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Jacques Lacan

A identificação
Seminário 1961-1962

Centro de Estudos Freudianos do Recife


facebook.com/lacanempdf

Jacques Lacan

A Identifcaç
ão
Seminário
1961-1962

EXCLUSIVA PARA OS MEMBROS

CENTRO
DE ESTl'DOS

HEClfE, OUTUBRO 2001


TÍTULO OOORICrINAL

L'IDENTIFICATION
Publicação intera da Association freud
ienne intemationale

TRADUTORES
Ivan Corrêa
Marcos Bagno

REVISORES
Dominique Fingermann
Francisco Settineri
Letícia P Fonsêca*

• l{l·spons:vcl (lL'la coordl'naçào tio projeto tlc t


ra<lução e editoração
Copyrigt© by Jacques Lcan

Lca, Jacques

Tr ad. Ivan Corrêa e Marcos Bagno - R


ecife: Centro de Estudos

Título orignal: L identification

1. Psicanálise. I. Título. II. Subtítulo.


159.9
CDU

Jo:diloraçáo Gráfca: Carlos Marrocos


lmprcssáo: Edições Bagaço
1111a dus Arcos, 1 GO - Poço da Panela

'.\OO:\
lo11p11·:,:,11 1111 111,isil
AVISO AO LEITOR

Esta tradução é efeito de uma transfe


rência de trabalho
interinstitucional, em lugares onde o
ensino de Lacan se
inscreve, se processa e se desdobra. Per
mite-nos inscrever mais

a partir da leitura textual da obra de Jac


ques Lcan. Ora, como
a carta roubada, esse legado passa ad
iante. Dá-se, assim,
continuidade ao ensino e transmissão d
a psicanálise, tecendo
se novos la<os e abrindo-se novas perspe
ctivas de interlocução.
Reconhecendo a import[rcia de pres
ervar o estilo e a
subjetividade do autor, os tradutores e
revisores procuraram
manter-se fiéis à letra, evitando qual
quer elucidação que
pudesse induzir o leitor. Assim, os mistéri
os foram suportados e
os enigmas passados adiante, deixando-
se ao leitor o direito de
saboreá-los.
Realizada inicialmente a partir das not
as estenografadas dos
seminários de Lacan e, a seguir, cotejada
pelo texto estabelecido

comercial.
Agadecendo a todos que colabraa con
osco tornando possível
esta edição, fca aqui um convite àquel
es que queiram levar
adiante este projeto, através de sugestões o
u correções, que serão
sempre bem-vindas, faendo circular a pa
lavra de Lcan.

LT
Sumário

1 ............................. 11
Lição II, 22 de novembro
de 1961 ...........................
. 25
Lição Ili, 29 de novembro
de 1961 ..........................
37
Lição IV 6 de dezembro d
e 1961 .............................
51
Lição V 13 de dezembro
de I 961 ...........................
.. 67
Lição VI, 20 de dezembro
de 1961 ...........................
79
Lição VII, 10 de janeiro d
e 1962 ............................
.. 95
Lição VIII, 17 de janeiro
de 1962 ..........................
. 115
Lição IX, 24 de janeiro de
1962 ............................. 1
33
Lição X, 21 de fevereiro d
e 19G2 ............................
147
Lição XI, 28 de fevereiro
de 1962 ..........................
159
Lição XII, 7 de março de
19G2 ...............................
173
Lição XIII. 14 de março d
e I 862 ............................
189
Lição XIV 21 de março d
e 1962 .............................
205
Liçtw XV 28 de março de
Jnfi2 ..............................
219
Lição XVI, 4 de abril de 1
9G2 .................................
237
Liç:io XVII, 11 de abril de
I Di2 ..............................
251
Lição XVIII, 2 de maio de
19G2 ..............................
277
Lição XIX, 9 de maio de
1962 ................................
305
Lição XX, I 6 de maio de
1962 ................................
319
Lição XXI, 23 de maio de
1 �lCi2 .............................
. 331
Lição XXII, 30 de maio de
1962 ............................. 3
45
Lição XXIII, 6 de junho d
e 1962 ............................
:m1

1
Lição XXVI, 27
.ll!l
nho de 1%2 ............
..
LIÇAO I
1 5 de novembro de 1961

A Identificação, est
e é meu título e meu a
ssunto deste ano. É u
m
bom tÍlulo, mas não é u
m assunto cômodo. Não
penso que vocês tenha
m
a idéia de que seja uma
operação ou um process
o muito fácil de conceber
.
Se é fácil constatá-lo, s
eria, entretanto, talvez pr
eferível, para bem const
atá
lo, que fzéssemos um
pequeno esforço para c
oncebê-lo. Segurament
e
temos encontrado efeito
s suficientes disso para n
os mantermos no sumári
o,
quero dizer, em coisas
que são sensíveis, inclu
sive em nossa experiên
cia
interna, para que você
s tenham um certo sent
imento do que seja. Es
se
esforço para concebe
r lhes parecerá juslific
ado, posteriormente -
ao
menos este a
no, quer dizer, um ano
que não é o primeiro
de nosso
ensino - sem dúvida al
guma pelo lugar, pelos
problemas aos quais es
se
esforço nos conduzirá
.
Va mos dar hoje um p
rimeiríssimo passo ness
e sentido. Peço desculpa
s,
isto vai levar-nos, talv
ez, a fazer esses esfor
ços que chamamos, pa
ra
falar propriamente, de p
ensamento. Isto não nos
ocorrerá freqüentemente
,
a nós não mais que aos
outros.
A ldenlifcação, se a t
omamos por título, por t
ema de nossa exposiçã
o,
convém que falemos
dela de maneira difere
nte do que sob a form
a,
podemos dizer, mítica, s
ob a qual a deixei no an
o passado. Havia qualqu
er
coisa dessa ordem, emi
nentemente da ordem d
a identifcação, que esta
va
implicada, vocês se lem
bram, nesse ponto onde
deixei minha exposlç,1o

no ano passado, a saber


, no nível em que, se po
sso dizer, o lençol ú111ld
o
com a qual vocês repr
esentam os efeilos nar
císicos que cercam t'HN
II

rocha, o que emerga e


m meu esquema , essa
rocha auto-erótica 1·11111
A Ientiicaçâo

emergência o falo simbol


iza, ilha, em suma batida
pela espuma de Afrodite,
flsa ilha, pois, aliás, da
mesma frma como aqu
ela onde figura o Proteu
de Claudel, é uma ilha
sem amarra, uma ilha
que vai à deriva. Vocês

sabem o que é o Proteu


de Claudel: é a tentativa
de completar o Orestes
através da farsa bufona q
ue na tragédia grega a co
mpleta obrigatoriamente,
e da qual só nos restam,
cm toda a literatura, dois
destroços de Sófocles
e um Hércules de Euríp
edes, se minha memóri
a está boa. Não é sem
intenção que evoco est
a referência a propósito
da forma como no ano
passado meu discurso s
obre a transferência ter
minava com essa image
m
da Identificação. Apesar
de meus belos esforços,
eu não poderia marcar
2
a barreira onde a trans
ferência encontra seu l
imite e seu
pivô. Sem nenhuma dúv
ida, não estava ali a bel
eza da qual lhes ensinei
,
que é o limite cio trágic
o, que é o ponto em qu
e a Coisa inapreensível
nos verte sua eutanásia.
Não embelezo nada, ap
esar do que se imagina
ao escutar, às vezes, al
guns rumores sobre o q
ue ensino, cu não facilit
o
muito o jogo para vocês."
Eles sabem disso, aquele
s que outrora escutaram
meu scmin;írio sobre a
Ética, aquele no qual
abordei exatamente a
função dessa barreira d
a beleza sob a forma da
agonia que exige ee nós
4

Eis, então, onde termin


ava A Transferência no
ano passado. In diquei
a todos aqueles que assi
stiram as jornadas provin
ciais de Outubro, pontuei,
sem poder lhes dizer
mais, que havia, ali, um
a referência escon dida

num cômico, que é o po


nto além do qual cu não
podia levar mais longe
o que eu visava em um
a certa experiência, indi
cação, se posso dizer, a

ser reencontrada no sen


ti do escondido do que s
e po deriam chamar os
criptogramas desse se
minário, e que, afinal, c
u não perco a esperanç
a
de que um dia um com
entário o explicite e o c
oloque cm evi dência, j
á
que ocorreu alé de obte
r esse testemunho que,
neste lugar, é uma boa
esperança. 1� que o s
e minário do penúltimo
ano, aquele sobre a Étic
a,
'ctiva1nentc
reto mado - e no
dizer daqueles que pu
dera m ler o
Lral>allw, com pleno su
cesso - por alguém que
Leve o trabalho ele rel
ê
lo para resumir seus el
ementos, principalmen
te o Sr. Safouan, e cu
1·spno que, talvez, essa
s coisas possam ser post
as bastante rapidamente
ao aka11cc de vocês, p
ara que aí se possa en
cadear o que vou lrazc
r
llll's 1·s11· ano.

-12-
Liçiio de 15 de 1w11embro de 1961

Saltando um ano sobre o segundo depois


desse, isso pode lhes parecer
colocar uma questão, ainda que lamentá
vel como um atraso, náo é,
contu do, inteiramente justificado, e vocês
verão que, se retomarem a
seqüência de meus seminários desde o an
o de 195 3, o primeiro sobre
Os Escritos Técnicos, o seguinte sobre O Eu, a T
écnica e a Teoria freudianas
e psicanalíticas, o terceiro sobre As Estrutu
ras freudianas da Psicose,
o quarto sobre A Relação de Objeto, o quin
to sobre As Formações do
Inconsciente, o sexto sobre O desejo e sua int
erpretação, depois A Ética,
A Transferência, A Identificação ao qual ch
egamos, são nove. Vocês
podem facilmente encontrar aí uma alternâ
ncia, uma pulsação. Vo cês
verão que de dois em dois domina, alterna da
mente, a temática do sujeito
e a do significante, o que, dado que é pelo s
ignificante, pela elaboração
da função do simbólico que começamos, f
az também recair este ano
sobre o significante, posto que estamos
er número ímpar, já que o
im portante na identificação deve ser, propri
amente, a relação do sujeito
com o significante.
Essa identificaçáo, pois, da qual pro pomo
s Lentar dar este ano ula
noção adequada, sem dúvida a análise a tom
ou para nós bastante tr ivial,
de modo que alguém que me é bem próxi
mo e me escuta tão bem me
disse: "Eis este ano o que você escolhe, a i
dentificação", isto, com uma
careta: "Explicação que serve para tu do!".
Deixan do transparecer, ao
mesmo tempo, alguma decepção relativa,
em suma, ao fato de que se
esperava de mim outra coisa. Que esta pes
soa não se engane! De fato,
sua expectativa de me ver escapar ao Lcmà, se p
osso dizer, será decepcionada,
pois espero tratá-lo bem, e espero que tamb
ém se dissolva a fadiga que
este tema lhe sugere por anteci pação. Falarei
exatamente da identifcação
mesma. Para precisar logo o que entendo p
or isso, direi que, quando se
fala de identificação, o que se pensa prim
eiro é no outro a quem nos
identificamos, e que a porta me é facilm
ente aberta para enfatizar,
para insistir sobre essa diferença entre o outr
o e o Outro, entre o pequeno
outro e o !'ande Outro, que é um Lema sobre o
qual posso dizer precisamente
que vocês estão desde já familiarizados. Não
é, contudo, por este aspecto
que preten do começar. Vou, antes, enfatiza
r o que, na identificação, se
coloca imediatamente como idêntico, como
fundado sobre a noção do
mesmo, e mesmo, do mesmo ao mesmo, c
om Ludo o que isto traga de
dificuldades.

-13-
1l lde11t(1cação

\ 111'1·� 11:111 d1·i:a111 de sa


ber, mesmo sem poder ma
rca r muito rapi damente
1p
st· i"· liw igual assim, p
or que separá-lo dele m
esmo , para tão depress
a
aí n·t·oloc:í-lo?
Isto n{to é puro e si
mples jogo de espírito.
Obse rvem, por exempl
o,
qu e na linha de um mo
vimento de elabo ração
conceituai que se cham
a
el e lôgico-positivismo, n
o qual al gun s po dem e
sforça r-se por al can ça
r
uma certa 111eta que ser
ia, po r exemplo, a de rdo
colocar problema ló gico,
a menos que haja um se
ntido lo calizável, como t
al, em alguma experiênci
a
cru cial, estariam decidi
dos a re chaçar seja o q
ue fr do problema lógico
que não possa, de algum
a maneira, oferecer essa
ga ra ntia última, dizendo

qu e é um problema de
sprovido de sentido co
mo tal.
Não obstante, não é m
enos verdade que , se
Russell po de dar em
seus Princípios matem
áticos um valo r à equa
ção , ao estabeleciment
o
da igual da de de A = A
, po r seu lado Wi ttgens
tein opo r-se-á a ela, e
m
ra záo prop riamente de
impasses que lhe parece
m re sultar daí, em nome
dos princípios de partida,
e essa re cusa será mes
mo fixada algeb ri cament
e,
sendo tal igual dade ob ri
ga da a um desvio de no
tação , para encont ra r o
que pode se rvi r de equ
ivalente ao re conhe cim
ento da identidade A é A.

Quanto a nós, vamos -


deixando cla ro que não
é, em absoluto, a via do
positi vismo 16gico a que
nos parece, cm mat éria
de lóg ica, ser de al gum
a
maneira, justif"cad a -
nos inlcrroga r, qu ero
dizer, no nível de uma
expe ri ên cia de fala, aq
uela na qual confamos at
rav és de

-14-
Lição de 15 de novembro de 1961

É assim que poderemos nos deter naquilo qu


e é o ter1110, 011 1111�·;111
substa ntivada do termo, de identi dade - em i
dentidade, idc11t ilü:a<;a11,
ma cxpcri(:11cia
si gnificativa está suportada no te rmo francês
vulgar, suporte da 11H·s 111a
fu nção sign il'ica nte, a do mesmo. Parece,
com ef eito, que seja o em,
sufixo de id em idem , o que encontramos op
e rando a fu nção, cu direi ,
ele radical , na evoluçfo cio indo-europeu n
o nível de um certo 11ú11H·r
de línguas itúlic as ; es te cm é aqui du plic a
do, consoante antiga que se
.ncontra pois como o res íduo, a re líqui a,
o retorno a uma te mátic a
primi tiva , mas não sem te r re colhido de pas
s agem a fase interme diária
da etimologia , positiv amente, do nascime n
to desse mesmo, que é um
metipsum familiar latino, e mesmo um met
ips issimum do baixo latim
expressivo, portanto, leva a rec onhecer em qu
al direção aqui , a experiência
nos sugere procurar o sentido de to da identi
dade, no coração do que se
designa po r uma espécie de reduplicação d
e mim mesmo [moi-même [;
esse mim mesmo sendo já, se quise rem, esse
metipsissimum, uma espécie
"do dia", de "no dia de hoje " [d'au jour d'auj
ou rd 'hui ], de que não nos
apercebemos , e que está bem aí no mim
mesmo. É, então, em um
metipsissimum que se precipitam, depois d
o eu [moi], o tu [toi ], o ele ,
o el a, o eles, o nós, o vós, e até o se [soi], qu
e acontece ser, em francês,
um si-mesmo [soi -mêmc]5. Também vemos
aqui, em suma, em nossa
língua , u111a espécie de inclicaçfo de u111 tr
abal ho, de u111a tendência
signi l1cativa especial , que vocês me permiti
rão qualificar de mihilismo
[mi hilisme], na me dida em que essa experiê
ncia do eu [moi [ se re fe re
a esse ato. Segura mente , a cois a não teria u
m inte resse senão incidental,
se não tivéssemos que encontrar outros traço
s nos quais se re vela esse
fato , esS4 diferença nítida e fácil de assina
lar, se pensarmos que em
gre go , o autos do si é aquele que serve pa ra
designar também o mesmo,

f, que virão a
fu ncionar para designar a identidade. Portan
to, esta espécie de metá fra
permane nte na locução francesa, penso ,
não é por nada que nús a
destacamos aqui, e nos interrogamos.
Deix aremos entrever que talvez ela não dei
xe de ter rel ação com o
fato de um nível bem outro, de que seja em fr
ancês , qu ero di zer, <1111
Descartes, que se tenha po dido pensar o s
er como incrente ao st\jt·ilo,
de um modo, em suma, que diremos bastante
cativante, pelo q11c, d<·sde

-15-
A Identicação

De sde então , 11fo


me sinto mal honrado q
u e me in terroguem sob
re
esse tema : "Onde está a
verda deira verda de de
seu discurso ?". E posso
me smo, afinal, ac har
que é jus tamen te enq
ua nto não me tomam p
or
um filúsofo, ma s por u
m psicanalis ta , que m
e colocam es ta ques t
ão.
Po is uma elas coisas ma
is no tá v eis na litera tura
filosófica é, a que pon to,
"

maiores entre eles não p


ensa ram
urna pala vra do que ele
s nos comun icaram pret
o no branco, e se permit
em
pensar, a propós ito de
Descar tes, por exemplo
, que não tinha em Deu
s
senáo a fé ma is incer
ta, porqu e is to convé
m a tal ou qual de seu
s
come ntar is tas, a me
nos que seja o contrári
o, o que lhe convém.

uma coisa , cm todo cas
o, que nunca pa receu a
ninguém abala r o crédit
o
do s hlúsof'os , é que se
tenha podido falar, a pro
pósilO de cada um deles
,
e dos maiores , de uma
dupla verdade. Qu e, p
or tan to, para mim que,
en trando na psicanál ise
, coloco, cm suma, os pé
s no prato ao ap re sen t
ar
es ta ques tão sobre a ve
rdade, sinto, de repente,
o tal prato se aqu ecer so
b
a plan ta de meus pés ,
aíinal, não é senão uma
coisa da qual posso me
alegrar, pois, se vocês rc
ílc tircm , fui cu , sem dúv
ida , quem reabriu o gás .
Mas deixemos is lo ago
ra, en tremos nas relaç
ões da iden tidade do
sujei to, e en tre mos aí
pela fó rmu la ca rtes ian
a que vocês váo ver com
o
penso abor d á-la hoje.
lt eviden te que nfto é c
m absoluto qu cstáo de pre
ten der supe rar Descar tes
,
mas, sobretudo, de extrai
r o máx imo de ef eitos d
a util ização dos impasse
s
cujo fu ndo ele conota p
ara nós. Se me seguem ,
por tanto, cm uma crítica,

de modo algu m come


ntário de tcxlo, que fa ç
am o favor de se lembr
ar
o qu e eu pretendo daí
tirar pelo bem de meu
próprio discurso.
"Penso, logo sou " p
a rec e-me, sob essa fo
rma, conc entrar os uso
s
comuns, a ponto de s
e tornar essa moeda u
sa da , sem fgura, à qu
al
Mal la rré faz alusão cm a
lgum lugar. Se a retemos
um instan te e procuramo
s

acordo
co m nosso uso, gos tari
a de assinala r que é ess
a fó rmula - que cu repito
,
q11c sob sua forma conc
en trada, só a encon tra
mos em De sca rtes em

algum po nto do Discur


so do Método, não é ab
solu tamen te assim, sob
1·ssa forma densa, que el
a es tá expressa. Es te "P
enso, logo sou" se choca

-- 18
Lição de 15 de 11ove111fmJ dl' !%!

com esta oJ�je ção, e creio que ela nunca foi fe


ita, é que cu penso 11;111 t';
um pen sam en to. É claro, Descartes nos pro
põe estas fórmulas ao f'i1 1al
de um lon go processo de pen sa men to, e cer
tamente que o pen sam ento
Direi at é mais, essa
caracte rística, é um pensamento de pensa
dor, não é exigível para que
falemos ele pensamento. Um pen samen to, em
suma, não exige em absolu to
que se pense 110 pc11sa111c1 1 lo.
Para ncís, pa rticula nnen te, o pen samen
to começa no inconsc ien te.
Só po demos nos surpreender com a timi dez q
ue nos !az recorre r à fórmula
dos psicólogos quando procu ram os dizer algum
a coisa sobre o pen samento ,
a fó rmula de dizer que é uma ação no est
ado de esboço, cm estado
re duzi do, modelinho econ ôm ico el a ação.
Você s me dirão que isso se
encon tra cm Freud, cm algum lu ga r, mas, ce
rtamen te, encontra-se tudo
em Freud; na vol ta ele al gum pa rágrafo,
ele pode ter feito uso dessa
definição psicol ógica do pen samento. Mas,
en fim, é to talmente difícil
desca rtar que é em Freu d que encon tramos
também que o pensamento
é um modo pe rfeitamen te eficaz e, de alg
uma forma, sufciente em si
me smo, de sa tisfação masturbatória. Isto par
a dizer que, no que concere
ao sen tido do pen sa men to, temos, ta lvez ,
um palmo um pouco maio r
do que os out ros obrei ros. En tretanto, isso nã
o impede que , in te rrogando

de pensamento. Po deria se r que isso fo sse


uma fla totalmente
insu llcien te para su stenla r o que que r que seja,
que pu déssemo s final mc1 11c
localiza r por essa presença, eu sou .
É justamente o que preten do. Pa ra esclare
ce r o meu desenvolvime nto,
in dicarei que eu penso, toma do si mple sm en
te sob esta forma abreviada,
não é mai s sustentável lo gica men te, mai s s
uportável, do que o eu minto,
que já causou problema pa ra um certo númer
o de lógico s, este eu mi11to,
que só se su stenta na vacilação lógica, vaz ia, se
m dúvi da, mas su ste 11 1ávcl,
que desdobra essa aparência de sentido, bas
tan te sufciente, al i:ís, para
encontrar seu lugar em lógica frmal. Eu
minto, se o digo, é verdade,
portanto, não minto, mas minto mesmo, con
tudo, pois, dizendo 111i11/u,

-19-
A Identificação

afirmo o con trário. É


muito fá cil desmon tar
essa pre ten sa dificulda
de
lógica e mostrar que a p
re ten sa difculdade ond
e repousa esse julgamen
to
apóia-se nisto : o julga
mento que ele compor t
a não pode apoiar -se c
m
seu próprio en unciado,
é um colapso. É sobre a
ausência el a distinção el
e
dois planos, pelo fato el
e que a ên fase incide so
bre o próprio minlo, sem

que se o distinga, que


na sce essa pseudo-di fi
c uldade. Isso para dize
r
lhe s que, na falta desta d
istinção, não se trata de u
ma verdad eira proposição
.
Esses pe quenos par
adoxos, dos quais os ló
gicos fazem, aliá s, muit
o
ca so, para levá -los ime
dia tamen te à sua medid
a just a, po dem pa ssar p
or
simples diver timen tos. E
les têm, cont udo, se u in t
ere sse; devem ser retido
s
para apreen der, cm su
ma, a ver dadeira posiçã
o el e toda ló gica formal
,
até inclusive esse fa mo
so posi tivi smo lógico do
qual cu falava h.í po uco.
Enten do por isto, qu
e, cm nossa opin ião nã
o se fe z, justamen te, u
so
sufic iente da fa mosa a
poria de Epimênides, q
ue não é senão uma frm
a
mais desenvolvida do q
ue acabo el e apresen ta
r -lhes a prop ósito de cu

minto, que "Todos os C


retenses são mentirosos
, assim fala Epin1ênides
,
o Cretense", e voc ês vê
em logo o pequeno to riq
uete qu e se e11gc11clra
.
Não se a usou o bastant
e para demon strar a vaida
de da fa mosa pr oposiç;fo
el ita afir111a tiva univers
al A. Po rque, de fato, ob
servamos a esse respeito
,
está exata men te aí, nós
veremos, a for ma mais i
n teressan te de resolver
a dificuldade. Poi s, ob
servem bem o que se p
assa, se colocamos iss
o
que é possível, que foi c
olocado na crítica da fa
mosa afirma tiva univers
al
A, da qual algun s preten
deram, não se m fun dam
en to, que sua substância

nunca tenha sido outra s


en ão a de uma proposiç
ão uni ver sal negat iva :
"Não há Cre ten se que
não seja capaz de men t
ir ", de sde então, não há

ma is nenh um probl em
a. Epimêni de s pode di
zê-lo, pela razão ele qu
e
ex presso assim, ele não d
iz, em ab soluto, que haja
alguém, me smo Cre ten s
e,
qu e possa mentir se m
parar, sobretudo quand
o nos aperc ebemos qu
e
111entir tenaz mente i
mpl ica uma memória f
ir me, que ter minaria p
or
or ien tar o discurso no s
en tido equivalen te a um
a confissão, el e maneira
q11e, mesmo se "Todos
os Cretenses são menti
rosos" queira dizer que
11iw l1á um só Creten
se que não queira menti
r se m parar, a vcrcaclc
l<'l"lt1i 11ar :í mesmo por
escapar -lh e na virada, e
na mccli cl a mesma do
ri gor dessa von ta de. O
que é o sen tido mais pla
usível el a con fissão do
( ' 1r1t·11se Epimênicles, d
e que todos os Creten se s
sã o mentirosos, o senti do

11ao pode ser scnáo es


se: 1) ele se van glor ia
disso; 2) el e quer, com

-20-
Lição de i5 de novembro de 1961

isso, desorien tá-los , prevenindo -os ver ídic


amente de seu método ; mas
isso não tem o'u tra intenção, tem o mesm
o resultado que esse outro
an unciar
que não se é po lido, que se é
de uma franq ueza absol uta ; é o ti po que l
hes sugere avalizar todos os
seus blefes.
O que quero dizer é que toda af'irmati va
uni versal, no sentido forma l
da categoria, tem os mesmos fins oblíquos,
e é muito boni to que esses
fins esto urem nos exem plos clássicos. Que
seja Aristóteles quem toma
o cuidado de revelar que Sócrates é morta l,
deve, contudo, nos ins pira r
algum interesse, o que quer dizer, oferecer a
poio ao que podemos chamar
entre nós , de inter pretação, no sentido em
que esse te rmo preten de ir
um pouco mais longe que a funç fto que se en
contra justamente no própr io
título de um dos livros da Lóg ica de Aristó Lcl
es. Poi s, se é evidentemente
enquanto anim al humano que aquele a que
m Athenas nomeia Sóc rales
está assegur ado da mor te, é justamente e
nquanto nomea do Sócrates
que ele esc apa disso, e isso não somente po
rque seu renome dura ainda
tanto tempo quanto viver a fabulos a operaç.t
o da tr ansl'erência operada
por Platão, mas ainda mais exatamente, p
orque é somente enquanto
tendo co nseg uido se co nsli Luir, a parLir d
e sua identidade soc ial, csle
ser de alopia que o caracteriza, que o cham
ado Sócra lcs, aq uele que se
nomeia assim em Aten as, e é porque ele n
ão po di a se exi lar, pôde se
sustentar no desejo de sua pró pria morte a
té fazer dela o acling oul de
sua vida. Ele acrescentou, além disso, com
entusiasmo e alegria " ter-se
liberado do famoso galo de Esc ulápio, do qu
e se ter ia trata do se tivesse
sido preciso fazer a recomen dação de não les
ar o ven de dor de castanhas 'º
da esquina.
Há, pois, em Ar istóteles, algo que pode
mos inter pretar como alguma
tentativa, justamente , de exorcizar uma trans f
erência que ele consi dera va
um obstác ulo para o desen vo lvimento do
saber. Era, por outro lado,
um erro de sua parte, pois o fracasso é paten
te. Seguramente, era preciso
ir um pouco mais longe que Platão na desn
aturalização do desejo, para
que as coisas se conc l uíssem de outro mod
o. A ciência modera nasce u
num hi per platonismo, e não no re torno ari
stoté lico, em suma, sobre a
função do saber segundo o estatuto do co
ncei to. Foi necessário, de
fa to, algo que podemos chamar de segunda
morte dos de uses, a saber,
sua saída espec tral na época cio Renascim
en to, para que o verbo nos

-21-
A Identificação

eu diss esse : "Ele mente


",
mas posso até dizer: "
Eu digo que minto". Há
aqui, contudo, algo que
deve nos de ter, é que
se eu digo: "Eu sei que
minto", isto tem ai nda
algo de intei rame nte c
onvi ncente que deve n
os deter como analista
s,
pois como analistas, ju
stamente, sabemos q
ue o original , o vivo e
o
apai xonante de nossa in
tervenção é isso, que po
dermos dizer que somos
fitos pa ra dizer, para no
s deslocarmos na di reç
ão exa ta mente opos ta,

mas estritame nte corr


elativa, que é dizer: "M
as não, você não sabe
que diz a ve rda de", o
que vai ime diatamen te
mais longe. Mais que
isso : "Tu não a dizes tão
bem senão na medida e
m que ac reditas mentir,
e quando não queres men
tir, é para me lhor te re sg
uardares dessa verda de "
.
Essa ve rda de, pa rece qu
e não se pode ap reen dê-la
senão por seus re íle xos,

nossos te rmos, é 111ha


pelo fto de que,
por essência, el a não
seria senão, como to d
a filha, uma desgarra d
a.
Poi s hc111, (, o mesmo
par a o cn penso. Pa rece
exatamente que se h;í o
encadeame nto tão l' úci
l para aqueles que o sol
etram ou retra nsmitem
sua me nsagem, os prof'
essores , isto não pode s
e r senão por não se dete
r
dc111asiadamc1 1te nisso
. Se temos para o 1•11 pens
o as mesmas exigências
que pa ra o eu minto, ou
isso quer dizer: " penso
que penso ", o que não
é, então, absolutamente
falar de na da mais do q
ue do penso de opi nião
ou de imaginação, o pe
nso como vocês dizem,
quando dizem: "Penso
que ela me ama ", o que
quer dizer que os aborre
cimen tos vão começa r.

eendemo
nos com o núme ro de
incidências nas quais
esse penso não é nada

-· 22 -
Lição de 15 de novembro de 1961

mais do que.-essa dimen são propriamente imagi


nária soure a qual 11e11ln1111a
evidên cia dita ra di cal pode sequer ser fu nd
ada, de ter-se ; ou então isto
quer dize r: "Sou um se r pensante ", o que e
ntão , é claro, desest abiliza,
anteci pad amente, todo o processo po sto qu
e vi sa ju stamen te fazer sair
do cu penso um estatuto sem precon ceito,
assim como sem presunção
na minha existência. Se começo a dizer: "
Sou um ser", isto quer dizer:
"Sou um se r essen cia l ao se r, sem dúvida
". Não há ne cessi dade de ir
adiante, pode -se gu ardar seu pensamento
para seu uso pessoal.
Isto pontuado, nós re conhecemos enco
ntrar isso, que é impo rtante,
este ter
ceiro te rmo que temo s evocado
a propcsilo cio 111 inlo, a saber, que se poss
a di zer: "Eu sei que minto",
no que absoluLa111enle merece que nos det
e nhamos. Co 111 efeito, é aí
que es uí o suporte de tu do o que ura cert a f
'en omeno logia desenvolveu
em re lação ao sujeito, e aqui trago uma fó
rmu la que é aquela sobre a
qual se remos lev ados a retomar nas próxim
as vezes, que é esta : aquilo
com que temos a ve r, e como isso nos é
dado, uma ve z que somos
psican alistas, é pa ra subverter ra di calmen t
e , é pa ra torna r impossíve l
esse precon ceito mais ra dical, que, no en ta
n to, é o verda deiro supo rte
de todo o desenvolvimento da filoso fa, do q
ual se po de dizer que ele é
o limite além do qual nossa experiên cia s
e passou, o limite além do
qual começa a possibili dade do inconscien
te. É que jamais houve, na
co rrente filosófica que se desenvolveu a partir
das investigaç ões cartesianas
ditas do cogilo, jamais houve senão um úni
co sujeito que fi xarei, para
te rmin ar, sob esta f'orma, o sujeito suposto
saber.
É nece ssário que vo cês abasteçam esta fó r
m ula da repe rcussão espe cial
que, de qualquer maneira, tra z consigo sua iron
ia, sua que stão , e obse rvem
que, re f'crin clo-a :'í fenomenolo gi a e partic
ularmente à fe nomeno logia
hq.c lia 11a, a l'u11�·:io desse sujeito supost
o sahcr toma seu valor ao se r
ap reciada enquanto função sin crônica que se
desenvolve a esse propósito,
sua presença se mpre ali, desde o co meço ela
interrogação fenomenológica,
certo nc' da es lrulura nos pcr1 11i lir :í cl csprl'n
cl cr
nos do de senvolvimento dia crônico que s
e supõe lev ar-n os ao saber
abso luto. Este saber absolu to, ele mesmo, o ve
remos, :) luz cle sLa questã o,
toma um valor singularmen te re futáve l, mas
por hoje somente deten hamo
nos para co locar essa moção de descon fian
ç a, por at ri buir este suposto
saber a quem quer que seja, nem para su por
, subjicere, nenhum sujeito

-23-
A Identiicação

ao saber. O saber é i
n te rsubje tivo, o que n
ão quer dizer que seja
o
saber de todos, nem q
ue seja o saber do Ou tr
o, com A mai úsculo. E
o
Ou tro, nó s afirmamo
s, é essen cial mantê -
lo assim, o Outro não é
um
sujei to, é um lugar ao
qual nos esforçamos, di
z Aristóteles, por tran sfe
rir
o sa ber do sujei t. Nat
uralmen te, por esses es
forços, re sta o que Heg
el
desdobrou como a hist
ória do sujeito ; ma s isto
não quer absolu tamente
dizer que o sujeito sai
ba um tico a mai s sobr
e o assunto em questã
o.
Ele não tem perturbaç
ão, se posso dize r, a n
ão ser em funçüo de u
ma
su posição in devida , a s
a ber, que o Outro saiba, q
ue haja um saber ab solut
o,
mas o Outro sabe disso a
inda menos que ele, pela
simples razão .justamente
,
de que ele não é um s
ujei to.
O Oucro é o Jeposic,írio
dos rcprcsentarcs rcpresc
macirs dessa suposiç,io
de saber, e é isso que
chamamos de inconsci
ente, na medida em qu
eo
sujei to perdeu -se, ele
mesmo, nessa suposiçã
o de saber. Ele provoc
a
isto sem sabê-lo. Isso, s
ão os destroços que lhe
voltam do que sofreu su
a
realidade nesta coisa,
destroços mais ou men
os irreconhecíveis. Ele
os
vê volta r, pode dizer, o
u não dizer: "É isso me
smo ", ou até: "não é ist
o
de jei to nenhum ", con t
udo, é realmen te isso.
A função do sujeito e
m Descartes é, daqui
que retomaremos noss
o
discurso na próxima ve
z, com as ressonância
s que dele encontramo
s
na análise. Tenta rem
os, na próxima vez, as
sinalar as referências
à
fenomenologia do neu
rótico obsessivo numa
escansão significante
onde o sujeito se enco
ntra imanente a toda a
rticulação.
-24 -
LIÇAO II
22 de novembro de 1961

Vo cês puderam const


atar, não sem satisfação
, que pude introduzi
los, na última vez, a noss
o propósito deste ano, po
r uma re flex ão que,
aparentemente, po deria
passar po r muito filosofa
nte, já que se re fe ria
a uma reflexão filosófic
a, a de Descartes, sem
acarretar da parte de
vocês, me parece, demas
iadas re ações negativas.
Longe disso, parece
que confiaram em mim p
ela legitimidade de sua c
ontin uaç ão. Alegro
me com esse sen timent
o de confiança que gosta
ria de po der traduzir
no que pelo menos se perc
ebeu por onde eu queria co
nd uzi-los. En tretanto ,
para que vocês não tome
m, no que hoje vo u conti
nuar sobre o mesmo
tema, o sen timen to de q
ue me atraso, gostaria de
colocar que esse é o
nosso fim, nessa maneir
a de abo rdar, de engajar
-nos nesse caminho.
Digamo-lo logo por uma fór
mula a qual nosso desenvo
lv imento escla rec erá
cm seguida, o que quero di
zer é que, para nós, analist
as, o que entendemos
por identi ficação, po rque
é isto que encontramos na
ident ificação, naquilo
que há de conc reto em
nossa experiência re fer
ente à identificação, é
uma identificação de sig
ni ficante.
Releiam no Curso de Ling
üística uma das numerosa
s passagens nas
quais De Saussure esfor
ça-se po r precisar, como
o faz sem cessar ao
cercá-la, a função do signi
fcan te, e vocês verão, dig
o-o en tre parênteses,

a po rta abe rta


ao que chama rei menos de
diferenças de interpretação
do que de verdadeiras
divergências na explo ra çã
o poss ível do que ele ab ri
u com essa distinção
tão essencial de significa
nte e de signi ficado. Ta lv
ez eu pudesse to car

-25-
A Identicação

111e 1d,·111:ilr11l'11lc par


a vocês, ·para que ao men
os situem aí a existên cia ,

., dil,·1,·11�·a que há e
ntre tal ou tal escola, a
de Praga, à qual perten
ce
1.,J.. 11k;c111, a qucrn m
e rcf'iro tão frcq ücntcmcn
tc, a el e Copenh ague, à
• 1 11:il l l,itil111slcv deu
su a orientação soh um tf
tulo de gl ossemática, qu
e
:11 11ila 11:io evoquei di
ante de vocês. Vo cê s ve
rão, é quase fatal que me

njarrr levado a volt ar


a isto, já que não pode
mos dar um passo se
m
r de aprofun dar e
sta função do significa
nte, e cm conse qüênci
a,
sua rel ação com o signo.
Você s devem sa be r des
de já - penso que mesmo
aqu eles dentre vocês q
ue pu deram acre ditar, e
até mesmo me cen surar
,
qu e cu repeti a Ja kob
son - que de fato a po
sição que tomo aqui est
á
adiante, em vanguarda
com relação à de Ja ko
b son, no que se refere
à
primazia que ou torgo à f
unção do significante em
toda real ização, digamos
,
do sujeito.
/ pass agem de De Sa
u ssur e à qual fazia alu s
ão h:' pouco, só a privilegi
o
aqui por seu valor de i
magem, é aquela em q
u e ele procu ra mostra
r
qual é a espécie de iden
tidade própria do signific
ante, toman do o exempl
o

15 hs, diz ele, é al go


per l'cit arcn tc definido
cm sua iden tidade, é o
expresso das 10:1 5 hs,
apesar de que , 111a11i f
'cstarcnt c, os clife rentes
expressos das 1 O: 15 hs

qu e se suce de m se mp
re idênticos a cada dia ,
nfw terem ab solutament
e,
ne m em seu material, e
at é mesmo na composiç
ão de sua ca de ia, senã
o
elementos, e mesmo u
ma estrutura real difere
nte. É claro, o que há d
e
verdade em uma tal af'ir
mação su põe, precis a
mente, na const itu iç ã
o

fabuloso encadeamento
de organização signif'i
cante que deve entrar
no real por interm édio
de
se re s fala dos. Hesta q
ue isto te m um valor de
alguma maneira exempl
ar,
par a de finir o que que
ro dizer quan do profiro,
de entrada, o que quer
o
tentar articular para voc
ês, [que ] são as leis da
identifcação en quanto
identificação de sign ifi
cantes. Assinalemos ai
n da, como um lembret
e,
que para nos atermos
a uma oposição que sej
a para vocês um suport
e
suficiente, o que se op
õe a esta, aquilo de q
ue ela se distingue , q
ue
necessita que elaborem
os sua funç ão, é que a
identificação da qual ela
se distancia é a iden ti
ficação ima gin ár ia , a
quela da qual, há muit
o
tempo, cu ten tava mo
strar a vocês o ex tre m
o no plano de fundo do
está dio do espelho, no
que eu chamare i de efe
ito orgân ico da imagem

do scmcll1antc, o cfci lo
de assimil ação que apr
een demos em tal ou tal
ponto da história na tu
ral, e o exemplo que
me agra dou mostrar i
n

-26-
lição de 22 de novembro de 1961

vitro, sob � forma desse pequeno animal que


é chamado de grilo pl' ll'J',l'irro,
de cuja evolução vocês sabem, o cresc ime
nto, a apa rição do q111· s«·
chama de conju nto el e fân cros, o que, co
mo podemos vê-l o em s11a
l'orma, depende, de alguma maneira, de u
m encontro que se prd111
em tal momento de seu desenvolvi men to, <l
os es tági os, <l as fase s da
trans formação larv ária, ou segundo lh e ten
ham ou não apa recido u111
certo número de traços da imagem de seu s
emelhante, ele evolu irá 011
não, segundo o caso, segundo a forma que
chama mos de solitária ou a
forma qu e cha mamos de gregária. Não sab em
os absolutamente, só sabemos
mesmo muito poucas coisas sobre escalões
desse circu ito orgânico que
aca rretam tais ef eitos. O qu e nós sabe
mos, é qu e é assegu ra do

imagem
da qual encontraremos to das as espécies
de for mas cm níveis muito
diferen tes ela fs ic a e até no mundo in animad
o, vocês sabem, se defn imos
imagem como todo arranjo físico que tem
por resultado constituir uma
concord ância biunívoca entre dois sistem
as, cm qualqu er nív el qu e
seja. É uma fórmula bem apropriada, e qu
e se aplicará tanto ao efito
qu e acabo de dizer, por exemplo, quanto à
qu ele da formação de uma
imagem, mesmo virtual, na natu reza, pelo i
nterméd io de uma superfície
pl ana, sej a a de um espelho, ou a que ev
oquei há alg um tempo, da
superfície do lago que rellctc a mont anha.
Isso quer dizer que, co1 110 é a tendência, e t
c11dê11cia que se espalha
sob a influência de uma espécie, cu di ria, el
e embriagu ez, que alcança
re ccn le mcnt e o pensamento científico p
elo fato el a irrupção do qu e

cad eia sign if icant e


como tal, mas que, de to da s as espécies d
e man eiras, vai ser reduzida
por esse pens amento cm termos mais simpl
es, e mais precisamente é o
que se exprime nas teorias ditas da inform
ação ; isso qu er dizer, qu e
seja justa, se m outra conotação, a nossa r
esolução cm caract erizar a
ligação entre os dois sistemas, nos quais u
m é po r relação ao outro, a
imagem, por essa idéia de informação, qu
e é mu ito geral, implicando
certos camin hos percorridos por es sa coisa
qu e veicula a conco rd frcla

,
aquela qu e só po de chegar a nos faz er es
qu ecer os níveis próprioi do
que el eve comporta r uma in frmação, se
queremos dar-lhe um 11111 ro
valor além daquele vago qu e só chegaria, af
nal de contas, a da r 1111111
• aq11I, Ira via

-27 -
A Identicação

sido subsumido , e isto,


desde a Antig üi dade até
nossos dias, sob a noção

da frma, algo que peg


a, envolve, coma nda o
s elementos, dá -lhes u
m
cer to tipo de fi nali dad
e que é, no conjunto da
ascensão, do elementar

até o complexo, do in
anima do até o anima
do. É algo que tem, se
m
dúvi da, se u enigma e
se u valor próprio, sua o
rdem de reali da de, ma
s
que é diferente - é is t
o que pre tendo articul
ar aqui com vocês co
m
toda a sua frça - do que
nos traz de novo, na no
va perspectiva cie ntífca
,
a valorização , a distinçã
o do que é tra zido pela
experiência da ling uage
m
e do que a relação sign
ifica nte nos permi te int
ro d uzir como dimensã
o
original que se tra ta de
dis tinguir ra dicalmente
do real , sob a frma da
dime ns ão simbólica. N
ão é, vocês vêem, por a
í que abordo o problema

do que vai nos permi ti


r dividir essa ambigüida
de.
Mesmo assim,já diss
e o sufcie nte para que v
ocês saibam, que te nha
m
sentido, apree ndido n
esses elemen tos de i
nfrmação signi ficante,
a
orignalidade que carrega
o traço, digamos, de seri
alidade que ele comporta
,
traço discreto quero diz
er, de corte, is to que
Sa ussure não ar tic ulo
u
mel hor, nem de outra m
aneira, a não ser dizend
o que o que os carac teri
za
como cada um, é ser o q
ue os outros não são. Di
acro nia e si ncronia são
os termos aos quais in
diq uei que se referisse
m, mesmo que tudo iss
o
não es teja plenamente
ar ticula do, a distinção
devendo ser feita des ta
diacro nia de fto, [a qual
] é mui freq üenteme nte
some nte o que é visa do

na articulação das leis


do sig nifica nte; há a d
iacro nia de direi to po
r
onde reenco ntramos a
es trutura. Da mesma f
o rma, para a sincronia
,
implicar a sim ul tanei da
de vir tual em qualquer s
ujeito supos to ao código
não é dizer tudo sobr
e ela, pois é tornar a
encontrar aquilo que
na
úl tima vez lhes mostrei,
que para nós há aí uma
entida de insustentável.
Quero dizer, por ta nto,
que não po demos nos
co ntentar de ne nhuma

ma neira em recorrer a
isso, porque é apenas
uma das fo rmas do qu
e
denunciei no fm de meu
disc urso da úl tima vez,
so b o nome de suje ito
supos to saber.
Eis aí porque começ
o des ta maneira , es te
ano, minha introdução
à
questão da identifca çã
o, é que se trata de par
tir da própria dificulda d
e,
aquela que nos é prop
osta pelo próprio fa to
de nossa experiência,
de
onde ela par te, disso a
par tir do qual nos é nec
essário ar tic ulá-la, teori

la. É que não po demos,
de modo al gum, nem se
quer como aproximação,

prom essa de futuro, ref


erirmos, como I legel o f'
az, a al guma concl usã
o
possível justamente porq
ue não temos ne nhum di
r ei to de colocá -la como

-28-
Lição de 22 de novembro de 1961

possível - do sujeito em algum saber absolu t


o. Esse sujeito suposto saber,
temos que aprender a prescindir dele em todos
os momentos. Não po demos
recorrer a ele em ne nhu m momento, isto está
excluído por uma experiên cia
que já temos após o seminário sobre o des
ejo e sobre a in lcr pretaçiio -
pr imeiro semestre que foi publicado - é pre c
isamente o que me pareceu,
em todo caso, não po der es tar suspenso de
sta publicação, po is aí está o
final de to da uma fase de ensino que fizem
os ; é que esse sujeito que é
o nosso, esse sujeito que gostaria hoje de inter
rogar para vo cês a propósito
do per curso car tesiano, é o mesmo que nes
se primeiro semestre cu disse
que não po deríamos aproximá-lo além do que
fz com esse sonho exemplar
que o ar ticula inteiro em torno da frase:
"Ele não sabia que estava
morto".
Com to do rigor, es tá aí , co ntr ar iame nte
à opinião de Po li tzer, o sujeito
da enunciação, mas [é ] em terceira pesso
a que po demos designá-lo.
Isto não quer dizer, é claro , que não possam
os aproximá -lo em pr imeira
pessoa, mas será pre cisame nte saber que
ao fazê-lo, e na exper iên cia
mais pateticame nte acessível, ele se furta, por
que traduzi-lo nessa pr imeira
pessoa, é a esta fa se que chegamos, a dizer o q
ue po demos dizer justamente,
na medida prá tica na qual po demos co nfro n
ta r-nos com esta carruagem
do te mpo, como diz John Donne, "hurryin
g near", ele nos esporeia, e
nesse momento ele suspensão em que podem
os prever o momento úl timo,
aquele pre cisame nte no qual tu do nos ab
andona, nos dizer : "Eu não
sabia que vivia por ser mor tal ". Está be
m claro que é na medida em
que po demos dizer tê-lo esquecido quase a
todo instante, que seremos
pos tos nesta incer teza para a qual não há
nenhum nome, nem trágico,
nem cômico, que possa nos dizer, no mom
ento de abando nar nossa
vida, que fomos sempre, à nossa própria vda, d
e alguma maneira, es tranhos.
É aí que está o fundo da interrogação flos
ófca mais moder na, aquilo
pelo que, mesmo para aqueles que, se poss
o dizer, só o compreendem
muito pouco, inclusive aqueles que dão te ste
munho de seus sentimentos
de obscuridade, mesmo assim algo se passa,
diga-se o que quiser, alguma
co isa passa difre nte da onda de uma moda
, na fórmula que nos lembra
o fu ndamento ex iste ncial do ser para a mor
te.
Isto não é um fe nômeno continge nte, quaisq
uer que sejam as caus as,
quaisquer que sejam as corrclaçôes, inclusive
seu alcance, po de -se dizer
que o que pod emos chamar de a pro fnação do
s h' andes fantasmas fo1:jad os
para o desejo pelo modo do pensamento religio
so, está aí o que nos dcixar;'1

-29-
A Identificação

cl, . ,·11l,n111s, ine rm es,


suscitan do esse oco, ess
e vazio, ao qual a meditaçã
o
lilll',, ,Jfra 111oclcrna se e
sfo rça por respon der, e a
o qual nossa ex periênci a
1,·111 1;11111,(i m algo q
ue con tribui r, pois que é a
í seu lugar, no ins tan te e
m
•1111· d(·sig110, sufic ient
em en te , o mesmo luga r n
o qual o suj eito se consti tu
i
,·r110 não podendo sab
er precis amente o porq
ue se trata aí para ele d
o
·1i1do. i\í está o valor <lo
que nos traz Descartes, e
porque foi bom parlir daí
.
,:: por isto que volto a i
sso hoj e, pois conv ém p
ercorrer, para dimensiona
r
11ova lllent e o importan
te da quilo que vocês pud
eram ouv ir do que cham
ei
ck illlpasse, até mesmo o
impossív el do "cu penso,
logo sou ". É exa tamente

c·sse impossível qu e c
ons titui o preço e o valo
r desse suj ei to qu e no
s
prpiie Descartes, se n
ão es tá aí se1üo o su
j eito cm toro do qual
a
<"11gitação sempre girou
antes, gira desde e11L;io,
é claro que nossas o�jeçi
es,
l'III nosso último discu
rso, ganha m todo o s
eu peso, o próprio pes
o
implic ado na etimologi
a do verbo francês pen
sar, que não quer dizer
ou tra coi sa senão pesar
; o que funda r sob re cu
penso, se sab emos, nós

anal is tas, que isso cm


que eu penso, que pode
mos apreender, re mete
a
um el e que e de on de, a p
artir do qual penso que se
sub trai necess ariamen te.

E é porque a fórmul a d
e Descart es nos interro
ga para saber se não h
á
ao menos es te pon to
privil egia do do eu pen
so pu ro, sobre o qual n
ós
possamos nos fu ndar;
e é porque é ao menos
impor tan te qu e eu os
detenha aí um ins tan t
e.
Essa f"círrula parec
e implicar que seria ne
cessário qu e o sujeito
se
preocupasse cm pensar
a todo instante, para asse
gu rar-se de ser, condição
já bem estranha, mas ai
n da sufic ien te? Ba sta
qu e ele pense se r, par
a
alcançar o ser pens an t
e ? Pois é justamen te
aí que Descartes, ness
a
in crível magia do disc
u rso das primeiras du
as Meditações, nos deix
a
suspensos. Ele chega a f
az er sustentar, <li go , cr
seu tex to, não o momen t
o
cm que o professor de

t1111a sú palavra : eu .�
crpcnso U'êtrcpcnsc], co
mo se diz j'outrecuide
l·omo nossos hábitos el e a
nal istas nos fazem dizer eu
compenso Ue compense],

-30-
Lição de 22 de novembro de 196 1

in clusive eu descompenso [je décompense],


eu solrre-compc11.w [je rr
compense'] . É o mes mo termo, e igualmente l
egtimo em su a compo sicfo.
u
[je pensêtre] que nos propusemos para aí
nos in troduzi r, pode parecer, nesta perspecti
va , um artifcio mal tole ráve l,
pos to que , ao frmular as cois as deste modo,
o se r já dete rmi na o regis tro
no qu al se in augura todo o meu percurso; e
s te eu penser Ue pensêtre].
eu lhes disse na última vez, não pode , me
smo no te xto de Desca rtes,
conotar-se mais do que com traços de engod
o e de ap arênci a. Eu penser
[e pensêlre l n[to carreg a consigo ou tra c
onsistência maior que a do
sonho, na qu al Descartes cl'ctiv amcn le, cm
vá rios momen tos de seu
percurso, no s deixou suspen sos. O eu pens
er [jc pensêlrel pode também
co1 1juga r-se co1 110 11111 ver bo, 111as isto 11:fo vai
lo11gc, eu pcnser [jc pcnsêt.re J,
110 f'i
1 1al, se quiserem, o que pode
continu ar ain da, inclusive ele penser [il pe
nsêtrc]. Tu do o que po demos
dizer é que se fazemos do tempo do ve rb
o uma espécie de in finitivo
pcnscr [pensêtrerl, só podemos evocá-lo pe lo q
ue se esc re ve nos dici onários,
que todas as outras formas , passada a te rc eira
pessoa sin gu la r do presente ,
não são usadas cm francês. Se quise rmos fa
zer humor, acrescen taremos
que elas são completadas comumen te pe la
s mesmas fo rmas do verbo
1·1

O que isso quer dize r? Que o ato de serp


ensar Jêtrepenserl, porque é
disso qu e se tr aia, não desemboca, para a
quele que pensa, senão em
um pode ser eu? [peut-êlre je?J, e não sou t
ampouco o primei ro nem o
único a te r obse rvado desde sempre, o traço d
e con trabando da in trodução
conc lusão: "Eu penso, logo
sou ". Fica claro que esse eu
[je J fic a cm est ado problemático, e que até o
passo seguinte de Desca rtes,
e ver emos qua l, 11:io h,í nenhuma raz,io par
a que ele seja prese rvado do
que Desca rtes í'az de tdo o processo , pelo perli
lamento

um bom Deus ;
por estar ali, por alimentar ilusões, chega
até ao gê nio maligno, ao
men ti roso radical, àquilo que me extravi
a por ex traviar-me, é o que
chamamos a dúvida hiperbólica. Não se vê
de nenhuma maneira como
essa dúvida pode poupar esse eu LJe] e d
eixá-lo, en tretanto, fa lando
propri amente, em uma vacilação fun dam
ental.
Há duas maneiras de articular essa vacil
ação. A articulação cl;íssica
que encontrei com prazer, que já se encontra
na Psicologia ele llni111a110,

-31-
A Identicação

aquela que Brentano re


fe re com ju stiça a San
to To más de Aquino, a

sa ber, que o se r não p


o deria apreen der-se co
mo pensamento senão d
e
manei ra al ternan te. É
em uma suce ssão de te
mpo s al ternantes que el
e
pensa, que sua memó r
ia ap ropria -se de sua r
ealidade pensan te, se
m
que em nen hum in stan t
e po ssa se juntar este pe
nsa mento em sua próp ri
a
ce rteza. A outra ma nei
ra, que é a que nos ap r
oxima mais da re flexão
cartesiana, é a de perceb
ennosju stamen te o ca rá
ter, propriamen te falando
,
evanescente desse eu U
eJ. de no s fzer \'er que
o ,·erdadei ro sentido do
primeiro passo cartesi
ano é articula r-se com
o um eu penso e eu nã
o
sou . É claro que po de
mos insistir nos enfoqu
es dessa assunção e no
s
Que
fque claro que, afnal
de contas, é po r cess
ar de pensar que po ss
o
en trever que eu simple
smen te seja. Não são m
ai s que co meço s.
O eu penso e eu não
sou introduz para nós t
oda uma su cessão de

observações, ju sta men t


e da quelas que lhes fa la
va na úl tima vez relativa
s
à mo rfologia do francê s
, primei ra mente aquela
so bre esse eu tanto mai
s
depen dente em nossa
língua na forma de pri
mei ra pessoa do que n
o
inglê s ou no alemão, p
o r exemplo, ou no latim
, onde à pergunta "que
m
fz isto?", você s podem r
e sponder 1, lch, Ego, ma
s não eu [e] em francês,
e si m sou [fui] eu [c'est
moi]. ou eu não [pas m
oi].
Ma s eu [j e] é outra c
oisa, este eu [e] tão faci
lmente eli dido no fal ar
,
graças às proprie da de s
ditas mu das de sua voca
lização , esse eu [e] que
po de ser um não sei [j 's
ais pas]. quer dizer que
o e desa pa rece, ma s não

sei é di fe rente de, voc


ês o pe rc ebem be m, p
o r terem do francê s um
a
experiência original, e
u não sei [je ne sais].
O não [ne] do eu não s
ei
não cai so bre o sei, ma s so
bre o eu [e]. É po r isso ta
mbém que, con trarament
e

língua s vizinhas, as qu
ais, pa ra não ir mui to
longe, fço a alusão agora,
é antes do ve rbo que cai
esta parte deco mpo sta,
chamemo -la assim po r
ago ra, da negação que
é o não [ne] em fancês
.
Segu ra men te o não [ne]
não é próprio nem único
do francê s; o não [ne ]
do latim apre senta-se
pa ra nós co m toda a
mesma problemática, q
ue
não faço aqui senão int
roduzir, e so bre a qual
re tornaremos.
Você s sabem, já fz alu
são ao que Pichon nos t
rouxe de indicações, a
propó sito da negação e
m francê s; não pen so ,
e ta mbém não é novo,
indi quei-l he s nesse m
esmo tempo, que as for
mulações de Pichon so b
re
o for clusivo e o discorda
ncial po ssam re solv er
a que stão, ainda que os

- 12 -
Lição de 22 de novembro de 1961

introduza de manei ra admi rável . Mas a vizin


han ça, o trilhamen to na tu ral
na fase francesa do eu [j el com a prim eira
part e da negação, eu não sei
[e ne sais], é alguma coisa que en tra no re
gi st ro de toda uma série de
que lhes assinalei o intere sse da eme rgência
particularmen te significativa cm um certo us
o lingüístico dos prob lemas
que se ref erem ao suje ito como tal cm suas
relações com o si gnifcante.
qu e se nos
encont ramos mais faci lmente
do que ou tros postos em guarda con tra essa
mi ragem do saber absoluto,
aquele do qual já é refu1;1-lo sul"ici ente me
nte qu an do for traduzido no
re pouso total de uma es p écie de sétimo di
a colossal nesse dolllingo da
vida, no qual o animal humano poderá,
en fim, coloc ar o fcinho no
pasto, es tando, a partir daí, a grande máquin
a ajus tada no úl ti mo qu ilate
desse nada ma terializa do que é a concepçã
o do sab er. É claro que o se r
terá en fm encon trado sua part e e sua re
se rva em su a estupidez, a
parti r daí, def ini tivamente aloja da, e supõ
e-se que, ao mesmo tempo,
será arra ncado, com a exc rescência pensa
nte, seu pe dúnculo, a saber,
a preocu pa ção. Mas is to, vis to o ritmo c
omo vão as coisas que estão
fei tas, apesar de seu charme para evoca r que
há aí algo bastante aparentado
com o qu e nós exercemos, devo dizer, com
muito mais fantas ia e humor,
es tes são os dive rsos divertiment os do
que se chama comum cnte a
ficção cien tíf ica, os que mos tram que sob
re esse tema são possíveis
todas as es péc ies de va riações. A esse res
peito, certamente Descartes
não pa re ce estar em má postura. Se pode
mos, talvez, deplorar que ele
nüo ten ha sabido mais sobre essas pers pectiv
as do saber, é apen as porque

Mas, colocando
à parte esse traço qu e deixamos aqui pro
visori amente de lado pelo
valor de sua rc llexüo inicial, bem longe diss
o, ele re su lta em algo bem
diferen te.
Os professores, a pro pósito da dúvida carte
siana, es forçam-se muito
para sublinhar que ela é me tódica. Eles faze
m ques tão disso. Metódico,
is to quer dizer dúvida a frio. Certament e, me
sm o em um certo con tex to,
consumiam -s e pra tos fios, mas na ve rdad
e, não creio que seja es ta a
mane ira jus ta de considerar as coisas, nã
o que eu qu eira, de alguma
forma incitá-los a cons iderar o caso psicoló
gico de Descartes, por mais
apaixonante que possa pa re cer en con trar em
sua biografa, nas con dições
de seus paren te scos, e mesmo cm sua descen
dência, alguns dess es traços
que, reunidos, po dem con fo rma r uma fgura, p
or meio da qual encontraremos

- 33 -
A Identicação

:1•, l 'arac:terísticas gerai


s de uma ps icastenia, e
mesmo precipitar nessa

d1·11 11111stração a céle


bre passagem dos cabide
s humanos, essas espécie
s
d1· 111ario11ctcs em tor
no das quais parece poss
ível re stituir uma presenç
a
q1w, graças a todo o r
o deio de seu pensam
ento, se vê precisamen
te
111·ssc momento a pont
o de despregar-se, não
vejo nisto muito interess
e.
< l que me interessa é
que, após te r tentado f
azer sentir que a temáti
ca
ca rtesiana é logicament
e inj us ti ficá vel, cu pos
sa re afirma r que ela nã
o
1\ portanto, irracional.
Ela não é mais irracion
al como o desejo não
é
irrac ional por não po d
er se r articulável, simpl
esmente po rque ele é u
m
!'ato articulado, como ac
red ito ser todo o sentido
do que cu lhes demons tr
o
l'az um ano, ao mos tra r-
lhes como ele é. A dúvid
a de Descartes, sublinh
ei,
e não sou o primeiro a f
azê-lo, é, certamente, u
ma dúvida muito diferen
te
da dúvida cética. Fe nte
à dúvida de Descartes, a
dúvida cética se des dobr
a
inteiramente no nível d
a ques tão do real. C
ontrariamente ao que s
e
acredita, ela es tá long
e de colo cá-lo em ca
usa; ela o lembra, ela

reúne seu mundo, e t
al cético, cujo discurs
o inteiro nos re duz a

sustentar como válida a
sensação, não a faz , po
r isso, desvanecer-se e
m
absoluto ; ele nos diz qu
e a sensação tem mais
peso, que ela é mais re
al
do que tudo que po de
mos cons truir a seu re
speito. Esta dúvida céti
ca
tem se u lugar, vocês sa
bem, na Fenomenologia
do Espíri to de Hegel. É
um tem po dessa pesqui
sa, dessa bus ca na qual
se engajou em relação a
si mesmo o saber, es te
saber que não é senão u
m não saber ainda [savo
ir

em absolutamente
nada dis to que Des ca rt
es se emp enha. Des car
tes não tem, em nenhum
a
pa rte seu luga r na Fe n
omenologia elo E.�pírito,
ele co lo ca em ques tão o

próprio sujeito e, apesa


r de não sabê-lo, é do s
ujeito suposto saber qu
e
se trata; não é se re co
nhecer naquilo de que
o espírito é capaz que s
e
trata, pa ra nós ; é do s
ujeito ele mesmo como
ato ina ug ural, que é a
de fscinação,
que produz o efeito de
virada, que te ve eftiva
men te na his tória est
e
desenvolvimento insensato
de Des ca .rtes, é que ela te
m to das as ca ra cters ticas

do que chamamos, em
nosso vocabulári o, de u
ma passagem ao ato.
O prime iro te mpo da
meditação ca rtesiana te
m o traço de uma passag
em
ao ato. Ele se situa ao n
ível desse estado neces
sariamente ins uficiente
,
e, ao mesmo tempo, ne
cessariamen te primordi
al, to da ten tativa tendo

a re lação mais ra dical,


mais orignal com o desej
o . E a prova é exatamen
te
isto a que ele é conduzi
do no desenvolvimento
que ocorre logo a segui
r;
Lição de 22 de novembro de 1961

como ta l, que po deria ser se este De us q


uisesse, que ela po deria ser,
fa lando propria mente, o erro. O que is to
quer dize r? Se não que nós
nos encon tramos em tudo aquilo que se p
o de chama r a ba teria do
significa nte , confrontada a esse traço únic
o, a esse einziger Zug que já
conhe cemos , na medida em que, a rigor,
ele poderia ser subs ti tuído
por to dos os elementos do que co nstitui a
ca deia signifcante, suportá
la, essa ca deia por si só, e simplesmente
por ser sempre o mesmo. O
que encontramos no limite da experiê ncia c
artesiana como tal do sujeito
evanes cente, é a necessida de dessa ga ra
ntia , do traço de es trutura o
mais simples, do traço único , se ouso dizer, ab
solutamente despersonalizado,
não somente de to do o co nteúdo subjetivo ,
mas também de toda variação
que ultrapasse esse único traço, desse tra
ço que é um, por ser o traço
úni co. A fundação do um que cons titui ess
e traço não es tá toma da em
nenh uma parte a não ser cm sua unicida
de. Como tal, não po demos
dizer dele outra coisa senão que ele é o que t
em de com um to do sigifcante,
[de] ser sobretudo co nstituído como traço, Id
e) te r esse traço por suporte.
Ser:í que poderemos, cm torno disso, e
ncontrar-nos no co ncreto de
nossa experiência? Quero dizer o que vocês
já vêem pontuado, a sabe r,
a substituiç :o, de uma fu nçflO que deu ta ntas
di 11culdades ao pensamento
flosófico, a saber, es ta inclinação quase que
ne ces sa ria mente idealista
que te m to da arti culação do sujeito na tradi
ção clá ss ica, subs tituir-l he
essa fu nção de idealização, na me d
i da em que sobre ela re pous a essa
necessi dade es trutural que é a mesma qu
e já arti culei diante de voclH
sob a frma de ideal do Eu, na me dida em
que é a partir desse ponto,
não místico , ma s perfeitamente concret
o de identifcação inaugural
do sujeito com o signifca nte ra dical, nã
o do um plotiniano, ma1 rio
traço único como tal, que to da perspectiva d
o sujeito como não sahu111lo
pode se desenvolver de um modo rigoroso.
É que após havê-loH foli o

- 35 -
A Ide nticação

passar hoje, sem dúvida,


por caminhos com respeit
o aos quais os tranqüilizo,

dizendo-lhes que é seg


uramente o ponto mais
alto da difculdade pela
qual devo fzê-los passar
, franqueada hoje, é o q
ue penso poder começa
r
a fo rmular diante de
vocês, de uma maneir
a mais satisftória, mai
s
acabada, para nos fzer
reencontrar nossos hor
izontes práticos.
-36-
LIÇAO III
29 de novembro de 1961

Le vei-os, na última vez, por


tan to, a esse signifcan te, o
qual, é preciso
que seja de alg uma forma
o sujeito, para que seja ve r
dade que o sujeito
é signifcan te. Tra ta -se mu
ito precisamente do um enq
uanto traço único ;
pode ría mos elaborar so br
e o fato de que o professor e
screve o um assim,
1, com uma ba rra ascend
en te que indica, de algum
modo, de onde ele
emerge. Aliás, isto não se rá
um puro re quinte porque, af
inal, será ta mbém
o que iremos faze r, te ntar
ve r de onde ele sai.
Mas não esta mos aí. E
ntão, com o pro pósi to de
acomodar sua visão
men tal frte men te pe rturb
ada pelos efeito s de um ce
rto ti po de cultura,
mais precisamente, aquele
que deixa abe rto o interva
lo entre o en sino
primário e o outro dito sec
undá rio, saibam que não
os estou dirigindo,
nem para o Um de Pa rm
ênides, nem para o Um d
e Plotino, nem para
o Um de nenhuma tota li
dade no nosso ca mpo d
e trabalho, do qual
fazemos desde há algum te
mpo tanta que stão. Tra ta -
se mai s do 1 que
chamei há pouco de prof
essor, do 1 do "aluno X,
vo cê me frá cem
linhas de l ", isto é, bastões,
"a luno Y, vo cê ti ro u um 1
em fran cê s! ". O
profe ssor, em sua cadern
eta, traça o einziger Zug,
o traço único do
signo para se m pre sufci
ente da notação mínima. É
disso que se trata,
da re lação disso, com aq uilo
que está emjogo na identi !
Jcação. Se estabeleço
uma re laç ão, ela deve tal
vez começar a aparecer n
o espírito de vocês
como uma aurora, que não e
ntra imediata mente cm cola
pso, a identificação,
não é simple smente esse u
m, em todo caso, não tal com
o nós o imagna mos;
ta l como nós o imagina mo
s, ele não pode se r - já vira
m o camin ho pelo

-37-
A Identicação

.
,

pr imeiro de um pensam
ento para expulsar
real, o que
l '' " l1·11111s 1·11lrever é
entrevê -l o também no m
eio de tanto ser - em uma

1111d1· 1'lt· l'st:í pendur


ado por alguma teta, em
suma, no máximo capaz
· 1 ·�,l 1111,:ar ess a esp
écie de palpitação do ser qu
e ta nto faz rir o encantador

1111 l1111do da tumba,


na qual o encerrou a as
túcia da dama do lago.
l .1 ·111l m'111-se de que, h
á alg uns anos, o ano do se
minário sobre o Pre sidente

.' ;1 lill'l ir, a imagem qu


e evoquei a par tir do úl
timo se minário daquel
e
.11111, aquela, poética,
do monstro Chapalu, de
pois de fcar sacia do co
m
,,. , , ·11qH1s das esfinge
s esmagadas pelo seu sal
to suicida, aquela palavra,

monstro Chapalu:
".\q111'11· que come não
está mais só". Cer tament
e , para que o ser ve nha
é bem ela que, no fu nd
o, regula
111d11 Claro que a verd
adeira ambigüidade des
sa vinda à luz da verdad
e
1· 11 que configura o ho
rizonte de toda a nossa
prá tica, ma s não nos é

111 ,�;sf v1 ·1 partir dessa


per spe ctiva, da qual o mit
o lhes indica sufcientement
e
'I'"' l'la es tá para além
do limite mor tal, o enc
antador apodrecendo e
m
·,11:1 111 1J1ha. Ta mbé
m nã o está aí um ponto
de vista que sej a jamais
1 11111pl1•tamente ab str
ato para se pensar, em u
ma época na qual os ded
os
1·111 la rrapos da árvor
e de Dafne per filam -se
sobre o ca mpo queimad
o

momento
.1t 11al 110 hor izonte d
e nossa imaginação, est
ão aí para nos lembrar d
o
.il1'111 de onde se pode
delinear o ponto de vist
a da verdade. Mas não
é
.1 1·1111ti11�ência que
fa z com que eu esteja a
q ui a flar diante de você
s
,,,,l 111• as con dições do
verdadeiro. É um inciden
te muito ma is minúsculo
11 11 w p< o desafio d
e tomar con ta de vocês
enquanto punhado de
1•1.11 :1 1 1alistas, aos q
uais lembro que a verdad
e, você s certamente não
a
11·111 para mvender, m
as que, mesmo assim, é
esse o peixe que vocês
\"1 " 1ld1·111

-38-
Lição de 29 de novembro de 1961

Es tá clar o que, para chegar até vocês, é


atrás do ver dadeiro ldu vri l
que se cor re, eu o disse na pen úl tima vez , q
ue é o verdadeiro de ver dade
[du vrai de vrai] que procuramos. É jus tam
en te por isso que é le gítimo
que, no que se refere à iden ti ficação, cu te
nh a partido de um texto, do
qual tentei fazê-los sen tir o car áter bas tan te
ún ico na história da filosofia,
já que a questão do verdadeiro es tá aí coloca
da de maneira espe cialmente
radical, porque põe em causa, não apena
s isso que encontramos de
ver dadeiro no real, mas também o estatuto do
sujeito enquanto encarregado
de lev ar esse ver dadeiro ao real, encon tran
do-me, ao fim de meu último
discurso, aquele da úl tima vez, desemboca
n do nisso que lhes indiquei
como reconhecíve l na figura já conhecida
do traço único, do einziger
Zug, na medida em que é sobre ele que se
concentra para nós a fu nção
de indicar o lugar onde es tá suspensa no sigi
fcante, onde está pendurada,
no que concer ne ao significan te, a quest
ão de sua garan tia , de sua
função, disso a que serve este significante
, no advento da verda de. É
por isso que não sei até on de desenvolve
rei meu discurso hoje, mas
es tará girando inteiramen te em torno da
fnalidade de assegurar em
seus espír itos esta função do traço único,
a função do um. É claro que
se dev e, ao mesmo tempo, colocar em ca us
a , deve -se ao mesmo tempo
fazer avançar - e penso encontrar, por i
sso mesmo, em vocês uma
espécie de aprovação, de encorajamen to, de
ânimo, nosso conhecimento
do que é esse significan te.
Vou começar, porque is to me agrada, por fa
zê-los divagar um pouco .

ainda que ir ônica , relativa


à es colha de meu tema deste ano como não sen
do absolutamen te necessár io.
É uma ocasião para evidenciar o que es tá c
er tamente um pouco ligado
à cr ítica que implicava que a iden tificaç
ão seria a chave para fzer
tu do, se ela evitasse refer ir -se a uma relaç
ão imaginár ia que supor ta a
experiência disso, a saber, a relação com o cor
po. Tu do is to es tá coeren te
com a mesma cr ítica que pode ser -me ender
eçada nas vias que per sigo,
de man tê-los sempre mais no nível da ar tic
ulação linguageir a, tal co mo
precisamen te me esforço por dis tingui -la d
e qualquer outra. Daí, até à
idéia de que desconheço aquilo que se ch
ama de pr é-ver bal, de que
desconheço o animal, de que creio que o h
omem, cm tudo isso 11·111
não sei que pr ivilégio, não há mais que um p
asso, f' a11q111•ad11 1:111
rapidamente , que não se te m mais o senti
mento de tC� ·lo l 'l'ilo. INlo
deve ser repensado, no momen to cm que, mai s
do que 1111111' a, 1·"11• 11110

- �9
A Identicação

vo u fze r girar em to rn
o da estrutura da ling u
age m tudo isto que lhe
s
, que me
voltei para uma experi
ência próxima, ime d i
ata,
curta, sensível e agrad
ável, que é a mi nha, e
que talvez esclareça qu
e
também te nho minha
noção do pré-verbal q
ue se articula no interi
or
da re lação do sujei to
co m o verbo, de uma
manei ra que talvez nã
o
te nha aparecido para v
o cês.
Pe rto de mim, nas i
mediações do Mitsein js
crcom J, onde me suste
nto
como Dasein jscrprese
ntel, tenho uma cadel a
que chamei de Justine,
em homenagem a Sade,
sem que, acreditem, cu e
xerça sobre ela qual q ue
r
maltrato te ndencioso. Mi
nha cadela, no meu ente
nder e sem ambigüida de
,
fala. Minha cadela te m a
palavra, sem nenhuma d
úvida. Isso é impo rta nte
,
po rque não quer dizer
que ela tenha totalment
e a linguagem. A medid
a
na qual ela te m a palav
ra sem te r a re lação hu
mana co m a linguagem,

é uma questão de onde


vale a pena investigar o
problema do pré-verbal.
O que faz minha cade
la quando fla, no meu
entender? Digo que el
a
fala, po r que? Ela não
fala o tempo to do ; ela
fala, co n traria me nte a
muitos humanos, unicam
ente nos momentos nos q
uais ela te m necessidad
e
de falar. Ela te m neces
sidade de fala r no s mo
mentos de intensidade
emocio nal e de re laçõ
e s co m o outro, comigo
mesmo, e co m algumas

outras pe ssoas. A coisa


se ma nifesta po r espé ci
es de pequeno s ge mido
s
guturais. Ma s não se li
mita a isso. A coisa é p
artic ularmente chamati
va
e patética, por ma nifes
tar-se em um quase-
humano, que faz co m
que
eu te nha hoje a idéia d
e lhes falar sobre isso ;
é uma cadela bo xe r, e

vocês vêem que nessa


face quase humana, be
m neandertaliana afnal
de co ntas, aparece um
certo tremor no lábio, esp
ec ialme nte no supe rio r
,
sob o focinho, para u
m humano, um pouco
generoso, ma s enfm,

tipo s como esse, tive u
ma empregada que se p
arecia mui to co m el a
e
esse tremor labial, qua
ndo acontecia, à empre
gada de se co municar
comigo em ta is auge s
intencio nai s, não era
muito diferente. O efeit
o
de re spiração na s boche
chas do animal não evo c
a meno s sen sivel me nte
toda uma gama de m
ecanismo s de tipo pro
priamente fonatório qu
e,
po r exemplo , se prest
aria pe rfeitamente às e
xperiências céleb res qu
e
foram as do abade Ro
usselot, fu ndador da fo
nética. Vo cê s sabem q
ue
elas são fundamentais e
co nsi stem essencialme
nte em faze r habitar as
dive rsas cavidades nas
quais se produze m as
vibrações fonatórias po r

pequenos tambo re s, pêr


as, instrumentos vibráteis
que permitem co ntro lar
1•111 que nív eis e em qual
tempo vê m se supe rpo
r os diverso s elementos

- 40 -
Lição de 29 de novembro de 1961

que constituem a emissão de uma sílaba,


e mais precisamente, tudo o
que nós ch'amamos de fonema, pois esse
s trabalhos fonéticos são os
antecedentes naturais do que em seg ui da
é defini do como fonemá tica.
Minha cadela tem a palav ra, é incontestáv
el, indisc utível, não so mente
pelas mod ulações que resultam de seus esfo
rços propriamente articulados,
decomponív eis, insc ritív eis [inscriptibles ]
in loco , mas ta mbém pelas
correlações de tempo cm que esse fen ôme
no se prod uz, a sa ber, a co
habitação cm um local cm que a ex periênci
a diz ao ani mal que o gr upo
humano reunido em torno da mesa deve
pcnnancccr muito tempo,
que alguns restos do que se passa na quele m
omento, a sabe r, as rcl"ciçücs,
devem voltar para el e; não se deve acredi
tar que tudo esteja centrado
na necessi dade, há, sem dúvi da, uma certa
relação com esse ele mento
de consumação, mas o el emento de co m
unhão, pelo fato de qu e ela
consome com os outros, ta mbém está aí pr
esen te.
O que distingue esse uso da palavra, em
suma, muito suficientemente
conseg ui do pelos resultados que tratou de
ob ter minha ca d ela, de uma
palavra humana ? Não estou lhes dando as p
alavras que pretendem cobrir
todos os res ultados da questão, eu não dou s
enão as respost as orientadas
para o que deve se r para nós o que se tr
ata de localizar, a sa ber, a
relação com a identi ficação. O que distin
gue este animal fa la nte do
que se passa pelo fato de que o homem fala
é que é intei ramente notável,
no que concerne à minha ca dela, uma cad
ela que pod eria ser a sua,
uma cadela que não te m nada de ex traordi
ná rio, é que, contraria me nte
ao que acontece com o homem enquant
o falan te, ela não me toma
jamais por um outro. Isto é muito claro!
Esta cadela boxer de belo
porte e que, faz crer aos que a observa m, q
ue tem por mi m sentimen tos
de amor, deixa-se levar a excessos de pai
xão por mim, nos quais ela
toma um aspecto completamen te temível p
a ra as almas mais tími das,
tais como as que existe m, por exe mplo, no n
ível de minha descendência ;
parece que se te me que, nos momentos
em que ela começa a sa ltar
sob re mi m, baixando as orelhas, e latindo
de uma certa forma, o fato
de ela to mar meus punhos entre seus de
ntes, pode passa r por uma
ameaça. Mas não é nada. Ra pi damente, e
é por isso que dizem que ela
me ama, algumas palav ras minhas faze
m tudo reencontrar ordem,
constata da no final de algumas rei terações,
pela parada da brincadeira.
É porque ela sa be muito bem que sou eu q
ue estou ali, que ela não me
toma jamais por um outro, contrariamente
ao que toda a experiência

-41 -
A Identiicação

d1· vocês pode testem


unhar do que acon tec
e na medida em que, n
a

coloc am em con dições


de ter um sujeito
puro fa lante, se posso
dizer assim, como se di
z, um "patê puro porco
"
Jpatê pur pare].

nossa ex periê ncia


- é leva do, pelo fato d
e permanecer puro fala
n te , a tomá-los sempr
e
por um outro. Se há alg
um elem ento de progre
sso na s via s pela s qua
is
ten to levá -los, é fazê
-lo s perceber que ao t
omá-los por um outro,
o
sujeito os coloca ao ní
v el do Outro, com A m
aiúsculo. É justamente
o
que fal ta na minha cad
ela, só há para ela o pe
queno outro. Não pa rec
e
que sua relaç ão com a
linguagem lhe dê ac ess
o ao gran de Outro.
Po r que, uma vez qu
e fala, não chegaria co
mo nós a con stituir ess
as
articulações de uma fo
rma tal, que o lugar, p
ara ela como para nós
,
onde se situa a cad eia
signifcan te? Liv remo
nos do problema dizen
do que é seu olfato qu
e a imp ede disso, e n
ão
faremos mais que enco
n trar aí uma in dicaç ão
clássica, a saber, que n
o
homem a regressão org
ânica do olfato está, par
a muitos, em seu ac ess
o
a essa dimensão Outra.
Lamento muito dar a id
éia, com essa refrência,

de restabelecer o cort
e entre a espécie cani
na e a espécie human
a.
Isso é para diz er-lhes
que vocês estariam co
mpletamente equivocad
os
em acreditar que o pri
vilégio dado po r mim
à linguagem participa
de
algum orgulho de escon
der essa espéc ie de pr
econcei to que fari a do

homem, justamente, al
guma culminação do se
r. Relativizarei esse cort
e
dizendo-lhes que se falt
a à minha ca dela essa
espécie de possibilidad
e,
não realçada como aut
ônoma antes da existê
ncia da análise, que s
e
chama de capaci dade d
e tran sferência, isso nã
o quer dizer, em absol u t
o,
que isso red uza com se
u parceiro, quero dizer, c
omigo mesmo, o campo
patético do que, no sen
tido corren te do termo,
chamo justam en te de
rel ações humanas. E
stá manifesto na condu
ta de minh a cadela, n
o
que concerne prec isam
ente ao refuxo so bre se
u próp rio ser dos efeito
s
do conforto, das posiçõ
es de prestígio, que um
a grande parte, digamo
s,

minha
próp ria relaç ão, por
exemplo, com uma m
ulher do mundo, está
aí,
in teiramente completo
. Quero dizer que, qua
ndo el a ocupa um lug
ar
priv ilegiado como este
, que consiste em estar
em cima do que chamo
de minha cama, dito d
e outra maneira, o leit
o matrimoni al, o tipo d
e
olhar de onde me fita n
essa ocasião, suspenso
entre a glória de ocupar

-42-
Lição de 29 de novembro de 1961

um lugar do· qual situa pe rf ei tamen te a


signifcação privilegia da e o
temor do ge sto iminen te que vai fazê-la re t
irar-se, não é uma dimensão
difren te disso que nasce no olhar do que c
hamei, por pura demagogia,
de mulher cio mun clo ";; porque se ela não t
e m, no que se refere ao que
cha mamos prazer da conversação, um privilé
gio especial, é bem o mesmo
olha r que ela tem, quando, após te r se a
ven turado em um ditirambo
sob re ta l fil me que lhe parece o supra-s u
mo do adven to tecnológico,
ela sente suspensa sobre si, a decla ração,
por mi m, ee que aborreci-me
ao máximo, o que, cio pon to de vis ta do nih
il mirari, que é a lei da al ta
sociedade, já faz surgi r nela esta suspei ta
de que teria sido melhor ter
me deixado flar primei ro.
Isto, para modera r, ou mais exatamen te,
para re stabelecer o sen tido
da ques tão que coloco, no que diz re speito
às re lações da fa la [parole]
com a linguagem, des tina-se a in trod uzir
o que ten tarei distinguir para
vocês, referente ao que es pecifica uma li
nguagem como tal, a língua
[Zangue], como se diz, na medida em que,
se é o privilégio do homem,
isso não está completamen te claro, por que
ele aí permanece confnado?
Isto merece ser sole trado, é o caso de dizer.
Fa lei da língua; por exemplo,
não é indiferen te notar, ao menos por aqu
eles que não ouviram falar
de Rousselot aqui pela primeira vez , é m
esmo assim necessário que
saiba m como são fe itos os reflexos de
Rousselot. Permito-me ver,
imediatamen te , a importância do que ficou a
usente em minha ex plicação
de agora a pouco sob re minha cadela, é
que falo ele algo de faríngeo
[pharyngal]. glótico [glottal], e en tão, de a
lgo que se es tre mecia para
lá e pa ra cá, e que é, portan to, re gistráve
l em termos de pressão, de
tensão. Mas não falei de efei tos de líng
ua, não há nada que fça um
es talo, por exemplo, e menos ainda u
ma oclusão; há hesitação,
es tremecimento, sopro, há todo ti po de coi
sas que disso se aproximam,
mas não há ocl usão. Não quero me es tender
demais hoje, isso vai re ta rdar
as coisas relativas ao um; paciência, é preci
so aprovei ta r o tempo para
ex plicar as coisas. Se o sublinho de passag
em, en tendam bem que não
é por prazer, é porq ue o encon tra mos aí, e
não poderemos fzê -lo senão
re troa tivamen te, o sen tido. Esse não é, t
alvez, um pilar essencial de
nossa explicação, mas, em todo caso, to mará
seu sen ti do em um ro rrwrrlo,
nesse te mpo da ocl usão; e os traçados de
Rousselot, que lalvcz voc/H
tenham cons ultado por sua con ta no in t
ervalo, o que me pcrr11lllró
abrevia r minha ex plicação, serão aí ta lvez p
a rtic ularrcnlc significallvoH.

-43 -
A Identicação

Pa ra que imaginem de
sde já o que é es ta oc
lus ão, vou dar-lhes um

exemplo. O fneticista a
borda, de uma só vez,
e não sem razão, você
s
ver ão, o fnema pa e o fo
nema ap, o que lhe permi
te colocar os princípios

nos mostrar que a conso


nância
do p, como no caso de
sua flha, é ser muda .
O sentido do p está entr
e
es ta implosão e es ta e
xplos ão. O p se ouv e
precisament e por não
se
ouvir, e ess e te mpo m
udo no meio, retenham
a fó rmula, é alguma coi
sa
que só ao nível fonético
da fa la (parole], é como
quem fa ria uma espécie

de anúncio de um cer
to ponto de onde, você
s irão ver, os co nduzir
ei
após alguns rodeios. Sir
vo-me, simples mente, d
o que disse sobre minha

ca dela, para assinalar-


lhes que, de passagem,
e para fzê-los observar,
ao mes mo tempo, qu e e
ssa aus ência das oclus iv
as na fla de minha ca dela
é jus tament e o que el
a tem em co mum com
uma ativi dade fla nte q
ue
vocês conh ecem bem e
que se chama o canto.
Se acontece tão freqüent
emente que vocês não en
tendam o que ta garela
a ca ntora, é jus tame nte
porqu e não se pode cant
ar as oclusivas, e espero
também que es tejam c
ontentes de cair em si
e de pensar que tu do s
e
arranja, uma vez que, e
m suma, minha ca dela
canta, o que a fa z entra
r
e a ques tão
não é sempre demonstr
ada no sentido de saber
se têm, porta nto, uma
linguagem. Disso se fa
la desde sempre, o ch
a ma, cuja fig ura tenh
o
num lindo passarinho cin
za fabrica do pelos Kwa
kiutl da Colômbia britânic
a,
traz no seu dorso uma e
spécie de imagem hum
ana que co mu nica um
a
língua [tangue] que o u
ne com uma rã; a rã é s
uposta comunicar-lhe a
linguagem dos animais.
Não vale a pena fa zer t
a nta etnogra fia, já que,

como vocês sabem, São F


r ancisco falava aos anima
is ; não é um personagem
mítico, vivia em uma é
poca já muito esclareci
da para seu tempo, por
pessoas que fizeram li
ndas miniaturas
em pintura para mos tr
á-lo a nós no alto de u
m ro chedo, e vê-se, at
é
per der de vis ta, bocas
de pei xes que emerge
m do mar para ouvi-lo,
o
que, não obstante, conf
essem -no, é o cúmulo .
Pode mos perguntar, a
es se propósito, que lín
gua lhes fal ava. Is to te
m sempre um sentido n
o
nivel da lingüística mo
derna e no nível ela ex
per iência psicanalítica
.
Apre ndemos a definir p
er feitamente a fnção de
certos aconteci mentos
da língua, do qu e cham
amos o flar babyish, es t
a coisa que para alguns ,
para 111i111, por exem
plo, dá nos nervos, esta
co isa do "bilú-bihí, que

li11d i11lia es ta criancin


ha ". Isso tem uma fu nç
ão que vai além dessas

-44-
Lição de 29 de novembro de 1961

manifstações implícitas da dimensão boba ,


a bobagem consistindo, no
caso, no sen ti mento de superiori dade do a
dulto.
Não há, pois, nenhuma distinção essenc
ial entre o que cha ma mos
de falar babyish e, por exemplo, uma espé
cie de língua como esta que
chamamos de pidgin, quer dizer, esses tip
os de línguas con stituídas
quan do entram em re lação dua s espécies
de articulações linguageiras,
os partidários de uma se consideram, ao me
smo tempo, na nece ssi dade
e no direito de usar certos elementos sign
ificantes que são da outra
área, com o propósito de servi r-se deles p
a ra faze r penetrar na out ra

sua área, com


esse tipo de preconceito de que se trata, n
e ssa operação, de fazê-los
aceita r, de lhes transmitir categoria s de
uma ordem supe rior. Essas
espécies de integ ração entre área e área ling
ua gei ra são um dos campos
de estu do da lingüística, portanto, merecem, c
omo tais, serem consi derados
com um valor com ple tamente obj eti vo, gr
aç as ao fa to de que exi st e,
ju stamente, com re laçf10 à lingu agem ,
doi s mundos diferentes, na
[linguagem ] da criança e 11a do adult o. N
iio pode mos deixar de levar
em conta, nem podemos negligenciar que é n
esta re ferência que podemos
encon tra r a origem de ce rtos traços [trait
s] ba stante paradox ai s da
constituição da s bate rias signi fic antes, qu
ero dizer, a prevalên cia muito
particular de certos fonemas na designação de c
e rta s re lações que chamamos
de pa rentesco, a não universali dade , mas
a esma gadora maioria dos
fonema s pa e ma pa ra de signa r, para forne
cer ao menos um dos modos
de designação do pai e da mãe; essa irru pç
ão de alguma coisa que só se
justifica por elementos de gê nese na aqui
sição da linguagem, isto é,
por fatos de pu ra fala , só se explica precisa
mente a partir da perspectiva
de uma re lação entre duas esferas de linguag
em di stinta s. E você s vêem
esboç ar-se aqui algo que ainda é o traça do
de uma fron tei ra. Não penso
inovar com isso, já que vocês sabem o que
Fe renczi tentou começa r a
apon tar sob o título de Confusion of tangu
es, muito especific amente
nesse nível da re lação verbal da criança e
do adulto.
Sei que essa longa volta não me permiti
rá abordar hoje a função do
um, o que me vai permitir acrescent ar, pois
afinal de conta s só se trata
de limpa r o terreno, a saber, que não creiam
que lá para onde os con duzo
s�ja um campo exterior em relaç ão à sua
experiência, é, ao contrário,
o campo mais inlemo dessa experiência, aque
la, por exe mplo, que evoquei
há pouco, particularmente nessa distinção
concreta entre o ou tro e o

-45 -
A Identicação

1 1,,11 ,,, ,·i, sa ,•xperiên c


ia, nós só podemos atrav
essá -la . A identifcação,
, · .. rl11·1 . rslo que po
de fa zer muito precisam
ente, e tão intensamente

•111.111111 lúr po ssível i


maginar , que coloca sob
algum ser de suas relaçõe
s
1 ·,1 1li,,t:rrrcia do out
ro, é algo que se ilustra
em um texto etnográfco

• .,·111 l1111 i11·s, uma v


ez que é a esse respe ito
que se estabeleceu , com
l ,·1·v llri'tl il, toda uma s
ér ie de concep ções teó
ricas que se experiment
a
•.1111 11·: 1,·1111o s "ment
alidade pré-lógica", mesm o
mais tar de, "par ti cipa çã o
a centrar mais especial
mente sobre a funçã o
d,· rd,·111il'icaçã o o int
eresse do que lhe pareci
a a via de obje tivação d
o
, .111""' rrrcebid o como
o seu próprio. Penso aq
ui que vocês sabem sob

'111:il par011tesc, sob qu


al reserva apenas expre
ssa podem ser aceitas as
11·!:1,Jll's intituladas co
m tais rubri cas. É algo in
l'ini lamente mais comum
,
'1111' rr;ío tem nada a v
er com qualquer coisa q
ue pusesse em causa a
1111•.il'a, rrem a racionali
da de, de on de é preciso
par tir para si tuar esses
l:r 111s, arcaicos ou nã
o, da identificação com
o tal. É um fa to sempr
e
rrrlrccido e ain da const
atável para nós, quan
do nos en dereçamos
a
.j,

ro , no níve l de tal ex
periên cia, nas relações a
destacar, os testemunhos

:rl11111dam. O ser hu
mano - cabe saber por
que é com ele que ess
as
acontece m - contr
ariamente à minha cadel
a, o ser human o rconhe
ce
111 1 smgimento de tal a
nimal , o personagem qu
e acaba de perd er, quer
i;t· 1 ra te de sua famíli
a ou de tal personagem
eminente de sua tribo,
o
1 ' 111!1'1• ou não, presi d
ente de tal sociedade de j
ovens, ou qualquer ou tr o
;
i'· ,·lc, esse bisão, é ele
, ou como naquela lend
a céltica, da qual é puro
mim, uma vez que ser
ia preciso que eu
Lrl:rsse durante a eterni
dade para lhes dizer tudo
que me pode desper tar

1·111 111i 11ha memóri


a a respeito dessa exper
iên cia central, tom o um
a
1,·rrda cél tica que não é
absolu tamen te uma len
da, que é um tr aço [trait
)
d,· fo lclore real ça do p
elo testemun ho de algu
ém que foi empregado e
m
11111:1 l'azcnda. Com a m
orte do amo desse lugar, d
o senhor, ele [o empregado
)
v,· apa recer uma ratin
ha, ele a segue. A ratin
ha vai dar uma volta pe
lo
,·:rrrrpo, retorna, vai ao c
eleir o no qual há instru
mentos de arado, passei
a

- 46-
Lição de 29 de novembro de 1961

sob re esses)nstrume ntos, sobre o arado , o e


nxadão, a pá e outros, depois
de saparece. Depois di sso o empregado, qu
e já sabia do que se tratava
em re lação à ratinha, tem a co nfrmação p
ela aparição do fan tasma de
seu amo que lhe diz : "Eu estava nessa ratinha,
dei uma volta pela propriedade
para dizer-lhe adeus, queria ver os instrum
ento s de arado porque são
objetos esse nciais ao s quais se fca mais
tempo ligado que a qualquer
outro, e é somente depoi s de ter dado es
sa volta que pude me livrar
deles, etc. ", co m infnitas considerações co
ncernentes a esse propósito,
de um a co ncepção da s relações do defunt
o e de ce rto s instrume ntos
ligado s a certas condições de trabalho , condiç
õe s propriamente campestres,
ou mais especialmente, agrárias, agrícolas
.
'fhmo est e ex emplo para centrar o ol
har sob re a identificação do
se r, no que diz respeito a duas aparições
individuais tão manifesta e
fo rtemente distintas da que pode se refe ri r
ao ser que, com rel ação ao
sujeito narrador, ocupou a po sição emi ne nte
do amo com este animá lculo
co ntingente , indo , não se sabe ao nde, ind
o a lugar nenhum. Há aí algo
que, em si me smo , merece ser tomado não
simple smente para explicar,
como co nseqüência, mas como possibilid
ade que merece, como tal,
ser indicada.
Qu er isto dizer que um a tal re frência p
ode enge ndrar outra coisa
que não a mais completa opacid ade ? Isso s
e ri a re conhecer mal o tipo
de elabo ração, a ordem de esfo rço que exi
jo de vocês em meu ensino,
pensar que eu possa de alguma maneira co nt
entar-m e, me smo apagando
limites de uma referência folclórica, em co
nsiderar natu ral o fe nômeno
da identi ficação ; porque, uma vez que re co
nhe cemo s isso como fu ndo
da expe riê ncia, não sabemo s absolutamen
te mais nada, justame nte na
medida em qu e àquel es ao s quais falo, isso
não pode che gar, salvo caso
excep cio nal. Te mo s que manter sempre um
a re se rva, estejam se guro s
de que isso pode ainda pe rfeit am ente oco
rrer em uma ou outra zo na
campestre. Que isso não po ssa acontec
er com vocês, a quem flo, é
isso que divide a que stão; a parti r do mo
mento em que isso não pode
aco ntecer com vocês, vocês não podem ent
e nder nada e, não podendo
comp reender nada, não crei am que ba
sta fazer a co notação do
aco ntecimento po r um início de cap ítulo q
ue vocês chamem, com Lév
Brühl, de "particip ação mística", ou que vo
cês o façam entrar com ele
no co njunto maio r da "m ent alidade pré-
lógica", para que vocês tenham
dito al gum a coisa de interessante. Resta
que o que voc�s podem af

-47-
A Identiicação

domesticar, tornar mai


s fmiliar por meio de fnô
meno s mais atenua do
s,
não ser á nem por iss
o mais váli do, já que é
desse fundo opaco qu
e
vocês devem pa rtir. Voc
ê s encontram ainda aí u
ma refrência de Apollinair
e:
"Come te us pés à San
ta Méheho ul d" , diz, e
m alguma par te, o her
ói
[a heroína ] de Mamelle
s de Tirésias a seu mari
do. O fato de comer se u
s
pés à Mitsein [à moda
Ser-com ] não resolve n
ada. Tr ata-se, para nós
,
de apreender a relação
dessa possibilidade que
se chama identificação ,

no sen ti do em que daí


surge o que só existe n
a lingua gem e gr aça s
à
linguagem, uma ver da
de, pa ra a qual lá está
uma identifcação que n
ão
se distin gue pa ra o ser vi
dor da fzen da que acaba
de no s contar a experiênci
a
da qual lhes falei há po u
co ; e para nós, que fund
amo s a ver da de so bre
A
é A, é a mesma coi sa
, porque o que ser á o p
onto de pa rtida do meu
discur so da próxima ve
z ser á isto, por que A é
A é um absurdo ?
A análise estrita da f
unção do significante,
na medida em que é p
or
ela que pre ten do intro
duzir a questão da signi
f icação, é a par ti r disso
,
é que se o A é A constit
ui u, se posso dizer, a c
ondição de toda uma er
a
[âge] do pensamento, c
uja ex ploração ca rtesia
na pela qual come cei é
o
ter mo, que se pode cha
ma r de a era teo lógica,
não é meno s ver da deiro

que a an áli se lingüí stic


a é correla tiva ao adven
to de outra era, mar ca d
a
por correlações técni ca
s precisa s, entre as quai
s é o advento matemátic
o,
quero dizer na s matemáti
ca s, de um uso am plia d
o do si gni fcante. Po dem
os
no s dar con ta de que é
na medi da em que o A é
A deve ser colo ca do em

questão, que nós po de


mo s fazer avançar o pr
oblema da iden tifcação
.
Indico-lhes, desde já
que se o A é A não fun
ciona farei girar minh
a
demonstração em to rno
da fun ção do um, e, par
a não deixá-los totalment
e
em suspenso , e pa ra qu
e, 1.: i . ,:- . ,. ,ida um de vo
cês comece a se frm ula r
algo sobre o caminho d
o que lhes direi ma is a
dian te, lhes rogaria qu
e
se repor tassem ao ca pít
ulo do Cours de Linguisti
que [Curso de Lingüística

Geral] de De Saussure,
que ter mina na págna 1
75. Este capítulo termin
a
por um parágraf que c
omeça à página 17 4 e le
io para vocês o par ágraf
o
seguinte: "a plicado à uni
da de , o princípio de di f
eren ciação pode frm ular

se assim : as ca ra cterí
sticas da unidade conf
undem -se com a pr ópr
ia
unidad e. Na l111gua, co
mo cm todo sistema semi
ol6gi co " - islo mer eceria
ser discutido - "o que di
stingue um signo [signe].
é tudo o que o co nstitui.
É a difrença que faz a
característica, como e
la confere o valor e a
unid ade ". Dito de outr
a maneira, diferenteme
nte do signo, e vo cês
o
vcrf10 confirmar-se por
pouco que leiam o ca p
í tulo, o que distingue o
- 48 -
Lição de 29 de novembro de 1961

significan te é somen te se r o que os outros nã


o sfw; o que, no signi fic ante,
implica essa função de uni dade é justame
nte ser somente diferença. É
enquan to pura diferença que a uni dade,
em sua função significan te,
se es trutura, se cons titui. Is to não é um tr
aço único, de alguma forma
ele cons ti tui uma abs tração unil ateral qu
e diz respeito à relação, por
exemplo, sincrônica do significan te. Vocês
verão, na próxima vez, que
nada é propriamente pensável, nada da fu nçã
o signi ficante é propriamente
pensável, sem partir disso que formulo: o
Um como tal é o Outro . É a
par tir disso, dessa es tru tura fundamen tal
do um como diferença, que
podemos ver aparecer essa origem, da qua
l se pode ver o signi fican te
se consti tuir, se posso dizer, é no Ou tro que
o A, do A é A, o A maiúsculo,
como se diz, a gr an de palavra, está di to.
Do processo dessa linguagem, do signifi
cante, somen te pode par ti r
uma exploração que seja fun damen tal e ra
dical de como se cons ti tui a
iden tificaç ão. A identificação não tem na
da a ver com a unifcação.
Somente dis tinguindo-a des ta é que se pod
e dar -lhe, não somente seu
des taque essencial, como suas funç ões e s
uas variedades.
-49 -
LIÇAO IV
6 de dezembro de 1961

Retom emos nossa idéi


a, a sab er, o que lh es anu
nciei na úl ti ma vez,
que eu pretendia fa zer gi r
a r em torno da noç ão do u
m, nosso problema,
o da identifcação.já tendo a
nunciado que a identi fcação
não é simplesmen te
fazer um. Penso que não
será difcil para vocês adm
itir isso.
Partimos, como é norm
al no que diz respeito à id
entifcação, do modo
de acesso mais com um d
a experiência subjetiva, aq
uele que se exprime
pelo que parece a evi dên
cia essen cialmente com
unicável na fórm ula
que, em uma prim ei ra a
proximação, não parece s
uscitar objeção, que
A seja A. Eu disse uma
primeira aproximação por
que es tá claro que,
qual quer que seja o val
or de crença que comport
a essa frmula , não
sou o prim eiro a levan ta r
obj eções a ela ; basta que v
ocês ab ram o menor
tratado de lógica pa ra enc
on trarem quais difcul da d
es a distinção dessa
fó rm ula, aparen tem en te
a ma is simples, suscita em
si mesma. Vo cês
inclusive poclcrüo ver que
a maior pa rte da s di ficul d
ades a resolv er em
muitos don1ínios -- mas é
particula rmen te surpreen
den te que seja em
lóbiica, 111ais do que c1 11 q
ualquer out ra parte - resul ta
de todas as con fsões
possív eis que possam surg
ir dessa fó rmula, que se pre
s ta emin en temente
à con fus ão. Se vocês exp
erimentam, por exemplo, al
g umas difculdades,
até mesmo alg uma fa dig
a ao lerem um tex to tão a
paixonan te quanto o
do Parmênides de Platão,
é na medida em que, sobr
e esse ponto do A é
A, digamos que lhes fal ta
um pouco de reflex ão, e p
ortanto, justam ente,
se disse agora mesmo qu
e A é A é uma crença , é p
reciso en ten dê-lo
como eu diss e, é uma
crença que seguramente
nem sempre re inou
sobre nossa espécie, de
maneira que, seja como f
or, o A começou cm

-51-
A Ie nticação

tão fácil chegar a


esse núcleo de certeza
aparente que há no A é
A, quando o homem nã
o
dispunha do A. Direi e
m seguida po r qual ca
minho essa refexão po
de
nos conduzir. É convenie
nte, assim mesmo, da r-
se conta do que acontec
e
de novo com o A. No mom
en to, con ten te mo-nos c
om o que nossa linguage
m
nos pe rmite articu la r a
q ui, é que A é A, tem o
ar de querer dizer algo,

Afrmo - cer to de não e


ncontrar
a esse respeito nenhuma
oposição so bre esse te
ma po r parte de ningué
m,
em posição de compet
ência, cuja provação foi
feita pelos tes te munho
s
inegáveis do que se p
o de le r sobre isso - q
ue, ao interpelar este o
u
aquele matemáti co suf
cientemente fmilia rizad
o co m sua ci ên cia, par
a
sabe r onde nos encontr
amos atualmente, po r e
xemplo, e depois outros,
em to dos os domínios,
eu não encont raria opo
sição para avançar sobr
e
ce rtas con dições de e
xplicação, que são justa
mente aquelas às quais
vou sub mete r-me diant
e de vocês, que A é A nã
o signi fica nada.
É justamente desse na
da que vai se tra tar, por
que é esse na da que
tem valo r posi tivo para
dizer o qu e isso sig11ilk
a. Ti .: 1110s em nossa
experiência, mes mo e
m nosso flclore analític
o, algo, a imagem nun
ca
suficientemente ap rofu
n da da, explorada, que
é o jo go do ga ro to tã
o
sabia mente in dicado p
o r Freu d, percebi do d
e manei ra tão perspica
z
no fo rt-da. Reto memo
-lo por nossa con ta, co
mo no pegar e no atirar

objeto - trata-se, nes


sa criança, de seu netinh
o - Freud soube percebe
r
o ges to inaugural no jog
o. Re fçamos esse gesto,
to memos esse pequeno
objeto, uma bola de ping
ue -pongue ; eu a pego,
a escondo, torno a mos tr
á
la ; a bola de pingue-
pongue é a bola de ping
ue -p ongue, mas não é
um
significante, é um objet
o, é uma aproximação
dizer este pequeno a é
um pequeno a; há, e
n tre esses dois mo
men tos, que identifico
incontestavel mente de
maneira legitima, o des
apare cimento da bola ;

se m isso , não há mei


o de demonstrar, não h
á na da que se forme n
o
plano da imagem. Pois a
bola está sempre ali e po
sso entrar em catalepsia
ele tanto olhar para ela.
Que relaç ão existe e
ntre o é que une as duas
apa riç ões da bola e ess
e
desapa recimento inter me
diáro ? No plano imaginár i
o, vo cês podem per ce ber
que pelo menos se coloc
a a questão da re lação d
esse é com o que parece

ca11sá-lo, a saber, o de
sapa recimento, e aí vo
cês se ap roximam de u
m
dos segredos da identif
icaçã o, que é aquele a
o qual te ntei remetê -
los
1111 f11lclore da identifc
ação, essa assunção, es
pontânea para o sujeito,

-52-
Lição de 6 de deze mbro de 1961

da identidade de duas aparições, no enta


nto bem di fre ntes. Lembrem
se da his tória �o fazendeiro mo rto, o qu
al seu emprega do encontra no
corpo da ra tinha. A re lação desse "é ele"
com o "ainda é ele", es tá aí o
que nos dá a ex pe riência mais simples d
e identificaç ão, o modelo e o
re gis tro. "Ele , depois ai nda ele" exis te aí
a visada do ser no "ainda el e"
é o mesmo ser que aparece. Com relação
ao ou tro, em suma, isso pode
fu ncionar assim, fu ncio na para minha cad
ela, que to mei ou tro dia como
te rmo de re ferência, como acabo de dizer-
lhes , fu nciona ; essa referê ncia
ao ser é suficienteme nte suportada, parece
-me, por seu olfato ; no campo
imagi nário, o supo rte do ser é rapi dam
e nte co ncebível. Tra ta-se de
saber se é efetivamente essa rela ção simpl
es que es tá em jogo em nossa
expe riê ncia da ide nti ficação. Quando fa l
amos de nossa experiência de
ser, não é por nada que to do o esforço
de um pensamento, que é o
nosso, contemporâneo , vai formular algum
a coisa da qual nunca desloco
o grande móvel senão com um ce rto sor
riso, esse Dasein, esse modo
fundamental da nossa ex periência, do qual
pa rec e que é preciso desi gnar
o móvel dando acesso a es se termo do se
r, a re ferênci a primária.
É logo aí que alguma coisa dil"erente 110s
obriga a inlerrgar-nos sobre
o fa to de que a escansão na qual se manife
s ta essa presença no mundo,
não é simplesmente imagi nária, a saber, q
ue já não é ao ou tro que aqui
nos re ferimos, mas ao mais íntimo de nó
s mesmos, do que te ntamos
faze r o ancoradou ro, a raiz, o fu ndame nt
o do que somos como sujeitos.
Po rque, se po demos articular, como fze
mos no plano imaginário, que
minha cadela me re conhece enquanto
eu mesmo, não te mos, em
contrapartida, nenhuma indicação sobre o
modo como ela se identi fica ;
de qualquer maneira que possamos implicá-
Ia nela mesma, não sabemos,
não temos nenhuma prova, nenhum test
emunho do mo do sob o qual
ela ancora essa identificação.

e é na
própria medida em que é do sujeito que s
e tra ta, que temos que nos
interroga r sobre a relação dessa identifi
cação do sujeito com o que é
uma dimens ão difrente de tu do o que é
da ordem do aparecime nto e
do desaparecimento, a sabe r, o es tatu to
do signi fica nte. Que nossa
expe riê ncia nos mos tra que os di ferente
s modos, os difrentes fngulos
sob os quais somos levados a nos identifi
car como suje itos, ao menos
para uma pa rte dentre eles, supõem o
signifcante para articulá-lo,
inclusive sob a forma na 111aioria das ve
zes am b ígua, imprópria, mal
A Ide ntificação

111a11ejável e sujeita a t
odas as espécies de rese
rva e de distinções que é

o A 1i A. É pa ra lá que
quero levar sua atenção
; e antes de mais na da
quero dizer, sem per de r
mais tempo , mostrar-
lhes que, se temos a cha
nce
de dar um pa sso a mai
s ne ste se ntido, é tenta
ndo articula r o estatuto
do significante como ta
l.
Indico-o ime diatament
e, o si gnificante não é o s
igno. Vamo s nos esforçar

para dar a essa distinç


ão sua fórm ula pre cis
a. Quero dizer que é pa
ra
mostrar onde re side ess
a diferença, que podere
mo s ver surgi r esse fa t
o
já da do por no ssa ex p
eriê ncia, que é do efeito
do signifcante que surge
o sujeito como tal. Efe it
o metoními co cn1 efeit
o metafrico ? Nós não o

sabemos ainda, e, talve


z já haja alg o art iculáv
el antes desses cl"ei tos
,
que no s pe rmita ver a
parecer, frma r em um v
ínculo, em uma rel ação
,
a depe ndência do suje
ito como tal, em rel açã
o ao si gnificante. É iss
o
que nós vamos colo car
à prova.
Pa ra adi anta r o qu
e trato de fa zê -lo s ent
ender, para adiantá-lo e
m
uma breve imagem, à q
ual só impo rta atrib uir
ainda uma esp écie de

meçam a diferença entre


o que, princíp io ,
po de pa recer-lhes talv
ez um jo go de palavra
s, ma s que justamente
é
19
[e o nenhum
rastro ]2° [le pas de trace]
. Eujá os levei po r essa
pista frtemente tingida
de misticismo, correlati
va, justamente, do tem
po em que começa a s
e
arti cula r no pensament
o a fu nção do suje ito c
omo tal , Robinson, diant
e
do ra stro do pa sso [trace
de pas] que lhe mo stra q
ue ele não está sozinho
na ilha. A di stância qu
e separa esse passo [p
as]. e isso que se to ro
u
foneticamente nio lle pa
sj como instrumento da n
egação, são, justamente,
doi s extremo s da ca d
eia que ro go-lhes re t
er, antes de most rar-
lhes
efetiv amente o que a c
onstit ui, e que é ent re
as duas ex tremi dades
da
. Ao entendê
lo, che ga remos a re la
tiviza r algo, de tal ma n
ei ra, que vocês po ssa
m
co nsiderar esta fó rm ul
a , A é A, em si mesma
, como uma espécie de

estigma [stigmate], quero


dizer, em se u ca ráter de
crença , como a afrmação
do que ch ama rei uma ép
oca , épo ca , mome nto, p
arêntese, te rmo histórico,
enfim, do qual po demo
s, vocês verão , entreve
r o campo como limitado
.
O que chamei outro di
a uma indicação , que
co ntinuará ainda se n
do
uma indicação de identi
dade dessa fa lsa co nsi
stência do A é A, com o
que chamei de uma er
a teológica, me permitir
á, creio , dar um pa sso

1w que co ncerne o pr
oblema da identifca çã
o , na medida em que
a

-54-
Lição de 6 de deze mbro de 1961

análise necessita que nós a coloque mos, e


m re lação a um certo acesso ao
idên tico, tránscen den do-a.
Ess a fe cundidade, essa espécie de d
etermin ação suspensa nesse
signifc ado do A é A, não poderia apoi ar-
se sobre sua verdade, já que
essa afrmação não é verd adei ra. O qu
e se trata de alcançar naquilo
que me esforço para coloc ar diante de v
ocês, é que essa fec undidade

sentido
que tem, por exem plo, no texto de Desc a
rtes, quando se vai um pouco
mais longe, vê-se surgi r a distinçáo concern
en te às idéias, de sua re ali dade
atual com sua re ali dade objetiva, e natu
ralmen te os professores nos

esc olás tico-c artesiano


para nos dizer o que nos parece, já que D
eus sabe que somos espertos,
um pouco con fuso, que é uma herança da
escolá stica, por meio da qual
se crê ter explic ado tu do. Quero dizer
que nos libertamos do que se
trata, is to é, porq ue De sc artes , o anti-
escolás tico, foi levado a servir-se
desses vel hos acessó rios. Náo parece qu
e chega tão facilmen te à idéia,
mesmo dos mel hores historiadores , que
a únic a coisa interessante é o
que o obriga a tornar a se rvir-se desse vel
hos acessórios. Fica claro que
não é para re fazer o argumen to de Santo A
n selmo que ele torn a a coloc ar
tudo isso novamente na cena.
O fa to obje tivo de que A não pode ser A,
é o que eu queria em pri mei ro
lugar coloc ar para vocês em evidência, jus tam
en te para fazê-los compreen der
que se trata de algo que tem re lação com
o fato obje tivo, e até mesmo
nesse falso efei to el e si gnific ado, que não é
sen ão sombra e conseqüência
do que nos deixa lig ados a essa espécie
de imediatismo que há no A é
A. Que o signi lca nte seja fecundo por nflo
pod er ser, cm nenhum caso,
idên tico a si mesmo, en ten dam bem o que q
uero dizer -está absol utamen te
claro que não estou, ainda que valha a pe
na di stingui-lo de pass agem,
ten tando fazê -los observar que não há tau
tologia no fato de dize r que a
guerra é a guerra. To do mundo sabe que,
quan do dizemos que a gue rra
é a guerra, estamos dizen do qualquer cois
a, não sabe mos ex atamen te
o quê, mas podemos proc urá-lo, e pode m
os encon trá-lo e encon tramo
lo muito facilmente ao alcance da mão. I
s to quer dizer, o que começa
a partir de um certo mome nto, es tá-se em
es tado de guerra. Is to implica
condições um pouco diferen tes das coisa
s , tal como Péguy dizia "que
as peq ue nas cavilhas não en travam mai
s nos peq uenos buracos ". É
uma definição pe guysta, quer dizer, que
não é nada menos que cert a;

- 55 -
A Identiicação

poderíamos sustentar o
contrário, a saber, que é j
ustamente para recolocar

as cavilhas em seus ve
rda deiros buracos que
a guerra começa, ou, a
o
contrário, que é para fze
r novos peq uen os burac
os para velhas pequenas

cavilhas , e assim por


dian te. Por outro la do
, isso não tem para nós
,
es tritamente, nen hum
interesse, salvo que ess
a perseg uição, qualque
r
que seja, se realiza co
m uma notável eficácia
, por intermédio da mai
s
profun da imbecili da d
e, o que nos deve igual
mente fzer re íle tir sobr
e
a fnçã o do sujeito com
relação aos efeitos do
significante.
Mas tomemos al
go simp les e terminem
os rapidamen te. Se dig
o
meu avô é meu avô, vo
cês devem assim mesm
o compreen der que nã
o
há aí nen huma ta utol
ogia, que meu avô, pri
meiro term o, é um uso
de
ín dice [index] do segu
n do termo meu avô, q
ue nã o é sensivelment
e
diferente de seu nome pr
ópri o, por exemplo, Émil
e Lacan, nem ta mpouc o

do e do c'est [es te é]. q


uando eu o designo ao
en trar em um cômodo,
es te é me u avô. O qu
e nã o quer dizer que
seu nome próprio seja
a
mesma coisa que es te e
de "this is my grandfath
er". Ficamos es tupe ftos
que um lógic o como R
ussell te nha podi do diz
er que o nome pr óprio
é
da mesma ca tegoria, d
a mesma classe sign ific
ante que o this, that ou
it, sob o pretex to de qu
e são susce tíveis do m
es mo uso funcional, em

certos cas os. Isto é um


parêntese, mas como to
dos os meus parên tes e
s,

propósito do estatuto
do nome próprio, do qu
al nã o flaremos hoje. S
eja como for, o que está
em questão em me u av
ô é meu avô, quer dizer i
ss o, que esse execrável

pequeno burguês que


era o menciona do bo
m homem, esse horrív
el
pers onagem graças ao
qual cheguei, em idade
precoce, a essa função
fun damen tal de maldize
r Deus, esse personage
m é exa ta mente o mes
mo

pelos laços do
casamento, ser pai de
meu pai, já que é justa
men te do nascimento
des te que se tra ta no at
o em ques tã o.
Vocês vêem até qu
e ponto me u avô é me u
avô não é uma ta utol ogia
.
Isso se aplica a todas
as ta utologias, e não d
á uma fórmula unívoca
,
porque aqui se tra ta de
uma relaçã o do real co
m o simbólico. Em outro
s
casos, have rá uma rcla
çfo do imaginário com o
simbólic o e, !"ci tas toda
s
as séries de perm utaçõ
es, tra ta -se de ver quai
s são váli das. Não poss
o
comprometer-me por
essa via, porque, se lh
es falo disso, que é, d
e
cert a forma, uma man
eira de descartar as fal
sas ta utologias que sã
o
si 111plcsmcnlc o uso c
omum, permanente da l
ing uagem, é para dizer
-

-56 -
Lição de 6 de dezembro de 1961

lhes que não é isso que que ro dizer. S


e af'mo que não há tautologia
possível,, não é enquanto A primeiro e A
segundo querem dize r coisas
diferentes, que di go que não há tautologia,
é dentro do es ta tuto mesmo
de A que está inscrito que A não pode ser
A, e fo i aí que terminei meu
discurso da última vez, apontando-lhes e
m Saussure o pon to em que
está dito que A, como significan te, não p
ode, de nenhuma maneira, se
definir senão como não sendo o que sã
o os outros significantes . Do
fato de ele não poder se definir senão just
amente por não ser todos os
outros signifcantes, depende essa dime
nsão, igualmente ve rdadeira,
de que ele não poderia se r ele mesmo.
Não bas ta avança r assim dessa mane
ira opaca, justamente porque
ela surpreende, porque ela atordoa essa
crença suspensa ao fa to de
.O
que é um signifcante? Se todo mundo, e
não somente os lógicos, fala
de A, quando se tra ta de A é A , não é por
acaso. É que , para supo rta r
o que se designa, é preciso uma let ra.
Penso que vocês concordam
comigo , mas mesmo assim não tomo es
se salto po r decisivo, até que
meu discurso o comprove, o demonstre de u
ma manei ra su ficien te mente
abundante pa ra que vocês estejam conve
ncidos ; e estarão tan to mais
conven cidos, quando eu tra ta r ele mos
trar-lhes na letra justamen te,
essa essên cia co signi ficante, po r onde
ele se distingue do signo. Fi z
alguma coisa pa ra vo cês, sábado passado,
em minha casa de campo, na
qual pendurei à pa re de o que se chama d
e uma calig ra fia chinesa. Se
não fosse chinesa, eu não a teria pendur
ado à pa re de, pela razão de
ia ganhou u
m valor de objeto de arte ; é a
mesma coisa que te r uma pintura, tem o
mesmo preço. Há as mesmas
diferenças, e ta lvez mais ainda, de uma es
crita à outra em nossa cu ltura,
do que na cu ltura chinesa, mas nós não a
tri buímos o mesmo valor. Po r
outro lado, te rei ocasião de mostra r-lhes o
que, pa ra nós , pode masca rar
o valor da letra, o que, em ra zão do esta
tu to pa rticular do ca ractere
chinês, está pa rticula rmente bem posto e
m evidência nesse ca ra cte re.
O que vou, portanto, mostrar-lhes, não to
ma sua plena e exa ta posição
lsilualion] senão através de uma certa re fl
exão sobre o que é o ca ractere
chinês; já fiz, não obstante, alguma vez, b
astante alusão ao ca ra c tere
chinês e a seu estatuto, para que vo cês saiba
m que ch amá -lo de ideográfico
não é, de forma alguma, sufcien te. Eu o
mostrarei a vocês, ta lvez, em
mais detalhes ; é o que ele tem, aliás, d
e comum com tudo o que se

- 57-
11 !de ntU1cação

, 1, 11111111 il,· 1d1·111 ',


r:i l'ico, nfto há , propriamen
te flando, nada qu e mereça
, ,,,,, 1,·1 11111 111 1 s1:1
11iclo cm que o imaginam
os habitu alm ente, eu diri
a,
. ,. 1111111111:il11w111c, 110
se ntido em que o pe queno
esquema de Saussure ,
, 11111 .11 1 1111 ,. a (1 r
vore de senhada em baixo,
ainda o susten ta por uma

mi/si com uma esp essu


ra,

pa recem em nada , que


são evidentemente,
d1• allo a baixo, à direita
e à esquerda , os sete m
esmos ca racteres, mes
mo
para alguém que não te
m nen huma idéia, não
som en te dos ca racter
es
chineses, mas nenhu
ma idéia até en tão, de
que havia coisas que s
e
chamavam ca racteres c
hineses. Se alguém desc
ob ri r, pe la primeira vez
,
islo desenhado em alg
uma parte de um dese
rto, ve ria que se trata,
à
direita e à esqu erda de
ca racteres , e da mesm
a suce ssão de caracter
es
:1 cli reila e à esquerda.
Isto pa ra introd uzi -
los no que fa z a essên
cia do signifcante, e qu
e
11:fo é por nada que o
ilu s trarei melhor por e
ssa forma mais simples
,
q1ic é o que desi gnamo
s de sde algum tempo c
o mo o cinziger Zug • O

dnzi_er Zug, que é o q


ue dá a essa fu nçã o s
eu valor, seu ato e seu
prin cípio, é o que, para
dissipar o que poderia a
qui re star de co nfusão
,
necessi ta qu e eu intro
duza, para traduzi-lo m
elhor e mais próximo d
o
termo, que não é absol
utamente um neol ogis
m o, que é empregado
na
palavra
,í 11ic:o. Ao menos é úti
l que me sirva dele hoje
, para fzê-los sentir ess
e
1wrvo de que se trata
na• distinção do estatut
o do significante. O tra
ço
1111;irio l trit una ire 1, p
ortanto, seja ele como a
qui, vertical - ch amamo
s

-58-
lição de 6 de deze mbro de 1961

a isso "fazer bastões" :i _ ou seja ele, como o f


azem os chineses, horizonlal,
pode parecer que sua fu nção exemplar este
ja ligada à redução extrema,
a seu propósito justamente, de todas as oca
siões de diferença qualitativa.
Quero dizer que, a partir do momento em qu
e eu deva fzer simplesmente
um traço, parece que não há muitas varieda
des nem variações possíveis;
é isto que vai constituir seu valor privilegia
do para nós .
Não se enganem . Não se tratava, agora
há pouco, de despistar o que
há na fórm ula não há tautologia, de per
seguir a tautologia no lugar
onde justamente ela não está, como tampo
uco se trata aqui de discernir
o que chamei de caráter perfeitamente
apreensível do estatuto do
significante, qualquer que ele seja, A ou
um outro, pelo fto de que
alguma coisa em sua estrutura eliminaria ess
as diferenças - eu as chamo
de qualitativas porque é desse termo que o
s lógicos se servem, quando
se trata de definir a identidade - da eliminaçã
o das diferenças qualitativas,
de sua rc duçfo, como se diria, a um esq
uema simplificado; aí é que
estaria o 111eca11ismo desse reco11hecime
11to cara cteríslico de nossa
apreensão do que é o suporte do significant
e, a letra. Não é nada disso,
não é disso que estamos tratando. Porque,
se fço uma linha de bastões,
é perfeitamente claro que, qualquer que sej
a meu empenho, não haverá
um só semelhante, e eu diria mais, eles s
ão muito mais convincentes
como linha de bastões, pois justamente
não me terei esforçado por
fzê-los rigorosamente semelhantes.
Desde que tento formular para vocês o q
ue estou form ulando agora,
com os recursos à mão, isto é, os que estão
dados a todo mundo, tenho
me interrogado sobre o que, afnal de con
tas, não está eviden te de
imediato, em qual momento vemos apare
cer uma linha de bastões?
Estive em um lugar realmente extraordin
ário, no qual, talvez, afnal,
com os meus propósitos vou propiciar que
se anime o deserto, quero
dizer que algu ns de vocês entrarão lá, q
uero dizer, o Museu Saint
Germain. É fscinante, é apaixonante, e o
será muito mais se voc�s
tratarem de encon trar alguém que já tenha
estado lá antes de vocês,
porque não há nenhum catálogo, nenhum
plano, e é completamente
impossível saber onde e qual e o que, e de s
e orien tar na seqüência das
salas. Há uma sala que se chama sala Piettc
, o nome de um juiz q u e fi
um gênio e guc fez as mais }ftHligosaf d
�scoberla! d a pré-hl!tPria,
digo, de alguns objetos miúdos, em geral, d
e tamanho muito pequeno,
que são o que se pode ver de mais !'ascinan
le. Segurar nas mãos uma

- 59 -
A Identicação

pequena cabeça de mul


her que tem certamente
trinta mil anos tem, de
qualquer maneira, seu val
or, além de essa cabeça e
star cheia de questões.
Mas, vocês poderão ve
r através de uma vitrine,
é muito fá cil de ver,
pois, graças às disposiç
ões testamentárias dess
e homem notável, foi-se
absolutamente frçado a d
eixar tudo na maior desor
dem, com as etiquetas
completamente ultrapas
sadas que encontramos
nos objetos, conseguiu
se, apesar de tudo, coloc
ar sobre um pouco de plá
stico algo que permite
distinguir o valor de algun
s desses objetos; como di
zer-lhes dessa emoção
que me tomou quando,
inclinado por sobre uma
dessas vitrines vejo,
sobre uma costela fi na,
evidentemente a costela
ele um ramfl'c ro ·- não
sei bem qual, e não sei s
e alguém sal.Jcd melhor
cio que cu - cio gênero
cabrito montês, uma sé
rie de pequenos bastõe
s, dois primeiramente,
logo um pequeno interv
alo, depois cinco, e dep
ois recomeçando. Eis
aqui, dizia, dirigindo-me a
mim mesmo pelo meu no
me secreto ou público,
eis porque, em suma, J
acques Lacan , tua flha
não é muda [ta fi lie
n'est pas muette ]24 . Tu
a flha é tua flha, porque s
e fô ssemos mudos, ela
não seria tua fil ha. Evid
entemente, isso é vantaj
oso , mesmo vivendo
em um mundo muito com
parável àquele de um asil
o universal de loucos,
conseqüência não menos
certa da existência de sig
nifcantes, vocês verão.
Esses bastões, que s
ó aparecem muito mais t
arde, muitos milhares
de anos mais tarde, depo
is dos homens terem sab
ido fazer objetos com
uma exatidão realista, qu
e no período Aurignacian
o desenharam bisões,
atrás dos quais, do ponto
de vista da arte da pintur
a, ainda que corramos
nunca alcançaremos. M
as, bem mais, na mesm
a época fazia-se, em
osso, bem pequena, a r
eprodução de algo pelo
qual não pareceria ter
sido necessário fa tigar-
se, já que é uma reprodu
ção de uma outra coisa
em osso, mas muito m
aior, um crânio de cava
lo. Por que refzer em
osso, bem pequeno, es
sa reproduçfto inigualáv
el, quando re almente
imaginamos que naquel
a época eles tinham out
ra coisa para fa zer?
Quero dizer que, no C
uvier , que tenho em
minha casa de campo,
tenho gravuras muito no
táveis de esqueletos de f
ó sseis que são feitas
por artistas re nomados, e
que não são melhores que
esta pequena redução
de um crânio de cavalo es
culpida no osso, que é de
uma exatidão anatômica
tal , que não é somente
convincente, mas rigoro
sa.
Muito bem ! É somen
te muito mais tard e que
encontramos o rastro
li

solit:írio, por falta de infor
não sonho mação, um sent
dar, ido

-60-
Lição de 6 de deze mbro de 1961

especial ao pequeno aumento no in tervalo q


ue há em algum lugar nessa
linha de bastões. É possível, mas não poss
o dizer nada sobre isso. O
que quero dizer, ao contrário, é que aqui
vemos surgir algo sobre o
qual não digo que é a primeira aparição, mas,
em todo caso, uma apariçfw
certa de algo que vocês vêem que se distin
gue completamente do que
pode se desenhar como a diferença qualitati
va . Cada um desses traços
[tra its] não é, em absoluto, idêntico àquele
de seu vizinho, mas não ó
porq ue são difrentes, que fu ncionam com
o diferen tes, mas em razüo
de que a diferença significante é distinta
de Ludo o que se refere ;\
diferença qualitativa, corno lhes tenho mos
trado com essas pequenas
coisas que acabo de fa zer circular entre vo
cês. / cl ifrc nça quali tativa
pode, inclusive, no caso, sublinhar a mesmidade
signilkanle. Essa meslllidad1:
é constituída assim, justamente porque o
significante como tal serve
para conotar a diferença em estado puro, e a
prova é que, em sua primeira
'1l
a a multiplicidade atual .
Dito de outro modo, sou caçador, já que es
tamos transportados ao
nível do Magdaleniano IV. Deus sabe que
pegar um animal não era
muito mais simples naquela época, do que o
que é em nossos dias para
os que se chamam Bushmen , e era uma
aventura i Parece que logo
após ter atingido o animal, era preciso bater
nele longamente, para vü ·
lo sucumbir ao que era o efeito do veneno.
Mato um, é uma aven tura ,
mato outro, é uma segunda aventura que p
osso distinguir da primeira
por certos traços, mas que se assemelha e
ssencialmente à primeira ,
por estar marcada pela mesma linha ge ral.
Na quarta vez, pode haver
confusão, o que é que a distingue da segunda
, por exemplo? Na vigésima,
como é que me situarei, ou mesmo, como
é que saberei que acabei
com vinte? O Marquês de Sade, na Rua Par
adis, em Marseille, fe chado
com seu rapazinho, procedia igualm[cou ps J.
ente com os orgasmos
ainda que diversamente variados, que ele tin
ha na companhia do parcdr,
ou mesmo com alguns companheiros diversam
ente variados. Esse ho111c111
notável, cujas relações com o desej o deviam,
seguramente, ser marcadas
por um ardor pouco comum, não importa o
que se pense, marcava na
cabeceira de seu leito, dizem , com pequeno
s traços, cada um de s1:11s
orgasmos [coups] - para chamá-los por se
u nome - que foi levado a
cometer até sua consumação nessa espécie
de retiro probatório singula r.
Com certeza, é preciso estar-se bem engaj
ado na aventura do desejo,
pelo menos de acordo com tudo o que o com
um das coisas nos c11si11:r

-61-
A Ie nticação

acl'rca da experiência
mais ordinária dos mor
tais, para sentir uma ta
l
11<:ccssidade de se de
marcar na sucessão de
suas re alizações sex uai
s;
todavia, não é impensá
vel que, em algumas é
pocas fvorecidas da vid
a,
algo possa torn ar-se v
ago, no pon to ex ato e
m que se está no campo
da
numeração decimal.
O que é importante
no entalhe, no traço en
talh ado, é algo que nã
o
podemos ignorar que a
qui surge algum a coisa
nova em re lação ao qu
e
se pode ch am ar de im
anência de alguma ação
essen cial, qualquer qu
e
seja. Es te se r, que pod
emos im agin ar ainda d
esprovido desse modo d
e
orientação, o que ele fa
rá no fim de um tempo b
as tan te curto e limi tad
o
pela intuição, para não
se sentir simplesmen te
soli dá rio de um presen
te
semp re fa cilmente re
nov ado, no qual nada
lhe permite discernir m
ais
o que ex is te como difere
n ça no re al ? Não basta
dizer, já es tá bem eviden
te
que ess a diferença es
tá na vivência do sujeit
o, do mesmo modo qu
e
não basta dize r, "mas
de todo jeito, esse fula
no não sou eu! ". Não
é
simplesmen te porque
Lapl an che tem os cab
elos assim , e que eu o
s
tenha assado, e que el
e tenh a os olhos de cer
ta maneira, e que ele n
ão
ten ha ex atamente o
mesmo sorriso que eu,
que ele é diferente. Vo
cês
dirão : "Laplanche é La
planche, e Lacan é Lac
an". Mas é justamente

que está toda a questão,
já que jus tamen te, na a
nálise coloca-se a questã
o
de se Laplan che não é
o pensamento de Lacan
, e se Lacan não é o ser
de Lapl anche, ou inve
rsamen te. A questão n
ão está sufcien temen t
e
re sol vi da no re al. É
o signifcante que decid
e , é ele que in troduz a
diferen ça como tal no re
al, e jus tamente na medi
da em que o que importa

não são diferen ças qu


alitativas.
Mas então, se e
sse significante , em su
a fun ção de diferen ça,
é
al go que se apresenta
assim sob o modo do pa
radoxo de ser justament
e
diferente dessa dife ren
ça que se fund aria sob
re, ou não, a semelh anç
a,
de se r outra coisa dist
inta e, rep ito, da qual
podemos supor, porqu
e
nós os temos a nosso a
l cance , que há seres q
ue vivem e se suportam

muito bem, ignoran do co


m pletamente esse tipo d
e difern ça que ce rtaen t
e,
por exemplo, não es tá
acessível à minha cad
ela - e não lhes mostro

imediatamente, porque
lhes mostrarei mais em
detalhes e de uma form
a
mais articulada - que é
bem por isso que, apare
n temente , a única cois
a
que ela não sabe, é qu
e ela mesma é. E que e
la mesma seja, devemo
s
procurar sob qual modo
isto está suspenso a es
sa espécie de dis tinção

-62-
Lição de 6 de deze mbro de 1961

particularmerte manifesta no traço unário, já


que o que o distingue 11i10
é uma identidade de semelhança, é outra co
isa.

alguma coisa � S
(signo)
alguém

Qual é essa outra coisa? É que o signif


icante não é um signo. Um
signo - dizem-nos - é representar alguma c
oisa para alguém, o alguém
está lá como suporte do signo. A primeira
definição que podemos dar
de um alguém, é alguém que está acessív
el a um signo. É a fo rma, a
mais elementar, se podemos nos exprimir
assim, da subjetividade. Não
há objeto algum aqui ainda, há outra coi
sa, o signo, que representa
esta alguma coisa para alguém. Um sign
ificante se distingue de um
signo, primeiramente por aquilo que tentei
fazer vocês sentirem, é que
os significantes não manifestam senão a p
resença, em primeiro lugar,
da diferença como tal e nada mais. A prim
eira coisa , portanto, que ele
implica, é que a relação do signo com a coi
sa está apagada. Aqueles 1
do osso Magd aleniano, bem esperto aquel
e que pudesse dizer signo de
quê eles eram . E ncs estamos, graças a Deu
s, bastan te avançados desde
o Magdaleniano IV, para que vocês se aperc
ebam disso, que para vocês
tem a mesma espécie, sem dúvi da, de e
vidência ingênua, permitam
me dizer-lhes, que A é A, isto é, que como
lhes ensinaram na escola,
não podemos somar trapos com guardanap
os, pêras e cenouras, e assim
por diante; é absolutamente um erro, isto só c
omeça a se tornar verdadeiro
a partir de uma defnição de adição que su
ponha, asseguro-lhes, uma
quantidade de axiomas já suficiente para cob
rir toda esta seção do quadro
negro.
No nível em que as coisas são tomadas
em nossos dias, na reflexão
matemática, nomeadamente, para chamá
-la por seu nome, na teoria
dos conjuntos, não poderia, em absoluto, nas
operações mais fu ndamentais
tais como, por exemplo, de uma re
união, de uma intersecção, tratar-se
de colocar condições muito exorbitantes par
a a validade das operações.
Vo cês podem muito bem somar o que qui
serem no nível de um certo
registro, pela simples razão de que o imp
ortan te em um conjunto é,
como o exprimiu muito bem um dos teóricos
especulando sobre um do6
ditos paradoxos, não se trata nem de objeto,
nem de coisa, trata-se de 1

-63 -
A Identificação

muito exatamente, no qu
e se chama elemento do
s conjuntos. Isto não
está bem marcado no tex
to ao qual faço alusão, p
or uma célebre razão,
justamente essa refl
exão sobre o que é um 1 n
ão está bem elaborada,
inclusive por aqueles qu
e, na teoria matemática
mais moderna, fazem
disso, no en tan to, o uso
m1is claro e o mais mani
festo.
Este 1 como tal, en,
clalilO m.c1ca da difere
nça pura, é a ele que
vamos nos refrir para co
locar à prova, em nossa
próxima reunião, as
relações do sujeito com
o significante. Te remos
, em primeiro lugar,
que distinguir o significan
te do signo, e mostrar e
m que sentido o passo
que é fr anqueado é aqu
ele da coisa apagada; os
diversos apaga mentos
29

vem à luz, nos darão pre


cisamente os modos cap
itais da manifestação
do sujeito. Desde já par
a indicar-lhes, recordar-
lhes as frmulas sob as
quais eu anotei para você
s, por exemplo, a fu nção
da metonímia, fu nção
S, f (S) , na medida em
que ele está numa cadei
a que continua em S',
) = S (-) s, é isto que de
ve dar-nos o
efito que chamei de po
uco sentido [peu de sens]
. na medida em que o
signo menos designa, co
nota um certo modo de a
parição do signifcado
tal, que ele resulta da co
locação em fu nção de S
, o signifcante, numa
cadeia signifcante. Nós o
colocaremos à prova de u
ma substituição desses
já que just
amente, essa operação é
absolutamente lícita, e
vocês o sabem melhor d
o que ninguém, vocês, pa
ra quem a repetição é
a base de sua experiência
; o que faz o nervo da rep
etição, do automatismo
de repetição para a sua
experiência, não é que s
eja sempre a mesma
coisa o que é in teressant
e, mas sim o porquê isso
se repete, isso de que
o sujeito, do ponto de vi
sta de seu conforto biol
ógico nã tem, vocês o
sabem, estrita e verdadei
ramente nenhuma neces
sidade, para o que diz
respeito às repetições que n
os in teressam, isto é, repeti
ções as mais pegajosas,
as mais enfadonhas, as m
ais sinlomalogêni cas. É p
ara lá que deve dirigir
se sua atenção, para revel
ar ali a incidência como tal
da função do sigifcante.
Como pode produzir-se
essa relação típica do s
ujeito constituído pela
existência do signifcante
como tal, único suporte p
ossível do que é para
nós originalmente a exp
eriência de repetição?
Deter-me-ei aqui, ou
indicarei a vocês como
é preciso modificar a
f6 rmula do signo para d
iscernir, para compreend
er o que é importante
no adve nto do significan
te. O significante, ao con
trário do signo, não é
o q111: re presenta alg
uma coisa para alguém,
é o que representa,

- 64 -
Lição de 6 de dezembro de 1961

precisamente, o sujeito para um outro signi


ficante . Minha cadela está
em busca de meus signos e, portanto, ela fal
a, como vocês sabem ; por
que sua fala não é uma linguagem? Porq
ue, justamente, eu sou para
ela algo que pode lhe dar signos, mas que nã
o lhe pode dar o significante.
A distinção entre a fa la [parole], como ela e
xiste no nível pré-verbal, e
a linguagem , consiste justamente nessa
emergência da fu nção do
significante .
-65 -
LIÇÃO V
13 de dczcm/ro de 1961

'CV OU'CV EV ÀEYE'at


Aot0µoç ÔE to EX µovaôwv
cuyKEtµEvoy 7ÀT0oç

EUCLIDES - Elementos, 4
, VII.

Essa fra se é uma fr


a se que tomei empres
tada do início do sétimo

livro dos Elementos de


Euclides e que me pa re
ceu, no final das contas,
a melhor que encon trei
para exprimir, no plano
ma temático, essa fnçã
o
sobre a qual quis chama
r a atenção de você s da
última vez , do um , em
nosso problema. Não qu
er dizer que tiv e que pr
oc ur á-la, que me dei a
o
tr abalho para en con trar,
nos ma temáticos, alguma
coisa que se re lacionasse
com aquilo; os matemát
icos, pelo menos uma p
arte deles, aque les qu
e
na sua época estiveram
na ponta na exploração d
e seu campo, ocuparam
un idade, ma s estão lon
ge de terem chegado,
to dos, a fórmulas igual
mente sa tisfatórias. Pa r
ece-me que, para algun
s,
isso ocorreu em suas de
finições: fo ram cm linha
reta no sen tido oposto
àquele que convém.
Seja como fr, alegra-
me pensar que alguém
como Euclides, que, de

qualquer maneira, cm m
a té ria de matem á tica ,
só pode ser considerado
notável
porque artic ulada por u
m geôme tra , do que é
a unidade, pois está af
o
sen tido da palavra µova
ç, é a unidade no sen tid
o preciso com que ten tei

designa r para você s na


última vez , sob a design
ação daquilo que cham ei
- ain da re torna rei ao
porque a chamei assim
- de traço unário. O traç
o
un á rio, en q uan to supo
rte como tal da dife ren ça
, é exatamen te o sen tido
que aqui tem µovaç. Nã
o pode haver nen hum
outro sen tido, ta l coro
a
saqüência do texto lhe
s mostrará.
Po rtan to, µovaç que
r dize r essa un idade n
o sentido do tra ço unári
o
tal como aqui in dico-lhes
que ele recorta , que ele i
n dica , em sua f'u1 1 ç/o,
aquilo a que nós chegamo
s, no ano passado, no cam
po de nossa cxpcri(•1 1da,

- 67 -
A Identificação

a observar no próprio te
xto de Fre ud como o ein
ziger Zug, aquilo por
meio do qual cada um dos
entes é dito ser um um , co
m toda a ambigüidade
que traz este en neutr
o de eis que quer dizer
um em grego , sendo
precisamente o que se p
ode empregar, tan to em
grego como em francês,
para designar a fu nção
da unidade enquanto el
a é o ftor de coerência
pelo qual alguma coisa
se distingue daquilo que
a cerca, faz um todo,
um I no sentido unitário
da fu nção. Portanto, µ
ovaç é por intermédio
da unidade que cada um
desses seres vem a ser
dito um. O advento, no
dizer, dessa unidade co
mo característica de cad
a um dos entes é aqui
designado, ele vem do u
so da µovaç, que não é
nada mais que o traço
único. Essa coisa merec
ia ser realçada justamen
te sob a pluma de um
geômetra, isto é, de algu
ém que se situa na mate
mática de uma maneira
tal, aparentemente, qu
e para ele, no mínimo,
devemos dizer que a
intuição conservará todo
seu valor original. É ver
dade que não se trata
de um geômetra qualqu
er, dado que, em suma,
podemos distingui-lo
na história da geometria
como aquele que, pela p
rimeira vez, introduziu,
como devendo absoluta
mente dominá-la, a exig
ência da demonstração
sobre o que se pode cha
mar de experiência, de f
miliaridade do espaço.
Te rmino a tradução da cit
ação : " ... que o número
, ele, nada mais é que
essa espécie de multiplic
idade que surge precisa
mente pela introdução
das unidades", das môn
adas, no sentido como s
ão entendidas no texto
de Euclides.
Se identifco essa fu nção
do traço un:írio, se faço de
la a figura desvelada,
daquele einziger Zug d
a identificação, onde fm
os levados por nosso
caminho no ano passado
, apontemos aqui, an tes
de avançarmos mais,
e para que vocês saibam
que o contato não é nunc
a perdido com aquilo
que é o campo mais diret
o de nossa referência téc
nica e teórica a Freud,
apontemos que trata-se
da identificação da seg
unda espécie, página
1 17, volume 13 das Ges
ammelte We rke de Fre ud
.
,:: exatamente na co
nclusão da definição da
segunda espécie de
idcnlif'icação, que ele ch
ama de regressiva, tanto
quanto está ligada a
11111 certo abandono do
objeto que ele define com
o o objeto amado [que
s1• d1·sig11a humoristic
amente, no desenho de T
o epffer, com um traço
d1· 1111i:1ol. Esse obje
to amado vai da mulher [
eleita] aos livros raros
1"1"1", 1·01110 dizia alg
uém de meu meio, com a
lguma indignação pela
111i11!1a hihliol'ilial 1:: se
mpre, em algum grau, lig
ado ao abandono ou à
1wrda d1·ss1· ohjl'lo que
se produz, nos diz Freud,
essa espécie de estado

-68-
Lição de 13 de deze mbro de 1961

regre ssivo de onde surge essa identificação q


ue ele sublinha, com alguma
é para: nós fonte de admi ração, co
mo cada vez que o descob ridor
de signa um traço garan tido de sua expe
riên cia do qual pa receria, à
primei ra vista, que nada precisa, que se tra ta
aí de um caráter con tingen te .
Da mesma forma não o justifica, senão por
sua experiência, que ne ssa
espécie de identificação em que o cu copi
a na si tua çã o, ora o objeto
não amado, ora o objeto amado, ma s que nos
dois ca sos essa identificação
é pa rcial, hochst beschrinhte, altamente lim
itada, mas que é acen tuado
no sentido de estreiteza, de en colhimen t
o, que é nur einen einzigen
Zug, apenas um traço único da pessoa objct
alizada, que é como o ersalz,
tomado emprestado da palavra alemã.
Po de, po rtanto, parecer-lhes que abordar e
ssa idcntifcação pela segunda
espécie é também me beschri uhen, limitar-
me, re stringi r o alcan ce de
minha abordagem, pois há a outra, a identi
ficação da primei ra espécie,
aquela sing ularmente ambivalcntc que se f
az sob re o fundo da imagem
da devo ração assimilante. E que relação te
m ela com a tercei ra, aquela
que começa imediatamente depois desse po
nto que de signo no parágrafo
fre udiano, a identificação com o outro, p
or in termédio do desejo, a
identificação que conhecemo s bem, que é
histéri ca, ma s justam ente
que lhes ensinei que não se podia di stin
g ui r bem - acho que vocês
dev em se dar conta disso suficien tement
e - que a pa rti r do momento
cm que se tem estruturado o desej o (e nã
o vejo ning uém que o Lenha
fei to cm outro luga r senão aqui e antes qu
e isso se fizesse aqui) como
supondo cm sua subjacência, exatamente, n
o mínimo, toda a arti culação
que temos dado das relaç õe s do sujeito
precisamente com a cadeia
significante, já que essa relação modi fica
profundamen te a estrutura
de toda relação do sujeito com cada uma de
suas ne ce ssidade s?
Essa pa rcia lidade da abordagem, essa e
n trada - se posso dizer assim
- envie sada dentro do prob lema, tenho o sen
timen to de que, ao de signá
la a vo cês, convém que eu a legi time hoje
, e espero poder fazê-lo bem
dep ressa para me fazer en tender sem muit
os desvios, lemb ran do-lhes
um princípio de método para nós: que, vi st
o nosso luga r, nossa função,
o que temos de fazer em nossa abordagem i
ni cial3°, devemos descon fiar,
digamo s - e levem isso o mai s longe que qu
iserem - do gênero e mesmo
da cla sse. Pode lhes pa recer sing ular que al
g uém que para vocês acentua
a pregnân cia de nossa articulação dos fenô
menos que nos con cernem ,
da função da ling uagem, se distinga aqui
por um modo de relação que

-69 -
A Identicação

. ..
i

· 111c leva ali, é a necess


idade mesma de no sso o
bjeto que nos empu rra
:1, 1 1 J I 1c se desenvolv e
efet iva mente no curso dos
anos, segmento por segento
,
11111:1 articulação lógica
qu e faz mais que sug eri
r, qu e vai ca da vez mais

p1·11 0 · preci samente,


nesse ano, espero - de d
estacar os algorit mos qu
e
1111 · per mit em chamar
de lógica esse capítulo qu
e teremos de acrescentar
às
lú111J> cs exercidas pela
linguagem num certo cam
po do real, aquele do qual

11i'1s outro s, seres fala nt


es, somos os condutores.
Desconf emos, portanto , a
o
111:í ximo de toda Kmvcov
ta ,o.m yEvucou, para emp
rega r um termo platônico,
de t 11do o que é a 11gu
ra el e comuni dade cm
qualquer gênero e, mai
s
< ·s1 >l'Cial mente, naquel es
que são pa ra nós os ma is or
ignais. As trê s identfca ções
11:io formam provavelm
ente uma classe. Se ela
s podem, todavia , levar
o
111cs1r10 nome que aí tr
az uma somb ra de concei
to ; cabe-nos também, se
m
d1'1 vida, dar conta disso.
Se operarmos com exatid
ão, isso não pa recerá um
a
larcfo aci ma das nossas f
or ças.
De fato, sabemos de
sde já qu e é no nível d
o particular que semp r
e
sur ge o qu e pa ra nós é
função universal , e não t
emo s muito por que nos
surpreendermos co m iss
o no nível do campo em
qu e nos movemos, post
o
qtll', no qu e concerne à
fu nção da identi fica çã
o, sabemos desde já - j
á
1r:1halhamos ba sta nt e
juntos pa ra sabê -lo - o s
entido dessa frmula , que

11 qt1l' se passa, se passa


essencialmente no nível da
est ru tura . E a est rutura,
s,·r:' prec iso lembrá-
lo, e creio que justa me
nte hoje, antes de da r
um
passo mais adiante, se
rá preciso que eu o lem
b re, que é o que temo
s
uzi do principalment
e como especifica ção, r
egistro do simbólico ?
S1· o distinguimos do i
magin ário e do real, es
se registro simbólico -
' poderia haver
ali de hesitaç
ão

.
1·111 '1111 · ,·ssc lcrcciro
el emento, qu e até aí nã
o era absolutamente, em

- 70-
Lição de 13 de dezembro de 1961

nossa exper iê ncia, sufcientemente discer


nido como tal, é exatamente
aos meus olhos o que é constituído exata
mente pelo fa to da revelação
de um campo de experiê ncia. E, para s
uprimir toda a ambigüidade
desse ter mo, tr ata-se da exper iência freud
iana, eu dir ia, de um campo
de experiência. Quero dizer que não se tra t
a de Erlebnis, trata-se de um
ca mpo constituído de uma cer ta mane ira,
até um certo gra u por algum
ar tifício, aquele que inaug ura a técnica p
sicanalítica como ta l, a face
complementar da descob er ta freudiana, c
omplementar como a frente o
é ao av esso, realmente cola do. O que é rev
elado pr imeiro nesse campo,
vocês sa bem bem, natural mente, que foi a f
unção do símbolo e ao mesmo
tempo o simbólico. Desd e o início esses ter
mos tiveram o efito fscinante,
sedu tor, cativ ante que você s sab em, no c
onjunto do campo da cul tura,
esse efeito de choq ue ao qual, você s sa be
m, quase nenh um pensador, e
mesmo den tre os mais hostis, pôde se subt
rair.
É preciso dizer que é ta mbém um fato de
experiê ncia que perdemos,
do tempo da rev elação e de sua correlaç
ão com a função do símbolo,
nó s perdemos seu frescor, se se pode dize
r, esse frescor correla tivo ao
qual chamei de efeito de choq ue, de sur p
resa, como propr ia mente o
defniu o próprio Fr eud, como cara cterística d
essa emergê ncia das relações
do inconsciente; essas espécies de fash sob
re a imagem, cara cterísticos
dessa época, por meio dos quais, se se pode
dizer, apareciam novos modos
de inclusão dos seres imaginários, por ond
e subitamente alguma coisa
guiava seus sentidos, fala ndo propriamente, se
esclarecia por uma apreensão
que não pod ería mos melhor qualifcar senã
o desig na ndo-os pelo termo
Begriff, apreensão pegajosa, ali onde os pla
nos colam, função da fxação,
de não sei qual Haftung , tão característica d
e nossa relação [abordagem]
no ca mpo imagnário, ao mesmo tempo evoca
ndo uma dimensão da gê nese
onde as coisas se dilatam mais do que evol
uem; certa ambigüidade que
per mitiria deixar o esquema evolução com
o presen te, como implicado,
eu direi, naturalmente no ca mpo de nossas
descober tas.
Como em tudo isso podemos dizer qu
e, no final das contas, o que
caracter iza que esse tempo morto - indica
do por todas as espécies de
te óricos e de práticos na evolução da doutri
na, sob indicações e rubricas
diversas - se tenha produzido? Como essa e
spécie de fra casso surgiu, o
qual nos impõe o que é propr iamente nos
so objeto aqui, aq uele onde
tento lhes gu iar, retomar toda nossa dialética
sobre princípios mais segur os'
É exatamente que em algum lugar nó s dev
emos de signar a fnlc d1·ssa

-71-
A Ide ntificação

espécie de extravio que f


az com que, em suma, p
ossamos dizer que, ao
cabo de certo tempo, e
sses dados só fcavam vi
vos para nós para nos
remeter ao tempo de se
u surgimento, e isso mai
s ainda sobre o plano
da efcácia em nossa té
cnica, no efeito de noss
as interpretações, em
sua parte efcaz. Por qu
e as imagos descoberta
s por nós, de alguma
maneira, se banalizara
m ? Será apenas por u
ma espécie de efito de
fmiliaridade? Aprendemo
s a viver com esses fanta
smas, nos avizinhamos
ao vampiro, ao polvo, res
piramos no espaço do ve
ntre materno ao menos
por metáfra. As revistas
em quadrinhos também,
com um certo estilo,
o desenho humorístico, f
azem-nos viver essas im
agens como nunca se
viu numa outra época, v
eiculando as próprias i
magens primordiais da
revelação analítica ao fa
zer delas um objeto de d
ivertimento corrente.
No horizonte, o relógo mo
le e a função do grande m
asturbad or, guardados
nas imagens de Dali. Se
rá apenas para isso que
a nossa competência
parece fazer o uso instr
umental dessas imagen
s como reveladoras?
Seguramente que não, p
ois projetadas, se posso
dizer, aqui nas criações
de arte, elas guardam a
inda sua fo rça, que cha
marei não apenas de
percuciente, mas de críti
ca. Elas guardam algum
a coisa de seu caráter
de irrisão ou de alarme.
Mas, não é disso que se t
rata , em nossa relação
com aquele que vem par
a nós designá-los na atu
alidade do tratamento?
Aqui, não nos resta mais
como desígnio de nossa
ação senão o dever de
fa zer bem, sendo o faz
er rir apenas um camin
ho muito ocasional e
limitado em seu empreg
o. E ali o que nós vimos
acontecer não é nada
mais que um efito que p
odemos chamar de recaí
da ou de degradação,
isto é, que aquelas imag
ens, nós as vimos simple
smente re torar àquilo
que se designou muito
bem sob o tipo de arqu
étipo, isto é, de velho
truque da loja dos acessó
rios em uso. É uma tradiç
ão que se reconheceu
sob o título de alquimia o
u de gnose, mas que est
ava ligada justamente
a uma confusão muito anti
ga e que era aquela onde
tinha fcado atravancado
o campo do pensamento
humano durante séculos
.
Pode parecer que me di
stingo, ou que lhes coloc
o em guarda contra
um modo de compreensã
o de nossa referência que
seja aquele da Gestalt.
Não é exato. Estou long
e de subestimar o que tr
ouxe, num momento
da história do pensamen
to , a fnção da Gestalt, m
as para me expressar
rapidamente, e porque aí f
a,. essa espécie de varre
dura de nosso horizonte
que é preciso que eu refo
i , :ie tempos em tempos
para evitar justamente
que renasçam sempre as
· .;mas confusões, intro
duzirei, para me fzer

-72-
Lição de 13 de deze mbro de 1961

entender, essa distinção : o que constitui o ne


rvo de algumas produçics
desse modo, de explorar o campo da Gestalt,
o que chamarei de Geslall

junção, de parentesco
entre as formações naturais e as organizaç
ões estruturais, à medida
que eles surgem e são defníveis apenas a partir
da combinatória significante,
é aquela que faz disso a frça subjetiva, a eficá
cia desse ponto ontológico
onde nos fi deixada alguma coisa da qual l
emos muita necessidad1\
que é, a saber, se há alguma relação que jus
lifica essa in lrocl ução ao
modo de relha do efeito <lo signiicante no real.
Mas isso não nos cor1cerrw,
porque esse não é o campo que nos ocupa;
nós não estamos aqui para
julgar o grau de natural da física moderna,
ainda que ele possa nos
interessar. É o que faço de tempos cm Lcmpos,
diante <l e vocês, algumas
vezes, ao mostrar que historicamente é justa
men te na medida cm q1ic
ela negligenciou inteiramente o natural das coi
sas que a física comcço11
a entrar no real.
A Gestalt contra a qual coloco-lhes em gu
arda é uma Gestalt que
vocês o observarão ao contrário daquilo a
que se sentem ligados os
iniciadores da teoria da Gestalt-dá uma rferên
cia puramente confusio11al
à fnção da Gestalt, que é aquela que chamo
de Gestalt antropomórfca,
seja, confunde o que traz nossa experiência
com a velha referência analítica do macroco
smo e do microcosmo, do
homem universal, registros bem curtos no f
i nal das contas, e que a
análise, na medida em que ela acreditou se e
ncontrar aí, não faz scn:10
mostrar uma vez mais a relativa infecundi
dade. Isso não quer dizer
que as imagens que evoquei há pouco, humo
risticamente, não tenha111
seu peso , nem que elas não estejam aí para
que nós nos sirvamos ddas
ainda. Para nós mesmos deve ser indicativa
a maneira que há 11111i10
tempo preferimos deixar na sombra. Não se f
ala mais, absolutame11l1·,
senão a uma certa distância . Elas estão ali, pa
ra empregar uma metáfora
freudiana, como uma dessas sombras que, no
campo dos infernos, estrw
prontas a surgir. Nós não podemos, verdadeir
amente, reanimá-las; 11iio
lhes demos sem dúvida bastante sangue a beb
er. Mas afnal, tanto melhor,
não somos necromantes.
É justamente aqui que se insere essa cham
ada característica do q111·
lhes ensino, que está aí para mudar inteiram
ente a face das coisas, a
saber, de mostrar que o contundente do que tr
azia a descoberta freudiana
A Identicação

não consistia nesse ret


orno dos velhos fntasm
as, mas numa relação
outra. Subitamente, ho
je de manhã encontrei,
do ano de 1946, um
desses pequenos Propó
sitos sobre a causalidad
e psíquica pelos quais
eu fazia a minha entrad
a no círculo psiquiátrico,
imediatamente depois
da gu erra . E aparece n
esse pequeno texto que,
vejam, publicado nas
entrevistas de Bonneval
, numa espécie de apost
o ou de incidência no
início de um mesmo pará
grafo conclusivo, cinco li
nhas antes de terminar
o que eu tinha a dizer so
bre a imago : "mais inac
essível a nossos olhos
fe itos para os signos do
cambista", pouco import
a a seqüência, "que os
do caçador do deserto", di
go, que só evoco isso por
que nós o encontramos
da última vez, se me le
mbro bem, "sabe ver o t
raço imperceptível, o
passo da gazela sobre o
rochedo, um dia se revel
arão os aspectos da
imago". No momento, o a
cento é para ser colocad
o no início do parágraf,

" O que são esses "signos


do cambista"?
Quais signos? E qual m
udança? Ou qual cambis
ta? Esses signos são,
precisamente, o que lhe
s convoquei a articular c
omo os significantes,
isto é, esses signos en
quanto eles operam pro
priamente pela virtude
de sua associatividade n
a cadeia, de sua comuta
tividade, da função de
permutação tomada com
o tal . Eis aí onde está a f
u nção do cambista, a
introdução no real de uma
mudança que não é absolu
tamente de movimento,
nem de nascimento, ne
m de corrupção nem de
todas as categorias da
mudança que desenha u
ma tradição que podemos
chamar de aristotélica,
aquela do conheciment
o como tal, mas de uma
outra dimensão, onde
a mudança de que se trat
a é defnida como tal na c
ombinatória topológca
que ela nos permite def
inir como em ergência
desse fto, pelo fto de
estrutura, como degrada
ção na ocasião, a saber,
queda nesse campo da
estrutura e retorno à ca
ptura da imagem natur
al.
Em suma, desenha-
se como tal o que é ap
enas, afnal, o quadro
fncionante do pensame
nto, dirão vocês. E por q
ue? Não esqueçamos
que essa palavra pensa
mento está presente, ace
ntuada desde a origem
por Fre ud como, sem dú
vida, não podendo ser ou
tra senão o que ela é,
para designar o que se p
assa no inconsciente. Por
que não era certamente
a necessidade de cons
ervar o privilégio do pen
samento como tal, eu
não sei qual primazia
do espírito que podia a
qui guiar Freud. Bem
longe disso, se ele pude
sse evitar esse termo, el
e o teria feito. E o que
é que isso quer dizer ne
sse nível? E por que é q
ue esse ano acreditei
dever partir, não do pró
prio Platão, para não fa
lar absolutamente dos

-74-
Lição de 13 de dezembro de 1961

outros, mas tampouco de Kant, nem de Heg


el, mas de Descartes? 1�
justamente para designar que o que está em que
stão, onde está o problema
do inconsciente, para nós, é a autonomia do
sujeito, tanto quanto ela é
não apenas preservada, que ela é sublinhada
como nunca foi em nosso
campo; e precisamente por esse paradoxo, p
ois esses caminhos que ai
descobrimos não são absolutamente concebíve
is se, falando propriamente,
não fo sse o sujeito que é o guia, e de maneir
a tanto mais segura quanto
o é sem saber, sem ser cúmplice disso, se po
sso dizer, conscius, porque
ele não pode progredir em direção a nada
, se não fr se localizando
nisso só depois, pois nada é por ele engendr
ado, senão, justamente, à
medida de um desconhecimento inicial. É is
so que distingue o campo
do inconsciente, tal como é revelado por Fre
ud. É impossível fo rmalizá
lo, fo rmulá-lo, se não vemos a todo instante
que ele só é concebível ao
ver preservada, e da maneira mais evidente
e sensível, essa autonomia
do sujeito, quero dizer, isso pelo que o sujeito
em nenhum caso poderia
ser reduzido a um sonho do mundo.
Dessa permanência do sujeito lhes mostro a r
eferência, e não a presença,
pois essa presença não poderá ser cingda senã
o em fnção dessa referência.
Eu a demonstrei, designei da última vez, em
nosso traço unário, nessa
fnção do bastão como figura do um enqua
nto ele não é senão traço
distintivo, traço justamente tanto mais distin
tivo quanto está apagado
quase tudo o que ele distingue, exceto ser u
m traço, acentuando esse
fato de que mais ele é semelhante, mais el
e fu nciona, eu não digo
absolutamente como signo, mas como suporte
da diferença, e isso sendo
apenas uma introdução ao relevo dessa di
mensão que tento pontuar
diante de vocês. Pois na verdade não existe
"mais"; mas, não há ideal
da similitude, ideal do apagamento dos traç
os. Esse apagamento das
distinções qualitativas só está aí para nos per
mitir apreender o paradoxo
da alteridade radical designada pelo traço e,
afinal, é pouco importante
que cada um dos traços se pareça com o outr
o. É alhures que reside o
fu nção de a
lteridade. E, terminando da
última vez meu discurso, indiquei qual er
a sua fnção, aquela que
garante à repetição justamente aquilo que,
por essa fu nção, apenas
por ela, essa repetição escapa: àidentidade
de seu eterno retorno sob
a fi gura do caçador inscrevendo o número de
que? De traços por onde
ele atingiu sua presa, ou do divino Marquês qu
e nos mostra que, mesmo
no auge de seu desejo, ele toma muito cuida
do de contar esses ,olpcs,

-7 5-
A Identiicação

e que es tá aí uma dime


nsão essencial, pos to q
ue ela jamais abandona
a
necessida de que ela i
mplica em quase nenhu
ma de nossas fu nções.
Contar os golpes, o
traço que co nta, o que
é isso ? Será que ainda

aqui vocês acompanham


bem? Ap reenda m bem
o que pretendo desig nar.
O que pretendo desig
na r é isso que é facilm
ente esquecido em seu

princípio, é que isso co


m que lidamos no au to
ma tismo de rep etição
é
isso, um ci clo, de alg
uma maneira tão ampu
ta do, tão deformado, t
ão
corroído, que nós o d
efníamos desde então
que ele é ciclo e que e
le
comporta retoro a um
ponto final, nós pode
mos concebê-lo sobre
o
modelo da necessidade,
da sa tisfação. Ess e cicl
o se repete; que importa
que seja realmente o m
esmo, ou que ele apres
ente mí nimas diferença
s,
esses mínimas diferença
s não serão ma ni fes ta
men te fei ta s senão pa r
a
conservá-lo em sua fu
nção de ciclo como se r
eferi ndo a alguma cois
a
de defnível como a um
certo tipo pelo qual, just
amente, todos os ci clo
s
que o precederam, na
medida em que se re
p roduzem, pa ra fa la
r
prop ramente, se identifc
am no instante como sen
do os mesmos. To memo
s
como exemplo do que e
stou lhes dizendo, o cicl
o da diges tão. Ca da ve
z
que faz emos uma, rep
etimos a dig estão. É
a isso que nos refrimo
s
quando falamos, na aná
lise, de automa tismo d
e rep etição ? Será que
é
em vi rtude de um auto
ma tismo de rep etição
que fa zemos dig estõe
s
que são sensivelmente s
empre a mesma dig es t
ão ? Não lhes deixa rei
a
abertura, de dizer que
até aí é um sofisma. Po
de haver, naturalmente,
inci dentes nessa dig es
tão que sejam devidos
a lembranças de antiga
s
dig es tões que fo ra m p
erturbadas, efeitos de des
gos to, de náusea, liga do
s
a ta l ou qual ligação co
nting ente de tal aliment
o com tal circu ns tância
.
Isso não nos fará trans
por, contudo, um pass
o a mais na distância
a
cobrir entre o retorno d
o ciclo e a função do au
toma tismo de repetição
.
Pois o que quer dizer o
automa tismo de rep eti
ção enquanto temos a
ver com ele, é isso,
é que se um ciclo det
erminado que fi apena
s
aquele ali - é aqui que
se perfila a sombra do
"trauma", que eu não
coloco aqui senão entr
e aspas, porque não é
seu efeito traumático q
ue
o retém, mas ap enas s
ua unicidade - aqu el e,
portanto, que se design
a
por um certo signifcante
qu e pode sozinho supo
rtar o que aprenderemo
s
:u ir a defnir como
uma letra, instância da
letra no inconsciente,
1:ssc A ma iúsculo, o A
inicial enquanto é nume
rável, que aqu ele ciclo
ai, e rdo um cn1tro, eq
uivale a um certo signi f
ica nte; é nesse sentido

-76-
Lição de 13 de dezembro de 1961

que o comportamento se repete para fzer r


essurgir esse significante
que é, como tal, o número que ele fu nda.
Se para nós a repetição sintomática tem u
m sentido para o qual lhes
dirij o novamente, reflitam sobre o alcance de
seu próprio pensamento.
Quando vocês flarem da incidência repetitiva
na fo rmação sintomática,
é na medida em que o que se repete está lá; n
ão apenas para preencher
a fu nção natural do signo, que é de repres
entar uma coisa que seria
aqui atualizada, mas para presen tificar como
tal o signifcante que essa
ação se tornou . Digo que é enquanto o que está
recalcado é um significante,
que o ciclo de comportamento real se aprese
nta em seu lugar. É aqui,
posto que eu me impus dar um limite de hor
a preciso e cômodo para
um certo número dentre vocês, quanto ao
que devo expor diante de
vocês, que eu pararei. O que se impõe a tudo
isso de confirmação e de
comentários contem comigo para lhos dar, a
seguir, da maneira a mais
convenien temente articulada, por mais espa
ntoso que tenha parecido
a vocês o abrupto do momen to em que expu
s tudo isso.
LIÇAO VI
20 de dezembro de 1961

Da última vez deixei-


lhes nessa observação feit
a para dar o sentimento
de que meu discurso não
perde suas amarras, a sa
ber, a importância
para nós nessa pesquisa,
esse ano, liga-se ao fa to d
e que o paradoxo do
automatismo de repetiç
ão é que vocês vejam
surgir um ciclo de
comportamento inscritível
, como tal, nos termos de
uma resolução de
tensão do par, portanto, ne
cessidade-satisfação, e qu
e, todavia, qualquer
que seja a função implica
da nesse ciclo, por mais c
arnal que vocês a
suponham, não é errad
o dizer que o que ela qu
er dizer, enquanto,
automatismo de repetição
é que ela está aí para fazer
surgr, para lembrar,
para fa zer insistir alguma
coisa que não é nada mais
, em sua essência,
do que um significante, d
esignável por sua fu nçã
o, e especialmente
sob essa face, que ela intr
oduz no ciclo de suas rep
etições, sempre as
mesmas em sua essência
e, portanto, concernente a
alguma coisa que
é, sempre, a mesma coisa
, a diferença, a distinção, a
unicidade. Que é
porque alguma coisa, na
origem, se passou, que é
todo o sistema do
trauma , a saber, que um
a vez que se produziu alg
o que tomou desde
então a forma A, na repeti
ção, o comportamento, po
r mais complexo e
por mais engajado que v
ocês o suponham na indi
vidualidade animal,
está aí para fazer ressurgir
esse signo A. Digamos que
o comportamento,
desde então, é exprimível
como o comportamento n
úmero tal. É, esse
comportamento número t
al, digamos, o acesso hist
érico, por exemplo.
Uma das frmas, em um det
erminado sujeito, são seus
acessos histéricos.
É isso que sai como comp
ortamento número tal. Ape
nas o número está
perdido para o sujeito. É j
ustamente enquanto o nú
mero está perdido
que ele sai, esse comportam
ento, mascarado nessa fnçã
o de fa zer ressurgir
-79 -
A Identicação

o número atrás do que s


e chamará de psicologia
de seu acesso, por trás
das motivações aparente
s. E vocês sabem que so
bre esse ponto não será
difcil para ninguém lhe
encontrar o ar de uma
razão : é próprio da
psicologia fazer sempre
aparecer uma sombra de
motivação. É, portanto,
nesse abraço estrutural
de alguma coisa inserid
a radicalmente nesta
individualidade vital com
esta função significan te,
que nós estamos na
experiência analítica. Vo
rs tellungs-reprisentanz :
é isto que é recalcado,
é o número perdido do
comportamento tal .
Onde está o sujeito
aí dentro? Ele está na i
ndivi dualidade radical,
real? No paciente puro de
sta captura? No organism
o desde então aspirado
pelos efitos do isso fa la
, pelo fto de que um ser
vivo entre os demais
foi chamado a se tornar
o que o Senhor Heidegg
er chama de "o pastor
do ser", tendo sido pre
so nos mecanismos do
significante. No outro
extremo, é ele identificá
vel ao próprio jogo do si
gnificante? E o sujeito
é apenas o sujeito do disc
urso, arrancado de algum
a forma a sua imanência
vital, condenado a sobr
evoá-la, a viver nessa e
spécie de miragem que
decorre dessa reduplicaç
ão que faz com que não
apenas ele fale de tudo
o que ele vive, mas que o
vivente o viva falando-o e
que o que ele vive se
inscreva num mos, uma
saga tecida ao longo de s
eu próprio ato? Nosso
esforço, esse ano, se el
e tem um sentido, é justa
111e11te o de mostrar
como se articula a funçã
o do sujeito, em algum l
ugar que não seja em
um ou outro desses pólo
s, jogando en tre os dois
. É, afinal, imagino, o
que a cogitação de você
s - pelo menos gosto de
pensar assim - depois
desses poucos anos de se
minários, pode dar-lhes, co
mo ponto de referência
pelo menos implicitamen
te, a todo instante. Será
que basta saber que a
função do sujeito está no
entre-dois, entre os efeitos
idealizantes da função
signifcante e essa imanê
ncia vital que vocês conf
undiriam, penso, ainda,
de bom grado, apesar de
minhas advertências, co
m a fu nção da pulsão?
É justamente nisso que
estamos engajados e qu
e tentamos levar mais
adiante, e é por isso que
acreditei dever começar p
elo "cogito" cartesiano,
para tornar sensível o cam
po que é aquele no qual te
ntamos dar articulações
mais precisas concernen
tes à identifcação.
Eu lhes flei, há algun
s anos, do Pequeno Ha
ns. Há, na história do
Pequeno Hans - acho q
ue vocês guardaram a l
embrança de alguma
forma -, a história do son
ho ao qual se poderia ap
licar o título da girafa
amarrotada, zerwutzelt
Giraffe . Esse verbo, zer
wutzeln, que se traduz
por amarrotar, não é um v
erbo muito corrente do léx
ico germânico comum.

-80-
Lição de 20 de deze mbro de 1961

Pode-se encontrar wurzeln, mas não zerwut


zeln. Zerwutzeln quer dizer
fzer uma bola. Está indicado, no texto do so
nho da girafa amarrotada,
que é uma girafa que está ali, ao lado da gra
nde girafa viva uma girafa
de papel, e que como tal pode se transformar
numa bola. Vo cês sabem
todo o simbolismo que se desenrola, ao longo d
essa observação, da relação
entre a girafa e a girafnha, girafa amarrota
da numa de suas fa ces,
concebível sob a outra como a giraf reduzid
a, como a girafa segunda,
como a giraf que pode simbolizar um boca
do de coisas. Se a grande
giraf simboliza a mãe, a outra graf simbol
iza a flha, e a relação do
Pequeno Hans com a girafa; no ponto em q
ue está naquele momento
de sua análise, tenderá de bom grado a enc
arnar-se no jogo vivo das
rivalidades fa miliares. Lembro-me do espan
to - ele não ocorreria mais
hoje -que provoquei então, ao desigar naquele
momento, ali, na observação
do pequeno Hans, e como tal, a dimensão
do simbólico, em ato, nas
produções psíquicas do jovem sujeito a propósi
to dessa girafa amarrotada.
O que é que poderia haver, ali, de mais indi
cativo da diferença radical
do simbólico como tal? Senão ver aparecer
na produção - certamente
sobre esse ponto não sugerido, pois não há tr
aço nesse momento aí de
uma articulação semelhante concernente à f
unção indireta do símbolo
- na observação, alguma coisa que encarne,
verdadeiramente, para nós
e nos dê a imagem da aparição do simbólico co
mo tal na dialética psíquica.
"Na verdade, onde você pôde encontrar iss
o?", dizia-me um de vocês
gentilmente após aquela sessão. A coisa su
rpreendente não é que eu
tenha visto isso ali, pois isso difcilmente pode s
er indicado mais cruamente
no próprio material . É que, sobre isso, pode-se
dizer que o próprio Fre ud
não pára , quero dizer, não põe todo o realc
e que convém sobre esse
fen ômeno, sobre o que o materializa, se se p
ode dizer, a nossos olhos .
É exatamente o que prova o caráter essencial de
stas delineações estruturais,
é que, ao não fa zê-las, ao não indicá-las, ao
não articulá-las com toda
a energia da qual somos capazes, há uma certa
fa ce, uma certa dimensão
dos próprios fnômenos que estamos nos con
denando de alguma frma
a desconhecer.
Não vou, nesta oportunidade, refazer para v
ocês a articulação daquilo
de que se trata, do que está em jogo no ca
so do Pequeno Hans. As
coisas foram bastante publicadas, e o bastant
e para que vocês possam
se refrir a elas. Mas a função como tal, ness
e momento crítico, aquele
determinado por sua suspensão radical ao de
sejo de sua mãe, de uma

- 81-
A Identicação

111;1111·ira, se podemos
dizer, que é sem compens
ação, sem recurso, sem
:;;1ída, é a fu nção de a
rtifcio que lhes mostrei
ser aquela da fbia, na
1111 �11 ida cm que ela in
troduz um mecanismo signif
cante chave que permite
ao s11jcito preservar o qu
e está em questão, para el
e, a saber, esse mínimo
d1· a 11coragem, de cen
tragem de seu ser, que lh
e permite não se sentir
11111 ser completament
e à deriva do capricho m
aterno. É disso que se
1 ra la, mas o que quero
indicar nesse nível é o s
eguinte: é que, numa
produção eminentemen
te pouco sujeita à cauç
ão, na ocasião - digo
isso lanto mais porque tu
do aquilo para o qual se o
rientou precedentemente
o pequeno I-Ians, pois D
eus sabe que o orien ta
m, como lhes mostrei,
nada disso é de natureza
a colocá-lo num campo d
este tipo de elaboração
o pequeno !-Ians mostr
a-nos aqui, sob uma figur
a fe chada certamente,
ras exemplar, o salto, a pa
ssagem, a tensão entre o
que defni primeiramente
como os dois extremos
do sujeito, o sujeito ani
mal que representa a
mãe, mas também com
seu pescoço grande, ni
nguém duvida, a mãe
enquanto ela é esse im
enso flo do desejo, ter
minando ainda no bico
fminto deste animal vora
z; e o outro, alguma cois
a sobre uma superfcie
de papel - retornaremos
sobre essa dimensão da
superfcie - esse algo
que não é desprovido de
todo acento subjetivo, po
rque se vê bem toda a
trama de que se trata, a
gande giraf, vendo-o bri
ncar com a pequena
amarrotada, gita bem alt
o, até que fnalmente ela
se cansa, esgota seus
1r ritos, e o Pequeno Han
s, sancionando de al
posse, a Besitzung de qu
e se trata, a trama mister
iosa do caso, senta-se
encima, draufg esetzt.
Essa bela mecânica de
ve nos fazer sentir o que
está em causa, se é de
sua identifcação fu ndam
ental, da defesa dele mes
mo contra essa captura
ori�nal no mundo da mã
e, como ninguém natural
mente duvida, no ponto
cm que estamos da elucid
ação ela fobia . Aqui jú ve
mos excmpli1cacla essa
!'unção do sigifcante.
É exatamente aí que
quero me deter hoje ain
da, no que concere ao
1 >onto de partida do que
temos a dizer sobr a ident
cação. A fnção sigcate,
enquanto ponto de amarr
ação de al
1·� o que vai fazer com qu
e eu me detenha um instan
te, hoje, sobre algo que,
parece-me, deve vr natur
almente ao espírito, não
apenas por razões de
lúgica geral, mas também
por al
1•xpcriência de vocês, qu
ero dizer: a fnção do nom
e.

-82-
Lição de 20 de dezembro de 1961

Não o nomen , o nome definido gramatic


almente, o que chamamos
de substantivo: nas escolas, mas o name, co
mo em inglês, e em alem:ío
também, aliás, as duas funções se distingue
m. Eu queria dizer um pouco
mais sobre isso aqui. Mas vocês compreende
m bem a diferença de namc:
é o nome próprio. Vo cês sabem, como analis
tas, a importância que tem,
em toda análise, o nome próprio do sujeit
o. Vo cês têm sempre que
prestar atenção em como se chama seu paci
ente. Nunca é indiferen te.
E se vocês pedem os nomes na análise é a
lgo muito mais importante
que a desculpa que vocês podem dar ao pac
iente, a saber, de que toda
espécie de coisas pode esconder-se atrás des
sa espécie de dissimulação
ou de apagamento que haveria no nome, re
ferindo-se às relações que
ele tem para pôr em jogo com algum outro su
jeito. Isso vai muito além .
Vo cês devem pressenti-lo, senão sabê-lo.
O que é um nome próprio? Deveríamos te
r muito a dizer aqui. O fato
é que, de fa to, podemos trazer muito materi
al ao nome. Esse material,
nós analistas, nas próprias supervisões,
mil vezes iremos ilustrar a
importância disso . Não acho que pudésse
mos dar, justamente aqui,
todo seu alcance sem nos referirmos - está a
í uma ocasião a mais para
compreendermos claramente a necessidade
metodológca - àquilo que
a esse respeito o lingüista tem a dizer. Não para
nos submeter forçosamente
a isso, mas porque concernente à fu nção,
à definição do sigificante,
que tem sua originalidade, devemos pelo men
os encontrar aí um controle,
senão um complemento do que podemos di
zer. De fato, é exatamente
o que vai se produzir. Em 1954 , foi publicad
o um opúsculo de Sir Allan
H. Gardiner. Há todo tipo de trabalhos del
e e, particularmente, uma
gramática egípcia muito boa, quero dizer do
Egito antigo. É então um
egiptólogo, mas é também e antes de tudo u
m lingüista. Gardiner fez -
fi nessa época que o adquiri, durante um
a viagem a Londres - um
livrinho que se chama A teoria dos nomes pr
óprio.�. Ele o escreveu de
uma maneira um pouco contingente. Ele o ch
ama de um controversial
essay, um ensaio controvertido. Pode-se mes
mo dizer, isso é uma litotes,
um ensaio polêmico. Ele o escreveu após a i
ntensa exasperação a que
o levara um certo número de enunciações d
e um filósofo que não lhes
apresento pela primeira vez, Bertrand Russe
ll, do qual vocês sabem o
enorme papel na elaboração do que se poderi
a chamar, em nossos dias,
de lógca matematizada, ou a matemática logca
da. Em tomo dos Principia
mathematica, com Whitehead, ele nos deu
um simbolismo ge ral das

-83 -
A Identicação

operações lógicas e ma
temáticas que não se po
de deixar de levar em
conta, quando se entra
nesse campo. Portanto,
Russell, em uma de
suas obras, dá uma cert
a defnição inteiramente p
aradoxal - o paradoxo
é, aliás, uma dimensão a
qual ele está longe de rep
ugnar para se deslocar,
bem ao contrário: ele, i:,
oc sua vez, serve-se dela
mais freqüen temente
- M. Russell trouxe, por
tanto, concernente ao n
ome próprio, algumas
observações que colocar
am literalmente M. Gardin
er fora de si. A querela
é, em si mesma, basta
nte signifcativa, de ma
neira que acho dever,
hoje, introduzi-los nela e
, nesse sentido, acresce
ntar observações que
me parecem importantes
. Por qual ponta vamos c
omeçar? Por Gardiner
ou por Russell? Comece
mos por Ru ssell.
Russel se encontra n
a posição do lógico. O ló
gico tem uma posição
que não data de ontem
. Ele faz fu ncionar um c
erto aparelho ao qual
ele dá diversos títulos, r
azões, pensamentos. El
e descobre um certo
número de leis implícita
s. Num primeiro tempo,
ele destaca essas leis,
são aquelas sem as quais
não haveria nada que fos
se da ordem da razão,
que fosse possí
vel . É no curso dessa pe
squisa inteiramente origi
nal do
pensamento que nos gov
erna, [a refexão grega].
que apreendemos, por
exemplo, a importância
do princípio de contradiç
ão. Esse princípio de
contradição descoberto
, é em torno do princípi
o de contradição que
alguma coisa se despren
de e se organiza, que mo
stra seguramente que,
se a contradição e seu prin
cípio fossem apenas algu
ma coisa de tautológca,
a tautologia seria singula
rmente fec unda, pois nã
o é simplesmen te em
algumas páginas que se
desenvolve a lógica arist
otélica.
Com o tempo, contudo, o
fto histórico é que, longe
do desenvolvimento
da lógica se dirigir para
uma ontologia, uma refe
rência radical ao ser
que se suporia ser visado
nessas leis mais gerais d
o modo de apreensão
necessário à verdade, el
e se orienta para um fo r
malismo, ou seja, que
àquilo a que se consag
ra o líder de uma escol
a de pensamento tão
importante, tão decisiva
na orientação que ela d
á a todo um modo de
pensamento em nossa é
poca, que é Bertrand Ru
ssell, chegue a colocar
tudo o que concerne à
crítica das operações e
m jogo no campo da
lógca e da matemática, n
uma frmalização geral tão
estrita, tão econômica
quanto possível. Em sum
a, a correlação do esfrço
de Russell, a inserção
do esforço de Russell ne
ssa mesma direção, em
matemática�. termina
na frmação do que se c
hama de teoria dos con
juntos, cujo alcance
feral se pode caracteriza
r pelo que se esfrça em
reduzir todo o campo

-84-
Lição de 20 de dezembro de 1961

da experiência matemática acumulada por sé


culos de desenvolvimento,
e acho que não podemos dar melhor defniç
ão disso senão reduzindo
o a um jogo de letras. Isso, portanto, devemo
s levar em conta como 11111
dado do progresso do pensamento, digamos, e
m nossa época, essa época
sendo defnida como um certo momento do di
scurso da ciência . O que
é que Bertrand Russell fi levado a dar co
mo definição de um nome
próprio, nessas condições, no dia em que ele
se interessou por isso? 1::
algo que, em si mesmo, vale que aí nos deten
hamos, porque é o que vai
nos permitir apreender - poderíamos apreend
ê-lo alhures, e vocês ve rfw
que mostrarei que o apreendemos alhures
- digamos, essa parte de
desconhecimento implicada numa certa p
osição, que acontece ser
efetivamente o ângulo onde é empurrado tod
o o esforço de elaboração
secular da lógica . Esse desconhecimento
é, para flar propriamente,
que sem nenhuma dúvida, dou-lhes de algu
ma sorte, de saída, no guc
coloquei aí fo rçosamen te por uma necessi
dade da exposição: esse
desconhecimento é exatamente a relação a mais
radical do sujeito pensante
com a letra. Bertrand Husscll vé ludo exceto
isso: a funçfto da letra . It
o que espero poder fazer vocês sen tirem e lhes
mostrar. Te nham confiança
e me sigam. Vo cês vão ver agora como vamo
s avançar. O que é que ele
dá como definição do nome próprio? Um
nome próprio é, diz ele, a·
word fo r particular, uma palavra para desig
nar as coisas particulares
como tais, fora de toda descrição.
Há duas maneiras de abordar as coisas; descrev
ê-las por suas qualidades,
suas refrências, suas coordenadas no ponto
de vista do matemático, se
quero designá-las como tais. Esse ponto, por
exemplo, digamos aqui que
eu possa dizer-lhes, ele está à direita no qu
adro, mais ou menos a tal
altura, ele é branco, e isso e aquilo. Isto é u
ma descrição, nos diz M.
Russell. São as maneiras que ele tem de desig
ná-lo, fra de toda descrição,
como particular, é isso que vou chamar de
nome próprio. O primeiro
nome próprio para M. Russell - já fz alusão a
isso em meus seminários
precedentes - é o this, esse aqui, this is the quest
ion. Vej am o demonstrativo
elevado à categoria de nome próprio. Não é
menos paradoxal que M.
Russell encare friamente a possibilidade de c
hamar este mesmo ponto
de John . É preciso reconhecer que temos aí, c
ontudo, o signo, que talvez
haja alguma coisa que ultrapasse a experiên
cia, pois o fto é que é raro
que se chame John um ponto geométrico. To d
avia, Russell nunca recuou
diante das expressões as mais extremas de s
eu pensamento.

- 85 -
A Ide ntiicação

1 >1· q11alqucr modo


é aqui que o lingüis ta se
alar ma. Al arm a-se tant
o
111:1 is quan to entre es
sas duas extremidades
da definiçã o russelliana,
1/1111d .fiir particular, há e

ssa conseqüência inteir


amen te paradoxal que,

111•.ir con sigo mesmo,


Russell nos diz que Sócr
ates não tem nenhum

l'l:1t:io, o homem que to


m ou cicuta, etc. É um
a descrição ab re viada.

l'11rL111to, não é mais a


ssim que ele ch am a "u
ma palavra para designa
r
" p:11'1 icular em sua part
icularidade". É certo que
aqui vemos que perdemo
s
1111,·ir a rcn te a meada
do que nos dá a consciê
ncia lingüística, ou seja,
q1ll ' S!! é preciso que el
im inem os tudo o que
dos nomes próprios se
111s1 '1'(' 11uma comunid
ade da noção, cheg amos
a uma espécie de impasse
•Pll' i'• exa tamente aq
uilo contra o qual Gar
diner tent a contrapor a
s
111·rsp1·ctivas propriam
en te lingüísticas como t
ais.
<)
notável é que o
,• r w, sem hábito, por um
a experiência tan to mai
s prof unda do sigicante
p11rqt1c não é por na
da que lhes assinalei qu
e é alguém cujo labor e
m
p:1 rt1· se desenvolve
num ângulo especialm
ente sugest ivo e rico d
a
,·,111·ri(:11 cia i que é o d
o hieróglifo, já que é e
giptólogo - vai, por su
a
1·, ·1., s<'I' levado a cont ra
-formular para nós que l
he parece característ ico

d:1 1'1111�:;ío do nom


e próp rio. Esta caracte
rística da função do no
me
111 ,iprio, ele , para elab
orá -la, vai fzer re fe rên
cia a John St uart Mill e
a
11111 1•,1:1111:ítico grego
do sé culo II A. C., que se
ch am a de Dionísio Trá cio
.
:;1111•.1ilarr11cnte,

,p,,·, 1111111 primeiro a


specto, poderão aparece
r como hom onímicas, se

. ., . p11d1· dizer assim


. O nome próprio, tówv
ovoµa, aliá s, é apenas
a
t1.1d 111J1 0 do que os
gregos trouxeram a este
estudo, e prin cipalmente
1 11,1111,;io Td cio: tów
v oposto a xotvov. Será q
ue tówv aq ui se confund
e
, 11111 11 particular, no
sen tido russelliano do te
rmo? Ob viamen te não,
1 11 1 1·. ,·,.1:1 l ' la ro q
ue não seria aí que Gardin
er se apoiaria, a menos qu
e

, 1111· ,,·1•

- 86 -
Lição de 20 de dezembro de 1961

ao abrigo do progresso que lhe permite a rcfcrlnci


a aos gegos, completamente
no fu ndo, e em seguida a Mill, mais próximo
dele, ele valoriza o ponto
em questão, isto é, o que fu nciona no nom
e próprio que fz com que o
distingamos imediatamente, que o reconheça
mos como um nome próprio.
Com uma pertinência correta na abordagem
do problema, Mill sublinha
o seguinte: é que aquilo em que um nome pr
óprio se distingue do nome
comum é algo que está no nível do sentido. O n
ome comum parece concerir
o objeto enquanto. junto com ele, vem um se
ntido. Se alguma coisa é um
nome próprio, é porque não é o sentido do o
bjeto que ele traz consigo,
mas algo que é da ordem de uma marca aplic
ada de alguma maneira ao
objeto, superposto a ele, e que, por causa disso lh
e será tato mais estreitamente
solidária quanto menos for aberta, devido à a
usência de sentido, a toda
participação com uma dimensão por onde es
se objeto se ultrapassa, se
comunica com os outros objetos . Aliás, Mill, n
esse ponto, fz intervir, jogar
uma espécie de pequeno apólogo ligado a um
conto: a entrada em jogo de
uma imagem da fntasia. É a história do papel
da fda Morgana. que quer
preservar alguns de seus protegidos de não
sei que flagelo ao qual eles
estão condenados. pelo fato de alguém ter feito
uma marca de gz em suas
portas. Morgana evita que eles caiam vítim
as do flagelo exterminador,
fzendo a mesma marca em todas as portas da
mesma cidade.
Aqui, Sir Gardiner não mede esforços para de
monstrar o desconhecimento
que esse apólogo implica; é que, se Mill tiv
esse tido uma noção mais
completa daquilo de que se trata na incidê
ncia do nome próprio, não
seria apenas do caráter de identificação da
marca que ele deveria ter
levado em conta em sua própria construção, é t
ambém do caráter distintivo.
E, como tal, o apólogo seria mais conveniente
se se dissesse que a fada
Morgana teve de marcar as outras casas ta
mbém com um sinal de giz,
mas diferente do primeiro, de modo a que a
quele que, introduzindo-se
na cidade para cumprir sua missão, procura
sse a casa onde ele devia
fazer incidir sua fatalidade, não soubesse ma
is de que sinal se tratava,
por não ter sabido previamente qual o sinal
exato que era necessário
reconhecer, em meio aos demais. Isso leva
Gardiner a uma articulação
que é a seguinte: é que, em refrência ma
nifesta à distinção en tre
significante e significado, que é fu ndamental
para todo lingüista, mesmo
que ele não a promova como tal em seu dis
curso, Gardiner, não sem
fundamento, observa que não é tanto a ausên
cia de sentido que importa
no uso do nome próprio, pois tudo diz o con
trário. Muito amiúde m1

- 87 -
A Ie nticação

nomes próprios têm um


sentido. Mesmo Durand t
em um sentido. Smith
quer dizer ferreiro, e é
claro que não é porque
o Sr. Fe rreiro seria
frreiro por acaso que s
eu nome deixaria de se
r um nome próprio. O
que causa o uso do no
me próprio - diz-nos Ga
rdiner - é que o acento
em seu emprego é posto
não sobre o sen tido, mas
sobre o som enquanto
distintivo. Há aí manifst
amente um enorme pro
gresso das dimensões,
o que na maioria dos c
asos nos permitirá prati
camente perceber que
algo funciona mais esp
ecialmente como um no
me próprio.
To davia, é de toda m
aneira paradoxal ver jus
tamente um lingüista,
cuja primeira defnição q
ue ele terá a dar de seu
material, os fonemas,
é que são justamen te so
ns que se distinguem uns
dos outros, dar como
um traço particular à fu
nção de um nome própr
io o fato dele, o nome
próprio, ser composto de
sons distintivos, os quais n
os permitem caracterzar
um nome próprio como
tal.
Pois, evidentemente,
sob um certo ângulo, é
evidente que todo uso
da linguagem está justa
mente fundado sobre iss
o: é que uma língua é
fita com um material qu
e é o de sons distintivos
. Evidentemente, essa
objeção não deixa de a
parecer ao próprio autor
dessa elaboração. É
aqui que ele introduz a
noção subjetiva - no se
ntido psicológico do
termo - da atenção disp
ensada à dimensão sig
nificante como, aqui,
material sonoro. Observ
em vocês o que estou m
ostrando aqui: que o
lingüista que deve esforç
ar-se por afastar - não di
go eliminar totalmente
de seu campo - tudo o
que é referência propria
mente psicológica, é
apesar de tudo levado aqui
, como tal, a apoiar-se num
a dimensão psicológca
como tal, quero dizer, d
evido ao fato de que o s
ujeito, diz ele, investe,
presta atenção especialm
ente no que é o corpo de
seu interesse quando
se trata do nome própri
o. É enquanto ele veicul
a uma certa diferença
sonora que ele é tomad
o como nome próprio, f
a zendo observar que
inversamente no discurso
comum, o que eu estou c
omunicando a vocês,
por exemplo, agora, nã
o presto a menor atenç
ão ao material sonoro
disto que lhes conto. Se
eu prestasse atenção d
emais nisso eu seria
logo levado a ver meu d
iscurso amortecer-se e
esvaziar-se. Eu tento
primeiramente comunica
r-lhes alguma coisa. É p
orque creio saber falar
fancês que o material, e
ftivamente distintivo em
seu fu ndo, me vem.
Ele está aí como um veí
culo ao qual não presto
muita atenção. Penso
no objetivo que tenho, q
ue é fazer passar para v
ocês certas qualidades
de pensamentos que lhe
s comunico.

-88 -
Lição de 20 de dezembro de 1961

Será de fto uma verdade que cada vez


que nós pronunciamos um
nome próprio nós sejamos psicologcamente ad
vertidos deste acento posto
sobre o material sonoro como tal? De form
a alguma, não é verdade.
Não penso mais no material sonoro Sir Alan
Gardiner quando lhes fa lo
dele ou quando fa lo de zerwutzeln ou d
e qualquer outra coisa .
Primeiramente, meus exemplos aqui seriam
mal escolhidos porque são
já palavras que, ao escrevê-las no quadro, c
oloquei em evidência como
palavras. É certo que qualquer que seja o val
or da reivindicação aqui do
lingüista, ela fra cassa muito especificamen t
e, ain da que ela creia não
ter outra referência a fazer valer que a psic
ológica. E ele fracassa em
quê? Precisamente em articular algo que é, t
alvez, a fu nção do sujeito,
mas do sujeito definido de uma maneira be
m outra que pelo que quer
que seja da ordem do psicoló!>ico concreto, d
o sujeito tanto quanto 116s
poderíamos, que nós deveríamos, que frem
os defini-la, propriamente
falando, em sua referência ao significante.
Há um sujeito que não se
confnde com o signifcante como tal, mas que s
e desdobra nesta referência
ao signifcante, com traços, com característica
s perfei tamente articuláveis
e formalizáveis e que devem permitir-nos c
aptar, discernir como tal o
caráter idiótico - se tomo a referência grega
é porque estou longe de
confundi-la com o emprego da palavra particul
ar na defnição russelliana
- o caráter idiótico como tal do nome própri
o.
Te ntemos agora indicar em que sentido pre
tendo fazer com que vocês
o apreendam. Nesse sentido� onde há m
uito tempo faço intervir no
nível da defnição do inconsciente a fu nção
da letra. Essa fu nção da
letra, eu a fz intervir para vocês de maneira,
primeiramente, de alguma
frma poética. O seminário sobre A Carta rou
bada, em nossos primeiros
anos de elaboração, estava ali para indicar
que, de uma forma ou de
outra, alguma coisa, a tomar no sentido lite
ral do termo lettre, já que
se tratava de uma missiva, era alguma coisa qu
e nós podíamos considerar
como determinante até na estrutura psíquic
a do sujeito. Fábula, sem
dúvida, mas que só fazia encontrar a mais
profnda verdade em sua
estrutura de ficção. Quando flei da instância
da letra no inconsciente,
alguns anos mais tarde, pus, ali, através d
e metáfras e metonímias,
um acento bem mais preciso.
Chegamos agora, com essa largada que fiz
emos a partir da função do
traço unário, a algo que vai permitir-nos ir
mais longe. Digo que não
pode haver definição do nome próprio senã
o na medida em que nós

- 89 -
A Identicação

..
I<' ll lí

11(1 um livro ao qual po


sso pedir a todos os que s
e interessam por isso
, . alguns já se antecipar
am à minha indicação -
que se remetam, é o
livro de James Février s
obre A história da escri
ta. Se vocês tiverem
11·111po durante as fé rias,
peço-lhes que o leiam. Vo c
ês verão ali se desdobrar
, ·,,111 evidência algo de
que lhes indico o mecani
smo geral, porque ele
cl,: certa frma não está d
estacado e porque está p
resente em toda parte,
1': que pré-
historicamente falando,
se posso exprimir-me as
sim, quero
, na medida em que
os estágos estratigráfcos
do que nós encontramos
:1t<'stam uma evolução t
écnica e material dos ac
essórios humanos, pré
l1istoricamente tudo o qu
e podemos ver do que se
passa no advento da
c:sc:rita e, portanto, na r
elação da escrita com a
língua, tudo se passa
ela seguinte maneira, cuj
o resultado aqui está pre
cisamente, articulado
clia11te de vocês, tudo se
passa da seguinte maneir
a: sem dúvida alguma
podemos admitir que o h
omem, desde que é hom
em, tem uma missão
rcal como fa lante. Por
outro lado, há algo que
é da ordem daqueles
trac,: os de que lhes cont
ei a emoção admirativa q
ue tive, ao encontrá-los
111arcados num certo alin
hamento sobre algumas c
ostelas de antílope. Há
11C1 1naterial pré-
histórico uma infnidade de
manifestações de traçados
que
11:10 têm outro caráter s
enão serem, como esse tr
aço, sigifcantes e nada
111:iis. H1 l a-se de ideogra
ma ou de ideografsmo, o q
ue quer dizer isso?
que vemos sempre
cada vez que se pode fa
zer intervir esta etiqueta
d,· ideograma é algo qu
e se apresenta como, de
fa to, muito próximo de
ll111a ir11agem, mas qu
e se torna ideograma na
medida em que perde,
1·111 que se apaga cada
vez mais este caráter de i
magem . Fo i assim o
11:1:wi11H·11to da escrit
a cuneiforme: é, por exe
mplo, um braço ou uma
-90-
Lição de 20 de deze mbro de 1961

cabeça de cabrito montês que, a partir de


um ce rto momento toma um
aspecto, por exemplo, como este, para o
braço, is to é, nada mais da
origem é reconhecível. O fato das transiçõe
s existirem ali não tem outro
peso se não nos co nfortar cm nossa posiçã
o , ou seja, que o que se cria
ae
scrita, a bagagem, uma bateria
de algo que não temos o direito de chamar
de abstrato, no se ntido com
que empregamos hoje esta palav ra, ao fa
larmos de pintura abstra ta.
Po is são, de fa to, traços que saem de al
go que, em sua essência, é
fig urativo, e é por isso que se crê que é ide
ograma, mas é um fig urativo
apagado, usemos a palavra que nos vem
aqui frçosamente ao espírito,
re calcada, ou mesmo reje itada. O que fi
ca é algo da ordem daquele
traço unário enquanto funciona como di
stintivo, enquanto pode, no
momento, desempenhar o papel de marca
.

Vocês não ig no ram - ou ig noram, po u


co importa - que na casa de
campo de Azil, outro luga r vasculhado por
Piette, de quem lhes falava
outro dia, encontraram-se calhaus, seixos so
bre os quais vêem-se coisas,
por exemplo, como isso. Será em vermelho
, por exemplo, sobre seixos
de tipo bastante bonitos, esverdea dos. So
bre um outro vocês ve rão,
sem dúvida, isso que é tanto mais bonito
porque este sinal é o que
serve na teoria dos conj u ntos para designa
r que um eleme nto per tence
a um conjunto. E há um outro que quando v
ocê o olha de lon ge, pa rece
um dado, vê-se cinco po ntos. Do outro você
vê dois. Quando vo ci:s ol ham
do outro lado é ainda dois pontos. Não é u
m dado co ro os no ssos 1·, 11•

-91-
A Ie nticação

você pedir ao encarrega


do que lhe abra a vitrina,
você vê que do outro
lado do cinco há uma
barra, um 1. Portanto,
não é, de frma alguma
um dado, mas é impressi
onante que, à primeira vis
ta, você tenha pensado
tratar-se de um dado. E
, afinal de contas, você t
erá razão, pois é claro
que uma coleção de car
acteres móveis - para c
hamá-los pelo nome -
desta espécie, é algo q
ue, seja como for, tem u
ma função significante.
Vocês jamais saberão p
ara que aquilo servia, se
era para tirar a sorte,
se eram objetos de troc
a, se eram tésseras prop
riamente ditas, objetos
de reconhecimento ou se
serviam para qualquer co
isa que vocês possam
elucubrar sobre temas m
ísticos. Nada muda no fto
de que vocês tenham
aí signifcantes. Que o me
ncionado Piette tenha lev
ado, após isso, Salomon
Reinach a deliberar sob
re o caráter arcaico e pri
mordial da civilização
ocidental, porque prete
nsamente aquilo seria j
á um alfbeto, essa já é
outra história; mas isso d
eve ser apreciado como
sintoma, mas também
criticado em seu alcanc
e real. Que nada nos pe
rmita obviamente flar
de escrita arquiarcaica
no sentido em que aque
les caracteres móveis
teriam servido para criar
uma espécie de imprens
a das cavernas, não é
disso que se trata. O qu
e está em questão é iss
o, já que tal ideograma
quer dizer alguma coisa,
para tomar o pequeno c
aráter cuneiforme que
lhes mostrei há pouco,
no nível de uma etapa t
otalmente primitiva da
escrita, ele designa o c
éu . Daí resulta que é ar
ticulado an . O sujeito
que olha este ideograma
chama-o an , já que ele re
presenta o céu . Mas
o que vai resultar daí é
que a posição se invert
e, pois, a partir de um
dado momento, esse ide
ograma do céu vai servir
, numa escrita do tipo
silábico, de suporte para a
sílaba an, que não terá m
ais nenhuma relação,
agora, com o céu . To da
s as escritas ideográfcas,
sem exceção, ou ditas
ideográfcas, trazem o tr
aço da simultaneidade d
esse emprego que se
chama de ideográfco com
o uso que se chama fnéti
co do mesmo material.
Mas o que não se articul
a, o que não se põe em e
vidência, aquilo diante
do que me parece que ni
nguém se tenha detido at
é o presente momento,
é isso: é que tudo acont
ece como se os significa
ntes da escrita, tendo
sido primeiramente produ
zidos como marcas distinti
vas, e disso nós temos
testemunhos históricos,
pois alguém que se cha
ma Sir Flanders Petrie
111ostrou que, bem ante
s do nascimento dos car
acteres hieróglifos, na
ccr:1111ica que nos rest
a da indústria dita pré-
dinástica, encontramos,
co1110 111arca sobre a c
erâmica, aproximadamen
te todas a fo rmas que
fo r:1111 utilizadas cm se
guida, isto é, após uma lo
nga evolução histórica

- 92 -
Lição de 20 de deze mbro de 1961

no alfbeto grego, etrusco, latino, fe nício, tu


do o que nos interessa no
mais alto grau'como características da escrit
a.
Vo cês vêem aonde quero chegar. Embor
a em último termo o que os
fe nícios, primeiro, e depois os gregos, fiz er
am de admirável, ou seja,
este algo que permite uma notação em ap
arência tão estrita quanto
possível das funções do fonema com auxílio da
escrita, é numa perspectiva
totalmente contrária que devemos ver o q
ue nos importa. A escrita
como material, como bagagem, esperava - e
m seguida a um processo
sobre o qual retornarei: o da frmação, dire
mos, da marca, que hoje
encarna esse signifcante de que lhes falo - a
escrita esperava para ser
fo netizada, e é na medida em que ela é voc
alizada, fonetizada como
outros objetos, que a escrita aprende, se poss
o dizer assim , a funcionar
como escrita. Se vocês lerem essa obra sobre
a história da escrita, vocês
encontrarão a todo momento a confrmação d
o que lhes dou aqui como
esquema. Pois, cada vez que há um progress
o da escrita, é porque uma
população tentou simbolizar sua própria linguag
em, sua própria articulação
fo nemática com o auxílio de um material de e
scrita tomado emprestado
de uma outra população e que só era apare
ntemente bem adaptado a
uma outra língua - pois ela não era melhor a
daptada, ela jamais é bem
adaptada, evidentemente, pois que relação há
en tre esta coisa modulada
e complexa e uma articulação flada? - mas q
ue era adaptada pelo fato
mesmo da interação que há entre um certo m
aterial e o uso que se lhe
dá numa outra forma de linguagem, de fne
mática, de sintaxe, tudo o
que quiserem, isto é, que era o instrumento em a
parência menos apropriado,
no começo, ao que se queria fzer com ele.
Assim se passa a transmissão daquilo que
foi primeiramente forjado
pelos sumérios, isto é, antes que isso chegue
ao ponto em que estamos,
e quando é recolhido pelos Akkadianos, tod
as as dificuldades provém
do fto de que esse material se adapta muito
mal ao fonematismo onde
ele tem de entrar, mas, em contrapartida, u
ma vez que ele ali entra,
ele o infuencia segundo toda aparência e e
u retomarei esse assunto.
Em outras palavras, o que representa o adven
to da escrita é o seguinte:
que alguma coisa que já é escrita - se conside
rarmos que a característica
é o isolamento do traço significante - send
o nomeada, vem a poder
servir como suporte deste fa moso som sobre
o qual Gardiner põe todo o
acento, no que diz respeito aos nomes própri
os.

- 93 -
A Identiicação

1 > q1u· n:sulta disso?


Resulta que devemos enc
ontrar, se minha hipótese
, . 111·.1:1, algo que assin
ale sua validade. Há mais
de uma validade, desde
,p11 · 111s�;o p1:11semos,
elas formigam; mas a mais a
cessível, a mais aparente,
, · ,·�., ;1 <ilH' cu vou imedi
atamente lhes dar, a saber, q
ue uma das características
d11 11011ic pr(>prio - tere
i, é claro, de voltar a esse
ponto e sob mil formas,
, 111 ·i"· s v1:r;fo mil demon
strações disso - é que a c
aracterística do nome
1111q11fo é sempre mais
ou menos ligada a este tr
aço de sua ligação, não
,111 so111, mas à escrit
a. E uma das provas, a q
ue hoje quero pôr cm
111 i 111t·iro plano, é esta :
é que, quando temos escrit
as indccifradas, porque
11:w conhecemos a lin
guagem que elas encar
nam, fi camos muito
,·111haraçados, pois tem
os de esperar ter uma in
scrição bilíngüe, e não
ava11ça111os se não sab
emos nada sobre a natur
eza de sua linguagem,
isto é, de seu fonetismo.
O que esperamos, quand
o somos criptografistas
1· li1q.!i.istas? É discerni
r nesse texto indecifrado
algo que poderia bem
·r um nome próprio, porq
ue existe essa dimensão, à
qual nos surpreendemos
que C:ardiner não reco
rra, ele que de qualque
r maneira tem, como
l'hcf'c ele fila, o líder ina
ugural de sua ciência, C
hampollion, e que ele
11:10 se lembre de que fi
por causa de Cleópatra e
Ptolomeu que toda a
d1·c:il'ração do hieróglif
egípcio começou, porqu
e em todas as línguas
( 'll'6patra é Cleópatra, Pt
olomeu é Ptolomeu . O q
ue distingue um nome
prt'1prio, apesar ele pequ
enas aparências de adap
tação - chamamos de

é que de uma língua p


ara outra isso se
l'o11serva em sua estrut
ura, sua estrutura sonor
a provavelmente; mas
1·ssa estrutura sonora s
e distingue pelo fato, just
amente, de que a esta,
, ·111 meio a todas as out
ras, nós devemos re speit
ar, e isso em razão da
al'i11idadejustamente do
nome próprio com a mar
ca, com a designação
dircla elo signifcante co
mo objeto. E eis-nos ap
arentemente recaindo
da 111a11cira mesmo mai
s brutal sobre o word for
particular. Quer dizer
q1w agora eu dou razão a
Bertrand Russell? Vo cês
sabem que certamente
11a11. l'ois, no intervalo
está toda a questão, just
amente, do nascimento
d11 significante a partir d
aquilo de que ele é o sig
no. O que quer dizer?
,:: aq11i que se insere co
mo tal uma fu nção que
é a do sujeito, não do
•,11j1•ito 110 sentido psicoi
ó rico, mas do sujeito no
sentido estrutural.
< :01110 podemos, so
b que algoritmos podem
os - já que se trata de
l,11 111:ili1a1J10 - situar e
ste sujeito? É na ordem do
signifcante que temos
11111 1111·i11 de represe
ntar o que concerne à gê
nese, ao nascimento, à
,·1111·q•/•111·ia do pr6prio
significante? É para lá que
se dirige o meu discurso
, . •1111· n·10111arci no an
o que vem.

- 94 -
LIÇAO VII
I O de janeiro de 1962

Eu nunca tive tão pouc


a vontade de fzer meu se
minário. Não tive
tempo de aprofundar por q
ual causa, contudo ... muita
s coisas a dizer.
Hã momentos de abatimen
to, de lassidão. Recordemo
s o que eu disse
da última vez. Eu lhes flei
do nome próprio, jã que nó
s o encontramos
em nosso caminho da identif
cação do sujeito, segundo tip
o de identifcação,
regressiva, ao traço unário
do Outro . A propósito dess
e nome próprio,
vimos a atenção que ele s
olicitou de alguns lingüista
s e matemáticos
na fu nção de fi lósofo.
O que é o nome próprio
?
Parece que a coisa não se
entrega à primeira abordage
m, mas, tentando
resolver essa questão, tive
mos a surpresa de encon tr
ar a fu nção do
significante, sem dúvida no
estado puro. Era bem nesse
caminho que o
próprio lingüista nos dirigi
a, quando nos dizia : um
nome próprio é
algo que vale pela fu nção
distintiva de seu material so
noro. Com isso,
naturalmente, ele só fzia rep
etir as próprias priícias da an
ãlise saussuriana
da linguagem, a saber: que
é o traço distintivo, é o fnem
a como acoplado
a um conjunto, a uma certa
bateria, porquanto unicame
nte ele não é o
que os outros são, que nó
s o encontrávamos aqui d
evendo desigar
como o que era o traço es
pecial, o uso de uma fu nç
ão do sujeito na
linguagem, aquela de nom
ear por seu nome próprio.
É certo que nós
não podíamos nos content
ar com essa defnição com
o tal, mas que
estávamos, contudo, postos
no caminho de alguma coisa
, e essa alguma
coisa nós pudemos ao me
nos aproximarmo-nos dela,
circundá-la ao
designarmos o que está , s
e se pode dizer, sob uma f
o rma latente na
própria linguagem: a fu nção
da escrita, a fu nção do sign
o enquanto ele
mesmo se lê como um objet
o. É um fato que as letras tê
m nomes. Te mos
muita tendência a confundi-
los, pelos nomes simplifcad
os que elas têm

- 95-
A Identiicação

em nosso alfbeto, que tê


m o ar de se confndir co
m a emissão fnemática
à qual a letra fi reduzid
a. Um a tem o ar de que
rer dizer a emissão a.
b não é, flando pr
opriamente, um bê , ele
não é um bê senão na
medida em que, para qu
e a consoante b se fça e
scutar, é preciso que
ela se apóie numa emis
são vocálica.
Olhemos a coisa mais
de perto. Ve remos que,
por exemplo, em grego,
alf, beta, gama e a seqü
ência são nada mais, na
da menos que nomes
e, coisa mais surpreen
dente, nomes que não
têm sentido algum na
língua grega em que eles
se formulam . Para comp
reendê-los, é preciso
se aperceber que eles re
produzem os nomes corr
espondentes às letras
do alfbeto fnício, de um
alfbeto proto-semítico, al
fbeto tal que podemos
reconstituir com um certo
número de estágios, de e
stratos das inscrições.
Nós encontramos as fr
mas signifcantes disso;
esses nomes têm um
sentido na língua, seja fe n
ícia textual, sej a tal que n
ós possamos reconstruí
la, essa língua proto-
semítica de onde seria d
erivada um certo númer
o
- eu não insisto sobre s
eu detalhe - das lingua
gens na evolução das
quais está estreitamente
ligada a primeira apariçã
o da escrita. Aqui, é
um fto que é importante
ao menos, que vem no
primeiro plano, que o
próprio nome do aleph te
nha uma relação com o b
oi, que a dita primeira
frma do aleph reproduzir
ia, de uma maneira esque
matizada, em diversas
posições, a cabeça. Res
ta ainda alguma coisa: p
odemos ver ainda em
nosso A maiúsculo a for
ma de um crânio de boi i
nvertido, com os chifes
que o prolongam. Igualm
ente, cada um sabe que
bet é o nome da casa.
Naturalmente, a discussã
o se complica, até se an
uvia, quando se ten ta
fzer um recenseamento, u
m catálogo do que design
a o nome da seqüência
das outras letras. Quand
o chegamos ao gimel so
mos muito tentados a
nas, infelizmente, há um
obstáculo
de tempo; é no segundo
milênio mais ou menos a
ntes de nossa era que
esses alfbetos proto-
semíticos podiam estar
em condições de conota
r
esse nome da terceira l
etra do alfbeto. O came
lo, infelizmente para
nossa comodidade, aind
a ,1:ío tinha fe ito sua ap
arição no uso cultural
como meio de transporte
nessas regiões do Orient
e Médio. Va i -se, pois,
entrar numa série de di
scussões sobre o que p
odia afnal representar
esse nome gimel [Aqui, La
can fz um desenvolviment
o sobre a terciariedade
consonântica das línguas
semíticas e sobre a perm
anência dessa forma
na base de toda forma v
erbal no hebraico] . É u
m dos traços por onde
podemos ver que o que e
stá em questão, no que d
iz respeito a uma das

- 96 -
Lição de 1 O de ja neiro de 1962

raízes da estrutura onde se constitui a ling


uagem, é essa alguma coisa
que se chafa, primeiramente, leitura dos
signos, uma vez que eles já
aparecem antes de todo uso da escrita - já
assinalei isso para vocês, ao
terminar, da última vez - de uma forma s
urpreendente, de uma forma
que parece antecipar - se a coisa deve s
er admitida - em quase um
milênio o uso dos mesmos sinais nos alf
betos que são os alfabetos
mais correntes, que são os ancestrais dir
etos do nosso: alfbeto latino,
31
da
história, sob uma forma idêntica em ma
rcas fitas cm cerâmicas pré
dinásticas do antigo Egito. São os mesmo
s sinais, embora não se deva
cogitar que eles tenham podido, àquela
época, de alguma forma ser
empregados em usos alfbéticos, já que a es
crita alfbética estava, naquele
momento, longe de nascer. Vo cês sabem
que, mais acima, fiz alusão
àqueles fa mosos seixos do Mas d'Azil, qu
e são muito importantes nos
achados fe itos ali, a ponto de, no fnal d
o paleolítico, um estágio ser
denominado com o termo aziliano pelo fa
to dele se relacionar com o
que podemos defnir como o ponto de e
volução técnica no fi nal do
paleolítico, no período não propriamente f
a lando de transição, mas de
pré-transição do paleolítico ao neolítico.
Nesses seixos do Mas d'Azil
encontramos sinais análogos, cuja estranheza
espantosa, por se assemelhar
tão de perto aos sinais do nosso alfabeto,
pôde desviar, vocês sabem,
eram especialmente medíoc
res a toda sorte de especulações
que só podiam levar à confusão, até ao ri
dículo.
Permanece, todavia, o fa to de que a pres
ença daqueles elemen tos
está ali para nos fzer tocar alguma coisa
que se propõe como radical
dentro do que podemos chamar de enlaç
amento da linguagem com o
real. Obviamente, problema que só se co
loca uma vez que pudemos
ver primeiro a necessidade, para compree
nder a linguagem, de ordená
la por meio do que podemos chamar de u
ma referência a si mesma, a
sua própria estrutura como tal, que nos co
locou o que podemos quase
chamar de seu sistema, como algo que de al
guma maneira não se sustenta
com uma gênese puramente utilitária, instr
umental, prática, uma gênese
psicológica, que nos mostra a linguagem co
mo uma ordem, um registro,
uma função onde toda a nossa problemá
tica é que precisamos vê-la
como capaz de fu ncionar fora de toda con
sciência por parte do sujeito,
e cujo campo somos levados a definir co
mo sendo caracterizado por
valores estruturais que lhe sáu próprios. Desd
e logo, é necessário cs1abclccn

- 97 -
A Identicação

.1 p 1111;:lo ele seu fu nc


ionamento com aquela coi
sa que, no real, leva a
,.11.1 111arca. É ela centr
ífga ou centrípeta? É aí, a
o redor deste problema
1p11· 111is estamos por e
nquanto, não detidos, mas
em suspensão.
I•:, porlanto, enquant
o o sujeito, a propósito
de algo que é marca,
'li • ,·. signo, já lê antes d
e se tratar dos sinais da e
scrita, que ele percebe
q1ll' si11ais podem traze
r pedaços diversamente r
eduzidos, recortados
d,· ,;11a modulação flante
e que, invertendo sua fu n
ção, pode ser admitido
a ,a'I 1:m seguida o supor
te fonético, como se diz.
Vo cês sabem que é de
la1,, assim que nasce a
escrita fnética, que não
há nenhuma escrita
,·111 s1·11 conhecimento
da ,·scrila, propriamente
falando, e não si mplesm
ente de um desenho,
, . a l�o que começa s
empre com o uso combi
nado desses desenhos
,.i111plificados, desses de
senhos abreviados, desse
s desenhos apagados
q11<· chamamos diversam
ente, impropriamente de id
eogamas em particular.
/ r1nbinação desses dese
nhos com um uso fo nétic
o dos mesmos sinais
q11t• 16111 a aparência d
e representarem alguma c
oisa, a combinação de
a1nl>os parece, por exe
m plo, evidente nos hier
óglifs egípcios. Aliás,
p111l<Tíamos, bastando ol
har uma inscrição hieroglífi
ca, crer que os egípcios
11:10 tinham outros objet
os de interesse além da
bagagem, soma muito
l1111itacla, de um certo n
úmero de animais, de um
número muito grande,
de· 11111 número de pás
saros a bem dizer surpre
endente pela incidência
, ·111n a qual podem eftiv
amente intervir os pássar
os nas inscrições que

pa ra torar uma frma de p


ássaro noturno particular
mente bem desenhada,
1· 1·.ll"l'I nas inscrições
clássicas em pedra, nós
a veremos reaparecer
nl1Tmamcnte amiúde,
e por quê? Não é certa
mente porque se trate

-98-
Lição de 1 O de ja neiro de 1962

sempre deste animal, é que o nome com


um desse animal na língua
egípcia antiga ·pode ser a ocasião de um s
uporte para a emissão labial
m e que cada vez que você vê esta fgura
animal, trata-se de um

m e de mais nada, cujo m, aliás, longe d


e estar representado sob seu
valor somente literal, cada vez que você
encontra essa fgura da dita
grande coruja, é suscetível de algo que se
faz mais ou menos assim. O
m signifcará mais de uma coisa e, em parti
cular, o que nós não podemos,
não mais nessa língua que na língua he
braica, quando não temos a
adjunção dos pontos-vogais, que nós não
estamos bem fxados sobre os
suportes vocálicos, não saberemos como
exatamente se completa esse
m, mas já sabemos bastante, a partir d
o que podemos construir da
sintaxe, para saber que esse m pode igual
mente representar uma certa
fu nção, que é aproximadamente uma fu nç
ão introdutória do tipo: vejam,
uma fu nção de fi xação da atenção, se se
pode dizer, um eis aqui . Ou
ainda, em ou tros casos, em que provavel
mente ele devia se distinguir
por seu apoio vocálico, podia representar um
a das formas, não da negação,
mas de algo que é necessário precisar, co
m mais intensidade, do verbo
negativo, de algo que isola a negação so
b uma forma verbal, sob uma
frma conjugável, sob uma frma não sim
plesmente não, mas de algo
como diz-se que não . Em resumo, que é
um tempo particular de um
verbo que nós conhecemos, que é certame
nte negativo, ou mesmo mais
exatamente uma forma particular em doi
s verbos negativos: o verbo
imi por um lado, que parece querer dize
r não ser, e o verbo tm, por
outro lado, que indicaria mais especialmen
te a não-existência efetiva .

-99 -
A Identicação

Signifca dizer a vocês


, a esse respeito, e introd
uzindo a esse respeito
de uma forma antecipa
da a fnção, que não é à-
toa que isso diante do
que nós nos achamos a
o avançarmos neste ca
minho é a relação que
aqui se encarna, se ma
nife sta imediatamente d
a coalescência a mais
primitiva do signifcante
com alguma coisa que i
mediatamente levan ta
a questão do que é a ne
gação, de quê ela está
mais próxima.
Será que a negação é
simplesmente uma conot
ação que, todavia, se
propõe como da questão
do momento em que, em
relação à existência,
ao exercício, à constituiç
ão de uma cadeia signifi
cante, introduz-se ali
uma espécie de índice,
de sigla suplementar, d
e palavra virtual como
nos exprimimos, que d
everia, portanto, ser se
mpre concebida como
uma espécie de invenção
segunda, mantida pelas ne
cessidades da utilização
de algo que se situa em
diversos níveis? No nível
da resposta, o que é
posto em questão pela i
nterrogação significante,
isso não está lá, será
que é no nível da respost
a que este não é? parece
bem manifestar-se na
língua como a possibili
dade da emissão pura
da negação não? Será
que, por outro lado, é na
marca das relações que
a negação se impõe,
é sugerida pela necessid
ade da disjunção, tal cois
a não é se tal outra é,
ou não poderia ser com t
al outra, em suma, o inst
rumento da negação?
Nós o sabemos, claro, nã
o menos que outros . Mas
se, no que diz respeito
à gênese da linguagem,
estamos re duzidos a fz
er do significante algo
que deve pouco a pouc
o se elaborar a partir d
o signo emocional, o
problema da negação é
algo que se coloca como
, propriamente flando,
de um salto, até mesmo
de um impasse .
Se, fazendo do signifcan
te alguma coisa totalmen
te outra, algo, cuja
gênese é problemática,
nos leva ao nível de um
a interrogação sobre
uma certa relação existe
ncial, aquela que, como
tal, já se si tua numa
referência de negatividad
e, o modo sob o qual a n
egação aparece, sob o
qual o signifcante de u
ma negatividade eftiva
é vivido, pode surgir, é
alguma coisa que toma
um interesse todo outro
e que não é, desde já,
por acaso, e sem ser de
natureza a esclarecer-
nos, quando nós vemos
que, desde as primeiras
problemáticas, a estrutur
ação da linguagem se
Identifca, se se pode diz
er, na recuperação da pr
imeira conjugação de
uma emissão vocal com
um signo como tal, is Lo
é, com algo que já se
refere a uma primeira
manipulação do objeto.
Nós a chamamos de
simplificadora, quando s
e tratou de defnir a gên
ese do traço. O que é
que hú de mais destruído
, de mais apagado de um
objeto. Se é do objeto

. -100 -
Lição de 1 O de ja neiro de 1962

que o traço surge, é algo do objeto qu e


o traço retém, justamente, sua
unicidade. O apagam ento , a destruição
absolu ta de todas essas outras
emergências, de to do s esses ou tros prolon
gamentos, de todos esses outros
ap êndices, de tudo o que pode haver de
ramificado , de palpitante, ora,
essa relação do objeto com o na scime
nto de al go que se chama aqui

é exatam ente
em torno disso que estamos de tidos,
e em to rno do qu e não é sem
promessa que tenhamos feito, se se po
de dizer, uma descoberta - pois
acredito que é uma - esta indicação de q
u e há , digamo s, num tempo ,
um tempo recup erável, historicamente
defnido, um momen to em que
alguma coisa está al i para ser lida , lida
com a linguagem quando ainda
não há escri ta . E é pela inversão dessa re
lação, e dessa rel ação de leitura
do signo , que pode nascer em seguida a
escrita, uma vez qu e ela pode
servir para co no tar a fnematização.
Mas se parece, nesse nível, que justa
mente o nome próprio, enquanto
ele especifca como tal o enraizamento do s
ujeito, está mais especialm ente
ligado qu e um out ro, não à fo nematiz
ação como tal , à estrutura da
linguagem , mas àquilo que já na língua
está pronto, se podemo s dizer
assim, para receber essa infrmação do t
raço ; se o nome próprio ainda
traz a marca disso até para nós e em nos
so uso, sob essa forma qu e de
uma língua para outra não se traduz, já q
u e ele ap enas se transpõe, se
transfre , e é exa tam ente essa sua cara
cterística - eu me chamo Lacan
em todas as línguas e vocês também, ca
da um por seu nom e. Isso não
é um fato co ntingente, um fato de limit
ação , de importância, um fto
sem sentido , posto qu e, ao co ntrá rio , é aqu
i que jaz, que resid e a propriedade
muito particular do nome, do nom e pró
prio na signifcação. Não será
isso feito para fazer com qu e no s interr
oguemos sobre o que há nisso,
nesse ponto radical , arcai co, que precis
amo s com toda a necessidade
supor na origem do inconsciente, isto é,
dessa alguma coisa pela qual,
enquanto o suj eito fala, ele só pode av
a nçar sempre mais adiante na
cadeia, no desenrolar dos enunciado s, mas
que, dirigndo -se ao s enunciados,
po r esse fto mesmo , na enunciação ele
elide al go que é, propriam ente
fla ndo , o que ele não pode sa be r, isto é,
o nome do que ele é enqua nto
suj eito da enu nciação. No ato da enunci
ação há essa nominação latente
que é concebível como sendo o primeiro
núcleo, como significante, do
que em seguida vai se orga nizar como ca de
ia gira tó ria, tal como rep resen tei

-101 -
A Identicação

11,11 a vocês desde sem


pre, desse centro, do cor
ação fa lante do sujeito
11111· chamamos de inco
nsciente.
Aqui, antes que avanc
emos mais adiante, creio
dever indicar alguma
risa que é apenas a co
nvergência, a ponta de
uma temática que já
:il,onlmos em várias ocasi
ões neste seminário, em v
árias ocasiões tomando
:1 110s diversos níveis ao
s quais Freud fi levado a
abordá-la, a representá
! a, a represen tar o sist
ema, primeiro sistema p
síquico, tal como lhe fi
necessário representá-
lo, de alguma maneira,
para fazer sentir o que
l'slá em causa, sistema q
ue se articula como incon
sciente, pré-consciente,
consciente. Muitas veze
s tive de descrever, ness
e quadro, sob formas
diversamente elaborad
as, os paradoxos aos q
uais as frmulações de
Fre ud, no nível do Entw
urf, por exemplo, nos c
onfrontam. Hoje me
aterei a uma topologizaç
ão tão simples quanto a
que ele dá no fnal da
Trumdeutung, ou seja, a
das camadas através das
quais podem acontecer
as ultrapassagens, os li
miares, as irrupções de
um nível para o outro,
tal como nos interessa n
o mais alto grau, a pass
agem do inconsciente
110 pré-consciente, por
exemplo, que é de fato u
m problema, que é um

passagem, esse não é cert


amente
o menor esforço que eu
possa esperar do esforço
de rigor em que arrasto
vocês, que imponho a
mim mesmo para vocês
aqui, é que os que me
escutam , que me ouve
m, levam as coisas a um
grau susceptível de ir
adiante . Em seu notáve
l texto, publicado em Te
mps modernes, sobre o
assunto do Inconsciente,
Laplanche e Leclaire - nã
o distingo por enquanto
a parte de cada um deles
nesse trabalho - se interro
gam qual a ambigüidade
qlle permanece na enun
ciação feudiana, que con
cerne ao que se passa
qllando podemos flar d
a passagem de alguma
coisa que estava no
inconsciente e que vai
no pré-consciente. Sign
ifca dizer que se trata
apenas de uma mudan
ça de investimento, co
mo eles colocam muito
j11s1amente a questão,
ou trata-se de que há u
ma dupla inscrição? Os
a11tores não disfrçam s
ua preferência pela dupl
a inscrição, eles nos
111dicam isso em seu tex
to. Aí está, no entanto, u
m problema que o texto
d1·ixa aberto e, afinal, is
so com que nos ocupam
os nos permitirá, este
:11111, trazer talvez algum
a resposta a isso ou pelo
menos alguma precisão.
( ;ostaria, à guisa de i
ntrodução, de lhes sugeri
r o seguinte: é que, se
il,·1·1·11111s considerar
que o inconsciente é ess
e lugar do sujeito onde
1:.:.11 l'ala, acabamos po
r nos aproximarmos dess
e ponto onde podemos
, 1111·1 q111• alguma coisa,
à revelia do sujeito, está pr
ofndamente remanejada

-102-
lição de 10 de jceiro de 1962

pelos efitos da re troação do significante, i


m pli cados na fala. É 11a medida
- e pela menor de sua s palavras - em qu
e o sujeito fala, que tu do o q ue
ele pode sempre fazer, uma vez mais,
é nomear-se sem o sab er, sem
saber por qual nome ? Será que não po
demos ver que, para situa r, em
suas relações, o inconscien te e o pré-
consciente, o limite para nós não
deve se r situado primeiro em algum lu
gar no interior, como se diz, de
um sujeito que mais não seria que o eq
uivalen te do que se chama, no
sentido amplo, de psí quico ? O sujeito de q
ue se trat a para nós e, sobretudo,
se tentamo s articulá-lo como o sujeito
do inconsciente, comporta uma
outra co nstituição da fo nteira ; aquilo que
é do pr é-consciente, na medida
em que o qu e nos interessa no pré- consci
ente é a linguagem, a linguagem
tal como efetivamente nós não apenas
a ve mo s, a ouvimos falar, mas
tal como ela cs candc, articula nossos p
ensamentos. To dos sabem que
os pensamentos de que se trata, no nív
el do incon sciente, mesmo se
digo qu e eles são estr uturados como u
ma linguagem - evidentemente,
é porque eles estão es trutur a dos cm
úl timo termo e num último nível
como uma linguagem que eles nos in ter
essam - mas a primeira coisa a
consta tar, os pensamentos de que fal
amos, é que não é fácil fzê-los
exprimirem-se na linguagem co mum. O q
ue importa é ver que a linguagem
articulada do discu rso comum, cm re la
ção ao sujeito do inconsciente,
enquan to ele nos interessa, está do la
do de fra. Um lado de fora que
re úne em si o que chamamos de nosso
s pensame ntos íntimos, e essa
linguagem que escoa do lado de fora,
não de uma maneira imaterial,
porque sabemos bem , poi s toda sor te de coi
sas ali está para no-lo rp re se ntar,
nós sabemos o que não sabiam talvez as
culturas em que tudo se passa
no sop ro da palavra, nós que temos dia
nte de nós quilos de linguagem,
e que sabemos, além do mais, inscreve
r a fala mais fgidia em discos,
sabemos be m que o que é flado, o dis
curso efetivo, o di scu rso pré
con sciente, é intei ramente homogeneiz
ável como al go que se mantém
do lado de fora. A linguagem, cm subst
ância, corr e as ru as e, ali, há
efe tivamente uma inscrição sobre uma fi
ta ma gnética da necessidade.
O problema do que se passa quando o i
n conscien te chega a se faze r
ouvir ali é o problema do limite entre e
sse inconsci en te e esse pré
consciente.
Como precisamos ver esse limite ? É o p
roblema que, po r enquanto,
vo u deixar aberto. Mas o que podemos
, no momento, indi ca r é que,

-103 -
A Ide ntificação

ao passar do inconscien
te para o pré-consciente,
o que se constituiu no
inconsciente encontra
um discurso já existente
, se se pode dizer, um
jogo de signos em liberd
ade, não somente interfer
indo com as coisas do
rea, mas pode-se dizer est
reitamente, tal um micélo, t
ecido em seus itervalos.
Do mesmo modo, não é
aí que está a razão verd
adeira do que se pode
chamar de fascinação, d
e estorvo Idealista? Na ex
periência flosófca, se o
homem se apercebe, ou
crê se aperceber que nun
ca tem mais que idéias
das coisas, isto é, que das
coisas ele só conhece enfm
as idéias, é justamente
porque, já no mundo das
coisas, esse embrulho nu
m universo do discurso
é algo que não é de frma
alguma desembaraçável.
O pré-consciente, em
suma, está desde já no r
eal, e o estatuto do incon
sciente, por sua vez, se
ele levanta um problem
a, é porque se constituiu
num nível totalmente
outro, num nível mais ra
dical da emergência do a
to de enunciação. Não
há, a princípio, objeção à
passagem de algo do inc
onsciente para o pré
consciente, o que tende a
se manifestar, cuj o caráter
contraditório Laplanchc
e Leclaire notam muito b
em. O inconsciente tem,
como tal, seu estatuto
como algo que, por posiç
ão e por estrutura, não p
oderia penetrar no nível
em que é suscetível de u
ma verbalização pré-
consciente. E, no entanto
,
dizem-nos, esse inconsci
ente, a todo momento, fa
z esfrço, empurra em
direção a fzer-se conh e
cer. Seguramente, e não
sem razão, é que ele
está em sua casa, se po
demos dizer, em um uni
verso estruturado pelo
discurso. Aqui, a passage
m do inconsciente para o
pré-consciente não é,
pode-se dizer, mais que
uma espécie de efeito d
e irradiação normal do
que gra na constituição do i
nconsciente como tal; daqu
ilo que no inconsciente,
mantém presente o fnci
onamento primeiro e rad
ical da articulação do
sujeito enquanto sujeito
flante. O que é preciso v
er é que a ordem que
seria aquela do inconscient
e pré-consciente e depois
chegaria à consciência,
não pode ser aceita sem s
er revista, e pode-se dizer
que, de certo modo, já
que devemos admitir o qu
e é pré-consciente como
defnido, como estando
na circulação do mundo,
na circulação real, devem
os conceber que o que
se passa no nível do pré
-consciente é algo que t
emos de ler da mesma
maneira, sob a mesma es
trutura, que é aquela que
cu tentava fazer vocês
sentirem, nesse ponto de
raiz onde algo vem trazer
à linguagem o que se
poderia chamar de sua úl
tima sanção, esta leitura
do signo.

-104 -
Lição de 10 de ja neiro de 1962

r-
No nível atual da vida do sujeito constituíd
o, de um sujeito elaborado por
uma longa história de cultura, o que se pass
a é, para o sujeito, uma leitura
do lado de fra do que é ambiente, pelo fto d
a presença da linguagem no
real, e no nível da consciência este nível qu
e, para Feud, sempre pareceu
ser um problema; ele nunca deiou de indica
r que era certamente o objeto
de uma futura precisão, de uma articulação
mais prcisa quanto à sua fnção
econômica. No nível em que ele no-lo descr
eve no começo, no momento
em que se liberta seu pensamento, lembremo
-nos de como ele nos descreve
essa camada protetora que ele designa com
o termo j; é antes de tudo algo
que, para ele, deve ser comparado com a p
elícula de superfcic dos órg.os
sensoriais, isto é, essencialmente como alg
o que filtra, que fecha, que só
retém esse índice de qualidade cuja fnção
nós mostramos ser homóloga
com esse índice de realidade que nos permit
e até apreciar o estado em que
estamos, bastante para fcarmos seguros de
que não sonhamos, se se trata
de algo análogo. É, na verdade, algo do vis
ível o que vemos. Da mesma
forma, a consciência, em relação ao que co
nstitui o pré-consciente e nos
faz este mundo estreitamente tecido por noss
os pensamentos, a consciência
é a superfcie por onde alguma coisa que está
no coração do sujeito recebe,
se se pode dizer, de fora seus próprios pensa
mentos, seu próprio discurso. A
consciência ali está para que o inconsciente,
se se pode dizer assim, recuse
o que lhe vem do pré-consciente ou escolh
a ali da maneira mais estreita
aquilo de que ele tem necessidade para seu
s ofcios.
Préc. - Cons
lcs

comme parole
lcs

-105 -
A Identicação

J,: o que é isso? É be


m aqui que encontramo
s esse paradoxo que é
o
•JII(' chamei de o entrecru

zamento das fu nções sist


êmicas, nesse primeiro
ÍV('I, tão esse ncial de
se r re conhecido, da
articulação freudiana, o

11H·o11sciente é re pre
sentado por ele como u
m fluxo, como um mund
o,
,·,11110 uma cadeia de p
e nsamentos. Sem dúvid
a a consciência também
,. l°dla da coe rência das
pe rcepções. O te ste de
re alidade é a articulação

... Inversamente, o que


encontramos
110 inconsciente é essa
re pe tição significativa q
ue nos lev a de algo que
:;1• chama pe nsamentos

, Gedanken, muito bem f


ormados, diz Fre ud, a
11111a concatenação de
pe nsamentos que nos es
capa a nó s mesmos. Ora
,
o qu e é que o próprio
Freud vai dizer-nos?
O que é o que o suje it
o
l111sca no nível de um
e de outro dos dois sist
emas? Que no nível do
pn;-consciente o que bu
scamos seja, propriame
nte falando, a identidade
1 los pensamentos, é o
que foi elaborado por tod
o esse capítulo da flosof
a;
11 esforço de nossa org
anização do mundo, o
esforço lógico, é, fl and
o
propriamente, re duzir
o diverso ao idêntico,
é identifcar pensament
o
a pensamen to, proposiçã
o a proposição em rel açõ
es diversamente articulad
as
q11(: f'ormam a própria
trama do que se ch am
a de ló gica formal, o qu
e
l1·va 11ta, para aq uele
que considera de um m
odo ex tremamente ideal
o
(·di l'ício da ciência co
mo podendo ou deven
do, mesmo virtualment
e,
:;n já acabado, o que le
vanta o problema de sa
ber se efetivamente tod
a
,·i1•11cia do sab er, to d
a captação do mundo d
e uma fo rma ordenada
e
uliculada não desemb
oca numa tautologia.
Não foi à toa que você
s
11H' ouviram várias veze
s evocar o problema da ta
utologa e não poderíamo
s
de ma ne ira al guma te
rminar, ne ste ano, nosso
discurso se m trazer par
a
,·ssa questão um julga
mento defnitivo.
O mundo, portanto,
este mundo, cuja funçã
o de re alidade é ligada
à
llin çfto perceptiva, é, a
pesar de tudo, aq uilo e
m to rno do qual nós s
ó
progredimos em nosso
saber pela via da identi
dade dos pe nsamentos
.
1 sso, para nós, não é d
e forma al guma um para
doxo, mas o paradox al é
ln, 110 tex to de Freud
, que o que o inconscie
nte busca, o que ele qu
er,
:;1· podemos dizer assi
m, que o que é a raiz d
e se u funcionamento,
de
:,11:1 en trada em jogo
, é a identidade das per
cepções, isto é, que iss
o
11ao teri a lite ralmente
se ntido algum se o que
estava em que stão nã
o
l1 1ss1· o seguinte: qu
e a re lação do inconsci
ente com o que ele bus
ca
,·111 seu modo próprio de
re tomo é justamente aq ui
lo que uma vez pe rceb ido
, . 11 identicamente idênt

ico, se podemos dizer,


é o percebido daquela

-106 -
Lição de 10 de ja neiro de 1962

vez ali, é esse �ncl que ele passou ao <l


edo dessa vez com a pu11<,:w. E
é justamente isso o que fal tará sempre : é
que, em to da espécie de outr a
re ap ar ição do que respo nde ao sig nific
ante original, no ponto onde está
a marca que o suje ito recebeu deste, sej
a o que for, que está na origem
do Urerdringt, fl tará sempre ao que quer
que sej a que venha representá
lo, essa marca que é a marca única do sur
gme nto orignal de um sigifcante
original que se apresentou um a vez no
momento em que o ponto, o
algo do Urverdringt em questão passo
u à existência inconsciente, à
insistência ne ssa ordem interna que é
o inconscie nte, entre, por um
lado, o que ele re cebe do mundo ex terio
r e onde ele tem coisas a ligar ;
e, pelo fto de ligá -la s sob uma forma sig
nifcan te, ele só as pode receber
em sua diferença. E é exatamente por iss
o que ele não pode de maneira
ne nh uma ser satisfeito por essa procura c
omo tal da identidade perceptiva,
se é isso me smo que o espe cifica como in
consciente. Isso nos dá a tr íade
consciente-inconsciente-pré-consciente, num
a ordem ligeiramente modifcada
e, de cer ta frm a, que justifca a frmula
que já te ntei dar a vocês do
inconscie nte, ao dizer que ele se achava
entre percepção e consciê ncia,
o couro e a carn
e.
É ex atamente aí que está algo que,
um a vez que o colocamo s, nos
indica que nus repor temos àquele po
nto do qual eu parti ao frm ular
as co isas a partir da exp eriência flo s
óf ica da procura do sujeito, tal
como el a ex iste em Descar tes, já que el
e é estreitamente diferente de
tudo o que se pô de fzer em algum outro
momento da refexão filosófca,
porque é o próprio sujeito que é interrog
ado, que busca sê-lo como tal ,
o sujeito enquanto aí vai com to da a ver
dade em se u propósito ; que o
que é al i interrogado é não o re al e a
ap arência, a relação de quem
existe e de quem não existe, do que p
ermanece e do que fge , mas
saber se se po de co nfar no Outro, se, c
omo tal, o que o suje ito recebe
do ex ter ior é um signo co nfiável .

����������

O penso logo sou, eu já o tr iturei su


fcientemente diante de voc(:s
para que possam ver agor a mais ou meno
s como se colo ca o prohlc111a .
Esse penso, do qual dissemos que prop
riamente fl ando era 11111 11011

-107 -
A Identicação

sens - e é o que lhe dá


o valor - ele, obviamente
, não tem mais sentido
que o minto, mas ele, a
partir de sua articulação,
só pode dar-se conta
de que logo existo não
é a conseqüência que el
e tira , mas é que ele só
pode pensar a partir do
momento em que verdad
eiramente ele começa
a pensar.
Quer dizer que é e
nquanto este eu penso i
mpossível passa a algo
que é da ordem do pré-
consciente, que ele impli
ca como signifcado, e
não como conseqüênci
a, como determinação o
ntológica, que implica
como signifcado que es
te penso remete a um so
u que doravante não é
mais senão o x desse suj
eito que buscamos, a sab
er, do que há na partida
para que se possa prod
uzir a identifcação desse
penso. Observem que
isso continua, e assim
por diante; se penso qu
e penso que sou - não
estou mais ironizando, s
e penso que não posso f
a zer mais que ser um
pensa-ser ou um serpen
sante - o penso que está
aqui no denominador
vê muito fa cilmente se
reproduzir a mesma dup
licidade, a saber: que
tudo o que posso fazer
é dar-me conta de que,
pensando que penso,
esse penso que está na
extremidade de meu pe
nsamento, sobre meu
pensamento, é ele próp
rio um penso que repro
duz o penso logo sou.
Será isso ad infinitum?
Certamente não. É tam
bém um dos modos
mais correntes dos exercí
cios flosófcos, quando se
começou a estabelecer
uma tal fórmula, que, ao
aplicar que o que se pôd
e re ter de experiência
efetiva é, de alguma ma
neira, indefnidamente m
ultiplicável como num
jogo de espelhos. Há u
m pequeno exercício qu
e é aquele ao qual me
dediquei num tempo -
meu pequeno sofsma p
essoal - o da asserção
de certeza antecipada a
propósito do jogo dos dis
cos, onde é da re frência
daquilo que fzem os doi
s outros que um sujeito
deve deduzir a marca
par ou ímpar de que el
e próprio está afetado e
m suas costas, isto é,
algo de muito próximo àq
uilo de que se trata aqui.
É fá cil ver, na articulação
deste jogo que, longe q
ue a hesitação que é, d
e fa to, completamente
possível de se ver produ
zir, pois se vej o os outro
s decidirem demasiado
rapidamente, pela mes
ma decisão que quero t
omar, isto é, que estou,
como eles, marcado por u
m disco da mesma cor, se
os vej o tirar demasiado
rapidamente suas concl
usões, tirarei disso justa
mente a conclusão ...
momento, ver
surgir para mim alguma
hesitação, a saber, que
se eles viram tão rapida
mente o que eles eram,
é que eu mesmo sou
_e fazer apanhar, pois c
om toda lógica eles

- -108 -
Lição de 1 O de ja neiro de 1962

devem fzer a mesma reflexão. Nós os ver


emos também oscilar e dizer
se: "Olhemos isso duas vezes", isto é, que o
s três sujeitos terão a mesma
hesitação juntos, e demonstra-se facilment
e que é eftivamente ao cabo
de três oscilações hesitantes que eles po
derão verdadeiramente ter e
terão, certamente e de alguma forma plenam
ente, fguradas pela escansão
de sua hesitação, as limitações de
todas as possibilidades contraditórias.
Há algo de análogo aqui. Não é indefini
damente que podemos incluir
todos os penso, logo sou em um penso. O
nde está o limite? É o que nós
não podemos imediatamente aqui tão fa c
ilmente dizer e saber. Mas a
questão que coloco, ou mais exatament
e, a que vou pedir-lhes que
acompanhem, porque, é óbvio, vocês vão s
e surpreender, talvez, mas é
da seqüência que vocês verão vir juntar-
se aqui que pode modifcar,
quero dizer tornar operante ulteriormente,
o que me pareceu à primeira
vista só como uma espécie de jogo, até
como se diz uma recreação
matemática. Se vemos que alguma coisa n
a apreensão cartesiana, que
termina certamente em sua enunciação
em dois níveis diferentes, já
que também há alguma coisa que não pod
e ir mais longe que isso que
é inscrito aqui, e é preciso que ele fça in
tervir algo que vem, não da
pura elaboração, sobre o que eu me poss
o fndar?, o que é confável?.
Ele vai ser levado como todo o mundo a ten
tar se desembaraçar com o
que se vive no exterior, mas na identifcaç
ão que é a que se faz com o
traço unário. Será que não há bastante dis
so para suportar esse ponto
impensável e impossível do penso, ao men
os sob sua frma de diferença
ra dical? Se é por 1 que nós representamo
s esse penso que, repito, na
medida_que ele só nos interessa porque te
m relação com o que se dá na
origem da nominação, já que é o que impli
ca o nascimento do sujeito -
o sujeito é o que se nomeia - se nomear é
antes de tudo algo que tem
a ver com uma leitura do traço 1, desig
nando a difrença absoluta,
podemos perguntar-nos como cifar a espéci
e de sou que aqui se constitui
em alguma espécie retroativamente, simpl
esmente pela reprojeção do
que se constitui como signifcado do pens
o, a saber, a mesma coisa, o
desconhecido [i) do que está na origem s
ob a frma do sujeito.
Se o 1 que aqui indico, sob a forma defnit
iva que vou lhe deixar, é
algo que aqui se supõe numa problemáti
ca total, a saber, que é tão
verdadeiro que ele não é, posto que ele
só é ao pensar a pensar, é
todavia correlativo, indispensável - e é exa
tamente o que fz a força do
argumento cartesiano de toda apreensão d
e um pensamento, desde o

-109 -
A Identicação

1111111w11to cm que ele


se encadeia - esse camin
ho lhe é aberto em direçã
o
a 11111 wgilalum de algo
que se articula: cogilo er
go sum. Vou saltar por
1
1·l1·s vêm e porque, afi
nal, no ponto em que m
e encontro, fi necessári
o
q1w eu passasse por al
i. Há algo de que direi
que é ao mesmo tempo
paradoxal - por que nã
o dizer divertido? - mas
lhes repito: se isso tem
11111 interesse, é pelo q
ue isso pode ter de oper
ante. Uma tal frmula em

i111ediatamente, para qua


lquer pessoa que tenha u
ma prática da matemática,

quer dizer o quê? Isso q


uer dizer que, se no luga
r de ter pequeno i vocês
livessem 1 por toda p
arte, um esfrço de frm
alização lhes permitiri
a
imediatamente ver que
essa série é convergen
te, isto é, que se minha
lembrança é boa, ela é i
gual a algo como:

- -
O importante é que isso
quer dizer que se vocês
eftuarem as operações
de que se trata, vocês terã
o, portanto, os valores que
, se vocês os reportarem,
tomarão aproximadam
ente essa forma, até vi
r a convergir sobre um
valor perfitamente con
stante que se chama d
e limite:

,
1+
-
=2

Encontrar uma frmula


convergente na fórm
ula precedente nos
interessaria tanto men
os quanto o sujeito é u
ma função que tende a
11111a perfeita estabilid
ade. Mas o que é intere
ssante - e é aí que dou
11111 sallo, porque, para
fornecer os elementos ne
cessários à compreensão
,
11t10 vejo outro jeito sen
ão começar a projetar a t
aref e voltar em seguida
;) la ntcra -- tomem i confi
ando em mim com o valor
que ele tem exatamente
11a 11�orla dos númer
os, onde é chamado el
e imaginário - não é um
a
Lição de 1 O de janeiro de 1962

homonímia que, por si só, me parece aqui


justificar essa exlrapola1::10
metódica, esse pequeno momento de salto
e de confiança que lhes peço
fazerem -- esse valor imaginário é o se
guinte: I Vocês sabem, seja
como for, o suficiente de aritmética ele
mentar para saberem que I
raiz de menos um não é nenhum número
real. Não há nenhum número
negativo, /-1/ por exemplo, que possa de al
gum modo preencher a função
de ser a raiz de um número qualquer
cujo fator seria I Por que?
Porque, para ser a raiz quadrada de um
número negativo, quer dizer
que elevado ao quadrado, dá um número n
egativo. Ora, nenhum número
elevado ao quadrado pode dar um número
negativo, já que todo número
negativo elevado ao quadrado torna-se
positivo. É por isso que I é
apenas um algoritmo, mas um algoritmo
que serve.
Se vocês definem como número comple
xo todo número composto de
um número real a ao qual é acrescido u
m número imaginário, isto é,
um número que não pode de forma algu
ma se adicionar a ele - já que
ele não é um número real - feito do pr
oduto de I com b, se você
define isso como número complexo, você p
oderá fazer com esse número
complexo, e com o mesmo sucesso, todas
as operações que você pode
fazer com números reais, e quando voc
ês se tiverem lançado nesse
caminho, vocês terão tido não somente a
satisfação de perceber que
isso funciona, mas que isso permitirá fazer
descobertas, isto é, perceber
que os números assim constituídos têm um
valor que permite notadamente
operar de maneira puramente numérica co
m o que se chama de vetores,
isto é, com grandezas que serão não so
mente providas de um valor
diversamente representável por um compri
mento, mas, além disso, que
graças aos números complexos vocês poder
ão implicar em sua conotação,
não somente a dita grandeza, mas sua dir
eção e, sobretudo, o ângulo
que ela faz com tal outra grandeza, de
sorte que I que não é um
número real, mostra, do ponto de vista
operatório, ter uma potência
singularmente mais prodigiosa, se posso
dizer, que tudo aquilo de que
você dispôs até agora limitando-se à série
dos números rea is. Isso para
introduzi-los ao que é esse pequeno i.
E então, se se supõe que buscamos aqui
conotar, de maneira numérica,
alguma coisa sobre a qual podemos ope
rar, dando a ela esse valor
convencional de I .sso quer dizer o que? Que,
asim como nos d1:dica111<1t.
a elaborar a função da unidade como fun
ção da dif'crc11ça radil'al rra

- li 1 --
A Identiicação

determinação desse cen


tro ideal do sujeito, que
se chama de Ideal do
Eu, asi também na seqüê
ncia, e por uma boa raão,
é que o identicaemos
àquilo que até agora intr
oduzimos em nossa con
otação pessoal comoJ
isto é, a função imaginá
ria do flo. Vamos nos de
dicar a extrair dessa

1 , etc
\+

Mas, enquanto aguardam


os, a utilidade de sua intr
odução, nesse nível,
se ilustra nisso: é que se
vocês pesquisam o que
ela faz, essa função,
em outros termos, é f q
ue está ali em toda par
te onde vocês viram
um pequeno i, vocês vê
em aparecer uma funçã
o que não é de forma
alguma uma função con
vergente, que é uma fu
nção periódica que é
fcilmente calculável; é
um valor que se renov
a, se se pode dizer, a
cada três tempos na séri
e. A séria se defne assi
m:

i +1 primeiro termo da
série,
j+--
- terceiro t
1+ --: segundoermo.
termo da
,e

Vocês encontrarão pe
riodicamente, isto é, cad
a três vezes na série,
esse mesmo valor, esses
mesmos três valores que
vou dar. O primeiro é
i + 1, isto é, o ponto de
enigma em que estamo
s para perguntar-nos
qual valor poderíamos d
ar a i para conotar o suj
eito enquanto sujeito
de antes de toda nomin
ação. Problema que nos
interessa. O segundo
valor que vocês encontr
arão, a saber
. 1

í+1
é estritamente 2
a

-112-
Lição de 10 de janeiro de 1962

e isso é bastante interessante, pois a primei


ra coisa que nós encontramos
é o seguinte: é que a relação essencial des
se algo que buscamos como
sendo o sujeito, antes que ele se nomeie,
no uso que ele pode fazer de
seu nome simplesmente para ser o signif
cante do que há a signifcar,
isto é, da questão do signifcado justament
e dessa adição dele mesmo
com seu próprio nome, é imediatamente sp
litter, dividi-lo em dois, fzer
com que só reste uma metade de literalm
ente

--, daquilo que havia em presença.

Como vocês podem ver, minhas palavr


as não são preparadas, mas
são ainda assim calculadas e essas coisa
s são, apesar de tudo, o futo
de uma elaboração que refiz por mil port
as de entrada assegurando
me de um certo numero de controles, tendo
em seguida um certo número
de orientações nos caminhos que vão se
guir. O terceiro valor, isto é,
quando vocês interrompem ali o termo da
série, será 1 simplesmente,
o que, por muitos lados, pode ter para nó
s o valor de uma espécie de
confrmação de fecho. Quero dizer que é,
a saber, que se é no terceiro
tempo - coisa curiosa, tempo rumo ao qual
nenhuma meditação filosófca
não nos levou a nos determos especial
mente - isto é, no tempo do
penso enquanto ele é ele mesmo objeto de
pensamento e se toma com
objeto, é nesse momento aí que parecem
os conseguir alcançar essa
fmosa unidade, cujo caráter satisftório
para definir o que quer que
seja não é seguramente duvidoso, mas qu
e podemos nos indagar se é
da mesma unidade que se trata, daquela d
e que se tratava no momento
da partida, ou seja, na identifcação primo
rdial e desencadeadora, de
todo modo , é preciso que eu deixe, por hoj
e, aberta essa questão.

-113-
LIÇÃO VIII
17 de janeiro de 1962

Eu não creio que, por mais


paradoxal que possa parec
er, à primeira
vista, a simbolização com a
qual terminei meu discurso
na última vez,
fzendo o sujeito suportar-se
no símbolo matemático -
não creio que
tudo para vocês ali seja ape
nas mera surpresa.
Quero dizer que, se nos le
mbrarmos do próprio méto
do cartesiano,

não poderemos esquecer a


que este método leva seu a
utor. Ei-lo dando
de frma alguma, nele como e
m nós, posta no parêntese de
uma dimensão
que a distingue da realidade .
Essa verdade sobre a qual De
scartes avança,
com seu passo conquistad
or, é bem daquela da coisa
que importa. E
isso nos leva a que? A esva
ziar o mundo até não deixar
nele mais que
esse vazio que se chama de
extensão.
Como isto é possível? Vocês
sabem que ele vai escolher, c
omo exemplo,
der reter um bloco de cera. S
erá, por acaso, que ele escol
he essa matéria
ou será que ele é levado a
ela por ser a matéria ideal
para receber o
selo, a assinatura divina? No
entanto, após essa operação
quase alquimica
que ele realiza diante de nó
s, ele vai fazê-la desvanece
r-se, reduzir-se
a não ser mais que a pura e
xtensão; nada mais onde po
ssa se imprimir
aquilo que, justamente, est
á elidido em sua experiênci
a. Não há mais
relação entre o significante
e nenhum traço natural, se
posso exprimir
me assim, e, mais precisa
mente, o traço natural por
excelência que
constitui o imaginário do c
orpo. Isso não quer dizer, j
ustamente, que
esse imaginário possa ser ra
dicalmente repelido, mas ele
está separado
do jogo do significante. Ele é
o que é: efeito do corpo, e co
mo tal recusado
como testemunha de qualq
uer verdade. Nada a fazer
com ela senão

-115-
A Identicação

vver dela, dessa imagná


ria teora das paiões, ma
s sobretudo não pensar
que se chama de luz na
tural, isto é, um grupo lo
gístico que, desde logo,
teria podido ser outro, s
e Deus o tivesse querid
o [Teoria das paixões].
Aquilo de que Descartes
não pode ainda se dar co
nta é que nós podemos
querê-lo em seu lugar;
é que uns 150 anos a
pós sua morte nasce a
teoria dos conjuntos - el
a o teria entusiasmado -
onde mesmo os número
s
um e zero são apenas o
objeto de uma defnição
literal, de uma defnição
axiomática, puramente
formal, elemento neutr
o. Ele teria podido fzer
a economia do Deus ver
ídico, o Deus enganado
r só podendo ser aquele
que trapacearia na solu
ção das próprias equaç
ões. Mas ninguém jamai
s
viu isso; não existe o m
ilagre da combinatória,
a não ser o sentido que
lhe damos. Já é suspeit
o a cada vez que lhe d
amos um sentido. É po
r
isso que o Verbo existe,
mas não o Deus de Des
cartes. Para que o Deus
de Descartes existisse
seria necessário que ti
véssemos um pequeno
começo de prova de su
a vontade criadora no d
omínio da matemática.
Ora, não foi ele quem i
nventou o transfnito d
e Cantor, fomos nós.
É
bem por isso que a hist
ória nos conta que os gr
andes matemáticos, qu
e
abriam esse além da l
ógica divina, Euler em
primeiro lugar, tiveram
muito medo. Eles sabia
m o que fziam; eles en
contravam, não o vazio
da extensão do passo c
artesiano, que fnalment
e, apesar de Pascal, nã
o
lo cada vez mais longe,
mas o vazio do Outro, l
ugar infnitamente mais

do sentido do sujeito, t
al como ele se evoca n
a meditação cartesiana
,
não acredito fzer nad
a - mesmo se piso nu
m domínio tantas vez
es
percorrido, que acaba
parecendo tornar-se re
servado a alguns - não

já que a questão é atual,


mais atual que nenhuma
outra, e mais atualizada
ainda - acredito poder
mostrá-lo a vocês - na
psicanálise.
Aquilo em direção a q
ue, portanto, hoje vou
conduzi-los é a uma
consideração, não da o
rigem, mas da posição
do sujeito, já que na rai
z
do ato da fla há algo, u
m momento em que ela
se insere numa estrutur
a
de linguagem, e que essa
estrutura de linguagem, e
nquanto é caracterizada
nesse ponto original, te
nto cercá-la, defni-la e
m torno de uma temátic
a
que, de maneira imagi
nada, se encarna, está
compreendida na idéia
de uma contemporanei
dade original da escrita
e da própria linguagem,

- -116-
Lição de 17 de janeiro de 1962

uma vez que a escrita é conotação sig


nifcante, não é tanto que a fla
a cria mas sim que ela a leia, que a gên
ese do signifcante num certo
o principal para conotar a vinda à luz do
dia dos efeitos, ditos efeitos de

de si nachtraglich, apenas pelo fto de se e


ngajar por sua fla, a princípio
balbuciante, depois lúdica, até mesmo co
nfusional, no discurso comum,
o que ele projeta atrás de seu ato, é aí
que se produz esse algo em
direção ao qual temos a coragem de ir,
para interrogá-lo em nome da
a uma frmula muito ligeiramente difrent
emente acentuada, no sentido

que o sujeito, ao avançar nesse rumo, n


ão pode ignorar que é preciso

apreender-se ali. Desde já, aí algo nos d


irige rumo a algo que, por ser
invertido, nos sugere a observação de qu
e, por si só, em sua existência,
a negação, desde sempre, não deixa de
esconder uma questão; o que
ela supõe? Ela supõe a afirmação sobre
a qual se apóia? Sem dúvida.
Mas será que tal afirmação será, apenas
, a afirmação de alguma coisa
do real que estaria simplesmente suprim
ida? Não é sem surpresa, não
é sem malícia que podemos encontrar, so
b a pena de Bergson, algumas
linhas pelas quais ele se levanta contr
a toda idéia do nada, posição
bem confrme a um pensamento em seu
fundo atado a uma espécie de
realismo ingênuo:_"Existe mais, e não
menos, na idéia de um objeto
concebido como não existente do que
na idéia desse mesmo objeto
concebido como existente, pois a idé
ia do objeto não existente é
necessariamente a idéia do objeto existind
o com, a mais, a representação
de uma exclusão desse objeto pela reali
dade atual tomada em bloco".
Será, assim, que podemos contentar-nos
em situá-lo? Por um momento,
levemos nossa atenção para a própria ne
gação. É assim que podemos
contentar-nos, numa simples experiênci
a de seu uso, de seu emprego,
em situar-lhes os efeitos.
Conduzamo-nos, então, por todos os ca
minhos de uma investigação
lingüística, algo a que não podemos furta
r-nos. De resto, já avançamos
nesse sentido, e se vocês bem se lemb
ram, já se fez alusão aqui, há
muito tempo, às observações muito sug
estivas, senão esclarecedoras,
de Eduard Pichon ou Damourette, em su
a colaboração a uma gramática

-117-
A Identicação

muito rica e muito fecun


da a considerar, gramáti
ca especialmente da
língua francesa na qual s
uas observações vêm ap
ontar que não existe,
dizem eles, propriament
e flando, negação em fr
ancês. Querem dizer
que essa forma simplifi
cada, em seu sentido d
a ablação radical, tal
como ela se exprime na
queda de certas frases al
emãs, digo na queda
porque é exatamente
o termo nicht que, por
vir de uma maneira
surpreendente na conclus
ão de uma fase prossegui
da em regstro positivo,
permitiu ao ouvinte ficar
até o final na mais perfe
ita indeterminação e
radicalmente numa posiç
ão de crença; por meio de
sse nicht que a rasura,
toda a significação da fr
ase se acha excluída.
Excluída de quê? Do
campo da admissibilidade
da verdade. Pichon observ
a, não sem pertinência,
que a divisão, a separaç
ão mais ordinária em fra
ncês da negação entre
um ne de um lado e um
a palavra auxiliar, o pas,
o personne, o rien, o
point� o mie, o goutte ,
que ocupam uma posiçã
o na frase enunciativa
que resta a precisar em r
elação ao ne nomeado p
rimeiro, que isto nos
sugere principalmente, a
o olhar de perto o uso se
parado que pode disso
ser feito, atribuir a uma d
essas fnções uma sigifca
ção dita discordancial,
à outra uma significaçã
o exclusiva. É justament
e de exclusão do real
que estaria encarregado
o pas, o point, ao passo
que o ne exprimiria
essa dissonância por ve
zes tão sutil que não pas
sa de uma sombra, e
principalmente nesse f
moso ne, que vocês sab
em que fiz grande caso
para tentar, pela primeir
a vez, justamente, de ne
le mostrar algo como
o rastro · do sujeito do i
nconsciente, o ne dito ex
pletivo. O ne desse je
crains qu' il ne vienne !
receio que ele venha]. vo
cês sabem perfeitamente
que ele não quer dizer na
da mais quej' espérais qu'
il vienne [eu esperava
que ele viesse]. Ele expri
me a discordância de nos
sos próprios sentimentos
em relação a essa pesso
a, ele veicula de alguma
maneira o rastro tanto
mais sugestivo de ser en
carnado em seu signifcan
te, já que o chamamos
em psicanálise de ambiv
alência. ]e crains qu' il n
e vienne, não é tanto
exprimir a ambigüidade
de nossos sentimentos
quanto mostrar, por
essa sobrecarga, o quant
o, num certo tipo de relaçõ
es, é capaz de ressurgr,
de emergr, de se reprodu
zir, essa distinção do sujei
to do ato da enunciação
enquanto tal, em relaçã
o ao sujeito do enunciad
o, mesmo se ele não
está presente no nível
do enunciado de uma fr
ma que o designe. ]e
crains qu' il ne vienne é
um terceiro; seria, se se
dissesse je crains que
je ne fasse !receio que
eu fça], o que não se di
z muito, embora seja
concebível, o que se e
staria no nível do enun
ciado. Todavia, pouco

-118-
Lição de 17 de janéiro de 1962

importa que ele sej a designável, aliás, voc


ês podem ver que posso fzê
lo aparecer, no nível do enunciado, e um s
ujeito, mascarado ou não no
nível da enunciação, representado ou não,
nos leva a fzer-nos a pergunta
da função do sujeito, de sua frma, daqui
lo que ele suporta, e a não
nos enganarmos, a não crermos que é sim
plesmente o je [shifer] que,
em sua frmulação do enunciado, o desig
na como o que, no instante
que defne o presente, toma a palavra?
O sujeito da enunciação talvez tenha se
mpre um outro suporte. O
que articulei é que, muito mais, esse pequ
eno ne, aqui apreensível sob
a forma expletiva, é aí que devemos recon
hecer, propriamente falando,
num caso exemplar, o suporte. E claro, ta
mbém não é dizer tampouco
que, nesse fnômeno de exceção, nós deva
mos reconhecer seu suporte
exclusivo. O uso da língua vai-me permit
ir sublinhar diante de vocês,
de uma maneira bem banal, não tanto a dist
inção de Pichon, na verdade,
eu não a acho sustentável até seu termo des
critivo. Fe nomenologcamente,
ela repousa sobre a idéia, inadmissível p
ara nós, de que se pode de
alguma forma fragmentar os movimento
s do pensamento. Contudo,
vocês têm essa consciência lingüística qu
e lhes permite imediatamente
apreciar a originalidade do caso em que
vocês têm somente, em que
vocês podem, no uso atual da língua .. . iss
o nem sempre foi assim; em
tempos arcaicos a frma que vou agora for
mular diante de vocês era a
mais comum. Em todas as línguas, uma
evolução se marca como um
deslizamento, que os lingüistas tentam carac
terzar, das frmas da negação.
O sentido como esse deslizamento se exer
ce, talvez daqui a pouco lhes
diga sua linha geral, ela está expressa sob
as penas dos especialistas.
Mas, por enquanto, tomemos o simples ex
emplo daquilo que se oferece
a nós simplesmente na distição entre duas
fórulas igualente admissíveis,
igualmente re cebidas, igualmente express
ivas, igualmente comuns : a
do je ne sais com a do j' sais pas • Vo cês v
êem, acho, de imediato, qual
é a diferença, diferença de acento. Este je
ne sais não deixa de ter seu
maneirismo, é literário, é preferível a jeun
es nations, mas é da mesma
ordem. Ambos são Marivaux, senão rivats
• O que exprme este je ne

sais é essencialmente alguma coisa comp


letamente diferente do outro
código de expressão, o do j'sais pas: expri
me a oscilação, a hesitação,
mesmo a dúvida. Se evoquei Marivaux
não fi por acaso; é a forma
ordinária na cena onde podem frmular-se
as confssões veladas. Junto
a esteje ne sais, carecera divertimo-nos orto
gafando, com a ambigüidade

-119 -
A Identiicação

dada por meu jogo de


palavras, o j' sais pas p
ela assimilação que ele
sofe devido à vizinhan
ça com o s inaugural d
o verbo, o j do je que s
e
tora um chê aspirado, qu
e é aí sibiante surda. O ne
aqu engolido desaparece :
toda a fase vem repousar
sobre o pas pesado da o
clusiva que o determina.
A expressão só ganhará
seu acento um pouco irr
sório, até mesmo vulgar,
no momento justamente
de seu desacordo com o
que haverá de expresso
então. O ch 'sais pas ma
rca, se posso dizer assi
m, até mesmo o corte d
e
alguma coisa onde, bem
ao contrário, o sujeito sof
e um colapso, é esmagad
o.
"Como é que isso acont
eceu? " - pergunta a aut
oridade, depois de algu
m
episódio maogado, ao re
spnsável. "Ch'sais pas". É
um buraco, uma hiância
que se abre, no fndo do
qual o que desaparece,
submerge , é o própro
sujeito. Mas aqui ele nã
o aparece mais em seu
movimento oscilatório n
o
suporte que lhe é dado
por seu movmento orig
nal. Mas, ao contrário,
sob uma fra de constata
ção de sua igorância, pr
opriamente dita, exprssa
,
assumida , até mesmo pr
ojetada, constatada , é al
go que se aprsenta como
um não estar ali, projeta
do sobr uma superfcie ,
sobre um plano onde el
e
é como tal reconhecido.
E o que nós nos aproxim
amos, por esse caminho
, nessas observações
controláveis de mil ma
neiras, por toda a sort
e de outros exemplos,
é
algo de que, no mínimo
, devemos reter a idéia
de uma dupla vertente.
Será que essa dupla v
ertente é verdadeirame
nte de oposições, com
o
mais avançado pode per
mitir-nos resolvê-lo? Ob
servemos primeirament
e
que o ne desses dois ter
mos tem a aparência de
sofrer a atração do que
se pode chamar de gr
upo de fente da fase,
já que ele é agarrado,
suportado pela frma pr
onominal. Esse pelotã
o de frente, em francês
,
é notável nas fórmulas
que o acumulam, tais c
omo je ne le, je le lui,
isso agupado antes do v
erbo não deixa de rfletir
uma profnda necessidad
e
estrutural. Que o ne ve
nha agregar [-se] aí, e
u direi que não é isso o
que nos parece o mai
s notável. O que nos p
arece mais notável é
o
seguinte : é que, ao vir
agregar-se, ele acentu
a o que eu chamaria d
e
sigifcantização subjeti
va. Notem, de fato, qu
e não é por acaso qu
e
fi no nfvel de um je ne
sais, de um je ne puis,
de uma certa categoria
que é aquela dos verbo
s onde se situa, se inscr
eve a posição subjetiva
propriamente, que eu e
ncontrei meu exemplo
de emprego isolado do
ne. Há, de fato, todo u
m registro de verbos c
ujo uso é apropriado a

.-120-
Lição de 17 de janeiro de 1962

fzer-nos obserar que sua fnção muda profn


damente, se são empregados
na primeira, na segunda ou na terceira p
essoas. Se eu digo je crois
qu'il va pleuvoir [creio que vai chover], i
sso não distingue de minha
enunciação que vai chover, um ato de cren
ça. ]e crois qu'il va pleuvoir
conota simplesmente o caráter contingente
de minha prevsão. Observem
que as coisas se modificam, se passo às out
ras pessoas: tu crois qu'il va
pleuvoir [você crê que vai chover] fz muito
mais apelo a alguma coisa,
àquele a quem me dirijo, fço apelo a seu t
estemunho. Il croit qu'il va
pleuvoir [ele crê que vai chover] dá cada
vez mais peso à adesão do
sujeito a sua crença. A introdução do ne s
erá sempre fácil quando ele
vier juntar-se a esses três suportes prono
minais desse verbo que tem
aqui função variada: a princípio, do matiz
enunciativo até o enunciado
de uma posição do sujeito, o peso do ne ser
virá sempre para reconduzi
lo em direção ao matiz enunciativo. ]e ne c
rois pas qu'il va plevoir [não
creio que vai chover) é ainda mais ligado ao ca
ráter de sugestão disposicional,
que é a minha. Isso pode não ter nada a v
er com uma não-crença, mas
simplesmente com meu bom-humor. ]e ne
crois pas qu'il va plevoir , je
ne crois pas qu'il pleuve [não acredito que
chova], isso quer dizer que
as coisas não me parecem desfvoráveis. D
a mesma frma, ao acrescentá
lo às duas outras frmulações, o que aliá
s vai distinguir duas outras
a "eu-izar" aqui
lo de que se trata nas outras
frmulas. Tu ne crois pas qu il va pleuv
oir il ne croit pas qu il doive
pleuvoir estão igualmente bem. É exata
mente enquanto são atraídos
pelo je que eles serão, pelo fato de que é co
m o acréscimo dessa pequena
partícula negativa, aqui, introduzidos no
primeiro membro da frase.
Será que, diante disso, devamos fazer d
o pas algo que, brutalmente,
conota o puro e simples fto da privação? Ta l
seria seguramente a tendência
da análise de Pichon, uma vez que ele,
de fato, tende a agrupar os
exemplos para dar-lhes todas as aparência
s. De fto, não acredito nisso,
por razões que se prendem primeiramente à
própria origem dos sigifcantes
de que se trata. Seguramente, temos a gê
nese histórica de sua forma
y
vais pás pode se
y

-121 -
A Ienticação

de um buraco, ea aus
ência, exprime bem ao
contrário a redução, o
desaparecimento talvez,
mas não acabado, deixa
ndo atrás dele as marcas

restituir a seu valor posi


tivo, ao ponto em que s
ão correntemente ainda

que se produz em direç


ão a elas da função do n
e, e mesmo quando o ne
está elidido, é sempre a
carga negativa sobre a
quelas palavras que ele
continua a exercer. Alg
uma coisa, se se pode
dizer, da reciprocidade,
digamos, desse pas e de
sse ne nos será trazida
pelo que ocorre, quand
o
invertemos sua ordem
do enunciado da frase.
Nós dizemos, exemplo
de lógica: "Pas un hom
me qui ne mente". Aí te
mos o pas que abre o
fogo. O que quero aqui
designar, fzê-los captar
, é que o pas, por abrir
a fase, não desempenh
a absolutamente a mes
ma função que lhe seri
a
atribuída, no dizer de
Pichon, se fsse a que
se exprime na fórmula
seguinte: eu chego e v
erifco: "Il n 'y a ici pas
un chat" [Aqui não há
um só gato].
Entre nós, deixem -me as
sinalar-lhes de passagem
o valor esclarecedor,
privlegiado, até redupl
icante do próprio uso
de uma tal palavra: pa
s
un chat. Se tivéssemos
de fzer o catálogo dos
meios de expressão da
negação, eu proporia q
ue puséssemos, sob e
sse rótulo, esse tipo d
e
palavras que se torna
m um suporte da nega
ção. Elas não deixam
de
constituir uma categori
a especial. O que tem
o gato a ver com essa
questão? Mas deixemo
s isso de lado, por enqu
anto. Pas un homme qui
ne mente [Não há um s
ó homem que não mint
a] mostra sua difrença
com esse concerto de c
arência, algo que está t
otalmente no outro níve
l
e que é sufcientement
e indicado pelo empre
go do subjuntivo. O pa
s
un homme qui ne mente
é do mesmo nível que
motiva, que defne todas
as frmas as mais discor
danciais, para emprega
rmos o termo de Pichon
,
que possamos atribuir
ao ne desde o je crains
qu' il ne vienne [receio
que ele venha] até o av
ant qu il ne vienne [ante
s que ele venha] , até o
plus petit que je ne le cro
yais [menor do que eu p
ensava] ou, ainda, il y
a longtemps que je ne l'
ai vu [há muito que nã
o o tenho visto], que
levantam - digo-lhes d
e passagem - toda sort
e de questões que, por
enquanto, sou obrgado a
deixar de lado. Fa ço com
que notem , de passagem,
o que está contido num
a fórmula como il y a lo
ngtemps que je ne l' at
vu, vocês não podem dizê-
lo a propósito de um mort
o ou de um desaparecido:

-122 -
lição de 17

il y a longtemps qu
e je nc l' ai vu supõ
e que o próximo en
contro é
sempre possível.
Vocês vêem com que
prudência o exame, a
investigação desses t
ermos
deve ser manejada.
É por isso, no mom
ento de tentar expor
, não a
dicotomia, mas um
quadro geral dos di
versos níveis da ne
gação, na
qual nossa experiên
cia nos traz entrada
s de matrizes de out
ro modo
mais ricas do que tu
do o que se tinha fit
o no nível dos filóso
fs, desde
Aristóteles até Kant -
e vocês sabem como
elas se chamam, essa
s entradas
de matriz: privação,
frustração, castraçã
o. São elas que va
mos tentar
retomar, para confro
ntá-las com o supor
te significante da ne
gação, tal
como podemos tent
ar identificá-lo. Pas
un homme qui ne men
te . É o
proposição que lhes
apresento sob a form
a típica da afrmativa
universal,

eu já havia feito alus


ão, a propósito do u
so clássico do silogs
mo: "todo
homem é mortal, Só
crates ... etc. ", com
o que conotei de pas
sagem sua
função transferencial.
Creio que algo pode
ser trazido a nós na a
bordagem
dessa fnção da negaç
ão, no nível do uso ori
gnal, radical, pela con
sideração
do sistema formal d
as proposições, tal c
omo Aristóteles as c
lassificou
nas categorias ditas
da universal afrmati
va e negativa e da
particular
dita igualmente nega
tiva e afrmativa: A E
I O. Digamo-lo imedi
atamente:
esse assunto dito da
oposição das propos
ições, origem, em Ar
istóteles,
de toda su.a anális
e, de toda sua mec
ânica do silogismo,
não deixa,
apesar da aparênci
a, de apresentar as
mais numerosas dif
culdades.
Dizer que os desenv
olvimentos da logísti
ca moderna esclarec
eram essas
difculdades seria m
uito certamente diz
er alguma coisa co
ntra a qual
toda a história lança
desmentidos. Muito
pelo contrário, a úni
ca coisa
que ela pode fazer ap
arecer de surpreenden
te é a aparência de uni
formidade
na adesão que essa
s fórmulas ditas arist
otélicas encontraram
até Kant,
já que Kant mantinh
a a ilusão de que es
tava aí um edifício i
natacável.
Seguramente, não é
coisa pouca poder,
por exemplo, fzer no
tar que a
acentuação de sua f
unção afrmativa e n
egativa não é articul
ada como
provavelmente, que
convém marcar-lhes
a origem disso. Sign
ifica dizer
que as coisas não s
ão tão simples, quan
do se trata de sua a
preciação.
Para aqueles que n
ecessitam fazer um
a revisão da função
dessas
proposições, vou rel
embrá-las breveme
nte. Homo mendax, j
á que é o

-123 -
A Ide ntiicação

que escolhi para introduzir


essa revisão , tomemo-lo
então , homo e mesmo
omnis homo, omnis hom
o mendax, todo homem
é mentiroso. Qual é a
frmula negativa? Segun
do uma frma [que traz]
e em muitas línguas ,
omnis homo non mendax
pode bastar. Quero dizer
que omnis homo non
mendax quer dizer que ,
de todo homem , é verda
deiro que ele não seja
mentrso. To davia, para e
fito de clarza, é o tero n
ullus que emprgamos,
nullus homo mendax. Ei
s aí o que é conotado ha
bitualmente pela letra,
respectivamente , A e E
da universal afrmativa e
da universal negativa.
O que vai ocorrer no
nível das afrmativas pa
rticulares? Posto que
nos interessamos pela
negativa, é sob uma frm
a negativa que vamos
aqui poder introduzi-las.
Non omnis homo menda
x, nem todo homem é
mentiroso, dito de outra
maneira , eu escolho e v
erifco que há homens
que não são mentirosos
. Em suma , isso não qu
er dizer que qualquer
um, aliquis, não possa
ser mentiroso, aliquis h
omo mendax, tal é a
particular afrmativa ha
bitualmente designada,
na notação clássica,
pela letra I. Aqui, a neg
ativa particular, O, será
, o non omnis, sendo
aqui resumida por nullus,
non nullus homo non me
ndax, não há nenhum
homem que não sej a me
ntiroso. Em outros termo
s, na medida em que
tínhamos escolhido aqui,
O, para dizer que nem tod
o homem era mentiroso,
isso o exprime de uma o
utra maneira, a saber, qu
e não há nenhum que
haja aí de ser não mentiro
so. Os termos assim orga
nizados se distinguem,
na teoria clássica , pelas
frmulas seguintes, que a
s põe reciprocamente
em posição dita de contrá
rio ou de subcontrário, ist
o é, que as proposições
universais A e E se opõ
em em seu próprio nível
como não sabendo e
não podendo ser verda
deiras ao mesmo tempo
. Não pode ao mesmo
tempo ser verdadeiro que
todo homem possa ser m
entiroso e que nenhum
homem não possa ser m
entiroso, quando todas a
s outras combinações
são possíveis. Não pode
ser ao mesmo tempo err
ado que haja homens
mentirosos e homens nã
o mentirosos. A oposiçã
o dita contraditória é
aquela pela qual as prop
osições situadas em cad
a um desses quadrantes
se opõem diagonalmen
te, A - O e E - I, de frm
a que cada um exclui,
sendo verdadeira, a verdad
e daquela que lhe é oposta
a título de contraditória,
e, sendo falsa, exclui a
flsidade daquela que lh
e é oposta a titulo de
contraditória . Se há ho
mens mentirosos , I, iss
o não é compatfvel com
o fto de que nenhum ho
mem não seja mentiros
o , E. Inversamente, a
relação é a mesma da p
articular negativa , O, co
m a afrmativa, A.

- 124 -
de janeiro de 1962

E
A omnis homo no
omnls homn mendax
o mendax nullus homo
nullus homomendax
non mendax aliquis homo
aliquis non mendax
mo menda non omnis h
non omnis homoomo mendax
non mendax

O que é que vou propor a


vocês, para fzê-los sentir o
que, no nível
do texto aristotélico, se apr
esenta sempre como o que
se desenvolveu,
na história, de embaraço e
m torno da defnição, como
tal, da universal?

Contrárias
E
A

/ �

subcontrárias o
Observem primeiramente
que, se aqui introduzo o no
n omnis homo
mendax, O, o pas tout (não t
odo) , o termo pas incindindo
sobre a noção
de tout como defnindo a p
articular, não é que isso se
ja legtimo, pois
precisamente Aristóteles se
opõe a isso de uma maneira
que é contrária
a todo desenvolvimento que
pode ter em seguida a espe
culação sobre a
lógca frmal, a saber, um de
senvolvimento, uma explica
ção em extensão
fzendo intervir a carcaça s
imbolizável por um círculo
, por uma zona
na qual os objetos que consti
tuem seu suporte são agrupa
dos: Aristóteles,
mui precisamente, antes d
os Primeiros Analíticos, pel
o menos na obra
que antecede no agrupame
nto de suas obras, mas que
aparentemente
o antecede logicamente, s
enão cronologicamente qu
e se chama Da
Interpretação, fz observar
que - e não sem ter provo
cado o espanto
dos historiadores - não é s
obre a qualificação da univ
ersalidade que
deve incidir a negação. É, p
ois, exatamente por algum
homem, aliquis,
que se trata e de um algum
homem que devemos enqua
nto tal interrogar
como mentiroso. A qualifc
ação portanto do omnis, d
a omnitude, da

-125 -
A Identicação

paridade da categoria u
niversal é aqui o que es
tá em causa. Será que
é
alguma coisa que seja
do mesmo nível, do nív
el de existência do que
pode suportar ou não s
uportar a afrmação ou
a negação? Será que h
á
homogeneidade entre e
sses dois níveis? Dito d
e outra forma : será qu
e
é de alguma coisa que
simplesmente supõe a
coleção como realizad
a
que se trata, na diferen
ça que há da universal
para a particular?
Subvertendo o alcance
daquilo que estou tenta
ndo explicar-lhes, vou
propor-lhes algo, algo q
ue é feito de certa frma
para responder a quê?
À questão que liga, jus
tamente, a defnição do
sujeito como tal àquela
da ordem de afrmação
ou de negação na qual
ele entra na operação
- e se se buscar a que
m isso remonta, vou di
zer-lhe, não deixa de s
er

e que o atributo que vo


cês vêem aqui encarna
do pelo termo mendax é
tomado sob o ângulo d
a quantidade. Digo de
outra frma: em um ele
s
são todos, eles são vári
os, até há um. É o que
Kant ainda conserva no
nível da Crítica da Razã
o Pura, na divisão terná
ria. O que não deixa de
. levantar grandes obje
ções por parte dos ling
üistas. Quando se olha
as
coisas historicamente , p
ercebe-se que essa distin
ção qualidade-quantidade
tem uma origem: apar
ece pela primeira vez
num pequeno tratado,
paradoxalmente, sobre
as doutrinas de Platão
e isso - é, ao contrário,
o
enunciado aristotélico d
a lógca frmal que é repr
oduzido, de uma maneir
a
abrevada mas não sem
didática, e o autor é ning
uém menos que Apuleio,
'o
função histórica, a saber
, ter introduzido
uma categorização, a d
a quantidade e
da qualidade, da qual o
mínimo que se
pode dizer é que é por ter
sido introduzida

qual proponho a vo

cês hoje que 1 { ,


mmm;��
�w}
q
u .
a
d
r
a
n
t
e

[
1
]

traços verti
cais. A fun
ção traço v
ai
preencher a
do sujeito e
a fnção verti
cal

-126 -
de ja neiro de 1962

que, aliás, é escolhida simpl


esmente como suporte, a d
o atributo. Eu
bem poderia ter dito que to
mava como atributo o term
o unário, mas
para o lado representativo e
Imaginável do que tenho a l
hes mostrar,
eu os ponho verticais. Aqui (3
), temos um segmento do qu
adrante onde
há traços verticais, mas també
m traços oblíquos . Aqui , (2),
não há traços.
O que isto é destinado a ilustr
ar é a distinção universal-
particular, enquanto
ela forma um par distinto d
a oposição afrmativa-
negativa, deve ser
considerada como de um reg
istro bem difrente daquele qu
e, com maior
ou menor destreza, os come
ntadores, a partir de Apuleio
, acreditaram
dever dirigir, nessas fórmula
s tão ambíguas , escorregadi
as e confusas
que se chamam respectiva
mente de qualidade e quanti
dade, e opô-lo
nestes termos. Chamaremos d
e oposição universal-particular
uma oposição
da ordem da ÀEÇtÇ, o que é p
ara nós ÀEyro [ÀEyEtvl, eu leio
, mas também
eu escolho, muito exatamente l
igada a essa fnção de extraçã
o, de escolha
do signifcante que é aquilo
sobre o que, por enquanto,
o terreno, a
passarela sobre a qual estamo
s avançando. Isto para disting
ui-la da qamç,
isto é, de algo que aqui se pr
opõe como uma fala por ond
e, sim ou não,
eu me engajo quanto à existê
ncia desse algo que é posto e
m causa pela
ÀEÇtÇ primeira. E, de fato, v
ocês vão ver, de que é que v
ou poder dizer
todo traço é vertical? Obvia
mente, do primeiro setor do
quadrante [l],
mas, observem-no, também do
setor vazio [2]. Se digo todo tra
ço é vertical
isso quer dizer que, quand
o não há verticais, não há tr
aço. Em todo
caso, isso é ilustrado pelo s
etor vazio do quadrante. Nã
o somente o
setor vazio não contradiz, não
é contrário à afrmação todo tra
ço é vertical,
mas a ilustra. Não há nenhu
m traço que não seja vertical
, nesse setor
do quadrante. Eis, portanto
, ilustrada pelos dois primei
ros setores a
afrmativa universal.
A negativa universal vai s
er ilustrada pelos dois setore
s de direita (2
e 4), mas o que importa aí se f
ormulará pela articulação seg
uinte: nenhum
traço é vertical. Não há, nes
ses dois setores , nenhum tra
ço. O que há a
ser notado é o setor comum
[2], que essas duas proposiç
ões recobrem
que, segundo a fórmula, a do
utrna clássica, em aparência,
não poderam
ser verdadeiras ao mesmo te
mpo. O que é que iremos enc
ontrar seguindo
nosso movimento giratório q
ue também começou muito
bem; aqui O,
como fórmula, assim como aq
ui I, para desigar os dois outro
s agupamentos
possíveis dois a dois dos qua
drantes? Aqui I, nós vamos v
er o verdadeiro
desses dois quadrantes sob
uma frma afrmativa, há - dig
o-o de uma

-127 -
A Identiicação

maneira fásica, constat


o a existência de traços
verticais - há traços
verticais, há alguns traç
os verticais que posso e
ncontrar, seja aqui [li
sempre, seja aqui [3], em
certos casos. Aqui, se tent
amos defnir a distinção
da universal e da particul
ar, vemos quais são os d
ois setores [3 e 4) que
respondem à enunciaçã
o particular O, ali há traç
os não verticais, non
nullus non verticalis. A
ssim como, há pouco, e
stivemos um instante
suspensos pela ambigüid
ade dessa repetição da n
egação, o non ... non ...
está longe de ser frços
amente equivalente ao
sim, e é algo a que
retornaremos em seguid
a.
O que isso quer dizer
? Qual é o interesse par
a nós de nos servrmos
de um tal aparelho? Po r
que eu tento destacar par
a vocês este plano da
ÂEÇlÇ do plano da cacnç
? Vou tomar essa direção
imediatamente e não
por quatro caminhos, e
vou ilustrá-lo.
O que podemos dizer
nós, analistas? O que no
s ensina Freud? Uma
vez que o sentido fi com
pletamente perdido, daq
uilo que se chama de
proposição universal, d
esde, justamente, uma
frmulação à fente da
qual pode-se colocar a f
ormulação euleriana que
consegue representar
para nós todas as fnçõ
es do silogismo por um
a série de pequenos
círculos, seja exclundo-se
uns aos outros, reagupan
do-se, interseccionando
se, em outros termos e
para flar propriamente
em extensão, a que se
opõe a compreensão qu
e seria distinguida simp
lesmente por não sei
que inevitável maneira d
e compreender. De com
preender o quê? Que
o cavalo é branco? O q
ue há a compreender?
O que nós trazemos e
que renova a questão é i
sto; digo que Freud prom
ulga, avança a frmula
que é a seguinte : o pai é De
us ou todo pai é Deus . Dai r
esulta, se mantiveros
essa proposição no níve
l universal, a de que mi
o há outro pai senão
Deus, o qual, por outro l
ado, quando à existênci
a, é antes na refexão
feudiana aufgehoben, an
tes posto em suspensão,
até mesmo em dúvida
radical. O que está em qu
estão é que a ordem de f
nção que introduzimos
com o Nome do pai é ess
a alguma coisa que, ao m
esmo tempo, tem seu
valor universal, mas que
remete a você, ao outro,
o encargo de controlar
se há um pai ou não de
ssa natureza.
Se não há, é sempre
verdadeiro que o pai seja
Deus. Simplesmente,
a frmula só é confrmad
a pelo setor vazio (2) do
quadrante, por meio
do qual, no nível da cacn
ç, temos há pais que pree
nchem mais ou menos
a função simbólica que d
evemos denunciar como t
al, como sendo aquela
do Nome do pai, há os q
ue, e há os que não. Mas,
que haj a que não que

28 -
Lição de 17 de ja neiro de 1962

sejam não em todos os casos, o que aq


ui é suportada pelo setor [4], é
exatamente a mesma coisa que nos dá
apoio e base à fnção universal
do Nome do pai, pois, agrupado com o
setor no qual não há nada [2],
são justamente esses dois setores, tom
ados no nível da ÀEçtç, que se
encontram, em razão deste aqui, deste se
tor suportado que complementa
o outro, que dão seu pleno alcance ao
que podemos enunciar como
afrmação universal.
Vou ilustrar de uma outra maneira, já q
ue também, até certo ponto,
pode ter sido feita a questão sobre o s
eu valor, falo em relação a um
ensino tradicional, que deve ser o que eu tr
ouxe na última vez, concernente
ao pequeno i. Aqui, os profssores discut
em: "o que vamos dizer? " O
professor, aquele que ensina, deve ensin
ar o quê? O que os outros têm
ensinado antes dele. Quer dizer que ele
se fu nda sobre o quê? Sobre o
que já sofeu uma certa ÀEçtç. O que result
a de toda ÀEÇLÇ é, justamente,
aquilo que importa para nós no mom
ento, e no nível do qual tento
manter vocês hoje: a letra. O professor é le
trado ; em seu caráter universal,
ele é aquele que se fnda sobre a letra no n
ível de um enunciado particular.
Podemos dizer, agora, que ele pode ser
metade metade, ele pode não
ser todo letrado. Daí resultará que aind
a que não se possa dizer que
nenhum professor seja iletrado, haverá s
empre, no seu caso, um pouco
de letras. Não é menos verdadeiro qu
e se, por acaso, houvesse um
certo ângulo, [profssores iletrados] que
se caracterizem como dando
assim, de fechar o círculo e de ver que o
retorno e o fu ndamento, se se
pode dizer assim, da definição universa
l do profssor está estritamente
nisso, é que a identidade da fó rmula de
que o profes�or é aquele que se
identifi ca com a letra impõe, exige mes
mo o comentário de que pode
haver professores analfabetos. A casa negativ
a [2], como correlativa essencial
da defnição da universalidade, é algo
que está profndamente oculto
no nível da ÀEçtç primitiva.

-129 -
A Identicação

A
N
todo tra Não há
ço é ver nem tra
tical ço nem
vertical
(=quand
o não h Nome d
á vertic o pai
al,
não a tr Profess
aço) or anal
Todo pai fabeto
e Deus
(não há
outro pa Pai nã
i senão o-pai
Deus)
O profe causa
ssor se f perdida
unda so
bre a let
ra

PHASIS

Há t
raço
s ve
rtica
is (A.
P)
Há pa
is que
preec
hem
+ ou
- a fu
nção Nen
simbó hu
lica m tr
do No aço
me do é v
pai erti
O pro cal
fessor
não s Há
e fund alg
a uns
senão que
parcia não
lment
e sob
re a l Nen
etra hu
mp
rofe
ssor
se

fun
da
sob
re a
lexi
s

-130 -
Lição de 17 de janeiro de 1962

Isso quer dizer alguma coisa: na ambig


üidade do suporte particular
que podemos dar no engajamento da n
ossa palavra ao Nome do pai
como tal, não é menos verdadeiro que n
ão podemos fazer o que quer
que sej a que, aspirado na atmosfera do
humano, se posso dizer assim,
possa - se se pode dizer - considerar-se co
mo completaente desembaaçado
do Nome do pai. Que mesmo aqui [2 vaz
io] onde só há pais para quem
não-pai, a causa perdida sobre a qual te
rminou meu seminário do ano
passado, é todavia em função dessa pe
rda [déchéance]. em relação a
uma primeira ÀEçtç, que é aquela do N
ome dos pai, que se julga essa
categoria particular. O homem só pode f
azer com que sua afrmação ou
sua negação, com tudo o que ela implic
a, aquele é meu pai, ou aquele
é seu pai, não esteja inteiramente suspe
nsa por uma ÀEÇtÇ primitiva
se trata, mas de algo a que somos provoc
ados aqui a dar seu verdadeiro

vêem, estara em gande perigo de serem sem


pre postos em alguma suspensão
quanto a sua fnção real - que, mesmo a
os olhos dos profssores, deve
justifcar que eu tente dar, mesmo a seu
nível de profssores, um suporte
algoritmo a sua existência de sujeito co
mo tal.
-131-
LIÇAO IX
24 de janeiro de 1962

Experimento uma cert


a difculdade para retoma
r com vocês o que
estou perseguindo, esses
traços sutis, ligeiros, pelo
fto de que ontem
à noite tive que dizer cois
as 1ais pesadas . O impo
rtante, no que se
refere à continuação dest
e seminário, é que o que
eu disse ontem à
noite concerne evidentem
ente à fu nção do objeto,
do pequeno a na
identifcação do sujeito, is
to é, algo que não está i
mediatamente ao
nosso alcance, que não s
erá resolvdo imediatament
e, sobre o qual dei
ontem à noite, se posso di
zer, uma indicação anteci
pada, servindo-me
do tema dos três escrínios.
Este tema dos três escrínio
s esclarece muito
o meu ensino porque, se
vocês abrirem o que se c
hama bizarramente
de Ensaios de Psicanálise
Aplicada e lerm o artigo so
bre os três escrínios,
vocês se aperceberão que,
no fnal das contas, vocês f
cam um pouquinho
insatisfitos. Vo cês não sa
bem muito bem onde ele
quer chegar, nosso
pai Freud. Creio que, com
o que lhes disse ontem à n
oite, que identifica
os três escrínios à dema
nda, tema com o qual, pe
nso, vocês já são
craques há muito tempo,
que diz que em cada um
dos três escrínios -
sem isto não haveria adivi
nhação, não haveria probl
ema - há o objeto
a, o objeto que é, enqua
nto nos interessa a nós a
nalistas, mas não
frçosamente, o objeto que
corresponde à demanda.
De maneira alguma
forçosamente também n
ão o contrário, porque se
m isto não haveria
difculdades. Esse objeto
é o objeto do desejo, e o
desejo onde está?
Está fra; e aí onde está v
erdadeiramente, o ponto
decisivo, é você, o
analista, na medida em q
ue seu desejo não deve s
e enganar sobre o
objeto do desejo do sujeit
o. Se as coisas não fssem
assim, não haveria
-133 -
A Ienticação

mérito em ser analista. H


á uma coisa que lhes digo
também, de passagem,
é que tenho, ainda ass
im, acentuado, diante d
e um auditório suposto
não saber, algo sobre o
qual talvez não tenha in
sistido sufcientemente
aqui, isto é, que o siste
ma do inconsciente, o si
stema ', é um sistema
parcial. Mais uma vez r
epudiei - evidentemente
com mais energia que
motivos, visto que dever
ia andar rápido - a referê
ncia à totalidade, o que
não exclui que se fale de
parcial. Insisti, nesse siste
ma, sobre sua característc
a
extra-plana, na sua car
acterística de superfcie s
obre a qual Feud insiste
com toda frça, o tempo t
odo. Pode -se apenas fcar
surpreso que isso tenha
engendrado a metáfra d
a psicologa das profunde
zas. É inteiramente por
acaso que, há pouco,
antes de vir, tenha enco
ntrado uma nota que eu

hava tomado sobre O


Ego e o /d : "o eu é ante
s de tudo uma entidade
corporal, não somente u
ma entidade toda em sup
erfcie, mas uma entidade
correspondente à proje
ção de uma superfcie". É
um nadai Quando se lê
Freud, lê-se sempre de u
ma certa maneira que cha
marei de maneira surda.
Retomemos agora n
osso bastão de peregrino
[?], retomemos de onde
estamos , onde lhes deix
ei na última vez, a saber, n
a idéia de que a negação,
se ela está em algum lu
gar no centro de nosso pr
oblema, que é aquele do
sujeito, não é antes i
mediatamente, nada m
ais que tomá-la em sua

fenomenologia, a coisa
mais simples de manejar.
Está em muitos lugares,
e depois acontece todo te
mpo que ela escorrega ent
re nossos dedos. Vo cês
viram, por exemplo, d
a última vez, durante u
m instante a respeito do
, non nullus non menda
x, vocês me viram coloc
ar este non, retirá-lo, e
recolocá-lo. Isto se vê t
odos os dias. Aguém me
assinalou, no intervalo,
que nos discursos daq
uele que alguém num bil
hete, meu pobre e caro
amigo Merleau-Ponty, c
hamava "o grande home
m que nos governa", num
discurso que o dito gra
nde homem pronunciou,
escuta-se "não se pode
não crer que as coisas s
e passarão sem problema
s". Sobre isso, exegese:
o que ele quer dizer? O
interessante não é tanto
o que quer dizer, é que
evidentemente compre
endemos muito bem, just
amente, o que quer dizer
e, se analisarmos logca
mente, veremos que diz
o contrário. É uma bela
fórmula na qual se desli
za sem cessar para dizer
a alguém : "vocês não
... [vous n'
êtes pas sans ... ). Não são
vocês que estão errados,
é a relação do sujeito com
o signifcante que de temp
os em tempos emerge.
Não são simplesmente p
equenos paradoxos, lap
sos que aponto aí, de
passagem. Encontraremo
s essas fórmulas pelo ca
minho, e penso dar-lhes
a chave desse porque "v
ocês deixam de ignorar",
quer dizer, o que vocês

-134 -
Lição de 24 de ja neiro de 1962

querem dizer. Para que vocês se localzam af p


osso dizer-lhes que é sondando
º que encontraremos o justo peso, a justa i
nclinação dessa balança onde
coloco, diante de vocês, a relação do neuróti
co com o objeto fálico, quando
lhes digo, para agarrar essa relação, é nec
essário dizer: "ele não é sem
tê-lo". Isso evidentemente não quer dizer
que ele o tem. Se o tivesse,
não haveria questão.
Para chegar aí, partamos de um peque
no lembrete da fnomenologa
de nosso neurótico, concernente ao ponto
em que estamos: sua relação
com o significante. Há algum tempo com
eço a lhes fzer apreender o
que há de escrito no caso do signifcant
e, de escrito original. Deve,
mesmo assim, ter-lhes vindo à mente que
é essencialmente com isso
que o obsessivo tem a ver todo tempo: ung
eschehen machen, fzer com
que isso não tenha acontecido. O que i
sto quer dizer, a que isso se
refre? Evidentemente, isso se vê no seu
comportamento : o que ele
quer extinguir é o que o analista escreve
ao longo de sua história, o
annalista com dois n , o que ele tem em
si. São os anais do caso que
ele quer apagar, raspar, extinguir. Por qu
al viés nos atinge o discurso
de Lady Macbeth, quando ela diz que toda
a água do mar não apagaria
essa pequena mancha, se não fsse por
algum eco que nos guia ao
cerne de nosso assunto? Somente , veja
m, apagando o signifcante -
como está claro que é disso que se trata -
em sua maneira de fzer, em
sua maneira de apagar, em sua maneira
de raspar o que está inscrto,
o que está muito menos claro para nós , p
orque disso nós sabemos um
pouquinho mais que os outros, é o que el
e quer obter com isso.
É nisso que é instrutivo continuar nes
sa estrada em que estamos,
aonde lhes levo, no que se refre a como a
dvém um sigifcante enquanto
tal. Se isso tem uma tal relação com o fun
damento do sujeito, se não
há outro sujeito pensável além dessa alguma
coisa x de natural, enquanto
ela é marcada pelo signifcante, deve ain
da assim haver um princípio
motor para isso. Não nos contentaremos c
om essa espécie de verdade
de olhos vendados. Está bem claro que é
necessário que encontremos
o sujeito na origem do próprio sigifcant
e. "Para sair um coelho de
uma cartola ... ", fi assim que comecei a se
mear o escândalo nos meus
propósitos propriamente analíticos . O p
obre caro homem defnto, e
comovente em sua fagilidade, estava literal
mente exasperado com esse
lembrete que eu fzia com muita insistênc
ia porque, nesse momento,
são frmulas úteis - de que, para fzer sair
um coelho de uma cartola,

-135 -
A Identicação

era preciso tê-lo previa


mente colocado lá. De
ve ser do mesmo modo
,
no que concerne ao si
gnifcante, e é o que ju
stifca essa defnição qu
e
dou do signifcante, es
sa distinção fita com o
signo: é que, se o sigo

representa o sujeito p
ara um outro signifca
nte. Isso vocês o verã
o

frme corrimão. E se ele


representa assim o suje
ito, como é isso?
Voltemos ao nosso pont
o de partida, ao nosso s
igno, ao ponto eletivo
em que podemos tomá
-lo como representand
o algo para alguém, no
nível do rastro. Partamo
s outra vez do rastro par
a rastrear nosso pequen
o
problema. Um passo, um
rastro, o passo de Sexta-
fira na Ilha de Robinson :
emoção, o coração bate
ndo diante desse rastro.
Tudo isso não nos ensin
a
torno do rastro. Isso po
de acontecer a qualque
r cruzamento de rastro
s

se esfrçou para apaga


r o rastro, ou mesmo s
e não encontro mais o
rastro, desse esfrço, s
e retornei porque sei -
não fico mais orgulhos
o
para tanto - que deixei o
rastro, que eu acho que,
sem nenhum correlativo
que permita ligar esse
apagamento a um apag
amento geral dos traço
s
aí de que estou me de
parando com um sujei
to real. Observem que
,
nesse desaparecimento d
o rastro, o que o sujeito p
rocura fazer desaparecer
é sua passagem de suje
ito mesmo. O desaparec
imento é redobrado pelo
desaparecimento visado
que é o do ato, o próprio
ato de fzer desaparecer.
Isso não é um mau traço
para que aí reconheçamo
s a passagem do sujeito,
quando se trata de sua
relação com o signifca
nte, na medida em que
vocês já sabem que tud
o o que ensino da estru
tura do sujeito, tal como
tentamos articular a pa
rtir dessa relação com
o signifcante, converge
para a emergência dess
es momentos de fa ding
propriamente ligados a
essa batida em eclipse
do que só aparece para
desaparecer e reaparec
e
para de novo desapare
cer, que é a marca do s
ujeito como tal.
Dito isto, se o rastro é a
pagado, o sujeito cerca
o lugar por um cerne,
algo que desde então l
he concerne, ele, a ref
erência a partir do luga
r
onde ele encontrou o ra
stro, vocês têm aí o na
scimento do signifcante
.
sobre o primeiro, que nã
o poderia haver aí articu
lação de um significante

-136 -
Lição de 24 de janeiro de 1962

dois outros antes. Um signifcante é uma


marca, um rastro, uma escrita,
mas não se pode lê-lo só. Dois signifc
antes é um qüiproquó, juntar
alhos com bugalhos. Tr ês significantes
é o retorno daquilo de que se
trata, isto é, do primeiro. É quando o passo m
arcado no rastro é transformado,
no vocalise de quem o lê, em pas [não], q
ue esse passo, na condição de
que se esqueça que ele quer dizer o pass
o pode servir inicialmente, no
que se chama de fnetismo da escrita, par
a representar pas e, ao mesmo
tempo, para transformar o rastro de passo [
la trace de pas] eventualmente
em nenhum rastro [pas de trace].
Penso que vocês escutam de passagem a
mesma ambigüidade da
me servi quando falei, a respeito da ausência
do chiste, do pas de sens
de sentido, jogando com a ambigüidad
e da palavra sentido com esse
salto, essa ultrapassagem que nos surp
reende ali onde nasce o riso,
quando não sabemos por que uma palavr
a nos fa; nr; essa transformação
sutil, essa pedra rejeitada que, por ser reto
mada, torna-se a pedra angular,
e farei de bom grado o jogo da fórmula do cí
e palavras com o m rculo,
tanto mais que é nela - anunciei isso
outro dia, introduzindo a �
que veremos que se mede, se posso diz
er, o ângulo vetorial do sujeito
em relação ao fo da cadeia significante.
É aí que estamos suspensos e
é aí que devemos nos habituar um pouco a
nos deslocar, numa substituição
por onde o que tem um sentido se transf
rma em equívoco e reencontra
seu sentido. Essa articulação constantemen
te gratória do jogo da linguagem,
é em suas próprias síncopes que temos
de localizar o sujeito, nas suas
diversas funções.
As ilustrações nunca são ruins para ad
aptar uma ótica mental, em
que o imaginário desempenha um grande
papel. É por isso que, mesmo
sendo um rodeio, não acho ruim traçar
rapidamente para vocês uma
pequena observação, simplesmente po
rque a encontro, a essa altura,
em minhas notas. Falei mais de uma v
ez a propósito do significante,
dos caracteres chineses, e me empenho
muito em lhes desencantar da
idéia de que sua origem é uma figura i
mitativa. Hâ um exemplo disso,
que tomei somente porque era o que mel
hor me servia : tomei o primeiro
daqueles articulados nesses exemplos,
essas formas arcaicas na obra
de Karl en que se chama Grammata seric
a, o que quer dizer exatamente
os significantes chineses. O primeiro do qu
al se serve sob sua moderna
que é uma obra de erudito, ao mesmo te
mpo preciosa para nós pelo seu

-137 -
A Identicação

caráter relativamente atig


o, mas que já é muito eru
dito, isto é, emaahado
de interpretações sobre
as quais podemos ter qu
e retomar. Parece que
não é sem razão que pod
emos confar na raiz que
o comentador nos dá,
que é bem bonita, a sa
ber, que se trata de um
a esquematização do
choque da coluna de ar t
al como ela vem a impeli
r, na oclusiva gutural,
contra o obstáculo que lhe
opõe a parte posterior da l
íngua contra o palato.
Isto é tanto mais sedutor qu
e, se vocês abrem uma obr
a de fonética, encontraão
uma imagem que é qua
se aquela - para traduzi
r o funcionamento da
oclusiva. E confessem qu
e não fca mal que seja í
o que é escolhido para
representar a palavra pod
er, a possibilidade, a funç
ão axial introduzida no
mundo pelo advento do s
ujeito ao belo meio do re
al.
A ambigüidade é total,
pois um grande número d
e palavras se articulam
kê em chinês , nas quais
isto ' nos servirá de fonét
ica, com o acréscimo
t [kou]. que as complet
a, como presentificando
o sujeito na armadura
si gnifcante, e isto, t [k
ou], sem ambigüidade e e
m todos os caracteres ,
é a representação da b
oca. Coloquem esse si
gno - [da ] acima, é o

Te m manifestamente alg
uma relação
com a pequena frma hu
mana ,, em geral despro
vida de braços. Aqui,
como é de um grande q
ue se trata, há braços. I
sto, i nada tem a ver
com o que se passa qua
ndo vocês acrescentare
m esse signo, Á, com o

De agora em diante isto s


e lêji, mas conserva
a marca de uma pronúnc
ia antiga, da qual temos
provas graças ao uso
desse termo na rima de a
ntigas poesias, principal
mente aquelas do Chi
King que é um dos exem
plos mais fabulosos das
desventuras literárias,
uma vez que ele teve o de
stino de se tornar o suport
e de todas as espécies
de clucuhrações moraliz
antes, de ser a hase de
todo um ensino muito
enrolado dos mandarins
sobre os deveres do sob
erano , do povo e do
tutti quanti, ainda que
se trate principalmente d
e canções de amor de
origem camponesa. U
m pouco de prática da l
iteratura chinesa - não
procuro fazê-los crer que
tenho grande prática, nã
o me tomo por Wieger

, - trata-se de um
parágrafo que vocês po
derão encontrar nos liv
ros do pa Wieger, ao
alcance de todos. O que
quer que seja, outros al
ém dele esclareceram
esse caminho, principa
lmente Marcel Granet,
que, afnal, vocês não
perdem nada em abrir s
eu belo livro sobre as da
nças e lendas e sobre

-138 -
Lição de 24 de janeiró de 1962

as festas antigas da China. Com um pou


co de esforço, vocês podem se
familiarizar com essa dimensão verdadei
ramente fabulosa que aparece
do que se pode fazer com algo que repou
sa nas frmas mais elementares
da articulação signifcante. Por sorte,
nessa língua as palavras são
monossílabas. Elas são soberbas, invari
áveis, cúbicas, não dá para se
enganar. Elas identificam-se com o sig
nifcante, é o caso de dizê-lo.
A situação é simples. Se vocês as virem
e pensarem que daí tudo pode
sair, mesmo uma doutrina metasica q
ue não tem nenhuma relação
com a signifcação original, isso começaá,
para aqueles que não chegaram
lá ainda, abrindo a sua me nte. Entrela
nto é assim; durante séculos
ensinou-se a moral e a política com estribi
lhos que significam no conjunto

Isso, i,
naturalmente, não tem absolutaente nenhu
ma relação com essa conjunção.
g

para a qual em francês não há realmen


te algo que nos satisfaça; sou
pode tomar de deslizamento, de erro, de fa l
ha, de coisa que não acontece,

como eu dizia há pouco, é o que me l


ançou para o Chou-King . Por
causa do Chou- King , sabemos que estava
muito aproximado do kê, pelo
estão ai, um signo, *l que designa a

cadeira. lsLo se diz yi, e assim

aqui, no lugar do signo da árvore , o sig


no de cavalo ,J [m d), isto quer
dizer instalar-se escachado ,J .
Esse pequeno rodeio, eu o considero, t
em sua utilidade para lhes
fa zer ver que a relação da letra com a lingua
gem não é algo a ser considerado
para destacar daí uma forma abstrata. N
ão há nada que pareça com o

-139 -
A Ientiicação

conceito, nem mesmo


apenas da generalizaç
ão. Há uma seqüência
de
aternâncias em que o s
ignifcante volta a bater
a água, se posso dizer,
do fuxo pelas palhetas d
e seu moinho, sua roda l
evantando, a cada vez ,
algo que jorra para de n
ovo recair, enriquecer-
se, complicar-se, sem q
ue
nunca possamos, em nen
hum momento, apreende
r o que domina; a partida
concreta ou o equívoco.
Eis o que vai nos levar
ao ponto de hoje, com
o passo que lhes farei
dar, uma grande parte i
lusões que nos param
de uma vez, aderência
s
imagnárias, nas quais
pouco importa que tod
o mundo fique aí mais
ou menos com as patas
presas como moscas, m
as não os analistas, são

lógca formal é uma ciê


ncia muito útil, como t
entei apontar a idéia d
a

nisso que, uma vez qu


e ela é a lógica for mal,
deveria lhes interditar,
a
todo instante, de lhe d
ar o menor sentido. É,
natural mente, aquilo a
que se chegou com o te
mpo. Mas os im portante
s, os bravos, os honesto
s
causa, asseguro, um
mal danado, porque nã
o é fácil de construir u
ma

de lógca formal, só se ap
oiando estritamente no si
g ifcante, se interditando
toda relação e, portant
o, todo apoio intuitivo
no que pode se insurgi
r
do significado, no caso
em que fazemos erros.
Em geral, é nisso que
nós nos referenciamos
, raciocino mal, porque
, nesse caso, resultaria
qualquer coisa: minha
avó de cabeça pra baix
o. O que é que isto pod
e
nos fzer? Em geral nã
o é com isto que nós
somos guiados, porqu
e
somos muito intuitivos.
Se faz-se lógica formal,
só se pode sê-lo.
Ora, o divertido é que o li
vro de base de uma ló gc
a simbólica encerrando
todas as necessidades d
a criação matemática, os
Principia Mathematica
de Bertrand Russel e W
hitehead, chega a algo q
ue está bem perto de se
r
a fnalidade, a sanção
de uma lógica simbólic
a digna desse nome, d
e
encerrar todas as neces
sidades da criação mate
mática, mas os próprios
autores bem perto se d
etêm considerando co
mo uma contradição d
e
natureza a questionar t
oda a lógica matemátic
a, esse paradoxo dito d
e
Bertrand Russel. Trata-
se de algo cujo viés ati
nge o valor da teoria dit
a
dos conjuntos. Em que
se distingue um conjun
to de uma defnição de
classe, a coisa é deixad
a numa relativa ambigui
dade, uma vez que o qu
e

. 140-
Lição de 24 de janeiro de 1962

vou lhes dizer - e que é admitido por qualq


uer matemático - é, a saber,
que o que distingue um conjunto dessa
frma da defnição do que se
chama uma classe não é nada além de qu
e o conjunto será defnido por
fórmulas que se chamam de axiomas, que s
erão colocadas no quadro em
súnbolos reduzdos a letras às quais se juntam
alguns sigifcates suplementares
indicando relações. Não há absolutamente
nenhuma outra especifcação
dessa lógica dita simbólica com relação à l
ógica tradicional, senão essa
redução a letras. Garanto-lhes, podem crer
, sem que eu tenha mais que
me engajar em exemplos.
Por tanto, qual é a virtude, que está forço
samente em algum lugar,
para que seja em razão dessa única dif
erença que se tenha podido
desenvolver um montão de conseqüênci
as, as quais asseguro que a
incidência no desenvolvimento de algo q
ue se chama de matemática
não é escassa, em relação ao aparelho de
que se dispôs durante séculos
e cujo cumprimento que lhe fi feito, que
não tenha evoluído en tre
Aristoteles e Kant, se inverte' Está bem,
se apesar de tudo as coisas
começam a fu gir como têm fe ito -- pois os Pri
ncipia Matlicmalica constitui
dois enormes volumes e só têm um in teress
e muito escasso - mas enfim,
se o cumprimento se inverte é que o aparel
ho outrora, por alguma razão,
encontrava-se singularmente estagnado.
Então, a partir daí, como os
autores chegam a se espantar com o que se
chama de paradoxo de Russel?
O paradoxo de Russel é o seguin te: fala-
se do conjunto de todos os
conjuntos que não se compreendem a ele
s mesmos. É preciso que eu
esclareça um pouco essa história que pode p
arecer, à primeira vista, árida.
Indico-lhes isso imediatamente. Se despert
o-lhes o in teresse para isso,
pelo menos é o que espero, é com este objet
ivo: de que há a mais estrei ta
não apenas homonímica, justame
nte, porque trata-se de sigicante
e, em conseqüência, trata-se de não com
preender - com a posição do
sujeito analítico enquanto, com ele também,
num outro sentido da palavra
... e, se digo de não compreender
é para que possam compreender
de todas as maneiras que ele também não
se compreende a ele mesmo.
Passar por ai não é inútil, vão ver, pois va
mos por essa estrada poder
criticar a função de nosso objeto. Mas paremo
s um instante nesses conjuntos
que não se compreendem a eles mesmos.
Evidentemente, para conceber o que está e
m questão, é preciso partir ...
uma vez que, apesar de tudo não podem
os na comunicação, não nos
fzer concessões de referências intuitivas, p
orque as refrências intuitivas

-141-
A Identiicação

vocês já têm. É precis


o, portanto, desarrumá-
las para colocar outras.
Como vocês têm a idéi
a de que há uma classe,
e como há uma classe
mamífera, é preciso, me
smo assim, que eu tente i
ndicar que é necessário
referir-se a outra coisa.
Quando se entra na cate
goria dos conjuntos, é
preciso referir a classifi
cação bibliográfica, cara
a alguns, classifcação
composta de decimais
ou outra; porém, quando
se tem algo de escrito,
é preciso que isso se
arrume em algum lugar.
É preciso saber como
encontrá-lo automatic
amente. Então, tomem
os um conjunto que se
compreende a ele m
esmo. To memos, por
exemplo, o estudo das

humanidades numa clas


sifcação bibliogáfca. Está
claro que será necessário
colocar no interior os tr
abalhos dos humanistas
sobre as humanidades.
O conjunto do estudo
das humanidades deve
compreender todos os
trabalhos concernentes
ao estudo das humanida
des enquanto tal. Mas
consideremos agora os c
onjuntos que não se com p
reendem a eles mesmos:
isto não é menos conce
bível, é mesmo o caso m
ais comum. E, uma vez
que somos teóricos do
s conjuntos e que já há
uma classe do conjunto
dos conjuntos que se co
mpreendem a eles mesmo
s, não há verdadeiramente

nenhuma objeção a que


façamos a classe oposta
- emprego classe, aqui,
porque é bem aí que a
ambigüidade vai residir -
a classe dos conjuntos
que não se compreende
m a eles mesmos, o conju
nto de todos os conjuntos
que não se compreende
m a eles mesmos. E é ai
que os lógicos começam
a quebrar a cabeça, a s
aber, que eles dizem a si
mesmos: esse conjunto
· de todos os conjuntos
que não se compreende
m a eles mesmos, será
que ele se compreende
a ele mesmo ou será que
ele não se compreende?
Num caso como no o
utro ele vai cair na cont
radição. Pois se, como
parece, ele compreen
de a ele mesmo eis-nos
em contradição com o
princípio que nos dizia qu
e se tratava de conjuntos q
ue não se compreendem
a eles mesmos. Por outr
o lado, se ele não se com
preende, como excetuá
lo justamente do que dá
essa defnição, a saber, qu
e ele não se compreende
a ele mesmo? Isso po
de parecer bastante inf
antil, mas o fto de que
isso toca a ponto de par
ar os lógicos, que não sã
o precisamente pessoas
de uma natureza que pá
ra diante de uma vã difcu
ldade, e se eles sentem
Ii algo que podem chn
mar de contradiçãa, col
ocando em c.ausa todo
seu edifcio, é exatame
nte porque hâ algo que d
eve ser resolvido e que
concerne - se quisere
m me escutar, a nada al
ém disso - que concerne

à única coisa que os ló


gicos em questão não tê
m exatamente em vista,
a saber, que a letra da q
ual eles se servem é algo
que tem, em si mesmo,

- 142 -
Lição de 24 de janeiro de 1962

poderes, um princípio motor ao qual eles


não parecem absolutamente
acostumados.
Pois - se ilustrarmos isso na aplicação do
que dissemos, que não se
trata de nada mais do que do uso sistemát
ico de uma letra - ao reduzir,
ao reservar à letra sua fu nção signifcante
para fzer recair sobre ela e
unicamente sobre ela todo o edifcio lógico,
chegamos a esse algo muito
simples, que é totalmente e simplesment
e que isto retorna ao que se
passa quando encarregamos a letra A, por
exemplo, se nos colocamos a
especular sobre o alfbeto, de representar
como letra A todas as outras
letras do alfabeto. Das duas coisas uma: o
u as outras letras do alfbeto,
enumerando-as de R a Z, em que a letra A as
representará sem ambigüidade
sem, entretanto, compreender a si mesma;
mais está claro do outro lado
que, representando essas letras do alfb
eto, enquanto letra ela vem
naturalmente - eu não diria mesmo enri
quecer, mas - completar, no
lugar de onde a tiramos, excluímos, a séri
e das letras e simplesmente
nisto que, se partimos disso : que A - est
á aí nosso ponto de partida
concernente à identifcação - essencialment
e não é A, não há ai nenhuma
difculdade: a letra A, no interior do parêntes
e onde são orientadas todas
as letras que ela vem simbolicamente subsu
mir, não é o mesmo A e é, ao
mesmo tempo, o mesmo. Não há aí nenh
uma espécie de difculdade.
Não deveria haver nenhuma, tanto menos
que os que vêm alguma são
justamente aqueles que inventaram a noç
ão de conjunto para fzer fce
às defciências da noção de classe, e, por
conseqüência, desconfando
de que deve haver outra coisa na fnção do
conjunto além do que há na
fu nção da classe.
Mas isso nos interessa, pois o que iss
o quer dizer? Como indiquei
ontem à noite, o objeto metonímico do d
esejo, esse que, em todo os
objetos, representa esse objeto a eletivo, on
de o sujeito se perde, quando
esse objeto emerge de uma maneira met
africa, quando chegamos a
substituí-lo ao sujeito que, na demanda, cheg
a a se sincopar, a desaparecer,
ausência do rastro, $ barrado, nós revelamo
s o signifcante desse sujeito,
damos-lhe seu nome: o bom objeto, o seio d
a mãe, a mama. Eis a metáfra
na qual, digamos, estão presas todas as i
dentificações articuladas da
demanda do sueito. Sua demanda é oral, é
o seio da mãe que as prende
no seu parêntese. É o a que dá seu valor a t
odas essas unidades que vão

-143 -
A Identicação

mama, com a função qu


e ela toma na definição,
por exemplo, da classe
mamífera. O mamífero
é reconhecido porque t
em mamas. Entre nós,
é
bastante estranho que s
ejamos tão pouco inform
ados sobre o que se faz
com isso eftivamente, e
m cada espécie. A etol
ogia dos mamíferos est
á
ainda arrastando-se rude
mente, uma vez que esta
mos, nesse assunto, com
o
na lógca formal, quase n
ão além do nível de Arist
óteles, excelente, a obra
A História dos Animais.
Mas, para nós será que
é isso que quer dizer o
sigifcante 'mama', na
medida em que ele é o
objeto em torno do qua
l
substantifcamos o sujeit
o num certo tipo de relaç
ões ditas pré-genitais?
Está bem claro que faz
emos disso um uso co
mpletamente diferente,
bem mais próximo da
manipulação da letra E
no nosso paradoxo dos
conjuntos e, para mos
trá-lo, lhes farei ver o
seguinte: a ( 1 + 1 + 1) é
que, entre esses um da de
manda do qual revelamo
s a sigifcância concreta,
há ou não o próprio sei
o? Em outros termos, q
uando flamos de fixaçã
o
oral, o seio latente, o at
ual, aquele após o qual
o seu sujeito faz "ah 1
ah l ahl ", é mamário? É
bem evidente que não o
é, porque os seus orais
que adoram os seios, a
doram os seios porque
esses seios são um flo.
E
é mesmo por isso, por
que é possível que o s
eio seja também falo q
ue
Melanie Klein o fz apa
recer imediatamente t
ão rápido como o seio
,
desde o início, dizendo-
nos que, afnal, é um pe
queno seio mais cômod
o,
mais portátil, mais delica
do. Vocês vêem bem que
colocar essas distinções
estruturais pode nos l
evar a algum lugar, na
medida em que o seio
recalcado reemerge, s
e sobressai no sintoma
, ou simplesmente num
lance que não qualifc
amos de outra forma:
a fnção sobre a escal
a
perversa, a produzir es
sa outra coisa que é a
evocação do objeto flo.
A
coisa se inscreve assim :
g seio (a)

seio

O que é o a? Coloque
mos no seu lugar a pe
quena bola de pingue
pongue, isto é, nada, o
que quer que seja, qual
quer suporte do jogo de
alterância do sujeito no f
ort-da. Aí vocês vêem que
não se trata estrtamente
de nada além e que, atra
passagem do vés disso
de a+ a a-
vemos, na relação de i
dentificação - uma vez
que sabemos que niss
o
que o sujeito assimila,
é ele, na sua frustraçã
o, nós sabemos que a
relação do g com esse ,
1/A - ele, 1,

-144 -
Lição de 24 de janeiro de 1962

do Outro como tal - tem a maior relação


com a realização da alternância
a x -a, este produto de a por -a que frma
lmente fz -a
Saberemos por que uma negação é irred
utível. Quando há afirmação
e negação, a afrmação da negação fz uma
negação; a negação da afrmação
também. Vemos aí apontar, nessa própria
fórmula do -a , reencontramos
a necessidade de colocar em causa, na
raiz desse produto, a .-1. Trata
se não simplesmente da presença, nem
da ausência do pequeno a, mas
da conjunção dos dois, do corte. É da disj
unção do a e do -a que se trata,
e é aí que o sujeito vem se alojar como tal
, que a identifcação tem que se
fzer, com esse algo que é o objeto do dese
jo. É por isso que o ponto a que
os levei hoje é uma articulação que nos s
ervirá daqui por diante.
-145 -
LIÇAO X
21 de fe vereiro de 1962

Terminei, na última vez,


com a apreensão de um
paradoxo concernente
aos modos de aparecim
ento do objeto. Essa te
mática, partindo do obje
to
enquanto metonímico, s
e interrogava sobre o qu
e fzíamos quando fzíam
os
aparecer esse objeto
metonímico, como fato
r comum dessa linha di
ta
do signifcante, cujo lug
ar eu designei como nu
merador na gande façã
o
fazíamos aparecer com
o significante, quando d
esignávamos esse objet
o

gênero do objeto, e par


a lhes fazer apreendê-
lo, eu lhes mostrei o qu
e
há de novo, trazido à lóg
ca pela maneira como é
empregado o signifcante
em matemática, na teo
ria dos conjuntos. Man
eira que é impensável
se
não colocamos, ali, n
um primeiro plano, co
mo constitutivo, o fmo
so
paradoxo, dito parado
xo de Russel, para faz
ê-los apreender de on
de
parti, a saber, enquanto t
al o sigificante, não som
ente, não está submetid
o
à lei das contradições,
mas é propriamente fla
ndo seu suporte, a sab
er,
que A é utiliz,1vcl. enq
uanto significante, na m
edida que A não é A. D
e
onde resultava que o obje
to da pulsão oral , conside
rado como seio primordial,
a propósito dessa mama
genérica da objetalizaçã
o psicanalítica, a questã
o
podia se colocar: o sei
o real, nessas condiçõ
es, é mamário? Eu dizi
a
não, como é bem evid
ente, visto que, na me
dida em que o seio se

encontra no erótico or
al, erotizado, é na me
dida em que ele é um
a
alguém, após a aula ve
io, aproximando-se de
mim, dizer-me: "Nessa
s

-147 -
A Identiicação

O que é preciso dize


r é que, enquanto é o si
gnifcante flo que vem
como ftor revelador do s
entido da fnção signifca
nte num certo estado,
é na medida em que o fal
o vem no mesmo lugar, so
bre a função simbólica
onde estava o seio, é n
a medida em que o suj
eito se constitui como
fá lico, que o pênis, que
está no interior do parên
tese do conjunto dos
objetos que chegaram p
ara o sujeito no estado fli
co, que tanto o pênis,
podemos dizer, não é m
ais flico quanto o seio nã
o é mamário, mas que
as coisas se colocam mui
to mais gravemente ness
e nível, a saber, que o
pênis, parte do corpo real,
cai sob o corte dessa ame
aça que se chama de
castração. É em razão
da f.1 ,i;ão signifcante d
o flo, como tal, que o
pênis real cai sob o golp
e do que fi de início apre
endido na experiência
analítica como ameaça,
a saber, a ameaça da ca
stração. Eis, então, o
caminho pelo qual os co
nduzo. Eu lhes mostro a
qui o objetivo e o que
vsamos. Trata-se agora de
percorê-la, passo a passo,
dito de outra maneira,
de chegar ao que, desde
o início deste ano, eu pre
paro e abordo pouco a
pouco, a saber, a fu nçã
o privlegiada do falo na i
dentifcação do sujeito.
Entendemos que em tu
do isso, a saber, que nc
sle ano, falamos ea
identifcação e, a saber,
que a partir de um cert
o momento da obra
feudiana, a questão da id
entifcação vem ao primeir
o plano , vem dominar,
vem remanejar toda a te
oria fr eudiana. É na me
dida em que - quase
coramos de ter que dizê
-lo - que a partir de um
certo momento, para
nós depois de Freud, pa
ra Feud antes de nós, a
questão do sujeito se
coloca como tal, a saber
, o que é que .. . o que e
stá ali? O que é que
fnciona ? Quem é quem fl
a? O que são muilas cois
as ainda, e é enquanto
era preciso, todavia, esp
erar por isso, numa técni
ca que é uma técnica
grosseira de comunicaç
ão, de endereçamento d
e um ao outro e, para
resumir, de relação, er
a preciso igualmente, s
aber bem quem é que
fla, e a quem? É realme
nte por isso que, neste a
no, utilizamos a lógica.
Não dá para evitar. Não s
e trata de saber se isso m
e agrada ou desagrada.
Isso não me desagrada. I
sso pode não desagradar
a outros, mas o que é
certo é que é inevitável.
Trata-se de saber a qual
lógica isso nos leva.
Vo cês puderam ver rea
lmente, já lhes mostrei -
eu me esfrço por ser
tão curto-circuitante qu
anto possível, e lhes as
seguro que não estou
enrolando - onde nos sit
uamos em rlação à lógca
fral, e que certamente
não estamos nisso sem t
er nossa palavra para diz
er.
Eu lhes lembro o pequc
1'. D ,-1 .i,1,l rante que con
struí para todos os fins

-148 -
Lição de 21 de fe vereiro de 1962

a ele, ao menos isso, em razão do ritmo qu


e somos frçados a manter
para chegar, neste ano, ao nosso objetivo, n
ão deve permanecer ainda
durante alguns meses ou anos, uma pro
posição suspensa para a
engenhosidade daqueles que se esforçam p
ara voltar sobre o que lhes
ensino. Mas., seguramente, não se trata se
não da lógica frmal. Tra ta
se, e é do que se chama desde Kant, quer
o dizer, de uma forma bem
constituída desde Kant, uma lógica transce
ndental, em outros termos,
a lógca do conceito? Seguramente não. É me
smo bastante surpreendente
ver a que ponto a noção do conceito está a
usente, aparentemente, do
fncionamento de nossas categorias. O que faze
mos - não vale absolutamente
a pena nos esforçarmos demais por hora, para
dar sobre isso uma defnição
mais precisa - é uma lógica da qual, de iníci
o, alguns dizem que tentei
constituir um tipo de lógica elástica. Mas, e
nfim, isso não é suficiente
para constituir alguma coisa reconfortante par
a o espírito. Fa zemos uma
lógca do fncionamento do sigifcante, pois, se
m essa refrência constituída
como primária, fu ndamental, da relação do
sujeito com o significante,
o que eu adianto, é que ele é, propriamente f
alando, impensável, mesmo
que se venha situar onde está o erro, onde s
e engajou progressivamente
toda a análise e que se prende precisame
nte a isso, que ela não fez
essa crítica da lógica transcendental no sen
tido kantiano, que os fa tos
novos que ela traz impõem estritamente. A
qui - vou fzer a confdência,
que não tem em si uma importância históric
a, mas que acredito poder
ao menos lhes comunicar a título de estím
ulo - isto me levou durante
pouco ou muito tempo, durante o qual eu esti
ve separado de vocês e de
nossos encontros semanais, me levou a re
colocar o nariz, não como
tinha feito há dois anos, na Crítica da Raz
ão Prática, mas , na Crítica
da Razão Pura.
O acaso tendo feito com que eu não tivess
e trazido, por esquecimento,
a não ser o meu exemplar em alemão, nã
o fz a releitura completa,
mas somente a do capítulo dito d'A Introdução
à Análise Tr anscendental,
e embora deplorando que alguns dez anos d
esde os quais eu me dirijo
a vocês, não tenham tido, creio, muito efeito
na propagação entre vocês
do estudo do alemão, o que não deixa de m
e causar sempre admiração
- é um desses pequenos fatos que obriga
m algumas vezes a refletir
minha própria imagem como aquela dess
e personagem de um filme
surrealista bem conhecido que se chama L
e chien andalou, imagem
que é aquela de um homem que, com a aju
da de duas cordas, carrega

-149 -
A Identicação

atrás dele um piano, sob


re o qual repousam , se
m alusão , dois burros
mortos ... salvo que , ao
menos todos aqueles qu
e já saibam o alemão,
não hesitem em reler o
capítulo que lhes indico
da Critica da Razão
Pura . Isso os ajudará segu
ramente, a melhor centrar
a espécie de reviravolta
que tento articular para v
ocês, este ano. Creio pod
er muito simplesmente
lembrar que a essência
prende-se de maneira r
adicalmente difrente,
descentrada, que tento l
hes fazer apreender um
a noção que é aquela
que domina toda a estru
turação das categorias
em Kant. É nisso que
ele só fz colocar o pon
to purifcado, o ponto fe
chado, o ponto fnal
naquilo que dominou o
pensamento flosófco, at
é que este, de alguma
maneira, af alcance a fu
nção de Ein heit , que é o
fu ndamento de toda
síntese a priori, como el
e se exprime, e que par
ece muito, com efeito,
se impor, desde o tempo
de sua progressão a partir
da mitologa platônica,
como a via necessária: o
Um, o gande Um que dom
ina todo o pensamento,
de Platão a Kant, o Um
que, para Kant, enquant
o função sintética, é o
próprio modelo do que
em toda categoria a prio
ri traz consigo , disse
ele, a função de uma no
rma, entendam bem, de
uma regra universal.
Bem, digamos, para acre
scentar seu ponto sensív
el a isso que , desde o
início deste ano , eu art
iculo para vocês, que s
e é verdadeiro que a
função do um na identifc
ação, tal que a estrutura
a decompõe, a análise
da experiência feudian
a, é aquela, não do Ein
heit, mas aquela que
tentei fazer vocês sentir
em concretamente desd
e o início do ano, como
o acento original do qu
e tenho chamado de tr
aço unário, isso quer

junta, sobre o qual, em su


ma, desemboca
num nível de intuição su
mária toda a formalizaçã
o lógica; não o círculo,

esse traço,
essa coisa insituável, es
sa aporia para o pensam
ento que consiste em
que, justamente, nisso el
e é tanto mais apurado,
simplifcado, reduzido
a qualquer coisa. Com s
ufciente enfraqueciment
o de seus apêndices,
ele pode terminar reduzi
ndo-se a isso: um 1. O q
ue há de essencial, e
faz a originalidade diss
o, da existência de um t
raço unário e de sua
função, e de sua introdu
ção , por onde? É justa
mente o que deixo em
suspenso, pois não é tã
o claro que isso seja pel
o homem, se é, por um
certo lado, possível, pro
vável, cm todo o caso, p
osto em questão por
nós que é de lá que o ho
mem tem saído. Então, e
sse um, seu paradoxo
é just ament e isso: é qu
e tanto mais se assemelh
a, quero dizer, quanto
mais a diversidade das s
emelhanças se apaga, qu
anto mais ele suporta,

-150 -
Lição de 21 de fe veréiro de 1962

mais um-carna [un-carne] - direi se vocês


me passam esta palavra - a
difrença como tal. A reviravolta da posiç
ão em torno do Um fz com
que, da Einheit kantana, consideramos que n
ós passaos paa a Einzigkeit,
a unicidade expressa como tal. Se é por a
í, se posso dizer que tenho -

uma improvisação literária de Picasso -


se é por aí que escolhi, este

pelo rabo, se é por aí, quer dizer, não mais a


primeira frma de identifcação
defnida por Freud, que não é fácil manej
ar, aquela da Einverleibung,
a da consumação do inimigo, do adversári
o, do pai, se parti da segunda
fo rma da identificação, a saber, dessa
função do traço unário, é
evidentemente neste objetivo. Mas vocês
vejam onde está a revravolta,
é que essa fu nção, - creio que é o melh
or termo que nós tenhamos
para tomar porque é o mais abstrato, é
o mais maleável, é o mais,
propriamente falando, signifcante -, é si
mplesmente um F maiúsculo.
Se a fu nção que damos ao um não é mais
aquela da Einheit, mas a da
Einzigkeit, é que passamos - o que conviria co
ntudo que não esquecêssemos,
que é a novidade da análise - passamos das
virtudes da norma às virtudes
da exceção. Coisas que vocês retiveram,
mesmo um pouquinho e com
razão; a tensão do pensamento, a gente
se vira com isso, dizendo: a
exceção confrma a rega. Como muitas best
eiras, é uma besteira profnda,
basta, simplesmente, saber desmontá-la.
Se tivesse só retomado essa
besteira totalmente luminosa como um d
esses pequenos fróis que se
vêm em cima dos carros da polícia, isso já
seria um pequeno ganho no
verão, sobretudo se alguns dentre vocês .
.. talvez alguns pudessem ir

frma como seria necessário repontuar a ana


lítica kantiana. Vocês pensem
bem que há esboços de tudo isso; quando
Kant distingue o julgamento
universal e o julgamento particular e qu
ando ele isola o julgamento
singular, mostrando nisso as afnidades
profndas com o julgamento
universal, quero dizer, isso que todo mun
do se apercebeu antes dele,
mas mostrando que não basta juntá-los,
enquanto que o julgamento
singular tem exatamente sua independênc
ia, existe aí como uma pedra
de espera, o esboço dessa reviravolta d
a qual lhes flo. Isso só é um
exemplo. Há muitas outras coisas que esbo
çam essa reviravolta em Kant.
O que é curioso é que não se tenha fito i
sso antes.

-151 -
A Identicação

É evidente que isto ao


qual eu fzia alusão, de
passagem, diante de
vocês, quando da penúlt
ima vez, a saber, o lado
que escandalizava tanto
o senhor Jespersen, lin
güista, o que prova que
os lingüistas não são d
e
modo algum providos d
e nenhuma infalibilidad
e - a saber, que haveri
a
algum paradoxo àquio qu
e Kant coloca, a negação
na rubrca das categorias
designando as qualidad
es, a saber, como segun
do tempo, pode-se dizer
,
das categorias da quali
dade, a primeira sendo
a realidade, a segunda
sendo a negação e a terc
eira sendo a limitação. E
sta coisa que surpreende
,
a qual nos surpreende
que surpreenda muito
esse lingüista, a saber,
Mr. Jerpensen, nesse lo
ngo trabalho sobre a ne
gação que ele publicou
nos Anais da Academia
Dinamarquesa. Estamo
s tanto mais surpresos
que esse longo artigo s
obre a negação seja jus
tamente fito, em resum
o,
do começo ao fm, para
nos mostrar que, linguí
sticamente, a negação
é
alguma coisa que só se s
ustenta, se posso dizer, p
or uma supervalorização.
Não é então uma coisa t
ão simples como coloca
r a rubrica da quantidad
e
onde ela se confndiria pu
ra e simplesmente com o
que ela é na quantidade ,
isto é, o zero. Mas, justa
mente, sobre isso eu já
tenho indicado bastante
.
Àqueles a quem isso in
teress: dou a referênci
a, o grande trabalho de
Jespersen é verdadeira
mente alguma coisa de
considerável.
Mas, se vocês abrirem o
Dicionário de etimologi
a latina de Ernout e
Meillet, refrindo-se simp
lesmente ao artigo ne, p
ercebem a complexidade
histórca do problema do
fncionamento da negaç
ão, isto é, essa profnda
ambigüidade que faz co
m que, depois de ter si
do essa função primitiv
a
de discordância, sobr
e a qual tenho insistid
o, no mesmo tempo q
ue
sobre sua natureza ori
ginal, é preciso sempre
que ela se apóie sobre
alguma coisa que é just
amente essa natureza
do um, tal qual tentamo
s
cercá-lo aqui, de perto;
que a negação nunca
é lingüisticamente um
zero, mas um não um.
No ponto que o sed no
m latim, por exemplo,
para ilustrar o que voc
ês podem encontrar n
essa obra publicada n
a
Academia dinamarque
sa durante a guerra de
1914 e, por isso, muito
difcil de encontrar, o
próprio não latino, qu
e parece ser a frma d
e
negação a mais simples
do mundo, já é um ne oi
non, na frma de unum.
Já é um não um e, no fi
nal de um certo tempo,
esquece que é um não
um e se coloca ainda u
m um na seqüência. E to
da a história da negaçã
o
é a história desta consum
ação por alguma coisa qu
e está onde? É justament
e
o que tentamos cercar:
a função do sujeito co
mo tal. É por isso que a
s
observações de Pichon
são muito interessantes
, que nos mostram que

-152-
Lição de 21 de fe vereiro de 1962

em fancês é bem visível o jogo dos dois elem


entos da negação, a relação
dada do ne com o pas, podendo-se dizer qu
e o francês, com efito, tem
esse privilégio que, aliás, não é o único entre
as línguas, <c mostrar que
não há verdadeiramente negação em fancê
s. O que é curioso, aliás, é
que ele não se apercebe que, se as coisas
são assim, isso deve ir um
pouquinho mais longe que o campo do domín
io francês, se a gente pode
exprimir-se assim. É, de fato, muito fácil, sobre
todas as diferentes formas ,
de se aperceber que é frçosamente assim
em todo lugar, visto que a
função do sujei to não está suspensa até a ra
iz à diversidade das línguas.
É muito fácil aperceber-se que, o not, num c
erto momento da evolução
da língua inglesa, é alguma coisa naught.
Voltamos ao assunto, a fim de assegurar-
lhes que não perdemos nosso
objetivo. Partamos novamente do ano passad
o, de Sócrates, de Alcibíades
e de toda a claque que, espero, tem feito naq
uele momento o divertimento
de vocês. Tr ata-se de conjugar essa reviravolta
lógca concernente à funçã o
do um com alguma coisa com que nos ocup
amos há bastante tempo, a
saber, o desejo. Como, há tempo que não lhe
s falo nisso, é possível que
as coisas tenham se tornado, para vocês, um
pouco nebulosas. Fa ço um
pequeno lembrete que acredito ser justamen
te o momento de fzer nesta
exposição deste ano, concernente a isso. Vo
cês se lembram, é um fato
discursivo que é através disso que introduzi,
no ano passado, a questão
da iden tifcação. É, propriamente flando, quan
do abordei o que, a respeito
da relação narcísica, deve se constituir para
nós como conseqüência da
equivalência alcançada por Freud entre a li
bido narcísica e a libido de
objeto. Vocês sabem como a simbolizei na ép
oca : um pequeno esquema
intuitivo; quero dizer alguma coisa que se re
presenta, um esquema, não
um esquema no sentido kantiano. Kant é u
ma referência muito boa, em
fancês , é cizento. Messieurs Tremesaygues e
Pacaud realizaram, contudo,
essa proeza de tornar a leitura da Crítica
da Razão Pura, que não é
absolutamente impensável dizer que, sob
um certo ângulo, pode-se
ler como um livro erótico, em alguma coisa
absolutamente monótona
e poeirenta. Ta lvez , graças aos meus co
mentários, vocês chegarão,
mesmo cm fr ancês, a lhe restituir uma esp
écie de pimenta que não é
exagerado dizer que ele comporta. Em todo
o caso, cu tinha-me sempre
deixado persuadir que, em alemão, estava ma
l escri to porque, em primeiro
lugar, os alemães, com exceções de alguns,
têm a reputação de escrever

-153 -
A Identiicação

mal. Isso não é verdade.


A Cr ít ica da Razão Pura
é tão bem escrita quanto
os livros de Freud e isso
não é dizer pouco.
éo
esquema
seguinte
---
---
-"
Trata-se do que nos
fa la Fr eud, no nível da
Introdução ao Narcisism
o , a saber, que amamo
s o outro pela mesma
substância úmida da qu
al nós somos o reservat
ório, que se chama a

que talvez ela possa esta


r ali,
em 2, isto é, rodeando, af
ogando, molhando o obje
to que está em fente.
A referência do amor ao
úmido não é minha, ela
está no Banquete que
nós comentamos no ano
passado. Moralidade des
sa metafsica do amor
f,
da condição do amor, m
oralidade, num certo se
ntido eu não amo - o
que se chama amar, o qu
e chamaremos aqui de a
mar, maneira de saber
também o que há como r
esto, além do amor, entã
o, o que se chama de
amar de uma certa man
eira - eu só amo meu co
rpo, mesmo quando,
este amor, eu o transfiro
sobre o corpo do outro. C
ertamente resta sempre
uma boa dose sobre o m
eu. É mesmo, até certo p
onto, indispensável, a
não ser no caso extrem
o no nível do que é prec
iso que funcione auto
eroticamente, a saber, m
eu pênis - para adotar po
r simplifcação o ponto
de vista androcêntrico. N
ão há nenhum inconveni
ente nessa siplifcação,
como vocês vão ver, isto
não é o que nos interess
a. O que nos interessa
é o falo.
Então, eu lhes propu
s implicitamente, senão
explicitamente, nesse
sentido que é mais explí
cito ainda agora do que
no ano passado ... Eu
lhes propus definir, em
relação ao que eu amo
no outro, que ele está
submisso a essa condiç
ão hidráulica de equivalê
ncia da libido, a sab er,
que quando isso sobe
de um lado, sobe tamb
ém do outro, o que eu
desejo, o que é diferent
e do que eu experiment
o, é o que, sob a forma
de puro reílcxo do que r
esta de mim investido e
m todo estado de causa,
é justamente o que fa lt
a no corpo do outro, enq
uanto ele é constituído
por essa impregnação
do úmido do amor. No p
onto de vista do desejo,
no nível do desejo, tod
o esse corpo do outro,
pelo menos tão pouco

-154 -
Lição de 21 de fe vereiro de 1962

quanto eu o ame, só vale justamente pelo qu


e lhe flta. E é precisamente
por isso que eu ia dizer que a heterossexualida
de é possível. Pois é preciso
se entender: se é verdade, como a análise no
s ensina, que é pelo fato da
mulher ser efetivamente do ponto de vista penia
no, castrada, que amedronta
a alguns; se o que dizemos aí não é absolut
amente insensato, e não é
absolutamente insensato, porque é evidente
, a gente encontra isso em
todas as viradas, nos neuróticos, eu insisto, d
igo que é aí realmente que
o descobri mos. Quero dizer que estamos cert
os disso pelo fato de que é aí
que os mecanismos entram em jogo , com u
m refinamento tal que não há
outra hipótese possível para explicar a forma
pela qual o neurótico institui,
constitui seu desejo, histérico ou obsessivo.
O que nos levará, neste ano,
a articular completamente para vocês o sen
tido do desejo do histérico,
como do desejo do obsessivo, rapidamente,
pois eu direi, até um certo
ponto, é urgente. Se é assim, é ainda mais c
onsciente no homossexual
que no neurótico. O homossexual, ele própr
io lhe diz que isso provoca
nele, assim mesmo, um efeito muito penoso
de estar diante desse púbis
sem pinto. É justamente por causa disso que
podemos confar tanto nisso
e, aliás, temos razão. É por isso que minh
a referência, eu a tomo no
neurótico. Dito tudo isso, restam ainda mui
tas pessoas para as quais
isso não provoca medo e que, por conseqüên
cia, não é loucura - digamos
simplesmente, sou frçado a abordar a coisa
dessa frma, uma vez que,
afnal, ninguém disse assim, quando eu lhes ti
ver dito duas ou três vezes,
penso que isso terminará por se tornar co
mpletamente evdente para
vocês - não é loucura pensar que, nos seres qu
e podem ter re lação normal,
satisfatória, quero dizer, de desejo com o pa
rceiro do sexo oposto, não
apenas isso não lhes provoca medo, mas é justa
mente isso que é interessnte,
a saber, que não é porque o pênis não está
ali que o falo não está. Eu
direi mesmo, ao contrário.
O que permite reencontrar um certo núme
ro de encruzilhadas, em
particular isso: que o que o desejo procura é
menos, no outro, o desejável
que o desejante, isto é, o que lhe falta. E
aí, ainda, peço-lhes para
relembrar que é a primeira aporia, o primei
ro bê-á-bá da questão, tal
qual ela começa a se articular quando vocês abri
rem esse famoso Banquete,
que parece só ter atravessado séculos para
que a gente faça em torno
dele teologa. Te nto fzer disso outra coisa, a sa
ber, fzer vocês se apereberem
que, a cada linha, fala-se efetivamente do q
ue se trata, isto é, do Eros.
Eu desejo o outro como desejante. E, quand
o digo como desejante, nem
sequer disse, não disse expressamente como
me desejando, pois sou eu

-155 -
A Identiicação

quem deseja, e desejand


o o desejo, esse desejo
não poderia ser desejo d
e
mim senão se eu me ree
ncontro nessa reviravolt
a onde estou bem segur
o,
isto é, se me amo no o
utro, de outra maneira,
se sou eu a quem amo
.
Mas, então, eu abandon
o o desejo.
O que estou acentuan
do é esse limi te, essa
fronteira que separa o
desejo do amor. O que
não quer dizer que eles
não se condicionem por
todos os tipos de ponta
s. É exatamente aí que
está todo o drama, com
o
penso que isso deve s
er a primeira observaç
ão que vocês devem fz
er
sobre sua experiência d
e analista, estando bem
entendido que acontece
,
como para muitos outr
os sujeitos nesse nível
da realidade humana,
e
que seja frequenteme
nte o homem comum
que esteja mais perto
do
que chamarei, nessa oc
asião, de osso. O que s
e deseja é evidentement
e
sempre o que flta, e é b
em por isso que, em fra
ncês, o desejo se cham
a
desiderium
o que quer dizer
lamento
E isso também junta-se
àquilo que, no ano pas
sado, acentuei como
sendo esse ponto visad
o desde sempre pela éti
ca da paixão, que é faze
r,
não digo, essa síntese,
mas, essa conjunção qu
e se trata de saber se el
a
não é, justamente, estr
uturalmente impossível
, se ela não permanec
e
um ponto ideal fora do
s limites da épura, o q
ue chamei de a met áfo
ra
do verdadeiro amor, qu
e é a famosa equação o
Eprov sobre EproµEvov,
Eprv se substituindo ...
O desejante substituind
o-se ao desejado ness
e
ponto, e por essa metá
fora equivalente à perf
eição do amante, com
o
está igualmente articul
ado no Banquete, a sab
er, a reviravolta de toda
a propriedade do que s
e pode chamar de o am
ável natural, a separaçã
o
no amor que coloca tu
do o que se pode ser a
si mesmo de desejável
fra do alcance do ador
ável, se posso dizer. O
noli me amare , que é o
verdadeiro segredo, a
verdadeira última palav
ra da paixão ideal dess
e
amor cortês, do qual n
ão é à toa que eu usei
o termo tão pouco atua
l,
quero dizer, tão perfeitam
ente confuso que se tenh
a tornado, na perspectiva
que eu tinha no ano pa
ssado articulado, prefe
rindo antes substituí-lo
como mais atual, mais
exemplar, esse tipo de
experiência - de modo
algum ideal mas perfeit
amente acessível - que
é a nossa, com o nome
de transferência, e qu
e lhes ilustrei, mostrei
já no Banquete, sob ess
a
forma totalmente para
doxal da interpretação
, propriamente falando
,
analítica de Socrátes, de
pois da longa declaração
loucamente exibicionista,
enfm, a regra analítica
aplicada a todo vapor à
quilo que é o discurso d
e
Alcibíades. Sem dúvid
a, vocês puderam re t
er a ironia implicitamen
te
contida nisso, que não
está escondida no text
o, é que aquele a que
m

� 156-
Lição de 21 de fe vereiro de 1962

Sócrates deseja no momento, para a beleza d


a demonstração, é Agaton,
, o espírito puro, aquele que fla do
amor de uma maneira tal, como se deve sem
dúvida fal ar, comparando
º à paz das ondas, com o tom francamente
cômico, mas sem fazer de
propósito, ou mesmo sem se aperceber disso
. Dizendo de outro modo, o
que quer dizer Sócrates ? Por que Sócrates não
amara Agaton se. justamente,
a besteira nele como em M. Te ste é, justamen
te, o que lhe flta? "A besteira
não é o meu forte". É um ensinamento , pois
isso quer dizer, e isso está
então articulado com todas as letras para Al
cibíades: "Meu belo amigo
conversa sempre, pois é a ele que tu também
amas. É para Agaton todo
esse longo discurso. A diferença é unicamente
que tu não sabes do que se
trata. Tu a frça, teu domínio, tua riqueza te ilud
em". E, de fto, nós sa bemos
bastante, ao longo da vida de Alcibíades, para
saber que poucas coisas lhe
faltaram na ordem do mais exagerado que se poss
a ter de primeira necessidade.
À sua maneira, inteiramente diferente da de
Sócrates, ele também não
era, em lugar algum, recebido, aliás, de braço
s abertos por onde ele ia, as
pessoas sempre fe lizes demais com
uma tal aquisição. Uma certa aromcx
fi sua sorte. Ele era ele mesmo muito embar
açador. Quando chegou a
Esparta, ele achava simplesmente que fzia u
ma grande honra ao rei de
Esparta - a coisa é narrada cm Plutarco, articul
ada às claras - engravidando
sua mulher, por exemplo. É para lh
es mostrar seu estilo ; é a menor das
coisas. Existem uns que são brabos. Fo i pr
eciso, para acabar com ele,
cercá-lo de fgo e abatê-lo a golpes de flechas
.
Mas para Sócrates o importante não está aí. O imp
ortante é dizer : "A lcibíades,
ocupa-te um pouco de tua al ma ", o que, creia
m-me, estou bem convencido
disso, não tem de modo algum o mesmo sentid
o em Sócrates que o senti do
que tomou na seqüência do desenvolvmento
platônico da noção do Um .
Se Sócrates lhe responde "Eu não sei nada, s
enão , talvez o que sej a da
natureza do Eros ", é exatamente que a funçã
o eminente de Sócrates é de
ser o primeiro que tenha concebido qual a ver
dadeira natureza do desejo.
E é exatamente por isso que, a partir dessa re
velação até Fr eud, o desejo
como tal, em sua fu nção - o desejo enquanto
própria essência do homem,
diz Spinoza, e cada um sabe o que isso que di
zer, o homem em Spinoza é
o sujeito, é a essência do sujeito - que o des
ejo se manteve, durante um
número respeitável de séculos, como uma fu nçã
o pela metade, a três quartos
ou quatro quintos, ocultada na história do co
nhecimento.
O sujeito de que se traia, aquele do qual s
eguimos o rastro, é o sujeito
do desejo e não o sujeito do amor, pela sim
ples razão de que não se é
sujeito do amor; é-se ordinariamente, nor
malmente , sua vítima. É
-157 -
A Identificação

completamente diferent
e. Em outros termos, o
amor é uma frça natural
.
Éisto que justifca o pont
o de vista que chama
mos de biologzante, d
e
Freud. O amor é uma re
alidade. É por isso, aliás,
que lhes digo, os deuses
Isso não causava espan
to a ninguém. Permitam
-me um jogo de palavra
s
muito bonito. Foi um dos
meus mais divinos obses
sivos que o fez, há algun
s
dias: "A horroros
Quero dizer
a dúvida doque não pos
mafrodita". so
fazer menos senão pen
sar nisso, desde que ev
dentemente acontecera
m
coisas que nos fizeram
deslizar da Afrodite à ho
rrorosa dúvida. Há muit
o
a dizer em fvor do Crist
ianismo; eu não saberi
a sustentá-lo bastante,
e
especialmente qu anto a
o desprendimento do de
sejo como tal. Não quer
o
deflorar demais o sujeilo
, mas estou decidido, a
esse respeito, <e avanç
ar
para vocês coisas incrív
eis que, contudo, para o
bter entre todos esse fi
m
louvável, esse pobre am
or tenha sido colocado n
a posição de tornar-se u
m
mandamento, e, de qua
lquer modo, ter pago ca
ro a inauguração dessa
busca que é a do desej
o. Naturalmente, nós, m
esmo assim, os analista
s,
seria preciso que soubé
ssemos resumir um pou
quinho a questão sobre
o
sujeito, que o que nós
adiantamos sobre o am
or, é que ele é a fonte
de
todos os males. Isso os fz
rr!? A núnima conversa es
tá aí para lhes demonstrar
que o amor de mãe é a
causa de tudo. Não di
go que se tenha sempr
e
razão, mas é ainda assi
m por essa via que nos e
xercitamos todos os dias.
É
o que re sulta de nossa
experiência cotidiana.
Portanto, está bem clar
o
que, concernente à bus
ca do que é, na análise,
o sujeito, a saber, a que
convé m identifcá-lo, e
mbora fsse só de manei
ra alternante, não poder
ia
se tra tar senão do sujeit
o cio desejo.
,:: nisso que cu lhes dei
xarei hoje, não sem faz
er-lhes observar ainda
que, claro, estejamos n
a postura de fazê-lo mu
ito melhor do que fi feit
o
pelo pensador que vou
nomear, não estamos t
anto no no man 's land.
Quero dizer que, logo a
pós Kant, há alguém q
ue lembrou disso, que
se
chama He gel, do qual toda
A fe omeologia do espírit
o parte da, da Berg ierde.
Só havia um erro, o de n
ão ter nenhum conhecim
ento, ainda que se poss
a
aí designar o seu lugar,
do que seria o estádio
do espelho. Donde ess
a
irredutível confusão que
põe tudo sob o ângulo d
a relação do mestre e d
o
escravo, e que toma inop
erante essa caminhada,
e que é necessáro retom
ar
todas as coisas a partir d
aí. Quanto a nós, espera
mos que, fvorecidos pelo
gênio de nosso mestre
, possamos fcar, de m
aneira mais satisftóra,
a
questão do sujeito do de
sejo.

-158 -
LIÇAO XI
28 de fe vereiro de 1962

Pode-se achar que me ocu


po aqui um pouco demasia
damente disso
que se chama de - Deus c
ondene tal denominação! -
grandes filósofos.
É que talvez não apenas
eles, mas eles, eminente
mente, articulam o
que se pode bem chamar
de uma busca, patética pe
lo fto dela sempre
retornar, se soubermos co
nsiderá-la através de todo
s os seus desvios,
seus objetos mais ou meno
s sublimes, nesse nó radic
al que tento desatar
para vocês, a saber : o des
ejo. É o que espero nessa
busca, se vocês me
quiserem seguir, restituir
decisivamente a sua prop
riedade de ponto
inultrapassável, inultrapassá
vel no sentido mesmo que c
ompreendo quando
digo-lhes que cada um da
queles a quem se pode ch
amar pelo nome de
grande flósofo não poderi
a estar, num certo ponto,
ultrapassado. Creio
ter o direito de lançar-me,
com a assistência de voc
ês, numa tal taref
porque, enquanto psican
alistas, o desejo é nosso
negócio. Sinto-me
igualmente convocado a d
edicar-me a esse assunto
e a convocá-los a
fa zê-lo comigo, porque é s
omente retifcando nossa vi
são sobre o desej o
que podemos manter a t
écnica analítica em sua f
unção primeira - ã
palavra "primeira " devend
o ser entendida no sentido
de primeiramente
surgida na história, não ha
via dúvida no início - uma f
unç ão de verdade.
É isso, sem dúvida, que
nos leva a interrogar ess
a função num nível
mais radical. É esse que t
ento mostrar-lhes, ao artic
ular para vocês o
seguinte, que está no fun
do da experiência analíti
ca : que estamos
escravizados, como home
ns, quero dizer, como sere
s desejantes, quer
o saibamos ou não, acre
ditando ou não que queir
amos isto - a essa

-159 -
A Ide ntiicação

fnção de verdade. Porque,


será preciso lembrá-lo, os
conflitos, os impasses,
que são a matéria de no
ssa práxis, só podem ser
objetivados ao fzerem
intervir no seu jogo o lu
gar do sujeito como tal,
enquanto ligado como
sujeito na estrutura da e
xperiência. Está aqui o s
entido da identificação
enquanto tal, na definiçã
o de Fre ud.
Nada é mais exato, nada
é mais exigente que o cá
lculo da conjuntura
subjetiva, quando se lhe
encontrou aquilo que pos
so chamar - no sentido
próprio do termo, senti
do como foi empregad
o por Kant - de razão
prática. Prefiro chamá-la
assim do que dizer viés
operatório, por causa
daquilo que esse termo o
peratório implica, há algu
m tempo: uma espécie
de evitação do fundame
nto. Lembrem-se, a ess
e respeito, daquilo que
lhes ensinei, há dois ano
s, sobre essa razão práti
ca, no sentido em que
ela interessa o desejo.
Sade está mais perto qu
e Kant, embora Sade,
quase louco, se se pode
dizer, por sua visão, só s
e possa compreender,
nesta ocasião, relacion
ado à medida de Kant,
tal como tentei fazer.
Lembrem-se do que lhes
disse, da analogia espant
osa entre a exigência
total da liberdade do goz
o, que está em Sade, co
m a regra universal da
conduta kantiana. A fu
nção na qual se fu nda
o desejo, para nossa
experiência, torna-se evi
dente que ela nada tem
a ver com o que Kant
distingue como Wo hl, op
ondo-o ao Gut e ao bem,
<ligamos com o bem
estar, com o útil. Isso no
s leva a perceber que i-s
so vai bem além, que
essa função do desejo,
não tem nada a ver, eu
diria, com aquilo que,
em geral, Kant chama -
para relegá-lo a um seg
undo plano nas regras
da conduta - de patológi
co. Portanto, para aquele
s que não se lembram
bem em qual sentido Kan
t emprega tal termo, para
aqueles que poderiam
fzer ali um contra-
senso, tentarei traduzir
falando do protopático,
ou,
ainda mais amplamente,
do que há na experiência
de humano demasiado
humano, de limites ligado
s ao cômodo, ao conforto,
à concessão alimentar.
Isso vai mais longe, vai
até implicar a própria se
de tecidual. Não nos
esqueçamos do papel, d
a fu nção que atribuo à a
norexia mental, como
aquele cujos primeiros ef
eitos nos quais poderíam
os sentir essa função
do desejo, e o papel qu
e lhe dei, a título de ex
emplo, para ilustrar a
difrnça entre des�jo e ne
cessidade. Portan to, tão l
onge de ser comodida<e,
... Não me venham falar
de compromisso, pois dis
so
estamos flando todo o t
empo. Mas os compro
missos pelos quais ela
tem de passar essa função
do dc:-,cjo, são de uma or
dem diferente daqueles
ligados, por exemplo, à e
xistê11da de uma comuni
dade fu ndada sobre a

--160 -
Lição de 28 de fe vereiro de 1962

associação vital, pois é sob essa forma que,


mais comumente, temos de
evocar, constatar, explicar a fu nção do comp
romisso. Vocês bem sabem
que, no ponto em que estamos, se seguirmos
até o extremo o pensamento
feudiano, a tais compromissos interessam a
rel ação de um instinto de
morte com um instinto de vida, os quais, ambo
s, não são menos estranhos
a considerar em suas relações dialéticas qu
e em sua definição.
Para recomeçar, como faço sempre, em algu
m ponto de cada discurso
que lhes dirijo semanalmente, lembro-lhes
que esse instinto de morte
não é um verme roedor, um parasita, uma fe ri
da, nem mesmo um principio
de contrariedade, algo como um tipo de Yin o
posto ao Yan g, de elemento
de alternância . É, para Freud, algo nitidame
nte articulado: um princípio
que envolve todo o desvio da vida, cuja vda
, cujo desvio só encontram
seu sentido ao se juntarem a ele. Pa ra dizer
a palavra, não é sem motivo
de escândalo que alguns se afastam disso,
pois vemo-nos sem dúvida
de volta, de retorno, apesar de todos os princí
pios positivistas, é verdade,
na mais absurda extrapolação, propriament
e falando, metafísica e em
detrimento de todas as regras pré-
concebidas da prudência. O instinto
de morte, em Freud, é-nos apresentado c
omo o que, penso, em seu
lugar, se situa para nós se igualando ao que ch
amamos aqui de signifcante
da vida, já que o que Freud nos diz disso
é que o essencial da vida,
reinscrita nesse quadro do instinto de morte, na
da mais é senão o desígnio,
necessitado pela lei do prazer, de realizar,
de repetir o mesmo desvio
sempre para retornar ao inanimado. A defni
ção do instinto de vida em
Freud - não é inútil voltar a isso, acentuá-lo
novamente - não é menos
atópica, não é menos estranha pelo fato de
que é sempre conveniente
ressaltá-lo: que ele é reduzido a Eros, à lib
ido. Observem bem o que
isso signifca. Vou acentuá-lo por meio de
uma comparação, daqui a
pouco, com a posição kantiana.
Mas, desde já, vocês vêem a que ponto de
contato estamos reduzidos,
no que concerne à relação com o corpo. Tr a
ta-se de uma escolha, e de
tal forma evidente que isso, na teoria, ve
m a materializar-se nessas
figuras em relação às quais não se deve esqu
ecer que, ao mesmo tempo,
elas são novas, e quais dificuldades, quais
aporias, até mesmo quais
impasses elas nos opõem para justificá-
las, até mesmo para siluá-las,
para defni-las exatamente. Penso que a fu
nção do falo, de ser aquilo
cm torno do qual vem se articular esse
Eros, essa libido, designa
suficientemente o que aqui pretendo salienta
r. No conjunto, todas essas

-161 -
A Ienticação

fguras, para retomar o t


ermo que acabo de em
pregar, que temos de
manejar no que concern
e ao Eros, o que têm ela
s a fazer, o que têm
elas em comum, por exe
mplo, para fazer-lhes sen
tir a distância, com as
preocupações do embri
ologista, em relação ao
qual não se pode, de
qualquer frma, dizer que
não tem nada a fazer co
m o instinto de vida,
quando ele se interroga
sobre o que é um organi
zador no crescimento,
no mecanismo da divis
ão celular, na segment
ação dos folíolos, na
di frenciação morfológic
a?
Espantamo-nos quan
do encontramos em alg
um lugar, sob a pluma
de Freud, que a análise te
nha levado a uma descob
erta biológca qualquer.
Isso se encontra às vez
es, pelo menos que eu
me lembre , no Abris/.
Que bicho o terá mordido
, naquele instante? Pergu
nto-me qual descoberta
biológica foi fe ita à luz d
a análise. Mas também, j
á que se trata aqui de
salientar a limitação, o
ponto eletivo de nosso
contato com o corpo,
enquanto, é claro, ele é o
suporte, a presença dess
a vida, é surpreendente
que, para reintegrar em n
ossos cálculos a função d
e conservação desse
corpo, sej a necessário
que passemos pela amb
igüidade da noção do
narcisismo, sufcientement
e desigada, penso, para n
ão ser preciso articulá
la novamente, na própria
estrutura do conceito narc
ísico - e a equivalência
que é posta ali, na ligaçã
o ao objeto - suficienteme
nte designada, repito,
pelo acento posto, desde
a Introdução ao Narcisis
mo , sobre a fu nção da
dor, e desde o primeiro
artigo - releiam esse art
igo, excelentemente
traduzido - en
quanto a dor não é sin
al de dano, mas fnôme
no de
auto-erotismo, como há p
ouco tempo eu lembrava,
numa conversa familiar
e a propósito de uma ex
periência pessoal, a algu
ém que me escuta, a
experiência de que um
a dor apaga uma outra.
Quero dizer que, no
presente, é difícil sofrer
de duas dores ao mesm
o tempo; uma toma a
dianteira , faz esquecer a
outra; como se o investim
ento libidinal, mesmo
sobre o próprio corpo,
se mostrasse ali subme
tido à mesma lei, que
chamarei de parcialidade
, que motiva a relação co
m o mundo dos objetos
do desejo. A dor não é si
mplesmente, como dize
m os técnicos, em sua
natureza aprazível. Ela
é privilegiada, ela pode
ser fe tiche. Isso para
levar-nos àquele ponto
que já articulei, numa re
cente confrência, não
aqui, que é atual em nos
so propósito, de pôr em c
ausa o que quer dizer
a organização subjetiv
a que designa o proces
so primário, o que ela
quer dizer quanto ao qu
e é e o que não é de sua
relação com o corpo.

-162 -
Lição de 28 de fe vereiro de 1962

É aqui que, se posso dizer, a referência, a a


nalogia com a investigação
kantiana vai-nos servir.
Peço desculpas, com toda a humildade po
ssível, àqueles que têm dos
textos kantianos uma experiência que lhes dá
direito a alguma observação
à margem, quando eu for um pouco depre
ssa na minha refrência ao
essencial do que a exploração ka ntiana nos o
ferece. Não podemos, aqui,
demorarmos nesses meandros, talvez em algu
ns pontos às custas do rigor,
mas também, por outro lado, se nos detiver
mos demasiadamente neles,
podemos perder alguma coisa do que têm de
maciço, em alguns pontos,
os seus relevos; flo da Crítica kantiana e princ
ipalmente daquela chamada
da Razio Pura. Desde já, tenho o direito de
de ter-me por um instante
naquilo que, para qualquer um que simple
smente tenha lido uma ou
duas vezes com uma atenção esclarecida a cit
ada Crítica da Razão pura ,
isto que, aliás, não é contestado por nenhum c
omentador, que as categorias
ditas da Razão Pura exigem seguramente,
para fncionar como tais, o
fndamento do que se chama de intuição pura
, a qual se apresenta como
a forma normativa e, vou mais longe, obrigató
ria, de todas as apreensões
sensíveis . Digo de todas, quaisquer que seja
m. É nisso que essa intuição,
que se organiza em categorias do espaço e d
o tempo, acha-se designada
por Kant como excluída daquilo que se pode
chamar de orignalidade da
experiência sensível, da Sinnlichkeit , de ond
e só pode sair, só pode surgr
alguma afirmação que seja de realidade pal
pável, essas afirmações de
realidade estando, em sua articulação, subm
e tidas às categorias da dita
razão pura, sem as quais elas não poderiam, n
ão somente ser enunciadas,
mas tampouco ser percebidas. Des
de então, tudo se acha suspenso no
princípio dessa fu nção dita sintética, o que n
ão dizer outra coisa além de
unificante, que é, se podemos dizer assim,
o termo comum de todas as
fu nções categoriais, termo comum que se orde
na e se decompõe no quadro
muito sugestivamente articulado que dá Kant,
ou, antes, nos dois quadros
que ele dá disso, as frmas das categorias e a
s frmas do julgamento, que
apreende que em direito, enquanto ela marca,
na relação com a realidade,
a espontaneidade de um sujeito, essa intuição p
ura é absolutamente exigvel.
O esquema kantiano, podemos chegar a re
duzi-lo à Beharrlichkeit, à
permanência, à continuidade, diria eu, vazia,
mas à continuidade possível
do que quer que seja no tempo.

-163 -
A Identiicação

Essa intuição pura em


direito é absolutamente
exigida em Kant para
o fncionamento categori
al, mas afnal, a existênci
a de um corpo, enquant
o
ele é o fundamento da
Sinnlichkeit, da sensori
alidade, não é exigível
em absoluto. Sem dúvid
a, quanto ao que pode
mos chamar validament
e
de uma relação com a r
ealidade, isso não nos l
evará muito longe porqu
e,
como ressalta Kant, o
uso de tais categorias
do cntendimc11l0 só di

respeito ao que ele vai c
hamar de conceitos vazi
os. Mas, quando dizemo
s
que isso não nos levará lo
nge é porque somos 111ó
sofos, e mesmo kantianos
.
Mas, a partir do mome
nto em que não o som
os mais - o que é o cas
o
comum - cada um sab
e justamente, ao contr
ário, que isso leva muit
o
longe, porque todo esf
orço da flosofa consist
e em ir contra toda um
a
série de ilusões, de S
chwirerei, como se di
z na língua filosófca e
particularmente kantia
na, de sonhos ruins -
na mesma época, Goy
a
nos diz: "O sono da razão
engendra os monstros" -
cujos efeitos teologzantes
mostram-nos bem todo
o contrário, a saber, qu
e isso leva longe, posto
que, por intermédio de
mil fnatismos, isso leva s
implesmente às violênci
as
presença dos flósofos, a
constituir, é preciso dizê-
lo, uma parte importante
da trama da história hu
mana.
É por isso que não é in
diferente mostrar onde
passa efetivamente a
fonteira do que é efcaz
na experiência, malgra
do todas as purifcaçõe
s
teóricas e as retifcaçõ
es morais. Fica perfeit
amente claro, em todo
caso, que não há como
admitir como sustentável
a estética transcendenta
l
de Kant, apesar de eu
ter flado do caráter inul
trapassável do serviço
que ele nos presta em s
ua crítica e espero fazê-
lo sentir justamente, ao
mostrar pelo que é preci
so substituí-la. Porque, j
ustamente, se é preciso
substituí-la por algo e q
ue isso funcione conser
vando alguma coisa da
que ele entreviu profu
ndamente a dita coisa.
É assim que a estética

fundamentalmente apo
iada numa argumentaç
ão matemática que se
fnda no que poderíamos
chamar de época geom
etrizante da matemática.
É na medida em que a g
eometra euclidiana está i
ncontestada, no moment
o
em que Kant prossegue
sua meditação, que é s
ustentável para ele que
haja, na ordem espaço-
temporal, certas evidênci
as intuitivas. Basta abaix
ar
se, abrir seu texto, par
a recolher exemplos da
quilo que pode parecer
,
agora, a um aluno med
ianamente avançado n
a iniciação matemática
,

-164 -
Lição de 28 de fe vereiro de 1962

de imediatamente refutável. Quando ele nos


dá, como exemplo de uma
evidência que não tem sequer necessidade
de ser demonstrada, que
por dois pontos só pode passar uma reta,
cada um de nós sabe, na
medida em que o espírito se tenha facilmen
te inclinado à imaginação,
à intuição pura de um espaço curvo pela me
tá íora da es fera, que por
dois pontos pode passar mais de uma reta e
mesmo uma infinidade de
retas. Quando ele nos dá, no seu quadro do
s Nichts, dos nadas, como
exemplo do lecrer Gegensland o/me Begrif,
do objeto vazio sem conceito,
o exemplo seguinte, que é bastante notável:
a ilustração de uma figura
retilínea que teria somente dois lados, eis al
go que pode parecer, talvez
a Kant - e provavelmente não a todo mund
o em sua época - como o
próprio exemplo do objeto inexistente, e alé
m do mais impensável. Mas
o mínimo uso, eu diria, de uma experiênci
a de geômetra totalmente
elementar, a busca do traçado descrito por um
ponto ligado a uma ciclóide,
o que se chama de uma ciclóide de Pasc
al, mostrar-lhes-á que uma
fgura retilínea, na medida em que ela prop
riamente põe em causa a
permanência do contato de duas linhas ou
de dois lados, é algo que é
verdadeiramente primordial, essencial a tod
a espécie de compreensão
geométrica; que há ali, sem dúvida, articul
a<ão conceituai, e mesmo
objeto completamente definível .
Da mesma frma, mesmo com essa afrmaç
ão de que nada é fe cundo
senão o julgamento sintético, ele pode, ain
da, após todo o esforço de
logicização da matemática, ser considerado
como sujeito à revisão. A
pretensa infcundidade do julgamento analí
tico a priori, a saber, disso
que chamaremos simplesmente de uso pu
ramente combinatório de
elementos extraídos da posição primeira de u
m certo número de defnições,
que esse uso combinatório tenha cm si um
a f..:cundidade própria, é o
que a crítica mais recente, mais avançada dos
fu ndamentos da aritmética,
por exemplo , pode seguramente demonstrar.
Que haja, em último termo,
no campo da criação matemática, um r
esíduo obrigatoriamente
indemonstrável, é aquilo a que sem dúvida a m
esma exploração logicizante
parece ter-nos conduzido - o teorema de
Gõdel - com um rigor até
aqui não reftado. Mas não é menos verd
adeiro que é pela via da
demonstração frmal que essa certeza pod
e ser adquirida. E, quando
digo frmal, entendo os procedimentos mais
expressamente frmalistas
da combinatória logicizante.

-165 -
A Identiicação

O que isso quer dizer


? Será, no entanto, que
essa intuição pura, tal
como Kant, nos termos d
e um progresso crítico q
ue concerne às frmas
exigíveis da ciência, que
essa intuição pura não n
os ensina nada? Ela
nos ensina seguramente a
discernir sua coerência e t
ambém sua disjunção
possível do exercício, just
amente sintético, da funç
ão unifcante do termo
da unidade enquanto co
nstituinte em toda frmaç
ão categorial e, sendo
uma vez mostradas as a
mbigüidades dessa funçã
o da unidade, a mostrar
nos a qual escolha , a qual
inversão somos conduzido
s a partir da solicitação
de diversas experiências
. Evidentemente, só nos
importa aqui a nossa.
Mas , será que não é m
ais signifcativo que de a
nedotas, de acidentes,
até de façanhas, no pon
to preciso em que se po
de fazer notar a fnura
do ponto de conjunção e
ntre o fncionamento cate
gorial e a experiência
sensível em Kant, o pont
o de estrangulamento, s
e posso dizer, em que
pode ser levantada a qu
estão : se a existência d
e um corpo, totalmente
exigível de fto, é claro, n
ão poderia ser posta em
questão na perspectiva
kantiana, quanto ao fto
de que ela seja exigida
em direito? Será que
alguma coisa não é abso
lutamente fita para prese
ntifcar essa questão,
na situação dessa crianç
a perdida que é o astrona
uta de nossa época em
sua cápsula, no momento
em que ele está no estado
de imponderabilidade ?
Não insistirei mais sobre
essa observação de que
a tolerância, parece-me,
embora talvez nunca po
sta à prova durante long
o tempo, a tolerância
surpreendente do organis
mo no estado de imponder
abilidade é de qualquer
forma feita par
a obrigar-nos a frmular
uma pergunta. Posto qu
e, afnal
de contas, uns sonhador
es se interrogam sobre a
origem da vda, e entre
eles há os que dizem qu
e ela começou de repent
e a futifcar sobre nosso
globo, mas outros dizem q
ue deve ter vindo por um g
erme vndo dos espaços
astrais - eu não saberia d
izer-lhes a que ponto ess
e tipo de especulação
me é indifernte - seja com
o fr, a partir do momento
em que um organismo,
seja ele humano, seja o
de um gato ou o do meno
r senhor do reino vivo,
parece se portar tão be
m no estado de imponde
rabilidade, não será ele
justamente essencial à vda
, digamos, simplesmente, q
ue ela esteja de alguma
frma numa posi
ção de equipolaridade e
m relação a todo efito po
ssível
do campo gavitacional ?
Bem entendido, o astrona
uta está sempre sob os
efitos da gravidade, no e
ntanto é uma gravidade
que não lhe pesa. Ora,
pois, lá onde ele está, em
seu estado de impondera
bilidade, trancado como
vocês sabem em sua cá
psula, e anda mais suste
ntado , acolchoado por

-166 -
Lição de 28 de fe vereiro de 1962

todos os lados pelas dobras da dita cápsula, o q


ue transporta ele consigo de
uma intuição, pura ou não, mas fenom enologc
amente defnível, do espaço
e do tempo?
A questão é tanto mais interessante quant
o nós sabemos que, desde
Kant, temos ainda assim retornado a ela. Qu
ero dizer que a exploração,
justamente qualifcada de fenomenológica, ai
nda assim , voltou a dirigir
nossa atenção sobre o fato de que aquilo que s
e pode chamar de dimensões
ingênuas da intuição - sobretudo espacial -
não são, mesmo para uma
intuição, tão purificadas como pensamos, t
ão facilmente redutíveis e
que o alto, o baixo, até a esquerda, conserva
m não somente toda a sua
importância ele fa to, mas mesmo de direit
o para o pensamento mais
critico. O que é que adveio para Gagárin, p
ara Ti tov, ou para o Glenn
de sua intuição do espaço e do tempo, cm m
omentos em que certamente
ele tinha, como se diz, outras idéias na cabeça
? Ta lvez não fsse totalmente
desinteressante, enquanto ele estivesse lá e
m cima, de ter com ele um
pequeno diálogo fnomenológico . Naturalm
ente, em tais experiências,
considerou-se que isso não era o mais urgen
te. De resto, temos o tempo
de voltar a esse assunto. O que constato é
que, seja o que for desses
pontos sobre os quais podemos estar bastante a
pressados para ter respostas
da Erfahrung, da experiência, ele, em todo c
aso, isso não o impediu de
estar totalmente capacitado ao que chama
rei de apertar botões, pois
está claro, ao menos para o último, que a c
oisa foi comandada em tal
momento, e mesmo decidida do interior.
Ele permanecia, portanto,
em plena posse dos meios de uma combina
tória efcaz. Provavelmente
sua razão pura estava poderosamente aparelha
da com toda uma montagem
complexa, que constituía certamente a efc
ácia última da experiência.
Não é menos verdadeiro que, por tudo que
podemos supor e tão longe
quanto possamos supor o efeito da construçã
o combinatória no aparelho
e mesmo nas aprendizagens, nos comandos r
epetdos, na fração exaustva
imposta ao próprio piloto, por mais longe que
nós o suponhamos integado
ao que se pode chamar de automatismo j
á cons truído da máquina,
basta que ele tenha de apertar um botão n
a direção certa e sabendo
porquê para que se torne extraordinariame
nte signifcativo que um tal
exercício da razão combinatória seja possív
el, em condições que talvez
estejam longe de ser ainda o extremo ating
ido do que podemos supor
de constrangmentos e de paradoxos impostos
às condições de motcidade
natural , mas que já podemos ver que as cois
as são levadas muito longe

-167 -
A Ide ntiicação

desse duplo efeito, car


acterizado, por um lad
o, pela liberação da dit
a
motricidade dos efitos
da gravidade, sobre os
quais se pode dizer qu
e
nas condições naturais
não é demasiado dizer
que ela se apóia sobre
essa motricidade, e que,
correlativamente, as cois
as não funcionam senão
porque o dito sujeito mot
or está literalmente aprisi
onado, preso na carapaç
a
que, sozinha, assegura
a contenção, ao menos
em tal momento de vôo,
do organismo naquilo q
ue se pode chamar de s
ua solidariedade natural
.
Aqui está, portanlo, ess
e corpo que se tornou -
se posso dizer - uma
espécie de molusco, m
as arrancado de seu im
plante vegetativo. Essa
carapaça torna-se uma
garantia tão dominante
da manutenção dessa
solidariedade, dessa u
nidade, que não estam
os longe de pensar que
é
nela, no fnal das conta
s, que ela consiste; qu
e se vê ali numa espéc
ie
de relação exterioriza
da da fu nção dessa u
nidade como verdadei
ro
continente do que se p
ode chamar de polpa
viva. O contraste dess
a
posição corporal com
a pura função de máq
uina de raciocinar, ess
a
razão pura que continu
a sendo tudo o que há
de efcácia e tudo do qu
e
esperamos uma efcácia
qualquer no interior, é b
em ali algo de exemplar
que dá toda sua importân
cia à questão que levantei
há pouco, da conseração
ou não da ituição espaço
-temporal, no sentido em
que a fsei sufcientemente
como aquilo que chamar
ei de falsa geometria do
tempo de Kant. Será que
essa intuição está semp
re presente aí? Te nho g
rande tendência a pensa
r
que ela está sempre ali.
Ela está sempre ali, essa
falsa geometria, tão best
a
e tão idiota, porque é efti
vamente produzida com
o uma espécie de re flex
o
pois, como a experiência
da meditação dos matem
áticos já o provou, sobre
esse solo não estamos m
enos arrancados à gravid
ade do que naquele lugar
lá em cima, onde seguía
mos nosso astronauta. E
m outros termos, que ess
a
intuição pretensamente
pura saiu da ilusão de l
ogras ligados à própria
fu nção combinatória, to
talmente passíveis de s
erem dissipados, mesm
o
se ela se mostra mais
ou menos tenaz. Ela é
apenas, se posso dizer,
a
sombra do número.
Mas evidentemente, pa
ra poder afirmar isso, é
preciso ter fu ndado o
próprio número em out
ro lugar que nessa intu
ição. De resto, a supor

e aquela, muito mais d


iscutível, ainda do tem
po que lhe é ligada em

provará? Provará simple


smente que ele é, de tod
a forma, capaz de aperta
r

- 168 -
Lição de 28 de fe vereiro de 1962

corretamente os botões sem recorer a seu esque


ma tsmo, provará simplesmente
que o que é, desde já, refutável aqui, é re
futado lá em cima na própria
intuição! O que reduz talvez um pouco - v
ocês me dirão - o alcance da
questão que temos a lhe colocar. E é exata
mente por causa disso que há
outras questões mais importantes a lhe col
ocar, que são justamente as
nossas, e partcularmente esta: o que se toma,
no estado de imponderabilidade,

contra. E, se o fto de que ele esteja inteir


amente colado no in terior de
manifsta, de uma maneira tão evidente o
fantasma flico, não o aliena
particularmente em sua relação com as funçõ
es de imponderabilidade natural
ao desejo macho? Eis aí uma outra questão
na qual me parece que temos
todo o direito de nos intrometer.
Para retomar a questão do número, a q
ual pode lhes surpreender
que eu faça um elemento tão evidentemen
te desligado da intuição pura,
da experiência sensível, não vou fazer a
qui para vocês um seminário
sobre os Fo undations of arithmetic, título in
glês de Frege, ao qual peço
que vocês se reportem, pois é um livro tão
fscinante quanto as Crônicas
Marcianas, no qual vocês verão que é, em
todo caso, evidente que não
há nenhuma dedução empírica possível
da fu nção do número, mas
que, como não tenho a intenção de dar-lhes
uma aula sobre esse assunto,
me contentarei, pois está em nosso propós
ito, em fazê-los observar que,
por exemplo, os cinco pontos assim dis
postos :•: que se podem ver
sobre a face de um dado, é precisamente u
ma fgura que pode simbolizar
o número cinco, mas que vocês estariam r
edondamente enganados em
crer que, de algum modo, o número cinc
o seja dado por essa figura.
Como não desejo cansá-los, fazendo-lhes
desvios infinitos, acho que o
mais rápido é fazê-los imaginar uma exp
eriência de condicionamento
que vocês estariam realizando com um a
nimal.
É muito feqüente, para ver essa faculdad
e de discernimento nesse
animal, em tal situação constituída por o
bjetivos a atingir, suponham
que vocês lhe dêem diversas formas. [Su
ponham que] ao lado dessa
disposição, coisa que constitui uma figur
a, vocês não esperarão em
nenhum caso, e de nenhum animal, que e
le reaja da mesma maneira à
seguinte figura: •••••, que é, no entanto,
também um cinco, ou esta
aqui :·:, que não o é menos, a saber, a for
ma do pentágono. Se alguma
vez um animal reagisse da mesma man
eira a essas três figuras, ora,

-169 -
A Identicação

vocês ficariam estupe


fatos, e não sem razão
, pois estariam então
absolutamente conven
cidos de que o animal s
abe contar. Ora, vocês
sabem que ele não sab
e contar. Isso não é uma
prova, certamente, da
origem não empírica da
função do número. Eu lh
es repito: isso merece
uma discussão detalha
da, cuja única razão ver
dadeira, sensata, séria,
que tenho para lhes aco
nselhar vivamente a se i
nteressarem por isso é
que é surpreendente ver
a que ponto poucos ma te
má ticos, ainda que, bem
entendido , sejam apenas
matemáticos que trataram
bem desses assuntos,
interessam-se verdadeira
mente por isso. Po rtanto,
tratar-se-á, da parte de
vocês, se vocês verdadei
ramente se interessarem p
or isso, de uma obra de
misercórdia, visitar os doe
ntes , interessar-se por que
stões pouco interessantes,
será que não é também,
de alguma forma, a noss
a função?
Vo cês verão que, e
m todo caso, a unidade
e o zero, tão importantes

para toda cons ti tuição ra


cional do número, são o qu
e há de mais resistente,
evidentemente,
a toda tentativa de uma g
ênese experimental do n
úmero,
e mais especialmente s
e se pretende dar uma d
efnição homogênea do
número como tal, reduzi
ndo a nada todas as gên
eses que se pode tentar
· dar do número a partir
de uma coleção e da ab
stração da diferença a
partir da diversidade. A
qui toma seu valor o fto
de eu ter sido levado,
pelo fio diretor da prog
ressão feudiana, a artic
ular, de uma maneira
que me pareceu necess
ária, a função do traço u
nário, enquanto ela faz
aparecer a gênese da di
ferença numa operação q
ue se pode dizer situar-
' se na linha de uma simpli
fcação sempre crescente,
que está num propósito
que é o que leva à linha
de bastões, isto é, à repe
tição do aparentemente
idêntico, que é criado, d
estacado, o que chamo n
ão de símbolo, mas de
entrada no re al como s
ignifcante inscrito - e é i
sso o que quer dizer o
termo primazia da escrit
a, a entrada no real é a fr
ma desse traço repetido
pelo caçador primitivo,
da diferença absoluta en
quanto ela ali está. Da
mesma forma, vocês n
ão terão dificuldades - v
ocês os encontrarão na
leitura de Frc g
e, embora Fre ge não se
engaje neste caminho, p
or flta
de teoria suficiente do
signifcante - para enco
ntrar no texto de Fege
que os melhores analist
as matemáticos da funçã
o da unidade, sobretudo
Jevons e Schrõder, puse
ram exatamente o acento,
do mesmo modo como
eu fiz, na função do tr
aço unário. Eis o que
me fz dizer que o que
temos de articular aqui
é que, ao inverter, se pos
so dizê-lo, a polaridade
dessa fu nção da unida
de, ao abandonar a unida
de unifcante, a Einheit,
pela unidade distintiva
, a Einzigkeit, levo-os a
o ponto de levantar a

-170 -
Lição de 28 de fe vereiro de 1962

questão, de definir, de articular passo a pass


o a solidariedade do estatuto
do sujeito enquanto ligada àquele traço u
nário, com o fto de que o
sujeito está constituído, em sua estrutura,
onde a pulsão sexual entre
todas as aferições do corpo tem sua função
privilegada.
Sobre o primeiro fato, a ligação do sujeito
com esse traço unário, vou
pôr hoje o ponto final , considerando a via
sufcientemente articulada,
lembrando-lhes que esse fato tão importa
nte em nossa experiência,
posto por Fr eud à frente do que ele chama
de narcisismo das pequenas
diferenças , é a mesma coisa que chamo
de fu nção do traço unário;
pois não é outra coisa senão o fato de que
é a partir de uma pequena
diferença - e dizer pequena difrença não que
r dizer senão essa difrença
absoluta de que lhes fal o, essa difrença des
tacada de toda comparação
possível - é a partir dessa pequena difere
nça , enquanto é a mesma
coisa que o grande I, o Ideal do eu, q
ue se pode acomodar todo o propósito
narcísico; o sujeito se constitui ou não como
portador desse traço unário.
É o que nos permite dar, hoje, nosso primeiro
passo no que constituirá o
objeto de nossa lição seguinte, a saber, a reto
mada das fu nções privação,
fustração e castração. É ao retomá-las, ant
es de tudo, que poderemos
entrever onde e como se coloca a questão da
rlação do mundo do sigicante
com o que chamamos de pulsão sexual, privil
égio, prevalência da fu nção
erótica do corpo na constituição do sujeito.
Aboremo-la um puquinho, blisquemo-la, e
ss questão, pdo da prvação,
pois é o mais simples. Existe um menos a no m
undo, há um objeto que fat
a seu lugar, o que é bem a concepção mais abs
urda do mundo, se se dá seu
sentido à palava real. O que pode estar faltan
do no ra?
Da mesma forma, é em razão da difculdad
e dessa questão que vocês
vêem ainda, em Kant, arrastarem-se, se pos
so dizer assim, bem para lá
da intuição pura, todos aqueles velhos restos
de teologia que o entravam,
e sob o nome de concepção cosmológica. "
ln mundo non est casus",
lembra-nos ele, nada de casual, de ocasional.
"ln mundo non estfatum",
nada é de uma ftalidade que estaria além de
uma necessidade racional.
"ln mundo non est saltus", não há nada d
e salto. "ln mundo non est
hiatus", e o gande refutador das imprudên
cias metafsicas encarrega
se dessas quatro denegações, em relação à
s quais lhes pergunto se na
nossa perspectiva elas podem aparecer como
outra coisa senão o próprio
estatuto, invertido, daquilo de que nos ocu
pamos sempre: casos, no
sentido próprio do termo; fa tum , flando pr
opriamente, já que nosso

-171 -
A Identicação

inconsciente é oráculo, ta
ntos hiatus quanto há de
signifcantes distintos,
tantos saltos qu�nto se
produz de metonfmias .
É porque há um sujeito
que se marca a si mesm
o ou não com o traço un
ário, que é 1 ou -1, que
pode haver um -a, que
o sujeito pode identifcar
-se com a bolinha do
neto de Freud e especi
almente na conotação d
e sua flta, não há, ens
privativum. Obviament
e, há um vazio e é daí q
ue vai partir o sujei to :
leerer Gegenstand ohne
Begriff.
Das quatro definiçõe
s do nada que Kant dá
e que retomaremos na
próxima lição, só uma se
mantém com rigor: há ali
um nada. Observem
que no quadro que lhes de
i dos três termos, castraçã
o, fr ustração, privação,
a contraparti da , o agente
possível, o sujeito propria
mente falando imagnáro
do qual pode derivar a p
rivação, a enunciação d
a privação, é o sujeito
da onipotência imaginári
a , isto é, da imagem inv
ertida da impotência.
Ens rationis, leerer Begrif
f ohne Gegenstand, conc
eito vazio sem objeto,
puro conceito da possibil
idade, eis o quadro em q
ue se situa e aparece
o ens privativum.
Kant, sem dúvida , não d
eixa de ironizar sobre o u
so puramente formal
da fórmula que parece
ser óbvia: todo real é p
ossível. Quem dirá o
contrário? Fo rçosament
e! E ele dá o passo mais
ousado, fa zendo-nos
notar que, portanto, alg
um real é possível, mas
que isso pode querer
dizer também que algum
possível não é real, que
há possível que não é
real. Da mesma forma, s
em dúvda, o abuso filosó
fico que se pode fazer
disso é aqui denunciado
por Kant. O que nos imp
orta é que percebamos
que o possível de que
se trata aqui não é nad
a senão o possível do
sujeito. Só o sujeito pod
e ser esse real nega tiva
do por um possível que
não é real. O -1, consti
tutivo do ens privativu
m, nós o vemos assim
ligado à estrutura a mais
primitiva de nossa experi
ência do inconsciente,
na medida em que ela é
aquela, não do interdito,
nem do dito que não,
mas do não-dito, do po
nto onde o sujeito não e
stá mais para dizer se
ele não é mais mestre des
sa identifcação ao 1, ou d
essa ausência repentina
do 1, que poderia mar
cá-lo. Aqui se encontra
sua força e sua raiz. A
possibilidade do hiatus,
do saltus, casus, factus,
é justamente aquilo
que espero, a partir da p
róxima sessão, mostrar-
lhes : qual outra forma
de intuição pura e mes
mo espacial está especi
almente implicada na
função da superfcie, en
quantu a creio capital, p
rimordial, essencial a
toda articulação do suje
ito que poderemos form
ular.

-172 -
LIÇÃO XI I
07 de março de 1962

Ao reagupar os pensament
os difceis aos quais estamos s
endo conduzidos,
em torno dos quais deixei v
ocês da última vez , começ
ando a abordar
pela privação o que conce
rne ao ponto mais central
da estrutura da
identifcação do sujeito, ao r
eagrupar tais pensamentos
eu me apreendi
partindo novamente de alg
umas observações introdut
órias. Não é do
meu costume retomar abs
olutamente ex-abrupto o fi
o interrompido;
essas observações faziam e
co a alguns desses estranh
os personagens
de que lhes falava, na última
vez, e que chamávamos de f
lósofs, grandes
ou pequenos. Essa observa
ção era mais ou menos esta
, no que nos diz
respeito: que o sujeito se en
gana. Está aí, com certeza,
para todos nós,
analistas , tanto quanto fló
sofos, a experiência inaug
ural. Mas se ela
nos interessa, a nós, é clar
amente, e direi, exclusiva
mente pelo fato,
que ele pode se dizer. E es
se dizer se demonstra infnit
amente fe cundo
e mais especialmente fecund
o na análise que alhures , ao
menos gostamos
de supor assim. Ora, não es
queçamos de que a observa
ção foi fe ita por
eminentes pensadores, que
o que está em questão, no c
aso, é o real, a
via dita da retifcação dos
meios do saber poderia b
em - é o mínimo
que se pode dizer - afasta
r-nos indefinidamente do
que se trata de
atingir, isto é, do absoluto,
pois, trata-se simplesment
e do real. Tr ata
se disso. Tr ata-se de atingir
o que é visado como indepe
ndente de todas
as nossas amarras; na proc
ura do que é visado, é isso q
ue se chama de
absoluto; portanto, soltem
tudo até o fi m, toda sobrec
arga. É sempre
uma maneira mais sobrecar
regada que tende a estabel
ecer os critérios
da ciência, na perspectiv
a flosófca, entendo eu. N
ão estou flando

-173 -
A Identicação

daqueles eruditos que, be


m longe do que se crê, de
nada duvidam. É nersa
medida que somos os mais
seguros disso que eles ao
menos abordam: o real.
Na perspectiva filosóf
ca da crítica da ciência,
devemos fzer algumas
observações ; e principal
mente o termo do qual de
vemos desconfar mais
para avançarmos nessa
crítica, é o termo aparên
cia, pois a aparência
está muito longe de ser
nossa inimiga, digo, qua
ndo se trata do reaL
Não fui eu que fiz encar
nar o que lhes digo, ne
ssa simples pequena
imagem. É bem na apar
ência dessa figura que
me é dada a realidade
do cubo, que ela me salta
aos olhos como realidade.
Ao reduzir essa imagem
à função de ilusão de ópti
ca, desvio-me simplesme
nte do cubo, isto é, da
realidade que esse artifci
o é fito para lhes mostrar
. O mesmo se dá na
relação com uma mulher
, por exemplo. To do apr
ofndamento científco
dessa relação irá, no fm
das contas, àquela das
fórmulas, como aquela céle
bre, que certamente vocês
con hecem, do coronel Bra
mble, que reduz o objeto
em questão, no caso a
mulher, àquilo que ele é,
justaente, do pnto de vsta
cientco: um agomerado
de albuminóides, o que, e
videntemente, não está
muito de acordo com o mu
ndo de sentimentos que
são relacionados ao dito o
bjeto.
De toda maneira, está p
erfitamente claro que
o que chamarei, se vocês
permitirem, de vertigem
do objeto no desejo, essa
espécie de ídolo, de adora
ção que pode prosternar
nos, ou pelo menos nos
curvar diante de uma tal
mão, digamos mesmo,
para melhor nos fzermo
s entender sobre o assu
nto que a experiência
nos oferece, que não é p
orque é sua mão, posto
que num lugar mesmo
menos terminal, um pouco
mais acima, alguma penug
em sobre o antebraço
pode tomar para nós, de
repente, este gosto único
que nos fz de algum
modo tremer, diante dess
a apreensão pura de sua
existência. É evidente
que isso tem mais relaç
ão com a realidade da
mulher que qualquer
elucidação daquilo que s
e chama de atração sexu
al , na medida em que
elucidar a atração sexu
al coloca em princípio q
ue se trata de pôr em
questão seu engodo, en
quanto esse engodo é su
a própria realidade.
Se o sujeito se engan
a, pois, ele pode ter razã
o do ponto de vista do
absoluto. Acontece, tod
avia, que mesmo para n
ós, que nos ocupamos
do desejo, a palavra err
o mantém seu sentido.
Aqui, permitam-me dar
aquilo que concluí, de m
inha parte, a saber, dar-
lhes como acabado o

-174 -
Lição de 7 de março de 1962

futo de uma refexão cuja seq üência


é precisamente o que eu vou
desenvolver hoje. Vou tentar mostrar-
lhes o bom fundamento dessa
reflexão: é que não é possível dar um
sentido a esse termo erro, em
qualquer domínio e não apenas no nos
so - é uma afirmação ousada,
mas isso supõe que considero que, par
a empregar uma expressão à
qual retornarei, no curso de minha liçã
o de hoje, dei a volta bem em
torno dessa questão - se trata apenas, se
a palavra "erro" tem um sentido
para o sujeito, de um erro em sua conta.
Dito de outro modo, para todo
sujeito que não conta, aí não poderia ha
ver erro. Não é uma evidência.
É preciso ter tateado num certo número
de direções para se aperceber
que se crê - é aqui que estou e peço-lhes
que me sigam - que só há isso
que abre os impasses, os divertículos no
s quais nos engajamos em torno
dessa questão. Isso, evidentemente, que
r dizer que a atividade de contar,
para o sujeito, começa cedo. Te nho feito
uma ampla releitura de alguém,
e todos sabem que não tenho grandes
inclinações por ele, apesar da
estima e do respeito que merece sua
obra e, além disso, do charme
incontestável que sua pessoa espalha, r
efro-me ao Sr. Piaget; mas não
é para desaconselhar quem quer que sej
a de lê-lo ! Fiz, então, a releitura
de La genese du nombre chez l' enfant
. É de causar confusão que se
possa crer poder detectar o momento
em que aparece num sujeito a
função do número fzendo-lhe perguntas
que, de algum modo, implicam
suas respostas , mesmo se tais pergunt
as são feitas por intermédio de
um material do qual se imagne que exclua
o caráter orientado da pergunta.
Pode-se dizer uma só coisa, que, no fi
m das contas, se trata antes de
um engodo nessa maneira de proceder
. Aquilo que a criança parece
desconhecer não está absolutamente s
eguro de que não se relacione
com as próprias condições da experiên
cia. Mas a frça desse terreno é
tamanha que não se pode dizer que
não haja muito a instruir, não
tanto no pouco que é, enfm, recolhido dos
pretensos estágos da aquisição
do número na criança, quanto das refex
ões fundamentais do Sr. Piaget
- que é certamente muito melhor lógco q
ue psicólogo - dizendo respeito
às relações da psicologia e da lógica. E,
sobretudo, é o que torna uma
obra infelizmente inencontrável, public
ada pela editora Vrin em 1942,
que se chama Classe, relation et nombr
es, uma obra muito instrutiva,
porque nela, sim, se valorizam as relaç
ões estruturais, lógicas , entre
classe, relação e números, a saber, tudo
o que se pretende a seguir ou
previamente encontrar na criança que m
anifstamente já está construído

-175 -
A Identiicação

a priori. E, obviamente
a experiência nos mostr
a ali apenas o que se
organizou para encontr
ar antes de tudo.
É um parêntese que c
onfrma isso, que o sujeit
o conta bem antes de
aplicar seus talentos a u
ma coleção qualquer, ai
nda que, é claro, uma
de suas primeiras atividad
es concretas, psicológcas,
seja constituir coleções.
Mas ele está implicado co
mo sujeito na relação dita
do cômputo, de maneira
muito mais radicalment
e constituinte do que se
quer imaginar, a partir
do fncionamento do seu
sensorium e de sua motri
cidade. Uma vez mais
aqui, o gênio de Freud u
ltrapassa a surdez, se p
osso dizer, daqueles a
quem ele se dirige com t
oda a amplidão das adve
rtências que ele lhes dá
e que entram por um ou
vido e saem pelo outro.
O que provavelmente
justifca o apelo ao tercei
ro ouvido místico do Sr.
Thedor Reik, que não
estava naquele dia muito
inspirado, pois para quê
um terceiro ouvido se
já não se ouve nada com
os dois que se tem i O se
nsorium em questão,
quanto ao que Feud nos
ensina, serve para quê?
Será que isso não quer
nos dizer que só serve p
ara isso, para nos mostra
r que o que já está ali
no cálculo do sujeito é
bem real, existe bem?
Em todo caso, é o que
Feud diz, é com ele que
começa o julgamento de
existência, isso serve
para verifcar as contas,
o que, de qualquer man
eira, é uma posição
estranha para alguém que
é tido como ligado em linh
a direita ao positivismo
do século XIX.
Então, re tomemos as
coisas onde as havíamos
deixado, já que se trata
de cálculo, e da base, e
do fundamento do cálculo
para o sujei to : o traço
unário. Po is, obviament
e, se começa tão cedo a
função do contar, não
andemos demasiadamen
te depressa quanto ao qu
e o sujeito pode saber
de um número mais eleva
do. Parece pouco pensáve
l que 2 e 3 não venham
bastante depressa, mas, q
uando nos dizem que certa
s tribos ditas primitivas
do lado da desembocadur
a do Amazonas só pudera
m descobrir recentemente
a virtude do número quat
ro e lhe erguerem altares,
não é o lado pitoresco
dessa história de selvag
ens que me surpreende; i
sso me parece mesmo
óbvo, pois, se traço uná
rio é o que lhes digo, a s
aber, a diferença, e a
dierença não somente q
ue suporta, mas que pre
ssupõe a subsistência,
ao lado dele, de 1 + 1 +
1 ... [um, mais um, e ain
da um) o mais estando
ali apenas para marcar a
subsistência radical dess
a diferença. Ali onde
começa o problema, é ju
stamente que se possa
adicionar-lhes, dito de
outro modo, que dois, q
ue três têm um sentido.
Visto desse ponto de
vista, isso apresenta dific
uldades, mas não há por
que se espantar com

-176 -
Lição de 7 de março de 1962

isso. Se vocês tomarem as coisas no sen


tido contrário, ou seja, se vocês
partirem de 3, como o fz John Stuart Mill
, vocês não conseguirão nunca
reencontrar 1, a dificuldade é a mesma.
Pa ra nós, aqui - assinalo-lhes isso de pa
ssagem - com nossa maneira
de interrogar os efitos da linguagem em t
ermos de efeitos de signifcante,
enquanto esse efeito de signifcante, es
tamos habituados a reconhecê
lo no nível da metonímia, ser-nos-á mais
simples do que a um matemático
solicitar a nosso aluno reconhecer em t
oda significação de número um
efeito de metonímia virtualmente surgid
o de nada mais e, como de seu
ponto eletivo, da sucessão de um núm
ero igual de signifcantes. É na
medida em que algo se passa que faz s
entido da simples sucessão de
extensão x de um certo número de traç
os unários, que o número três,
por exemplo, pode fzer sentido, a sab
er, que faz sentido - que isso
tenha ou não sentido; que escrever a
palavra and em inglês, talvez
esteja aí ainda a melhor maneira que t
enhamos de mostrar a aparição
do número 3, porque há três letras. A
nosso traço unário, não nos é
necessário, no que nos toca, pedir-lhe ta
nto, pois sabemos que, no nível
da sucessão freudiana , se vocês me p
ermitem essa fó rmula, o traço
unário designa algo que é radical par
a a experiência originária, é a
unicidade, como Lal, da volta na repeti
ção.
Penso ter marcado sufcientemente, pa
ra vocês, que a noção da fu nção
da repetição no inconsciente se disting
ue absolutamente de todo ciclo
natural, no sentido de que o que é acen
tuado não é seu retorno, é que
o que é procurado pelo sujeilo, é sua u
nicidade significante e enquanto
uma das voltas da repetição - se pode
mos dizer - marcou o sujeito que
se põe a repetir o que ele não poderia
evidentemente repetir, pois isso
nunca será mais que uma repetição, ma
s com o objetivo, com o desígnio
de fazer ressurgir o unário primitivo de
uma de suas voltas. Com o que
acabo de lhes dizer, não me é necess
ário acentuar isso, é que isso já
funciona antes que o sujeito saiba cont
ar. Em todo caso, nada implica
que ele tenha necessidade de contar de
mais as voltas do que ele repete,
pois ele o repete sem sabê-lo. Não é m
enos verdadeiro que o fato da
repetição está enraizada neste unário or
iginal, que, como tal, este unário
está estreitamente colado e co-
extensivo à própria estrutura do sujeito,
enquanto ele é pensado como repetind
o, no sentido freudiano.
O que vou mostrar-lhes hoje, por meio
de um exemplo e com um modelo
que vou introduzir, o que vou lhes mostrar
hoje é isso: que não há nenhuma

-177 -
A Ie ntiicação

necessidade de que ele


saiba contar para que se
possa dizer e demonstrar

um erro de conta. Nenh


uma necessidade de q
ue ele saiba, sequer qu
e
procure contar, para que
esse erro de conta seja
constituinte dele, sujeito,
enquanto tal, ele é o err
o. Se as coisas são com
o lhes digo, vocês deve
m
estar dizendo a si mes
mos que esse erro pod
e durar muito tempo so
bre
tais bases, e isso é uma
verdade. É tão verdadeir
o que não é somente no
indivíduo que isso vai
atuar em seu efeito, os
efeitos disso atuam no
s
caracteres mais radicais
do que se chama de pen
samento. Tomemos, por
um instante, o tema do p
ensamento, quanto ao qu
al existe, de toda maneir
a,
lugar para uma certa p
rudência; vocês sabem
que, a esse respeito, a
prudência não me falta;
não é tão certo que se
possa validamente refri
r
se ao pensamento de um
a frma que seja consider
ada como uma dimensã
o
propriamente flando gen
érica. Tomemo-lo, todavi
a, como tal: o pensament
o
da espécie humana. E
stá bem claro que não
fi por nada que, mais d
e
uma vez, avancei-me,
de uma forma inevitáv
el, a pôr em causa aqu
i,
<lcs<le o começo do m
eu discurso deste ano,
a fu nção <la classe e s
ua
relação com o universal,
a tal ponto que é, de alg
uma maneira, o inverso
e o oposto de todo esse
discurso que tento trazer
diante de vocês. A esse
respeito, lembrem-se ap
enas do que eu tentava
mostrar-lhes a propósito
do pequeno quadrante
exemplar, sobre o qual
tentei rearticular, diant
e

afirmativa e negativa.
Unidade e totalidade a
parecem aqui na tradiç
ão como solidáras, e
não é por acaso que volt
o a elas sempre para del
as fazer surgr a categori
a
fundamental. Unidade e
totalidade, ao mesmo te
mpo solidárias, ligadas
uma a outra nessa rel aç
ão que se pode chamar
de rel ação de inclusão,
a
o que fnda a totalidade
como tal, ao lançar a un
idade em direção a ess
e

todo. É em torno disso q


ue prossegue esse mal-
entendido dentro da lógc
a
dita das classes, o mal-
entendido secular da ext
ensão e da compreensã
o
sobre o qual, parece, a tr
adição efetivamente aind
a se apóia, se é verdade,
ao tomar as coisas na
perspec tiva, por exem
plo, da metade do sécu
lo
XIX, sob a pluma de u
m Hamilton, se é verd
ade que só se começo
u
francamente a articulá-
lo a partir de Descarte
s e que a lógca de Por
t
Royal, vocês sabem, é ca
lcada sobre o ensinament
o de Descartes. Ademais,

-178-
Lição de 7 de março de 1962

isso não é mesmo verdade, pois ela


existe há muito tempo, e desde o
próprio Aristóteles, essa oposição entr
e extensão e compreensão. O que
se pode dizer é que ela nos causa, no
que diz respeito ao manejo das
classes, dificuldades sempre mais irres
olvidas, de onde todos os esfrços
que fz a lógca para colocar o nervo do p
roblema alhures: na quantifcação
proposicional, por exemplo. Mas por
que não ver que, na estrutura da
própria classe como tal, um novo pont
o de partida nos é ofrecido se, na
relação de inclusão, substituímos uma r
elação de exclusão como a relação
radical? Dito de outro modo, se nós con
sideramos como logcamente orgal
lógico de classe média, é que o verdad
eiro fundamento da classe não é
nem sua extensão, nem sua compreen
são, que a classe supõe sempre a
classificação. Dito de outro modo, os
mamífros, por exemplo, para fzer
me compreender imediatamente, são aq
uilo que se exclui dos vertebrados
pelo traço unário mama . O que isso q
uer dizer? Quer dizer que o fto
mama, e que se diz: não pode acont
ecer que flte a mama. Eis o que
constitui a classe dos mamíferos. Vejam
bem as coisas ao pé do muro, ou
seja, reabram os tratados para dar a vo
lta em torno dessas mil pequenas
aporias que lhes ofrece a lógica forma
l, para vocês se aperceberem de
que é a única defnição possível de uma
classe, se vocês quiserem de fto
assegurar-lhe seu estatuto universal,
enquanto ele constitui ao mesmo
tempo, de um lado, a possibilidade de
sua inexistência, sua inexistência
possível com essa classe, pois vocês p
odem também, e é válido, fltando
ao universal, defnir a classe que não
comporta nenhum indivíduo, o
que não deixará de ser uma classe c
onstituída universalmente, com a
conciliação, digo, dessa possibilidade
extrema com o valor normativo de
todo julgamento universal, enquanto ele
só pode transcender toda infrência
indutiva, ou seja, saíd A
a da experiência.
Esse é o sentido do pequeno quadran
te que
eu havia representado a -1
propósito da classe, a --
I)
1{
Primeiramente, o sujeito constitui
a ausência

de tal traço. Como tal, ele próprio+)


é o quarto
no alto, à direita. O zoólogo, se vocês
me peritem

ir tão longe, não corta a cla


sse dos mamíferos
.
na totalidade assumida da
mama materna: é

-179 -
A Identiicação

porque ele destaca a m


ama que pode identifcar
a ausência de mama.
O sujeito como tal é -1. É
a partir daí, do traço unári
o enquanto excluído ,
que ele decreta que há u
ma classe onde universal
mente não pode haver
ausência de mama: - (- 1).
E é a partir disso que tudo
se ordena, sobretudo
nos casos particulares,
para todos e qualquer u
m, há ou não há. Uma
oposição contraditória est
abelece-se em diagonal,
e é a única verdadeira
contradição ·q ue subsiste
no nível do estabeleciment
o da dialética universal
particular, negativa-
afirmativa, pelo traço uná
rio. Tu elo se ordena , poi
s,
para todos e cada um, 1
10 nível in ferior, há ou n
ão h;\, e isso só pode
existir na medida em qu
e é constituído, pela excl
usão do traço, o nível
do vale-tudo ou valend
o como tudo no nível s
uperior. É, portanto, o
sujeito, como era ele se
esperar, que introduz a p
rivaçáo e pelo ato de
enunciação, o qual se for
mula essencialmente assi
m : seria possível que
houvesse
- Ne que não é ne
mama?
gativo, ne que é es
tritamente da
mesma natureza do que
se chama expletivo na gr
amática fancesa. Seria
possível que houvesse m
ama? Não possível ...
de toda enunciação do s
ujeito, no que concerne
o real.
No primeiro quadrant
e (1), trata-se de preserv
ar os direitos do nada ,
no alto, porque é ele que
cria, embaixo, o pode ser,
isto é, a possibilidade.
Longe de se poder dizer
como axioma - e tal é o e
rro espantoso de toda
a dedução abstrata do tra
nscendental - longe de se
poder dizer que todo
real é possível, é soment
e a partir do não possível
que o real ganha lugar.
O que o sujeito busca é e
sse real enquanto justam
ente não possível; é a
exceção, e esse real exist
e, obviamente. O que se p
ode dizer é que só há,
justamente, o não possív
el na origem de toda enun
ciação. Mas isso se vê
na medida em que é do
enunciado do nada que
ela parte. Isso, para
dizer a verdade, está já
assegurado, esclarecido
cm minha enumeração
trplice: privação - frustra
ção - castração, tal com
o eu anunciara que a
desenvolveríamos outro
dia.
E alguns se preocupam
que eu não dê lugar à V
e rwerfung . Ela está
lá, antes, mas é impossí
vel partir dela de uma m
aneira dedutível. Dizer
que o sujeito constitui-
se primeiramente como
-1 é algo onde vocês
podem ver que efetivame
nte, como era de se espe
rar, é como verworfe n
que nós o vamos encont
rar, mas para perceber q
ue isso é verdade será
preciso dar uma volta in
crível. É o que vou inici
ar agora.
Para fzê-lo, é preciso
que eu desvende a bate
ria anunciada, o que
não se faz sem estremec
imento, vocês podem ima
ginar o quanto, e que

-180 -
Lição de 7 de março de 1962

eu tire da minha manga para vocês u


ma das minhas reviravoltas, sem
dúvida longamente preparada. Quero
dizer que, se vocês procurarem
no relatório de Roma, já encontrarão
em alguma parte o lugar disso
indicado ali: flo da estrutura do sujeito
como a de um anel. Mais tarde,
quero dizer, no ano passado, e a prop
ósito de Platão - e vocês o vêem
sempre em relação com o que se trata,
nesse momento, ou seja, a classe
inclusiva - vocês viram todas as reser
vas que achei ter de introduzir a
propósito dos diferentes mitos do Banq
uete, tão intimamente ligados ao
pensamento platônico, 110 que diz resp
eito à fu nçüo da esl'era. A esfera ,
esse objeto obtuso, se posso assim d
izer, basta olhar para ela, vê-la !
Ta lvez seja uma boa fo rma , mas, co
mo ela é tola ! Ela é cosmológica,
tudo bem. A natureza é suposta mos
trar-nos muitas delas, mas nüo
tantas assim, quando a gente olha de m
ais perto; e as que ela nos mostra,
nós nos apegamos a elas. Exemplo: a
lua, que, no entanto, seria de um
uso bem melhor se nós a tomássemos c
omo exemplo de um objeto unário.
Mas deixemos isso de lado. Esta nost
algia da esfera que nos fa z, com
um Von Uexküll, arrastar para dentro d
a própria biologia essa metáfora
do We lt, innen e um, eis o que constit
uiria o organismo. Será que é
devamos satisfazer-nos com a correspon
dência, da coaptação desse innen

que está, de fato, o problema, e já so


mente no nível em que estamos ,
que não é do biólogo, mas do analist
a do sujeito. O que faz o Wc lt lá
dentro? É o que me pergunto. Em todo
caso, pois é necessário que , ao
passar por aqui, nós nos isentemos d
e não sei qual homenagem aos
biólogos, perguntarei por que, se é verd
ade que a imagem esférica tenha
de ser considerada aqui como radical
, que se pergunte então por que
esta blástula só cessa quando se gastr
ula, e que, sendo gastrulada , ela
só esteja contente quando ela tiver re
dobrado seu orifício estomático
por um outro, a saber, de um buraco
do cu? E por que, também, num
certo estágio do sistema nervoso, ele
se apresenta como uma pequena
trompa aberta nas duas extremidad
es para o interior? Sem dúvida,
isso se fe cha, e mesmo está muito be
m fchado, mas isso, vocês verão,
não é para nos desencorajar, pois aba
ndonarei desde já este caminho
dito da Naturwissenschaft . Não é isso
que me interessa agora e estou
bem decidido a levar a questão para
outro lado, mesmo se eu devo,

-181 -
A Identiicação

para isso, lhes parecer m


e enfiar, é o caso de dizê-
lo, em meu toro. Pois
é do toro que vou falar-
lhes hoje.
A partir de hoje, vocês
estão vendo, abro delibe
radamente a era dos
pressentimentos. Num ce
rto tempo , eu gostaria de
encarar as coisas sob
o dublo aspecto do a tor
to e a direito, e muitas o
utras coisas que lhes
são oferecidas. Te ntemo
s agora esclarecer o que l
hes vou dizer. Eu acho
que vocês sabem o que
é um toro. Vo u fzer um
desenho grosseiro. É
algo com que se brinca,
quando é fe ito de borrac
ha. É cômodo; um toro

engendrada pela revolu


ção de uma circunfrênci
a em torno de um eixo
situado em seu plano. A
circunfrência gira; no fim
, você está envolvido
pelo toro. Acho até que e
le foi chamado de bambo
lê. O que gostaria de
ressaltar aqui é que est
e toro - flo no sentido g
eométrico estrito do
termo , isto é, segundo
a defnição geométrica -
é uma superfcie de
revolução, é a superfci
e de revolução deste ci
rculo em torno de um
ei_xo, e o que é engendr
ado é uma superfcie fech
ada. Isso é importante
porque vem encontrar-se
com algo que lhes anunci
ei, numa conferência
fra da série , em relaç
ão ao que lhes digo aqu
i, mas algo a que me
tenho referdo desde ent
ão, ou seja, o acento qu
e entendo pôr sobre a
superfcie na função do s
ujeito. Hoje em dia é mo
da encarar quantidade
de espaços com multidões
de dimensões. Devo dizer-
lhes que, do ponto de
vista da reflexão matemátic
a, pede-se que não se acre
dite nisso sem reservas.
Os flósofos, os b
ons, aqueles que deixam
atrás de si um cheiro bom
de gz,
como o Sr. Alain, dirão a v
ocês que já a terceira dime
nsão, ora, está bastante
claro que, do ponto de vi
sta que eu avançava há
pouco sobre o real, é
completa mente suspeita.
Em todo caso, para o sujei
to duas bast, acreditem
me. Isso explica minhas r
eseras sobre o termo psic
ologia das profndezas
e não nos impedirá de da
r um sentido a tal lermo

__


-182 -
Lição de 7 de março de 1962

Em todo caso, para o sujeito, tal como


vou defni-lo, dizem vocês que
este ser infnitamente plano que fzia,
penso, a alegria de suas aulas
de matemática, quando vocês estudav
am flosofa, o sujeito infnitamente
plano, dizia o profssor, como a classe
era bagunceira, e eu mesmo o
era, não se ouvia tudo. É aqui, ora, or
al É aqui que nós vamos avançar
no sujeito infnitamente plano, tal como o
podemos conceber, se quisermos
dar o seu valor verdadeiro ao fato da i
dentifcação tal como Freud no-lo
promove. E isso terá ainda muitas van
tagens, vocês verão, pois, enfm,
se é expressamente à superfcie que l
hes peço aqui de se referirem é
pelas propriedades topológicas que el
a vai estar em condições de lhes
demonstrar. É uma boa superfcie, voc
ês vêem, pois ela preserva, direi
necessariamente, ela não poderia s
er a superfcie que ela é se não
houvesse um interior. Conseqüenteme
nte, tranqüilizem-se, não subtraio
a vocês nem ao volume, nem ao sóli
do, nem a este complemento de
espaço do qual vocês certamente têm nec
essidade, paa respira. Simplesmente
interior, se vocês não consideram qu
e meu modelo é fe ito para servir
no nível simplesmente das propriedade
s da superfície, vocês vão, posso

justamente no que vou lhes mostrar


de sua topologia, do que ela traz
plano. E, se vocês se puserem a tranç
ar coisas no interior, a ter levado
que ela tem a aparência de se opor a s
i mesma, vocês vão perder todas
vão ver o nervo, o tempero e o sal. C
onsistem essencialmente numa
palavra suporte, que me permiti introd
uzir sob frma de adivinhação, na
conferência ele que falava, há pouco; e e
ssa palavra, que não podia aparecer
a vocês, naquele momento, cm [lacs ).
u verdadeiro sentido, é o laço
Vocês vêem que, à medida que avançam
os, eu reino sobre minhas palavas;
durante um certo tempo, eu enchi os
ouvidos de vocês com a lacuna,
agora lacuna se reduz a laço.
O toro tem essa vantagem considerável
sobre uma superfície, todavia
bastante boa para se degustar que se
chama esfera, ou simplesmente
plano, de não ser de frma alguma Um
welt quanto aos laços, quaisquer
que sejam. Laços é entrelaçamento, é
lacis, que vocês podem traçar
em sua superfície. Dito de outro mod
o, vocês podem, sobre um toro,

-183 -
A Identiicação

assim como sobre qual


quer outra superfície, fa
zer um pequeno círculo
,
e depois, como se diz, p
or encolhimentos progre
ssivos, vocês o reduze
m
a nada, a um ponto. Ob
servem que, qualquer q
ue seja o laço que você
s
situam assim, em um pl
ano ou na superfície de
uma esfra, será sempre
possível reduzi-lo a u
m ponto, e tanto é qu
e, como nos diz Kant,

uma estética transcend
ental, acredi to. Simple
smente creio que a del
e,
Kant, não é correta, jus
tamente porque é uma
estética transcendental
de um espaço que não
é espaço de início, e e
m segundo, onde tudo
repousa sobre a possibi
lidade da redução do q
ue quer que seja traçad
o
à superfcie, o que car
acteriza essa estética,
de maneira a poder s
e
reduzir a um ponto, de
maneira que a totalidad
e da inclusão que defin
e
o círculo possa reduzir-
se à unidade evanesce
nte de um ponto qualqu
er
em torno do qual ele s
e concentre, de um m
undo cuja estética é t
al
que, tudo podendo do
brar-se sobre tudo, se
crê sempre poder ter
o
tudo na palma da mão.
Dito de outro modo, q
ue o que quer que seja
que se desenhe ali, eiL
á-se em con<liçúei de
produzir ali essa sorte
<lc
colapso que, quando se
tratar <e significância, s
e chamará de tauLologia
.
Tudo entrando em tudo,
conseqüentemente o pr
oblema se coloca: como
pode acontecer que, co
m construções purame
nte analíticas, possa-
se
chegar a desenvolver
um edifcio que fça tão
bem concorrência ao
real, como as matemáti
cas?
Proponho que se admita
que de uma maneira que
sem dúvida comporta
um escamoteamento, alg
o de escondido que será
preciso trazer, reencontra
r
onde está, coloca-se qu
e há uma estrutura topo
lógica da qual se tratará
de demonstrar em que
ela é necessariamente
a do sujeito, estrutura
que comporta que haja al
guns de seus laços que n
ão possam ser reduzidos
.
É todo o interesse do
moddo do meu toro. É
que, como vocês vêe
m,
basta olhar para ele, h
á sobre esse toro um c
erto número de círculo
s
traçáveis; aquele, já que
se fcharia em si mesmo,
eu o chamarei, simples
questão de denominaçã
o, círculo pleno. Nenhu
ma hipótese sobre o qu
e
está em seu interior, é
uma simples etiqueta q
ue acredito, Deus meu
,
não ser pior que nenhum
a outra, considerando-se
tudo. Hesitei longamente,

chamar isso de círculo


1: ng cndrante, mas Deu
s sabe aonde isso nos
que se chama de sintéti
ca - porque espantamo-
nos especialmente com
isso, ainda que se poss
a enunciar, a priori; ela
s têm o aspecto, não s
e

- 1 84 -
Lição de 7 de março de 1962

sabe onde , não se sabe o quê , de con


ter alguma coisa, e é o que se
chama de intuição; e busca-se seu fnda
mento estético, transcendental
- suponhamos, pois, que toda enunciaç
ão sintética - há certo número
delas no princípio do sujeito e para cons
tituí-lo - se desenrola segundo
um desses círculos, ditos círculos plenos
e que é isso o que melhor nos
dá a imagem daquilo que, no giro dessa
enunciação, é série irredutível.
Não vou limitar-me a esse simples gacejo
, porque teria podido contentar
me em tomar um cilindro infnito; depoi
s, porque se isso se limitasse
ao que se disse, não haveria como ir
mais longe. Metáfra intuitiva ,
geométrica, digamos. Cada um sabe a im
portância que tem toda a batalha
entre matemáticos : ela só se desencadei
a em torno de elementos dessa
espécie. Poincaré e outros sustentam
que há um elemento intuitivo
irredutível, e toda a escola dos axiomáticos
prtende que podemos formalizar
inteiramente a partir de axiomas, de def
nições e de elementos , todo o
desenvolvimento das matemáticas, ist
o é, arrancá-lo a toda intuição
topológica. Fe lizmente, o Sr. Poincar
é percebe muito bem que é na
topologia que se encontra o suco do el
emento intuitivo, e que não se
pode resolvê-lo. E que, eu diria mais,
fora da intuição não se pode
fazer essa ciência que se chama de top
ologia, não se pode começar a
articulá-la, porque é uma grande ciênci
a.
Há gandes verdades primeiras que estã
o ligadas ao redor da construção
do toro, e vou fazê-los apreender algu
ma coisa: sobre uma esfera ou
sobre um plano, vocês sabem que se p
ode desenhar qualquer mapa,
por mais complicado que seja, que se c
hama de geográfco, e que, para
colorir seus domínios, de modo a per
mitir que não se confnda com
seu vizinho , bastam quatro cores. Se
vocês encontrarem uma boa
demonstração dessa verdade verdadeira
mente primeira, yocês poderão
levá-la a quem de direito, porque lhe
darão um prêmio , já que a
demonstração até hoje ainda não foi e
ncontrada. Sobre o toro, não é
experimentalmente que vocês verão, mas
isso se demonstra: para resolver
o mesmo problema, são necessárias s
ete cores. Dito de outro modo,
sobre o toro vocês podem, com a pont
a de um lápis , definir até sete
domínios, e nenhum a mais, sendo est
es domínios defnidos cada um
como tendo uma fonteira comum com
os demais. Significa dizer que
se vocês tiverem um pouco de imaginaç
ão, para vê-los bem claramente,
vocês desenharão tais domínios hexag
onalmente. É facílimo mostrar
que vocês podem , sobre o toro, desenh
ar sete hexágonos e nem um a

-185 -
A Ientificação

mais, cada um tendo c


om os demais uma fron
teira comu111. Isso , c
u
Não é uma bolha, não é
um sopro esse toro; voc
ês vêem como se pode

como construção do e
spírito, ele tem toda a
resistência de um real.

o tiver demonstrado, vo
cês estão no direito de
me opor esse impossíve
l.
Por que não seis? Por q
ue não oito?
Agora, continuemos. Nã
o há apenas aquela arg
ola que nos interessa
como irredutível. Ilá ou
tras que vocês podem
desenhar na superfície
do toro e das quais a m
enor é o que podemos c
hamar de o mais interno
desses círculos, que ch
amaremos de círculos
vazios. Eles dão a volt
a
em torno do buraco. Po
demos fzer muitas cois
as com ele. O que há d
e
vocês podem esvaziá-
lo - o toro de vocês, co
mo uma bóia - e colocá
-lo

redondo, bem igual. O


que importa é essa estr
utura esburacada. Você
s
poderão enchê-lo nova
mente cada vez que tiv
erem necessidade, ma
s
ele pode , como a girafnh
a do pequeno Ha ns,
que fzia um nó com s
eu pescoço, torcer
se. Há uma coisa que l
hes quero mostrar
imediatamentverdade
a
e. Se é ue

enunciação sintética, enq


uanto ela se mantém
não lhes parece que i
sso vai ser fácil de

primeiramente desenha
ra em cheio, depois
cm pon tilhados, isso vai d
ar uma bobina. Vejam,
portanto, a série elas v
oltas que fazem, na
re petição unária, com q
ue o que volta seja o
que caracteriza o sujeito p
riário em sua relação
significante de automatis
mo de repetiç.o. Por
que não levar a bobinage
m até o fim, até que
essa pequena serpente d
e bobina morda sua
própria cauda? Não é uma
imagem a se estudar
como analista que existe
sob a pluma do Sr.
]ones. O que se passa no
fnal desse circuito?
-186 -
Lição de 7 de março de 1962

Ele se l'eelia. E11co11lra111os, aliás, ali, a


posslbllltlade de co11dllar o que há
suposto, de implicado e de úl timo retorno
, no sentido da Natunissenschaf,
com o que sublinho concernente à fu nçã
o necessariamente unária do Todo.
Isso não lhes aparece aqui, tal como o
represento para vocês, mas já
lá, no começo, e na medida em que o
sujeito percorre a sucessão das
voltas, ele necessariamente se enga
nou de 1 na sua conta, e vemos
aqui reaparecer o -1 inconsciente, em
sua função constitutiva. Isso pela
simples razão de que a volta que ele
não pode contar é a que ele fz ao
fazer a volta do toro, e vou ilustrá-lo para
vocês de uma maneira importante,
através do que é próprio para in trodu
zi-los na fu nção que vamos dar
aos dois tipos de laços irredutíveis, a
queles que são círculos plenos e
aqueles que são círculos vazios, dos
quais vocês já adivinham que o
segundo deve ter alguma relação com a f
unção do desejo. Pois, em relação

círculos plenos, vocês devem perceber


que
presos nos anéis dessas argolas e que u
nem
entre si todos os círculos da demanda, d
eve
haver, bem aí, alguma coisa que tenha rel
ação
objeto da metonímia, enquanto
ele é esse objeto. Eu não disse que é o de
sejo
que está simbolizado por tais círculos,
mas
o objeto, como tal, que se propõe ao des
ejo.
Isso para lhes mostrar a direção na
qual
avançaremos em seguida. É apenas
um
comecinho.
O ponto sobre o qual quero concluir, par
a
que vocês sintam que não há artifício al
gum
nessa espécie de volta saltada, que pa
reço
querer fazer passar para vocês, como
que
por uma escamoteação, quero mostrá
-lo a
vocês, an tes de deixá-los. Quero mo
strá
lo, antes de deixá-los, a propósito de
uma

mostrá-lo fazendo um desenho no qu


adro
de tal sorte pron to para dar a volta comp
leta

-187 -
A Identiicação

em torno do toro. Ele vai


passear no exterior do b
uraco central e depois
voltar pelo outro lado.
Uma maneira melhor d
e fzer vocês sentirem
isso: vocês tomam o tor
o e uma tesoura, vocês
cortam-no segundo um
dos círculos plenos - ei-
lo aberto como um cho
uriço de duas pontas.
Retomem a tesoura e cort
em ao comprido: ele pode
abrir-se completamente
e estender-se. É uma s
uperfície que é equival
ente à do toro. Basta,
para isso , que a definam
os assim : que cada uma
de suas bordas opostas
tenha uma equivalência i
mplicando a continuidad
e com um dos pontos
da borda oposta. O que
acabo de desenhar sobr
e o toro desdobrado se
projeta assim.
Ve jam como algo que nã
o é mais do que um únic
o laço vai apresentar
se sobre o toro convenient
emente cortado por esses
dois golpes de tesoura.
E esse traço oblíquo d
efine o que podemos c
hamar de uma terceira
espécie de círculo, mas
que é justamente o círc
ulo que nos interessa,
no que diz respeito a ess
e tipo de propriedade pos
sível que tento articular
como estrutural do sujeit
o, que, ainda que ele ten
ha dado só uma volta,
ele simplesmente deu d
uas, a saber: a volta do
círculo pleno do toro e
ao mesmo tempo a volt
a do círculo vazio; e que
, assim, essa volta que
flta na conta é justamen
te isso que o sujeito incl
ui nas necessidades
de sua própria superfcie
de ser infinitamente plan
o, que a subjetividade
não poderia apreender s
enão por meio de um des
vio : o desvio do Outro.
lhes mostrar como
se pode ima gná-lo de uma
maneira particularmente
exemplar, graças a esse
artifício topológico, ao qu
al, não tenham dúvida,
concedo um pouco mais
de peso que apenas um
artífice, assim como, e
pela mesma razão, pois
é a mesma coisa - que,
ao responder a uma
pergunta que me fizera
m em relação à raiz de
-1, tal como a introduzi
na função do sujeito:
"Será que ao articular a c
oisa assim", perguntaram
-me, "você entende
maniestar outra coisa alé
m de uma pura e simples s
imbolização, substituível
por qualquer outra, ou al
guma coisa que se prend
a mais radicalmente à
própria essência do suj
eito?" "Sim", respondi, "
é nesse sentido que é
necessário entender o
que desenvolvi diante d
e vocês" e é o que me
proponho continuar a de
senvolver, com a forma
do toro.

-188 -
LIÇÃO XIII
14 de março 1962

No diálogo que empreendo


com vocês, há fo rçosamente
hia tus, saltus,
casus, ocasiões, para não f
alar do /a tum. Dito de outr
o modo, ele é
cortado por diversas coisa
s, por exemplo: ontem à n
oite ouvimos a
interessante, a impol'lallle co
municação de Lagachc na s
essão científica
da Sociedade, sobre a subli
mação. Esta manhã, eu ti11
ha vontade de
retomar a partir daquele po
nto, mas, por outro lado, do
mingo eu havia
partido de outro ponto, quero
dizer, de uma espécie de obs
ervação sobre
, evidentemente,
uma investigação condicion
ada por quê? Por enquanto,
por uma certa
perspectiva que chamarei
de perspectiva de uma erót
ica. Considero
isso legítimo, não que sejam
os por natureza essencialme
nte destinados
a fazê-la quando estamos n
o caminho onde ela é exigid
a, quero dizer,
que estamos um pouco ness
e caminho assim como aquel
es que, no curso
dos séculos, meditaram sobre
as condições da ciência estive
ram no caminho
daquilo em que a ciência efet
ivamente tem êxito, donde mi
nha referência
ao astronauta, que tem seu
sentido, na medida em que
aquilo em que
ela tinha êxito certamente nã
o era fo rçosamente aquilo qu
e ela esperava,
até um certo ponto, embora a
s fases de sua investigação e
stejam abolidas,
Écerto que tem gente - empre
gamos esse Lermo

-189 -
A Identificação

dizer, uma classe secun


dária no sentido cm que
cu a entendia da última
vez: alguma coisa funda
da numa certa acepção
anterior. Apesar de tudo,
isso não seria ruim, pois,
em tal perspectiva, os ge
ntios são a cristandade,
e todos sabem que a cr
istandade, como tal, est
á numa relação no tória
com as difculdades do
erótico, a saber: que as
querelas do cristão co
m
Vênus são, todavia, alg
o que é muito difícil de
sconhecer, ainda que s
e
fi nja tomar a coisa, se p
osso dizer, nas coxas.
De fto, se o fundo do cr
istianismo encontra-se
na Revelação paulina,
ou seja, num determina
do passo essencial dad
o nas relações com o p
ai,
se a re lação de amor co
m o pai é o passo essenci
al disso, se ele represen t
a
verdadeiramente a ultrap
assagem de tudo o que a
tradição semita inaugurou
de grande, nessa fndam
ental relação com o pai,
nessa baraka
à qual é de toda forma
difcil desconhecer que
o pensamento de Freu
d
se ata, ainda que de um
a maneira contraditória,
maleditória [maledictoire
]
- não podemos duvidar
disso, pois, se a refrênc
ia ao Édipo pode deixar
a questão aberta, o fto
dele ter terminado seu
discurso sobre Moisés,
como ele o fez, não dei
xa dúvidas de que o fu
ndamento da Revelaçã
o
cristã está, pois, nessa
relação da graça que P
aulo faz suceder à Lei.
A
dificuldade é que o cris
tão não se mantém - e
não sem razão - à altur
a
da Revelação e que, e
ntretanto, ele a vive nu
ma sociedade tal que s
e
pode dizer que, mesmo
reduzidos à forma mais
leiga, seus princípios de
direito são, todavia, o
riundos de um catecis
mo que não deixa de t
er
rel ação com aquela Re
velação paulina. No ent
anto, como a meditação
do Corpo místico não e
stá ao alcance de cada
um, fca aberto um vazi
o
que faz com que pratica
mente o cristão se ache
re duzido a algo que nã
o
é tão normal, fundamen
tal, de não ter re alment
e nenhum outro acesso
ao gozo, como tal, senã
o fzendo amor. É o que
chamo de suas querela
s
com Vênus. Pois, bem e
ntendido, com aquilo co
m que ele está colocado
nessa ordem, tudo se
arranja muito mal no c
ômputo fnal.
Isto que digo é muito se
nsível, por exemplo, qua
ndo se sai dos limites
da cristandade, quand
o se vai às zonas domi
nadas pela aculturaçã
o
cristã, quero dizer não
as zonas que foram con
vertidas ao cristianismo
,
mas as que so freram o
s efeitos da sociedade c
ristã . llei el e me lembra
r
por muito tempo de u
ma longa conversa, tid
a numa noite de 194
7,
com alguém que era m
eu guia para uma viag
em fe ita ao Egito. Era
o
que se chama de um á
rabe. Era, naturalment
e, por suas fu nções, e
também pela zona ond
e vivia, tudo o que há d
e mais incluso na noss
a

-190-
Lição de 14 de março de 1962

cate�oria. Estava muito nítido, cm seu


discurso, esse tipo de efeito de
promoção da questão erótica. Certam
ente, ele estava preparado, por
toda sorte de ressonâncias muito antigas
de sua esfera, a pôr no primeiro
plano da questão da justifcação da existê
ncia o seu gozo; mas, a maneira
como ele o encarnava na mulher tinha tod
as as caracteristicas em impasse
do que se pode imaginar de mais desnud
ado em nossa própria sociedade:
a exigência, em particular, de uma reno
vação de uma sucessão infnita,
devida ao caráter de sua natureza ess
encialmente não satisfatória do
objeto, era exatamente o que fzia o essenc
ial, não apenas de seu discurso, ·
mas de sua vida prática. Personagem,
dir-se-ia num outro vocabulário,
essencialmente desarraigada às norma
s de sua tradição.
Quando se trata do erótico, o que deve
mos pensar de tais normas?
Dito de outro modo: estamos encarregado
s de dar, por exemplo. justifcatva
à subsistência prática do casamen to c
omo instituição através mesmo
de nossas transformações mais revol
ucionárias? Creio que não há
necessidade alguma de todo o esforço d
e um We stermarck para justifcar,
através de toda sorte de argumen tos,
de natureza ou da tradição, a
instituição do casamento, pois, simple
smente, ela se justifca por sua
persistência, que temos visto sob nos
sos olhos, e sob a fo rma mais
nitidamente marcada de traços peque
no-burgueses, através de uma
sociedade que, no início, acreditava poder
ir mais longe no questionamento
das relações fu ndamentais, quero dizer,
na sociedade comunista. Parece
muito certo que a necessidade do cas
amento sequer foi tocada pelos
efeitos dessa revolução. Será que, flando
propriamente, esse é o domínio
ao qual somos levados a trazer a luz?
Não o creio, em absoluto. As
social de nosso condicionamen to; elas
deixam completamente aberto

onde se encontra o sujeito humano, ape


nas por isso que ele é humano,
com os efeitos, as repercussões dessa l
ei do casamento.
O que é que nos dá testemunho disso? M
uito simplesmente a existência
do que nós constatamos, desde que n
os ocupamos do desejo, quero
que se façam nelas em maior ou men
or abundância as construções

e não se vá pensar que lá onde as c


ondições de vida são as mais

-191-
A Identicação

satsftoriamente assegur
adas, nem onde a tradiç
ão está mais assegurad
a,
a neurose seja mais rar
a. Longe de ser assim !
O que quer dizer a neur
ose? Qual é, para nós, a
autoridade, se posso
dizer, da neurose? Isso n
ão está simplesmente lig
ado à sua pura e simples
exstência. A posição é
demasiado fácil naquel
es que, em tais casos,
atrbuem seus efeitos a u
ma espécie de deslocam
ento da humana faqueza
.
Quero dizer que aquilo q
ue se verifca, efetivame
nte, faco na organização
social como tal, é lanç
ado sobre o neurótico,
do qual se diz que é u
m
inadaptado. Que provai
Parece-me que o direito,
a autoridade que deriva
do que temos a aprend
er do neurótico, é a estr
utura que ele nos revela
.
E, no fundo, aquilo qu
e ele nos revela, a par
tir do momento em qu
e
compreendemos que se
u desejo é exatamente
o mesmo que o nosso,
e
não sem razão, o que,
pouco a pouco, vem re
velar a nosso estudo, o
que confre a digidade a
o neurótico, é que ele q
uer saber. E, de algum
a
maneira, é ele quem in
troduz a psicanálise. O
inventor da psicanálise
não é Feud, mas Anna
O, como todos sabem,
e, bem entendido, por
trás dela muitos outros,
nós todos.
O neurótico quer sabe
r o quê? Aqui, vou dim
inuir o ritmo do meu
discurso, para que voc
ês compreendem bem,
pois cada palavra tem
importância. Ele quer
saber o que há de real
naquilo de que ele é a
paião, ou seja, o que h
á de real no efeito do si
gnifcante, o que supõe
,
é claro, que já avança
mos sufcientemente lo
nge para sabermos qu
eo
que se chama de desejo
, no ser humano, é impe
nsável a não ser dentro
dessa relação com o si
gnifcante e os efitos qu
e ali se inscrevem. Ess
e
signifcante que ele mes
mo é por sua posição , o
u seja, enquanto neuros
e
vva, é - se vocês se re
portarem a minha defni
ção do significante - é,
aliás, inversamente o
que a justifca, é que el
a é aplicável, aquilo po
r
que esse criptograma qu
e é uma neurose, o que
o fz assim, o neurótico,
como tal um signifcant
e e nada mais, pois o
sujeito a que ele serv
e
justamente está em outr
a parte : é o que chama
mos de seu inconscient
e.
E é por isso que ele é,
segundo a defnição q
ue lhes dou, enquanto
neurose, um signifcant
e : é que ele represent
a um sujeito oculto. Ma
s
para quê? Para nada m
ais que um outro signifi
cante.
Que o que justifca o ne
urótico como tal, porqu
anto a análise - deixo
passar esse termo tomad
o emprestado do discurs
o de meu amigo Lagache
,
ontem - o valoriza é por
que sua neurose vem c
ontribuir para o advento
desse discurso exigi
do por uma erótica
enfm constituída. El
e,

-1.92 -
Lição de 14 de março de 1962

evidentemente, nada sabe disso e nã


o o procura. E nós também, só
temos de procurá-lo porque vocês estã
o aqui, isto é, para que eu lhes
exigido de uma erótica. Vale dizer, daqu
ilo por meio do qual é pensável
que o ser humano faça também, ness
e domínio - e por que não? -, a
mesma brecha e que, aliás, termine.r
se instante bizarro do astronauta
dentro de sua carapaça. O que lhes pe
rmite pensar que não procuro
sequer entrever o que poderá dar u
ma erótica ftura. O que há de
certo é que os únicos que sonharam c
onvenientemente com isso, ou
seja, os poetas, sempre chegaram a co
nstruções muito estranhas. E, se
alguma prefguração pode-se entreabrir
nisso em que me demorei mais
longamente, os esboços que podem ser
dados disso, em alguns pontos
paradoxais da tradição cristã, o amor
cortês, por exemplo, foi para
ressaltar as singularidades absolutament
e bizarras - de que os que foram
os ouvintes disso se lembram - de alg
uns sonetos de Arnault Daniel,

representavam efetivamente as re lações


entre o enamorado e sua dama.
De frma alguma, isso é indigno da com
paração com o que tento situar
como ponto extremo sobre os aspecto
s do astronauta. Obviamente, a;·
tentativa pode parecer-nos participar d
e alguma forma da mistifcação
e, de resto, ela deu em nada. Mas ela
é completamente esclarecedora
para nos situar, por exemplo, aquilo que s
e deve entender por sublimação.
Eu lembrei, ontem à noite, que a subli
mação, no discurso de Freud, é
inseparável de uma contradição, ou sej
a, que o gozo, a perspectiva dq '
gozo, subsiste e é, num certo sentido,
realizada em toda atividade de
sublimação. Que não há recalcamento
, que não há apagamento, que
não há sequer compromisso com o gozo,
que há paradoxo, que há desvio,
que é pelos caminhos aparentemente
contrários ao gozo que o gozo é,
obtido. Isso só é propriamente pensável
porquanto, no gozo, o médium
que intervém, médium por onde é da
do acesso a seu fndo que só
pode ser - eu lhes mostrei - a Coisa, qu
e este médium também só pode
ser um signifcante. Donde esse estran
ho aspecto que toma, a nossos
olhos, a dama no amor cortês . Não cons
eguimos acreditar nisso porque ;
não podemos mais identifcar, nesse p
onto, um sujeito vivo com um
signifcante, uma pessoa que se chama
Beatriz, com a sabedoria e com ·
completamente excluído, pela naturez
a das coisas, que Dante tenha .

-193 -
A Identicação

efetivamente dormido co
m Beatriz. Isso não muda
em nada o problema.
Queremos crer que não,
mas isso não é fundame
ntal na relação. Te ndo
feito tais observações, o
que defne o neurótico?
O neurótico se entrega
a uma curiosa retransf
rmação daquilo de que
ele sofe o efeito. O
neurótico, em suma, é
um inocente: ele quer s
aber. Para saber, ele
parte na direção mais n
atural, e é naturalmente
por isso mesmo que
ele é logrado. O neurót
ico quer retransformar
o signifcante naquilo
de que ele é o signo. O
neurótico não sabe, e n
ão sem razão, que é
enquanto sujeito que ele f
omentou isso : o advento
do sigifcante enquanto
o significante
principal da coisa
é o apagador
; que é ele, o suj
eito que,
ao apagar todos os traç
os da coisa, fz o signifc
ante. O neurótico quer
apagar esse apagamento
, quer fzer com que isso
não tenha acontecido.
Esse é o sentido mais pr
ofundo do comportament
o sumário , exemplar,
do obsessivo. Aquilo so
bre o qual ele volta sem
pre, sem jamais poder,
obviamente, abolir seu ef
eito - pois cada um de se
us esfrços para aboli
lo só fz refrçá-lo - é fzer
com que esse advento d
a função de sigifcante
não se tenha produzido,
que se encontre o que h
á de real na origem, a
saber, aquilo de quê tud
o isso é signo. Isso, eu
o deixo aqui indicado,
introduzido, para voltar m
ais tarde de uma frma ge
neralizada e ao mesmo
tempo mais diversificada,
ou seja , segundo as três
espécies de neuroses:
fo bia, histeria e obsess
ão, depois que eu tiver
dado a volta à qual tal
preâmbulo está destinad
o a trazer-me de volta, e
m meu discurso.
Esse desvio, portant
o, foi feito para situar,
e justifcar ao mesmo
tempo, a dupla perspectiva
de nossa investigação, que
é a que perseguimos ,
este ano, no terreno da ide
ntifcação. Por mais extrem
amente metapsicológca
que nossa investigação
possa parecer, a alguns,
para não prossegui-la
exatamente sobre a mes
ma aresta onde a prosse
guimos, porquanto a
análise só se concebe ne
ssa perspectiva das mais
escatológicas, se assim
posso exprimir-me, de u
ma erótica, mas impossív
el também sem manter,
ao menos num certo nív
el, a consciência do sent
ido dessa perspectiva
de fazer com conveniên
cia na prática, o que vo
cês têm a fzer, isto é,
obviamente, não pregar
uma erótica, mas se vir
ar com o fto de que ,
mesmo entre as pessoa
s mais normais e no in te
rior da aplicação plena
e inteira, e de boa vonta
de, das normas, bem ! Is
so não funciona. Que
não apenas como La R
ochfoucauld disse, "há b
ons casamentos, mas
não os há deHciosos ", p
odemos acrescentar que,
desde então , tudo se
deteriorou um pouco mai
s, já que não os há tampo
uco bons, digo, dentro

-194 -
Lição de 14 de março de 1962

da perspectiva do desejo. Seria, todavia


, um pouco inverossímil que
tais propósitos não possam ser postos no pr
imeiro plano, numa assembléia
de analistas. Isso não faz de vocês os pr
opagandistas de uma erótica
nova, isso lhes situa o que vocês têm a f
azer em cada caso particular:
têm a fazer exatamente o que cada um te
m a fazer para si e pelo motivo
que o leva a maior ou menor necessidade de
sua ajuda, ou seja, aguardando
o astronauta da erótica fu tura, soluções
artesanais.
Retomemos as coisas de onde as deixam
os na última vez : no nível da
privação. Espero ter-me fito compreender,
no que concerne a esse sujeito
enquanto o simbolizei por aquele -1, a vol
ta, frçosamente não contada,
contada a menos na melhor hipótese, ou se
ja, quando deu a volta da volta,
a volta do toro. O fto de eu ter logo em seg
uida estendido o fo que relaciona
a fu nção daquele -1 ao fndamento lógco
de toda possibilidade de uma
afrmação universal, ou seja, a possibilid
ade de fndar a exceção - e é
isso, aliás , que exige a regra: a exceção
não confrma a rga, como se di
gentilmente, ela a exige ; é ela que é o v
erdadeiro princípio. Em suma,
ao traçar-lhes meu pequeno quadrante,
isto é ao mostrar-lhes que a
única verdadeira segurança da afrmação
universal é a exclusão de um
traço negativo: não há homem que não sej
a mortal, posso ter provocado
uma confusão que entendo agora retifica
r, para que vocês saibam em
que terreno, a princípio, faço-os avançar.
Eu lhes dava essa refertncta,
mas é claro que nio se deve tomá-la co
mo uma dedução do prpcesso
inteiro a partir do eimbólico. A parte va
zia, onde não há nada t0 meu

-195 -
A Identicação

quadrante, é preciso, n
esse nível, ainda consi
derá-la como destacad
a.
O -1, que é o sujeito ne
sse nível em si mesmo
, não é de frma alguma
subjetivado, não se tra
ta ainda, de frma algu
ma, de saber ou de nã
o
ma coisa da ordem desse
advento aconteça, é nece
ssário
que todo um ciclo seja fc
hado, ciclo do qual a priv
ação é apenas, portanto,
o primeiro passo. A pri
vação em questão é pri
vação real, para a qual
,
com o suporte da intuiç
ão, da qual vocês me c
oncederão que eu poss
a
ter o direito, tudo o que f
ço aqui é seguir as própr
ias pegadas da tradição,
e a mais pura. Conced
e-se a Kant o essencial
de seu procedimento, e
tal fundamento do esqu
ematismo, procuro um
melhor para tentar torn
á
lo sensível a vocês, int
uitivo. O mecanismo d
essa privação real, eu
o
frjei. É, portanto, some
nte depois de um longo
desvio que pode advir,
para o sujeito, esse sa
ber de sua rejeição ori
ginal. Mas, daqui até lá
,
digo-lhes logo em segui
da, muitas coisas se pa
ssarão para que, quand
o
vier à luz, o sujeito saib
a não apenas que esse
saber o rejeita, mas que
esse saber, ele próprio,
deve ser rejeitado, uma
vez que ele se mostrará
estar sempre ou além
ou aquém do que é ne
cessário atingir, para a
realização do desejo. D
ito de outro modo, se ja
mais o sujeito - o que é
seu objetivo desde o te
mpo de Parmênides - c
hega à identificação, à
afrmação de que é -o a
u-o, o mesmo, que pens
ar e ser, uoetu xat EtUat
,
nesse momento aí ele p
róprio se encontrará irre
mediavelmente dividido
entre seu desejo e seu ide
al. Isso, se posso dizer, es
tá destinado a demonstrar
o que eu poderia cha
mar de estrutura objeti
va do toro em questão
.
Mas, por que me recu
sariam esse uso da pa
lavra objetivo, já que é
clássico, no que conce
rne ao domínio das idéi
as, e ainda empregado
até Descartes?
No ponto, pois, em que
estamos, e para não m
ais voltar a ele, aquilo
de que se trata de real
é perfitamente tocável,
e só se trata disso. O
que nos levou à constr
ução do toro, no ponto
em que estamos, foi a

difrente. Para que isso


seja real, a saber, que
essa verdade simbólica
,
mundo, é preciso e ba
sta que algo tenha ap
arecido no real, que é
o

toda sua realidade ao id


eal - o ideal é tudo o que
há de real no simbólico,
no tempo de Platão e e
m Platão, para não re
montar mais longe, iss
o

-196 -
Lição de 14 de março de 1962

tenha acarretado a adoração, a proster


nação; o 1 era o bem, o belo, o
verdadeiro, o ser supremo. Aquilo em
que consiste a inversão à qual'
somos solicitados a fazer frente, nessa o
casião, é apercebermo-nos que,,
por mais legítima que possa ser essa
adoração, do ponto de vista de
uma elação aftiva, não é menos verdad
eiro que o 1 nada mais é senão'
a realidade de um muito estúpido bastã
o. Só isso. O primeiro caçador, 1
eu lhes disse, que, sobre uma costela d
e antílope, fez um entalhe, para,
se lembrar simplesmente de que havia c
açado 1 O vezes, 12 ou 13 vezes;·
ele não sabia contar, observem, e é m
esmo por causa disso que era'
necessário colocá-los, esses traços, par
a que as 10, 12, 13
confundissem umas dentro das outras,
como mereciam, todavia, ser1

o sujeito é, de início, objetivamente, essa


privação na coisa; essa privação
que ele não sabe que é da volta não con
tada, é de lá que partimos, parar
compreender o que se passa. Temos o
utros elementos de informação

relação que há dessa constituição com e


ssa origem, enquanto ela pocle
nos permitir começar a articular algu
mas relações simbólicas mais(
adequadas do que estas até aqui prom
ovidas, no que concerne ao que

forma, presumir o que se manterá da no


ção da fnção do sujeito, quando',
o tivermos posto em situação de desejo ; é
o que somos forçados a percorrer(
com ele, segundo um método que é tão
somente o da experiência - é o
que são os que nos são ofrecidos.
O passo seguinte está centrado - eu pod
eria, aqui, também não marcar,
com um título de capítulo, fço-o par
a fns didáticos - é aquele da'
frustração. É no nível da frustração q
ue se introduz, com o Outro, a'
possibilidade, para o sujeito, de um no
vo passo essencial. O um da,
não vem ao sujeito, mesmo se seu supo
rte nada mais é que o do bastão

o sujeito do qual nos ocupamos, pela e


xistência, antes que ele tenha1
supõe, do lugar do Outro com o grand
e A, tal como anteriormente o'

-197 -
A Ie ntiicação

segunda dimensão, u
ma vez que ela é funç
ão radical de sua própr
ia
referência em sua estr
utura, ainda que metafr
icamente, mas não se
m
pretender atingir, nes
sa metáfra, a própria
estrutura da coisa, nó
s
chamamos de estrutura d
e toro essa segunda dim
ensão, já que ela constitu
i,
em meio a outras, a e
xistência de laços irre
dutíveis a um ponto, d
e
laços não evanescentes.
É no Outro que vem nec
essariamente se encarna
r
essa irredutibilidade da
s duas dimensões, por
que, se ela é, em algu
m
lugar, sensível , isso só
pode ser - posto que, at
é o momento, o sujeito s
ó
é sujeito porque fla - n
o domínio do simbólic
o. É na experiência d
o
simbólico que o sujeito d
eve encontrar a limitação
de seus deslocamentos,
que lhe faz entrar em p
rimeiro lugar na experi
ência, a ponta, se poss
o
dizer, o ângulo irredutí
vel dessa duplicidade
das duas dimensões.
É
para isso que o esquem
atismo do toro vai-me s
ervir ao máximo - vocês
vão ver - e a partir da
experiência majorada
pela psicanálise e pel
a
observação que ela des
perta.
O sujeito pode empree
nder dizer o objeto de
seu desejo. Ele só faz
isso mesmo. É mais que
um ato de enunciação;
é um ato de imaginação
.
Isso suscita nele uma
manobra da função im
aginária, e, de um mod
o
necessário, essa fu nção
se revela presente, tão l
ogo aparece a fustração.
Vocês sabem a importâ
ncia, o acento que tenh
o posto, depois de outro
s,
depois sobretudo de S
anto Agostinho, sobre
o momento do despert
ar
da paixão ciumenta na
constituição desse tipo
de objeto que é o mesm
o
que construímos como
subjacente a cada uma
de nossas satisfções :
a
criancinha, presa da p
aixão ciumenta, diante
de seu irmão que, par
a
ela, em imagem, fz sur
gir a posse desse objet
o, o seio principalment
e,
que até então fi apena
s o objeto subjacente,
elidido, mascarado par
a
ele por trás desse retor
no de uma presença lig
ada a cada uma de sua
s
satisfações; que não fi
- nesse ritmo em que s
e inscreveu, em que s
e
sente a necessidade
de sua primeira depen
dência - senão o objet
o
metonímico de cada um
de seus re tornos; ei-lo r
epentinamente produzid
o
para ele na claridade,
nos efitos para nós ass
inalados por sua palide
z
mortal, a claridade dess
a alguma coisa de nova
que é o desejo. O desej
o
do objeto como tal, uma
vez que ele repercute at
é no próprio fundamento
do sujeito, que ele o aba
la bem além de sua con
stituição, como satisfeito
ou não, como repentin
amente ameaçado no
mais íntimo de seu ser
,
como revelando sua flt
a fundamental, e isso n
a forma do Outro, com
o
trazendo à luz ao mesmo
tempo a metonímia e a p
erda que ela condiciona.

-198-
Lição de 14 de- março de 1962

Essa dimensão de perda, essencial à met


onímia, perda da coisa no objeto,
está aí o verdadeiro sentido dessa temá
tica do objeto enquanto perdido
e jamais reencontrado, o mesmo que está
no fu ndo do discurso feudiano,
e incessantemente repetido.
Um passo a mais: se levamos a metoní
mia mais longe, vocês sabem,
é a perda de alguma coisa de essencia
l na imagem, nessa metonímia
que se chama de Eu, nesse ponto de nas
cimento do desejo, nesse ponto
de palidez onde Santo Agostinho pár
a, diante do lactante, como fz
Freud, diante de seu neto, dezoito sécul
os mais tarde. É falsa a idéia de
que se pode dizer que o ser de quem
tenho ciúmes, o irmão, é meu
semelhante. Ele é minha imagem, no
sentido em que a imagem em
e é o sentido e a fu nção da fr ustração .
Tudo isso já é conhecido. Tudo

da privação real, a fustração imagnári


a. Mas, como para a privação
real, tenho tentado, hoje, situar a você
s para que ela serve no termo
aqui para ver como esta imagem fu nd
adora, reveladora do desejo, vai
situar-se no simbólico.
Essa situação é difícil. Seria, bem entendi
do, completamente impossível,
se o simbólico não estivesse ali, se - co
mo tenho lembrado, martelado
desde sempre e há tempo sufciente par
a que isso lhes entre na cabeça
- se o Outro e o discurso onde o sujeito te
m de se situar não o esperassem
ao menos de sua mãe, de sua lactante,
se fala para ele. O princípio de

experiência, mas para além do qual,


há algum tempo, não se sabia
mais avançar por fa lta justamente de
saber frmalizá-lo como bê-á-bá,
é este, a saber: o cruzamento, o interc
âmbio ingênuo que se produz
pela dimensão do Outro entre o desejo e
a demanda. Se há, vocês sabem,
algo a que se pode dizer que, desde
o início, o neurótico fi pego, é
nessa armadilha; e ele tentará fzer pass
ar na demanda o que é o objeto
de seu desejo, de obter do Outro não a
satisfção de sua necessidade,
pela qual a demanda é feita, mas a sat
isfção de seu desejo, isto é, de
ter o objeto, isto é, precisamente o que
não se pode demandar. E isso
está na origem do que se chama de depe
ndência, nas relações do sujeito
com o Outro. Da mesma maneira, ele
tentará, mais paradoxalmente

-199 -
A Ide ntificação

ainda, satisfzer pela co


nfrmação de seu desej
o à demanda do Outro.
E não há outro sentido
, sentido corretamente
articulado, quero dizer,
para aquilo que é a des
coberta da análise e de
Freud, para a existênci
a
do Superego como tal.
Não há outra defnição
correta, digo, nenhuma
outra que permita esca
par de deslizes que cri
am confsões.
Penso, sem ir mais long
e, que as ressonâncias
práticas, concretas de
todos os dias, ou seja,
o impasse do neurótico
, são em primeiro lugar
e
antes de tudo o proble
ma cios im passes de s
eu desejo, esse impas
se
sensível a cada instant
e, grosseiramente sen
sível, e contra o qual a
gente o vê sempre choc
ar-se. É o que
exprimirei sumariame
nte, dizendo
que, para seu desejo, é-
lhe necessára
a sanção de uma dem
anda. O que
vocês lhe negam, senã
o isto que ele
espera de vocês, que lh
e peçam que
deseje congruentemen
te? Sem flar
de seus pais, de sua li
nhagem e de
todos os confrmismos q
ue o rodeiam.
O que é que isso nos per
mite construir
e perceber? Na medid
a em que a
demanda se renova, seg
undo as voltas
prcorridas, segundo os cí
rculos plenos,
bem em torno e os suces
sivos retornos
de que necessita a revind
a mais inserida
pelo laç
o da de "
manda,
da nece
ssidade,
supost
o que,
como l
hes de
ixei
,entender através de ca
da um de tais
, retornos, o que nos p
erite dizer que
o círculo elidido, o círc
ulo que chamei simple
smente - para que voc
ês
vejam o que quero diz
er, em relação ao toro
- de círculo vazio, vem
aqui materializar o obj
eto metonímico sob to
das as demandas. U
ma
constão tplógca é imag
nável de um outro toro,
que tem pr propriedade
permitir-nos imagnar a
aplicação do objeto de
desejo, círculo interno
vazio do primeiro toro,
sobre o círculo pleno d
o segundo que constitu
i
um anel, um desses la
ços irredutíveis. Invers
amente, o circulo sobre
o
primeiro toro, de uma d
emanda, �·cm aqui su
perpor-se no outro toro,
o

-200 -
Lição de 14 de março de 1962

toro aqui suporte do outro, do outro imag


nário da fustração, vem aqui
superpor-se ao círculo vazio deste toro, i
sto é, preencher a fu nção de
mostrar essa inversão: desejo num, dema
nda no outro; demanda de um,
desejo do outro, que é o nó onde se atravan
ca toda a dialética da fustração.
Essa dependência possível das duas topol
ogas, a de um toro à do outro,
não exprme, em suma, nada além do que é
o objetivo de nosso esquema,
uma vez que o fzemos suportar pelo toro .
É que, se o espaço da intuição
kantiana, cu diria <leve, graças ao novo es
quema que introduzimos , ser
posto entre parênteses, anulado, aufgehobe, c
omo ilusório, porque a extensão
topológca do toro nos permite isso, só con
siderando as propriedades da
superfcie, estamos certos da manutenção,
da solidez, se posso dizer, do
volume do sistema, sem ter de recorrer à i
ntuição da profundidade.
O que, vocês vêem, e o que isso repres
enta é que, ao nos mantermos,
em toda a medida em que nossos hábitos in
tuitivos no-lo permitem, nesses
limites, resulta daí que, já que se trata ape
nas, entre as duas superfcies,
de uma substituição por aplicação biunívoc
a, ainda que ela esteja invertida,
a saber, que uma vez recortada, será nesse s
entdo sobre uma das superfcies
e neste outro sobre a outra. Não é menos
verdadeiro

1'

- b'-+ -_.
2'
que o que isso torna sensível é que, do po
nto de vista do espaço exigdo,
estes dois espaços [superfcies], o interior e
o exterior, a partir do momento
em que nos recusamos a lhes dar outra s
ubstância que não topológica,
são os mesmos. É o que vocês verão expr
esso na fase [que o indica] já,
no relatório de Roma, o uso que eu cont
ava fzer disso para vocês, a
saber, que a propriedade do anel, enquanto
simboliza a fun ção do sujeito

-201-
A Ide ntiicação

em suas relações com o


Outro, se deve ao fto de
que seu espaço interior
e o espaço exterior são
os mesmos. O sujeito, a
partir disso, constrói seu
espaço exterior sobre o
modelo de irredutibilida
de de seu espaço interi
or.
Mas, o que esse esquem
a mostra é, evidentement
e, a carência de harmoni
a
ideal que podera A
ser exigda do ob
jeto à demanda,
da demanda ao o
bjeto. Ilusão que
está sufcientemen
te

demonstrada pela expe


riência, eu acho, para q
ue
tenhamos sentido a nec
essidade de construir es
se
modelo necessário de su
a necessária discordânci
a.
Conhecemos o 2
princípio disso, e
bem entendido,
se
pareço avançar a pass
os muito lentos, acredit
em
me, nenhuma estagn açã
o é demasiada se querem
os
a a
s r O
s
e q
g u
u e
r
já sabemos, e B
o que há aqui
e representado

intuitivamente, é que o
próprio objeto como ta
l,
enquanto objeto do
desejo, é o efeito d
a
impossibilidade do Outro
para responder à deman
da.
é que à dita demanda, qu
alquer que seja seu desej
o,
e
forçosamente
a descoberto
a maior parte
da
estrutura. Dito
de outro modo,
que o sujeito n
ão

é envolvido, como se a
credita, no todo, que pe
lo
menos no nível do sujei
to que fala, o Umwelt nã
o
envolve seu Inncnwelt .
Que se houvesse algo
a
fazer, para imaginar o s
ujeito em relação à esfe
ra
ideal, desde sempre o
modelo intuitivo e ment
al
Alça
que o sujeito fo
se, se posso per mo
mitir-me avançar, do
D
de o fazer - su
a imagem intui
tiva, seria

na dita esfera e
seu suplemento
por duas suturas
.
cósmica. A sup
erfcie de uma e
sfera infnita é u
m

Segunda
prolongado. Eis
sutura
sujeito: um burac
o quadrangular,

-202-
Lição de 14 de março de 1962

como a confguração geral de minha pele


há pouco, mas dessa vez em
negativo. Eu costuro uma borda na outra,
mas com a condição de que
são bordas opostas, que eu deixe livres a
s duas outras bordas. Resulta
disso a fgura seguinte, a saber, com o vazio
preenchido aqui, dois buracos
que permanecem na esfra de superfci
e infnita. Basta puxar cada
uma das bordas destes dois buracos para
constituir o sujeito de superfcie
infnita, como constituído , em suma , por
isso que é sempre um toro,
mesmo se ele tem um alfre de raio infnito,
a saber, uma alça emergndo
à superfcie <o plano. Eis o que isso quer
dizer, ao máximo : a relação
do sujeito com o grande To do. Veremos as
aplicações que disso podemos
fazer.
O que é importante captar aqui é que,
para esse recobrimenlo <o
objeto à demanda, se o outro imagnário [é)
assim constituído, na inversão
das fun ções do círculo do desejo com o
da demanda, o Outro, para a
satisfção do desejo do sujeito, deve ser de
fnido como sem poder. Insisto
sobre esse sem, pois, com ele, emerge u
ma nova fo rma de negação, na
qual se indicam, propriamente fal ando,
os efitos da fustração. Sem é
uma negação, mas não uma qualquer:
é uma negação-ligação, que
materializa bem , na língua inglesa, a ho
mologia conformista das duas
relações dos dois signifcantes: within e wi
thout . É uma exclusão lig.ada
que, já em si só , indica sua inversão. Um
passo a mais, vamos dá-lo, é
o do não-sem. O Outro sem dúvida se int
roduz, na perspectiva ingênua
do desejo como sem poder, mas essencial
mente o que o liga à estrutura
do desejo é o não-sem : ele também não
é sem poder. É por isso que
esse Outro, que introduzimos enquanto
metá fra do traço unário, isto
é, do que enconlramos em seu nível e qu
e ele subslitui numa regressão
infnita, já que ele é o lugar em que se s
ucedem esses um diferentes
uns dos outros, dos quais o sujeito é ap
enas a metonímia, esse Outro
como um - e o jogo de palavras fz parte
da fó rmula que emprego aqui
para defnir o modo sob o qual o introduz
i - acha-se, uma vez fechada
a necessidade dos efeitos da frustração
imaginária, como tendo esse
valor único, pois ele só não é sem , não-
sem poder, ele está na origem
possível do desejo posto como condiçã
o, mesmo se tal condição fca
em suspenso. Por isso, ele é como não-
tm ele dá ao -1 do sujeito uma
outra fun ção , que se encarna, antes de t
udo , nessa dimensão que esse
como situa para vocês , como sendo o d
a metáfora. É nesse nível, no
nível do como não-um e de tudo o que v
ai fcar em seguida suspenso,

-203 -
A Identicação

como o que chamei de


condicionalidade absol
uta do desejo, que nós
nos ocuparemos na pr
óxima vez, isto é, no ní
vel do terceiro termo, d
a
in trodução do ato de d
esejo como tal, de sua
s relações com o sujeit
o,
por um lado, à raiz dess
e poder, à re articulação
dos tempos desse poder
,
na medida em que - v
ocês vêem - ser-me-á
necessário voltar atrá
s
sobre para marcar o c
so possível
aminho que fi c
umprido na
introdução dos termos p
oder e sem-poder. É na
medida em que teremo
s
que prosseguir essa di
alética, na próxima vez
, que paro aqui, por hoj
e.
-204 -
LIÇÃO XIV
21 de março 1962

Eu os deixei, da última vez,


no nível desse abraço simbó
lico dos dois
toros, onde se encarna imagi
nariamente a relação de inte
rversão, se se
pode dizer, vivda pelo neuróti
co, na medida sensível, clínic
a, onde vemos
que aparentemente, ao me
nos, é numa dependência d
a demanda do
Outro que ele tenta fndar, i
nstituir seu desejo. Evident
emente, há aí
alguma coisa de fundada nes
sa estrutura que chamamos
de estrutura do
sujeito, na medida em que e
le fla, que é aquela para a q
ual fmentamos
para vocês essa topologa do
toro, que nos parece fndame
ntal. Ela tem
a função daquilo que se ch
ama, em topologa, de gupo
fndamental e,
afnal, será a pergunta para
a qual será preciso que indi
quemos uma
resposta. Espero que essa r
esposta, no momento em qu
e fr preciso dá
la, já esteja de fto abundan
temente delineada. Por qu
e, se está aí a
estrutura fundamental, foi
durante tão longo tempo e
sempre tão
assim, a outra topologa, a
da esfra, [é) que tradicional
mente parece

com a coisa?
Retomemos as coisas onde
as deixamos na última vez,
e onde eu
indicava a vocês o que est
á implicado em nossa própr
ia experência:
há, nesse nó com o Outro,
posto que ele nos é ofereci
do como uma
primeira aproximação sensí
vel, talvez fácil demais - ver
emos que o é,
uma relação de engodo. Ret
ornemos aqui ao atual, ao ar
ticulado dessa

-205 -
A Identiicação

quando somos cada dia


o próprio suporte de su
a pressão, na análise, e
quando o sujeito neurót
ico, com quem trabalha
mos fundamentalmente
,
se apresenta diante de
nós exigindo de nós a r
esposta, isso mesmo s
e
nós lhe ensinamos o preç
o que há em suspender e
ssa resposta? A resposta
sobre o quê? É justam
ente aí que se justifca
o nosso esquema, um
a
vez que ele nos mostra
, um substituindo ao ou
tro, desejo e demanda
é
que, justamente, a resp
osta é sobre seu desejo
e sobre sua satisfação.
Aquilo, sem dúvida, a q
ue hoje serei quase limi
tado certamente pelo
tempo que me é dado, é
em bem articular a quais
coordenadas se suspend
e
essa demanda fita ao O
utro, essa demanda de r
esposta, a qual especific
a
em sua razão verdadeira
, em sua raão última.j
é insufciente, aquela q
ue, em Fr eud, é desig
nada como versagen, la
Ve rsagung, o desdito, ou
ainda a palavra enganos
a , a ruptura de promessa
,
enfm, a vanitas, enfm,
da má palavra, e a am
bigüidade - lembro-
lhes
aqui - que une o termo
blasfêmia àquilo que d
eu, através de toda sort
e
de transfrmações, aliá
s, em si mesmas inter
essantes e valendo se
r
seguidas, a desaprovaç
ão. Não avançarei mais
nesse caminho. A relaçã
o
essencial da fustração
- da qual nos ocupam
os - com a palavra é o

de frustração se degra
da: ela degenera até r
eduzir-se ao defeito d
e
gratifcação concernent
e ao que, em último ter
mo, não pode mais ser
concebido senão como
a necessidade. Ora, é i
mpossível não se lembr
ar
do que o gênio de Fr e
ud nos assegura origin
almente quanto à funç
ão
do desejo, aquilo de que
ele partiu ao dar seus pri
meiros passos, deixemos
de lado as cartas a Flie
ss, comecemos pela Ci
ência dos Sonhos e não
nos esqueçamos de que
To tem e tabu era seu liv
ro preferido, e o que o
gênio de Feud nos asseg
ura é o seguinte : que o d
esejo é fndamentalmente
,
radicalmente estrutura
do por esse nó que se
chama de Édipo, e de
onde é impossível elimi
nar esse nó interno que
é o que tento sustentar
diante de vocês por e
stas fguras, esse nó i
nterno que se chama
de
Édipo, uma vez que ele
é essencialmente o quê
? Ele é essencialmente
o seguinte: uma rel aç
ão entre uma demand
a que toma um valor tã
o
privilegado que se torn
a o comando absoluto,
a lei, e um desejo que
é
o desejo do Outro, do
Outro de que se trata,
no Édipo. Essa deman
da
articula-se assim: tu nã
o desejarás aquela qu
e fi meu desejo. Ora, ,
é
isso que funda em su
a estrutura o essencia
l, o ponto de partida d
a
verdade feudiana. E e
stá aí, é a partir daí qu
e todo desejo possível

-206 -
Lição de 21 de março de 1962

está, de alguma maneira, obrigado a es


se tipo de desvio irredutível,
esse algo semelhante à impossibilidade no
toro da redução do laço sobre
certos círculos, que faz com que o desej
o deva incluir em si o vazio,
esse buraco interno especificado na rel
ação com a Lei original. Não
nos esqueçamos de que os passos, para
fundar a relação primeira em
torno da qual - nós nos esquecemos dem
asiadamente disso - são para
Freud articuláveis, e apenas por elas, todas
as Liebesbedingungen, todas

podendo apenas fixá-lo nesse tipo de re


alidade , sem dúvida a única
como absolutamente perdurável, de ser enq
uanto ausente. Não há nenhuma
outra fonte para o absolutismo do mand
amento original.
Eis onde se constitui o campo comum
no qual se institui o objeto do
desejo , na posição sem dúvida que nós lhe
sabíamos já como necessário,
no nível unicamente imaginário, a saber,
uma posição terceira. A única
dialética da relação com o outro enquanto t
ransitivo, na relação imagnária
do estádio do espelho, vocês já tinham apr
endido que constituía o objeto
do interesse humano como ligado a seu
semelhante, o objeto a, aqui,
em relação a essa imagem que o inclui,
que é a imagem do outro no
nível do estádio do espelho : i(a) . Mas e
sse interesse só é de algum
modo uma forma, é o objeto desse inter
esse neutro em torno do qual
mesmo toda a dialética da investigação do
Sr. Piaget pode organizar-se,
pondo em primeiro plano essa relação qu
e ele chama de reciprocidade,
que ele crê poder juntar a uma fórmula
radical da relação lógica. É
dessa equivalência, dessa identifcação
com o outro como imaginário
que a ternariedade do surgmento do obj
eto se institui. É tão-somente
uma estrutura insuficiente, parcial e, port
anto, que devemos encontrar

-207 -
A Identicação

no fnal como dedutiva d


a instituição do objeto d
o desejo no nível em
que, aqui e hoje, o articul
o para vocês. A relação
com o Outro não é de
frma alguma essa relaç
in ;maginária, fndada s
obre a especifcidade
da forma genérica, posto
que essa relação com o O
utro al está especifcada
pela demanda, uma vez
que ela fz surgir desse
Outro, que é o Outro
com O maiúsculo, sua e
ssencialidade, se posso
dizer, na constituição
do sujeito, ou - para ret
omar a frma que se dá
sempre ao verbo inter
essar - sua inter-
essencialidade com o s
ujeito. O campo do qua
l se
trata não poderia, pois, de
modo algum ser reduzido a
o campo da necessidade
e do objeto que, pela riv
alidade de seus semelha
ntes, pode , em última
análise, impor-se, pois es
ta será ai a inclinação ond
e nós iremos encontrar
nosso recurso para a ri
validade derradeira: im
por-se como objeto de
subsistência para o orga
nismo. Esse outro camp
o, que nós defnimos e
para o qual é feita nossa
imagem do toro, é um ou
tro campo, um campo
de signifcante, campo de
conotação da presença
e da ausência e onde
o objeto não é mais objet
o de subsistência, mas de
ex-sistência do sujeito.
Para chegar a demon
strá-lo, trata-se, exatam
ente, em último termo,
de um certo lugar de ex-
sistência do sujeito nece
ssário e que está aí a
função à qual é elevado
, conduzido o objeto a d
a rivalidade primeira.
Te mos, diante de nós, o
caminho que nos resta a
percorrer, desse cume
aonde levei vocês na últ
ima vez , do domínio do
outro na instituição da
relação fustrante. A seg
unda parte do caminho
deve conduzir-nos da
fustração a ess
a relação a defnir, que c
onstitui, como tal, o suje
ito no
desejo, e vocês sabe
m que é somente aí qu
e poderemos articular
convenientemente a castr
ação. Portanto, só sabere
mos, em última análise,
o que quer dizer esse l
ugar de ex-sistência, q
uando o caminho tiver
terminado. Desde já, po
demos, devemos mesm
o lembrar, mas lembrar
aqui o flósofo menos i
ntroduzido em nossa e
xperiência, esse ponto
singular, ao vê-lo tão a
miúde esquivar-se de s
eu própro discurso. É
que há uma questão , a
saber, por que é necess
ário que o sujeito seja
representado - e digo
no sentido feudiano - r
epresentado por um
representante represe
ntativo como excluído d
o próprio campo onde
ele tem de agr em rela
ções digamos lewiniana
s com os outros como
indivíduos, que é preci
so, no nível da estrutur
a, que consigamos dar
conta do porquê é prec
iso que ele seja represe
ntado em algum lugar
como excluído desse ca
mpo para aí intervir, ness
e mesmo campo. Pois ,
afnal, todo o raciocínio a
que nos leva o psico-
sociólogo, em sua defniç
ão

-208 -
Lição de 21 de março de 1962

do que acabei de chamar de campo lew


iniano, nunca se apresentam
senão com uma perfita elisão dessa neces
sidade de que o sujeito esteja,
digamos, em dois lugares topologcamente
defnidos, isto é, nesse campo,
mas também essencialmente excluído des
se campo, e que ele chegue a
articular alguma coisa, mas alguma coisa
que se sustente. Tu do o que,
num pensamento da conduta do homem
como observável, chega a se
definir como aprendizagem e, em últ
imo termo, objetivação da
aprendizagem, isto é, montagem, frma u
m discurso que se sustenta e
que até um certo ponto dã conta de u
ma multidão de coisas, salvo
disso : que eftivamente o sujeito fnciona, nã
o com esse emprego simples,
se posso dizer, mas num duplo emprego,
no qual vale a pena que nos
detenhamos e que, por mais fu gidio que el
e se nos apresente, é sensível
de tantas maneiras que basta, se posso di
zer, debruçar-se para recolher
as provas disso. Não é outra coisa que t
ento fzê-los sentir cada vez,
por exemplo, que incidentemente trago as
armadilhas da dupla negação
e que o eu não saiba que eu queira não é
entendido da mesma maneira,
penso, que eu sei que eu não quero.
Reflitam sobre esses pequenos proble
mas jamais esgotados, pois só
os lógcos da língua exercitam-se aí e seus ba
lbucios são mais que instrutvos,
pois, tão fre qüentemente quanto houver p
alavras que escoam e mesmo
escritores que deixem fluir as coisas na p
onta de sua pluma como elas
se dizem, dir-se-ã a alguém -jã insisti niss
o, mas nunca é demais retomar
- você não deixa de ignorar para lhe dizer
você sabe bem, mesmo assim/
O duplo plano sobre o qual se repres
enta isso é que isso fnciona,
que alguém escreve assim e que acon
teceu. Isso me foi lembrado
recentemente num desses textos de Préve
rt, dos quais Gide se admirava:
"Será que ele quis ironizar ou será que el
e sabe bem o que escreve? .
Ele não quis ironizar: isso escorreu- lhe d
a pluma. E toda a crítica dos
lógcos não frã com que nos advenha, por p
ouco que estejamos engajados
num verdadeiro diálogo com alguém, a sab
er, que se trate de uma maneira
qualquer de uma certa condição essencial
a nossas relações com ele -
que é esta à qual penso chegar daqui a
pouco - que é essencial que
alguma coisa entre nós se institua como
ignorância, que eu deslizarei
a lhe dizer, por mais sãbio e purista que eu
seja, você não é sem ignorar.
No mesmo dia em que eu lhes flava aq
ui, desviei-me de citar o que
acabava de ler no Le Canard Enchainé, n
o fnal de um desses trechos
de bravura que se publica sob a assinat
ura de André Ribaud, com o

-209 -
A Identicação

título de A Corte : "Não h


á por que se eximir", nu
m estilo pseudo-saint
simoniano, assim como
Balzac escrevia numa lí
ngua do século XVI
inteiramente inventada
por ele, "de uma certa d
eiconfança dos ro is".
Vo ei& compreendem per
fitamente o que isso quer
dizer. Te ntom analisá
lo logcamente e verão q
ue isso diz exatamente o
contrário daquilo que
vocês entenderam; e voc
ês estão inteiramente no
direito de compreender
o que compreendem, po
rque está na estrutura d
o sujeito. O fato de as
duas negações que aqui
se superpõem, não apen
as não se anularem,
mas antes efetivamente s
e sustentarm, deve-se ao f
ato de uma duplicidade
topológca que faz com qu
e o não há por que se exi
mir não se diga sobre
o mesmo plano, se posso
dizer, em que se institui o
alguma desconfiança
dos reis. A enunciação e
o enunciado, como semp
re, são perfeitamente
separáveis, entre eles br
aqui a hiãnciailha.
Se o toro, como tal, pod
e-nos servir, vocês verão
, de ponte, confrma
se já sufciente para nos
mostrar em que consiste
, uma vez passado no
mundo esse desdobram
ento, essa ambigüidade
do sujeito, não seria
bom nesse ponto determ
o-nos sobre o que essa t
opologa comporta de
evidência, e antes de m
ais nada em nossa mais
simples experiência,
quer dizer a do sujeito? Q
uando flamos de engajam
ento, serão necessários
gades desvios, desses qu
e aqui fço vocês ultapassa
rem pelas necessidades
de nossa causa? Serão ne
cessários gandes desvios,
para os menos iniciados,
para evocar isso: que se
engajar implica, já em si,
a imagem do corredor,
a imagem de entrada e
da saída e até um certo
ponto a imagem da
saida atrás de si fechada
, e que é mesmo nessa r
elação com esse fchar
a saida que o último term
o da imagem do engajam
ento se revela? Muitos
desvios são ainda neces
sários? E toda a literatur
a que culmina na obra
de Kafa pode fazer-nos p
erceber que basta retorn
ar aquilo que, parece,
na última vez, não desen
hei sufcientemente, ao m
ostrar-lhes essa forma
particular do toro, sob
a frma de um alça dest
acada de um plano,
sendo que o plano só a
presenta aqui o caso pa
rticular de uma esfra
infnita alargando um la
do do toro. Basta fzer b
ascular essa imagem,
apresentá-la de barriga
para cima e como o cam
po terrestre onde nós
nos debatemos, para n
os mostrar a razão mes
ma onde o homem se
apresenta como o que
ele fi, e talvez o que el
e continua a ser: um
animal de toca, um ani
mal de toro. Todas essa
s arquiteturas não são,
contudo, sem algo que
deve reter-nos por suas
afnidades com alguma
coisa que deve ir mais lon
ge que a simples satisfção
de uma necessidade;

.210-
Lição de 21 de março de 1962

por uma analoga que salta aos olhos q


ue
ela é irredutível, impossível de se exclu
ir
de tudo o que se chama para ele interi
or
e exterior e que um e outro desemboca
m
um sobre o outro e se comandam, o q
ue
chamei há pouco de corredor, de galeri
a,
de subterrâneo. Memórias escritas d
o
subterrâneo, intitula Dostoievsk esse pont
o
extremo, onde ele detecta a palpitação
de
sua questão última. Será que aí está algu
ma
.
coisa que se esgota na noçã 1

o de instrumento
nossos dois toros, a fu nçã
o de aglomerado

sua anastomose simula


go que existe no
mais íntimo do organismo
, é para nós um
objeto prefgurado de interrogação.
Poe m
Aquilo
que não é nosso privilégio, a formiga e
o
cupim o conhecem; mas o texugo, de q
ue
nos fala Kafka, em sua toca não
é
precisamente um animal sociável. Que que
r
dizer esse lembrete? É, para nós, no pont
o
de estrutura é tão natural que, bastand
o

e muito longe, impregnadas suas raíz


es
quando se trata de que o pensamento s
e

ele o desconheça no curso das eras tã


o
abundantemente, levanta justamente
a
questão de saber por que há aí, tão long
e,
o recalque, digamos pelo menos, desco
nhecimento.
Isso nos traz de volta a nosso ponto d
e partida, que é o da relação
com o Outro, tal como a chamei, funda
da sobre algum engodo que se
trata agora de articular em outra parte
que não nessa relação natural,
posto que também vemos o quanto ele
se esquiva do pensamento, o

-211-
A Ide ntificação

quanto o pensamento o r
ecusa. É de outro ponto
que devemos partir e
da posição da questão
ao Outro, da questão s
obre seu desejo e sua
satisfção. Se há um engo
do, ele deve decorrer, em
algum ponto, daquilo
que chamei , há pouco,
de duplicidade radical d
a posição do sujeito. E
é o que eu gostaria de f
azê-los sentir, no nível p
róprio do signifcante,
tal como ele se especifc
a por duplicidade da po
sição subjetiva, e por
um instante pedir a vocês
que me sigam em algum
a coisa que se chama,
em último termo, a difr
ença pela qual o graf
ao qual , durante um
certo tempo de meu discurs
o , mantive vocês presos , é
, paa fa ar propramente,
forjado. Essa diferença
se chama de diferença
entre a mensagem e a
questão. Esse graf se in
screveria tão bem aqui.

Na própria hiância por


onde o sujeito se liga du
plamente ao plano do
discurso universal vou i
nscrever hoje os quatro
pontos de confuência
que são aqueles gue você
s conhecem : A; s(A) , a si
gnifcação da mensagem
enquan to é do retoro v
indo do Outro, do signif
cante que ali reside;
aqui $ < > D, a relaçã
o do sujeito com a dem
anda, enquanto aí se
especifica a pulsão , aq
ui o S(;() , o signifcante
do Outro, uma vez que
o Outro, em último termo,
só se pode formalizar, se
signifcantizar enquanto
marcado ele próprio pe
lo significante, dito de o
utro modo, enquanto
ele nos impõe a renúnci
a a toda metalinguagem.
A hiância que se trata
aqui de articular se susp
ende inteiramente na for
ma em que, no último
termo, esse pedido ao O
utro que responda altera,
oscila numa seqüência
de retornos entre o nada p
ode ser e o pode ser nada.
É aqui uma mensagem.
Ela se abre sobre o que
nos apareceu como a ab
ertura constituída pela
entrada de um sujeito no
Real. Estamos , aqui, em r
elação com a elaboração
a mais certa do termo po
ssibilidade: Moglichkeit.
Não é do lado da coisa
que está o possível, mas
do lado do sujeito . A men
sagem se abre sobre o
tero da eventualidade co
nstituída por uma espera
na situação constituinte

-212 -
Lição de 21 de março de 1962

do desejo, tal como nós tentamos aqui c


ingi-la. Pode ser, a possibildade
é anterior a esse nominativo nada que, no
extremo, toma valor de substtuto
da positividade. É um ponto, e só iss
o, ponto fnal. O lugar do traço
unário está ali reservado no vazio que po
de responder à espera do desejo.
É uma outra coisa diferente da quest
ão, enquanto ela se articula
nada pode ser? Que o pode ser, no níve
l da demanda "o que é que eu
quero?", flando ao Outro, que o pode
ser que vem aqui em posição
homóloga àquilo que no nível da mensage
m constituía a resposta eventual.
Pode ser nada, é a primeira frmulação
da mensagem. Pode ser nada,
isso pode ser uma resposta, mas será a
resposta à pergunta nada pode
ser? Justamente não! Aqui, o enuncia
tivo nada, como colocando a
possibilidade de concluir, inicialmente,
ão-lugar como anterior à
quota de existência, à potência de ser
, esse enunciativo no nível da ,
questão toma todo seu valor de uma su
bstantivação do nada da própria
questão. A frase nada pode ser se abre, po
r sua vez, sobre a probabilidade
de que nada a determina como questão,
de que nada seja determinado,
de que continua possível que nada sej
a seguro, de que é possível que
não se possa concluir, a não ser pelo
recurso à anterioridade infnita
do processo kafkiano, que haja pura s
ubsistência da questão com a
impossibilidade de concluir. Só a eventua
lidade do Real permite determina
alguma coisa, e a nominação do nada d
a pura subsistência da questão,
eis aquilo a que, no nível da própria qu
estão, nos dedicamos. Pode ser
nada podia ser no nível da mensagem
uma resposta, mas a mensagem
não era justamente uma questão. Nada
pode ser, no nível da questão,
não dá senão uma metáfora, a saber, a
potência de ser é do além. Toda
eventualidade já desapareceu ali, e tod
a subjetividade também.
Ilá apenas efito de sentido, remes
sa do sentido ao sentido até o
infnito, exceto que para nós, analistas, já e
stamos habituados por experência
a estruturar essa remessa em dois plan
os e que é isso que muda tudo,
a saber, que a metáfora para nós é con
densação, o que quer dizer duas
cadeias e que ela fz, a metáfra, sua ap
arição de maneira inesperada,
bem no meio da mensagem, que ela s
e torna também mensagem no 1
meio da questão, que a questão
1
ia começa a se articular e que
surge no exato meio o milhão do
nário, que a irrupção da questão
na mensagem se faz nisso que nos é
ado, que a mensagem se manifesta
no exato meio da questão, que se
arece no caminho onde somos
chamados à verdade, que é através
nossa questão de verdade, digo,

-213-
A Identicação

da própria questão e n
ão na resposta à quest
ão, que a mensagem s
e
esclarece. É, portanto,
nesse ponto preciso, pr
ecioso pela articulação
da diferença entre enu
nciação e enunciado,
que era necessário no
s
determos um instante. Es
sa possibilidade do nada,
se ela não é preservada,
ado esta onipresença qu
e está no princípio
de toda articulação pos
sível propriamente subj
etiva, esta hiância que
está igualmente mui pre
cisamente encarnada n
a passagem do signo a
o
signifcante, onde vemos
aparecer o que é que di
stingue o sujeito nessa
difrença.
É ele signo, afnal de
contas, ou signifcante?
Signo, signo de quê? É

justamente o sigo de na
da. Se o sigifcante se de
fne como representando
o sujeito junto a outro s
ignifcante, remessa ind
efinida dos sentidos, e
se isso signifca alguma
coisa, é porque o signi
fcante signifca, junto
do outro signifcante, es
sa coisa privilegiada q
ue é o sujeito enquanto
nada. É aqui que nossa e
xperiência nos permite pô
r em relevo a necessidade
da va por onde se supor
ta nenhuma realidade n
a estrutura identifcável,
ir nossa experiência. O
Outro
não responde, portanto,
nada, a não ser que nad
a é seguro, mas isso só
ma coisa da qual ele n
ão quer saber
nada e muito precisam
ente dessa questão. N
esse nível, a impotênci
a
do Outro se enraíza nu
m impossível, que é exa
tamente o mesmo sobre
a via do qual nós já tín
hamos conduzido a qu
estão do sujeito. Não
possível era esse vazio
onde vinha surgir, em s
eu valor divisório, o traç
o
unário. Aqui, vemos ess
e impossível tomar corp
o e unir-se ao que vimos
,
há pouco, ser defnido p
or Feud da constituição
do desejo na interdição
original. A impotência d
o Outro em responder s
e deve a um impasse, e

esse impasse nós o con


hecemos: chama-se de
limitação de seu saber.
Ele não sabia que estav
a morto, que ele só che
gou a essa absolutidade

do Outro pela morte n


ão aceita, mas sofida,
e sofida pelo desejo d
o
sujeito. Disso o sujeito s
abe, se posso dizer; que
o Outro não deva sabê
lo, que o Outro demand
a não saber. Está aí a p
arte privilegiada nessas
duas demandas não conf
ndidas, a do sujeito e a d
o Outro, é que justament
e
o desejo se defne como
a intersecção daquilo qu
e, nas duas demandas,
não é para ser dito. É s
omente a partir dai que
se liberam as demanda
s
frmuláveis por toda par
te, menos no campo d
o desejo.
O desejo, assim, se
constitui inicialmente, p
or sua natureza, como
aquilo que está escon
dido do Outro por estr
utura. É o impossível a
o

- 214-
Lição de 21 de março de 1962

Outro justamente que se torna o desejo


do sujeito. O desejo constitui-se
como a parte da demanda que está esco
ndida do Outro. Esse Outro que
não garante nada, justamente enquanto
Outro, enquanto lugar da palavra,
é aí que ele toma sua incidência edifcant
e, ele tora-se o véu, a cobertura,
o princípio de ocultação do próprio lugar d
o desejo, e é aí que o objeto vai
se esconder. Que, se há uma existência
que se constitui primeiramente, é
esta, e que ela substitui a existência do
próprio sujeito, porque o sujeito,
enquanto suspenso ao Outro, fca igualm
ente suspenso ao fto de que, do
lado do Outro, nada está seguro, salvo ju
stamente que ele esconde, que
ele cobre alguma coisa que é esse objeto,
esse objeto que talvez ainda não
seja nada enquanto vai tornar-se o objet
o do desejo. O objeto do desejo
existe como esse próprio nada, do qual o
Outro não pode saber que é tudo
aquilo em que ele consiste. Esse nada,
enquanto oculto ao Outro, toma
consistência, torna-se o invólucro de tod
o objeto diante do qual a própria
questão do sujeito estanca, na medida e
m que o sujeito torna-se, então,
apenas imagnário. A demanda é liberada
da demanda do Outro, na medida
em que o sujeito exclui esse não-saber
do Outro. Mas, há duas formas
possíveis de exclusão. Lavo minhas mãos
quanto a você saber ou não saber,
e ajo. Você não deixa de ignorar quer di
zer a que ponto eu pouco me
importo com que você saiba ou não. Ma
s há também a outra maneira, é
absolutamente necessário que você saib
a, e é o caminho que o neurótico
escolhe, e é por isso que ele é, se posso
dizer, desigado antecipadamente
como vítima. A maneira certa para o neur
ótico resolver o problema desse
campo do desejo, enquanto constituído por
esse campo central das demandas,
que justamente se recortam e por isso de
vem ser excluídas, é que ele acha
que a maneira correta é que você saiba.
Se não fosse assim, ele não faria
psicanálise.
O que fz o homem dos ratos, ao levant
ar à noite, como Teodoro? Ele se
arrasta em pantufs, em direção ao corred
or, para abrir a porta ao fantasma
de seu pai morto, para lhe mostrar o quê?
Que ele está tendo uma ereção.
Não estará aí a revelação de uma condut
a fundamental? O neurótico quer
que, por falta de poder, já que está assegu
rado que o Outro nada pode, que
ao menos ele saiba. Falei-lhes há pou
co de engajamento; o neurótico,
contrariamente ao que se crê, é alguém q
ue se engaja como sujeito. Ele se
fecha após a sada dupla da mensagem e
da questão; ele própro se põe em
balanço para decidir entre o nada pode s
er e o pode ser nada, ele se põe
como real fce ao Outro, isto é, como impo
ssível. Sem dúvida, lhes parecerá

-215-
A Identiicação

melhor saber como isso


se produz. Não foi à-toa
que hoje fz surgr essa
imagem do Teodoro feud
iano em sua exibição not
urna e fntasmática, é
que há algum meio e, para
melhor dizer, algum instru
mento para essa incrvel
transmutação do objeto do
desejo na existência do suj
eito, e que é justamente
o flo. Mas isso está reser
vado para nosso próximo
debate. Hoje, verifco
simplesmente que flo ou n
ão, o neurótico chega ao
campo como o que do
real se especifica como im
possível .
Isso não é exaustivo, po
is essa defnição não po
derá ser aplicada à
fbia. Só poderemos fazê
-lo na próxima vez, mas
podemos muito bem
aplicá-la ao obsessivo. V
ocês não compreenderão
nada do obsessivo se
não se lembrarem dessa
dimensão que ele encar
na, nisso que ele é a
mais, é, para ele, sua fr
ma do impossível, e que
, desde que ele tenta
sair de sua posição emb
oscada de objeto oculto,
é preciso que ele seja
o objeto de lugar nenhu
m. Donde essa espécie
de avidez quase feroz,
no obsessivo, de ser aq
uele que está por toda
parte, para não estar
justamente em lugar ne
nhum. O gosto de ubiqü
idade do obsessivo é
bem conhecido e, na falt
a dessa referência, você
s não compreenderão
nada na maior parte de
seus comportamentos.
A menor das coisas, já
que ele não pode estar
em toda parte, é de est
ar, em todo caso, em
vários lugares ao mesmo
tempo, isto é, que, em to
do caso, em nenhum
lugar o possamos apree
nder. O histérico tem um
outro modo, que é o
mesmo, evidentemente,
uma vez que a raiz deste
, embora menos fácil,
menos imediata à comp
reensão. O histérico ta
mbém pode colocar-se
como real enquanto impo
ssível, então seu truque
é que esse impossível
subsistirá, se o Outro o
admite como signo. O h
istérico se apresenta
como signo de alguma c
oisa em que o Outro po
deria crer; mas, para
constituir esse signo ela
é bem real, e é preciso a
todo preço que esse
signo se imponha e mar
que o Outro.
Eis, pois, onde desemboc
a essa estrutura, essa dia
lética fundamental,
repousando inteiramen
te sobre a falência últi
ma do Outro equanto
garantia do certo. A reali
dade do desejo ali se ins
titui e toma lugar por
interédio de algo de que ja
mais assinalaremos sufcie
ntemente o paradoxo,
a dimensão do oculto, i
sto é, a dimensão que
é exatamente a mais
contraditória que o espírit
o possa construir, quand
o se trata da verdade.
O que há de mais natural
que a introdução desse c
ampo da verdade, se
não fosse a posição de u
m Outro onisciente? No p
onto em que o flósofo
mais afado, mais perspica
z, não pode fzer sustentar
-se a própria dimensão

-216-
Lição de 21 de março de 1962

da verdade, senão ao supor que é essa ci


ência daquele que sabe tudo
que lhe permite sustentar-se. E, no entanto,
nada da realidade do homem,
nada do que ele busca e do que ele segue se
sustenta senão dessa dimensão
do oculto, uma vez que é ela que infre a
garantia de que há um objeto
existente, sim, e que ela dá por reflexão es
sa dimensão do oculto. Afnal,
é ela que dá sua única consistência a essa
outra problemática, a fonte de
toda fé, e da fé em Deus eminentemente, é be
m o fato de nós nos deslocarmos
dentro da própria dimensão daquilo que,
embora o milagre do fato de
que ele deva saber tudo lhe dê, cm sum
a, toda sua subsistência, nós
agimos como se sempre os nove décimos d
e nossas intenções fossem por
ele ignorados, ele não sabia nada disso.
Nem uma palavra à Rainha
mãe, tal é o principio sobre o qual toda con
stituição subjetiva se desdobra
e se desloca.
Será que não é possível que se conceb
a uma conduta na medida
desse verdadeiro estatuto do desejo, e s
erá mesmo possível não nos
apercebermos de que nada, nem um pass
o de nossa conduta ética pode,
apesar da aparência, apesar da ladainha s
ecular do moralista, sustentar
se sem uma referência exata da função
do desejo? Será possível que
nós nos contentemos com exemplos tão
derrisórios quanto os de Kant
quando, para nos revelar a dimensão irr
edutível da razão prática, ele
nos dá, como exemplo, que o homem ho
nesto, mesmo no cúmulo da
felicidade, não deixará de ter pelo meno
s um instante em que ponha
em balanço que ele renunciaria àquela flic
idade para não lançar contra
a inocência um falso testemunho em b
enefício do tirano? Exemplo
absurdo, pois, na época em que vivemo
s, e também na de Kant, não
será que a questão não estará em outro p
onto? Pois o justo vai hesitar,
sim, para saber se, para preservar sua fa
mília, ele deve ou não lançar
um falso testemunho. Mas o que quer iss
o dizer? Será que quer dizer
que, se ele dá chance através disso ao ódi
o do tirano contra o inocente,
ele poderia lançar um testemunho verdadei
ro, denunciar seu companheiro
como judeu, quando ele o é de fato? Não s
erá aí que começa a dimensão
moral, que não é saber qual o dever que
temos de preencher ou não
fce à verdade, nem se nossa conduta cai
ou não sob o golpe da regra
universal, mas se nós devemos ou não s
atisfzer ao desejo do tirano?
Aí está a balança ética propriamente flan
do; e é nesse nível que, sem
fazer intervir nenhum dramatismo exter
no - não precisamos disso -
temos também de nos ocupar com aquil
o que, no término da análise,

-217-
A Identicação

fca suspenso ao Outro.


É enquanto a medida d
o desejo inconsciente,
no término da análise,
permanece ainda impli
cada no lugar do Outro
que encarnamos, com
o analistas, que Freud,
no término de sua obra
,
pode marcar como irred
utível o complexo de cas
tração, como inassumíve
l
pelo sujeito. Articularei
isso na próxima sessão
, fzendo frça para lhes
deixar pelo menos entre
ver que uma justa defniç
ão da fnção do fntasma
e de sua assunção pel
o sujeito nos permite, t
alvez, ir mais longe na

redução do que parece


u até aqui, à experiênci
a, como uma fustração
última.
-218-
LIÇÃO XV
28 de março 1962

Para que nos serve a topologa


dessa superfcie, dessa superf
cie chamada
toro, se sua infexão constitui
nte, isso que necessita essa
s voltas e mais
voltas é o que pode melhor no
s sugerir a lei à qual o sujeito
está submetido,
no processo de identificaçã
o? Isso, é claro, só poder
á nos aparecer,
finalmente, quando tivermo
s realmente feito a volta de
tudo o que ele
representa e até que ponto
convém à dialética própria
do sujeito, na
qualidade de dialética da id
entificação. A título, então,
de referencial e
para que, quando eu ressa
ltar tal ou qual ponto, acent
uar tal relevo,
vocês gravem, se posso diz
er, a cada instante o grau d
e orientação, o
grau de pertinência em relaç
ão a um certo objetivo a ser
alcançado do
que nesse momento eu adi
antarei, eu lhes direi que, d
e certa maneira,
o que pode inscrever-se nes
se toro, por mais que isso p
ossa nos servir,
vai mais ou menos simboliza
r-se assim, que essa forma,
esses círculos
desenhados, essas letras p
ertencentes a cada um dess
es círculos vão
nos designá-lo imediatamen
te. O toro, sem dúvida, pare
ce possuir um
valor privilegiado. Não acre
ditem que seja a única form
a de superfcie
não-esférica capaz de nos i
nteressar. Eu não poderia e
ncorajar demais
aqueles que têm por isso
alguma inclinação, algum
a fcilidade, em
refrir-se ao que se chama
de topologia algébrica e às
frmas que ela
lhes propõe nesse algo que,
se vocês quiserem, em relaç
ão à geometria

-219-
A Identificação

clássica, aquela que você


s guardam inscrita no ínti
mo, em conseqüência
de sua passagem pelo ensi
no secundário, apresenta-
se exatamente na analoga
do que tento mostrar-lhes
no plano simbólico, o que
chamei de uma lógica
elástica, uma lógica fexív
el. Isso se manifesta aind
a mais na geometria de
que se trata, pois esta, na t
opologa algébrica, apresen
ta-se ela mesma como
a geometria das fguras feit
as de borracha. É possível
que os autores façam
intervir essa borracha, ess
e rubber, como se diz em i
nglês, para bem colocar
no espírito do ouvinte de
que se trata. Trata-se de
fguras defrmáveis e
que, através de todas as
defrmações, peranecem
em relação constante.
Esse toro não é forçado a
se apresentar, aqui, em s
ua frma mais plena.
Não creiam que, entre
as superfcies que se de
fnem, que se deve
definir, que são aquelas qu
e nos interessam essencia
lmente, as superficies
fechadas, embora gue, e
m todo caso, o sujeito se
apresente, ele mesmo,
como algo fechado, as su
perfcies fechadas, qualqu
er que seja seu talento,
vocês verão que existe tod
o um campo aberto às inve
nções mais exorbitantes.
Não creiam, aliás, que a i
magnação presta-se de tã
o bom gado ao framento
dessas formas fexíveis, c
omplexas, que se enrola
m, se atam entre elas

mesmas. Vocês têm som

ente que tentar se tornar

flexíveis à teoria dos

a algo que nfw pode ir

mais longe que uma esf

era provida de alguns


apêndices, dentre os quais
estão justamente os do tor
o, que se representam,.
como umaacrescentada a
a anexa, uma esfera, tal
alça com
desenhei recentemente p
ara vocês, no quadro, um
a alça sufciente para
transformar a esfera e a al
ça num toro, do ponto de vi
sta do valor topológco.
Logo, tudo pode se redu
zir à adjunção da forma
de uma esfera, com
um certo número de al
ças, mais um certo nú
mero de outras frmas
eventuais. Espero que, n
a sessão antes das férias
, eu possa iniciar-lhes
nessa forma que é bem e
ngraçada - porém, quand
o penso que a maioria
de vocês aqui nem mesm
o imagina a sua existênci
a! É o que se chama,
em inglês, de cross-cap o
u, o que se pode designa
r pela palavra fancesa,
mitre.
Enfim, suponham u
m toro que teria com
o propriedade, em
alguma parte do seu con
torno, inverter sua super
fcie, quero dizer que,
num lugar que se situa a
qui entre dois pontos A e
B, a superfcie exterior
atravessa .. . a superfíci
e que está na fente atra
vessa a superfcie que

-220-
Lição de 28 de março de 1962

está atrás, as superfícies se cruzam


e elas. Eu posso apenas aqui

indicá-lo a vocês. Isso tem propriedades muit


o curiosas e pode ser bastan te
exemplar, embora, cm todo caso, é um
a superfície que possui essa

continuidade com a face interna, passand


o ao interior do objeto, e então
pode voltar cm um só giro para o outro l
ado da superfície de onde ela
partiu. É a coisa mais fácil de fazer, da m
aneira mais simples, quando
você faz com uma tira de papel, o que co
nsiste em prendê-la e torcê-la
de modo que sua borda sej a colada à bor
da extrema estando revirada.
Você percebe que se trata de uma super
fície que tem realmente uma

num certo sentido, algum limite, que pas


sa de um lado para o outro,
sem que você possa perceber, em nenhu
m instante, onde o passe de
mágica se realizou. Logo, aí existe a possi
bilidade sobre a superfície de.
uma esfera qualquer, como vindo para
realizar, para simplifcar uma
superfcie, por mais complicada que seja,
a possibilidade dessa forma
aí. Acrescentemos aí a possibilidade de
buracos; vocês não podem ir
além, quer dizer que, por mais complica
da que seja a superfcie que
voc(s imaginem , quero dizer, por exem
plo, que por mais complicada

nunca encontrar algo mais complicado qu


e isso. De maneira que existe,
um certo natural cm se referir ao toro
como a forma mais simples
intuitivamente, a mais acessível.
Isso pode nos ensinar algo. A respeito diss
o, eu lhes flei da signifcação
que podíamos dar, por convenção, artifcio,
a dois tipos de laços circulares,r
enquanto eles são privilegiados. Este que
gira em torno do que se pode

medida em que é suscetível de repetir-


se indefnidamente, de certa'
maneira o mesmo e sempre diferente. Ele
é bem feito para representar,r
para nós, a insistência significativa e es
pecialmente a insistência da

de voltas, a saber, uma circularidade co


mpleta, embora inteiramente
desapercebida pelo sujeito, e que sucede
nos ofrecer uma simbolização1
passiva evidente e, de alguma frma, má
xima quanto à sensibilidade,
intuitiva do que está incluso nos termos pr
óprios do desejo inconsciente,
já que o sujeito segue as suas vias e os seu
s caminhos sem saber. Através
de todas essas demandas, é, de alguma fr
ma, esse desejo inconsciente,·

-221 -
A Identicação

a metonímia de todas es
sas demandas. E
vocês vêem aí a encarn
ação viva dessas
refrências às quais lhe
s tornei flexíveis,
habituados ao longo d
o meu discurso,
principalmente ao da
metáfora e da
metonímia. Aqui, a meton
ímia encontra, de
algum modo, sua aplicaç
ão mais sensível,
como sendo manifestada
pelo desejo, sendo
este o que nós articulam
os como suposto
na sucessão de todas as d
emandas, enquanto
elas são repetitivas. Nós
nos encontramos
em fce de alguma coisa
onde vocês vêem
que o círculo
qui descrito me
rece que
___
atribuamos a el _
e o símbolo D
maiúsculo,
como símbolo da Dem
anda. Esse algo,
concernente ao círculo i
nterior, deve estar
relacionado com o que c
hamarei de desejo
metonímico. Bem, há ent
re esses círculos, a prov
a que podemos fazer,
um círculo privilegiado qu
e é fácil de descrever: é
o círculo que, partindo
do exterior do toro, enc
ontra o meio de fechar-
se, não simplesmente
inserindo o toro na sua e
spessura de alça, não si
mplesmente ao passar
através do buraco central,
mas ao circundar o buraco
central sem, contudo,
passar pelo buraco centr
al. Esse círculo aí tem o
privilégio de fazer as
duas coisas ao mesmo t
empo. Ele passa atravé
s e o circunda. Ele é,
então, a soma desses d
ois círculos, quer dizer,
ele representa D+d, a
soma da demanda e do d
esejo, e de algum modo n
os permite simbolizar
a demanda com sua subj
acência de desejo.
Qual é o interesse disso?
O interesse é que, se cheg
amos a uma dialética
elementar, como a da opo
sição de duas demandas,
se é no interior desse
mesmo toro que eu simb
olizo por um outro círcul
o análogo a demanda
do outro, com o que ele
vai comportar para nós d
e "ou ... ou ... ", "ou o
que eu demando", ou o qu
e tu demandas". Nós vem
os isso todos os dias,
na vida cotidiana. Isso p
ara lembrar que, nas co
ndições privilegiadas,
no nível onde vamos pro
curá-la, interrogá-la na a
nalise, é preciso que
nos lembremos disto, a sa
ber, da ambigüidade que e
xiste sempre no próprio
uso do termo ou, ou ent
ão, esse termo da disjun
ção, simbolizado em
lógca assim : A v B.
-222 -
Lição de 28 de março de 1962

Há dois usos desse ou ... ou ... Não é à to


a que a lógica marcaria todos
os seus esfrços e, se posso assim diz
er, faz força para lhe conservar
todos os valores da ambigüidade, isto é
, para mostrar a conexão de um
ou ... ou ... inclusivo com um ou ... ou ... exclus
ivo. Que o ou ... ou ... concerente,
por exemplo, a esses dois círculos pode
querer significar duas coisas: a
escolha dentre um dos dois desses círc
ulos. Porém isto quer dizer que
simplesmente quanto à posição do ou
... ou ... haja exclusão? Não. O
que vocês vêem é que o círculo no qu
al vou introduzir esse ou ... ou ...

lógica por n. A
relação do desejo com uma certa inter
seção, comportando certas leis,
não é simplesmente chamada para col
ocar no local, matter of fa ct, o
que se pode chamar o contrato, o acord
o das demandas; é considerando
se a heterogeneidade profunda que exis
te entre esse campo [ l) aquele
[2], sufcientemente simbolizado por isto: a
qui estamos fente ao fechamento
da superfície [ 1], e aí, fa lando claram
ente, ao seu vazio interno. [2) É
isso que nos propõe um modelo que n
os mostra que se trata de outra
coisa, e não de apreender a parte comu
m entre as demandas. Em outras
palavras, tratar-se-á, para nós, de saber
em que medida essa fo rma pode
nos permitir simbolizar como tais os con
stituintes do desejo, na medida
em que o desej o, para o sujeito, é ess
e algo que ele tem que constituir
no caminho da demanda. Desde já, m
ostro-lhes que há dois pon tos,
duas dimensões que podemos privilegi
ar, nesse círculo particularmente
significativo na topologia do toro: por u
m lado, é a distância que junta
o centro do vazio central com esse ponto
que ocorre ser, que pode defnir
se como uma espécie de tangência, gra
ças ao que um plano que corta o
toro vai nos permitir destacar, da man
eira mais simples, esse círculo

-223 -
A Identicação

privilegiado. É isso que


nos dará a definição, a
medida do pequeno a
enquanto objeto do desej
o. Por outro lado, na medi
da em que ele mesmo
seja localizável, definível
apenas em relação ao pr
óprio diâmetro desse
círculo excepcional, é no r
aio, na metade desse diâ
metro, se vocês assim
o prefrirem, que verem
os o que é o princípio,
a medida última da
relação do sujeito com o
desejo, a saber, o peque
no < como símbolo do
fa lo. Eis aqui cm que dire
ção nós tendemos e o qu
e tomará seu sentido,
sua aplicabilidade, e seu
alcance, do caminho qu
e teremos percorrido
antes, para nos permitir c
onseguir tornar para voc
ês flexível, sensível e
até certo ponto sugestivo
de uma verdadeira intensi
dade estrutural, essa
imagem mesmo. Dito ist
o, está bem entendido q
ue o sujeito, na tarefa
que nos ocupa, com es
se parceiro que apela p
ara nós, naquilo que
temos à nossa frente na
frma desse apelo, e o q
ue vem flar na nossa
frente, apenas o que se
pode definir e escandir c
omo o sujeito, apenas
isso se identifica. Vale a pe
na lembrá-lo porque, cm to
do caso o pensamento
desliza fcilmente. Por que
, se não se colocam os p
ontos nos "is", porque
não se diria que a pulsão
se identifica e que uma i
magem se identifica?
Somente pode ser dito c
om justiça identificar-se,
somente introduz-se
no pensa mento de Fre
ud o termo identificação
, a partir do momento
cm que se pode, num gr
au qualquer, mesmo se n
ão está articulado em
Fr eud, considerar como
a dimensão do sujeito - n
ão quer dizer que isso
não nos conduza muito
mais longe que o sujeito
- essa identifcação. A
prova aí também - eu lhe
s lembro isso que não se
pode saber se é nos
antecedentes, os primeir
os, ou se é no futuro do
meu discurso que o
aponto - é que a primeir
a forma de identificação,
e essa à qual se faz
referência com tanta levez
a, com psitacismo de papa
gaio, é a identifcação
que, dizem-nos, incorpo
ra, ou ainda - acrescent
ando uma confusão à
imprecisão da primeira
fórmula - introjecta. Co
ntentemo-nos com o
"incorpora", que é a mel
hor. Como começar por e
ssa primeira forma de
identifcação, já que nem
a mínima indicação, nem
a mínima referência,
senão vagamente metafó
rica, não lhes é dado nu
ma tal fórmula sobre o
que isso pode, de fato, qu
erer dizer? Ou então, se s
e fla de incorporação,
é porque deve se produ
zir alguma coisa no nível
do corpo. Eu não sei
se poderei, este ano, con
duzir as coisas tão longe
- eu o espero mesmo
assim, temos tempo, di
ante de nós, para conse
guir, vindo lá de onde
partimos, dar seu sentido p
leno e seu sentido verdade
iro a essa incorporação
da primeira identificaçã
o.

-22 4 -
Lição de 28 de março de 1962

Vocês o verão, não há outro meio de fzê-


la intervir, senão reunindo-
novamente por uma temática que j{ foi elab
orada, e desde as tradições
mais antigas, míticas e mesmo religiosas
'
, sob o termo "corpo místico" .
Impossível não tomar as coisas na medida
que vai da concepção semítica
primitiva : há algo do pai de sempre a to
dos os que descendem dele,
identi dade de corpo. Porém, na outra extr
emidade, vocês sabem, há a
noçáo que acabo de chamar pelo seu no
me, aquela de corpo místico, ,
enquanto é de um corpo que se constitui
uma igreja. E não é a toa que
Freu d, para nos definir a identidade do eu,
nas suas relações com o que
ele chama, na ocasião, de Massenpsychol
ogie, refere-se à corporeidade
da Igreja. Mas, como lhes fazer partir daí se
m cair em confusões e acreditar ,
que, como o termo "místico" o indica sufi
cientemente, é em caminhos
completamente diferentes que esses onde
nossa experiência queria nos
arrastar. É apenas retroativamente, de algu
m modo, voltando às condições
necessárias da nossa experiência, que po
deremos nos introduzir no que
nos sugere antecipadamente toda tentativ
a de abordar na sua plenitude
a reali dade da identifcação.
Portanto, a abordagem que escolhi, com a se
gunda forma de identicação,
não foi ao acaso; é por que essa identificaç
ão é apreensível, sob o modo
de abordagem pelo sig ifcante puro, pelo ft
o que nós podemos apreender
de uma maneira clara e racional uma
via para entrar no que quer
dizer a identificação do sujeito, enquant
o este faz surgir no mundo o
traço unário ... antes, que o traço unário, u
ma vez destacado, fz aparecer ,
o sujeito como aquele que conta - no duplo
sentido do termo. A amplitude
da ambigüidade que vocês podem dar a e
ssa fórmula aquele que conta,
ativamente sem dúvida, mas também o
que conta simplesmente na
realidade, o que conta verdadeiramente,
evidentemente vai demorar a
encontrar-se na sua conta, exatamente o
tempo que gastaremos para
percorrer tudo o que acabo de lhes indica
r aqui - terá, para vocês, seu
sentido pleno. Shaclleton e seus compa
nheiros na Antártica, a várias
centenas de quilômetros da costa, explorador
es entregues à maior fustração, ,
essa que não diz respeito somente às carên
cias mais ou menos elucidadas,
naquele momento - porque é um texto
escrito já há uns cinqüenta
anos - às carências mais ou menos eluc
idadas de uma alimentação '
especial que está ainda, nesse moment
o, em fse experimental , mas
que se pode dizer desorientados dentro
de uma paisagem, se posso
dizer, ainda virgem, ainda não habitada p
ela imaginação humana, nos

- 22 5-
A Identiicação

trazem em notas bem si


ngulares de se ler, que e
les contavam sempre
um a mais do que eram,
que eles não se reencon
travam nessa conta:
"Nós nos perguntávam
os sempre para onde ti
nha ido o ausente", o
ausente que não fa ltava
senão pelo fto de que to
do esforço de conta
lhes sugeria sempre qu
e havia um a mais, logo
, um a menos. Vocês
tocam aí no aparecime
nto no estado nu do suj
eito, que não é nada
mais do que isso, nada
mais além da possibilida
de de um significante a
mais, de um 1 a mais, g
raças ao qual ele consta
ta por si próprio, que
existe um que flta. Se lh
es lembro isso, é simple
smente para indicar,
numa dialética comporta
ndo os termos mais extr
emos, onde situamos
nosso caminho, e onde v
ocês poderão acreditar e
às vezes se perguntar
mesmo se nós não esque
cemos certas refrências.
Vo cês podem mesmo,
por exemplo, se pergunt
ar que relação existe ent
re o caminho que lhes
fz percorrer e esses dois
termos com os quais nós
tivemos um contato,
nós temos contato const
antemente, porém em m
omentos diferentes,
do Outro e da Coisa.
Claro, o sujeito, ele pró
prio, no último termo é
destinado à Coisa,
mas sua lei, mais exata
mente seu destino, é es
se caminho que ele só
pode descrever através
da passagem pelo Outro
, enquanto o Outro é
marcado pelo signifcant
e. E é no aquém dessa
passagem necessária
para o significante que s
e constituem como tais o
desejo e seu objeto.
O aparecimento dessa d
imensão do Outro e a e
mergência do sujeito,
eu não saberia lembrá-lo
demais para lhes dar o s
entido do que se trata
e cujo paradoxo, eu ach
o, deve ser suficientem
ente articulado nisso,
que o desejo, no sentid
o mais natural - entend
am - eleve e apenas
pode constituir-se dentro
da tensão criada por essa
rcla<ão com o Outro,
a qual se origina no ad
vento do traço unário -
na medida em que,
primeiramente e para c
omeçar, ele apaga tudo
da coisa - esse algo,
coisa bem diferente que
esse um que fi, para se
mpre insubstituível. E
nós encontramos aí, des
de o primeiro passo - res
salto-o para vocês de
passagem - a fórmula, aí
termina a fó rmula de Fr
eud: onde estava a
Coisa, eu [e] devo advir.
Seria preciso substituir n
a origem: Wo es war,
de prefrência por durch d
en Eins, aí, pelo um enqu
anto
um, o traço unário, werd
e Ich , tornar-se-á o eu [
e]. Tu do do caminho
é inteiramente traçado,
a cada ponto do caminh
o.

· -226 -
Lição de 28 de março de 1962

Foi exatamente aí que tentei lhes deixar e


m suspenso na última vez,
mostrando-lhes o progresso necessário a
esse instante, enquanto ele só
possa instituir-se pela dialética efetiva qu
e se realiza na relação com o
Outro. Estou surpreso com a espécie de
xeque-mate no qual pareceu
me que minha articulação caía, articulaç
ão, entretanto, bem cuidada,
do nada pode ser e do pode ser nada . O q
ue é preciso, então, para lhes
tornar sensíveis a isso? Talvez, meu text
o justamente nesse ponto e a
especificação de sua distinção como mens
agem e questão, depois, como
resposta, porém não no nível da questão,
como suspensão da questão
no nível da questão, foi complexo demais
para ser entendido facilmente
por aqueles que não anotaram os seus
diversos contornos, a fim de
voltar a eles posteriormente. Por mais dec
epcionado que eu possa estar,
sou eu, inevitavelmente que estou errado.
É por isso que volto a isso, e
para me fzer entender. Será que hoje, por
exemplo, eu não lhes sugeriria
ao menos a necessidade de voltar novame
nte a isso? E, afnal de contas,
é simplesmente lhes perguntando : Vocês
pensam que "nada de seguro",
como enunciação, pode lhes parecer pre
star-se ao mínimo deslize, à
mínima ambigüidade com "certamente nad
a "? Contudo, não é parecido.
Existe a mesma diferença entre o nada p
ode ser e o pode ser nada. Eu
diria mesmo que existe no primeiro, no nad
a de seguro, a mesma virtude
de solapar a questão na origem que há no
nada pode ser. E mesmo no
certamenteexiste a mesma virtude de resp
da
osta eventual, sem
dúvida, porém sempre antecipada em rel
ação à questão, como é fácil
apreender, me parece, se eu lhes lembrar q
ue é sempre antes de qualquer
questão e por razões de segurança, se assi
m posso dizer, que se aprende
a dizer, ao longo da vida, quando se é cri
ança, certamente nada. Isso
quer dizer: certamente, nada além daquil
o que já é esperado, isto é, o
que se pode considerar antecipadamente
como redutível a zero, como o
laço . A virtude desangustiante do Erwartung
, eis o que Freud sabe articular
para nós, na ocasião, nada senão o que j
á sabemos. Quando estamos
assim, estamos tranqüilos, porém não é se
mpre que estamos assim .
Portanto, o que nós vemos é que o sujeit
o, para encontrar a Coisa,
envereda, a princípio, na di reção oposta,
que não há meios de articular
esses primeiros passos do sujeito, senão
por um nada que é importante
fazer-lhes senti-lo nessa dimensão mesma
, ao mesmo tempo metafórica
e metonímica do primeiro jogo signifcant
e, por que, cada vez que nos
confrontamos com essa relação do sujeit
o com o nada, nós, analistas,

-227 -
A Identicação

escorregamos regularm
ente entre duas inclinaç
ões. A inclinação comu
m,
que tende em direção a u
m nada de destruição, é
a inoportuna interpretaçã
o
da agressividade, consid
erada como puramente r
edutível ao poder biológc
o
de agrssão, que não é, d
e maneira alguma, suficie
nte senão por degadação
,
para suportar a tendê
ncia ao nada, tal qual
ela aparece num cert
o

justamente logo antes


de ele introduzir a iden
tificação - com o insti
nto de morte. O outro
é
uma nadifcação que s
e assimilaria à negativi
dade hegeliana. O nad
a
que tento, para vocês, f
zer proceder desse mo
mento inicial na instituiç
ão
do sujeito, é outra coisa
. O sujeito introduz o na
da como tal e esse nad
a
é distinto de qualquer se
r de razão, que é aquele
da negativdade clássica,
de qualquer ser imaginá
rio, que é aquele do ser
impossível quanto à sua
existência, o famoso Ce
ntauro que detém os ló
gicos, todos os lógicos,
e
mesmo os metafísicos, n
a entrada de seus camin
hos em direção à ciência
,
que também não é o ens
pr ivativum que é, propri
amente falando, o que
Kant, admiravelmente,
na defnição dos seus q
uatro nadas, da qual el
e
tira tão pouco partido, c
hama de ni hil neg ativu
m, a saber, para empreg
ar
seus próprios termos: l
eerer Gegenst and ohne
Begriff, um objeto vazio,

porém acrescentemos,
sem conceito, sem ser
possível agarrá-lo com
a
mão. É por isso, para in
troduzi-lo, que tive de re
colocar, diante de vocês
,
a rede de todo o grafo,
a saber, a rede constit
utiva da relação com o
Outro e todas as suas c
onexões.
Eu gostaria, para lh
es conduzir nesse cami
nho, de ladrilhar essa v
ia
com flores . Vou exerc
itar-me nisso hoje, que
ro dizer, marcar minha
s
intenções. Quando lhe
s digo que é a partir da
problemática do além d
a
demanda que o objeto
se constitui como objet
o do desejo ; quero diz
er
que é porque o Outro n
ão responde a não ser
nada pode ser, que o pio
r
não é sempre certo, q
ue o sujeito vai encontr
ar num objeto as própri
as
virtudes de sua dema
nda inicial. Entendam q
ue é para lhes ladrilhar
a
via com 11ores que lh
es lembro essas verdad
es de experiência comu
m,
da qual não se reconh
ece bastante a signi!
icação, e tratar de lhes
fazer
sentir que não é aca
so, analogia, compara
ção, nem somente flor
es,
mas afinidades profu
n das que me farão lhe
s indicar a afinidade, p
or
fim, do objeto com e
sse Outro - com O ma
iúsculo - enquanto, po
r
exemplo, que ela se m
anifesta no amor, que o
famoso trecho que Elian
te,
no Misantropo, retom
ou do De natura rerum
de Lucrécia :

-228 -
Lição de 28 de março de 1962

"A pálida, em brancura, é comparada a


os jasmins;
"A negra causa medo a uma morena ad
úrável;
"A magra tem estatura e liberdade ;
"A gorda é, no seu porte, cheia de maje
stade;
"A suja, carregada de poucos atrativos;
"É conhecida pelo nome de beleza des
cuidada", etc.

Isso não é nada mais do que o sign


o impossível de se apagar, pelo
fato de que o objeto do desejo constit
ui-se apenas na relação com o
Outro, enquanto ele próprio se origna d
o valor do traço unário. Nenhum
privilégio no objeto, senão nesse valor
absurdo dado a cada traço por
ser um privilégio.
O que falta ainda para lhes conve
ncer da dependência estrutural
dessa constituição do objeto, objeto d
o desejo, em relação à dialética
inicial do signifcante, enquanto ela ve
m encalhar na não-resposta do
Outro? Senão o caminho já percorrido
por nós da busca sadiana, que
longamente lhes mostrei - e se está pe
rdido, saibam ao menos que me
empenhei a vol tar a esse assunto, nu
m prefácio que prometi a uma
edição de Sade - que nós não podemos
desconhecer, com o que chamo
aqui de afinidade estruturante desse
caminho cm direção ao Outro,
enquanto ele determina toda instituição
do objeto do desejo, que vemos
em Sade, a cada instante, misturadas,
entrançadas uma com a outra, a
invectiva - quero dizer a invectiva contr
a o Ser Supremo, sua negação
não sendo senão uma forma de invec
tiva, mesmo que isto seja sua
negação mais autêntica - absolutame
nte entrelaçadas com o que eu
chamaria, para aproximar, para abordá-la
um pouco, não tanto de destruição
do objeto, mas o que poderíamos tomar
inicialmente por seu simulacro,
porque vocês conhecem a excepcional
resistência das vítimas do mito
sadiano, em todas as prova s pelas quais
as fzem passar o texto romanesco.
E depois, que quer dizer essa espécie de tr
ansferência para a mãe encarnada
na na tureza de uma certa e fundamen t
al abominação de todos os seus
atos? Será que isso deve dissimular o
que está cm questão e que não
nos dizem, entretan to: que se trata, imitan
do-o nos seus atos de destruição
e levando-os até o último limi te, por u
ma vontade aplicada, de frçá-la
a recriar outra coisa, quer dizer o que?
D.1r novamente lugar ao criador.
No fnal das contas, em última instânci
a, Sade o disse sem saber, ele

-229 -
A Identifi cação

articula isso por seu enu


nciado: eu te dou tua rea
lidade abominável, a
ti, o Pai, substituindo-me
a ti nessa ação violenta
contra a mãe. Claro,
a restituição mítica do obj
eto ao nada não visa ape
nas à vtima privilegada,
no fnal das contas ador
ada como objeto do des
ejo, porém a própria
multiplicidade de tudo aq
uilo que é. Lembrem-se d
as tramas anti-sociais
dos heróis de Sade, essa r
estituição do objeto ao nad
a simula essencialmente
a aniquilação da potência
signifcante. Aí está o outr
o termo contraditório
dessa relação fundame
ntal com o Outro, tal co
mo ele se institui no
desejo sadiano, e ele é s
uficientemente mostrado
no último desejo do
testamento de Sade, na
medida em que visa preci
samente a esse termo
que especifquei para voc
ês como a segunda mort
e, a morte do próprio
ser, na medida cm que S
adc, no seu tcstamelllo, e
specifi ca, que do seu
túmulo e intencionalme
nte de sua memória, ap
esar de ser escritor,
não deve literalmente p
ermanecer nenhum tra
ço [pas de trace]. E a
floresta deve ser recons
tituída no local onde ele
tiver sido sepultado.
Que dele, essencialmen
te, como sujeito, é o nen
hum traço que indica
aí onde ele quer se afirm
ar : mui precisamente co
mo o que chamei de
aniquilação da potência
significante.
Se existe outra coisa q
ue devo lhes lembrar,
aqui, para escandir
sufcientemente a legtimid
ade da inclusão necessár
ia do objeto do desejo
nessa relação com o OU
tro, na medida em que el
e implica a marca do
significante como tal, eu
a designarei a vocês me
nos cm Sade que num
de seus comentários rece
ntes, contemporâneos, m
ais sensíveis e mesmo
os mais ilustres. Esse tex
to, que apareceu imediat
amente após a guerra,
num número de Te mpos
Modernos, reeditado rece
ntemente aos cuidados
do nosso amigo Jean-
Jacques Pauvert, na nova
edição da primeira versão
de Justine, é o prefácio
de Paulhan. Um texto co
mo aquele não pode
nos ser indiferente, na
medida cm que vocês a
companhem, aqui, os
rodeios do meu discurso;
porque é notável que sej
a pelas únicas vias de
um rigor retórico, vocês
verão, que não há outro
guia para o discurso
de Paulhan, o autor de
Fleurs de Ta rbes, a não
ser o seu desembaraço
tão sutil, isto é, por essas
vias, de tudo o que foi arti
culado até o momento
sobre o sujeito da signifc
ação do sadianismo, a s
aber, o que ele chama
de cumplicidade da ima
ginação sadiana com o
seu objeto, isto é, a
visão do exterior, quero
dizer pela aproximação
que pode fazer disso
uma análise literal, a vis
ão mais segura, mais es
trita que se possa dar
da essência do masoqui
smo, do qual justament
e ele não diz nada, a

_ -230 -
Lição de 28 de março de 1962

não ser que ele nos faz sentir muito bem q


ue está nessa via, que está aí
a última palavra do procedimento de Sade.
Não para julgá-lo clinica mente
e, de alguma maneira, de fra onde, entreta
nto, o resultado se manifesta.
É difícil se oferecer mais a todos os mau
s tratos da sociedade do que
Sade o fez a cada minuto, porém não est
á aí o essencial, o essencial
estando suspenso nesse texto de Paulha
n, que lhes peço para ler, que
não procede senão pelas vias de uma aná
lise retórica do texto de Sade
para nos fa zer sentir, apenas atrás de um
véu, o ponto de convergência,
enquanto ele se situa nesse revirament
o aparente fundado na mais
profunda cumplicidade com esse algo d
o qual a vítima é, no final das
contas, apenas o símbolo marcado por uma
espécie de substância ausente
do ideal das vítimas sadianas. É enquanto
objeto que o sujeilo sadia110
se anula.
Em que eftivamente ele reúne o que fenom
enologicamente nos aparece
então nos textos de Masoch. A saber, que
o fi m, que o cúmulo do gozo
masoquista não reside tanto no fa to que
ele se oferece a suportar ou
não tal ou qual sofrimento corporal, poré
m nesse extremo singular que,
nos livros, vocês encontrarão sempre nos
textos pequenos ou grandes
da fantasmagoria masoquista, essa anulaç
ão propriamente dita do sujeito,
na medida em que ele se torna puro obj
eto. Há apenas como fim o
momento onde o romance masoquista, qu
alquer que sej a, chega a esse
ponto que, de fra, pode parecer tão supérf
luo, e mesmo de Jloreios, de
luxo, que é, propriamente falando, que
ele se forja a si próprio, esse
sujeito masoquista, como o objeto de uma
transação comercial ou, mais
exatamente, de uma venda entre os dois
outros que o transferem como
um bem. Bem venal e, observem, nem
mesmo fetiche, porque o fim
último se indica pelo fato de que se trata
de um bem vil, vendido por
pouco dinheiro, que não precisará nem m
esmo ser preservado como o
escravo antigo que ao menos se constit
uía, se impunha ao respeito
pelo seu valor comercial.
Tudo isso, esses rodeios, esse caminho l
adrilhado com as fores de
Tarbes precisamente, ou com as flores lite
rárias, para lhes marcar bem
o que quero dizer, quando fa lo do que ac
entuei para vocês: a saber, a
perturbação profunda do gozo, na medid
a em que o gozo se defne em
relação à Coisa, pela dimensão do Outro
como tal, enquanto que essa
dimensão do Outro se defne pela introd
ução do signifcante.

-231 -
A Identiicação

Ainda três pequenos pas


sos à frente, e deixarei p
ara a próxima vez a
continuação desse disc
urso, com receio de que
vocês não percebam
demais que fadiga gripal s
e abate sobre mim, hoje. J
ones é um personagem
curioso, na história da
análise. Com relação à
história da análise, o
que ele impõe a meu esp
írito - eu lhes direi imediat
amente, para continuar
com esse caminho de f
lores, de hoje - é qual
diabólica vontade de
dissimulação podia bem h
aver em Fr eud, para ter c
onfado nesse astucioso
galês, como tal, com u
ma visão muito curta, p
ara que ele não fosse
longe demais no trabalh
o que lhe era confiado,
o zelo de sua própria
biografia. É aí, no artigo
sobre o simbolismo, qu
e consagrei à obra de
Jones - o que não signi
fca simplesmente o de
sejo de concluir meu
artigo com uma piada -
o que significa sobre o
que eu concluí, isto é,
a comparação da atividad
e do astucioso galês com
o trabalho do limpador
de chaminés. Com efito,
ele limpou muito bem to
dos os canos e poder
se-á me fzer justiça que,
no dito artigo, eu o aco
mpanhei em todas os
rodeios da chaminé, até s
air com ele, todo preto, pel
a porta que desemboca
no salão, como talvez vo
cês se lembrem. O que
me valeu, da parte de
um outro eminente mem
bro da Sociedade analíti
ca, um dos que admiro
e gosto mais, galês tamb
én1 IWinnicott]. a certez
a, numa carta, de que
ele não compreendia abs
olutamente nada da utilid
ade que eu acreditava
aparentemente encontra
r nesse minucioso proce
dimento. Jones nunca
fez nada mais, na sua
biografia, para marcar,
ainda que um pouco,
suas distâncias, a não s
er trazer uma luzinha ext
erior, como os pontos
onde a construção freudi
ana se encontra em desa
cordo, em contradição
com o evangelho darwi
niano - o que é, de sua
parte, simplesmente
uma manifestação propri
amente grotesca de sup
erioridade chauvinista.
Jones, então, no curso
de uma obra da qual o
encaminhamento é
apaixonante em razão de
seus próprios desconhec
imentos, a propósito
especialmente do estad
o fálico e de sua experiê
ncia excepcionalmente
abundante das homosse
xuais femininas, Jones e
ncontra o paradoxo do
complexo de castração,
que constitui certament
e o melhor de tudo a
que ele aderiu - e bem f
ez em aderir - para artic
ular sua experiência,
e onde literalmente ele
nunca penetrou um tant
o assim! [gesto com a
mão]. A prova é a introd
ução desse termo, certa
mente flexível, com a
condição de que se saib
a o que fazer dele, por e
xemplo, que se saiba
localizar aí o que não po
de ser para compreende
r a castração: o termo
aqavlplç • Para definir o
sentido do que posso ch
amar, sem nada frçar

-232 -
Lição de 28 de março de 1962

aqui, do efito de Édipo, Jones nos diz a


lgo que não pode melhor se
situar no nosso discurso; aqui, ele acaba p
or compactuar, quer ele queira
ou não, com o fto de que o Outro, como
articulei para vocês na última
vez, interdita o obj eto ou o desejo. Meu o
u é, ou parece ser, exclusivo.
Não exatamente : ou tu desejas o que eu
desejei, eu, o Deus morto, e
não há mais outra prova - porém ela bas
ta - da minha existência que
esse mandamento que te proíbe o objeto;
ou, mais exatamente, que te
fz constituí-lo na dimensão do perdido.
Tu não podes mais, por mais
que tu fças, senão encontrar um outro.ja
mais aquele. É a interpretação
mais inteligente que posso dar a esse passo
que ]ones transpõe alegremente
- e, asseguro-lhes , veementemente. Quan
do se trata de marcar a entrada
dessas homossexuais no domínio sulfre
o que será, desde então, seu
habitat, ou o objeto, ou o desejo, eu lhes a
sseguro que isso não demora.
Se me detenho aí é paravel, a melhor
essa escolha, vel ..

interpretação, quer dizer que exagero, f

aço falar da melhor maneira

a<pavtptç. Mas, o que quer dizer renunci

ar ao desejo? Será que é tão


sustentável, essa a<pavtctç do desejo, se n
ós lhe atribuímos essa função,
como em Jones, de sujeito de temor? S
erá que é mesmo concebível
primeiramente como experiência, no p
onto onde Freud o faz entrar
em jogo numa das saídas possíveis, e eu c
oncordo, exemplares do confito
freudiano, esse do homossexual feminino
? Observemos isso de perto.
Esse desejo que desaparece, ao qual, suj
eito, tu renuncias, será que
nossa experiência não nos ensina que isso
quer dizer que, desde então,
teu desejo vai estar tão bem escondido
que, por um tempo, ele pode
parecer ausente? Digamos mesmo, à m
aneira de nossa superfcie do
cross-cap,
ou da mitra: ele se inverte na dem
anda. A demanda, aqui,
uma vez mais, recebe sua própria mensag
em de forma invertida. Porém,
no fnal das contas , o que quer dizer esse
desejo escondido? A não ser
o que nós chamamos e descobrimos, na expe
riência, como desejo recalcado?
Em todo caso, existe apenas uma coisa
que sabemos muito bem que
não encontraremos nunca, no sujeito: é o
medo do recalcamento como
tal, no próprio momento em que ele se o
pera, no seu instante. Se se
trata, na acavtctç, de algo que concerne a
o desejo, é arbitrário, dada a

-233 -
A Identicação

maneira pela qual nossa


experiência nos ensina a
vê-lo se esquivar. É
impensável que um anali
sta articule que, na consc
iência, possa se frmar
algo que seria o temor do
desaparecimento do des
ejo. Lá, onde o desejo
desaparece, isto é, no rec
alcamento, o sujeito está c
ompletamente incluso,
não separado desse des
aparecimento. E nós o sa
bemos: a angústia, se
ela se produz, não vem
nunca do desaparecime
nto do desejo, mas do
objeto que ele dissimula,
da verdade do desejo, ou
, se vocês preferirem,
daquilo que nós não sab
emos do desejo do Outro
. Toda interrogação da
consciência concernente
ao desejo, como podend
o desfalecer, só pode
ser cumplicidade. Consci
us quer dizer, aliás, cúm
plice, no que, aqui , a
etimologia retoma seu fes
cor na experiência e é por
isso que lhes lembrei,
há pouco, no meu caminh
o ladrilhado de flores, a re
lação da ética sadiana
com o seu objeto. É o qu
e chamamos de ambivalê
ncia, de ambigüidade,
a reversibilidade de certo
s pares pulsionais. Mas n
isso nós não vemos -
para dizer simplesmente,
isso desse equivalente q
ue se reverte, que o
sujeito se torna objeto, e
o objeto, sujeito - não apr
eendemos o verdadeiro
princípio que implica se
mpre essa referência a
o grande Outro, onde
tudo isso faz sentido.
Então, a aq>avtctç, explic
ada como fo nte da angú
stia no complexo de
castração é, propriament
e falando, uma exclusão
do problema; porque
a única questão que um te
órico analista tem a se col
ocar aqui - compreende
se muito bem que ele te
nha, com efeito, uma q
uestão a se colocar,
porque o complexo de c
astração permanece, até
o presente momento,
uma realidade não com
pletamente elucidada -
a única pergunta que
ele tem a fazer a si pró
prio é aquela que parte
desse fato feliz que,
graças a Fre ud, legou pa
ra ele a sua descoberta a
um estágio bem mais
avançado que o ponto on
de ele pode alcançar, co
mo teórico da análise,
a questão é saber porq
ue o instrumento do des
ejo, o falo, toma esse
valor tão decisivo. Por
que é ele e não o desej
o que está implicado
numa angústia, num tem
or do qual não é ainda a
ssim vão, a propósito
do termo aqavtctç, que t
enhamos fito testemunh
o, para não esquecer
que toda angústia é ang
ústia de nada, na medid
a em que é do nada
que o sujeito deve se pr
oteger. O que quer dizer
que, por um
tempo, é para ele a melh
or hipótese: nada pode s
er temido. Porque é aí
que surge a fnção do fl
o, aí onde, de fto, tudo
seria sem ele tão fácil
de compreender, infelizm
ente de uma maneira co
mpletamente exterior
à experiência? Por que a
coisa do flo, por que o fl
o vem como medida,

-234 -
Lição de 28 de março de 1962

no momento em que trata-se de quê? Do


vazio incluído no coração da
demanda, quer dizer, do além do Princí
pio do Prazer, cio que faz da
demanda sua repetição eterna, isto é, o
que constitui a pulsão. Uma
vez mais, eis-nos trazidos a esse ponto
que não ultrapassei hoje, em
que o desejo se constrói no caminho de u
ma questão que o ameaça e
que pertence ao domínio
que vocês me permitirã
do "não ser" o introduzir
aqui com esse trocadilho.
Uma última reflexão foi-me sugerida, nesse
s dias, com a presentifcação
sempre cotidiana da maneira pela qual co
nvém articular decentemente,
e não somente gracejando, os princípios et
ernos da Igreja ou os desvios
vacilantes das diversas leis nacionais so
bre o birth contrai. A saber,
que a primeira razão de ser, na qual ne
nhum legislador até hoje se
apoiou, para o nascimento de uma crian
ça, é que se a deseja e que
nós, que conhecemos bem o papel disso -
que ela foi ou não desejada -
em todo o desenvolvimento ulterior do suje
ito, não parece que tenhamos
sentido a necessidade de lembrar, para intr
oduzi-lo, fazê-lo sentir através
dessa discussão ébria , que oscila entre as n
ecessidades utilitárias evidentes
de uma política demográfica e o temor an
gustiante - não o esqueçam -
das abominações que eventualmente o eu
genismo nos prometeria. É um
primeiro passo, um pequeno passo, mas um
passo essencial, e quanto, ao
colocá-lo à prova, vocês o verão, desempat
ando, que ao fazer observar a
relação constituinte, efetiva, em todo o des
tino futuro, supostamente a se
respeitar como o mistério essencial do ser
que está por vr, que ele tenha
sido desejado e por que. Lembrem-se que
ocorre freqüentemente que o
fundo do desejo de uma criança é simple
smente isso que ninguém diz:
"que ele sqja como nenhum, que ele seja mi
nha maldição sobre o mundo".

-235 -
LIÇAO XVI
04 de abril de I 962

Aqueles que, por diversas ra


zões, pessoais ou não, se dis
tinguiram
por sua ausência nessa reu niã
o da Sociedade que se chama
de provincial
vão sentir-se vítimas de um
pequeno aparte; pois, por a
gora, é aos
outros que vou dirigir-me, já q
ue é com eles que estou em
dívida, pois
eu disse alguma coisa nesse p
equeno congresso. Isso foi par
a defender
a parte que eles tomaram e is
so não se deu em mim, devo
dizê-lo, sem
recobrir certa insatisfação a r
espeito deles. É preciso, ape
sar de tudo,
filosofar um pouco sobre a nat
ureza do que se chama de co
ngresso. É,
em princípio, um desses tipo
s de encontro onde se fala,
mas cada um
sabe que qualquer coisa que
diga participa de alguma inde
cência, de
sorte que é bem natural que n
ão se diga, ali, mais que nada
s pomposos,
e cada um fi ca bem aparafus
ado no papel que se reservou.
Não é bem
isso o que se passa no que ch
amamos, mais modestamente,
de nossas
jornadas. Mas, desde há algu
m tempo, todos são modestos
. Chama-se
isso de colóquio, encontro. Is
so não muda nada ... No fun
do da coisa,
continua sempre a ser[rapportJ
ongresso. Há a questão .
relações
Parece-me que vale a pena q
ue nos detenhamos nesse ter
mo, porque,
fnalmente, é bem interessan
te olhá-lo de perto: relação e
ntre o quê,
ou mesmo, relação contra o
quê? Como diz, o pequeno r
elator? Será
que é bem isso o que se quer
dizer? Seria preciso ver. Em to
do caso, se
a palavra relação é clara, qu
ando se diz: "o relatório [rap
port] do Sr.
Fu lano de tal sobre a situação
financeira", não se pode, apes
ar de tudo,
dizer que estamos à vontade
para dar um sentido que deve
ser análogo
a um termo como "relatório sob
re a· angústia", por exemplo. V
o cês devem

-237 -
A Identicação

reconhecer que é basta


nte curioso que se fça
um relatório [rapport]
sobre a angústia, ou sob
re poesia, aliás, ou sobr
e um certo número de
termos desse gênero. E
spero, seja lá como for,
que a estranheza da
coisa lhes apareça, e espe
cifque não somente congr
essos de psicanalistas,
mas um certo numero d
e outros congressos, di
gamos, de filósofs em
geral. O termo rapport,
devo dizer, faz hesitar;
eu mesmo, durante
algum tempo, não hesitav
a em chamar de discurso
o que se podia chamar
com termos análogos : "Dis
curso sobre a causalidade
psíquica", por exemplo.
É precioso. Como rapporl.
o o mundo, acabei
tando a
Contudo, esse termo e s
eu uso são f'eitps para l'a
zer co m que vocês
coloquem justamente a
questão do grau de con
veniência com que se
mede essas relações estr
anhas com seus estranh
os objetos. É certo que
há uma certa proporção
de tais relações com um
certo tipo constituinte
da questão ao qual elas
se relacion am: o vazio
que está no centro de
meu toro, por exemplo.
Quando se trata da ang
ústia ou do desejo, é
muito sensível. O que n
os permitiria crer, comp
reender que o melhor
eco de significante que p
oderíamos ter do termo r
apport dito científico,
no caso, seria a ser toma
do com aquilo que se cha
ma também de relação,
quando se trata da rela
ção sexual. Uma e outr
a não deixam de ter
relação com a questão d
e que se trata, mas é be
m assim .. É exatamente
aí que encontr enquanto
amos essa dimfu ndador
ensão do não a
do próprio ponto em que
nos introduzimos no des
ejo e na medida em
que o acesso do desejo
exige que o sujeito não
estej a sem tê-lo, ter o
quê? Aí é que está toda
a questão. Dito de outra
man eira, que o acesso
ao desejo reside num fto
, nesse fto de que a cobi
ça do ser dito humano
deva deprimir-se inaugu
ralmente para se restau
rar sobre os degraus
de uma potência, da qual
a questão é saber do que
ela é, mas sobretudo
saber em direção a que e
ssa potência se esforça.
Ora, aquilo em direção
ao qual ela se esforça vis
ivelmente, sensivelmente
, através de todas as
metamorfoses do desejo h
umano, parece que é em
di reção a algo sempre
mais sensível, mais preci
sado, que se apreende p
ara nós como aquele
buraco central, aquela c
oisa, a qual é preciso ca
da vez mais contornar,
para que se trate desse
desejo que conhecemos,
esse desejo humano,
enquanto é cada vez m
ais informado.
Eis o que fz, portanto, at
é um certo ponto legítimo
, com que a relação
deles, do relatório sobre
a angústia em particular
daquele outro dia, só
possa ter acesso à ques
tão por não estar sem re
lação com a questão.

-238 -
Lição de 4 de abril de 1962

Isso não quer dizer que o sem, se poss


o dizer, deva preceder o não, dito
de outra maneira, que se creia um pouco
demasiadamente fá cil responder
ao vazio constitutivo do centro de um suj
eito, por excessivo desnudamento
nos meios de sua abordagem. E aqui v
ocês me permitirão evocar o mito
da Virgem louca que, na tradição judaico-
cristã, responde tão perfeita mente
ao da penia
da miséria, em O Banquete de
Platão. A pen ia consegue
o que quer porque está a serviço de V
ênus, mas isso não é fo rçado; a
imprevidência que simbol iza a dita Virge
m louca pode muito bem malograr
seu engravidamento.
Então, onde está o limite irpcrdo,ível,
nessa qucstüo - porque , enl"r,
é bem disso que se trata, é do estilo
daquilo que pode comunicar-se
num certo modo de comu11icacão que t
e mamos de finir, aquele que me
força a voltar à angústia, aqui, não c
omo pretexto para repreen der,
nem dar lição àqueles que falaram
disso, não sem falhas - limi te
evidentemente buscado, a partir do qu
al se pode fazer uma repri menda
aos congressos em geral, por seus res
ultados. Onde se deve buscá-lo?
Já que falamos de algo que nos permit
e apreender o vazio qua ndo se
trata, por exemplo, de falar do desejo;
será que vamos buscá-lo nessa
espécie de pecado no desejo contra não
sei que fogo da paixão, da paixão
da verdade, por exemplo, que é o mo
do no qual poderíamos designar
muito bem, por exemplo, uma certa po
stura, um certo estilo: a postura
universitária, por exemplo? Isso seria c
ômodo demais, seria fácil demais.
Não vou, evidentemente, aqui, parodiar
sobre o famoso rugido do vômito
do Eterno diante de uma tepidez qual
quer; um certo calor desemboca
também muito bem - é sabido - na es
terilidade. E na verdade, nossa
moral, uma moralidade que já se suste
nta muito bem, a moral cristã, diz
que não há mais que um só pecado: o
pecado contra o Espírito.
Ora, quanto a nós, diremos que não há
pecado contra o desejo, assim
como não há temor da (avtcni;, tal como
entende M. Jones. Não podemos
dizer que, em nenhum caso, possamo
s repreender-nos de não desejar
sufcientemente. Só há uma coisa - e q
uanto a isso nada podemos - só
há uma coisa a se temer : é essa obtus
ão em reconhecer a curva própria
do processamento desse ser infnitamen
te plano, do qual lhes demonstro
a propulsão necessária sobre esse obj
eto fechado que chamo aqui de
toro, que, a bem dizer, é apenas a fr
ma, a mais inocente, que a dita
curvatura pode tomar - já que, em ta
l outra frma, que não é menos
possível, nem menos difundida - ele
está na própria estrutura de tais

-239 -
A Identicação

formas, às quais pude


introduzir vocês na últi
ma sessão, que o sujeit
o,
ao se deslocar, se enco
ntra com a sua esquerda
no lugar da direita e isso
sem saber como tal pôd
e acontecer, como isso s
e fez. Isso, a essa altura
,
todos aqueles que aqui m
e escutam nada têm, a es
se respeito, de privilegado
s;
até um certo ponto, dir
ei que eu também não;
isso pode me acontecer
,
tanto quanto aos outros
. A única diferença entre
eles e eu, até o presente
,
parece-me, residia ape
nas no trabalho que de
dico a isso, uma vez qu
e
invisto nisso um pouqu
inho mais do que eles.
Posso dizer que nu
m certo número de cois
as que foram avançada
s
sobre um assunto que
, provavelmente, ainda
não abordei, a angústi
a,
não é isso o que me f
az decidir anunciar a v
ocês que será o tema
do
. meu seminário do ano
que vem, se o século n
os permitir que haja um
seminário. Sobre esse
assunto da angústia ten
ho ouvido muit as coisa
s
estranhas, coisas ave
nturadas, nem todas er
radas e que não terei q
ue
retomar, dirigindo-me e
specificamente a esta o
u aquela, a uma ou outr
a.
Parece-me, entretanto,
que o que se revelou ali
, uma certa falência, era
bem a de um cen tro e
de forma alguma de na
tureza a recobrir o que
chamo de o vazio do c
e1 1 lro. De toda f'orra,
alguns propósitos de m
eu
último seminário deveri
am ter posto vocês em g
uarda quanto aos pontos

mais vivos; e é por isso


que me parece também l
egítimo abordar a questã
o
sob este prisma , hoje, j
á que isso se encadeia e
xatamente no discurso d
e
oito dias atrás. Não fi
à-toa que sublinhei tud
o aquilo, que lembrei a
distância que separa, e
m nossas coordenadas
fu ndamentais, estas e
m
que se devem inserir n
ossos teoremas sobre
a identifcação este ano
,
sobre a distância que s
epara o Outro da Coisa
, nem tampouco que, e
m
termos próprios, acredit
ei ter de apontar-lhes a
relação da angústia co
m
o desejo do Outro. Na fa
lta de verdadeiramente p
artir dali, de se engancha
r
a isso como a uma sorte
de alça frme e por só ter
dado voltas em círculos,
nfw sei por qual pudor, i
sso verdadeiramente e
m alguns momentos, dir
ei
quase todo o tempo, e
mesmo naquelas relaçõ
es de que fa lei, relaçõe
s
com não sei quê, que
se liga a esse tipo de fl
ta que não é o bom, at
é
nessas relações, assim
mesmo, vocês podem co
notar à margem esse nã
o
sei quê, que era sempr
e a convergência, impo
ndo-se com uma espéci
e
de orientação de agulh
a, de bússola, que o ún
ico termo que podia dar
uma unidade a essa es
pécie de movimento de
oscilação, em torno do
qual a questão tremia, er
a esse termo: a relação
da angústia com o desej
o
do Outro. E é isso que
eu queria ... pois seria f
a lso , vão, mas não se
m

-240 -
Lição de 4 de abril de 1962

risco, de não marcar aqui algo de passag


em que possa ser como um germe,
para impedir tudo o que se tem dito,
sem dúvida de interessante, no
decorrer das horas dessa pequena reu
nião onde coisas cada vez mais
acentuadas vinham enunciar-se, para q
ue isso não se dissipe, para que
isso se ligue a nosso trabalho, peritam-me
tentar, aqui, muito gosseiramente,
como à margem e quase em antecipa
ção, mas não também sem uma
pertinência de pontos exatos, no ponto a
que havamos chegado, de pontuar
um certo número de indicações primeira
s. É a refe rência que não deveria,
em momento algum, fazer falta a você
s.
Se o fato de que o gozo, enquanto goz
o da Coisa, é proibido em seu
acesso fun damental, se é isso o que l
hes disse durante todo o ano do
seminário sobre A Élica, se é nessa su
spensão, no fato de ele estar, este
gozo, aufgelz oben , suspenso, propria
mente, que jaz o plano de apoio
onde vai-se constituir como tal e se
sustentar o desejo - isso é, na
verdade, a aproximação mais longínq
ua de tudo o que o mundo pode
dizer - vocês não vêm que podemos f
ormular que o Outro, esse Outro
enquanto, a um só tempo, ele se apres
enta ser e que não é, que ele está
para ser, o Outro aqui, quando avanç
amos em direção ao desejo, nós
vemos bem que, enquanto seu suporte
é o signifcante puro, o significante
da lei, que o Outro se apresenta aqui c
omo metáfora dessa interdição.
Dizer que o Outro é a lei ou que é o go
zo enquanto proibido, é a mesma
coisa. Então, alerta àquele - que, ali
ás, não está aqui hoje - que da
angústia fez o suporte e o signo e o espa
smo do gozo de um si identifcado,
identificado exatamente como se ele
não fo sse meu aluno, com esse
fundo inefável da pulsão como do cora
ção, do cen tro, do ser justamente
onde não há nada. Ora, tudo o que lhes
ensino sobre a pulsão é justamente
que ela não se confunde com este si
mítico, que ela nada tem a ver
com o que dela se faz dentro de uma per
spectivajunguiana. Evidentemente,
não é comum se dizer que a angústia
é o gozo daquilo que se poderia
chamar de último fu ndo de seu própri
o inconsciente. É a isso que se
refria esse discurso. Não é comum, e
não é porque não é comum que
é verdadeiro. É um extremo ao qual po
de-se ser levado quando se está
dentro de um certo erro que repousa
in teiramente sobre a elisão da
relação do Outro com a Coisa, enqu
anto antinômica. O Outro está
para ser, ele ainda não é. Ele tem, aind
a assim, alguma realidade, sem
isso eu não poderia sequer defni-lo co
mo o lugar onde se desdobra a
cadeia signifcante. O único Outro re
al, já que não há nenhum Outro

-241 -
A Ide ntifi cação

do Outro, nada que gara


nta a verdade da lei, sen
do o único Outro real
aquilo de que se poderi
a gozar, sem a lei. Essa
virtualidade defne o
Outro como lugar. A Coi
sa, em suma, elidida, re
duzida a seu lugar, eis
ai o Outro com O maiús
culo.
E vou ser bem rápido sob
re o que tenho a dizer a p
ropósito da angústia.
Isso passa, eu já lhes an
unciara, pelo desejo do
Ou tro. Então, é aí que
nós estamos, com o nos
so toro, e é aí que deve
mos defini-lo passo a
passo. É aí que farei um
primeiro percurso, um po
uco depressa demais;
isso nunca é ruim, porqu
e se pode voltar atrás. P
rimeira abordagem :
vamos dizer que essa r
elação que arliculo, diz
endo que o desejo do
homem é o desejo do Ou
tro, o que evidentemente
pretende dizer alguma
coisa, mas agora o que
está em questão, o que i
sso já introduz, é que,
evidentemente, eu digo
uma coisa totalmente di
ferente, digo que: o
desejo x do sujeito ego é
a relação com o desejo
do Outro, que estaria,
em relação ao desejo do
Outro, dentro de uma rela
ção de Beschrdnkung ,
de limitação, viria a se c
onfgurar num simples c
ampo de espaço vital
ou não, concebido com
o homogêneo, viria limit
ar-se por seu choque.
Imagem fundamental de t
oda sorte de pensamento
s, quando se especula
sobre os efeitos de uma c
onj unção psico-
sociológica. A relação do
desejo
do sujeito, do sujeito co
m o desejo do Outro, na
da tem a ver com o que
quer que seja de intuitiv
amente suportável dess
e registro. Um primeiro
passo seria dizer que, s
e medida quer dizer me
dida de grandeza, não
há, de fo rma alguma, e
ntre eles medida comum
. E nada mais que, ao
dizer, encontramo-nos co
m a experiência. Quem,
alguma vez, encontrou
uma comum medida en
tre seu desejo e qualqu
er pessoa com quem
tem a ver como desejo?
Se não se põe isso em p
rimeiro lugar em toda
ciência da experiência,
quando se tem o tíllllo d
e Hegel, o verdadeiro
titulo da Fe nomenologia
do espírito, pode-se per
mitir tudo, inclusive as
pregações delirantes sob
re as benfitorias da genit
alidade. É isso e nada
além disso que quer dizer
minha introdução do símb
olo - é algo destinado
a sugerir a vocês que .
x I, o produto de meu d
esejo pelo desejo do
Outro, isso só dá e só p
ode dar uma fa lta, - 1, a
falla do sujeito, nesse
ponto preciso. Resultado:
o produto de um desejo p
elo ou tro só pode ser
essa flta, e é daí que se
deve partir, para obter al
guma coisa. Isso quer
dizer que não pode hav
er nenhum acordo, nen
hum contrato no plano
do desejo, senão isso de
que se trata nessa identi
ficação do desejo do
homem com o desejo do O
utro, é isso, que lhes mostr
arei num jogo manifesto;

-242 -
Lição de 4 de abril de 1962

fzendo atuar, para vocês, as marionete


s do fntasma, uma vez que elas
são o suporte,·o único suporte possível d
o que pode ser, no sentido próprio,
uma realização do desejo.
Ora, pois, quando chegarmos a esse p
onto - vocês já podem, de toda
forma, ver indicado em mil referênci
as; as referências a Sade, para
tomar as mais próximas, o fantasma u
ma criança é
uma das vias primeiras com as quais c
omecei a introduzir esse jogo - o
que mostrarei é que a realização do
desejo significa, no próprio ato
dessa realização, só pode significar s
er o instrumento, servir o desejo
do Outro, que não é o objeto que você
s têm na sua fen te, no ato, mas
um outro que está por trás. Trata-se aí
do termo possível na realização
do fantasma. É apenas um termo possí
vel, e antes de vocês mesmos se
terem feito o instrumento desse Outro,
situado num hiperespaço, vocês
lidam pura e simplesmente com desej
os, com desejos reais. O desejo
existe, está constituído, passeia através do
mundo e exerce suas devastações,
antes de qualquer tentativa de imagin
ações de vocês, eróticas ou não,
para realizá-lo, e mesmo sequer está
excluído que vocês encontrem,
como tal, o desejo do Outro, do Outro
real , tal como defni há pouco. É
nesse ponto que nasce a angústia.
A angústia é besta como chuchu. É in
acreditável que, em momento
algum, eu não tenha visto sequer o esb
oço disso que parecia, em certos
momentos, como se diz, ser um jogo
de esconde-esconde, que é tão
simples. Fo i-se procurar a angústia, e,
mais exatamente, o que é mais
original que a angústia, a pré-angústia,
a angústia traumática. Ninguém
falou sobre isso, a angústia é a sensaç
ão do desejo do Outro . Todavia,
como, evidentemente, cada vez que a
lguém lança uma nova fórmula,
não sei o que se passa, as precedentes
caem no fundo de seus bolsos ou
dali não saem mais. É preciso, apesar
de tudo, que cu imagine isso, eu
que me desculpo, e até grosseiramente
, para fazer sentir o que pretendo
dizer, para que, depois disso, vocês te
ntem servir-se, e isso pode servir
em todos os lugares onde há angústia.
Pequeno apólogo, que talvez não
seja o melhor, a verdade é que eu o
forjei nesta manhã, dizendo-me
que era preciso que eu tentasse fzer-
me compreend er. Normalmente,
faço-me compreender de uma maneira
enviesada, o que não é tão ruim;
isso evita que vocês se enganem da m
aneira certa. Lá, vou tentar fazer
me compreender no lugar certo e evitar
-lhes erros. Imaginem-me dentro
de um recinto fechado, sozinh
de três metro
o com um louva-a-deus s

-243 -
A Identiicação

de altura. É a proporçã
o correta para guc cu t
enha o tamanho do dit
o
macho. Além do mais,
estou vestindo uma pe
le do tamanho do dito

75m, mais ou menos


minha altura. Eu me
miro,
miro minha imagem ass
im fa ntasiada dentro do
olho facetado do louva
a-deus fê mea. Será q
ue a angústia é isso?
É muito perto disso. N
o
entanto, dizendo-lhes qu
e é a sensação de desej
o do Outro, tal definição
manifesta-se pelo que
ela é, ou seja, puramen
te introdutória. É precis
o
evidentemente que vo
cês se reportem à min
ha estrutura de sujeito,
isto é, conhecer todo
o discurso antecedente
para compreender que
,
se é do Outro com O
maiúsculo que se trata,
não posso contentar-
me
cm não ir mais longe, p
ara só representar ness
e negócio essa pequen
a
imagem de mim como l
ouva-a-deus macho de
ntro do olho multifcetad
o
do outro. Trata-se, prop
riamente falando, da ap
reensão pura do desejo

do Outro como tal, se jus


tamente eu desconhecia
o quê? Minhas insígnias:
a saber, que estou fa nt
asiado com a pele do m
acho. Não sei o gue sou
,
como objeto para o Out
ro. Diz-se que a angústi
a é um afeto sem objeto
,
mas essa falta de obje
to, é preciso saber ond
e ela está: está do me
u
lado. O afeto da angústi
a é um efeito conotado
por uma falta de objeto,
mas não por uma falt
a de realidade. Se eu
não me sei mais objet
o
eventual desse desejo
do Outro, esse Outro q
ue está à minha fr ente
,
sua figura é-me in teira
mente misteriosa na me
dida, sobretudo, em qu
e
essa frma como tal ,
que tenho diante de m
im, tampouco pode, d
e
fato, estar constituída p
ara mim como objeto, m
as onde, de toda maneir
a,
posso sentir um modo
de sensações que fze
m toda a substância d
o
que se chama de angús
tia, dessa opressão indiz
ível por onde chegamos
à própria dimensão do
lugar do Outro, enqua
nto pode aparecer ali
o
desejo. É isso, a angú
stia. É somente a parti
r daí que vocês podem

compreender as divers
as vias que toma o ne
urótico, para se arranja
r
nessa relação com o de
sejo do Outro.

' _

- !+ -
Lição de 4 de ábril de 1962

Entã:o , no ponto em que estamos,


esse desejo - eu o mostrei a vocês
na última vez - como incluído prim
eiramente e necessariamente na
demanda do Outro. Aliás, aqui, o qu
e vocês encontram como verdade
primeira, senão o comum da experiên
cia quotidiana? O que é angustiante,
quase que para qualquer um, não s
omente para as criancinhas, mas
para as criancinhas que todos som
os, é o que, em alguma demanda,
pode bem esconder-se desse x, des
se x impenetrável e angustiante, por
excelência, de "o que é que ele pod
e estar querendo aqui?". O que a
confguração aqui demanda, vocês p
odem ver bem, é um medium entre
demanda e desejo . Esse medium, el
e tem um nome: chama-se falo. A
função fálica não tem nenhum outr
o sentido, senão ser aquilo que dá
a medida desse campo, e também,
se quisermos, que tudo o que nos
conta a teoria analítica, a dou trin
a freudiana, na matéria, consiste
justamente em nos dizer que é por
ali, afinal de contas, que tudo se
arranj a. Não conheço o desejo do
Outro, angústia, mas conheço-lhe o
in strumento : o fal o, e quem quer q
ue cu seja, espera-se que eu passe
por ali e não crie histórias; o que se
chama, em linguagem corrente, de
continuar os princípios de papai. E,
como cada um sabe que, desde há
algum tempo, papai não tem mais p
rincípio, é com isso que começam
todas as infelicidades . Mas, enqua
nto papai estiver ali, enquanto ele
fr o centro em torno do qual se org
aniza a transfrência daquilo que
é, nessa matéria, a unidade de troca
, a saber,
c
quero dizer, a unidade que se instaur
a, que se torna a base e o princípio
de todo sustentáculo, de todo o fun
damen to, de toda articulação do
[campo do] desejo ... Ora, ora, as c
oisas podem ir bem! Elas estarão
exatamente estendidas entre o rT cuv
m, pudesse ele jamais ter-me gerado!,

na tradição semítica, e até


bíblica, para flar propriamente, a sa
ber, ao contrário, o que me torna
o prolongamento vivo, ativo, da lei
do pai; o pai como origem daquilo
que vai-se transmitir como desejo.
A angústia de castração, porta
nto, vocês vão ver aqui que ela tem
dois sentidos e dois níveis. Pois se o
fa lo é esse elemento de mediação
que dá ao desejo o seu suporte, ora,
a mulher não é a menos fvorecida,
nessa história, porque, afinal de co
ntas, para ela é muito simples : já
que ela não o tem, tudo o que lhe r
esta é desejá-lo; e, minha fé, nos

-245 -
A Id entificação

casos mais felizes , é, de


fato, uma situação à qual
ela se acomoda muito
bem. Toda a dialética d
o complexo de castraçã
o, enquanto para ela,
ela introduz o Édipo, di
z-nos Freud, isso não q
uer dizer outra coisa.
Graças à própria estrutu
ra do desejo humano, a
via para ela necessita
menos desvios, a via nor
mal, que para o homem.
Pois, para o homem,
para que seu flo possa s
ervir de fundamento ao
campo do desejo, vai
ser preciso que ele peça
para tê-lo? É exatamente
de algo assim que se
trata, no nível do complex
o de castração, é de uma
passagem transicional
daquilo que, nele, é o sup
orte natural, torado meio
estrangeiro, vacilante,
do desejo, através dessa
habilitação pela lei; aquilo
cm que esse pedaço,
essa libra de carne vai
tornar-se a caução, alg
o por onde ele vai se
designar no lugar onde el
e tem de se manifestar c
omo desejo, no interior
do círculo da demanda. Es
sa preservação necessária
do campo da demanda,
que humaniza pela lei o
modo de relação do dese
jo com seu objeto, eis
do que se trala, nesse
ponto, e o que faz com
que o perigo para o
sujeito seja, não como se
diz em todos aqueles des
vios que fazemos, há
anos, ao tentar contrari
ar a análise, que o peri
go para o sujeito não
seja de abandono algum
da parte do Outro, mas
de seu abandono de
sujeito à demanda. Pois,
na medida em que ele vi
ve, que desenvolve a
constituição de sua relaç
ão com o falo estritamen
te sobre o campo da
demanda, é aí que essa
demanda não tem, propr
iamente falando, fim;
pois esse flo - ainda que
seja necessário para intr
oduzir, para instaurar
esse campo do desejo,
que ele seja demandado
- como vocês sabem,
não está no poder do O
utro, propriamente falan
do, fazer dele o dom,
no plano da demanda.
É na medida em que a tera
pêutica não consegue abs
olutamente resolver,
melhor do que tem feito
, o término da análise,
não consegue fzê-la
sair do círculo próprio à
demanda, que ela esbar
ra, que ela termina no
fm nessa frma reivindic
atória, esta forma inter
minável, unendliche,
que Freud, terminável e i
u último artigo,
nterminável",
análise
assinala como angústia
não resolvida da castraç
ão, no homem, como
Penisneid
na mulher. Mas uma j
, usta posição, uma po
sição correta da
função da demanda na
efciência analítica e da
maneira de dirigi-la
poderia talvez permitir-
nos, se não tivéssemos q
uanto a isso tanto atraso,
um atraso já suficient
emente demonstrado,
pelo fato de que,
manifestamente, é some
nte nos casos mais raros
que conseguimos nos
deparar com esse términ
o, marcado por Fr eud c
omo ponto de parada

· -246-
Lição de 4 de abril de 1962

em sua própria experiência. Permitisse o


céu que chegássemos ali, mesmo
que como um impasse ! Isso provaria já
ao menos até onde podemos ir,
enquanto que aquilo que importa é sab
er efetivamente se ir até ali nos
conduz a um impasse ou se poderemo
s passar adiante.
Será preciso que, antes de lhes deixar,
eu lhes indique alguns desses
pequenos pontos que lhes darão satisfaç
ão, para lhes mostrar que estamos
no lugar certo, quando nos referimos a al
go que esteja em nossa experiência
do neurótico? O que faz, por exemplo, o
histérico ou a neurose obsessiva
no registro que acabamos de lentar co
nstruir? O que fa zem ambos, um
e outra, nesse lugar do desejo do Outr
o como tal? Antes que caiamos
em suas armadilhas, ao incitá-los a jogar
todo o jogo no plano da demanda,
ao imaginarmos - o que, aliás, não é
uma imaginação absurda - que
chegaremos, fnalmente, a definir o c
ampo fálico como a intersecção
de duas fustrações, o que é que eles faz
em espontaneamente? A histérica
é bem simples, o obsessivo também, m
as é menos evidente. A histérica
não tem necessidade de ter assistido a
nosso seminário para saber que
o desejo do homem é o desejo do Outr
o e que, por conseguinte, o Outro
pode perfeitamente, nessa função do d
esejo, ela, a histérica, suplementá
la. A histérica vive sua relação com o
objeto fomentando o desejo do
Outro, com O maiúsculo, por esse obj
eto. Reportem-se ao caso Dora.
Creio ter sufcientemente articulado is
so, em todas as medidas, para
que não haja necessidade de relembrá-
lo aqui. Faço apelo simplesmente
à experiência de cada um e às opera
ções ditas de intrigante refnada
que vocês podem ver desenvolverem-se
em todo comportamento histérico,
que consiste em sustentar, em seu amb
iente imediato, o amor de alguém
por um outro que é sua amiga e verdad
eiro objeto último de seu desejo;
permanecendo sempre, evidentement
e, bem profunda a ambigüidade
de saber se a situação não deve ser c
ompreendida no sentido inverso.
Por quê? É o que, evidentemente, vocês
poderão, na seqüência de nossa
exposição, ver como perfeitamente calc
ulável, pelo simples fato da função
do falo, que pode sempre aqui passar d
e um ao outro dos dois parceiros
da histérica. Mas isso será visto por nó
s mais pormenorizadamente.
E que é que faz verdadeiramente o o
bsessivo com respeito, falo
diretamente, ao seu negócio com o des
ejo do Outro? É mais astucioso,
porque esse campo do desejo é constituíd
o pela demanda paterna, enquanto
é ela que preserva, que defne o campo
do desejo como tal, interditando
º· Ora, que ele então se vire sozinho!
Aquele que é encarregado de

-247 -
A Identiicação

sustentar o desejo no lu
gar do obje to, na neuro
se obsessiva, é o morto
.
O sujeito tem o falo, p
ode mesmo ocasional
mente exibi-lo, mas é
o
morto quem é chama
do a servir-se dele. N
ão é à-toa que aponte
ia
história do "Homem do
s ratos", a hora noturn
a em que, depois de te
r
se longamente contem
plado em ereção no es
pelho, ele vai à porta d
e
entrada abrir para o fa
ntasma do pai, pedir-
lhe que verifque que tu
do
está pronto para o supre
mo ato narcísico que é, p
ara o obsessivo, o desejo
.
Aqui, então, não se esp
an tem vocês que com t
ais meios, a angústia s
ó
aílore de tempos em te
mpos, que ela não apar
eça ali o tempo todo, qu
e
ela seja mesmo muito
mais e muito melhor afa
stada no histérico que n
o
obsessivo, já que a co
m placência do Outro é
muito maior que aquela
,
todavia, de um morto q
ue é sempre difícil, tod
avia, manter presente,
se
pode dizer. É por isso q
ue o obsessivo, ele tem
pos em tempos, cada ve
z
que não pode ser repe
tido à saciedade todo o
arranjo que lhe permite
arranjar-se com o desej
o do Outro, vê ressurgir
, eviden temente de um
a
maneira mais ou meno
s transbordante, o efeit
o de angústia.
Daí apenas, para voltar u
m pouquinho para tr(,s, vo
cês podem compreender
que a história fóbica m
arca um primeiro pass
o, nessa tentativa que
é
propriamente o modo
neurótico ee resolver o
problema do desejo do

Outro, um primeiro pass


o, digo, da ma neira co
mo isso se pode resolve
r.
Esse é um passo, como
todos sabem , que está l
onge, evidentemente, de

chegar àquela solução r


elativa da relação de an
gústia. Bem ao contrário
,
é apenas de uma mane
ira absolutamente prec
ária que essa angústia
é
dominada, vocês sabem
, por intermédio desse o
bjeto cuja ambigüidadej
á
nos fo i bastante sublinh
ada para nós, entre a fun
ção pequeno a e a função

pequeno c. O fator comu


m, que constitui o peque
no < em todo pequeno a
do desejo, está ali, de a
lguma maneira extraído
e revelado. É sobre isso

que salientarei, ressal ta


rei na próxima vez, para
retomar a partir da fbia,
para precisar em quê e
xatamente consiste ess
a função do flo.
Hoje, grosso modo,
o que vocês vêem ? É
que, afinal de contas, a

solução que percebemo


s do problema da relaçã
o do sujeito com o desej
o,
em seu fundo radical,
propõe-se assim: já qu
e se trata de demanda
e
que se trata de definir
o desejo, digamo-lo gr
osseiramente: o sujeit
o
demanda o fa lo e o falo
desej a. Realmente, é tã
o bobo assim. Mas é daí
,
pelo menos, que se dev
e partir, como fórmula ra
dical para ver efetivamen
te
o que, de fato, se dá n
a experiência. Esse mo
delo se modula em torn
o
- 248 -
Lição de 4 de abril de 1962

da relação do sujeito com o falo porqua


nto, vocês vêem, ele é essencialmente
de natureza identificatória e que, se
há alguma coisa que efetivamente
pode provocar surgimento da angús
tia, ligado ao temor de uma perda,
é o falo. Por que não o desejo? Não
há temor da afânise, há o temor de
perder o falo, porque só o flo pode
dar seu campo próprio ao desejo.
Mas agora, que não nos flem tamp
ouco de defesa contra a angústia.
Ninguém se defende contra a angú
stia, assim como não há temor da
afânise. A angústia está nos princí
pios das defesas, mas ninguém se
defende contra a angústia. Evidente
mente, se lhes digo que consagrarei
um ano inteiro ao tema da angústia, i
sso significa dizer que não pretendo
dar a volta completa no assunto hoj
e; que isso não causa problema. Se
a angústia - é sempre nesse nível
que fi definido para vocês, quase
caricaturalmcnte, por meu pequeno
apólogo, que se situa a angústia -
se a angústia pode tornar-se um sig
n o, é claro que, transformada em
signo, ela talvez não seja completa
mente a mesma coisa que ali onde
tentei colod-la para vocês, primeira
mente cm seu ponto essencial . Há
Larbém Ulll si111ulcro da angúslia.
Nesse nível, evidentemente, pode
se ser tentado min imizar-lhe o alcan
ce, já que é bem sensível que, se o
sujeito envia a si mesmo sign os de a
ngústia, é manifestamente para que
isso seja mais alegre. Mas não é, c
ontudo, daí que vamo s partir para
definir a função da angústia. E depoi
s, enfim, para dizer, como pretendi
un icamente fazê-lo hoje, coisas maci
ças, que possamos nos abrir a esse
pensamento que, se Freud nos disse
que a angústia é um sinal que passa
no nível do cu, é preciso sempre sab
er que é um sinal para quem? Não
para o eu, já que é no nível do eu q
ue ele se produz. E isso também,
lamentei muito que, em nosso último
encontro, essa simples observação
não fi fita por ninguém.

-249 -
LIÇÃO XVII
de abril 1962

Eu havia anunciado que co


ntinuaria hoje a flar sobre o
flo. Ora,
não lhes fa larei sobre ele, ou
melhor, só lhes falarei sob ess
a frma do
oito invertido, que não é assi
m tão tranqüilizadora. Não se
trata de um
novo significante. Vo cês vão
ver. É ainda do mesmo signifi
cante que
estou a falar, desde o princípio
do ano. No entanto, por que re
apresentá
lo como essencial? É para renov
ar com a base topológica de que
tratamos,
isto é, o que isso quer dizer, a
introdução feita, este ano, do
toro. Não
está assim tão certo que o qu
e eu disse sobre a angústia t
enha sido
bem ouvido. Alguém muito si
mpático e que gosta de ler, poi
s é alguém
do meio onde estuda-se, obs
ervou-me muito oportunamen
te - e digo
que escolho esse exemplo por
que é bastante estimulante -
que o que
eu disse sobre a angústia com
o desej o do Outro abrangia aq
uilo que se
lê em Kierkegaard . Na primeir
a leitura , pois é mesmo verda
de, vocês
pensam que eu me lembrava
que Kierkcgaar<l, para falar d
a angústia,
evocou a mocinha no momen
to cm que, pela primeira vez,
ela dá-se
conta de que é desejada. No e
ntanto, se Kierkegaard o disse,
a difrença
com o que eu digo é, se pos
so assim dizer, empregando
um termo
kierkegaardiano, que eu o rep
ito. Se houve alguém que fe z
notar que
nunca é à toa que a gente di
z: "Eu o digo e o repito", fi ju
stamente
Kierkegaard. Se se sente a nec
essidade de ressaltar que se re
pete após
ter dito, é porque, provavelm
ente, não é de forma alguma
a mesma
coisa repetir e dizer; e é absol
utamente certo que, se o que
eu disse na
última vez tem um sentido, é ju
stamente nisto que o caso leva
ntado por

-251 -
A Identicação

Kierkegaard é algo abs


olutamente particular e,
como tal, obscurece, ao

invés de esclarecer, o
sentido verdadeiro da f
órmula : a angústia é
o
desej o do Outro, com o
maiúsculo. Pode aconte
cer desse Outro encarna
r
se para a mocinha, num
momento de sua existên
cia, em al
qualquer. Isto nada tem
a ver com a questão qu
e levantei na última vez
e com a introdução do
desejo do Outro como
tal para dizer que é a
angústia, mais exatame
nte que a angústia é a s
ensação desse desej o.
Hoje vou, portanto,
retornar à minha via d
este ano, e tanto mais
rigorosamente porque,
na última vez, tive de f
zer uma excursão. E é

por essa razão que , m


ais rigorosamente que
nunca, vamos trabalha
r
com topologia. E é pre
ciso trabalhar com ela,
porque vocês não fzem

mais do que trabalhar


com ela a todo instante
, quero dizer, quer você
s
sejam lógicos ou não,
quer vocês saibam ou
não o próprio sentido d
a
palavra topologia. Por
exemplo, vocês utilizam
a preposição ou. Ora, é
bastante notável, mas se
guramente verdadeiro, qu
e o uso dessa conjunção
só foi, no campo da lógi
ca técnica, da lógica do
s lógicos, bem articulad
a,
bem precisada, bem po
sta em evidência, numa
época bastante recente,

recente demais para qu


e, em suma , seus efeito
s já tenham chegado até
vocês . E é por isso qu
e basta ler o menor text
o analítico corrente, por

exemplo, para ver que,


a todo instante, o pens
amento tropeça , desde
que se trate, não somen
te do termo identificação
, mas mesmo da simples

prática de identifcar o q
ue quer que seja do ca
mpo de nossa experiênc
ia.
É preciso partir dos esq
uemas, apesar de tudo,
digamos, in abalados no

pensamento de vocês,
inabalados por duas ra
zões: primeiro, porque
eles remetem àquilo que
chamarei de uma certa in
capacidade, propriament
e
falan do, típica do pensa
mento intuitivo ou, mais s
implesmente, da intuição,
o que quer dizer das pr
óprias bases de uma ex
periência marcada pela

organização daquilo qu
e se chama de sentido
visual. Vo cês se darão
conta muito facilmente d
essa impotência intuitiva
, se eu tiver a felicidade
de que, depois dessa
pequena conversa, voc
ês se ponham a coloca
r
para si mesmos simple
s problemas de represe
ntação sobre o que vou

lhes mostrar que pode


se passar na superfcie
de um toro. Vocês verã
o
a dificuldade que terão
para não se embaralha
rem. E, no entanto, um

toro é bem simples: é u


m anel. Vocês se embar
alharão, aliás, eu també
m
me embaralho como \·o
cês: foi-me necessário ex
ercício para me encontra
r
ali um pouco e mesmo
para dar-me conta do q
ue isso sugeria e do qu
e
isso permitia fu ndar p
raticamente . O outro t
ermo está ligado àquilo
Lição de 11 de abril de 1962

que se chama de instrução, isto é, que


essa espécie de impotência intuitiva,,
fz-se tudo para encorajá-la, para as
sentá-la, para dar-lhe um caráter
de absoluto, e isso, eviden temente,
com as melhores intenções. Fi o
que aconteceu, por exemplo, quando,
em 1741, Euler, um grande nome
na história da matemática, introduziu
seus fmosos círculos que, saibam
vocês ou não, muito fizeram, de fato,
para estimular o ensino da lógca
clássica num certo sentido que, longe
de abri-la, só podia tender a tornar
inoportunamente evidente a idéia q
ue dela podiam fazer os simples
alunos. A coisa produziu-se porque
Euler havia posto na cabeça - e só
Deus sabe porquê - ensinar a uma prin
cesa, a princesa de Anhalt Dessau.
Durante todo um período, ocupou-
se muito das princesas, ainda nos
ocupamos com elas, e isso é deplor
ável. Vocês sabem que Descartes
tin ha a sua : a famosa Christine. É u
ma figura histórica de outro relevo:
ele morreu por causa dela. Isso não é
assim tão subjetivo; há uma espécie
de fe dor muito particular que se destac
a de tudo o que envolve a entidade
princesa ou Prinzessin. Temos, dura
nte um período de mais ou menos
três séculos, alguma coisa que está d
ominada pelas cartas endereçadas
a princesas, as memórias das princesa
s, e isso tem um lugar certo dentro
da cultura. É uma espécie de suplê
ncia daquela Dama cuj a fu nção
tentei explicar-lhes, função tão difícil
de se compreender, tão difícil de
se abordar na estrutura da sublimaçã
o cortês, cuj o verdadeiro alcance
não estou muito seguro, afinal de co
ntas, de ter-lhes fito perceber. Na
verdade, só lhes pude dar algumas pr
ojeções, como se tenta representar
num outro espaço fguras em quatro
dimensões que não se pode ver.
Fiquei sabendo, com prazer, que algu
ma coisa disso chegou a ouvidos
que me são próximos e que começam
a se interessar, em outros lugares
além daqui, por aquilo que poderia ser
o amor cortês. Já é um resultado.
Deixemos de lado a princesa e os em
baraços que ela pode ter causado
a Euler. Ele escreveu-lhe 24 1 cart
as, não unicamente para fazê-la
compreender os círculos de Euler. P
ublicadas em 1775 em Londres,
constituem uma sorte de corpus do
pensamento científico da época.
Delas, a única coisa que se destaca e
fetivamente são esses pequenos
círculos, esses círculos de Euler que sã
o círculos como todos os círculos;
trata -se simplesmente de ver o uso que
deles se fez. Serviam para explicar
as regras do silogismo e, afinal de cont
as, a exclusão, a inclusão e depois
o que se pode chamar de intercessão
de dois o quê? De dois campos
aplicáveis a quê? Mas, meu Deus, apli
cáveis a muitas coisas, aplicáveis,

-253 -
A Identicação

por exemplo, ao campo on


de uma certa proposição é
verdadeira, aplicáveis
ao campo onde uma cer
ta relação existe, aplicáv
eis simplesmente ao
campo onde um objeto e
xiste.
Vocês vêem que o uso do
círculo de Euler - se vocês
estiverem habituados
à multiplicidade das lógc
as tal como elaboraram
num imenso esforço,
cuja maior parte está na
lógica proposicional, rel
acional e lógica das
classes - foi distinguido
da maneira mais útil. Nã
o posso sequer sonhar
em entrar, evidentemente
, nos detalhes que neces
sitaria dar a distinção
de tais elaborações. O q
ue quero simplesmente
fzer reconhecer aqui
é que vocês têm certame
nte a lembrança de tal o
u tal momento de sua
existência em que lhes
chegou, sob essa fo r
ma de suporte, uma
demonstração lógica qua
lquer de algum objeto co
mo objeto lógico, quer
se tratasse de proposiçã
o, relação, classe, ou at
é mesmo de objeto de
existência. To memos u
m exemplo no nível da
lógica das classes e
representemos, por ex
emplo, por um pequen
o círculo no interior de
um maior, os mamíferos
em relação à classe do
s vertebrados. Isto é
fcil, e ainda mais simple
s, porque a lógica das c
lasses é certamente
aquilo que, no princípio, p
reparou os caminhos da
maneira mais cômoda
para essa elaboração fo
rmal e para que nos rep
ortemos ali a algo já
encarnado numa elabor
ação significante, a da cl
assificação zoológica
simplesmente, que verd
adeiramente dá o model
o. Só que o universo
do discurso, como se diz
com razão, não é um uni
verso zoológico, e, se
quisermos estender as pro
priedades do universo da
classificação zoológica
a todo o universo do dis
curso, escorregaremos
facilmente num certo
número de armadilhas q
ue nos incitam a cometer
erros e deixam muito
rapidamente ouvir o sinal
de alarme do impasse sig
nificativo. Um desses
inconvenientes é, por ex
emplo, um uso inconsid
erado da negação. Fi
justamente numa época
recente que esse uso se
achou aberto como
possível, a saber, justo n
a época em que se fez a
observação de que, no
uso da negação, esse círcu
lo de Euler exterior da inclu
são devia desempenhar

que é não-homem no int


erior dos animais. Em ou

tros termos, que para

quê ele é não A, a sabe

r, aqui, em B. A negaçã

o, vocês a verão - se

-254 -
Lição de 11 de abril de 1962

abrirem Aristóteles nesta ocasião - arrast


ada a toda sorte de difculdades.
Todavia, não é,menos contestável que n
ão se esperou de forma alguma
essas observações, nem tampouco se f
ez o menor uso desse suporte
formal, quero dizer que não é normal fa
zer uso disso para se servir da
negação, a saber, que o sujeito em s
eu discurso fz freqüentemente
uso da negação, em casos onde não há
a menor possibilidade do mundo
de garanti-la sobre essa base formal . Do
nde a utilidade das observações
que lhes faço sobre a negação, distin
guindo a negação no nível da
enunciação, ou como constitutiva da n
egação no nível do enunciado.
Isso quer dizer que as leis da negação
, justamente no ponto em que
elas não estão asseguradas por essa intr
odução completamente decisiva
e que data da distinção recente da lógic
a das relações com a lógica das
classes, que é, em suma, para nós, ab
solutamente em outra parte e
não ali onde ela encontrou seu equilíbrio
que temos de definir o estatuto
da negação. É um lembrete , um lembr
ete destinado a esclarecer-lhes
retrospectivamente sobre a importânci
a disto que, desde o princípio
do discurso deste ano, sugiro-lhes no
que concerne à originalidade
primordial , em re lação a essa distinção,
da função da negação.

O+O
união u x
Vocês vêem, portanto, que esses círc
ulos de Euler - não foi Euler
que se serviu deles com esse fm. Fo i n
ecessário, depois dele, que se
introduzisse a obra de Boole, depois a
de De Morgan, para que isso
fosse plenamente articulado. Se retorno a e
sses círculos de Euler, portanto,
não é porque ele próprio tenha feito tão
bom uso assim deles, mas é

- 255 -
A Identicação

que é com seu materi


al, com o uso desses c
írculos que se pudera
m
fazer os progressos qu
e se seguiram e dos qu
ais lhes dou ao mesmo
tempo um dos que não
são os menores nem o
menos notório, em todo

caso particularmente int


eressan te, de apreens
ão imediata. Entre Eule
r
e De Morgan o uso de
sses círculos permitiu u
ma simbolização que é

tão útil quanto lhes par


ece, de resto, implicita
mente fundamental, qu
e
repousa na posição de
sses dois círculos que s
e estruturam assim. É o

que chamaremos dois c


írculos que se recortam,
que são especialmente
importantes, por seu v
alor intuitivo, que parec
erá a cada um de você
s
incontestável, se lhes fa
ço observar que é em to
rno desses círculos que
podem articular-se, pri
meiro, duas relações qu
e convém ressaltar bem
,
que são, primeiro, a da
reunião. Que se trate d
o que quer que seja qu
e
enumerei há pouco, su
a reunião, é o fato ele q
ue, após a operação da

reunião, o que é unifica


do são estes dois cam
pos. A operação dita d
a
reunião, que se simboli
za normalmente assim
u, é precisamente o qu
e
introduziu esse símbolo,
é, vocês vêem, algo que
nio é de forma alguma
parecido com a adiçfto.
É a van tagem desses cí
rculos, fazer sentir essa
<lil"e rença. Não é a me
sma coisa adicionar, po
r exemplo, dois círculos
separados ou reun i-
los nessa posição. 1á u
ma outra relação, que
é
ilustrada por esses doi
s círcul os que se recor
tam: é a da intersecção
,
simbolizada pelo sinal n
, cuja significação é co
mpletamente diferente .

O campo de intersecção
está compreendido dentr
o do campo de reunião.
No que se chama de ál
gebra de Boole, mostra
-se que, até pelo meno
s
um certo ponto, essa op
eração da reunião é bas
tante análoga à adição,
para que se possa simbol
izá-la pelo sinal da adição
(+). Mostra-se igualmente

que a intersecção é est


ruturalmente bastante a
náloga à multiplicação,
para que se possa sim
bolizá-la pelo sinal da
multiplicação (x).
Garanto-lhes que fç
o aqui um extrato ultra-
rápido, destinado a lev
ar
vocês até onde tenho d
e levá-los, e me escuso
junto àqueles para que
m
tais coisas se apresenta
m em toda a sua comple
xidade , quanto às elisõe
s
que isso comporta, poi
s é preciso que avance
mos ainda mais longe.
E,
sobre o ponto preciso
que tenho a introduzir,
o
que nos interessa é al
go que. até De !lorgan
-e
temos de fcar espanta
dos com uma semelha
nte
omi$$lo -. nlo tinln si
do. propri:mente falan
do.
Lição de 11 de abril de 1962

uso absolutamente rigoroso da lógca; é pre


cisamente esse campo constituído
pela extração, na relação desses dois cí
rculos, da zona de intercessão.
E considerar o que é o produto, quand
o dois círculos se recortam, no
nível do campo assim definido, isto é, a
reunião menos a intersecção, é
o que se chama de difrença simétrica
. Essa diferença simétrica é o
que vai nos reter, o que para nós, vocês
verão porquê, é do mais elevado
interesse. O termo diferença simétrica
é aqui uma denominação que
lhes peço simplesmente que tomem e
m seu uso tradicional, é assim
que a chamaram. Não tentem dar um se
ntido analisável gramaticalmente
a essa pretensa simetria. A difrença si
métrica quer dizer o seguinte:
esses campos, nos dois círculos de Eul
er, enquanto defin em como tal
um "ou" de exclusão. Dizendo respeito a
esses dois campos [recortados),
a diferença sim étrica marca o campo tal
como está construído, se vocês
dão ao ou nüo o sentido alternativo, e
que implica a possibilidade de
uma identidade local entre os dois ter
mos, e o uso corrente do termo
ou, que faz co111 que, de f'ato, o termo 01
1 se aplique aqui muito bem ao
cam po da reu niüo. Se uma coisa é ou
A ou B, é assim que o campo de
sua extensão pode ser desenhado, a
saber, sob a forma primeira em
que esses dois campos estão recobertos
. Se, ao contrário, é exclusivo, A
ou B, é assim que podemos simbolizá-lo, a
saber, que o campo da intersecção
está excluído.
ou A ou B vel
A ou B é exclusivo
Isso deve nos levar a um retorno a u
ma reflexüo que diz respeito
àquilo que supõe intuitivamente o uso
do círculo como base, como
suporte de algo que se frmaliza em fun
ção de um limite. Isso se defne
muito sufcientemente pelo fto de que,
num plano de uso corrente, o
que não quer dizer um plano natural,
um plano fabricável, um plano
que entrou completamente no nosso uni
verso de instrumentos, a saber,
uma flha de papel - vivíamos muito m
ais em companhia de flhas de
papel que em companhia de toros. Dev
e haver razões para isso, mas,
enfm, razões que não são evidentes.
Por que, afinal, o homem não

-257 -
A Identicação

fbricaria mais toros? Ali


ás, durante séculos, o q
ue temos atualmente
sob a frma de flhas era
m rolos, que deviam ser
mais fmiliares com a
noção do volume em out
ras épocas que na nossa
. Enfm, há certamente
uma razão para que ess
a superfcie plana seja al
go que nos baste e,
mais exatamente, algo co
m que nos bastemos. Ess
as razões devem estar
nalgum lugar. E, eu o indic
ava há pouco, não se pod
eria atribuir demasiada
importância ao fato de qu
e, contrariamente a todos
os esforços dos fsicos,
assim como dos filósofos
, para nos persuadirem d
o contrário, o campo
visual, por mais que se
diga, é essencialmente
em duas dimensões.
Numa folha de papel, nu
ma superfcie praticamen
te simples, um círculo
desenhado delimita da
maneira mais clara um i
nterior e um exterior.
Eis todo o segredo, todo
o mistério, o mecanismo
simples do uso que
dele é fito na ilustração
euleriana da lógica.
Coloco a vocês a seguin
te questão: o que acon t
eceria se Euler, ao
invés de desenhar esse
círculo, desenhasse me
u oito invertido, este
com que quero hoje entr
eter vocês? Aparenteme
nte, é apenas um caso
particular do círculo com
o campo interior que ele
defne e a possibilidade
de ter um outro círculo
no interior. Simplesme
nte o círculo interior
toca - eis o que, à prim
eira vista, alguns poder
ão dizer-me - o círculo
interior toca no limite co
nsti tuído pelo círculo ex
terior. Só que não é,
apesar de tudo, exatame
nte isso, no sentido de q
ue está bem claro, da
maneira como eu o de
senho, que a linha aq
ui do círculo exterior

continua na linha do círc


ulo interior para se reen
contrar aqui. E então,
simplesmente para marca
r logo em seguida o inter
esse, o alcance dessa
frma tão simples, eu lhe
s sugeriria que as obser
vações que introduzi
num certo ponto de me
u seminário, quando in
troduzi a função do
significante, consistiam
no seguinte: em lembrar
-lhes o paradoxo, ou
pretenso paradoxo, introd
uzido pela classifcação d
os conjuntos, lembrem
se, que não se compree
ndem eles próprios. Lem
bro-lhes a dificuldade

-258 -
Lição de 11 de abril de 1962

que eles introduzem: devemos incluir o


u não esses conjuntos que não
se compreendem eles mesmos, no conj
unto dos conjuntos que não se
compreendem eles mesmos? Vocês vê
em aí a difculdade. Se sim, é,
portanto, que eles se compreenderão el
es mesmos nesse conjunto dos
conjuntos que não se compreendem eles
mesmos. Se não, achamo-nos
diante de um impasse análogo. Isso é fci
lmente resolvido, com a simples
condição de que se perceba pelo menos
o seguinte - é a solução, aliás,
que deram os frmalistas, os lógicos - qu
e não se pode flar, digamos da
mesma maneira, dos conjuntos que se c
ompreendem eles mesmos e dos
conjuntos que não se compreendem ele
s mesmos.

E : conjuntos que se
copreendem eles mesmos

ElE:conjuntos que não se


compreendem eles mesmos

Em outras palavras, que os excluamos c


omo tais da definição sim ples
dos conjuntos, que coloquemos, afi
nal, que os conjuntos que se
compreendem eles mesmos não podem
ser colocados como conjuntos.
Quero dizer que, longe que essa zona inte
rior de objetos tão consideráveis
na construção da lógica moderna co
mo os conjuntos, longe de que
uma zona interior definida por essa i
magem do oito invertido pelo
recobrimento ou pelo redobramento, nes
se recobrimento de uma classe,
de uma relação, de uma proposição q
ualquer por si mesma, por seu
alcance na segunda potência, longe qu
e isso deixe num caso notório a
classe, a proposição, a relação de um m
odo geral, a categoria no interior

de si mesma de um modo algo mais pe

sada, mais acentuada, isso tem

razão a priori de não fa zer dele um co

njunto como os outros. Vocês


definem como conjunto, por exemplo, to
das as obras que dizem respeito
às humanidades, isto é, às artes, às ciê
ncias, à etnografa. Vocês fzem
uma lista. As obras que são obras fe itas
sobre a questão do que se deve
classifi car como humanidades frão part
e do mesmo catálogo, isto, que

-259 -
A Ide ntiicação

o que acabo de definir


ao articular o título "obr
as que dizem respeito à
s
humanidades", faz part
e do que há a catalogar.
Como podemos conceb
er
que algo que se coloc
a assim como se redob
rando sobre si mesmo
na
dignidade de uma cert
a categoria, possa prati
camente nos levar a u
ma
antinomia, a um impas
se lógico tal como som
os, ao contrário, forçad
os
a rejeitá-lo? Eis alguma
coisa que não é assim d
e tão pouca importância
como se poderia crer,
porque temos visto os
melhores lógicos verem

uma espécie de fracas
so, de obstáculo, de po
nto de vacilação de tod
oo
edi fcio frmalista, e n
ão sem razão. Eis, n
o entanto, algo que f

intuição uma sorte de
objeção maior, sozinha
inscrita, sensível, visív
el
na própria forma desses
dois círculos que se apr
esentam, na perspectiva

euleriana, como inclus


os um em relação ao o
utro.
É justamente em ci
ma disso que vamos ve
r que o uso da intuição
de
representação do toro
é completamente utiliz
ável. E, dado que você
s
sentem bem, imagino,
aquilo de que se trata,
a saber, uma certa relaç
ão
do significante consig
o mesmo, eu lho disse
, é na medida em que
a
definição de um conjunt
o aproximou-se cada ve
z mais de uma articulaç
ão
puramente signifcante q
ue ela conduziu a esse i
mpasse . É toda a questã
o,
pelo fto de que se trat
a para nós de pôr em
primeiro plano que u
m
significante não poderi
a significar-se a si mes
mo. De fto, é uma cois
a
excessivamente besta e
simples esse ponto tão es
sencial de que o sigicante
,
enquanto ele pode se
rvir a se significar a si
mesmo, deve colocar-
se
como difrente de si m
esmo. É isso que se t
rata de simbolizar, e
m
primeiro lugar, porque
é também isso que va
mos encontrar, até um
certo ponto de extensã
o que se trata de deter
minar, em toda a estrut
ura
subjetiva até o desejo, i
nclusive. Quando um do
s meus obsessivos, aind
a
muito recentemente, ap
ós ter desenvolvido todo
o refnamento da ciência

de seus exercícios para


com objetos femininos ao
s quais, como é conhecid
o
nos ou tros obsessivos,
se posso dizer, ele co
ntinua ligado por aquilo

que se pode chamar d


e uma infidelidade con
stante : ao mesmo tem
po
impossibilidade de aba
ndonar qualquer um d
esses objetos e extrem
a
dificuldade de mantê-
los todos juntos, e, qua
ndo ele acrescenta que
é
muito evidente que ness
a relação [relationl, ness
e rapport tão complicado

que necessita este tã


o alto refinamento téc
nico, se posso dizer, n
a
manutenção de rlações
que, em princípio, deve
m permanecer exteriore
s
umas às outras, imper
meáveis, se se pode di
zer, umas às outras e n
o
entanto ligadas, que, s
e tudo isso , me diz ele
, não tem outro fm sen
ão

-260 -
Lição de 11 de abril de 1962

deixá-lo intacto para uma satisfção con


tra a qual aqui ele tropeça, ela
deve portanto, achar-se em outro lugar,
não apenas num futuro sempre
recuado, mas manifcstacamente num
outro espaço, posto que dessa
intactitude e de seu fim ele é incapaz,
no final das contas, de dizer
sobre o quê, como satisfção, isso pode de
sembocar. De qualquer maneira,

temos aqui sensível algo que, para nós,

levanta a questão da estrutura

não é, por mais que possa parecer a alg

uém que entrasse pela primeira


vez em meu seminário, um retorno ge
ométrico - ele o será talvez no
fnal, mas incidentalmente - que é, pro
priamente falando, topológico.
Não há necessidade alguma de que ess
e toro seja um toro regular, nem
um toro sobre o qual possamos tomar med
idas. É uma superfcie constituída
segundo certas relações fundamentais q
ue serei levado a recordar para
vocês, mas, como não quero parecer ir l
onge demais do que é o campo
de nosso interesse, vou-me limitar às co
isas que já introduzi e que são
muito simples. Fiz vocês observarem: so
bre uma superfície tal, podemos
descrever esse tipo de círculo [ 1). que
é aquele que já conotei para
vocês como redutível, aquele que, se ele
é representado por um pequeno
barbante que passa no fim por uma ar
gola , cu posso, ao puxar esse
barbante, reduzi-lo a um ponto, ou, mel
hor dizendo, a zero. Fiz vocês
observarem que há duas espécies de ou
tros círculos ou laços, qualquer
que seja sua extensão, pois poderia ta
mbém, por exemplo, aquele ali
(2). ter essa frma [2']. Isto quer dizer, um
círculo que atravessa o buraco,
qualquer que seja a sua forma mais ou
menos fechada, mais ou menos

-261-
A Identiicação

aberta. É isso o que o d


efne: ele atravessa o bur
aco, passa pelo outro
lado do buraco. Está aqui
representado em linhas p
ontilhadas, ao passo
que lá está representad
o em linha cheia. É isso
que simboliza: esse
círculo não é redutível, o
que quer dizer que, se vo
cês o supõem realizado
por um barbante passand
o sempre por esse peque
no arco que nos seriria
para fechá-lo, não podem
os reduzi-lo a algo de pun
ctiforme; ele continuará
sempre, qualquer que sej
a sua circunferência, no
centro, a circunfrência
daquilo que se pode cha
mar de espessura do toro.
Esse círculo irredutível,
do ponto de vista que no
s interessava há pouco,
a saber, da defnição
de um interior e de um e
xterior, se mostra de um
lado uma resistência
particular, algo que, em
relação aos outros círcu
los, confere-lhe uma
dignidade eminente, sob
re esse outro ponto eis q
ue de repente ele vai
aparecer singularmente d
espojado das propriedad
es do precedente; pois,
se esse círculo de que l
hes flo, vocês o material
izarem, por exemplo,
por um corte de tesoura,
o que vocês obterão? D
e maneira nenhuma,
como no outro caso, um
pequeno pedaço que se
vai e em seguida o
resto do toro. O toro con
tinuará bem inteiro, intac
to sob a forma de um
tubo ou de uma manga d
e camisa.

Se, por outro lado, vocês


tomarem um outro tipo d
e círculo [3], aquele
do qual já lhes falei, aqu
ele que não é o que atra
vessa o buraco, mas
que lhe dá a volta, aquele
se acha na mesma situaç
ão que o precedente,
quanto à irredutibilidade
. Ele se acha igualment
e na mesma situação
que o precedente, no qu
e diz respeito ao fato de
que ele não basta para
definir um interior, nem
um exterior. Dito de outr
a frma: que se vocês
o seguem, esse círculo,
e se vocês abrem o toro
com a aj uda de uma
tesoura, vocês terão no
fm o quê? Ora, a mesm
a coisa que no caso
precedente: tem a forma
de um toro, mas é uma fo
rma que só apresenta
uma diferença intuitiva, q
ue é completamente ess
encialmente a mesma,

-262 -
Lição de 11 de abril de 1962

do ponto de vsta da estrutura. Vocês têm


sempre, depois dessa operação,
como no primeiro caso, uma manga de
camisa, simplesmente é uma
manga mais curta e mais larga. Vocês t
êm um cinto, se quiserem, mas
não há diferença essencial entre um ci
nto e uma manga, do ponto de
vista topológico: chamem-no também
de fixa, se prefrirem.
Eis-nos, pois, em presença de dois tipos
de círculos que, desse ponto
de vista, aliás, fzem um só, que não de
fnem um interior e um exterior.
Fa ço vocês observarem incidentement
e que, se vocês cortam o toro
sucessivamente seguindo um e outro [círcu
lo], nem por isso vocês chegarão
a fazer aquilo de que se trata e que você
s obtêm, porém, imediatamente
com o outro tipo de círculo, osaber,
ro que lhes desenhei [I a
dois pedaços. Ao contrário, o toro não a
penas fica inteirinho, mas era,
na primeira vez que eu lhes flava, um
aplainamento resultante disso
e que nos permite simbolizar
eventualmente, de uma maneira
particularmen�e cômod 1
a, o to�o y 1 -- z

podem, puxand f
o um pouco, abr x
ir '
como uma pele
presa pelas quat
ro
pontas; defnir as propriedades de corres
pondência dessas bordas uma
com a outra, de correspondência tamb
ém de seus vértices, os quatro
vértices reunindo-se num ponto, e ter
assim, de maneira muito mais
acessível a suas fculdades de intuição
ordinária, um meio de estudar
o que se passa geometricamente sobre o
toro. Isto é, haverá um desses
tipos de círculo que se representará po
r uma linha como essa [2], um
outro tipo de círculos por linhas como ess
a [3) representando dois pontos
opostos [x-x', y-y'], defnidos de maneira p
révia como sendo equivalentes
sobre o que se chama de bordas da supe
rfície desdobrada, aplainada, o
aplainamento, como tal, sendo impossí
vel, já que não se trata de uma
superfície que seja metricamente identif
icável a uma superfície plana,
repito-o, puramente metricamente, não
topologicamente. Aonde isso
nos leva? O fato de que duas secções d
essa espécie sejam possíveis,
aliás, com necessidade de se recortar u
ma ou outra sem fragmentar de
frma alguma a superfície, deixando-a i
nteira, deixando-a como uma
só fixa, se posso dizer, isso basta para
defnir um certo gênero de uma
superfcie. Todas as superfcies estão longe
de ter gênero. Se vocês fazem,

-263-
A Identicação

particularmente, uma tal


secção sobre uma esfera
, vocês sempre terão
dois pedaços, qualquer q
ue seja o círculo. E isso
para nos levar a quê?
Não fçamos mais uma só
secção, mas duas secçõe
s na base única do
toro. O que vemos apare
cer? Vemos aparecer alg
o que certamente vai
nos espantar imediatam
ente, é, a saber,
que, se os dois círculos se
recortam, o campo
ditodadiferença simétr
ica existe
perfeitamente. Será que,
por causa disso,
podemos dizer que existe
também o campo
da intersecção? Acho qu
e essa fi gura, tal
como está construída, é
suficientemente
acessível à intuição de voc
ês para que vocês
compreendam bem, de
imediato, que tal
campo não existe. É, a sa
ber, que esse algo
que seria interseção, ma
s que não o é, e
que, digo, para o olho - p
ois, eviden temente, não
se pode co1
instante que essa interse
cção exista - mas que, p
ara o olho, e tal como
lhes apresentei assim, n
essa figura, tal como ela
está desenhada, se
acharia ta lvez cm algu
m lugar aqui [ I] nesse
campo perfeitamente
continuado de um só blo
co, de um só pedaço, co
m esse campo ali [2]
que poderia analogicame
nte, da maneira mais gros
seira para uma intuição
justamente habituada a s
e prender às coisas que s
e passam unicamente
no plano, corresponder a
esse campo externo ond
e poderíamos defnir,
em relação a dois círcul
os de Euler que se reco
rtam, o campo de sua
negação; a saber, se aq
ui temos o círculo A, e a
qui o círculo B, aqui
temos A 1 negação de A e t
emos aqui B negação de
B, e há algo a formular,

AI n 81

-264 -
lição de 11 de ·a bril de 1962

Aqui vemos, pois, ilustrado da ma


neira mais simples pela estrutura
do toro, isso: que algo é possível, algo
que se pode articular assim: dois
campos que se recortam, podendo
, como tais, defnir sua difrença
enquanto diferença simétrica, mas qu
e não deixam de ser dois campos
dos quais se pode dizer que não pod
em reunir-se e que não podem,
tampouco, recobrir-se; em outros ter
mos, que não podem nem servir a
, nem serv
ir a uma fu nção de multiplicação
por si mesma. Literalmente, eles não po
dem se retomar à segunda potência,
não podem refetir-se um pelo outro
nem um no outro, eles não têm
interseção, sua intersecção é exclusão
deles mesmos . O campo onde se
esperava a intersecção é o campo on
de se sai daquilo que os concerne,
onde se está no não-campo.
Isso é tanto mais interessante que, n
a
representação desses dois círculos, pode
mos
substituir nosso oito invertido de
que
flávamos há pouco. Encon tramo-nos, e
ntão,
diante de uma forma que para nós é a
inda
mais sugestiva. Porque ten temos lem
brar
pensei
imediatamente comparar esses círculos, e
sses
círculos que dão a volta no buraco do
toro:
a algo, eu lhes disse, que tem relação
com
o objeto metonímico, com o objeto do de
sejo
enquanto tal. O que é esse oito inver
tido,
esse círculo que se retoma a si mesm
o no
in terior de si mesmo? O que é, senã
o um
círculo que, no limite, se redobra
e se
recompõe, que permite simbolizar - p
osto
que se trata ele evidência intuitiva,
e os
círculos eulerianosnos parecem

certa
simbolização do limite - que per
mite
simbolizar esse limite, enquanto ele se ret
oma
a si mesmo, se identifca a si mesmo. R
eduzam cada vez mais a distância
1

-265 -
A Identicação

.aberta. É isso o que o


defne: ele atravessa o
buraco, passa pelo outr
o
lado do buraco. Está aq
ui representado em linh
as pontilhadas, ao pass
o
que lá está representa
do em linha cheia . É i
sso que simboliza: ess
e
círculo não é redutível, o
que quer dizer que, se v
ocês o supõem realizado
por um barbante passa
ndo sempre por esse pe
queno arco que nos serr
ia
para fechá-lo, não pode
mos reduzi-lo a algo de
punctifrme; ele continuar
á
sempre, qualquer que s
eja sua circunferência, n
o centro, a circunfrência

daquilo que se pode cha


mar de espessura do tor
o. Esse círculo irredutível
,
do ponto de vista que
nos interessava há pou
co, a saber, da definiçã
o
de um interior e de um
exterior, se mostra de u
m lado uma resistência
particular, algo que, e
m relação aos outros c
írculos, confere-lhe um
a
dignidade eminente, so
bre esse outro ponto ei
s que de repente ele va
i
aparecer singularmente
despojado das proprieda
des do precedente; pois,

se esse círculo de que


lhes falo, vocês o mate
rializarem, por exemplo
,
por um corte de tesour
a, o que vocês obterão
? De maneira nenhum
a,
como no outro caso, u
m pequeno pedaço qu
e se vai e em seguida
o
resto do toro. O toro c
ontinuará bem inteiro, i
ntacto sob a frma de u
m
tubo ou de uma manga
de camisa.

Se, por outro lado, vo


cês tomarem um outro ti
po de círculo [3], aquele

do qual já lhes falei, aq


uele que não é o que a
travessa o buraco, mas
que lhe dá a volta, aquel
e se acha na mesma sit
uação que o precedente
,
quanto à irredutibilidad
e. Ele se acha igualme
nte na mesma situação
que o precedente, no q
ue diz respeito ao fto d
e que ele não basta par
a
defnir um in terior, nem
um exterior. Dito de out
ra frma: que se vocês
o seguem, esse círculo
, e se vocês abrem o to
ro com a aj uda de uma

tesoura, vocês terão n


o fm o quê? Ora, a me
sma coisa que no caso
precedente: tem a forma
de um toro, mas é uma f
orma que só apresen ta
uma diferença intuitiva,
que é completamente e
ssencialmente a mesma
,

-262 -
Lição de 11 de abril de 1962

do ponto de vista da estrutura. Vocês têm


sempre, depois dessa operação,
como no primeiro caso, uma manga de
camisa, simplesmente é uma
manga mais curta e mais larga. Vocês t
êm um cinto, se quiserem, mas
não há difrença essencial entre um cin
to e uma manga, do ponto de
vista topológico: chamem-no também
de fixa, se preferirem.
Eis-nos, pois, em presença de dois tipos
de círculos que, desse ponto
de vista, aliás, fzem um só, que não de
fnem um interior e um exterior.
Faço vocês observarem incidentement
e que, se vocês cortam o toro
sucessivamente seguindo um e outro [círcu
lo] , nem por isso vocês chegarão
a fzer aquilo de que se trata e que você
s obtêm, porém, imediatamente
com o outro tipo de círculo, o primeiro q
ue lhes desenhei [ 1 ], a saber,
dois pedaços. Ao contrário, o toro não
apenas fica inteirinho, mas era,
na primeira vez que eu lhes flava, um
aplainamento resultante disso
e que nos permite simbolizar
eventualmente, de uma maneira
particularmen�e cômod 1
a, o to�o y 1 -- z

podem, puxand f
o um pouco, abr x
ir '
como uma pele
presa pelas quat
ro
pontas; defnir as propriedades de corre
spondência dessas bordas uma
com a outra, de correspondência tamb
ém de seus vértices, os quatro
vértices reunindo-se num ponto, e ter
assim, de maneira muito mais
acessível a suas fculdades de intuição
ordinária, um meio de estudar
o que se passa geometricamente sobre
o toro. Isto é, haverá um desses
tipos de círculo que se representará por
uma linha como essa [2] . um
outro tipo de círculos por linhas como es
sa [3] representando dois pontos
opostos [x-x', y-y']. defnidos de maneira
prévia como sendo equivalentes
sobre o que se chama de bordas da sup
erfcie desdobrada, aplainada, o
aplainamento, como tal, sendo impossí
vel, já que não se trata de uma
superfície que sej a metricamente identif
icável a uma superfície plana ,
repito-o, puramente metricamente, não
topologicamente. Aonde isso
nos leva? O fato de que duas secções d
essa espécie sejam possíveis,
aliás, com necessidade de se recortar u
ma ou outra sem fragmentar de
forma alguma a superfície, deixando-a
inteira, deixando-a como uma
só fixa, se posso dizer, isso basta para
defnir um certo gênero de uma
superfcie. Todas as superfcies estão longe
de ter gênero. Se vocês fazem,

-263 -
A identi

sua autodifrença
? Pois, de duas c
oisas, uma : ou el
es a apreendem
ou
não a apreende
m ... Mas há uma
coisa, em todo ca
so, que tudo que
se
passa nesse nív
el da apreensão
implica e necessi
ta, é que esse al
go
exclui toda refexã
o desse objeto so
bre si mesmo. Qu
ero dizer, suponh
am
que é do objeto
a que se trate - c
omo já indiquei,
que era aquilo p
ara
que aqueles círc
ulos iam servir - i
sso quer dizer qu
e a , o campo assi
m
definido, é o mes
mo campo que e
sse que está ali,
ou seja, não a ou
- a.
Suponham, por e
nquanto, não diss
e que estava dem
onstrado, digo qu
e
lhes forneço hoj
e um modelo, u
m suporte intuiti
vo para algo qu

precisamente aqu
ilo de que precisa
mos, no que diz r
espeito à constitui
ção
do desejo. Talve
z lhes pareça ma
is acessível, mai
s imediatamente
ao
alcance de vocês f
azer disso o símbo
lo da auto-
diferença do desej
o consigo
próprio, e o fato
de que é precisa
mente no desdo
bra mento sobre
si
mesmo que vem
os aparecer o qu
e ele encerra, se
esgueira e fge e
m
direção ao que o
envolve. Vo cês
dirão: pare, deix
e a coisa por aq
ui,
pois não é realm
ente o desejo qu
e entendo simbol
izar pelo duplo la
ço
desse oito interi
or, mas algo que
convém muito m
ais à conjunção
do
objeto a, do objet
o do desejo, com
o tal, consigo me
smo.
Para que o des
ejo, efetivamente,
seja inteligenteme
nte suportado nes
sa
refrência intuiti
va à superfície
do toro, convé
m fa zer entrar
ali ,
evidentemente, a
dimensão da de
manda. Essa dim
ensão da deman
da,
eu lhes disse, por
outro lado, que os
círculos encerran
do a espessura d
o
toro, como tal po
diam servir muito
inteligivelmente
para representá-
la,
e que algo - aliá
s, que é em part
e contingente, q
uero dizer, ligad
oa
uma percepção in
teiramente exterio
r, visual, ela própri
a demasiadament
e
marcada pela int
uição comum par
a não ser refutáv
el, vocês verão,
mas
e·nfm - tal como
vocês são frçado
s a representar o
toro, a saber, alg
o
como esse anel,
vocês vêem facil
mente quão com
odamente o que
se

-266 -
Lição de 11 de abril de 1962

passa na sucessão desses círculos ca p


azes de se seguir de alguma forma
em hélice, e segundo uma repetição q
ue é a do fio em torno da bobina,
quão comodamente a demanda, em s
ua repetição, em sua identidade e
distinção necessárias, seu desenrolar
e seu retorno sobre si mesma, é
algo que consegue facilmente ter co
mo suporte a estrutura do toro.
Não é isso que preten do hoje rep
etir mais uma vez. Aliás, se eu só
fzesse repeti-lo, aqui, seria inteiram
ente insuficiente. É, ao contrário,
algo para o qual gostaria de chamar
a atenção de vocês, a saber, esse
círculo privilegiado que é constitu íd
o por isso que é não apenas um
círculo que dá a vol ta em torno do b
uraco central, mas que é também
um círculo que o atravessa . Em out
ros termos, que ele é constituído
por uma propriedade topológica
que
confunde, que adiciona o laço consti t
uído
em torno da espessura do toro com aq
uele
que se faria por uma volta feita, por exe
mplo,
cm torno do buraco interior. Essa esp
écie
de laço é, para nós, de um in te re
sse
inteiramente privilegiado, pois é ela
que
nos permitirá suportar, imaginar as rela
ções
como estruturais da demanda e do des
ejo.
Vejamos, com efito, o que se pode prod
uzir,
no que diz respeito a tais laços: obser
vem
que pode haver alguns assim constituíd
os, que um outro que lhe é vizinho
se completa, retorna sobre si mesmo
, sem, de forma alguma, cortar o
primeiro. Vo cês vêem, dado o que te
ntei articular, desenhar, a saber, a
maneira como isso se passa de outro
lado desse objeto que supomos
maciço, porque é assim que vocês
o intuíram tão facilmen te, e que
evidentemente não o é, a linha do cír
culo [I] passa aqui , a outra lin ha
[2] passa um pouco mais longe. Não h
á nenhuma espécie de interseção
desses dois círculos. Eis duas deman
das que, implicando inteiramente
o círculo central com o que ele simbol
iza - ou seja, o objeto - e em que
medida ele está efetivamente integrado
na demanda; essas duas demandas
não comportam nenhuma espécie de
cruzamento, nenhuma espécie de
interseção e mesmo nenhuma espéc
ie de diferença articulável entre
elas, embora ambas tenham o mesmo
objeto incluído em seu perímetro.
Ao contrário, há um outro ti po de circuit
o, este que aqui passa efetivame nte
do ou tro lado do toro, mais longe de
se reunir a si mesmo no ponto de

-267 -
A Ie nticação

onde partiu, começa a


qui uma outra curva, p
ara vir uma segunda v
ez
passar aqui e retornar a
seu ponto de partida. A
cho que vocês captara
m
a coisa em questão; trat
a-se de nada menos qu
e de algo absolutament
e
equivalente à famosa c
urva do oito invertido de
que lhes falei, há pouco
.
Aqui, as duas laçadas q
ue representam a reiter
ação, a reduplicação da

demanda e comportam
então esse campo de d
ifrença de si mesma, d
e
autodifrença, que é aq
uilo que ressaltamos h
á pouco,

aqui encontramos o mei


o de simbolizar de uma
maneira sensível, no nív
el
da própria dem anda, u
ma condição para que
ela sugira, em toda a s
ua
ambigüidade e de uma
maneira estritamente a
náloga à maneira como
é
sugerida na reduplicação
de há pouco do objeto do
desejo sobre si mesmo, a
dimensão central constit
uída pelo vazio do dese
jo. Tudo isso, só trago a

vocês como uma espécie


de proposta de exercício,
de exercícios mentais, de
exercícios com os quais
vocês têm de se fmiliariz
ar, se quiserem poder, n
o
toro, encontrar o · :tlor
metafrico que lhes dare
i, quando tiver, em cad
a
,
obsessivo, do histérico,
do perverso, até mesmo
do
esquizofrênico, de articu
lar a relação entre o des
ejo e a demanda.
É por isso que é sob 01
1tras fo rmas, sob a frm
a do toro desdobrado,
aplainado, o que lhes
mostrei há pouco, que
vou tentar mostrar a vo
cês
a que correspondem os
diversos casos que evoq
uei até agora, a saber, o
s
dois primeiros círculos
, por exemplo, que era
m círculos que fziam o
buraco central e que se
recortavam constituindo
, propriamente falando,
a mesma llgura de difer
ença simétrica que a do
s círculos de Euler. Eis
o
que isso dá no toro esti
cado, certamente, dess
a maneira fi gurada, ma
is
satisfatória que a que v
ocês viam há pouco, po
rque vocês podem toca
r
com o dedo o fato de
que não há simetria, d
igamos, entre os quatr
o
campos dois a dois, tal
como são defnidos pel
o cruzamento dos dois

-26-
Lição de 11 de ·a bril de 1962

círculos . yo cês teriam podido, há pouc


o, dizer a si mesmos, e certamente
de uma maneira que não teria sido um
sinal de pouca atenção, que, ao
desenhar as coisas assim e ao dar um
valor privilegiado ao que chamo,
aqui, de diferença simétrica, tudo o
que fço é bastante arbitráro, já
que os dois outros campos, que fz vocês
verem que se confndem, ocupavam,
talvez, em relação a esses dois, um lu
gar simétrico. Vo cês vêem, aqui,
que tal não se dá, a saber, que os c
ampos defnidos por esses dois

setores, de qualquer modo que vocês


os unam - e vocês poderiam fzê
lo - não são, de forma alguma, identif
icáveis ao primeiro campo.
A outra figura, a saber, a do oito i
nvertido, se apresenta assim. A
não-simetria dos dois campos é ainda
mais evidente.
Os dois círculos que desenhei em segui
da, sucessivamente, sobre o contoro
do toro como definindo dois círcu los da
demanda, enquanto não se rcortam,
ei-los assim simbolizados . Há um deles [
A] que podemos identcar puramente
- falo dos dois círculos da demanda, tal c
omo acabo de def-los, uma vez que
icluíam também o buraco central - u
m pode facilmente def-se, situa-s

-269 -
A Identicação

sobre o toro esticado como


uma oblíqua religando, em
diagonal, um vértice ao
mesmo ponto em que ele e
stá realmente na margem o
posta, ao vértice oposto
de sua posição, AB. A segu
nda laçada [A] que eu havia
desenhado há pouco, se
simbolizara assim: começ
ando num ponto qualquer
aqui, temos aqu A, aqui
C, um ponto C que é o me
smo que este ponto C', e t
erinando aqui em B', A
C C' B'. Não há, aqui, nenh
uma possibilidade de distin
guir o campo que está
em A A; ele não tem nenh
um prvilégo em rlação a e
sse campo aqui [BB'].
A' A

B'
B

O mesmo não se dá se é,
ao contrário, o oito interior
que simbolizamos,
pois então ele se aprese
nta assim. Eis um desse
s campos : é definido
pelas partes sombread
as aqui. Ele, definitivam
ente, não é simétrico
com o que resta do outr
o campo, por mais que v
ocês se esforcem por
recompô-lo. É bastante ev
idente que vocês podem r
ecompô-lo da seguinte
maneira, que esse elem
ento aqui, digamos o x,
vindo para cá, esse y
vindo aqui e este z vind
o aqui, vocês têm a frm
a definida pela auto
diferença desenhada pe
lo oito interior.
Isso, cuja utilização vere
mos em seguida, pode p
arecer a vocês um
pouco fstidioso, até supé
rfuo, no momento mesm
o em que tento articulá
lo para vocês. Todavia, go
staria de fazê-los observa
r para que serve isso.
Vocês vêm bem: todo o a
cento que ponho na defini
ção desses campos é
destinado a mostrar-lhes
em que eles são utilizáv
eis, esses campos da
diferença simétrica e do q
ue chamo de autodiferenç
a, em que são utilizáveis
para um certo fm e em qu
e eles se sustentam com
o existindo em relação
a um outro campo que ele
s excluem. Em outros term
os, se, para estabelecer
sua função dissimétrica,
dou-me a todo esse trab
alho, é porque há uma
razão. A razão é a seg
uinte: é que o toro, tal c
omo está estruturado
-270-
Lição de 11 de abril de 1962

pura e simplesmente como superfície, é


muito difícil simbolizar, de um
modo válido, o que chamarei de sua di
ssimetria . Em outros termos,
quando vocês o vêem esticado, a sabe
r, sob a frma desse ret ângulo,
será preciso, para reconstituir o toro, q
ue vocês concebam, primeiro,
que eu o dobre novamente e faça um t
ubo, depois que eu junte uma
ponta do tubo à outra e faça um tubo
fchado; é evidente que o que
faço num sentido posso fazer também
no outro. Posto que se trata de
topologa, e não de propriedades métricas,
a questão do maior comprimento
de um lado em relação ao outro não te
m nenhuma significação. Que
não é isso o que nos interessa, já que é a
função recíproca desses círculos
que se trata de utilizar. Ora, justamente ne
ssa reciprocidade, eles parecem
poder ter funções estritamente equival
entes. Da mesma forma, essa
possibilidade está na base do que eu, e
m primeiro lugar, tinha deixado
surgir, aparecer desde o princípio para v
ocês na utilização dessa fu nção
do toro como de uma possibilidade de ima
gem sensível para seu propósito.
É que, cm certos sujeitos, certos neurót
icos, por exemplo, vemos, de
alguma forma, de uma maneira sensível,
a projeção, se se pode exprimir
assim, dos próprios círculos do desejo,
em toda a medida em que se
trata, para eles, se posso dizer, de sair
desses círculos nas demandas
exigidas do Outro. E é o que simbolizei,
ao lhes mostrar isso: é que, se
vocês desenham um toro, vocês podem
simplesmente imaginar um outro
toro que encerra, se se pode dizer, de cer
ta maneira o primeiro. É preciso

- 2 71 -
A Ide ntiicação

ver bem que cada um do


s círculos, que são círcul
os em torno do buraco,
podem ter, por simples
rolamento, sua corresp
ondência nos círculos
que passam através do
buraco do outro toro; q
ue um toro, de certa
maneira, é sempre tran
sfrmável em todos os s
eus pontos num toro
oposto.

O que se trata de ver é


o que originaliza uma da
s fnções circulares,
a dos círculos cheios, po
r exemplo, em relação à
quilo que chamamos,
em outro momento, de c
írculos vazios. Essa difr
ença existe com muita
evidência. Poderíamos, p
or exemplo, simbolizá-la,
frmalizá-la, indicando
por um pequeno sinal sob
re a superfície do toro des
dobrado, em retângulo,
se quiserem, a anteriorid
ade segundo a qual se f
aria o encolhimento, e
se chamamos esse lado
de a minúsculo e esse o
utro de b minúsculo,
anotar por exemplo a <
b, ou inversamente. Ser
ia isso uma notação
com que ninguém jam
ais sonhou em topologi
a e que teria algo de
completamente artifcial, p
ois não se vê por que um
toro seria, de alguma
maneira, um objeto que
teria uma dimensão te
mporal. A partir desse
momento, é completa
mente difícil simbolizá-
lo de outra frma, ainda
que se veja bem que há,
ali, algo de irredutível e
que constitui, mesmo,
propriamente flando, to
da a virtude exemplar d
o objeto tórico.
veria uma outra maneira
ele tentar abordá-lo. Est
á bem claro que
é pelo fato de só conside
rarmos o toro como supe
rfície, e não tomando
suas coordenadas senã
o de sua própria estrutur
a, que somos postos
diante desse impasse,
cheio para nós de cons
eqüências já que, se,
evidentemente, os círculo
s - em relação aos quais
vocês me verão tender
a fazê-los servir para fix
ar a demanda, obviame
nte, em suas relações
com outros círculos que tê
m relação com o desejo -
se eles são estritamente
reversíveis, será isso alg
o que desejemos ter com
o modelo? Certamente
não. É, ao contrário, do
privilégio essencial do b
uraco central que se

-272 -
Lição de 11 de abril de 1962

trata; e, por conseguinte, o estatuto topológ


co que buscamos como utlizável
em nosso modelo vai fugir e escapar de
nós. É justamente porque nos
fge e nos escapa que se revelará fecun
do para nós. Experimentemos
um outro método para marcar aquilo de qu
e os matemáticos, os topólogos,
dispensam perfeitamente na defnição, 11
0 uso que fazem dessa estrutura

do toro em topologia; eles mesmos, n


a teoria geral das superfícies,
valorizaram a função do toro como elem
ento irredutível de toda redução
das superfcies àquilo que se chama de u
ma forma normal. Quando digo
que é um elemento irredutível, quero dize
r que não se pode reduzir o toro
a outra coisa. Podemos imagnar tantas for
mas de superfcies tão complexas
quanto vocês queiram, mas será sempre
necessário ter em conta a função
toro em toda planifcação, se assim posso
exprmir-me, em toda triangulação
na teoria das superfcies. O toro não basta,
são necessários outros germes,
é necessário, principalmente, a esfera,
é necessário isto a que até hoje
não fz alusão: introd
,,!,; 1ue se chama de cro
uzir a po , ss-cap e a
possibilidade de buracos. Quando vocês tê
m a esfera , o toro, o cross-cap e
o buraco, vocês podem representar qual
quer superfcie que se chama de
compacta, isto é, uma superfcie que sej
a decomponível em fagmentos.
Há outras superfcies que não são decom
poníveis em fagentos, mais nós
as deixamos de lado.
Retornemos ao nosso toro e à possibilida
de
de sua orientação. Será que poderemos
fazê
la em relação à esfera ideal, sobre a qu
al ele
se engancha? Essa esfra nós podemos se
mpre
introduzi-la, a saber, que com uma sufci
ente
potência de fôlego, qualquer toro pode
vir a
se representar como uma simples alç
a na
superfície de uma esfera, que é uma
parte
dele mesmo sull cientemente inflada. Será
que
pelo intermédio da esfera poderemos, se p
osso
dizer, remergulhar novamente o toro naq
uilo que, vocês sentem-no bem,
buscamos por enquanto, a saber, esse
terceiro termo que nos permite
introduzir a dissimetria de que necessitamo
s entre os dois tipos de círculos ?
Essa dissimetria, todavia tão evidente, t
ão intuitivamente sensível, tão
irredutível mesmo e que é, no entanto, t
al como se manifsta a propósito
como sendo esse algo que observamos s
empre em todo desenvolvimento
matemático: a necessidade, para que iss
o comece a andar, de esquecer

-273 -
A Iden ticação

alguma coisa no ponto


de partida. Isso vocês v
ão encontrar em toda
espécie de progresso fr
mal; esse algo de esque
cido e que literalmente
se esgueira de nós, foge
de nós no frmalismo. Se
rá que vamos poder
capturá-lo, por exemplo,
na referência de algo qu
e se chama de tubo
na esfra?
De fto, olhem bem o q
ue se passa e o que n
os dizem, que toda
superfcie frmalizável pod
e-nos dar, na redução, a
forma normal. Dizem
nos que isso conduzirá
sempre a uma esfera, c
om o que? Com toros
inseridos nessa aqui e qu
e podemos validamente si
mbolizar ássim. Passo
lhes a teoria. A experiên
cia prova que é estritam
ente exato. Que, além
disso, teremos o que se c
hama de cross-cap. Esse
s cross-cap, abro mão
de falar neles hoje, mas
será preciso que lhes fa
le a respeito, porque
eles nos prestarão grand
es serviços.
Contentemo-nos em consi
derar o toro. Poderia vir à
idéia de vocês uma
alça como essa aqui, que
seria não exterior à esfra,
mas interior, com um
buraco para entrar nela, é al
go de irredutível, de inelimin
ável, e seria necessário,
de alguma maneira, distin
guir os toros exteriores e
os toros interiores. Em
que é que isso nos interes
sa? Muito precisamente a
propósito de uma forma
mental que é necessária a
toda a nossa intuição do n
osso objeto. De fato, na
perspectiva platônica,
aristotélica, euleri ana
de um Umwelt e de

Toro exterior
To ro interior

um Innenwelt, de uma do
minação colocada de saíd
a na divsão do interior
e do exterior, será que nã
o colocaríamos tudo o qu
e experimentamos e,
mormente em análise, na di
mensão do que chamei, out
ro dia, de subterrâneo,
a saber, o corredor que
se perde na profundeza,
ou seja, no máximo,

.274 -
Lição de 11 de abril de 1962

quero dizer em sua frma mais desen


volvida segun do essa forma? É
extremamente exemplar fazer sentir,
a propósito, a não independência
absoluta dessa fo rma; pois, repito, p
or mais que se chegue a fo rmas
reduzidas, que são as formas inscritas,
vagamente esboçadas no quadro
no desenho, para dar um suporte ao qu
e estou dizendo, é absolutamente
impossível sustentar, mesmo por um in
stante, na diferença, a orignalidade
eventual da alça interior em relação à
alça exterior, para empregar os
termos técnicos.
Basta, eu acho, ter um pouco de ima
ginação, para ver que se trata
de algo que materializamos em borra
cha, basta introduzir o dedo aqui
e enganchar do interior o anel central
desse punho, tal como ele está

assim constituído, para extraí-lo para


o exterior exatamente segundo
uma fo rma que será essa aqui, isto
é, um toro exatamente o mesmo,
sem nenhuma espécie de rasgadura, n
em mesmo, propriamente falando,
de inversão. Não há nenhuma invers
ão, o que era interior, isto é, x, o
caminhar assim do interior do corredor
, torna-se exterior porque sempre
o foi . Se isso surpreende vocês, poss
o ainda ilustrá-lo de uma maneira
mais simples, que é exatamente a m
esma, porque não há diferença
algum a entre isso e o que lhes vou
mostrar agora e que eu lhes havia
mostrado desde o primeiro dia, esp
erando fazê-los sentir de que se
tratava. Suponham que seja no meio de
seu percurso, o que é exatamente
a mesma coisa, do ponto de vista topo
lógico, que o toro seja tomado na
esfera . Vo cês têm, aqui, um pequen
o corredor, que caminha de um
buraco a outro buraco. Aqui, acho qu
e lhes é suficientemente sensível
que não é difícil, simplesmente fzend
o abaular um pouco o que vocês
podem agarrar pelo corredor com o d
edo, fazer surgir uma figura que

-275 -
A Identiicação

será mais ou menos essa


, de alguma coisa que é a
qui uma alça e cujos
dois buracos que se comu
nicam com o interior estão
aqui em pontilhadas.

Chegamos, pois, a um fr
acasso a mais, digo, à i
mpossibilidade, por
uma referência a uma ter
ceira dimensão, aqui rep
resentada pela esfra,
de simbolizar esse algo q
ue ponha o toro, se se po
de dizer, em seu lugar
em relação à sua própri
a dissimetria. O que ve
mos, uma vez mais,
manifestar-se, é algo que
é introduzido por esse si
mplíssimo significante
que eu lhes trouxe no in
ício, do oito interior, ou
seja, a possibilidade
de um campo interior com
o sendo sempre homogên
eo ao campo exterior.
Isso é uma categoria tão
essencial de se marcar,
de imprimir no espírito
de vocês, que achei dev
er hoje, sob o risco de c
ansá-los, até de fatigá
los, insistir durante uma
só de nossas aulas. Esp
ero que vocês venham
a ver a utilidade disso, d
aqui em diante.

-276 -
LIÇÃO XVIII
2 de maio 1962

Não é forçosamente com a idéia


de poupar vocês, nem vocês, ne
m
ninguém, que pensei hoje, para es
ta sessão de retomada, num mom
ento
que é uma corrida de dois mese
s que temos pela frente para ter
minar
de tratar esse assunto difícil, q
ue pensei fzer hoje uma espéci
e de
revezamento. Eu quero dizer qu
e há muito tempo tinha vontade,
não
apenas de dar a palavra a algum
de vocês, mas mesmo precisam
ente
dá-la à Sr." Aulagnier. Há muito te
mpo que penso nisso, já que é no
dia
seguinte de uma comunicação que el
a fez numa de nossas sessões científ
cas.
Essa comunicação, não sei por
quê alguns de vocês, que não e
stão
aqui, infelizmente, em razão de
uma espécie de miopia caracterí
stica
de certas posições que, aliás, ch
amo de mandarinais, pois esse t
ermo
fz sucesso, acreditaram ver não se
i que retorno à letra de Freud, qua
ndo
aos meus ouvidos, me pareceu qu
e a Sr. ª Aulagnier, com uma partic
ular
pertinência e acuidade, manejava
a distinção longamente amadureci
da,
já naquele momento, entre a de
manda e o desejo. Seja como fr
, há
alguma chance de que se recon
heça melhor a si mesmo sua pró
pria
posteridade do que os outros.
Havia, da mesma forma, alguém
que
estava de acordo comigo sobre es
se ponto: era a própria Sr.ª Aulag
nier.
Lamenw. pClis. ter le,·ado ta11 10
tempo pa ra dar-lhe a palaua, talve
zo
sentimemo. aids. e:cessir de al
go que sempre nos pressiona e
nos
força a avançar.
Justamente hoje vamos fzer ess
a espécie de laço que consiste e
m
passar por aquilo que, no espírito
de algum de vocês, pode respond
er,
futifcar. a propósito do caminho
que temos percordo juntos - e j
áé

-277 -
A Identiicação

grande, desde o mome


nto que eu evoco - e é
muito especialmente ne
sse
ponto de interseção, n
esse cruzamento const
ituído no espírito da Sr.
ª
Aulagnier sobre o que
eu disse recentement
e sobre a angústia, qu
e
ocorreu dela ter-me ofe
recido, há algumas ses
sões, de intervir aqui. É
,
portanto, em razão de
uma oportunidade que
vale o que teria valido
uma outra, o sentiment
o de ter algo a lhes co
municar e, exatamente
a
indicar, sobre a angúst
ia, e isso na relação m
ais estreita daquilo qu
e
ela, como vocês, ouviu d
o que eu professo este a
no sobre a identificação,
que ela vai trazer-lhes
algo que ela preparou
muito cuidadosamente,
a
fm de terminar um text
o. Esse texto, que ela
teve a bondade de me
apresentar, quero dize
r que o examinei com
ela ontem e, devo dize
r,
tudo o que fiz foi enco
rajá-la a apresentá-lo.
Tenho certeza de que
representa um excelen
te medium e, com isso,
quero dizer que não é
uma média daquilo que
, creio, os ouvidos mais
sensíveis, os melhores
dentre vocês podem ouvr,
e a maneira como as cois
as podem ser retomadas,

em razão dessa escuta .


Direi, pois, depois dela t
er con cebido esse texto,
qual uso pretendo dar
a essa etapa que deve
constituir o que ela nos

traz, que uso penso dar


-lhe em seguida.

Exposição da Sra. Aula


gniet
Angústia e identifica
ção

Durante as últimas jor


adas provinciais, um cert
o número de intervençõe
s
trataram da questão de_s
aber se se podia defnir di
ferentes tipos de angústia
.
Foi assim que se pergunt
ou se se devia dar, por ex
emplo, um status particul
ar
à angústia psicótica.
Direi, imediatamente
, que sou de uma opini
ão um pouco diferente;

a angústia, quer apar


eça no sujeito dito nor
mal, no neurótico ou n
o
psicótico, me parece r
esponder a uma situaç
ão específica e idêntic
a
do eu e está mesmo aí o
que me parece ser um de
seus traços característico
s.

fr ente à angústia,
na psicose, por exemplo
, pôde-se ver que, se nã
o se tenta definir melhor
as relações existentes e
ntre afeto e verbalizaçã
o, pode-se chegar a um
a
espécie de paradoxo q
ue se exprimiria assim:
por um lado, o psicótico
seria alguém particular
mente sujeito à angústi
a - é mesmo na respost
a
em espelho que ele su
scitaria no analista que
se deveria buscar uma
das dificuldades maior
es da cura - por outro l
ado, foi-nos dito que el
e

.- 278 -
Lição de 2 de maio de 1962

seria incapaz de reconhecer sua angústi


a, que ele a manteria à distância,
que ele se alienaria dela . Enuncia-se, co
m isso, uma posição insustentável,
se não se tenta ir um pouco mais lon
ge. De fato, o que signifi caria

exatamente reconhecer a angústia? Ela n

ão espera e não tem necessidade

o diagnóstico, a denominação, só pod

e vir do lado do Outro, daquele


diante de quem ela aparece. Ele, o suj
eito, é o afeto da angústia, ele a
vive totalmente e é exatamente essa im
pregnação, essa captura de seu
eu que se dissolve, que lhe impede a
mediação da palavra.
Podemos, nesse nível, fazer um primei
ro paralelo entre dois estados
que, por mais diferentes que sejam, me p
arecem representar duas posições
extremas do eu, tão opostas quanto comple
mentares : quero falar do orgasmo.
Há, nesse segundo caso, a mesma inc
ompatibilidade profunda entre a
possibilidade de vivê-lo e a de tomar a dis
tância necessária para reconhecê
lo e defni-lo no hic et nunc da situação
, desencadeando-o.
Dizer que se é angustiado indica em si
já ter podido tomar uma certa
distância em relação ao vivido afetivo; i
sso mostra que o eu já adquiriu
um certo controle e ob jetividade em rel
ação a um afeto do qual, a partir
desse momento, pode-se duvidar que m
ereça ainda o nome de angústia.
Não preciso lembrar, aqui, o papel m
etafórico, mediador da palavra,
nem a distância existente entre uma
vivência afetiva e sua tradução
verbal. A partir do momento em que o
homem põe em palavras seus
afetos, ele fz deles justamente outra c
oisa, faz deles pela palavra um
meio de comunicação, ele os faz ent
rar no domínio da relação e da
intencionalidade; transforma em comu
nicável o que foi vivido no nível
do corpo e que, como tal, em última an
álise, permanece como algo da
ordem do não-verbal. To dos sabemos
que dizer que se ama alguém só
tem longínquas relações com o que é,
em função desse mesmo amor,
sentido no nível corporal. Dizer a alg
uém que o desejamos - lembra
nos o Sr. Lacan - é in cluí-lo cm nosso f
ntasma fundamental. É também,
provavelmente, fazer tlisso o testemunh
o, a testemunha ele nosso próprio
significante. Seja o que for que possa
mos dizer a esse respeito, tudo é
feito para nos mostrar a distância ex
istente entre o afeto enquanto
emoção corporal, interiorizada, enqua
nto algo que adquire a sua fonte
mais profunda naquilo que, por defni
ção, não pode se exprim ir cm

-279 -
A Identifcação

palavras, eu quero flar


do fantasma, e a palav
ra que nos aparece,
assim, em toda a sua fnç
ão de metáfra. Se a pala
vra é a chave mágica
e indispensável que po
de apenas nos permitir
entrar no mundo da
simbolização, ora, pens
o que justamente a ang
ústia responde a esse
momento em que essa c
have não abre mais nen
huma porta, em que o
eu tem de enfrentar o qu
e está por trás ou adiante
de toda simbolização,
em que o que aparece é
o que não tem nome, es
sa "fgura misteriosa",
esse "lugar de onde surg
e um desejo que não se
pode mais apreender",
em que se produz, para
o sujeito, uma telescopa
gem entre fntasma e
realidade; o simbólico s
e esvai para dar lugar a
o fantasma enquanto
tal, o eu aí se dissolve e
é essa dissolução que ch
aprnmos de angústia.
É certo que o psicótico nã
o espera a análise para c
onhecer a angústia.
É certo também que, p
ara todo sujeito, a relaç
ão analítica é, nesse
domínio, um terreno privile
giado. Não é para nos esp
antarmos, se admitimos
que a angústia tem as rel
ações mais estreitas co
m a identifcação. Ora,
se na identificação trata
-se de algo que se pass
a no nível do desejo,
desejo do sujeito em rela
ção ao desejo do Outro, t
orna-se evidente que
a fnte maior da angústia
, em análise, vai-se enc
ontrar naquilo que é
sua própria essência: o f
a to de que o Outro é, ne
sse caso, alguém cujo
desejo mais fundamenta
l é não desejar, alguém
que, por isso mesmo,
se permite todas as proj
eções possíveis, desvel
a-as também em sua
subjetividade fantasmátic
a e obriga o sujeito a se c
olocar periodicamente
a pergunta de o que é o
desejo do analista, desej
o sempre presumido,
jamais definido, e por iss
o mesmo podendo, a tod
o momento, tornar-se
61
a angústia.
Mas, antes de tentar def
nir os parâmetros da sit
uação ansiogênica,
pa r:1metros que s6 se po
dem clcsc11har a partir ci
os problemas pr6prlos :
identificação, pode-se colo
car uma primeira perunta d
e orem mais descritiva,
que é esta : o que entendem
os, quando falamos de angú
stia oral, de castração,
Te ntar diferenciar esses dif
erentes termos no nível de
uma espécie
de escala quantitativa é i
mpossível : não existe an
gustiômetro. Não se é
pouco ou muito angustiad
o: ou se é, ou nã.o se é.
O único caminho que per
mite uma resposta, ness
e nível, é o de nos
colocarmos no lugar que
nos cabe, o daquele que
pode, e só ele, defnir
a angústia do sujeito a
partir do que essa angú
stia lhe sinaliza. Se é
verdade, como observou
o Sr. Lacan, que é muito
difcil flar da angústia
enquanto sinal, no nível
do sujeito, parece-me ce
rto que sua aparição

-280 -
Lição de 2 de maio de 1962

designa, assinala o Outro enquanto fo


nte, enquanto lugar de onde ela '
surgiu, e talvez não seja inútil lembrar,
a esse propósito, que não existe ·
afeto que suportemos tão mal, no outro
, quanto a angústia, que não há ,
outro afto ao qual nos arrisquemos tant
o a responder de forma paralela.

uma reação inversa: masoquista ou pas


siva; a angústia só pode provocar '
a fuga ou a angústia. Há, aqui, uma rec
iprocidade de resposta que não
deixa ee levantar um problema. O Sr.
Lacan insurgiu-se contra essa
tentativa feita por muitos, que srria a pro
cura de um conteúdo da angústa. ·
Isso me lembra o que c ( 11 ·.
que para tirar um coelho de uma ca
rtola era preciso tê-lo posto lá
dentro, primeiro. Ora, pergunto-me se a
angústia não aparece, justamente,
não somente quando o coelho é tirado,
mas quando ele se Í( •i , , l';tar o
capim, quando a cartola só representa
algo que se assemelha ao toro,
mas que envolve um lugar negro cujo
conteúdo nomeável qualquer se
evaporou, face ao qual o eu não tem
mais nenhum ponto de refrência,
pois a primeira coisa que se pode dizer
da angústia é que sua aparição
é sinal do desaparecimento momentâne
o de toda referência identifcatória
possível. É somente a partir daí que se p
ode responder, talvez, à pergunta
que cu levantava quanto às diferentes
denominações que podemos dar
à angústia, e não no nível da definiç
ão de um conteúdo, o próprio
sujeito angu stiado tendo, poderíamos d
izer, perdido seu conteúdo. Não
me parece, em outros termos, que se p
ossa tratar da angústia enquanto
tal. Para dar um exemplo, direi que fa
zer isso me pareceria tão falso
quanto querer definir um sintoma obsessi
vo, fcando no nível do movimento
a. utomático que pode representá-lo.
A angústia não nos pode ensinar
nada sohrl' si llH's111a, se não a consid
erarmos como a conseqüência, o
resultado de um impasse onde se enco
ntra o eu, sinal, para nós, de um
obstáculo surgido entre essas duas linha
s paralelas e fundamentais cujas
relações formam o ponto capital de toda a
estrutura humana : a identifcação
e a castração. São as relações entre es
ses dois eixos estruturantes nos
diferentes sujeitos que vou tentar esbo
çar para ousar uma defnição do
que é a angústia, daquilo que, segundo o
s casos, ela nos dá o testemunho.
O Sr. Lacan, no seminário de 4 de abr
il, ao qual eu me refro ao
longo desta exposição, nos disse que
a castração podia ser concebida
como uma passagem transicional ent
re o que está no sujeito, como
suporte natu ral do desejo, e essa habi
litação pela lei graças à qual �le

-281 -
A Identicação

vai se tornar o penhor p


or onde ele vai se desig
nar no lugar onde ele
tem que se manifestar co
mo desejo. Essa passage
m transicional é o que
deve permitir atingir a
equivalência pênis-flo,
isto é, que o que era,
enquanto emoção corpor
al, deve tornar-se, ceder l
ugar a um significante,
pois é somente a partir d
o sujeito e jamais a partir
de um objeto parcial,
pênis ou outro, que pod
e tomar um sentido qual
quer a palavra desejo.
"O sujeito demanda e
o flo deseja", dizia o Sr
. Lacan; o fa lo, mas
nunca o pênis. O pênis
é só um instrumento a s
erviço do signifcante
flo, e, se ele pode ser in
strumento muito indócil
é justamente porque,
enquanto falo, é o sujeit
o que ele designa, e, pa
ra que isso fncione, é
preciso que o Outro justa
mente o reconheça, o es
colha, não em função
desse "suporte natural",
mas porque ele é, enqua
nto sujeito, o signifcante
que o Outro reconhece,
a partir de seu próprio l
ugar de significante.
O que diferencia, no pl
ano do gozo, o ato mas
turbatório do coito,
difrença evidente, mas i
mpossível de explicar fi
siologicamente, é que
o coito, por mais que os
dois parceiros tenham p
odido, cm sua história,
assumir sua castração, f
z com que, no momento
do orgasmo, o sujeito
vá encontrar, não como a
lguns disseram uma esp
écie de fusão primitiva
- pois, afnal, não vemo
s por que o gozo mais
profndo que o homem
possa experimentar dev
eria frçosamente ser lig
ado a uma regressão
também total - mas, ao
contrário, o momento pri
vilegiado em que, por
um instante, ele atinge
essa identifcação semp
re buscada e sempre
fugidia em que ele, sujei
to, é reconhecido pelo o
utro como o objeto de
seu desejo mais profund
o, mas em que, ao mes
mo tempo, graças ao
gozo do outro, pode reco
nhecê-lo como aquele qu
e o constitui enquanto
signifcante fálico. "esse i
nstante único, demanda
e desejo podem, por
um instante fugaz, coinci
dir, e é isso que dá ao eu
esse desabrochamento
identifica tório do qual o
gozo tira sua fnte. O que
não se deve esquecer
é que, se nesse instante d
emanda e desejo coincide
m, o gozo traz, todavia,
em si a fo nte da insatisf
ação mais profunda, pois
, se o desejo é, antes
de mais nada, desejo de
continuidade, o gozo é, p
or defnição, algo de
instantâneo. É isso que fa
z com que, imediatamente
depois, se restabeleça
a distância entre desej
o e demanda, e a insati
sfção, que é também
garantia da perenidade
da demanda.
Mas, se há simulacros da
angústia, há ainda mais s
imulacros de gozo,
pois, para que tal situa
ção identificatória, fnte
do verdadeiro gozo,

. -282 -
Lição de 2 de maio de 1962

seja possível, é ainda preciso que os


dois parceiros tenham evitado o
obstáculo maior que os espreita, e q
ue é que, para um dos dois, ou
para os dois, o que se tem a ganhar ou
perder tenha permanecido fixado
no objeto parcial, enfim, de uma relação
dual onde eles, enquanto sujeitos ,
não têm lugar. Pois, o que nos mostra t
udo o que está ligado à castração
é que, longe de exprimir o temor de qu
e lhe corte o pênis, mesmo se é
assim que o sujeito pode verbalizá-lo, tr
ata-se do temor de que lhe seja
deixado e que se lhe corte todo o rest
o, isto é, que se tenha interesse
por seu pênis ou por seu objeto parci
al, suporte e fonte do prazer, e
que se o negue, que se o desconheça
enquanto sujeito. É por isso que
a angústia tem, não apenas relações
estreitas com o gozo, mas que
uma das situaç�es mais facilmente an
siogênicas é bem aquela onde o
sujeito e o Outro têm de se enfrentar
nesse nível.
Vamos, então, tentar ver quais são os
obstáculos que o sujeito pode
encontrar, nesse plano. Não representa
m nada mais, senão as próprias
fntes de toda angústia. Para tanto, ter
emos de nos reportar àquilo que
chamaremos de relações de obj eto pré-
genitais, nessa época, entre todas
determinantes para o destino do sujei
to, em que a mediação entre o
sujeito e o Outro, entre demanda e des
ejo, se fez em torno desse objeto
cujo lugar e defnição continuavam
muito ambíguos, e que é dito o
objeto parcial. A relação entre o sujeito
e esse objeto parcial outra coisa
mais não é senão a relação do sujeit
o com seu próprio corpo, e é a
partir dessa relação, que permanece f
undamental para todo humano,
que toma seu ponto de partida e se mol
da toda a gama daquilo que está
incluído no termo relação de objeto. Q
ue nos detenhamos na fase oral,
anal ou fálica, em todas se encontram as
mesmas coordenadas. Se escolho
a fase oral, é simplesmente porque, par
a o psicótico, do qual falaremos
daqui a pouco, ela me parece ser o mom
ento fecundo daquilo que chamei,
em outra ocasião, de "abertura da psic
ose". Como podemos defini-la?
Por uma demanda que, desde o início,
dizem-nos, é demanda de outra
coisa. Por uma resposta também que é
não somente, e de uma maneira
evidente, resposta à outra coisa, mas é
- e é um ponto que me parece
importantíssimo - o que constitui o qu
e é um grito, um apelo, talvez,
como demanda e como desejo. Quand
o a mãe responde aos gritos da
criança, ela os reconhece, constituind
o-os como demanda, mas o que
émais grave é que ela os interpreta no pl
ano do desejo: desejo da criança
de tê-la ali perto, desejo de lhe tomar
alguma coisa, desejo de agredi-

-283 -
A Ie nticação

la, pouco importa. O qu


e é certo é que, por sua
resposta, o Outro vai
dar a dimensão desejo a
o grito da necessidade,
e que esse desejo de
que a criança é investi
da é sempre, no início,
o resultado de uma
interpretação subjetiva, fu
nção apenas do desejo m
aterno, de seu próprio
fantasma. É pela via do
inconsciente do Outro q
ue o sujeito faz sua
entrada no mundo do d
esejo. Seu próprio des
ejo, ele terá, antes de
mais nada, de constituí-lo
como resposta, como ac
eitação ou recusa de
tomar o lugar que o inco
nsciente cio Outro lhe de
signa. Parece-me que
o primei r tempo do mecan
ismo-chave da rela ção or
al, que é a identifcação
projeti\a, parte da mãe: h
á uma primeira projeção,
no plano do desejo,
que vem dela; a criança t
erá ele se identificar ali o
u de combater, negar
t1
ide11lil'iaçfo que ela po
der,í sen tir como deter
minante. E, nessa
primeira fase ; da evolu
ção humana, está tamb
ém a resposta que ela
poderá dar, a propósito d
a descoberta do que sua
demanda esconde. A
partir desse momento, o
gozo, que não espera a o
rganização fálica para
entrar em jogo, tomará e
sse lado revelação que g
uardará sempre; pois,
se a frustração é o que
significa para o sujeito
a distância existente
entre necessidade e de
sejo, o gozo, pela marc
ha inversa, lhe revela,
respondendo ao que nã
o estava formulado, o q
ue está para além da
demanda, isto é, o desej
o.
Ora, que vemos, nisso que
é a relação oral? An tes de
tudo, que demanda
e resposta se significa
m para os dois parceiro
s em torno da relação
parcial boca-seio. Podere
mos chamar esse nível d
e nível do significado;
a resposta vai provocar,
no nível da cavidade or
al, uma atividade de
absorção, fonte de pra
zer; um objeto externo,
o leite, vai se tornar
substància própria, corpor
al. A absorção - é daí que
ela tira sua importância
e sua significação. A par
tir dessa primeira respos
ta, é a procura dessa
atividade de absorção, f
onte ele prazer, que vai
se tornar a meta da
demanda. Quanto ao des
ejo, é em outro lugar que
teremos de buscá-lo,
embora seja a partir des
sa mesma resposta, des
sa mesma experiência
de satisfação da necess
idade, que ele vai-se co
nstituir. De fato, se a
rel ação boca-seio e a ati
vidade absorção-
alimentação são o numer
ador
da equação representan
do a relação oral. há tam
bém um denominador,
o que põe em causa a re
bção criança-mãe, e é aí
que pode se situar o
desejo. Se. como penso.
a ati\i dade de amament
ação. em fu nção do
im l sü1m'nt0 dr qul da é
o l� bj eto de unu C outr
a parte. pl'r causa do
rnnato e d.is e:periencias
corpor.li� '10 nh e! do co
r tomado em sentido

- !84 -
Lição de 2 de maio de 1962

amplo, que elá permite à criança, repre


senta por sua própria escansão
repetitiva a fse fundamental, essencia
l, da fse oral, é preciso lembrar
que nunca tanto quanto aqui parece óbv
ia a verdade do provérbio que diz
"o modo de dar vale mais do que o que s
e dá". Graças, ou por causa desse
modo de dar, em função daquilo que is
so revelará do desejo matero, a
criança vai apreender a di ferença entre d
om de alimentação e dom de amor.
Paralelamente à absorção do alimento, v
eremos então se [desprover?),
no denominador de nossa equação, a a
bsorção, ou melhor, a introjeção
de um significante relacional, isto é, q
ue paralelamente à absorção de
alimento haverá introjeção, uma relação
fantasmática onde ela e o outro
scr.o representados por seus desejos in
conscientes. Ora, se o numerador
pode facilmente ser investido do sina l +
, denominador pode, na mesma
hora, ser investido do sinal - . É essa d
iferença de sinal que dá ao seio
seu lugar de signifcante, pois é bem d
essa distância entre demanda e
desejo, a partir desse lugar de onde
surge a fustração, que encontra
sua gênese, que se origina todo signifi
cante.
A partir dessa equação que, mutatis mut
andis, se poderia reconstituir
para as diferentes fases da evolução d
o sujeito, quatro eventualidades
são possíveis: elas desem bocam naquil
o que se chama de normalização,
a neurose, a perversão e a psicose. Te nt
arei esquematizá-las, simplifcando
as, obviamente, de uma maneira um po
uca caricatural e ver as relações
existentes, em cada caso, entre identif
icação e angústia.
A primeira dessas vias é, sem dúvida,
a mais utópica. É aquela em
que temos de imaginar que a criança pos
sa encontrar, no dom do alimento,
o dom de amor desejado. O seio e a re
sposta materna poderão, então,
tornar-se símbolos de outra coisa; a cria
nça entrará no mundo simbólico,
poderá aceitar o desfiladeiro da cadeia sig
nifcante. A re lação oral, enquanto
atividade de absorção, poderá ser aba
ndonada e o sujeito evoluirá em
direção do que se chama de uma solu
ção normativa. Mas, para que a
criança possa assumir essa castração,
para que ela possa renunciar ao
prazer que lhe oferece o seio, em fun
ção desse bilhete, desse passe
aleatório para o fu turo, é necessário qu
e a mãe tenha podido, ela própra,
assumir sua própria castração; é precis
o que, a partir desse momento,
a partir dessa relação dita dual, o terce
iro termo, o pai, esteja presente,
enquanto referência materna. Soment
e nesse caso, o que ela buscará
na criança não será uma satisfação no
nível da erogenei dade corporal,
que faz dela um equivalente fálico, mas
uma relação que, constituindQ-

-285 -
A Identicação

a como mãe, reconhece


-a igualmente como mul
her do pai. O dom de
alimento será, então, pa
ra ela, o puro símbolo d
e um dom de amor, e
porque esse dom de amo
r não será justamente o d
om fálico que o sujeito
deseja, a criança poderá
manter sua relação com
a demanda. Quanto
ao flo, ela terá de buscá-
lo em outro lugar, ela ent
rará no complexo de
castração que, só ele, p
ode permitir-lhe identifc
ar-se com outra coisa
que não um $.
A segunda eventualidade
é que, para a própria mãe
, a castração tenha
permanecido como algo
de mal assumido. Então,
todo objeto capaz de
ser, para o outro, a fnte
de um prazer e o objetiv
o de uma demanda,
corre o risco de tornar-
se, para ela, o equivalent
e fá lico que ela deseja.
Mas, na medida em que
o seio não tem existênci
a privilegiada, senão
em fnção daquele para
quem ele é indispensáv
el , ou seja, a criança,
vemos acontecer essa e
quivalência criança-falo
que está no centro da
gênese da maioria das e
struturas neuróticas. O s
ujeito, então, no curso
de sua evolução, terá s
empre de enfrentar o di
lema do ser e do ter,
qualquer que seja o obj
eto corporal, seio, pênis
, falo, que se torna C
suporte fálico. Ou então,
terá de se identificar àqu
ele que o tem, mas,
por não ter podido ultra
passar o estádio do su
porte natural, por não
ter tido acesso ao simból
ico, o ter significará sem
pre, para ele, um "ter
castrado o Outro", ou e
ntão ele renunciará ao t
er, ele se identifcará
então com o fa lo, enqu
anto objeto do désejo d
o outro, mas deverá,
então, renunciar a ser, ele
, o sujeito do desejo. Esse
conflito identifcatório,
entre ser o agente da ca
stração ou o sujeito que
a sofre, é o que defne
essa alternância contínu
a, essa questão sempre
presente, no nível de
identifcação que clinica
mente se chama de um
a neurose.
A terceira eventualidade
é a que encontramos na
perversão. Se esta
última foi defnida como o
negativo da neurose, ess
a oposição estrutural
é encontrada por nós n
o nível da identifcação.
O perverso é aquele
que eliminou o conflito
identifcatório. No plano
que escolhemos, o
oral, diremos que, na perv
ersão, o sujeito se constit
ui como se a atividade
de absorção não tivesse o
utro objetivo senão fzer de
le o objeto, permitindo
ao Outro um gozo fá lico.
O perverso não tem e nã
o é o falo: ele é esse
objeto ambíguo, que ser
ve a um desejo que não
é o seu; ele só pode
tirar seu gozo dessa sit
uação estranha, em qu
e a única identifcação
que lhe é possível é a q
ue o fz identificar-se nã
o com o Outro, nem

e286 -
Lição de 2 de maio de 1962

com o flo, mas com esse objeto cuj


a atividade propicia o gozo a um
falo cuja pertença ele ignora, cm ab
soluto.
Poder-se-ia dizer que o desejo do
perverso é responder à demanda
fáli ca. Para tomar um exemplo banal ,
direi que o gozo do sádico precisa,
para aparecer, de um Outro para q
uem, fazendo-se chicote, surja o
prazer. Se falei de demanda fálica,
o que é um trocadilho, é que, para
o perverso, o outro só tem existência
enquanto suporte quase anônimo
de um falo para o qual o perverso
cumpre seus ritos sacrificiais. A
resposta perversa traz sempre em s
i uma negação do outro enquanto
sujeito; a identifcação perversa se
faz sempre em função do objeto
fonte de gozo, para um falo tão pod
eroso quanto fantasmático.
Há ainda uma palavra que gostar
ia de dizer, sobre a perversão em
geral. Não creio que seja possível
defni-la, se fcarmos no plano que
poderíamos chamar de "sexual", aind
a que seja a isso que pareçam nos
levar as visões clássicas, nessa maté
ria. A perversão é - e nisso parece
me ficar muito perto da visão freudi
ana - uma perversão no nível do
gozo, pouco importa a parte corpor
al posta em jogo para obtê-lo . Se
partilho da desconfança do Sr. Lacan so
bre o que se chama de genitalidade,
é porque é muito perigoso fazer a
nálise anatômica. O coito mais
anatomicamente normal pode bem
ser tão neurótico, ou tão perverso
quanto o que se chama de uma puls
ão pré-genital. Aquilo que assinala
a normalidade, a neurose ou a perv
ersão, está somente no nível da
relação entre o eu e sua identifcaçã
o, que permite ou não o gozo que
vocês podem constatar. Se se quisesse
reservar o diagnóstico de perversão
só às perversões sexuais, não apena
s não se chegaria a nada, pois um
diagnóstico puramente sintomático
nunca quis dizer nada, mas ainda
seríamos obrigados a reconhecer que
há muito poucos neuróticos, então,
que escapariam a isso. E também nã
o é no nível de uma culpa, da qual
o perverso estaria isento, que vocês
encontrarão a solução: não existe,
pelo menos que eu saiba, um ser h
umano tão suficientemente fe liz
para ignorar o que é a culpa. A únic
a maneira de abordar a perversão
é tentar defni-la ali onde ela está, ou s
eja, no nível de um comportamento
relacional. O sadismo está longe de se
r sempre desconhecido, ou sempre
controlado, no obsessivo. O que ele
significa no obsessivo é, sim, a
persistência daquilo que se chama de
relação anal, ou seja, uma relação
onde se trata de possuir ou de ser po
ssuído, uma relação onde o amor
que se experimenta, ou do qual se é
o objeto, só pode ser significado,

-287 -
A Ientificação

para o sujeito , em funçã


o dessa possessão que
pode, justamente, ir até
à
destru ição do objeto. O
obsessivo, poderíamos
dizer, é, de fato, aquele
que castiga bem porqu
e ama bem; é aquele p
ara quem a surra do pa
i
permaneceu como a ma
rca privilegiada de seu a
mor, e que busca sempr
e
alguém a quem dá-la o
u de quem recebê-la. M
as, tendo-a recebido ou

dado, tendo-se assegur


ado de que o amam, é n
um outro tipo de relação
com o mesmo objeto qu
e ele buscará o gozo, e
que essa rel ação se faç
a
oralmente, analmente o
u vaginalmente, ela só s
erá pervertida no sentid
o
como a entendo, e que
me parece o único que p
ossa evitar pôr a etiquet
a
pervertida sobre um gr
ande número de neuróti
cos ou sobre um grand
e
número de nossos sem
elhantes.
O sadismo torna-se u
ma perversão, quando a
surra não é mais buscad
a
ou dada como sinal de
amor, mas quando é, e
nquanto tal, assimilada
pelo sujeito à única pos
sibilidade existente de f
azer gozar um falo; e a
visão desse gozo torna
-se o único caminho ofe
recido ao perverso para
seu próprio gozo. Te
m-se falado muito da
agressividade, da qual
o
exibicionismo tiraria s
ua fonte. Mostra-se pa
ra agredir o outro, se
m
dúvida, mas o que nã
o se deve esquecer é
que o exibicionista está

convencido de que essa


agressão é uma fonte d
e gozo, para o Outro. O
obsessivo, quando vive
uma ten dência exibicio
nista, tenta, poderíamos

dizer, lograr o ou tro :


ele mostra o que pens
a que o outro não tem
e
deseja; mostra aquilo qu
e para ele tem, de fto, a
s relações mais estreitas
com a agressividade. Le
mbrem-se do que se pa
ssou com O homem dos
rtos; o gozo do pai mo
rto é a última de suas in
quietações. Mostrar ao
pai morto o que ele, o
Homem dos ratos, pen
sa que o pai morto teri
a
desejado arrancar-lhe f
a ntasmaticamente , eis
aí algo que se chama d
e
agrcssiviclacle, e dessa ag
ressivida de o obsessivo tir
a o seu gozo . O pervertido
,
é apenas através ele u111
gozo estrangeiro que ele
busca o seu. A perve rsf
w
é justamente isso: esse
caminhar cm ziguezagu
e, esse desvio que faz
com que seu eu esteja
sempre, por mais que e
le fça, a serviço de uma

potência fá lica anônim


a. Pouco lhe importa qu
em é o objeto, bastar-
lhe
á que ele seja capaz de
gozar, que ele possa fze
r disso o suporte desse
falo diante do qual ele s
e identifcará, e somente
com o objeto presumido
capaz de lhe propiciar o
gozo. É por isso que, co
ntrariamente ao que se
Yê na neurose, a identi
fcação per\'ersa, com o
seu tipo de relação de
obj l'll'. t' :\l �L' cu_a un
idade. cuja estabilidade
é o que mais surpreend
e.
Lição de 2 de maio de 1962

E chegamos agora à quarta eventualida


de, a mais difcil de se captar:
a psicose. O psicótico é um sujeito cuj
a demanda nunca fi simbolizada
pelo Outro, para quem o real e o simbóli
co, fa ntasma e realidade, jamais
puderam ser delimitados, por flt,1 de trr
rodido ter acesso a essa terceira
dimensão, única a permitir essa diferen
ciação indispensável entre esses
dois níveis, isto é, o imaginário. Mas a
qui, mesmo tentando simplifcar
ao máximo as coisas, somos obrigados a
nos situarmos no próprio começo
da história do sujeito, antes da relaç
ão oral, isto é, no momento da
concepção. A primeira ampuu1ção !J'H
,;:if"re o psicótico se passa antes
de seu nascimento: ele é, para ::tw mãe, "
:
a participação paterna é por ela nega d
a, inaceitável. Ele é, desde esse
momento e durante toda a gravidez, o
objeto parcial que vem preencher
uma ausência fantasmática no nível de se
u corpo. E, desde seu nascimento,
o papel que lhe será designado, por ela
, será o de ser o testemunho da
negação de sua castração. A criança,
contrariamente ao que se tem
dito amiúde, não é o falo da mãe, é o te
stemunho de que o seio é o fa lo,
o que não é a mesma coisa. E, para
que o seio seja o falo, e um flo
muito potente, é necessário que a resp
osta que ele traga seja perfita e
total. A demanda da criança não poder
á ser reconhecida por nada que
não seja demanda de alimento; a dime
nsão desejo, no nível do sujeito,
deve ser negada; e o que caracteriza a
mãe do psicótico é a proibição
total, feita à criança, de ser o sujeito d
e algum desejo. Vê-se, então, a
partir desse momento, como vai se
constituir, para o psicótico, sua
relação particular com a palana; co
mo, desde o principio, lhe será
impossível manter sua relação com a
demanda. De fato, se a resposta
só se dirige a ele sempre como boca a
alimentar, como objeto parcial,
comprcl'11Cll'-SC' que. para clC'. toda d
emanda no próprio momento de
sua for,ulaç.io, traz consigo a morte do de
sejo. Por 11:io ter sido simbolizado
pelo Outro, ele será levado a fazer coin
cidir, na resposta, o simbólico e
o real . Já que, peça ele o que pedir, é
alimento o que lhe dão, será o
alimento enquanto tal que se tornará,
para ele, o signifcante-chave. O
simbólico, a partir desse momento, fr
á irrupção no real. No lugar que
o dom de alimento encontra seu equival
ente simbólico no dom de amor,
para ele todo dom de amor só poderá
se signifcar por uma absorção
oral. Amar o outro, ou ser por ele am
ado, se traduzirá, para ele, em
termos de oralidade: absorver o outro
ou ser por ele absorvido. Haverá
sempre, para ele, uma contradição fund
amental entre demanda e desejo,

-289 -
A Identicação

pois, ou bem ele mantém


sua demanda e sua dema
nda o destrói enquanto
sujeito de um desejo, el
e tem de alienar-se enq
uanto sujeito para se
fzer boca, objeto a alime
ntar, ou então buscará c
onstituir-se enquanto
sujeito bem ou mal, e se
rá, então, obrigado a ali
enar a parte corporal
dele mesmo, fonte de p
razer e lugar de uma re
sposta incompatível ,
para ele, com toda tentaç
ão de autonomia. O psicó
tico é sempre obrigado
a alienar seu corpo en
quanto suporte de seu
eu, ou a alienar uma
parte corporal enquanto
suporte de uma possibili
dade de gozo. Se não
emprego aqui o termo i
dentificação, é porque j
ustamente creio que,
na psicose, ele não é apl
icável. A identifcação, na
minha óptica, implica
a possibilidade de uma re
lação de objeto em que o
desejo do sujeito e o
desejo do Outro estão e
m situação de conflito,
mas existem enquanto
dois pólos constitutivos
da relação. Na psicose,
é no nível da relação
fntasmática do sujeito
com seu próprio corpo
que seria necessário
defnir o Outro e seu des
ejo. Não frei isso aqui po
rque nos afstaríamos
de nosso assunto, que é
a angústia. Contrariame
nte ao que se poderia
crer, foi exatamente del
a que falei durante toda
a minha explanação.
Como disse no princípio,
somente a partir dos parâ
metros da identifcação
parecia-me possível alc
ançá-la.
Ora, o que vimos? Que
r seja no sujeito dito no
rmal, quer seja no
neurótico ou no pervers
o, toda tentativa de ide
ntificação só se pode
fzer a partir do que ele i
magina, verdadeiro ou f
also, pouco importa,
do desejo do Outro. Quer
vocês tomem o sujeito dit
o normal, o neurótico
ou o pervertido, vocês vi
ram que se trata sempre
de se identificar, em
fnção ou contra aquilo q
ue ele pensa ser o desej
o do Outro. Enquanto
esse desejo puder ser i
maginado, fantasiado,
o sujeito vai encontrar
nele as referências neces
sárias para o definir com
o objeto do desejo do
Outro, ou como objeto qu
e se recusa a sê-lo. Em a
mbos os casos, ele é
alguém que pode se def
nir, se encontrar. Mas a
partir do momento em
que o desejo do Outro s
e torna algo de misterios
o, de indefnível, o que
se revela, então, ao sujei
to, é que era justamente
esse desejo do Outro
que o constituiria como suj
eito. O que ele encontrará,
o que se desmascarará,
nesse momento, face a
esse nada, é seu fantas
ma fundamental: é que
ser o objeto do desejo d
o Outro só é uma situaç
ão suportável quando
podemos nomear esse de
sejo, dar-lhe feições em fu
nção de nosso próprio
desejo. Mas, tornar-se o
objeto de um desejo ao q
ual não podemos mais
dar nome é tornarmo-
nos nós mesmos um obj
eto cujas insígnias não

: 290 -
Lição de 2 de maio de 1962

têm mais sentido, já que elas são, pa


ra o Outro, indecifráveis. Esse
momento preciso, em que o eu se refere
ncia num espelho que lhe devolve
uma imagem que não tem mais sigifcaç
ão identifcável, isso é a angúst ia.
Chamando-a oral, anal ou fálica, tudo
o que fa zemos é tentar defnir
quais eram as insígnias de que o eu se r
evestia para se fazer reconhecer.
Se, quanto ao que aparece no espelho,
somente nós podemos fa zê-lo, é
que somos os únicos a poder ver de q
ue tipo são essas insígnias que
nos acusam de não mais reconhecer. Po
is se, como eu dizia no princípio,
a angústia é o afeto que mais facilment
e corre o risco de provocar uma
resposta recíproca, é justamente que, a p
artir desse momento, nos toramos
para o Outro aquele cujas insígnias s
ão absolutamente misteriosas,
absolutamente inumanas. Na angústia, nã
o é apenas o eu que está dissolvido,
também o Outro, enquanto suporte identi
fcatório. Nesse mesmo sentido,
vou-me situar dizendo que o gozo e a
angústia são as duas posições
extremas em que se pode situar o eu .
Na primeira, o eu e o Outro, por
um instante, trocam suas insígias, re con
hecem-se como dois signi ficantes
cujo gozo compartilhado garante, duran
te um instante, a identidade dos
desejos. Na angústia, o cu e o Outro se
dissolvem, são anulados numa
situação em que o desejo se perde, por
falta de poder ser nomeado.
Se agora, para concluir, passamos à psi
cose, veremos que as coisas
são um pouco diferentes. Evidentement
e, aqui também a angústia nada
mais é que o sinal da perda, para o eu,
de toda referência possível. Mas
a fonte de onde nasce a angústia é aq
ui endógena : é o lugar de onde
pode surgir o desejo do sujeito; é seu
desejo que, para o psicótico, é a
fonte privilegiada de toda angústia.
Se é verdade que é o Outro que nos
constitui, ao nos reconhecer
como objeto de desejo, que sua respo
sta é aquilo que nos faz tomar
consciência da distância que existe e
ntre demanda e desejo, e que é
por essa brecha que entramos no mu
ndo dos significantes, ora bem,
para o psicótico esse Outro é aquele
que nunca lhe significou outra
coisa senão um buraco, um vazio no
centro de seu ser. A interdição
que lhe foi fe ita, quanto ao desejo, fz
com que a resposta lhe tenha
fe ito apreender não uma distância, m
as uma antinomia fundamental
entre demanda e desejo, e dessa distân
cia, que não é uma brecha, mas
um abismo, o que veio à luz não é o si
gnificante, mas o fantasma, ou
seja, aquilo que provoca a telescopagem
do simbólico e real que chamamos
de psicose. Para o psicótico - e me de
sculpo por limitar-me a simples

-291 -
A Ie ntificação

fórmulas - o Outro está


introjetado no nível de s
eu próprio corpo, no
nível de tudo
primeira que
ue circundaé tudo o que
a hiância

o designa como sujeito. A

angústia está, para ele, lig

ada a esses momentos

pode dizer "eu " [Je], ou

seja, que ele se identifi

casse a essa hiância


que, em função da i11Lc
rdição do Outro, é o únic
o lugar em que ele é
reconhecido como sujeit
o. To do desejo só pode l
evá-lo a uma negação
dele mesmo ou a uma ne
gação cio Outro. Mas, de
sde que o Outro esteja
intn�jetado no nível de
seu próprio corpo, que e
ssa introj cçfw é a única
coisa que lhe permite viv
er - cu disse, aliás, que p
ara o psicótico a única
possibilidade de se ident
ifi car com um corpo ima
ginário unifcado seria
identificar-se com a so
mbra que projetaria dia
nte dele um corpo que
não seria o seu - to da ne
gação do Outro seria, par
a ele, o equivalente a
uma automu tilação que s
ó faria devolvê-lo a seu pr
óprio drama fndamental.
Se, no neurótico, é a par
tir de nosso silêncio que
podemos encontrar
as fontes que disparam
sua angústia, no psicóti
co é a partir de nossa
fala, de nossa presença.
Tu do o que pode fazê-lo
tomar consciência de
que existimos como dife
rentes deles, como sujei
tos autônomos e que,
por isso mesmo, podem
os reconhecê-lo, a ele,
como sujeito, torna-se
aquilo que pode disparar
sua angústia. Enquanto
ele fala, só faz repetir
um monólogo que nos situ
a no nível desse Outro intr
ojetado que o constitui.
Mas, quando cabe a nós
a palavra, e porqu e pode
mos, enquanto objeto,
tornar-nos o lugar cm qu
e ele tem de reconhecer
seu desejo, veremos
sua angústia disparar; po
is desejar é ter de se con
stituir como sujei to, e,
para ele, o único lugar de
onde ele pode fazê-lo é a
quele que o devolve a
seu abismo. Mas, aqui ai
nda, cm conclusão, vocês
o vêem, pode-se dizer
que a angústia aparece
no momento em que o d
esejo fz do sujeito algo
que é uma falta de ser,
uma flta de se nomear.
Há um ponto de que n
ão tratei e que deixarei
de lado - lamento
muito isso, pois é, para
mim, um ponto fundam
ental e eu gostaria de
tê-lo abordado. Infelizme
nte, teria sido necessário
, para que eu pudesse
incluí-lo, que tivesse um
domínio maior do tema q
ue tentei tratar. Quero
falar do fa ntasma. Ele ta
mbém está intimamente
ligado à identificação
e à angústia, a tal ponto
que cu teria podido dizer
que a angústia aparece
no momento em que o o
bjeto real não pode mais
ser apreendido senão

-292 -
Lição de 2 de maio de 1962

em sua sign_i ficação fantasmática, que


é a partir desse momento, já que
toda identificação possível do eu se di
ssolve, que aparece a angústia.
Mas, se é a mesma história, não é o m
esmo discurso e, por hoje, vou
parar aqui. Mas, antes de concluir meu
discurso, gostaria de lhes trazer
um exemplo clínico muito rápido sobre a
s fontes da angústia no psicótico.
Não lhes direi nada mais da história, se
não que se trata de um grande
esquizof rênico, delirante, internado em
diferentes ocasiões. As primeiras
sessões são um relatório de seu delíri
o, delírio bastante clássico, é o
que ele chama de "o problema do home
m-robô". E depois, numa sessão
em que, como por acaso, mencionou
-se o problema do contato e da
palavra, onde ele me explica que o que
não pode suportar era "a forma
da demanda", que "o aperto de mão é u
m progresso sobre as civilizações
que saúdam vcrbalmente , onde a pala
vra falseia as coisas, impede de
compreender, onde a palavra é como u
ma roda que gira, onde cada um
veria uma parte da roda em momentos
diferentes, e então, quando se
tenta comunicar, é frçosamente falso,
há sempre um diálogo". Nessa
mesma sessão, no momento em que el
e aborda o problema da fala da
mulher, ele me diz, de repente: "O que m
e preocupa é o que me disseram
sobre os amputados, que eles sentiria
m coisas pelo membro que não
têm mais". E, nesse momento, aquele
homem, cujo discurso mantém,
em sua forma delirante, uma dimensã
o de precisão, de uma exatidão
matemática, começa a procurar suas
palavras, a se embaralhar, e me
diz não poder mais seguir seus pensa
mentos, e fnalmente pronuncia
esta frase, que acho realmente import
ante, no que diz respeito àquilo
que é, para o psicótico, sua imagem do
corpo: "Um fantasma lantôme),
seria um homem sem membros e sem
corpo que, por sua inteligência,
somente perceberia sensações falsas
de um corpo que ele não tem.
Isso me preocupa imensamente". "Per
ceberia sensações falsas de um
corpo que ele não tem ", essa frase vai
encontrar seu sentido na sessão
seguinte, quando ele virá ver-me par
a dizer que quer interromper as
sessões, que não é mais suportável par
a ele, que é malsão e perigoso, e
o que é malsão e perigoso, o que sus
cita uma angústia que, durante

toda essa sessão, se fará sentir pesada

mente, é que "percebi que você

que assumir essa flta que é seu corp

o, teria de olhar aquilo que, por

-293 -
A Identicação

não ter sido simbolizado


, não é suportável ao ho
mem: a castração como

tal. Sempre naquela m


esma sessão, ele mes
mo dirá, melhor do que
eu
poderia fazer, onde est
á, para ele, a fnte da a
ngústia : "A gente tem

medo de se olhar num e


spelho, porque o espelh
o muda, segundo os olh
os
que o olham, não se sa
be exatamente o que s
e vai ver ali. Se a gente

impressão de que
aquilo do qual ele quer
se assegurar é que as m
udanças são do espelho.
Vejam: a angústia a
parece no momento e
m que ele teme que e
u
possa tornar-me um ob
jeto de desejo; pois, a
partir desse momento,
o
surgimento de seu desej
o implicaria, para ele, a
necessidade de assumir
o que chamei de "a falt
a fundamental que o c
onstitui". A partir dess
e
momento, a angústia a
parece, pois sua posiçã
o de fantasma [a ntôme]
.
de robô, não é mais su
stentável: ele corre o ri
sco de não mais poder

negar suas sensações f


alsas, de um corpo que
ele não pode reconhecer
.
O que provoca sua ang
ústia é bem o momento
preciso cm que, face à
irrupção de seu desejo
, ele se pergunta qual i
magem de si mesmo v
ai
lhe devolver o espelho,
e essa imagem, ele sab
e que corre o risco de s
er
a da falta, do vazio, do
que não tem nome, daq
uilo que torna impossív
el
todo reconhecimento
recíproco e que nós,
espectadores e atore
s
involuntários do drama
, chamamos de angústi
a.

- ]. Lacan - Eu gostar
ia muito, antes de ten
tar apontar o lugar
desse discurso, que algu
mas das pessoas que vi
com mímicas diversas,
interrogativas, de espera,
mímicas que foram precis
as nesse ou naquele
momento do discurso da
Sra. Aulagnier, queiram
simplesmente indicar
as sugestões, os pensa
mentos produzidos nel
as, nesse ou naquele
ponto desse discurso, c
omo um sinal de que es
se discurso fi ouvido.
Só lamento uma coisa:
ele fi lido. Isso me forne
cerá os apoios sobre
os quais acentuarei mai
s precisamente os com
entários.

- X. Audouard - O que
me surpreendeu asso
ciativamente foi, de
fato, o exemplo clínico
que a Sra . nos trouxe
no fim da palestra, fi
essa frase <o doente s
obre a palavra, que ele
compara a uma roda
da qual diversas pesso
as não vêem nunca a
mesma parte. Isso me
pareceu esclarecer tud
o o que a Sra. disse, e
abre - e não sei por
quê, aliás - toda uma a
mpliação dos temas qu
e a Sra. apresentou.
Creio ter compreendid
o mais ou menos o sen
tido da palestra. Não

-294 -
Lição de 2 de maio de 1962

tenho prática com esquizofên icos, mas, no


que diz respeito aos neuróticos
e aos perversos, a angústia, uma vez q
ue ela não pode ser objeto de
simbolização , porque é justamente a
marca de que a simbolização
não pôde se fazer e se simbolizar, sig
nifica realmente desaparecer
numa espécie de não-simbolização de
onde parte, a cada instante, o
apelo da angústia. É, evidentemente,
algo de extremamente rico,
mas que, talvez, num certo plano lógico,
exigria alguns esclarecimentos.
De fato, como é possível que essa exp
eriência fu ndamental, que é
de alguma forma o negativo da palavr
a, venha a se simbolizar, e o
que é que se passa, pois, para que de
sse buraco central jorre algo
que ten h amos de compreender? Enfim
, como nasce a palavra? Qual
a orgem do sigifcante, nesse caso precis
o? Como se passa da angústia,
enquanto ela não pode se dizer, para
a angústia, enquanto que ela
se diz? Há, talvez, aí um movimento
que tem relação com aquela
roda que gra, que teria, talvez, necessida
de de ser um pouco esclarecido
e precisado.

- Fiquei me perguntando se não haveri


a duas espécies
de angústia. A Sra. Aulagnier disse a
ngústia-castração. O sujeito
tem medo de que se lhe arranque e que
seja esquecido como sujeito;
é o desaparecimento do sujeito como
tal. Mas me pergunto se não
há uma angústia em que o sujeito recus
a ser sujeito, se, por exemplo,
em certos fntasmas ele quer, ao contr
ário, esconder o buraco ou a
falta. No exemplo clínico da Sr.ª Aulagni
er, o sujeito recusa seu corpo,
porque o corpo lhe lembra seu desej
o e sua falta. No exemplo da
angústia-castração, a Sra. teria dito:
o sujeito tem medo de que o
desconheçam como sujeito. Uma angústi
a, portanto, tem duas direçôes
possíveis: ou ele recusa ser sujeito, ou
há também a outra angústia
onde ele tem, por exemplo, na claustro
fobia, a impressão de que ali
ele não é mais sujeito ou, ao contrário,
ele está trancafiado, está num
mundo fechado, onde o desejo não exis
te. Ele pode estar angustiado
diante de seu desejo e também diante d
a ausência de desejo.

- P Aulagnier - Não acredite que, qua


ndo se recusa a ser sujeito, é
justamente porque se tem a impressã
o de que, para o Outro, só se
pode ser sujeito pagando-lhe com su
a castração. Não creio que a
recusa em ser sujeito seja ser verdadei
ramente um sujeito.

-295 -
A Identicação

- ]. Lacan - Estamos e
xatamente no coração d
o problema. Vocês
estão vendo imediatament
e, aqui, o ponto em que a
gente se embaralha.
Acho que esse discurso é
excelente, na medida em
que a manipulação
de algumas das noções q
ue encontramos aqui per
mitiu à Sra. Aulagnier
valorizar, de um jeito qu
e não lhe teria sido poss
ível de outra frma,
várias dimensões de su
a experiência.
Vou retomar aquilo que m
e pareceu importante naqu
ilo que ela produziu.
Di go, logo de saída, qu
e esse discurso me pare
ce ficar na metade do
caminho. É uma espéci
e de conversão, não ten
ham dúvida, é bem o
que tento obter de voc
ês por meu ensino, o q
ue não é, meu Deus,
afinal de contas uma pr
etensão tão única na hi
stória, a ponto de ser
considerada exorbitante.
Mas, o certo é que toda u
ma parte do discurso
da Sra. Aulagnier, e mu
ito precisamente a pass
agem em que, numa
preocupação com a intel
igibilidade, tanto sua qua
nto daqueles a quem
ela se dirige, a quem el
a crê se dirigir, retorna
a fó rmulas que são
aquelas contra as quais t
enho advertido vocês, te
nho preparado vocês,
tenho-os posto em guar
da, e nunca simplesmen
te porque isso é como
uma mania que eu tenha
ou uma espécie de aver
são, mas porque sua
coerência com alguma ,
·oisa que se trata de ab
andonar radicalmente
se mostra sempre, cada
vez que a gente as emp
rega, feita com boas
razões. A idéia de uma a
ntinomia, por exemplo, q
ualquer que seja, da
palavra com o afto, ainda
que seja da experiência e
mpiricamente verifcada,
não é, todavia, algo sobr
e o qual possamos articul
ar uma dialética, se é
que o que tento fazer, di
ante de vocês, tem um v
alor, ou seja, permitir
a vocês desenvolverem,
tanto quanto possível, to
das as conseqüências
do el'ilo de que o homem
seja um animal condenad
o a habitar a linguagem.
Através disso, não pode
ríamos de maneira algu
ma considerar o afeto
como o que quer que seja
, sem dar numa primaried
ade qualquer. Nenhum
afeto si gnificativo, nenhu
m desses de que nos ocu
pamos, da angústi a à
cólera e a todos os demai
s, não pode sequer começ
ar a ser compreendido
senão numa referência, o
nde a relação de x com o
signifcante é primeira.
Antes de marcar distorç
ões, quero dizer que em
relação a algumas
ultrapassagens que seri
am a etapa ulterior, quer
o, obviamente, marcar
o positivo daquilo que já
lhe permitiu o simples u
so desses termos, no
primeiro plano dos quais
estão,aqueles de que ela
se serviu eom justeza
e destreza: o desejo e a
demanda. Não basta ter
ouvido flar disso, se se

-296 -
Lição de 2 de maio de 1962

serve disso de �lguma maneira - mas


não são, de todo jeito, palavras
assim tão esotéricas, para que cada u
m não se ache no direito de as
utilizar - não basta empregar esses t
ermos, desejo e demanda, para
fazer deles uma aplicação exata. Algum
as pessoas se arriscaram nisso,
recentemente, e não sei bem se o res
ultado disso foi de algum modo
nem brilhante - o que, afnal , não teria s
enão uma importância secundária
-, nem mesmo tendo a menor relação c
om a fu nção que damos a tais
termos. Não é o caso da Sra. Aulag
nier, mas foi o que lhe permitiu
atingir, em alguns momentos, uma tonal
idade que manifsta qual espécie
de conquista, ainda que sob a forma de
questões levantadas, o manejo
dos termos nos permite.
Para designar a primeira, mais impres
sionante abertura que ela nos
deu, vou assinalar o que ela disse do or
gasmo ou, mais exatamente, do
gozo amoroso. Se me for permitido dirig
ir-me a ela como Sócrates podia
dirigir-se a alguém [Diotima], lhe dire
i que ela dá aí a prova de que
sabe do que está flando. Que ela o fç
a, sendo mulher, é o que parece
tradicionalmente óbvio. Estou menos
certo disso; as mulheres, diria
eu, são raras, senão a saber, ao men
os a poder flar, sabendo o que
dizem das coisas do amor. Sócrates dizia
que certamente podia testemunhar
isso, que ele sabia. As mulheres são,
pois, raras, mas compreendam
bem o que quero dizer com isso: os h
omens o são ainda mais. Como
nos disse a Sra. Aulagnier, a propósito d
o que é o gozo do amor, rejeitando
de uma vez por todas aquela famosa re
ferência à fu são que justamente
nós, que temos dado um sentido comp
letamente arcaico a esse termo
de fu são, deveria nos permitir um des
pertar. Não se pode, ao mesmo
tempo, exigir que seja no fm de um
processo que se chegue a um
momento quali ficado e único e, ao me
smo tempo, supor que seja por
um retomo a não sei qual diferenciaçã
o primitiva. Em suma, não relerei
seu texto porque me flta tempo, mas,
no conjunto, não me pareceria
inútil que esse texto - ao qual certam
ente estou longe de dar a nota
1 O, quero dizer, considerá-lo um disc
urso perfeito - seja considerado
antes como um discurso que defne uma
escala a partir da qual poderemos
situar os progressos aos quais poder
emos referir-nos, a algo que fi
tocado ou em todo caso perfeitamente
captado, apanhado, agarrado,
compreendido pela Sra. Aulagnier. Ev
identemente, não digo que ela
dá, ali, sua última palavra, direi até mai
s: em várias·ocasiões, ela indica
os pontos em que lhe pareceria neces
sário avançar, para completar o
!

-297 -
A Identiicação

que ela disse e, sem dúvi


da, uma grande parte da
minha satisfação vem
dos pontos que ela desi
gna. São justamente es
ses que poderiam ser
torneados, §e posso dizer
. Esses dois pontos; ela o
s designou a propósito
da relação do psicótico c
om seu próprio corpo, p
or um lado - ela disse
que tinha muitas coisas
a dizer, e nos indicou u
m pouquinho delas - e,
por outro lado, a propósi
to do fntasma, cuja obsc
uridade na qual ela o
deixou me pareceria suf
cientemente indicativa,
pelo fto de que essa
sombra é, nos grupos, u
m pouco geral. É um pon
to.
Segundo ponto que me
parece muito importante
, dentro do que ela
nos trouxe, é o que ela t
rouxe quando nos falou
da relação perversa .
Não, cer tamente, que eu
endosse em todos os asp
ectos o que ela disse
a esse respeito, que é d
e fto de uma audácia in
crível. É para felicitá
la altamente por ter esta
do à altura, mesmo se é
um passo a se retifcar,
de tê-lo feito, apesar de
tudo. Para não qualificá
-lo de outra maneira,
esse passo, direi que é
a primeira vez, não apen
as no meu ambiente -
e, quanto a isso, me feli
cito de ter sido precedid
o aqui - que vem em
antecipação alguma cois
a, uma certa maneira, u
m certo tom para falar
da relação perversa, qu
e nos sugere a idéia que
é propriamente o que
me impediu de flar diss
o até agora, porque não
quero passar por ser
aquele que diz: tudo o q
ue se fz até agora não v
ale uma fava. Mas a
Sra. Aulagnier, que não
tem as mesmas razões
de pudor que nós, e
aliás que o diz em toda i
nocência, quero dizer, q
ue viu perversos e se
interessou por eles de u
ma forma verd adeirame
nte analítica, começa a
articular algo que, pelo si
mples fato de poder apre
sentar sob essa forma
geral, repito, incrivelmen
te audaciosa, que o perv
erso é aquele que se
torna objeto para o gozo
de um falo cuj a pertença
ele nem suspeita; ele
é o instrumento do gozo
de um deus. Isso quer d
izer, afinal, que isso
merece algum apontame
nto, alguma retifcação d
e manobra diretiva e,
para dizer tudo, que isso l
evanta a questão de reint
egrar o que chamamos
de falo. Que isso levanta
a urgência da defnição d
e falo não há dúvida,
já que isso certamente t
em como efei to dizer-
nos que se isso deve,
para nós, analistas, ter u
m sentido, um diagnóstic
o de estrutura perversa,
isso quer dizer que é pr
eciso que comecemos
por jogar pela janela
abaixo tudo o que se es
creveu, de Kraft Ebing a
Havelock Ellis, e tudo
o que se escreveu de u
m catálogo qualquer pret
ensamente clínico das
perversões. Em suma, há
, no plano das perversõe
s, a necessidade de se
ultrapassar essa espéci
e de distância tomada, s
oh o Lermo de clínica,

. -298 -
Lição de 2 de maio de 1962

que na realid.ade não passa de uma m


aneira de desconhecer o que há,
nessa estrutura, de absolutamente radi
cal, de absolutamente aberto a
quem quer que tenha de dar esse pas
so que é justamente o que exijo
de vocês, esse passo de conversão que
nos permita es tar, no ponto de
vista da percepção, onde saibamos o q
ue estrutura perversa quer dizer
de absolutamente universal. Se evoq
uei os deuses não fi por nada,
pois eu também poderia ter evocado o t
ema das metamorfoses e toda a
relação mística, alguma relação pagã
com o mundo, que é aquela na
qual a dimensão perversa tem seu va
lor, direi, clássico. É a primeira
vez que ouço flar de um certo tom q
ue é verdadeiramente decisivo,
que é a abertura nesse campo, onde é
justamente o momento em que
vou-lhes explicar o que é o falo, temos
necessidade disso.
A terceira coisa é o que ela nos disse a
propósito de sua experiência
com psicóticos. Não preciso sublinha
r o efito que isso pode causar,
pois Audouard já deu testemunho disso.
Ali, mais uma vez o que parece
eminente é justamente aquilo por meio
do qual isso nos abre também
essa estrutura psicótica como sendo al
go onde devemos sentir-nos em
casa. Se não somos capazes de perc
eber que há um certo grau, não
arcaico, a pôr de lado em algum lugar
do nascimento, mas estrutural,
no nível do qual os desejos são propri
amente falando loucos; se, para
nós, o sujeito não inclui em sua definiç
ão, em sua articulação primeira,
a possibilidade da estrutura psicótica, nu
nca seremos mais que alienistas.
Ora, como não sentir vivo, como acon
tece todo o tempo àqueles que
vêm escutar o que se diz aqui neste se
minário, como não perceber que
tudo o que comecei a articular este a
no, a propósito da estrutura de
superfcie do sistema e do enigma que
diz respeito à maneira como o
sujeito pode ter acesso a seu próprio c
orpo, é que isso não vem por si
só, aquilo de que todos estão há muit
o tempo advertidos, já que essa
famosa e eterna distinção de desunião
ou união da alma e do corpo é
sempre, afinal, o ponto de aporia cont
ra o qual todas as articulações
flosófcas vieram chocar-se. E por que é q
ue, para nós, analistas.justamente,
não seria possível encontrar a passag
em? Isso necessita somente de
uma certa disciplina, e, em primeiríssi
mo lugar, saber como fzer para
falar do sujeito.
O que causa difculdade para se falar
do sujeito é isso que vocês
nunca meterão na cabeça sufciente
mente, sob a frma brutal como

-299 -
A Identificação

vou enunciá-lo, é que o s


ujeito nada mais é que a
conseqüência de que
há significante e que o n
ascimento do sujeito pre
nde-se a isso: que ele
só pode se pensar com
o excluído do significant
e que o determina. Aí
está o valor do pequeno
ciclo que lhes introduzi n
a última sessão e do
qual ainda não terminam
os de ouvir falar, pois, na
verdade, será preciso,
de toda maneira, que eu
desdobre mais uma vez,
diante de vocês, antes
que possam ver bem exa
tamente aonde isso nos l
eva. Se o sujeito é só
isso: essa parte excluída d
e um campo inteiramente
definido pelo sigifcante,
se só é a partir daí que tu
do pode nascer, é preciso
sempre saber em que
nível fzemos intervir esse
termo, sujeito. E, apesar
dela, porque é a nós

que ela fala e porque é


a ela, e porque há ain d
a algo que não está
ainda adquirido, assumid
o apesar de tudo, quando
ela fla dessa escolha,
por exemplo, que há em
ser sujeito ou objeto, a
propósito da relação
com o desejo, então, ap
esar dela, contra sua vo
ntade, a Sra. Aulagnier
se deixa escorregar, ao
reintroduzir no sujeito a
pessoa, com toda a
dignidade subseqüente
que vocês sabem que lh
e damos, em nossos
tempos esclarecidos: per
sonologia, personalismo,
personalidade e tudo
o que se segue, aspecto
que convém, pois cada u
m sabe que vivemos
em meio a isso. Nunca
se falou tanto da pesso
a. Mas, enfm, como
nosso trabalho nãoié um
trabalho que deva muito
se interessar pelo se
passa na praça pública, t
emos de nos interessar,
então, pelo sujeito.
Então, ali, a Sra. Aulagier
chamou em seu socorro
o termo "parâmetro
da angústia". Ora, ali, aind
a assim, a propósito de pe
ssoa e da personologa,
vocês vêem um trabalho
bastante considerável, q
ue me tomou alguns
meses, um trabalho de o
bservações sobre o disc
urso de nosso amigo
Daniel Lagache. Peço-
lhes que se reportem a el
e, para ver a importância
que teria tido na articula
ção que ela nos deu da
função da angústia e
dessa espécie de fôlego
cort ado que ela constitui
ria no nível da palavra,
a importãncia que devia
normalmente tomar em
sua palestra a função
i (a), dito de outro jeito, a
imagem especular que, c
ertamente, não está

-300 -
Lição de 2 de maio de 1962

totalmente ausente de sua palestra, p


orque, afinal, foi diante de seu
espelho que ela acabou arrastando s
eu psicótico, e por quê? Porque
ele veio sozinho, esse psicótico, até o
espelho, e foi ali então, portanto,
que ela lhe deu, com razão, uma ses
são. E, para pôr um pouco de
sorriso, inscreverei, à margem das obser
vações que fzeram sua admiração
naquilo que ela citou, esses quatro ver
sinhos inscritos no fundo de um
prato que tenho em minha casa:

À Mina seu espelho fi el


Mostra, ai, traços alongados
Ah céus! Oh Deus ! Exclama,
Como os espelhos mudaram!.

É efetivamente o que lhe diz o seu psicó


tico, mostrando a importância
aqui da função, não do ideal do eu, m
as do eu ideal, como lugar onde
vêm se formar as identificações propr
iamente egóicas, mas também
como lugar onde a angústia se produ
z, a angústia que qualifiquei de
sensação do desejo do Outro. Levar ess
a sensação do desejo do Outro à
dialética do desejo próprio do sujeito,
em face do desejo do Outro, eis
toda a dist:1ncia que há entre o que
eu tinha começado e o nível já
muito eficaz em que se sustentou todo o
desenvolvimento da Sra. Aulagier.
Mas, esse nível de alguma maneira c
onílitivo, como ela nos disse,
que é de refr ência de dois desejos já
no sujeito constituído, não é ali
que, de alguma maneira, pode-nos bastar
para situar a diferença, a distinção
que há nas relações do desejo, por exe
mplo, no nível das quatro espécies
ou gêneros que ela definiu para nós so
b os termos de normal, perverso,
neurótico, psicótico. Que a palavra, de f
ato, fça flta em algo a propósito
da angústia, é nisso que não podemos des
conhecer, como um dos parâmetros
absolutamente essenciais que ela não
pode designar quem fla, que ela
não pode referir o que, no próprio dis
(a),
se ponto i curso, se
designa como aquele que atualmente fl
a, e o associa àquela imagem de
domínio que se encontra vacilante, nes
se momento.
E isso pôde ser lembrado a ela, porque
anotei, no que ela quis tomar
como ponto de partida, a propósito do s
eminário de 4 de abril. Lembrem
se da imagem vacilante que tentei co
nstruir, diante de vocês, de meu
confronto obscuro com o louva-a-deus
e disso, que se primeiro falei da
imagem que se refetia em seu olho,
era para dizer que a angústia

-301 -
A Identifi cação

começa a partir desse


momento essencial em
que essa imagem está
ausente. Sem dúvida, o
pequeno a que sou para
o fntasma do outro é
essencial, mas onde fal
ta isso - a Sra. Aulagnie
r não o desconhece,
porque ela o restabeleceu
em outras passagens de s
eu discurso, a mediação
do imagnário, é isso que e
la quer dizer, mas ainda n
ão está sufcientemente
articulado. É o i(a) que
flta e que está ali em fu
nção.
Não vou levar isso mais
longe, porque vocês já p
erceberam que se
trata nada menos que da
retomada do discurso do
seminário, mas é af
que vocês devem sentir
a importância do que in
troduzimos. lrata-se
do que vai fzer a ligaçã
o, na economia signific
ante, da constituição
do sujeito no lugar do d
esejo. E vocês devem a
qui entrever, suportar,
resignar-se a isso, que e
xige de nós alguma coisa
que parece tão longe
de suas preocupações
triviais, enfim, de uma
coisa que podemos
decentemente pedir a h
onoráveis especialistas
como vocês, que não
vêm, afinal , aqui para e
studar geometria elemen
tar. Estejam seguros,
não se trata de geometri
a, já que não é de métric
a, é alguma coisa da
qual os geômetras não ti
veram até agora nenhum
a espécie de idéia: as
dimensões do espaço. C
hegarei mesmo a dizer q
ue o Sr. Descartes não
tinha nenhuma espécie d
e idéia das dimensões d
o espaço.
As dimensões do espaç
o é algo, por outro lado
, que foi decidido,
valorizado por um certo
número de brincadeiras
fitas em torno desse
termo como a quarta ou
quinta dimensão e outra
s coisas que têm um
sentido absolutamente pr
eciso em matemática, ma
s das quais é sempre
maçante ouvir flar pelos
incompetentes, de sorte
que, quando se fla

disso, tem-se sempre o

sentimento de que se e

stá a fazer o que se

só há um esboço, um pa

ra-além. No que diz resp

eito à experiência, em
todo caso para uma hipóte
se de pesquisa que pode
nos servir para alguma
coisa, se quiserem admit
ir que não há nada de be
m estabelecido além
- ejá é sufcientemente ri
co e complicado - da exp
eriência da superfcie.
Mas is;o não quer dizer
que não possamos enco
ntrar, na experiência
da superfcie sozinha, o te
stemunho de que ela, sup
erfcie, está mergulhada
num espaço que não é d
e forma alguma esse que
vocês imaginam, com
sua experiência visual d
a imagem especular.

-3
Lição de 2 de maio de 1962

E, para resumir, esse pequeno obj


eto, que mais não é senão o nó
mais elementar, não esse que não
fiz por fa lta de ter podido trançar
um barbante que se fe charia sobre si
mesmo, [mas] simplesmente isso,
o nó mais elementar, aquele que se
traça assim, suficiente para levar
em si um certo número de questões
que introduzo, dizendo-lhes que a
terceira dimensão não basta, de for
ma nenhuma, para dar conta da
possibilidade disso. No entanto, um
nó é algo que está ao alcance de
todo mundo; não está ao alcance de
todo mundo saber o que ele fa zia,
ao fzer um nó, mas, enfim, isso tom
ou um valor metafórico : os nós do
casamento, os nós do amor, os nós
sagrados ou não, por que é que se
fla deles? São modos completament
e simples, elementares, de pôr ao
alcance de vocês o caráter usual, se q
uerem entrar nisso, que se tornou,
uma vez usual, suporte possível de
uma conversão que, se se realiza,
mostrará bem e logo em seguida q
ue talvez esses termos devam ter
algo a ver com essas referências de
estrutura de que precisamos para
distinguir o que se passa, por exemplo,
nessas escalas que a Sra. Aulagnicr
divisou, indo do normal ao psicótico.
Será que, nesse ponto de junção
onde, para o sujeito, se constitui a
imagem-nó, a imagem fundamental,
a imagem que permite a mediação
entre o sujeito e seu desejo, será que n
ão podemos introd uzir as distinções
bem simples e, vocês verão, realme
nte utilizáveis na prática, que nos
permitem representarmo-nos de um
a maneira mais simples e menos
fonte de antinomia, de aporia, de e
mbaraço, de labirinto fnalmente,
que os que tínhamos até aqui a noss
a disposição, a saber, essa noção
sumária, por exemplo, de um interi
or e de um exterior que, de fto,
tem o aspecto de ser evidente, a parti
r da imagem especular e que não
é absolutamente, frçosamente, a qu
e nos é dada pela experiência?

-303 -
LIÇAO XIX
9 de maio de 1962

Na última sessão, ouvimos a


Sr.ª Au lagnier falar-nos da a
ngústia.
Prestei toda a homenagem que
seu discurso merecia, fruto de u
m trabalho
e de uma reflexão absolutam
ente bem orientados. Ao mes
mo tempo,
fiz observar o quanto certo obst
áculo, que situei no nível da co
mu nicação,
é sempre o mesmo, aquele qu
e se levanta toda vez que tem
os de falar
da linguagem. Seguramente, os
pontos sensíveis, os pontos que
merecem,
dentro cio que ela nos disse,
ser retificados s.io aqueles pr
ecisamente
em que, pondo o acento no q
ue existe, o indizível, ela fz dis
so o índice
de uma hetero[eneidade daqu
ilo que justamente ela visa co
mo o "não
podendo ser dito", enquanto a
quilo de que se trata, no caso,
quando se
produz a angústia, é justament
e para se apreender na sua lig
ação com
o fato de que há o "dizer" e o
"não podendo ser dito". É ass
im que ela
não pode dar todo o seu pleno
valor à fórmula que o _desejo
do homem
é o desejo do Outro. Não é por r
eferência a um terceiro que seria
renascente,
o sujeito mais central, o sujeit
o idêntico a si mesmo, a cons
ciência de
si hegeliana, que deveria oper
ar a mediação entre dois desej
os que ela
teria, de alguma maneira, dian
te dr, si : o seu próprio, como
um objeto,
e o desejo do Outro. E mesmo
ao dar a esse desejo do Outro
a primazia,
ela teria de situar, de defnir seu
próprio desejo numa espécie de
referência,
de relação ou não de dependên
cia a esse desejo do Outro. Evd
entemente,
num certo nível em que pode
mos perman ecer sempre, há
algo dessa
ordem, mas esse algo é preci
samente aquilo graças a que
evitamos o
que está no coração de nossa
experiência e o que se trata de
apreender.
E é por isso que tento forjar p
ara vocês um modelo do que
se trata de

-305 -
A Identiicação

que nos int


apreender. O que
eressa
trata de apreender
que o sujeito

é o desejo. Obviamente, i
sso só faz sentido a parti
r do momento em que
começamos a articu lar,
a situar a que distância,
através de que truque,
que não é de tela interm
ediária, mas de constitui
ção, de determinação,
podemos situar o desejo.
Não é que a demanda n
os separe do desejo - se
bastasse afastar a
demanda, para encontrá
-lo! -sua articulação signi
fcante me determina,
me condiciona como de
sejo. Esse é o longo ca
minho que já fiz vocês
percorrerem. Se o tornei t
ão longo é porque era pr
eciso que fo sse assim
para que a dimensão qu
e isso supõe lhes faça fz
er, de alguma maneira,
a experiência mental de
apreendê-lo. Mas esse
desejo, assim levado,
retransportado numa dist
ância, articulado assim -
não além da linguagem,
por causa da impotência
dessa linguagem, mas es
truturado como desejo
por causa dessa mesma
potência - é ele agora qu
e se tem de reencontrar
para que eu consiga faze
r com que vocês conceba
m, apreendam, e há,
na apreensã
o, na Begrif
algumael, alguma coisa
a de sensív
de
uma estética transcenden
tal que não deve ser aque
la até aqui concebida,
já que é justamente naq
uela até aqui concebida
que o lugar do desejo,
até o presente, se tem e
squivado. Mas é o que
explica a vocês minha
tentativa, que espero te
nha êxito, de levá-los p
or caminhos que são
também os da estética,
na medida em que eles t
entam agarrar alguma
coisa que nunca foi vista
em todo seu relevo, em t
oda a sua fecundidade
no nível das intuições, n
ão tanto espaciais quant
o topológicas, pois é
preciso que nossa intuiç
ão do espaço não esgot
e tudo o que é de uma
certa ordem, posto que t
ambém aqueles mesmos
que se ocupam disso
com a maior qualifcação,
os matemáticos, tentam
de todas as maneiras,
e conseguem, extrapolar
a intuição.
Levo-os por esse camin
ho, afnal, para dizer as c
oisas com palavras
que sejam palavras de o
rdem; trata-se de escap
ar à preeminência da
intuição da esfera como a
quela que, de alguma ma
neir a, comanda muito
intimamente, mesmo qu
ando não pensamos nel
a, nossa lógica. Pois,
evidentemente, se há u
ma estética que se cha
ma de transcendental,
que nos interessa, é por
que é ela que domina a l
ógica. É por isso que
àqueles que me dizem: "
Será que você não poder
ia dizer-nos realmente
as coisas, fazer-nos com
preender o que se passa
com um neurótico e
com um perverso, e em q
ue é diferente, sem passa
r pelos seus pequenos
toros e outros desvios? ",
eu responderei que é, to
davia, indispensável,

-306 -
Lição de 9 de maio de 1962

absolutamente indispensável, e pela


mesma razão, porque é a mesma
coisa que fazer lógica, pois a lógica
em questão não é coisa vazia. Os
lógicos, assim como os gramáticos, d
isputam entre si, e essas disputas,
por mais que, evidentemente, só po
ssamos penetrar em seu campo ao
evocá-las com discrição, sob o risco
de nos perdermos ali, mas toda a
confança que vocês têm por mim re
pousa nisso: é que vocês me dão o
crédito por ter fe ito algum esforço p
ara não tomar o primeiro caminho
que apareceu e por ter eliminado u
m certo número de caminhos.
Mas, assim mesmo, para tranquili
z á-los, vem-me a idéia de fazê-los
observar que não é in diferen te pô
r em primeiro plano, na lógica, a
fu nção da hipótese, por exemplo, o
u a fu nção da asserção. No teatro,
naquilo que se chama de adaptaçã
o, faz-se com que Ivan Karamázov
diga : "Se Deus não existe, então t
udo é permitido". Reportem-se ao
texto. Vo cês lêem - e, aliás, se mi
nha memória não falha, é Aliocha
quem diz isso, quase que por acas
o: "Já que Deus não existe, então
tudo é permitido". Entre esses dois t
ermos existe a diferença do se e do
já que, isto é, de uma lógica hipoté
tica a uma lógica assertórica. E
vocês me dirão : "Distinção de lógic
os, em quê ela nos interessa?"
Ela nos interessa tanto que é para
apresentar as coisas do primeiro
modo que, no último termo, no term
o kan tiano, é mantida para nós a
existência de Deus. Já que, em sum
a, tudo está lá; como, é evidente,
tudo não é permitido, en tão, na fór
mula hipotética, impõe-se como
necessário que Deus exista. ecomo,
eis por que sua filha é muda
na articulação ensinante do livre pe
nsamento, mantém-se no cerne da
articulação de todo pensa mento vál
ido a existência de Deus como um
termo sem o qual não haveria sequer
meio de avançar alguma coisa na
qual se apreendesse a sombra de u
ma certeza. E vocês sabem - o que
acreditei dever lembrar-lhes um pouco
sobre esse assunto - que a trajetória
de Descartes não pode passar por o
utros caminhos . Acontece que não
é fo rçosamente, ao designá-lo com
o termo de ateísta, que se definirá
melhor nosso projeto, que é talvez t
entar fa zer passar por outra coisa
as conseqüências que esse fa to co
mporta, para nós, de experiência , o
fa to de que haja algo de permitido. "
Há permitido porque há interdito ",
me dirão vocês, bem contentes de e
ncontrar ali a oposição entre o A e
o não-A, entre o branco e o preto.
Sim, mas isso não basta, porque,
longe de esgotar o campo, o permiti
do e o proibido, o que se trata de
estruturar, de organizar, é como é verd
ade que um e outro se determi nem,

-307 -
A Identicação

e muito estreitamente,
deixando, ao mesmo t
empo, um campo abert
o
que, não somente não
é excluído por eles, ma
s os fz reunir-se e, ness
e
movimento de torção,
se se pode dizer, dá s
ua frma, propriamente

falando, àquilo que su


stenta o todo, ou seja,
a frma do desejo. Para
dizer a verdade: que o d
esejo se institui em trans
gressão, cada um sente,

cada um vê bem, cad


a um tem a experiênci
a disso, o que não qu
er
dizer, não pode seque
r querer dizer que se tr
ata, aí, apenas de um
a
questão de fronteira, de l
imite traçado. É para alé
m da fronteira ultrapassa
da
que começa o desejo.
Evidentemente, isso
parece freqüentemente
o caminho mais curto,
mas é um caminho de
sesperado. É por um
outro lugar que se faz
a
passagem. Ainda que a
fr onteira, a do proibido,
não signifque tampouco
fzê-lo baixar cio céu e
da existência do signif
cante. Quando falo a
vo cês da Lei, falo dela
como Fre ud, ou seja, q
ue, se um dia ela surgiu
,
sem dúvida foi necess
ário que o significante i
mediatamente pusess
e
ali sua ma rca, sua insí
gnia, sua fo rma , mas é
ainda assim de algo qu
e
é um desejo original
que o nó se pôde for
mar para que se fund
em
juntos a Lei, como limite
, e o desejo, em sua fo r
ma. É isso que tentamo
s
figurar para entrar até
no detalhe, percorrer n
ovamente esse caminh
o
que é sempre o mesm
o, mas que fechamos c
m torno de um nó cada

vez mais cent ra l, do q


ual não perco a espera
nça de mostrar a vocês
a
fi gura umbilical . Nós r
etomamos o mesmo ca
minho e não esqueçam
os
que o que está menos
situado, para nós, em te
rmos de referências, qu
e
seriam quer legalistas,
quer frmalistas, quer n
aturalistas, é a noção
do pequeno a enquant
o não é o outro imagin
ário que ele designa. P
or
mais que nos identifiqu
emos com ele no desc
onhecimento egóico, é

i(a) . E ali também enc


ontramos esse mesmo
nó interno, que faz co
m
que o que tem o aspect
o de ser tão simples: qu
e o Outro nos é dado so
b
uma forma imaginária ,
não o é, porque esse O
utro, é justamente dele
que se trata, quando fa
lamos do objeto. Desse
objeto, não se trata de
dizer absolutamente que
é simplesmente o objeto
real, que é precisamente
o objeto do desejo enqua
nto tal, sem dúvida origin
al, mas que só podemos
considerar como tal a
partir do momento em
que tivermos captado,
compreendido, aprendi
do o que quer dizer qu
e o sujeito, enquanto s
e
constit ui como depend
ência do signif'icantc, c
omo além da demanda
,
é o desejo.

-308 -
Lição de 9 de maio de 1962

Ora , é esse ponto do laço que ainda


não está assegurado e é ar que
avançamos e 'é por isso que nos lemb
ramos do uso que temos fe ito até
acui cio pequeno 11 . Onde fi que o vi
mos? Onde é que vamos designá
lo primeiro? No fantasma, onde, be
m evidentemente, há uma função
que tem alguma relação com o imag
inário. Va mos chamá-la de valor
imaginári o no fa ntasma
. Ela não é .
apenas simplesmente S(Á) .

etável de uma
maneira intuitiva na
ão de engodo
tal como nos é dada
experiência
1
biológica, por exemplo.
É outra coisa
e é o que faz lembra
r a vocês a
frmalização do fantasma
·----- ...
como sendo
constituído em sua relação
pelo conjunto
,
$ desejo de a /$ <
a situação
dessa fórmula no
que mostra
homologicamcnte, por
a posição no
estágio superior que
az homóloga,
do i(a) do estágio
or, enquanto
ele é o suporte do
m minúsculo
aqui, assim como
sejo de a é o

suporte do desejo . O que isso qu


er dizer? É que o fntasma está ali
onde o sujeito se apreen de, naquilo q
ue lhes apontei por estar em questão
no segundo estágio do grafo, sob a f
orma retomada no nível do Outro,
no campo do Outro, nesse ponto aq
ui do graf, da questão: "O que isso
quer?", que é igualmente aquela qu
e tomará a frma: "Que quer ele?"
se alguém soube tomar o lugar, proj
etado pela estrutura, do lugar do
Outro, a saber, esse lugar de quem
é o mestre e o garante. Isto quer
dizer que, no campo e no percurso d
essa questão, o fantasma tem uma
função homóloga àquela de i(a), do e
u ideal, eu imaginário sobre o qual
repouso; que essa fu nção tem uma di
mensão, sem dúvida algumas vezes
apontada e mesmo ma is de uma vez,
da qual é preciso aqui que eu lhes
lembre que ele antecipa a função do
eu ideal, como isso se representa
no grafo para vocês, que é por uma
espécie de retorno que permite,
assim mesmo, um curto-circuito em r
elação à condução intencional do
discurso co11sidcrado como constituin
te do suje ito, neste primeiro andar,
que aqui, antes que significado e sign
ificante, se cruzando novamente,
ele tenha constituído sua fase, o sujeit
o imaginariamente antecipa aquele

-309 -
A Identicação

que nos int


apreender. O que
eressa
trata de apreender
que o sujeito

é o desejo. Obviamente, i
sso só faz sentido a parti
r do momento em que
começamos a articular, a
situar a que distância, at
ravés de que truque,
que não é de tela interm
ediária, mas de constitui
ção, de determinação,
podemos situar o desejo.
Não é que a demanda n
os separe do desejo - se
bastasse afastar a
demanda, para encontrá
-lo! - sua articulação sign
ifcante me determina,
me condiciona como de
sejo. Esse é o longo ca
minho que já fz vocês
percorrerem. Se o tornei t
ão longo é porque era pr
eciso que fosse assim
para que a dimensão que
isso supõe lhes faça faze
r, de alguma maneira,
a experiência mental de
apreendê-lo. Mas esse d
esejo, assim levado,
ret ransportado numa dist
ância, articulado assim - n
ão além da linguagem,
por causa da impotência
dessa linguagem, mas es
truturado como desejo
por causa dessa mesma
potência - é ele agora qu
e se tem de reencontrar
para que eu consiga faze
r com que vocês conceba
m, apreendam, e há,
na apreens
ão, na Begrif
alguma el, alguma coisa
a de sensív
de
uma estética transcenden
tal que não deve ser aque
la até aqui concebida,
já que é ju stamente naq
uela até aqui concebida
que o lugar do desejo,
até o presente, se tem e
squivado. Mas é o que
explica a vocês minha
tentativa, que espero te
nha êxito, de levá-los p
or caminhos que são
também os da estética,
na medida em que eles t
entam agarrar alguma
coisa que nunca foi vista
em todo seu relevo, em t
oda a sua fecundidade
no nível das intuições, n
ão tanto espaciais quant
o topológicas, pois é
preciso que nossa intuiç
ão do espaço não esgot
e tudo o que é de uma
certa ordem, posto que t
ambém aq ueles mesmo
s que se ocupam disso
com a maior qualifcação,
os matemáticos, tentam
de todas as maneiras,
e conseguem, extrapolar
a intuição.
Levo-os por esse camin
ho, afinal, para dizer as
coisas com palavras
que sejam palavras de o
rdem; trata-se de escap
ar à preeminência da
intuição da esfera como a
quela que, de alguma ma
neira, comanda muito
intimamente, mesmo qu
ando não pensamos nel
a, nossa lógica. Pois,
evidentemente, se há u
ma estética que se cha
ma de transcendental,
que nos interessa, é por
que é ela que domina a l
ógica. É por isso que
àqueles que me dizem: "
Será que você não poder
ia dizer-nos realmente
as coisas, fazer-nos com
preender o que se passa
com um neurótico e
com um perverso, e em q
ue é di ferente, sem pass
ar pelos seus pequenos
toros e outros desvios? ",
eu responderei que é, to
davia, indispensável,

-306 -
Lição de 9 de maio de 1962

absolutamente indispensável, e pela m


esma razão, porque é a mesma
coisa que fzer lógica, pois a lógica em
questão não é coisa vazia. Os
lógicos, assim como os gramáticos, dis
putam entre si, e essas disputas,
por mais que, evidentemente, só possa
mos penetrar em seu campo ao
evocá-las com discrição, sob o risco d
e nos perdermos ali, mas toda a
confiança que vocês têm por mim repo
usa nisso: é que vocês me dão o
crédito por ter feito algum esforço par
a não tomar o primeiro caminho
que apareceu e por ter eliminado um
certo número de caminhos.
Mas, assim mesmo, para tranquilizá-
los, vem-me a idéia de fazê-los
observar que não é indiferente pôr
em primeiro plano, na lógica, a
fu nção da hipótese, por exemplo, ou a
função da asserção. No teatro,
naquilo que se chama <le adaptação,
faz-se com que Ivan Karamázov
diga: "Se Deus não existe, então tud
o é permitido". Reportem-se ao
texto. Vocês lêem - e, aliás, se minh
a memória não flha, é Aliocha
quem diz isso, quase que por acaso:
"Já que Deus não existe, então
tudo é permitido". Entre esses dois term
os existe a di ferenç a <lo se e do
já que,
isto é, de uma lógica hipotéti ca
a uma lógica assertórica. E
vocês me dirão : "Distinção de lógicos
, em quê ela nos interessa?"
Ela nos interessa tanto que é para apr
esentar as coisas do primeiro
modo que, no último termo, no termo
kantiano, é mantida para nós a
existência de Deus. Já que, em suma,
tudo está lá; como, é evidente,
tudo não é permitido, então, na fórm
ula hipotética, impõe-se como
necessário que Deus exista e como,
is por que sua filha é muda
na articulação ensinante do livre pens
amento, mantém-se no cerne da
articulação de todo pensamento válid
o a existência de Deus como um
termo sem o qual não haveria sequer
meio de avançar alguma coisa na
qual se apreendesse a sombra de uma
certeza. E vocês sabem - o que
acreditei dever lembrar-lhes um pouco so
bre esse assunto - que a trajetória
de Descartes não pode passar por outr
os caminhos. Acontece que não
é forçosamente, ao designá-lo com o t
ermo de ateísta, que se definirá
melhor nosso projeto, que é talvez te
ntar fzer passar por outra coisa
as conseqüências que esse fato comp
orta, para nós, de experiência, o
fto de que haja algo de permitido. "Há
permitido porque há interdito",
me dirão vocês, bem contentes de enc
ontrar ali a oposição entre o A e
o não-A, entre o branco e o preto. Si
m, mas isso não basta, porque,
longe de esgotar o campo, o permitid
o e o proibido, o que se trata de
estruturar, de organizar, é como é verda
de que um e outro se determinem,

-307 -
A Identificação

e muito estrei tamente,


deixando, ao mesmo te
mpo, um campo aberto

que, não somente não


é excluído por eles, mas
os faz reunir-se e, ness
e
movimento de torção,
se se pode dizer, dá s
ua frma, propriamente

fa lando, àquilo que su


stenta o todo, ou seja,
a forma do desejo. Par
a
dizer a verdade: que o
desejo se institui em tra
nsgressão, cada um sen
te,
cada um vê bem, cad
a um tem a experiênci
a disso, o que não qu
er
dizer, não pode seque
r querer dizer que se tr
ata, aí, apenas de um
a
questão de fronteira, de l
imite traçado. É para alé
m da fronteira ultrapassa
da
que começa o desejo.
Eviden temente, iss
o parece freqüentemen
te o caminho mais curt
o,
mas é um cami nho d
esesperado. É por um
outro lugar que se faz
a
passagem. Ainda que a
fronteira, a do proibido,
não signifique tampouco

fazê-lo baixar do céu


e da existência do sign
ifican te. Quan do falo
a
vocês da Lei, falo dela
como Freu d, ou seja, q
ue, se um dia ela surgiu
,
sem dúvida foi necess
ário que o signifcante i
media tamen te pusess
e
ali sua marca, sua insí
gnia, sua forma , mas é
ainda assim de algo qu
e
é um desejo original q
ue o nó se pôde fo rm
ar para que se funde
m
juntos a Lei, como limite
, e o desejo, cm sua for
ma. É isso que ten tamo
s
figurar para entrar até
no detalhe, percorrer n
ovamen te esse camin
ho
que é sempre o mesm
o, mas que fechamos c
m torno de um nó cada

vez mais central, do qu


al não perco a esperan
ça de mostrar a vocês
a
figura umbilical. Nós ret
omamos o mesmo cam
inho e não esqueçamo
s
que o que está me nos
si tuado, para nós, em te
rmos de referências , qu
e
seriam quer legalistas,
quer formalistas, quer
naturalistas , é a noçã
o
do pequeno a en quant
o não é o outro imaginá
rio que ele designa. Po
r
mais que nos iden tifiq
uemos com ele no des
conhecimen to egóico,
é
i(a) . E ali também enc
ontramos esse mesmo
nó interno, que faz co
m
que o que tem o aspect
o de ser tão simples : qu
e o Outro nos é dado so
b
uma forma imaginária,
não o é, porque esse
Outro, é justamente de
le
que se trata, quando fa
lamos do objeto. Desse
objeto, não se trata de
dizer absolu tamente que
é simplesmente o objeto
real, que é precisamen te
o objeto do desejo enqua
nto tal, sem dúvida origin
al, mas que só podemos
considerar como tal a
partir do momen to em
que tivermos captado,
compreendido, aprendi
do o que quer dizer qu
e o sujeito, enquanto s
e
constitui corno depend
ência cio signi l'icante,
como além da demand
a,
é o desejo.

-308 -
Lição de 9 de maio de 1962

Ora, é esse ponto do laço que ain


da não está assegurado e é af que
avançamos e ·é por isso que nos lem
bramos do uso que temos fito até
aqui do pequeno a. Onclc foi que o vi
mos? Onde é que vamos designá
lo primeiro? No fantasma, onde, be
m evidentemente, há uma função
que tem alguma relação com o imag
inário. Va mos chamá-la de valor
imaginário no fa ntasma
. Ela não é
apenas simplesmenteS(Á)/
----'
jetável de uma
maneira intuitiva na
ão de engodo
tal como nos é dada
1
a experiência
biológica, por exemplo.
É outra coisa
e é o que faz lembr
ar a vocês a
formalização do fantasm
a como sendo
constit uído em sua relaçã
o pelo conjunto
$ desejo de a /$ <
e a situação
dessa fórmu la no
o que mostra

homologicamc ntc, po
r sua posição no
estágio superior que
·---
a faz homóloga, ····· '
do i(a) do estágio in
ferior, enquanto
ele é o suporte do e
u, m minúsculo
aqui, assim como $
desejo de a é o
suporte do desejo. O que isso que
r dizer? É que o fantasma está ali
onde o sujeito se apreende, naquilo q
ue lhes apontei por estar em questão
no segundo estágio do grafo, sob a
forma retomada no nível do Outro,
no campo do Outro, nesse ponto aqu
i do grafo , da questão: "O que isso
quer?", que é igualmente aquela qu
e tomará a forma: "Que quer ele? "
se alguém soube tomar o lugar, pro
jetado pela estrutura, do lugar do
Outro, a saber, esse lugar de quem
é o mestre e o garante. Isto quer
dizer que, no campo e no percurso d
essa questão, o fantasma tem uma
função homóloga àquela de i(a) , do e
u ideal, eu imagi nário sobre o qual
repouso; que essa função tem uma di
mensão, sem dúvida algumas vezes
apontada e mesmo mais de uma vez
, da qual é preciso aqui que eu lhes
lembre que ele antecipa a função do
eu ideal, como isso se representa
no graf para vocês, que é por uma
espécie de retorno que permi te,
assim mesmo, um curto-circuito cm r
elação à condução intencional do
discurso considerado como con stit ui
nte do sujeito, neste primeiro andar,
que aqui, antes que significado e sig
nifcante, se cruzando novamente,
ele ten ha constituído sua frase, o sujei
to imaginariamente antecipa aquele

-309 -
A Identicação

que ele designa como e


u [moi]. É este mesmo s
em dúvida que o je do
discurso suporta em sua
função de shifter. O je lit
eral no discurso não é
nada mais que o próprio
sujeito que fla, mas aquel
e que o sujeito designa,
aqui, como seu suporte
ideal, está adiante, num
futuro anterior, aquele
que ele imagna que ter
á falado: "Ele terá falado
". No próprio fundo do
fantasma existe também
um "Ele o terá querido".
Não levarei isso mais
longe. Assim, essa abert
ura e essa observação
não se refrem, senão à
partida de nosso camin
ho no grafo, eu quis
implicar uma dimensão
de temporalidade. O graf
o é feito para mostrar
já esse tipo de nó que e
stamos, por enquanto,
buscando no nível da
identificação. As duas cu
rvas que se entrecruzam
em sentido contrário,
mostrando que sincroni
smo não é simultaneida
de, já estão indicando
na ordem temporal aquilo q
ue estamos tentando enlaç
ar no campo topológco.
Em suma, o movimento
de sucessão, a cinética
significante, eis o que
suporta o graf. Eu o le
mbro, aqui, para lhes m
ostrar o alcance, pelo
fto de eu não ter feito a
bsolutamente estado d
outrinal disso, dessa
dimensão temporal, da q
ual a fenomenologia cont
emporânea tira grandes
vantagens, porque, na ver
dade, creio que não há na
da de mais mistifcador
que falar do tempo a tor
to e a direito.
Mas é, mesmo assim
� aqui eu constato para
indicá-lo a vocês - aí
que teremos de retorna
r para constituir, não ma
is uma cinética, mas
uma dinâmica temporal,
o que só poderemos faz
er depois de termos
ultrapassado - o que s
e trata de fazer agora -
ou seja, a referência
topológica espacializant
e da função identifcatóri
a. Isso quer dizer que
vocês se enganariam s
e se detivessem em qu
alquer coisa que eu já
tenha formulado, que e
u tenha acreditado dev
er formular de maneira
igualmente antecipadora s
obre o assunto da angústi
a, com o complemento
que foi acrescentado pela
Sr.ª Aulagnier no outro dia,
tanto que efetivamente
não será restitu
ído, reportado, reconduz
ido no campo dessa fun
ção o
que já tenho indicado des
de sempre, posso dizer d
esde o artigo sobre o
estádio do espelho, que
distinguia a relação de a
ngústia da relação da
agressividade, a saber, a
tensão temporal.
Voltemos a nosso fant
asma e ao pequeno a, p
ara captar o que está
em questão nessa ima
ginificação própria a se
u lugar no fntasma. É
evidente que não o pode
mos isolar sem seu corre
lativo do $, porque a
emergência da função do
objeto do desejo como pe
queno a, no fantasma,
é correlativa dessa espéci
e de fading, de apagame
nto do simbólico que

-310-
Lição de 9 de maio de 1962

é aquilo mesmo que articulei na últim


a sessão - acho que ao responder
à Sr.ª Aulagnier, se minha memória é
boa - como a exclusão determinada
pela própria dependência do sujeito
do uso do significante. É porque é
enquanto o signifcante tem de redobra
r seu efeito, ao querer se designar
a si mesmo, que o sujeito surge co
mo exclusão do próprio campo que
ele determina, não sendo então nem a
quele que é designado, nem aquele
que designa, não obstante, o ponto e
ssencial, que isso só se produz em
relação com o jogo de um objeto, p
rimeiro como alternância de uma
presença e de uma ausência. O que
quer dizer, primeiro formalmente,
a conjunção$ e pequeno a, é que no fan
tasma, sob seu aspecto puramente
formal e radicalmente, o sujeito se
faz -a, ausência de a, e somente
isso, diante do pequeno a, no nível da
quilo que chamei de identificação
com o traço unário.A identifcação s
ó é introduzida, só se opera pura

-a

e simplesmente nesse produto do -a


pelo a, e que não é difícil ver em
que - não simplesmente como por u
m jogo mental, mas porque somos
aí levados por alguma coisa que é, p
ara nós, nosso modo de alguma
coisa que recebe ali legitimamente s
ua fórmula - o -a = 1 que daí resulta
o que nos introduz ao que há de car
nal, de implicado neste símbolo
matemático de I Evidentemente, não
nos deteríamos num jogo assim,
se não tivéssemos sido trazidos a
ele por mais de uma via, de uma
maneira convergente.
Retomemos, por enquanto, nossa ma
rcha, para tentar designar o que
comanda para nós, no desenho da est
rutura, a necessidade de dar conta
da forma à qual o desejo nos cond
uz. Não o esqueçamos, o desejo
inconsciente, tal como temos de da
r conta, acha-se na repetição da
demanda e, afinal, desde a origem d
aquilo que Freud modula para nós,
é ele que a motiva. Vejo alguém que
me diz: "Ora, sim, é óbvio, nfto se
fala nunca disso", com exceção de que
, para nós, o desejo não se justifca
somente por ser tendência, ele é out
ra coisa. Se vocês entendem , se
vocês acompanham o que entendo si
gnificar por desejo, é que nós não

-311-
A Identificação

nos contentamos com a


referência opaca a um a
utomatismo de repetição
,
por mais que e
sse automatismo de rep
etição tenha sido identifi
cado por
nós. Trata-se da busca
, ao mesmo tempo nec
essária e condenada, d
e
uma vez única qualifi
cada, rotulada como t
al por esse traço unári
o,
aquele mesmo que não
pode se repetir senão se
mpre para ser um outro.
E, desde então, nesse
movimento, nessa dim
ensão nos aparece por
que o desejo é o que
suporta o movimento,
certamente circular, d
a
demanda sempre repet
ida, mas da qual um cer
to número de repetições
podem ser concebida
s - aí está o uso da to
pologia do toro - com
o
completando alguma
coisa. O movimento de
bobina da repetição da
demanda se fecha em
algum lugar, mesmo virl
ualmente, definindo um

outro círculo que se al


cança nessa mesma re
petição e que desenha
o
quê? O objeto do desej
o; isso que, para nós, é
necessário formular assi
m,
porque igualmente na
partida o que nós institu
ímos como base mesm
a
de toda nossa apreens
ão da significação anal
ítica, é essencialmente

isso, que sem dúvida f


alamos de um objeto o
ral, anal, etc., mas que
esse objeto nos importa,
esse objeto estrutura o qu
e, para nós, é fndamental

da relação do sujeito c
om o mundo nisso, que
esquecemos sempre, é
que esse objeto não p
ermanece como objeto
da necessidade. É pel
o
fato de ter sido toma
do no movimento rep
etitivo da demanda, n
o
automatismo de repeti
ção, que ele se torna o
bjeto do desejo.
É o que quis lhes m
ostrar no dia em que,
por exemplo, tomando
o
seio como signilkante da
demanda oral, eu mostra
va-lhes que é justamente
por causa disso que, ev
entualmente - era o que
eu tinha de mais simples

para f'azer com que voc


ês o alcançassem-, é jus
tamente nesse momento
que o seio real se torna
, não oqjeto de alimenta
ção, mas objeto erótico,

mostrando-nos uma ve
z mais que a função do
significante exclui que o
si1rillcante possa se sig
nificar a si mesmo. É jus
tamente porque o objeto

se toma reconhecível
como si!nil'icante de u
ma demanda latente q
ue
ele toma valor de um d
esejo que é de um outr
o registro. A dimensão
libidinal, pela qual se
começou a entrar na a
nálise como marcando
todo desejo humano, n
ão quer dizer, não pode
querer dizer outra coisa

senão isso. O que não


quer dizer que não seja
necessário relembrá-la.
É o fato dessa transm
utação que se trata de
apreender, o fato dess
a
transmutação é a funç
ão do falo, e não há m
eio de defini-la de outr
a
maneira. A função do f
alo, c, é isso a que tent
aremos dar seu suport
e
topológico. O falo, sua v
erdadeira forma, que nã
o é forçosamente aquel
a

-312-
Lição de 9 de maio de 1962

de um pinto, embora pareça muito, é


isso que não perco a esperança
de desenhar aqui no quadro-negro Se -.,o
ct�s fossem capazes, sem sucumbir
à vertigem, de contemplar o dito pinto d
e que eu falava, vocês poderiam
ver que, com o seu prepúcio, é de fato
algo muito engraçado. Isso talvez
ajude vocês a perceberem que a topolog
ia não é essa coisa sem nenhuma
importância como vocês devem imagi
nar, e certamente vocês terão a
oportunidade de se darem conta disso.
Dito isso, não é à-toa que através
de séculos de história da arte só haja r
epresentações verdadeiramente
tão lamentavelmente grosseiras daq
uilo que chamo de pinto. Enfm,
comecemos por relembrar isso, de tod
a maneira porque não se deve ir
r.pido demais: esse falo nunca está ta
nto ali - é dali que se deve partir
- quanto quando está ausente. O que
já é um bom sinal para presumir
que é ele que é o pivõ, o ponto giratóri
o da constituição de todo objeto
como objeto do desejo. Que ele não es
teja tanto ali quanto quando está
ausente, seria ridículo que eu precisas
se mostrar a vocês mais de uma
indicação disso, se não me bastasse ev
ocar a equivalência girl-phallus,
para dizer tudo, que a silhueta omnipre
sente de Lolita pode fazer sentir.
Não preciso tanto de Lolita; há pessoa
s que sabem muito bem discernir
o que é simplesmente o apareciment
o de um broto num galhinho de
árvore. Não é evidentemente o falo -
pois, seja como for, o flo é o flo
- é, de todo jeito, sua presença justam
ente ali onde não está. Isso vai
mesmo muito longe. A Sra. Simone de
Beauvoir fez todo um livro para
reconhecer Lolita em Brigitte Bardot.
A distância que existe entre o
desabrochar completo do charme fem
inino e o que é propriamente o
mecanismo, a atividade erótica de L
olita, parece-me constituir uma
total, a coisa mais fácil de se disting
uir no mundo. O falo,
quando fi que começamos aqui a no
s ocupar dele de um modo que
seja um pouco estruturante e fcundo
? Fi evidentemente a propósito
dos problemas da sexualidade femin
ina. E a primeira introdução da
diferença de estrutura entre demanda
e desejo, não nos esqueçamos,
foi a propósito dos ftos descobertos
em todo seu relevo original por
Freud quando abordou esse assunto, ist
o é, que ele se articula da maneira
mais limitada a essa fórmula, que é po
rque ele tem de ser demandado
no lugar onde não está, o falo, a saber
, na mãe, à mãe, pela mãe, para
mãe, que por ali passa o caminho nor
mal por onde ele pode vir a ser
desejado pela mulher. Se, de fto, isso aco
ntece, que ele possa ser consttuído
como objeto de desejo, a experiência
analítica põe o acento sobre o

-313-
A Identiicação

fto de que é preciso qu


e o processo passe por
uma primitiva demanda
,
com tudo o que ela com
porta, na ocasião, de abs
olutamente fantasmático,
irreal, contrária à natur
eza, uma demanda estr
uturada como tal, e um
a
demanda que continue
a veicular suas marcas
a ponto de ela parecer
inesgotável e que tod
o o acento do que lhe
diz Freud não quer diz
er
que isso baste para que
o Sr. Jones o compreen
da ele próprio. Isso quer
dizer que é na medid
a em que o flo pode c
ontinuar a permanece
r
indefinidamente objeto
de demanda àquele qu
e não pode dá-lo ness
e
plano que, justamente,
se eleva toda a difculd
ade de ele atingir o qu
e
pareceria mesmo - se
de fto Deus os tivesse
fito homem e mulher,
como diz o ateu Jones,
para que eles sejam um
para o outro, como o fo
é para a agulha - o q
ue pareceria, porém,
natural, que o flo fsse
primeiramente objeto d
o desejo. É pela porta
de entrada, e a porta d
e
entrada difcil, a porta d
e entrada que torce tod
a a relação com ele, qu
e
esse falo entra, mesm
o ali onde parece ser o
objeto mais natural, na

função do objeto.
O esquema topológic
o que vou formar para v
ocês e que consiste, e
m
rel ação ao que primeir
amente se apresentou
para vocês sob essa fr
ma
do oito invertido, está
destinado a advertir vo
cês da problemática d
e
todo uso limitativo do s
ignificante, já que, por
ele, um campo limitado
não pode ser identifica
do àquele puro e simpl
es de um círculo.

O campo marcado no in
terior não é tão simples
quanto isso aqui, quant
o
o que marcava um ce
rto significante de fora
. Há, em algum lugar,
necessariamente, pelo
fato do signifcante se r
edobrar, ser chamado
à
função de se signifcar
a si mesmo, um camp
o produzido que é de
exclusão e pelo qual o
sujeito é rejeitado no ca
mpo exterior. An tecipo
e
profiro que o ralo, cm s
ua runç:1o radical, é ap
enas sig11if'ica11lc, ma
s,
embora ele possa se sig
nificar a si mesmo, ele é
inominável como tal. Se
ele está na ordem do si
gnifcante - pois é um si
gnificante e nada mais
-
ele pode ser colocado sem
difrir de si mesmo. Como c
oncebê-lo intuitivamente?

-314-
Lição de 9 de maio de 1962

Digamos que ele é o único nome que


abole todas as outras denominações
e que é por isso que ele é indizível. El
e não é indizível, já que o podemos
chamar de falo, ias não se pode ao
mesmo tempo dizer falo e continuar
a nomear outras coisas.
Última referência: em nossos apo
ntamentos, no começo de uma de
nossas jornadas científcas, alguém t
entou articular, de um certo modo,
a função transferencial mais radica
l ocupada pelo analista enquanto
tal. É certamente uma abordagem q
ue não se deve negligenciar, o fato
de que tenha conseguido articular
cruamente - e minha fé é que se
possa ter o sentimento de que é al
go de ousado - que o analista, em
sua função, tenha o lugar do flo, o
que isso pode querer dizer? É que
o flo, para o Outro, é precisamente
o que encarna, não o desejável, o
EpcµEvov, embora sua função seja a
do fator pelo qual, qualquer objeto
que seja, seja introduzido na fnção de o
bjeto do desejo, mas a do desejante,
do Epcov. É enquanto o analista é a prese
nça suporte de um desejo inteiramente
velado que ele é esse Che vuoi? enca
rnado.
Eu lembrava, há pouco, que se pod
e dizer que o fator < tem valor
fálico constitutivo do próprio objeto do
desejo; ele o suporta e o encarna,
mas é uma função de subjetividade t
ão temível, problemática, projetada
numa alteridade tão radical, e é be
m por isso que eu os trouxe e os
conduzi a essa encruzilhada, no ano p
assado, como sendo o mecanismo
essencial de toda a questão da trans
ferência: o que deve ser ele, esse
desejo do analista?
Por enquanto, o que se propõe a nós é
encontrar um modelo topológico,
um modelo de estética transcenden
tal que nos permita dar conta ao
mesmo tempo de todas as funções do f
alo. Scd que há algo que se parl'ça
com isso? Algo que, como isso, seja
o que se chama, em topologia, de
supcrfklc f'cchacla, noçüo que 10111a su
a f'unç,111, ,) qual 11•11111s o dirl'ilo
de dar um valor homólogo, um valor eq
uivalente da li.1111,w de signilkflllcia,
porque nós podemos defni-la pela f
unção do corte. Já fz referência a
isso mais de uma vez. Entendam o c
orte feito com um par de tesouras

-315-
A Identificação

num balão de borracha,


de maneira a inibir, por h
ábitos
que se podem bem qualif
car de seculares, que em
muitos
casos uma multidão de
problemas que se coloca
m não
saltam aos olhos. Quan
do acreditei dizer a você
s coisas
muito simples a propósito
do oito interior sobre a su
perfície
do toro, e quando, em se
guida, desenrolei meu tor
o crendo
que as coisas iam por si
sós, que havia longo tem
po que
cu lhes tinha explicado
que havia uma maneira
de abrir
o toro com um corte de t
esoura e, quando vocês
abrem o
toro através, vocês têm u
ma cinta aberta, o toro é r
eduzido
a isso; e basta, nesse m
omento, tentar projetar s
obre essa superfície o
retângulo, que seri a mel
hor chamar de quadriláte
ro, aplicar ali em cima
o que havíamos designad
o anteriormente sob essa
forma do oito invertido,
para ver o que se passa
e em que algo está eftiv
amente limitado, algo
que pode ser escolhido,
distinguido entre um ca
mpo limitado por esse
corte e, se vocês quisere
m, o que está do lado de
fo ra. O que não é tão
evidente, não salta aos o
lhos. To davia, essa pequ
ena imagem que lhes
representei parece ter, p
ara alguns, ao primeiro c
hoque, trazido algum
problema. É porque isso
não é assim tão fá cil.
Na próxima sessão, te
rei não apenas de voltar
a isso, mas de mostrar
lhes algo ele que não ten
ho lugar para fazer misté
rio antes, pois, afinal,
se alguns querem prepar
ar-se para isso, indico-
lhes que fa larei de um
outro modo de su perfí
cie, definida como tal e
puramente em termos
de super fície, cujo nome
já pronunciei e que nos s
erá muito útil. Chama
sc, en1 i11plês, línp11a e
m que as obras são mais
numerosas, um cross
cap, o que quer dizer alpo
como hmu: cruzado. Trad
uziu -se, cm fr ancês,
cr alpuras ocasiücs pel
o termo mitra, cor o qu
e cf'ctivamcntc isso
pode ter uma semelha
nça grosseira. Essa f
orma de superfície
topologcamente definida c
omporta em si certamente
um atrativo puramente
especulativo e mental qu
e, espero, não deixará d
e interessar a vocês.
To marei cuidado em dar-
lhes representações figur
adas que tenho feitas,
numerosas , e, sobretudo,
sob os ângulos que não sã
o aqueles, obviamente,
sob os quais eles implic
am os matemáticos ou
sob os quais vocês os
encontrarão representad
os nas obras que dizem
respe ito à topologia.
Minhas figuras conserv
arão toda sua função or
iginal, dado que não
lhes dou o mesmo uso e que
não são as mesmas coisas q
ue ten ho pesq uisado.
Lição de 9 de maio de 1962

Saibam, contudo, que o que se trata d


e frmar de uma maneira sensata,
de uma maneira sensível, está destinad
o a comportar como suporte um
certo número de reflexões e outras que
são esperadas na seqüência, a
saber, a de vocês, no caso; comportando
um valor, se posso dizer, mutativo,
que lhes permita pensar as coisas da l
ógica, pelas quais comecei, de
não as que os fmosos círculos de Euler
mantêm
para vocês amarradas.

<

�' ..

Longe que esse campo interior [x]


do oito seja obrigatoriamente e
para tudo um campo excl uído, ao me
nos numa frma topológica, fa to
mais sensível e dos mais representávei
s e dos mais divertidos dos cross
caps em questão, por mais longe que
esse campo seja um campo a
excluir, ele deve, ao contrário, ser manti
do. Evidentemente, vamos abaixar
a bola. Haveria uma maneira que seria a
bsolutamente simples de imaginá
lo de um modo a ser mantido. Basta q
ue vocês tomem algo que tenha
uma forma um pouquinho apropriada
, um círculo mole e, torcendo-o
de um certo modo e dobrando-o, ter
uma lingüeta cuja parte baixa
estaria em continuidade com o resto d
as bordas. Não obstante, assim
mesmo Ji;í o seguin te: isso n,io passa
de um artifício, a saber, que esta
borda é el"e tiva111e11Le sempre a mes
ma borda. É disso mesmo que se
trata: trata-se ele saber, muito diferent
emente, se essa superfície, que
faz litígio para nós, que chega a simboli
zar esteticamente, intuitivamente,
uma outra dimensão possível do limite
signifcante do campo marcado,
é realizável de uma maneira diferente
e de alguma forma imediata a
obter, por simples aplicação das proprie
dades de uma superfície com a
qual vocês ainda não estão habituados.
É o que veremos na próxima vez.

-317-
LIÇAO X
de maio 1962

Essa elucubração da su
perfcie, justifico sua neces
sidade, é evidente
que o que lhes dou é o resul
tado de uma reflexão . Você
s não esqueceram
que a noção de superfcie,
em topologia, não é evide
nte e não é dada
como uma intuição. A super
ficie é algo que não é evide
nte. Como abordá
la' A partir daquilo que n
o real a introduz, ou seja
, o que mostraria
que o espaço não é essa e
xtensão aberta e desprezív
el, como pensava
Bergson. O espaço não é
tão vazio quanto ele o cria
, o espaço guarda
muitos mistérios.
Coloquemos, de saída, a
lguns termos. É certo qu
e uma primeira
coisa essencial na noção
de superfcie [surface] é a
de face: haveria 2
fces ou 2 lados. Isso é evi
dente, se nós mergulharm
os essa superfície
no espaço. Mas, para traz
er até nós aquilo que, para
nós, pode tomar a
noção de superfcie, é prec
iso que saibamos o que el
a nos oferece das
suas próprias dimensões.
Ver o que ela pode nos of
erecer, enquanto
superfície que divide o es
paço com suas próprias di
mensões, sugere
nos o ponto de partida q
ue vai nos permitir recon
struir o espaço de
outra maneira diferente da
quela cuja intuição acredita
mos ter. Em outros
termos, proponho a você
s considerar como mais e
vidente [devido à
captura imaginária], mais
simples, mais certo [porqu
e ligado à ação],
mais estrutural partir da
superfície para definir o
espaço - do qual
tenho certeza de que esta
mos pouco seguros - diga
mos, defnir o lugar
antes que partir do lugar
para defnir a superfície.
[Vocês podem se
reportar, aliás, ao que a fl
osofa pode dizer do lugar]
. O lugar do Outro
já tem seu lugar em nosso
seminário.

-31 9 -
A Identicação

Para definir a fce de


uma superfície, não ba
sta dizer que é de um
lado e de outro, tanto m
ais porque isso nada te
m de satisftório, e, se
algo nos dá a vertigem p
ascaliana são exatament
e estas duas regiões
cujo plano infnito dividiri
a todo o espaço. Como
defnir essa noção de
face? É o campo onde
pode estender-se uma li
nha, um caminho sem
ter de encontrar uma bor
da. Mas há superfícies s
em borda: o plano ao
infinito, a esfera, o toro
e várias outras que, co
mo superfícies sem
borda, se reduzem prati
camente a uma só : o cr
oss-cap ou mitra ou
boné cruzado, represent
ado aqui embaixo.

-- --
-- --
--- --
-.
Fi g
.1
Fig .2

O cross-cap, nos livros


eruditos, é isso [fig. 21, cor
tado para poder inserir
se sobre uma outra sup
erfcie. Essas três superf
cies, esfra, toro, cross
cap, são superfícies fcha
das elementares, na com
posição das quais todas
as outras superl'cies fec
hadas podem se reduzir.
Chamarei, todavia, de
cross-cap a figura 1. Seu
verdadeiro nome é o plan
o projetivo da teoria das
superlcies de Riemann, c
uj a plano é a base. Ele fa
z intervir pelo menos a
quarta dimensão. Jí a tercei
ra dimensão, para nós, psic
ólogos das profndezas,
causa bastante problema
para que a consideremos
como pouco garantida.
To davia, nessa simples fig
ura, no cross-cap, a quarta
já está necessariamente
implicada. O nó elementa
r, fito no outro dia com um
barbante, presentifca
já a quarta dimensão. N
ão há teoria topológca v
álida sem que fçamos
intervir algo que nos leve
à quarta dimensão.

20 -
de maio de 1962

Se vocês querem tent


ar reproduzir esse nó us
ando o toro, seguindo
as voltas e os desvios qu
e vocês podem fzer na s
uperfcie de um toro,
vocês poderiam, após v
árias voltas, retornar a u
ma linha que se fcha
como o nó abaixo. Vo cê
s não o podem fzer sem
que a linha corte a si
mesma. Como, sobre a
superfcie do toro, vocês
não poderão marcar
que a linha passa acima
ou abaixo, não há meio
de fzer esse nó sobre
o toro. Em compensaç
ão, ele é perfeitamente
fctível sobre o cross
cap . Se essa superfcie i
mplica a presença da qu
arta dimensão, é um
começo de prova de que
o mais simples nó implic
a a quarta dimensão.
Essa superficie, o cross-
cap, vou
dizer como vocês a
podem
imaginar. Isso não imp
orá sua
necessidade, por isso
mesmo,
trazida para nós. Ela nã
o deixa
de ter relação com o toro,
ela tem
mesmo, com o toro , a relaç
ão mais
profnda. A maneira mais
simples
de fornecer essa relação
a vocês
él
em
F
bra
nd
o-
lhe
sc
om
ou
mt
oro

éc
on
str
uíd
oq
ua
nd
oa
ge
nte
o
.3

forma
poliédrica, ou seja, reco
nduzindo-o a seu polígo
no fundamental. Aqui,
esse polígono fundament
al é um quadrilátero .
Se vocês dobrarem es
se quadrilátero sobre si
mesmo, terão um tubo
cujas bordas se encontra
m. Ve torizam-se essas bo
rdas, convencionando
se que só podem ser col
ados um a outro os vetor
es que vão na mesma
direção, o início de um v
etor aplicando-se ao pon
to em que termina o
outro vetor. Desde então
, teremos todas as coord
enadas para defnir a

defnido [fg.
Fig.
sso daria duas Fig 4
ordas 4-1 -2
ou mesmo uma
ó; vocês obteriam
o que

-321 -
A Identicação

vou materializar como a


mitra [fg. 4-2]. Retornar
ei sobre a sua função d
e
sibolização de alguma
coisa e isso será mais
claro, quando esse no
me
servr de suporte.

. . --- ---
Fig. 5
Em corte com sua go
ela de maxilar, não é o q
ue vocês estão pensand
o.
Isso [fig. 5] é uma linha
de penetração graças
à qual o que está antes
,
abaixo é uma semi-
esfera ; acima, a pare
de passa por penetraç
ão na
parede oposta e retorn
a adiante. Por que ess
a forma aí e não outra
?
Seu polígono fun damen
tal é distinto daquele do
toro [fg. 6]. Um polígono
cujas bordas são marc
adas por vetores de m
esma direção, e distint
o
daquele do toro, que p
arte de um ponto para i
r ao ponto oposto, o qu
e
isso dá como superfcie
?
A partir de agora, sobre
ssaem
pontos problemáticos
dessas
superfícies. Eu introd
uzi para
vocês as superfcies se
m borda,
a propósito da fce. Se
não há
borda, como defnir a f
ace? E,
se nós nos interditarm
os, tanto
quanto possível, de m
ergulhar
demasiadame
cross ca
nte depressa
o nosso
p
modelo na
erceira dime
nsão, ali
onde não
bordas, esta
remos
certos de que há um ext
erior e um interior. É o q
ue sugere essa superfci
e
sem borda, por excelê
ncia, que é a esfra. Vo
u livrá-los dessa intuiç
ão
indecisa: existe o que e
stá dentro e existe u qu
e está fo ra. No entanto
,
para as outras superfíci
es, essa noção de exter
ior e interior desaparece
.
Para o plano infinito,
ela não bastaria. Para
o toro, a intuição serv
e
aparentemente bem,
porque há o interior d
e uma câmara de ar e
o

-322 -
Lição de 16 de maio de 1962

exterior. To davia, o que se passa no ca


mpo por onde esse espaço externo
atravessa o toro, isto é, o buraco ce
ntral, ali está o nervo topológico
daquilo que criou o interesse do toro
e onde a relação do interior e do
exterior se ilustra como algo que pode to
car-nos. Observem que, até Freud,
a anatomia tradicional, mesmo que pouc
o Na tunissenschaf, com Paracelso
e Aristóteles, sempre considerou, entre
os orifcios do corpo, os órgãos dos
sentidos como autêntcos orifcios. A teori
a psicanalítca, enquanto estruturada
pela função da libido, tem fito uma esc
olha muito estreita entre os oricios
e não nos fla dos orfcios sensoriais co
mo orifcios, senão para reconduzi
los ao signifcante dos orifcios primeir
amente escolhidos. Quando se fz
da escoptoflia uma escoptofga, diz-se
que a identifcação escoptoflica é
uma identifcação oral, como o fz Fenic
hel. O privilégo dos orifcios orais,
anais e genitais nos retém, porque não
são verdadeiramente orifcios que
dêem no interior do corpo; o tubo dige
stivo é só uma travessia, é aberto
para o exterior. O verdadeiro interior é o
interior mesodérmico e os orifcios
que ali se introduzem existem sob a f
rma dos olhos ou eo ouvido, dos
quais a teoria psicanalítica jamais faz m
enção como tais, salvo na capa da
revista La Psychanalyse . É o verdadeiro
alcance dado ao buraco central do
toro, embora não seja um verdadeiro interi
or, isso já nos sugere algo da ordem
de uma passagem do interior pa
ra o exteri or.
Isso dá-nos a idéia que vem na inve
stigação dessa superfcie fechada,
o cross-cap. Suponham algo de infnitam
ente chato, que se desloca sobre
esta superfcie [fg. 7]. passando do ex
terior [I) da superfcie fechada ao
interior [2]. para seguir mais adiante,
no interior [3] . até chegar na linha
de penetração onde reaparecerá no ex
terior [4]. de costas. Isso mostra a
difculdade da defnição da distinção i
nterior-exterior, mesmo quando
se trata de uma superfcie fchada, de
uma superfcie sem bordas.

- --- - - -
Fig. 7

-323-
A Ide ntiicação

Só fiz abrir a questã


o para lhes mostrar qu
e o importante, nessa
fgura, é que essa linha d
e penetração deve ser c
onsiderada nula e não
advnda. Não se pode ma
terializar [esse paradoxo)
no quadro-negro sem
fa zer intervir essa linha
de penetração, pois a int
uição espacial ordinária
exige que se o mostre, m
as a especulação não o l
eva em conta. Pode-se
fzê-la deslizar indefnida
mente, essa linha de pe
netração. Não há nada
da ordem de uma costura
. Não há passagem possí
vel. Por causa disso, o
problema do interior e d
o exterior é levantado e
m toda a sua confusão.
Há duas ordens de consi
deração quanto à superfc
ie: métrica e topológca.
Te m-se de desistir de to
da consideração métrica.
De fto, a partir desse
quadrado [fig. SI, eu po
deria dar toda a superfí
cie, do ponto de vista
topológico; isso não te
m sentido algum. To pol
ogicamente, a natureza
das relações estruturais
que constituem a superf
cie é apresentada em
cada ponto: a face inter
na se confunde com a f
ace exterior, para cada
um de seus pontos e de
suas propriedades.
Para marcar o interesse
disso, vamos evocar um
a questão também
nunca levantada, que di
z respeito ao significant
e: um signifcante não
ter{1 sempre como luga
r uma superfcie? Pode
parecer uma questão
bizarra, mas ela tem pel
o menos o interesse, se
levantada, de sugerir
uma dimensão. À primeir
a vista, o gráfco, como tal
, exige uma superfcie,
se é que se pode levant
ar a obj eção de que um
a pedra erguida, uma
coluna grega é um sig
nifcante e que tem um
volume; não estejam
assim tão seguros, tão s
eguros de poderem intro
duzir a noção de volume
antes de estarem bem tr
anqüilos da noção de su
perfcie. Sobretudo se,
ao pôr as coisas à prova,
a noção de volume não é
apreensível de outra
maneira senão a partir d
a noção de invólucro. Ne
nhuma pedra levantada
nos interessou por outra c
oisa, já não direi que ape
nas pelo seu invólucro,
o que seria ir a um sofs
ma, mas pelo que ela en
volve. Antes de ser de

- 324 -
Lição de 16 de maio de 1962

volumes, a arquitetura se fz para mobiliz


ar, para arranjar superfcies em
toro de um vazio. Pedras levantadas sere
m para alinhamentos ou mesa,
para fzer algo que serve por causa do bu
raco que tem ao redor de si.
Pois é isso o resto do qual temos de n
os ocupar. Se, agarrando a
natureza da fce, eu parti da superfcie co
m bordas, para fzê-los obserar
que o critério nos falhava nas superfíci
es sem bordas, se é possível
mostrar a vocês uma superfcie sem bor
da fun damental, se a defnição
da face não é frçada, já que a superf
cie sem borda não é fita para
resolver o problema do interior e do ext
erior, devemos levar em conta
a distinção entre superfcie sem e sup
erfcie com: ela tem a relação
mais estreita com o que nos interessa,
a saber, o buraco que está para
ser introduzido como tal, positivamente,
na teoria das superfcies. Não
é um artifcio verbal. Na teoria combin
atória da topologia geral, toda
superfície triangulável, isto é, componível d
e pequenos pedaços triangulares
que vocês colam uns aos outros, toro ou
cross-cap, pode-se reduzir, por
meio do polígono fu ndamental, a um
a composição da esfra à qual
seriam acrescidos mais ou menos eleme
ntos tóricos, elementos de cross
cap e elementos puros, buracos indispe
nsáveis representados por esse
vetor fchado sobre si mesmo. Será que u
m signifcante, em sua essência
mais radical, só pode ser encarado com
o corte numa superfcie, esses
dois sinais > maior e < menor, só se
impondo por sua estrutura de
corte inscrito sobre algo onde sempre
está marcada, não somente a
continuidade de um plano sobre o qual
a seqüência se inscreverá, mas
também a direção vetorial em que isso
se reencontrará sempre? Por
que o signifcante, em sua encarnação
corporal, isto é, vocal, sempre
se tem apresentado a nós como de essê
ncia descontínua? Não tínhamos,
então, nccessiclade da superfície; a d
escontinuidade o constitui. A
in terrupção no sucessivo fz parte de
sua estrutura. Essa dimensão
temporal do funcionamento da cad
eia significante que articulei
primeiramente para vocês como sucessã
o, tem como conseqüência que
a escansão introduz um elemento a mais
além da divisão da interrupção
modulatória, ela introduz a pressa que e
u inseri enquanto pressa lógca.
É um velho trabalho, O tempo lógico.
O passo que tento fzê-los dar já
começou a ser traçado, é aquele onde
se enlaça a descontinuidade
com o que é a essência do significante,
a saber, a difrença. Se aquilo
sobre o qual temos fito girar, temos fi
to retornar incessantemente
essa função do significante, é para atrair
a atenção de vocês para aquilo

- 32 5 -
A Identicação

que, mesmo a repetir o


mesmo, o mesmo, ao s
er repetido, se inscreve

como distinto. Onde e


stá a interpolação de u
ma diferença? Residirá
ela somente no corte - é
aqui que a introdução d
a dimensão topológca,
para além da escansão
temporal, nos interessa
- ou nesse algo de outro
que chamaremos de si
mples possibilidade de
ser diferente, a existênc
ia
da bateria difrencial que
constitui o signifcante e
pela qual não podemos
confndir sincronia com
simultaneidade na raiz
do fnômeno, sincronia
que faz com que, re ap
arecendo o mesmo, é c
omo distinto do que el
e
repete que o significant
e reaparece, e o que po
de ser considerado com
o
distinguível é a interpola
ção da difrença, na medi
da em que não podemos
colocar como fundame
nto da função significan
te a identidade do A é A
,
ou seja, que a diferenç
a está no corte, ou na
possibilidade sincrônic
a
que constitui a difrença
signifcante. Em todo ca
so, o que nós repetimos
só é difrente por poder
ser inscrito.
Não é menos verdadei
ro que a fnção do corte n
os interessa, em primeiro

plano, naquilo que pod


e ser escrito. E é aqui q
ue a noção de superfci
e
topológca deve ser intro
duzida em nosso funcio
namento mental, porque

é só ali que toma seu in


teresse a função do cor
te. A inscrição, levand
o
nos à memória, é uma o
bjeção a se refutar. A me
mória que nos interessa,

a nós, analistas, deve s


er distinguida de uma m
emória orgânica, aquela
que, à mesma sucção d
o real responderia da
mesma maneira para o

organismo se defender
dela, aquela que manté
m a homeostase, pois o
organismo não reconh
ece o mesmo que se r
enova como difrente.
A
memória orgânica mesm
o-riza. Nossa memória é
outra coisa: ela intervém
em função do traço uná
rio marcando a vez únic
a, e tem como suporte a

inscrição. Entre o estím


ulo e a resposta, a inscri
ção, o prin ting, deve ser
lembrado em termos de i
mprensa gu temberguian
a. O primeiro esboço da
teoria psicofsica, contr
a o qual nos revoltamo
s, é sempre atomístico;
é
sempre à impressão de
esquemas de superfcie
que essa psicofsica tom
a
sua prmeira base. Não
basta dizer que é insufci
ente, antes que se tenh
a
encontrado outra coisa.
Pois se há um grande i
nteresse em ver que a
primeira teoria da vida r
e lacional se inscreve e
m termos interessantes
,
que traduzem somente,
sem o saber, a própria e
strutura do signifcante,
sob as fras disfaçadas d
os efeitos ditntos de cont
güdade e de contiuidade,
associacionismo, é bom
mostrar que o que era rec
onhecido e desconhecido

como dimensão signifc


ante eram os efitos do
signifcante na estrutura
do mundo idealista, do
s quais essa psicofsica
nunca se livrou.

-326 -
Lição de 16 de maio de 1962

Inversamente, o que se introduziu


por Gestalt é insufciente para
dar conta do que se passa no nível dos f
enômenos vitais, em razão de
uma ignorância fundamental que se trad
uz pela rapidez com a qual se
liga, para alguns, evidências que tudo c
ontradiz. A pretensa boa fo rma
da circunferência, que o organismo se o
bstinaria em todos os planos -
subjetivos ou objetivos - em buscar reprodu
zir, é contrária a toda observação
das fo rmas orgânicas. Direi aos gestaltis
tas que uma orelha de burro se

o: Fig. 9

parece com uma coreta, com um arum,


com uma superfície de Moebius .
Uma superfcie de Moebius é a ilustração
mais simples do cross-cap: ela
se fz com uma fixa de papel da qual se c
olam as duas extremidades após
tê-la torcido, de maneira que o ser infnit
amente chato que passeia por
ela pode prosseguir sem nunca ultrapassa
r nenhuma borda. Isso mostra a
ambigüidade da noção de fa ce. Pois não
basta dizer que é uma superfície
unilateral, de uma só fce, como certos
matemáticos frmulam. Outra
coisa é uma defnição foral, não deixa de se
r verdadeiro que há coalescência,
para cada ponto de duas fces, e é isso o
que nos interessa. Para nós, que
não nos contentamos em dizê-la unilátera
, sob o pretexto de que as duas
faces estão presentes por toda parte, não d
eia de ser verdade que podemos
manifestar, em cada ponto, o escândalo p
ara nossa intuição dessa relação
das duas fa ces. De fto, num plano, se tr
açamos um círculo que gra no
sentido dos ponteiros de um relógio, do
outro lado, por transparência, a
mesma fecha gra em sentido contrário [F
ig. 9]. O ser infnitamente chato,
a personagenzinha sobre a superfcie de
Moebius, se veicula consigo um
círculo grando em torno dele no sentido ho
rário, esse círculo grará sempre
no mesmo sentido, ainda que, do outro lad
o de seu ponto de partida, o que
se inscreverá grará no sentido horário, isto
é, em sentido oposto ao que se
passaria numa faixa normal; no plano, isso
não é invertido !Fig. 1 O].

-327 -
A Ide nticação

É por isso que se defne


m essas superfcies com
o não-orientáveis e,
no entanto, elas não dei
xam de ser orien tadas.
O desejo, por não ser
articulável, nem por iss
o deixamos de dizer qu
e não sej a articulado.
Pois essas pequenas orel
has na fixa de Moebius, p
or mais não orientáveis
que sejam, são mais or
ientadas que uma fixa
normal. Fçam vocês
uma cintura cônica [Fig.
II). retorçam-na: o que e
stava aberto embaixo
está aberto em cima. M
as a fixa de Moebius, d
obrem-na: terá sempre
a mesma forma. Mesmo
quando vocês retornam o
objeto, ele terá sempre
a bossa côncava à esqu
erda, a bossa infada à d
ireita. Uma superfície
não-orientável é, pois, mu
ito mais orien tada que u
ma superfcie orientável.

...
,//

Fig. 11

Alguma coisa vai ainda


mais longe e surpreende
os matemáticos, que
remetem com um sorriso
o leitor à experiência: é q
ue, se nessa superfcie
de Moebius, com a aj u
da de uma tesoura, voc
ês traçam um corte a
igual distância dos ponto
s mais acessíveis das bo
rdas - ela só tem uma
borda - se vocês fazem
um círculo, o corte se fec
ha, vocês realizam um
círculo, um laço, uma c
urva fe chada de Jordan
. Ora, esse corte não

-328 -
de maio de 1962

apenas deia a superfcie in


teira, mas transfra a super
fcie não-orentável
em superfcie orientável, is
to é, em uma fixa da qual,
se vocês pintarem
um dos lados, todo um la
do permanecerá branco,
contrariamente ao
que se passaria a pouco
na superfcie de Moebius
inteira: tudo tera
sido pintado sem que o pi
ncel mudasse de face. A s
imples intervenção
do corte mudou a estrutura
onipresente de todos os po
ntos da superfcie,
eu dizia. E, se lhes peço
que me digam a diferenç
a entre o objeto de
antes do corte e este aqui
, não há meio de fazê-lo. I
sso para introduzir
o interesse da função de
corte.
O polígono quadriláter
o é originário do toro e d
o boné. Se jamais
introduzi a verdadeira ver
balização dessa forma, <
>, punção, desejo
ao a no $< >a, esse pequ
eno quadrilátero deve ser l
ido: o
sujeito, enquanto marcado
pelo signi fcante é, propria
mente, no fantasma,
corte de a. Na próxima s
essão, vocês verão como
isso nos dará um
suporte que fnciona para
articular a questão, com
o o que podemos
defnir, isolar a partir da de
manda como campo do d
esejo, em seu lado
inapreensível, pode, por al
guma torção, se ligar com
o que, tomado por
um outro lado, se define c
omo campo do objeto a, c
omo o desejo pode
igualar-se a a? É o que int
roduzi e que lhes dará um
modelo útil até na
prática de vocês.

-329-
LIÇAO XI
23 de maio de 1962

Porque um sigifcante é apr


eensão da menor coisa, pode
ele apreender
a menor coisa? Eis a quest
ão, uma questão da qual tal
vez não seja
colocou, devido à frma tomada
classicamente
pela lógca. De fto, o princípio
da predicação, que é a propos
ição universal,
não implica senão uma coisa,
é que o que se apreende são s
eres nulifcáveis:
dictum de omni et nullo. Aquele
s para quem esses termos não
são fmiliares
e que, conseqüentemente,
não compreendem muito b
em, recordo o
que é que venho lhes expli
cando já várias vezes, isto
é, de tomar o
suporte do círculo de Euler t
anto mais legitimamente qu
anto o que se
tratava de substituir é outra c
oisa; o círculo de Euler, com
o todo círculo,
por assim dizer, ingênuo, cí
rculo a propósito do qual nã
o se coloca a
questão de saber se ele cern
e um pedaço, um fr agmento .
.. o próprio do
círculo ... destaca ele um frag
mento dessa superfcie hipotéti
ca implicada? ...
É que ele pode reduzir-se pr
ogressivamente a nada. A p
ossibilidade do
universal é a nulidade.
To dos os professores são letra
dos, cu lhes disse um dia - e
scolhi esse
exemplo para não recar sempr
e nos mesmos problemas - tod
os os prfessores
são letrados; muito bem, se
por acaso, em algum lugar,
algum profssor
não merece ser qualifcado de l
etrado, não seja por isso, tere
mos professores
nulos. Observem que isso não
é equivalente a dizer que não
há profssor.
A prova é que, os professores n
ulos, bem! nós os temos quando
eventualmente.
Quando digo ter, tomem esse
ter no sentido forte, no senti
do de que se
trata. Essa não é, como tal, u
ma palavra escorregadia, des
tinada a deixar
escapar o sabonete. Quand
o digo nós os temos, isso s
ignifica que

-33 1 -
A Identicação

estamos habituados a t
ê-los, da mesma manei
r a que temos montes d
e
coisas assim: nós temo
s a República ... Como
dizia um camponês co
m
quem eu conver sava
não faz muito tempo: "
este ano nós tivemos
o
gr anizo, e logo depois,
os escoteir os". Qualque
r que seja a precar iedad
e
da defnibilidade, par a o
camponês, desses met
eoros, o verbo ter, aqui,

tem bem o seu sentido.


Nós temos, por exempl
o, também os psicanalist
as, e isso é evidentement
e
muito mais complicado,
porque os psicanalistas
começam a nos fazer
entr ar na ordem da d
efnição existencial. En
tr a-se nela pela via d
a
condição. Diz-se, por
exemplo: "não há ... ni
nguém poder á se dizer
psicanalista, se não tive
r sido psicanalisado". B
em, há um grande perig
o
em crer que essa decl
ar ação seja homogên
ea com o que evocamo
s
anterior mente, no senti
do em que, par a nos s
er vir mos dos círculos
de
Euler, haver ia o círculo
dos psicanalisados, mas
, como todos sabem, os
psicanalistas, devendo
ser psicanalisados, o cí
r culo dos psicanalistas

poder ia, pois, ser tr aç


ado incluído no cír culo
dos psicanalisados. Nã
o
preciso dizer que, se n
ossa experiência com o
s psicanalistas nos tr a
z
tantas dificuldades, é q
ue, provavelmente, as c
oisas não são assim tã
o
simples, tendo em vist
a que afnal, se isso nã
o está evidente no nív
el
do pr ofessor, que o pr
ópr io fato de fu ncionar
como pr ofessor possa
aspir ar ao seio do prof
essor, à maneir a de um
sifo, alguma coisa que
o
esvazie de todo contato
com os efeitos da letr a,
é, ao contrár io, realment
e
evidente par a o psica
nalista que tudo está a
í. Não basta devolver
a
pergunta : "o que é ser
psican alisado?", pois,
bem entendido, o que s
e
cr ê fazer ali, e com cer t
eza natur almente, ser ia
apenas desviar a pessoa

de colocar no primeiro
plano a questão do qu
e é ser psicanalisado.

-332-
Lição de 23 de maio de 1962
pelo f
Mas, no que se refre ao psicana da ato
lista, não é aquilo que se trata sua c
apreender, se queremos compreen onjun
der a concepção do psicanalista,ção c
om o
saber o que é que isso fz, ao psicanal
predic
ista, ser psicanalisado, isso enquanto
psicanalista, e não da parte dosado "
sicanalisados. Não sei se me mortal
entender, mas quero reconduzi-los ", e q
ao bê-á-bá, ao elementar. ue é b
Se, ainda assim, para entender em po
o mais velho exemplo da lógca,r
primeiro passo que se dá para lançarisso
Sócrates no buraco, a saber : "todosque n
os homens são mortais ... ", pelo ós co
mpo que nos enchem os ouvidos rremo
m s atrá
essa fórmula ... eu sei que vocês s de
veram tempo de se endurecer, qualq
uer c
,
oisa.
para todo ser um pouco fesco, o Quan
prio fto da promoção desse exemplo do fla
mos
no âmago da lógica não pode deixa do
r de ser fnte de algum mal-estar,
algum sentimento de escroqueria.
Pois em que nos interessa umahome
m, é j
frmula, se é o homem que se ustam
ta de apreender? A menos queente n
esse t
trate - e é justamente o que os círcul
os concêntricos da inclusão eulerianurbilh
a ão, ne
escamoteiam - não de saber quesse b
uraco
á um círculo dos mortais e no interio
r que s
o círculo do homem, o que estrita e pro
mente não tem nenhum interesse duz al
, i
mas de saber o que é que isso no m
faz, a ele, homem, ser mortal, saca eio, e
r m alg
um lu
o turbilhão que se produz em algum gar, q
lugar no centro da noção de homem, ue nó
s tocamos.
Recentemente, eu abria um
elente livro de um autor americano
,
do qual pode-se dizer que a obra
umenta o patrimônio do pensament
o
e da elucidação lógca. Não lhes direi
seu nome, porque vocês vão procurar

quem é. E por que eu não o faço?


np11· cu tive a surpresa de encontrar,
nas páginas nas quais ele trabalh
a tão bem, certo sentido tão vivo
a
atualidade do progresso da lógica,
onde justamente o meu oito interior
intervém. Ele absolutamente não
dele o mesmo uso que eu, entretant
o
me lembrei que alguns mandarins,
entre meus ouvintes, vieram
dizer, um dia, que fi ali que eu
pesquei. Sobre a originalidade
a
passagem do Sr. Jakobson, consi
dero, de fato, a mais frte referênci
a.
É preciso dizer que, nesse caso
reio ter começado a desenvolver
(
metáfora e a metonímia em nossa
teoria, em algum lugar no discurso
de Roma que fi publicado - foi
lando com Jakobson que ele

disse: "Certamente, essa história


metáfra e da metonímia, nós torcemo
s
aquilo juntos, lembra-se, em 14
e julho de 1950". Quanto ao lógco

- 333 -
A Identiicação

em questão, há muito
tempo que ele está mo
rto, e seu pequeno oit
o
interor precede inconte
stavelmente sua prom
oção aqui. Mas, quand
o
ele adentra no seu exa
me do universal afirmat
ivo, ele usa um exempl
o
que tem o mérito de não
dispersar. Ele diz: "Todo
s os santos são homens,
todos os homens são ap
aixonados, logo todos os
santos são apaixonados".

Ele reúne isso num tal


exemplo, pois vocês d
evem sentir bem que o
problema é saber onde
está essa paixão pred
icativa, a mais exterior

desse silogismo univer


sal, de saber qual esp
écie de paixão chega a
o
coração para fazer a sa
ntidade.
Tu do isso, o pensei n
esta manhã, quero dizer
a vocês dessa maneira,
para fzê-los sentir do q
ue se trata, no que con
cerne ao que chamei d
e
um certo movimento d
e turbilhão. O que é q
ue tentamos cingir co
m
nosso aparelho concerent
e às superfcies, as superf
cies que aqui entendemo
s
lhes dar um uso que, pa
ra tranqüilizar meus ouv
intes inquietos, é talvez,

das minhas excursões,


pouco clássica, mas é, a
inda assim, algo que nã
o
é outra coisa senão re n
ovar, reinterrogar a funç
ão kantiana do esquema
.
Penso que o radical ilogs
mo, na experiência, da p
ertinência, da inclusão,
a relação da extensão
com a compreensão, n
os círculos de Euler, to
da
essa direção o
nde está enredada com
o tempo a lógica, será q
ue nesse
equívoco mesmo ela nã
o é o lembrte do que fi,
em seu início, esquecido
?
O que foi, em seu iníci
o, esquecido é o objeto
em questão, fosse ele
o
mais puro, é, foi e ser
á, o que quer que se f
ça, o objeto do desejo,
e
que se se trata de cin
gi-lo para apanhá-lo lo
gicamente, isto é, com
a
linguagem, é que antes
se trata de apreendê-lo
como objeto de nosso
desejo, tendo-o apreen
dido, guardá-lo, o que
significa cercá-lo, e qu
e
esse re torno da inclusã
o ao primeiro plano da fo
rmalização lógca encontr
a
sua raiz nessa necessi
dade de possuí-lo, ond
e se funda nossa relaç
ão
com o objeto do desejo
enquanto tal. O Begriff e
voca a apreensão, porqu
e
é correndo atrás da apre
ensão de um objeto de n
osso desejo que forjamo
s
o Begriff. E cada um s
abe que tudo o que qu
eremos possuir que sej
a
objeto de desejo, o que q
ueremos possuir pelo des
ejo e não pela satisfação
de uma necessidade, n
os escapa e se esquiva
. Quem não o evoca no

sermão moralista! "Nã


o possuímos nada, enfi
m, é preciso abandona
r
tudo isso", diz o célebr
e cardeal, como é trist
e! "não possuímos nad
a,
diz o sermão moralista,
porque existe a morte".
Outra escamoteação, o
que nos promove aqui,
no nível do fto da mort
e real, não é o que est
á
em questão. Não fi em
vão que, durante um lo
ngo ano, os fiz passear

--334 -
Lição de 23 de maio de 1962

nesse espaço que meus ouvintes qualifi


caram de entre-duas-mortes. A
supressão da morte real não resolveria nad
a, nesse assunto do se esquivar
do objeto do desejo, porque se trata de
outra morte, aquela que fz com
que, mesmo que não fôssemos mortais,
se tivéssemos a promessa da
vida eterna, a questão fca sempre aber
ta se essa vida eterna, isto é,
aquela da qual estaria afstada toda prome
ssa do fm, não fosse concebível
como uma frma de morrer eternamen
te. Ela o é, certamente, pois
que é nossa condição cotidiana, e dev
emos levar isso cm conta em
nossa lógica de analistas, porque é assim,
se a psicanálise tem um sentido,
e se Freud não foi um louco, pois é isso
que designa esse ponto dilo do
instinto de morte. Já o fi siologista mais
genial de todos os que têm o
sentido desse viés da abordagem biológica
, Bichai, diz : "A vida é o conjunto
das forças que resistem à morte".
Se algo de nossa experiência pode se
refletir, pode um dia tomar
sentido ancorado sobre esse plano tão dif
cil, é essa precessão, produzida
por Fre ud, dessa frma de turbil hão da
morte, sobre cujos flancos a
vida se agarra para não passar. Pois a
única coisa a acrescentar, para
devolver a quem quer que seja essa fu
nção igualmente clara, é que
basta não confundir a morte com o in
animado, quando na natureza
inanimada basta que, nos abaixando, nó
s apanhemos o rastro do que é
apenas uma frma morta, o fóssil, par
a que compreendamos que a
presença do morto na natureza é outr
a coisa que não o inanimado.
Será que é seguro que está ali, conchas
e dejetos, uma função da vida?
Seria resolver o problema um pouco f
acilmente, quando se trata de
saber porque a vida se retorce dessa for
ma.
No momento de retomar a questão do s
ignifcante, já abordada pela
via do rastro, me veio a idéia irônica, saindo
de súbito dos diálogos platônicos,
de pensar que essa impressão um tanto
quanto escandalosa, que Platão
destaca pensando na marca deixada na
areia do estádio pelos cús nús
dos amados, expressões para as quais, sem
dúvida, se precipitava a adoração
dos amantes e cuja decência consistia
em apagá-la, eles teriam fei to
melhor deixando-a no lugar. Se os amantes t
ivessem sido menos obnubilados
pelo objeto de seu desejo, eles teriam sid
o capazes de tirar partido dele e
de ver aí o esboço dessa curiosa linha q
ue lhes proponho hoje. Ta l é a
imagem da cegueira que carrega consigo
vivo demais todo desejo.
Partamos, pois, novamente de nossa li
nha, que é preciso tomar sob a
frma em que ela nos é dada, fchada
e nulificável, a linha do zero

-335 -
A Identicação

orignal da história eftiv


a da lógica. Se aprende
mos, regressando desd
e
já, que nenhum [nul] é
a raiz de todos, ao me
nos a experiência não
terá sido fita em vão. E
ssa linha, para nós, a c
hamamos o corte, uma
linha, é nosso ponto d
e partida, que nos é pr
eciso considerar a prio
ri
como fchada. Está aí
a essência de sua nat
ureza signifcante, nad
a
poderá jamais nos prov
ar, pois que é da nature
za de cada uma dessas
voltas se fundar como
difrente, nada na exper
iência pode nos permiti
r
fundá-la como sendo a
mesma linha. É justame
nte isso que nos permit
e
apreender o real, é nisso
que seu retorno, sendo e
struturalmente diferente,
sempre uma outra vez, s
e se assemelha, então h
á sugestão, probabilidad
e
que a semelhança ven
ha do real. Nenhum out
ro meio de introduzir, d
e
um modo correto, a fun
ção do semelhante. Ma
s é apenas uma indicaç
ão
que lhes dou, que preci
sa ser mais elaborada.
Parece-me que já o rep
eti
muitas vezes se, quan
do mais não fsse, para
não ter que voltar a ela
,
mesmo assim a relembr
ando, os devolvo a essa
obra de um gênio precoc
e
e, como todos os gênio
s precoces, muito preco
cemente desaparecido,
Jean Nicod, A geometri
a do mundo sensíel, on
de a passagem que diz
respeito à linha axiomá
tica, no centro da obra -
talvez alguns de vocês,
autenticamente interess
ados em nosso progres
so, possam se reportar
a
ela - mostra bem de qu
e maneira a escamotea
ção da função do círcul
o
significante, nessa aná
lise da experiência sen
sível, é quimérica e lev
a
o autor, apesar do inconte
stável interesse do que el
e promove, ao paralogsm
o
que vocês não deixarã
o de encontrar aí. Nós
tomamos no início ess
a
lin ha fchada, na qual a e
xistência da fnção das su
perfcies topologcamente
defnidas serviu primeiro
para inverter, para vocês
, a evidência enganadora
de que o interior da lin
ha fosse algo de unívo
co, pois é sufciente que
a
tal linha se desenhe so
bre uma superfcie defni
da de uma certa maneir
a,
o toro, por exemplo, par
a que sej a aparente que
, por mais que permaneç
a
em sua função de cort
e, ela não poderia, de
modo algum, preencher

a mesma função que s
obre a superfcie que vo
cês me permitirão cham
ar
aqui de fndamental, aq
uela da esfera, a saber,
de defnir um fragmento

nulificável, por exempl


o. Para os que estão aq
ui pela primeira vez, iss
o
quer dizer uma linha f
chada, aqui desenhad
a (a), ou ainda esta aq
ui
(b) , que não poderia d
e modo algum se reduzi
r a zero, é, a saber, que
a
função do corte que el
as introduzem na supe
rfcie é algo que, a cad
a
vez, cria problema. Pe
nso que o que está em
questão, no que concer
ne
ao signifcante, é essa
ligação recíproca que f
z com que, se, por um
-336 -
Lição de 23 de maio de 1962

,----- a ,------ b
,,,'
, ,,'

lado, como lhes fz ver na última vez, a pr


opósito da superfcie de Moebius
- essa linda orelhinha contornada, de qu
e lhes dei alguns exemplares -
o corte mediano, no que diz respeito a s
eu campo, a transfrma em uma
superfcie difrente, que não é mais ess
a superfcie de Moebius; se se
pode dizer, que a superfcie de Moebius -
nisso fço mais de uma reserva
- que talvez ela não tenha senão uma fce,
certamente aquela que resultava
do corte tinha duas fces.
O que está em causa, para nós, pegan
do o viés de interrogar os efitos
do desejo pelo acesso do signifcante, é d
e nos darmos conta de como o
campo do corte, do corte,
se organizando em
hiãncia superfcie
que ela fz surgir para nós as diferentes
frmas onde podem se ordenar
os tempos de nossa experiência do des
ejo. Quando lhes digo que é a
partir do corte que se organizam as fr
mas da superfcie em questão,
para nós, em nossa experiência, de serm
os capazes de fzer vir ao mundo
o efeito do significante, eu o ilustro, não
é a primeira vez que o ilustro.
Eis a esfera, eis aqui nosso corte centr
al tomado pelo viés inverso do
círculo de Euler. O que nos interes
sa não é o pedaço que está
necessariamente deslocado pela linha
fchada sobre a esfra, é o corte
assim produzido e, se quiserem, desde j
á o buraco. Está claro que tudo

-337 -
A Identificação

deve ser dado do que e


ncontraremos no fm, em

outros termos, que um b


uraco já tem ali todo seu
sentido, sentido tornado
particularmente evidente

pelo fto de nosso recu


rso à esfra. Um buraco
fz aqui se comunicar u
m com o outro, o interio
r
com_- exterior. Só há u
m pequeno azar, é que,
uma vez fito o buraco, n
ão há mais nem interior

nem exterior, como é b


em evidente aqui, é qu
e
essa esfera esburacad
a se revira com a maio
r
fcilidade. Tr ata-se da cria
tura universal, primordial,
a do eterno oleiro. Não há
nada mais fácil de revirar
do que um pote, isto é,
uma calota.
O buraco, portanto, nã
o teria grande sentido
para nós, se não houvesse
outra coisa para sustentar
essa intuição fundament
al - penso que, hoje, isso

lhes é familiar - isto é,


que a um buraco, a um
corte, acontecem avatar
es, e o primeiro possível
é que dois pontos da
borda se juntem. Uma d
as primeiras possibilida
des, para o buraco, é
tornar-se dois buracos.
Alguns me disseram: "porq
ue você não refere suas im
agens à embriologa?"
Acreditem que elas jam
ais estão muito longe d
ela. É o que explico a
vocês, mas isso não passar
ia de um álibi, porque referi
r-me aqui à embriologa
é confar no poder mister
ioso da vida, da qual nã
o se sabe muito bem,
é claro, porque ela acre
dita não dever se introd
uzir no mundo senão
pelo viés, o intermediário
desse glóbulo, dessa esf
era que se multiplica,
se deprime, se invagina,
se engole a si mesma, d
epois singularmente,
ao menos até o nível do
ba tráquio, o blastóporo
lblasloporcl, a saber,
essa coisa que não é u
m buraco na esfra, mas
um pedaço ela esfra
que se recolheu dentro
do outro. Ilá muitos médi
cos, aqui, que fizeram
um pouco de embriolog
a elementar para se lem
brar dessa coisa que
começa a se dividir em d
ois, para estimular esse
órgão curioso que se
chama de canal neurent
érico, completamente inj
ustifcável para alguma
fnção, essa comunicação
do interior do tubo neural
com o tubo digestivo
sendo mais para se consid
erar como uma singularidad
e barroca da evolução ,
aliás, pron tamente reabs
orvida ; na evolução post
erior, não se fala mais
disso. Mas, talvez as cois
as tomassem uma nova d
ireção, sendo tomadas
como um metabolismo, u
ma metamorfse gu iada po
r elemen tos de estrutura

-338 -
Lição de 23 de maio de 1962

cuj a presença e homogeneidade com o pl


ano [no qual nós nos deslocamos
na sustentação do signifcante] sejam o te
rmo de um isolamento de certo
modo pré-vital do rastro [trace] de algo
que poderia talvez nos levar a
foralizações que, mesmo no plano da orga
nização da experiência biológca,
poderiam revelar-se fecundas.
De qualquer fo rma, esses dois burac
os
isolados na superfcie da esfera, são eles
que,
unidos um ao outro, estirados, prolonga
dos
e depois conjuntos, nos deram o toro.
Isso
não é novo, simplesmente, eu queria arti
cular
bem para vocês o resultado. O resultado
, em
primeiro lugar, é que, se há uma coisa
que,
para nós, sustenta a intuição do toro,
é um
macarrão que se une, que morde o pr
óprio
rabo; é o que há de mais exemplar na fu
nção
do buraco, há um no meio do macarrão
e há
uma corrente de ar, o que fz com que, pass
ando
através do arco que ele frma ... há um bu
raco
que faz comunicar o interior com o int
erior,
e depois há um outro, mais formidável ai
nda,
que coloca um buraco no coração da supe
rfcie,
que é ali buraco, estando em pleno ext
erior. A imagem da perfuração
está introduzida, pois o que chamamos d
e buraco é isso, é esse corredor
que se afundaria numa espessura [a], im
agem fundamental que, quanto

jamais suficientemente distinguida,


e depois o outro buraco [b]. que é o bura
co central da superfície, isto é,
o buraco que chamarei de buraco corrent
e de ar. O que pretendo avançar,
para colocar nossos probl emas, é que esse
buraco corrente de ar irredutível,
se nós o cingirmos com um corte, é pro
priamente aí que se situa, nos
efitos da fnção signifcante, a, o objeto
enquanto
tal. Isso quer dizer que o objeto é extravi
ado, pois
não poderia de jeito nenhum existir ali
senão o
contoro do objeto, em todos os sentdos que
possamos
dar à palavra contorno. Abre-se, ainda, u
ma outra
possibilidade, que para nós vivifca, suscita
interesse
na comparação estruturante e estrutura
l dessas
superfcies, é que o corte pode, em s
uperfície,

-339 -
A Identiicação

articular-se de outra ma
neira. Sobre o buraco
aqui desenhado na s
uperfície da esfera,
podemos enunciar, frmu
lar, almejar que cada
ponto seja unido a seu p
onto antipódico, que,
, a hiância

se organiza a lin
m superfcie ha d
essa maneira e ap
que aren
a escamotei te p
a completam enet
ente sem o raçã
meio o
[medium] dest da
a divisão inter sup
mediária. Eu erfí
hes cie
mostrei, na atra
tima vez, e vés
ostrarei de del
vo ; am
isso nos dá es
superficie qu ma,
alificada de que
oné é
ou de cross-
cap, isto é, nece
uma coisa ssári
qual a par
a rep
convém não
rese
esquecerem
n tá-
que a image
la e
m que m no
lhes dei não sso
é mais que espa
ma imagem, ço.
por
Isto
assim dizer, que
rcida, uma vez indi
que o que par co a
qui, de mane
ira tremida,

feito para indi


car que é pre
ciso consider
á-la
como vacilant
e, não fxada.
Em outras pal
avas,
não precisam
os jamais leva
r em conta imp
oo oss
que passeia
ível
aqui de um
do, no exterio
r da
superfcie, que
não poderia
assar ao exter
ior

, que não poderia pass


ar ao
exterior do que está do
outro lado, uma vez
que não há encontro re
al das faces, mas, ao
contrário, não poderia p
assar senão do outro
lado, no interior, pois, d
a outra face, eu digo
a outra, em relação ao ob
servador aqui colocado
[flecha grande].
Portanto, representar
as coisas assim,
considerando essa form
a de super fície, deve
se apenas a uma certa in
capacidade das formas
in tuitivas do espaço com
três di mensões, para
- 34 0 -
lição de 23 de maio de 1962

permitir o suporte de uma imagem que re


almente dê conta da conUnutdade
obtida, sob o nome dessa nova sup
erfcie dita cross-cap, o boné em
questão. Em outras palavras, o que
esta superfcie sustenta? Nós o
chamaremos - pois que estão ai as te
ses que adianto primeiro, e nos
permitiremos em seguida dar seu senti
do ao uso que lhes proporei fazer
dessas diversas frmas - chamaremo
s essa superfcie, não o buraco,
pois, como vêem, existe ao menos um q
ue ela escamoteia, que desaparece
completamente em sua forma, mas o
lugar do buraco. Essa superfície,
assim estruturada, é particularmente
propícia a fazer funcionar, diante
de nós, esse elemento, o mais inapre
ensível, que se chama de desejo
enquanto tal, em outras palavras, a fl
ta. Acontece, todavia, que para
, apesar da aparência que torna

todos esses pontos que chamaremos, s


e quiserem, de antipódicos, pontos
equivaentes, eles não pdem, contudo, f
nciona nessa equivalência antpdic,
a menos que existam dois pontos privilega
dos. Estes estão aqui representados
por esse pequeno círculo [a] . sobre o q
ual já me interrogou a perspicácia
de um dos meus ouvintes: "O que voc
ê quer, de fto, representar assim,
com esse pequeno círculo? ". Certament
e, não é algo equivalente ao buraco
central do toro, uma vez que, em qualqu
er nível que vocês se colocassem
desse ponto privilegado, tudo o que p
assa de um lado para o outro da
ra, aqui passará por essa flsa decussação
(), esse quiasma ou cruzamento
que faz a sua estrutura. Contudo, o qu
e é assim indicado, por essa frma
assim circulada, não é outra coisa senão
a possibildade por bao, se podemos
exprimi-lo assim, desse ponto passar d
e uma superfcie exterior à outra. É
também a necessidade de indicar que
um círculo não privilegado sobre
essa superfcie, um círculo redutível, se
vocês o fazem deslizar, se vocês o
extraem de sua aparência do limite
emi-ocultação, para além

-341 -
A Ide nticação

aparentemente aqui de r
ecruzamento e de penetr
ação,
para levá-lo a estender
-se, a se desenvolver a
ssim
em direção à metade i
nfrior da figura e, porta
nto,
a se isolar aqui em um
a frma no exterior da fi
gura,
deverá sempre aqui con
tornar alguma coisa que
não
lhe permite, de maneir
a alguma, transfrmar-
se no
que seria sua outra fr
ma, a forma privilegia
da de
um círculo, na medida
em que faz a volta do p
onto
privilegiado e que ele d
eve ser representado a
ssim
sobre a superfcie em q
uestão. Esta aqui, de f
ato, não poderia, de jeit
o
algum, ser-lhe equivale
nte, pois essa forma é
algo que passa em torn
o
do ponto privilegado, do
ponto estrutural, cm toro
do qual está sustentada
toda a estrutura da su
perfcie assi definida. E
sse ponto duplo e pont
o
simples ao mesmo tempo,
em torno do qual se suste
nta a própria possibilidade
da estrutura entrecruz
ada do boné ou do cro
ss-cap, é por esse pont
o
que simbolizamos o qu
e pode introduzir um ob
jeto a qualquer, no luga
r
do buraco. Esse ponto p
rivilegiado, nós conhece
mos suas fu nções e su
a
natureza, é o flo, na
medida em que é por
ele, enquanto operad
or,
que um objeto a pode
ser posto no lugar mes
mo onde nós, em uma
outra estrutura [a saber,
o toro) . não apreendem
os senão seu contorno.
Eis aí o valor exempla
r da estrutura do cross-
cap, que tento articula
r
diante de vocês, o luga
r do buraco, é no princí
pio esse ponto de uma

estrutura especial, enqu


anto se trata de distingu
i-lo das outras formas d
e
pontos, esse aqui, por
exemplo, definido pelo r
ecorte de um corte sobr
e
ele mesmo, primeira for
ma possível de se dar
ao
nosso oito interior. Cort
amos alguma coisa nu
m
papel, por exemplo, e u
m ponto será defnido pe
lo
fato do corte repassar sobr
e o lugr já cortado. Sabem
os
bem que isso não é abso
lutamente necessário par
a
que o corte tenha, sob
re a superfcie, uma aç
ão
completamente definív
el e nela introduza ess
a
mudança, cujo suporte d
evemos tomar para imaj
ar
certos efeitos do signifc
ante.
Se pegarmos um toro
e o cortarmos assim, iss
o
fz essa frma aqui dese
nhada. Passando ao o
utro lado do toro, você
s
vêem que, em nenhu
m momento, esse cort
e se junta de novo a el
e
mesmo. Fçam a experi
ência sobre alguma vel
ha cãmara de ar, você
s

-342 -
Lição de 23 de mato de 1962

verão o que isto vai dar; dará uma supe


rfície contínua, organizada de
tal modo que ela se volta duas vezes sob
re si mesma, antes de se juntar.
Se ele tivesse se voltado apenas uma vez,
seria uma superfcie de Moebius.
Como ela se volta duas vezes, isto produ
z uma superfcie de duas faces ,
que não é idêntica àquela que lhes most
rei outro dia, após a secção da
superfcie de Moebius,

. _____

pois aquela ali se volta duas vezes e um


a outra vez ainda difrentemente,
para formar o que chamamos de um ane
l de Jordan. Mas, o interesse é
de ver o que é exatamente esse ponto p
rivilegiado, na medida em que,
como tal, ele intervém, ele especifca o f
agmento de superfície sobre o
qual permanece irredutivelmente, dan
do-lhe o acento particular que
lhe permite, para nós, ao mesmo temp
o designar a função segundo a
qual um objeto está ali desde sempre, a
ntes mesmo da introdução dos
reflexos, das aparências que dele temos s
ob a forma de imagens, o objeto
do desejo. Esse objeto, ele não é para
ser tomado senão nos efeitos,
para nós, da fu nção do significante, e,
no entanto, não se reencontra
nele a não ser seu destino de sempre.
Como objeto, é o único objeto
absolutamente autônomo, primordial e
m relação ao sujeito, decisivo
em relação a ele, a ponto de que minha
relação com esse objeto seja,
de certo modo, para inverter, a ponto de
, se, no fantasma, o sujeito, por
uma miragem em todos os pontos para
lela àquela da imaginação do
estádio do espelho, ainda que de uma
outra ordem, se imagina, pelo
efeito daquilo que o constitui como sujeit
o, isto é, o efito do significante,
suportar o objeto que vem por ele cobri
r a flta, o buraco do Outro, e é
isto o fan tasma. Inversamente pode-se d
izer que todo o corte do sujeito,
aquilo que, no mundo, o constitui como
separado, como rejeitado, lhe
é imposto por uma determinação não
mais subjetiva, indo do sujeito

-343 -
A Ide nticação

para o objeto, mas objeti


va, do objeto para o sujei
to, lhe é imposto pelo
objeto a, mas, na medida
em que, no coração dest
e objeto a, existe esse
ponto central, esse pont
o turbilhão por onde o o
bjeto sai de um além
do nó imagnári
o, idealista, sujeito-
objeto que produziu, até
aqui, desde
sempre, o impasse do pe
nsamento, esse ponto ce
ntral que, desse além,
promove o objeto como
objeto do desejo. É o q
ue perseguiremos, na
próxima vez.
- 344 -
LIÇÃO XII
30 de maio de 1962

O ensino ao qual lhes conduz


o é comandado pelos caminhos
de nossa
experiência. Pode parecer excess
ivo, senão enfdonho, que esses c
aminhos
suscitem em meu ensino uma
fo rma de desvios, digamos, in
usitados
que, por isso, podem parecer,
flando propriamente, exorbita
ntes. Eu
os poupo deles o quanto posso.
Posso dizer que, por exemplos e
nlaçados
o mais próximo possível em no
ssa experiência, desenho uma
espécie
de redução, se se pode dizer, d
esses caminhos necessários. V
ocês não
devem, no entanto, se espanta
r de que estejam implicados e
m nossa
explicação campos, domínios t
ais como aquele, por exemplo,
este ano,
da topologia se, de fto, os cami
nhos que temos a percorrer são
aqueles
que colocam em causa uma ord
em tão fndamental quanto a con
stituição
mais radical do sujeito como t
al, dizendo respeito, por isso,
a tudo o
que se poderia chamar de uma
espécie de revisão da ciência.
Por exemplo, essa nossa su
posição radical, que coloca o s
ujeito em
sua constituição, na dependên
cia, numa posição segunda em
relação
ao signifcante, que fz do pr
óprio sujeito um efito do sig
nifcante;
isso não pode deixar de se dest
acar de nossa experiência, tão e
ncarnada
quanto ela esteja nos domíni
os aparentemente mais abstr
atos do
pensamento. E acredito não
estar frçando nada ao dizer q
ue o que
elaboramos aqui poderia intere
ssar no mais alto ponto ao mat
emático.
Por exemplo, como se constata
va recentemente, olhando mais
de perto,
creio, em uma teoria que, para
o matemático, ao menos por u
m tempo,
causou muito problema, uma t
eoria como aquela do transfnit
o, cujos
impasses certamente antecede
m em muito nossa valorização d
a função

-345 -
A Identicação

do traço unário, na m'di


da em que essa teoria d
o transfinito, o que a
funda é um retorno, é u
m apanhado da origem
da contagem de antes
do número, quero dizer, d
o que an tecede toda con
tagem e a envolve, e
a suporta, a saber, a co
rrespondência bi-
unívoca, o traço por tra
ço.
Certamente, aqueles de
svios, isso pode ser para
mim uma maneira de
confirmar a amplitude, [
o infinito] e a fecundida
de daquilo que nos é
absolutamente necessá
rio construir, quanto a n
ós, a partir de nossa
experiência. Eu lhes pou
po disso.
Se é verdade que as
coisas são assim, que a
experiência analílica é
aquela que nos leva atr
avés dos efitos encarn
ados daquilo que é -
certamente, desde semp
re, mas cujo fato de que
nós nos apercebemos
apenas é a coisa nova -,
os efeitos encarnados pe
lo fato da primazia do
significante sobre o sujeit
o, não é possível que tod
o tipo de tentativa de
redução das dimensões de
nossa experiência ao pont
o de vistajá constituído
do que se chama a ciênc
ia psicológica - nesse se
ntido de que ninguém
pode negar, não pode não
reconhecer que ela foi con
stituída sobre premissas
que negligenciavam, e p
or isso mesmo, porque e
la estava elidida, essa
articulação fundamental
sobre a qual colocamos
o acen to, este ano
apenas de maneira aind
a mais explícita, mais aci
rra da, mais articulada
- não é possível, digo, q
ue toda redução ao pont
o de vista da ciência
psicológica, tal como el
a já se constituiu, conse
rvando como hipótese
um certo número de pont
os de opacidade, de pont
os elididos, de pontos
de irrealidade maior, che
gue frçosamente a form
ulações objetivamente
mentirosas, não digo eng
anosas, digo mentirosas, f
alsas, que determinam
alguma coisa que se ma
nifsta sempre na comuni
cação do que se pode
chamar de uma mentira
encarnada. O significant
e determina o sujeito,
eu lhes digo, na medid
a em que necessariam
ente é isso o que quer
dizer a experiência psica
nalítica. Mas, sigamos as
conseqüências dessas
premissas necessárias.
O signifcante determina o
sujeito, o sujeito toma
dele uma estrutura; é a
quela que já ten tei dem
onstrar-lhes no grafo.
Este ano, a propósito d
a identifcação, isto é, de
sse algo que focaliza
sobre a própria estrutur
a do sujeito nossa expe
riência, tento fazê-los
seguir mais in timament
e essa ligação do signifi
cante com a estrutura
subjetiva. Isto ao qual os
levo, sob essas fórmulas
topológicas, das quais
vocês já sentiram que ela
s não são pura e simples
mente essa referência
in tuitiva à qual nos habit
uou a prática da geometri
a, é a considerar que
essas superfcies são estr
uturas, e tive que lhes diz
er que elas estão todas

- 34 6 -
Lição de 30 de maio de 1962

estruturalmente presentes em cada um de


seus pontos, se é que devemos
empregar essa palavra ponto sem reservar
o que vou trazer-lhes hoje aqui.
Eu os levei, por minhas afrmações prec
edentes, a isso que se trata
agora de construir em sua unidade, q
ue o significante é corte, e o
sujeito e sua estrutura, trata-se de fazê-lo
depender disto. Isso é possível,
pelo que lhes peço admitir e seguir-me
ao menos por um tempo, que o
sujeito tem a estrutura da superficie, pelo
menos topologcamente defnida.
Trata-se, pois, de apreender, e isso não
é difícil, como o corte engendra
a superfície. É isso que comecei a exe
mplificar para vocês, no dia cm
que enviando-lhes, como tantos outros
volantes em não sei qual jogo,
minhas superfcies de Moebius, também lh
es mostrei que essas supcrficies,
se vocês as cortarem de uma determin
ada maneira, tornam-se outras
superfícies, quero dizer, topologicam
ente definidas e materialmente
aprcensívcis como mudadas, pois estas
não são mais as superfícies de
Moebius, pelo simples fto desse corte
mediano que vocês praticaram,
mas uma fixa um pouco torcida sobre
ela mesma, mas exatamente
uma faixa, isso que chamamos de faixa,
tal como esse cinto que tenho
na cintura. Isso para lhes dar a idéia d
a possibilidade da concepção
desse engendramento, por algum moti
vo invertido em relação a uma
primeira evidência. É a superfície, pensa
rão vocês, que permite o corte,
e eu lhes digo, é o corte que nós podemos c
onceber, para tomar a perspectiva
topológica, como engendrando a superf
ície. E isso é muito importante,
pois, afnal, é ali talvez que iremos poder
apreender o ponto de entrada,
de inserção do significante no real, con
statar na praxis humana que é
porque o real nos apresenta, se posso
dizer, superfcies naturais, que o
significante pode entrar nele.
Certamente a gente pode se divertir f
zendo essa gênese com ações
concretas, como se chama, a fim de le
mbrar que o homem corta, e que
Deus sabe que nossa experiência é be
m aquela em que se valorizou a
importãncia dessa possibilidade de cort
ar com uma tesoura. Uma das
imagens fundamentais das primeiras metá
fras analíticas, os dois dedinhos
que saltam sob a batida das tesouras, se
rve, certamente, para nos incitar
a não negligenciar o que há de concre
to, de prático, o fato de que o
homem é um animal que se prolonga
com instrumentos e a tesoura
está no primeiro plano. A gente poderia s
e divertir refazendo uma história
natural; o que é que acontece com aque
les animais que possuem o par
de tesouras em estado natural? Não é p
ara isto que os conduzo, e por

-347 -
A Ide ntiicação

isso mesmo; aquilo a qu


ê nos leva a fórmula, o h
omem corta, é bem mais
nesses ecos semânticos
que ele se corta, como se
diz, que ele tenta cortar
caminho • Tdo isto deve,
aliás, se juntar em toro
da fórmula fndamental:
vão te cortá-lo! Efeito d
e sigifcante, o corte fi
primeiro para nós, na
análise fnemática da lin
guagem, essa linha tem
poral, mais precisament
e
sucessiva dos significant
es que os habituei a cha
mar até agora de cadeia
signifcante. Mas, o que
vai acontecer, se agora
lhes incito a considerar
a própria linha como c
orte original?
Essas interrupções, e
ssas individualizações, e
sses segmentos da linha

que se chamavam, se
quiserem, então fonem
as, que admitiam, pois,
serem separados do q
ue precede e do que s
egue, fzer uma cadeia
ao
menos pontualmente in
terrompida, essa geom
etria do mundo sensíve
l,
à qual, na última vez,
os incitei a se referire
m com a leitura de Je
an
Nicod e a obra assim i
ntitulada, vocês verão,
em um capítulo central
,
a importância que tem
essa análise da linha e
nquanto pode ser, poss
o
dizer, defnida por suas
propriedades intrínsec
as, e que comodidade
lhe teria dado a coloc
ação em primeiro pla
no radical da fu nção
do
corte, para a elaboraç
ão teórica que ele dev
e arquitetar com a mai
or
dificuldade e com contr
adições que não são ou
tras senão a negligênci
a
dessa função radical. Se
a própria linha é corte, ca
da um de seus elemento
s
será, portanto, secção
de corte, e é isso, em s
uma, que introduz ess
e
elemento vivo, se posso
dizer, do signifcante, qu
e chamei de oito interior
,
a saber, precisamente o
laço. A linha se recorta.
Qual
é o interesse dessa obse
rvação? O corte levado s
obre
o real aí manifesta, no re
al, o que é sua caracterí
stica
e sua função, e o que ele
introduz em nossa dialéti
ca,
contrariamente ao uso
que dele se fa z, que o r
eal é
o diverso, o real, desde
sempre, eu me servi de
ssa
fu nção original, para d
izer-lhes que o real é o
que
retorna sempre ao mes
mo lugar.
O que isso quer dizer, se
não que a secção de cor
te, em outras palavras,
o significante sendo a
quilo que nós dissemo
s, sempre diferente del
e
mesmo

-348 -
Lição de 30 de maio de 1962

oreal revelado,
palavras, só o real o fecha
mas,
Uma curva fechada é

como vêem, mais radicalmente, é pr


eciso que o corte se recorte. Se
nada já não o interrompe, imediatam
ente após o traço, o signifcante
toma essa frma, que é, propriament
e flando, o corte. O corte é um
traço que se recorta. É somente depois
que ele se fcha sobre o fndamento
que, se cortando, ele encontrou o real,
o qual só permite conotar como o
mesmo, respectivamente aquilo que se
encontra sob o primeiro, depois o
segundo laço. Encontramos, ali, o nó qu
e nos dá um recurso a respeito do
que constituía a incerteza, a hesitação
de toda a construção identifcatória
-vocês o perceberão muito bem na articu
lação de Jean Nicod - ele consiste
no seguinte, é preciso esperar o mes
mo para que o sigifcante consista,
como sempre se acreditou, sem se dete
r sufcientemente no fto fndamental
de que o sigcate, para engendrar a d
iernça que ele sigca orgnalente,
a saber, o momento, aquele momento q
ue, asseguro-lhes, não poderia se
repetir, mas que sempre obriga o sujei
to a encontrá-lo, aquele momento
exige, portanto, para alcançar sua f
rma significante, que ao menos
uma vez o signifcante se repita, e es
sa repetição não é outra senão a
frma mais radical da experiência da
demanda. O que é, encarnado,
o signifcante, são todas as vezes que a
demanda se repete. Se justamente
não fosse em vão que a demanda se
repete, não haveria significante,
porque [não haveria] nenhuma deman
da. Se, o que a demanda encerra
em seu laço vocês o tivessem, nenh
uma necessidade de demanda.
Nen huma necessidade de demanda,
se a necessidade está satisfita.
Um humorista exclamava, um dia: "Vi
va a Polônia, senhores, porque,
se não houvesse Polônia, não haveria
Polonês!". A demanda é a Polônia
do significante. Eis porque eu seria b
astante levado, hoje, parodiando
esse acidente da teoria dos espaços ab
stratos, que fz com que um desses
espaços - e agora existem cada vez ma
is numerosos, nos quais não creio
precisar interessá-los - chama-se de e
spaço polonês, chamemos hoje o
significante de signifcante polonês, iss
o evitará chamá-lo o laço [le lacs],
o que me pareceria um perigoso encor
ajamento ao uso que um de meus
entusiastas, recentemente, acreditou
dever fzer do termo lacanismol
Espero que, ao menos enquanto cu vi
ver, esse Lermo, manifestamente
tentador, após minha segunda morte,
me seja poupado ! Portanto, isso
que meu significante polonês está de
stinado a ilustrar, é a relação do
signifcante consigo mesmo, isto é, a no
s conduzir à relação do sigifcante
com o sujeito, se é que o sujeito pode
ser concebido como seu efeito.

- 349 -
A Identicação

Já observei que, apar


entemente, só há signifi
cante, toda superfície
onde ele se inscreve se
ndo-lhe suposta. Mas is
so é, de algum modo,
figurado por todo o siste
ma das Belas Artes, que
esclarece algo que os
leva a interrogar a arquit
etura, por exemplo, sob
esse viés que lhes fz
74
[tro mpe
d'oeil], perspectiva. E n
ão é por nada que acen
tuei, num ano em que
as preocupações me parec
em bem distan tes de preo
cupações propriamen te
estéticas, sobre a anamo
rfse, quer dizer, para aqu
eles que não estavam
lá antes, o uso da fuga
de uma superfície para
fazer aparecer uma
imagem que, certament
e, estendida é irreconhe
cível, mas que, de um
certo ponto de vista, se r
ecompõe e se impõe. Ess
a singular ambigüidade
de uma arte sobre o que
aparece, por sua nature
za, poder se ligar aos
plenos e aos volumes, a
não sei qual completude
que, de fto, revela-se
sempre essencialmente
submetida ao jogo dos pl
anos e das superfcies,
é algo tão importante, in
teressante, quanto ver t
ambém isso que dela
está ausente, a saber, tod
o tipo de coisas que o uso
concreto da extensão
nos ofrece, por exemplo,
os nós, de fato concreta
mente imagináveis de
realizar numa arquitetura
de subterrâneos, como t
alvez a evolução dos
tempos nos dará a conhe
cer. Mas é claro que jama
is nenhuma arquitetura
sonhou em se compor e
m torno de um arranjo do
s elementos, das peças
e comunicações, até das
cores, como alguma cois
a que, no interior de si
mesma, faria nós. E, n
o entanto, porque não?
É exatamente porque
nossa observação de que
"não existe significante se
não sendo-lhe suposta
uma superficie", se rever
te em nossa sín tese, qu
e vai buscar seu nó, o
mais radical disso que o
corte, de fto, comanda, e
ngendra a superfcie,
que é ele que lhe dá, co
m suas variedades, sua
razão constituinte. É
bem assim que podemos
apreender, homologar es
sa primeira relação da

essas repetições,
esses retornos na forma
do toro, esses laços que
se renovam fzendo o
que, para nós, no espaço i
magnado do toro, apresent
a-se como seu contoro.
Esse retorno à sua orige
m nos permite estruturar,
exemplifcar de forma
maior um certo tipo de r
elações do signifcante c
om o sujeito que nos
permite situar em sua opo
sição a função D da dema
nda e aquela de a, do
objeto a, o objeto do dese
jo, D, a escansão da dem
anda.
Vocês puderam observa
r que, no grafo, vocês têm
os símbolos seguintes:
s(A) , A, no estágio sup
erior S (/) , $<>D [$ bar
rado corte de D], nos
dois estágios in termediár
ios, i (a) , m, e do outro l
ado $< >a ($ barrado

-350 -
Lição de 30 de maio de 1962

corte de a], o fntasma, e d. Em nenhum


a parte vocês vêem ligados D e
a. O que isso traduz? O que é que isso re
fete? O que isso suporta? Isso
suporta primeiro o seguinte, é que o que vo
cês encontram em compensação,
é $<>D, e que esses elementos do tes
ouro signifcante no estágio da
enunciação, eu lhes ensino a reconhecê-
los, é o que se chama de Tri eb,
a pulsão. É assim que frmalizo, para vo
cês, a primeira modifcação do
real em sujeito sob o efeito da demand
a, é a pulsão. E se, na pulsão,
não houvesse já esse efeito da deman
da, esse efeito de signifcante,
esta não poderia arl icular-se cm um esque
ma tão manifestamente gamatical.
Fa ço expressamente alusão ao que aqui,
suponho, todo mundo habituado
[experl] às minhas análises anteriores;
quanto aos outros, eu os remeto
ao artigo Trichc mzd Tricbschicksale,
que estranhamente traduziram
aqui por "avatares <l as pulsões", sem dúvi
da por uma espécie de refrência
confusa aos efeitos que a leitura de tal te
xto produziu na primeira obtusão
da referência psicológica. A aplicação do
signifcante, que hoje chamamos,
para nos divertirmos, de signifcante polo
nês, à superfcie do toro, vocês
a vêem aqui, é a frma mais simples do
que pode se produzir de uma
maneira in finitamente enriquecida por
uma seqüência de contornos
enrolados, a bobina propriamente dita,
aquela do dínamo, na medida
em que, no curso dessa repetição, o circ
uito é feito em torno do buraco
central.
Mas, sob a forma em que vocês vêm aqui
desenhada, a mais simples,
esse circuito é feito igualmen te - o sublin
ho, esse corte é o corte simples
- de tal maneira que aquilo não se reco
rta. Para figurar as coisas, no
espaço real, aquele que vocês podem vi
sualizar, vocês a vêm até aqui,
nessa superfcie apresentada a vocês,
essa fa ce do lado de vocês do
toro; ela desaparece, em seguida, sob a
outra fce, por isso que ela está
pontilhada, para retornar deste lado aq
ui. Um tal corte não apreende,

-351 -
A Identicação

por assim dizer, absolut


amente nada. Pratique
m-no sobr uma câmara
de � voê vrão, no fm,
a câmara abrta de uma
ca maneira, trasfrada
em uma superfcie duas v
ezes torcida sobre ela me
sma, mas não cortada
em dois. Ela torna, se po
sso dizer, apreensível u
ma maneira signifcante
e preconceitual, mas que
não deia de caracterr um
a espcie de apreensão
à sua maneira do radical
da fga, por assim dizer, a
ausência de qualquer
acesso à apreensão,
no que concerne ao se
u objeto no nível da

demanda. Pois, se defni


rmos a demanda por ist
o, que ela se repete e
que ela não se repete s
enão em fnção do vazio
interior que el a cerca
- esse vazio que a suste
nta e a constitui, esse va
zio que não comporta,
lhes assinalo de passag
em, nenhum jogo de qua
lquer modo ético, nem
rdiculamente pessimista,
como se existisse um pior
excedendo o ordinário
do sujeito, é simplesme
nte uma necessidade de
lógica abecedária, se
posso dizer - toda satisfç
ão apreensível, quer a si
tuem sobre a vertente
do sujeito ou sobre a vert
ente do objeto, fz fl ta em
relação à demanda .
Simplesmente, para que
a demanda seja demand
a, a saber, que ela se
repita como signifcante,
é preciso que ela seja de
cepcionada. Se não o
fsse, não existiria supor
te para a demanda

'
I
;

,. ____

-352 -
Lição de 30 de maio de 1962

Mas, esse vazio é difrente daquilo


do que está em questão, no que
concerne ao a, o objeto do desejo. O a
dvento constituído pela repetição,
o advento metonímico, o que desliza, é
evocado pelo próprio deslizamento
da repetição da demanda; a, o objeto
do desejo, não poderia de modo
algum ser evocado nesse vazio, cerc
ado aqui pelo laço da demanda.
Ele deve ser situado no buraco que ch
amaremos de nada fu ndamental,
para distingui-lo do vazio da demanda,
o nada onde é chamado ao advento
o objeto do desejo. O que queremos
frmalizar, com os elementos que
lhes trago, é o que permite situar no
fa ntasma a relação do sujeito
como $, do sujeito infrmado pela d
emanda, com esse a, enquanto
que, nesse nível da estrutura signific
ante que lhes demonstro no toro,
na medida em que o corte a criou ne
ssa fo rma, essa relação é uma
relação oposta, o vazio que sustenta a
demanda não é o nada do objeto
que ela cinge como objeto do desej
o, é isso o que está destinado a
ilustrar para vocês essa referência ao
toro.
Se fsse apenas isso que vocês pudes
sem
tirar daf, seria muito esforço para um resul
tado
pequeno, mas,