aplicação em redes
de distribuição em meados da década de 80 /3/.

Nesses projetos o encapsulamento dos blocos é feito geralmente em material


de fibra de vidro impregnado em resina epóxi tem como funções básicas:
garantir a resistência mecânica dos pára-raios em condições de esforços
permanentes e dinâmicos, considerando que esses esforços sejam adequados
ao projeto mecânico do pára-raios; garantir a suportabilidade mecânica
necessária em caso de uma eventual falha do pára-raios, seguida pela
passagem da corrente de curto-circuito do sistema; e facilitar o processo de
montagem.

Devido a simplicidade de construção, essa concepção vem sendo amplamente


utilizada. Cuidados devem ser tomados no processo de desenvolvimento do
encapsulamento, de modo a atender as condições requeridas para o ensaio de
curto-circuito.

- A terceira concepção consiste em um conceito de projeto mecânico bem


diferente das duas primeiras concepções, conhecido como projeto tipo gaiola
ou “cage design” onde as solicitações mecânicas do pára-raios são garantidas
pela própria coluna de blocos de ZnO. Para cumprir esta função os blocos de
ZnO são fixados e montados entre os terminais do pára-raios por meio de fitas
trançadas ou bastões de fibra que são pré tensionados axialmente em uma
faixa de aproximadamente 100 kN.

Esta concepção de projeto foi inicialmente desenvolvida para pára-raios de


distribuição, sendo posteriormente expandida para os pára-raios para
aplicação em subestações e linhas de transmissão.

A principal vantagem dessa concepção de projeto em relação às anteriores


resulta da elevada suportabilidade mecânica desse tipo de projeto, associada
ao seu bom desempenho para as condições requeridas no ensaio de curto-
circuito. No entanto, essa concepção geralmente requer uma maior tecnologia
de fabricação.

A Figura 4.5 apresenta detalhes construtivos de projetos de pára-raios tipo


gaiola utilizados por diferentes fabricantes.

90
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
Franco Engenharia Ltda.

Figura 4.5 – Detalhes de projetos de pára-raios tipo gaiola


Fotos de pára-raios de fabricação ABB, Siemens e Tyco Bowthorpe

Várias publicações têm sido apresentadas reportando o comportamento dos


diferentes projetos de pára-raios com invólucros poliméricos em relação a
penetração de umidade e os efeitos da umidade sobre o desempenho elétrico e
mecânico desses pára-raios. A referência /4/ apresenta um estudo bastante
detalhado relacionando o efeito da umidade no comportamento elétrico de
diferentes projetos de pára-raios poliméricos.

A Figura 4.6 extraída da referência /4/, apresenta os componentes básicos


encontrados em projetos de pára-raios poliméricos moldados e diretamente
injetados.

1 Resistores não-lineares
2 Terminações metálicas
3 Suporte mecânico
(wrapping ou gaiola)
4 Invólucro polimérico (silicone,
EPDM, EPM, EVA ou ligas)
5 Eletrodos metálicos (espaçadores)
6 Interface entre o polímero e o
suporte mecânico
7 Flanges metálicos

Figura 4.6 – Componentes de pára-raios moldados e injetados

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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A principal diferença nos componentes utilizados na montagem desses pára-raios


está na existência de uma interface entre o polímero e o suporte isolante e nos
flanges metálicos, os quais são encontrados apenas nos pára-raios moldados.

De acordo com as informações apresentadas na referência /4/, existem


basicamente três possíveis formas de penetração de umidade em projetos de
pára-raios com invólucros poliméricos:

- a primeira, inerente em projetos de pára-raios moldados, por efeito


capilaridade através do sistema de vedação, devido a existência dos flanges
metálicos necessários para o fechamento dos pára-raios;

- a segunda, resultado da possibilidade de reações químicas iniciadas por


atividades de descargas internas, sendo minimizada pelo uso de materiais
adequados e por um bom processo de produção, de forma a evitar atividades
elétricas internas na interface entre os blocos de ZnO e o invólucro polimérico;

- a terceira consiste na penetração de umidade por difusão através do invólucro


polimérico ou por efeito capilaridade através de pontos quebradiços ou outras
imperfeições no composto polimérico. A penetração de umidade através do
material polimérico está relacionada com o tipo de composição do material
polimérico, possíveis imperfeições no invólucro, elevadas solicitações elétricas
aplicadas ao invólucro, condições ambientais, etc, sendo influenciada tanto
pelo projeto quanto pelo processo de produção.

A Figura 4.7 sintetiza as informações apresentadas na referência /4/.

Figura 4.7 – Possíveis formas de penetração de umidade em pára-raios


com invólucros poliméricos /4/

92
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Em caso de penetração de umidade no interior do pára-raios um fluxo de corrente


interna irá se iniciar quando da energização do pára-raios, criando um “caminho”
para a passagem da corrente de fuga. Dependendo do fluxo de corrente e da
potência dissipada, esta corrente de fuga poderá causar o trilhamento elétrico dos
materiais. Por outro lado, degradação causada por uma corrente de fuga interna
pode acelerar o processo de penetração de umidade no pára-raios, devido ao
“enfraquecimento” das propriedades dos materiais e da sua estrutura interna.

A degradação e o envelhecimento dos materiais e da estrutura dos pára-raios


devido a condições climáticas adversas também propiciam a penetração de
umidade no interior dos pára-raios poliméricos.

Maiores informações sobre os aspectos relacionados a penetração de umidade


em pára-raios com invólucros poliméricos podem ser obtidas na referencia /4/.

Outro aspecto importante dos pára-raios poliméricos está associado às


conseqüências em caso de falha do pára-raios. O projeto mecânico dos pára-raios
poliméricos deve ser tal que resista mecanicamente a passagem da corrente de
curto-circuito do sistema sem fragmentação ou desprendimento dos elementos
ativos de ZnO, permanecendo intacto após a passagem da corrente de falta.

Para assegurar esta característica os projetos de pára-raios poliméricos devem


ser submetidos aos ensaios de curto-circuito, onde o pára-raios e submetido por
um determinado período de tempo e uma solicitação de tensão bem acima da
tensão nominal, provocando a sua falha, que é seguida pela passagem da
corrente de ensaio (Seção 3.2.3 – Capítulo 3).

A Figura 4.8 ilustra exemplos de pára-raios submetidos ao ensaio de curto-circuito

Figura 4.8 - Detalhes de pára-raios de distribuição poliméricos


submetidos ao ensaio de curto-circuito

93
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Pára-raios poliméricos aplicados a redes de distribuição começaram a ser


instalados no sistema elétrico brasileiro no início dos anos 90. Desde então, o
processo de aquisição desse tipo de pára-raios vem crescendo ano a ano, sendo
atualmente o tipo de pára-raios predominantemente adquirido pela maioria das
empresas concessionárias de energia no Brasil.

4.2 Critérios básicos para a seleção dos pára-raios para redes de


distribuição

O correto dimensionamento dos pára-raios às características dos sistemas para


onde serão aplicados propicia uma proteção adequada aos equipamentos
protegidos a uma melhor relação entre benefício e custo. A seguir são
apresentadas informações quanto aos procedimentos para a seleção dos pára-
raios aplicados em redes de distribuição primárias. Tais conceitos podem ser
utilizados para aplicação em linhas de distribuição.

4.2.1 Seleção da tensão nominal dos pára-raios:

Os procedimentos básicos para a seleção da tensão nominal dos pára-raios com e


sem centelhadores foram apresentados na Seção 3.5 – Capítulo 3.

Como visto anteriormente, o critério de seleção da tensão nominal do pára-raios


depende do tipo de pára-raios utilizado: No caso de pára-raios com centelhadores,
a seleção da tensão nominal dos pára-raios está relacionada a não disrupção dos
centelhadores para a máxima sobretensão temporária no ponto de aplicação do
pára-raios, enquanto que para os pára-raios de ZnO a seleção da tensão nominal
depende das características de suportabilidade dos pára-raios a essas
sobretensões.

Este conceito é muito importante quando aplicável a pára-raios sem


centelhadores, visto que permite ao usuário especificar um pára-raios com tensão
nominal mais adequada, em função das características do sistema. Esta seleção
adequada, via de regra, permite aos usuários reduzir os custos com a aquisição
dos pára-raios, bem como melhorar as características de proteção oferecida pelos
pára-raios.

Exemplo 1:

Definir a tensão nominal de um pára-raios para aplicação em redes de distribuição


primária considerando um sistema com as seguintes características:

- Tensão nominal Un: 13,8 kVef


- Máxima tensão operativa do sistema Umax.: 14,4 kVef
- Sistema aterrado na SE: Z1 = 1,0938 + j2,7274
Z0 = 2,0784 + j10,8568
- Duração estimada para a falta: 2 segundos.

94
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A partir do valores informados para as impedâncias de seqüência positiva e zero


obtém-se um fator de aterramento K = 1,353 (Capítulo 1 – Seção 1.1.1).

Logo, a amplitude da máxima sobretensão temporária, no ponto considerado será:


TOVSIST. = 1,353 . √ 2 . Umax. = 1,353 . √2 . (14,4 / √3) = 15,9 kVCr

• Pára-raios com centelhadores:

Vn ≥ TOVSIST. ⇒ Vn ≥ 15,9 / √2 ⇒ Vn ≥ 11,2 kV

Neste caso, o pára-raios deverá apresentar uma tensão nominal de 12 kV.

• Pára-raios sem centelhadores:

Para a seleção da tensão nominal de um pára-raios sem centelhadores, deve-se


considerar a curva a característica “tensão de freqüência fundamental - tempo” do
pára-raios. Iremos considerar uma curva típica apresentada na Figura 4.9.

1.30
Relação TOV / Vn Un

1.20

1.10

1.00

0.90

0.80
1 10 100 1000
Tempo (segundos)

Figura 4.9 – Curva característica “tensão de freqüência fundamental x tempo”

Utilizando os critérios definidos na Seção 3.5.2 – Capítulo 3, se define dois valores


para a tensão nominal e a tensão nominal do pára-raios deverá ser igual ou
superior a maior das tensões definidas:

• A MCOV do pára-raios deve ser igual ou superior à máxima tensão


operativa do sistema no ponto de aplicação do pára- raios

Um 14,4
Un1 = K1 ⋅ Ucmin ≈ 1,25 ⋅ ⇒ Un1 = 1,25 ⋅ = 10,4kV
3 3

K1 = Un / Uc

95
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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• Quando da ocorrência de uma sobretensão sustentada, a característica


tensão de freqüência industrial versus tempo dos pára-raios deve exceder a
característica amplitude da sobretensão temporária versus duração para o
sistema.

TOVSIST 11,2
Un2 = ⇒ Un 2 = = 9,66kV
KTOV 1,16

Pelos critérios estabelecidos: Un ≥ 10,4 kV

Utilizando o procedimento conservativo apresentado em 3.5.2:

m
T 
U eq = U t ⋅  t 
 10 

Para uma sobretensão temporária com amplitude de 15,9 kV durante 2 segundos


se obtém uma sobretensão temporária equivalente com amplitude de 15,4 kV por
10 segundos. Segundo esse critério, bastante conservativo, a tensão nominal do
pára-raios deve ser maior ou igual a 10,9 kV.

Alguns fabricantes de pára-raios, especialmente àqueles que seguem as normas


ANSI apresentam em seus catálogos curvas características “tensão de freqüência
fundamental - tempo“ em função da tensão máxima de operação contínua do
pára-raios. Neste caso, o fator KTOV pode ser ajustado para a tensão nominal
através do produto do fator K considerado na curva com a relação entre a máxima
tensão de operação contínua e a nominal do pára-raios.

4.2.2 Definição da corrente de descarga nominal do pára-raios:

Detalhes quanto a definição da corrente de descarga nominal de um pára-raios


foram apresentados, de forma genérica, na seção 3.5.3 – Capítulo 3.

No caso de pára-raios instalados no final de linha, pode ser utilizada a seguinte


equação de modo a se obter uma estimativa da intensidade máxima de corrente
de descarga que flui pelo pára-raios, quando da ocorrência de um surto:

I MAX =
(2 ⋅ E 0 − Vr )
Z0

IMAX Corrente de descarga que flui pelo pára-raios ( A );

96
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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E0 Corresponde a 1,2 vezes o nível de isolamento para impulso atmosférico da


linha ( V );
Vr Tensão residual do pára-raios para impulso atmosférico ( V );
Z0 Impedância de surto monofásica da linha ( Ω ).

A Tabela 4.1, apresenta uma estatística dos valores de corrente que fluem pelos
pára-raios devido a ocorrência de surtos atmosféricos /5/:

Tabela 4.1 – Corrente de descarga fluindo pelos pára-raios

Coluna 1 Percentagem dos locais que recebem correntes de descarga por


ano com amplitudes menores ou iguais às indicadas na coluna 1
Correntes de Rede Rede Rede Rede
Surtos atm. urbana Semi-urbana Rural rural muito
através dos PR Exposta
1 89 70 49 49
2 93 80 68 68
3 96 87 76 76
5 98 93 88 80
10 99,5 97 95 85
20 99,5 99 98 91
30 ----- 99,8 99 95
35 ----- 99,9 99,3 98,5
55 ----- ----- 99,9 99,7
65 ----- ----- ----- 99,9
70 ----- ----- ----- -----

Cabe ressaltar que as informações disponíveis na Tabela 4.1 devem ser tomadas
apenas como referência, não devendo se utilizar esses valores para a definição da
corrente de descarga nominal dos pára-raios.

A maioria das empresas concessionárias de energia elétrica no Brasil utiliza pára-


raios com corrente de descarga nominal de 10 kA em seus sistemas de
distribuição. Basicamente, pára-raios de 5 kA têm sido especificados para uso em
redes urbanas com baixa incidência de descargas atmosféricas.

4.2.3 Determinação da capacidade de absorção de energia dos pára-raios

Em redes de distribuição as maiores solicitações de energia a que são submetidos


os pára-raios são geralmente decorrentes dos surtos de origem atmosféricos e
das sobretensões temporárias. Em casos muito específicos as solicitações de
manobra constituem um fator determinante para a determinação da capacidade de
absorção de energia dos pára-raios aplicados em redes de distribuição aéreas.

97
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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A capacidade dos pára-raios suportarem as energias associadas as sobretensões


temporárias é definida pela curva “tensão de freqüência fundamental - tempo“ do
pára-raios. Uma vez adequado às características dos sistemas, os pára-raios
absorverão as energias associadas e essas sobretensões.

A energia absorvida por um pára-raios durante a ocorrência de uma descarga


atmosférica pode estimada a partir da equação apresentada na seção 3.5.4 –
Capítulo 4.

A maioria das empresas concessionárias de energia elétrica vem utilizando em


suas redes de distribuição pára-raios com corrente de descarga nominal de
10 kA, classe 1 de descarga de linhas de transmissão. Esses pára-raios
apresentam, em geral, uma capacidade de absorção de energia para impulsos de
corrente elevada na faixa de 2,5 a 3,5 kJ / kV de tensão nominal. É importante
ressaltar que a capacidade de absorção de energia está associada a uma
amplitude de corrente de descarga e forma de onda da corrente. De um modo
geral, desempenhos satisfatórios vêm sendo obtidos por estes pára-raios.

Existem registros de falhas em pára-raios decorrentes da incapacidade de


suportarem elevadas energias associadas a surtos atmosféricos. Pára-raios
instalados em redes rurais ou redes de distribuição urbanas não protegidas por
“blindagens naturais”, podem ser atingidos por descargas atmosféricas diretas.

Neste caso, dependendo da amplitude da corrente, da sua forma de onda, e da


distância entre a incidência da descarga e o ponto de instalação dos pára-raios,
esses poderão vir a falhar. Para evitar falhas de pára-raios em regiões críticas,
algumas empresas vêm realizando testes de campo considerando a aplicação
pára-raios classe 2 de descarga de linhas de transmissão.

Em casos específicos de aplicação de pára-raios na derivação de redes de


distribuição aéreas com cabos subterrâneos ou de proteção de bancos de
capacitores, estudos devem ser realizados para se determinar as energias
absorvidas pelos pára-raios devido às sobretensões de manobra que podem vir a
ocorrer. A referência /1/ apresenta uma análise detalhada sobre como realizar
esses estudos.

4.2.4 Definição da corrente suportável de curto-circuito:

Em caso de uma eventual falha do pára-raios estes representam uma baixa


impedância para o terra e são submetidos a uma corrente de freqüência
fundamental que pode chegar à corrente de curto-circuito do sistema. De modo a
evitar riscos às pessoas e aos demais equipamentos instalados nas suas
proximidades, os pára-raios devem ser projetados para suportar mecanicamente
os efeitos das correntes de curto-circuito, sem fragmentação ou desprendimento
dos elementos de ZnO (pára-raios de ZnO com invólucros poliméricos).

98
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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De acordo com a IEC 99.1 /6/ (aplicável a pára-raios com centelhadores) os pára-
raios com correntes de descarga nominal de 5 kA podem ser de classe de alívio D
ou E apresentando capacidade de suportar correntes de curto-circuito com valores
simétricos de 16 kA e 5 kA, respectivamente, por um período mínimo de 0,2 s.

No entanto, o que se verifica na prática é que a grande maioria dos projetos de


pára-raios de distribuição de SiC com invólucro de porcelana não apresentam
quaisquer dispositivos para aliviar as correntes de falta oriundas do sistema.

Para os pára-raios de ZnO poliméricos, a norma IEC 60099-4 /7/ estabelece os


níveis eficazes de corrente presumíveis de falta de 5 kA e 10 kA para os pára-
raios com corrente de descarga nominal de 5 kA; e valores de 10 kA, 16 kA ou
20 kA para os pára-raios com corrente de descarga nominal de 10 kA classe 1.
Para todas essas correntes o tempo mínimo de ensaio deverá ser de 0,2 s.

O ensaio de baixa corrente com valor eficaz de 600 ± 200 A também deve ser
realizado para todos os tipos de pára-raios. A duração mínima é de 1 s.

É importante ressaltar que em pára-raios com invólucros poliméricos quanto maior


for o nível de suportabilidade do pára-raios às correntes de curto-circuito mais
confiável será o seu desempenho sob situações de falha. No entanto, o aumento
das características de suportabilidade está diretamente relacionado a um aumento
do preço do pára-raios.

4.2.5 Determinação das características de proteção do pára-raios escolhido:

Pode-se dizer que praticamente todos os pára-raios de ZnO, sejam de invólucro


polimérico ou de porcelana, apresentam seus níveis de proteção dentro da faixa
de valores máximos sugerida pela IEC 60099.4 (Tabelas 3.2 e 3.3 - Seção 3.3.2).
Estes níveis garantem uma proteção adequada aos equipamentos protegidos
tomando-se os cuidados necessários com os efeitos dos cabos de ligação entre os
pára-raios e os equipamentos protegidos, principalmente em regiões onde há a
possibilidade da incidência de correntes de elevadas amplitudes e/ou elevadas
taxas de crescimento.

Quanto aos pára-raios com centelhadores ainda hoje em operação e


comercializados, não se tem uma garantia absoluta dos seus níveis de proteção,
apesar dos limites definidos em Norma (Tabela 3.1 - Seção 3.3.2). Casos mais
críticos são observados em pára-raios com instalados há mais de 15 - 20 anos.

4.3 Análise do efeito dos cabos de ligação na proteção dos equipamentos:

Na seção 3.5.10 do Capítulo 3 foram apresentadas informações quanto a


importância de se avaliar o efeito dos cabos de ligação entre os pára-raios
instalados em redes de distribuição e os equipamentos protegidos.

99
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
Franco Engenharia Ltda.

É importante que esse efeito seja levado em consideração quando da


determinação das sobretensões de frente rápidas através dos terminais dos
equipamentos protegidos.

Para uma análise desse efeito iremos considerar as Figuras 4.10.a (a esquerda) e
4.10.b (a direita), que ilustram a utilização de pára-raios na proteção de
transformadores de distribuição.

Figura 4.10 – Proteção de transformadores de distribuição com pára-raios

Um fato importante a ser comentado consiste na filosofia de instalação dos pára-


raios em relação aos transformadores.

Na Figura 4.10.a são mostrados detalhes do arranjo de instalação de pára-raios


de porcelana.

Neste arranjo, os pára-raios são instalados em paralelo com o conjunto chave


fusível – transformador, existindo um comprimento de cabo devido às conexões
entre os terminais de alta tensão do pára-raios e do transformador, além do cabo
de ligação do neutro do pára-raios ao neutro do transformador.

No caso de ocorrência de uma sobretensão, provocada pela incidência de uma


descarga atmosférica diretamente sobre a rede onde se encontra instalado o
conjunto pára-raios / transformador, uma tensão é adicionada aos terminais do
transformador pelo efeito da tensão “criada” nos cabos de conexão, resultado da
passagem da corrente de descarga com uma taxa de crescimento di/dt pelo pára-
raios.

100
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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A experiência tem mostrado que para uma dada amplitude de corrente e taxa de
crescimento, quanto mais próximo do conjunto incidir a descarga, maior será esse
efeito sobre os terminais dos transformadores.

Ainda existem instalados nas redes de distribuição primárias pára-raios de SiC de


projeto antigo, que apresentam níveis de proteção bem superiores aos níveis
atualmente utilizados. Neste caso, o efeito dos cabos de ligação pode se tornar
ainda mais crítico e tem de ser considerado.

Uma boa parcela dos índices de falhas verificados em transformadores de


distribuição devido às descargas atmosféricas pode estar relacionada ao efeito da
tensão impulsiva através as conexões, especialmente no caso de transformadores
instalados em redes rurais, geralmente apresentando vãos mais longos e mais
vulneráveis à incidência das descargas diretas de elevadas amplitudes e taxas de
crescimento.

Reduções nos índices de falhas em transformadores de distribuição por descargas


atmosféricas têm sido obtidas por empresas concessionárias que adotam a
filosofia de instalação de pára-raios poliméricos diretamente às buchas dos
transformadores, conforme arranjo apresentado na Figura 4.10.b.

Este tipo de arranjo praticamente elimina o efeito da tensão nos cabos de


conexão, reduzindo de modo significativo as tensões impulsivas através dos
terminais dos transformadores e se torna bastante confiável pelo fato de não haver
risco de explosão do pára-raios, em caso de sua falha.
.
Uma possível desvantagem deste arranjo é que as chaves fusíveis passam a ficar
em série com o conjunto pára-raios / transformadores, sendo submetidas a ação
das correntes provenientes das descargas atmosféricas. Queimas indevidas de
elos fusíveis foram verificadas em algumas empresas concessionárias que adotam
essa filosofia de instalação. Isto conduz a uma necessidade maior de avaliar a
especificação e aplicação de elos fusíveis de boa qualidade.

Exemplo 2:

Determinar as margens de proteção para um transformador de distribuição


aplicado em um sistema de 13,8 kV, com uma tensão suportável nominal para
impulso atmosférico (TSNIA) de 95 kV. Esse transformador deve ser protegido por
um pára-raios com tensão nominal de 12 kV e corrente de descarga nominal de 10
kA, apresentando as seguintes características de proteção:

- Tensão residual para impulso de frente íngreme: 48,0 kV


- Tensão residual para impulso atmosférico: 43,2 kV
- Tensão residual para impulso de manobra a 0,5 kA: 34,8 kV

NOTA: Os valores de tensão residual acima correspondem aos níveis


máximos estabelecidos na Tabela 3.3

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O comprimento total dos cabos de ligação entre o pára-raios e o transformador é


de 3 metros.

• Determinação da margem de proteção 1 (ondas de frente íngreme)

TSIACF
MP1 =
NPFO + ∆V(t )

TSIACF = 1,15 . TSNIA → TSIACF = 1,15 . 95 → TSIACF = 109,3 kV


NPFO = 48 kV
∆V = ( L . (di / dt) . lc) → ∆V = 1,3 µH/m . (10 kA / 1 µs) . 3 m → ∆V = 39 kV

TSIACF 109,3
MP1 = MP1 = MP1 = 1,26 = 25,6%
NPFO + ∆V(t ) 48 + 39

• Determinação da margem de proteção 2 (impulso atmosférico


normalizado)

TSNIA
MP2 =
NPIA + ∆V(t )

TSNIA = 95 kV NPIA = 43,2 kV


∆V = ( L . (di / dt) . lc) → ∆V = 1,3 µH/m . (4 kA / 1 µs) . 3 m → ∆V = 15,6 kV

TSNIA 95
MP2 = MP2 = MP2 = 1,62 = 61,6%
NPIA + ∆V(t ) 43,2 + 15,6

• Determinação da margem de proteção 3 (impulsos de manobra)

TSNIM
MP3 =
NPIM

TSNIM = 0,83 . TSNIA → TSNIM = 0,83 . 95 → TSNIM = 78,9 kV


NPIM = 34,8 kV

TSNIM 78,9
MP3 = MP3 = MP3 = 2,27 = 127%
NPIM 34,8

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4.4 Referências bibliográficas:

/1/ Lat, M. V. & Carr, J., “Application Guide for Surge Arresters on Distribution
Systems, CEA Report 077D 184 A, Sept. 1988.
/2/ Martinez, M. L. B., “Pára-raios para sistemas de Média Tensão –
Características Técnicas e Aplicação a Sistemas de Potência”; Dissertação
de Mestrado, EFEI, Dezembro 1992.
/3/ Hinrichsen, V., “Designs of Station-Class Polymer Housed Surge Arresters”,
CIGRÉ Surge Arresters Tutorial, Rio de Janeiro, April 2005.
/4/ Lahti K., “Effects of Internal Moisture on the Durability and Electrical
Behaviour of Polymer Housed Metal Oxide Surge Arresters”, PhD Thesis
Publication 437, Tampere University of Technology, Finland, 2003.
/5/ Proteção contra Sobretensão Atmosférica de Redes e Equipamentos de
distribuição”, CERJ
/6/ IEC 99-1 / 1991 “Surge Arresters - Part 1: "Non-linear resistor type gapped
surge arresters for a.c. systems".
/7/ IEC 60099-4 / 2006 Ed. 2.1, “Surge Arresters - Part 4: Metal-Oxide surge
arresters without gaps for a.c. systems", 2001.
/8/ Richter, B., “Metal Oxide Surge Arresters for Distribution Systems”, CIGRÉ
Surge Arresters Tutorial, Rio de Janeiro, April 2005.
/9/ Campos, M. L. B. et alli, ”Avaliação do desempenho de Pára-raios de
distribuição”; Seminário Nacional de Qualificação de Materiais e
Equipamentos do Setor de Energia Elétrica - SQME, 1997.

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5. Pára-raios para aplicação em Subestações


Atualmente quase que a totalidade dos pára-raios adquiridos pelas empresas
concessionárias de energia elétrica e grandes consumidores industriais para
novos projetos de subestações, ampliações de subestações existentes ou para a
substituição dos pára-raios convencionais de SiC, são do tipo Óxido de Zinco
(ZnO) sem centelhadores.

Apesar do aumento crescente do número de pára-raios de ZnO instalados, em


alguns países, como por exemplo o Brasil, a grande maioria dos pára-raios
atualmente instalados nas subestações ainda são do tipo Carbeto de Silício (SiC),
apesar das suas limitações tecnológicas, quando comparados aos pára-raios de
ZnO sem centelhadores. Levantamento realizado em 2004 pelo GT A3.17 do
CIGRÉ Brasil junto às empresas de energia elétrica e grandes indústrias
apontaram que naquela época aproximadamente 64% dos pára-raios instalados
nas subestações brasileiras eram de Carbeto de Silício (SiC), com tempos de
instalação e de operação médios superiores a 25 anos. Condições similares têm
sido verificadas em outros países.

Centelhadores com dielétrico de ar também têm sido utilizados por algumas


empresas concessionárias de energia elétrica na entrada de subestações com
tensões nominais até 138 kV. Esses devem ser ajustados para operar somente
quando do disjuntor da subestação estiver aberto (Seção 2.1 – Capítulo 2).

Este cenário indica a necessidade de substituição de um grande número de pára-


raios ao longo dos próximos 5 – 10 anos, de modo a se manter a confiabilidade
necessária dos sistemas elétricos. Os novos cenários do setor elétrico, associado
a necessidade de grandes investimentos para a modernização do parque de pára-
raios faz com que as empresas concessionárias de energia e grandes
consumidores industriais cada vez mais avaliem a melhor relação entre benefício
e custo para a aquisição de novos equipamentos.

Tais condições podem ser obtidas a partir de critérios bem definidos para a
especificação dos pára-raios. Neste enfoque, torna-se essencial o conhecimento e
o entendimento das características construtivas dos pára-raios utilizados em
subestações, bem como os critérios para a definição de seus parâmetros.

Desta forma, conhecer os tipos de pára-raios atualmente existentes, seus


aspectos construtivos, bem como os critérios para uma seleção e aplicação
adequadas tem se tornado fundamental. No presente capítulo, são abordados os
aspectos referentes a aplicação dos pára-raios em subestações, com ênfase nos
pára-raios de Óxido de Zinco (ZnO) sem centelhadores, por serem esses os pára-
raios atualmente mais solicitados pelos usuários.

Informações sobre os aspectos construtivos e funcionamento dos pára-raios de


Carbeto de Silício para aplicação em subestações podem ser obtidas em /1/ e /2/.

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5.1 Aspectos construtivos dos pára-raios de ZnO sem centelhadores:

Existem atualmente duas filosofias de pára-raios de ZnO com relação ao tipo de


invólucro: pára-raios com invólucros de porcelana e polimérico. Para ambas as
filosofias, existem diferentes concepções de projeto de montagem, que são
geralmente apresentados pelos fabricantes em seus catálogos técnicos.

5.1.1 Pára-raios de ZnO com invólucro de porcelana

Os primeiros pára-raios de ZnO com invólucros de porcelana desenvolvidos para


sistemas de potência foram apresentados ao mercado no final de década de 70.
Na década de 80 diversas empresas japonesas, européias e americanas,
desenvolveram e produziram para-raios de ZnO para aplicação em subestações.

A Figura 5.1 apresenta os detalhes construtivos de um pára-raios com invólucro


de porcelana constituído por uma seção.

Figura 5.1 – Detalhes de montagem de um pára-raios de porcelana

De um modo geral, o processo de montagem dos pára-raios de porcelana deve


ser tal que os elementos de ZnO se mantenham localizados preferencialmente de
forma concêntrica dentro do invólucro de porcelana, com uma geometria definida
para minimizar os efeitos de distribuição não uniforme de campo elétrico e de
ionização interna, mesmo sob condições severas de poluição externa.

Os perfis das saias da porcelana devem garantir uma distância de escoamento


adequada às condições ambientais e características elétricas do invólucro
compatíveis com as características de proteção dos pára-raios. Geralmente os
pára-raios com invólucros de porcelana classe estação apresentam como padrão
distâncias de escoamento de 20 mm / kV. No entanto, quando requerido pelo
usuário, praticamente todos os fabricantes disponibilizam a possibilidade de pára-
raios com maiores distâncias de escoamento.

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Projetos de pára-raios com invólucro de porcelana devem ser providos de


dispositivos que permitam aliviar os gases de alta pressão gerados em caso de
uma eventual falha parcial ou completa dos pára-raios. Desta forma, mecanismos
de alívio de sobrepressão devem ser incorporados dentro dos flanges terminais.

Cada unidade de pára-raios com invólucro de porcelana é provida de dois


diafragmas de cobre, os quais são designados para aliviar a pressão em caso de
uma eventual falha parcial ou completa do pára-raios, seguida pela passagem de
uma corrente de freqüência fundamental, cujo valor eficaz será função da
impedância equivalente dos blocos de ZnO no momento da falha.

A passagem dessa corrente estabelece um arco interno no interior do pára-raios.


Os gases ionizados causam um rápido aumento da pressão interna, o que força a
abertura dos diafragmas de vedação, permitindo o escapamento dos gases
ionizados através dos dutos de ventilação. Como os dutos nas duas extremidades
estão geralmente direcionados um contra o outro, o resultado é um arco externo,
produzindo o alívio de pressão que impede a fragmentação ou até mesmo a
explosão violenta do invólucro isolante.

A pior condição de corrente representa uma falha completa do pára-raios com a


passagem da corrente de curto-circuito do sistema.

De modo a garantir a atuação dos dispositivos de alívio de sobrepressão em


diferentes condições de falha, a Norma IEC 60.099-4 /3/ estabelece o ensaio de
curto-circuito para quatro valores de corrente (Seção 3.2.3 – Capítulo 3),
correspondentes a corrente de curto-circuito nominal do projeto, dois valores de
correntes reduzidos e um valor de corrente de baixa intensidade, devendo o
projeto do dispositivo de alívio de sobrepressão operar corretamente sob todas as
condições de ensaios.

É importante ressaltar que esses dispositivos atuam somente em condições de


falha do pára-raios. Portanto, a operação correta de um pára-raios durante a
ocorrência de sobretensões transitórias ou temporárias não produz a atuação dos
dispositivos de alívio de sobrepressão, a menos que uma falha parcial ou
completa do pára-raios ocorra após a sua operação.

5.1.2 Pára-raios de ZnO com invólucro polimérico

Uma evolução tecnológica bastante significativa para os pára-raios de ZnO sem


centelhadores surgiu em meados da década de 80, com o desenvolvimento de
materiais poliméricos para aplicação em pára-raios de alta tensão.

Apesar das diferenças construtivas e tecnológicas entre os diversos fabricantes,


existem basicamente quatro concepções de projetos /4/:

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- A primeira, conhecida como projeto “tipo tubo” ou “tube design” consiste em um


projeto construtivamente equivalente ao projeto de pára-raios com invólucro de
porcelana. O invólucro polimérico é composto de um tudo de fibra de vidro de
alta resistência mecânica sobre o qual o polímero é injetado. O conjunto de
blocos de ZnO é então inserido dentro do invólucro. Este tipo de projeto
apresenta espaçamento interno de ar entre a parte interna do invólucro e os
blocos de ZnO, sendo necessária a utilização de dispositivos de alívio de
sobrepressão. A Figura 5.2, ilustra os detalhes construtivos de um projeto de
pára-raios polimérico “tipo tubo”.

Figura 5.2 – Detalhes construtivos de um projeto de pára-raios “tipo tubo”

- A segunda e terceira concepções consistem nos projetos conhecidos como


“wrapped design” devido seu princípio de montagem De modo similar aos
projetos para pára-raios de distribuição, nessas concepções de projeto o
encapsulamento dos blocos é feito geralmente por um material de fibra de
vidro impregnado em resina epóxi e tem como funções básicas: garantir a
resistência mecânica dos pára-raios em condições de esforços permanentes e
dinâmicos, considerando que esses esforços sejam adequados ao projeto
mecânico do pára-raios; garantir a suportabilidade mecânica necessária em
caso de uma eventual falha do pára-raios, seguida pela passagem da corrente
de curto-circuito do sistema; e facilitar o processo de montagem.

A principal diferença entre as duas concepções está no processo de montagem


dos pára-raios: existem projetos onde invólucro polimérico é moldado e o
conjunto ativo, formado pelos blocos encapsulados, posteriormente inserido
no invólucro; e projetos onde o material polimérico é diretamente injetado sobre
o conjunto ativo.

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Na segunda concepção a interface entre o material de fibra de vidro e a parte


interna do invólucro polimérico é geralmente preenchida por fluído de silicone.
Cuidados devem ser tomados durante os processos de preenchimento dos
possíveis espaços de ar e de fechamento do pára-raios, de modo a garantir o
bom desempenho desse tipo de projeto.

A terceira concepção apresenta como maior vantagem em relação a segunda a


ausência do flange para o fechamento do pára-raios, reduzindo de forma
significativa a possibilidade de penetração de umidade no interior do pára-
raios. O processo de montagem do invólucro diretamente sobre o conjunto
encapsulado também reduz os riscos de existência de espaços de ar. No
entanto, há a necessidade de um controle visando um processo de injeção
homogêneo, de forma a evitar a formação de bolhas de ar, que podem resultar
na formação de descargas parciais que podem conduzir a uma degradação do
pára-raios ao longo do tempo.

Devido a simplicidade de construção, essas concepções vêm sendo


amplamente utilizadas em projetos de pára-raios para aplicação em
subestações. Cuidados devem ser tomados no processo de desenvolvimento
do encapsulamento, de modo a atender as condições requeridas para o ensaio
de curto-circuito.

Detalhes desses projetos são apresentados na Figura 5.3.

Figura 5.3 – Detalhes dos projetos construtivos de pára-raios tipo “wrapped”


Esquerda: foto de um pára-raios moldado de fabricação Ohio Brass
Centro: aspectos construtivos de um projeto tipo “wrapped”
Direita: foto de um pára-raios injetado de fabricação Tyco Bowthorpe

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- A quarta concepção consiste no projeto ”tipo gaiola” ou “cage design” já


previamente apresentada na Seção 4.1 – Capítulo 4. Nesta concepção de
projeto as solicitações mecânicas do pára-raios são garantidas pela própria
coluna de blocos de ZnO. Para cumprir esta função os blocos de ZnO são
fixados e montados entre os terminais do pára-raios por meio de fitas
trançadas ou bastões de fibra que são pré tensionados axialmente em uma
faixa de aproximadamente 100 kN.

A principal vantagem dessa concepção de projeto em relação às duas


anteriores resulta da elevada suportabilidade mecânica desse tipo de projeto,
associada ao seu bom desempenho para as condições requeridas no ensaio
de curto-circuito. Detalhes construtivos de projetos de pára-raios “tipo gaiola”
para aplicação em subestação são mostrados na Figura 5.4

Figura 5.4 – Detalhes de projetos de pára-raios “tipo gaiola”


Fotos de pára-raios de fabricação ABB, Siemens e Tyco Bowthorpe

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Projetos de pára-raios “tipo wrapped” e “tipo gaiola” são desenvolvidos para não
apresentar espaços internos de ar entre os elementos de ZnO e o invólucro. Para
esses projetos não é necessária a utilização de dispositivos de alívio de
sobrepressão.

Neste caso, os projetos mecânicos desses pára-raios devem ser adequadamente


dimensionados para suportar a passagem de uma corrente do sistema sem
fragmentação ou desprendimento dos elementos ativos de ZnO e sem a perda de
estabilidade de sua estrutura mecânica, permanecendo intactos após a passagem
da corrente de falta.

Quando da falha em um pára-raios “tipo gaiola”, por exemplo, o arco elétrico


gerado pela corrente de falta queima através do invólucro sem uma elevação
significativa na pressão interna. No entanto, se o projeto mecânico não for
adequado poderá ocorrer a quebra dos resistores não-lineares de ZnO e o suporte
mecânico do conjunto pode ser danificado, resultando em um colapso do pára-
raios e uma perda total da sua estabilidade mecânica /5/.

A Figura 5,5 ilustra o processo de eliminação do arco elétrico gerado pela


passagem de uma corrente de falta em um projeto de pára-raios “tipo gaiola”.

1 – após a falha do pára-raios o gás


ionizado começa a ser expelido através
do invólucro.

2. O gás ionizado gera o arco elétrico


que queima através do invólucro
resultando em uma descarga.

Figura 5.5 - Processo de eliminação do arco em um pára-raios “tipo gaiola”.

Para assegurar esta característica os projetos de pára-raios poliméricos devem


ser submetidos aos ensaios de curto-circuito, onde o pára-raios é submetido por
um determinado período de tempo e uma solicitação de tensão bem acima da
tensão nominal, provocando a sua falha, que é seguida pela passagem da
corrente de ensaio (Seção 3.2.3 – Capítulo 3).

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O comportamento desses projetos em relação a penetração de umidade e o efeito


da umidade sobre o desempenho elétrico e mecânico dos pára-raios, foram
abordados na Seção 4.1 – Capítulo 4.

Uma vantagem dos projetos sem espaços internos de ar é o peso do pára-raios


comparado a um pára-raios apresentando espaços internos de ar de mesmas
características elétricas.

A principal vantagem do projeto de pára-raios polimérico “tipo tubo” (com espaços


internos de ar) está relacionada a sua maior suportabilidade mecânica em relação
aos projetos sem espaços internos de ar, sendo este tipo de projeto mais
recomendado para aplicações que exigem esforços mecânicos não atendidos
pelos outros projetos. A Figura 5.6 ilustra a aplicação de um pára-raios “tipo tubo”
como isolador de pedestal em um sistema com tensão nominal de 500 kV /6/.

Figura 5.6 – Aplicação de pára-raios polimérico “tipo tubo”

Independente do tipo construtivo considerado, têm sido verificado nos últimos


anos que os dois maiores problemas verificados nos pára-raios com invólucro de
porcelana ao longo do tempo: penetração de umidade por perda de estanqueidade
do invólucro e fragmentação do invólucro com ou sem explosão, vêm sendo
minimizados pela utilização de pára-raios com invólucros poliméricos.

A experiência de campo tem demonstrado que os pára-raios poliméricos, em


especial àqueles apresentando projetos sem espaços internos de ar, são bem
menos propensos a perda de estanqueidade do que os pára-raios com invólucro
de porcelana, reduzindo a causa mais comum de falha nos pára-raios. Outro
aspecto importante dos projetos construtivos de pára-raios poliméricos está
associado ào efeito em caso de falha do pára-raios, o qual depende do projeto
mecânico construtivo do pára-raios.

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Como visto anteriormente, em caso de falha interna nos pára-raios com invólucro
de porcelana, existe a possibilidade de explosão ou fragmentação do invólucro,
com riscos de danos aos equipamentos adjacentes ou mesmo às pessoas
próximas ao evento. O mesmo fenômeno pode ser verificado em pára-raios
poliméricos “tipo tubo”, embora os riscos serem aparentemente bem menores.

Para esses tipos de pára-raios, os projetos do dispositivo de alívio de


sobrepressão e da estrutura mecânica da porcelana ou do tubo de fibra de vidro
(em pára-raios poliméricos) têm uma importância fundamental no desempenho
mecânico dos pára-raios em caso de uma eventual falha.

Projetos de pára-raios poliméricos sem espaços internos de ar são menos


susceptíveis a fragmentação do invólucro e ao desprendimento de seus
componentes internos.

É importante ressaltar que uma eventual falha do pára-raios não acarreta somente
a perda do equipamento, podendo causar também distúrbios severos no sistema
bem como a danificação de outros equipamentos adjacentes (como por exemplo,
buchas de transformadores), em caso de fragmentação ou explosão do invólucro
isolante ou desprendimento dos elementos de ZnO.

Devido ao menor peso, maior facilidade e flexibilidade de montagem e pela não


fragmentação ou explosão do invólucro com desprendimento dos elementos de
ZnO, pára-raios com concepções de projetos sem espaços internos de ar têm sido
instalados mais próximos aos equipamentos a serem protegidos, melhorando de
modo considerável as características de proteção desses equipamentos quando
da ocorrência de sobretensões atmosféricas, através da redução das tensões
impulsivas nos seus terminais devido ao efeito distância. Em alguns casos, tem
sido prática, a instalação dos pára-raios diretamente junto a bucha dos
transformadores de força.

Em adição, os pára-raios com invólucro polimérico apresentam vantagens em


relação aos pára-raios de porcelana, tornando a sua utilização mais atrativa:

- Melhor desempenho sob contaminação, bem como uma melhor distribuição


de tensão ao longo do pára-raios;

O efeito da contaminação externa do invólucro, crítico em pára-raios de Alta


Tensão com invólucros de porcelana, é bastante atenuado quando da utilização
de invólucros poliméricos. Isto ocorre devido a maior distância de escoamento dos
projetos de pára-raios poliméricos comparados aos de porcelana de mesmo
comprimento, associada a elevada capacidade de hidrofobicidade apresentada em
materiais poliméricos, especialmente os polímeros a base de silicone.

Os efeitos da contaminação sobre o desempenho de pára-raios de SiC e ZnO com


invólucros de porcelana foram abordados na Seção 2.6 – Capítulo 2.

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Tem sido verificado na prática, que o bom desempenho de invólucros poliméricos


em ambientes altamente contaminados e sujeitos a elevada umidade e elevada
exposição de raios ultravioleta, está diretamente relacionado com o tipo e a
qualidade do polímero utilizado.

Por esta razão, a aplicação de pára-raios poliméricos tem sido amplamente


considerada em ambientes altamente contaminados e agressivos. Pára-raios
poliméricos a base de silicone com uma ou mais seções e uma ou mais colunas
têm apresentado desempenhos altamente satisfatórios em regiões críticas,
independente de suas características construtivas.

Como já abordado na Seção 2.6 – Capítulo 2, embora os materiais poliméricos


apresentem propriedades bastante superiores à porcelana, existem alguns
aspectos negativos que devem ser considerados quando da escolha do material a
ser utilizado. Geralmente os polímeros apresentam maior complexidade na
utilização uma vez que podem sofrer degradação elétrica, mecânica e química em
condições de serviço, quando não adequadamente selecionados e/ou utilizados.

Este problema tem sido minimizado a partir do melhor conhecimento e


entendimento das propriedades dos materiais poliméricos quando aplicados em
tensões mais elevadas.

No caso da aplicação em sistemas de extra alta tensão, ou em regiões de elevado


nível de contaminação, cuidados devem ser tomados com relação às
características do material polimérico empregado na fabricação do invólucro, em
especial com relação às características de hidrofobicidade, envelhecimento por
exposição de raios ultravioleta, erosão e trilhamento elétrico.

Melhores desempenhos em regiões mais críticas têm sido obtidos com a utilização
de materiais apresentando silicone como polímero base os quais, em geral,
apresentam uma maior capacidade de hidrofobicidade e um melhor
comportamento sob ação ultravioleta, quando comparados a outros tipos de
materiais poliméricos.

- Redução das perdas de energia provenientes da menor corrente de fuga


nos invólucros poliméricos, comparado aos de porcelana;

- A maior distância de escoamento do invólucro polimérico, para um mesmo


comprimento, permite a montagem de pára-raios com invólucros de menor
comprimento, facilitando a montagem. Em pára-raios aplicados em
subestações, está redução pode ser de até 20% ou mais;

- Menor peso em relação aos pára-raios com invólucro de porcelana


(tipicamente menos do que 50% do peso no caso de pára-raios sem
espaços internos de ar para aplicação em subestações), acarretando em
menores esforços mecânicos sobre as estruturas e permitindo uma maior
versatilidade na montagem dos arranjos;

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- Maior facilidade de transporte, manuseio, armazenamento e instalação,


proporcionando uma redução significativa de custos;

- Projetos de pára-raios sem espaços internos de ar não necessitam de


dispositivos de alívio de sobrepressão, tornando o projeto do pára-raios
mais simples e menos custoso;

- Não apresentam problemas de trincas ou lascas nas saias, ocasionadas por


transporte, mau manuseio durante a instalação ou mesmo vandalismo, e
que podem vir a comprometer a estanqueidade do pára-raios ao longo do
tempo;

- Possuem uma melhor capacidade de dissipação de calor, aumentando as


suas propriedades térmicas e melhorando a sua capacidade de dissipação
de calor.

Devido às vantagens técnicas e econômicas apresentadas pelos pára-raios com


invólucros poliméricos, quando comparados aos projetos de pára-raios com
invólucro de porcelana, a utilização desse tipo de pára-raios em subestações vem
crescendo de uma maneira bastante acentuada. Existe atualmente uma grande
quantidade de pára-raios com invólucro polimérico instalados em sistemas com
tensões nominais até 500 kV. No Brasil, empresas concessionárias de energia e
grandes consumidores industriais vêm instalando desde o início da década de 90
pára-raios poliméricos em sistemas com tensões nominais até 230 kV. Aplicações
em sistemas de 500 kV têm sido realizadas nos últimos cinco anos.

De modo geral os pára-raios aplicados em subestações podem ser eletricamente


constituídos por uma única unidade (ou seção) ou serem do tipo multi-unidades.

Devido aos requerimentos de energia os pára-raios podem ser constituídos por


uma coluna única de resistores não-lineares de ZnO ou serem do tipo multi-
colunas, formados por duas ou mais colunas de resistores não-lineares de ZnO
dispostas em paralelo e montadas em uma única estrutura (ou invólucro) ou em
estruturas em paralelo.

Para este tipo de projeto cuidados devem ser tomados nos procedimentos de
fabricação e de montagem das colunas, de modo a se prever uma repartição de
corrente a mais uniforme possível através dos conjuntos em paralelo.

Desta forma, é fundamental que seja verificada a dispersão entre as colunas em


todas as unidades de pára-raios com mais de uma coluna. Esta verificação pode
ser realizada através do ensaio de repartição de corrente, que consiste em
determinar a relação entre a corrente total aplicada nos pára-raios e a maior
corrente obtida em uma das colunas. Para garantir uma boa capacidade de
absorção de energia desses pára-raios, quando solicitados por sobretensões de

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manobras ou por descargas atmosféricas, este ensaio deve ser realizado


considerando-se a aplicação de impulsos de corrente com as formas de onda do
tipo 8/20 µs e 30/60 µs. Em todos os pára-raios os valores obtidos para o
coeficiente de repartição de corrente devem estar dentro da faixa declarada pelos
fabricantes.

De uma maneira em geral os projetos pára-raios montados com mais de uma


coluna apresentam, para uma mesma classe de descarga de linhas de
transmissão, uma capacidade de absorção de energia igual ou superior a energia
de um pára-raios de uma coluna única.

A Figura 5.7 apresenta um esquema representativo de montagem de pára-raios


tipo multi-colunas.

Figura 5.7 - Arranjos de montagem de pára-raios com duas ou mais colunas

Geralmente os pára-raios instalados em subestações são providos de contadores


de descarga e, algumas vezes, de miliamperímetros, inseridos no próprio
contador. Neste caso, sub-bases isolantes são utilizadas para isolar o terminal
inferior do pára-raios do ponto de terra.

116
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5.2 Desempenho dos pára-raios instalados em subestações:

Considerando que os pára-raios aplicados em subestações apresentem bons


projetos elétrico e mecânico dos sistemas de vedação, bem como sejam
adequadamente selecionados e instalados, estima-se uma vida útil para esses
equipamentos em torno de 20 - 25 anos.

No entanto, na prática tem sido constatado ao longo dos últimos anos algumas
alterações significativas no desempenho de alguns pára-raios que resultam, em
muitas das vezes, na operação inadequada ou até mesmo na falha parcial ou total
de pára-raios com menos de dez anos de operação comprometendo, desta forma,
a confiabilidade desses pára-raios e a continuidade no fornecimento de energia
elétrica.

Quando instalados em subestações os pára-raios durante a sua vida útil são


submetidos diferentes solicitações elétricas e ambientais:

- Tensão normal de operação;


- Sobretensões temporárias;
- Descargas de longa duração ou de alta intensidade e curta duração;
- Contaminação externa do invólucro, quando instalados em ambientes poluídos;
- Variações climáticas, exposição a raios ultravioleta, umidades elevadas, etc.

Essas solicitações, impostas aos pára-raios individualmente ou em conjunto,


podem afetar e alterar de forma significativa a característica “tensão - corrente”
dos elementos de SiC e de ZnO.

Em pára-raios de ZnO sem centelhadores, a alteração na característica “tensão –


corrente” acarreta no aumento da componente resistiva da corrente e das perdas
em condições de regime permanente, reduzindo a capacidade de absorção de
energia dos pára-raios.

Em pára-raios de SiC, além da alterar a característica “tensão - corrente” dos


elementos de SiC, essas solicitações podem afetar e alterar as características de
disrupção dos centelhadores.

- Tensão normal de operação:

No caso de pára-raios de ZnO sem centelhadores a tensão de serviço pode


provocar o envelhecimento dos blocos de ZnO ao longo do tempo.

Cuidados devem ser tomados com relação aos efeitos de uma distribuição não
uniforme de tensão ao longo dos invólucros dos pára-raios aplicados em Alta e
Extra Alta Tensões, especialmente em regiões com elevados índices de
contaminação. Esse efeito pode solicitar mais os blocos de ZnO localizados
próximos ao terminal de linha, fazendo com que esses sejam solicitados por
valores de tensão superiores a sua MCOV.

117
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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- Sobretensões temporárias:

Sobretensões temporárias (TOV) de longa duração ocorrem nos sistemas


elétricos. Estas sobretensões têm se mostrado responsáveis por muitas das falhas
verificadas em pára-raios instalados em subestações, em especial os pára-raios
de ZnO. A razão para as falhas dos pára-raios tem sido as severas solicitações de
energia impostas por essas sobretensões, as quais provocam perfurações, trincas
e/ou envelhecimento acelerado em todos ou alguns dos elementos de ZnO.

- Descargas de longa duração ou de alta intensidade e curta duração:

Chaveamentos de grandes bancos de capacitores ou de linhas longas em vazio,


podem solicitar severamente os pára-raios acarretando, via de regra, na
perfuração, trincas ou descargas externas em todos ou alguns dos elementos não-
lineares que compõem os pára-raios.

Impulsos de alta intensidade e de curta duração, característicos de sobretensões


atmosféricas, podem causar alteração da característica “V - I“ dos elementos não-
lineares, descargas externas ou perfuração em todos ou alguns dos elementos.

- Contaminação externa do invólucro:

A contaminação externa do invólucro tem se mostrado como um fator bastante


crítico para a degradação dos pára-raios aplicados em subestações, e pode afetar
de forma significa o desempenho dos pára-raios com invólucros de porcelana,
levando-os a degradação e ao envelhecimento.

Depósitos de materiais contaminantes nas superfícies dos invólucros dos pára-


raios, associada a umidade externa, podem causar uma elevação da corrente de
fuga pelo invólucro, provocando uma distribuição de tensão não uniforme interna
ao longo do pára-raios.

Este efeito pode causar a disrupção dos centelhadores, no caso de pára-raios de


SiC. Em pára-raios de ZnO esse efeito pode causar um aquecimento excessivo
em alguns dos resistores não-lineares de ZnO que compõem o pára-raios
provocando a degradação desses elementos, com um aumento na componente
resistiva da corrente de fuga e das perdas, e a conseqüente redução na
capacidade de absorção de energia dos pára-raios.

O efeito da contaminação externa do invólucro torna-se mais crítico em pára-raios


constituídos por mais de uma unidade, onde a corrente de fuga externa pelo
invólucro da seção superior pode ser transferida para a parte interna da seção
inferior devido a transferência galvânica através dos flanges metálicos,
aumentando consideravelmente a componente resistiva da corrente e as perdas
através dos elementos de ZnO.

118
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
Franco Engenharia Ltda.

Além disso, a contaminação do invólucro gera o fenômeno de ionização interna no


interior dos pára-raios. Investigações de campo e laboratoriais têm mostrado que
qualquer variação de tensão ao longo da porcelana, resultante de chuva, fumaça
ou poluição, é capaz de gerar descargas internas que produzem alterações
irreversíveis na composição interna do gás, através de reações químicas no gás
de enchimento, queima de oxigênio e criação de componentes químicos.

Em pára-raios de SiC esse efeito altera ao longo do tempo as características


disruptivas dos centelhadores e a característica “tensão - corrente” dos elementos
não-lineares de SiC, podendo conduzir o pára-raios a uma falha total.

Em pára-raios de ZnO a ausência de oxigênio e a criação de novos gases


químicos gerados pelas descargas parciais são responsáveis pelo envelhecimento
acelerado de todos ou alguns dos elementos de ZnO que constituem o pára-raios,
podendo levar a falha parcial ou total do pára-raios ao longo dos anos.

O efeito da contaminação externa pode ser bastante crítico em pára-raios com


invólucros de porcelana, sendo substancialmente atenuado quando da aplicação
de pára-raios com invólucros poliméricos, especialmente em projetos que não
apresentem espaços internos de ar no interior do pára-raios.

O efeito da contaminação também pode ser minimizado com o aumento da


distância de escoamento do invólucro. Pára-raios com invólucros de porcelana são
geralmente fabricados para uma distância de escoamento de 20 mm / kV fase-
fase, que corresponde ao nível de contaminação II de acordo com a norma
IEC 60.815. O aumento da distância de escoamento reduz a corrente de fuga
para um determinado nível de contaminação, diminuindo os efeitos de uma
distribuição de tensão não-uniforme e da ionização interna.

Os fenômenos de degradação e de envelhecimento dos pára-raios podem ser


acelerados pela penetração de umidade no interior dos pára-raios, devido a perda
de estanqueidade do invólucro. Tal efeito tem sido bastante crítico em pára-raios
com invólucro de porcelana, principalmente em projetos de pára-raios mais
antigos.

Estudos realizados por empresas concessionárias de energia elétrica e


instituições de pesquisa têm identificado as principais causas que afetam o
desempenho dos pára-raios em subestações. Tal como verificado em pára-raios
para aplicação em redes de distribuição, todos os estudos realizados apontam a
penetração de umidade por perda de estanqueidade do invólucro como sendo a
principal causa de falha desses pára-raios, sendo esta causa responsável por
aproximadamente 70 a 90 % de todas as falhas verificadas.

No caso de pára-raios aplicados a subestações, a penetração de umidade pode se


dar por vários motivos: danificação das gaxetas de vedação durante o processo de
fechamento dos pára-raios, envelhecimento das gaxetas ao longo do tempo com

119
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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perda de suas propriedades, trincas ou fissuras que se formam ao longo do tempo


na porcelana ou na cimentação entre a porcelana e os flanges; por variações
bruscas de temperatura; descolamento da cimentação; entre outras causas.

Problemas de vandalismo também têm sido observados em algumas regiões,


facilitando o ingresso de umidade no interior dos pára-raios com invólucro de
porcelana.

Em pára-raios com centelhadores, a presença de umidade altera as


características disruptivas dos centelhadores e a característica “tensão - corrente”
dos elementos não-lineares, dificultando a capacidade de interrupção da corrente
subseqüente e reduzindo a capacidade de absorção de energia dos pára-raios.

Em pára-raios de ZnO a presença de umidade altera consideravelmente a


característica “tensão - corrente” dos elementos de ZnO em toda a sua faixa de
operação, com um aumento da componente resistiva da corrente e das perdas na
tensão de operação do pára-raios; redução da capacidade de absorção de energia
e de seus níveis de proteção, fatos que podem levar o pára-raios a falha por
instabilidade térmica e comprometer a isolação dos equipamentos protegidos,
respectivamente.

O aumento da corrente de fuga resistiva que flui pelo pára-raios para uma dada
solicitação de tensão e a redução na capacidade de absorção de energia pode
levar os pára-raios à uma instabilidade térmica quando de uma solicitação
temporária ou transitória, acarretando na sua falha parcial ou total, seguida pela
passagem da corrente do sistema. Nesse caso, devido as características
construtivas dos pára-raios de porcelana (espaços internos de ar entre a parte
ativa do pára-raios e a parte interna do invólucro), a passagem dessa corrente
estabelece um arco interno no interior do pára-raios. Os gases ionizados causam
um rápido aumento da pressão interna que pode provocar a fragmentação do
invólucro ou até mesmo a sua explosão, caso esse não possua dispositivos de
alívio de sobrepressão adequados.

Outro ponto que deve ser considerado é a possibilidade de religamentos na


subestação. Havendo uma falha do pára-raios, esse representa um curto-circuito
para o sistema, provocando a atuação da proteção. Quando do religamento, existe
uma probabilidade de explosão do pára-raios devido a “nova” passagem da
corrente de curto-circuito, uma vez que o mecanismo de alívio de sobrepressão
geralmente não terá função para essa segunda operação.

5.3 Critérios para a seleção e aplicação dos pára-raios para subestações

O dimensionamento adequado dos pára-raios em relação às características dos


sistemas para os quais são aplicados propicia uma proteção adequada aos
equipamentos protegidos, além de uma otimização na relação entre benefício e
custo para aquisição dos pára-raios.

120
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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De uma maneira genérica, os seguintes passos devem ser considerados para a


seleção e aplicação adequadas dos pára-raios em subestações:

• Seleção do pára-raios adequado ao sistema e determinação das suas


características de proteção;
• Seleção ou determinação da suportabilidade da isolação;
• Avaliação da coordenação do isolamento entre os pára-raios e os
equipamentos protegidos;

Cada um dos aspectos acima requer estudos específicos.

São apresentados a seguir os procedimentos básicos para a seleção e aplicação


dos pára-raios de Óxido de Zinco (ZnO) sem centelhadores, visto ser esse tipo de
pára-raios predominante nos novos processos de aquisição.

A seleção de um pára-raios envolve basicamente as seguintes considerações:

- Determinação da tensão nominal e da máxima tensão contínua de


operação, em função da máxima tensão de operação do sistema e das
possíveis sobretensões temporárias que podem vir a ocorrer e suas
respectivas durações, no ponto de aplicação dos pára-raios;
- Determinação da corrente de descarga nominal do pára-raios;
- Determinação da capacidade de absorção de energia para os pára-raios,
em função das energias a serem absorvidas por esses na ocorrência de
sobretensões atmosféricas e de manobras;
- Determinação das características de proteção dos pára-raios para
sobretensões de origens atmosféricas e de manobra;
- Requerimentos de suportabilidade dos pára-raios às correntes de curto-
circuito do sistema;
- Condições de serviço (ambientais).

As considerações referentes aos níveis de proteção e capacidade de absorção de


energia determinam a classe do pára-raios a ser escolhido.

5.3.1 Seleção da tensão nominal dos pára-raios:

Os procedimentos para a seleção da tensão nominal dos pára-raios são os


mesmos apresentados na Seção 3.5.2 – Capítulo 3. Em pára-raios aplicados a
sistemas a alta e extra alta tensões, além da análise das sobretensões
temporárias devido a faltas no sistema, as demais causas de sobretensões
temporárias devem ser analisadas.

Tem sido verificado que a maioria das empresas concessionárias de energia


elétrica e grandes consumidores industriais definem, em suas especificações
técnicas, a tensão nominal dos pára-raios de ZnO sem centelhadores seguindo os
mesmos critérios anteriormente utilizados para a seleção dos pára-raios com

121
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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centelhadores. Esse critério garante ao usuário que, em caso de ocorrência de


uma sobretensão temporária no sistema, não irá ocorrer a disrupção dos pára-
raios com centelhadores evitando, desta forma, a absorção pelo pára-raios de
uma quantidade de energia que esse não teria condições de dissipar e que
fatalmente resultaria em sua falha.

No entanto, no caso de pára-raios de ZnO, este critério pode em alguns casos


acarretar na escolha de pára-raios com tensões nominais acima do necessário.

Exemplo 1:

Determinar a tensão nominal de um pára-raios para aplicação em subestações,


considerando um sistema com as seguintes características:

- Tensão nominal Un: 138 kVef


- Máxima tensão operativa do sistema Umax.: 145 kVef
- Máxima sobretensão temporária 125 kV
- Duração considerada para a falta: 1 segundo.

• Pára-raios com centelhadores:

Vn ≥ TOVSIST. ⇒ Vn ≥ 125 kV ⇒ Vn = 132 kV

Neste caso, o pára-raios deverá apresentar uma tensão nominal de 132 kV.

• Pára-raios sem centelhadores:

Para a seleção da tensão nominal de um pára-raios sem centelhadores, deve-se


considerar a curva a característica “tensão de freqüência fundamental - tempo” do
pára-raios. Iremos considerar uma curva típica apresentada na Figura 5.8.

1.30
Relação TOV / Un

1.20

1.10

1.00

0.90

0.80
1 10 100 1000 10000 100000

Tempo (segundos)

Figura 5.8 – Curva característica “tensão de freqüência fundamental x tempo”

122
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Utilizando os critérios definidos na Seção 3.5.2 – Capítulo 3, se define dois valores


para a tensão nominal e a tensão nominal do pára-raios deverá ser igual ou
superior a maior das tensões definidas:

• A MCOV do pára-raios deve ser igual ou superior à máxima tensão


operativa do sistema no ponto de aplicação do pára- raios

Um 145
Un1 = K1 ⋅ Ucmin ≈ 1,25 ⋅ ⇒ Un1 = 1,25 ⋅ = 104,6kV
3 3

K1 = Un / Uc

• Quando da ocorrência de uma sobretensão temporária a característica


tensão de freqüência industrial versus tempo dos pára-raios deve exceder a
característica amplitude da sobretensão temporária versus duração para o
sistema.

TOVSIST 125
Un2 = ⇒ Un 2 = = 109,6kV
KTOV 1,14

Pelos critérios estabelecidos: Un ≥ 109,6 kV

Utilizando o procedimento conservativo apresentado em 3.5.2:

m
T 
U eq = U t ⋅  t 
 10 

Para uma sobretensão temporária de 125 kV durante 1 segundo se obtém uma


sobretensão temporária equivalente de 119,4 kV por 10 segundos. Por este
critério a tensão nominal do pára-raios deve ser maior ou igual a 119,4 kV.

Para as condições acima estabelecidas o pára-raios escolhido apresenta uma


tensão nominal de 120 kV.

5.3.2 Definição da corrente de descarga nominal dos pára-raios:

Detalhes quanto a definição da corrente de descarga nominal de um pára-raios


foram apresentadas na seção 3.5.3 – Capítulo 3.

No caso de subestações conectadas a linhas blindadas a amplitude da corrente


de descarga do pára-raios pode ser estimada por:

123
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I MAX = I C =
(2,4 ⋅ U CFO − Vr )
Z0

IMAX Corrente de descarga que flui pelo pára-raios, em ampères;


IC Corrente de coordenação do pára-raios;
UCF0 Tensão disruptiva crítica de polaridade negativa da linha, em volts;
Vr Tensão residual do pára-raios para impulso atmosférico (para o valor
estimado da corrente de coordenação), em volts;
Z0 Impedância de surto monofásica da linha, em ohms.

Esta relação assume que uma descarga disruptiva na isolação ocorre na linha de
transmissão a uma distância considerável da subestação, ou que os condutores
fase são atingidos sem que isso resulte em uma descarga disruptiva pelas cadeias
de isoladores. De outra forma, a porção da corrente de descarga total
descarregada através do pára-raios pode variar consideravelmente em função de
todos os parâmetros envolvidos.

Quando a blindagem não abrange toda a extensão da linha, torna-se provável


uma maior corrente de descarga nos pára-raios. Neste caso deve-se considerar:

(1) A densidade de descargas para terra da região considerada;


(2) A probabilidade de descargas na linha que excedem um valor determinado;
(3) O percentual da corrente de descarga total que descarrega através do PR’s.

A Tabela 5.1 apresenta de modo conservativo o percentual da corrente de


descarga total que descarrega através do pára-raios no caso de uma linha
blindada.

Tabela 5.1 – Percentual das correntes descarregadas pelos pára-raios

Extensão da blindagem da linha Percentual da corrente de descarga


a partir da subestação atmosférica descarregada através do
pára-raios
0,8 km 50
1,6 km 35
2,4 km 25

Linhas não protegidas por cabos pára-raios são geralmente limitadas a tensões
nominais mais baixas (69 kV e abaixo) e/ou linhas localizadas em áreas de baixa
densidade de descargas atmosféricas para a terra.

A probabilidade dos pára-raios instalados em subestações de menor tensão


nominal estar sujeitos a altas correntes e taxas de crescimento pode ser elevada
em áreas da alta densidade de descarga atmosférica para a terra. Nestes casos, a
corrente de coordenação não deve ser inferior a 20.000 A.

124
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Para linhas localizadas em áreas de baixa densidade de descarga atmosférica


para terra, as correntes de coordenação podem ser similares àquelas para linhas
completamente blindadas em áreas de alta densidade de descargas para terra.

A experiência prática tem demonstrado que pára-raios com corrente de descarga


nominal de 10 kA têm sido freqüentemente utilizados nas empresas de energia em
sistemas com máxima tensão operativa até 362 kV. Acima desse nível de tensão,
tem-se utilizado somente pára-raios de 20 kA.

Em sobretensões de manobra, a corrente conduzida por um pára-raios é uma


função complexa das características do pára-raios e do sistema. A impedância
efetiva vista pelo pára-raios durante um surto de manobra pode variar desde
algumas centenas de Ω para uma linha aérea até dezenas de Ω para pára-raios
conectados próximos a cabos isolados e grandes bancos de capacitores. Nestes
dois casos a corrente de descarga no pára-raios e a energia resultante variam
significativamente para uma dada amplitude e duração de surto de manobra.

Em pára-raios de ZnO conectados a linhas aéreas, as correntes de coordenação


para sobretensões de manobra recomendadas estão apresentadas na Tabela 5.2.

Tabela 5.2 - Corrente de coordenação para sobretensões de manobra

Máxima tensão do PR Classe Estação PR Classe Intermediária


sistema (kVef) (Acrista) (ACrista)
3 - 150 500 500
151-325 1000 ---
326-900 2000 ---

5.3.3 Determinação da capacidade de absorção de energia dos pára-raios:

Além de suportarem as energias provenientes das sobretensões temporárias, os


pára-raios instalados nos sistemas elétricos devem ser capazes de absorver as
energias provenientes das sobretensões transitórias que ocorrem nos sistemas,
causadas por :

- Energização ou religamento de linhas longas;

- Abertura de bancos de capacitores ou cabos, através de disjuntores que


permitam o reacendimento (“restrike”);

- Descargas atmosféricas diretas sobre os condutores fase das linhas de


transmissão; descargas sobre as estruturas ou sobre os cabos pára-raios de
linhas, provocando descargas disruptivas de retorno ”backflashover” nas
cadeias de isoladores; ou descargas sobre as estruturas próximas às linhas e
subestações.

125
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Para uma especificação adequada dos pára-raios, ou em casos de sistemas mais


críticos, estudos específicos envolvendo simulações computacionais devem ser
realizados, de modo a se obter as máximas energias a serem absorvidas pelos
pára-raios. A partir desses estudos, é definida a capacidade mínima de absorção
de energia dos pára-raios, que deve ser maior do que as energias máximas
obtidas nos estudos. No caso de pára-raios aplicados a sistemas de Extra Alta
Tensões deve-se avaliar principalmente as energias absorvidas devido às
sobretensões resultantes das manobras nos sistemas.

Um fator importante que deve ser considerado quando do estudo da absorção de


energia devido a manobras de bancos de capacitores, é a relação entre a
capacidade de absorção de energia e a corrente de descarga que flui pelo pára-
raios, uma vez que a partir de uma dada corrente de descarga (definida pelos
fabricantes) se verifica uma redução na capacidade de absorção de energia dos
pára-raios (Seção 3.5.4 – Capítulo 3).

Em muitas das vezes a realização de estudos computacionais mais específicos


não é de fácil implementação. Neste caso, conhecidos os níveis de proteção dos
pára-raios as energias absorvidas por esses podem ser estimadas, de forma
conservativa, pelas equações apresentadas na Seção 3.5.4 – Capítulo 3.
Utilizando-se as equações propostas e conhecendo a tensão nominal do pára-
raios, é possível estimar, de uma forma conservativa, as energias absorvidas
pelos pára-raios em kJ/kV da tensão nominal. No entanto, deve-se ressaltar que
as informações obtidas são para fins orientativos.

Na Tabela 5.3 são apresentados os valores sugeridos pela referência /7/ para
serem aplicados na equação apresentada na Seção 3.5.4 - Capítulo 3, para a
estimativa da energia em estudos para energização e religamentos de linha.

Tabela 5.3 – Valores utilizados para estudos de manobra de linhas /7/

Tensão máxima operativa Impedância de surto da Sobretensão prospectiva


do sistema (kV) linha (Ω) sem o pára-raios UL (kV)
Um < 145 450 3,0
145 ≤ Um ≤ 345 400 3,0
362 ≤ Um ≤ 525 350 2,6
Um = 765 300 2,2

Pára-raios instalados na entrada das subestações podem ser submetidos a


maiores níveis de energia quando do aumento da isolação das linhas.

De modo geral, as empresas de energia vêm adotando pára-raios classes 2 ou 3


de descarga de linhas de transmissão (DLT) para sistemas com máxima tensão
operativa até 145 kV; pára-raios classe 3 para sistemas de 145 kV a 242 kV; pára-
raios classes 3 ou 4 para sistemas de 362 kV; e pára-raios classe 5 para sistemas
460 kV e acima.

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Pára-raios instalados para a proteção de bancos de capacitores podem requerer


classes de descarga de linha maiores do que as classes informadas acima.

Tem sido observado que geralmente os níveis de energia requeridos pelos


usuários encontram-se acima dos níveis realmente necessários para uma dada
condição de sistema, havendo a necessidade de se reavaliar os critérios
atualmente utilizados.

Por outro lado, a maioria dos usuários vem definindo em suas especificações
técnicas apenas a classe de descarga de linhas de transmissão requerida pela
Norma IEC 60.099-4 /3/. Tal critério pode acarretar erros consideráveis em relação
a energia requerida, devido a existência para uma mesma classe de descarga de
linhas de uma faixa considerável de energias para os diferentes fabricantes.

Por exemplo, para a classe 2 de acordo com a IEC, existe uma faixa de variação
na capacidade de absorção de energia para os pára-raios de aproximadamente
2,9 a 4,5 kJ / kV nominal. Da mesma forma, para a classe 3, verifica-se uma
variação na faixa de energia de aproximadamente 4,8 a 8,8 kJ / kV nominal.

De forma a se obter os valores de energia desejáveis, as especificações técnicas


devem conter a capacidade mínima de absorção de energia requerida para os
sistemas, associada ou não à classe de descarga de linhas de transmissão.

A experiência de campo tem demonstrado que pára-raios com capacidade de


absorção de energia na faixa de 4,5 kJ / kV nominal são adequados para a maioria
dos sistemas com tensões nominais até 138 kV, mesmo considerando a presença
de pequenos bancos de capacitores. Para sistemas com tensões nominais de
230 kV, pára-raios com uma capacidade de absorção de energia mínima da ordem
de 7,0 kJ / kV nominal atendem à maioria dos sistemas.

Cabe ressaltar, no entanto, que as informações acima são orientativas e com base
em experiências de campo. Energias menores podem ser adequadas para alguns
sistemas. Da mesma forma, maiores energias podem ser necessárias para
sistemas mais críticos, especialmente quando da presença de grandes bancos de
capacitores, correntes de curto-circuito bastante elevadas ou em caso de
subestações conectadas a linhas de transmissão de grande extensão.

A seguir são apresentados os resultados de um estudo simplificado realizado para


estimar as energias absorvidas por pára-raios em caso de ocorrência de
sobretensões atmosféricas e de manobra em um sistema de 145 kV.

Os resultados obtidos se baseiam nas equações apresentadas na Seção 3.5.4 -


Capítulo 3, para as faixas máximas de valores de tensão residual sugeridos pela
Norma técnica IEC 60.099-4 (Seção 3.3.2 – Capítulo 3).

Foram consideradas as seguintes condições para o sistema:

127
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- Tensão disruptiva crítica da linha, polaridade negativa: 760 kV


- Impedância transitória da linha de transmissão: 450 Ω
- Número de linhas conectadas: N=1
- Tempo total de duração da descarga atmosférica: 300 µs
- Sobretensão esperada para a energização da linha: 3,2 pu = 379 kV
- Comprimento da linha de transmissão: 300 km
- Características do pára-raios utilizado no estudo:
Tensão nominal: 120 kV
Máxima tensão contínua de operação: 96 kV
Corrente de descarga nominal: 10 kA
Capacidade de absorção de energia: 4,5 kJ/kV - IA ≤ 950 A
Tensão residual para impulso íngreme: 339 kV – 10 kA
Tensão residual para impulso atmosférico: 312 kV – 10 kA
Tensão residual para impulso de manobra: 239 kV – 0,5 kA

Uma síntese dos resultados obtidos está apresentada nas Tabelas 5.4 a 5.6.

Tabela 5.4 – Resultados do estudo para sobretensões atmosféricas

Tensão Tensão Relação Energia Energia


nominal (kV) residual (kV) Un / Ures (kJ) (kJ / kV)
276 (1) 2,30 142,3 1,19
120 312 2,60 148,5 1,24
396 (2) 3,30 156,1 1,30
(1)
Valor mínimo de tensão residual dentro da faixa de valores máximos
sugeridos pela IEC 60.099-4;
(2)
Valor máximo de tensão residual dentro da faixa de valores máximos
sugeridos pela IEC 60.099-4.

Tabela 5.5 – Resultados do estudo para sobretensões devido a energização e


religamento de linhas de transmissão

Tensão Tensão Relação Energia Energia


Nominal (kV) residual (kV) Un / Ures (kJ) (kJ / kV)
240,0 (1) 2,00 148,1 1,23
120 239,0 1,99 148,6 1,24
312,0 (2) 2,60 92,7 0,77
(1)
Valor mínimo de tensão residual dentro da faixa de valores máximos
sugeridos pela IEC 60.099-4;
(2)
Valor máximo de tensão residual dentro da faixa de valores máximos
sugeridos pela IEC 60.099-4.

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Tabela 5.6 – Resultados do estudo para sobretensões devido


a manobras de bancos de capacitores

Corrente de Potência do Energia Corrente pelo kJ/kV corrigida


curto (kAef) Banco (MVAr) Absorvida (kJ) PR’s (kA)
10,0 0,56 1,49 3,91
15 15,0 0,85 1,83 3,58
20,0 1,13 2,11 3,30
10,0 0,56 2,11 3,30
20 15,0 0,85 2,59 2,83
20,0 1,13 2,99 2,43
10,0 0,56 2,59 2,83
30 15,0 0,85 3,17 2,25
20,0 1,13 3,66 1,77

Dos resultados apresentados nas tabelas pode-se verificar que:

- No caso da incidência de descargas atmosféricas (Tabela 5.4) verifica-se um


aumento da energia absorvida pelos pára-raios com o aumento da tensão
residual.

- Descargas atmosféricas incidindo ao longo de uma linha de transmissão em


um ponto distante da subestação conectada a linha, não são significativas para
a definição da capacidade de absorção de energia dos pára-raios instalados
nas subestações.

- Para manobras devido ao religamento ou energização de linhas (Tabela 5.5)


verifica-se uma redução da energia absorvida pelos pára-raios com o aumento
da tensão residual. Portanto, pára-raios de menor tensão nominal geralmente
absorvem uma maior quantidade de energia quando de manobras em linhas.

- Considerando-se a possibilidade de rejeição de carga durante a primeira


operação de energização da linha de transmissão, com uma segunda
energização ocorrendo em um pequeno intervalo de tempo devido ao
religamento automático, a energia total absorvida pelo pára-raios durante as
operações de manobra pode ser considerada como a soma das energias
absorvidas durante cada operação: neste caso, 297,2 kJ, correspondente a
uma energia total de 2,48 kJ / kV nominal do pára-raios.

Ao se considerar a energia absorvida pelo pára-raios devido a sobretensão


temporária proveniente da rejeição de carga como sendo equivalente a energia
absorvida durante a energização da linha (consideração bastante
conservativa), tem-se uma energia total de 445,8 kJ, equivalente a 3,72 kJ / kV
da tensão nominal do pára-raios.

129
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
Franco Engenharia Ltda.

- Para manobras de banco de capacitores (Tabela 5.6) a corrente que circula


pelos pára-raios quando da manobra dos bancos aumenta com o aumento da
corrente de curto-circuito do sistema e com o aumento da potência do banco
de capacitores. O valor de corrente obtido é fundamental para a verificação da
capacidade de absorção de energia e deve ser comparado com o valor
máximo declarado pelo fabricante, para a condição de máxima capacidade de
absorção de energia. A relação entre a corrente obtida e a corrente máxima
declarada pelo fabricante deve ser considerada para a obtenção da
capacidade de absorção de energia corrigida em função do aumento da
corrente (Figura 3.13 – Seção 3.5.4 - Capítulo 3).

5.3.4 Definição da corrente suportável de curto-circuito:

De modo a evitar riscos às pessoas e avarias aos demais equipamentos


instalados, os pára-raios devem ser projetados para suportar mecanicamente os
efeitos das correntes de curto-circuito, em caso de sua eventual falha.

No caso de pára-raios com invólucro de porcelana ou poliméricos apresentando


espaços internos de ar, o dispositivo de alívio de sobrepressão deve atuar, de
modo a evitar a fragmentação ou a explosão do invólucro. No caso de pára-raios
poliméricos cujos projetos não apresentem espaços internos de ar, esses devem
suportar mecanicamente os esforços da corrente de curto-circuito sem liberação
ou desprendimento de sua parte ativa.

Em caso de uma eventual falha do pára-raios flui através deste uma corrente
correspondente a corrente prospectiva de curto-circuito do sistema, cujo valor
simétrico pode ser determinado por:

PCC (MVA)
I FALTA =
3 ⋅ VSIS

IFALTA Corrente de curto-circuito do sistema no ponto de instalação do PR’s, (kAef);


PCC Potência de curto-circuito no ponto de instalação dos pára-raios (MVA);
Vn Tensão nominal do sistema (kVef).

Desta forma, os pára-raios devem ser dimensionados em função da máxima


corrente de curto-circuito do sistema, no seu ponto de instalação.

Pára-raios com correntes suportáveis de 25 kA e de 40 kA têm sido mais


freqüentemente utilizados em sistemas com máxima tensão operativa até 245 kV.
Acima dessa tensão maiores valores de corrente suportável de curto-circuito são
geralmente requeridos. Em algumas empresas se utiliza pára-raios de 63 kA para
todos os níveis de tensão do sistema.

130
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
Franco Engenharia Ltda.

5.3.5 Condições de serviço (ambientais)

Os pára-raios para aplicação em subestações devem ser dimensionados de


acordo com os critérios apresentados na Seção 3.5.6 – Capítulo 3.

5.3.6 Características de proteção dos pára-raios para sobretensões


transitórias de frente rápida e de frente lenta:

As características de proteção dos pára-raios com e sem centelhadores são


apresentadas nas Seções 3.3.1 e 3.3.2 – Capítulo 3, respectivamente.

As características de proteção dos pára-raios de ZnO para surtos atmosféricos e


de manobra são apresentados pelos fabricantes em seus catálogos técnicos. No
entanto, na ausência de tais informações, podem ser utilizados os valores
apresentados nas Tabelas 3.2 e 3.3 apresentadas na Seção 3.3.2 – Capítulo 3.

A tensão residual dos pára-raios de ZnO aumenta com o aumento da amplitude da


corrente de descarga e apresenta uma pequena dependência com a temperatura.

Um aspecto importante que deve ser destacado é a dependência da tensão


residual com a freqüência, ou seja, para uma mesma amplitude de corrente a
tensão residual aumenta com a diminuição do tempo de frente do surto.

A Figura 5.9 apresenta a curva de um fabricante considerando a tensão residual


para impulsos com frente íngreme, atmosférico e de manobra, para pára-raios
com tensões nominais de 54 a 360 kV.

1.50

1.25
Tensão residual (p.u. V10kA)

1.00

0.75

0.50
0.1 1 10 100 1000 10000 100000
Corrente de descarga (Acr)

Frente íngreme impulso atmosférico Impulso de manobra

Figura 5.9 – Curva da tensão residual versus corrente de descarga

131
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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O efeito da dependência da tensão residual com a freqüência, onde para uma


mesma amplitude de corrente de descarga a tensão residual aumenta com a
redução do tempo de frente do impulso é apresentado na Figura 5.10.

Figura 5.10 - Variação da tensão residual em função do


tempo de frente da corrente de impulso

5.3.7 Seleção ou determinação da suportabilidade da isolação:

Os procedimentos para a verificação ou para a determinação da suportabilidade


da isolação são apresentados no Capítulo 1.

5.3.8 Avaliação da coordenação do isolamento:

Os transformadores de potência e os demais equipamentos de uma subestação


devem suportar às sobretensões que podem ocorrer nos sistemas elétricos, de
modo a permitir que esses realizem a sua função de transportar energia de forma
contínua, confiável e econômica. Para tal, é necessário que as características de
isolação dos equipamentos e dos sistemas elétricos sejam compatíveis com as
sobretensões encontradas no sistema.

A efetiva proteção dos equipamentos dentro de uma subestação é alcançada


através do correto posicionamento dos dispositivos de proteção.

Pára-raios são utilizados para proteger os equipamentos contra os surtos


atmosféricos e de manobras ao passo que os cabos de blindagem protegem
contra a incidência de descargas atmosféricas diretas sobre os barramentos e os
equipamentos da subestação.

132
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Os pára-raios geralmente são utilizados na entrada da subestação e próximos aos


equipamentos principais. A necessidade de pára-raios próximos aos
equipamentos principais está associada a uma possível elevação de tensão nos
terminais desses equipamentos em relação a tensão no terminal do pára-raios, em
virtude das características de propagação dos surtos no interior da subestação
(frente de onda de poucos µs e velocidade de propagação próxima a velocidade
da luz no vácuo). As reflexões nos diversos pontos de descontinuidade dos
barramentos (conexões com outros barramentos, terminações e conexões com
equipamentos) e as distâncias entre os pára-raios e os equipamentos podem fazer
com que a tensão alcance níveis perigosos em alguns pontos da subestação.

Este fato deve ser evitado localizando-se os pára-raios em locais apropriados,


inclusive aumentando a sua quantidade se necessário.

Os níveis de proteção dos pára-raios acrescidos da tensão a ser adicionada


devido aos efeitos dos cabos de conexão e da distância de separação entre o
pára-raios e os equipamentos protegidos, estabelecem as tensões impulsivas nos
terminais desses equipamentos.

Nesta seção, serão apresentadas informações referentes ao efeito da distância de


separação entre o pára-raios e o equipamento protegido, conforme Figura 5.11.

D Distância de separação entre a "Junção J" e o terminal do equipamento a


ser protegido - transformador (m);
J Ponto comum entre as conexões do equipamento protegido, do pára-raios e
a linha sob condições transitórias;
S Taxa de crescimento do surto equivalente incidente na "Junção J" (kV/µs);
UT Tensão nos terminais do equipamento protegido (kV);
UPR Tensão residual do pára-raios (kV).

Figura 5.11 – Representação esquemática da distância entre o


pára-raios e o equipamento a ser protegido.

133
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Existem diferentes metodologias para a determinação dessas tensões:

• Método simplificado;

• Método sugerido pelo Guia de Aplicação de pára-raios IEC 60.099-5 /8/;

• Método sugerido no Guia de Aplicação de pára-raios /9/;

• Simulação computacional, utilizando-se programas digitais.

De acordo com o método simplificado, as tensões nos terminais dos


equipamentos protegidos podem ser estimadas por:

U T = U PR + 2 ⋅ S ⋅
(D + d 1 + d 2 )
v

UT Tensão nos terminais do equipamento protegido (kV);


UPR Tensão residual do pára-raios (kV);
S Taxa de crescimento do surto de tensão (kV / µs);
D Distância elétrica total entre o pára-raios e o equipamento protegido (m);
d1 Distância elétrica de conexão entre os terminais de linha e de terra do
pára-raios (m);
d2 Altura do pára-raios (m);
v velocidade de propagação da onda de tensão (v = 300 m/µs).

Para a determinação da taxa de crescimento da tensão em linhas providas com


cabos pára-raios, pode-se considerar a ocorrência de uma descarga disruptiva de
retorno “backflashover” nas últimas torres antes da entrada da subestação. Neste
caso, a taxa de crescimento pode ser estimada pela equação abaixo:

U 50 ( − ) + 3 ⋅ δ
S=
t

S Taxa de crescimento da onda de tensão incidindo na subestação


(kV/µs);
U50(-) Tensão crítica de descarga para a cadeia de isoladores, para a
polaridade negativa (kV);
δ Desvio padrão, considerado como sendo igual a 3% da tensão crítica de
descarga;
t Tempo considerado no estudo (µs).

De acordo com o método proposto pela IEC 60.099-5 /8/ as tensões nos terminais
dos equipamentos protegidos podem ser estimadas por:

134
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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A  DT 
 Lf =
Ra
UT = U PR + × RT
N  Lsp + Lf 

UPR Tensão residual do pára-raios (kV);


DT Distância elétrica total entre o pára-raios e o equipamento protegido (m),
considerando a distância de conexão do pára-raios;
A Fator constante definido na IEC 60.099-5 (A = 4500 – descarga monofásica
à terra em um condutor simples);
N Número de linhas de transmissão conectadas;
Lsp Comprimento do vão da linha aérea chegando à subestação;
Lf Comprimento da linha aérea que fornece uma taxa de desligamento igual à
taxa de falhas aceitável do equipamento;
Ra Taxa de falhas aceitável para o equipamento protegido (número de falhas
por ano) - Ra = 0,25% valor típico;
RT Taxa anual de desligamentos da linha aérea, por ano, para um projeto
correspondente ao primeiro quilômetro em frente à subestação – unidade
usual – 1 / (100 km . ano);

Este método tem sido amplamente utilizado em estudos de coordenação do


isolamento para a determinação das tensões nos terminais dos equipamentos,
sendo apresentado em detalhes na Norma NBR 8186 /10/.

O procedimento adotado pelo Guia de aplicação de pára-raios da NBR, foi


desenvolvido pela Comissão CE 37-4 do COBEI / ABNT e está apresentado no
projeto de Norma /9/. Este procedimento foi desenvolvido a partir do Guia de
Aplicação de Pára-raios da ANSI referência ANSI C62.22 – Apêndice C /11/.

A tensão nos terminais do equipamento protegido pode ser estimada por:

1 1  0 ,117.c .Vsa 
VT = . ×  2 ,92 + 
MP  1 0 ,117.c   D.S 
0 ,957. + 
 Vsa D.S 

TSNIA - Tensão suportável nominal de impulso atmosférico do transformador ou


do equipamento protegido (kV);
MP Margem de proteção considerada no estudo;
c- Velocidade de propagação do surto em condutores aéreos ( m/µs );
D- Distância máxima de separação entre a "Junção J" e o "Terminal do
transformador" ou do equipamento protegido (m);

135
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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S- Taxa de crescimento do surto equivalente incidente na "Junção J"


(kV/µs);
VSA - Tensão desenvolvida através do pára-raios, incluindo a queda de
tensão nos condutores de conexão (kV);
VT - Máxima solicitação de tensão suportável pelo transformador (kV);
UT = TSNIAC/1,15 - impulsos com tempo de frente inferior a 3µs
UT = TSNIA/1,15 - impulsos com tempo de frente superior a 3µs

Nota:- Estas definições assumem uma margem de proteção de 15%.

Informações necessárias para a determinação dos parâmetros podem ser obtidas


do gráfico apresentado na Figura 5.12. No gráfico UPR corresponde a VSA.

2.30 U T / U PR

2.10

1.90

1.70

1.50

1.30

1.10 D(S) / c U PR

0.01 0.10 1.00

Figura 5.12 - Curva para Determinação da Máxima Distância de separação

A análise do comportamento das tensões impulsivas nos terminais dos


equipamentos através da utilização de programas digitais permite uma maior
precisão nas informações obtidas. No entanto, cuidados devem ser tomados
quando da modelagem do sistema a ser avaliado, de modo a se obter os
resultados desejados.

136
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Entre as ferramentas disponíveis para a simulação dos fenômenos transitórios nas


subestações o programa ATP destaca-se como um dos mais utilizados.
Informações sobre a aplicação do programa ATP e a modelagem do sistema para
se avaliar as tensões impulsivas nos terminais dos equipamentos ao longo das
subestações, podem ser obtidas no Capítulo X – Injeção de Surtos em
Subestações e no Capítulo XII – Modelagem de Pára-raios de ZnO em Estudos de
Sobretensões da referência /12/.

De acordo com esta referência, a simulação dos componentes envolvidos em


estudos de propagação de surtos em subestações inclui os seguintes modelos:

• Modelo do surto a ser injetado:


• Modelo da linha de transmissão;
• Modelo dos barramentos;
• Modelos dos equipamentos da subestação.

• Modelo do surto a ser injetado:

Uma análise mais simplificada pode considerar uma fonte de tensão com impulso
tipo rampa, apresentando tempos de frente variáveis em função da solicitação
considerada e tempo de meia onda (tempo de cauda) de 50 µs. Em estudos mais
detalhados a forma de onda padronizada em ensaios em impulso atmosférico
pode ser utilizada (Figura 1.2 – Seção 1.1.3 – Capítulo 1).

• Modelo da linha de transmissão:

Por se tratar de um estudo de injeção de surtos com características definidas na


subestação, estudos mais simplificados não consideram o modelo da linha de
transmissão. Em estudos mais detalhados, envolvendo a análise do desempenho
do trecho da linha próximo a subestação, o modelo das últimas torres da linha de
transmissão deve ser considerado.

• Modelo dos cabos e barramentos:

Os cabos e os barramentos aéreos ao longo da subestação podem ser


representados por impedâncias transitórias monofásicas, cujo valor depende da
altura média dos condutores / barramentos em relação ao solo e do diâmetro
equivalente; e pelo tempo de propagação do surto na subestação. Estudos mais
detalhados podem considerar o efeito corona.

(
Z 0 = 60 ⋅ ln 2 ⋅ h
r
)
h é a altura do condutor / barramento em relação ao solo (m) e r o
raio do condutor / barramento (m).

137
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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• Modelos dos equipamentos da subestação:

Em estudos mais simplificados os disjuntores, chaves seccionadoras,


transformadores de corrente e de potencial e os transformadores de força são
geralmente representados por capacitâncias concentradas, com os seguintes
valores típicos:

- Disjuntores / chaves / seccionadoras: 100 pF


- Transformadores de corrente: 200 pF
- Transformadores de potencial indutivos: 300 pF
- Transformadores de força (*): 1 - 5 nF

(*) A capacitância dos transformadores de potência pode ser estimada pela


relação abaixo:
CTRAFO ≅ A ⋅ (MVA fase )
B

CTRAFO Capacitância concentrada monofásica representativa do


transformador de potência (nF);
MVA Potência monofásica do transformador;
AeB Constantes que dependem da tensão suportável de isolamento para
impulso;

Para uma transformador de 33 MVA com tensão suportável para impulso


atmosférico de 650 kV (A = 0,6 e B = 0,52) tem-se uma capacitância de 2,1 nF.

Nos estudos de injeção de surtos em subestações, atenção especial deve ser


dada a modelagem do pára-raios, cujas características devem levar em
consideração a dependência com a freqüência para as frentes de onda mais
rápidas. Dentre os modelos existentes, o modelo de ZnO para surtos rápidos
desenvolvido pelo “IEEE Surge Protective Devices Committee Working Group”,
/13/ tem apresentado bons resultados. Os erros entre os valores medidos e
simulados com esse modelo são da ordem de ± 3%.

A referência /14/ apresenta informações detalhadas sobre outros modelos que


podem vir a ser utilizados para a modelagem de pára-raios em estudos de
transitórios rápidos.

Exemplo 2:

Considere um sistema de 145 kV, cujo transformador e o pára-raios estejam


eletricamente conectados, apresentando as seguintes características:

- Tensão suportável nominal para impulso atmosférico do trafo: 550 kV


- Tensão suportável de impulso cortado na frente para o trafo: 633 kV
- Taxa de crescimento do surto de tensão: 1028 kV/µs
- Impedância transitória na entrada da subestação: 450 ohms

138
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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- Impedância transitória do barramento onde está sendo 350 ohms


analisado o efeito da distância:
- Comprimento dos cabos de conexão do pára-raios: 6 metros
- Características do pára-raios:
Tensão nominal: 120 kV
Tensão residual para impulso de corrente íngreme 10 kA: 339 kV
Tensão residual para impulso atmosférico – 10 kA: 312 kV
Tensão residual para surto de manobra – 0,5 kA: 239 kV

De forma a avaliar os métodos apresentados, bem como o efeito da tensão


residual dos pára-raios e o seu posicionamento na coordenação do isolamento do
sistema, foi realizado um estudo considerando-se três dos métodos descritos
incluindo a simulação computacional utilizando-se o programa ATP Draw. Nesta
análise não foi considerado o método proposto pela IEC 60.000-5.

Para os métodos simplificado e descrito no Guia de Aplicação de pára-raios foi


considerada a tensão residual para impulso de corrente íngreme do pára-raios
(339 kV) acrescida do efeito dos cabos de conexão ( L . di/dt ), para uma taxa de
crescimento para a corrente é de 4,6 kA / µs.

A simulação computacional foi realizada considerando uma fonte de tensão tipo


rampa com forma de onda 1 / 50 µs e amplitude de 2056 kV, correspondente a
duas vezes o valor do surto de tensão desejado. A fonte de tensão foi conectada
em série com uma impedância de surto monofásica de 450 Ω, correspondente a
impedância de surto do barramento da subestação. Esse modelo garante a
injeção de uma tensão com amplitude de 1028 kV incidindo na subestação.

De forma a considerar a dependência da tensão residual com a freqüência, a


curva “tensão residual x corrente de descarga do pára-raios” foi obtida a partir do
modelo de ZnO para surtos rápidos proposto pelo “IEEE Surge Protective Devices
Committee Working Group”, a partir dos valores de tensão residual para impulsos
atmosférico (10 kA) e de manobra (0,5 kA), e considerando-se as características e
dimensões físicas dos pára-raios. Os erros entre os valores medidos e simulados
com o modelo ficaram na faixa de ± 2%. O transformador foi representado no
estudo por uma capacitância de 3.000 pF.

A variação da tensão nos terminais do transformador devido a distância de


separação entre o pára-raios e o transformador é apresentado na Figura 5.13.

Da Figura acima é possível verificar que no caso da incidência de uma onda de


tensão com uma taxa de crescimento de 1.028 kV/µs incidindo na subestação,
resultante de uma descarga disruptiva nas últimas torres antes da chegada à
subestação, o pára-raios considerado oferece uma proteção adequada ao
transformador ou outro equipamento protegido pelo pára-raios, para distâncias de
separação em relação ao equipamento considerado de aproximadamente

139
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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12 metros, considerando-se o comprimento dos cabos de conexão de 6 m.


Estudos adicionais considerando o comprimento dos cabos de conexão de 3 m,
mostraram uma proteção adequada dos pára-raios aos equipamentos protegidos
para distâncias de separação em torno de 20 metros.

900
800
Tensão de Impulso (kVcr)

700
600
500
400
300
200
100
0
0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50
Distância (m)
Usup. Trafo Utrafo simplicado Utrafo simulação ATP
Utrafo Guia Usup/1,20

Figura 5.13 - Variação da tensão nos terminais do transformador devido a


distância entre o pára-raios e o transformador

Considerando-se a distância entre o pára-raios e o transformador de 12 metros e o


comprimento dos cabos de conexão entre os terminais do pára-raios e o
barramento de AT / base aterrada da subestação de 6 metros, tem-se as
seguintes relações de proteção para sobretensões de frente rápida e lenta
(distância total de conexão da ordem 18 m):

• Determinação da Margem de Proteção 1 (ondas rápidas):

TSIACF
MP1 =
NPFO + ∆V

TSIACF = 1,15.TSNIA → TSIACF = 1,15 . 550 → TSIACF = 633 kV


NPFO + ∆V = 519 kV – Valor obtido durante a simulação computacional.

TSIACF 633
MP1 = MP1 = MP1 = 1,22 = 22%
NPFO + ∆V 519

140
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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• Determinação da Margem de Proteção 3 (impulsos de manobra):

TSNIM
MP3 =
NPIM

TSNIM = 0,83 . TSNIA → TSNIM = 457 kV


NPIM = 239 kV

TSNIM 457 MP3 = 1,91 = 91%


MP3 = MP3 =
NPIM 239

Dos resultados obtidos na simulação pode-se constatar a importância das


características de proteção dos pára-raios e do seu posicionamento em relação
ao(s) equipamento(s) protegido(s). Maiores valores de tensão residual dos pára-
raios, bem como maiores distâncias dos pára-raios em relação aos equipamentos
protegidos reduzem as margens de proteção.

A simulação considerou uma situação de tensão incidente na subestação bastante


crítica como por exemplo, a ocorrência de “backflashover” nas cadeias de
isoladores situadas nas últimas torres próximas a subestação. Esta situação
resulta em surtos de tensão com taxas de crescimento bastante íngremes. Para
surtos incidentes na subestação com menores taxas de crescimento, a proteção
oferecida pelo pára-raios será ainda maior.

A Tabela 5.7 apresenta uma síntese das tensões resultantes obtidas no terminal
do transformador em função da distância entre o pára-raios e o transformador (ou
outro equipamento qualquer a ser protegido), e as respectivas margens de
proteção obtidas:

Tabela 5.7 - Síntese dos resultados obtidos na simulação

Distância (m) TSNIACF (kV) Tensão resultante Margem de


nos terminais (kV) segurança (%)
0,11 632,5 441,2 43,4 %
7,0 632,5 491,8 28,6 %
9,0 632,5 503,1 25,7 %
12,0 632,5 518,6 22,0 %
15,0 632,5 532,5 19,0 %
20,0 632,5 553,5 14,3 %
35,0 632,5 570,6 10,9 %
30,0 632,5 586,5 7,8 %
40,0 632,5 609,7 3,7 %
50,0 632,5 624,5 1,1 %

141
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
Franco Engenharia Ltda.
1
Considera-se a instalação do pára-raios junto a bucha do transformador,
eliminando o efeito da distância de separação. Neste caso, foi considerado
somente o efeito dos cabos de conexão de 6 metros.

Da tabela verifica-se que o pára-raios avaliado oferece uma proteção adequada


aos equipamentos protegidos para distâncias de separação até aproximadamente
12 metros (considerando os cabos de conexão com comprimento de 6 metros).

O estudo apresentado considera a instalação de somente um pára-raios próximo


ao transformador de potência. No caso da instalação de outro pára-raios na
entrada de linha, esta proteção será garantida para maiores distâncias, conforme
pode ser verificado na Tabela 5.8, que apresenta os resultados obtidos para as
tensões resultantes no ponto de instalação do pára-raios e nos terminais do
transformador estando o pára-raios a uma distância de 20 metros, com outro pára-
raios do mesmo tipo instalado na entrada da subestação:

Tabela 5.8 – Tensões nos terminais dos transformadores

Distância entre PR’s na entrada Tensão PR’s Tensão no


PR’s e trafo (m) da Subestação mais conexão (kV) Transformador (kV)
20 NÃO 391,4 553,5
20 SIM 358,0 492,0

Considerando-se o pára-raios instalado na entrada da subestação, a tensão nos


terminais do transformador para uma distância entre o pára-raios de proteção do
transformador e o transformador de 20 metros (total de 26 m incluindo as
conexões), é reduzida de 553,5 kV para 492,0 kV, aumentando a margem de
proteção de 14,3% para 28,6%.

5.4 Referências bibliográficas

/1/ Martinez, M. L. B., “Pára-raios convencionais a Carboneto de Silício”.


/2 Johnnerfelt, B., “SiC Arresters: Ageing Phenomena and Monitoring
Procedures”, CIGRÉ Surge Arresters Tutorial, Rio de Janeiro - Brazil, April
2005.
/3/ IEC 60099-4 / 2006 Ed. 2.1, “Surge Arresters - Part 4: Metal-Oxide surge
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/4/ Hinrichsen, V., “Designs of Station-Class Polymer Housed Surge Arresters”,
CIGRÉ Surge Arresters Tutorial, Rio de Janeiro - Brazil, April 2005.
/5/ Gohler, R., Klingbeil, L. and Schubert, M., “Surge arrester design and testing
experiences according to the new IEC 60.099-4“, CIGRÉ SC A3
International Technical Colloquium, Rio de Janeiro - Brazil, Sept. 2007.
/6/ Perkins, R. S. at alli, “Integrated Surge Arresters Systems”, CIGRÉ SC A3 &
B3 Joint Colloquium, Tokyo – Japan, 2005.

142
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
Franco Engenharia Ltda.

/7/ ABB, “Selection Guide for ABB HV Surge Arresters”, Technical


Information Publ. SESWG/A 2300 E, Edition 2, 1991.
/8/ IEC 60099-5 / 2000 Ed. 1.1, “Surge Arresters – Part 5: Selection and
application recommendations”.
/9/ COBEI / ABNT - CE 37.4: Guia de Aplicação de Pára-raios de Resistor Não-
Linaear em Sistemas de Potência - Projeto de norma na primeira edição
para revisão final, 2001.
/10/ NBR 8186 / 2001 – “Guia de Aplicação de Coordenação do Isolamento”
1o Projeto de Revisão da NBR 8186 – 1983
/11/ ANSI IEEE Std. C62.22: IEEE Guide for the Application of Metal Oxide
Surge Arresters for Alternating-current Systems, 1997.
/12/ Pereira, M. P. & Amon Filho, J., “ATP Alternative Transient Program”,
Curso básico sobre a utilização do ATP, Novembro 1996.
/13/ Velasco, J. A. M., “Computer Analysis of Electric Power systems Transients
– Selected Readings”, IEEE, 1997, pp 287-294.
/14/’ Meister, A., “Modelagem de varistores de Óxido de Zinco para estudos de
coordenação de isolamento”, Dissertação de Mestrado, Universidade de
Brasília, 2005.
/15/ Ohio Brass, “Application Guide – DynaVar Metal-Oxide Surge Arresters”,
Ohio Brass Technical Bulletin EU1091-HR, 1990.

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
Franco Engenharia Ltda.

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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6. Descargas atmosféricas em linhas de transmissão

As descargas atmosféricas são a principal causa de desligamentos não


programados verificados no sistema elétrico brasileiro, sendo responsáveis por
aproximadamente 50 - 70% dos desligamentos ocorridos em linhas de
transmissão com tensões nominais até 230 kV. Tais índices podem ser mais
críticos em regiões de altas atividades ceráunicas e elevados valores de
resistividade do solo.

São apresentadas neste capítulo informações referentes aos aspectos e


parâmetros a serem considerados no estudo de desempenho das linhas de
transmissão frente a descargas atmosféricas, bem como efeito da incidência de
descargas atmosféricas sobre linhas de transmissão com e sem cabos pára-
raios.

Apesar de este capítulo estar direcionado a aplicação de pára-raios em linhas


de transmissão, os conceitos aqui apresentados também são válidos para a
análise de desempenho de redes elétricas de distribuição.

6.1 Aspectos a serem considerados no estudo da incidência de


descargas atmosféricas em linhas de transmissão

6.1.1 Características das descargas e freqüência de ocorrência

Fenômenos de danosas conseqüências, as descargas atmosféricas resultam


do acúmulo de cargas elétricas nas nuvens e a conseqüente descarga sobre o
solo terrestre ou sobre qualquer estrutura que ofereça condições favoráveis à
descarga. A descarga atmosférica é um fenômeno complexo, podendo existir
em uma descarga várias ramificações e vários pontos de contato com a terra.

Em linhas gerais, uma descarga atmosférica pode ser definida como uma
descarga elétrica transitória de curta duração e com uma elevada corrente
associada, que usualmente atinge quilômetros de extensão. Tal descarga
ocorre quando nuvens em uma região da atmosfera atingem uma quantidade
suficiente de cargas elétricas para dar origem a campos elétricos cuja
intensidade supere a rigidez dielétrica do ar, causando assim a disrupção do
meio (ar). Para que tal processo possa acontecer é necessário que as
condições ambientais sejam favoráveis, situação que pode ser encontrada no
interior de grandes tempestades de neve e de areia, nas nuvens sobre vulcões
em erupção e, na maior parte das vezes, na nuvem de tempestade (cúmulo-
nimbus) /1/.

Com relação às descargas originadas nas nuvens de tempestade, quatro tipos


de descargas podem ser identificados: descargas dentro da nuvem
(intranuvem), descargas entre nuvens, descargas entre nuvem e solo e entre
nuvem e estratosfera. Dentre os tipos de descargas existentes, a de maior
interesse para análise de desempenho dos sistemas elétricos corresponde às
descargas entre nuvem e solo, as quais podem ser classificadas como:

145
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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- Descargas ascendentes e descendentes, segundo a direção da evolução do


canal que faz o fechamento do percurso ionizado;
- Descargas positivas e negativas, segundo a polaridade da carga na região
da nuvem conectada ao solo por esse percurso.

De uma maneira geral, em regiões planas é mais freqüente a ocorrência de


descargas negativas e descendentes. Descargas ascendentes são menos
freqüentes, e ocorrem geralmente a partir de estruturas elevadas
(principalmente quando situadas no topo de regiões montanhosas), como
torres de telecomunicações, edificações, mastros entre outras.

Estudos realizados pelo CIGRÉ e observações efetuadas em várias estações


de pesquisas atmosféricas em todo o mundo, mostraram que
aproximadamente 80% a 90% das descargas descendentes são de polaridade
negativa, razão pela qual a maioria das informações disponíveis se refere a
esse tipo de descarga.

Registros de 79 descargas atmosféricas realizados pelo "Lightning Research


Center" - LRC - em conjunto com a CEMIG na Estação do Cachimbo em Minas
Gerais, confirmaram 64 descargas (81%) como sendo de polaridade negativa e
13 descargas (16,5%) positivas. Dentre as 33 descargas descendentes
confirmadas através de registros de vídeo, 31 são negativas, correspondendo a
93,9% das descargas descendentes. Dessas, 15 descargas apresentaram
somente uma única descarga de retorno (48,4%), enquanto que 16 descargas
(51,6%) apresentaram descargas de retorno subseqüentes (descargas
atmosféricas múltiplas) com um número médio de 5,8 descargas de retorno por
descarga atmosférica /2, 3/. Maiores informações referentes às estatísticas das
descargas atmosféricas no Morro do Cachimbo e em outras estações podem
ser obtidas em /2/.

Todas as estruturas existentes sob ou sobre o solo estão submetidas aos


efeitos das descargas descendentes (nuvem-terra). A necessidade e o tipo de
proteção de um sistema dependem da maior ou menor probabilidade desse
sistema ser atingido pelas descargas diretas ou pelos efeitos das descargas
em suas proximidades (sobretensões induzidas - críticas para sistemas com
tensões nominais até 44 kV). A probabilidade de incidência de descargas
apresenta uma relação direta com a freqüência com que as descargas ocorrem
por unidade de área, em um determinado local ou região. Daí a necessidade de
se conhecer a densidade de descargas a terra. Assim, a incidência de
descargas atmosféricas sobre uma região pode ser caracterizada pela
densidade de descargas a terra, expressa em termos do número de descargas
atmosféricas para a terra por quilômetro quadrado ao ano.

Para a determinação da densidade de descargas a terra há a necessidade da


utilização de sistemas específicos para a captação das descargas, tais como
Sistemas de Localização de Tempestades, redes de contadores de descargas
atmosféricas, entre outros.

Atualmente, várias técnicas têm sido amplamente utilizadas para localização


das descargas atmosféricas, as quais podem ser classificadas em dois grupos:

146
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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um primeiro grupo emprega medições remotas de campos elétrico e magnético


e um segundo grupo utiliza detectores ópticos /4/.

Sistemas do tipo LLP ("Lightning Location and Protection System"), LPATS


("Lightning Positioning and Tracking System") e um terceiro sistema,
denominado IMPACT ("Improved Accuracy from Combined Technology") que
utiliza a combinação dos dois primeiros, estão incluídos no primeiro grupo. O
sistema IMPACT vem sendo largamente utilizado em todo o mundo, inclusive
no Brasil.

Tais sistemas fornecem informações da localização da descarga atmosférica,


da amplitude e polaridade da corrente de descarga, do instante de ocorrência,
da diferenciação entre descargas nuvem-solo e outros tipos de descargas,
dentre outros parâmetros associados, possibilitando um melhor conhecimento
dos parâmetros característicos das descargas. Mais informações sobre os
aspectos básicos dos Sistemas de Localização de Tempestades podem ser
obtidas a partir da referência /4/.

A Companhia Energética de Minas Gerais - CEMIG e o Sistema Meteorológico


do Paraná – SIMEPAR possuem sistemas com tecnologia LPATS e IMPACT.
Com o sistema instalado por FURNAS Centrais Elétricas S.A. - tecnologia
IMPACT e LPATS, tornou-se possível a interligação desses três sistemas,
constituindo a Rede Integrada de Detecção de Descargas Atmosféricas
(RINDAT) no Brasil /4/. A interligação dos sistemas permitiu um melhor índice
de detecção das descargas, maior precisão na localização e, principalmente,
uma ampliação da área de cobertura do sistema, que passou a abranger as
regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país.

Em 2005 três grandes redes de detecção de descargas estavam em operação


no Brasil: (1) - a Rede Integrada de Detecção de Descargas Atmosféricas
(RINDAT), que começou sua operação em 1998 cobrindo o Sudeste e algumas
áreas de Sul e regiões de Centro-oeste do país; (2) - o Sistema de Informação
Integrado com base em uma Rede de Detecção de Descargas (SIDDEM), que
começou sua operação em meados de 2005, cobrindo parte do Sul e regiões
de Centro; e; (3) - a Rede de Detecção de Raios – SIPAM, que começou sua
operação no início de 2005, cobrindo parte das regiões Norte e Nordeste do
país. Como resultado do esforço de ELAT em parceria com várias instituições
no Brasil, foi possível realizar a integração destas três redes de detecção de
descargas regionais, resultando na criação da Rede Brasileira de Detecção de
Descargas - BrasilDAT. Atualmente a rede BrasilDAT é a maior nos trópicos e
a terceira maior rede de detecção de descargas no mundo, com uma eficiência
na detecção de descargas de aproximadamente 70 - 90% e precisão de local
abaixo de 1 km.

Apesar do grande avanço tecnológico nas pesquisas sobre descargas


atmosféricas verificado no Brasil ao longo dos últimos 10 anos, ainda existe em
algumas regiões do país com uma grande dificuldade na disponibilidade de
informações mais precisas referentes a densidade de descarga a terra. Como
exemplo, em algumas áreas da região Norte ainda se utiliza os conceitos de
Nível Ceráunico.

147
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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É importante ressaltar, no entanto, que para um dado nível ceráunico, a


densidade de descarga a terra correspondente pode ser severamente afetada
pelo tipo e topografia do terreno. Também deve ser considerado o fato de que
em muitos dos casos a determinação do nível ceráunico pode conter erros
devido a trovoadas referentes a descargas atmosféricas entre nuvens, que a
rigor não interessam sob o ponto de vista de proteção dos sistemas elétricos.

Uma correlação entre a densidade de descarga a terra (Ng) e o nível ceráunico


(NC), para diferentes condições de terreno, e suas comparações com curvas
tradicionalmente utilizadas é apresentada na Tabela 6.1 /2, 5/. Estas
informações são apenas para fins informativos.

Tabela 6.1 - Correlação observada entre a densidade de


descargas à terra e o nível ceráunico.

Local Relação entre DDT e NC Ng (NC = 60) (*)


África do Sul Ng = 0,04 . NC 1,25 6,7
Minas Gerais Ng = 0,028 . NC 1,20 3,8
México – Região Plana 1,24 7,1
Ng = 0,044 . NC
México – Região Costeira 1,33 6,0
Ng = 0,026 . NC
México – Região Montanhosa Ng = 0,024 . NC 1,12 2,4
Itália 1,55 3,6
Ng = 0,00625 . NC

(*) Valores obtidos para Ng através da expressão indicada, considerando


um nível ceráunico de 60.

No Brasil, utiliza-se geralmente a relação apresentada pelo CIGRÉ.

As Figuras 6.1 e 6.2 mostram os mapas de curvas ceráunicas e de densidade


de descargas nuvem-terra para o Brasil, apresentadas pelo INPE /6/.

Figura 6.1 - Mapa do número de dias com trovoadas por ano no Brasil

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O mapa de nível ceráunico apresentado na Figura 6.1 foi obtido com base em
duas décadas de observação, a partir do início dos anos 60. Com base nas
informações apresentadas na figura, pode ser constatado que na maior parte
do território brasileiro o número de dias de trovoadas por ano ultrapassa a 50.

A maioria das pesquisas objetivando a melhoria de desempenho de redes


aéreas de distribuição e de linhas aéreas de sub-transmissão e transmissão
tem sido realizada no Brasil com base no mapa de densidade de descargas a
terra, apresentado na Figura 6.2. Esta figura apresenta a taxa de descargas
para a terra observada no Brasil no período de 1998 a 2005 /6/. Uma vez que
os sensores utilizados não discriminam as descargas nuvem-terra das
descargas nuvem-nuvem, as informações referentes a densidade de descargas
a terra foram obtidas a partir da relação entre descargas nuvem-nuvem e
nuvem-terra avaliada pelo INPE em estudos prévios.

Figura 6.2 - Mapa de densidade de descargas atmosféricas para a terra


(descargas / km2 - ano) no Brasil – período de 1998 a 2005 /6/

Uma análise dos dados apresentados na Figura 6.2 indica como principal
diferença em relação à Figura 6.1 uma maior atividade atmosférica nas regiões
Sul e Centro-Oeste do país. As informações disponibilizadas na Figura 6.2
representam a realidade brasileira de uma forma mais adequada que os dados
ceráunicos obtidos nas décadas de 60 e 70, e tem possibilitado um grande
avanço nos estudos de desempenho do sistema elétrico devido à ação das
descargas atmosféricas.

6.1.2 Parâmetros característicos das correntes de descarga

Para estudos de avaliação de desempenho dos sistemas elétricos devido às


descargas atmosféricas, além do número de descargas que podem incidir
sobre uma determinada região, torna-se necessário um maior entendimento
sobre as características das descargas atmosféricas.

Para a avaliação da suportabilidade da isolação de equipamentos e


componentes de um sistema frente às descargas atmosféricas é necessário

149
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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conhecer as formas de onda de correntes características das descargas


atmosféricas, bem como os parâmetros relacionados às correntes de descarga,
tais como a amplitude da corrente de descarga, a taxa de crescimento da
corrente, tempo de subida, tempo de meia onda, etc.

Para a obtenção desses parâmetros, estações de medição de descargas


atmosféricas foram construídas em diversas partes do mundo. As primeiras
medições de corrente de descarga direta foram realizadas no Monte San
Salvatore na Suíça. Posteriormente, essas informações foram obtidas em
outras partes do mundo: África do Sul, Canadá, Itália, Alemanha,
Checoslováquia, Japão e Brasil /2/. Procedimentos para a obtenção das
amplitudes das correntes de descarga, através da instalação de elos
magnéticos em cabos pára-raios e torres de linhas de transmissão, em torres
de igreja, chaminés, entre outras estruturas, também têm sido utilizados /2/.

A necessidade de se avaliar a forma de onda da corrente de descarga, em


especial o tempo de frente e a derivada máxima da corrente, de forma a se
obter estudos mais consistentes para a proteção dos sistemas elétricos frente
às descargas atmosféricas, determinou a introdução de parâmetros adicionais
definidos por Anderson e Eriksson /7/, conforme apresentado na Figura 6.3.

Figura 6.3 - Onda de corrente registrada no Morro do Cachimbo


correspondente à primeira corrente de retorno de uma
descarga atmosférica negativa descendente /2/

A Figura 6.3 corresponde a uma forma de onda de corrente real medida na


Estação do Morro do Cachimbo em Minas Gerais /2/, com base nos parâmetros
característicos definidos e apresentados abaixo:

- Pico da corrente: corresponde ao maior valor de pico da descarga de


retorno. De um modo geral, as ondas de corrente relativas às primeiras
descargas de retorno apresentam dois picos de corrente, sendo o segundo
(IP2) geralmente maior do que o primeiro (IP1).

Os parâmetros T10, T30, S10, S30 e Sm são definidos com base em IP1.
O parâmetro T50 é definido em função de IP2.

150
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- T10 Intervalo de tempo entre as amplitudes de 10% e 90% em relação


ao primeiro pico (IP1) da corrente na frente da onda;
- T30 Intervalo de tempo entre as amplitudes de 10% e 90% em relação
ao primeiro pico (IP1) da corrente na frente da onda;
- Td10 Tempo de frente equivalente (Td10 = T10 / 0,8);
- Td30 Tempo de frente equivalente (Td30 = T30 / 0,6);
- T50 Intervalo de tempo entre o ponto definido pela corrente de 2 kA na
frente da onda e o ponto de meia onda relativo ao valor de 50%
do pico de corrente (segundo pico);
- TAN10 Taxa de crescimento da corrente, correspondente à tangente, na
frente da onda, na amplitude de 10%.
- S10 Taxa de crescimento médio da corrente entre as amplitudes de
10% e 90% em relação ao primeiro pico (IP1) da corrente na frente
de onda;
- S30 Taxa de crescimento médio da corrente entre as amplitudes de
30% e 90% em relação ao primeiro pico (IP1) da corrente na frente
de onda;
- TANG (ou Sm) Máxima taxa de crescimento da corrente na frente da onda,
correspondente ao maior valor di/dt sobre a frente da onda
de uma descarga de retorno.

Diferentes funções para a definição dos parâmetros característicos das


descargas atmosféricas têm sido apresentadas em diversas referências, sendo
a função distribuição de probabilidade log-normal a mais adotada pela maioria
das publicações referentes ao tema para representar a distribuição de
probabilidade cumulativa dos picos de corrente medidos e dos demais
parâmetros característicos das formas de ondas impulsivas de corrente de
descargas atmosféricas /2/.

A equação matemática que descreve a função distribuição de probabilidade


log-normal para um determinado parâmetro X (variável aleatória) da onda de
corrente é definida por:

1  1  ln x − ln x  
2
x
1
⋅ − ⋅    . dx
2.π . σ ln x ∫0 x  2  σ ln x  
P(X ≤ x) = FX (x) = .
 

Na equação acima, FX(x) corresponde a probabilidade da variável aleatória X


assumir um valor menor ou igual a um valor específico x; ln x corresponde ao
valor médio do logaritmo neperiano da variável aleatória σlnx ao desvio-padrão
logarítmico (base e-ln). Desta forma, a distribuição de probabilidade da variável
aleatória pode ser totalmente caracterizada por dois parâmetros: ln x e σlnx .

Dentre os parâmetros mais utilizados em estudos de desempenho de sistemas


elétricos frente às descargas atmosféricas, as amplitudes das correntes de
descarga e a taxa de crescimento das correntes têm sido os mais
considerados, visto que esses parâmetros, em especial o primeiro, são
fundamentais para a estimativa da probabilidade de desligamentos de linhas de

151
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transmissão e de redes de distribuição, bem como para a definição dos critérios


a serem utilizados para melhoria de desempenho desses sistemas.

Informações sobre os parâmetros ln x e σlnx das descargas atmosféricas


descendentes negativas, para a amplitude máxima da primeira descarga de
corrente e da máxima taxa de crescimento da corrente na frente da onda,
apresentadas pelo grupo de estudos do CIGRÉ /7, 8/ e obtidas a partir de
medições realizadas na estação de pesquisas do Morro do Cachimbo /2/, estão
apresentadas na Tabela 6.2.

Tabela 6.2 - Parâmetros característicos das descargas atmosféricas

Parâmetro Dados CIGRÉ Dados CEMIG


Média σln Média σln
IP2 (kA) 61,1 (*) 1,330 (*) 45,3 0,39
33,3 (**) 0,605 (**) ----- -----
Sm (kA/µs) 24,3 0,599 19,4 0,290

(*) Parâmetros para Idescarga < 20 kA;


(**) Parâmetros para Idescarga > 20 kA;

As curvas de probabilidade de ocorrência das correntes de descarga


descendentes negativas com valores de pico acima de uma determinada
amplitude, obtidas para as medições efetuadas pelo CIGRÉ e pela CEMIG com
base nos valores médios e nos desvios-padrão logarítmicos da Tabela 6.2,
estão apresentadas na Figura 6.4.
Probabilidade da corrente ser excedida (%)

100,00

10,00

1,00

0,10

0,01
0 20 40 60 80 100 120 140 160
Corrente de descarga (kA)
Dados CEMIG Dados CIGRÉ
Equação simplificada - CEMIG Equação simplificada - CIGRÉ

Figura 6.4 - Curvas de probabilidade de amplitude de correntes


para descargas descendentes negativas

Na mesma figura são apresentadas as curvas com a probabilidade P(I ≥ I0) da


amplitude máxima da corrente de descarga exceder a uma corrente I0, com
base nas equações simplificadas propostas por Anderson - Eriksson (para os
dados do CIGRÉ) e pela referência /9/ (para os dados da CEMIG):

152
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1
P(I ≥ I0 )CIGRE = P(I ≥ I0 )CEMIG =
1
( 31)
1 + I0
2,6
( 45)
1 + I0
4,7

P(I ≥ I0) Probabilidade da ocorrência de correntes com amplitudes maiores


do que a corrente I0 considerada.

Verifica-se da figura uma boa concordância entre as curvas obtidas


considerando a função distribuição de probabilidade log-normal e as equações
simplificadas para correntes com amplitudes da ordem de até 85 kA (dados
CIGRÉ) e 110 kA (dados CEMIG), o que valida a utilização dessas equações
para estudos de avaliação de desempenho de linhas de transmissão, tornando
os estudos mais simplificados. No entanto, para estudos mais detalhados,
sugere-se a utilização da função distribuição de probabilidade log-normal.

As informações sobre a distribuição de probabilidade para as correntes de


descarga apresentadas referem-se a descargas atmosféricas descendentes
com polaridade negativa. No caso das descargas positivas, que ocorrem em
menor número, estes valores são geralmente bem maiores.
Para a taxa de crescimento das correntes o CIGRÉ sugere a seguinte equação
para a determinação da probabilidade da ocorrência de taxas de crescimento
de corrente superiores à taxa considerada:

(
P dI
dt
≥ dI0
dt
)= 1
4
1 +  dI0 dt 
 24 

6.2 Descargas atmosféricas em linhas de transmissão

As linhas de transmissão assim como as redes de distribuição tendem a ser um


coletor de descargas. Duas diferentes abordagens devem ser consideradas na
avaliação do desempenho dos sistemas elétricos frente às sobretensões
resultantes das descargas atmosféricas: os efeitos originados por descargas
atmosféricas incidindo diretamente sobre os condutores fase ou sobre os cabos
pára-raios (em caso de sua existência) e os efeitos originados pelas descargas
atmosféricas incidindo nas proximidades das redes de distribuição ou linhas
com tensões não superiores a 44 kV (descargas indiretas), gerando
sobretensões induzidas.

Embora as sobretensões causadas por descargas atmosféricas diretas possam


atingir maiores amplitudes do que as sobretensões induzidas por descargas
atmosféricas nas proximidades das redes de distribuição e linhas de
transmissão, as sobretensões induzidas geralmente representam maiores
problemas para empresas distribuidoras de energia elétrica devido à sua maior
freqüência de ocorrência, associada a baixa resistência oferecida pela isolação
das redes de distribuição às sobretensões atmosféricas.

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No caso de linhas de transmissão com tensões nominais iguais ou superiores a


69 kV as sobretensões induzidas, originadas por descargas atmosféricas nas
proximidades das linhas, apresentam amplitudes inferiores às características
disruptivas da isolação, não acarretando em desligamentos dessas linhas. Por
esta razão, em estudos de desempenho de linhas de transmissão se considera
somente os efeitos das descargas incidindo diretamente sobre as linhas.

6.2.1 Incidência das descargas atmosféricas diretas em linhas de


transmissão

Considerando que as descargas atmosféricas diretas possam geralmente


afetar o desempenho das linhas de transmissão, gerando sobretensões
transitórias resultantes acima da suportabilidade da isolação das linhas, o
número de descargas diretas coletadas pelo sistema é um dos fatores
determinantes para a avaliação do seu desempenho.

A freqüência com que as descargas atmosféricas descendentes incidem


diretamente sobre as estruturas das linhas de transmissão, nos cabos pára-
raios ou nos condutores fase, depende de uma série de fatores: as densidades
de descargas atmosféricas à terra nas regiões atravessadas pela linha;
características físicas da linha, em especial a sua altura em relação ao solo e o
espaçamento entre os condutores mais externos; a existência de objetos
próximos a linha que constituem blindagens naturais, tais como árvores altas,
estruturas metálicas, edificações nas proximidades da linha e existência de
outras linhas de transmissão. Além disso, a incidência de descargas sobre uma
dada linha de transmissão pode variar a cada ano, em função da maior ou
menor incidência das descargas atmosféricas na região.

Para uma linha de transmissão localizada em uma região onde a densidade de


descargas médias à terra por km2 por ano é Ng e apresentando uma área de
atração equivalente A (m2), o número médio de descargas diretas Nd coletadas
por esta linha por 100 km por ano é:

 d =  g ⋅ A ⋅ 10−3 ⋅ 100

Nd Número esperado de descargas atmosféricas que incidem diretamente


sobre uma linha de transmissão ( descargas / (100 km . ano) );
Ng Densidade de descarga a terra ( descargas / (km2 . ano) );
A Área de atração equivalente (m2).

Vários trabalhos abordam diferentes procedimentos para a determinação do


raio de atração equivalente médio. Uma expressão bastante utilizada em
estudos de desempenho de linhas de transmissão foi proposta por Eriksson /1/.

Ra = 0,84 ⋅ H 0,6 ⋅ I 0,74

Ra Raio de atração equivalente (m);


H Altura da estrutura (m);
I Amplitude da corrente de descarga (kA).

154
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Para uma corrente de descarga com amplitude média de 45 kA, o raio de


atração equivalente pode ser expresso por:

Ra = 14 ⋅ H 0, 6

Deve ser ressaltado que a expressão acima representa o raio de atração


equivalente médio para estruturas isoladas e para um valor médio de corrente
de descarga considerado. Na realidade, o raio de atração de uma estrutura
varia em função da intensidade da corrente de descarga.

De acordo com a referência /7/, as descargas atmosféricas podem atingir uma


linha de transmissão dentro da sua faixa de exposição, segundo a expressão
abaixo:

 d =  g ⋅ (2 ⋅ Ra + b ) ⋅ 10−1

( )
 d =  g ⋅ 28 ⋅ H 0,6 + b ⋅ 10 −1

Nd Número esperado de descargas atmosféricas que incidem diretamente


sobre uma linha de transmissão ( descargas / (100 km . ano) );
Ng Densidade de descarga a terra ( descargas / (km2 . ano) );
H Altura média do condutor mais elevado em relação ao solo ou dos cabos
pára-raios em relação ao solo, em caso da existência desses (m);
b Espaçamento horizontal entre cabos pára-raios (m).

A altura média equivalente (H) do condutor mais elevado em relação ao solo é


determinada por:

- Para um perfil plano: H = hg – 2/3 . (hg – hgw)


- Para um perfil ondulado: H = hg
- Para um perfil montanhoso: H = 2 . hg

hg É a altura do cabo pára-raios ou do condutor mais elevado na torre;


hgw É a altura mínima do cabo pára-raios ou do condutor mais elevado no
meio do vão.

É importante ressaltar que o número calculado de descargas que incidem


sobre uma dada linha de transmissão é apenas um valor aproximado e
orientativo, devido a natureza estatística da densidade de descarga a terra, a
qual varia de ano para ano, além de outros fatores, tais como a presença de
objetos que podem ajudar na blindagem do sistema e interceptar algumas das
descargas que poderiam atingir as linhas.

O número de descargas diretas que incidem sobre uma linha de transmissão


localizada nas proximidades de outras estruturas é influenciado pela área de
captação de descargas dessas estruturas /10/. Desta forma, uma vez
conhecidas as características da linha, a altura dos objetos próximos e a
distância entre a linha de transmissão e esses objetos (outras linhas de
transmissão, por exemplo), podem ser estabelecidos os fatores de blindagem.

155
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Considerando o efeito de objetos elevados próximos à linha de transmissão, o


número estimado de descargas diretas que incidem sobre a linha a cada ano
por 100 km é dado por /10/:

 drd =  d ⋅ (1 − S fc )

Ndrd Número de descargas atmosféricas que incidem diretamente sobre a


linha de transmissão, considerando a presença de objetos próximos
(descargas / (100 km - ano) );
Nd Número de descargas atmosféricas que incidem diretamente sobre a
linha, em caso da não existência de objetos próximos a linha;
Sfc Fator de blindagem combinado (Sfc = 0) → Ndrd = Nd.

O fator de blindagem a ser considerado consiste na soma dos fatores obtidos


para cada lado da linha de transmissão. Nos casos em que o fator de
blindagem combinado se apresentar igual ou maior do que 100%, o número de
descargas diretas incidindo sobre a linha será nulo.

Um fator de blindagem igual a zero significa que a linha de transmissão


atravessa uma região onde a proximidade de objetos não afeta o número de
descargas por ela coletadas. Por outro lado, um fator de blindagem igual a 1,0,
indica que a linha se encontra totalmente protegida das descargas diretas em
função dos objetos em suas proximidades.

6.2.2 Desempenho das linhas de transmissão devido a descargas


atmosféricas

O desempenho das linhas de transmissão ou redes de distribuição submetidas


ao efeito de uma descarga atmosférica varia significativamente em função das
características de projeto das linhas e das condições do solo e ambientais das
regiões atravessadas pelas linhas.

O efeito de uma descarga atmosférica sobre uma linha de transmissão


depende basicamente: do projeto e das características construtivas da linha; da
impedância do sistema de aterramento para surtos; da amplitude e da forma de
onda da corrente de descarga; do ponto de incidência da descarga (se
diretamente sobre a rede ou em suas proximidades); das características de
isolação das linhas; do grau de proteção oferecido pelos cabos pára-raios (no
caso de sua existência), etc. Todos esses fatores devem ser levados em
consideração quando da análise do desempenho das linhas de transmissão
frente às descargas atmosféricas.

O comportamento transitório das ondas resultantes de tensão e de corrente


para a análise das descargas atmosféricas incidindo sobre as redes elétricas
ou em suas proximidades é altamente complexo, podendo ser efetivamente
avaliado através de uma modelagem mais complexa através da utilização de
ferramentas computacionais.

156
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Três aspectos principais estão envolvidos no cálculo de desempenho de linhas


de transmissão devido ao efeito das descargas atmosféricas: os aspectos
relativos às características das correntes de descarga (valor de pico, duração
de frente e taxa de crescimento da onda de corrente); os aspectos relativos ao
processo de conexão entre o canal de descarga e os componentes da linha de
transmissão; e por fim, os aspectos relacionados a resposta eletromagnética da
linha atingida pela descarga atmosférica.

As linhas de transmissão podem apresentar várias configurações para as


torres, condutores aéreos e para o aterramento das estruturas. Diferentes
configurações para esses elementos estabelecem diferentes respostas
transitórias sob solicitações de descargas atmosféricas, as quais refletem sobre
os valores calculados para as sobretensões resultantes.

O comportamento transitório de uma linha de transmissão após a incidência de


uma descarga atmosférica sobre o topo da estrutura ou sobre os cabos pára-
raios, em caso de sua existência, depende de alguns fatores que necessitam
ser cuidadosamente considerados para a avaliação de desempenho de linhas
de transmissão: o ponto de incidência da descarga, a impedância equivalente
para surtos dos cabos pára-raios, o acoplamento eletromagnético entre os
cabos pára-raios e os condutores fase, a resposta transitória da torre, o efeito
das torres adjacentes, a resposta do sistema de aterramento, etc.

Vários modelos têm sido apresentados em publicações técnicas para o estudar


e avaliar a resposta dos componentes das linhas de transmissão quando
submetidos a incidência de uma descarga atmosférica. Alguns desses modelos
individuais apresentam um elevado grau de elaboração e complexidade.

Modelos mais recentes foram desenvolvidos para levar em consideração a


interação de todos os componentes presentes na linha /11/. Dentre esses
modelos, um modelo bastante complexo e elaborado denominado “Modelo
Eletromagnético Híbrido” – HEM – foi desenvolvido pelo Lightning Research
Center /1/, /11/.

Apesar da complexidade do fenômeno, é possível obter-se através de


conceitos básicos, uma análise estimativa e simplificada do efeito das
descargas atmosféricas sobre os sistemas elétricos. A seguir, serão abordados
aspectos referentes às descargas diretas e seus efeitos sobre as linhas de
transmissão.

6.2.2.1 Descargas incidindo diretamente sobre linhas de transmissão


sem cabos pára-raios

As descargas atmosféricas ao incidirem diretamente sobre linhas de


transmissão não providas de cabos pára-raios atingem, invariavelmente, os
condutores fase. Considerando que não ocorra uma disrupção no ponto
atingido, a corrente de descarga i(t) ao incidir sobre o condutor se divide
(considerando a impedância do canal de descarga infinita) e se propaga como
um surto de corrente em ambas as direções da linha, gerando o
desenvolvimento de sobretensões v(t) na linha em ambas as direções.
Considerando em uma primeira aproximação uma linha de transmissão sem

157
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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perdas e sem distorções, as sobretensões resultantes podem ser calculadas


pelo produto do surto de corrente variável no tempo com a impedância de
surto monofásica da linha, ou seja:

Z 0 ⋅ i (t )
V (t ) =
2

Z0 Impedância de surto monofásica da linha (Ω), definida por:

Z0 = L
C

Considerando um condutor infinito acima de um solo de condutividade perfeita:

L=
µ0 ⋅ µ R
2 ⋅π
(
⋅ ln 2 ⋅ h
r
) C=
2 ⋅π ⋅ ε0 ⋅ ε R
(
ln 2 ⋅ h )
r

Substituindo L e C na expressão geral e considerando a linha aérea (µR = 1 e


εR = 1), tem-se a seguinte expressão para a impedância de surto da fase
atingida pela descarga:
Z 0 = 60 ⋅ ln 2 ⋅ h ( r
)
h é a altura do condutor em relação ao solo (m) e r o raio do condutor (m).

Considerando o efeito corona, a impedância de surto do condutor pode ser


definida por:

Z 0 C = 60 ⋅ ln 2 ⋅ h( r
) ⋅ ln(2 ⋅ h Rc)
Z0C Impedância de surto da linha (Ω), considerando o efeito corona;
Rc Raio do condutor sob efeito corona a um gradiente de tensão de
1500 kV / m /8/.

Devido ao acoplamento capacitivo entre os condutores, ocorre uma indução


nos condutores adjacentes, gerando ondas de tensão com amplitudes de
aproximadamente 25 a 30% da amplitude da sobretensão gerada no condutor
atingido pela descarga podendo ocorrer, desta forma, uma descarga disruptiva
entre fases se o espaçamento entre os condutores fases não for suficiente para
suportar a diferença de tensão estabelecida entre as fases.

A ilustração de uma descarga atmosférica incidindo diretamente sobre os


condutores fase de uma linha sem cabos pára-raios é mostrada na Figura 6.5.

Assumindo que não ocorra disrupção entre fases, a amplitude e forma de onda
da tensão incidente se modificam durante a sua propagação ao longo das
redes de distribuição: pelo efeito das reflexões sucessivas nas estruturas
adjacentes; pela redução na inclinação da frente de onda devido ao efeito

158
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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corona; e pelas atenuações devido às perdas na linha. Se a amplitude da


tensão resultante excede, em um dado instante, a tensão de descarga das
cadeias de isoladores, ocorre a descarga disruptiva de impulso (“flashover” )
através da(s) cadeia(s). Se o gradiente de campo elétrico for suficiente para
manter o arco, a descarga disruptiva de impulso será seguida pelo arco de
potência de freqüência industrial, com a passagem da corrente de curto-circuito
do sistema. Esta corrente pode provocar um desligamento transitório (caso não
ocorra falhas elétricas ou mecânicas na isolação ou nos componentes da linha)
ou permanente (em caso de falha da isolação ou dos componentes da rede).

Figura 6.5 - Descarga atmosférica sobre uma rede sem cabos pára-raios

A partir da equação para a tensão resultante, pode-se definir uma corrente


crítica, que resulta em 50% de probabilidade de falha da isolação. Esta
corrente pode ser estimada a partir da equação abaixo:

2 ⋅ U 50 (t )
I cr (t ) =
Z 0C

U50(t) Tensão crítica de descarga da cadeira de isoladores no tempo t (kV);

De uma maneira mais realista, conhecendo-se a característica disruptiva da


isolação, é possível definir a corrente que provoca a descarga disruptiva:

2 ⋅ U dis (t )
I dis (t ) =
Z 0C

Udis(t) Tensão disruptiva assegurada da isolação para impulso no tempo t (kV).

Conhecendo-se as características disruptivas da isolação, é possível estimar a


amplitude de corrente que provoca a descarga disruptiva de impulso da
isolação. A partir deste valor de corrente, pode-se estimar a probabilidade da
incidência de correntes com amplitudes superiores a corrente obtida, conforme
apresentado na Figura 6.4.

159
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
Franco Engenharia Ltda.

Uma análise simplificada indica que praticamente todas as descargas


atmosféricas incidindo diretamente sobre os condutores fase das linhas de
transmissão provocam uma descarga disruptiva da isolação, independente da
resposta transitória do sistema de aterramento.

Desta forma, o número de desligamentos de uma linha de transmissão devido


a incidência de descargas diretas sobre os condutores fase pode ser estimado
por:

 desl =  d ⋅ Pdisrup ⋅ Parco

Ndesl Número estimado de desligamentos da linha de transmissão


(desligamentos por 100 km por ano);
Nd Número estimado de descargas que incidem diretamente sobre os
condutores fase (descargas por 100 km por ano);
Pdisrup Probabilidade da ocorrência de descarga disruptiva da isolação;
Parco Probabilidade da descarga disruptiva ser seguida pelo arco de
potência.

Alguns estudos apresentam informações sobre a probabilidade da disrupção


ser seguida pelo arco de potência /12-13/. De acordo com estudos realizados,
a probabilidade de uma disrupção ser seguida pelo arco de potência depende
das características da isolação da estrutura: 85% para cadeias de isoladores
utilizadas em linhas de transmissão (isolação do ar), independente do gradiente
de campo elétrico estabelecido após a disrupção /13/; no caso da utilização de
isolação adicional através da utilização de cruzetas e estruturas de madeira, a
referência /12/ indica uma forte influência do gradiente de campo elétrico
estabelecido na isolação após a ocorrência da disrupção, sobre a probabilidade
da disrupção ser seguida pelo arco de potência. Neste caso, o gradiente de
campo elétrico estabelecido na isolação após a ocorrência da descarga
disruptiva, pode ser estabelecido pela seguinte equação:

V ft
E=
Lisolação

E Gradiente de campo elétrico após a disrupção (kV / m);


Vft Valor eficaz da tensão fase-terra de freqüência industrial (kV);
Lisolação Comprimento da isolação adicional (m).

Com base nessas informações pode ser constatado que a probabilidade de


uma descarga atmosférica, incidindo sobre os condutores fase de uma linha de
transmissão provocar o desligamento da linha, está associada à probabilidade
da descarga disruptiva ser seguida por um arco de potência, fator que depende
do tipo de isolação considerada e, no caso da utilização de uma isolação
adicional (madeira ou polímero), das características do material e da distância
da isolação até o ponto de aterramento.

Uma síntese das informações apresentadas nas referências /12-13/ para


cruzetas de madeira e isolação no ar é ilustrada na Figura 6.6.

160
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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100,00

Probabilidade da ocorrência do
arco de 60 Hz após a descarga
90,00
80,00
70,00
60,00
50,00
40,00
30,00
20,00
10,00
0,00
0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100
Gradiente de campo elétrico (kVef/m)

Cruzeta de madeira Isolação em ar

Figura 6.6 - Curvas de probabilidade das descargas disruptivas


serem seguidas pelo arco de potência, em função do
gradiente de campo elétrico /11-12/

6.2.2.2 Descargas incidindo diretamente sobre linhas de transmissão


providas de cabos pára-raios

A grande maioria das descargas atmosféricas que incidem em linhas de


transmissão protegidas por cabos pára-raios adequadamente posicionados irá
incidir sobre esses ou sobre a estrutura. De uma maneira geral, o sistema é
considerado adequadamente protegido pelos cabos pára-raios quando o
ângulo de blindagem entre o(s) cabo(s) pára-raios e os condutores fase é
inferior a 30o, conforme ilustrado na Figura 6.7. Metodologias bastante
detalhadas para uma blindagem efetiva das redes / linhas aéreas através da
utilização de cabos pára-raios, podem ser encontradas nas referências /14-16/.

Figura 6.7 – Ilustração da determinação simplificada do ângulo de


blindagem entre os condutores fase e o cabo pára-raios

161
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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As descargas atmosféricas, ao incidirem nos topos das estruturas ou sobre os


cabos pára-raios geram ondas incidentes de corrente que se propagam pelos
cabos pára-raios e através das estruturas. Quando a descarga atinge uma
estrutura, grande parte da corrente se propaga através da estrutura atingida,
sendo esta corrente dependente das características da forma de onda da
corrente de descarga incidente e do comportamento do sistema de aterramento
da estrutura atingida pela descarga. Estas ondas de corrente se refletem,
inicialmente, no topo da torre e no sistema de aterramento e geram
sobretensões resultantes nas estruturas e ao longo dos cabos pára-raios,
elevando a tensão das estruturas acima do potencial de terra. A Figura 6.8
ilustra o comportamento das ondas viajantes quando da incidência de uma
descarga atmosférica sobre uma estrutura de uma linha de transmissão.

Vários aspectos têm influência significativa na resposta transitória das linhas de


transmissão com cabos pára-raios quando submetidas às descargas
atmosféricas diretas: a amplitude e a forma de onda da corrente de descarga; o
ponto de incidência das descargas; a impedância transitória equivalente dos
cabos pára-raios; o acoplamento eletromagnético entre os condutores fase e os
cabos pára-raios; a resposta transitória da estrutura; o efeito das estruturas
adjacentes; e, principalmente, a resposta transitória do sistema de aterramento.

Figura 6.8 – Representação de uma descarga atmosférica


incidindo sobre uma estrutura de uma linha de transmissão

A tensão resultante no topo de uma estrutura atingida por uma descarga


atmosférica no instante de tempo t em µs pode ser estimada, com base no
modelo simplificado apresentado na referência /16/:

[ ]
N
VT (t ) = Z I ⋅ I(t) − Z W ⋅ ∑ I( t − 2 ⋅ n ⋅ τ T ) ⋅ ψ n −1
n =1

ZI =
ZS ⋅ Z T
ZW =
(2 ⋅ Z S
2
)
⋅ Z T ⋅ (Z T − R ) ψ=
(2 ⋅ Z T − Z S ) ⋅ (Z T − R )
ZS + 2 ⋅ Z T (Z S + 2 ⋅ Z T ) ⋅ (Z T + R )
2 (2 ⋅ Z T + Z S ) ⋅ (Z T + R )

162
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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VT(t) Tensão resultante na estrutura atingida pela descarga no instante t (kV);


t Instante de tempo considerado (µs);
I(t) Corrente de descarga (kA) no instante de tempo t considerado (µs);
τT Tempo de propagação da onda desde o topo da torre atingida pela
descarga até a sua base, correspondente a relação entre altura da torre
e a velocidade de propagação da luz no vácuo (µs);
ZI Impedância equivalente do circuito vista pela corrente de descarga, no
instante da sua incidência (Ω);
Zw Impedância de onda constante, na qual todas as componentes das
ondas viajantes de corrente atuam para estabelecer as componentes de
tensão no topo da estrutura (Ω);
ψ Constante de amortecimento, que reduz as contribuições das reflexões
sucessivas para a tensão resultante no topo da estrutura;
N O maior valor que o número de ondas n pode atingir, correspondente ao
maior número inteiro ≤ t / 2.τT.

O parâmetro Zs corresponde a impedância equivalente para surtos dos cabos


pára-raios que saem da estrutura atingida para as estruturas adjacentes; ZT
corresponde a impedância de surto das estruturas e R o comportamento do
sistema de aterramento da estrutura atingida pela descarga.

Considerando a forma de onda da corrente de descarga tipo rampa I = A . t, a


tensão resultante sobre a estrutura atingida pela descarga atmosférica pode
ser obtida no instante de tempo t em µs, pela seguinte equação /16/:

 (
Z ⋅ 1− ψN
VT (t ) = A ⋅ t ⋅  Z I − W
)  + 2 ⋅ A ⋅ τ (
 1− ψN
⋅ Z W ⋅ 
) −
N ⋅ ψN 

 (1 − ψ ) 
 (1 − ψ )
T
 1− ψ 
2

A Taxa de crescimento da onda de corrente de descarga (kA/µs);

Ao se analisar com um maior grau de profundidade o comportamento


transitório de uma linha de transmissão atingida por uma descarga atmosférica,
é importante considerar o efeito das torres adjacentes. A influência das torres
adjacentes nas tensões resultantes ao longo da linha é maior para menores
distâncias entre vãos. Este fato pode ser explicado pelo tempo de propagação
das ondas de tensão e de corrente ao longo da linha, sendo fortemente
influenciado pelo tempo de frente da onda de corrente. Considerando, por
exemplo, uma distância entre vãos de 600 m para uma onda de corrente com
tempo de frente de 2,0 µs, uma onda viajante de tensão se propagando ao
longo da linha a uma velocidade de 300 m/µs necessita de um tempo de 4,0 µs
para se propagar da torre atingida pela descarga à torre adjacente e retornar.
Como o tempo de frente da onda de corrente é 2,0 µs, o efeito da reflexão
devido à torre adjacente na torre atingida pela descarga ocorre após a onda de
tensão atingir a sua amplitude máxima, não afetando a amplitude máxima da
tensão. Por outro lado, para um vão de 250 m, a mesma onda de tensão se
propaga da torre atingida às torres adjacentes e retorna em 1,67 µs, antes de a
corrente atingir o seu valor máximo.

163
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Alguns modelos simplificados para análise do comportamento transitório de


linhas de transmissão e outros modelos, bastante complexos, não consideram
o efeito das estruturas adjacentes, pelo fato do tempo necessário para a onda
de corrente atingir o seu valor máximo ser menor do que duas vezes o tempo
de propagação das ondas viajantes de tensão e de corrente entre a estrutura
atingida pela descarga e as torres adjacentes. Esta simplificação pode ser
razoável para estudos de linhas de transmissão, onde o espaçamento entre as
estruturas de linhas de transmissão é geralmente maior do que 300 metros
(considerando uma onda de corrente com tempo de frente de até 2 µs). No
entanto, para linhas com menores vãos médios, a não consideração do efeito
das torres adjacentes acarreta em erros significativos no resultado final. Deste
modo, o efeito das torres adjacentes deve ser considerado quando tempo de
frente da descarga for menor do que duas vezes o tempo de propagação das
ondas de tensão e corrente entre a torre atingida e as torres adjacentes.

Outro ponto que deve ser destacado, é que a maioria dos estudos de
desempenho de linhas realizados considera a linha com um vão médio
constante ao longo de toda a sua extensão. Em muitas situações esta
consideração simplificada pode acarretar em erros significativos na resposta
final das tensões resultantes ao longo da linha.

No instante em que uma descarga incide sobre a estrutura ou sobre os cabos


pára-raios, tensões são induzidas nos condutores fase, resultantes do
acoplamento capacitivo entre esses condutores e o(s) cabo(s) pára-raios. Em
uma análise simplificada, as tensões induzidas nos condutores fase
apresentam uma relação linear com a sobretensão desenvolvida no topo da
estrutura e podem ser obtidas pela equação indicada a seguir:

Vind (t ) = C i ⋅ VT (t )

Vind (t) Tensão induzida sobre os condutores fase;


Ci Fator de acoplamento entre condutores fase e cabos pára-raios.

O fator de acoplamento é função dos espaçamentos relativos dos condutores


fase para a terra e dos condutores fase para o cabo pára-raios, e varia para as
diferentes fases. Para uma linha de transmissão com um cabo pára-raios:
log(b a )
Ci =
log(2 ⋅ h r )

b Distância do condutor fase para a imagem do cabo pára-raios;


a Distância do condutor fase considerado para o cabo pára-raios;
h, r Altura do cabo pára-raios;
r Raio do condutor utilizado no cabo pára-raios.

Para o caso de dois cabos pára-raios, deve-se levar em consideração o efeito


da influência mútua entre os cabos pára-raios. A referência /14/ apresenta o
procedimento para a determinação do fator de acoplamento quando da
existência de dois cabos pára-raios.

164
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Desprezando o efeito dos braços das estruturas, as tensões resultantes sobre


as cadeias de isoladores (ou sobre a isolação, em caso da utilização de
cruzetas de madeira ou poliméricas), consistem na diferença de potencial que
se estabelece entre a estrutura e as respectivas tensões induzidas nos
condutores fase, podendo ser estimada, de forma simplificada, por:

VCI (t ) = VT (t ) − C i ⋅ VT (t ) ± V60 Hz VCI (t ) = VT (t ) ⋅ (1 − C i ) ± V60 Hz

V60Hz Valor instantâneo da tensão de freqüência industrial.

De modo mais conservativo, considera-se que a descarga atmosférica atinge a


estrutura ou os cabos pára-raios no instante em que a tensão de freqüência
industrial atinge o seu valor máximo na polaridade inversa a polaridade da
descarga. Para esta condição, o valor de crista da tensão de freqüência
industrial é adicionado à tensão transitória que se estabelece na isolação.

A equação acima mostra em uma análise mais simplificada, que a amplitude


das sobretensões sobre as cadeias de isoladores (ou sobre a isolação, em
caso da utilização de cruzetas de madeira ou poliméricas), devido a uma
corrente de descarga, apresenta uma relação quase que linear com a
sobretensão desenvolvida no topo da estrutura. Para estudos mais precisos e
detalhados, as influências do efeito do acoplamento entre estruturas, cabos
pára-raios e condutores fase, bem como o efeito dos braços das estruturas
devem ser consideradas e melhor avaliadas.

A referência /14/ apresenta a seguinte expressão para a determinação das


tensões resultantes sobre as cadeias de isoladores, considerando o efeito dos
braços das torres. A equação abaixo é baseada no modelo simplificado, que
não considera o efeito das torres adjacentes.

Vsn (t + τ pn ) = Vpn (t + τ pn ) − C n ⋅ VT (t + τ pn )

τ T − τ pn
Vsn (t + τ pn ) = VR (t + τ T ) + ⋅ [VT (t ) − VR (t + τ T )] − C n ⋅ VT (t )
τT

Vsn (t + τpn) Tensão resultante nas cadeias de isoladores no instante t + τpn;


Vpn (t + τpn) Tensão resultante no braço da estrutura considerado;
VT (t + τpn) Tensão resultante no topo da estrutura no instante t + τpn;
Cn Fator de acoplamento entre condutores fase e cabos pára-raios.
τpn Tempo de propagação da onda do topo da estrutura até o braço
da estrutura considerado (µs);
τT Tempo de propagação da onda desde o topo da torre atingida
pela descarga até a sua base, correspondente a relação entre
altura da torre e a velocidade de propagação da luz no vácuo (µs);
VT(t) Tensão resultante na estrutura atingida no instante t (kV);
t Instante de tempo considerado (µs);
VR (t + τT) Tensão resultante no sistema de aterramento no instante t + τT;

165
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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 1 − ψ N +1 
VR (t + τ T ) = α R ⋅ A ⋅ Z I ⋅   ⋅ t − 2 ⋅ ψ ⋅ 
(
 1− ψN ) −
N ⋅ ψN  
 ⋅ τT 
 1 − ψ   (1 − ψ )
2
(1 − ψ )  
h − Yn
Vpn (t + τ pn ) = VR (t + τ T ) + ⋅ [VT (t ) − VR (t + τ T )]
h

2⋅R
αR =
ZT + R

h Altura da estrutura (m);


Yn Distância do topo da estrutura ao ponto do braço da estrutura
considerado (m);

Este modelo tem sido considerado em vários programas computacionais


utilizados para avaliar o desempenho de linhas de transmissão.

As informações acima se referem à incidência de descargas sobre o topo das


estruturas. Em caso de incidência sobre os cabos pára-raios, a corrente de
descarga se divide e se propaga ao longo desses, gerando tensões incidentes
em ambas as direções da linha de transmissão definidas por:

Z s ⋅ i (t )
Vs (t ) =
2

Vs(t) Tensão que se propaga pelos cabos pára-raios (kV);


Zs Impedância de surto do cabo pára-raios (Ω).

A amplitude dessas tensões será tanto maior quanto maior for a distância do
ponto de incidência das descargas em relação as torres, sendo, portanto o
meio do vão, o ponto de incidência da descarga que produz a maior tensão
incidente. A Figura 6.9 ilustra o comportamento das ondas viajantes quando da
incidência de uma descarga atmosférica sobre o cabo pára-raios /17/.

A tensão (1 - Ci).Vs a qual o isolamento entre os cabos pára-raios e os


condutores fase ficará submetido é significativamente maior do que a tensão a
qual a cadeia de isoladores ficaria submetida se uma descarga de mesma
intensidade atingisse a torre. Desta forma, é importante que os cabos
condutores e os cabos pára-raios estejam suficientemente afastados para
impedir a ocorrência de desligamentos devido à ruptura do isolamento entre os
condutores fase e os cabos pára-raios ao longo dos vãos.

Assumindo que não ocorreu a falha da isolação no meio do vão, a tensão Vs se


propaga pelos cabos pára-raios em direção às estruturas mais próximas,
alcançando a estrutura em um tempo τ1, correspondente ao tempo para a onda
de tensão se propagar do ponto de incidência da descarga à estrutura

166
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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considerada. Desprezando os efeitos de atenuação e distorção, que modificam


respectivamente a amplitude e a taxa de crescimento da onda de tensão
incidente, a tensão no topo da estrutura atingida, a partir do instante τ1 até a
ocorrência da próxima reflexão (tempo τ + τ1) devido as estruturas adjacentes,
pode ser estimada por:

 2 ⋅ Zs ⋅ R  A ⋅ (t − τ 1 ) 
VT (t ) =   ⋅ Z s ⋅  
2 
 2 ⋅ Zs ⋅ R + Zs   2 

VT(t) Tensão no topo da estrutura no instante t (kV) no intervalo τ1 ≤ t < τ+τ1;


A Taxa de crescimento da corrente de descarga (kA/µs);
Zs Impedância de surto do cabo pára-raios (Ω);
R Impedância do sistema de aterramento da estrutura no instante τ1 (Ω)
(dependendo do tipo de aterramento considerado e da corrente
impulsiva que se propaga pelo aterramento, pode ocorrer o efeito de
ionização do solo);

Figura 6.9 – Representação de uma descarga atmosférica


incidindo sobre o cabo pára-raios

Após atingirem a estrutura, as ondas de tensão e de corrente se propagam em


direção às estruturas adjacentes, onde são refletidas e retornam à estrutura
sob análise em tempos (τ+τ1) – efeito da outra estrutura conectada ao cabo
pára-raios atingido pela descarga; (2τ+τ1) – onde 2.τ corresponde ao tempo de
propagação entre a estrutura considerada e as estruturas adjacentes e retorno
à estrutura considerada; e assim por diante. Neste instante, novas reflexões
ocorrem devido à diferença entre as impedâncias de surto do cabo pára-raios e
a impedância equivalente vista pelo cabo pára-raios no ponto da estrutura, que
corresponde ao paralelo entre a impedância do cabo pára-raios a frente da
estrutura e a impedância de aterramento da estrutura. Essas reflexões

167
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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modificam a forma de onda da tensão resultante na estrutura. Este fenômeno


se repete durante a ocorrência do transitório.
Desprezando o efeito dos braços das estruturas, as tensões resultantes sobre
a isolação da linha consistem na diferença de potencial que se estabelece, ao
longo do tempo, entre a estrutura e as respectivas tensões induzidas nos
condutores fase:

VCI (t ) = VT (t ) − C i ⋅ VT (t ) ± V60 Hz

Sob o ponto de vista prático, as tensões resultantes sobre a isolação são


geralmente maiores quando da incidência das descargas diretamente sobre as
estruturas. Em razão disso, os estudos de desempenho de linhas de
transmissão com cabos pára-raios, são realizados considerando-se geralmente
a incidência das descargas sobre as estruturas.

Em muito dos casos, as sobretensões resultantes que aparecem sobre a


isolação quando da incidência de descargas atmosféricas sobre as estruturas
ou sobre os cabos pára-raios podem ser elevadas o suficiente para provocar a
disrupção da isolação, acarretando em uma descarga disruptiva de retorno
(“backflashover”) nas cadeias de isoladores. Neste caso, há a disrupção da
isolação da estrutura para o condutor.

Condutores fase mais afastados do(s) cabo(s) pára-raios apresentam menores


amplitudes de tensões induzidas. Portanto, a isolação dessas fases são
geralmente solicitadas por uma maior amplitude de tensão.

Estudos de desempenho de linhas de transmissão são realizados de modo a


se determinar, para a condição atual da linha de transmissão, a corrente de
disrupção que acarreta no desenvolvimento de sobretensões resultantes
suficientemente elevadas através das cadeias de isoladores, provocando a sua
descarga disruptiva de impulso.

Desta forma, o número de desligamentos de uma linha de transmissão com


cabos pára-raios, devido à incidência de descargas atmosféricas sobre as
estruturas ou nos cabos pára-raios, pode ser estimado de forma idêntica ao
caso de linhas sem cabos pára-raios, ou seja:

 desl =  d ⋅ Pdisrupção ⋅ Parco

Ndesl Número de desligamentos da linha de transmissão devido a


descargas atmosféricas (desligamentos por 100 km por ano);
Nd Número de descargas que incidem sobre as estruturas ou nos
cabos pára-raios (descargas por 100 km por ano);
Pdisrupção Probabilidade da ocorrência de descarga disruptiva da isolação;
Parco Probabilidade da descarga disruptiva de retorno ser seguida pelo
arco de potência.

168
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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De modo análogo ao estudo de linhas de transmissão sem cabos pára-raios, se


após a disrupção da isolação o gradiente de campo elétrico for suficiente para
manter o arco, a descarga disruptiva de retorno será seguida pelo arco de
potência de freqüência industrial e pela corrente de curto-circuito do sistema,
provocando um desligamento não programado da linha de transmissão.
Geralmente, este fenômeno está associado a desligamentos transitórios, sendo
pouco provável a ocorrência de danos permanentes nas estruturas ou falhas na
isolação e/ou nos componentes da linha que possam acarretar em um
desligamento permanente.

Conforme mencionado anteriormente, vários aspectos têm influência na


resposta transitória das linhas de transmissão com cabos pára-raios atingidas
pelas descargas: o ponto de incidência das descargas, as características das
correntes de descarga, a impedância equivalente dos cabos pára-raios para
surtos, o acoplamento eletromagnético entre os condutores fase e os cabos
pára-raios, a resposta transitória da torre, o efeito das torres adjacentes, a
modelagem utilizada para a disrupção da isolação e, principalmente, a resposta
transitória do sistema de aterramento.

Dos vários aspectos que influenciam no comportamento transitório das linhas


de transmissão com cabos pára-raios devido ao efeito das descargas
atmosféricas, a resposta transitória do sistema de aterramento para as ondas
viajantes de tensão e corrente é o parâmetro de maior importância.

De forma a avaliar a influência do sistema de aterramento nas sobretensões


resultantes estabelecidas nos terminais das cadeias de isoladores quando da
incidência de uma descarga, foi realizado um estudo comparativo considerando
um modelo simplificado para diferentes configurações de aterramento,
usualmente utilizadas em estudos de desempenho de linhas de transmissão, e
um modelo complexo, denominado Modelo Eletromagnético Híbrido /1, 11/.

O estudo foi realizado considerando uma linha de transmissão com tensão


nominal de 138 kV com disposição vertical para os condutores, em circuito
duplo. Os diâmetros para os condutores fase e para os cabos pára-raios são de
31,90 mm e 9,52 mm, respectivamente. A altura dos cabos pára-raios em
relação ao solo é de 65,3 m e as alturas consideradas para os condutores ao
solo são de 52,1 m, 56,7m e 61,3 m. As distâncias do centro da torre para os
condutores fase e cabos pára-raios são de 3,5 m para cada lado. A torre tipo
metálica é representada pelo circuito equivalente mostrado na Figura 6.10.

O sistema de aterramento da torre é constituído por quatro eletrodos com


comprimento de 3 metros e diâmetro de 19 mm e um sistema de contrapeso
disposto em uma configuração radial, apresentando quatro pernas com
comprimento de 20 metros cada. O condutor utilizado no contrapeso tem um
diâmetro de 9,52 mm. A resistividade do solo considerada no estudo foi de
1000 Ω.m.

A resposta transitória da linha foi obtida por simulação computacional


utilizando-se um modelo bastante complexo baseado no Modelo
Eletromagnético Híbrido e em modelos simplificados utilizando o programa ATP
Draw. Para ambos modelos foi considerada uma descarga de corrente tipo

169
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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rampa com forma de onda 2,6 / 62 µs e valor de pico de 42 kA, incidindo no


topo da estrutura. Os efeitos da tensão de freqüência industrial e das torres
adjacentes sobre as tensões resultantes não foram considerados neste estudo.
Para evitar as reflexões nas ondas de tensão e de corrente, as extremidades
dos cabos pára-raios foram conectadas a resistências com valores
correspondentes a impedância de surto dos cabos.

Figura 6.10 – Características das torres utilizadas no estudo /18/

As tensões transitórias resultantes no topo da torre atingida pela descarga, nos


terminais da cadeia de isoladores da fase inferior (condutor mais próximo do
solo) e no sistema de aterramento, obtidas com os Modelos Eletromagnético
Híbrido e simplificado, são apresentadas na Figura 6.11 /18/.

1400.00 Tensão no topo da torre - HEM

Tensão na cadeia de isoladores inferior - HEM


1200.00
Tensão no sistem a de aterram ento - HEM

1000.00 Tensão no topo da torre - MS


Tensão (kV)

Tensão na cadeia de isoladores inferior - MS


800.00
Tensão no sistem a de aterram ento - MS

600.00

400.00

200.00

0.00
0.00 1.00 2.00 3.00 4.00 5.00 6.00 7.00 8.00 9.00 10.00
Tempo (microsegundos)

Figura 6.11- Tensões transitórias no topo da estrutura, através da cadeia


de isoladores inferior e através do sistema de aterramento:
Modelos HEM e simplificado

Como pode ser visto na Figura 6.11, a tensão no topo da torre obtida com
modelo simplificado apresentou uma boa concordância com o valor obtido pelo
Modelo HEM. No entanto, a tensão na fase inferior apresentou uma

170
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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característica superior àquela obtida com o modelo HEM. O valor de pico


obtido com o modelo simplificado foi aproximadamente 13% maior do que o
valor obtido com o Modelo HEM. Esta diferença significativa está associada a
resposta transitória dos modelos utilizados para o sistema de aterramento.

A característica da tensão resultante através do sistema de aterramento obtida


com o modelo simplificado apresentou valores de tensão maiores do que os
valores obtidos com o modelo HEM para tempos mais rápidos. Para tempos
mais longos, onde a resposta do sistema de aterramento é governada
praticamente pela resistência de baixa freqüência, as tensões resultantes no
sistema de aterramento apresentaram uma boa concordância para ambos os
modelos. A resposta transitória da impedância de aterramento equivalente para
os modelos HEM e simplificado é apresentada na Figura 6.12.

25.00
Impedância de Aterramento (ohms)

20.00

15.00

10.00

Modelo Eletromagnético Híbrido


5.00
Modelo simplificado

0.00
0.00 1.00 2.00 3.00 4.00 5.00 6.00 7.00 8.00 9.00 10.00
Tempo (microsegundos)

Figura 6.12- Resposta transitória da impedância de aterramento:


Modelos HEM e simplificado

Ao se analisar essa figura é possível observar uma boa concordância entre os


resultados obtidos com os diferentes modelos para tempos mais longos, onde o
efeito transitório do sistema de aterramento é menor. No entanto, para tempos
mais rápidos, a resposta do sistema de aterramento não apresentou uma
concordância satisfatória para os dois modelos.

É importante destacar que alguns dos programas / modelos utilizados para


avaliar o desempenho das linhas de transmissão devido às descargas
atmosféricas consideram o modelo para o sistema de aterramento semelhante
ao modelo simplificado considerado neste estudo.

Simulações adicionais foram realizadas, considerando diferentes configurações


bastante simplificadas para o sistema de aterramento. Esses modelos têm sido
aplicados a programas atualmente utilizados para avaliar o desempenho de
linhas de transmissão. Cinco diferentes modelos foram considerados: (1)
Modelo Eletromagnético Híbrido; (2) Modelo simplificado utilizando o programa

171
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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ATP Draw com o modelo de aterramento baseado no método proposto por


Bewley; (3) Modelo considerando uma resistência de aterramento concentrada
com valor constante de 53,3 Ω; (4) Resistência concentrada com o valor
equivalente a impedância transitória de aterramento obtida com o Modelo HEM
(R = Vmax / Imax = 14 Ω); (5) Resistência concentrada igual a resistência
equivalente de baixa freqüência - R = 20 Ω.

As máximas tensões obtidas na torre e através das cadeias de isoladores são


apresentadas na Tabela 6.3.

A partir das informações apresentadas na Tabela 6.3, é possível observar uma


forte influência do modelo utilizado para o sistema de aterramento nas tensões
transitórias resultantes que se estabelecem ao longo da linha.

Tabela 6.3 - Tensões máximas: Efeito do sistema de aterramento

Modelo Tensões máximas (valores de pico) kV


Tipo VT VA VB VC
1 1200 574 618 626
2 1200 601 671 706
3 1305 659 739 784
4 1114 557 620 652
5 1293 652 732 776

VT – Tensão no topo da torre


VA – Tensão através da cadeia de isoladores superior
VB – Tensão através da cadeia de isoladores intermediária
VC – Tensão através da cadeia de isoladores inferior

Um fato importante a ser destacado é que os modelos tipos 3 e 5 são aplicados


em vários programas computacionais utilizados para a avaliação do
desempenho de linhas de transmissão frente às descargas atmosféricas.
Nesses programas, as tensões no topo da torre e através das cadeias de
isoladores são consideradas para a obtenção das correntes críticas, utilizadas
para definir as probabilidades de desligamento das linhas para um dado
sistema sob estudo.

A resistividade do solo e a impedância do sistema de aterramento são


parâmetros relevantes na obtenção do índice de desligamento de linhas de
transmissão com cabos pára-raios. Quanto maiores forem os valores de
impedância de aterramento considerados para as estruturas, maiores serão as
tensões resultantes no topo das estruturas e nos terminais das cadeias de
isoladores, aumentando a probabilidade de desligamento dos sistemas.

A Figura 6.13 apresenta um estudo realizado para a estimativa do número de


desligamentos de uma linha de transmissão de 220 kV em função da
impedância do sistema de aterramento (Ng = 1 descarga / (km2 . ano)).

172
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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16.00

Desligamentos / (100 km.ano) - Ng = 1


14.00

12.00

10.00

8.00

6.00

4.00

2.00

0.00
0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100
Impedância de aterramento (ohms)

Figura 6.13- Número de desligamentos de uma linha de transmissão em


função da impedância de aterramento (vão médio de 420 m)

Outro fator importante e que influencia no desempenho de linhas de


transmissão e redes de distribuição com cabos pára-raios consiste na
localização dos pontos de aterramento e nos valores de resistência das
estruturas adjacentes. A Figura 6.14 apresenta os resultados de um estudo
referente ao efeito do aterramento sobre a probabilidade de disrupção da
isolação, realizado para uma linha de 34,5 kV. A estrutura considerada no
estudo é a tipo N1 e o vão médio entre estruturas é de 62 metros.

100
90
80
RAT constante
Probabilidade de

70
desligamento

Radj = 70
60
50 Radj = 200
40 Radj = 10
30 Radj = 30
20
10
0
0 50 100 150 200 250
Resistência de aterramento

Figura 6.14 - Efeito do sistema de aterramento na


probabilidade de disrupção da isolação

Verifica-se na figura que para uma resistência constante RAT ao longo de toda
a rede, a probabilidade de ocorrência de uma descarga disruptiva de retorno

173
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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aumenta com o aumento dessa resistência. Por outro lado, no caso da


existência de resistências RAT na estrutura atingida pela descarga (neste caso
considera-se a impedância de aterramento) e Radj nas estruturas adjacentes
verifica-se, para um valor RAT constante, um aumento na probabilidade de
ocorrência de descargas disruptivas de retorno para maiores valores de Radj.
Para valores de resistência superiores a 120 Ω, a probabilidade de disrupção
está em torno de 100%.

As informações obtidas na figura indicam a necessidade de se considerar


pontos de aterramento em todas as estruturas para linhas com cabos pára-
raios e com tensões nominais até 69 kV.

6.2.2.3 Efeito das descargas atmosféricas em caso de falha de


blindagem de linhas protegidas com cabos pára-raios

Neste caso o condutor será atingido diretamente pela descarga atmosférica,


sendo o efeito idêntico ao de uma descarga direta incidindo sobre um sistema
sem cabo pára-raios. A probabilidade de falha da blindagem depende do
ângulo de blindagem entre o cabo pára-raios e os condutores fase e da
intensidade da corrente de descarga atmosférica. Falhas na blindagem são
mais prováveis para maiores ângulos de blindagem e correntes de descarga de
baixa intensidade.

No caso de linhas de transmissão, falhas indesejáveis ocorrem normalmente


no meio de vãos de grande extensão entre torres, como no caso de travessias
de vales, rios e estradas, quando o afastamento do plano do solo em relação
aos condutores deixa esses menos protegidos em relação às descargas
atmosféricas laterais /15/. Neste caso, o condutor poderá ser atingido
diretamente pela descarga atmosférica, sendo o efeito idêntico ao verificado
sobre uma linha não blindada.

Já as falhas nas proximidades das torres, devido a correntes de descarga de


baixa intensidade são previstas no dimensionamento da blindagem, onde os
cabos pára-raios são posicionados de forma tal que essas correntes, ao
atingirem os condutores, não gerem tensões incidentes suficientes para
produzir descarga externa pelas cadeias de isoladores.

6.2.2.4 Tensões induzidas por descargas atmosféricas incidindo nas


proximidades das linhas de transmissão e redes de
distribuição

As descargas atmosféricas, ao incidirem nas proximidades de redes aéreas,


induzem tensões nos condutores, cujas amplitudes dependem principalmente
das características da descarga (amplitude, forma de onda e velocidade de
propagação da corrente de retorno), da altura da rede em relação ao solo e da
distância do ponto de incidência da descarga em relação à rede, além da
configuração da linha (comprimento, geometria, presença de pára-raios,
condutor neutro, cabo pára-raios , valor da resistência e distância entre pontos
de aterramento, etc.).

174
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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As descargas indiretas interagem com o sistema através do acoplamento


eletromagnético entre o canal de descarga e os componentes da rede,
induzindo sobretensões que podem exceder o nível de suportabilidade da
isolação, acarretando em uma descarga disruptiva. Este tipo de efeito, a
despeito de sua menor intensidade em relação às descargas diretas, é de
fundamental importância para sistemas de média e baixa tensão, podendo ser
desprezado para linhas de transmissão com tensões nominais de 69 kV e
acima.

A determinação das tensões induzidas envolve os seguintes estágios /19/:


- Modelagem da corrente de descarga de retorno, ou seja, a definição da
distribuição espacial e temporal da corrente ao longo do canal;

- Determinação do campo eletromagnético resultante, a partir do modelo da


corrente de descarga;

- Obtenção das tensões resultantes da interação eletromagnética entre o


campo eletromagnético e os condutores da rede, através do modelo de
acoplamento.

Devido à importância desse fenômeno, vários estudos têm sido realizados com
o objetivo de desenvolver um modelo teórico apropriado para a análise
computacional das tensões induzidas devido à ocorrência de descargas
indiretas. Entre esses podem ser citados os modelos de Chowdhuri – Gross,
Liew – Mar e Rusck, analisados em /20, 21/, Agrawal, utilizado em /22/, e o
modelo de Rusck Estendido, proposto por Piantini em /21, 23/.

Apesar da complexidade observada nos modelos para o cálculo das tensões


induzidas em situações de interesse prático, é possível estimar a ordem de
grandeza das tensões induzidas em redes de distribuição e linhas de
transmissão a partir de algumas simplificações. Dentro desse contexto, a
referência /10/ apresenta a seguinte equação simplificada, deduzida do modelo
de Rusck, para a estimativa da amplitude máxima das tensões induzidas em
condutores aéreos:
 
 
Z0 ⋅ I0 ⋅ h  1 v 1 
Vmax = ⋅ 1 + ⋅ ⋅
y 2 
 2 v0   
1 − 0,5 ⋅  v 
  v0  

Vmax Amplitude da máxima tensão induzida sobre a rede ou linha (kVcr);


I0 Amplitude da corrente de descarga (kA);
Z0 Impedância do canal de ar condutor do arco (Z0 ≈ 30 Ω);
h Altura média dos condutores da rede em relação ao nível do solo (m);
y Distância perpendicular entre o ponto de incidência da descarga no solo
com a rede (m);
v Velocidade da descarga de retorno (m/s);
v0 Velocidade da luz no vácuo ( ≈ 3.108 m/s).

175
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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A equação acima é válida para o cálculo das tensões induzidas em uma linha
monofásica de comprimento infinito, estendida sobre um solo de condutividade
perfeita, devido à ação de uma descarga atmosférica vertical à superfície da
terra, com canal de comprimento infinito. Ela é em geral conservativa e não se
aplica ao caso de redes aéreas providas de cabos pára-raios, de pára-raios, de
transformadores, etc., devendo ser utilizada apenas para fins estimativos.

De modo idêntico ao caso das descargas diretas, se a amplitude de uma


sobretensão induzida exceder, em um dado instante, o nível de suportabilidade
da isolação, ocorre uma descarga disruptiva através da isolação. A
probabilidade de essa sobretensão provocar o desligamento da rede está
associada à probabilidade da sobretensão provocar a descarga disruptiva na
isolação e a probabilidade dessa disrupção ser seguida pelo arco de potência.

A experiência de campo tem mostrado que as sobretensões induzidas são


mais críticas para redes ou linhas de distribuição aéreas com tensões nominais
de até 44 kV, sendo geralmente uma das causas principais de desligamentos
não-programados verificados nestes sistemas. Para redes com tensões
nominais superiores a esse valor, a probabilidade de desligamentos por
descargas indiretas é geralmente baixa, sendo esse efeito desconsiderado
para sistemas com máxima tensão operativa igual ou superior a 72,5 kV
(tensão nominal de 69 kV).

6.3 Referências bibliográficas:

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Avaliação de Desempenho Frente a Descargas Atmosféricas”, Tese de
Doutorado, UFMG - Programa de Pós-Graduação em Engenharia
Elétrica - PPGEE , 2001.
/2/ Schroeder, M.A.O., “Modelo Eletromagnético para Descontaminação de
Ondas de Corrente de Descargas Atmosféricas: Aplicação às Medições
da Estação do Morro do Cachimbo”, Tese de Doutorado, UFMG -
Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica - PPGEE , 2001.
/3/ Schroeder, M.A.O. Et alii, “Evaluation of Directely Measured Lightning
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SIPDA, São Paulo – Brazil, 17 – 21 May, 1999.
/4/ De Mesquita, C.R. Et alii, “Monitoramento de Descargas Atmosféricas:
Análise dos sistemas Existentes e Aferição do SLT de Minas Gerais”,
XVI SNPTEE – Seminário Nacional de Produção e Transmissão de
Energia Elétrica, Campinas, 21 a 26 Outubro de 2001.
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Power Lines in Mexico”, CIGRE International Workshop on Line Surge
Arresters and Lightning, Rio de Janeiro, Brazil – April 24-26 1996.
/6/ Pinto Jr. O., “Lightning activity in Brazil in 2005 and 2006 based on the
world wide lightning location networks (WWLLN)”, IX SIPDA -
International Symposium on Lightning Protection, Foz do Iguaçu, Brazil,
Nov. 2007.

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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/7/ CIGRÉ Working Group 33.01, “Guide to Procedures for Estimating the
Lightning Performance of Transmission Lines”, Cigre Publication no 63,
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/8/ IEEE Std 1243, “IEEE Guide for Improving the Lightning Performance of
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/9/ De Franco, J. L. & Piantini, A., "Estudo de Avaliação do Desempenho de
Redes de Distribuição frente a Descargas Atmosféricas", Relatório
Técnico PFE-001/03, Franco Engenharia Ltda, Março 2003.
/10/ IEEE Std 1410, “IEEE Guide for Improving the Lightning Performance of
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Society, June 1997.
/11/ Soares Jr. A., Schroeder M.A.O., Visacro S.F., "Calculation of Transient
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Electromagnetic Modeling for Tower, Ground and Aerial Cables”
Proceedings of IEEE/PES T&D 2002 Latin America, March 2002.
/12/ Darveniza, M. et alii, “Line Design and electrical Properties of Wood”,
IEEE Transactions on Power Apparatus and Systems, Vol PAS 86, No
11, November 1967.
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Lightning Performance”, CIGRÉ Paper 33-04.
/14/ “Transmission Line Reference Book – 345 kV and above”, Second
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/15/ Dájuz, Ari. Et alii, “Transitórios Elétricos e Coordenação de Isolamento –
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Elétricas, Univ. Federal Fluminense/EDUFF, pp. 245-271, 1987
/16/ Harper, G. E., “Técnicas Computacionales en Ingenieria de Alta tensión”,
Editora Limusa, 1987.
/17/ Melo, M. O. B. C. et alli, “Simulação e modelagem de descargas
atmosféricas em linhas de transmissão compactas de Alta Tensão”, III
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/18/ De Franco J. L., Soares Jr. A., Visacro S.F., “Studies for the
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/19/ Nucci, C. A. & Rachidi, F., ”Lightning-Induced Overvoltages”, IEEE
Transmission and Distribution Conference, Panel Session “Distribution
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/20/ Piantini, A. & Janiszewski, J. M., ”Analysis of Three Different Theories for
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Argentina'96: Proceedings. Buenos Aires:CIER / ADEERA, Dez. 1996.
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distribuição por descargas atmosféricas indiretas”, 205 p., Dissertação
de Mestrado, Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, 1991.
/22/ Nucci, C. A.; Borghetti, A.; Piantini, A.; Janiszewski, J. M. "Lightning-
induced voltages on distribution overhead lines: comparison between
experimental results from a reduced-scale model and most recent
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(24th ICLP), 1998, Birmingham. ICLP: Proceedings. Stafford:
Staffordshire University, 1998. v. 1, pp. 314-320.

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7. Métodos empregados para a melhoria do desempenho


das linhas de transmissão
As descargas atmosféricas contribuem significativamente no número de
desligamentos não programados ocorridos em linhas de transmissão com tensões
nominais até 230 kV. De uma maneira geral, os índices de desligamentos de
linhas de transmissão devido às descargas atmosféricas correspondem a uma
faixa de 50 a 70% do total de desligamentos não programados, dependendo das
características do solo e das atividades elétricas das regiões consideradas.

Apesar da maioria desses desligamentos serem de natureza transitória (não


acarretando prejuízos para as empresas transmissoras de energia e redução dos
índices de qualidade e de continuidade das linhas), as perturbações no sistema,
oriundas desses desligamentos, têm se apresentado como críticas.

Este fato é mais acentuado para linhas de transmissão que alimentam


consumidores industriais que possuem sofisticados equipamentos eletrônicos com
processos industriais sensíveis às perturbações momentâneas, nos quais uma
pequena interrupção no fornecimento de tensão em um curto intervalo de tempo
pode provocar a “interrupção” nos processos produtivos, cujo tempo médio de
restabelecimento, dependendo do tipo de processo, pode ser de 1 até 6 horas.

Perdas de grandes blocos de cargas também têm sido verificadas nas empresas
concessionárias de energia elétrica, provenientes de variações de tensão
decorrentes dos desligamentos transitórios causados pelas descargas. Em adição,
interrupções transitórias de linhas consideradas vitais podem ocasionar distúrbios
em toda rede de uma região

O sistema elétrico brasileiro apresenta como particularidade uma grande extensão


de linhas aéreas de sub-transmissão e transmissão - mais de 180 mil quilômetros
de extensão, sendo mais de 65% deste total em linhas aéreas com tensão nominal
até 230 kV. O mercado consumidor se concentra principalmente nas regiões Sul e
Sudeste do país, que correspondem atualmente as regiões mais industrializadas.

De acordo com informações do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (INPE) o


Brasil é o país com a maior incidência de descargas atmosféricas no mundo, com
aproximadamente 50 - 70 milhões de descargas atingindo algum lugar no país.
Esta elevada quantidade de descargas tem provocado distúrbios nos sistemas e
os danos causados aos sistemas de energia elétrica são altos. Recentes estudos
feitos pelo Grupo de Eletricidade Atmosférico (ELAT) do INPE tem mostrado que
perdas e danos que ocorrem no sistema elétrico nacional como resultado das
descargas atmosféricas excedem um valor anual de 350 milhões de dólares.

No caso de linhas de transmissão, um trabalho publicado pelo antigo SubComitê


de manutenção do GCOI /1/ mostrou que as descargas atmosféricas são
responsáveis por aproximadamente 20% dos desligamentos permanentes que

179
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ocorrem em linhas de transmissão com tensões nominais até 138 kV, podendo
chegar a um tempo médio de reparo de até 8 horas.

O EPRI (Electric Power Research Institute) apresenta em seu site informações


estimativas de prejuízos anuais decorrentes de danos causados pelas descargas
atmosféricas nos sistemas elétricos e de interrupções nos processos produtivos
dos consumidores superiores a U$ 1,000,000,000.

Empresas concessionárias de energia e grandes consumidores industriais vêm


desenvolvendo, muitas vezes em parcerias com universidades e instituições de
pesquisas, estudos e programas de pesquisa com o objetivo básico de reduzir os
desligamentos não programados de suas linhas de transmissão devido às
descargas atmosféricas.

A partir desses estudos, empresas concessionárias de energia e consumidores


industriais vêm promovendo melhorias ao longo das linhas de transmissão ou em
suas seções mais críticas. Estas melhorias têm reduzido significativamente os
índices de desligamentos das linhas e aumentado a confiabilidade do sistema em
relação às cargas dos grandes consumidores industriais.

Existem diferentes métodos para se reduzir os desligamentos não programados


das linhas de transmissão devido a ação das descargas atmosféricas, os quais
podem ser utilizados individualmente ou em conjunto:

(1) aumentar a distância de isolamento das cadeias de isoladores;


(2) instalação de cabos pára-raios em linhas não providas dessa proteção;
(3) melhoria da eficiência de blindagem dos cabos pára-raios;
(4) melhoria do desempenho do sistema de transitório de aterramento,
através da melhoria da resistência de aterramento, da instalação de cabos
contrapesos ou através da melhoria das características dos cabos
contrapesos;
(5) a instalação de pára-raios de linha.

A efetividade de cada método depende diretamente das características da linha:


topografia e resistividade do solo da região atravessada pela linha; importância da
linha e os efeitos de um desligamento sobre as cargas alimentadas pela linha;
índice de desligamento desejado, etc.

7.1 Aumento da isolação das linhas de transmissão

Aumentar o isolamento de uma linha de transmissão significa aumentar a distância


de arco a seco das cadeias de isoladores. No caso de redes de distribuição e
linhas com tensões nominais de até 44 kV, além do aumento da distância de arco
a seco dos isoladores é possível aumentar o seu isolamento fazendo uso da
isolação de parte da estrutura. Para uma mesma configuração de rede e mesmo

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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tipo de isolador, as características disruptivas das estruturas variam em função


das características isolantes dos componentes da estrutura e da distância dos
isoladores em relação aos elementos aterrados.

A isolação das estruturas das redes e linhas de distribuição pode ser interpretada
pela combinação das isolações proporcionadas pelo isolador propriamente dito;
pelo tipo e comprimento da cruzeta utilizada; pelo tipo e posicionamento da mão
francesa; pelo tipo de estrutura utilizada (madeira ou concreto) e pelo desenho da
estrutura completa, pois a probabilidade da disrupção ser seguida pela passagem
de uma corrente de freqüência fundamental (corrente de curto-circuito) está
relacionada com o gradiente da tensão eficaz (kV/m) em que a estrutura está
operando.

Empresas distribuidoras de energia vêm utilizando com mais freqüência para as


redes de distribuição brasileiras estruturas (ou postes) de concreto. Quanto ao tipo
de cruzeta, verifica-se a utilização tanto de cruzetas de concreto quanto de
madeira, com uma predominância futura para as cruzetas de concreto, devido a
questões ambientais. Cruzetas isolantes constituídas por outros materiais vêm
sendo desenvolvidas e aplicadas em redes piloto, para fins de avaliação de
campo. Com relação à mão francesa, verifica-se uma grande predominância pela
utilização em material de ferro. Da mesma forma que para as cruzetas, mãos
francesas isolantes, constituídas por materiais poliméricos em geral (polietileno,
fibra de vidro, etc.), estão sendo avaliadas em redes piloto.

Diversas literaturas têm apresentado informações sobre as propriedades dos


materiais isolantes no aumento das características disruptivas das redes de
distribuição, sendo que a maioria das referências apresenta informações sobre as
propriedades das madeiras.

Uma análise geral mostra que a resistência da madeira às sobretensões de


origem atmosférica depende basicamente do comprimento da madeira e da
umidade presente, sendo sensivelmente influenciada pelo tratamento e tipo de
madeira empregada.

Considerando a estrutura da madeira, é comum uma variação considerável entre


as suas propriedades elétricas; variações na faixa de 10% a 20% são comuns
mesmo sob condições especiais e controle da umidade presente.

De acordo com informações apresentadas em /2/, o nível de isolamento da


madeira não é significativamente afetado pelo número de solicitações, uma vez
que dificilmente o caminho da descarga, quer seja interno ou externo, se repete.
No entanto, em caso de penetração de umidade, esforços repetitivos podem
ocasionar uma redução da suportabilidade da madeira para impulsos, devido à
possibilidade de ocorrência de fendas, rachaduras, ou outras danificações
mecânicas no material. Estudos realizados mostraram que a madeira seca pode
adicionar de 30 kV/m a 430 kV/m à suportabilidade do isolador de porcelana,
sendo este valor reduzido a 0 a 20 kV/m em condições sob chuva.

181
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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A referência /3/ apresenta um estudo comparativo entre as propriedades isolantes


das estruturas de madeira e de fibra de vidro, com melhores resultados obtidos
para as estruturas de fibra de vidro sob as mesmas condições de ensaio. Ensaios
realizados com impulsos de polaridade positiva sob chuva apresentaram os
menores resultados de suportabilidade. Este estudo apresenta também
informações bastante interessantes quanto ao caminho da descarga disruptiva em
relação ao comprimento e às características das estruturas de fibra de vidro
quando submetidas a ensaios de envelhecimento acelerado.

Várias empresas concessionárias de energia elétrica vêm utilizando o


procedimento de aumentar a isolação de forma a obter uma melhoria do
desempenho de redes de distribuição e linhas com tensões nominais até 44 kV,
através da utilização de postes e cruzetas de madeira; cruzetas de madeira com
mãos francesas isoladas (no caso de postes de concreto); entre outros. O objetivo
é sempre o de aumentar a tensão de descarga crítica da isolação.

Outro procedimento prático bastante utilizado e que tem trazido bons resultados,
consiste em aplicar isoladores com uma classe de tensão superior à tensão
máxima de operação do sistema. Neste caso, geralmente aplicam-se isoladores
do tipo pilar. Em casos típicos de estruturas com os isoladores dispostos de forma
que a fase central fique mais próxima do aterramento da estrutura (mão francesa),
algumas empresas vêm adotando o procedimento de aplicação de cruzetas de
madeira isoladas e instalação de isoladores de classe de tensão superior somente
na fase central, que é a de menor suportabilidade elétrica.

Existe uma limitação técnica e econômica para esse método, o qual pode ser
adequado para redução das descargas disruptivas verificadas em redes de
distribuição e linhas com tensões nominais até 44 kV por tensões induzidas, além
de reduzir a probabilidade das descargas disruptivas evoluírem para um arco de
potência (com o aumento da distância de isolação) e provocar o desligamento do
sistema. Um aumento da tensão crítica de descarga de uma isolação para valores
da ordem de 300 kV ou maiores, praticamente elimina a probabilidade de
desligamentos das redes de distribuição e linhas de transmissão pelo efeito das
descargas indiretas.

No caso das descargas diretas, apesar do aumento da isolação da estrutura não


ser um método eficiente para redução das descargas disruptivas na isolação, o
aumento da isolação das estruturas resulta no aumento do comprimento do arco
elétrico que se estabelece quando da ocorrência da descarga disruptiva, fato que
reduz a probabilidade da descarga disruptiva evoluir para um arco de potência,
com o estabelecimento da corrente de curto-circuito e o desligamento da rede.

Já para linhas de transmissão, o aumento do isolamento das linhas traz algum


benefício no caso de linhas de transmissão com cabos pára-raios. No entanto, a
relação entre benefício e custo tem se mostrado muito pequena quando
comparada aos demais métodos.

182
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Outro ponto que deve ser considerado quando do aumento do nível da isolação da
linha, está relacionado à necessidade de se aumentar o nível de suportabilidade
dos equipamentos a ela conectados (em especial os transformadores, religadores
e chaves seccionadoras), ou instalar pára-raios próximos a esses equipamentos.

7.2 Melhoria do sistema de aterramento

De uma forma em geral, a redução dos valores de impedância de aterramento dos


pés das estruturas leva a uma redução significativa dos índices de desligamentos
de redes de distribuição e de linhas de transmissão providas de cabos pára-raios.
Dentre as configurações de aterramento mais utilizadas pelas empresas
concessionárias de energia em redes de distribuição e linhas de transmissão com
tensões nominais de até 69 kV, destaca-se a utilização de eletrodos (hastes) de
aterramento, que consistem de eletrodos rígidos, normalmente de seção circular, e
cravados verticalmente no solo atingindo, desta forma, camadas mais profundas
que são, na maioria dos casos, de menor resistividade. Os aterramentos utilizando
hastes podem conter uma única haste; ou conter mais de uma haste, dispostas de
forma alinhada, em triângulo, em círculo, etc.

No caso de linhas de transmissão com tensões nominais de 138 kV e acima,


utiliza-se geralmente a configuração de cabos contrapesos.

Sob condições transitórias, a impedância de aterramento das estruturas (ZAT) pode


ser definida pela relação entre a tensão através do aterramento e a corrente
impulsiva que se propaga pelo aterramento ao longo do tempo, ou seja:

e AT (t )
Z AT (t ) =
i AT (t )

eAT(t) Tensão resultante no aterramento, devido a corrente impulsiva;


iAT(t) Corrente impulsiva que se propaga pelo aterramento.

A relação entre a impedância de aterramento para impulsos e a resistência de


aterramento medida em baixa freqüência é denominada de coeficiente de impulso,
e depende basicamente do tipo e da configuração do aterramento considerado.

A melhoria nos valores de resistência de aterramento medidos em baixa


freqüência, através do aumento da quantidade de hastes ou modificação em sua
configuração; do aumento do comprimento e de novos arranjos dos cabos
contrapesos nas bases das torres; bem como, em alguns tipos de configurações
de aterramentos, da utilização de métodos de tratamento do solo, acarreta uma
redução nos valores de impedância de aterramento das estruturas quando
submetidas a condições transitórias.

183
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Além de reduzir os índices de desligamentos, a melhoria do sistema de


aterramento reduz significativamente o índice de queima de equipamentos
instalados ao longo das redes de distribuição.

Experiências de campo têm mostrado que esse método apresenta melhorias


significativas no desempenho de redes e linhas de transmissão providas de cabos
pára-raios quando da incidência de descargas diretas, bem como tem reduzido o
número de desligamentos de redes com ou sem pára-raios devido às descargas
indiretas.

Este método apresenta melhorias significativas no desempenho de linhas de


transmissão e de redes de distribuição providas de cabos pára-raios e altas
impedâncias de aterramento. No entanto, em muitas das vezes, somente a
melhoria da impedância de aterramento e/ou instalação de cabos contrapesos nas
bases das estruturas, torna-se inviável sob os pontos de vista técnico e/ou
econômico.

7.3 Instalação de cabos pára-raios e/ou melhoria do ângulo de blindagem

A instalação de cabos pára-raios em redes de distribuição e linhas de transmissão


aéreas sem blindagem tem por finalidade evitar a incidência de descargas diretas
sobre os condutores. No entanto, descargas disruptivas de retorno ou descargas
externas podem ocorrer nas cadeias de isoladores em função das impedâncias de
aterramento das estruturas e falhas de blindagem, respectivamente.

A redução no índice de desligamentos em redes de distribuição e linhas de


transmissão pode ser conseguida através da composição instalação de cabos
pára-raios e melhoria do sistema de aterramento. No entanto, tal solução pode ser
inviável sob o ponto de vista econômico, principalmente se considerarmos que em
muitos dos casos os projetos das estruturas não suportam os esforços mecânicos
adicionais que seriam produzidos pela adição do(s) cabo(s) pára-raios, sendo
necessários reforços nas estruturas. Além disso, nem sempre é possível
tecnicamente ou viável economicamente a obtenção de valores de impedância de
aterramento a níveis considerados aceitáveis.

A instalação do cabo pára-raios reduz de modo considerável o número de


descargas diretas sobre os condutores fase. No entanto, a sua instalação eleva a
altura do condutor em relação ao solo, com o aumento da área de exposição das
redes e linhas de transmissão ás descargas atmosféricas, e conseqüente aumento
da incidência de descargas diretas sobre os sistemas.

A instalação de cabos pára-raios para a proteção de descargas diretas nas redes


elétricas tem sido amplamente utilizada em linhas de transmissão. No entanto, a
sua aplicação em redes com tensões nominais até 44 kV é limitada devido a
alguns fatores, comentados a seguir:

184
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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- Normalmente as estruturas das redes têm de ser modificadas a fim de permitir a


instalação do cabo pára-raios no topo do poste e manter um ângulo de
blindagem mínimo adequado;
- Em muitos dos casos os projetos das estruturas não suportam os esforços
mecânicos adicionais que seriam produzidos pela adição do(s) cabo(s) pára-
raios, sendo necessários reforços nas estruturas que inviabilizam essa
aplicação;
- A efetividade da utilização de cabos pára-raios na melhoria do desempenho das
redes de distribuição devido às descargas diretas, está diretamente
relacionada às características da impedância de aterramento da estrutura e da
resistividade do solo.

Estudos teóricos têm mostrado que a efetividade deste método para a melhoria
de desempenho face às descargas diretas é bastante baixa em redes de
distribuição com tensões nominais até 34,5 kV, devido a baixa isolação das
redes, associada às configurações de aterramento geralmente existentes;

- A maior causa de desligamentos de redes de distribuição aéreas urbanas são


as tensões induzidas, provenientes das descargas indiretas. Embora o cabo
pára-raios reduza a tensão induzida nas fases, devido a sua proximidade com
essas, a sua efetividade para esse tipo de proteção nem sempre justifica
economicamente a sua aplicação.

7.4 Pára-raios

Dentre os procedimentos atualmente existentes e acima descritos para a


eliminação ou redução dos índices de desligamentos transitórios e permanentes
de redes de distribuição e linhas de transmissão, bem como para a redução do
índice de queima de equipamentos instalados ao longo dos sistemas elétricos
devido a ação das descargas atmosféricas, a aplicação de pára-raios de linha,
muitas vezes associada a melhoria do sistema de aterramento, tem sido
considerado como o método atualmente mais efetivo e eficiente e, geralmente,
apresenta a melhor relação entre benefício e custo.

A efetividade na aplicação dos pára-raios de linha torna-se maior para piores


condições topográficas e de resistividade do solo da região atravessada pela linha
de transmissão.

Experiências de campo têm demonstrado a grande efetividade dos pára-raios para


a redução dos desligamentos não programados verificados em linhas de
transmissão com ou sem pára-raios, para tensões nominais de até 500 kV.

No entanto, para redes de distribuição e linhas com tensões nominais abaixo de


69 kV, a eficiência da utilização de pára-raios para a redução dos índices de
desligamentos está diretamente associada ao conhecimento do fenômeno
responsável pelos desligamentos: por descargas diretas ou indiretas.

185
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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A utilização de pára-raios para redução de desligamentos de redes de distribuição


e linhas com tensões nominais de até 44 kV por descargas diretas geralmente não
se apresenta como uma alternativa técnica e economicamente viável. Isto se deve
ao fato da necessidade de se instalar pára-raios em todas as estruturas
(geralmente nas três fases, dependendo da configuração da rede) ao longo da
rede de distribuição, ou ao longo do trecho crítico da rede, caso se conheça a
distribuição das descargas.

Ao se avaliar a viabilidade técnica e econômica da aplicação de pára-raios para a


proteção das redes por descargas diretas deve-se analisar as seguintes situações:
(1) a incidência de descargas no meio do vão entre duas estruturas não protegidas
por pára-raios; (2) a incidência de descargas no meio do vão, estando uma das
estruturas protegidas por pára-raios; (3) incidência de descargas diretamente
sobre a estrutura sem pára-raios; (4) incidência de descargas diretamente sobre a
estrutura com pára-raios e a probabilidade da ocorrência de descargas disruptivas
nas estruturas adjacentes.

No caso da situação (1) a probabilidade da ocorrência de uma descarga disruptiva


na isolação pode ser considerada como praticamente 100 %. Neste caso, a
probabilidade de desligamento da rede será estabelecida pela probabilidade da
disrupção ser seguida pelo arco de potência.

O mesmo fenômeno se dá em caso de ocorrência da situação (3).

A referência /5/ apresenta um estudo simplificado, porém bastante interessante,


sobre a aplicação de pára-raios nos casos de ocorrência das situações (2) e (4).

Em caso de ocorrência da situação (2), a tensão que se estabelece ao longo do


tempo sobre a isolação da estrutura não protegida por pára-raios é determinada
basicamente pela distância de separação entre o ponto de incidência da descarga
e a estrutura com pára-raios, pela característica de descarga dos pára-raios
(tensão residual para a corrente impulsiva de que fui pelo pára-raios), pela
velocidade de propagação das ondas eletromagnéticas e pela taxa de crescimento
da tensão. De acordo com a referência [9], a tensão na estrutura não protegida por
pára-raios pode ser determinada por:

D
VEST = V RES + ⋅S
c

VEST Tensão resultante sobre a estrutura não protegida por pára-raios (kV);
VRES Tensão residual do pára-raios para a corrente que fui pelo pára-raios (kV);
D Distância entre o ponto de incidência da descarga e a estrutura protegida
pelo pára-raios (m);
c Velocidade de propagação das ondas eletromagnéticas (c ≈ 300 m/µs)
S Taxa de crescimento da tensão (kV/µs)

186
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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A taxa de crescimento da tensão pode ser definida por:


1 di
S= ⋅ Z0 ⋅
2 dt

Z0 Impedância monofásica de surto da rede de distribuição (Ω);


di/dt Taxa de crescimento da corrente (kA/µs).

Considerando uma corrente com forma tipo rampa atingindo a amplitude máxima I
em um tempo de frente tF, e considerando que a disrupção ocorre para uma
tensão VDISR, a corrente mínima IDISR, necessária para provocar a disrupção da
isolação na estrutura não protegida por pára-raios, pode ser determinada por:

2 ⋅ c ⋅ t F ⋅ (VDISR − VRES )
I DISR =
D ⋅ Z0

Para uma rede de 13,8 kV com: Z0 = 450 Ω; D = 75 m; VDISR = 132 kV, a


ocorrência de uma descarga com amplitude de corrente de 3,16 kA e com tempo
de frente de 2 µs incidindo no meio do vão, estando uma das estruturas protegida
por pára-raios de 12 kV (tensão residual máxima de 43,2 kV para a corrente de
descarga nominal de 10 kA), provoca a disrupção da isolação na estrutura não
protegida por pára-raios. Para esta condição a probabilidade de uma corrente de
descarga exceder a 3,16 kA é de aproximadamente 100%.

Ao se elevar a característica disruptiva da isolação para 400 kV, e considerar a


utilização de um pára-raios de menor tensão residual, por exemplo, 30 kV, a
corrente mínima para a ocorrência da disrupção seria de 13,16 kA. A
probabilidade de esta corrente ser excedida é de 99,7%.

Pelo exposto acima, verifica-se que a instalação de pára-raios em estruturas


alternadas não evita a disrupção da isolação na estrutura não protegida, quando
da incidência de uma descarga direta sobre os condutores fase da rede.

No caso da ocorrência da situação (4), ou seja, a incidência de descargas sobre


uma estrutura protegida por pára-raios em todas as fases, esta estrutura a
princípio estará protegida pelos pára-raios.

Neste caso, a probabilidade de ocorrência de descarga disruptiva na próxima


estrutura (não protegida por pára-raios) é definida pela tensão disruptiva da
isolação na estrutura não protegida e pelo sistema de aterramento da estrutura
com pára-raios. De acordo com a referência [9], a corrente mínima para provocar
a disrupção na isolação da estrutura não protegida por pára-raios pode ser
estimada por:
V − VRES
I DISR = DISR
R0

187
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Considerando: R0 = 10 Ω; VDISR = 132 kV: VRES = 43,2 kV, a corrente mínima para
provocar disrupção na isolação será de 8,9 kA. A probabilidade de esta corrente
ser excedida é de 99,96%. Aumentando a característica disruptiva da isolação
para 400 kV e reduzindo a tensão residual do pára-raios para 30 kV, a corrente
mínima para a ocorrência da disrupção na próxima estrutura aumenta para 37 kA.
Para esta corrente, a probabilidade de disrupção é de 70,7%.

Quanto melhores forem as características da isolação e a resistência do sistema


de aterramento, maior será a corrente crítica que provoca a disrupção para esta
situação e, como conseqüência, menor será a probabilidade de disrupção.

Pelas informações acima, verifica-se a necessidade da instalação de pára-raios


em todas as estruturas (nas três fases, dependendo da configuração da rede) ao
longo da rede ou em seus trechos mais críticos, a fim de se obter uma melhoria
significativa no desempenho de redes de distribuição face às descargas diretas.

Outro aspecto importante a ser abordado com relação às características do pára-


raios instalados para a proteção de descargas diretas refere-se a sua capacidade
de absorção de energia: os pára-raios ao serem solicitados por descargas
atmosféricas próximas ao seu ponto de instalação absorvem uma grande
quantidade de energia, e devem ter capacidade de dissipar esta energia para o
meio externo, a fim de se manterem termicamente estáveis e retornarem às
condições normais de operação, sem degradação ou alterações significativas em
suas propriedades físicas e elétricas, após a ocorrência da descarga.

Para tal, é importante que as energias impostas aos pára-raios sejam definidas, de
modo a garantir uma especificação mais adequada dos pára-raios.

Algumas empresas concessionárias vêm utilizando este método para a melhoria


de desempenho de redes de distribuição com tensões nominais de 34,5 kV.
Resultados significativos têm sido obtidos quando da realização de estudos
prévios, visando a correta quantidade e localização dos pára-raios ao longo de
trechos críticos das redes e o dimensionamento adequado dos pára-raios com
relação a capacidade de absorção de energia.

Com relação à proteção contra descargas indiretas, o procedimento para


instalação dos pára-raios consiste em definir, para as condições específicas da
rede (em especial as características disruptivas da isolação e do sistema de
aterramento das estruturas), o espaçamento máximo entre pára-raios que garanta
o índice de desempenho desejado para a rede.

Vários estudos para avaliar o efeito da utilização de pára-raios na melhoria do


desempenho de redes de distribuição por descargas indiretas têm sido
apresentados nos últimos anos. A maioria desses estudos aponta para uma
redução significativa de desligamentos provenientes das descargas indiretas a
partir da instalação de pára-raios nas três fases espaçados entre 500 - 600 m.

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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No próximo capítulo serão abordados os diversos aspectos referentes a aplicação


de pára-raios.

7.5 Referências bibliográficas

/1/ GCOI – SubComitê de manutenção, “Análise estatística do desempenho de


linhas de transmissào aéreas”, Relatório Técnico RT.SCM.CDE.028, 1998.
/2/ Darveniza, M. et alii, “Line Design and electrical Properties of Wood”, IEEE
Transactions on Power Apparatus and Systems, Vol PAS 86, No 11,
November 1967.
/3/ Grzybowski, S., “Added CFO Voltage by the Fiberglass Distribution Line
Pole”.
/4/ Lewis, W. W., “The Protection of Transmission Systems Against Lightning”.
/5/ IEEE Std 1410, “IEEE Guide for Improving the Lightning Performance of
Electric Power Overhead Distribution Lines”, 1997.
/6/ IEEE Std 1243, “IEEE Guide for Improving the Lightning Performance of
Transmission Lines”, 1997.

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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8. Pára-raios para aplicação em linhas de transmissão


Nos capítulos anteriores foram apresentadas informações referentes aos aspectos
a serem considerados no estudo de desempenho das linhas de transmissão e
redes de distribuição frente a descargas atmosféricas. Informações referentes ao
efeito das incidências de descargas atmosféricas diretas e indiretas sobre linhas
de transmissão e redes de distribuição, bem como os métodos empregados para
melhoria do desempenho das linhas e redes.

Neste capítulo são apresentadas informações referentes ao princípio de


funcionamento dos pára-raios de linhas; os critérios de dimensionamento e
localização dos pára-raios, considerando novos projetos e linhas existentes; os
aspectos importantes a serem considerados na especificação dos
pára-raios de linha; a experiência de aplicação e análise do desempenho de linhas
com pára-raios instalados e, por fim, será apresentado um exemplo de estudo
enfocando análise técnica e econômica da aplicação de pára-raios de linha.

Apesar de este capítulo estar direcionado a aplicação de pára-raios em linhas de


transmissão, os conceitos aqui apresentados também são válidos para a análise
de desempenho de redes elétricas de distribuição.

8.1 Histórico

De forma a reduzir o número de desligamentos transitórios não programados nos


sistemas elétricos, empresas de energia elétrica e consumidores industriais vêm
promovendo melhorias ao longo de suas linhas de transmissão ou seções dessas.
Na maioria dos casos, os pára-raios têm sido considerados como o método mais
efetivo para a melhoria do desempenho de linhas de transmissão devido as
descargas atmosféricas e tem apresentado uma boa relação entre benefício e
custo. A efetividade na aplicação dos pára-raios de linha torna-se maior para
piores condições topográficas e de resistividade do solo da região atravessada
pela linha de transmissão analisada.

A aplicação de pára-raios em redes de distribuição e linhas de transmissão tem


como objetivo principal a redução do número de desligamentos não programados
tendo como causa as descargas atmosféricas, seja descargas diretas quanto
indiretas (sobretensões induzidas). O desempenho das linhas é traduzido pelo
parâmetro denominado "Número de desligamentos / ( 100 km . ano)". O número
de desligamentos de uma linha e sua importância no sistema elétrico são fatores
determinantes para a decisão pela instalação ou não de pára-raios.

A técnica de instalação de pára-raios em linhas remonta da década de 30, onde


são reportadas tentativas de eliminação de falhas nas linhas por meio de pára-
raios. Dificuldades na eliminação das correntes subsequentes de freqüência
fundamental tornaram esta técnica inviável na época. Outro fator limitante, ao
longo dos anos, foi o peso dos pára-raios com invólucro de porcelana /1/.

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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A primeira aplicação efetiva de pára-raios para melhoria do desempenho de linhas


de transmissão se deu no Japão em 1980, em linhas de 66 kV e 77 kV. Nos
Estados Unidos há registro da primeira aplicação em 1982 /2/. No entanto, a
utilização de pára-raios em linhas tornou-se mais difundida a partir do fim da
década de 80, sendo esse método atualmente utilizado com sucesso comprovado
em vários países, tais como Estados Unidos, Canadá, Japão, França, Alemanha,
México, Colômbia, Brasil, entre outros..

No Brasil, a CEMIG foi a empresa pioneira na aplicação de pára-raios de linha e


os resultados comprovados de melhoria de desempenho obtidos pela empresa em
suas linhas de transmissão tem levado àquela empresa a realizar novos estudos
para a aplicação de pára-raios em suas linhas críticas e em novos projetos de
linhas que atravessam regiões com elevados valores de resistividade do solo e
atividades elétricas (elevada densidade de descargas à terra).

Existem atualmente no Brasil mais de 3.000 pára-raios de linha sem centelhadores


instalados em sistemas de 34,5 kV a 230 kV da CEMIG, Light, FURNAS, Ampla,
CFLCL (atual Energisa – MG), ESCELSA e RGE, sendo que pelo menos 70%
desses pára-raios encontram-se instalados nas linhas de transmissão sob
concessão da CEMIG. Várias empresas no Brasil e em outros países da América
Latina vêm estudando e avaliando a implementação de pára-raios em suas linhas
de transmissão consideradas críticas.

Pára-raios de linha podem ser aplicados em linhas novas ou na melhoria do


desempenho de linhas antigas, com ou sem cabos pára-raios.

8.2 Princípio de funcionamento dos pára-raios de linha

Tal como na proteção dos equipamentos nas subestações, os pára-raios de linha


são conectados eletricamente em paralelo com as cadeias de isoladores e seu
princípio de operação consiste na redução das sobretensões transitórias
resultantes que se estabelecem nos terminais das cadeias de isoladores, evitando
que os níveis de isolamento das cadeias de isoladores sejam excedidos.

Ao ocorrer uma descarga atmosférica na estrutura, nos cabos pára-raios ou nos


condutores de fase, uma parcela da corrente de surto fluirá através do pára-raios,
originando uma tensão residual entre os seus terminais que limitará a tensão
resultante na cadeia de isoladores. Daí a necessidade de se coordenar os níveis
de proteção do pára-raios com os níveis de descarga das cadeias a serem
protegidas.

O pára-raios conduzirá a corrente de surto cuja amplitude depende basicamente


da amplitude e da forma da corrente de descarga, da impedância transitória do
sistema aterramento e da impedância dos cabos pára-raios (caso esses estejam
presentes), retornando às condições normais de operação após a passagem do
surto, cuja duração máxima é da ordem de centenas de µs.

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Devido às características não-lineares dos elementos de Óxido de Zinco (ZnO)


utilizados na montagem dos pára-raios de linha, a corrente que flui pelo pára-raios
após a passagem da corrente de descarga apresenta baixas amplitudes, não
superiores a algumas dezenas de mA não sendo, portanto, suficientes para
provocar a atuação do dispositivo de proteção contra sobrecorrentes. Portanto, o
dispositivo de proteção de sobrecorrente não “enxerga” a operação do pára-raios

Desta forma, não havendo a disrupção da isolação e devido a baixa corrente que
flui pelos pára-raios após a passagem da corrente de descarga, não há a atuação
do dispositivo de proteção contra sobrecorrentes na fase protegida pelo pára-raios
não ocorrendo, portanto, uma variação momentânea de tensão devido a
descargas atmosféricas nesta fase.

Se uma determinada estrutura é composta por pára-raios instalados nas suas três
fases não haverá, portanto, variação momentânea de tensão devido a incidência
de uma descarga atmosférica sobre essa estrutura. No entanto, descargas
disruptivas podem ocorrer nas estruturas adjacentes, dependendo das
características de aterramento dessas estruturas.

Existem duas filosofias para aplicação de pára-raios de linha: pára-raios de Óxido


de Zinco (ZnO) sem centelhadores; e pára-raios de ZnO com centelhador série
externo. A Tabela 8.1 apresenta uma comparação entre os dois tipos construtivos.

Tabela 8.1 - Comparação de tipos construtivos de pára-raios para Linhas

Característica Sem Centelhadores Com centelhador externo em série


Manufatura Simplificada Necessidade de Estudos Elaborados
MCOV Valor mais alto Valor mais baixo (1)
Corrente de Descarga Nominal Idêntica Idêntica
Importante e deve ser Menos Importante, uma vez que o
Distância de Escoamento adequada aos níveis de conjunto de resistores, encapsulado em
(Comportamento sob Poluição) contaminação do sistema invólucro polimérico, não está submetido
ao valor pleno da tensão entre fase e terra
Acessórios Simples Necessitam estudos detalhados
Instalação e Manutenção Mais fácil Mais trabalhosa
Desempenho sob Surto de Permite o controle das Projetado, a princípio, para não operar
Manobra Sobretensões de manobra ao frente a estas solicitações
longo das linhas
Desconexão em Caso de Falha Desconector indispensável Garantido pelo centelhador externo
do Pára-raios
Sinalização da Falha do Pára- Garantida pelo desconector Indicador de defeitos desejável
raios
Risco de atuação indevida do Atuação indevida do centelhador sob
Possíveis Problemas desconector e degradação do tensões em freqüência industrial e de
pára-raios que está manobra o que pode comprometer a
continuamente sob tensão integridade do pára-raios

(1) No caso de pára-raios com centelhador série a MCOV - Máxima Tensão de Operação
Contínua é relativa à parte que contém os resistores não lineares a óxido metálico.

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Sob o ponto de vista de concepção e instalação, o pára-raios com centelhador


externo em série requer um melhor detalhamento no que diz respeito ao
dimensionamento do centelhador e a fixação do pára-raios em paralelo com a
cadeia de isoladores. Isto só é possível à partir do conhecimento dos projetos das
cadeias e das características da linha, o que exige uma estreita interação entre o
fabricante e o comprador.

Neste capítulo será abordada somente a aplicação de pára-raios sem


centelhadores externos, por ser esta a filosofia aplicada no Brasil e na maioria dos
países que utilizam este conceito de proteção de linhas. Informações sobre a
aplicação de pára-raios com centelhador série externo e aspectos comparativos
entre as duas filosofias podem ser obtidas nas referências /1/, /3/, /4/ e /5/.

A utilização do invólucro polimérico melhora o desempenho dos pára-raios em


ambientes contaminados, além de praticamente eliminar riscos de falha dos pára-
raios devido a penetração de umidade por perda de estanqueidade (projetos de
pára-raios sem espaçamentos internos de ar) aumentando, desta forma, a sua
confiabilidade. Os efeitos da fragmentação ou explosão do invólucro que podem
causar riscos às pessoas próximas ou provocar danos acentuados aos
equipamentos adjacentes também são praticamente eliminados. Este fato é
importante na definição dos procedimentos de instalação e manutenção de pára-
raios sem centelhadores externos em linha viva.

Desligadores automáticos de linha são instalados em série com o pára-raios, para


desconectar o pára-raios do sistema, em caso de sua eventual falha.

Em adição, projetos de pára-raios poliméricos sem espaçamentos internos de ar


apresentam menor peso em relação aos de porcelana (em geral menos de 50%
do peso), acarretando em menores esforços mecânicos sobre as estruturas e
proporcionando uma maior versatilidade na montagem dos arranjos. Pára-raios
com invólucro polimérico podem, invariavelmente, ser instalados sobre as linhas
existentes sem a necessidade de reforço das estruturas.

O desempenho adequado dos pára-raios nas linhas está condicionado ao correto


dimensionamento de suas características em relação ao sistema:

- Tensão nominal e máxima tensão contínua de operação, definidas pela


máxima tensão fase-terra de operação do sistema e pela máxima sobretensão
temporária no ponto de aplicação dos pára-raios e sua respectiva duração;
- Tensões residuais para impulsos de correntes íngreme e atmosféricos, os
quais devem estar coordenados com os níveis de suportabilidade das cadeias
de isoladores;
- Capacidade de absorção de energia, definida pela amplitude, forma de onda e
duração das descargas, pela impedância transitória do sistema de
aterramento, e pelo efeito das descargas múltiplas;

194
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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- Capacidade de suportabilidade mecânica a fragmentação e ao desprendimento


da parte ativa, em função das máximas correntes de falta na linha em estudo;

O efeito da poluição também deve ser levado em consideração durante a fase de


estudo. No caso dos pára-raios sem centelhadores externos, esse deve ser
dimensionado com uma distância de escoamento suficiente para que seu
comportamento sob poluição seja equivalente ou superior ao da cadeia de
isoladores instalada em paralelo.

Baixos índices de falhas em pára-raios têm sido reportados, sendo a maioria das
falhas elétricas atribuídas a solicitações excessivas de energia por descargas
atmosféricas e sobretensões temporárias.

A eficiência desse dispositivo na redução do número de interrupções não


programadas de linhas de transmissão está relacionada a estudos para definição
da seleção dos pára-raios, bem como da quantidade e do correto posicionamento
dos pára-raios ao longo da linha, informações estas obtidas com base na
estimativa de desempenho desejada para a linha sob análise.

Os pára-raios de linha apresentam geralmente vantagens adicionais, quando


comparados aos outros métodos de melhoria de desempenho de linhas de
transmissão, tais como maior flexibilidade; possibilidade de concepções de
projetos de linhas otimizados; além de reduzir os níveis das sobretensões de
manobra ao longo das linhas.

8.3 Aplicação e localização dos pára-raios

A definição quanto aos pontos de aplicação, e o número de pára-raios a serem


instalados ao longo de uma linha de transmissão ou em seus trechos críticos,
estão diretamente relacionados ao índice de melhoria de desempenho desejado, e
depende de vários fatores tais como: o histórico de desligamento das linhas, as
suas características construtivas, o conhecimento da topografia e da densidade de
descargas a terra (ou do nível ceráunico) das regiões por onde passam as linhas,
índice de queima de isoladores instalados, grau de importância das linhas e das
cargas alimentadas por essas linhas, entre outros.

O critério de dimensionamento, a quantidade e a localização dos pára-raios devem


ser obtidos através de estudos. Devido à complexidade dos fenômenos envolvidos
na análise do comportamento transitório de uma linha atingida por uma descarga,
o desempenho das linhas frente a descargas atmosféricas tem sido estudado e
avaliado através de simulações computacionais. Para a obtenção de resultados
satisfatórios, dois estudos distintos necessitam ser realizados:

(1) Estudo de desempenho da linha de transmissão, onde para as


características e configuração atuais da linha e para cada situação
particular de melhoria proposta (melhoria das características transitórias do

195
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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sistema de aterramento, aumento da isolação, aplicação de pára-raios,


etc.), são definidas as correntes críticas que provocam a disrupção da
isolação da linha e, a partir dessas correntes, é possível estimar a
probabilidade de desligamentos para a linha de transmissão analisada.

(2) Estudo para determinação das máximas energias a serem absorvidas pelos
pára-raios de linha, em função da amplitude da corrente de descarga, sua
forma de impulso e duração, da impedância transitória do sistema de
aterramento considerado e da possibilidade da ocorrência de descargas
múltiplas.

Os estudos visando a melhoria de desempenho das linhas de transmissão estão,


portanto, baseados na determinação das correntes críticas e das probabilidades
de desligamentos das linhas de transmissão para essas correntes. Desta forma,
os programas de melhoria têm como objetivo o aumento da corrente crítica que
provoca a disrupção da isolação da linha. Já os estudos de energia permitem
estimar o risco de falha esperado para os pára-raios.

Para a melhor definição dos pontos de instalação dos pára-raios em função da


melhoria de desempenho a ser obtida, a análise técnica deve ser acompanhada
por uma análise econômica, permitindo ao usuário analisar qual a opção que
melhor viabilize a sua instalação.

Na maioria dos casos, a instalação de pára-raios em trechos críticos das linhas


(como por exemplo, em estruturas localizadas em regiões montanhosas
apresentando solos de elevada resistividade) tem reduzido significativamente o
índice de desligamento transitório das linhas.

No entanto, em alguns casos, torna-se necessária a aplicação dos pára-raios ao


longo de toda a linha, especialmente quando essa se encontra em regiões
apresentando solos de elevada resistividade e altas atividades elétricas.

Várias literaturas têm reportado a experiência positiva na aplicação de pára-raios


ao longo de trechos críticos de linhas de transmissão com tensões nominais de
34,5 kV até 500 kV, em especial a sua operação e critérios utilizados para a sua
especificação, dimensionamento e aplicação /2/, /4/, /6 - 13/. Em casos
particulares, onde desligamentos na linha não são permitidos (índice desejado de
zero interrupção por 100 km por ano), pára-raios têm sido instalados nas três
fases ao longo de toda a linha de transmissão.

8.3.1 Aplicação de pára-raios em estruturas localizadas em regiões


com solos de elevada resistividade

A resistividade do solo e a impedância de aterramento influenciam no índice de


desligamento de linhas providas de cabos pára-raios devido as descargas de

196
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retorno. Melhoria das condições de aterramento, podem ser inviável técnica e/ou
economicamente, sendo necessária a instalação de pára-raios. Considerando uma
região de mesma topografia e densidade de descargas a terra, deve ser
considerada uma probabilidade igual de ocorrência de descargas atmosféricas ao
longo de todas as estruturas localizadas nesta região.

8.3.2 Aplicação de pára-raios em estruturas localizadas em regiões


montanhosas

Estruturas localizadas no topo de regiões montanhosas apresentam uma maior


probabilidade de incidência de descargas atmosféricas. Em adição, estas regiões
geralmente apresentam solos de elevada resistividade, propiciando valores de
impedância de aterramento elevados. Descargas de retorno pelas cadeias de
isoladores em linhas providas de cabos pára-raios são comuns neste caso.
Cuidados devem ser tomados com relação as torres adjacentes com baixas
impedâncias de aterramento.

8.3.3 Aplicação de pára-raios em estruturas localizadas próximas às


subestações

A ocorrência de uma descarga disruptiva de retorno (“backflashover”) nas cadeias


de isoladores situadas nas últimas torres próximas a subestação, acarreta na
incidência de ondas viajantes de tensão chegando a subestação com taxas de
crescimento bastante íngremes, e que podem acarretar em tensões impulsivas
elevadas nos terminais dos equipamentos da subestação, devido ao efeito da
distância entre os pára-raios e esses equipamentos. Para se evitar essa situação,
as estruturas próximas a subestação devem apresentar baixos valores de
impedância de aterramento.

Em alguns casos de linhas não protegidas por cabos pára-raios têm sido prática
das empresas instalar cabos pára-raios nas últimas estruturas antes da chegada
das subestações.

A aplicação de pára-raios nas últimas estrutruras antes da chegada a subestação


elimina o risco da ocorrência de “backflashover” em linhas providas por cabos
pára-raios e evita a necessidade da instalação de cabos pára-raios em linhas não
providas por esses elementos.

8.3.4 Aplicação de pára-raios em linhas novas

Estudos de aplicação de pára-raios em novos projetos de linha vêm sendo


realizados por algumas empresas concessionárias de energia, especialmente
quando as linhas ou trechos da linha atravessam regiões com valores elevados de
resistivdade do solo e alta densidade de descargas à terra /7/. Para essas
situações, em muitas vezes, a estimativa de desempenho da linha, obtida durante
a fase de projeto, apresenta níveis acima dos desejados. Estudos de aplicação de
pára-raios são realizados visando reduzir o índice de desligamento das linhas.

197
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Outra situação que envolve estudos de aplicação de pára-raios durante a fase de


projeto ocorre quando os índices de desempenho para a linha exigidos em
contrato, são superiores aos índices estimados obtidos para a configuração
normal da linha.

Algumas empresas vêm também avaliando durante a fase de projeto de uma linha
a aplicação de pára-raios em substituição aos cabos pára-raios, especialmente em
linhas com tensões nominais até 138 kV. Essa possibilidade permite a utilização
de estruturas menores e mais leves, reduzindo significativamente o custo da linha.

Estudos realizados para análise de desempenho de linhas têm mostrado que a


não utilização de cabos pára-raios pode ser técnica e economicamente atrativa,
principalmente em regiões de baixo nível ceráunico apresentando solos de baixa
resistivdade.

Neste tipo de aplicação, é imprescindível a instalação de pára-raios em todas as


estruturas. A definição quanto a quantidade e localização dos pára-raios depende
da importância da linha e do índice de desempenho desejado; da configuração da
estrutura utilizada e da disposição dos condutores; da densidade de descargas a
terra da região; e das características transitórias do sistema de aterramento das
estruturas.

A Figura 8.1 apresenta algumas possíveis configurações de estruturas.


Comentários sobre a aplicação de pára-raios nestas configurações são
apresentados abaixo:

• Em estruturas de configuração vertical - o condutor superior oferece uma


blindagem efetiva em relação aos demais condutores. Neste caso, a instalação
de um pára-raios por estrutura na fase apresentando o condutor mais afastado
em relação ao solo apresenta, geralmente, um desempenho similar àquele
obtido com a instalação de cabo pára-raios, sendo esse desempenho função
direto do comportamento transitório do sistema de aterramento.

A eficiência da proteção aumenta com dois pára-raios por estrutura, instalados


nas fases superiores e intermediárias. Uma proteção total é obtida com a
instalação de pára-raios nas três fases em todas as estruturas.

• Para estruturas triangulares - se o condutor superior oferecer uma blindagem


efetiva em relação aos demais condutores (Figura 8.1.d), o procedimento a ser
adotado deve ser o mesmo utilizado para configurações verticais. No caso do
condutor mais alto não oferecer uma blindagem efetiva a pelo menos um dos
condutores, devem ser instalados pelo menos dois pára-raios, quando as fases
estão intercaladas em relação ao ponto central da torre (Figura 8.1.c), e três
pára-raios quando as fases mais baixas encontram-se dispostas
simetricamente em relação a fase superior (Figura 8.1.a).

198
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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• Em estruturas com os condutores dispostos horizontalmente (Figura 8.1.b) - é


recomendável a instalação de três pára-raios. No entanto, a instalação de
pára-raios nas duas fases mais expostas poderá assegurar níveis de
confiabilidade aceitáveis, em função do comportamento transitório do sistema
de aterramento. e do índice de desempenho desejado para a linha.

(a) (b) (c) (d)

Figura 8.1 – Arranjos de configurações de linhas e disposição de condutores

8.3.5 Aplicação de pára-raios em linhas existentes

A instalação de pára-raios tem possibilitado a melhoria do desempenho de linhas


existentes, providas ou não de cabos pára-raios. Estudos criteriosos devem ser
realizados de modo a definir a quantidade e a correta localização dos pára-raios a
serem instalados ao longo das linhas analisadas.

Para linhas de transmissão sem cabos pára-raios, aplicam-se as mesmas


considerações descritas na Seção 8.3.4. Para linhas providas de cabos pára-raios,
a definição quanto ao número e localização dos pára-raios depende do
comportamento transitório do sistema de aterramento das estruturas e da
atividade elétrica da atmosfera na região ao longo da linha, ou do(s) trecho(s) da
linha. O tipo de configuração da estrutura e a disposição dos condutores também
podem auxiliar na definição do número de pára-raios a serem instalados.

De modo geral, em estruturas com configuração vertical ou triangular com as


fases intercaladas em relação ao ponto central da torre (Figuras 8.1.c e 8.1.d), a
instalação de um pára-raios por estrutura, na fase inferior (condutor mais próximo
em relação ao solo), pode acarretar em melhorias no desempenho da linha, sendo
esta melhoria função direta dos valores das impedâncias transitórias de
aterramento das estruturas. Para valores de impedância de aterramento elevados
torna-se necessária, na maioria dos casos, a instalação de dois ou até três pára-
raios por estrutura.

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Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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Para estruturas com configuração horizontal (Figura 8.1.b), ou triangular onde as


fases mais baixas estão dispostas simetricamente em relação a fase superior
(Figura 8.1.a), as três fases estão praticamente submetidas a mesma amplitude de
tensão. Neste caso, recomenda-se a instalação de pelo menos dois pára-raios,
nas fases mais expostas.

Outro aspecto importante diz respeito a instalação de pára-raios em trechos


críticos de linhas de transmissão: neste caso, as estruturas localizadas nas
extremidades do(s) trecho(s) protegido(s) devem apresentar baixos valores de
impedância de aterramento, de modo a evitar descargas sobre os trechos não
protegidos, independente da configuração da linha.

A possibilidade de instalação de pára-raios em estruturas intercaladas dependerá


basicamente do comportamento transitório do sistema de aterramento das
estruturas. No entanto, por não ser na maioria dos casos uma prática viável
técnica e economicamente, este procedimento tem sido pouco adotado pelas
empresas de energia e consumidores industriais.

8.4. Experiência das empresas brasileiras na instalação e no desempenho


de pára-raios de linha

A CEMIG – Companhia Energética de Minas Gerais, foi a empresa brasileira


pioneira na realização de estudos e na implementação da tecnologia de instalação
de pára-raios em suas linhas de transmissão. Os resultados comprovados de
redução dos índices de desligamentos não programados obtidos, com o
conseqüente aumento na confiabilidade das linhas consideradas, têm levado a
empresa a realizar novos estudos para a aplicação de pára-raios em suas linhas
de transmissão consideradas como mais críticas.

O desempenho das linhas de transmissão da CEMIG com pára-raios instalados


tem sido reportado em diversas publicações técnicas. As informações disponíveis
referentes a aplicação de pára-raios na CEMIG, bem como os desempenhos
obtidos, são apresentadas abaixo /8/:

- CEMIG: 1.735 pára-raios instalados em sete de suas linhas de transmissão,


com tensões nominais de 34,5 kV até 138 kV. A grande maioria desses pára-
raios instalados (1.725) são pára-raios sem centelhadores série. Somente dez
pára-raios possuem centelhadores externos em série e foram instalados com o
objetivo de avaliação de desempenho do pára-raios.

O desempenho reportado pela CEMIG é apresentado na Tabela 8.2.

É importante destacar a aplicação de pára-raios na linha “Ouro Preto – Mariana”


com tensão nominal de 138 kV: esta linha alimenta uma grande quantidade de
consumidores industriais de grande porte e apresenta uma alta densidade de
descargas à terra. O índice médio de saídas desta linha antes da instalação de
pára-raios era de 41 desligamentos / (100 km . ano), todos de natureza transitória.

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Tabela 8.2 – Desempenho das LT’s da CEMIG – Dados de 2005 /8/

Nome da linha / Tensão Quantidade pára-raios Índice de desl./100 km/ano


nominal (kvef) instalados Antes Após
Diamantina-Gouveia - 34,5 kV 417 62 24
Ouro Preto-Mariana - 138 kV 324 41 0
OuroPreto-Ponte Nova - 138 kV 264 31 9
Itutinga – Minduri - 138 kV 132 19 6
Peti – Sabará - 69 kV 444 40 13
Itutinga – Três Corações (*) – 144 --- ---
138 kV

(*) Esta linha foi projetada considerando-se a instalação de pára-raios /7/.

Apesar dos desligamentos serem de natureza transitória, a variação momentânea


de tensão ao longo da linha, decorrente dos desligamentos devido às descargas
atmosféricas, provocavam uma grande quantidade de interrupções nos processos
produtivos das indústrias alimentadas pela linha. Além disso, esta linha atravessa
uma região montanhosa apresentando uma elevada resistividade de solo, o que
tornava difícil a melhoria de desempenho pelos métodos tradicionais.

Após um estudo criterioso, realizado pelas indústrias interessadas em parceria


com a CEMIG, optou-se pela instalação de pára-raios em toda a linha, nas três
fases. Desde então (informações disponíveis até março de 2003), não ocorreram
mais desligamentos nesta linha proveniente das descargas atmosféricas.

Em função dos resultados até aqui obtidos, a CEMIG pretende continuar o


programa para instalação de pára-raios em suas linhas críticas, de forma a
melhorar o desempenho de seus sistemas de transmissão e oferecer aos seus
consumidores uma energia de melhor qualidade e maior confiabilidade.

Detalhes da instalação de pára-raios em linhas de transmissão da CEMIG são


apresentados na Figura 8.2 /8/.

- Light: A LIGHT possuía até dezembro de 2002, 75 pára-raios de linha


instalados em seções de quatro de suas linhas de transmissão de
138 kV. O desempenho médio dessas linhas informado pela LIGHT
encontra-se na Tabela 8.3.

- Ampla: A Ampla vem instalando desde 1999 pára-raios sem centelhadores


em seções de suas linhas de 34,5 kV a 138 kV, com resultados de
desempenho bastante satisfatórios.

- FURNAS: Em 1996 FURNAS instalou experimentalmente 6 pára-raios


sem centelhadores em seções de duas de suas linhas de
transmissão de 138 kV. Uma síntese do desempenho das
linhas com pára-raios instalados encontra-se na Tabela 8.4.

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Tabela 8.3 – Desempenho das LT’s da LIGHT – Informações de 2003

Nome da linha / Tensão Quantidade pára-raios Índice de desl./100 km/ano


Nominal (kvef) Instalados Antes Após
Saudade – Funil 25 27,9 4,3
Ilha – São José 23 7,4 3,7
Ilha - Rio da Cidade 15 9,4 4,3
Itapeba – Jacarepaguá 12 41,5 20,7

Tabela 8.4 – Desempenho das LT’s de FURNAS – Dados de 2002

Nome da linha / Tensão Quantidade pára-raios Índice de desl./100 km/ano


Nominal (kvef) Instalados Antes Após
Jacarepaguá-Cosmo -138 kV 3 5,83 (90/94) 1,67 (96/98)
Angra – Santa Cruz - 138 kV 3 1,04 (77/94) 0 (96/98)

FURNAS está programando a instalação de pára-raios em algumas de suas linhas


consideradas críticas.

Em adição, existem pára-raios instalados nas linhas de transmissão das empresas


ESCELSA, CFLCL (Energisa – MG), RGE entre outras. No entanto, informações
sobre o desempenho das linhas ainda não se encontram disponíveis.

Figura 8.2 - Detalhes da instalação de pára-raios em LT´s da CEMIG

(a) (b)

(a) Linha de transmissão Diamantina - Gouveia – 34,5 kV


(b) Linha de transmissão Ouro Preto - Ponte Nova – 138 kV

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/5/ Patiño, R. I. & Henao, E. L., “Protección de la Línea Guatapé-Rio Claro a
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204
Aplicação de pára-raios em redes de distribuição, subestações e linhas de transmissão
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9. Ensaios em pára-raios
Os pára-raios ao serem instalados nos sistemas elétricos, estarão submetidos
durante a sua vida útil a condições climáticas e a fenômenos transitórios adversos
ao seu princípio de funcionamento, quando em condição de regime permanente.

Os ensaios realizados nos pára-raios têm por objetivo principal simular em


laboratório os fenômenos que possam vir a ocorrer nos sistemas, bem como
verificar se o projeto do pára-raios satisfaz às condições mínimas exigidas de
modo a garantir uma proteção adequada aos equipamentos e sistemas, dentro
dos limites da classe dos pára-raios.

9.1 Classificação dos ensaios

De acordo com as Normas técnicas, ensaios em pára-raios são classificados em


ensaios de tipo, ensaios de rotina e ensaios de recebimento.

9.1.1 Ensaios de tipo:

Consiste em um conjunto de ensaios realizados em corpos-de-prova, específicos


para cada ensaio, montados com componentes Normais de fabricação, que tem
por objetivo verificar as características de projeto do pára-raios e a sua
conformidade com as Normas técnicas. Salvo acordo entre o fabricante e o
comprador, estes ensaios não precisam ser repetidos enquanto não houver
alteração no projeto, nos materiais ou no processo de fabricação,

9.1.2 Ensaios de rotina:

Consiste em um conjunto de ensaios realizados em cada elemento de pára-raios


ou no pára-raios completo, com o objetivo de verificar as características mínimas
de qualidade e uniformidade de produção em conformidade com o projeto.

9.1.3 Ensaios de recebimento:

Consiste em um conjunto de ensaios realizados em elementos de pára-raios, ou


no pára-raios completo, na presença do comprador ou seu representante, com o
objetivo de verificar a conformidade dos resultados obtidos com os garantidos pelo
fabricante.

9.2 Normas técnicas aplicáveis a ensaios em pára-raios

Os ensaios de tipo, rotina e recebimento em pára-raios com e sem centelhadores,


são prescritos pelas Normas técnicas. Entre as diversas Normas existentes, as
mais utilizadas no Brasil são:

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- Em pára-raios com centelhadores:

• IEC 99-1/1991: “Surge Arresters - Part 1: Non-linear resistor type gapped surge
arresters for a.c. systems".

• IEEE Std. C62.1/1984: "IEEE Standard for surge arresters for AC power
circuits".

• NBR 5287/88: "Pára-raios de resistor não-linear a Carboneto de Silício (SiC)


para circuitos de potência de corrente alternada" - Especificação.

• NBR 5309/91: "Pára-raios de resistor não-linear a Carboneto de Silício (SiC)


para circuitos de potência de corrente alternada" - Método de ensaio.

- Para pára-raios sem centelhadores:

• IEC 60099-4 – Ed. 2.1, 2006: “Surge Arresters - Part 4: Metal-Oxide surge
arresters without gaps for a.c. systems".

• IEEE Std. C62.11/2005: "IEEE Standard for Metal-Oxide surge arresters for AC
power circuits".

Existem ainda os projetos de Norma, aplicados a pára-raios de ZnO com e sem


centelhadores. Os projetos de Norma referentes a pára-raios sem centelhadores
estão em fase final de revisão pela CE-37:7.

• Projeto 03:037.07-001 "Pára-raios de resistor não-linear a óxidos metálicos


sem centelhadores, para circuitos de potência de corrente alternada" –
Especificação e Método de Ensaios.

• Projeto 03:037.11-001 - "Pára-raios de resistor não-linear a óxido metálico,


com centelhadores série, para circuitos de potência de corrente alternada" -
Especificação.

• Projeto 03:037.11-002 - Março/91 "Pára-raios de resistor não-linear a óxido


metálico, com centelhadores série, para circuitos de potência de corrente
alternada" - Método de ensaio.

Em geral, as Normas técnicas aplicadas a um determinado tipo de pára-raios


prescrevem basicamente os mesmos tipos de ensaios, diferindo em alguns casos
no procedimento para a realização desses.

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Além das Normas técnicas e projetos de Normas, existem as Especificações


Técnicas próprias das empresas concessionárias. Estas Especificações Técnicas
tendem a incluir ensaios e características que representem comportamentos no
campo inerentes ao sistema considerado.

A seguir será apresentada a listagem de ensaios realizados em pára-raios com e


sem centelhadores, segundo as Normas IEC e NBR e projetos de Norma da NBR:

9.2.1 Ensaios aplicados a pára-raios com centelhadores

• Ensaios de tipo:

1. Ensaios de tensão disruptiva de freqüência fundamental seco e chuva (1,2);


2. Ensaios de tensão disruptiva de impulso atmosférico:
- Ensaio de tensão disruptiva de impulso atmosférico Normalizado (1,2);
- Ensaio de tensão disruptiva de impulso atmosférico com alta probabilidade
de disrupção (1,2) (A);
- Ensaio de tensão disruptiva na frente do impulso (1,2);
- Levantamento da curva "Tensão disruptiva de impulso atmosférico x
tempo" (1,2);
3. Ensaios de tensão disruptiva de impulso de manobra a seco e sob chuva,
quando aplicáveis (1);
4. Ensaio de tensão residual:
- Ensaio de tensão residual para impulso atmosférico (1,2);
- Ensaio de tensão residual para impulso de manobra (1);
5. Ensaios de corrente suportável de impulso:
- Ensaio de corrente de impulso elevada (1,2);
- Ensaio de corrente de impulso retangular de longa duração, para pára-raios
5 kA e 10 kA servi,co leve (1,2);
- Ensaio de descarga de linhas de transmissão, aplicável a pára-raios 10 kA
serviço pesado e pára-raios de 15 kA e 20 kA (1);
6. Ensaio de ciclo de operação a corrente de descarga nominal (1,2);
7. Ensaios de alívio de sobrepressão interno, quando aplicável;
- Ensaios de alívio de sobrepressão com corrente elevada;
- Ensaios de alívio de sobrepressão com corrente reduzida;
8. Ensaios de tensão de radio interferência e de ionização interna (1,2) (A,B);
9. Ensaios de tensão suportável no invólucro sem a parte interna ativa (1,2) (A);
10. Ensaios do desligador automático, quando aplicável (1,2);
11. Ensaio de poluição artificial (1);
12. Ensaio de estanqueidade (1,2) (A);
13. Ensaio de corrente de fuga, quando aplicável (1;2) (A) (B).

(1) - ensaios aplicados a pára-raios de SiC.


(2) - ensaios aplicados a pára-raios de ZnO com centelhadores.
(A) - ensaios para pára-raios de SiC prescritos somente pelas Normas NBR.
(B) - ensaios para pára-raios de ZnO com centelhadores, prescritos somente
pelo projeto de Norma da NBR.

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• Ensaios de rotina:

1. Ensaio de tensão disruptiva de freqüência fundamental a seco (1,2);


2. Ensaio de corrente de fuga, quando aplicável, na tensão F-T do sistema (1,2);
3. Ensaio de estanqueidade (1,2);
4. Ensaio de estanqueidade (2) (A)
5. Ensaio de rotina nos resistores não-lineares (2)

• Ensaios de recebimento:

1. Verificação visual e dimensional (1,2); (A)


2. Ensaio de tensão disruptiva de freqüência fundamental a seco (1,2);
3. Ensaio de tensão disruptiva de impulso atmosférico, sob forma de onda
Normalizada (1,2);
4. Ensaio de tensão residual (1,2)
5. Ensaio de medição da corrente de fuga, quando aplicável (1,2);
6. Ensaio de estanqueidade (1,2);
7. Zincagem (1,2) (A)

9.2.2 Ensaios aplicados a pára-raios sem centelhadores

• Ensaios de tipo:

1. Ensaios de tensão suportável no invólucro sem a parte interna ativa;


2. Ensaio de tensão residual:
- Ensaio de tensão residual para impulso de corrente íngreme;
- Ensaio de tensão residual para impulso atmosférico;
- Ensaio de tensão residual para impulso de manobra;
3. Ensaios de corrente suportável de impulso:
- Ensaio de corrente de impulso retangular de longa duração, para pára-raios
2,5 kA (1) e 5 kA;
- Ensaio de descarga de linhas de transmissão, para os pára-raios 10 kA
classes 1 a 3 e 20 kA classes 4 e 5.;
4. Ensaio de ciclo de operação;
- Ensaio de ciclo de operação para impulso de corrente elevada;
- Ensaio de ciclo de operação sob impulso de manobra;
5. Levantamento da característica "tensão de freqüência fundamental x tempo";
6. Ensaio curto-circuito;
7. Ensaios de tensão de radio interferência e de ionização interna (2);
8. Ensaios do desligador automático, quando aplicável;
9. Ensaio de poluição artificial;
10. Ensaio de estanqueidade;
11. Ensaio de medição das descargas parciais;
12. Ensaios mecânicos – momento fletor;
13. Ensaios de envelhecimento sob tensão simulando as condições ambientais;
14. Ensaios de suportabilidade às agressões do ambiente;

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15. Ensaio de medição da taxa de vazamento em pára-raios poliméricos;


16. Ensaio de medição da tensão de referência (3);
17. Ensaio de distribuição de corrente, em pára-raios com mais de uma coluna;

• Ensaios de rotina:

1. Medição da tensão de referência;


2. Medição da tensão residual para impulso atmosférico à corrente de descarga
nominal;
3. Ensaio de medição das descargas parciais (4);
1. Medição da componente resistiva da corrente de fuga a MCOV (3)
2. Medição da corrente de fuga total a MCOV (3)
6. Ensaio de distribuição de corrente, em pára-raios com mais de uma coluna (4);
7. Ensaio de estanqueidade.
8. Ensaio de distribuição de corrente, em pára-raios com mais de uma coluna;

• Ensaios de recebimento:

1. Medição da tensão de referência;


2. Medição da tensão residual para impulso atmosférico à corrente de descarga
nominal;
3. Medição de descargas parciais (4);
4. Medição da componente resistiva da corrente de fuga a MCOV, quando
aplicável (3);
5. Medição da corrente de fuga total a MCOV, quando aplicável (3);
6. Ensaio de estanqueidade, quando aplicável (3);
7. Verificação visual e dimensional (3);
8 Ensaio de verificação do torque de instalação nos terminais dos pára-raios,
quando aplicável (3);
9. Ensaio de verificação da espessura da camada de Zinco, de acordo com a
NBR 8158 (3);
10. Ensaio de verificação da espessura da camada de Estanho, de acordo com a
ASTM – B 545;

• Ensaios especiais:

1. Ensaio de estabilidade térmica;


2. Ensaios de descargas múltiplas

(1) - Valor considerado somente na Norma IEC;


(2) - Ensaios de ionização interna somente pela Norma ANSI e Projeto NBR;
(3) - Ensaio previsto somente no Projeto da NBR;
(4) - ensaio prescrito somente pela Norma IEC e Projeto NBR.

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9.3 Verificação das características de proteção e de operação

Os ensaios de tipo aplicáveis aos pára-raios com e sem centelhadores podem ser
divididos em ensaios para verificação das características de proteção e para a
verificação das características de operação.

9.3.1 Ensaios de verificação das características de proteção:

Estes ensaios têm por objetivo estabelecer as características de proteção dos


pára-raios, cobrindo os ensaios de tensões disruptivas de freqüência fundamental
e de impulso (no caso de pára-raios com centelhadores), e as tensões
provenientes de impulsos de corrente.

Uma vez que a relação entre essas características e o nível de isolamento dos
equipamentos a serem protegidos indica o grau de proteção oferecido pelo pára-
raios, esses ensaios tornam-se extremamente importantes para que sejam
estabelecidos os critérios gerais de proteção.

A seguir, serão apresentadas, de forma sintetizada, a filosofia e os objetivos de


cada um destes ensaios, com ênfase para o ensaio de tensão residual. Os
procedimentos dos ensaios são descritos nas Normas aplicáveis.

• Ensaios de tensão disruptiva

A tensão disruptiva de um pára-raios consiste no valor de crista da tensão de


ensaio, que aplicada aos terminais de um pára-raios causa a sua disrupção. Os
ensaios de tensão disruptiva são aplicados somente a pára-raios constituídos por
centelhadores série (SiC e ZnO com centelhadores), estando relacionados com a
freqüência fundamental, impulso atmosférico e impulso de manobra.

- Ensaio de tensão disruptiva de freqüência fundamental:

Este ensaio, realizado a seco e sob chuva, tem por objetivo verificar se o pára-
raios quando em serviço, sob sua tensão nominal, não apresentará disrupção
devido às flutuações de tensão da rede bem como as sobretensões
sustentadas.

Em pára-raios de classe distribuição e pára-raios de 10 kA serviço leve, o


menor valor de tensão disruptiva de freqüência fundamental não deverá ser
inferior a 1,5 vezes a tensão nominal dos pára-raios.

Em pára-raios de 10 kA serviço pesado e acima de 10 kA, não existe um valor


mínimo padronizado para a tensão disruptiva de freqüência fundamental,
sendo utilizados geralmente, por acordo entre fabricante e comprador, valores
acima de 1,3 a 1,35 vezes a tensão nominal do pára-raios ensaiado.

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Este ensaio também é realizado antes e após alguns ensaios de tipo (ensaios
de característica operativa), de modo a verificar, por comparação dos
resultados, se houve alteração no comportamento dos centelhadores.

- Ensaio de tensão disruptiva de impulso atmosférico:

Este ensaio tem por objetivo verificar o comportamento dos centelhadores


série dos pára-raios, quando submetidos a impulsos atmosféricos, sendo
dividido em três ensaios distintos (*):

Ensaio de tensão disruptiva de impulso atmosférico na frente do impulso:

Neste ensaio é verificado o comportamento dos centelhadores série, quanto a


disrupção, para impulsos de tensão com tempos de frente inferiores a 1,2 µs,
simulando uma disrupção dos centelhadores provocada por descargas
atmosféricas próximas ao pára-raios. Neste ensaio, os centelhadores, de
acordo com a classificação e tensão nominal dos pára-raios, devem ser
capazes de atuar para um determinado impulso de tensão com taxa de
crescimento da tensão abaixo de valores limites, definidos em Norma.

Ensaio de tensão disruptiva de impulso atmosférico Normalizado:

Este ensaio tem por objetivo verificar se ocorre a disrupção dos centelhadores
série de um pára-raios quando da ocorrência de um impulso de tensão com
forma Normalizada (1,2/50µs) e amplitude definida em Norma. O valor de crista
da tensão de impulso, obtido deste ensaio, é definido por tensão disruptiva de
impulso atmosférico Normalizado do pára-raios.

Ensaio de determinação da característica "tensão disruptiva de impulso


atmosférico x tempo":

Esta curva é levantada com a finalidade de determinar os valores máximos de


impulsos de tensão com diversas inclinações e o tempo de disrupção, para os
quais os pára-raios cortarão a estes impulsos.

Esta curva é utilizada para a determinação das características de proteção dos


pára-raios constituídos por centelhadores série.

(*) A Norma NBR 5287, prescreve o ensaio de tensão disruptiva de impulso


atmosférico com alta probabilidade de disrupção.

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- Ensaio de determinação da característica "tensão disruptiva de impulso


de manobra x tempo":

Este ensaio, aplicado somente a pára-raios com correntes de descarga


nominal de 10 kA e acima, para tensões nominais acima de 100 kV, tem por
finalidade demonstrar o comportamento dos centelhadores série quando o
pára-raios for submetido à sobretensões de manobra que ocorrem na faixa de
30 a 1000 µs. Esta curva, em complemento a curva obtida para sobretensões
atmosféricas, é utilizada para a determinação das características de proteção
dos pára-raios classe estação, constituídos por centelhadores série.

• Ensaio de tensão residual

Este ensaio quando realizado como ensaio de tipo, tem por objetivo determinar a
queda de tensão produzida nos elementos não-lineares que constituem o pára-
raios, quando da passagem de correntes de descarga com forma de onda e
amplitude especificadas. O ensaio de tipo de tensão residual é realizado em três
corpos-de-prova de pára-raios completos ou seções destes, com tensão nominal
compreendida entre 3 a 12 kV.

Quando realizado na seção do pára-raios, a tensão residual do pára-raios


completo é geralmente definida como o resultado do produto do valor medido
sobre os corpos-de-prova ensaiados pela relação entre a tensão nominal do pára-
raios completo e a tensão nominal da seção. A metodologia acima é válida no
caso da montagem dos pára-raios com elementos de mesma tensão nominal.

Apesar de apresentar o mesmo objetivo, a filosofia deste ensaio difere um pouco


de acordo com o tipo de pára-raios ensaiado:

Em pára-raios constituídos por centelhadores série, o nível de proteção para


impulso atmosférico dos pára-raios é geralmente obtido dos ensaios de tensão
disruptiva de impulso atmosférico Normalizado ou na frente do impulso, enquanto
que o nível de proteção para impulso de manobra, quando aplicável, é obtido a
partir da determinação da curva "tensão disruptiva de impulso de manobra x
tempo". Para estes tipos de pára-raios é realizado o ensaio de tensão residual
para impulso atmosférico, cujo objetivo é levantar a característica "tensão residual
x corrente de descarga" do pára-raios.

Já no caso dos pára-raios de ZnO sem centelhadores, este ensaio determina o


nível de proteção dos pára-raios para impulsos atmosférico e de manobra,
quando aplicável. Neste caso, este ensaio é dividido em três etapas, cada etapa
representando uma determinada situação a que este tipo de pára-raios pode ser
submetido nos sistemas: ensaio de tensão residual para impulso de corrente
íngreme; tensão residual para impulso atmosférico; e tensão residual para impulso
de manobra, quando aplicável.

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• Ensaio de tensão residual em pára-raios com centelhadores:

A IEC 99-1/91 estabelece que cada um dos três corpos-de-prova deve ser
submetido a aplicação de impulsos de corrente com forma Normalizada (8/20µs)
e amplitudes correspondentes a meia, uma e duas vezes a corrente de descarga
nominal do pára-raios ou seção do pára-raios ensaiado. Os valores máximos de
tensão residual, obtidos para cada amplitude de corrente, são utilizados na
plotagem da curva "tensão residual x corrente de descarga". A NBR 5287/88,
aplicada a pára-raios de SiC e o projeto de Norma 3:037.11-002/90, aplicado a
pára-raios de ZnO com centelhadores, estabelecem, além das amplitudes de
corrente especificadas na IEC 99-1, uma quarta amplitude de corrente,
correspondente a 0,25 vezes a corrente de descarga nominal do pára-raios.

• Ensaio de tensão residual em pára-raios sem centelhadores:

Conforme descrito anteriormente, este ensaio é dividido em três etapas:

- Ensaio de tensão residual para impulso de corrente íngreme

Este ensaio tem por finalidade verificar o comportamento dos pára-raios de


ZnO sem centelhadores quando da ocorrência de uma descarga atmosférica
bem próxima ao pára-raios. Neste ensaio, cada um dos três corpos-de-prova
ensaiados devem ser submetidos a um impulso de corrente com tempo de
frente de 1 µs e tempo de meia onda inferior a 20µs e valor de crista igual a
corrente de descarga nominal do corpo-de-prova ensaiado. O maior valor de
crista de tensão obtido do ensaio é definido como tensão residual para impulso
de corrente íngreme.

- Ensaio de tensão residual para impulso atmosférico:

Neste ensaio, cada um dos três corpos-de-prova devem ser submetidos a


aplicação de impulsos de corrente com forma Normalizada (8/20 µs) e
amplitudes correspondentes a meia, uma e duas vezes a corrente de descarga
nominal do pára-raios ou seção do pára-raios ensaiado. Os valores máximos
de tensão residual, obtidos para cada amplitude de corrente, são utilizados na
plotagem da curva "tensão residual x corrente de descarga", sendo o maior
valor obtido para a corrente de descarga nominal, definido como tensão
residual para impulso atmosférico do pára-raios. O projeto de Norma 3:037.07-
002, aplicado a pára-raios de ZnO sem centelhadores, estabelece, além das
amplitudes de corrente especificadas na IEC 60099-4, uma quarta amplitude
de corrente correspondente a 0,25 vezes a corrente de descarga nominal do
pára-raios.

O maior valor de crista entre os valores de tensão residual para impulso de


corrente íngreme dividido por 1,15 e tensão residual para impulso atmosférico,

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obtidos dos ensaios acima, é definido como o nível de proteção do pára-raios para
impulso atmosférico.
Quando realizado como ensaio de recebimento, é verificada a tensão residual do
pára-raios no ponto correspondente a corrente de descarga nominal, devendo o
valor da tensão residual ser inferior ao máximo valor estabelecido em Norma, para
a classe de tensão e tipo de pára-raios considerado.

Este ensaio também é realizado antes e após a alguns ensaios de tipo, de modo a
se verificar, por comparação dos resultados, se houve variação no comportamento
dos elementos não-lineares durante estes ensaios.

- Ensaio de tensão residual para impulso de manobra

De acordo com a IEC 60099-4 este ensaio é aplicado a pára-raios com


correntes de descarga nominal de 10 e 20 kA. Neste ensaio, cada um dos três
corpos-de-prova deve ser submetido a impulsos de corrente com um tempo de
frente compreendido entre 30 a 100 µs e amplitudes definidas em Norma, de
acordo com a classe de descarga de linhas de transmissão do pára-raios. O
maior valor de crista de tensão, para os valores de corrente definidos em
Norma, é definido como nível de proteção para impulso de manobra do pára-
raios.

9.3.2 Ensaios de verificação das características de operação

Os ensaios de tipo de verificação das características de operação têm por


finalidade verificar em laboratório as características de operação de um dado
projeto de pára-raios. Dentre os diversos ensaios incluídos nesta classificação,
será abordado o ensaio de ciclo de operação, visto ser este ensaio o mais
representativo para se avaliar o desempenho dos pára-raios.

• Ensaio de ciclo de operação

Este ensaio tem por objetivo representar em laboratório as condições de serviço


aos quais os pára-raios são submetidos quando instalados nos sistemas elétricos.
O procedimento para realização do ensaio de ciclo de operação difere de acordo
com o tipo de pára-raios ensaiado:

- Ensaio de ciclo de operação em pára-raios com centelhadores

Este ensaio tem por finalidade principal verificar a capacidade dos corpos-de-
prova retornarem a sua condição de regime permanente, após a ocorrência de
impulsos de corrente, seguidos da aplicação de tensão alternada de freqüência
fundamental, sem que haja variações significativas nos seus componentes
internos. Este ensaio, prescrito nas Normas IEC, ANSI e NBR, é realizado em três
corpos-de-prova de pára-raios completos ou seções representativas destes pára-
raios, com tensões nominais compreendidas entre 3 a 12 kV.

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Quando da realização do ensaio em seções do pára-raios considerado, cuidados


especiais devem ser tomados com relação a montagem das seções. Uma seção é
considerada representativa do pára-raios completo se apresentar características
de disrupção de freqüência fundamental e corrente subsequente similares ao
pára-raios completo.

O procedimento deste ensaio, de acordo com as Normas acima citadas, consiste


na aplicação de vinte impulsos de corrente de forma 8/20µs e amplitude
equivalente a corrente de descarga nominal sobre os corpos-de-prova, enquanto
esses se mantém energizados à tensão nominal.

Segundo procedimentos das Normas IEC e NBR, mais utilizadas no Brasil, os


vinte impulsos de corrente são divididos em quatro grupos de cinco impulsos, com
intervalo entre grupos de 25 a 30 minutos, tempo considerado suficiente para os
corpos-de-prova retornarem a temperatura ambiente. O intervalo entre as
aplicações deve ser de 50 a 60 segundos. Todas as aplicações de impulso devem
ocorrer na faixa de 30 a 90 graus elétricos após o zero da tensão de freqüência
fundamental, devendo a polaridade do impulso de corrente ser a mesma da
tensão de freqüência fundamental.

A Norma ANSI C62.1/84, define o procedimento de ensaio baseado na aplicação,


sobre cada corpo-de-prova, de vinte quatro aplicações consecutivas de impulso,
com intervalo entre as aplicações de um minuto. Segundo este procedimento, os
impulsos de corrente ocorrem na faixa de 0 a 360 graus elétricos da tensão de
freqüência fundamental, em intervalos de 15 graus elétricos, mantendo-se a
mesma polaridade da corrente de descarga durante as vinte e quatro aplicações.

Para todas as Normas utilizadas, os corpos-de-prova são considerados aprovados


se forem capazes de interromper a corrente subsequente que flui através do pára-
raios posteriormente à passagem da corrente de descarga, bem como não
apresentar variações significativas nos ensaios de tensão disruptiva de freqüência
fundamental e tensão residual, realizados antes e após ao ensaio de ciclo de
operação e alterações nos seus componentes internos.

- Ensaio de ciclo de operação em pára-raios sem centelhadores

No caso dos pára-raios sem centelhadores, o objetivo principal deste ensaio é


verificar a capacidade dos corpos-de-prova de manterem a estabilidade térmica
após a aplicação de um determinado tipo de impulso, seguido da aplicação de
tensão alternada de freqüência fundamental. Este ensaio é realizado em três
corpos-de-prova de pára-raios completos ou seções representativas destes pára-
raios, com tensões nominais compreendidas entre 3 a 12 kV. Para este tipo de
pára-raios, uma seção é considerada representativa de um determinado pára-
raios, se apresentar as mesmas características elétricas e térmicas do pára-raios
completo.

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Pelo fato da grande maioria dos pára-raios atualmente adquiridos pelas empresas
concessionárias de energia elétrica ser do tipo ZnO sem centelhadores, este
ensaio se torna bastante importante, não só como ensaio de tipo, mas também
como ensaio de homologação do projeto considerado pelas empresas
concessionárias. Algumas empresas concessionárias de energia requerem a
realização do ensaio de ciclo de operação, para fins de homologação do projeto.

O ensaio de ciclo de operação pode ser dividido em três etapas:

- Ensaio de envelhecimento acelerado dos elementos de ZnO;


- Ensaio de verificação da equivalência térmica entre o pára-raios completo e
a seção do pára-raios ensaiado, caso o ensaio seja realizado em uma seção;
- Ensaio de ciclo de operação propriamente dito.

- Ensaio de envelhecimento acelerado dos elementos de ZnO

A primeira etapa do ensaio de ciclo de operação em um pára-raios de ZnO sem


centelhadores, consiste no ensaio de envelhecimento acelerado dos elementos de
ZnO usados na montagem dos pára-raios. Este ensaio, cuja finalidade é
determinar os valores corrigidos de tensão nominal e da máxima tensão contínua
de operação do pára-raios a serem aplicados aos pára-raios ou seções destes
durante o ensaio de ciclo de operação, consiste no em verificar as características
de envelhecimento dos elementos de ZnO por um período de tempo de 1000
horas, a uma temperatura de 115°C.

Durante o ensaio os elementos de ZnO ou pára-raios de ZnO devem ser


submetidos a um valor de tensão de ensaio correspondente a sua máxima tensão
contínua de operação corrigida em função do comprimento do pára-raios a ser
ensaiado, ou do maior pára-raios que atenda ao projeto considerado.

Em pára-raios com comprimento L menor do que 1 metro, a tensão de ensaio


deve ser corrigida por:

Uens = UMCOV . ( 1 + 0,15.L)

Uens Valor eficaz de tensão de ensaio a ser aplicada continuamente sobre os


corpos-de-prova durante o período de tempo de 1000 horas.
UMCOV Máxima tensão contínua de operação do pára-raios.
L Comprimento do pára-raios em metros – para L menor de 1 metro.

A correção de tensão acima, tem por finalidade representar os efeitos de uma


distribuição não uniforme de tensão ao longo do pára-raios, que provoca uma
maior solicitação elétrica sobre os elementos posicionados mais próximos ao
terminal de linha do pára-raios. De acordo com a equação acima, em pára-raios
com comprimento de 1 metro a tensão de ensaio deve ser aumentada em 15%.

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Em pára-raios com o comprimento maior do que 1 metro os corpos-de-prova


devem ser submetidos a uma tensão de ensaio correspondente a sua MCOV
multiplicada por um fato KT, que deve levar em consideração os efeitos de
distribuição não-uniforme de tensão ao longo dos pára-raios. Este fator deve ser
determinado a partir de medições de distribuição de tensão ou por simulação
computacional.

Com base na teoria de Arrenhius, existe um processo de envelhecimento


acelerado dos materiais dielétricos sólidos com a temperatura, podendo ser
estimado um fator de aceleração AFT definido por:

(∆T/10)
AFT = 2,5

∆T É a diferença de temperatura entre a temperatura de ensaio (°C), referida a


uma dada temperatura ambiente.

A Tabela 9.1 indica o tempo de vida prospectivo em função da temperatura


ambiente de trabalho, dado por um ensaio de envelhecimento com duração de
1000 h a temperatura de 115°C.

Tabela 9.1 – Tempo prospectivo máximo de vida

Faixa de temperatura ambiente Tempo mínimo de vida demonstrado


(°C) (anos)
40 110
65 11
95 0,7

De acordo com a expressão acima, este ensaio representa a operação do pára-


raios submetido a uma temperatura média de operação de 40°C, por 110 anos.

Os corpos-de-prova devem ter as suas perdas medidas, inicialmente, dentro de


um intervalo de uma a duas horas após a aplicação da tensão (P1ct).

Posteriormente, os corpos-de-prova devem ser medidos pelo menos uma vez a


cada 100 horas após a primeira medição. Por fim as perdas são medidas ao final
das 1000 horas de ensaio ( - 0 + 100 horas), fornecendo o valor P2ct .

O menor valor das perdas entre aqueles medidos a cada 100 horas após a
primeira medição, será considerado como o valor P3ct . A Tabela 9.2, resume os
procedimentos de ensaio em função dos resultados obtidos:

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Tabela 9.2 - Procedimento para o ensaio em função dos resultados obtidos

Perdas medidas Amostras e tensões para o ensaio de ciclo


P2ct ≤ 1,1. P3ct e P2ct ≤ P1ct novas amostras a Un e UMCOV
P2ct ≤ 1,1. P3ct e P2ct > P1ct novas amostras a Un e UMCOV corrigidos
P2ct > 1,1. P3ct e P2ct < P1ct amostras envelhecidas a Un e UMCOV
amostras envelhecidas a Un e UMCOV ou
P2ct > 1,1. P3ct e P2ct ≥ P1ct novas amostras a Un e UMCOV corrigidos,
conforme acordo fabricante e comprador

- Ensaio de verificação da equivalência térmica entre o pára-raios completo


e a seção do pára-raios:

Este ensaio deve ser realizado anteriormente ao início do ensaio de ciclo de


operação de forma a verificar, através do levantamento das curvas “temperatura
de resfriamento x tempo”, a equivalência térmica entre a seção a ser ensaiada e o
pára-raios completo.

No caso da disponibilidade dos resultados do ensaio de ciclo de operação para um


pára-raios de tensão nominal Un, este pára-raios poderá vir a ser uma seção
equivalente de outros pára-raios de mesmo projeto, porém com diferentes tensões
nominais, desde que a(s) curva(s) “temperatura de resfriamento x tempo” deste(s)
pára-raios esteja(m) abaixo da curva do pára-raios já ensaiado. Neste caso, torna-
se necessário fazer o levantamento da curva do pára-raios que se deseja ensaiar.

O procedimento de ensaio consiste na energização dos corpos-de-prova com uma


tensão alternada de freqüência fundamental com amplitude superior a tensão de
referência das mesmas, até que a temperatura interna do conjunto ensaiado atinja
a 120 °C. A temperatura dos corpos-de-prova pode ser medida por meio de
termopares instalados ao longo das mesmas. Uma vez atingida a temperatura e
verificada a sua estabilização os corpos-de-prova ensaiados devem ser
desenergizadas, sendo levantada, para cada corpos-de-prova, a curva
“temperatura de resfriamento x tempo”. A seção a se ensaiada é considerada
representativa do pára-raios completo se, durante todo o período de resfriamento
a sua curva for igual ou superior a curva obtida para o pára-raios completo.

A título de exemplificação, a Figura 9.1 apresenta as curvas “temperatura de


resfriamento x tempo” obtidas para um determinado tipo de pára-raios completo e
a sua seção representativa. Observando-se as curvas apresentadas, pode ser
verificada a equivalência térmica entre o pára-raios e a sua seção equivalente.

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Figura 9.1 – Equivalência térmica entre o pára-raios


completo e a sua seção

Quando do ensaio para o levantamento dos pontos para o traçado das curvas
características é importante que as temperaturas ambientes sejam mantidas
dentro de valores bem próximos.

- Ensaio de ciclo de operação com estabilidade térmica

De acordo com a classificação dos pára-raios, a IEC 60099-4 estabelece dois


diferentes ensaios de ciclo de operação:

• Ensaio de ciclo de operação para impulso de corrente elevada,


aplicado a pára-raios com correntes de descarga nominal de 1,5 kA;
2,5 kA; 5 kA e 10 kA classe 1 de descarga de linhas de transmissão.

Este ensaio tem por finalidade verificar o comportamento dos corpos-de-prova


quando esses são solicitados por impulsos de alta corrente e curta duração.
Inicialmente, os corpos-de-prova devem ser submetidos ao ensaio de
condicionamento, o qual de forma similar ao ensaio de ciclo de operação aplicado
aos pára-raios com centelhadores, consiste na aplicação de vinte impulsos de
corrente com forma de impulso 8/20 µs e amplitude equivalente a corrente de
descarga nominal da seção ensaiada. Os vinte impulsos são divididos em quatro
grupos de cinco impulsos. O intervalo entre impulsos de um mesmo grupo deve
ser de 50 a 60 segundos, e entre grupos de impulso de 25 a 30 minutos.

Posteriormente os corpos-de-prova são submetidos a aplicação de um impulso de


corrente elevada, com forma de onda 4/10µs e amplitude definida em Norma.

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Após os ensaios de condicionamento, os pára-raios ou seções representativas de


pára-raios são aquecidos em estufa à temperatura de 60 ± 3°C. Uma vez
atingida a temperatura de ensaio e verificada a sua estabilização, cada corpo-de-
prova deve ser submetido a uma aplicação de um impulso de corrente elevada,
com forma de onda 4/10µs e amplitude definida em Norma, de acordo com a
corrente de descarga nominal da seção.

De forma a se comprovar a estabilidade térmica dos corpos-de-prova, em


seguida a segunda aplicação de impulso de corrente elevada e após um
intervalo de tempo não superior a 100 ms, é aplicada sobre o corpo-de-prova a
sua tensão nominal corrigida da seção por 10 segundos, representativa de uma
sobretensão temporária, seguida da aplicação da máxima tensão contínua de
operação corrigida por 30 minutos.

De modo a se comprovar a estabilidade térmica do corpo-de-prova, ou seja, a sua


capacidade de dissipar a energia proveniente do impulso de corrente elevada, a
tensão aplicada e a corrente de fuga, temperatura dos corpos-de-prova ou perdas
Watts (pelo menos uma destes três parâmetros) devem ser registradas
continuamente.

A verificação da estabilidade térmica de um corpo-de-prova submetido ao ensaio


de ciclo de operação para impulso de corrente elevada é apresentada na Figura
9.2. O parâmetro registrado, neste caso, foi a temperatura da seção em função do
tempo de ensaio. Da Figura, pode-se observar a redução da temperatura ao longo
do tempo, evidenciando a estabilidade térmica do corpo-de-prova.

Figura 9.2 – Verificação da estabilidade térmica do corpo-de-prova

As Figuras 9.3 e 9.4 ilustram a verificação da estabilidade térmica de um tipo de


pára-raios, através do monitoramento da sua corrente de fuga durante a MCOV.

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Figura 9.3 – Medição da corrente de fuga 2 min. após aplicação da MCOV

Figura 9.4 – Medição da corrente de fuga 30 min. após aplicação da MCOV

Observando-se as amplitudes das correntes de fuga que fluem pelos pára-raios


para tempos de 2 minutos e 30 minutos após a aplicação da MCOV é possível
constatar a estabilidade térmica do pára-raios ensaiado.

Posteriormente ao ensaio de ciclo de operação, deve ser realizada a medição da


tensão residual a corrente de descarga nominal. O valor obtido deve ser
comparado com o valor medido antes do início do ensaio, não devendo haver uma
variação superior a 5% entre os valores medidos.

Por último, faz-se a inspeção visual, não devendo ser observados sinais de
perfuração ou trincas dos elementos de ZnO, bem como evidências de descargas
externas pela superfície lateral dos elementos.

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• Ensaio de ciclo de operação para impulso de manobra, aplicado a


pára-raios com corrente de descarga nominal 10 kA, classes 2 e 3 e
20 kA, classes 4 e 5.

Inicialmente, os corpos-de-prova devem ser submetidos ao ensaio de


condicionamento, que consiste de dois ensaios: o primeiro consiste de 20
aplicações de impulsos com forma de onda 8/20 µs, similar ao ensaio descrito no
item anterior. o segundo, consiste na aplicação de dois impulsos de corrente
elevada, com forma de onda 4/10 µs e amplitude de 100 kA.

Após aos ensaios de condicionamento, os pára-raios ou as seções representativas


do pára-raios completo são aquecidas em estufa à temperatura de 60 ± 3°C. Uma
vez atingida a temperatura de ensaio e verificada a sua estabilização, cada corpo-
de-prova deve ser submetido a dois impulsos de descarga de linhas de
transmissão, sob condições especificadas em Norma. O intervalo entre as
aplicações de impulso devem ser de 50 a 60 segundos.

De forma a se comprovar a estabilidade térmica dos corpos-de-prova,


imediatamente após a segunda aplicação de descarga de linhas de transmissão e
em um intervalo de tempo não superior a 100 ms, o corpo-de-prova é submetido a
aplicação da tensão nominal corrigida, se necessário, por 10 segundos,
representando uma sobretensão temporária, seguida da aplicação da máxima
tensão contínua de operação corrigida por 30 minutos.

Tal como no ensaio anterior, de modo a se comprovar a estabilidade térmica do


corpo-de-prova, ou seja, a sua capacidade de dissipar a energia proveniente dos
impulsos de descarga de linha, a tensão aplicada e a corrente de fuga,
temperatura dos corpos-de-prova ou perdas watts (pelo menos uma destes três
parâmetros) devem ser registradas continuamente.

Posteriormente ao ensaio de ciclo de operação, deve ser realizada a medição da


tensão residual a corrente de descarga nominal. O valor obtido deve ser
comparado com o valor medido antes do início do ensaio, não devendo haver uma
variação superior a 5% entre os valores medidos.

Por último, faz-se a inspeção visual, não devendo ser observados sinais de
perfuração ou trincas dos elementos de ZnO, bem como evidências de descargas
externas pela superfície lateral dos elementos.

• Ensaio de corrente suportável de longa duração

Os ensaios de corrente suportável de longa duração, definidos como corrente de


impulso retangular (para pára-raios de 2,5 kA e 5 kA) e descarga de linhas de
trnasmissão ( pára-raios 10 kA, classes 1 a 3 e 20 kA, classes 4 e 5), verificam a
capacidade dos pára-raios de ZnO ou seções destes absorverem energias
proveniente de manobras de linhas.

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9.4 Ensaios específicos aplicáveis a pára-raios poliméricos

Com o crescimento dos pára-raios com invólucro polimérico três ensaios têm se
mostrado muito importantes para a avaliação do desempenho desses pára-raios.

- Ensaio de corrente de falta, o qual verifica a integridade mecânica dos pára-


raios no caso de uma eventual falha do pára-raios, seguida pela passagem da
corrente de curto-circuito do sistema;

- O ensaio de penetração de umidade, onde são simuladas condições que


propiciam a entrada de umidade pelo interior dos pára-raios.

- Ensaio de envelhecimento acelerado do invólucro isolante, o qual verifica o


desempenho do material polimérico utilizado no invólucro do pára-raios,
quando submetido a diferentes condições ambientais.

A Figura 9.5 exemplifica o procedimento utilizado para o ensaio de 5000 horas,


contemplado na última versão da IEC 60099-4.

Tempo (horas) 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 22 24
Tensão de ensaio (Um / √3)
Chuva desmineralizada
Aquecimento (50°C)
Humidade relativa (95%)
Névoa salina (7 kg/m3)
Radiação solar (UV)

Figura 9.5 - Ciclo diário do ensaio de envelhecimento acelerado

9.5 Referências bibliográficas

/1/ IEC 60099-4 Ed 2.1 – 2006, “Surge Arresters - Part 4: Metal-Oxide surge
arresters without gaps for a.c. systems".
/2/ IEC 99-1/1991, “Surge Arresters - Part 1: Non-linear resistor type gapped surge
arresters for a.c. systems".
/3/ IEEE Std. C62.11/2005, "IEEE Standard for Metal-Oxide surge arresters for AC
power circuits".
/4/ IEEE Std. C62.1/1984, "IEEE Standard for surge arresters for AC power
circuits".
/5 NBR 5287/88, "Pára-raios de resistor não-linear a Carboneto de Silício (SiC)
para circuitos de potência de corrente alternada" - Especificação.

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/6/ NBR 5309/91, "Pára-raios de resistor não-linear a Carboneto de Silício (SiC)


para circuitos de potência de corrente alternada" - Método de ensaio.
/7 Projeto 3:037.11-001, "Pára-raios de resistor não-linear a óxido metálico, com
centelhadores série, para circuitos de potência de corrente alternada" -
Especificação.
/8/ Projeto 3:037.11-002- Março/91, "Pára-raios de resistor não-linear a óxido
metálico, com centelhadores série, para circuitos de potência de corrente
alternada" - Método de ensaio.
/9/ Projeto 03:037.07-001, "Pára-raios de resistor não-linear a óxidos metálicos
sem centelhadores, para circuitos de potência de corrente alternada" -
Especificação.
/10/Projeto 03:037.07-002, "Pára-raios de resistor não-linear a óxidos metálicos
sem centelhadores, para circuitos de potência de corrente alternada" - Método
de Ensaio.

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