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AULA 01

00h00 a 00h10

Primeiramente, boa noite a quem está aqui e àqueles que estão assistindo a essa gravação também!

Filosofia da Mulher é um curso que eu pretendo que tenha onze aulas, não menos que isso. Se
precisarmos de mais uma aula ou outra, caso fique restando alguma coisa do conteúdo para falarmos, eu
pedirei a vocês. Mas eu acredito que em onze aulas consigamos.

Tem bastante coisa para falar, mas têm muitas outras para fazermos analogias ou comparações com
a nossa própria vida. É claro que, quando falamos de um curso de filosofia da mulher, ele deve ser vivido de
maneiras diferentes: uma, por um homem que esteja assistindo, e, outra, por uma mulher que também
esteja assistindo. De alguma forma, quando uma mulher se propõe a pensar filosoficamente sobre a sua
própria condição, por assim dizer, ela está pensando sobre um objeto do qual faz parte. É diferente de
falarmos sobre filosofia da Idade Média, Metafísica ou qualquer outro tema que filosófico que, num primeiro
momento, não se dirige diretamente a nós. Mas quando propomos o tema “Filosofia da Mulher”,
principalmente para as mulheres que estão aqui ou nos assistindo, trata-se de pensar sobre a sua própria
realidade.

Um primeiro aviso que faço, ou uma dica, é que, em relação qualquer coisa que eu esteja falando
aqui sobre mulher, as mulheres, que estão nos assistindo, façam imediatamente uma comparação do
conceito com a sua própria vida, com a sua própria realidade, porque nós temos um problema na filosofia.
Na Filosofia falamos de conceitos universais. Todas as vezes que eu me referir à mulher estarei falando de
uma maneira conceitual. Porém, a realidade humana não é um conceito. Aliás, esse é o problema dos
conceitos e também é o problema das palavras - mulher, aliás, adora palavras, não é verdade?

Muitas vezes o sujeito está trabalhando dia e noite, fazendo tudo pela casa e, de repente, a mulher
olha para ele diz: você não disse que me ama! E dificilmente ele vai dizer isso porque os homens funcionam
numa outra rotação e, de algum modo, ele está dizendo com os atos, não com as palavras, mas as palavras
são importantes para as mulheres. Eu lembro que o Olavo de Carvalho sempre dizia que o pecado, lá no livro
Gênesis da Bíblia, de Adão e Eva entrou no mundo devido às palavras de uma serpente. De um lado, Eva tinha
uma realidade que era um paraíso e, do outro, o discurso de uma serpente. Eva preferiu o discurso...

Esse é outro aviso: tomar muito cuidado com o encanto das palavras. Às vezes, nós nos detemos aos
encantos e não à realidade que esses encantos escondem de nós.
O terceiro aviso é que, dado que nós vamos falar sobre a mulher tornando-a um objeto filosófico, é
claro que nós vamos trazer coisas para o nível intelectual. Como eu falei, as mulheres vão ouvir esse curso e
fazer uma aproximação e uma comparação com a própria realidade. E os homens? O que vão fazer os homens
com o que vão ouvir durante o curso? Alguém tem alguma idéia, dado que é um objeto estranho para ele? É
um objeto com o qual ele não tem o mesmo tipo de proximidade que as mulheres têm. Cada vez que eu falar
qualquer coisa sobre a mulher, vocês mulheres vão olhar para dentro e dizer “ah, é assim!” ou “não, não é
assim!”. E os homens, o que vão fazer quando estiverem ouvindo estas coisas sobre a mulher? Como os
homens vão saber se isto está certo ou errado? Vocês vão olhar para vocês, e os homens?

Alunas:

1 – Como é que eles ouvem de...


2 – Eu acho que não tem certo nem errado...

Professor Tiago: Sobre a mulher ou sobre a qualquer coisa?

Aluna 2: Eu acho que eles vão sentir conforme a percepção deles, né?

Como que a gente faz para conhecer alguém? Por exemplo, eu digo “alguém” porque quando falamos
de mulher estamos nos referindo a uma realidade pessoal, não estamos falando de mesa, cadeira, número.
Conhecer estas coisas exige um método. Se você procurar a definição de triângulo no dicionário, você
encontrará a definição. Se procurar qualquer outro tipo de realidade, no dicionário, com a qual o ser humano
lida, você terá lá uma descrição ou uma definição. E se você for procurar lá qual é a definição ou o que é a
Mariana? O que você faria para se apropriar da realidade Mariana? Como eu faço para conhecer alguém?
Isso serve tanto para homens quanto para mulheres.

Aluna: Convivência?

Professor Tiago: Convivência. A convivência me entrega o quê a respeito daquele? Por que eu não
consigo conhecer sobre a realidade Mariana com a mesma brevidade de tempo com a qual consigo conhecer
a realidade mesa , ou a realidade direito ou de qualquer outro objeto?

Aluna: Porque cada Mariana é de um jeito.

Professor Tiago: Por que cada Mariana é de um jeito? Mas cada mesa também não é de um jeito? Ou
a definição de mesa serve para qualquer mesa? Mesa é mesa, existe uma definição de mesa. Mas ela pode
ser grande, pequena, de madeira ou de metal, não importa: é mesa. Se você usar em termos aristotélicos,
em que a forma é a função da coisa, mesa é mesa, mas Mariana não é Mariana, mulher não é mulher... Seja
com a Mariana, ou com o Tiago, como eu faço para conhecer uma realidade humana, dado que uma realidade
humana é diferente uma da outra?
Veja, quase todos aqui já tiveram algum tipo de desilusão amorosa. Aqui, quem tem mais de vinte
anos já teve uma desilusão amorosa, já teve alguma cicatriz de relacionamento e, numa dessas possíveis
desilusões, você pode ter dito: “eu achei que conhecia o fulano”. Por qual motivo você achou e não
conheceu? Por que eu não conheço um ser humano do mesmo modo como eu conheço mesa, dado ou
número? Por que não temos medo de mesa, mas temos de ser humano? Por que muitas vezes, em nosso
primeiro impulso, temos um pé atrás? Ninguém tem pé atrás com uma mesa, mas temos pé atrás com ser
humano que não conhecemos. O que tem o ser humano, o que tem nessa realidade, que se aplica tanto à
mulher quanto ao homem, que a torna tão diferente, específica, particular?

Aluna: 1 - Individualidade?

2 - Imprevisibilidade?

Professor Tiago: Imprevisibilidade? É uma boa palavra. Eu sei o que esperar de um tigre, se eu colocar
a mão pra dentro da cerca, e ele estiver com fome, ele fará o que fez, é fato. Você não tem de brigar com o
tigre só pelo fato dele ter realizado a sua espécie. Agora, se eu aceno para uma pessoa, eu não sei muito bem
o que ela pode fazer. Se ela vai acenar de volta, se vai virar a cara, ou seja, existe uma imprevisibilidade no
ser humano? Por que isso acontece?

Parece que há um consenso aqui segundo o qual a realidade humana é uma realidade diferente de
todas as outras. Quando você compra um cachorrinho, seja de qual raça for, bonitinho, feroz, entre outras,
você sabe o que esperar do cachorro. Quando você olha um gato, um cachorro ou uma planta, você sabe do
que tudo isso é capaz. Se você tem um poodle, você sabe que ele pode abanar o rabo, latir para você, pedir
carinho, fazer xixi no canto da parede, mas você sabe, por exemplo, que ele não pode fazer uma conta de
matemática. Você já conhece as possibilidades de um cachorro. Você conhece as possibilidades de uma
mesa, você sabe tudo o que uma mesa pode fazer, mas não sabe tudo o que seu marido pode fazer, ainda
que esteja há mais de dez anos dormindo do seu lado.

00h10 a 00h20

Mas você sabe que ele não pode, por exemplo, fazer uma conta de matemática. Você já conhece as
possibilidades do cachorro; você conhece as possibilidades da mesa, você sabe tudo o que a mesa pode fazer.
Mas você não sabe tudo o que o seu marido pode fazer, [embora] ele esteja lá há dez anos dormindo do seu
lado. Lembram-se do filme Dormindo com o inimigo? Você não sabe o que a sua irmã pode fazer. Aliás, eu
diria mais: você não sabe do que você é capaz [de fazer]. Imagine a seguinte cena: você chega em sua casa e
há um bandido, um ladrão dentro da sua casa, que está ameaçando seu filho, prestes a cometer uma
violência com seu filho, o que você faria? Você tem certeza de qual seria a sua reação?
Aluno: Nem isso.

Nem isso. É ótimo que você diga isto, porque já começamos do ponto que eu gostaria mesmo [de
começar]: confessando a nossa própria ignorância a respeito de nós mesmos. Você pode dizer que faria
alguma coisa, [que reagiria], mas, será que você, diante de uma cena dessas, não ficaria paralisada, perderia
todas as forças, ficaria parada, plantada? Ou será que você pularia em cima do bandido? Será que você sairia
correndo, chamaria o vizinho e voltaria? Será que você pegaria uma faca na cozinha e iria em direção a ele?
Será que você gritaria? O que você faria? Você não tem certeza do que você faria? Há uma zona misteriosa
dentro da sua própria realidade — você como indivíduo — que você desconhece; quem dirá, a respeito do
outro. Nem de você mesmo você sabe prever as atitudes, prever algumas coisas em situações como essas,
como você vai prever o outro?

E o que são as relações humanas senão previsão, expectativa — e por isso frustração. Chegou o dia
do aniversário de casamento, [há a expectativa de que] ele fará alguma coisa, mas ele não faz [risos]. E agora?
Você leu realmente a realidade dele, e por isso percebeu que dali não sairia qualquer coisa diferente do que
ele fez em todos os outros anos? Você criou uma expectativa ilusória que não tinha nenhuma base na
realidade? Onde foi o erro? Por que nos equivocamos tanto, erramos tanto nas relações humanas? Por que
nos frustramos, perdemos amizades? Voltamos àquela outra pergunta: o que há na realidade humana que a
faz tão diferente das outras realidades (poderíamos dizer [realidades] estáticas, no sentido de que sabemos
o que esperar de todas elas)?

A realidade humana é uma realidade dramática. Por que dramática, em que sentido estou usando a
palavra dramática? Dramática no sentido Maria do Bairro, [novela] mexicana? Não, provavelmente não, pois
eu não usaria a palavra nesse sentido. Em que sentido estou usando a palavra dramática? De onde vem a
palavra drama? Como os gregos chamavam seus teatros?

Aluno: Comédias e tragédias?

Que são dois tipos de dramas. Um drama basicamente é uma peça de teatro que pode ser trágica ou
cômica. E o drama encena para o público um fato após o outro, encena uma sucessão. Quando digo que a
realidade humana é dramática, estou dizendo que, em nossa realidade, acontece uma coisa após a outra e
não podemos prever todos os fatos que sucederão aos acontecimentos. Por isto, só o ser humano tem
história. Cachorros não têm história: se eu tomasse um Lhasa Apso do século XVII, ele agiria igual ao Lhasa
Apso do século XXI. Conseguem perceber isso? É o mesmo cachorro, a mesma espécie. Ele não muda, o Lhasa
Apso não precisa contar a sua história para saber o que mudou de sua espécie.

Porém, se tomarmos um grego do século IV e o colocarmos na frente de um paulistano do século XXI,


eles se acharão muito estranhos, porque são seres praticamente de mundos diferentes. Aliás, são
efetivamente seres de mundos diferentes, porque o ser humano tem história. Resumindo essa primeira
parte: as realidades com as quais nos encontramos, como mesa, tigre ou número são realidades prontas; o
ser humano é uma realidade em aberto. Ou seja, nós somos feitos de realidade e irrealidade. Disso decorrem
duas conclusões, (1) se sou uma realidade em aberto, nada em mim está pronto e acabado. Quem já não
usou a frase: eu sou assim, você tem de me aceitar? [risos] Quem nunca usou, em uma discussão, desde a
época em que morava com os pais ainda, [a expressão]: mãe, eu sou assim, é disso que eu gosto? E, passados
alguns anos, não gosta mais daquilo pelo que tanto brigou. Quantas coisas — quando você pensa em sua
juventude e adolescência — você deixou de fazer, deixou de gostar, deixou de ser? Quantas coisas você
colocava para você como impossíveis e hoje está fazendo exatamente aquelas que considerava impossíveis
de fazer? Quer dizer, nós somos uma realidade feita de irrealidades, de coisas por cumprir, de coisas a serem
realizadas, de coisas a serem escolhidas, eleitas.

Aqui precisamos lembrar de uma explicação aristotélica — já que estamos em um curso de filosofia,
precisamos recorrer sempre a esses mestres. Aristóteles nos ensinava a diferença entre ato e potência. O
que é uma potência? É uma possibilidade, não realizada ainda. Por exemplo: você nasceu, você tem a
potência de andar, a potência de falar, a potência de segurar um garfo, todas as potências que consideramos
humanas. Porém, se ninguém falar com você, se ninguém colocá-lo de pé e ajudá-lo a andar, você não falará,
não ficará em pé. Ou seja, das potências com as quais nascemos — todos nós, por sermos humanos —
algumas delas tornam-se atos. Quando um bebê nasce, nós o olhamos e pensamos (quem já não pensou
assim, ao pegar um bebê no colo?) que aquele poderá ser o próximo presidente da república, por exemplo,
ou o próximo chefe do PCC; podem vir muitas coisas daquele bebê. Há algo definido nesse sentido, por
exemplo, aquele bebê será isso ou aquilo? Não. Um bebê representa potência em aberto. À medida que
vamos crescendo e amadurecendo, vamos escolhendo algumas dessas potências, outros também vão
escolhendo para nós (como nossos pais) e vamos atualizando algumas dessas potências.

Temos, por exemplo, a potência de falar outras línguas, mas se não pararmos para estudar, não
falaremos, e essa potência jamais se tornará ato. Quando vamos envelhecendo — esta é a curva da vida —,
vamos invertendo a lógica, vamos tornando-nos menos potência e mais ato. Uma pessoa de idade, [uma
pessoa] velha é uma pessoa com muitos atos já, com muitas coisas atualizadas e poucas potências. A mulher
que está com setenta e cinco anos e com vontade de ser mãe: é algo que não será mais possível, a não ser
que ela adote [uma criança], por exemplo. Ou está com quarenta anos e querendo ser ginasta olímpica: não
será possível. Essa potência não existe mais para ela, teria de ter pensado nisto com dez ou doze anos.

As potências então vão sendo eleitas (você quer esta, escolhe aquela), e outras vão ficando para trás.
Poderíamos abrir um parêntesis e dizer que é engraçado escolhermos mais ou menos as mesmas potências
que nossos pais escolheram — fechemos o parêntesis, mas é mais ou menos isso que acontece. O fato é que
vamos escolhendo e atualizando o que queremos, isto é a liberdade humana: atualizar [as potências] que
queremos e deixando outras para trás. Quando chega na velhice, temos um salto de atualizações. Esta é a
primeira conclusão do que eu tinha acabado de falar: somos uma realidade feita de irrealidades.

A segunda conclusão (2) é que por isso não posso julgar ninguém. Não posso julgar ninguém porque
a pessoa não morreu ainda, e até que ela morra, alguma coisa ainda pode acontecer. Dizemos que fulano é
assim, [mas na verdade] fulano está assim. E se ele não estiver no próximo ato? No drama que é a vida dele,
se no ato seguinte ele decidir ser diferente? Como se pode determinar que ele é assim, se nem mesmo ele
pode fazer isso por ele mesmo?

00h20 a 00h30

[19:52] Fulano está assim. E se ele não estiver no próximo ato? No drama que é a vida dele, se no ato
seguinte [0:20] ele decidir ser diferente, como você vai determinar que ele é assim, se nem mesmo ele pode
fazer isso por si mesmo? Em grande parte, os problemas das relações humanas são porque nós queremos
que o outro nos considere uma realidade em aberto, mas nós consideramos o outro uma realidade fechada.
Não é? “Você tem de me entender, eu estou tentando te evoluir”. Não é? Mas o outro está fechado já, o
outro é aquilo, não vamos esperar nada diferente. Então, essas duas conclusões primeiras são bem
importantes: a realidade humana é feita de realidades e irrealidades. Disso decorre que estou hoje — seja
com a idade que eu esteja agora — realizando algumas potências e deixando outras para trás. Então, veja,
por essa reflexão que estou fazendo, não dá para chegar lá aos cinqüenta [anos] e falar: “Puxa, eu não queria
estar vivendo isso”. Falar uma coisa dessas é confessar o seguinte: “Eu não dirigi a minha vida até aqui. Não
fui eu que fiz as escolhas das potências que eu gostaria de ter feito. Portanto, sou uma vítima da minha
própria vida”. E aí você tem só uma saída: comprar um monte de livros de auto-ajuda e tomar doses cavalares
daquilo lá ad æternum, até o fim da sua vida. Você vai precisar de doses cavalares de auto-ajuda. Conhecem
aquele verso do Manuel Bandeira? Tem um poema dele, o Pneumotórax. Eu adoro esse poema. Então
começa lá: “A vida inteira que podia ter sido e que não foi”. Às vezes, uma vida vai sendo contada nesses
termos porque a história do poema, o sujeito chega lá para fazer o exame, o pneumotórax, e daí ele pergunta:
“E aí, doutor, qual é a situação?”, e o doutor fala: “Agora só dá para tocar um tango argentino”. Quer dizer,
foi. Daí o Bandeira escreve: “A vida inteira que podia ter sido e que não foi”.

Então, sim, é preciso resgatar — isso é importante —, a autoria sobre a própria vida. Você pode ficar
com aquela coisa de adolescente até o fim de seus dias: “Eu não pude fazer porque meu pai não deixou”, “Eu
não pude ser porque minha mãe não permitiu”, “Eu não pude realizar porque meu marido sei lá o quê”.
Então, essa história fica para os consultórios para adolescentes. Na vida adulta, temos de assumir e arcar
com o que escolhemos e com o que não escolhemos porque se você não quiser escolher, essa é uma escolha.

Estamos falando de realidade humana. Portanto, já falamos de julgamento, já falamos de


irrealidades. Como vou fazer, então — a pergunta que eu tinha feito anteriormente —, para conhecer a vida
humana, dado que isso é a vida humana? Como faremos então para não ficar simplesmente desesperadora
a convivência entre os seres humanos? Como faremos para ter o mínimo conhecimento a respeito de nós
mesmos e dos outros sendo que a realidade humana é desse tipo: uma realidade irreal, uma realidade em
aberto? Como nós fazemos então para nos localizarmos nisso tudo? Qual é o método? Tem um método? O
que precisamos saber para conhecer?

Veja, estou aqui agora montando com vocês um edifício para daí chegar na mulher. A mulher é uma
realidade humana. Estou fazendo esse caminho com vocês, de como fazemos para conhecer qualquer
realidade humana até chegar na realidade específica da mulher.

Ao mesmo tempo que nós somos feitos de irrealidade, não dá para dizer que não temos uma
estrutura. A vida humana tem uma estrutura. Por que podemos dizer isso sem medo de ser feliz — que nós
temos uma estrutura? Ou a sua existência é inteiramente caótica? Não, né. A sua realidade é uma realidade
estruturada. Claro, você pode estar existencialmente perdida. Quem já não chegou num psicólogo ou alguma
coisa assim e: “Ah, doutor, me ajuda, não sei o que fazer”? OK, isso é uma coisa pontual da sua existência,
um capítulo da sua história, mas em termos de condição humana você tem uma estrutura. Você não pode
voar; você não pode trocar de sexo, é claro, existem métodos artificiais para isso, mas você nasceu num sexo
etc. Por que podemos dizer, sem sombra de dúvidas, que nós temos uma estrutura? Porque a realidade
inteira é estruturada. Não é assim? Aliás, sinônimo de realidade é estrutura. Tivemos bastante pensadores
ao longo da história, muitos filósofos, principalmente da modernidade para cá que tentaram inserir dentro
de nós o elemento do caos. “A vida é o caos”. Mas eles inseriram isso dentro do livro deles e continuaram
vivendo a vida deles na ordem da estrutura da vida.

A realidade tem uma estrutura. Veja, você pode dormir todas as noites porque você confia que no
dia seguinte o mundo estará lá. Não é assim? É uma coisa boa e é verdade. Você confia que no dia seguinte
o sol vai amanhecer, vai aparecer o sol etc., as coisas vão estar funcionando mais ou menos como sempre
funcionaram, você não vai acordar no corpo de outra pessoa, você não vai acordar com um ano a menos —
puxa, né, uma coisa um pouco chata, mas enfim —, mas o fato é que você até permite-se desligar-se. Pelo
menos essa é a idéia do sono: você se desliga um pouco da realidade nesse sentido. Você se permite esse
desligar para você descansar porque você confia plenamente que no dia seguinte as coisas continuarão
acontecendo como elas acontecem. Então, ainda que você queira escrever o contrário, você confia na ordem
da realidade. Essa ordem que nós vemos, por exemplo, nas estações do ano; que vemos no nascimento,
crescimento, envelhecimento e morte; na semente que cai no solo e aquilo acaba germinando uma árvore,
depois um fruto etc. etc. Quer dizer, nós somos inspirados e temos a marca da ordem. A realidade é ordem,
dado que nós somos um elemento da realidade, nós, seres humanos, nós também somos ordenados. O que
acontece com a pessoa que vai atrás de um medicamento, vai atrás de uma ajuda de um psicólogo é que ela
está existencialmente desordenada, mas ela é uma estrutura. A estrutura está precisando de ajuda, mas ela
tem uma ordem.

Então, veja, no plano filosófico, no plano intelectual, nós podemos, sim, conhecer as realidades
humanas — seja mulher, homem, criança, o meu amigo, a minha esposa —, se eu encará-las como uma
estrutura. E como toda estrutura, tem lá os seus componentes estruturais. Quais são os componentes
estruturais de uma vida humana? O que está presente em toda vida humana e é condição, inclusive, para o
surgimento da vida humana? Quando nasce uma criança, ela tem todos esses elementos já presentes porque
isso é estruturante da vida humana. Quem poderia aqui me dar um exemplo de um elemento que é
estruturante?

Aluna: O sexo.

Tiago: O sexo. Pronto. O sexo é um deles. Então, ser homem ou ser mulher. Vamos chamar, para
fazer uma pequena diferenciação, de condição sexuada. O homem como espécie tem uma condição sexuada,
é diferente de sexo. Sexo é aquela prática que gera neném. Mas aquela prática é uma pontinha da condição
sexuada. Nós não somos amebas nesse sentido. Nós temos, sim, o sexo, temos uma projeção e o ato sexual
é uma parte como se fosse a ponta do iceberg, ele é uma parte dessa condição. Então, dito isso, mesmo
aquela pessoa que nunca praticou sexo não deixou de ter uma condição sexuada, ou seja, ela não deixou de
ter um sexo.

Aluna: De ser homem e de ser mulher.

Tiago: De ser homem e não ser mulher. Quer dizer, o sacerdote que nunca praticou qualquer tipo de
ato sexual continua sendo um homem. A freira religiosa que nunca praticou um ato sexual continua sendo
uma mulher. Quer dizer, existe a condição e existe o sexo. Aliás, um dos problemas do nosso mundo, bem
séculos XX e XXI, é que nós restringimos a condição sexuada ao sexo. Quando é que nos sentimos homem e
quando é que nos sentimos mulher? Na hora do ato sexual. Nós diminuímos em grande medida a nossa
condição. Estou querendo dizer o seguinte: por termos uma condição sexuada, que é muito maior do que o
sexo em si mesmo, todos os meus atos [0:30] como Tiago, homem, deveriam revelar a minha virilidade.
[0:30:04]

00h30 a 00h40

[29:40] Quando é que nos sentimos homem, quando é que nos sentimos mulher? Na hora do ato
sexual.

Nós diminuímos, em grande medida, a nossa condição.


O que eu quero dizer é o seguinte: por termos uma condição sexuada — que é muito maior do que
o sexo em si mesmo —, todos os meus atos, como Tiago, homem, deveriam revelar a minha virilidade. Todos.

Todos os atos da mulher, da condição sexuada da mulher, deveriam revelar a sua feminilidade.
Deveriam revelar as notas essenciais de sua condição sexuada — e não apenas o ato.

Se tanto os homens quanto as mulheres estão deixando para atualizar esta potência apenas na hora
do ato sexual, então temos um grande problema. Problema por assim dizer desarmônico em relação à nossa
própria condição. Tem algumas coisas aí que estão sendo inventadas neste mundo moderno, coisas que a
gente fica… ah, o que é isso aqui? Isso aqui é unissex, e serve pra ambos. Isso aqui é roupa pra qualquer um,
isso é pra todos, enfim, a gente está vendo aí uns modismos novos, realmente bem novos, mas que são
modismos, portanto vão passar. Mas vai continuar o probleminha: eu nasço num sexo, e preciso revelar este
sexo em todos os meus atos.

Então, veja, já adiantando na questão referente ao curso: você revela a sua condição sexuada em
todos os seus atos?

Quando você cozinha, quando você dirige, quando você cuida dos seus filhos? Quando você viaja,
quando você aconselha, quando você ganha conselho? Em todos os seus atos, para quem é mulher, existe a
marca do feminino? Para quem é homem, existe a marca do masculino, do varão?

Aluna: Isso significaria, por exemplo, que -- talvez seja um pouco preconceituosa a minha pergunta -
-, o homem que cozinha, por exemplo?

Tiago: Não tem problema nenhum. A questão é: como ele cozinha? Veja, ele pode passar o dia
cozinhando. Ele pode ser, inclusive, empregado doméstico. A questão é: ele consegue fazer isso com
virilidade? Ele consegue fazer isso como um varão deve fazer? Em grande parte, pra não dizer 90%, das
reclamações que eu escuto das mulheres que eu atendo, não são problemas com elas, mas são problemas
com os varões que não são varões. Tudo o que ela queria é que ele fosse um pouco mais... homem. Por quê?
Aí a gente já pode falar mais também uma coisinha. Porque a mulher é mais mulher quando está diante de
um homem. E o homem é mais homem quando está diante de uma mulher. É o que o Julián Marías chama
de "oposição disjuntiva": isto é dizer, nós confirmamos, ou engrandecemos nossa condição sexuada, quando
estamos diante do oposto. Não parece bem lógico isso? Daí precisarmos dos dois sexos. Porque... tentem
imaginar um reino em que só houvesse mulheres. O que poderia, então, atualizar nelas aquela condição, sem
que houvesse o estranhamento do diferente? Porque é nesse estranhamento, é nessa comparação, que você
atualiza a sua feminilidade. Então em grande parte das vezes, mulheres que estão aí descontentes nos
relacionamentos, coisa que eu tenho ouvido bastante, elas estão descontentes, na verdade, porque estão
sem o polo oposto. Estão sem aquele elemento que anuncia e denuncia uma condição sexuada oposta dela,
e que portanto ajuda essa mulher a instalar-se, como mulher, na sua condição sexuada. E aí pense, se isso
acontecesse no dia-a-dia, que maravilha seria o ato sexual. Se isso acontecesse em tudo na vida.

E, claro, o que eu estou falando não tem nada a ver com machismo e feminismo. Aliás, o que é o
machismo? Bom, o machismo é quando o homem já não está tão interessado assim na realidade feminina,
e portanto precisa dominá-la. Ele tem preguiça da realidade feminina. Quanto mais autoritário é o sujeito
com a mulher, mais preguiça ele tem dela. Essa, infelizmente, é uma grande verdade. E é por ter preguiça
que ele desiste, em alguma forma, de pensar nela. De imaginá-la. De ficar, no trabalho, pensando nela,
desejando-a, imaginando-a, completando a realidade dela dentro dele. Esse interesse que faz com que ele
se incline em direção à ela. Quando ele já não tem mais esse interesse, quando já não tem mais essa
inclinação pelo ser feminino, e principalmente por sua mulher, namorada ou esposa etc. Ele, portanto, volta
para o autoritarismo -- para a dominação. A mulher, aí, torna-se mais uma realidade a ser dominada.

E a dominação é típica do homem. Pensem nas guerras, na história, e se não era sempre isso que o
homem queria fazer. Conquistar, dominar. Então a mulher se torna mais uma realidade a ser conquistada e
dominada. Dominada ela, perde-se o interesse.

Então temos este outro problema: o problema do lado dos homens, que estão, sim, menos
interessados nas mulheres no geral. E aí, claro, vejam que interessante: quanto menos interessados estão
pelas mulheres, mais interessados em sexo. Mais desesperados por sexo os homens estão, e menos
interessados pela mulher. Isso é um outro problema.

E aí também podemos olhar a coisa pelo outro lado, [que eu falaria isso pra uma aluna de…
36:46] Mas você, mulher, é interessante? Sabe aquela coisa de obra, cheia de pedreiro? Pela qual você passa,
e todos olham? Né, você está passando -- as mulheres já devem ter vivido isto -- lá pela frente da obra e eles
param e, "ô", e mexem, ou você está passando pela rua mesmo, e você sente que o sujeito que acabou de
passar por você virou o pescoço. Essa virada de pescoço do homem tem de acontecer em todos os âmbitos
da vida. O homem está louco para virar o pescoço em direção a algo que desperte o seu interesse. E a mulher
nasceu para despertar interesse. Ela nasceu para chamar essa atenção. Não dos pedreiros, mas do homem
que ela quer. Há vários problemas que vamos abordar ao longo do curso, e a gente vai acabar falando até da
morte, vamos falar sim de casamento, maternidade, vida profissional da mulher, revolução feminista, etc.
Este, porém, é um dos problemas que penso serem fundamentais num curso assim:

Quando uma mulher escolhe um homem, em que está pautada essa escolha dela?

Eu vou lhes contar uma coisa que aprendi com uma professora minha, ela me dizia assim: "Tiago, o
homem que uma mulher escolhe mostra pra nós qual é a visão de paraíso que ela tem." Por quê? Quando
você vê mulheres sustentando e até aceitando certas condições de relação; sustentando e aceitando certos
tipos de homem que ninguém merece, nem a mãe dele. Por que que ela faz isso? Por que ela aceita certas
coisas e se põe naquela situação e justifica aquela decisão? Qual é a concepção de paraíso que aquela mulher
tem? É isso que ela merece até o fim dos dias dela? Essa é a concepção de paraíso?

(…)

ALUNA: Ela acha que ela merece aquilo.

Sim, porque de alguma forma ela acha que é aquilo que, pra ela, ela só pode aquilo. Há, também,
um outro princípio que eu sempre repito muito nas aulas de filosofia [e na ? principalmente 39:23], quem
está no Inferno está porque quer. O Inferno tem uma portinha bastante estreita, e você tem de bater
bastante para conseguir entrar. Então, quando você entra, é porque você quis muito ir pra lá. Já o Céu tem
um gargalo enorme, e é bem facinho: é aquela coisa do arrepender, do querer ser melhor, etc. Mas o Inferno,
olha, você quis mesmo ficar lá. E, claro, existem mil explicações para você querer ficar no Inferno, desde
familiares, até uma culpa que você carrega, etc. etc. etc. Sim, existem lá mil explicações. O fato, porém, é:
quem está no Inferno está porque quer. Quando eu digo "Inferno", não precisamos nem pensar no Inferno
ontologicamente falando, mas no Inferno no sentido de existência inferior. Porque existe um mínimo de
dignidade, na vida humana, e você não pode deixar baixar [deste mínimo.] A vida, por ser humana, exige uma
certa dignidade, uma certa altura. [40:22]

00h40 a 00h50

...enfim, existem lá várias explicações; mas o fato é, quem está no inferno está porque quer
[00:40:00] . Quando eu digo inferno não precisamos nem pensar no inferno ontologicamente falando, mas
inferno no sentido de existência inferior; porque existe o mínimo de dignidade na vida humana que vc não
pode deixar baixar daquilo; existe. A vida, exigi, por ser humana ela exige uma certa dignidade, uma certa
altura.

Uma vez eu estava conversando com um rapaz – trabalhei por um tempo na PUC, e trabalhava na
pastoral, então tinha muita oportunidade de conversar com universitários, fazer um tipo de aconselhamento
e etc. – e o rapazinho lá, segundo ano de engenharia, conversando comigo, e eu falei “Ah, o que vc espera
da vida? O que vc quer da vida? Fazendo o segundo ano de engenharia e tal, o que vc esta planejando?”, e
ele me dizia assim, “Ah, eu quero casar, eu quero me formar, eu quero ter uma boa casa, uma boa estrutura,
quero ter o mínimo de condições para viver, quero ter filhos e tal, poder viajar...” e falou ali os sonhos dele.
Aí eu escutei aquilo e disse assim pra ele, “Bom, todos os sonhos que vc me relatou agora um urso também
quer; ele quer uma ursa, ele quer uma caverna, ele quer ter ursinho, ele quer ter peixe perto pra não precisar
sofrer muito para pega-los, não é?, ele quer poder nadar longe...” – tem o aquecimento global para
atrapalhar um pouco a vida dele – “Ele quer, enfim, são sonhos que o urso também tem. Agora diga, conte
pra mim aqui...”. E daí ele ficou sem resposta e a conversa terminou ali, eu nunca mais vi o rapaz. Eu falei
“Diga pra mim um sonho que só o ser humano pode sonhar? Diga pra mim uma coisa que só a espécie
humana pode realizar?”. Por traz da minha pergunta estava o seguinte, se vc ficar atrás disso que se esta me
falando vc não se sentirá realizado; atrás da caverninha, do peixe, da ursinha, isso não basta. Esse é o
problema, esse é o drama, isso não basta. Vc pode brigar com isso, “mas eu queria que bastasse”, mas não
basta.

Então eu alterei um pouquinho o percurso aqui e volto agora, de novo, àquela pergunta; “Vc mulher
é interessante? Vc fala sobre o que com o seu homem?”; “Fulano, a pia esta pingando a três dias Fulano!”,
não é?, “Vc não vai fazer nada?”; “A empregada faltou, meu Deus do Céu, vc não sabe como foi meu dia
hoje?, blá, blá, blá”. E o sujeito por dentro, “Cala a boca, cala a boca, pelo amor de Deus, pára de falar!”. E
daí ele pára de prestar a atenção em vc mesmo, ele desliga, e vc continua falando, e ele continua a fingir;
gesticulando a cabeça num sinal de concordância e afirmação. E daí no dia seguinte ele te pergunta a mesma
coisa que vc falou no dia anterior, daí vc diz assim, “Mas eu te falei ontem!”; ele diz, “Ah é, vc falou mesmo...
é que esta no meio de tanta coisa que eu nem prestei atenção”. Veja, ele esta te entregando o ouro, “...eu
não prestei atenção em vc...”, “desculpa, mas não foi interessante”. E os homens estão sim, os homens
pioraram - eu estou aqui para falar em nome da minha classe - nós pioramos, porque nós estamos precisando
de muito estimulo para prestar atenção, os homens antigamente não; não precisavam te tanto estimulo.
Uma pesquisa a pouco tempo lançada nos EUA, mostrou que os homens de cinquenta anos tinham o dobro
da testosterona dos meninos de dezesseis. Veja a que ponto as coisas estão chegando. Quer dizer, a virilidade
na biologia... esse aviltamento do homem, essa diminuição – agora homem, a questão assexuada masculina
– esse aviltamento chegou na biologia, nunca tivemos tantos impotentes por aí também. O homem, sim,
diminuiu a expressão de sua condição sexuada, e aí a mulher esta com esse baita problema nas mãos.

Ela esta tendo que despertar um puta interesse – com o perdão da palavra –no sujeito e como
despertar esse interesse, ou seja, como ser interessante. Porque eu tinha feito a pergunta antes de... bom
nós somos uma estrutura, então, se nós somos uma estrutura assim como a realidade é estruturada, nós
somos capazes de conhecer uma estrutura. Quanto vc vai lá conhecer um prédio, por exemplo, o engenheiro
é capaz de te explicar, de te mostrar aquele prédio e vc é capaz de inteligir o prédio porque o prédio tem
uma estrutura. O ser humano, então – disso vcs concordaram – o ser humano tem uma estrutura por isso eu
posso compreende-lo; posso inteligir o ser humano. E eu tinha perguntado depois quais são os elementos da
estrutura humana; condição sexuada; raça; língua; idade; são formas do que o Julian Marías chama de
“formas da instalação humana”.
Quer dizer então que o ser humano, como todas as coisas na realidade, tem uma estrutura; a
estrutura do ser humano, os elementos dessa estrutura – deste prédio – são chamados de instalações; cada
uma dessas instalações é um desses vetores que eu estou falando. Condição sexuada; idade; língua; raça; são
instalações dessa estrutura. Qual é a diferença entre instalação e situação? Quer dizer, vc não esta situada
numa raça. [Aluna] “A situação muda”. A situação muda, vc esta numa situação esperando a próxima; a
instalação tem essa questão de uma certa permanência, ou, uma estabilidade – vc não muda de raça, a não
ser o Michael Jacson – vc não muda o tempo todo, no geral vc não muda, e quando faz, claro, é numa maneira
artificial; a língua, principalmente; classe a que pertence, quando as classes sociais eram mais sedimentadas,
hoje as classes são um pouco mais dinâmicas – vc consegue ascender e descer nas classes sociais.

Então conhecer uma realidade humana – e isso a gente já vai ganhando um programa do nosso curso
– conhecer uma realidade humana, como a mulher é uma realidade é uma realidade humana, é conhecer
basicamente essas instalações. Quer dizer, vc quer conhecer vc e qualquer outra realidade humana, bom,
dedique um tempo a conhece a condição assexuada, a religião, a idade, a raça, e por aí a fora. Vc quer
conhecer mesmo vc? quanto tempo vc dedicou pra conhecer a história do povo em que vc pertence? Quanto
tempo vc dedica a sua língua? Ela é uma das suas instalações, veja, quando vc fala, quando vc até esta dizendo
para o seu namorado, marido, o que vc esta sentindo, vc esta instalada numa língua; que se vc não domina,
vc não consegue expressar o que vc queria. Aliás, esse é um grande problema [aluna] “mesmo quando
domina”, é mesmo quando domina, a palavra tem uma certa insuficiência, tem limites a palavra, mas quanto
mais palavras e melhor eu conheço a minha língua, melhor eu consigo me expressar. Quer dizer, se antes os
homens da década de 20, para conquistar uma mulher, declamavam lá pra ela versos, seja de Camões, ou
qualquer outro poeta brasileiro, hoje nossos adolescentes têm Luan Santana; se ele quer dizer alguma coisa
que ele quer com a menininha, ele fala “te dei o sol, te dei o mar pra ganhar seu coração”, sei lá alguma coisa
assim; “meteoro da paixão”. Quer dizer, vc aperta essa laranja não sai suco nenhum.

Eu preciso conhecer as instalações sobre as quais a minha estrutura é posta como realidade humana.
E o que eu estou falando aqui, a proposta deste curso é conhecer uma dessas instalações em um de seus
polos; quer dizer, é conhecer a instalação assexuada num dos polos, a mulher. Mas olha, quantos outros vão
ficar de fora; conhecer os outros é conhecer antropologia, é fazer antropologia; antropologia filosófica, não
antropologia científica. Antropologia filosófica, nós estamos aqui pegando um pedacinho disso da realidade
humana, com toda a sua dimensão, com toda a sua riqueza, estamos pegando um aspecto da realidade
humana chamado a mulher.

Ao mesmo tempo que vc já deve ter escutado isso, por que há tão poucas filósofas mulheres? Por
que tem tanto filósofo? Por que que tem tanto livro sobre homem, filosofia e falando dos homens e tem
tanta pouca coisa escrita sobre mulher? [00:50:00] Na história da filosofia o homem não se interessou pela
mulher? ...
00h50 a 01h00

Na história da filosofia o homem não se interessou pela mulher? Onde está o interesse? “Ah, você
quer ler livros de filosofia sobre mulher?” Mas o que tem para ler a respeito? É uma realidade que, enfim,
não vale um livro de filosofia?

O homem se interessou pela mulher em duas dimensões, agora intelectualmente falando. Ele se
interessou, sim, filosoficamente, mas abordou de uma maneira acessória. Ele abordou, por exemplo, e a
filosofia tem muitos livros sobre isso, o corpo da mulher, amor, sexo - coisas que são temas filosóficos e que,
quando foram tratados ao longo da história da filosofia, obviamente acabaram tratando da mulher. Temos
sim um ou outro livro específico sobre a mulher, mas, se comparado com a dimensão do que já foi publicado,
obviamente é muito pouco. A mulher sempre figurou nesses momentos. Desde Platão até Aristóteles,
passando por Santo Anselmo aos filósofos do século XX e XXI, o objeto mulher aparece de maneira acessória
a estes outros temas, como o tema do amor. Isso não é tão ruim porque, numa outra dimensão, a mulher
sempre foi o objeto de maior interesse do homem e esta é a dimensão do lirismo, ou seja, da literatura, da
poesia.

Façam um apanhado de tudo que foi feito na literatura, tudo o que foi escrito, os grandes romances,
as grandes poesias, e veja se o tema, ou pelo menos o objeto do escritor, na grande parte das vezes, não é
uma mulher. Ou seja, a mulher funcionou, para a arte, como um objeto de desejo desse lirismo. O homem
tratou da mulher com lirismo, não com a aridez da filosofia. Isso conta a favor do homem, não contra. Pelo
fato do homem não ter tratado da mulher filosoficamente – como talvez muitas feministas talvez quisessem,
que figurassem mais capítulos sobre a mulher, “filósofas mulheres” -, o que elas não percebem é que o
homem sempre as tratou com lirismo, com poesia. Por que? Porque a mulher é objeto da sua imaginação.

A gente sabe que a poesia e a literatura são frutos da imaginação do homem. Quem aqui já leu Dom
Quixote, de Cervantes? Por que Dom Quixote faz o que faz? Por que ele enfrenta os monstros que, na
verdade, são moinhos de vento e segue com Sancho Pança enfrentando todas aquelas aventuras? Qual é a
força motriz de Dom Quixote? O cavaleiro que enlouquece no começo do livro, qual a justificativa dele para
passar tudo aquilo? A Dulcinéia, a sua musa, a amada.

Os homens de antigamente - e já vou dizer no começo por qual motivo a coisa mudou – pensavam
nas mulheres, imaginavam as mulheres e tratavam as mulheres com esse lirismo, como Dom Quixote trata
a sua amada Dulcinéia, que ele nunca vai ter, mas que não deixa de ser a gasolina para ele passar por todas
as aventuras. É aquela mulher que fica no pedestal e que precisa ser conquistada. Como acontece no amor
cortês. No final da Idade Média e começo da Idade Média isso aparece mais, essa coisa do homem conquistar
a mulher, galanteá-la.
Mas, hoje, vocês que são mulheres do século XXI, não estão sentindo esse lirismo todo, não é? Em
algum momento da história os homens pararam de tratá-la com lirismo e começaram a tratá-las de maneira
prosaica. A partir daí, o efeito é que surgiram mais livros de filosofia sobre a mulher, mais ensaios, mais
trabalhos acadêmicos e menos poesia, menos literatura. A mulher foi para o campo dos objetos filosóficos e
intelectuais do homem, como todos os outros. E a paixão do homem, a imaginação, o lirismo que ele tinha
por ela, foram para onde? Segundo Julian Maria, para o futebol.

Julian Maria disse isso no ano 2000. Ele afirmava que aquilo que o homem cultuava com relação a
mulher, ele cultua hoje no futebol. Aquela paixão, aquela devoção pela mulher, agora está direcionada para
o futebol. A mulher se irrita em grande parte das vezes porque ela sabe que não pode competir com aquilo.
Vá competir para você ver o que vai ganhar!

Nós chegamos num ponto que é ruim para os dois lados, tanto para o lado do homem quanto para o
lado da mulher. Mas já que estamos falando da mulher, vamos falar para o lado ruim da mulher: vocês estão
perdendo para o futebol. Por que? “Onde foi que nós erramos?” Cadê o entusiasmo do homem pela mulher?
Cadê aquele entusiasmo em que ele fica lá na frente da TV? “Eu tenho de ir ao estádio, eu tenho de ir!.” E
não basta assistir. Tem de assistir a reprise, os comentários. O jogo termina às seis horas, mas se estende até
meia noite porque têm todas aquelas análises, têm todos aqueles canais esportivos porque ele fez o pacote
máximo, da Sportv, da Espn. É o momento em que ele extravasa tudo e aquele lirismo atrofiado virou isso,
tesão por futebol. Que coisa! O que fazemos agora? Todo mundo aqui se torna torcedora, se inscreve numa
torcida organizada? Começa a decorar as escalações do Flamengo? Tudo isso pode ser soluções provisórias,
mas no fundo a mulher não queria estar lá. Provavelmente queria ele só para ela, e não no meio de cinqüenta
mil pessoas.

Veja, o lirismo saiu e a atitude do homem em relação à mulher se tornou prosaica. O que antes eram
duas condições sexuadas, que se atualizavam e se reforçavam uma diante da outra, e se complementavam
em grande medida, agora são rivais. Agora temos o machismo, temos o feminismo. Muitas vezes, dentro da
casa, os dois competem. Ou seja, os dois não se complementam. O fundo dessa competição é mais ou menos
isso que estamos falando aqui. Não sabemos bem o lugar em que um e outro devem ocupar. O homem já
não está mais virando a cabeça em direção à mulher, a mulher já não é mais tão interessante. Shakespeare
nunca esteve tão certo quando escreveu “A Megera Domada”, não é? Nós, filósofos, precisamos dizer a
verdade: as mulheres estão mais megeras que nunca, mais histéricas que nunca, precisam ser contidas, só
que não tem homem para fazer isso. Vocês vão a um show de sertanejo e vão entender o que estou falando.
Você vê aquela gritaria, aquele desespero. “Meu Deus, olha para mim Luan Santana! Eu vou morrer, vou ter
uma crise”. Tudo isso só tem um nome: histeria.

Histeria é você exacerbar a sua ilusão a respeito de alguma coisa , e isso como aquela onda que se
forma quando jogamos uma pedrinha na água: ela vai se expandindo, se afastando do seu centro, e precisava
ser contida. Mas essa contenção é o que significa o homem. A mulher diz “Amor, vamos fazer isso, isso e isso.
Trocar a cortina, arrumar a casa, chamar arquiteta.” E o homem responde “Espere. Não dá para fazer nem
cinco por cento disso.” Essa é a atitude de contenção. É a objetividade masculina que está em falta! Não tem
homem que gosta de ficar discutindo relação? Algumas vêem isso como vantagem, outras como
desvantagem – eu vejo como desvantagem. Quando o homem embarca na infinitude feminina e começa a
tomar para si também atitudes de infinito, de expansão, como é próprio da mulher, ele perde o seu elemento
distintivo. [01:00:05]

1h00 a 1h11min45

Quando o homem embarca na infinitude feminina e começa a tomar para si também atitudes de
infinito, de expansão, como é próprio da mulher, ele perde o seu elemento distintivo (a sua idiossincrasia de
homem), que é justamente o da finitude, o da decisão, o do limite, da contensão. Às vezes — e os homens
demoram para entender isso — tudo o que uma mulher quer é que ele defina alguma coisa. Que ele defina,
decida [as coisas], até mesmo quando a mulher está discutindo com o homem, no fundo, no fundo, ela queria
sentir aquela virilidade toda que diz “vamos fazer isto”, ou “você está errada, não vá para lá, vá para cá”.

Aluna: Ela falou que ela deixa o marido inseguro.

Está acontecendo uma terapia de grupo aqui [risos], as pessoas já estão pondo para fora.

Aluna: Sim, é verdade, e eu inclusive já ouvi isso dele, do meu marido.

Foi aquela dica de amigo, mesmo? [risos] Não deixa passar.

Aluna: Que ele era mais objetivo, e você está lutando contra você.

Claro, é extremamente complexo isso.

Aluna: Mas na verdade ele é que foi o errado [risos]

Vamos agora psicologizar a coisa aqui, passem meu telefone a ela depois, precisamos marcar um
horário individual [risos]

Aluna: Houve alguma outra paixão além do futebol?

Sim, futebol é aquela coisa do orgulho da maioria, da paixão nacional.

Aluna: Às vezes é o trabalho.

Claro, o trabalho funciona no lugar do futebol também.


Aluna: A moto.

A moto, claro. Existem muitas paixões que funcionam na verdade como um substitutivo ainda que
temporário, que não seria bem o que deveria ser feito, mas é substituição àquele lirismo que ficou vazio. O
homem está aqui para se projetar em direção à mulher. Quando ele não se projeta, quando ele não realiza e
atualiza esse lirismo, ele irá procurar isso ou pelo menos [irá] exercer isso de uma outra forma, em outras
áreas da vida. Então, sim, ele irá se apaixonar por outras coisas. Ele terá uma boa justificativa para não estar
apaixonado por você, [ele dirá] que trabalha muito, está passando por dificuldades, que o chefe quer comê-
lo, fica dando-lhe muito trabalho e o está ferrando etc. Há muitas justificativas, e às vezes — na maior parte
das vezes, inclusive — isso é inconsciente. Não é algo que ele pensou, pois seria maquiavélico, [ele não
pensou] que não ia dar mais atenção à ela: a coisa acontece. Como costumo dizer (essa é uma expressão
minha), nós hoje temos alma de algodão.

Nós não suportamos mais as coisas, não temos mais sustentação em relação à vida, não temos força.
E o que a mulher espera do homem, senão força? E o sujeito é de algodão. Ou seja, o sujeito não suporta a
tensão no trabalho, chega em casa e [desmonta]. O que aconteceu com o ser humano? Aquele homem que
ia à guerra, perdia um braço, matava cinco e voltava para casa, fazia churrasco, ficava com a mulher. Se o ser
humano foi capaz daquilo, você está me dizendo que você não consegue ir ao trabalho, aguentar um “mijão”
do chefe e chegar em casa tranquilo? Mas que ser humanozinho que você ficou, que homúnculo você se
tornou: é um homenzinho mesmo. Assim, a principal função do homem em relação à mulher não tem como
ser exercida. O Julián Marías diz o seguinte sobre o homem: “O homem não é forte, o que revela a condição
do homem é ter de ser forte”. É diferente.

A mulher sente-se segura quando ela percebe que ele está buscando isso, que ele está preocupado
em ser isso: em ser a fortaleza. Se ele é a fortaleza — de novo falando com os pares, os opostos —, é claro
que a mulher não precisa ser a fortaleza, mas ela pode ser a graça, a leveza: é nesse lugar que a mulher sente-
se melhor e não no lugar de xerife. Aliás, ela se acaba fazendo isso. [Mas ao contrário,] ela tem de ficar no
lugar de [possibilitar] que, quando o sujeito sai do trabalho, [ele fica] louco para voltar para casa, pois entrar
em casa é entrar em um ambiente leve. Mas se esse ambiente não está leve, o problema é com a mulher. Se
esse ambiente é pesado e cansa tanto quanto o dia de trabalho dele, há alguma coisa muito errada. Podemos
culpar um ou podemos culpar o outro, o fato é que [torna-se] um ciclo vicioso: ele não está sendo a fortaleza,
a mulher está tendo de arcar com pesos que não precisaria arcar — porque mulher, arcando com peso,
envelhece, fica chata, fica “crica” — e o homem não suporta mulher “crica”, não suporta a mulher
reclamando de cansaço, e parte em busca de outras alternativas. Isso é mais velho que andar para frente.

É um ciclo vicioso, o homem não está conseguindo ter de ser forte e a mulher está tendo de cumprir
com [o papel], tapar alguns buracos na vida e ao tapar esses buracos, ela trai a si mesma. Ela trai a
feminilidade, ela trai a essência dela. Julián Marías diz “o homem é a gravidade, a mulher, a graça”. Quando
você olha para um homem, e ele pode ter vinte anos de idade (escutem o que estou falando, sei que soará
estranho), você teria de enxergar ali alguma gravidade. Ou seja, homem tem de ser sério, senão, não inspira
confiança. Mulher tem de ter graça, mulher tem de ser diferente de mim. Eu quero ficar com ela porque ela
é a graça da minha vida, por isso preciso dela: porque ela é a graça da minha vida. E ela precisa de mim
porque sou o ponto da vida dela, sou o limite. Eu atualizo a condição dela e ela atualiza a minha.

Aluna: Então um depende do outro, na verdade.

Um depende do outro. Existe um conto de D. H. Lawrence, escritor inglês, chamado A Raposa. Ele
conta a história de duas amigas que acabaram indo viver juntas (não tinham uma relação afetiva), eram
amigas e ficaram muitos anos vivendo juntas, sem homens. Vá ver o resultado disso, D. H. Lawrence mostra
isso, quando aparece um estrangeiro na fazenda — elas moram em um sítio — e aparece um jovem de vinte
anos, um estrangeiro que pede para ficar na casa delas. Enfim, a relação toda muda com a presença de um
masculino no meio daquele ambiente feminino, e todas as confusões começam a acontecer pela presença
do masculino. E tudo começa a mexer com elas [pela] presença do oposto, [tudo] o que estava adormecido
pela presença do igual. Ou seja, você querer ficar apenas com o que é igual, é de alguma forma você repetir
o Inferno de Dante.

Falando catolicamente, o homossexualismo é pecado e Dante, quando escreveu A Divina Comédia,


no Inferno, ele colocou os homossexuais em um dos círculos do Inferno e a condenação deles é ficar
eternamente dando uma volta. O que Dante quis dizer com isso é “mais do mesmo”, o homossexual quer
mais do mesmo. Não estou fazendo nenhuma condenação, estou apenas usando isso como uma metáfora.
Quando você se inclina em direção ao oposto é porque você não quer mais do mesmo. Você quer o oposto
para atualizar o que há em você, justamente isso; é o oposto que atualiza.

Tudo bem até aqui? Não? Mas aquele não-positivo, e não aquele “socorro, vou me jogar do sexto
andar”; é o não do “vou pensar”. Hoje e na próxima aula eu indicarei livros para vocês, irei apresentar uma
bibliografia. Vou começar apresentando — eu citei bastante Julián Marías, um filósofo espanhol, que
escreveu dois livros sobre mulher — A Mulher e a sua Sombra.

Aluna: Há em português?

Não, só em espanhol. E não tem edição nova, você vai procurá-lo em sebos. Este livro é simplesmente
maravilhoso, o outro dele trarei na próxima aula. O outro livro, que não possui nem capa, pois é uma raridade
— hoje estive pesquisando [no site] Estante Virtual e vi que há três exemplares — chama-se A Mulher Eterna,
é um livro lindo. Querem ler um livro lindo, leiam esse livro. As pessoas dizem que gosto de promover “a
gincana do livro”, eu indico e vocês se viram para encontrar [risos].
Aluna: Quem é o autor?

Esse livro é de Gertrud Von Le Fort, ela escreveu coisas realmente maravilhosas, este é um de seus
livros mais lindos, em que ela analisa a mulher dessa perspectiva: a eternidade. É algo bem lindo. Na próxima
aula, trarei mais dois. Nas próximas aulas — hoje falei bastante de homem e mulher — a ideia é que eu fale
mais sobre a mulher, sobre a instalação da condição sexuada feminina. Temos muita coisa para conversar,
muita coisa para vocês olharem para dentro de si, ninguém precisa sair daqui rasgando as vestes,
desesperada, [pensando] o que fez com sua condição [risos], o curso é para isso. Dado que vocês todos são,
assim como eu, realidades em aberto, o tempo está a nosso favor, mas seria bom não ficar perdendo muito
tempo. Somos uma realidade que pode sofrer mudanças ainda.
AULA 02

00h00 a 00h10

Tiago: Muito bem. Será que nós conseguiríamos resumir em poucas palavras, em poucos minutos, a
aula da semana passada? O que foi que ficou da aula da semana passada?

Aluna: Para mim, que a mulher tem de ser graça, o homem, gravidade. E que nós temos de ser
interessantes, basicamente.

Tiago: Ressoou durante a semana.

Aluna: Inteira!

Tiago: O que mais? Conhecer uma realidade humana é a mesma coisa do que conhecer um outro
tipo de realidade? Existe alguma especificidade na realidade humana? Existe ou não existe? Existe, né. Qual
é o caráter distintivo da realidade humana, que conhecer uma realidade humana não é a mesma coisa do
que conhecer uma mesa ou um gato ou um país?

Aluna: É a imprevisibilidade.

Tiago: Imprevisibilidade. O que mais?

Aluna: O ser humano é feito de potências.

Tiago: Isso. Potência e ato. Mas tudo isso daria para dizer que nós somos aquela realidade feita de
irrealidades. Então, diferente da mesa que está pronta e acabada, do gato que já está mostrando todo o
seu ser na sua espécie de gato que está atualizada ali em todos os atos dele, nós não estamos mostrando
hoje tudo o que podemos ser. Então, quando eu me deparo com alguém, seja homem ou mulher, estou me
deparando num sentido com alguns atos e noutro sentido, com algumas potências, ou seja, possibilidades
de ser. Por isso eu falei na semana passada que é muito complicado você julgar um ser humano a não ser
que ele já tenha morrido. Quando ele morre, você permite o julgamento porque a forma final dele já foi
assumida, quer dizer, não dá para mudar depois da morte. É por isso que o caixão tem seis lados, porque
ele não pode expandir nem para frente, nem para trás, nem para um lado, nem para o outro, nem para
cima e nem para baixo. Então, fechou a forma dele. Antes da morte, qualquer um pode mudar, inclusive no
último minuto de vida. Sempre dou o exemplo do bom ladrão lá na crucificação. Quando Cristo foi
crucificado, tinha o bom e o mau ladrão. Olha que interessante: bom ladrão. Por que ele é bom ladrão?
Porque um minuto antes de morrer, ele se arrependeu e isso fez dele o bom ladrão. E é santo inclusive: São
Dimas. Mas até ali, se eu o tivesse julgado um pouquinho antes, eu teria errado no julgamento. Então, nas
relações humanas, principalmente casais, amigos, família, nós geralmente escorregamos nesse erro. Nós
julgamos as pessoas que estão próximas a nós o tempo todo tomando-as como realidades prontas e
acabadas que elas não são. E nós não somos. Eu quero que o outro me enxergue como uma realidade em
aberto, mas eu enxergo o outro como uma realidade pronta. Eu quero que o outro entenda que estou
tentando melhorar, mas eu já o entendi e já sei que ele é assim e que ele não vai mudar. Não é assim?
Conhecer uma realidade humana tem esses probleminhas, tem essas coisas que diferem de uma outra
realidade qualquer que exista aqui no mundo.

Eu falei também semana passada que para compreender alguém, seja homem ou seja mulher, é
preciso um pouco de imaginação — não sei se enfoquei bastante isso, vamos enfocar hoje —, quer dizer, a
base do conhecimento humano, do conhecimento que temos uns dos outros é a imaginação. Por que a
base do conhecimento um do outro é a imaginação? Já pensou se você conseguisse se colocar no lugar do
outro antes de tomar qualquer decisão a respeito dele ou proferir uma sentença sobre ele? Já pensou se
toda vez você conseguisse se colocar no lugar dele? E entender perfeitamente desde o ponto de vista dele,
do centro dele, da biografia dele, compreender por que ele agiu assim ou assado? Quer dizer, como não
podemos fazer isso, nós temos um recurso que permite que a existência e as relações humanas sejam um
pouco menos dolorosas, um pouquinho mais seguras do que o breu total, que é a imaginação, tentar
imaginar o outro, imaginar por que ele age assim. E para eu imaginar cada vez mais certo, ou seja, imaginar
corretamente o outro, é preciso que eu tenha dados do outro. E os dados do outro com os quais vou
imaginá-lo e imaginar o que ele vai fazer amanhã, o que ele vai fazer no aniversário do nosso casamento
etc. etc. e não errar feio na imaginação é preciso... Às vezes somos pegos de surpresa porque só erramos
feio na hora de recolher os dados [pois] não recolhemos dados, nós projetamos sobre a realidade. Na
psicologia existe um problema que se chama projeção: quando começo a enxergar em todo mundo os
defeitos que existem em mim. Por exemplo, todo mundo é mau. Por que? No fundo eu sou mau. Todo
mundo é meio sacana, mas no fundo sou eu que sou sacana. Daí começo a enxergar isso em todo mundo.
Isso é um probleminha que não é só da psicologia, é da antropologia também. O que estamos fazendo aqui,
de alguma forma, é antropologia filosófica, falei isso semana passada. Então, tenho de projetar menos e
recolher mais, recolher dados da realidade, quer dizer, nós temos de ser neste ponto, em relação aos seres
humanos que queremos conhecer e amar, mais receptivos e menos emissivos.

Aluna: Contemplar, então.


Tiago: Contemplar. A palavra é contemplar. Na contemplação, tento segurar um pouquinho a
minha ansiedade de emitir informação: “Você tem de me entender”; “Você tem de saber o que acontece
comigo”; “Você tem de me amar”; ”Você tem de isso”; “Você não presta atenção em mim”, e sempre daqui
para lá [de dentro para fora 0:07:07]. Em que medida nós gastamos tempo com aqueles que dizemos
querer amar tentando recolher os dados, tentando recebê-los? Porque amar energicamente falando é isso,
é acolher o outro dentro da sua vida. E não é acolhê-lo como você acha que ele pode ser, mas é acolhê-lo
como ele é. Isso não serve para justificar: “Ah, ele é assim, nunca vai mudar mesmo, então tenho mais de
aceitar que ele é desse jeito”. Não, não é nesse sentido. É no sentido de você amar a realidade do outro: o
outro é assim, o outro tem essas idiossincrasias, o outro tem esses “defeitos”, que na filosofia não falamos
defeitos, pois defeito é tipo: “Essa mesa está bamba”, nós falamos vícios. Aceitar os vícios do outro, as
virtudes do outro que você não tem e às vezes temos inveja. Quer dizer, a contemplação amorosa, é uma
expressão do Olavo de Carvalho, é não apenas — e olha só que bonito, que sutil diferença — você aceitar o
outro como ele é, você acolhê-lo como ele é, mas é você querer exatamente como ele é, isso é contemplar
amorosamente. Porque existe o contemplar que você senta lá na frente e fica olhando e recolhendo aquilo
para dentro de você e contemplar amorosamente é querer que ele seja exatamente daquele jeito. Então,
disso que estou falando como um ideal de amor para aquela coisa do: “Você tem de me satisfazer”; “Você
tem de me ouvir”; “Você tem de atender os meus pedidos”, é uma brutal distância.

Como diria a minha professora, várias vezes ela disse isso para mim: “Tiago, nós temos de nos
preocupar, numa relação a dois, a ser solução para o outro, não problema”. Já pensou se os dois
estivessem preocupados com isso: em ser solução? “O que ele precisa que eu faça agora, que se eu fizesse
ajudaria muito a vida dele? Então é isso que vou fazer. Por que vou ser mais um problema?” E a outra
pessoa idealmente imagina que maravilha se ela também pensasse nisso: “O que posso fazer para
solucionar o problema dela?” O Olavo de Carvalho diz que amar é fomentar a existência do outro na
eternidade. Olha que bonito: fomentar a existência do outro na eternidade.

00h10 a 00h20

[9:49] ...você nunca deve começar pelo por quê. É preciso primeiro que você entenda o que é isso;
o que ele está dizendo; o que a vida lhe está falando. O que é esse problema que você está tendo. Aí,
depois, você pergunta pelo como e pelo por quê.

O como e o porquê serão ainda muito mais fáceis de distinguir, de se encontrar, se você tiver um
quê bem resolvido.

Se a filosofia pode lhe ensinar algo bem concreto, sem ficarmos filosofando, aqui, sobre coisas
muito complicadas, abstratas e longe de nossa realidade -- papo de academia; a filosofia pode lhe ensinar,
bem concretamente, isto: a se apegar ao quê. E, no caso das pessoas, não é a quê, mas sim a quem. Quem
é aquele que está do seu lado? Quem é o seu filho? Quem é a sua mãe? Quem é a sua irmã? Quem é a sua
amiga? É o quem que importa, no caso da realidade humana.

E, como eu estava dizendo no início, se todas as outras coisas da realidade podem ser conhecidas
pelos diferentes métodos científicos que foram inventados pra cada uma delas -- a biologia para a vida no
geral, a geografia para isso, a história para aquilo, a psicologia, etc --, a realidade humana como um todo,
de uma vida que seja, só pode ser plenamente conhecida pela presença. De resto, estaremos no campo do
conceito. Então, veja: quando falamos sobre psicologia, em sociologia; quando nós falamos em história --
ciências humanas, que estão falando sobre realidades humanas --, elas estão falando, ainda, desde um
ponto de vista conceitual, de uma perspectiva conceitual. E o conceito estará mais ou menos correto
quanto mais próximo estiver -- do quê?: da realidade; da concretude da vida. É assim mesmo.

Ora, qual foi a grande contribuição -- e o grande erro -- de Freud para a humanidade? Não
podemos negar que ele foi um gênio. Assim como também não podemos negar que Marx também tem
gênio, e que viu coisas importantes a respeito da realidade. Mas os dois erraram no mesmo ponto. Seja
Freud na psicologia, seja Marx na sociologia -- são dois gênios; numa perspectiva, mas erraram feio na
outra.

ALUNA: Na abstração conceitual...

TIAGO: Na abstração conceitual, e em tomar a parte como o todo.

Vejam, Freud -- a gente vai falar um pouco sobre a mulher na perspectiva do Freud -- era
psiquiatra. Então, quando ele olhou para a realidade humana, e quis falar sobre a realidade humana, qual
foi o viés que ele tomou? Ele era um psiquiatra. Qual foi o viés que ele tomou?

ALUNA: As mulheres histéricas?

TIAGO: A anomalia. A doença. O olhar de Freud é o olhar patológico. Qualquer um que tenha já
feito análise freudiana sabe que o terapeuta, o analítico, adora ficar cutucando as anomalias. Porque o
olhar de Freud era esse, era para a patologia. Ele foi um grande terapeuta, e ajudou efetivamente muita
gente; mas o problema de Freud foi, ao passar para o plano teórico, ao escrever as suas obras, tomar aquilo
como a realidade. Então todo mundo tem tesão pela mãe. É complicadíssimo afirmar uma coisa dessas, né?
Então a criança, ao sugar o seio, já demonstra libido. Ora, raios, se isso aconteceu alguma vez eu não sei,
mas é óbvio que isso não é a regra, que isso não é (...) o senhor deve ter visto em algum lugar, alguma vez,
isso daí, e deve ter tomado isso como a realidade. E aí, vejam: todo mundo que estudou psicologia
freudiana depois, e pegou os conceitos de Freud a respeito do ser humano, ficou com o conceito e não com
a realidade.
Estou usando Freud, aqui, como exemplo, para na verdade ele servir de antiexemplo. Ele é o
exemplo do antiexemplo. Ele é o antimodelo do que nós temos de fazer para conhecer uma realidade
humana, seja a pessoa que você ama, seja seu amigo, quem for: nós não podemos fazer como ele fez. E não
estamos excluindo sua contribuição. Porque, sim, quando formos falar de histeria, disso ou daquilo,
realmente, ele contribuiu muito para o assunto. Mas teve esse erro que deixa tudo muito complicado. Quer
dizer, para Freud chegar ao ponto de falar que Napoleão Bonaparte fez tudo o que fez porque tinha inveja
do irmão mais velho, é uma forçação de barra... então, como ele tinha raiva do irmão, depois ele descontou
essa raiva no mundo. E por isso que ele construiu um império -- porque tinha raiva do irmão. Dá pra
explicar a coisa toda desse jeito? Claro que não, né. Então é uma forçação de barra.

Freud é o exemplo de um erro moderno: o erro que nós cometemos. Vejam: o que é o erro da
paixão? — não que a paixão, em si, seja um erro, claro. Porém, no que erramos quando estamos
apaixonados? Tomamos a ideia que temos da pessoa pela realidade.

"Ela é aquilo que eu estou pensando." Não, ela não é aquilo que você está pensando. Não é isso?
Ela não é o que você está pensando. Eu sei que você pensa (...) e no começo da relação ele é lindo. Eu sei...
Tudo bem que, no começo, ele também se esforça um pouquinho pra ser mais lindo, a gente sabe disso
também. Mas, desde antes de começar a relação, ele já deu sinais de quem ele é. Mas é que, no começo,
você operou com um princípio de seleção que é um princípio de seleção apaixonado. E a gente fala às
vezes: "Só casando pra saber como é a pessoa mesmo, etc. etc.". Claro! No casamento você vai ter, não a
pedagogia da presença, você vai ter a radicalidade da presença -- de manhã, tarde e noite. E aí aquela ideia
da paixão vai se confrontar com a realidade concreta -- e aí vamos ver o que sobra.

Então, assim, quando a gente fala: "ah, um namoro longo, conhecer a pessoa por um tempo, etc."
É nesse sentido; tentando prever alguns possíveis erros. É permitir conhecer o outro, permitir que, enfim,
muita coisa aconteça antes de uma decisão importante, como casamento ou coisas do tipo. Então, veja, o
que a gente faz, muitas vezes, em relação ao outro: vejam no trabalho. Chegou lá uma funcionária nova no
lugar em que você trabalha. No mesmo dia, você pode pensar, "não fui com a cara dela." Né? No mesmo
dia você pode pensar, "Nossa, ela parece ser muito querida." E a pessoa se mostra uma psicopata com o
passar dos meses. A gente erra. Erra nas apreensões. Erra nos conceitos. Porque não olhamos muito bem
para a realidade do outro.

Então, isso era importante ser dito, porque o tempo todo eu estou falando de mulher como
conceito, mas o curso só sera realmente efetivo, além de mais interessante, algo além de um conteúdo
intelectual, se quem estiver ouvindo comparar isso com a realidade. Enxergar isso na realidade. "Ah, como
é que você sabe tanto sobre Platão, ou Aristóteles ou Julían Marias?" Não é por que eu tenha decorado
palavras deles, mas porque eu vi o que eles viram. E quando a gente vê, a gente não esquece. Uma coisa é
você saber de cor passagens de livros e de filmes, etc. Outra, você ter visto a mesma coisa que aquele autor
viu, e ser impressionado por aquilo de uma forma tal que jamais esquecerá. Veja, é mais fácil você lembrar
da frase de um livro ou de um lugar que você conheceu? Do lugar, claro, por que você viu. O livro funciona
quando você vê. As palavras são tão fortes que nos convidam a ver, e quando vemos, é que não
esquecemos. E você não tem que se lembrar de palavra por palavra do livro mesmo. Você tem que se
lembrar da realidade que o livro aponta.

Então a primeira grande dica é: não vamos cometer o mesmo pecado que Freud cometeu. Tomar a
parte pelo todo. Sim, existem problemas sexuais, claro. Mas isso é uma parte, e acontece com uma
determinada porcentagem das pessoas. Isso não as define. Julían Marias diz que Freud teve a grande
contribuição, isto bem positivo, de trazer o sexo para o assunto do dia. Isso é realmente louvável. Porque,
já há um bom tempo, ninguém tocava no assunto. Nós sabemos que, na Idade Média bem como na Idade
Moderna, o assunto passava por debaixo dos outros, e nunca tinha vindo para o primeiro plano. E aí Freud
o pega e traz, novamente, para o primeiro plano. Isso foi importante. Agora, o problema é: o ser humano é
definido por esta área da vida? Não, né.

O que Freud fala sobre a mulher? Ele fala pouco da mulher. Mas só para começar, pra vocês
saberem: a primeira coisa que ele fala da mulher, é que ela tem "complexo de castração." Ele só fala coisas
não muito positivas, a bem da verdade. O que é o complexo de castração? A mulher não tem o membro da
virilidade. Ela é castrada. Isso gera, já, na mulher, uma impotência. E, então, o recalque dessa impotência --
usando termos psicanalíticos --, a repressão dessa impotência, faz com que a mulher seja histérica, megera,
etc. Essa é a explicação freudiana. Ou seja, estruturalmente, todas vocês são castradas. [20:19]

00h20 a 00h30

... elas tinham modelos biográficos para seguir. Então, por exemplo, aquela filha de burgueses do
século XIX que passavam uma vida aprendendo a tocar piano, tricotando, fazendo crochê, e etc.; esperando
o sr. Darcy para casar com ela... o livro da Jane Austen etc. Nossa tinha muitas mulheres excelentes nesse
modelo, que era só olhar assim e fazer a comparação com elas, se inspirar, “quero ser igual a ela”, etc.
Todos os tipos de biografias - que são muitas os tipos de biografia – esse é um tipo de biografia feminina
tinha lá os seus modelos, mas e hoje? Qual modelo de mulher que vocês têm que seja excelente
profissional, excelente mãe, excelente esposa, excelente qual? Percebe-se os modelos de mulher por aí se
esses modelos não são fragmentários; ela é uma excelente profissional, ela é uma excelente mãe, ela é
uma excelente esposa, uma excelente amiga, uma excelente filha; mas cadê a excelente tudo? Cadê o
modelo de mulher para dar conta do século 21, por assim dizer? Daquilo que vocês mulheres pediram –
porque deixa eu jogar na cara, que vocês pediram.

Eu tinha uma amiga que trabalhava comigo numa escola que eu dei aula, e ela dizia assim: “eu
tenho ódio das feministas; eu não estava lá rasgando sutiã naquela manifestação; eu tenho ódio quando a
gente se encontrava sábado sete da manhã no encontro da escola e etc... mas eu tenho ódio daquelas
feministas”. Eu não estava lá pedindo por isso... mas enfim, muitas mulheres antes de vocês pediram, em
muitas coisas elas tinham razão, claro, talvez em outras elas tenham exagerado um pouquinho; só que
vocês estão aí arcando agora com isso; pediram muito e enfim, agora vocês não só dividem a conta e etc.,
mas vocês têm aí que procurar um modelo, e esse modelo não tem, não existe. Aluna: “espero que exista”.
Olha só é linda é rica, o que mais que ela quer? É mãe! Parece boa mãe, na revista Caras sempre parece; ela
parece boa mãe, boa esposa, etc. Aluna: “parto normal!”. Você se sente uma péssima mulher por ter feito
uma cesárea aquela coisa toda, não estou à altura de Gisele, é bilionária, agora ela é bilionária. Então será
que são esses os modelos que a gente tem então? Gisele Bündchen é uma excelência na vida espiritual?
Tem essa pequena dimensão da vida – a vida espiritual. Quer dizer a mulher - nós vamos falar isso mais pra
frente - mas assim, nas últimas aulas nós vamos tentar dar conta da dimensão religiosa do ser feminino, se
preparem assim para a gente falar sobre infinitude. Sobre coisas que a mulher é símbolo e que quando vejo
uma mulher religiosa, ou que se oponha a dimensão religiosa, de maneira bem exacerbada, ou marcada, é
no mínimo, muito estranho; que aquilo não condiz com a forma dela, a forma dela não é uma limitação; é
uma ilimitação a forma feminina, o que denuncia a condição assexuada da mulher é a infinitude, é a
expansão, é a falta de limite que o homem, em oposição determina daí, põe o limite, põe o ponto final – e
fala “isso dá”, isso “não dá”, e etc., “não você não pensou nesse detalhe”, e etc.

Então, sim, a mulher está passando por esta crise, e daí a mulher estando em crise, o homem está
em crise. Por que, os homens não estão em crise? Aluna: “você acha que começou com a mulher, ou não
tem como?”. Olha se a gente fosse rastrear a coisa e dar realmente nomes aos bois, a culpa é dos homens,
porque de alguma forma, a mulher só aventou ocupar o espaço que o homem deixou vazio. Não foi isso
que aconteceu na 1° Guerra Mundial? Quando é que as mulheres saíram para trabalhar? Quando os
homens foram para a guerra, tiveram que abandonar seus postos de trabalho, foram para a guerra e a
economia dos países desenvolvidos na guerra parou, e as mulheres foram lá; algumas serem enfermeiras
na guerra, outras trabalharem no banco, e por ai a fora. Aluna: “faltou a mão-de-obra”. Faltou mão de obra
masculina. E dali a mulher gostou daquilo, uma certa independência, etc.; “Quer saber, eu não vou voltar
para a casa!”. Só que para ter acontecido isso, outras coisas aconteceram antes; uma certa negligência do
homem com o que condiz com a condição assexuada masculina, e que a mulher foi tomando espaço
porque, se não tem ninguém que faça, fazemos nós. Não é isso que você faz no dia a dia? Está aqui a minha
mulher que faz exatamente isso, “a torneira esta pingando”, e falo, “ah, eu sei”, mas eu não arrumo, ela vai
uma hora de repente e aparece arrumada a torneira, ela deu um jeito lá, não sei como. Mas é exatamente
isso, não é assim? Pode falar... e as vezes ela resolve sozinha o negócio e tal. Então é exatamente assim que
acontece, a gente não faz uma coisa a mulher vem lá e faz e acaba fazendo.

Então algo aconteceu antes, o homem abriu ali, deixou, não quis mais uma certa coisa, uma certa
porção da realidade e a mulher veio e acabou ocupando. Então é claro que essa crise afeta o homem,
porque se você lembra da aula da semana passada, você é mais mulher quando você está diante de um
homem. Se você está em crise, o homem que é mais homem diante de você, fica em crise. Então nós temos
os dois em crise hoje, podemos poupar mais um, mais outro, mas os dois estão em crise; os dois estão
padecendo de modelos. Quer dizer, não é uma coisa que se percebe assim bem senso comum agora; tá
faltando homem nessa vida, não tá? Homem mesmo, com “h” maiúsculo e tal, aqueles que você respeita,
assim, quando chega; homens talvez como seu avô, ou o seu pai, ou o bisavô e etc. Você deve ter uma
imagem de um grande homem assim na sua cabeça.

Então, esses nossos jovenzinhos de hoje ali, os adolescentes etc., para quem eles estão olhando?
Quais são os modelos de homem e de mulher? Aluna: “hoje em dia eles estão olhando os modelos em
crise”. Os modelos que estão em crise, o sujeito de cinquenta anos que se porta como se tivesse vinte e
cinco – os adultecentes; ou a mãe, avó de cinquenta, sessenta, que se comporta como se tivesse vinte e
dois, vinte e cinco; eles estão olhando isso, daí eles tão também... quer dizer a crise tente a aumentar.

E é agora outra pergunta. Ah, aliás, antes da pergunta, uma tarefa para vocês – e um absurdo,
semana passada eu não passei tarefa, não passei, eu sempre passo tarefa, e esqueci da tarefa – olha a
tarefa, para não esquecer depois, a tarefa é procurar dentro e fora de você modelos de mulheres; e é para
fazer uma tarefa bem sincera, viu! Tipo assim, escreve aí mesmo, porque ninguém vai ler, a não ser você –
cada um com suas vergonhas – escreve aí mesmo quais são as mulheres que te inspiram, e daí pode ser
você, ao fazer o exercício, reconheça que elas não são nada modelares, ou são modelares em um aspecto e
não em outro e por aí afora. Mas a questão... porque é interessante você resgatar os seus modelos, aqueles
de longa data, os mais recentes, de longa data, os mais recentes e etc., famosos, familiares, por aí afora; é
você reconhecer assim, quais são as imagens que te guiam; a imaginação é extremamente poderosa no ser
humano, ela que alimenta a alma, que dá os apetites da alma, imaginação. Então quando você está lá tento
que decidir isso, ou aquilo, tendo que tomar uma decisão na vida, uma decisão no trabalho; quais são as
imagens que ficam pairando aqui dentro de você? Existem aquelas imagens familiares, fortes etc. – sem as
quais a gente não tem como ficar – tem a imagem de mãe, tem a imagem da avó, e por aí afora; e tem
aquelas que você foi escolhendo como “ah, esses são os meus modelos”. Por exemplo, tem uma mulher,
uma personagem que eu conheci assim na dramaturgia que eu achei aquela mulher muito impressionante;
vocês já ouviram falar da Abigail Adams? Abigail Adams foi a esposa do segundo presidente dos Estados
Unidos, John Adams. Existe uma série de HBO chamada John Adams - os americanos são mestres nisso, a
gente tem dificuldade de lembrar quem foi o segundo, quem foi o segundo homem a pisar na lua, a gente
lembra do primeiro: George Washington o primeiro presidente; os americanos fizeram uma série só sobre
o segundo presidente, se vocês encontrarem essa séria, não é uma série muito fácil de encontrar - eu acho
que até você tentou achar e não achou, talvez tenha que importar ali, tenha que comprar na internet...

00h30 a 00h40
[00:29:56] Se vocês encontrarem essa série - e não creio que seja muito fácil de encontrá-la –, que
tem cerca de doze episódios, prestem muita atenção na Abigail Adams: uma mulher impressionante para a
sua época. O que ela fez, os sacrifícios, as decisões e a maneira de enfrentar a vida mostram o que
costumamos chamar de fibra moral, de resistência, algumas coisas femininas que são características
notáveis na personagem.

Modelos e aspectos diferentes existem muitos. Existe modelo de política, modelo de esposa, etc.
Há literatura suficiente sobre isso, mas eu gostaria que vocês pensassem em modelos reais - a Abigail
Adams é uma personagem real – que estão dentro de vocês e que vocês confessem que estes são os seus
modelos. Esta é a tarefa: confessar que são estes modelos que te guiam, que são estas mulheres que te
orientam.

É por isso que na Idade Média foi tão cultivada a veneração a Virgem Maria. Conseguem entender o
motivo? Ela tinha uma função. A comparação é desleal, não dá para comparar a Virgem Maria com uma
outra personagem, mas não deixa de ser interessante realizar essa imagem dentro de você, com uma
mulher que realizou plenamente toda potência feminina. Enfim, estou propondo aqui questões para vocês.

Exposto isso, a questão que eu levanto para vocês é a seguinte: o que é ser mulher? Nós sabemos
que ela está em crise. Então vamos retroceder um pouco para ver se encontramos algum princípio de
solução.

O que é ser mulher? Essa é uma pergunta que esteve ou não esteve presente na História, na
Filosofia ou na Sociologia? Qual é o status quaestiones desse problema? A mulher esteve ou não esteve
presente nos dramas intelectuais do ser humano? Ela foi ou não assunto de debates, de livros, de obras de
filosofia?

Aluna: pelo que foi exposto na última aula, ela era mais vista com lirismo.

Professor: Isso. Ela estava na arte.

A pergunta “o que é ser mulher?” esteve presente, por exemplo, em algum momento na História
da Filosofia? Existem alusões à mulher na obras de Platão e de Aristóteles, em obras que estão no começo
da história da filosofia. Se eu fosse expor aqui as definições deles, provavelmente vocês mulheres não
ficariam muito contentes.

Aluna: As mulheres eram vistas como acessórios, não?

Professor: Sim, como acessório. Platão afirmava que uma mulher perfeita era quase um homem.
Aristóteles dizia que uma mulher era um homem mutilado...
Afirmo, sem medo de apanhar, que em alguma medida eles têm razão. Afinal de contas, foram
Platão e Aristóteles que afirmaram estas coisas, não foi um “zé ruela” qualquer. Não é o Zé da Esquina que
está afirmando que a mulher é um homem mutilado, é Platão e Aristóteles. Alguma verdade tem nesta
frase, sem denotar machismo ou feminismo. Mas o que estas coisas mostram é que a mulher esteve
presente aqui e acolá na História da Filosofia, mas nunca foi o tema. Talvez pela primeira vez ela tenha sido
o tema, e por isso que eu os escolhi para embasar este curso, nos livros de Julián Marias, que citei na
semana passada como parte da bibliografia. Tem mais livros dele para lermos. Leiam um livro dele
chamado “Antropologia Metafísica”. Não é difícil de ler nem de achar. Encontra-se em português e
espanhol. É o livro mais famoso dele e realmente é a sua grande obra. Neste livro há perguntas bem
pertinentes sobre a mulher, com quatro capítulos específicos sobre a condição feminina. Neste livro, ele
chega a dizer que, do jeito que ele questiona sobre a realidade feminina, ninguém o tinha feito antes. Ele
foi um apaixonado pelas mulheres e no melhor sentido da palavra. Julián Marias perdeu a esposa quando
ele tinha sessenta e quatro anos e ele morreu com 94 anos. Eu ouvi uma entrevista quando ele tinha cerca
de noventa anos, onde afirma que nunca amou mais outra mulher e que chorava todos os dias pela
ausência dela.

Em um dos seus livros, dedicado à sua esposa “Lolita”, como ele a chamava, está escrito: “À Lolita,
com esperança”. Ou seja, esperança de reencontrá-la.

Ele sabe do que está falando. Ele sabe o que é amar uma mulher, ser comovido por uma mulher,
etc. Os livros dele são belíssimos. Esse seria o primeiro deles.

Voltamos, então, à pergunta. A mulher aparece aqui e acolá na história da filosofia, na história do
pensamento ocidental, mas ela nunca foi o tema. Ela sempre foi apêndice ou acessório, uma espécie de
comentário nota de rodapé. Isso nos leva para outra pergunta: o mundo é ou não dos homens?

Nós homens podemos puxar para nosso lado e afirmar que o mundo é nosso mesmo, mas vocês
mulheres como sentem isso? O mundo é ou não dos homens? Vocês não se sentem um pouco intrusa? O
homem, por exemplo, não trabalha todo dia “belo e formoso” sem ter cólica menstrual, sem licença
maternidade?

Aluna: Eu acho que a mulher é essencial para o homem.

Com certeza, mas quando estou falando em mundo, estou me referindo à vida lá fora, a vida civil,
que envolve trabalho, etc. Muitas vezes eu ouço as mulheres falarem que é mais fácil ser homem, já ouvi
isso muitas vezes, mil vezes.

Alunas: Parece que estamos sempre em desvantagem. A primeira impressão é essa. “Para eles é
tão fácil”.
Biologicamente também é assim.

Vamos usar o exemplo que você deu, ligado à biologia. Imagine um homem que tem setenta e
cinco anos e resolve ser pai. Pode? Sim, vejam que beleza...E a mulher? Quando passa dos quarenta e
poucos anos já começa a ficar mais complicada a situação, a natureza não ajuda, etc. A biologia diz que o
tempo vital da mulher é menor. A capacidade de reprodução da mulher, pelo visto, tem um tempo mais
curto que o do homem. A princípio parece ser uma desvantagem. Contam também que o homem tem mais
facilidades por causa da sua própria condição física, que a mulher não tem, e que por isso, quando tem uma
unha encravada, fica logo de cama, porque ele não é acostumado com estas coisas...

Eu tinha um amigo que dizia ter medo das mulheres, como os egípcios, porque elas sagram cinco
dias e não morre; que não conhecia até então nenhum animal da natureza que sangrasse cinco dias e não
morresse. Ele dizia com aquela cara de espanto que uma mulher sangra cinco dias, que trabalha, lava
roupa, etc. E eu, se corto dedo, peço logo atestado médico, fico em casa...

Eu estou querendo dizer que realmente o mundo é dos homens e a mulher, quanto mais quer fazer
parte deste mundo e partir para fora da casa, mais ela tem de prestar atenção e de se adaptar ao mundo
masculino.

A mulher, por exemplo, pode estar vivendo numa carreira promissora, lidando bem com os
negócios da empresa..[00:30:04]

00h40 a 00h50

Não há como negar: o mundo é dos homens; e a mulher, quanto mais quer fazer parte deste
mundo, para fora da casa, mais ela tem de prestar atenção e adaptar-se ao mundo masculino. A mulher,
por exemplo, está vivendo uma carreira super-legal, crescendo na empresa como qualquer homem estaria
fazendo, crescendo e viajando com a empresa, e de repente ela [se vê] com trinta e cinco anos e pensa que
precisa engravidar, que precisa ser mãe, que depois pode se arrepender, que terá de parar agora [para
engravidar e tornar-se mãe]. E então ela pára e [há] aquele outro concorrente dela, um homem, que
continua. E por aí vai: a mulher sabe que existe — entre aspas — esta desvantagem do mundo masculino e
está prestando atenção a isso; a mulher tem os olhos voltados para o mundo do homem.

A mulher, por sua própria condição, não deixa de prestar atenção nos homens — e o contrário não
é verdade, o homem pode passar uma vida sem prestar atenção ao mundo das mulheres, o que de fato
acontece. Hoje, em grande parte, o homem tem até uma certa indisposição com o mundo feminino. A
mulher o convida para o shopping, ele não gosta muito; ela diz que chamou as amigas para um café, e ele
[responde] que nesta mesma hora irá jogar futebol e não poderá estar presente. E só de pensar nas
conversas, em ter de ser simpático, em ter de prestar atenção e ouvir sobre chapinha etc., [ele já pensa]
que precisa sumir dali, voltar no outro dia. O homem hoje, mais do que nunca, tem uma certa indisposição
com o mundo das mulheres — e ele pode ter e sair ileso disto. Porém, se a mulher tiver indisposição com o
mundo dos homens, se ela não prestar atenção aos homens, ela perde feio, pois não saberá que lugar
ocupar nesse mundo, o mundo dos homens.

Para dentro da casa, da porta para dentro, entramos no mundo na mulher. Julián Marías é muito
claro quando diz que a casa é da mulher. A mulher é quem diz que precisa trocar a cortina; que avisa que
alguém virá jantar, decide o que será servido, qual jogo de jantar será usado etc. A mulher preocupa-se
com os detalhes, tem sua preocupação em maior ou menor medida com a decoração e outras coisas, a casa
vai tomando a forma da mulher. A organização e a limpeza são as da mulher, o homem pode ou não
colaborar, pode até atrapalhar, mas [isso] é da mulher, o ambiente é dela. Há uma simbologia por trás
disto: a mulher vive muito mais dentro de si mesma do que fora; o reino da mulher é o reino do interior e o
reino do homem é o do exterior. O homem torna-se até mais homem fora de casa, ele sente-se mais à
vontade da porta para fora, conquistando, disputando um cargo, exibindo-se para o chefe, ele gosta disso,
de estar fora de casa. Ele não domina o reino interior, ele domina o reino exterior; o homem é aquele que
pensa, por exemplo, que o Império Romano está dominado, mas ele quer conquistar mais e mais. O
homem está sempre para fora e a mulher sempre para dentro.

Vocês acham que o homem pensa e presta atenção aos próprios pensamentos, como uma mulher
faz? Vocês, mulheres, já não pararam para pensar [o que aconteceria] se fosse colocado um microfone em
seus pensamentos? [risos] Talvez assustasse alguns, outros a chamassem de louca.

Aluna: Os pensamentos acontecem o dia inteiro, nem dormindo [eles param]

Sim, o dia inteiro, às vezes [a mulher] não consegue dormir porque as imagens ficam vindo sem
parar [à mente]. A mulher consegue sair de um assunto e ir para outro, dentro dela mesma, e tudo o que
acontece fora dela torna-se conteúdo interior, não exterior. Por exemplo, a amiga pergunta [à mulher] o
que ela fez no cabelo; isto gera uma conversa, gera toda uma reflexão para dentro, a mulher passa a
perguntar-se se o seu cabelo está mesmo bonito ou se está feio [risos]. É para dentro [o processo]. A
mulher possui uma capacidade muito maior — e isto não é pejorativo, é positivo — de ensimesmar-se. Para
que o homem fique preso a seus pensamentos, para o homem ensimesmar-se, é necessário algo muito
chocante.

Vejam o que acontece no ato sexual: quando termina o ato sexual, o homem, se preciso, liga a
televisão e assiste ao jornal; já a mulher fica ali, [perguntando-se] se a frequência já mudou e [admirada]
por não ter percebido. Para o homem, terminando [o ato sexual], já se pode mudar de atividade. O homem
[é] para fora, sempre, termina uma atividade e vai para outra. A mulher [ao contrário] é aquela
“reticência”, ela gostaria de gozar mais daquele momento, ficar ali — como quando se joga a pedrinha na
água e formam-se ondas.

Aluna: Mais romance...

Sim, mais romance, esse tipo de coisa. É sempre: toda realidade que a afeta, afeta e ecoa dentro,
de um jeito muito mais radical do que no homem. Quando eu perguntei o que é ser mulher, poderíamos
responder da seguinte forma: ser mulher é um modo de interpretar a vida humana. Existem dois modos de
interpretação da vida humana, o masculino e o feminino. O modo de interpretação da vida humana
feminino é o do ensimesmamento e o modo de interpretação da vida humana masculino é o da vida
exterior, o da realização exterior. Agora é possível entender porque um precisa do outro; a mulher precisa
do homem para que o homem funcione para ela como uma régua de aferição de realidade — a mulher
corre o risco de achar que o mundo é o que ela pensa. Inúmeras vezes a mulher tem algum pensamento, o
qual fica sustentando dentro de si por uma semana, [depois] comenta com a melhor amiga, e esta lhe diz
que não tem nada a ver, que ela errou feio. E a mulher já se angustiou, já sofreu com aquilo que estava só
dentro dela. É uma capacidade realmente muito maior de trazer tudo para dentro.

Toda mulher é um convite à intimidade. É uma perversão do ser feminino quando a mulher recusa
a intimidade. Com o homem, com uma amiga ou amigo: toda recusa de intimidade por parte da mulher é
uma perversão da sua forma, uma perversão da sua condição (quando ela se fecha para a intimidade). A
palavra intimidade é o superlativo da palavra interioridade. Nós falamos que a casa, o dentro é o reino da
mulher, então, por ser cada vez mais dentro dela, é ali que encontramos a intimidade. A intimidade é o
destino da viagem que vai para dentro (é o ir para dentro daquele ser). Vejam que interessante o símbolo
do ato sexual: é o homem que entra no reino da mulher, é o homem que penetra a intimidade dela; ela
acolhe. Julián Marías diz ainda que as roupas femininas — embora hoje não tanto, mas antes era mais
acentuada a diferença de vestuário —, as roupas da mulher denunciavam isso. Ele fala (e é muito bonita a
imagem que ele usa) que a mulher tem uma capacidade de armar tendas, de acampar, de sossegar e trazer
para debaixo da tenda o que ela ama. A saia e o véu são expressões da tenda. A mulher sempre recolhe,
traz para o seu nicho. Vejam o que ela faz com amigos, com filhos, com o marido: ela quer trazê-los para
sua vida, colocá-los debaixo de sua tenda. É o reino da intimidade. Por isso muitas vezes a mulher se
angustia — e temos tantas mulheres infelizes — quando ela não consegue trazer para a intimidade o seu
homem, amigos etc.

00h50 a 1h00

[0:49:58] Então por isso que a mulher muitas vezes [0:50] se angustia e há tantas mulheres
infelizes. Quando ela não consegue trazer para a intimidade o seu homem, os seus amigos etc., ela não está
conseguindo realizar a condição dela. O homem, que é o que escapa, o que vai para fora, o que realiza no
mundo, é dele mesmo vir e sair; e a mulher tem de resgatá-lo de novo e ele sai de novo, ele não fica lá, ele
vem, prova um pouco da intimidade e sai. Então, um precisa do outro, a mulher precisa do homem para
que ele tire realidade de dentro dela, para que ele extraia coisas dela, saia do mundo interior para fora; e o
homem precisa da mulher porque ela é o convite seguro à intimidade, ao contato com a própria miséria,
com o próprio eu substancial. Nós, homens, precisamos de vocês, mulheres, porque vocês nos convidam a
esse tipo de recolhimento, que é o recolhimento de quando entramos em casa. Há muitos homens que não
gostam de voltar para casa. O que isso significa?

Aluna: A mulher não está sabendo acolher.

Tiago: Não está muito acolhedor lá, entende? Quantos casais vocês devem conhecer que se puder
o homem fica sem aparecer por um tempo?

Aluna: Porque talvez o próprio recolhimento pode assustar o homem um pouco em casa.

Tiago: Sim. E não é isso que às vezes o homem foge, justamente porque a mulher o convida para a
intimidade? “Eu, hein. Se eu for lá, também vou ter de acessar umas porções dentro de mim. Eu não
quero”. Os homens têm fugido cada vez mais disso daí.

Aluna: Independente da mulher.

Tiago: Sim, independente da mulher. Claro, os dois estão em crise mais uma vez. Então, se existe
uma expertise na mulher, algo que ela tem de prestar realmente atenção, [52:10] para que ela não corra o
risco de perder a si mesma, [52:14] é nisto: se é sempre uma tensão, um choque, uma violência ficar perto
dela ou se ela é acolhedora, hospitaleira, se estar diante dela é sempre um convite, uma porta. A mulher
tem de ser uma porta. Um dos títulos da Virgem Maria é Porta do Céu. Por isso é tão importante na vida
feminina — principalmente na feminina, não que o homem não precise disso, mas a mulher mais do que
qualquer um — uma coisinha chamada pudor, que praticamente sumiu do horizonte social hoje. O que é o
pudor? Não é o travamento, não são as neuroses sexuais etc. O pudor, poderíamos usar a seguinte
imagem: ele é o verbo, como Julian Marias usa, ressumar. Olha que verbo bonito. Quando você tem uma
essência e você pinga aos poucos aquela essência, você pega um conta-gotas e você pinga aos poucos, por
exemplo, remédio de homeopatia, você vai lá e ressuma o remédio, você não põe tudo de uma vez porque
daí vai deixar o outro até doente.

O pudor é o conta-gotas da intimidade, quer dizer, você não começa entregando tudo pois ou vai
assustar ou não vai entregar nada porque é impossível entregar tudo. Você revela a si mesma como um
conta-gotas e isso começa na roupa, vai para a intimidade e vai para a sexualidade, quer dizer, você vai
ressumando, vai pingando porções de intimidade e o homem vai aos poucos acessando a trilha que você
vai deixando. E é isso que o deixa cada vez mais fascinado, que você entrega aos poucos, e daí ele começa a
prestar atenção em você pois você naturalmente já presta atenção nele porque o mundo é dos homens,
voltamos àquela história, mas ele para prestar atenção em você precisa ser provocado. Não é correto nesse
sentido usarmos a palavra “provocante” para homens. Homens não são provocantes, homens são
atraentes, a mulher pode ser provocante. E o que é provocar? O verbo quer dizer “chamar para frente”. A
mulher é capaz de provocar, ela chama, ela convida, ela atrai para a intimidade. A mulher tem de ser
provocante nesse sentido, ela tem de incomodar no bom sentido, ela tem de desinstalar o homem, ela tem
de criar uma certa insegurança que faz com que ele se dirija para ela, para que ele queira aquela
intimidade, então ela o provoca, ela o chama. Nesse sentido, a mulher não é a passiva, é a ativa, passivo é o
homem.

Aristóteles diz que o sumo da atividade é você mover sem ser movido. Um princípio filosófico
interessante, hein? Quando você consegue mover algo sem mover-se, esse é o sumo da atividade para
Aristóteles. Deus seria isso, Deus é Aquele que move sem mover-Se. Se aplicarmos essa analogia à relação
homem e mulher, quem é que move? Quem é que faz o outro mover-se? A mulher. É ela que provoca o
homem para o seu reino, é o homem que vai daí. Então, nesse sentido o homem é o passivo, é o homem
que contempla, que é instigado a ir e a mulher está lá fazendo o máximo da atividade, movendo seu
homem sem ser movida. Quer dizer, é preciso que as mulheres de hoje resgatem essa inteligência
feminina. Você não consegue que seu homem faça aquilo que você tanto queria? Puxa, mas você é uma
incapaz mesmo. Eu tenho de falar a verdade, é isso. Não está acontecendo nada do que você queria com
esse homem? Ele não está fazendo nada, ele não está te atendendo em nada que você desejaria, que você
gostaria? Então, onde você está errando que não está conseguindo movê-lo nesse sentido? Porque ele está
louco para ser movido. Um homem quando é movido pela mulher fica comovido. A ação da mulher é
aquela que comove o homem, ele fica comovido diante dela. Podemos dizer que as mulheres de
antigamente eram um pouquinho mais espertas. E tem um perigo que não posso esquecer de falar,
[0:57:57 a 0:58:09] gostaria de terminar com essa idéia: o fato de a mulher viver nesse reino interior, o fato
de a mulher ensimesmar-se mais do que o homem tem um grande risco. E o risco, sabe qual é? É a mulher
achar que ela é segura de si porque qual é o problema de uma mulher sentir-se muito segura?

Aluna: Ela não precisa do homem.

Tiago: Ela não precisa do homem. E isso é uma verdade? Não precisa? Precisa. Aquela mulher
muito determinante, muito objetiva: “Eu faço! Eu aconteço! Homem comigo tem de ser assim!”, isso é
terrível do ponto de vista que nós estamos falando. Qual é a graça nessa história de a mulher ser assim: não
precisar do homem? O que é uma mentira da mais feia possível, porque sim, ela precisa. E não estou
falando da necessidade do homem ir lá na cama dela. Não, ela precisa do homem na vida. Então, esse
ensimesmamento traz o perigo de que ela se sinta segura demais consigo mesma, o que é uma mentira,
uma falácia porque a condição da vida humana é insegurança. O homem é inseguro e a mulher também é
insegura e esta é a condição da vida. Quais são as certezas que você tem e que você não abala de jeito
nenhum? Deve ser umas três ou quatro, o resto tudo cabe discussão, não é assim? Quer dizer, a vida
humana é feita de inseguranças. Você tem um projeto para o ano que vem, mas começa com aquela
pergunta: mas você estará vivo no ano que vem? [1:00] Você tem projetos para a família para daqui dez
anos, mas o teu marido também tem projetos para daqui dez anos junto contigo? [1:00:09]

1h00 a 1h10

[00:59:50] A vida humana é feita de inseguranças. “Ah, você tem um projeto para o ano que vem? ”
Mas você estará vivo no ano que vem? “Ah, você tem projetos para a sua família para daqui a dez anos? ”
Mas o seu marido também tem projetos para daqui a dez anos junto com você? A vida humana é isso! E
arcar com a insegurança da vida humana é maturidade. Quando você não quer arcar com a sua
insegurança, construindo falsos edifícios extremamente “seguros” que nada abala, e você ainda tem muito
dinheiro na conta bancária, então você não precisa de homem? Que segurança você tem?

Aluna: Do mesmo modo que uma mulher precisa de um homem, uma mulher precisa de um
homem.

Sim. É a disjunção da oposição. Eu sou mais homem diante da mulher, e a mulher é mais mulher
diante do homem. Há aqueles elementos distintivos da interpretação feminina que eu preciso como
homem, que em mim não são atualizados como o dela, e vice-versa. Mas um homem que transpareça
segurança é positivo, tanto que a mulher se sente bem ao lado de um homem assim. Agora, e uma mulher
segura, senhora de si? “Homem comigo tem de andar na linha! Tem de agir do jeito que quero, tem de
comer miúdo”. Uma hora o homem vai imaginar que uma mulher assim não precisa dele e que está
perdendo tempo com ela. Ela tem de fazer com que ele perceba que ele é extremamente necessário, pois
homem gosta disso, nem que seja para abrir o pote de pepino azedo! “Está vendo, ela não consegue, me dá
aqui esse pote! ” O homem fará até uma pose para abrir esse pote, porque ele tem de dar aquela
valorizada. E, se ele não abrir, vai se sentir um bosta.

Aluna: Tem mulher que é varonil.

Exato. Ela quer ser senhora daquilo. Ela quer mostrar que também é forte. “Olha, eu estou com
você porque eu escolhi, não porque eu preciso”. Essa frase é terrível.

Alguém tem alguma pergunta?


Hoje nós vamos encerrar com essas perguntinhas aqui, sobre segurança e insegurança, ou sobre o
quanto você mulher está em contato com a sua própria intimidade, ou sobre o quanto você está consciente
desta intimidade, sobre o quanto você é hospitaleira, convidativa e acolhedora, ou o quanto estar diante de
você é uma graça! Amar tendas em tornos de você é o que ele quer. Ou ele quer correr ou descanso de
você?

Santo Agostinho dizia “o meu lugar é o meu descanso”. Então, quando estamos muito cansados
com a vida – não cansado fisicamente – tem alguma coisa muito errada, porque viver não cansa tanto
assim. Se você estiver instalado onde você tem de estar, se você está instalada como mulher neste mundo
masculino, você não cansará tanto. Logo, se você estiver cansada, é porque tem algo errado. Deus não
brincou com a sua existência. Deus não imaginou que iria fazê-las para vocês se ferrarem. “Fiz Adão e agora
fiz aqui, de uma maneira sádica, a mulher”. Mas é óbvio que não é isso. Eu não posso conceber que a
Suprema Beleza e Bondade, que é Deus, tenha imaginado uma coisa dessas. Então, se está muito doloroso,
se está muito cansativo, tem algo errado. Você vai errar se quiser fazer parte do mundo masculino como
homem. Será cansativo deformador. Você tem de estar nesse mundo como mulher, mas o que é isso?
Voltamos à questão dos modelos.

O que é estar neste mundo masculino interpretando de maneira feminina? Saibam que nós,
homens, precisamos da interpretação de vocês. Para nós ficaria insustentável o mundo sem a mulher,
vocês são essenciais. Vocês não são acessórios nem coisas secundárias. Vocês são essenciais e é uma pena
que hoje grande parte das mulheres não reconheça isso, e não queira assumir a sua forma de mulher, mas
queira disputar com o homem de maneira masculina. Isso faz com que nasça no homem um pouco de
desprezo por ela, porque ela nunca terá a força dele nem as armas que ele tem para enfrentar o mundo.
Vocês lembram quando estavam namorando, paquerando, querendo casar? Lembram que os homens
tinham as mulheres com as quais queriam se divertir e aquelas com as quais eles queriam casar, não é?
Geralmente aquelas com as quais eles se divertiam eram aquelas extremamente resolvidas, que dormiam
com ele na primeira noite, que não queriam namorar mesmo – com essas eles também não querem. Ele
quer uma mulher de verdade, é isso que ele quer. Se nós dois estamos em crises, precisamos resolver estas
coisas por um dos lados. Eu acho que quem tem mais capacidade de arrumar isso é a mulher, porque o
homem, por não ser ensimesmado, está mais perdido que a mulher. A mulher que terá de trazer o homem
para aquele drama em que ele está vivendo. “Ah, amor, por que você não faz esse curso? ” “Ah, por que
você não vai ao teatro? ” Não são vocês que dão estas dicas para resolver aquela vida entediante dele? O
homem tende a ficar preso naquele “ponto morto” e a mulher, por isso, precisa provocar para as questões
fundamentais da vida. [01:06:48]
AULA 03

00h00 a 00h10

Então vamos lá. Nossa terceira aula, dou as boas-vindas e para quem está assistindo o vídeo
também. Se uma coisa espero que tenha ficado claro até aqui é o fato de que a mulher e qualquer ser
humano é uma realidade diferente a qual exige para ser estudada uma metodologia diferente de qualquer
outro objeto. Na primeira e na segunda aula nós falamos disto: o quanto a realidade humana é específica
se comparada às outras. Quando trato de realidade humana e se quero conhecer qualquer realidade
humana concretamente... E quando falo concretamente, portanto, não é conceitualmente — hoje é um
problema pelo qual o ser humano passa, principalmente o ser humano pós-revolução científica, de que ele
se apega a conceitos como se fossem realidades. Então, seja numa aula, seja numa conversa, seja numa
notícia do Fantástico lá do Drauzio Varella etc. etc., na maior parte das vezes, no discurso humano como
um todo, nós estamos usando de conceitos para expressar as coisas. As palavras combinadas formam os
conceitos que transmitem idéias, mas essas idéias ou esses conceitos são convites para que eu chegue até a
realidade que eles tentam apontar. Então, toda vez que escuto um conceito, uma idéia, uma proposição, é
preciso que eu atravesse as palavras e chegue na realidade que elas tentam expressar. Isso serve para
conhecimento de qualquer coisa, na verdade. Quando trata de realidade humana concreta e não de um
conceito, eu preciso na verdade de uma outra metodologia que no caso do ser humano podemos chamar
de Pedagogia da Presença.

Conta-se uma história que aquele revolucionário francês Diderot, vocês devem lembrar da época
de escola, Revolução Francesa etc., lembram dos nomes deles? Danton, Robespierre etc., tinha lá o Diderot
também. Conta-se que Diderot era apaixonado por uma mulher e escreveu cartas para cem pintores da
França descrevendo minuciosamente a mulher que ele amava e com a qual ele não podia ficar porque ela
era casada. Todos os detalhes possíveis, fisicamente falando, ele descreveu. Como era um escritor, ele
tinha grande capacidade nisso. Enviou para cem pintores. Os cem pintores responderam ou quase todos
responderam com retratos, um diferente do outro e nenhum igual à mulher. Quer dizer, a experiência de
Diderot é a experiência de que as palavras, os conceitos não são propriamente a coisa, a realidade. Então,
quando no curso falamos “a mulher”, “o homem”, “o ser humano”, tem de lembrar que isso são palavras,
são idéias, são conceitos que precisam ser chocados com a realidade de fato. E no caso do ser humano, só
posso chocar através de uma presença. Para quem é mulher e está ouvindo o curso não fica muito difícil,
basta olhar para dentro de si. Cada coisa que vou falando de maneira mais ou menos conceitual, você olha
para dentro, vira os olhos para dentro como costumo dizer e vê se é assim mesmo que funciona. E para os
homens, vão ter de conhecer alguma mulher, quer dizer, os homens vão ter de se interessar pelas
mulheres. Homens que estão assistindo esta gravação, este curso, vão ter de conhecer seja a mãe, seja a
namorada, seja a esposa e pela presença eles tentarão apreender algo daquela realidade concreta.

Uma das coisas mais terríveis que aconteceu no nosso tempo, quando chamo nosso tempo é do
advento da modernidade para cá, é nos satisfazermos com idéias genéricas, com abstrações. E a mulher
corre um perigo maior do que o homem nesse sentido porque a mulher adora palavras. Ela gosta que
converse com ela, que prometa, que anuncie, que confesse, que diga que ela está linda, mesmo que ela
esteja no frio com roupa de verão é preciso dizer que ela está bonita. Não é bom ouvir? As mulheres
gostam de ouvir, as mulheres gostam de falar, inclusive. Todo mundo sabe, [quem] conhece criança
pequena, que menina fala antes do que menino, já começa aí. Toda vez que vou buscar meus filhos na
escola, que são pequenos ainda, vejo as meninas saindo falando pelos cotovelos e os meus já mais
controlados, falam menos palavras etc. O fato é que um perigo que a mulher corre e esse perigo é muito
interessante porque está desde o pecado original, desde a hora que Eva comeu do fruto, Eva também ficou
presa às palavras da serpente e não à realidade do paraíso. Se Eva tivesse olhado para trás enquanto a
serpente falava com ela, se ela tivesse pensado assim: “Deixe-me verificar se o que ela está falando é
verdade”, se ela tivesse olhado [0:06:04] para trás — estou usando como símbolo a cena do Gênesis —,
[0:06:08] ela veria um paraíso que era maravilhoso, mas ela preferiu ficar com as palavras da serpente.
Então ali está dito que a mulher corre um grande perigo e o grande perigo da mulher é se apegar mais às
palavras, aos conceitos, às idéias do que à realidade mesma. Muitas vezes, o choque entre homem e
mulher se dá justamente no fato de que homens no geral, pelo menos sempre foi assim, tradicionalmente
falando, eles falam com atos e não com palavras. Claro, os escritores no geral falam com palavras também,
mas são alguns seres especiais. Na maior parte das vezes, os homens falam com atos. Ele pode estar
falando concretamente algo para você ou sobre você ou sobre a relação de vocês sem dizer uma só palavra
e provavelmente ele esteja fazendo isso. Isso pode ser mais ou menos consciente, ele pode estar fazendo
de propósito, ele pode estar querendo te mandar um recado, mas na maior parte das vezes eu acho que é
mais inconsciente. O homem que não gosta nunca de fazer programas com a mulher dele ou não gosta
nunca de passar um tempo sozinho com ela, bom, ele não precisa dizer nada, né? Então, essa é uma
primeira dica, vamos dizer assim, da aula de hoje: é preciso que penetremos as palavras, ou pelo menos
usemos as palavras como caminho, como canal para chegar na realidade porque a mulher tem essa
capacidade. Aliás, essa capacidade nela é muito mais fina, muito mais elegante, muito mais perspicaz do
que no homem, o homem é mais bruto com as palavras.

[Isso é] outro problema porque daí a mulher quer que o homem fale, mas também que ele fale
num certo tom, de um certo jeito porque se ele falar de qualquer jeito ou com qualquer tom também não
vai cair legal, não é? Então, tem de escolher as palavras, tem de escolher o tom, tem de escolher o modo
sendo que em grande parte das vezes, agora falando filosoficamente, o que interessa mesmo é o “que”, é o
conteúdo. E esse “que” pode estar dito com palavras ou pode estar dito com gestos, com atos, com o
silêncio. O “que” é o que importa. Talvez o maior filósofo de todos os tempos que foi Aristóteles, é no
mínimo interessante que ele tenha gasto grande parte da vida dele catalogando espécies de plantas e
animais, observando-os. Alexandre, o Grande, que tinha sido seu aluno, fazendo suas conquistas, por onde
ele ia pegava espécies [0:09:06] diferentes tanto de fauna quanto de flora [0:09:08] e mandava um
exemplar de cada para Aristóteles lá na Grécia, como presentes. E o Aristóteles criou o zoológico, criou um
monte de coisas para expor esses seres e gastava horas olhando o que essas coisas são. Entende? Antes de
qualquer explicação, antes do “como”, antes do “por que”, vem simplesmente o “que”. Quantas vezes você
não se sente perdido na sua vida porque acontece uma coisa e você já fala assim: “Por quê? Por que está
acontecendo isso?” Mas é que você inverteu a ordem das perguntas, você nunca deve começar pelo “por
que”. É preciso primeiro que você entenda o “que” é isso, o “que” ele está dizendo, o “que” a vida está te
falando, o “que” é esse problema que você está tendo. [0:10] Aí depois você pergunta pelo “como” e pelo
“por que”. [0:10:05]

00h10 a 00h20

É preciso primeiro que você entenda o que é isso, o que ele está dizendo, o que a vida está lhe
falando, o que é esse problema que você está tendo. Então depois você pergunta pelo como e pelo porquê,
que serão muito mais fáceis de você distinguir e encontrar se você tiver um quê bem resolvido. Se a
filosofia pode ensinar-lhe algo bem concreto, para sua vida no dia a dia — sem ficar filosofando coisas
muito complicadas, abstratas e longe da nossa realidade, [usando] papo de academia —, a filosofia pode
ensinar-lhe isto bem concretamente: apegar-se ao que. E no caso das pessoas, não é a que, é a quem.
Quem é aquele que está a seu lado? Quem é o seu filho, quem é a sua mãe, quem é a sua irmã, quem é a
sua amiga — é o quem que importa, no caso da realidade humana.

Como eu estava dizendo no início, se todas as outras coisas da realidade podem ser conhecidas
pelos diferentes métodos científicos que foram inventados para cada uma das coisas — a biologia para a
vida no geral; a geografia para isso; a história para aquilo; a psicologia etc. —, a realidade humana como
um todo, de uma [única] vida que seja, só pode ser plenamente conhecida pela presença. De resto, nós
estaríamos no campo do conceito. Quando falamos em psicologia, sociologia, história etc., [sabemos] que
são ciências humanas e estão falando sobre realidades humanas, mas do ponto de vista conceitual (em
uma perspectiva conceitual) e o conceito estará mais ou menos correto quanto mais próximo ele for da
realidade, da concretude da vida.
Qual foi a grande contribuição e o grande erro de Freud para a Humanidade? Não se pode negar
que ele tenha sido um gênio, assim como também não se pode negar que Marx também tem gênio e viu
coisas importantes a respeito da realidade. Porém, os dois erraram no mesmo ponto. Seja Freud na
psicologia, seja Marx na sociologia — são dois gênios sob uma perspectiva, mas erraram feio sob outra.

Aluna: Na abstração conceitual?

Na abstração conceitual e na tomada da parte como todo. Falaremos um pouco sobre a mulher na
perspectiva de Freud, que era psiquiatra. Quando ele olhou para a realidade humana e quis falar sobre a
realidade humana — ele era um psiquiatra —, qual foi o viés que ele tomou? A anomalia, a doença. O olhar
de Freud é o olhar patológico e qualquer um que tenha feito análise freudiana sabe que o terapeuta (o
analista) adora ficar cutucando as anomalias, porque o olhar de Freud era esse, para a patologia. Ele foi um
grande terapeuta, ajudou efetivamente muita gente, mas o problema de Freud foi: ao passar para o plano
teórico, ao escrever suas obras, tomar aquilo como a realidade. Ou seja, todo mundo tem tesão pela mãe
— é complicadíssimo afirmar uma coisa dessas. A criança quando suga o seio, aquilo já é libido. Bem, se
isso aconteceu alguma vez eu não sei, mas é óbvio que isso não é a regra. Ele deve ter visto isso em algum
lugar, em alguma oportunidade e tomado isso como a realidade.

E todos aqueles que estudaram psicologia freudiana depois — e pegaram os conceitos de Freud a
respeito do ser humano — ficaram com o conceito e não com a realidade. Estou usando Freud como
exemplo aqui para, na verdade, servir de antiexemplo. Ele é o exemplo do antiexemplo. É o anti-modelo do
que temos de fazer para conhecer uma realidade humana, seja a pessoa que você ama, seja seu amigo, seja
quem for: não podemos fazer como ele fez. E não estamos excluindo a contribuição dele, pois quando
formos falar de histeria e outros assuntos, [veremos que] realmente, ele contribuiu muito para isso. Mas
ele teve esse erro que deixa tudo muito complicado. Freud chegar ao ponto de falar que Napoleão
Bonaparte fez tudo o que fez porque tinha inveja do irmão mais velho é uma “forçação de barra” no
mínimo interessante: como ele tinha raiva do irmão, descontou essa raiva no mundo, e por isso construiu
um império (porque tinha raiva do irmão); [quer dizer] claro que não dá para explicar a coisa toda desse
jeito, é uma forçação de barra. Freud é o exemplo de um erro moderno, um erro que nós cometemos.

O que é o erro da paixão? Não que a paixão em si seja um erro, mas o que erramos quando
estamos apaixonados? Tomamos a ideia que temos da pessoa pela realidade, como se a pessoa fosse
aquilo que pensamos, mas ela não é o que pensamos. Ela não é o que pensamos. Sei que no começo da
relação ele é lindo (e sei também que no começo da relação ele se esforça um pouquinho para ser mais
lindo), mas desde antes de começar a relação ele já havia dado sinais de quem ele era. No começou da
relação opera-se com um princípio de seleção, que é o princípio de seleção apaixonado. Às vezes fala-se
que só casando para saber mesmo como é a pessoa; [e isto é] claro, pois no casamento temos não a
pedagogia da presença, mas a radicalidade da presença, de manhã, à tarde e à noite. E a ideia da paixão se
confrontará com a realidade concreta: vamos ver o que sobrará.

Quando falamos em um namoro longo, conhecer a pessoa um tempo etc., é neste sentido: tentar
prever alguns possíveis erros, permitir conhecer o outro, permitir que muita coisa aconteça antes de uma
decisão importante como o casamento. Muitas vezes, em relação aos outros — no trabalho [por exemplo],
quando chega uma funcionária nova, no mesmo dia podemos pensar que não fomos com a cara dela, ou
pensar que ela parece ser muito querida e depois [ela pode] revelar-se uma psicopata com o passar dos
meses — erramos nas apreensões, erramos nos conceitos, porque não olhamos muito bem para a
realidade do outro.

Isto era importante ser dito porque o tempo todo estou falando de mulher como conceito, mas o
curso só será realmente efetivo e mais interessante — mais do que um conteúdo intelectual —; o curso
funcionará se quem estiver ouvindo comparar isso com a realidade e enxergar isso na realidade. [Pode se
perguntar] como é que sei tanto sobre Platão, Aristóteles e Julián Marías, mas não é que eu decorei
palavras deles, mas porque eu vi o que eles viram, e quando vemos, não esquecemos. Uma coisa é saber de
cor passagens de livros, filmes etc., outra coisa é ter visto a mesma que aquele autor viu e ser
impressionado por aquilo de tal forma que jamais se esquecerá. É mais fácil lembrar-se da frase de um livro
ou de um lugar que conhecemos? [Do lugar] claro, porque você viu. O livro funciona quando você vê. As
palavras são tão fortes que convidam a ver, e quando vemos não esquecemos. Não é necessário lembrar
palavra por palavra do livro, e sim da realidade que o livro aponta.

Então, a primeira grande dica é: não vamos cometer o mesmo pecado que Freud cometeu, de
tomar a parte como todo. Sim, existem problemas sexuais, mas isso é uma parte, isso acontece com uma
determinada porcentagem das pessoas, isso não define as pessoas. Julián Marías disse que Freud teve a
grande contribuição (e isso é bem positivo) de trazer o sexo para o assunto do dia; isto é realmente
louvável, há um bom tempo que ninguém tocava no assunto. Sabemos que na Idade Média e também na
Idade Moderna, o assunto passava por debaixo dos outros e nunca tinha vindo para o primeiro plano. É aí
que Freud pega o sexo e o traz para o primeiro plano, isso foi importante. Porém, o problema é [que] o ser
humano não é definido por esta área da vida. Freud fala pouco da mulher, mas a primeira coisa que ele fala
da mulher é que a mulher tem complexo de castração; ele só fala coisas não muito positivas [sobre a
mulher]. O complexo de castração é [o fato de] a mulher não ter o membro da virilidade, ela é castrada.
Isto gera na mulher uma impotência e o recalque dessa impotência (usando termos psicanalíticos), a
repressão dessa impotência é o que faz com que a mulher seja histérica, megera etc.

00h20 a 00h30
Isto gera na mulher uma impotência e o recalque dessa impotência (usando termos psicanalíticos),
a repressão dessa impotência é o que faz com que a mulher seja histérica, megera etc. Esta é a explicação
freudiana. Ou seja, estruturalmente, todas vocês [mulheres] são castradas

Aluna: E histéricas também?

Isso é o normal. O que Freud mais estudou foi justamente histeria, que vemos, obviamente, em
grande parte nas mulheres, mais do que nos homens. A histeria é quando você toma a sua imaginação ou
uma realidade psíquica sua e exacerba isso, e de uma certa forma isso parece realidade, toma ares de
realidade, mas é algo que está só dentro de você. Você engrandece, supervaloriza uma imagem interna. É
aquela menina que está no show do Luan Santana gritando que o ama. Ela não ama [risos]. Na cabecinha
dela, ela acha que ama, mas ela não ama, claro que não ama, é impossível que ela ame: ela não conhece o
Luan Santana, como vai amá-lo? São expressões de histeria. E, tudo isso, segundo Freud, porque vocês
[mulheres] são castradas estruturalmente; vocês não têm o falo, vocês já nascem em débito, com uma peça
a menos, por assim dizer [risos], e aí têm de dar conta disso.

Freud também diz (são só coisas ruins, mas logo passamos à parte boa, que não é em Freud) que a
mulher é que é narcisista. Ele diz isso porque ela cultua a si mesma, preocupa-se com sua beleza, olha para
ela no espelho. Ela passa na rua, onde há um prédio espelhado, e é quase que impossível a mulher não
olhar para o reflexo no prédio espelhado, para ver se o cabelo está como deveria etc. Esse olhar, esse
ensimesmamento (como chamaria Julián Marías), esse voltar para si mesma, Freud encarou como um
Complexo de Narciso. Ele esqueceu que, na verdade, o mito de Narciso é um homem, é um homem que
apaixona-se por si mesmo. Mas, enfim, ele achou que a mulher é muito mais narcisista que o homem. E ele
disse ainda, que a mulher quer ser amada — diferente do homem, que quer amar. Que a mulher está muito
mais disponível para ser amada do que para amar, e que o homem está louco para amar alguém, para lutar
por alguém, para conquistar alguém.

Se pensarmos em sociedades um pouco antes da nossa, vemos que a coisa funcionava mais ou
menos assim: uma mulher jamais demonstrava amor por um homem sem que ele tivesse demonstrado
antes. A mulher acenava conforme ele demonstrasse o interesse. Não faz muito tempo que isso mudou, às
vezes ouvimos de pessoas um pouco mais velhas um estranhamento ao mundo de hoje, em que a mulher
toma a atitude e vai em cima do sujeito.

Aluna: Mas isso é ruim, não é?

Eu acho ruim, particularmente eu acho ruim. Como homem, estou falando que acho ruim.
Aluna: É da natureza do homem...

É da natureza, perfeito, é da natureza do homem ser o que vai.

Aluna: Não, na verdade, é um nome um pouco feio, mas [é da natureza do homem ser] predador.

Entendi, você está pegando um aspecto biológico e trazendo para o simbólico. Sim, falamos na
semana passada que só a mulher é capaz de provocar, no sentido etimológico da palavra, de chamar para
ela. A mulher é provocante, ela chama, ela traz a responsabilidade para ela, ela entra no ambiente e traz o
olhar do outro para ela. E então o homem vai em direção à ela. É realmente muito esquisito quando
acontece o processo inverso. Os homens, inclusive, sentem-se um pouco assustados.

Aluna: É, eu já vi várias conversas de homens, e nunca os vi falando que acham ótimo.

E eu tenho alunos adolescentes que contam-me histórias de baladas etc., e até esses, mais
novinhos, acham uma coisa um pouco esquisita. Podem aproveitar na hora, mas não deixam de achar
esquisito. Às vezes aceitam, [até porque] os outros amigos vão achar no mínimo estranho se o sujeito não
aceitar, mas eles acham estranho que a mulher seja (isso é contra o símbolo) quem penetra na realidade.
Não é a mulher que penetra, é o homem. É ele que tem que cercar aos poucos, e aí ela vai respondendo
conforme ele vai cercando, conforme ele vai demonstrando mais e mais interesse.

Neste sentido, Freud (talvez por razões diferentes das nossas) não deixa de estar certo, a mulher
quer ser amada. Permitam-me agora um parêntesis: que infelicidade a da mulher que não é amada. Essa é
a parte dolorosa da história.

Aluna: Ela sempre vai ficar esperando.

Exato. E ela pode esperar tanto, que pode desistir. Se ela desiste, é pior ainda, porque ela decreta
uma morte antecipada, uma morte da condição dela, da condição sexuada dela. Vocês devem conhecer
mulheres que resolveram isso muito cedo na vida e viveram sozinhas depois o resto da vida. Às vezes
acontece de ficarmos sozinhos, mas não que quiséssemos. Eu estou falando daquelas que quiseram, que
colocaram uma tampa naquilo e disseram que não queriam mais pensar no assunto. O fato de não querer
mais pensar no assunto que é perigoso.

Há, claro, mulheres sofridas, situações dramáticas, há coisas que deixam marcas, homens que
causam violência na vida das mulheres etc., mas nada pode ser tão forte a ponto de encerrar a mulher
nesse sentido, de fechá-la para o outro, de condená-la a uma solidão que não é a solidão frutífera, é
justamente a solidão da secura, do envelhecimento precoce. E não deixa de ser um certo desespero,
quando vemos a atitude contrária: ela não pode ficar sozinha de jeito nenhum, então ela sai
desesperadamente oferecendo para alguém que queira, penetrando a realidade exatamente como um
homem faria. Nenhum homem deve fazer, mas enfim, um homem um pouco mais ambicioso faria.

Depois de falarmos um pouco de Freud, a pergunta que podemos fazer é a seguinte: qual o grande
acerto de Freud nesse sentido? Dado que ele falou que a mulher tem complexo de castração, a mulher é
narcisista, a mulher quer ser amada: tudo isso soa realmente muito pesado, mas Freud acertou
efetivamente em uma coisa na sua proposta de análise. Qual foi o grande acerto de Freud?

Aluna: Que homens e mulheres são diferentes.

Sim, mas o grande acerto que estou querendo dizer é uma coisa que não havia sido percebida até
ali. Realmente ele contribuiu com algo.

Aluna: O despertar da sexualidade feminina, da importância da sexualidade feminina.

Sim, isto também é uma contribuição dele, mas ainda não é o grande diferencial, em termos de
compreensão da vida humana. Não sei se alguém aqui já foi em algum analista, mas o que fazemos quando
vamos ao analista? Basicamente, a pessoa chega [ao consultório], fecha a porta, há um divã, a pessoa deita
e começa a fazer o quê? Falar. E ele vai cutucando, fazendo perguntas e a pessoa fala, fala, fala. Quer dizer,
a grande contribuição de Freud foi trazer para o plano do conhecimento realmente a respeito do outro a
narrativa pessoal, o contar a própria história.

Aluna: Com o método da livre associação.

Exato. O método não é completo, e já vou dizer porque. Mas uma primeira grande contribuição foi
essa: o fato de o analista instigar você a contar a sua vida. Porque contando a sua vida é que você capta a si
mesmo, e o analista funciona ali como um alter ego quase, é só para você jogar a bolinha e ter uma parede
para devolvê-la. Na verdade é isso, e você poderia fazer isto com o seu diário, sem pagar R$ 250,00 a
sessão, é só comprar um diário e começar. Ou seja, Freud trouxe o seguinte: na biografia está a chave da
personalidade.

00h30 a 00h40

[29:54] O Freud trouxe o seguinte: na biografia está a chave da personalidade.

Lembram? Na primeira aula eu falei assim: o homem e a mulher, ou o ser humano, é diferente de
todas as outras coisas porque nós temos história. Uma mesa não tem história, um cachorro não tem
história, só o ser humano tem história. O ser humano apreende a si mesmo contando a sua história. Você
sabe mais de você que qualquer pessoa porque você conhece os detalhes da sua história que ninguém mais
conhece, ou pelo menos as outras pessoas não conhecem todos os detalhes da sua história. Viram a
tentativa de James Joyce, por exemplo? Já leram Ulisses? É um dos livros mais famosos da literatura
ocidental. É um livro de mil páginas em que James Joyce tenta contar tudo que acontece na vida de um
sujeito em um dia. As mil páginas são para um dia. Lá, a gente acompanha o sujeito indo ao banheiro, com
dor de barriga, indo comer, tudo está ali, ele tenta descrever um dia inteiro da vida do sujeito. É uma
leitura até interessante, mas é cansativa também. Tem muita coisa interessante ali, só que a gente fica com
aquela sensação de que não precisava daquilo tudo, de que podíamos pular várias partes...a gente não
precisa saber o que ele foi fazer no banheiro! James Joyce está tentando forçar ali a investigação da
personalidade no tempo. Por que onde está a sua identidade senão no tempo que já passou? Onde está a
arcada da sua biografia senão na sua história? E você vai ao terapeuta por qual razão? Porque lá você conta
a sua história e ele “destaca” os pontos chaves desta história, como aqueles capítulos da sua biografia que
dão o tom, o ethos e a forma da tua vida. Você precisa da ajuda dele porque ele é quem sabe pinçar o que
é importante e o que não é. Veja só o que se tornou o ser humano: a gente já não consegue fazer estas
coisas sozinho.

A gente não consegue mais contar a nossa história, não consegue mais elencar o que é importante
e o que não é. Você consegue dizer para você mesmo cinco fatos da sua vida que são determinantes nela?
Cinco coisas que fizeram você ser esse que está sendo hoje. Consegue pensar em cinco fatos? Consegue
pensar em cinco que não têm importância nenhuma que são senão algo corriqueiro da vida? Consegue
distinguir e pensar isso, a substância da sua biografia? “Isso tem substância, isso não tem”? “Aquele
aniversário tem substância, aquele outro nenhuma?” “Aquela pessoa tem substância na minha história,
aquela outra não? Não ganhei muita coisa, não é determinante para mim. ” Você consegue fazer estas
coisas sobre si mesmo?

Porque, veja, se você não consegue fazer estas coisas sobre si mesmo, como fará isso com qualquer
outra realidade? Como você vai distinguir no outro o que importa e o que não importa? Você tem de fazer
isso primeiro em você.

Ao mesmo tempo em que Freud deu essa grande contribuição da análise da vida por meio da
narrativa da própria história, ele também não deixou de errar no seguinte ponto: ele ficou preso ao
passado. Na análise você fala bastante da infância, dos traumas, daquelas coisas que estão lá no “porão”.
Mas aí está um problema: o teu eu não está lá no passado. Você entende que aquilo que aconteceu no ano
passado faz parte de você, mas não é você, você não é mais aquele. Você já é esse que viveu todas as estas
coisas desde aquele ano. Então, o teu eu não é o do passado, mas o do presente. Por isso, esse
probleminha na análise da terapia freudiana. Um probleminha que é um problemão na verdade: o de ficar
preso ao passado. E você às vezes fica 10 ou 15 anos fazendo análise, investigando o passado.

O que a gente propõe, por exemplo, na bio-atria, no atendimento individual, é justamente o link,
como aquilo no passado ecoa hoje em nós, e de hoje como aquilo continuará ecoando para amanhã.
Porque na bio-atria a gente faz questão de lembrar que a vida é para frente e não para trás. A vida é um
projeto, é uma expectativa de futuro. Sim, o passado é uma circunstância da sua vida que deve ser
reabsorvida no presente para reelaborar os projetos de amanhã. Logo, se eu me dirijo ao passado, eu me
dirijo de maneira objetiva, num certo sentido, para eu fazer um link como o meu hoje. Porque é o meu de
hoje que volta para o passado. Ou seja, quem está perguntando pela festinha de cinco anos? É o eu de
hoje! É esse eu de hoje que tem que arcar com a imagem da festinha de cinco anos. O eu de hoje. Você não
tem mais cinco anos, você tem trinta e poucos anos. Você continua tendo os seus cinco, seus seis, seis dez,
seus doze e seus quinze anos, mas o trinta é poucos anos, que você tem agora, que é o seu presente. O eu
é esse aqui, o de hoje. É esse eu que tem mais ou menos consciência do passado que pode projetar futuro.
Quanto menos consciência de passado você tem, menos você projeta. Ou os teus projetos são menos
substanciais, entende? Quanto menos eu sei de mim, menos eu projeto de maneira segura e confiante a
respeito de mim mesmo.

É aquela famosa frase, bem “lugar comum”, coisa de parachoque de caminhão: não há ventos
favoráveis para quem não sabe para onde vai. Às vezes um parachoque de caminhão faz a gente
pensar...Quer dizer, se você se não de onde veio, como é que você pode planejar para onde você vai?

Nós não falamos numa aula passada que uma grande característica da mulher de hoje é estar
desorientada? Então, na aula de hoje estou tentando fazer com que vocês peguem a aula da semana
passada e encaixem aqui. Você está ou não está desorientada ou desorientado nesse sentido que estou
falando hoje, que é o sentido mais radical em que podemos falar? Você, a sua vida concreta, sabe mesmo
de onde você veio? Você conhece mesmo a tua origem? Você conhece mesmo os fatos que sucedem na
sua vida, na sua biografia, que são determinantes para você ser do jeito que você é hoje, que devem ser
levados em conta para o projeto de amanhã? E pior, você tem projetos para amanhã e ano que vem só?
Você já está depressivo. Você tem projeto para quando? A sua visão de futuro é estreitinha deste jeito?
Você não tem projeto para daqui 30 ou 40 anos? Você não tem projetos para depois da morte? Você está
numa visão estreita. Você está biograficamente depressivo. Porque, se tem uma coisa que faz a gente
levantar da cama e ter garra, são justamente os projetos de longo prazo, não os de curto. Tem gente que
trabalha assim, como que a toque de caixa. Vou juntar dinheiro porque ano que vem farei isso, depois
vou fazer aquilo, sempre com um plano curto, e a sua consciência será curta também. Você não consegue
arcar com coisas bem longas e duradouras. Você não acha que, em parte, a falta de religiosidade das
pessoas hoje é porque elas não conseguem arcar com destinos longos? Arcar com coisas que podem durar
para sempre. Olha que coisa maravilhosa...

A gente está tão presa no presente que ele acaba se tornando um algoz. A gente está tão
condensada no presente que a gente não consegue falar de coisas de vinte anos atrás, que dirá para
sempre. Nem casamento dura mais esse tempo todo. “Vou te amar para sempre virou frase de comédia
romântica”, porque não tem mais substância na vida do dia a dia. Não combina mais com hoje. As coisas
são evanescentes, são tratadas com evanescência são fugazes. A gente vai ao restaurante e, se o prato
demora quarenta minutos, fica irritado.

A espera, que é uma das coisas que definem a mulher, já não faz parte mais do mundo da mulher.
Meu Deus do céu, onde nós vamos parar assim? Você fica nove meses esperando, não é? Mas você tem
uma expectativa, pode ser boa essa espera mesmo.

Vejam, antigamente, as mulheres esperavam a carta, esperavam o sujeito voltar da guerra,


esperavam o sujeito voltar, mas o que que alimentava elas senão a espera? Senão a antecipação de um
futuro que ela não tinha certeza se ia acontecer, mas tinha aquela coisa de uma confiança no futuro?
[40:04]

00h40 a 00h50

Senão a antecipação de um futuro que ela não tinha certeza de se ia acontecer, mas tinha aquela
coisa de uma confiança no futuro? A vida como projeto, isso é que tem que ser resgatado.

Roger Scruton diz que tem uma coisa que foi vilã nessa história toda: a televisão. A televisão enfiou
a gente no presente de um jeito, tornou a gente tão pequeno, tão fechado que é difícil transgredir isso.
Para nós que assistimos muito TV e estamos sendo sempre condicionados pela notícia do dia, o capítulo do
dia, as coisinhas do dia, é tão difícil para extrapolarmos isso e pensarmos, por exemplo, que há coisas que
duram para sempre. E quando eu digo “há coisas que duram para sempre” isso não pode soar como apenas
algo bonito, isso tem que encontrar em você, ecoar em si, como uma realidade, porque de fato há coisas
que duram para sempre. Não é uma brincadeira isso, não é uma declaração de amor, de fato há coisas que
duram para sempre. A realidade é assim, ela se constitui assim. Se tudo fosse evanescente, nós nem
estaríamos aqui para contar essa história.
Estava falando de desorientação... Antes, quando eu digo “antes” estou falando do século XIX, XVIII,
XVII, a mulher era mais ou menos pressionada socialmente? Vocês acham que as vigências sociais
pressionavam mais ou menos a mulher se comparadas a hoje?

Aluna: Menos.

Prof.: Menos? A mulher tinha mais possibilidades de expansão de vida?

Aluna: Ela tinha menos possibilidades...

Prof.: Menos possibilidades de vida, porque havia uma pressão maior ao jeito que ela tinha de
viver. O script era rígido, era fechadinho. Era assim: você vai ser casada, vai ser freira, não é? Eram 4, 5, 6
tipos de vida possíveis.

Agora vou usar um exemplo de Kant, vocês vão entender onde vamos chegar. Kant dizia o seguinte,
é um exemplo dele que acho muito bonito: quando a pomba voa, ela não sabe que só voa porque existe a
resistência do ar. Quando Julián Marías comenta esse exemplo de Kant ele fala uma coisa maravilhosa, ele
diz que hoje – século XX em diante, ele escreveu esse livro no século XX – a mulher tem bem menos
pressão, há bem menos coisas forçando-a a ser daquele jeito ou de outro. Ou seja, há menos resistência no
ar para ela voar.

Vocês percebem que existem menos pressões hoje, sim, e que por isso mesmo as mulheres estão
mais desorientadas? Quais eram as dúvidas de uma mulher do século XIX? Farei isso, farei aquilo? Eram
limitadíssimas as possibilidades. E ela tinha de criar era naquelas.

Jane Austen queria ser romancista no século XIX, não era uma coisa fácil. Ela teve de criar dentro
das vigências dela.

Aluna: A criança também, quanto menos pressão, mais desorientada fica.

Prof.: Perfeito. Quanto menos regras, menos limites. Tem lá Içami Tiba vendendo horrores, ficando
rico para dizer “pais, digam “não” para seus filhos”. Olha só que coisa, reinventou a roda.

Aluna: Uma vez meu terapeuta disse para mim: o que te aflige não é você não ter escolha, é você
ter todas as escolhas, e você não sabe como lidar com isso.

Prof.: É isso que estou querendo dizer. É a falta de limite, a falta da pressão que me desorienta.
Vejam só o que é o ser humano. É justamente por perceber, ali na transição da adolescência para a
juventude, que você poderia fazer qualquer coisa é que você fica desorientado. E o que fazem essas
feministas que mostram os peitos na rua, colocam um crucifixo na vagina, essas coisas que vocês viram no
ano passado durante as manifestações. Essa cena eu vi também, fizeram a gentileza de me mandar por e-
mail, mandaram-me essa cena da feminista enfiando o crucifixo na vagina. Quer dizer, é a falta total de
limites. E vejam, esses tipos de movimentos o que estão pedindo? Menos limites, menos limites, menos
limites. Bom, vamos ver onde vamos chegar, não é?, com a total falta de oposição. “Eu posso qualquer
coisa!”, não meu amigo, você não pode qualquer coisa. Primeiro a vida já lhe diz que você não pode
qualquer coisa, porque você está limitado a um corpo, você toca o mundo com esse corpo, esse corpo tem
um monte de limites e vai ganhando mais e mais limites ao longo da idade, não é assim? Aline não pode ser
ginasta olímpica. Queria, mas não pode mais, Aline. Não dá mais, Aline. A mulher com 62 anos queria ser
mãe, puxa!, biologicamente não dá mais. O corpo vai impondo isso, porque a realidade é assim.

Então você entenda que o homem – olha que coisa absolutamente fina e interessante – expande na
tensão. É na exigência que ele expande. Filhos que podem fazer o que quiser nós sabemos onde
geralmente a coisa dá.

Nós erramos feio de umas décadas para cá ao pensarmos que o problema tinha sido o limite, e que
portanto agora tinha que tirar um pouco a mão. E aí os pais estão completamente desorientados hoje em
dia. Vão até à escola, a escola quer comunicar que o menino não está bem e os pais perguntam “Mas o que
a gente tem que fazer?” Os pais em geral não sabem o que tem de fazer. E aí diz a pedagoga cheia de
teorias de Piaget na cabeça “Você deve fazer, deve fazer aquilo”, coisas que funcionam no livro do Piaget,
você vai aplicar em casa e vê que não dá certo.

É preciso assumir e aceitar que existem limites na vida, e que justamente a criação, o “bater asas”
da pombinha, só é possível pela resistência. Quer dizer, se algumas mulheres conquistaram lá atrás o
direito ao voto, o direito a frequentar uma universidade, tudo isso é importantíssimo na história de vocês,
mas elas conquistaram porque havia uma resistência.

Então Julián Marías diz que antes da Revolução Industrial você tinha um número de profissões
existentes que cabia nos dedos das duas mãos. Pense na Idade Média: ou você era camponês, ou nobre, ou
da Igreja, acabou. E você tinha uma riqueza de personalidades muito grande. Hoje, pós-Revolução
Industrial, não sabemos mensurar o número de profissões que existem, e há uma homogeneidade de
estilos de vida. Não é no mínimo paradoxal? Que você tenha profissões sendo inventadas hoje, e cada vez
as pessoas mais parecidas. Onde está a riqueza da personalidade? Cadê a riqueza da individualidade, a
riqueza da identidade, sendo que você pode ser de ricaço de banco a personsal trainer, de promotor de
justiça a professor, até personal stylist – olha que coisa legal, você ganha dinheiro vestindo os outros, isso
aí foi uma idéia de gênio, você passa o dia fazendo compra.
Então vejam, nós temos muitas profissões e outras sendo inventadas e estamos cada vez mais
parecidos. Você coloca um advogado, um dentista e um operário numa mesa e não tem lá grande diferença
não. Nos objetivos e sonhos todos querem mais ou menos a mesma coisa.

Aluna: A Carta do Diabo ao seu aprendiz, não é?

Prof.: Exato. Olha o nome do livro “Cartas do Diabo ao seu aprendiz”, comprem esse livro, hoje.
Não se assustem com o título.

050h00 a 01h00

... olha o nome do livro: Cartas do Diabo ao Seu Aprendiz. Comprem esse livro, hoje! [00:50:00]
Compre hoje esse livro! Não se assuste com o título, mas compre hoje. É do C. S. Lewis que é o sujeito que
escreveu as Crônicas de Nárnia, que não tem nada de criancinha as Crônicas de Nárnia – o adulto que lê
aquilo fica... enfim é um universo maravilhoso aquilo ali. Mas enfim, o Lewis escreveu para jornais na
época, lá na Inglaterra, e em cada vez que ele escrevia, o artigo dele era uma carta de um diabo tio
ensinando um diabo sobrinho a tentar o ser humano. Então, cada carta tinha um tema, então, por exemplo,
“ah, quando ele quiser estudar, pensar numa coisa interessante, importante, lembre a ele que ele está com
fome, pra ele deixar para depois aquilo lá”. Então são várias dicas que o diabo vai dando, e daí você vai
lendo as cartas, “e nossa, cai nisso, caio naquilo também, e naquilo também”. E aí tem a famosa formatura
dos diabos, que o jornal pediu para que o Lewis escrevesse um fim para aquelas cartas, a aí o Lewis
escreveu uma formatura – é maravilho assim, é o gran finale. Então todos os diabinhos reunidos lá e o
diabo maior está lá propondo um brinde, e aí no brinde o diabo maior reclama de que não tem mais a
mesma graça tentar o ser humano hoje, porque os pecados têm todos o mesmo gosto. Não tem grandes
maldades, sabe aquelas assim... é tudo vilãozinho de novela da Globo, não tem nem vilão de verdade,
aquele vilãozinho que até a gente simpatiza. É aquele pecado que faz o Padre rir no confessionário, “menti
para a minha mãe”. Mas mesmo assim, o sujeito se sente super mal porque mentiu para a mãe.

Quer dizer, está faltando até isso, tá faltando grandeza até no fazer o mau e no fazer o bem, tá todo
mundo assim com gostinho de massa uniforme, tudo mediano, ou seja, medíocre. Eu fico imaginando que é
a vida de um padre no confessionário hoje em dia, as coisas que eles escutam: “nein, daria pra economizar
um tempo... nem precisava falar isso”. Então é preciso resgatar esse caráter de radicalidade, de
individualidade, de sabor da vida, que a gente, no geral, perdeu né?! Coloque lá dez dentistas num lugar
para conversar, você vai entender o que eu estou falando – todo mundo parecidinho. Não é? Aluna: “ainda
bem que você não falou de advogados”. Falei inconscientemente, porque quase todo mundo aqui é
bacharel... eu não falei porque né... Mas vejam né, se a tenção faz agente expandir...
Oh desgraça!, quem não é bacharel? Não e é verdade porque esses dias eu estava gravando uma
aula, batendo um papo... eu gravo aula para concursos públicos, eu dou aula para concursos públicos
também, e eu no maior papo com o câmera man que estava montando tudo lá, e eu falei, “puxa, eu vou ter
que dar uma aula aqui de introdução de Direito... é um troço tão chato”, e ele falou que foi a matéria que
ele mais gostou, “ah!”. O câmera man também era formado em Direito, eu falei “mais olha só gente!”.
Advogado está realmente virando uma raça assim... né, não muito disseminada né, não muito específica.
Mas, enfim.

Apesar da vida humana se expandir na tensão, o Julían Marías diz que a mulher, e aí mulher
especificamente, ela precisa de folga. Olha só que beleza, ufa, alguém tinha que dizer, porque até agora só
desgraça. Tem que ter uma foto dele em casa, vamos colocar uma foto dele em casa. O certificado no final
do curso vai ser uma foto do Julían Marías. Por que que a mulher precisa da folga? Por que a mulher
precisa lá de um tempinho de repouso, de sedimentação? Ela precisa de um tempinho para sedimentar.
Porque ela é um turbilhão mesmo, há uma vivacidade no mundo interior da mulher que precisa de
momentos de sedimentação, de calmaria.

Julían Marías diz assim, que a mulher precisa de uma dose de solidão. E aí a conversa pode ficar
bem tensa agora; porque nós não sabemos mais ficar sozinhos, agora nós, homens e mulheres não
sabemos mais. Quando a gente está sozinho no carro, a gente liga a música, quando a gente está em casa
sozinho – é difícil a gente ficar sozinho, mas quando fica -, a gente não gosta, as vezes, daquele silêncio.
Deixa a televisão ligadinha enquanto limpa a casa. Quer dizer, o que aconteceu com a nossa capacidade de
ficar com a gente mesmo, de deixar que as coisas fluam aqui dentro, que a gente dê um pouco mais de aza
a certos pensamentos, etc. O que aconteceu com essa capacidade? Porque, vejam, a relação que a mulher
terá com o mundo - aquele mundo dos homens que eu falei na semana passada, aquela relação que ela
terá com o marido -, será mais qualificada, virtuosa, se tiver vindo de uma solidão.

A mulher que menos fica consigo mesma, é a que menos fica intimamente com outro, ela não sabe
o que ela tem para entregar para alguém. Porque a mulher está sempre entregando alguma coisa, a mulher
está sempre oferecendo – se chegar na casa dela te oferece água, café, chá, te oferece chinelo para aliviar
os pés dos sapatos, ela oferece o tempo todo, ela oferece a comida -, é uma das palavras que define
mulher: oferta. Mas se ela não sabe o que ela tem para ofertar, ela não oferta nada, ela oferta um prato
vazio. Se ela não se deparou com seu mundo interior, se ela não acessou sua intimidade – falamos nisso na
semana passada, o quanto que a mulher é mais capaz que o homem de tocar a sua própria intimidade –, se
ela não tem esses momentos de reclusão, e de solidão, ela não tem o que ofertar para o outro na hora que
ela sai da solidão. Porque na solidão ela prepara o encontro. Não é assim? Quando você está sozinha
sabendo que você vai encontra-lo depois, você não projeta aquilo, você não pensa como vai ser? E aí, as
vezes ele vem e estraga tudo e não acontece nada do jeito que você pensou; na primeira palavra ele já
quebrou tudo. Aluna: XXXXX [0:57:16]. Você colocou aquele, sei lá!, aquela peça de roupa, aquela coisa que
ele adora, daí você encontrou no carro e ele nem percebeu. Nem que você estava dentro do carro, muito
menos com aquela peça de roupa. Mas enfim, você ficou um tempo planejando aquilo, isso fazer parte
mesmo desse mundo solitário da mulher; que tem que acontecer, tem que ter esse momentinho de folga.

Por isso, o Julián Márias também diz o seguinte, “que a mulher nunca deve trabalhar numa coisa
só”. Aluna: XXXXX [0:57:46]. E ele está entendo por trabalho como sendo atividade, atividade em geral; não
necessariamente um emprego. Ou seja, a mulher nunca deve ficar um dia fazendo a mesma coisa, porque
daí ela não terá folga. Ele diz assim: “um trabalho descansa do outro”. Então você está lá XXXX [0:58:13],
vou contar para vocês, na concepção dele o ideal seria a mulher trabalhar meio período fora de casa.
Aluna: “nós também”. Ideal por quê? Porque ela teria tempo para a casa, ela teria tempo para o mundo
dela, pra si, para aquele filho, para aquele marido; mas se ela ficar só em casa, só nisso, ela também vai
cansar. Ou seja, é importante que ela vá para a universidade, é importante que ela vá trabalhar fora,
importante ou seja, que um trabalho descanse o outro. Porque essa é a folga. Aluna: “No trabalho você
cansa em um e cansa em outro”. E aí é um problema, porque daí a gente tem que perguntar, por que está
tudo cansando? Por que está faltando tempo na vida? Por que que não está dando folga? O erro deve estar
em você provavelmente, porque você precisa da folga. E essa folga não é assim: “ah meu bem, eu preciso
de uma semaninha na spa”. Não é essa a folga - se isso acontecer, de vez em quando, ok, nenhum
problema - mas a folga sim, da manutenção da vida, é a folga da atividade que descansa a outra atividade;
cansaço físico haverá, não é? Viver é um pouco cansativo mesmo, mas uma mulher infeliz mesmo é aquela
que tem que apertar a mesma tecla todo o dia, e que a vida é a segunda igual a terça, a terça igual a quarta,
que desesperadores. Sendo que a mulher é o símbolo do infinito da expansão, da riqueza, da não
contenção, justamente é da extrusão, e daí ela repete os dias dela; isso é terrível, a mulher faz da vida dela
uma vida de operária. Por que que agente permiti essas coisas? ....

01h00 a 01h10

[1:00] Por que permitimos essas coisas? A mulher envelhece antes quando faz isso, quando ela não
descansa, quando ela não troca. E aí ele diz ainda o seguinte: “Quando não há folga, há o perigo de a
mulher secar a si mesma”. Sabe aquela coisa de você usar a mesma terra para plantar sem descanso, sem
adubo? É mais ou menos isso que vai acontecer, você vai se esgotar. Não é uma palavra que você usa às
vezes: estou “esgotada”? Mas não era para estar porque daí o esgotamento vai dar tempo para a graça?
Esgotamento vai ser lugar para ser graciosa? Ah, que graça, você está lá infernizada com o teu dia, cansada
da vida, querendo que ele, os filhos, todo mundo suma, as louças sumam, todo mundo suma da sua frente.
Aí você vai ser uma graça nessa hora.

Aluna: Desgraça.

Aluna: Mas isso é o que falei desde o início.

Tiago: O quê? Fala, repete.

Aluna: Para ter graça você não pode trabalhar tanto.

Tiago: Exato.

Aluna: É muito difícil ter graça o tempo inteiro.

Aluna: Escrava, escrava.

Tiago: Escrava. E aí, Mari, se perguntarmos por que trabalhamos tanto, temos um monte de
respostas para isso. Um monte. Justificativas não faltarão e eu não estou nem dizendo que elas são ruins,
mentirosas, mas talvez elas não sejam necessárias.

Aluna: As justificativas?

Tiago: Sim, o que você usa para justificar tanto trabalho. Porque necessidade, uma palavra latina,
quer dizer “não dá para ser diferente”. Necessidade é isso. Necessita comer, não tem como ser diferente.
Agora, você não necessita ganhar dez mil. Entendeu? Você quer ganhar dez mil. Você quer por vários
motivos. Você quer porque isso te dá uma segurança, você quer porque isso te dá acesso a algumas coisas
(...)

Aluna: Conforto também.

Tiago: (...) te dá conforto, porque você pode entrar lá na loja da Prada. Não, acho que com dez mil,
não.

Aluna: Dez mil? Não.

Tiago: Dez mil, não, vai o salário do mês.

Aluna: Entrar você pode (...)

Tiago: Entrar você pode.

Aluna: (...) você só não pode comprar nada.


Tiago: É verdade. Dez mil não dá mais para nada, é verdade. Mas você quer ganhar mais de dez
para poder entrar lá na loja da Prada. Uns trinta dá, né. Então, são todas razões que você dá para o fato de
você trabalhar tanto, mas que você daí tem de fazer o seguinte: arcar com o preço. E um preço que nós
estamos eu acho que percebendo — e vamos perceber até o final do curso, eu espero —, um preço que
talvez não dê para ser pago. Existem coisas na vida humana que são inegociáveis, não é? Você chegar um
dia e falar assim: “Nossa, não vi meu filho crescer”, isso é no mínimo trágico e você não tem de estar lá
toda hora vendo cada minuto da vida dele também. Quer dizer, você tem de sopesar, você tem de usar de
elegância na condução da própria vida. E sabe o que é elegância? É a arte de preferir o preferível. É
preferível arcar com mais aquilo no trabalho para ficar mais uma horinha lá para ganhar mais tanto no mês
ou é preferível correr para casa para ficar uma hora com o filho, para ficar uma hora numa outra atividade,
numa outra coisa para você? O que é preferível mesmo? O que é melhor fazer? Não a curto prazo, não
pense a curto prazo, mas a longo, por toda uma vida, por toda a eternidade, o que é melhor fazer? São
perguntinhas incômodas, eu sei que são, mas que justamente por estarmos no enforcamento do presente
alguém tem de nos provocar a pensar nelas. Alguém tem de nos tirar disso aqui, desse lamaçal e pelo
menos propor a pergunta, ainda que você continue respondendo do mesmo jeito, mas pelo menos você fez
a pergunta. Você se permitiu, permitiu a insegurança de rever isso. A insegurança é uma dose presente na
vida humana. Quer dizer, que mundo meio triste esse que temos jovens de vinte e cinco anos pensando na
aposentaria. Que mundo sem graça, na verdade. Que gente sem virilidade, que gente sem coragem, que
gente sem substância. Meu Deus, você não é capaz de contar com essa dose de insegurança da vida
humana? Você não é capaz de arcar com ela? Porque isso é viver. Eu sempre uso este exemplo: estava lá o
Steve Jobs com toda aquela fortuna na sua conta bancária e passou pela mesma coisa que todos
passaremos. O Julián Marías faz uma pergunta naquele livro A Mulher e Sua Sombra que eu achei no
mínimo terrível, ele pergunta assim: “Quais são os conteúdos da nossa vida que resistem à ameaça da
morte?” Porque a morte é um fechamento sempre, ela é sempre um ponto final, mas tem coisas que
resistem, olha só, à ameaça da morte. Quero fazer só mais umas duas perguntas e já vamos encerrar. A
outra pergunta é a seguinte: será que hoje a mulher está descontente com a sua situação ou com a sua
condição?

Aluna: É bem ligado, né? A situação te colocou numa... se a condição é a mesma (...)

Tiago: Não, veja. Um descontentamento com a situação é um descontentamento provisório, a


situação pode mudar. Então, a mulher estava descontente porque não podia votar. Entende? Aí passou a
votar, pronto. Agora, com a condição é descontente com ser mulher.

Aluna: Mas será que a situação não pode te levar à satisfação com a condição?

Tiago: Pode. As vigências da situação podem provocar isso.


Aluna: “Se eu fosse homem, não passaria por isso”?

Tiago: Exato. Sim, sim. Mas essa pergunta é para vocês pensarem com bastante calma se em algum
momento por exemplo da vida ou atualmente vocês estiveram descontentes em ser mulher. Ou se vocês
estão descontentes com uma situação feminina hoje, a situação da mulher hoje, com a tua situação. Quer
dizer, qual é o nível de descontentamento? Qual é o nível de desorientação? A outra pergunta, a última, é a
seguinte: existe uma mulher encerrada dentro de você que precisa ser libertada? Olha que pergunta
interessante. E o homem pode fazer a pergunta obviamente com o pólo oposto: se existe algum homem
encerrado dentro dele. Quer dizer, tem algo da sua condição de mulher que está preso aí precisando ser
trazido ao ato? Está como potência e precisa virar ato? Está encerrado dentro de você e nunca foi
atualizado? Essas e outras perguntas você pode se ajudar se você quiser procurar apoio para pensar nas
perguntas e enfim, o livro que indicarei hoje, de novo do Julián Marias — o tenho indicado bastante, eu não
escondo que é o meu filósofo de predileção mesmo, o meu mestre — Mapa do Mundo Pessoal [Mapa del
Mundo Personal]. Eu desconheço versão em português, só em espanhol mesmo e também não terá edição
nova, então vocês procurarão em Sebos. Fazendo propaganda da Estante Virtual (estantevirtual.com.br),
você digita lá, tem alguns exemplares. Então, aqui, por exemplo, só para vocês terem uma idéia do índice: A
Condição Pessoal da Vida Humana, O Mapa Narrativo do Homem, O Caráter Dramático do Mundo Pessoal,
A Futuridade da Vida, Ser Pessoa Masculina e Ser Pessoa Feminina, A Gênesis da Pessoa, A Criança, A
Razão, O Corpo e por aí vai. Tudo o que faz parte, ou seja, ele está mapeando a realidade pessoal. É
simplesmente maravilhoso. Para quem está aqui, posso passar para vocês olharem. E se não tem
perguntas... Fizeram a tarefinha, uma tarefinha simples, da semana passada: pensar nos modelos?
Pensaram? Não precisa ninguém falar quê modelo, só quero saber como foi fazer a tarefa. Como foi ter de
pensar nisso?

Aluna: Sempre é difícil (...)

Aluna: Frustrante.

Tiago: Frustrante?

Aluna: Ah, é difícil encontrar (...)

Aluna: Os modelos.

Aluna: Ah, tá, não. Eu sei que era só (...)

[1:10] Tiago: Lucélia, era pensar num modelo de mulher e que fosse modelo de mulher, não de uma
coisa ou de outra, mas um modelo que pudesse talvez encarnar tudo, se existe esse modelo na condição de
vida atual. Foi difícil?
Aluna: Foi difícil.

Tiago: Sara?

Aluna: Sim.

Tiago: Sim? Mas encontraram algum?

Aluna: Um modelo perfeito, não. Mas acaba elegendo (...)

Tiago: Alguns.

Aluna: Cada um para alguma coisa.

Tiago: Para setores da vida?

Aluna: Sim.

Aluna: Papéis, né?

Tiago: Papéis. E daí pensaram por que aquela pessoa era modelo para você? Você sabe que o que
admiramos no outro é o que queremos para nós, não é? Na bioatria às vezes eu faço esse testezinho com
as pessoas: escreva aí coisas que você admira nas pessoas que você conhece, pode ser pessoa famosa
também etc. Tudo que admiramos no outro é o que na verdade nós temos dentro de nós, mas não está
atualizado. Está atualizado no outro por isso que admiramos.

Aluna: Nós reconhecemos.

Tiago: Nós reconhecemos porque não é estranho para nós. Eu consigo admirar a plena atividade do
meu pai porque deve ter dentro de mim a mesma coisa que está precisando só ser atualizada.

Vou deixar de tarefa, além das perguntas que vocês vão pensar sobre elas, um filme. Algumas aqui
já assistiram, é um filme francês, ele se chama A Viúva de Saint-Pierre. É com aquela atriz, me ajude a
lembrar o nome dela, Aline.

Aluna: Juliette Binoche.

Tiago: Juliette Binoche. Eu amo aquela atriz.

E por hoje é isso. Podem ir para os embalos de quinta à noite. Obrigado. Obrigado pelo pessoal da
gravação também.
AULA 04

00h00 a 00h10

[0:00] Bom, então vamos começar. Muito bem. Então, quero começar a aula ouvindo de vocês
sobre o filme. O que vocês acharam do filme e não acharam?

Aluna: Bom, eu já quero me antecipar. Já conversei bastante com a Mari sobre o filme e a nossa
idéia foi muito similar, então acho que ela pode começar.

Tiago: Ela pode fazer o papel de...

Aluna: Eu e ela, a gente... entendeu?

Tiago: Combinou tudo, as impressões foram as mesmas.

Aluna: Exatamente.

Tiago: Ah, entendi.

Aluna: E as minhas foram as mesmas da Aline.

Tiago: Ah, ok, ok. Então, Mariana e Aline, vocês falarão pelo grupo.

Aluna: Ah, eu posso falar.

Tiago: A Fran também assistiu?

Aluna: As minhas são as mesmas.

Aluna: Agora minha responsabilidade é maior, né. Eu assisti ao filme. Achei bonito. Em relação ao
curso mesmo, acho que é um exemplo bom de homem e de mulher. No caso, o capitão, ele era bem...

Aluna: Másculo?

Aluna: É, enfim, não era um brutamontes, um ogro, mas cumpria o papel dele e tinha um olhar em
relação à esposa bem interessado, vamos dizer.

Aluna: Mas por quê?


Aluna: Porque estava sempre reparando nela, no olhar ele já sabia o que ela queria. Não era nem
um pouco, vamos dizer (...)

Aluna: Eles eram bem cúmplices.

Aluna: (...) Cúmplices, é!

Tiago: Não tinha o futebol ali para separar os dois.

Aluna: Não tinha o futebol (...)

Aluna: Naquela época nem existia futebol.

Aluna: (...) E ela também, sem perder a feminilidade, era uma pessoa bem ativa e de personalidade
forte.

Aluna: Foi a minha impressão.

Tiago: Aline? A mesma coisa?

Aluna: Faz tempo que eu assisti.

Tiago: Mas você tem alguma coisa além disso?

Aluna: Então, relacionado ao curso, para mim tem o fato do preso lá, que ele mudou. Querendo ou
não, ele foi condenado à morte e na trajetória, enquanto ele esperava, ele ouve melhor. Então acredito que
todo mundo pode mudar.

Aluna: Ele passa a ouvir melhor depois que ele percebe que ele errou? Foi isso, assim, mais ou
menos?

Aluna: Não, ele... Eu sei que ele era um condenado.

Aluna: Ele assassinou uma pessoa.

Tiago: A pessoa é aquela que chega depois no trem e quer sentar na janela, entendeu? Você quer
entender o que é querer sentar...

Aluna: Faz anos que ela faz assim, ela não vai mudar.

Tiago: Entendi. Então, nem vou ter esperança quanto a isso. Mas o personagem mudou, está
vendo? Continue.
Aluna: Eu vejo legal a cumplicidade dos dois e a forma como cada um realmente atua no seu papel,
tanto o homem quanto a mulher.

Tiago: É, a idéia ali, você tem na personagem do filme — para quem ainda não assistiu e para quem
pretende assistir seria muito bom que assistisse, quem está vendo a gravação também — uma perfeita
harmonia entre força e graça porque ela não é uma fraquinha, não é uma mulherzinha, em nenhum sentido
ela é uma mulherzinha, ela é uma mulherzona, na verdade. E ela combina as duas coisas de uma maneira
que eu julguei modelar para vocês, falei: “Eu acho que elas vão gostar de ver um modelo de mulher”. Ela é
um modelo de mulher, aquela personagem, como ele é um modelo de homem. Então exatamente no
sentido que nós temos falado aqui no curso de que uma condição sexuada atualiza as suas potências
quando em oposição à outra, você tem isso naquele casal. Você tem um grande homem, que é um grande
homem porque ela é uma grande mulher e vice-versa. Então aí você tem realmente a possibilidade de
cumplicidade entre dois grandes que estão instalados verdadeiramente na sua condição.

Aluna: Ele não queria também dominar?

Tiago: Não.

Aluna: Ele confiava no que ela queria fazer e dava o suporte que ela precisa também?

Tiago: Exato. Nós vemos também até onde vai a autoridade do homem porque, sim, o homem tem
uma autoridade, ele tem uma autoridade no mundo. Ele tem mais força, ele tem um monte de elementos
que fazem parte dele, que o constituem, que o colocam numa posição de mando, de liderança etc., mas ali
você vê até onde vai essa autoridade e se passasse um pouco daquilo viraria autoritarismo, domínio.
Quando um homem não ama a sua esposa, ele a domina. Nós falamos isso na primeira aula. Quando eu me
desinteresso pessoalmente pela minha mulher, ela se torna objeto de domínio. Como eu, homem, tenho de
dominar muitas coisas, a minha mulher é mais uma que eu tenho de dominar. Eu tenho de dominar a
minha vida profissional, tenho de dominar o meu campo de atuação como um todo. Uma das coisas que
configuram o homem é isto: a palavra domínio. Então a mulher se torna também objeto de domínio, sendo
que a mulher nunca pode se tornar objeto de domínio porque entre homem e mulher tem de acontecer
uma coisa chamada relação pessoal. Mas como pode haver uma relação pessoal quando não há duas
pessoas conscientes da sua pessoalidade? Nós poderíamos ficar falando aqui horas e a aula viraria tratado
de sociologia só para abordar a coisificação das relações, quando eu trato o outro como coisa. Se de uma
forma o homem tem domínio sobre a mulher, tem cada vez mais exercido esse domínio porque está cada
vez menos interessado nela como pessoa, a mulher tem sido conivente cada vez mais com a sua própria
coisificação. A mulher tem aceitado a condição de objeto, esta é a questão, que é o que ela jamais deveria
aceitar. Então, que o homem queira dominar é um problema, que a mulher aceite esse domínio como
coisa, é outro. São dois problemas, cada um corresponde mais radicalmente a um dos sexos e os dois
correspondem de maneira secundária aos dois sexos, é um problema dos dois. Então, uma das coisas mais
urgentes que nós precisamos é recuperar a dimensão da pessoalidade. A famosa frase de Santo Agostinho
que, se não me engano, já citei aqui: “O maior erro do homem é amar o que deveria usar e usar o que
deveria amar”. Então, o homem estabelece relação com muitas coisas. O homem estabelece relação com
os animais, o homem estabelece relações com as coisas mesmo: “Ai, o meu celular! Tadinho do meu
celular, judiei dele hoje”. Pode ser que você tenha dito isso já. “Ah, a minha casa! A minha casa é tão
querida!” Nós temos essa capacidade de tudo o que tocamos — tendo aquilo vida como um animal ou não
tendo vida como um celular — temos o ímpeto de humanizar. Nós falamos com o cachorro, nós falamos
com a planta às vezes, nós humanizamos as coisas. Nós projetamos nas coisas e nos outros seres que não
são humanos sentimentos humanos, inclusive. ”Ah, eu acho que o meu cachorro está um pouco angustiado
hoje”. Não, tenha certeza de que ele não está, mas você pode ser que esteja, mas ele não está angustiado,
esse sentimento realmente para ele não deve existir. Mas, enfim, nós projetamos coisas neles.

Aluna: Pode repetir a frase de Santo Agostinho?

Tiago: O maior problema do homem é amar o que deveria usar e usar o que deveria amar.

Então, vou colocar aqui um paradoxo para vocês: se ao mesmo tempo faz parte do ser humano
humanizar tudo o que ele toca, ou seja, dar um aspecto de humanidade para tudo com o que ele
estabelece relação, é no mínimo interessante que com as pessoas ele estabeleça uma relação de
coisificação. Qual é a explicação para isso? Que com coisas, objetos pessoais, nós temos uma relação
humana com aquilo: “Quem pegou a minha caneta? É a minha caneta preferida!”. Nós estabelecemos uma
relação de “intimidade” com as coisas. Como conseguimos fazer isso e ao mesmo tempo coisificar o outro?
Qual é a explicação para uma atrocidade dessas? Nós conseguimos humanizar o filhote de uma baleia, por
exemplo: “Oh, que lindo, que fofo!”, e coisificamos, às vezes, o filhote humano, mas, enfim, isso é uma
outra discussão. Mas como somos capazes de fazer uma coisa dessas? O que está em jogo aí? O D. H.
Lawrence — lembra que na primeira aula ou na segunda, eu falei para vocês: “Procurem um conto”, não foi
uma tarefa, foi só uma indicação, [0:10] “Procurem um conto de D. H. Lawrence chamado A Raposa”?
[0:10:03]

00h10 a 00h20

[00:09:58]Procurem um conto do D.H. Lawrence chamado “A Raposa”. Ele é um genial escritor


britânico do início do século XX. Ele escreveu livros maravilhosos e um deles se chama “O Arco-Íris”, que eu
também leria, se eu fosse vocês, porque ele mostra gerações de uma mesma família tentando amar. É uma
história belíssima. Você acompanha três gerações de uma mesma família e o assunto principal é a relação a
dois. Tem um filme sobre o livro “O Arco-Íris” e sobre outro livro dele, chamado “Mulheres apaixonadas”-
excelente também. Mas ele é um grande contista, além de ser romancista. É bem provável que vocês
encontrem o livro “A Raposa” na internet.

O D.H. Lawrence, num dos textos que eu li dele, que não eram literários, mas um ensaio, havia uma
reflexão parecida com isso: “como é possível que o ser humano ame o verde e não ame o seu vizinho?
Vamos salvar o verde, vamos salvar o planeta, mas estou pouquíssimo interessado na pessoa que mora
aqui ao lado, estou pouquíssimo interessado nos meus próprios parentes, estou pouquíssimo interessado
nas pessoas...”.

Vocês devem conhecer, e as redes sociais deixam isso muito claro para nós, exemplos daquelas
pessoas altamente preocupadas com o meio ambiente, que são bem ativistas, mas que são
despreocupadas com o seu entorno pessoal. Esse é um novo tipo biográfico que existe. É mais fácil você
amar o filhote de bem-te-vi, ou o filhote de jacaré, por quê?

Aluna: Porque ele não responde você.

Porque o verde ou o jacaré – que oferece algum perigo físico caso queira abraça-lo, etc -, não
oferecem o perigo que um outro ser humano oferece. Qual o perigo que um ser humano oferece, e que as
outras coisas e os outros seres não oferecem?

Aluna: Confrontação?

Professor: De que? Porque, dependendo, se você pegar um cavalo do jeito errado, ele vai te
confrontar também. Não seria intelectual?

Aluna: Mas o cavalo é previsível. Você sabe o que esperar do cavalo ou de um jacaré, e do homem
você não sabe o que esperar.

Quer dizer, se lembrarmos das primeiras aulas, todos os outros seres são previsíveis. Eu sei o que
esperar do cavalo, eu sei o que esperar do meu cachorro e por isso é tão fácil amá-los. É super fácil amar o
meu cachorro. Eu sei o que esperar de todos os outros seres, mas do ser humano eu não sei o que esperar
porque:

Ele é uma realidade em aberto.

Amar o verde ou as baleias azuis ameaçadas de extinção é amar uma coisa em abstrato. Se eu
falasse para você “abrace o verde”, o que você faria? Quando eu falo “eu amo o meio ambiente”, isso é
uma idéia, um conceito.
Agora, de um lado você tem possibilidades abstratas de amor, que não são amor, portanto. Não
existe amor em abstrato. Amor abstrato não existe. “Ah, eu amo o verde!.” Não, você não ama o verde,
porque você está fugindo do único amor possível, você está fugindo da concretude. E amor na concretude é
aquilo que você pode estabelecer com outro ser humano, que oferece para você o maior perigo - a coisa
que mais afugenta o ser humano na face da terra - uma coisa chamada intimidade.

Um animal não pode ser íntimo do ser humano. Por que um animal não pode ser íntimo seu?
Simples, porque um animal não pode ter vida interior, e você tem. Qualquer ser humano tem vida interior.
O ser humano mais fácil de ser entendido, por ter menos problemas intelectuais e menos conflitos, ainda
assim tem uma vida interior. É esses dois mundos interiores que se chocam num encontro entre duas
pessoas, e a intimidade é como se você fosse uma casa, onde você abre a porta para um sujeito pegar
alguma coisa – é por isso que fugimos dela, é por isso que temos medo. Às vezes ele pode pegar algo que
você queria que pegasse ou até mesmo ele pode pegar algo que você não queria que pegasse. Ele pode
mexer numa coisa que você não queria que ele mexesse. É uma pequena abertura que você dá para o
outro entrar. Essa intimidade só é possível porque você tem a casa, ou seja, porque você tem um mundo
interior que não existe num animal.

Então, em grande parte a nossa fuga das relações pessoais, de caráter realmente pessoal, se dá
porque morremos de medo da intimidade, da penetração do outro na minha vida.

Tem um filme chamado “Na natureza selvagem”. O filme é maravilhoso, o ator é excelente e a
trilha sonora é maravilhosa também. O que aquele menino faz é simplesmente correr de qualquer
possibilidade de intimidade, só isso. Ele corre, corre e corre, e terá lá o seu fim por esse motivo.

Agora veja: se para qualquer um de nós as relações pessoais são problemáticas por si mesmas
porque são possibilidades de intimidade – vamos radicalizar um pouco mais agora -, para a mulher isso será
ainda mais importante, porque a mulher é aquela que passa mais tempo no reino da intimidade. A mulher
é obrigada isso por qual razão?

Certa vez eu dei um curso sobre filosofia da saúde e eu falava muito sobre isso na época: vocês
percebem que falam mais de saúde quando você não tem saúde? Você não pensa muito na sua saúde
quando está bem. Afinal, quando ela está em harmonia, aparentemente, não te chama a atenção. Só te
chama a atenção quando você está com dor de cabeça, com cólica ou naquelas situações alarmantes,
sintomáticas, etc. Estas coisas trazem a sua atenção para dentro. Por isso, quando eu comparo homem com
mulher, excluída a possibilidade de doença, quem é que vive mais situações no próprio corpo que induzem
a olhar para dentro, homem ou mulher? A mulher.
Primeiro, desde uma certa idade vocês convivem com uma coisa mensal, que “visitam” vocês
mensalmente, que é a menstruação. Todos os meses você o obrigada a pensar nisso, a pensar em você
dessa forma, a levar em conta esse processo interno. Também é a mulher que engravida. E aí vejam, é a
mulher que engravida, e não é o corpo da mulher que está grávido, é a mulher que está. É o ser dela que
está grávido de outro ser. Então, a mulher por questões biológicas, faz com que estes acontecimentos
também biológicos – como menstruar e engravidar – se tornem componentes biográficos; porque na
biografia da mulher estas forças da natureza, estas imposições da natureza, faz com que elas se dediquem
mais tempo ao mundo interior dela do que o homem. A mulher fica mais tempo instalada no corpo dela do
que o homem, por isso quando um homem é assaltado por uma dor de garganta dá para fazer um filme
sobre o assunto, porque ele vira simplesmente um trapo. Se ele corta o dedo, o drama é tão grande que
parece coisa digna de ir no Kajuru só para costurar o dedo. O homem não está acostumado a prestar
atenção a qualquer tipo de mecanismo interior, seja ele biológico ou não.

É mais fácil levar a mulher para o terapeuta ou um homem? É claro que é a mulher. Fale isso para
um homem! Pense em chamar o seu homem para um terapeuta para discutir a sua relação com ele. O que
ele provavelmente vai te responder? Que está ocupado, vai arrumar subterfúgios, vai afirmar que em tal
dia está ocupado, etc. É claro que ele vai fugir como o diabo foge da cruz. [00:20:09]

00h20 a 00h30

...pena que eu estou bastante ocupando ultimamente e tal né? Que dia que ele pode? [00:20:00]
Ah, terça à noite, puxa! bem no dia que eu não posso, senão eu iria claro, etc. Então é claro que ele vai fugir
como o diabo foge da cruz. O homem, tirando os filósofos e os escritores, ele não está prestando a atenção
nisso, via de regra; a não ser que coisas aconteçam, façam ele pensar, etc. Já a mulher é exatamente ao
contrário, ela está pensando quase que exclusivamente nisso; ela tem sentido íntimo da vida, que o homem
não tem, ou tem, de uma maneira mais defasada. Sentido íntimo, é uma expressão boa para hoje.

O que eu estou chamando de sentido íntimo? Sentido íntimo é o núcleo básico da tua existência.
Antes de você ter vontade, antes de você ter inteligência, antes de você desejar qualquer coisa, querer
qualquer coisa, você só pode desejar querer porque existe uma coisa em você pulsando de maneira
contínua chamada sentido íntimo, ou seja, você sente que você é você; você sente que você é alguém.
Entende, não é um sentimento de sentir frio, ou sentir paixão, é um sentido. Em que sentido? É um sentido
no seguinte sentido, para que você possa ter vontade de algo, essa vontade é de um eu que sente que está
vivo; que sente a sua própria corporeidade; que sente a sua própria existência; deu para entender isso?
Mais ou menos? vou explicar de outra forma.

Vamos pensar assim, quando você fala “puxa, eu quero ir para Paris”; quem está dizendo isto? Qual
parte sua está dizendo eu quero ir para Paris? Você consegue observar que existem estratos na sua psique,
ou alma – como você quer chamar -, existem dimensões do teu mundo interior. Quando você diz eu quero
ir para Paris, ou quando você diz eu quero melhorar de vida; é o mesmo eu que disse as duas coisas? Qual
eu é mais profundo? Bom, dependendo ele pode até dizer “eu quero melhorar de vida” como qualquer
atriz da Globo diz na Malhação. Mas não é nesse sentido, vocês entenderam que eu quis falar de uma coisa
um pouco mais séria. Então sim, esse aqui parece que é um desrespeito a um algo um pouquinho mais
fundo do que esse que quer ir para Paris porque está lá no meio do trabalho resolvendo um processo, está
de saco cheio naquela hora; “tudo que eu queria agora era ir para Paris”, né? Ficar lá uma semana, pelo
menos, e esquecer isso aqui. E aquele eu que diz eu quero ser melhor parece que realmente é um pouco
mais profundo, ou seja, o teu eu tem extratos, camadas no seu eu. O eu que diz, “humm quero pão de
queijo”, e o eu que diz, “fulano, eu quero ser feliz”, não é o mesmo eu. Então esse eu tem camadas, e todas
essas camadas se assentam sobre uma coisa, um núcleo permanente que constitui você, chamado sentido
único, ou sentido íntimo, perdão.

Entenderam? É você lá no fundo, esse é o sentido íntimo; é a certeza de que você é; você é alguém,
você é um ser. É esse sentido que permiti todos os outros querer. Todas as outras vontades, todas os
outros desejos, todas as dimensões do teu ser, elas são possíveis narrativamente, socialmente, porque
existe, no fundo, o sentido íntimo. E a mulher é aquela que com mais facilidade penetra conscientemente
no seu sentido íntimo. O homem tem propensão a ficar mais nas camadas superficiais deste eu; salvo
exceções, ou circunstâncias, que o possam impelir a fazer diferente. Tudo bem até aqui?

Então vejam, a pergunta que a gente poderia fazer aqui agora é, o quanto eu estou
correspondendo nas coisas que eu professo querer, que eu digo que tenho vontade, que eu digo que são os
meus desejos, que são os meus projetos de vida, o quanto isso, das camadas mais diferentes do meu eu, o
quanto disso corresponde ao meu sentido íntimo, a quem eu sou? O quanto, por exemplo, a escolha
amorosa que eu fiz anos atrás, o quanto ela corresponde ao meu sentido íntimo? O D. H. Lawrence, o
mesmo D. H. Lawrence dizia o seguinte, “olhar você deve casar, deve se juntar, você deve agarrar a pessoa
que passar na sua frente e despertar um bicho dentro você”, no sentido assim, de mover esse sentido
íntimo lá no fundo, falar diretamente com esse sentido íntimo, ou seja, não é uma coisa racional. Não é
uma coisa de eu social, não é “ah, vai ser bom ficar com essa pessoa”, ou “essa pessoa é interessante”. As
vezes a pessoa com o qual você tem que ficar não é nada interessante, porque na intimidade entre um
homem e uma mulher não é isso – e porque isso pode ser construído até posteriormente -, mas não é isso
que prevalece no primeiro momento; no primeiro momento é uma coisa que - vejam no populacho as
pessoas fogo, química - tem alguma coisa que aquela pessoa desperta em você que vem lá do fundo e que
você nem sabe dizer porque, porque não tem mesmo como dizer porque, que ela mexe tanto com aquilo; é
esta a pessoa, ou é este tipo de pessoa que fala diretamente com o teu sentido íntimo.
Os risos são porque há algum tipo de confirmação, é isso, ou não? Então vejam, esse sentido
íntimo, não confunda esse sentido íntimo com carne, carne é outra coisa. As vezes algumas pessoas mexem
comigo de maneira carnal, elas me atraem; a atração dura um tempo ali; eu vou lá realizo o desejo, não
realizo, a pessoa passa esqueço ela no minuto seguinte, isso são atrações; as vezes a carne dela me é
interessante. Agora, quando eu sou provocado no sentido íntimo pela presença do outro, eu serei
provocado eternamente por aquela presença, eternamente aquilo falará com o meu sentido íntimo.
Estamos chegando no seguinte ponto, amar uma pessoa, ou você escolher da melhor maneira, você saber
aquele que será o seu amado – que se Deus quiser amará você – é na verdade, simplesmente você ter um
feliz encontro de ver numa pessoa aquela que confirmará quem você é lá no fundo, e que você confirmará
ela quem ela é lá no fundo. Porque quando o sentido íntimo ecoa em sentido íntimo – esse com homem
com essa mulher – essa é confirmada na essência dela e esse é confirmado na essência dela, por isso que
eles se enamoram. Enamorar-se, o “e” no sentido aqui é para dentro do outro, não é uma paixão e não é
amor apenas – não que amor seja pequeno, é porque existem tipos de amor, amor de mãe e filho, e etc. –
é porque o de homem e mulher é enamoramento. Quer dizer, quando você tem... por isso que são
realmente encontros muito felizes esses que acontecem entre um homem e uma mulher. E não tem coisa
mais bonita na face da terra do que isso.

Aluna: “encontrou o arco-íris”. Encontrou o arco-íris, é por isso que o nome do livro do Lawrence é
O Arco-íris, é aquela coisa assim, será que vai encontrar? A questão é tem que procurar; você tem que ir; o
arco-íris é aquele assim, o arco-íris não é um sinal, um sinal no céu? E é um belo sinal. Então a vida
amorosa, a vida a dois, a comunhão entre duas pessoas ela deve ser motivada por um sinal, como um arco-
íris. Um sinal de beleza, de que beleza? A beleza de que só na comunhão entre dois de sentido íntimo com
sentido íntimo pode frutificar uma verdadeira relação pessoal, a tal ponto, de tão frutífera que é aquela
relação, que nasce uma nora criatura – de tão frutífera. Quer dizer a comunhão que acontece entre um
homem e uma mulher é efetivamente, ontologicamente, superior a qualquer outro tipo de relação, porque
dessa relação pode até nascer uma nova criatura - quer dizer, tanta realidade que se encontra ali, de tanta
coisa que se penetra ali. [00:30:00] Então, se existe uma, claro que essa não é a única...

00h30 a 00h40

...quer dizer, tanta realidade que se encontra ali, de tanta coisa que se penetra ali. [00:30:00]

Então, se existe uma, claro que essa não é a única, mas uma explicação para relacionamentos
infelizes hoje, é justamente essa de que as pessoas estão sendo levadas por outras motivações a
escolherem os seus companheiros. Aluna: “a pessoa é interessante, não vai deixar de ser, mas não é para
você.” Não move o sentido íntimo, não move. E as vezes você passa uma vida justificando racionalmente
aquela escolha. Aluna: “tem tanta gente se convencendo.” Você vê assim né, “ai não, mas olha pensando
bem no que tem aí fora, tá bom né!? Fiquemos aqui.” Ou, “ah, sei lá, ele é limpinho”. Ou, “não é tão
limpinho mas é boa pessoa”. Aluna: “existem tão poucos”. O mercado está tão né Sandra! E por aí a fora.
Aluna: “munda a minha realidade”. Exato, você é alterada, aí é que tá, olha só: a gente quando esta
enamorado, a gente é alterado pela presença do outro.

Porque olha só: vou usar a homeopatia para explicar isso daqui para vocês, o princípio da
homeopatia – que é a medicina que eu acredito mais do que qualquer alopatia – é o seguinte, você está lá
com um déficit de zinco no teu sistema vital, o que faz o homeopata? Você está lá, por exemplo, com... vou
dar um exemplo de uma pessoa que eu conheço; você é extremamente irritado, não sei se alguém aqui é
assim, XXXXX [0:31:50] uma vespa, qualquer coisinha vem ferrão por aí, tem que tomar cuidado como fala,
quando fala, que a pessoa é uma vespa; aí você vai no homeopata, “eu sou uma vespa, sou irritada, bla, bla,
bla”, que o quê o homeopata dá para você tomar? Um remédio chamado Apís, que é feito de? Abelha. Por
quê? Por que o homeopata quer deixar mais vespa mais do que você é, mais abelha do que você é? Porque
existe uma coisa chamada ressonância, você já é uma abelha e você vai tomar a abelha e o seu organismo
responderá à presença daquilo. O seu organismo reagirá à presença da abelha e você ficará um pouco
menos abelha com o passar dos meses. As características que existem em você, no seu funcionamento, são
características naturais da abelha e ao tomar aquilo em doses bem diluídas, você reage àquilo; esse é o
princípio da homeopatia, e por isso que ele funciona; tem que ter paciência, meses, anos, e por aí afora.

Então vejam, esse princípio de ressonância que existe na homeopatia, que é físico, não é assim, não
é magia que acontece, é físico. Esse princípio acontece no enamoramento, você tem uma constituição no
seu sentido íntimo e quando determinada pessoa – aquela, nenhuma outra – aquela está na sua frente,
está com você, acontece uma ressonância. Por isso que sua realidade é alterada pela presença dele, porque
aquele sentido íntimo dele fala com o seu. Aluna: “Igual ao do filme”. A ressonância ali é perfeita, perfeita a
ressonância entre eles. Então por isso que a presença dele te altera, te realiza. Veja, o que é um grande
amor? Um grande amor é assim que a presença me dignifica, a presença do outro atualiza o que tem de
bom em mim. E claro, quanto eu falo isso, tudo isso pode soar muito romântico, porque no viver do dia-a-
dia, na convivência, nas dificuldades do dia-a-dia, no cansaço do dia-a-dia, é muito difícil manter tudo isso
vivo. E é claro que muitas vezes no dia-a-dia você também vai olhar pra essa ressonância linda na sua frente
e ter vontade de mata-lo. Ué, você é humano, você sente essas coisas, a gente sente até com o filho e não
vai sentir com o marido, ou com a esposa.

Eu me lembro, o meu primeiro filho chorou quarenta e cinco dias, desde a hora que nasceu até o
quadragésimo quinto dia sem parar. Eu me membro de eu de minha mulher vendo a cena - minha mulher,
obviamente, sofreu mais que eu, por que é a mãe é quem embala mesmo – e eu, um dia falei para ela, “é
bonitinho, mas dá vontade de jogar”. Eu senti aquilo. Confesso eu senti, senti vontade de... de eu... “pára
de chorar criatura!”.
Se a gente é capaz de sentir isso por um filho, imagina pelo outro ali, que divide a cama com a
gente. Então sim, mesmo que o outro seja a pessoa pra você, haverá momentos de desgaste que você
sentirá isso. Mas esses momentos de desgastes passam e você logo que recobra a sua consciência, você vê
que aquela presença é a presença que faz de você, você. O que que é amar verdadeiramente alguém e ter
aquela pessoa como um projeto da minha vida? É fazer o seguinte, eu não serei mais eu sem você. Você
pode dizer sobre quem está do seu lado hoje? Porque a realidade dele fala tanto com a tua como o
remédio da homeopatia faz. A realidade dele ressoa tanto na tua, que você não é mais o mesmo, e não
pode ser o mesmo sem ele, ou sem ela. Isso é amor, e não é neurose; “eu não posso mais viver sem você”.
Aluna: “mais daí é uma camada mais superficial”. Mas daí é uma camada bem superficialzinha, que a
pessoa chora e diz “morrerei”, e dois meses depois está completamente restabelecida, curada, já está na
balada de novo. Então, não, a gente sabe que é outra coisa. É uma coisa que música sertaneja não cura, é
uma coisa assim, “a pegada é mais embaixo!”. Eu não sou o mesmo na tua presença e eu não quero mais
ser também; o novo Tiago, o projeto de Tiago que eu tenho aqui precisa de você, você é um componente
desse projeto aqui para dar certo. Aluna: “mas tem que ser recíproco”. Bom, pra coisa funcionar de
maneira perfeita, sim; mas existem amores não correspondidos, projeto não correspondidos. Aluna: “E daí,
será que não seria um engano, não seria aquela que faria a ressonância?”. Aluna: “Daí não tem
ressonância.” Daí não tem ressonância, perfeito. Só tem ressonância na homeopatia por que era aquilo que
ela era e é aquele remédio que ela tomou, por isso deu a ressonância, tanto é que na homeopatia quanto a
gente é o remédio é porque não aconteceu nada com a pessoa; a gente errou o remédio, não fez
ressonância. Entenderam?

Então assim, as pessoas se auto iludem quanto a ressonância. É aquela coisa, as pessoas se apegam
a migalhas pra dizer que essa pessoa é pra mim; “é muito pra mim essa pessoa”. Não... veja, eu já ouvi isso,
não pesem que eu não ouvi, “é o primeiro que não bata em mim”. Vocês acham que eu nunca ouvi isso?
Já, oh aquela porta ali, aquele quadradinho, aquele quadradinho já ouviu de tudo – aqui nessa cabeça já
tem muita coisa já. Então “é o primeiro que me trata decentemente”, puxa, tá então é o seu grande amor
da sua vida. Então vai disso, as coisas mais corriqueiras a gente se apega as vezes realmente à algumas
migalhas que o outro faz. O encontro amoroso, o enamoramento, seria perfeito se um se dirigisse ao outro.
O que é projeto senão futuridade, é você olhar para frente; nesse olhar pra frente eu me inclino no meu
futuro em direção ao outro. Uma amizade para dar certo tem que ser assim, veja, isso vale para as relações
humanas como um todo, a diferença da relação homem mulher é o fruto, é o tipo de comunhão, mas os
requisitos são os mesmos; se você faz tudo por um amigo e ele não faz nada por você, uma hora você
pensa, “tá mas o que é que eu estou fazendo aqui?!”, “por que eu estou sendo trouxa?”. E o amor entre os
amigos e o amor entre uma mulher não é incondicional, muito pelo contrário, ele é bem condicional.
Agora, o amor de uma mãe com um filho é incondicional, mas os outros não.
Então quanto você sente que não há ressonância, não há correspondência, então eu estou aqui
realmente perdendo o meu tempo. As pessoas, as vezes, arcam os sacrifícios que não são os dela. Ninguém
está pedindo, isso é uma passagem bíblica, vocês conhecem essa passagem quando Cristo fala assim, “O
que vocês ficam fazendo holocaustos, se Deus é misericórdia”. Por que você sacrificando uma parte de sua
vida se ninguém está pedindo para você sacrificar? Por que você está deixando de fazer tal coisa, ou aquilo,
em nome de um negócio que ninguém está te pedindo? Ninguém está impondo, quando eu digo ninguém,
a vida, a realidade não está te pedindo; pode ser que a vizinha esteja pedindo, pode ser que o pai esteja
pedindo, pode ser que a sogra, mas esses estão no papel deles, de “crica”, e cobrar, e por aí a fora; mas a
vida não está te pedindo aquilo, naquele momento e você cai nessas armadilhas. [00:40:00]

00h40 a 00h50

Aluna: - E aquela história do “eu era feliz e não sabia”?

Tiago: - Fale mais. Em que sentido?

Aluna: - Relacionamentos amorosos. Você acha que não está legal e depois... [inaudível]

Tiago: Bom, aí e aquela coisa, é preciso conhecer cada caso concreto para saber: era feliz mesmo?
Ou agora a vida está ruim e o que aconteceu antes começa a se tornar mais legal? Porque nós também
temos isso como princípio de fuga. Quer dizer, quando a realidade começa a “apertar”, no dia a dia, o que a
gente faz? A gente ou imagina uma coisa diferente, ou volta para uma vida já vivida, para o passado, em
que coisa não era também “uma flor”, mas agente faz aquela reacomodação das memórias e fala “não,
mas era melhor do que eu estou vivendo aqui, deveria ter ficado daquele jeito”. Então, a questão é: era
mais feliz mesmo? Ou não? Uma coisa que você tem capacidade de responder é: “Aquela pessoa falava
com o meu sentido íntimo, ou não? Havia uma ressonância, ou não?” Isso você é capaz de identificar,
porque você sabe quando alguém tem isso.

Aluna: - esta pergunta é importante m um relacionamento...

Tiago: Exato. Porque aquela presença , a presença que tem essa ressonância, quando ela passa,
quando ela está na sua frente, ela dirige o seu olhar. Você não consegue não se dirigir àquilo. Você não
consegue não prestar atenção. Vocês nunca viram, grandes livros de literatura, ou filmes: no baile os dois
se vêem pela primeira vez! Pronto, Acabou! Aquela coisa, contada das maneiras mais lindas, é mais ou
menos isso que eles (os escritores, os filmes) estão querendo dizer. Romeu e Julieta sabiam que aquilo era
de verdade.

Aluna: - E pode acontecer com todos? Todos precisam ir atrás disso?


Tiago: - É o “arco-íris”, não é: Está aí para todos? Ou não está? Ou está por um tempo?

Aluna: - mas às vezes a pessoa que desperta esse teu sentido íntimo não é uma pessoa boa em
todos os outros sentidos...

Tiago: - Mas ela nunca será boa em todos os outros sentidos. Essa é a questão. Vocês estão
confundindo. Eu não falei em nenhum momento que ele é um príncipe, eu falei que ele fala com o seu
sentido íntimo, e ele pode ter mais características de bandido do que de príncipe...

Aluna: Mas e aí, você vai ser plenamente feliz...

Tiago: Não o bandido... vocês entenderam em que sentido usei a expressão “bandido”. Deixe eu
explicar: a imagem do príncipe é uma imagem que foi construída no século XIX. A partir do séc. XIX, as
“burguesinhas” que ficavam em casa lendo Jane Austen e não tinham mais nada pra fazer, foi preciso
inventar uma coisa pra diversificar um pouco a tarde delas: inventaram o príncipe encantado. “O que
vamos fazer para divertir a aristocracia, a burguesia, a menininhas que não podem fazer nada até os 18
anos e tem que esperar um marido, etc. Vamos então diverti-las, inventar umas historinhas, cultuar o
príncipe do cavalo branco etc.” Qual foi o resultado disso? O resultado são vocês. Ou seja, toda mulher do
sec. XXI está esperando um príncipe. E eu estou aqui para dizer: ele não existe, ele nunca existiu e ele não
precisa existir. E a concepção de amor que nós legamos dos séculos XVIII e XIX, é uma concepção de amor
absolutamente monstruosa. Por quê? Porque deformou a realidade da vida. A realidade da vida não é esta.
Não tem príncipe.

Aluna [inaudível]

Tiago: Chame de qualquer outra coisa, porque de fato, não existe. Sabe por que a mulher está tão
infeliz? Porque ela sendo “Fiona”, ela quer um príncipe encantado. Mas ela tem um “Shrek”. E o que
deveria dar conta dela era mesmo o Shrek. O que mais que ela quer?

Aluna [inaudível]

Tiago: Então, é aquela coisa, ela tem um sujeito honesto, um sujeito que trabalha, que se preocupa
com a família etc. , tem lá os projetos da vida dele, quer trocar de carro, comprar outra casa etc. “Ah, mas
ele não é romântico... Ah, mas ele esquece tal coisa... Ah mas isso, ah, aquilo ”. O apego a esses
detalhezinhos principescos é o legado dos séculos XVIII e XIX.

Aluna [inaudível]: A esposa de Bach conta que quando o conheceu, ele era feio, rabugento, e ela
teve que aprender a respeitá-lo, porque havia alguma coisa nele que à primeira vista ela soube que deveria
casar com ele e viver a vida inteira com ele.
Tiago: Exato. O sentido íntimo. Hoje nós podemos dizer “Ah, mas ele era Bach...” Mas naquela
época não era esse Bach famoso como hoje o conhecemos. Era um homem com muito talento, que já
demonstrava desde muito cedo, e ela se apaixonou por algo, se enamorou de algo, ou de quem ele era de
verdade.

Aluna: Mesmo com os seus defeitos...

Tiago: Exato. Nós trouxemos para vida amorosa, basicamente o racionalismo cartesiano. Nós
fazemos contas sobre o outro. Vejam que absurdo. “Fulano faz isso, faz aquilo etc. , então vou continuar”.
“Ah, agora ele está fazendo isso, aquilo e aquilo... agora já não dá mais”. A gente começa a estabelecer
relações econômicas com o outro! E o outro é uma realidade pessoal. Eu sempre digo nas minhas aulas:
tanto em amizade, relação homem-mulher, relações humanas em geral, para as pessoas que você ame, há
uma coisa que deve imperar nessa relação, chamada misericórdia. Vocês dois são miseráveis, saiba disso.
Então, de um lado, você tem que ter a felicidade de ficar com a pessoa ressoa, de ressonância, a pessoa
que comunica, de sentido íntimo para sentido íntimo, aquela que te arrasta, aquela que de alguma forma
altera a tua presença. E no outro sentido, você tem que lembrar que tanto ela quanto você são miseráveis.
Então, se você ficar fazendo continha sobre qualidade e defeito, você nunca ficará com ninguém. Porque eu
nunca conheci um ser humano que, fazendo a conta, desse positivo. Que tenha mais coisa boa que ruim.
Porque se você conhecer bem, sempre vai ter mais coisa ruim do que boa. Essa é a realidade da vida.
Agora, a questão é: é aquele sujeito? Então você não vai procurar pelo número de qualidades. Ou seja, é
este sentido íntimo que ressoa no meu . Dado isso: sou capaz de em nome disso e do amor que eu quero
viver com ele relevar aquilo e aquilo etc. As eu fico imaginando o que ser casada com o Olavo de Carvalho,
um sujeito que para cada doze horas que tem para os livros tem 20 minutos para a esposa. Mas em nome
de tudo aquilo eu relevo tudo isso.

Aluna: você respeita e não cria expectativa...

Tiago: Você cria expectativa não no sentido do que o outro pode preencher em você. Você cria
expectativa quanto ao futuro que vocês dois podem fazer juntos. Pra que direção este relacionamento está
indo. E no caso da direção, a mulher tem que exigir, em alguma medida, do homem a direção. Eu sempre
falo para as minhas alunas: em algum momento você vai ter que perguntar para o dito-cujo o seguinte:
“Olha, na boa, não que eu queira pressionar, mas... para onde a gente está indo?” Esta pergunta é básica, e
o sujeito tem que saber. E se o sujeito botar a mão na boca e responder “ahh.. não sei”, ela tem que
responder “Olha, eu te amo, até espero você encontrar a resposta, só saiba que eu preciso saber”. Eu
preciso saber para onde nós estamos indo... [50:03]

00h50 a 01h00
[0:50] “Eu te amo, beleza. Até espero você encontrar a resposta. Mas só saiba que eu preciso
saber. Eu preciso saber para onde nós estamos indo. Qual é a direção desse relacionamento, qual é o
projeto que concretiza essa relação, onde isso aqui vai dar? Só isso, eu preciso saber disso: para onde você
está me levando.” A mulher entra no carro “ah, pra onde nós vamos?” “nós vamos em tal restaurante”.
“ah, bacana, eu gosto desse restaurante. Podemos ir.” Agora, veja, você entra no carro “pra onde nós
vamos?” “não sei, você escolher”. Uma vez ou outra por uma queridisse dele, ok. Mas sempre você vai
gostar? Sempre?

Por que que estamos dizendo o tempo todo: uma condição atualiza a outra. Então se nesse lado
aqui você tem a mulher que não quer estar na mão do homem, não quer dar a direção para ele. Bom,
obviamente vai acontecer isso: uma briga de direção e com o passar do tempo ele será menos homem. Por
que ele é mais homem na direção. Isso não tenha dúvida: ele é mais homem. E você é mais mulher estando
na direção dele (também saiba disso). Por que não é do feitio da mulher estabelecer os pontos de parada;
não é. Justamente é da mulher oferecer as possibilidades que escapam ao homem de uma visão mais curta
e de o homem dizer: “Ó, acho que aqui é melhor”. Mas é a mulher que tem a visão ampla. É isso que se
espera do homem: determinação.

Então aquela mulher que: “Aí, eu não me sinto segura com ele”. Eu digo assim: Corra, lôla, corra! O
meu conselho é: Corra lôla! Por que que é Corra lôla? Por que você não se sente segura em que sentido?
Ah, existem vários níveis de segurança: financeiro etc. Você não se sente segura quanto ao homem que ele
é, quanto à direção ele está dando pra vocês dois, ou a total falta de direção, a total falta de virilidade na
condução? Aí minha resposta é sempre esta: corra lôla. Sai dessa. Ou vista o hábito do sacrifício e faça do
outro um projeto: “Vamos construir o homenzinho”. Correndo todos os riscos de que no final dê tudo
errado: a massa saia queimada, disforme e tudo mais.

Toda a base sob a qual está assentada o curso é de que homens e mulheres se complementam, de
que nós somos polos opostos, dois polos opostos de uma realidade humana que se apresenta de duas
formas: masculino e feminino. E que por serem diferentes têm funções diferentes na realidade porque se
assim não o fosse nós seriamos iguais. Então, dada a experiência humana acumulada que a gente tem até
agora, e o que nós entendemos dos símbolos presentes – tanto no homem quanto na mulher – me parece
muito plausível – pra não dizer inteiramente certo – que o homem seja a direção (nesse sentido que eu
estou falando). Não que o homem decida as coisas todas da casa, as coisas todas do casal; mas que o
homem nunca negligencie essa posição; que o homem nunca prescinda desse lugar. E que a mulher nunca
prescinda do lugar de fomentar a existência daquela casa, fomentar o casal – por que esse é o lugar da
mulher: fomentar a vida daquela casa, a vida daquela relação. Oferecer possibilidades, essa é a instalação
feminina por excelência. A gente falou numa das aulas: a mulher é aquela que faz as tendas, a mulher é
aquela que abriga, a mulher é aquela que dá o conforto, a mulher é aquela que acolhe aquela que move
sem mover-se.

Eu disse numa das aulas: “Ah, o meu homem não é o que eu queria” (eu não tenho papas na língua)
Parabéns pra você! Você está a quantos anos com ele? E ele não é o homem que você queria? Parabéns pra
você então! Onde foi que falhou? No projeto então, porque é um poder da mulher mover sem ser movida.
O cara fazer uma coisa que ele não tem a menor idéia que ele está fazendo porque ela quer que ele faça.
Esse é o poder feminino. Existem dois símbolos dos poderes: o poder do sol e o poder da lua. O poder do
sol é o poder masculino. O homem quando manda ele manda à luz do dia: “eu quero que você faça isso”.
Não é assim? Homem geralmente é assim. “eu quero tal coisa” “eu quero que você vá pagar contar”. “é
você que vai pegar as crianças”. Homem fala, ele expressa as intenções dele à luz do dia por isso homens –
também genérica e abstrativamente falando – tendem a ocupar os lugares de governo, administração
porque o homem manda abertamente e a mulher tem o mando da lua que é mando que acontece oculto;
uma mulher se ferra de verde e amarelo quando ela quer mandar à luz do dia igual o homem, quando ela
quer equiparar poder com ele. Os dois estão à luz do sol querendo mandar. Mas é claro que ela vai perder.
Ela é mais fraca do que ele, neste tipo de poder; enquanto que o homem não tem o poder da noite. As
bruxas, mulheres, tinham o que? Aquela atração pela noite e realizavam todos os seus ritos a noite, porque
a noite é feminina, a lua tem as características do feminino e a mulher quando manda, manda sem que o
outro perceba que ela está mandando.

Então, se nada na sua casa está acontecendo como você queria, mais uma vez: parabéns pra você;
que está absolutamente impotente na relação. Por quê? Pode ser que você esteja errando de uma maneira
crassa. Você está querendo ter o poder que o homem tem, e você está perdendo a chance de que tudo
aconteça como você gostaria que acontecesse na dinâmica daquela casa porque você não está usando o
seu poder natural – que é o poder da noite. Não existe um poder melhor. Senão seria, sim, uma conversa
machista; “ah, o poder do sol é muito mais legal” Depende. O poder da mulher é no mínimo muito
interessante. É um poder invisível. Todas essas coisas têm que ser levadas em conta.

A minha intenção maior hoje era falar o quanto a mulher, tendo um contato maior com seu sentido
íntimo, ela é mais corporal do que o homem. Vocês reconhecem – principalmente mulheres – que na
mulher cada pedacinho do seu corpo é feminino? E no homem não é necessariamente assim. Quer dizer,
no homem não é necessário que cada parte do corpo dele revele a sua masculinidade; e na mulher
acontece o contrário: o corpo dela, em cada parte desse corpo, revela a feminilidade, revela a condição
sexuada dela. Então é a unha do dedão do pé que está pintada; é o ombro, a maneira como ela cuida desse
ombro, mostra esse ombro; é o rosto. Pelo que o homem se enamora – se enamora, não se atrai – primeiro
senão pelo rosto. E aí veja que coisa interessante: rosto e seio são duas coisas que não são sexuais. Você
percebem? O seio não é um órgão sexual e o rosto também não, mas os dois são dos mais relevantes para
o ato sexual. Por quê? Nem o seio é sexual, nem o rosto. Em si mesmo o seio não é pra isso; e nem o rosto.
[1:00]

01h00 a 1h10

[1:00] Em si mesmo, o seio não é para isso; e nem o rosto. “Ah, que tesão!” – por ver um rosto
bonito. Mas o seio e o rosto se tornam sexuais no ato sexual mas eles não são; mas eles se tornam por que
os dois são talvez os dois mais reveladores da condição sexuada da mulher, da feminilidade dela; tanto o
seio quanto o rosto. Por isso – diz o Julian Marias – causa um estranhamento, um mal-estar quando você
não consegue reconhecer um dos dois ou os dois numa mulher. Causa um “mal-estar”. Quando você olha
para o rosto e fica: “é homem ou mulher?” É um mal-estar diz o Julian Marias, sem julgamento moral. É mal
estar porque você fica naquela: pera lá... O que que é? Até que se resolve, beleza, passou. Depois que você
entendeu que é mulher, homem, passou. Mas até você entender dá um mal-estar.

Seio que não é sexual e rosto que não é sexual são extremamente sexuados – essa é a fina
diferença. Eles denunciam a feminilidade, denunciam o caráter feminino ali presente. [Diz o Julian Marias
sobre o seio no “A Mulher no Século XX”]: “Trata-se de considerar o corpo humano biográfica e não
anatomicamente – ele está aqui nas páginas anteriores [falando] das diferenças de você olhar para um
corpo com a perspectiva da biologia, anatomia e você olhar para o corpo com a perspectiva da biografia,
corpo tem história também – a estrutura vetorial do corpo, e em particular do feminino, é uma forma
concreta do caráter vetorial de todo humano, constituído por magnitudes como orientação e sentido de
caráter projetivo. O conceito de finalidade, tão importante em biologia ao tratar-se do humano é algo mais,
tudo no homem é projetivo. A matriz da mulher é uma estrutura somática referida; não ao varão mas ao
filho. É um órgão destinado a abrigar o filho antes de seu nascimento – o corpo da mulher é um projeto
para abrigar o filho, portanto ele dirige-se realmente mais ao filho do que ao homem – além disso a mulher
possui seios – essa é a parte – outra estrutura somática referida primariamente ao filho lactente, este é o
sentido funcional, biológico, fisiológico dos seios da mulher: a lactância. São órgãos para dar de mamar
porém no homem nada é somente biológico – aí vamos para a simbologia – a referência somática ao filho,
antes de nascer e depois de nascer, prolonga-se e dilata-se em relações pessoais, na lactância humana a
mulher olha o filho e é por ele olhada, a mulher não é simplesmente um úbere ao qual os lábios da criança
se agarram e sugam, a mulher amamenta ou dá de mamar à criança segurando-a nos braços olhando-a,
acariciando-a; alimenta-a e a acaricia ao mesmo tempo e a criança acariciada e nutrida olha e há uma
relação estritamente pessoal entre as duas. De um modo análogo a estrutura dos órgãos sexuais humanos
faz que na relação sexual o homem e a mulher, diferentemente de outros animais estejam frente-a-frente”.
Tanto o ato sexual, que no caso do homem, diferente de grande parte dos animais, acontece frente-a-
frente quanto na amamentação, são convites à pessoalidade. Há uma convivência. O suprassumo disso
daqui é entender que o ato sexual é um ato de convivência, de duas pessoas. O ato de amamentar é um ato
de convivência entre duas pessoas – mãe e filho. E é uma relação pessoal porque no ato de dar de mamar
existe uma diferença básica entre nós e os outros animais: quando o filhote está com fome, o filhote via até
a teta da mãe e puxa leite; no caso do ser humano a mãe oferece o seio. É a mãe que estabelece a relação
pessoal. Então, infelizmente tenho que ser duro agora: é a mãe que falha também no estabelecimento de
uma relação pessoal ou não.

Muitas vezes o homem não dá a mínima atenção, ou mínimo valor para o que está acontecendo ali
naquele momento e hoje em dia tem mulher que não dá também. Muitas vezes o homem não dá a
importância devida, por exemplo, para aquela cena da mulher amamentando, oferecendo o seio, e qual
mãe deu de mamar e não ficou fazendo carinho no filho? Qual mãe estabeleceu ali uma relação biológica
pura e simplesmente? Ela teria que ser uma perversa para ter feito isso. Ela estabeleceu ali, enquanto ela
tocava, enquanto cantava para ele, estabeleceu uma relação pessoal naquela criança e o homem que não
se sensibiliza com isso é um monstro. E o homem que não valoriza isso, nesse sentido, é um perverso. A
mulher como mãe, além de correr o risco de não tornar pessoal essa relação ela tem outro risco de em
nome dos filhos é se anular. Este é um risco terrível para nós, porque agente confunde anulação com
sacrifício. Sacrifício, sim, tem que ser feitos, mas a anulação é a perda da correspondência pessoal. Desde a
amamentação o filho tem que entender pouco a pouco que a mãe é outra pessoa. Veja que lindo isso! Por
que ela é outra pessoa eu posso me relacionar com ela. Quando uma mãe se anula biograficamente, aquela
mãe que daí reclama justamente por ter feito isso que depois ela sabe que o preço foi caro. Quando uma
mãe não deixa claro para os filhos que ela ama incondicionalmente mas que ela é outra, quando ela não
deixa isso claro ela perde a possibilidade de relação pessoal com os próprios filhos porque os filhos não a
verão como uma pessoa. Eles não verão ela como alguém com a qual eles têm que estabelecer uma
relação, para alguém que eles têm que se dirigir, com quem eles têm que ter uma intimidade. Então muitas
vezes a falha da relação de mãe e filho, mãe e filha, está justamente neste ponto. Não é porque a mãe deu
menos carinho, isso também acontece mas em menor número, não é porque a mãe foi ausente é porque a
mãe ás vezes foi presente demais no sentido anulado. Quando a mãe se anula nesse sentido, se estivesse
ela se estivesse uma vaca mecânica seria a mesma coisa, e não é isso que o filho quer e não é isso que ele
precisa. Ele precisa da auteridade, ele precisa da radicalidade dos dois corpos que são diferentes se
encostando ali na hora da amamentação. Agente sabe que um bebezinho para ele tudo é corpo dele, o
bebê não tem essa noção do limite do corpo. O limite do corpo é uma coisa que agente toma consciência
com o passar do tempo, quando agente enxergar o nosso pezinho, quando agente enxergar a nossa
mãozinha, quando agente descobre assim, descobre assado, etc., nós vamos reconhecendo os limites do
corpo; e reconhecendo os limites do corpo nada mais é que reconhecer uma circunstância. O corpo é uma
circunstância minha. Eu não sou o meu corpo, mas eu estou no meu corpo. Assim como eu estou numa
circunstância da vida, o meu corpo é a minha circunstância atual, pode ser que daqui a dez anos ele comece
a falhar, por exemplo; e aí vai ser a minha circunstância. [1:10]
01h10 a 01h20

[1:09:52] Assim como estou numa circunstância da vida, o corpo é a minha circunstância atual.
Pode ser que daqui a dez anos ele comece a falhar, por exemplo, [1:10] aí vai ser a minha circunstância. Eu
posso brigar com ela, posso falar: “Não acredito que você está fazendo isso”, posso fazer mil coisas, mas
continuará sendo a minha circunstância e eu não poderei fugir dela. Então, a radicalidade disso, do oposto,
do diferente, do outro corpo que se encosta, que acaricia, que acolhe, o reconhecimento da criança com o
passar dos anos de que ali tem outra realidade que ama, outra realidade que tem de ser amada, isso é
fundamental para a felicidade das relações pessoais, desde mãe e filho até para a felicidade das relações
pessoais na vida adulta, que serão em grande medida determinadas por esta: a relação que você teve com
a sua mãe. Julian Marias chega a perguntar: “Não mamar no peito, quais as conseqüências?” Deve ter
alguma, não sei mensurar, ele não fala e eu também não sei, mas deve ter alguma, alguma tem. Por mais
recursos que haja hoje em dia, alguma conseqüência isso tem. Então porque, sim, existe ali... Veja se o ato
de amamentar não é um ato de sentido íntimo para sentido íntimo. Dá para ficar por aqui hoje?

Aluna: Tiago, você vai falar mais sobre gravidez e maternidade na próxima aula?

Tiago: Olha...

Aluna: Eu tenho uma pergunta.

Tiago: Pergunte, então.

Aluna: Você acha que toda mulher deve ser mãe ou pode não ter essa vocação? O que é essa
relação com a maternidade?

Tiago: Eu acho que é a mesma coisa que um pai, que um homem deve se perguntar: se todo
homem deve ser pai. É o tipo de pergunta que ele não é obrigado a responder “sim”, [1:12:03] mas ele é
obrigado a responder. Entende? Você não pode passar pela vida sem responder a esta pergunta: devo ser
mãe ou não? Você não pode passar pela vida. Você tem de tomar muito cuidado...

Aluna: Decidir?

Tiago: É. Você tem de tomar muito cuidado para não responder levianamente à pergunta ou tomar
resoluções muito nova ou tomar resoluções... Entende que é algo muito... Veja, nós falamos hoje que o teu
corpo foi projetado, inclusive, para isso, então, ao não realizar essa potência do seu corpo — porque ela é
uma potência, potência vira ato quando realizado —, você tem de ter uma justificativa biográfica para isso.
Então você não é obrigada a ser mãe, mesmo, isso não existe. Você não é obrigado a ser pai, mas você tem
de saber o porquê você não vai ser. Você tem de dar uma resposta para isso porque lá na frente isso exigirá
uma resposta, porque isso é um componente corporal e biográfico, entende? Então você tem de tomar
muito cuidado com a pergunta e não passar por ela. Respondê-la profundamente, o mais profundo: Vou?
Não vou? Por que não vou? O que está em jogo? Vai contra algo? Vai a favor? Não faz parte de um projeto?
Não foi a isso que me senti chamada/chamado? Quer dizer, é uma coisa que exige assim uma...

Aluna: Mesmo o contrário, a pessoa que queira, que projeta ter um filho, tem de saber exatamente
(...)

Tiago: Tem de saber também.

Aluna: (...) que muitas vezes tem filho sem saber e daí a relação fica comprometida.

Aluna: É pior ainda.

Tiago: Exatamente. Então o filho também é um projeto. Tudo na vida humana é projeto. Eu quero
que vocês entendam isto: tudo na vida humana é projeto porque tudo dirige o ser humano para o que vai
acontecer, tudo é futuridade na vida do ser humano. Então, também o filho é um projeto e às vezes a
recusa do projeto, inclusive. Ou lá na frente, o filho lá com tantos anos já, a recusa daquilo também gera
diversos tipos de problemas e traumas e por aí afora. Quer dizer, tanto para o “sim”, quanto para o “não”,
você tem de responder responsavelmente à pergunta, o que não dá é pular, pular a pergunta não dá. Assim
como não dá para pular a pergunta: se existe vida eterna ou não. Entende? Se você nunca pensou
seriamente no assunto, se você vai durar para sempre ou não, você não está preparada para conversa de
gente grande. Você ficou lá em algum momento da infância ou adolescência. Conversa de gente grande é
conversa das perguntas grandes. Entenderam? Eu não aceito, no sentido de que estou falando, nem o
religioso nem o ateu que não respondeu responsavelmente essa pergunta. Você parou para pensar? Você
deu tempo para responder essa pergunta: se você durará para sempre ou não? Porque, olha só que
pergunta radical, muda tudo. Muda tudo a resposta, vocês perceberam? Que muda tudo? Como diz o Julian
Marias num outro livro que não tem a ver com o nosso assunto aqui específico, mas que de alguma forma
também tem, ele diz assim: “Para mim é muito difícil conceber que o meu ser será aniquilado na morte”.
Aniquilado, que eu não existirei mais, eu, o meu ser. Ele falou: “Isso para mim é muito difícil de conceber”.
Mas cada um tem de ter uma resposta para isso. O Miguel de Unamuno, pensador espanhol do final do
século XIX, dizia: “A única coisa que importa saber é se eu durarei para sempre”. Todas as outras perguntas
são secundárias. Então, você quer ser tratado como gente grande, adulto? Tenha perguntas de adulto.
Quanto mais adulto você quiser ser, maior é a envergadura das perguntas que você suporta nos teus
ombros. Você está chateado que te tratam como imaturo, que te tratam como adolescente, que não
respeitam as suas opiniões? Provavelmente é assim que você vive. As pessoas não se enganam tanto assim
quanto a quem a gente é. Não pensem que todas estão erradas e você, certo. Não é bem assim que
funciona. Você tem uma sociedade inteira que te conhece, um grupo de amigos etc. que devem pensar
alguma coisa de você e você acha que está todo mundo errado? Ou eles estão vendo um aspecto do teu ser
que é esse aspecto que está atualizado? Eles não estão vendo aquilo que você não realizou ainda, aquilo só
você está vendo, é um projeto teu. Para eles verem, você vai ter de realizar.

Aluna: Isso tem de ter relevância necessariamente para você?

Tiago: Não. Tem de ter relevância os teus próprios projetos, não a relevância de um tipo de
reconhecimento social. Mas o que é seu e que é mortalmente importante para você, você tem de
considerar aquilo como relevante. Agora, se outros irão reconhecer e tal, isso é outro problema.

Aluna: E se o que as pessoas reconhecem e você, não, é como um defeito?

Tiago: Ah, isso serve... Por que precisamos disso? Porque é no espelhismo com as outras pessoas
que eu me conheço. Você já parou para pensar o que seria nascer sozinho e viver sozinho? Se você saberia
alguma coisa a seu respeito? Sem o espelho do outro? Veja se as maiores certezas que você tem a respeito
de você mesmo não vieram dos choques com os outros, do encontro com os outros — o choque soa
negativamente; do encontro.

Aluna: Da comparação, né?

Tiago: Da comparação.

Aluna: E se você fala: “Não, mas não estou nem aí para o que os outros pensam”?

Tiago: Bom, esse é o modo adolescente de responder. O adolescente não fala exatamente isto: “Eu
não estou nem aí para o que você pensa, professor. Continuarei fazendo assim”?

Aluna: Você tem de ter maturidade para separar o que é julgamento e o que é o espelho de você
mesmo.

Aluna: Não. Ele está falando da percepção das pessoas, se você realiza para elas. Se todo mundo
aqui ouve algo em relação a você, possivelmente você passa essa impressão.

Tiago: Exato. E essa impressão que estou querendo dizer é: essa impressão provavelmente esteja
certa.

Aluna: Você pode dizer: “Ok, não estou nem aí” (...)

Tiago: Exato.

Aluna: (...) ou você pode [dizer]: “Espera aí”. (...)


Tiago: Ou você pode dizer: “Opa!” Aqui é uma luzinha que acende: “Nossa, eu não sabia que eu era
assim”.

Aluna: Tá, mas daí só aquela pessoa está errada?

Aluna: (...) Ou: “Eu sabia, mas continuarei sendo assim”.

Tiago: Não. Veja, não é uma matemática simples.

Aluna: Não é. Eu concordo...

Tiago: Os outros também podem errar etc.

Aluna: Sim, justamente.

Tiago: O que estou querendo dizer é de adquirir maturidade. Nós temos de passar aquela coisa do,
por exemplo, o que importa é o que eu penso, o que eu acho, o que eu sei de mim. Não, não é bem assim.
Importa também o que os outros testemunham a teu respeito porque [1:18:58] é o que eles estão vendo a
teu respeito e não é possível que todos eles estejam errados.

Aluna: Mas se eles estão vendo uma coisa que você realmente admite: “Ok, eu sou assim” (...)

Tiago: Ah, sim. O que você fará com isso é outra coisa.

Aluna: (...) “mas eu acho ótimo”. Você acha péssimo e todo mundo também acha péssimo.

Tiago: Não. O que estou só querendo dizer é que o conhecimento humano depende do que está
atualizado e do que está virtual em você. O que o outro vê é só o que está atualizado.

Aluna: Ok. Mas se a pessoa...

Tiago: O que existe em você e você nunca atualizou, que existe apenas como uma potência em
você, o outro não enxerga. Então, não exija dele que ele veja. É isso que estou querendo dizer. Ele não tem
como reconhecer uma coisa em você que só você sabe que existe.

Aluna: Tá, mas em uma convivência em sociedade, você não acha que se existe uma opinião quase
que unânime em relação a você e você vê que você é assim, mas de uma forma você bate o pé: “Eu sou
feliz assim”.

Tiago: Ah, isso é outra coisa. Aí você já está indo para o segundo ponto: que reação ou que atitude
você terá frente àquilo. [1:20]
01h20 a 01h30

[1:20] Isso é outra coisa já. Realmente, você pode considerar aquilo como uma possibilidade de
mudança interior ou não: “Olha, mas eu sei que sou assim e eu quero continuar sendo assim”. Beleza.

Aluna: Isso não é ser infantil.

Tiago: Não, não é. Se você souber justificar biograficamente por que você quer continuar sendo
daquele jeito, não tem nada de infantil. Entendeu? O que estou chamando de infantil é você sonhar que só
você sabe a seu respeito sendo que os outros sabem muito a seu respeito. Eles sabem inclusive como você
é olhando desde fora, que você nunca saberá porque você só pode olhar desde dentro. Consegue
entender? É uma coisa básica. Você já parou para pensar? Que tem um aspecto do teu ser que só o outro
sabe? Olhe só o quanto nós somos “reféns” da convivência humana. Quanto mais pessoal forem as
relações humanas, portanto, mais nós vamos entregar um para o outro do que existe de fato aqui dentro
de nós. O outro vai ser um atualizador, vai me ajudar a atualizar o que preciso aqui, eu vou ajudar o outro,
quer dizer, como diria Santo Agostinho: na sociedade perfeita o que sustenta a sociedade é o amor ao
próximo. Por que é o amor ao próximo? Porque existe essa cumplicidade de você poder testemunhar o que
você está vendo em relação ao outro. Por exemplo, entre os meus amigos que também estudam e
seguiram nessa área de filosofia etc., nós temos um combinado entre nós — veja, é uma coisa que vocês
poderiam tentar combinar entre vocês, façam o teste —, nós não temos respeito humano nenhum entre
nós. Eu sou capaz de dizer para os meus amigos lá: “Esta aula foi uma merda”. Eu digo para eles quando
eles dão aula e eles dizem para mim: “Você foi um estúpido”, “Olha o que você escreveu, que coisa ridícula,
que coisa vergonhosa o que você escreveu”. Nós falamos um para o outro esse tipo de coisa. Não há esse
respeito humano no sentido que politicamente se fala aí de um jeito bem correto. Nós temos amor um pelo
outro, entenderam?

Aluna: Tem mulheres também?

Tiago: No grupo? Tem. Mas ela é a professora, daí é café com leite.

Aluna: É mais difícil acho que para a mulher.

Tiago: É mais difícil.

Aluna: É uma pergunta machista também, mas...

Aluna: Isso aí choca? Essa tua postura?

Tiago: O que você está chamando de chocar? Porque, pensa, Beethoven chocava.
Aluna: Não, é que você é muito diferente de todos ali. Eles acham que você é totalmente errado e
na verdade (...)

Tiago: Mas aí, espera lá.

Aluna: (...) você não acha que é.

Tiago: Dizer que é errado ou dizer que é certo já é julgamento moral e eu nem cheguei no
julgamento moral. Eu cheguei só na discrepância de percepção. Se o outro depois vai dizer: ”Eu acho você
uma filha da puta”, isso é outra coisa. Porque você é assim, isso é outra, nem entramos neste
departamento: do julgamento. Eu entrei só no departamento da percepção. Entendeu?

Aluna: Na verdade, Tiago, é o que você faz com essa percepção externa, entendeu? Se você pode se
transformar com ela (...)

Tiago: Sim. Ah, ok. Eu entendi o que você falou.

Aluna: (...) ou você pode bater o pé e dizer: “Não, eu sou assim. Ok. Ótimo”. E todo mundo olha e
diz: “Mas, Tiago, isso não é ótimo”.

Tiago: Mas aí veja, a coisa em si mesma é ótima ou não? A coisa em si mesma?

Aluna: Eu acho que depende do ponto de vista, né.

Tiago: Não sei se tudo depende do ponto de vista, entendeu? Então, por exemplo...

Aluna: Então sempre existe uma resposta, uma coisa é boa e outra, não?

Tiago: É, porque toda a minha análise aqui, a exposição, estava no sentido assim: eu que estou aqui
vivendo com os dramas de Tiago e sentindo essas coisas percebo numa perspectiva isso aqui e outro
percebe noutra e eu preciso levar em consideração a percepção do outro. Eu posso depois levar em
consideração e dizer: “Mas olha, quer saber? Continuarei sendo assim. Não me atrapalhou tanto até
agora”. Entendeu? Eu posso levar isso em conta, eu posso tomar essa decisão. O que eu não posso é
simplesmente negligenciar o que todos os outros estão achando ou dizendo ou tentando expressar. E
quando eu digo todos os outros, não é o Zé da esquina, são as pessoas que importam. Você não está nem aí
para o sujeito ali da esquina que passou por você e te achou antipática, você não está nem aí e realmente
não tem de estar. Entendeu? Mas, para as pessoas que te importam, não importa saber o que elas
pensam? E aí, o que você fará com aquilo?

Aluna: E o que você gera com essa tua conduta.


Tiago: No fundo, Lara, se trata do seguinte: abertura de alma, maleabilidade. Mais vivo está quem
mais maleável é. Mais vivo está quem mais alma aberta tem. Então, vejam, a Fran chega hoje para mim e
diz: “Tiago, nossa, você é um preguiçoso”. Aí beleza. Isso nunca tinham me dito. Eu vou para casa e fico:
“Puta merda, a Fran é uma pessoa importante para mim, a Fran me conhece há bastante tempo, a Fran é
irmã da minha mulher”. Eu levo em consideração o que a Fran fala, fico em casa pensando. Isso é abertura
de alma, eu não carrego aquilo para dentro mim como: “Putz, está vendo a Fran? A Fran só enxerga o que
não presta, né”. E eu posso ao final do meu auto-conhecimento chegar à conclusão: mas eu não sou
preguiçoso. Mas eu gastei esse tempo pensando se eu sou ou não sou porque a Fran me importa e porque
eu tenho maleabilidade suficiente para considerar que quem sabe eu seja. Quem sabe eu seja e eu nunca vi
isso? Então eu considero o que ela falou, eu considero, entende? Como possibilidade porque eu tenho alma
aberta, quer dizer, as pessoas morrem muitas vezes ignorantes e morrem antes de morrer, biograficamente
falando, elas morrem antes da morte física, porque elas definem as suas existências de uma forma que não
cabe revisão. Entenderam?

Aluna: Você acha que você pode gerar um tipo de exclusão social?

Tiago: Em que sentido?

Aluna: Se você não (...)

Aluna: Não corresponde?

Aluna: (...) [1:26:16 ininteligível] de você ou se você se mantém com esse padrão de
comportamento, do teu ou do teu próximo, de alguma forma se sente agredido com aquilo porque se te
criticam, se te falam, de alguma forma você vai se excluindo, você vai se isolando disso, né?

Tiago: Puxa, depende. Acho que depende do grau que a coisa acontece, de em que fase da vida ela
acontece, em que circunstância social ela acontece. Agora, se uma percepção que é vista como crítica, vista
como negativa, sempre fere, ela fere o quê? Ela fere uma coisa que nós, seres humanos, temos que se
chama orgulho. Ninguém gosta de ser ferido, de ser, por exemplo: “Nossa, você foi bem isso naquela
situação, bem sacana” e tal. Ninguém gosta por quê? Porque fere um negocinho chamado orgulho. Mas se
nós tivéssemos realmente abertura de alma, nós consideraríamos também mesmo as coisas negativas que
falam sobre nós. Se nós realmente tivéssemos uma alma bem aberta, mesmo a coisa mais feia que
falassem de nós, nós consideraríamos nem que fosse por um minuto. Chamam-te lá de vagabunda. A
princípio você não é, mas vamos considerar aqui: “Por que o outro me chamou de vagabunda?” Basta você
pensar trinta segundos: “Não, não sou vagabunda”. Mas você considera pelo menos a possibilidade. Isso é
abertura. Agora, você não conseguir considerar a possibilidade ou você reagir sentimentalmente a isso, isso
não é atitude madura. Se a toda informação que vem do outro, você reage e não acolhe primeiramente,
isso é reagir como um adolescente. O adolescente é aquele que não processa a informação, é aquele que
reage antes de processar. A coisa nem chegou no chão, ele já reagiu, já chutou de volta, isso configura o
adolescente. E o adulto, o homem maduro é aquele que deixa a informação chegar a assentar, deixa ver
como ecoa e depois dá uma resposta: “Olha, você estava errado”. Entende? Eu estou falando de um ideal
de maturidade, nós não faremos isso todas as vezes, não conseguiremos fazer isso em todas as
circunstâncias, mas isso é o ideal de maturidade: nós termos essa capacidade de considerar possibilidades
sobre nós mesmos. E eu digo que todo orgulho é perigoso mesmo porque precisamos lidar com as
possibilidades de mal que existem dentro de nós. Passando um pente bem fino, não sobra um bonzinho.
Bonzinho, gente, quem é bonzinho? Vamos falar sério. Visto bem de perto, o que é bonzinho? Entendem?
Tem o bonzinho social, aquele que não quer se comprometer com ninguém, quer que todo mundo goste
dele, me dá ânsia um cara desses. Entende? Ninguém é bonzinho nesse sentido. O próprio Cristo, aí não
sou nem eu falando: “Bom mestre”, na hora Ele já respondeu: “Por que me chamas de bom?” Por quê?
Essa palavra não se aplica aqui. Bom, no fundo, ninguém é. Então, até a crítica, até aquela coisa super ácida
que o outro falou, aquilo pode ser possibilidade de posse de si mesmo, de integração da própria vida.

Aluna: E quanto mais te agride, mais te admite, né.

Tiago: É. Você sabe o que Maomé disse sobre o elogio? Maomé era um cara extremamente sábio,
um profeta, ainda que eu não seja islâmico, eu considero que o sujeito é um profeta mesmo. Ele disse o
seguinte: “Você só deve elogiar alguém quando a sua vida estiver em risco”. Olhe só! Então você está lá:
você é um escravo, está na mão do senhor, aí o senhor chega e: “Senhor, como o senhor está lindo hoje”,
“Oh, o senhor é o senhor mais legal da face da Terra”, e o senhor: “É, é verdade”, e te deixa vivo mais um
dia. O Maomé disse que elogio só é legítimo numa situação dessas, ou seja, nós nunca devemos ficar
elogiando os outros: “Ah, que linda”, “Que querida, “Que amada” porque a pessoa pode correr o risco de
acreditar. Ó, porca miséria! Entenderam?

Aluna: Engraçado porque o pior é que às vezes a gente pensa mesmo.

Tiago: Então, assim, e aí estou falando para as mulheres agora também, principalmente porque
homem tem menos respeito moral nessa hora, tem menos respeito humano, homem fala mesmo: “Seu
burro”, “Seu fedido, “Seu estúpido”, homem fala, geralmente. Vocês nunca entraram num banheiro de
futebol depois do jogo, vocês nunca entraram, vocês não sabem o que sai nesse banheiro.

Aluna: Talvez por isso que amizade de homens seja mais...

Tiago: O que eu estou falando é: para mulher isso tudo é muito difícil porque é de uma sutileza o
ser feminino. Não podemos esquecer isso. A mulher não é bronca, a mulher é sutil, é suave como as formas
do corpo, porém a mulher poderia aprender isto com o homem: elogiar menos. Quer dizer, essa noção de
verdade que tem de imperar nas relações humanas porque se é uma relação pessoal, de fundo para fundo,
de miséria para miséria, por que nós vamos ficar nessa auto-ilusão de: “Ai, que linda”, “Ai, que fofa”? Por
quê?

Aluna: Por que é auto-ilusão? Eu só elogio quando eu realmente acho...

Tiago: Mas é aí que estou falando, de perto, de perto, de perto, não sei se aquele elogio caberia.

Aluna: Não, eu realmente, às vezes eu fico pensando: “Nossa, será que é para tanto assim?”

Tiago: Exato, exato. Porque daí, sabe qual é o perigo, Mari? Você perder a medida das proporções
dos elogios.

Aluna: Mas você, quando você recebe é perigoso.

Tiago: É, é mais perigoso quando você recebe.

Aluna: É isto que estou pensando: quando eu recebo.

Tiago: E veja, se para você, por exemplo, [1:32:06] eu lembro de uma pessoa quando estávamos
falando de uma frase muito bonita do Julian Marias e a reação da pessoa foi dizer o seguinte [1:32:17]:
“Nossa, que fofo”. Bom, se o Julian Marias é fofo, que palavra eu aplicarei para casos de fofura, entendeu?
Você entendeu? É a medida de proporção que eu quero que vocês pensem.

Aluna: Mas é que o elogio faz tão bem.

Tiago: Aí que está. Você acha.

Aluna: Não, faz.

Tiago: Você acha que faz.

Aluna: Mas, pois é...

Tiago: Você acha que faz.

Aluna: Quando que não faz?

Tiago: O elogio faz muito bem, na hora que você recebe faz muito bem. Agora, vá tendo ali um...

Aluna: É que pode se passar por (...)

Tiago: É, nesse sentido.


Aluna: (...) “Nossa, eu sou o máximo”.

Tiago: Você corre o risco de acreditar.

Aluna: Você acredita nisso e você não evolui.

Tiago: Por exemplo, ou aquela pessoa assim, tem muito disso, a pessoa vai lá, faz um pouco de
caridade, reza na igreja e tal e as pessoas tendem a dizer: “Nossa, você é muito boa”. E a pessoa tende a
acreditar. E o que eu considero extremamente perigoso é que a pessoa acredite. É isso. Eu não estou
falando que a maldade é o que impera no ser humano. Não. Nós somos constituídos inclusive de bondade
divina. Eu só estou falando que a maldade está presente e que nós deveríamos nos importar bastante com
esses elementos vis que estão presentes na alma humana porque é com eles que nós pensamos menos,
mas são eles que mais nos dirigem, se você for pensar, porque os bons estão todos aqui na sua consciência.
O que você faz de bom está tudo aqui [na consciência], é ou não é?

Aluna: Tem um livro: Meninas boazinhas vão para o céu, as más vão à luta.

Tiago: É. Ok? Então por hoje é isso e até a próxima semana. Não passei tarefa.

Aluna: Passa um filme de novo.

Tiago: Passar um filme? Na Natureza Selvagem. Fica como tarefinha, então. Então, até a próxima
semana. [1:34:14]
AULA 05

00h00 a 00h10

Vamos começar a aula de hoje indicando um livro, que se chama Beleza. O autor é o Roger Scruton
, um filósofo inglês, talvez um dos mais importantes da atualidade, não só na Inglaterra, mas para a filosofia
como um todo. Ele se destaca bastante não só pelos estudos de Filosofia da estética, que é quando se faz
esse estudo sobre arte, beleza, etc., mas também porque ele é um dos principais responsáveis pelo
pensamento conservador inglês – e quando falo conservador, não estou falando de tradicionalismo, aquele
cheiro de naftalina, mas daquilo que consideramos bens duráveis, perenes da espécie humana, que não
queremos perder; queremos conservar algo que a humanidade conquistou, por isso em alguma medida
todos temos de ser conservadores. Se todos formos revolucionários em essência, nunca saberemos de onde
estamos vindo e para aonde estamos indo. Sempre é necessário conservar algo para dar o próximo passo.
Então, nesse sentido, temos de ser conservadores.

Scruton começa o prefácio deste livro – que é o ensejo para o tema da aula de hoje, que é a Beleza –
dizendo o seguinte: “A beleza pode ser reconfortante, perturbadora, sagrada e profana; pode revigorar,
encantar, inspirar, atemorizar. Ela pode nos influenciar de inúmeras formas. Não obstante, jamais é vista com
indiferença: exige nossa atenção; fala-nos diretamente, como a voz de um amigo íntimo. Se há alguém
indiferente à beleza, sem dúvida, é porque não a percebe.”

Eu começo então, perguntando a vocês: o que é a beleza? Porque em filosofia, nós tratamos das
coisas pelo “quê”. Eu já mencionei isso aqui. Faz parte da atividade filosófica a pergunta pelo “quê”. Isso é
uma coisa na qual eu tenho me dedicado bastante, nas minhas aulas, nos meus cursos, em tudo o que eu
escrevo, porque eu quero que as pessoas percebam que a filosofia não se trata de uma linguagem de
professores de universidade, ou de gente esquisita, que não sabe fazer outra coisa, se relacionar com pessoas
e então fica estudando o dia inteiro. A filosofia é uma atividade da concretude da vida. Aprender filosofia, ler
as coisas certas, pensar as coisas certas, pelos métodos que a filosofia oferece é ir à essência das coisas.
Então, a atividade filosófica, para fazer aqui uma defesa que eu deveria ter feito na primeira aula (dado que
o curso se chama Filosofia da Mulher), é uma atividade de profundidade. Isso define a filosofia. Ou seja, o
que se pretende é ter uma visão responsável sobre algo. É por isso que se pratica filosofia. E não para bancar
o intelectual, para ser diletante, como muitos são – como aqueles que apenas lêem os best sellers durante
as férias. Estes são os diletantes. Não necessariamente eles estão mortalmente interessados por aqueles
assuntos, mas apenas não querem ficar sem tema para as conversas nas rodas sociais que frequentam. Então,
como todo mundo lê Umberto Eco, ele tem que ler também (a propósito, eu não acho que tenha que ler
Umberto Eco, considero uma tremenda perda de tempo, há muita coisa mais importante, profunda para ser
lida e que não está na primeira fileira das prateleiras das livrarias de Shopping. Inclusive, como vocês sabem,
os livros que eu indico nos meus cursos não são facilmente encontrados hoje em dia).

Isso tudo mostra que a atividade filosófica não se dá à superficialidade. E se tem uma coisa que
impera em nossas vidas hoje, é algo chamado superficialidade. Estamos tão acostumados a conversações
superficiais, ao small talk como se fala nos EUA, que quando alguém propõe uma visão um pouco mais grave
sobre um assunto, geralmente nos sentimos até atacados. Esse ataque é como uma britadeira: você está lá
muito tranquilo na sua estrada, e chega alguém fazendo um furo em você, à sua revelia. Esse é o ataque da
profundidade. Ele pode acontecer de uma maneira dolorosa, quando você não está preparado e alguém
chega e te diz umas verdades, realmente essenciais, sobre a sua vida, sobre a vida humana como um todo,
ou pode acontecer de uma maneira, digamos um pouco mais “dócil”, que é o que ocorre quando você
prepara essa penetração da realidade na sua vida, que é o que filosofia faz. “Eu não quero aprender o que
Roger Scruton escreveu, eu quero ver a realidade que ele viu”. Essa é a diferença. “Eu não quero saber citar
Julían Mariás, eu quer ver a vida que Julían Mariás viu”. Eles não são conteúdos para mim. Isso é ser filósofo.
Não são coisas para citar em aula. São testemunhos de um aspecto da vida, e eu quero ser testemunha
também. Quando eu falo a palavra testemunha, vocês sabem o que ela significa? O que faz uma testemunha?
Ela conta algo que ela viu. Testemunhas algo, é ver algo. Então, quando eu digo que quero ser testemunha
da realidade feminina, testemunha da beleza, é porque eu quero vê-la, eu não quero aprendê-la (por ouvir).
Não adianta me contarem o que é Beleza, eu quero vê-la. Não adianta os conteúdos deste curso serem
tomados como ensinamentos, é preciso que eles sejam tomados como perspectivas da realidade,
necessariamente. São modos de ver a coisa. E a filosofia se diferencia de qualquer outra ciência porque ela
abarca a maior quantidade de modos numa só atividade. A biologia, por exemplo, ela vê um modo da
realidade, e bem pequeno por sinal, somente o aspecto biológico. A filosofia tenta ver tudo ao mesmo tempo.
É a busca incessante da totalidade. Hoje vivemos no reino dos especialistas, em todas as áreas profissionais
aconteceu isso. O especialista é aquele que sabe muito sobre pouco. Na filosofia, fazemos o caminho inverso:
nem que eu saiba pouco, mas eu quero saber sobre a essência de tudo; nem que o meu conhecimento seja
pouco, desde que ele seja essencial. E quando praticamos a atividade filosófica, descobrimos que quando
sabemos uma coisa na sua essência, acabamos sabendo as outras, porque existe uma intercomunicação
entre as essenciais. Se eu conheço a Beleza, eu conheço a Bondade. Se eu conheço, mesmo, a Beleza, eu
conheço a Verdade. Porque estes três valores da vida humana são aspectos de uma mesma coisa chamada
Ser, ou do que as religiões chamariam de Deus, principio do mundo. Ou seja, você sabe que a Beleza é uma
face de uma mesma coisa que tem Bondade e Verdade. Eu posso acessar esta mesma coisa por qualquer
uma das faces. O artista, é aquele que é mais sensível à face da Beleza, e por isso ele acessa o quê das coisas,
a essências das coisas, pela Beleza. O filósofo é mais sensível à verdade, e por acessar a Verdade, vai acabar
acessando a Beleza, porque não existe verdade feia e vice-versa.

Viu abrir um parêntese: os tipos de pessoas se dividem de acordo com o valor que elas mais amam.
Valores são guias da nossa vida. Existem valores dinâmicos, que mudam, os quais poderíamos chamar de
valores culturais, sociais, que consideramos importantes e depois passamos a não considerar mais etc., e
existem aqueles valores que são intrínsecos à realidade, os valores, por exemplo, que um grego, lá no século
IV considerava como valorável, amável, e eu hoje continuo considerando. Existem bens que perduram por
toda a vida, que estão acima da contingência do tempo. Existem bens que fazem parte da dinâmica temporal
da vida e existem bens que estão acima da dinâmica temporal da vida... [10:03]

00h10 a 00h20

Existem bens que fazem parte da dinâmica temporal da vida e existem bens que estão acima da
dinâmica temporal. Por exemplo, o valor da vida humana deveria ser reconhecido desde o início da vida
humana porque ele é um valor que não faz parte de um pacto cultural ou temporal determinado numa
sociedade, mas ele é um valor soberano, que está acima disso. Com relação a esses valores soberanos, que
são, por assim dizer, metafísicos, as pessoas se dividem conforme o amor que têm pelos três. Um desses três
valores é o mais importante para você, ou a Verdade, ou a Bondade, ou a Beleza. E muito da sua vida, muito
da dinâmica da sua biografia, se compreende justamente por esse amor. A falta de amor a esses valores é
um tipo de psicopatia. “Eu não amo nenhum dos três, sou insensível aos três, não quero nem Verdade nem
Bondade nem Beleza.” Bom, então você está vivendo uma psicopatia, uma coisa horrorosa da qual não sei
se dá para lhe tirar. É natural no ser humano uma inclinação para o bem, uma inclinação para esses valores
soberanos. Isso Aristóteles disse muito antes de qualquer religião monoteísta. O homem naturalmente tende
ao perfeito, tende ao que é bom, tende ao que é melhor. Rousseau, um filósofo bem mais próximo de nós,
disse, “O ser humano se diferencia dos animais por uma coisa chamada perfectibilidade”. Então, esses três
valores estão presentes na realidade, constituem a realidade de alguma forma, e nós seres humanos amamos
esses três valores com maior ou menor consciência e com mais intensidade um dos três. Um dos desafios da
vida é você saber qual dos três valores é para você o mais importante. Isso não quer dizer que você não
considera os outros dois importantes, mas que o acesso aos outros dois virá por esse.

Então é claro que, numa atividade filosófica, a vida de um filósofo é a busca pela Verdade e é nessa
busca pela Verdade que eu reconheço a Beleza e a Bondade do mundo. Um artista tem a Beleza como seu
principal canal, tanto de acesso quanto de expressão. E a Bondade, que a gente considera que falta hoje em
dia, está sustentando a sociedade humana, porque se não houvesse mais bondade já teríamos nos destruído.
Por mais que fiquemos chocados e assustados com o número de guerras, com o número de violências que
acontecem, com as notícias que ficamos sabendo, com as coisas que acessamos e vemos todos os dias, a
Bondade predomina ainda. Se fosse o contrário, a espécie humana já teria sido extinta. Ao mesmo tempo
que tem uma guerra acontecendo, como a Segunda Guerra Mundial que matou tantos milhões de pessoas,
você tem de lembrar que a grande maioria não estava fazendo guerra enquanto uma parte estava
guerreando. Quer dizer, a Bondade prevalece. Como diria Santo Agostinho, “O que sustenta a sociedade
humana é o amor ao próximo”, quando não houver mais isso não haverá mais sociedade humana. Mas se
estamos aqui, num país como nosso, que mata 50 mil pessoas por ano, ainda assim, com um dado assustador
desse, sabemos que o amor ainda prevalece. A Bondade ainda prevalece. Esperamos que assim continue.

Então existe esses três valores. Qual você ama mais?

Aliás, justamente essa coisa de jornal, notícia, violência, cria uma ilusão em nós a tal ponto que
passamos a achar o contrário, que não é a Bondade que está vigorando, mas a Maldade, e isso tem
consequências existenciais terríveis, porque daí você passa a desconfiar de todo mundo, todo mundo quer
te passar a perna, todo mundo tem sentimentos maus, cruéis, então você precisa se cercar de tudo que puder
para não sofrer nas mãos do outro. Então acontece uma perversão, ao invés de eu reconhecer, estimar,
admirar e vivificar o valor na minha vida concreta, reconhecendo como ele está presente nas coisas em que
eu toco e tenho contato, acontece uma perversão, eu não estou reconhecendo ele, então ele passa a não
existir para mim, eu tenho aquela atitude do rebelde, do rebelde que não enxergando o amor começa a
pregar uma coisa extremamente odienta. É mais ou menos isso que a gente faz. Não reconheço mais que a
Bondade está presente na maior parte das relações, na maior parte das vezes que as pessoas se encontram,
então começo a agir com a rebeldia daquele que só vê as partes ruins. É como quando, sendo adulto, chega-
se à vida com um certo know how de maldadezinhas – porque ninguém chegou à vida adulta sem ter
praticado algumas coisinhas bem feias – aí você tem filho, pega-o nos braços, ele cresce um pouquinho e
você começa a falar assim “mas é terrível esse menino!”, você começa a ver um monte de coisa ruim nele.
Na verdade aquilo que se começa a “ver” são coisas que você está projetando nele, porque a maldade não
teve nem tempo de se instalar ali e se atualizar dessa forma.

Então veja, a gente olha tanto para as coisas ruins, perverte tanto a nossa percepção do mundo e das
coisas boas do mundo, que, de alguma forma, já começa a imputar isso nas crianças que nem são capazes de
revelar algo desse tipo. Claro que existem casos especiais. Existe uma santa na história da Igreja, Santa Teresa
D’Ávila, que tratou do assunto “crianças que nascem más”. Existem? Pior que existem. Mas isso é assim: uma
em um bilhão. Mas existem. Na biografia de Santa Teresa ela conheceu. Mas tirando isso, as crianças não
nascem assim. O que constitui o ser humano é um núcleo de Verdade, Bondade e Beleza. Nesse ponto parece
que Rousseau tem razão. A gente nasce bom e começa a ficar corrompido ao longo da vida. É... a gente vai
despertando para o mal, porque o mal é um elemento da realidade, não estou dizendo que ele não existe. O
mal está presente, sim, no mundo, mas eu preciso despertar para ele, admirá-lo, querê-lo etc. etc. Sócrates
dizia “Ninguém faz o mal porque é mau”, as pessoas praticam o mal porque acham que aquilo é um bem.
Quando as pessoas cometem maldade, exceto os psicopatas, claro, que não são capazes mais de sentimentos
morais, quando as pessoas praticam maldade, na maioria das vezes elas acham que estão fazendo uma coisa
boa, geralmente para elas mesmas, mas elas acham que estão fazendo um negócio que vai terminar “super
bem”, vai terminar “super legal”, como o sujeito do filme. “Isso aqui vai terminar super bem”, não, não vai.
Você já sabe que não vai terminar bem, mas enfim, você concede a ele aquilo, porque a trajetória do menino
do filme, Na Natureza Selvagem, é a trajetória do “Não sei quem eu sou... Vou atrás de mim.”. Só que “eu
vou atrás de mim” olhando para fora, não para dentro. É mais ou menos isso, essa é a tragédia do menino
do filme. “Vamos olhar para fora”... olha meu amigo, você errou no seguinte aqui: a sua premissa está errada.
Porque se você quiser saber quem é, você tem de olhar para dentro. E olhar para dentro não é excluir sua
circunstância. Você é filho desse pai, dessa mãe, vive nessa cidade, essa é mesmo a sua sociedade, por que
você tem de fazer isso?

Então, nesse sentido, eu perguntei o que é a Beleza, eu fiz toda essa trajetória do que são os valores,
para chegar ao ponto de dizer o seguinte: a Beleza nunca foi tão ressentida na nossa vida. Nós nunca
estivemos tão incapazes de percebê-la, e capazes de confundi-la até.

Eu sempre estou entrando em sites de notícia, querendo saber o que está acontecendo e tal, e eu
vejo fotos de modelos, mulheres – no meu caso, eu olho mais para as fotos das mulheres –, então estou lá:
foto daquilo, bunda para lá, bunda pra cá. E eu penso quando vejo isso, “É sério que acham isso bonito?! É
sério mesmo?! Isso aqui hoje é considerado bonito? Belo? O que aconteceu?”. Eu me lembro que tinha uma
brincadeira que postavam no facebook, “a geração da minha vó achava o Fulano bonito”, aí aparecia um ator
de cinema da década de 50, um sujeito com a maior elegância, um Gregory Peck, “a minha mãe achava isso
bonito”, aí aparece o Brad Pitt, Tom Cruise, “e a nossa geração acha...” aí aparece aquele sujeito da banda
Restart, o Neymar e não sei quem mais. Quer dizer: o que foi que aconteceu?!

Então essas coisas suscitam, mais do que nunca, o tema da Beleza, porque nós reconhecemos que
isso está nos causando um estranhamento, está nos incomodando, está nos perturbando, como disse o Roger
Scruton. [20min10s]

00h20 a 00h30

[0:20] Então essas coisas suscitam – mais do que nunca – o tema da beleza porque nós sempre
reconhecemos que isso está nos causando um estranhamento, está nos incomodando, está nos perturbando,
como disse o Roger Scruton. E a pergunta volta aqui, agora: O que é a beleza?

Além da gente saber, então, que ela é um valor, o que mais que eu posso dizer sobre a beleza? Por
que, de fato, se existe algo (um desses três valores) que está assim na estrutura da mulher é a beleza.
O que, convenhamos, você mulheres, claro, admiram os homens etc e tal. Mas convenhamos que as
formas femininas são muito mais belas; tem algo que é da estrutura da mulher. Parece que a beleza faz parte
do seu DNA.

Um homem, sim, um homem é bonito; mas o homem é bonito por outras razões. Tanto é que muitas
vezes agente vê situações de homens não tão bonitos fisicamente mas que despertam a atenção da mulher
de um jeito... Por quê? Tem algo no homem, tem algo que parece mais belo no homem que não é
propriamente físico e que encanta que deixa a mulher literalmente babando; mas na mulher não, a beleza
física é algo quase que uma exigência.

O Julian Marias diz assim: “Não é o caso que todas as mulheres são belas, mas todas as mulheres têm
de ser”. Olha a sutileza: não são todas belas, mas todas têm de ser. Quer dizer, uma das coisas que define o
ser feminino é a preocupação com isso. A total falta de preocupação com isso é sinal que alguma coisa está
muito esquisita. Está muito estranha.

Então, ela não tem culpa de ter nascido assim assado ou com nariz assim, com cabelo daquele jeito,
não chamar atenção dos meninos quando era jovem; mas, sim, ela tem culpa se ela não se importar com
isso. Quer dizer, “a culpa” no sentido, ela não realiza algo do ser dela quando ela é negligente com este
elemento, com este valor. Porque este valor é feminino, por excelência.

Julian Marias também diz o seguinte: “Se existe uma potência na História é a beleza da mulher”. A
beleza da mulher foi capaz de gerar guerra, paz, conflito, casamento; capítulos da História foram decididos
por causa de beleza feminina.

Quer ver um exemplo: o que aconteceu na Inglaterra no século XVI quando Henrique VIII se
apaixonou pela Ana Bolena. Simplesmente se mudou a história do país por uma beleza. Sim, a mulher dele
não era das mais bonitas a Catarina – se não me falha a memória –, e ele fiou perdido né. Inclusive tem um
filme sobre isso, indicou dois filmes – um antigo e um recente: “O homem que não vendeu a sua alma” que
daí foca mais no Thomas More. Thomas More era um intelectual católico que se recusou o aval [0:24:11] e
por isso foi morto pelo rei, coitado. É uma história muito interessante. Thomas More escreveu um livro
chamado Utopía ele estava inclusive preso. O título do filme diz tudo: o homem que não vendeu a sua alma.
E o outro é um título bem mais recente: “A Outra”.

O Henrique VIII estava completamente apaixonado, ficou realmente [0:24:51] com a beleza dela...
[0:24:58] E aí veja o que aconteceu na história

Por exemplo, posso dar mais um exemplo, a história do império romano; vocês já ouviram falar de
Justiniano. Justiniano foi o imperador do império do Oriente que começou a reconquistar o ocidente, ele
brigou com toda a classe política de todo o império romano por que ele se casou com uma prostituta. Ele
ficou absolutamente apaixonado quando a viu pela primeira vez – que e famosa Teodora. Por causa dela,
inclusive, surgiu aquela famosa frase “por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher”. Ele
não decidia absolutamente nada sem consultá-la. Quem realmente governava era ela, e ela vivia assim nos
“bares da vida”; era considerada uma mulher baixa. Então vejam, história do império romano.

Napoleão Bonaparte perdeu muita coisa por causa da sua famosa Josefina. Absolutamente louco por
ela e absolutamente corno, todo mundo sabe. Na hora que ele saia de casa pra fazer batalha ela convidava
soldados e soldados para entrar em casa e [0:26:03] e aproveitar. Napoleão sabia que ele era corno, doía
aquilo nele mas ele não conseguia se separar dela porque ele era absolutamente louco por ela.

Balzac escreveu praticamente toda a segunda metade dos seus livros para uma mulher, louco, louco,
apaixonado; e ela judiou dele pra caramba. Tanto é que (ela era polonesa) ela foi casar com ele um ano antes
dele morrer, ela judiou mesmo. Ela era apaixonado pelo escritor e não pelo homem. Ela era completamente
louca pelos livros dele, pelas cartas; brilhante, encantava qualquer uma. Só que ele era muito feio

Enfim, acho que a frase do Julian Marias está [0:27:28]: realmente a beleza feminina é uma das
potências da história.

O que é que aconteceu com a beleza hoje?

Geralmente quando mulheres vem conversar comigo, praticamente só mulheres conversam comigo.
Em algum momento nossa conversa chega nesse ponto: como que é eu faço para atualizar o meu ser
feminino, como que eu faço para graça etc.

Eu geralmente começo indicando os romances da Jane Austen; ler Jane Austen, assistir Jane Austen
aos filmes, séries porque aquilo é absolutamente encantador.

Você não pode se apegar à estrutura burguesa da sociedade – que isso realmente era uma chatice.
Mas eu gostaria que todas as mulheres prestassem atenção naqueles modelos. Você não precisa ser igual à
personagem de Orgulho e Preconceito e ficar costurando, bordando e tocando piano o dia inteiro, mas tem
coisa ali que você precisa aprender com ela sim.

Então, quem nunca viu procure. Tem uma série maravilhosa sobre Orgulho e Preconceito, a série foi
feita pela BBC.

Divertir não é bem o que agente quer...

A diversão como a própria palavra diz é algo que diverge e divide. Todo aquele que se diverte se
divide. Isso é por um dos motivos também de agente está tão desintegrado hoje em dia, agente não conseguir
acessar quem agente é, ter dificuldade de possuir agente mesmo, precisar de ajudas externas para falar da
nossa própria vida. Por que agente se diverte demais, essa é a grande verdade. E sabe porque agente se
diverte demais? Porque a vida está cada vez mais pesada. E ao invés de buscar consolo agente busca diversão.
Se eu busco diversão a dose nunca será suficiente. [0:30]

00h30 a 00h40

[Do trecho anterior: Esse é um dos erros. Se eu busco diversão, a dose nunca será suficiente.] Basta
você pensar num sujeito quatro dias pulando sem parar no Carnaval. Aquilo não tem… eu olho aquilo e falo:
“Não é possível que em algum momento o cara não pense que deu”. Nunca chega. Aquilo me irrita de um
jeito… Gente, sério que vocês conseguem esquecer o mundo e parar num dia assim? É mais do mesmo, todo
ano. Um troço, para mim, infernal. Eu não sou contra a diversão, mas é que sou contra certas conseqüências
da diversão. E uma das conseqüências da diversão é a divisão. Veja: nós estamos no universo, onde tudo
tende para uma mesma origem. E quando a gente pratica a diversão a gente divide. Consolo e diversão são
coisas diferentes. “Mais do mesmo” é o círculo dos homossexuais na Divina Comédia, que ficam eternamente
andando em círculos.

Para mim toda essa história é muito infernal. Qual a diferença entre diversão e consolo? Por exemplo:
a beleza é um consolo. O carnaval é um divertimento. Sexo é consolo, e não divertimento. Por quê? Há uma
beleza incrível no sexo. Claro, a maneira como praticamos o sexo pode torná-lo um divertimento, portanto
algo insaciável. Mas o sexo pode ser sim uma das experiências de maior consolo e beleza da convivência
humana. O gozo é um momento de levitação: você está lá na tensão da vida, cansado, com o peso da vida
nas suas costas, tem um momento de intimidade profunda com o seu companheiro ou companheira, e tem
seu momento de orgasmo, você levita por um instante da existência, e isto é um consolo. O consolo promove
esse certo suspiro, que só perdura durante o orgasmo, mas é um suspiro. E, claro, quando o sexo é praticado
por puro divertimento, sem intimidade, ele vira uma neurose. Sem intimidade, sem a exploração da
intimidade, é até mais difícil acontecer o orgasmo, principalmente no caso da mulher. É duma beleza
impressionante o ato sexual na intimidade.

Que mundo é esse em que as pessoas não gostam mais de sexo? Não é porque uma mulher decidiu
virar freira que ela não gosta de sexo; ela está fazendo um sacrifício – é outro departamento. Não é que
“padre é assexuado” – não, padre tem sexo, e eu torço para que ele seja bem feliz, inclusive, mas ele fez um
sacrifício. Sabem o que S. Tomás de Aquino disse sobre o sexo? “Sexo é o deleite no corpo amado que todo
homem merece.” Um santo, doutor da Igreja. Então, é claro que o sexo é bonito, que não podemos condená-
lo. Ele é um momento de consolo, de sair de si – naquele orgasmo intenso, parece que a gente sai da gente.
Então, também é claro que uma vida sexual infeliz tem muitas conseqüências biográficas muito
sérias. Ela é um dos consolos principais da vida. E, claro, o sexo dá consolo numa medida; a arte, em outra,
mais duradoura. Sim, sexo é bom; mas um certo êxtase na leitura da Divina Comédia é melhor ainda. A arte
abre mais… as duas coisas são consolos porque me fazem sair um pouco de mim, por um momento menor,
no caso do orgasmo, ou maior, no caso da apreciação de uma obra de arte, em que eu tiro o peso do mundo
das costas. Isso é consolo; divertimento é fazer de conta que o mundo não está pesado. É diferente. Eu ligo
o carro e escuto música e entro no supermercado com música… não quero pensar, quero me distrair, fingir
que o peso não está lá. E uma conduta que continua assim por muitos anos gera um processo neurótico que
depois vai desencadear doenças muito comuns – câncer, e por aí afora. Você vira uma panela de pressão
quando não quer tratar do assunto, quando não busca os consolos certos. Olha que maravilha: a presença
da mulher no mundo é um consolo para o homem. Como diria Vinícius de Morais, as feias que me perdoem,
mas beleza é fundamental. O homem levita quando olha para uma mulher bela; a gente esquece tudo,
porque a beleza feminina é algo digno de ser olhado, é uma potência, algo que nos provoca nesse sentido. A
mulher realiza o seu ser e complementa o do homem ao assumir a sua beleza como seu projeto; ela tem que
ficar mais bonita, mesmo. Julián Marías diz: “infeliz do homem que não permite que ela faça isso” – ou que
fique enchendo o saco: “Você gastou com isso? Usou o meu cartão para comprar aquilo?” Pelo amor de Deus,
deixa ela! Julián Marías faz um paralelo: o Estado vive tirando dinheiro da gente para investir em certas
coisas, para promover de alguma forma a beleza, também – não digo no Brasil, onde a coisa é meio caótica,
mas no geral os Estados estão preocupados em gerar ordem para a sociedade. E para que servem os grandes
monumentos senão para isso também, para causar suspiro, leveza, para fazer bem à sociedade? No plano ali
de dentro de casa, o homem tem mais é que permitir e incentivar isso para a mulher, porque nós
dependemos disso.

A experiência de olhar um quadro belo… como é séria a diferença entre uma tela de Rembrandt e
uma de Picasso, que só me traz confusão, por maior e mais perfeita sua técnica! Contemplar arte moderna,
contemporânea, como o Museu do Olho aqui em Curitiba, me traz uma certa experiência – “ah, essa
sociedade capitalista etc.”; contemplar arte clássica me causa outra: certas obras de arte, quando
correspondem ao que se espera delas, me dão uma imagem da beleza, e quando eu contemplo a beleza eu
sou consolado. Veja: nós estamos mais desesperados hoje, mais desorientados, porque estamos mais
sedentos por beleza mesmo; tem muita coisa feia aí fora. Eu moro, e digo isso sem sombra de dúvidas, numa
das capitais mais bonitas do Brasil – não que Curitiba seja linda em todos os aspectos (ela tem muita coisa
bonita, que vale a pena admirar), mas há muita coisa feia por aí… as capitais que já conheci são de deprimir
qualquer um. E a gente tem deteriorado, pervertido mesmo a beleza. Vão no Largo da Ordem para ver:
tentem abstrair o que está acontecendo ali e vejam a sua arquitetura, que coisa linda que sobrou da
arquitetura portuguesa… e vejam o que a gente faz com aquilo. Vai num bairro aqui em que há uma casinha
da época da fundação da cidade e do lado uma casa de algum sujeito que enriqueceu e fez colunas gregas na
frente. É um troço completamente sem noção. [40:08]

00h40 a 00h50

Vai num bairro aqui em Curitiba, você tem uma casinha lá da época da fundação da cidade e do lado
você tem uma casa de um sujeito que enriqueceu e fez colunas gregas na frente da casa. É um troço
completamente sem noção, completamente sem noção. Tem gente que acha bonito ir para a Europa,
perceba que é porque existe um padrão, é porque existe uma ordem estética. Ordem, beleza não acontece
sem ordem. Uma mulher feia é uma coisa um pouco desordenada. Inclusive, São Tomás de Aquino dizia que
um dos elementos que compõem a beleza é o elemento da harmonia, o outro elemento é o da proporção, a
gente acha mais bonito quando tudo é proporcional. E vejam que coisa gente como o mundo foi feito, ele foi
feito belo. A beleza se constitui no mundo.

Quando você lê a Bíblia, o Gêneses, Deus vai fazendo cada uma das coisas – faz o homem, faz o
mundo, etc – e vai dizendo “Isso é bom... Isso é bom... Isso é bom”. Não é isso que está no Gêneses? E viu
Deus que tudo era bom, Ele fez belo, Ele fez bom. Então a gente até usa essa palavra na língua portuguesa,
quando vemos uma coisa suja e desordenada falamos que está imundo, ou seja, está diferente do mundo
porque o mundo não é assim. Quando uma mulher limpa sua casa e arruma sua casa, ela deixa sua casa mais
parecida com o mundo porque o mundo é belo, ordenado, bom. Esse é o mundo. E se a gente está tão
aficionado ao feio, ao desordenado, ao caótico, ao violento é porque tem alguma coisa muito errada conosco.
É preciso tirar uma certa penumbra dos nossos olhos.

Eu já disse isso em várias reuniões do clube do livro, porque no clube do livro a gente fala de arte
basicamente – a importância da literatura e tal – e eu sempre falava para o grupo: “olha, quê que aconteceu
com você que você passa na frente de um canteiro com flores – aquelas florezinhas bem coloridinhas,
bonitinhas que foram acabadas de plantar pela prefeitura – e você não percebe aquilo?”.

Aluno: acha extraordinário o ordinário.

Tiago: Exatamente. “Onde você está que não vê isso?”, entendeu? Onde você está que você vê um
animal, um cachorro que seja, e não fica extasiado diante daquilo? Quando eu digo “onde você está” é dentro
de você mesmo. Aonde você foi parar? Porque o mundo, esse mundo antisséptico em que a gente vive entrou
dentro das pessoas, ele foi para dentro mesmo. As pessoas percebem o concreto, elas percebem a parede,
eles percebem o ouvido, elas ficam admiradas com o espelhado; mas elas não percebem um bicho, uma
criança, não percebe belezas da vida que estão presentes ai e de uma maneira maciça. Não é que você tem
que prestar muita atenção para ver beleza. Não. Ela está presente de maneira maciça. Hoje aconteceu
conosco uma coisa, assim, que a gente tem que ser chacoalhado pela vida para perceber.

Então você pergunta para mim: “Ah, Tiago, qual foi teu momento de máxima beleza?”. Ah, foi o
momento em que eu peguei meu filho no colo pela primeira vez. Quando eu vi inclusive, eu estava presente
nos dois, eles saindo de dentro da minha mulher. Aquilo para mim foi arrebatador, algo que me marcou
mesmo, foi uma impressão autentica que eu tive, minha alma ficou marcada para sempre. Mas isso porque
era meu filho que estava nascendo, mas isso não devia ser assim. Eu devia ver o extraordinário no ordinário
da vida porque nada é ordinário, ai que está, nada é ordinário. Você ter dormido, acordado e olhar para o
mundo lá fora desse jeito, do jeitinho que ele está, isso é o extraordinário. E você não se contentar com isso,
você ficar bravo ou de saco cheio, tem alguma coisa muito errada. Eu digo isso porque eu também fico, a
gente fica, a gente fica massificado nesse sentido.

Nós estamos insensíveis, indolentes. Nós estamos padecendo dentro de uma psicopatia social. A
beleza está escancarada na nossa frente e a gente insiste em ver o feio, insiste em ver o vulgar porque dai a
gente fica tão cego, em relação à beleza, que a gente faz a atitude contrária: pega o vulgar e transforma-o
em modelo. Que dizer, como eu não consigo apreciar Beethoven, Latino vira música. É se esconder debaixo
da mesa e querer acordar no séc. XV de volta. É desesperador isso ai. E outra: “ah, mas eu não gosto muito,
me dá sono”, mas, meu bem, gosto se educa. Gosto se educa. Eu cresci escutando Bob Marley, e a vida
inteira, meu pai é fã número um do Bob Marley. E olha, sinceramente, não tenho nada contra ele não e se
você colocar para ouvir vou deixar e vou curtindo, mas eu sei o valor do Bob Marley, ai que está, eu não
confundo aquilo.

Eu sei o tamanho do bem que é o Bob Marley e eu sei o tamanho do bem que é uma obra do
Beethoven, de Bach e por ai afora. Eu sei o valor de Machado de Assis e eu sei o valor de Dostoiévski. Existe
uma hierarquia. Então, se você vai lá num show do artista que você gosta da MPB não tem nenhum mal nisso,
a única coisa que você não pode é confundir, achar que aquilo é a arte, que aquilo é a beleza. Não, beleza
não rima “paixão” com “emoção”. Aquilo é um momento de divertimento, aquilo é um momento de
distração, momento prazeroso, não deixa de ser prazeroso, claro, é prazeroso, mas aquilo não fará por você
o que a beleza encarnada na grande arte fará ou a contemplação de uma coisa bela – de uma criança, de
uma mulher, de um animal – fará por você. A gente precisa viajar porque a gente precisa ver coisa bela. É
uma coisa assim de um apetite, um negócio que vai nos trancando aqui dentro. A gente precisa desses
momentos sim e não podemos cair na atitude contrária, não podemos cair na tentação de tornar o vulgar e
o feio como modelo. Isto é uma tentação do homem moderno. Como ele está doente da percepção, ele torna
aquilo como modelo, ele inverte aquilo, ele faz aquilo ficar bonito.

Então é aquela experiência do sujeito que vai a favela e fala: “ai que lindo”. Não, não é. Pelo amor de
Deus, não é, nunca foi e nunca será. Uma favela nunca será linda. Você pode olhar aquilo e falar: “nossa, olha
só”, o pessoal, às vezes, faz estudos sociológicos daquilo. Você pode ficar admirado com pessoas que realizam
trabalhos políticos dentro da favela, você pode, enfim, admirar a ação humana. Você não pode olhar para
uma favela e falar “que lindo”. Você está precisando dar uma reeducada no seu gosto, na verdade é isso que
você está precisando. Você não pode confundir Oscar Niemayer com alta arquitetura. Não, não é. Você não
pode achar que aquela esplanada de Brasília compara-se ao centro de Roma. Você precisa ter esse senso de
hierarquia na sua cabeça, entendeu? Mais do que na sua cabeça, na sua alma tem que estar impregnada de
beleza a tal ponto que você reconheça que há uma diferença entre o centro de Paris e o centro de
Pindamonhangaba, existe uma diferença. E por isso que as pessoas querem ir para Paris, tem algo lá que elas
sabem que existe lá. O ser humano é movido pelo desejo de perfeição.

No caso da mulher o Julián Marías disse que tem dois tipos de beleza em relação à mulher: aquela
de dentro para fora e a de fora para dentro. Ele falou que a gente está vivendo um momento complicado
porque a gente está dando muita importância daquela que é de fora para dentro. A gente está dando
bastante importância para o que nós estamos vendo e os sentidos estão nos entregando, mas se isto não
vier junto com a outra – beleza de dentro para fora – fica esquisito, fica feio, é aquela beleza que você olha,
te chama à atenção e você fica ali por cinco minutos, daí você não quer mais. É uma beleza que vem de
dentro para fora, e é essa a beleza feminina que atualiza a outra. Porque é aquela coisa, um rostinho bonito
não resolve. É verdade, não resolve, ele é só uma parte da coisa, o rostinho bonito. Sim, ele ajuda muito,
claro, com certeza, eu concordo em dizer que ajuda muito. Mas o rostinho bonito, quer dizer, a perfeição da
forma estética, a beleza plástica, ela precisa quesito ali que atualize ela, ou seja, aquilo que eu tenho insistido
desde a primeira aula, daquela intenção de graça, é aquilo que atualiza aquela beleza. Porque vocês já devem
ter visto mulheres bonitas que são feias, que não atualiza a coisa, entendeu? E ai com o passar dos anos,
como ela vai perdendo a beleza plástica, porque ela vai envelhecendo e ficando, para os padrões atuais,
menos bonita, ai que vai mostrando mesmo, que vai assumindo a forma. Sendo que aquela que tem essa
outra beleza – a beleza de dentro para fora – ela vai envelhecendo e a gente vai continuar achando ela bonita.

Aluno: Tem pessoas idosas, às vezes, mães de mulheres moças, que a gente olha e diz “meu Deus,
essa mulher é mais bonita que a filha”.

Tiago: Exatamente.

Aluno: Tem casamento que a gente diz que a mãe é mais bonita do que a noiva.

Tiago: Eu trabalho com adolescentes aqui também...

Aluno: ... que a mãe é mais bonita do que a noiva.

Tiago: Exatamente. Porque às vezes, isso também acontece porque está se perdendo ao longo das
gerações, mas também porque às vezes a mulher demora para perceber isso. [0:50:00]
00h50 a 1h00

[00:49:55] Isso também acontece por que está se perdendo ao longo das gerações, mas também por
que às vezes a mulher demora para perceber isso.

[00:50:00] Ela vai perceber, ali. Como a mulher balzaquiana. Mais ou menos aos 30 anos. Ela percebe
que “Huuum. Não é só isso que eu preciso prestar atenção. É uma outra coisa.” É um movimento de dentro
para fora, que é esse que não só atrai, mas instala o homem na minha tenda. Porque a beleza, essa de fora,
ela atrai, mas não instala. Não instala. O homem fica ali um tempo, admira, mas depois vai embora. Tem que
ter alguma coisa de dentro para fora que daí faz o sujeito fincar ali a tenda dele também e não querer sair.
Esta é a graça. É o nome dessa beleza. Efetivamente, a graça da mulher é esta beleza de dentro para fora.
Quer dizer, fica... é, é uma questão de feiura a mulher chata, entende? É uma questão de feiura. Fica feia.
Sério. Estou dizendo agora como homem. Fica feia. Mulher chata não dá. Não merece.

O homem chato ele tem para onde correr, né? Ele tem outros escapes, entendeu? Ele pode ser
brilhante professor e as pessoas suportam a chatice dele porque ele tem aquela outra coisa. Ele pode ser um
grande estadista, ele é um porre, mas as pessoas aguentam. Ele pode ter isso, ele pode ter aquilo.

Agora na mulher parece que tudo fica viciado por aquilo. Quando ela é chata. Parece que daí
corrompe tudo. Entendeu?

Aluna: Contamina.

Contamina, é a palavra que eu queria. Contamina. A chatice contamina. É aquela famosa mulher “cri
cri”, mulher ranço, mulher que fica infernizando. “Onde você tá? Onde você tá? O que tá fazendo?” Ai tem
dois tipos de cara. Aquele que vira o ‘cachorro’ e “Já tô chegando meu amorzinho, não fique brava...” e daí
ela mantém esse tipo de relação, mas no fundo ela está perdendo com isso. E ela sabe no fundo que está.
Porque ela não está criando um homem viril. Está estabelecendo um tipo de relação quase de mãe para filho.
Ou tem aquele outro cara, que “Puta, que saco essa mulher. Deixa eu procurar outras formas para esquecê-
la” É muita chatice. Aí o cara sai ou engana ela muito tempo.

Então, a chatice tem esses efeitos mais nocivos no ser feminino. Isso não tem como negar.

Aluna: É verdade que o chato só é chato porque não sabe que é chato?

Thiago: Boa essa.

Aluna 2: E se acha legal, né?

Thiago: Eu acho que no fundo o chato sabe.


Aluna 3: Eu também acho.

Thiago: E às vezes é até um jeito de se instalar no mundo. Não consigo me instalar de outro jeito,
então vou ser um chato. Não tem chefe que é assim? Tem prazer de ser. O cara é chato e adora. Se o cara
soubesse que todo mundo odeia ele. Que se ele sumisse por três anos ninguém sentiria falta. Mas enfim, o
cara gosta. Porque é um jeito dele se instalar. É o que ele tem.

E tem um aspecto na beleza que a gente vai agora na direção do valor da bondade. Da beleza a gente
vai para a bondade. Julián Marías diz assim “A beleza é sempre altruísta.” Por quê? Olha só como a perversão
dela torna ela egoísta. Mas a beleza é sempre altruísta. O que diz o Julián Marías “Porque é sempre para o
outro.” É para o outro te olhar. É para o outro te ver. É para o outro contemplar você.

Aluna: Interessante a gente não percebe, mas nos contos de fada a gente percebe. A princesa sempre
extasia. Os sete anões, o príncipe...

Tiago: Perfeito!

Aluna: E ela é sempre altruísta, né?

Tiago: Sempre! Está junto com o valor. Ah, mulher, você quer ficar melhor, mais boazinha? Quer ser
uma princesa Disney?

Aluna: As princesas Disney são sempre altruístas.

Tiago: Olha, minha dica é a seguinte: Preocupe-se em ser bela para causar isso no mundo. Para causar
esse tipo de consolo para as pessoas. Para os homens que estão a sua volta. Para o seu homem.

Você quer ser bela não por que você vai sair ganhando com isso. Porque isso é o aspecto egoísta.
Mas por que você estará desempenhando mesmo uma função tua no mundo. Que é a função de fazer isso
para o outro.

O homem não está aí para ser belo para as pessoas. O homem está aí para assumir outras funções,
tipicamente masculinas. E que quando ele não desempenha a gente estranha. “Opa, pera lá. Tem alguma
coisa esquisita.” Isso não tem nada a ver com a sexualidade dele. É com o símbolo mesmo da condição
masculina. Se o homem não desenvolve, por exemplo, aquela função de objetividade, de delimitador... O
homem ele é o símbolo das condições da vida. “Isso dá. Isso não dá. Isso pode. Isso não pode.” É um símbolo.
Se ele não realiza isso, se ele tem uma alma feminina, daí a coisa fica complicada. Você tem dois sonhadores
que ficam ali voando em casa deitados na cama. E aí não dá. Não é isso que a mulher espera dele. E ele não
espera da mulher outra coisa. Ele não espera da mulher objetividade, análises certeiras e secas da realidade.
Não é isso que ele quer dela. Ela pode muito bem saber fazer isso, mas ele espera justamente é o outro. Ele
espera que ela proporcione para ele isto: um momento de oásis. Por que o homem está o tempo todo
enfrentando a secura. É uma coisa bem piegas, ficou piegas, mas no fundo é verdadeira. A mulher sim é as
asas do homem.

Então, se você tem essa complementariedade, você atingiu a perfeição da relação na verdade.

O Julián Marías ainda diz que a beleza, por ela ser para o outro, ela ser altruísta. Ele diz assim: “A
beleza a gente assiste.” Olhe só, a gente assiste a beleza de alguém. Por quê? Por que a beleza de alguém
não é estática. Ela tem uma trajetória, a beleza. É muito legal assim você ver a foto de criança da pessoa,
você vê a foto dela mais velha, você vê a foto dela madura. Você vê assim uma trajetória. Então você assiste
aqui. Como uma tela que você vai acompanhando. A diferença é que a tela é dinâmica. A beleza feminina. A
beleza humana como um todo. Ela vai mudando. Ela vai atualizando coisas. Uma das coisas que eu acho
impressionante e que eu vejo, porque eu atendo mais mulheres, na maior parte das vezes infelizes. Não são
mulheres que estão plenamente felizes, na maior parte das vezes... Não quer dizer 100%. Mas na maior parte
das vezes elas não estão lá mais felizes, então é por isso que me procuram, inclusive. E você vê a infelicidade
no rosto. A mulher não consegue estar vivendo algo na sua trajetória biográfica sem que aquilo apareça no
rosto e na beleza dela.

[00:57:29] Aluna: Transparência...

Tiago: Você vê. Uma mulher amargurada está no rosto. Às vezes a gente conhece uma pessoa e você
vê.

Aluna: Estressada, perturbada.

Thiago: Está até na maneira como o rosto dela vai assumindo uma forma. Conforme as expressões
que ela também vai fazendo. Isso acontece fisicamente. Se ela sorriu mais, se ela ficou mais brava. Conforme
o que ela fez com o rosto isso assume uma forma. E aí é de dentro para fora. Isso vai ficando, se tornando
realmente uma... Mais ou menos como o livro “O Retrato de Dorian Gray” não sei se vocês conhecem a
história. Aquilo é maravilhoso também. O sujeito não queria envelhecer. Não queria ficar feio nunca.
Envelhecer é ficar feio, né? Então ele faz praticamente um pacto com o diabo. A alma dele vai para o quadro,
por isso o livro se chama “O retrato de Dorian Gray”, e ele fica com a mesma carinha de 18 anos para sempre.
Daí você tem que ler o livro lá para saber como é que termina. Bem trágica uma história dessas.

Aluna: Tem o filme também, né?

Thiago: É. Tem o filme. Oscar Wild “Retrato de Dorian Grey”. Então tudo o que aconteceria com o
corpo dele acontece com o quadro. Então o quadro vai envelhecendo, vai assumindo todos os aspectos de
vilania de maldade. É uma coisa terrível assim. É a perversão da beleza mesmo. Aquele apego desesperado
à pura beleza estética.

Então, como eu tava dizendo. A maneira como você vive, o teu grau de felicidade e infelicidade está
no teu rosto. Porque o rosto é onde a pessoa está, diz Julián Marías. Não é? Se eu pegasse e cortasse a cabeça
de vocês aqui e ficasse mostrando só o corpo a gente teria que ficar pensando muito. “Quem é essa? Quem
é aquela?” Não é no corpo que está alguém, é no rosto. A gente está lá andando na rua e vem alguém em
nossa direção. “Quem está vindo lá?” Daí quando você identifica o rosto... “Ah... É fulano.” O rosto é onde
está atualizada a tua trajetória.

Então, se você é mais choroso, se você é infeliz, se você mais sorriu, se você mais, enfim, acertou na
vida, é aqui que está. Aí a gente poderia abrir um grande parênteses. Que eu não vou abrir, só vou abrir a
questão... A plástica faz o que? Não vou entrar nesse tenda aí, porque é muito complicada. Mas deve ter lá
alguma consequência. Porque aqui está minha vida.

Sem apontar o dedo, crianças! Rsrsrs Eu não estou dizendo nem que sim, nem que não. Estou falando
que é uma coisa a se pensar.

Veja. O próprio Julián Marías é extremamente favorável ao uso de maquiagem. [1:00:29]

01h00 a 01h10

Não entrem nessa tenda porque é muito complicado mas, deve haver alguma consequência, porque
aqui está a minha vida. Não estou dizendo nem que sim e nem que não, apenas que é uma coisa para se
pensar. O próprio Julian Marias é extremamente favorável a maquiagem, porém a maquiagem não para
mostrar algo não é mas, para atualizar o que se tem de belo. É para isso que serve a maquiagem, então
quando ela é feita nesta medida realmente ficamos reféns. Agora, às vezes a mulher fica igual aquelas
romanas antigas. Mas, se a mulher tem harmonia e elegância, palavras importantes para nós hoje, então não
tem homem que não fique refém. Elegância, isso faz toda a diferença.

Quando envelhecemos, principalmente as mulheres, o que acontece com a beleza? Depende da


trajetória da pessoa, Julian Marias diz que a beleza muda de qualidade, porque é obvio que existe uma beleza
ali. Pense na vovozinha, é claro que há beleza nela, porém mudou de qualidade. Não é exatamente uma
mudança de beleza, mas da qualidade da beleza. Uma criança tem um tipo de beleza, uma mulher outro e
uma vovozinha outro. E nós homens não estamos conseguindo perceber esta mudança de qualidade, assim
temos as ajudado a neurotizar o suficiente querendo manter o mesmo tipo de beleza tornando a situação
insuportável. Porque é impossível manter a mesma qualidade de beleza, a mulher pode tentar de tudo, usar
os melhores cosméticos, pode pedir toda ajuda possível, uma hora a Sophia Loren, será a Sophia Loren com
oitenta anos.
Então passamos pela perversão da beleza, pelo não reconhecimento das idades da vida, das belezas
das idades. Teremos uma aula apenas para falar das idades das mulheres, sobre o que está acontecendo
dentro dela e o que muda. O que eu acho fundamental dizer é que o verdadeiro amor a beleza não é a um
aspecto da beleza e sim, o fato da beleza daquela mulher. Ou seja: eu não amo algo da beleza dela, amo a
beleza dela como um todo, acompanhando e assistindo esta trajetória, amando toda a trajetória. Hoje vemos
o amor muito fragmentado, “Eu quero isso de você, o resto não me dê. Os teus vícios, os teus pecados eu
não quero, me dê apenas esta parte”. Isso é um desamor terrível, é um egoísmo. Tenho que querer tudo,
não amo a fulana porque ela tem esta ou outra característica, amo porque tudo aquilo está composto de
determinada forma naquela pessoa. É tudo. Não amo a beleza dela aos vinte, eu a amo e amo a trajetória
que irei acompanhar por toda a vida, se possível. É a pessoa que deve me interessar, no caso do assunto
sobre a beleza , não posso esquecer que a beleza não está por aí em abstrato pulando no ar, ela está concreta
numa pessoa. Claro que somos atraídos por diferentes motivos, tem gente que percebe mais certos aspectos
de beleza. Tem mulher que se apaixona pelo sujeito com atitudes muito boas, porque é um gentleman, ou
porque é isso ou aquilo, “é feinho mas é muito bonzinho”. Ele tem este aspecto da beleza que está atualizado
nele. Outras mulheres querem que haja algo como um rosto mais ou menos bonito, ou isso ou aquilo, são
aspectos da beleza, mas você passa a amar porque compõe a estrutura da pessoa e por isso merece ser
assistido ao longo de uma vida. Então, o interesse na beleza, no caso da vida humana é o interesse pela
pessoa. Nós estamos muito egoísta ao nos interessar pelos aspectos da pessoa e por recusar aspectos dela.
“Eu não quero que você seja assim...” Posso até reconhecer que isso não é legal e tentar mudar, mas e se
não der pra mudar nunca?

O rosto da mulher madura, disse Julian Marias, é o rosto de uma beleza depurada e o homem de
hoje está com dificuldade para reconhecer isto, porque a beleza foi tomada num único aspecto e se tornou
canal de divertimento. Por isso a atividade sexual deve durar até o último dia do casal, põem estar com
noventa anos, mas que dê preferência transe.

Terminaremos falando o seguinte: a beleza da mulher está principalmente em seu rosto, porque é
no rosto quando ela apresenta-se, como qualquer ser humano apresenta-se, todo argumento biográfico está
no rosto. E sendo o meu rosto fruto de uma história, a minha vida toda é esta história, o rosto requer
interpretação. Não é isso que algumas mulheres reclamam, muitas vezes com razão, de que o homem não
olha para ela? Não olha para o que está na “cara”, basta o sujeito olhar cinco segundos para ver. Certa vez
um casal de amigos, que hoje infelizmente não estão mais casados, nos contaram de uma pequena discussão
que tiveram em que a mulher saiu ganhando certamente. A discussão foi a seguinte: meu amigo estava
dormindo, também estudioso aproveitava a madrugada para estudar, acordava sempre muito tarde e a
mulher tinha um horário normal, então oito horas da manhã estava em pé e assim seguiam algumas horas
ao longo do dia. E num domingo ela pensou em acordar mais cedo para passar mais tempo com ele e o
acordou às dez da manhã, empolgada dizendo “vamos tomar um banho e fazer isso e aquilo...”, já com toda
a programação de domingo definida na cabeça, que havia projetado durante a manhã. Então ele terminou
de acordar, suspirou, levantou. Ela observou que ele levantou meio descontente. Ela perguntou se ele não
havia gostado de ter sido acordado e ele respondeu que assim que acordou e olhou nos olhos dela viu que
haviam muitos pedidos. E ela respondeu que os olhos de uma mulher têm sempre muitos pedidos, querendo
dizer que ele não prestava atenção nela havia um bom tempo. Por isso homem precisa olhar dentro dos
olhos, isto é bíblico, há uma passagem que diz: os olhos são a luz do corpo. Dentro deste rosto que tem uma
história e requer uma interpretação os olhos são os que mais entregam os conteúdos para interpretação. É
uma grande falha nossa não olhar para o rosto de vocês e não saber interpretar. E os homens erram feio,
não é? Desde o presente que ela dá ao que ele escolhe fazer com você, porque na verdade ele não te olhou.
Porque ele tem inteligência suficiente para te olhar e saber o que deve ser feito. Ou você também pode estar
escondendo o jogo, que também não quer ser olhada, prefere passar em brancas nuvens a semana, porque
você não quer que ele te olhe. Porque você não quer que o homem esteja ali para você como o girassol está
para o sol. De repente você quer distância do sujeito.
AULA 06

00h00 a 00h10

Lição passada na aula passada: “Por que a beleza atual pode ser considerada uma fraude?”

Aluna 1 : - Porque é uma “montagem”, porque não é natural, é uma fraude.

Aluna 2: Porque é muito superficial, muito estética.

Tiago: A estética é apenas um dos elementos da beleza, e talvez agora este elemento esteja sendo
considerado como “o” elemento. E aí nós acabamos nos preocupando com ele também, porque afinal a
convivência em sociedade exige isso. Esse seria talvez o principal motivo de a beleza ser uma fraude. O fato
de a beleza como estética vir para primeiro plano e fazer com que esqueçamos todos os outros planos da
própria beleza, e que são muito mias vivificadores e plenos da beleza, revelam muito mias a beleza do que
esse.

O tema de hoje diz respeito a todo, e a vocês mais do que a qualquer um, porque vocês estão
participando do curso como amigas – o tema de hoje é a amizade. A amizade entre mulheres e a amizade
de mulheres com homens. Sempre ouvimos aquela pergunta “é possível amizade entre homem e mulher?”

[aluna responde que não]

Tiago - Por que não?

Aluna 1 – Porque as experiências que eu tive me mostraram que geralmente os homens têm
segundas intenções, quando querem ser amigos das mulheres

Aluna 2 – Ou o contrário

Tiago – Às vezes é a mulher quem tem...

Aluna 2 – Pelo que eu já vivi – não que seja regra – acho que existe, sim, amizade entre homem e
mulher, mas quase sempre chega uma hora em que acaba havendo confusão, ou de uma parte ou de outra,
ou até de ambas.

Tiago - O que você acha? [dirigindo-se, parece, a uma aluna 3]

Aluna 3 – Eu tenho um amigo, amigo mesmo. Então eu acho que é possível. Não tenho muitos amigos
homens, mas tenho esse um amigo.

Tiago – E é de longa data?

Aluna 3 – De longa data.

Aluna 4 – Eu tenho vários, e nunca chegou nem perto de confusão...

É mais fácil ser amiga de homem ou de mulher?

[opinião geral]: - De homens!


Por quê?

Aluna – Porque as mulheres são complicadas demais

Aluna 2 – Mulher tem muita vaidade

Tiago – Vamos burilar isso... O que mais?

Aluna 3 – Como há muita vaidade, há um choque de vaidades. E com homem “neutraliza um pouco”...

Tiago – Por quê?

Aula – Porque é diferente... não há competição, talvez

Aluna 2 – Mas quando a amizade entre mulheres é bem verdadeira, talvez não haja essa vaidade...

Aluna 3 – Acho que mesmo assim há, talvez de forma inconsciente...

[Tiago ri]

Aluna 4 - Ainda que em menor medida, não deixa de existir...

Aluna – essa competição pode existir com homem também...

Outra aluna – Se a amizade é verdadeira você torce pela pessoa ....

Bom, parece que foi unânime que é mais fácil ser amiga de homem. Quero saber por quê.

- Aluna 1 Talvez porque homem é mais objetivo, simplifica as relações, não fica uma segunda
interpretação em relação ao que você diz. É aquilo e ponto. Com mulher é sempre “o que será que ela quis
dizer?”, “será que ela disse aquilo para dizer aquilo mesmo”... Então, pra mim é mais fácil. Essa questão da
praticidade facilita. A coisa “flui”.

Tiago: - Por que, Juliana, que é amis fácil ser amiga de homem?

Aluna – Acho que por conta dessa competição que há entre mulheres, essa vontade de
sobressair...no trabalho... isso sempre acontece. E com relação, ao homem, porque são seres opostos... um
complementa o outro...

Tiago – A relação com o oposto é melhor do que com a semelhante?

Aluna – Isso quando é possível, mas é muito difícil ter [amizade com homem]. As experiências que
eu tive, geralmente um acabou se interessando pelo outro, confundindo...

Aluna – Nós estamos falando de amizade ou coleguismo?

Tiago – Amizade. Nós vamos separar de todos os outros tipos de relação. O colega é aquele você vê
no trabalho todos os dias, muitas vezes almoça com ele, mas não necessariamente ele é seu amigo. Nós
vamos ainda precisar definir “amizade”.

[opinião geral] – Na verdade eu tenho poucos amigos...


Se pegarmos o versículo bíblico, está dito lá que quem encontrou um amigo em contou um tesouro
(Eclesiástico 6: 14: “Um amigo fiel é uma poderosa proteção: quem o achou, descobriu um tesouro”). Então,
me parece realmente ser algo raro.

Aluna: Eu não tenho nenhum, mas as minhas amigas que tem amigos, amigos verdadeiros, eles todos
são gays.

Tiago – Eu vou dar uma definição de amizade, clássica, de São Tomás de Aquino, que no Século XIII
disse o seguinte: “Amigos são aqueles que amam as mesmas coisas e rejeitam as mesmas coisas. É um
encontro bem raro, não?

Claro que esta frase não está querendo dizer que devemos ter os mesmos gostos. Não é isso. A frase
está falando sobre amores. Uma das cosias que eu aprendi e que mais me ajudou na minha trajetória como
professor de filosofia , foi aprender que uma vida, ela vai conforme os objetos de amor: o que eu realmente
amo na minha vida? Quer dizer, uma biografia, conforme ela vai acontecendo , seus capítulos, seus anexos,
etc. , com todos os personagens que fazem parte da sua biografia, ela vai tomando uma forma geral, que a
chamamos em biografia de argumento, que condiz com os objetos para os quais você dedicou atenção. Por
exemplo: “o Pelé” – e quando eu falo “Pelé”, logo pensamos em futebol. Por quê? Porque Pelé amou o
futebol. Isso é inegável. É um dos objetos de amor da vida dele. Talvez o grande objeto de amor da vida dele.
E por amar tanto esse objeto ele se transformou naquilo. Camões, num de seus versos mais conhecidos , diz
“transforma-se o amador na coisa amada / por virtude do muito imaginar”.

Então, quando eu amo uma coisa...

00h10 a 00h20

Quando eu amo uma coisa, quer dizer que eu me inclino em direção a ela. Quando perguntam a mim:
“Thiago, qual que é o problema no Brasil em relação ao conhecimento?” Eu geralmente respondo assim: “ah,
simples: em geral os brasileiros não amam o conhecimento. Porque amar é inclinar-se, mesmo tendo todos
os obstáculos para o estudo, o sujeito estuda, porque ele está inclinado em direção àquilo. Aquilo é um objeto
de amor, aquilo configura a vida dele, dá sentido para a vida dele.

Quando Santo Tomás diz que amigos são aqueles que amam as mesmas coisas, ele está querendo
dizer que, de uma certa forma, os amigos estão olhando diante da vida para as mesmas coisas. Estão
almejando, com as suas biografias, mais ou menos as mesmas coisas. Não o mesmo caminho: um quer ser
um escritor, o outro quer ser um médico, mas no cômputo geral os amores são muito parecidos. O que a
gente leva a sério, o que a gente não deixa passar na vida são mais ou menos as mesmas coisas.
Tente imaginar alguém que ama a Beleza ser amigo de quem a rejeita. É muito difícil alguém que ama
a verdade ser amigo de quem a rejeita. Isso exclui a convivência íntima. Isso na verdade faz com que
aconteçam debates, faz com que a convivência fique violenta, que um queira se sobrepor ao outro.

Então o começo da aula, o tema da amizade, nos traz para esse ponto, um ponto bem íntimo, bem
pessoal, uma coisa a responder a si mesmo: quais são os meus objetos de amor? Pelo que eu gasto a minha
vida?

Aluna: Se olharmos para nossas amizades enxergamos um pouco de nós.

Professor: Exato! Tem algo que atrai.

Aluna: A maternidade, ela disse que não serve.

Professor: Claro que serve, é um amor. É um dos amores da vida.

Aluna: é o maior, não é?

Professor: Para a Mariana é o maior. Depende, Mariana. Ele não precisa ser o maior, ele é um amor,
entende? Mas é o maior amor da Mariana. E por sorte algumas que não amam a maternidade não têm filhos.

Aluna: Mas algumas que não amam têm...

Professor: Sim, e daí há consequências também. Ou cria-se um amor, ou a relação fica complicada
por toda a vida. Mas enfim, esse é um outro tema.

Aluna: É que também é estranho falar que não ama a maternidade sem saber, não é?

Professor: É, e algumas não pagam o preço para saber. A questão é, como a Sara lembrou aqui,
quando a gente repara nos grupos de amizade, de uma convivência já de anos, de uma história de amizade,
os amores são semelhantes. Se aquilo realmente for amizade e não outra coisa, você pode ver que os objetos
de amor são muito parecidos. Às vezes o que acontece é que as circunstâncias sociais, a vida, a profissão, o
lugar onde trabalho, às vezes quer impor objetos de amor. E às vezes as pessoas ficam parecidas – tente
pensar agora numa repartição pública – até fisicamente. Elas ficam parecidas porque ali, querendo ou não,
o cara teria de ser um super-herói para resistir aos objetos que são oferecidos como desejáveis, e que no
fundo não são. Porque como diz Aristóteles, há bens que são amáveis em si mesmos, e há bens que são
amados como fins para atingir outra coisa.

Por exemplo, mas que não deixa de ser um bem, Aristóteles diz que o dinheiro é um bem, mas ele
não é um bem em si mesmo, porque o dinheiro só vale se der para comprar alguma coisa com ele. Tanto é
que sabemos das velhas histórias de vovô que guardou dinheiro debaixo do colchão, esqueceu, trocou a
moeda e aquilo não valia mais nada.

Quer dizer, não é o dinheiro que lhe importa, mas as possibilidades que o dinheiro cria. Porque você
pode trocá-lo por aquela coisa. Então dinheiro, na hierarquia dos bens que existe na realidade, ocupa uma
posição inferior, porque não é um bem que justifica a si mesmo. A justiça, por exemplo, é um bem que
justifica a si mesma, ninguém vai atrás da justiça para conseguir outra coisa além dela. O fim é a justiça. Aliás,
isso gera longas discussões na filosofia do direito. E as respostas clássicas, às quais eu me apego, justamente,
todas chegam neste ponto: o que você quer do direito? Você quer a justiça.

Então veja, há hierarquias de bens, honra e por aí afora. A questão é: veja como dá para fazer análise
da própria vida, análise dos próprios amores. O que você ama? E como se responde uma pergunta dessa?
Veja bem em que você gasta tempo. Para mim essa é a melhor de todas as dicas. Porque gastar o seu tempo
é uma escolha de como gastar a vida, não é? Às vezes a gente gostaria de dizer que ama uma coisa, “ah!
Como eu gostaria de dizer que eu amo isso...”, mas eu não amo. Como eu queria dizer que eu amo o estudo,
mas não amo, de fato não amo. Como eu gostaria de amar qualquer outra coisa que é considerada tão boa,
mas não amo. E o método filosófico por excelência é método da confissão da própria vida. Você quer mesmo
saber quem é você? Você quer mesmo ter posse da sua própria vida e não precisar de terapeuta? Comece
confessando o que você ama. E você passará muita vergonha nessa confissão, porque vai ter de dizer a si
mesmo que ama algumas coisas que não são amáveis, que nunca serão amáveis, nem aqui nem em lugar
nenhum. A gente gosta de gastar tempo com o que não vale nada.

Então a amizade é um amor, é um objeto de amor. Aquela pessoa com a qual você tem amizade
mesmo, pra valer, é um objeto de amor, merece atenção, exige tempo, exige admiração, exige uma coisinha
que você não pode inventar dentro de si, que é natural, chamada estima. Eu tenho estima por tal pessoa,
entende?

Admiração... Admiração, do latim, significa “olhar para”, quando você admira quer dizer que seu
olhar vai para lá, vai para aquela pessoa. “Admiro fulana”, é que seu olhar naturalmente vai para ela. Aliás,
há um teste que eu faço às vezes na bioatria, em que peço para a pessoa colocar pessoas que elas admiram,
e o que elas admiram nessas pessoas. Depois que a pessoa faz o teste eu revelo: “Olha, tudo que você admira
são virtudes que você tem, porque se não as reconhecesse não iria admirá-las”.

Aluna: Mas têm de ser atualizadas...

Professor: Muito bem! Têm de ser atualizadas.

Então é isso: 1. Quais são os meus objetos de amor? Quando fizer o inventário, você vai ver porque
a sua vida está assim hoje. Porque o Pelé não poderia chegar aos 50 anos falando: “Puxa, por que a minha
vida é só futebol?”, alguém responderia: “Bom, vai ver que você amou quase que integralmente no seu
tempo o futebol”. Pelé não poderia chegar aos 50 anos reclamando de não ter se tornado Platão. Porque
para se tornar Platão ele teria de ter amado coisas muito próximas a que Platão amou. E não estou fazendo
julgamento do Pelé, só o estou usando como exemplo porque ele é um tipo de alguém que amou mesmo
uma coisa e virou aquilo, por que “transforma-se o amador na coisa amada”. Então o que não dá é você
chegar a um certo ponto da vida e falar “puxa, porque que eu virei isso? Por que estou assim?”. Você está
assim, em parte, porque aconteceram com você algumas coisas, sobre as quais você não tinha domínio.
Ortega y Gasset diz “A vida é feita do que eu faço e do que me acontece”. São duas coisas, essa parte “do
que me acontece” não tenho poder sobre ela, não tenho poder sobre o câncer que pode aparecer, as pessoas
que morreram sem que eu quisesse que elas morressem, aquela namorada que me deu um pé na bunda,
não tenho poder sobre isso.

Aluna: Mas a gente não colhe o que planta?

Professor: Já veremos que acabamos colhendo o que plantamos, mas existe uma parte da sua vida
sobre a qual você não tem poder, você não escolheu que as coisas acontecessem daquele jeito, e existe uma
outra parte que foi você quem escolheu. A vida é feita do que eu faço e do que me acontece. Então tem uma
parte toda que você escolheu, elegeu, você quis fazer aquela faculdade, quis casar com aquela pessoa, quis
ser mãe..

00h20 a 00h30

[0:20] Então, tem uma parte toda aqui que você escolheu, você elegeu, você quis fazer aquela
faculdade, você quis casar com aquela pessoa, você quis ser mãe – você que fez. E essa toda aqui que eu não
quis¿ Você não quis quando ela aconteceu, mas você teve que reabsorvê-la; ou seja, no fundo, no fundo, no
fundo, torna-se tua responsabilidade; é fruto seu sim.

Veja, quando surge uma doença que você obviamente não desejou que não fiz nada para ter aquela
doença. E essa doença surge na sua vida, te resta apenas duas alternativas: primeira, negá-la “dizer não
quero”, que não mudará nada. Ou absorvê-la, me aconteceu então agora eu vou ter que fazer alguma coisa
com isso. Entende que termina sempre na reponsabilidade, seja aquilo que te aconteceu sem que você
fizesse algo para [que] acontecesse acaba terminando na reponsabilidade com a própria vida, acaba
terminando numa coisa que agente chama de “princípio de autoria”. Quem é o autor da sua vida¿ Você ou
as circunstâncias externas¿ você pode dizer que “ai, me aconteceu tanta coisa e por isso eu estou assim
hoje.” Não, você não pode dizer isso. Se você aspira uma coisa chamada maturidade você não pode dizer
uma coisa dessa.

[Aluno]: Você não consegue imaginar alguma coisa que de alguma forma não tenha contribuído ...
[Professor]: Assim se você for rastrear as possibilidades pra que aquela coisa que você não desejou
acontecesse haverá um fundo comum, claro.

Por exemplo, fato do Viktor Frankl – grande psicólogo do século XX – ter terminado no campo de
concentração é por que ele era judeu (essa foi uma escolha dele). Se judeu foi uma escolha dele. Mas ir para
o campo de concentração, não. Então, ir para o campo de concentração não foi uma coisa que ele quis. Mas
uma coisa que aconteceu na vida dele. E olha que maravilha é [maravilhoso] o exemplo do Viktor Frankl:
estando no campo de concentração ele pensou: “o que farei já que estou aqui. Me entrego? Desisto? Minha
vida acabou. Meus pais morreram Minha mulher morreu, estou eu aqui, acabei de me formar em medicina
sem nenhum futuro agora; estou aqui na mão dos nazistas.” -- E aí o que é que ele faz? Durante os três aos
que ele fica num dos piores campos de concentração que é o de auschwitz -- ou o pior; ele elabora a Teoria
do Sentido da Vida. Esse para mim é um dos gênios da humanidade, esse cara sabe o que é viver. Ele não
queria estar lá, ele não fez uma coisa diretamente para ir para o campo de concentração; o grande mal dele;
a grande escolha errada era ele ser judeu. Ele foi colocado lá; aliás conta-se uma história que ele teve a
possibilidade de escapar do campo de concentração mas ele teria que abandonar os pais dele. Ele falou “não,
os meus pais eu não abandono. Vou junto.” Perdeu os pais, perdeu a mulher. Perdeu tudo. Ele sai do campo
de concentração, terminada a guerra, sobrevive ao campo de concentração, termina lá a psiquiatria e
desenvolve a logoterapia que a terapia do sentido da vida – que é o que eu aplico em grande parte...

Quer dizer, o sofrimento, por exemplo, você não escolhe. Mas você pode escolher como vivê-lo. Ele
até cita uma frase de Nietzsche, que é uma frase muito boa. Nietzsche diz assim: “quem tem um porquê
supera qualquer como”.

Você está lá, namoradinha e daí tem os problemas de relacionamento, a falta de dinheiro pra fazer
o casamento, um exemplo bem simples da aplicação dessa frase. “Ah, e esse casamento vai dar certo ou vai
dar errado?” Bom, vocês têm um porquê? Vocês têm um porquê para dar certo? Essa é a pergunta.

“Ah, minha vida profissional, puxa! como está difícil aqui, como está difícil fazer isso aqui dá certo.
Deslanchar.” (Qualquer intempere aí da tua vida profissional). Bom, tem um porquê isso dar certo? Se tiver,
pronto, beleza, já deu. Num sentido já deu. “Ah, mas aconteceu um monte de coisa errada.” -- É verdade.
Mas você tem um porquê? Então já deu. E se Viktor Frankl tivesse morrido o campo de concentração já teria
dado certo porque ela não se subjugou àquilo, ele não deixou que aquilo escravizasse o reduto íntimo dele.
É disso que estamos falando desde a primeira aula do encontro consigo mesmo, da intimidade consigo
mesmo, da mulher encontrar a si mesma. Se você não deixar que qualquer outra coisa escravize isso você
será feliz. Isso é a felicidade. Não é a falta de amarguras na vida, não é a falta de dificuldades. Isso aí é a
felicidade do Tim Maia: “a semana inteira só quero dinheiro, quero sossego.” Essa, sim, não existe. O ruim
vai acontecer. As coisas ruins vão acontecer a questão é: onde você estará dentro de si mesma para absorver
as coisas ruins; o quanto você deixará com que elas governem você?
Eu aprendi uma coisa que super difícil de pôr em prática mas eu vou passar o ensinamento pra vocês
aqui (mas eu confesso é super difícil de pôr em prática): agente não deveria nem ser governado pela dor (dor
física). Mas é super difícil pôr isso em prática, mas eu tô falando o que aprendi então eu estou repassando.
Alguém mais sabe do que eu e encarnou essa verdade. Eu estou indo atrás dela, mas nem isso deveria
governar os meus pensamentos, governar a minha vida interior -- uma dor física, por exemplo.

Então, tudo isso. Voltamos ao ponto de origem da aula aqui: quais são os meus objetos de amor? Faz
um inventário dele, ao fazer o inventário você vai se ver é inevitável “Olha, é por isso que eu sou assim. Por
que eu estou passando os últimos tantos anos da minha vida buscando isso porque é nisso que eu estou
gastando o meu tempo. Como que eu queria ter um resultado diferente, como eu queria uma limonada
espremendo laranja?” “Ah, eu queria estar tão mais feliz hoje, uma sensação de plenitude.” Bom, mas vamos
dar uma olhada para o que você está fazendo. As crenças de uma pessoa não estão no que ela fala estão no
que ela faz. É claro que agente expressa desejos e o desejo é muito diferente do querer. Veja, escutando uma
aula dessa, nesse exato momento, eu imagino que pode estar acontecendo o seguinte dentro de você.
“Caramba, é isso que eu tenho que fazer.” E saiba: exatamente isso que está acontecendo agora tem um
nome chama “desejo”. A alma humana é movida por desejos, eles são os propulsores da alma, porém desejos
têm que ser aceitos pela inteligência senão eles morrem. Exemplo, você está na tua casa assistindo Domingão
do Faustão, domingo a tarde, deitada no sofá e você pensa assim “nossa, que vontade de comer ...” Não tem
em casa. Está chovendo à cântaros lá fora. Você está sozinha; ninguém pode sair e buscar pra você. Aí você
olha o tempo lá fora – 17hs – chovendo, aquele friozinho, você lá. “Quer saber, deixa o ... para amanhã. Eu
não vou sair agora e comprar o ...” Quer dizer, o desejo em si não move. Para que o desejo faça um
movimento na alma é preciso uma intervenção reconhecida pela inteligência de uma coisa chamada vontade,
que é uma coisa tão simples. Ah, você está agora, nesse exato momento, desejando essas coisas que eu estou
falando, que bom. Vamos ver o que precisa ser feito para que isso vire vontade, porque (saiba) o mal do
Homem moderno não é a falta de desejo das coisas boas não é a falta de inteligência é a falta de vontade.
Isso aí foi diagnosticado já na Idade Média, Santo Anselmo dizia: “o problema das pessoas não está na
inteligência porque elas completam os silogismos o problema das pessoas está na vontade.” Por que além
de reconhecer que 2+2 são quatro você tem que querer que sejam quatro. Então você acaba de entrar em
contato com você e perceber uma miséria sua, nesse exato momento você está percebendo uma miséria que
você não ama uma coisa que é amável. Por exemplo, o que você vai fazer com isso? Quais são os objetos que
estão esgotando a energia, esgotando a atividade que não permitem a busca dessa, quais são os simulacros,
as fraudes de amor que estão em voga dentro de você? Porque existem aí coisas dentro de você que estão
te ocupando, que estão exigindo energia, que estão exigindo tempo, que estão te consumindo, que estão te
envelhecendo e que enfim, só estão fazendo merda com você e você continua indo atrás delas. [0:30]

00h30 a 00h40
Porque existem coisas dentro de você que estão te ocupando, te exigindo energia, tempo, te
consumindo, te envelhecendo – enfim, fazendo uma merda com você – e você continua indo atrás delas. Não
é uma coisa o tal do ser humano? E você, lá no fundo, sabe que tem o desejo de fazer outra e não essa; mas
você não consegue. Você é o que alguns filósofos chamariam de um doente da vontade. Isso ainda vai gerar
um livro meu no futuro… É uma missão minha, porque eu reconheço isso no contato com as pessoas: elas
estão em geral, doentes da vontade: elas confessam uma coisa e, ao mesmo tempo, confessam que não
conseguem fazer aquela coisa. “Eu sei que isso me faz mal, mas não consigo parar” – eu escuto isso todo dia.
Onde foi parar a sua vontade? Sto. Agostinho, no século V, dizia que a base da vida interior reside na vontade.
Quem mais tem vontade, mais tem catalisador para a mudança da vida. Hábito é uma raiz; raízes foram feitas
para ser arrancadas. Outra coisa pode ser colocada no lugar.

Por que não existe amizade, propriamente, na infância? Porque não houve tempo de criar raízes. Na
infância, somos praticamente conduzidos por simpatia e antipatia. É por isso que, quando chegamos à vida
adulta e somos amigos de pessoas por quem temos somente simpatia, essa amizade tem um tom infantil.
Porque na infância é isso que nos domina: se gostamos de algo ou alguém, vamos brincar; se não, não. E, na
vida adulta, às vezes reproduzimos esse tipo de comportamento. Qual é o distintivo de uma amizade adulta?
Segundo Julián Marías, as grandes amizades, que têm a chance de se prolongar durante toda uma vida,
começam no final da adolescência, no início da juventude. Qual a diferença? Do que é alimentada uma
amizade? Claro, “Amar as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas”… na juventude, já somos capazes de
rejeitar algo; na infância, se alguém disser que é bom lamber a tomada vamos lá e lambemos, mas na infância
temos uma noção mais amadurecida do que é amável e do que não é... Mas há algo ainda mais importante
do que essas coisas; é o nome de uma seção deste livro de Julián Marías, Tratado sobre a convivência: “A
verdade como fundamento da concórdia”.

Na primeira aula eu perguntei às mulheres: “Não é mais fácil ser amiga de um homem do que de uma
mulher?”, e todas disseram que sim. Me corrijam se eu estiver errado: o homem tem mais facilidade de dizer
verdades para uma amiga, e mulheres amigas, no geral, são mais, digamos, omissas em relação à verdade.
Claro que existem amizades e amizades… estou falando tudo de maneira geral.

Aluna: “Acho até que a gente fala algumas verdades, mas às vezes algumas pessoas acham que elas
são totalmente absolutas.”

Mas vocês entendem que a verdade de que estou falando é a verdade de fundamento, não de
opinião; é dizer algo francamente, muito antes de criar uma opinião. Claro que não precisamos sair dizendo
para os outros tudo o que vemos neles, isso seria uma falta de amor tremendo; a sinceridade não é isso – ela
não pode estar desacompanhada da compaixão. Às vezes eu vejo algo na pessoa, mas sei que, se disser neste
mesmo instante, isso irá quebrá-la, não ajudá-la; isso não será bom para ela exatamente agora. Mas posso
dizer daqui a um tempo; é só deixar amadurecer a coisa. Se a menina acabou de terminar com um sujeito,
não vou dizer já para ela que ela tem atração por cafajestes, vou dizer daqui a pouco…

Sopesar a mão suave da compaixão com a mão forte da verdade… Uma vez li um pequeno livro de
teologia que dizia que Deus tem mão esquerda e mão direita: a direita é a que afaga, que cuida, que acolhe;
a esquerda, a que dá os chacoalhões. Um amigo também tem que ter as duas mãos; amigo que só tem mão
direita não serve, porque em algum momento ele estará sendo omisso em relação à verdade – e amigo que
só tenha a mão esquerda também só poderá ser cruel. Na infância, essa condição não é possível, porque não
há profundidade, não há enraizamento suficiente para que ela se imponha. A partir de um certo momento,
há: a verdade passa a ser a condição para a construção da relação. As nossas amizades, no geral, estão
precisando de um choque de verdade.

[Pergunta de aluna… mais ou menos isto, salvo engano: Em algum lugar, as pessoas são mais diretas;
aqui, somos mais melindrosos.]

Veja[, aluna], se você é minha amiga e me diz que estou errado em alguma coisa, como eu te amo,
eu devo conceder a possibilidade de você estar certa. Não é? Amor é isso: tensão, admiração. Sou amigo da
Lara: amo a Lara, a Lara me ama. Ela me disse algo que no momento me soa como falso; mas veja: é a Lara,
minha amiga, que está dizendo – então vamos conceder que ela possa estar certa: eu vou adotar aquilo…
“Vamos ver, Lara, vou olhar minha vida desse jeito aí”.

[Lara fala de novo.]

A atitude amorosa é a atitude da abertura. O caminho em que vamos sofrer menos e crescer mais é
sempre o da abertura, da ressignificação, da consideração daquelas possibilidades. Considere que aquilo seja
possível, mas pela pessoa que disse aquilo: não é um simples vizinho, mas um amigo. A palavra de um amigo
é a palavra de um amigo, que eu vou considerar um pouco, gastar tempo com ele… é um desamor não gastar
tempo com ele – “Nada a ver, esquece isso” é desamor.

00h40 a 00h50

Então é aquela velha história. Também uma biografia se define, em certa medida também, pelo tipo
de pessoas a quem ela dirige e pede conselhos. Em quem você busca conselhos, por exemplo, na Ana Maria
Braga? Não reclame então. Você espera conselhos de quem, do Beautiful People ai, da mídia? Eu, em um
momento da minha vida, aprendi que eu deveria sempre buscar pessoas que soubessem mais do que eu,
que fossem melhores do que eu, que eu admirasse. Entende? Porque senão eu sabia que não ia dar certo.
Se eu for procurar pessoas mais medíocres do que a minha mediocridade eu sei que vou sentar em cima e
vou aproveitar sempre. Não é bom você ter uma pessoa sobre a qual você tem um controle? E dai você
pergunta: “e dai? Você achou que eu errei?” “Não, você não errou, imagina” “É verdade, eu não errei”. É
ótimo! Então, assim não, eu tenho que buscar quem está vendo mais do que eu. Então quando eu tenho
aquelas dúvidas mais difíceis na minha vida, não nem para a vizinha nem para fulano que eu vou perguntar,
vou numa fonte mais alta, entende? Em alguém que é reconhecidamente melhor do que eu, porque as
pessoas são melhores e piores.

Aluno: Em aspectos...

Tiago: É, em aspectos. Claro, nós todos somo humanos, ontologicamente somos iguais. Mas veja, a
bondade da Lilian é superior a minha. Fato. Então, entendeu? Se eu estou lá com uma dúvida nesse ponto, a
Lilian é o tipo de pessoa que eu devo dirigir esse tipo de pergunta. Entendeu? Então é esse tipo de coisa, a
gente reconhecer isso. E o amigo é aquele que a gente chama não porque ele tem aquele ou aquele ponto
melhor, mas é porque é aquela pessoa com aquelas coisas, é tudo, é o pacote que me interessa. É ele que
me interessa. Então essa é uma distinção importante.

No caso dos homens, para a gente fazer uma comparação, os homens tem dois tipo de amigo.
Percebam nos maridos, namorados etc. Tem o parceiro, o amigo mesmo, aquele que é só ele e esse outro
cara, que quando ele vai encontrar este cara, é este cara, não é um grupo. Nós temos isso, eu tenho um
amigo assim. É ele, eu ligo para ele, a gente vai e eu encontro só eu e ele, a gente conversa, a gente fica em
silêncio, porque homem não tem disso, fica os dois assistindo TV lá sem falar nada e estamos em convivência.
A gente tem disso, a gente está quieto do lado um do outro e nós estamos convivendo. A gente fica lá – não
é, Rafa? – e tal e esse é um tipo de amizade que o Julián Marías chama de a amizade dual. É você e o outro.
Homem tem muito disso. Mas o homem tem outro tipo de amizade, que é aquela do grupo, aquela que em
espanhol eles chamam de tertúlia. Então, por exemplo, o futebol. “Oh, estou indo jogar futebol com os
amigos”, não é assim? O futebol, a bebida, qualquer outra coisa de interessante que tenha lá também, é tudo
justificativa para o que no fundo ele quer: aquela convivência. Ele quer aquilo tudo lá. Não é bem o futebol
que ele quer. E ai nesses encontros de grupo masculino, e que se vocês estivessem presente seriam intrusas,
vocês veriam que ali o que importa é falar, falar sobre tudo, fala sobre mulher, fala sobre carro, fala sobre
futebol. Fala e põe pra fora, fala, fala, fala... A gente fica falando, entendeu? E fala besteira e conta piada. E
ai, qual que é a característica da amizade de grupo masculina? Terminou o evento tchau, a gente nem se fala
no resto da semana. Não é assim? Terminou o futebol tchau, tchau. Terminou o churrasco, um abraço e até
a semana que vem. E fica, não rola whatsapp, não rola mensagem no face. Não rola.

Aluna: Não tem grupo de whatsapp?

Tiago: Não, é super raro. Ai o que acontece, na outra semana é na sexta às sete da noite, é na sexta
sete da noite, ai eu lembro que o Marquinho existe que o Flávio existe e nos encontramos lá. E o que a gente
faz quando se encontra? Fala, fala, fala, fala... O Julián Marías diz que são amizades tipicamente masculinas.
O que seriam amizades...

Aluna: É amizade mesmo?

Tiago: É, é amizade.

Aluna: De anos, né? Alguma coisa de anos...

Tiago: Sim, tem. Isso é sério pro homem.

Aluna: Entendi...

Tiago: É por isso é muito complicado quando a mulher se opõe a uma coisa ou outra, entendeu? Para
o homem isso é importante. Porque ele absorve um tipo de coisa quando está só ele, na solidão com outro
amigo, e ele absorve outro tipo de coisa da convivência masculina quando ele está em grupo. As duas coisas
são importantes para o homem. E para a mulher? O que é uma amizade entre mulheres?

Aluno: Eu acho que tem essa questão da conversa individual concedida, você sai com aquela pessoa,
mas normalmente você conversa. Acho que você tem tão pouco tempo para usufruir aquela companhia que
você, às vezes, não vai ficar muito muda. Pelo menos eu me sinto um pouco assim.

Tiago: Fala [0:40:15].

Aluna: Como eu falo menos, eu acho que não tem isso de ficar em silêncio.

Tiago: Mas no caso, assim, porque a outra pessoa está falando ou vocês duas ficam quietas?

Aluna: Ah, acho que as duas coisas. Acho que sou melhor ouvinte...

Tiago: Do quê...

Aluna 2: Tá, mas alguém está falando.

Tiago: Alguém tá falando.

Aluna: Nem sempre. Sabe aquele sentar pra tomar um café e sair, sentar pra sei lá.

Aluna 2: Mas eu acho que a gente se vê mais, não é? Se você encontra, sabe, umas três vezes por
semana, ok, mas, por exemplo, eu não vejo você nunca, se você não [0:45:52].

Aluna: É, mas a gente não se encontra pra ficar quieto.


Tiago: Estamos tendo exemplos da amizade feminina aqui, agora. É muito bom dar aula sobre um
tema que você tem aqui pulsando na sua frente.

Aluna 3: É, mas é engraçado, sabe por quê? Se eu me encontro com você e você fica quieto e eu fico
quieta [0:46:21].

Tiago: O encontro não foi frutífero. Deixa eu falar uma coisa pra vocês antes de falar algo específico
sobre o que a [0:46:34] me fez lembrar uma coisa especificamente das mulheres, vale pra qualquer tipo de
amizade. Uma amizade vale a pena porque uma amizade tem que ter uma justificativa biografia para aquela
amizade, você tem que ter um “porque estar lá”. A amizade exige reciprocidade, a começar, ninguém é amigo
sozinho, aliás é terrível querer ser amigo sozinho. Mas, nas amizades... Pera ai que eu perdi o que ia falar. O
que você tinha comentado mesmo?

Aluna 3: Falei assim: se eu tô quieta com a Sara eu acho que não é muito tipo...

Tiago: Nesse sentido frutífero.

Aluna 3: Eu fico pensando: poxa, eu acho que devia estar acrescentando...

Tiago: Dando algo. Então, era esse gancho que eu queria. Lembrei o gancho, era exatamente isso.
Quer dizer, uma amizade, a presença de um amigo deve ser sempre uma presença que deixa você melhor.
Isso é terrível, é seríssimo isso aqui.

Aluno: É, é muito sério.

Tiago: É muito sério e muito real. A presença do amigo tem que sempre te deixar melhor. E não é o
melhor só no psicológico, que às vezes a presença do amigo te deixa abalada psicologicamente, mas não é o
psicológico que importa. O psicológico tudo bem, às vezes é bom dar um afaguinho no psicológico, “amiga,
você está linda hoje”, beleza. Mas fora isso, tem que melhorar é a tua pessoa a presença do outro. Então ha
certas bobeiras e idiotices que você faria que na frente do seu amigo você não faz. Entende? Coisas conta
você mesmo, você não faz na frente dele. A presença dele impele você a algo, a você atualizar porções
superiores da sua alma. Se a amizade não realiza isso ela falha na missão dela, na missão de amizade. Então,
sim, em relação à amizade, sim, vale perguntar: eu estou ganhando dessa amizade? Nesse sentido que eu
estou falando, eu estou ganhando com essa relação? Quer dizer, a presença dele me instiga, me move a ser
melhor? Ai, poxa, está justificada a presença, justificada a relação. Agora, se a presença dele lhe faz ser pior,
bom, eu não sei o que você está fazendo ali. É uma coisa que você tem que pensar.

No caso dos homens, comparação homem e mulher agora, o homem fica muitas vezes amigo de
outro homem pelo o que ele faz. Exemplo: sujeito é médico e ele joga futebol com os médicos. Não é assim?
Pessoal que trabalha ali, na mesma clínica, pessoal que trabalha no hospital, aquela coisa toda. “Oh, vai ter
o futebol hoje dos médicos que não estão de plantão” “È, então beleza, então vamos jogar futebol lá”. O que
faz contribui muito no estabelecimento da relação, no caso do homem.

Aluna: Mas isso é amizade ou coleguismo?

Tiago: Pode ser amizade. Amizade de grupo, foi aquele outro tipo de amizade que eu falei. No caso
da mulher, diz Julián Marías: a mulher é sempre a amiga pelo o que é, nunca pelo que faz. Tanto é que vocês
têm colegas de trabalho e que muitas vezes nenhum deles é seu amigo. Entende? Para vocês interessa muito
não a aproximação de atividades, mas quem é a fulana. Quem ela é? Quer dizer, o Julián Marías está
querendo dizer que para a mulher não existe meia porção... [0:50:04].

00h50 a 1h00

O Julián Marías está querendo dizer que para a mulher não existe meia porção. Ou ela está inteira
naquela amizade, inteira naquela relação – e por isso ela é capaz de falar do chefe dela, do brigadeiro que
deu errado e do filho na mesma conversa – ou ela não está na relação. E o homem não, é capaz de encontrar,
de estar lá no grupo do futebol, falar apenas sobre dois, três assuntos e ok.

Aluna – Aí está a diferença então entre o coleguismo das mulheres.

Tiago – Sim. Se não compromete o seu núcleo pessoal não é amizade. Para as mulheres isso é grave.
Tem que comprometer o núcleo pessoal.

Tem uma coisa que o Julián Marías fala e daí vocês que são mulheres, cada uma dentro de si, veja se
ele acerta ou erra nisso. Ele diz que, se para o homem programas em conjunto é comum e positivo, “Vamos
todos assistir o jogo do Atlético, vamos todos fazer churrasco, vamos todos lá naquela palestra...”, ele diz
que, no caso da mulher, programas em conjunto quase sempre são imitativos. Em que sentido? É muito raro,
segundo Julián Marías, que um grupo de mulheres esteja querendo fazer a mesma coisa. E quando todas
estão lá fazendo a mesma coisa, na mesma atividade, na mesma comemoração, pode saber, segundo Julián
Marías, que está rolando ali um comportamento imitativo. E comportamento imitativo é farsa.

Aluna – Você está ali, porque está todo mundo ali. Afinal de contas, você não vai ser do contra. Mas
no fundo, no fundo você não queria estar ali.

Tiago – No fundo, no fundo você não queria estar ali. Mas você gosta das pessoas. Você queria estar
fazendo outra coisa, talvez.
Ele (Julián Marías) está dizendo assim que a mulher corre muito risco de falsear a amizade. Eu como
homem acho que ele está certo. Agora, vocês como mulheres podem colocar isso em xeque. Mas eu, como
homem, o que eu vejo é que essa possibilidade do elemento teatral na relação masculina é muito menor.

Aluna – Ele simplesmente não vai.

Tiago – Ou ele diz com todas as letras: “O que vocês vão fazer lá?” Eu digo para os meus amigos “Você
vai lá? Meu Deus do céu. Eu jamais iria lá. Eu nunca comeria naquele lugar.” Eu falo isso. “Vocês são uns
escrotos.” A gente tem esse tipo de coisa.

Aluna 2 – As mulheres se magoam mais fácil. São mais melindrosas. O homem não tem essas coisas.

Tiago – A mulher é capaz de ir à contra gosto. De ir, ficar, conversar e chegar em casa e falar para o
marido “Foi um saco, mas a Mari queria ir e a gente foi.” “A Aline queria ouvir Jazz e a gente foi ouvir jazz.”

Aluna 3 – Mas não é importante uma concessão? Você vai fazer só o que você quer?

Tiago – Aí é que está. A concessão não pode implicar ausência. Ausência de núcleo. Veja só. Você fala
assim “Tiago, vamos lá em tal lugar.” Eu não quero ir e fico “Puxa. Como é que eu vou dizer não para a Lara?
A Lara tem sido tão legal comigo. Eu vou.” Então eu estou lá, mas é um lugar que não tem nada a ver comigo.
“Que saco. Que chatice.” Eu estou, mas eu estou ausente. Estar ausente é a porta aberta para o inferno, para
o demônio.

Aluna: Não estar.

Tiago – É onde ele (o demônio) opera. Ele opera na ausência. Não é assim? Ele nunca vence na
presença. Na presença não tem como vencer. Porque na presença você está diante de si mesmo. Isso é
presença. Diante do seu núcleo pessoal. Então, você precisa estar muito presente a si mesmo para dizer “Eu
não gosto desse tipo de lugar. Não vou.” Você tem que estar muito presente a si mesmo. Mas se você pode
ir e criar a ilusão de “As meninas são tão legais. Vou lá.” E estando lá, tem uma hora que você pensa: “O que
eu estou fazendo aqui?”. Você já está ausente. E o fato de você já estar ausente, Lara, já liberou para um
milhão de coisas que podem acontecer dentro de você que vão te fazer muito mal.

Aluna – Por exemplo?

Tiago – Maus pensamentos. Para começar. Que já vão gerar coisas ruins.

Aluna – Por exemplo?

Tiago – Você está lá e começa a ...


Aluna 2 – Você está num lugar. Você não queria estar ali. Você não queria jantas com as amigas.

Aluna 3 – Eu já passei por muitas situações assim.

Tiago – Daí você começa a pensar “Por que a gente sempre dá ouvidos para a Mari? Eu sabia que não
ia ser legal.”. Você não fala, mas você pensa.

Aluna – E acaba fragilizando uma relação que não precisava ter sido fragilizada. Se você tivesse se
respeitado.

Tiago – Exato!

O que ele está querendo dizer é que como a mulher sempre se compromete por inteiro - é por inteiro,
para mulher não existe parte – pro homem ele é capaz de ir lá jogar futebol simplesmente porque ele quer
dar uma extravasada. Ele esquece todo o resto e não exige mais nada dos amigos do futebol. A mulher está
sempre com o núcleo dela onde ela está.

Então para uma mulher estar num lugar que ela não gostaria de estar, sim, vai gerar comportamento
de falsidade. Claro que vai gerar. Vai rolar ali um teatrinho. E ao rolar teatrinho... O que eu acabei de falar
para vocês? “A verdade como fundamento da concórdia.” Essa possibilidade de amizade já foi pervertida.
Por isso que amizade de mulheres é uma coisa tão complicada. É complicada por quê? Porque vocês, se me
permitem dizer, não conseguem não atuar.

Aluna – Eu acho. Eu concordo com isso tudo. Mas eu acho que a gente realmente concede, abre
exceções mesmo. Em muitas situações.

Tiago – Sim, sim.

Aluna – Eu já passei por várias assim também.

Tiago – A gente está se detendo em um exemplo de “ir no mesmo lugar”, mas isso a gente aplica a
tudo. Se aplica até àquela situação que você não queria aquilo para a sua vida ou para sua casa, mas acaba
fazendo também porque ela achou legal, te convidou para ir na loja, falou que você tinha que ter também,
entendeu? Quantas dessas que você cai?

Não é só lugar físico. Às vezes é algo que a sua amiga quer para ela e que você também quer para
você por comportamento imitativo. Imitação.

Aluna: Percepção de si mesmo.


Tiago – Exato. Você ter a tranquilidade de dizer: “Mas eu não quero isso.” “Não, isso não é para mim.”
“E veja. Puxa! Amo a fulana, mas eu não quero!” Por isso que o Julián Marías diz taxativamente: é mais raro,
é mais raro amizade profunda entre mulheres. Por causa deste motivo. Entenderam? É mais rara amizade
entre mulheres. Não quer dizer que não exista, não quer dizer que não seja possível. Mas por essas coisas
que eu estou falando. É mais rara.

Aluna – Eu sou muito amiga da Mari. Hoje elas vão jantar e eu não vou porque vou ficar com meu
filho.

Aluna 2 – Você está cansada.

Aluna – Se na segunda vez que elas fizerem isso e eu não for, elas vão falar. Tem que gastar tempo
com a amizade. Eu falaria também. Mulher tem muito disso. “Ela não abre mão.” “Ela poderia abrir mão da
outra coisa para estar com a gente.” “Ela tem que estar mais tempo com a gente.” “Amizade requer gasto de
tempo.” Porque você gasta tempo com as coisas que são importantes para você.

Aluna 3 – Vou usar o contrário. Você precisa fazer o que você precisa que fazer. Você está cansada,
irritada, mas você vai. “Vou para fazer companhia.”

Aluna 2 – Você vai ser a pior companhia. Vai ser uma chata.

Tiago – Ou você banca a simpática. E tem pessoas que conseguem. Eu sou o tipo de cara que banca
o simpático, mas ai é pior.

Aluna 2– Eu me saboto muito assim.

Tiago – Exatamente. É sabotagem.

Aluna 4 – E o pior é que você vai desabafar com o marido isso né?

Tiago – E aí o marido...

Aluna – Quando você vai contar das amigas.

Aluna 4 – Você vai chegar irritada, vai querer compartilhar a sua irritação e a pessoa não quer nem
ouvir aquilo. “Por que que você foi?”

Tiago – Exatamente. É a pergunta que a gente fica... “Por que é que você foi?” Estou me vendo. Estou
vendo as minhas falas.

Aluna – Porque talvez você não achava que ia ser tão ruim. Ou você achava que você poderia se sentir
melhor com aquilo tudo.
Tiago – Tá.

Aluna – Eu realmente acho.

Tiago – Entende que é um processo ilusório? É isso: um processo de ilusão.

Aluna 2 – Você já sabe o que você quer.

Tiago – É farsesco. Lógico que é.

Aluna – Você já fez sua escolha.

Tiago – Só para a gente amarrar essa questão. Em virtude disso, dessa realidade entre mulheres, diz
Julián Marías, a mulher abriu-se para amizades com os homens. Porque nos homens ela encontrou esse
elemento. Ele elemento da verdade como fundamento da relação. Mesmo, vocês falaram dos
gays/homossexuais, eles não perdem isso.

1h00 a 1h10

Em virtude desta realidade entre mulheres, segundo Julian Marias, a mulher abriu-se para a amizade
com os homens, porque neles encontra o elemento da verdade como fundamento da relação, mesmo
tratando-se dos homossexuais pois, eles não perdem este elemento na relação. Pode haver a confusão na
amizade entre homem e mulher quando sobra sensualidade e, isto nunca é bom. Uma vez que a amizade
verdadeira é a que existe entre homem e mulher por conta da condição de opostos e pelo quanto a nossa
posição assexuada atualiza-se. Porém, o estar diante de uma mulher atualiza a minha virilidade e a
feminilidade dela também é atualizada diante de mim. A amizade pode ser sadia na atualização da minha
condição, essa amizade entre homem e mulher é possível e desejável e, graças a Deus nossa sociedade abriu
esta possibilidade, que séculos atrás não existia. Mas, há o perigo, como em tudo que é profundo, da
sensualidade quando sobra em algum dos lados e, sensualidade não quer dizer condição sexuada. A condição
sexuada está instalada no próprio sexo e a sensualidade é a projeção disso. Havendo projeção de um dos
lados o outro sentirá atração.

Este risco existe mas, esta amizade continua sendo a mais desejável, acreditava Julian Marias. Pelo
bem que o oposto pode fazer, pelo complemento que um pode causar no outro, pelo tipo de visão que a
mulher quer e precisa do homem, por exemplo. Vou citar para vocês o que ele considera alguns princípios
de amizade:

- a amizade não é invasora – apenas vou deixar ressoar para vocês pensarem;
- nutre-se do descobrimento mútuo; existem relações em que um sabe mais sobre o outro e segundo
este princípio a amizade não pode se atualizar, quando um dos lados é uma incógnita complica, porque deve
haver um descobrimento mútuo;

- a amizade é sempre uma inspiração pessoal – trata-se de realmente filtrar as amizades. Toda longa
amizade tem biografia inclusive, existe um livro lindo, chamado “O Dom da Amizade” do C.S.Lewis sobre o
assunto que, conta a historia dele com J.R.R. Tolkien o autor do Senhor dos anéis que fora seu amigo na
Inglaterra;

- um núcleo pessoal descoberto sempre emana novidade – quando você tem uma amizade
de longa data sempre há coisas novas a serem ditas e conhecidas do outro, isto é a verdadeira amizade,
nunca se esgota. Não é novidade de notícia e sim, de realidade do outro. Isto é maravilhoso, é uma riqueza
no outro que se torna inesgotável. Claro que não há como saber tudo sobre o outro porque nem ele mesmo
o sabe;

-não se pede o mesmo à todas as amigas – cada amizade é única, não é possível
homogeneizar todas as amizades. Não se pede e não se dá as mesmas coisas a todas as amigas. Cada amizade
tem uma necessidade distinta uma da outra. E amar a realidade de cada amizade é discernir a necessidade
de cada uma;

-a companhia é um estar pleno – você não sabe dizer mas, sabe que há uma plenitude na
presença um do outro. Como diz um ditado popular: “só é amigo quem já dividiu um saco de sal”.

-a amizade tem que ser correspondida.

Com isto as deixo pensativas sobre suas próprias vidas e se possível façam o inventário dos amores,
isto realmente dá frutos. Veja o que você ama e com o que você gasta tempo na sua vida.
AULA 07

00h00 a 00h10

Hoje vamos falar sobre tempo e idade. Esses que são temas de todos, mas que talvez para a mulher
o tempo e a idade tenham um significado biográfico diferente do que têm para o homem. Julián Marías diz
que a mulher se ressente de não poder continuar tendo vinte anos. Por várias coisas que são possíveis para
ela aos vinte e que, passado determinado tempo, as mulheres são mais felizes quanto menos ressentimento
elas têm de não terem mais vinte anos. Então, é sobre o significado do tempo na vida da mulher, e as fases
de uma vida feminina que vamos falar hoje.

A primeira coisa, que serve tanto para mulheres quanto para homens, é lembrar que o tempo é uma
substância da vida humana. Isso eu já aludi vez ou outra aqui: que enquanto as coisas são feitas de coisas, o
ser humano é feito de tempo. Por exemplo: quando queremos conhecer alguém, quando acabamos de ser
apresentados a alguém, se nos interessamos pela pessoa começamos perguntando coisas que ela terá que
narrar para nós. Ela terá que contar a história dela. Esta é a porta de entrada pela qual eu posso conhecer
alguém. Eu preciso ouvir a sua história. E uma vida tal como ela é contada, ela é vivida. Isso é muito
importante: Então, reiterando, já sabemos que somos feitos de tempo e que ara conhecer alguém é preciso
ouvir a sua história. E agora, sabemos que a forma como pessoa conta a sua própria vida, é a forma como ela
vive. Por exemplo: a pessoa sempre fala da sua infância, não reclamando, mas lamentando a infância que
teve: “ah, porque eu não tive um pai assim, não tive aquela mãe, aquela pessoa comigo, nunca foram
carinhosos comigo, etc...” Esta narrativa, ela condensa na estrutura do sujeito, e na vida ele reproduz esta
narrativa. Ou seja, de alguma forma, na vida adulta ele está procurando algo que não lhe foi dado na infância.
De alguma forma ele está enxergando as pessoas, na vida adulta, como ele enxergou quando criança. Ou
como a infância dele foi formatada, por ele mesmo, ao contar a sua história. Porque é preciso separar as das
coisas: uma é viver uma experiência, outra é a narrativa da experiência. Entre uma e outra coisa há um lapso,
que será mais fiel quanto mais fiel for a memória e a sinceridade da narrativa. Porque nós somos perfeitos
mentirosos – mentimos sobre nós mesmos. Aliás, as melhores mentiras que contamos são sobre nós
mesmos, aquelas em que acreditamos com mais facilidade. Inclusive, são essas mentiras existências, sobre
nós mesmos, que estão lá no fundo da nossa estrutura vital, é que são as responsáveis pelas neuroses, que
são responsáveis pelas estruturas falsas em que nossas vidas se tornam. Às vezes você não sabe porque está
sem rumo, padecendo da mesma coisa por tanto tempo, patinando na vida em alguma área: é porque deve
ter algo na estrutura da sua vida, no seu argumento biográfico, conforme você conta pra você mesmo a tua
vida, deve ter algum elemento aí que está sendo ocultado, hipervalorizado, falseado, escondido... alguma
coisa aí está desencaixada. Por exemplo, quando Freud dizia que somos dirigidos em grande parte pelo nosso
inconsciente, etc, tomadas as devidas proporções, ele tem razão no seguinte: aquilo que não está mais
presente na minha consciência mas que de alguma forma já foi presente, que eu tomei como verdade para
mim e nunca mias revisitei aquele assunto, aquilo está me dirigindo hoje. Ou seja, quando Sócrates, o pai da
filosofia, disse que uma vida que não é examinada não merece ser vivida, ele estava querendo dizer
justamente isso: uma vida para se assentar sobre a verdade, precisa e merece de revisitação. Precisamos
revisitar a nós mesmos o tempo todo. Por isso certas coisas por mais incomodas que seja (uma terapia, um
diário), são necessárias, são condição sine qua non, não tem como ter posse de si mesmo sem revisitar a
própria, revisitar a própria história. Nós tomamos como capítulos fechados coisas que aconteceram no nosso
passado e que não estão fechados, porque estão ecoando hoje. António Machado, poeta espanhol disse isso:
Nem o passado, nem o futuro estão escritos. Por quê? Porque neta realidade fantástica que é o presente, a
cada novo presente que vivemos restabelecemos a conexão entre passado e futuro, e podemos, portanto,
redimensionar isso. Reavaliar, a cada nova conexão. Certa vez eu conceituei o presente como “conexão
fugidia”. O presente é uma conexão fugidia. Todo presente é uma junção de passado com alguma expectativa
de futuro. Em seguida vem outro momento e já não é mais presente. Conecta e já escapa. A pessoa mais
feliz, mais consciente, que mias se apropria de si mesma, da própria vida, a mais madura, portanto, é aquela
que consegue enxergar mais de si mesma nessas conexões fugidias que são o presente. E isso depende em
grande parte da maneira como ela tem retido o seu passado. A pessoa pode reter o seu passado, por
exemplo, de uma maneira dogmática, “Foi assim a minha vida, ponto. Não quero rever. Foi isto o que
aconteceu”; pode-se reter o passado de uma maneira caótica, “- Me conte a sua infância. - Não sei nada da
minha infância”. Já ouvi isso muitas vezes. “ - Me conte, sei lá, do que você gostava de fazer quando tinha
doze anos. – Não sei, não me lembro direito”. E a pessoa quando fala do seu passado tem apenas algumas
imagens soltas, desconectadas. Isso é que ela retém dela, de maneira bem caótica. E, a melhor alternativa, é
você contar e recontar, ou seja, reter o passado, mantendo a possibilidade aberta de rever, revisitar,
recontar. Ou seja, uma coisa que foi tida como verdade absoluta na história, de repente você enxergar que
não é verdade. Isto se chama viver plenamente. Isso se chama criar a si mesmo. Você não ter medo da sua
própria história. Você não ser refém do que você mesmo tem escrito e do que a vida tem escrito junto com
você. Ser autônomo, nesse sentido, ser autor da própria vida, é justamente, amadurecer os projetos que
você tem para a tua vida, o que você quer criar com a tua vida, alcançar com a tua vida, baseado num passado
que está presente, um passado que é vivo. E o passado só é tratado como vivo se eu não olho pra ele como
morto e fechado. Ou seja, o passado está aqui agora, A Juliana, de dez anos de idade, está aqui agora, e ela
está lá, pleiteando alguma coisa, a Juliana de dez anos de idade. A Juliana não é apenas esta mulher com a
idade que ela está hoje: ela é esta, é a Juliana com 20, a Juliana com 10, a Juliana com 5... Elas não sumiram,
elas estão aqui.

00h10 a 00h20

Elas não sumiram, elas estão aqui.

Aluna: Você acha possível revisitar o passado sozinho?

Prof.: Eu acho que, até um tempo, digamos, um século atrás, a gente tinha mais disposição para isso.
Não que em certas circunstâncias não fosse necessário algum tipo de ajuda, como, por exemplo, até a Idade
Média o sujeito precisava do padre. Mas algo se perdeu no último século, nós precisamos mais de auxílio
hoje, sim. Nós precisamos mais de olhares objetivos sobre a nossa própria vida, de um auxílio externo para
a investigação de si mesmo. Alguma coisa se perdeu, ou alguma capacidade humana diminuiu nessa história.
Então temos muita dificuldade. Por exemplo, quando fico batendo nessa tecla: conta a sua história, conta a
sua história, conta a sua história... Por onde eu começo? Qual é o capítulo 1?

Eu sempre digo assim: se eu fosse fazer sua biografia – eu, de fora – provavelmente contaria sua vida
do nascimento até a sua morte. Porque, afinal de contas, eu deveria dar uma sequência lógica e
compreensível para todo mundo que fosse ler a sua biografia e eu, não sabendo o que foi mais importante
para você e o que foi menos, iria preferir contar cronologicamente. As biografias escritas por terceiros são
assim.
Se você for escrever a sua biografia é bem possível que não faça assim. É bem possível, por exemplo,
e é o único modelo que acho que dá para seguir, que comece pelas coisas que você ache mais importantes e
que lembra primeiro. Porque isso já deve dizer algo sobre si. Porque que essa você lembra primeiro?

Quando eu pergunto “como foi a sua infância?”, você geralmente fala tal coisa, por quê? Por que foi
esse o princípio de seleção? Então começa contando isso.

Tem um escritor francês, Julien Green, que escreveu um diário de quinze volumes para tentar
descobrir a si mesmo.

Aluna: Ele morreu e não terminou...

Prof.: Isso mesmo. Desesperado, desde o primeiro volume, tentando encontrar a si mesmo. É o maior
diário da história. Então veja, nós não precisamos fazer como Julien Green e escrever um diário de quinze
volumes, mas nós temos o dever perante a própria espécie, é a dignidade da espécie, o que nos diferencia é
justamente a capacidade de contar a nossa história.

Vou abrir um parêntese aqui: veja como é grave morar num país que não gosta da própria história. É
muito grave. Eu faço a comparação: quem já foi aos Estados Unidos sabe que cada coisinha que acontece lá
vira uma praça, vira um monumento, tem uma celebração, e nada passa. Nada passa na peneira norte-
americana. Fora que os alunos têm quatro aulas de história americana por semana. Primeiro eles querem
saber essa, depois a história mundial. O que não deixa de estar certo. Eu preciso saber onde é que nasci
primeiro. Preciso saber onde é que estou, como vim parar aqui.

Há tempos eu tenho aventado para mim – é só uma hipótese de explicação–, nas minhas aulas, para
meus alunos, que o fato de nós brasileiros não gostarmos muitos de falar de nós, de recorrer ao passado,
indica, em grande parte, uma vergonha da própria história. Uma vergonha da história, então, social, da
história coletiva. Não gostamos muito de falar da História do Brasil, aliás eram as aulas que eu mais tive
dificuldade de dar no colégio, porque eles queriam ter história mundial. E aí, consequentemente, não falamos
muito de nós. Não temos muito esse apego ao passado, à memória. Veja o número de museus que tem no
Brasil. Veja o número de praças e monumentos e coisas que tentam preservar o passado, deixá-lo vivo.

Aluna: Fora o que é destruído, não é?

Prof.: Fora o que é destruído, que não deixa de ser também um outro sintoma da coisa. Destruir o
passado não vai refazê-lo, não vai apagar o que realmente aconteceu.

Então, tudo isso é para reforçar a idéia de que o tempo, mais do que um problema para nós, mais do
que uma inexorável passagem de vida, é a substância de que somos feitos. Somos feitos de tempo. Sabe mais
quem viveu mais, quem experimentou mais. Esse é o conselho de São Paulo Apóstolo: provai de tudo e ficai
com o que é bom. Quer dizer, viva, vai viver, experimentar. Às vezes os problemas que temos que não
conseguimos solucionar são simplesmente porque temos pouquíssima experiência de vida. E às vezes temos
pouca experiência de vida não porque temos pouca idade, mas porque a somos covardes. Porque somos
neuróticos, porque disseram que não se podia fazer tal coisa, porque disseram que tal coisa era errado,
encheram-nos de coisas e aceitamos todas essas prerrogativas e não fomos gozar da vida. Não acho que a
gente tem de ser leviano, não estou falando que tem de ser leviano com a própria vida. Eu só não acho que
a vida foi feita para ser lamentada. Acho que a vida não é isso, não é possível. Não consigo imaginar Deus
sendo sádico, “Vou fazer um negócio aqui só para ver eles sofrerem, com vontade de fazer tal coisa e não
poderem”. Não, não imagino isso, imagino que a gente foi feito para ser feliz. Só que, claro, a felicidade está
ligada à maturidade, consciência, radicalidade das decisões, escolher as coisas certas, saber o que é melhor,
e muitas vezes eu vou ter que provar o pior.

Existe uma sabedoria em certa permissividade. Existe. Em você explorar certas coisas, em você
aceitar certas porções da realidade por um tempo que seja. Veja, você tem de ser muito fraco, muito refém
de si mesmo para rejeitar qualquer possibilidade nova para sua vida de imediato. Por que não? A não ser
coisas que você sabe que são más em si mesmas. Eu não aceito como possibilidade na minha vida matar
alguém, para ver como é que é, para ter essa experiência, como o sujeito que foi preso por 39 assassinatos.
O sujeito matou 39 pessoas, de moto. Um vigia, parava na rua e matava as pessoas de rua, mulheres... Trinta
e nove. Confessou e tudo, tentou se matar hoje na prisão, daí conseguiram impedir.

Essa possibilidade não existe para mim, não quero conhecê-la, a sensação de matar alguém, não,
porque eu sei que isso é mau, é ruim em si mesmo. Agora, há um monte de outras coisas nebulosas que é
preciso provar. E daí eu vou tirando a materialidade da vida. Às vezes a gente chega a uma certa idade da
vida e sabe tão pouco sobre ela. Não porque leu pouco, estudou pouco. Porque ler e estudar é secundário
no que estou falando. Mas porque a gente simplesmente viveu pouco, provou pouco.

Num tempo anterior ao que estamos vivendo, chamado de Idade Moderna, o homem vivia
intensamente as coisas. A relação do homem com os dias era mais intensa. Por exemplo, o sujeito era um
camponês e vivia plantando-colhendo, plantando-colhendo, sendo determinando pela realidade, quando
estava frio não podia fazer nada, quando fazia calor ele podia, quando chovia não podia etc. Esse sujeito de
repente era convocado pelo senhor feudal para uma guerra e ele dava “tchau” para a mulher e não sabia
quando a veria de novo. Esse tipo de vida, esse tipo de relação com a vida, com a natureza e com o tempo,
fazia com que a vida humana fosse mais intensa, com que homens e mulheres penetrassem mais na
realidade, fossem mais chocados com esse encontro. Ao passo que nós temos uma relação mais superficial,
até mesmo, agora, com o tempo, porque temos maneiras mais eficazes hoje de ludibriar o tempo. Nós temos
aí, por exemplo, os smartphones que, mesmo estando a quilômetros e quilômetros de distância de alguém,
eu posso vê-la, falar com ela ao vivo etc. Eu tenho maneiras de enganar o tempo, a distância, que não eram
possíveis antes. Então o homem estava sempre instalado no tempo, e nós hoje corremos o risco de esquecer
o tempo. Platão dizia: filosofar é pensar diariamente na própria morte. Quem aqui pensa na própria morte
todo dia? E que vantagem Maria leva de pensar na própria morte? A vantagem é você trazer a dimensão do
tempo à sua consciência e trabalhar sempre com a possibilidade do fechamento da sua biografia, porque a
sua biografia irá fechar, não vai durar para sempre.

00h20 a 00h30

[0:20] porque a sua biografia irá fechar. Não vai durar pra sempre. Então, esse é o primeiro tópico
inexorável... disso com isso nós temos que nos haver nós temos que contar a nossa vida, quero saber mais
de mim eu preciso revisitar a minha história.

Particularmente em relação à o tempo sempre foi visto como destrutivo. E aí agente vai entender
porque a mulher tem mais fases biográficas de outro homem. Veja o que acontece com... em algum momento
ali, na adolescência pra juventude menino vira homem antes virava antes. Hoje em dia está demorando um
pouco mais a gente tem visto com dificuldade de virar homem, que honre as calças.; lembro assim de pessoas
mais velhas falando isso: honre as calças. Honre as calças. Então hoje em dia está mais complicado mas enfim
até um tempo aí (acho que não estou exagerando) de dizer que por volta dos 20 anos – até uma décadas
atrás – já tinha ali um homenzinho. A fase biográfica dele, começava então a fase adulta, da vida do homem,
mais ou menos com 20 anos, ela ia terminar quando¿ Quando ele começasse a ficar .... quando ele começasse
a declinar, ou seja quando na velhice ele começasse a conseguir fazer mais as coisas, a produzir mais.

Então a longevidade biograficamente do homem é realmente muito maior que a da mulher; a mulher
tem mais fases de meio tempo. O homem, portanto, é aquele que dos 20 vai aos 70. Então agente ver homem
com 50, 60 anos é um homem, um homem maduro. Mas é um homem. E a mulher¿ A mulher tem mais faixas
neste tempo entre os 16, 17 até a velhice. A velhice porque eu acho muito mais digno falar velhice que
terceira idade. Eu acho um horror essa expressão: terceira idade. Tenho pavor dela. Então, velhice mesmo
tem que assumir. Velhice!

Vamos pensar na mulher: quando a menina se torna mulher¿ Aí a biologia vem impor com uma... a
mesntruação vem e não causa menstruação mas a menstruação é como que um chacoalhão na menina que
se não estava fazendo isso antes começa a fazer a partir dali. O que¿ A imaginar-se mulher. Para a Julian
Marias isso é decisivo na vida de uma menina. Geralmente acontece na menstruação, ela começa a se
imaginar mulher. Ela começa a se antecipar, a projetar a figura de mulher que ela vai ser. E aí, a partir desse
dado biográfico lógico, passando... biográfico a mulher, a menina que está sendo mulher agora e que
antigamente se falava: “virou mulherzinha”, “olha já é mulherzinha”. Acho que ainda se fala não sei. Quando
a menininha menstrua todo mundo fica sabendo. E conta para o tio, conta para a mãe, conta para a vó. A
partir dali a menina, que começa a se imaginar mulher, e a projetar-se como mulher: pensar na roupa, no
sutiã etc., ela vai olhar para os modelos, ela vai olhar para as mulheres que ela conhece. E aí... um ponto
decisivo na biografia dela porque ali ela vai decidir que mulher ela vai ser. Quais são os modelos envolta dela¿
Tem uma graça em torno dela¿ Pode ser que tenha; vamos imaginar que ama a vó a tia. A mulher. E daí você
aquele tipo de modelo você não tem aquele modelo e puxa porque que você não lutou por aquele modelo.
A mãe, claro que é uma presença muito forte talvez de todas é a mais marcante diversos motivos e sempre
as meninas... elas optam pelo modelo da mãe. E porque que ele não opta e o que que você rejeitou aquela
modelo. O que você quis¿ E o que rejeitando ou não rejeitando, querendo ou não querendo você carrega¿ E
que não tem jeito. Está com você.

Então há diversos dessas mulheres que serão “modelos” e a hora que a menina escolhe o modelo
que ela seguirá – diz o Julian Marias: “Ali termina a infância”. Quando a menina consegue sair de si, olhar
para outra mulher e admirá-la, querer ser igual a ela (consciente ou inconsciente), projetar-se. Acabou a
infância. A infância deveria ser é um verdadeiro reino encantado onde tudo tem que ser maravilhoso e lindo
e florido feito uma festa, não. No sentido em que a riqueza de experiências, as possibilidades que existem na
infância que nunca mais existirá naquele número ao longo de toda a vida.

Então na infância o que tem que fazer por uma criança menina, menino. Agente tem que oferecer
possibilidades para ela, modelos. Hoje a gente vê que os pais estão muito preocupados em oferecer
possibilidades materiais: quero que ele tenha o possibilidade de fazer isso, quero que ele tenha a
possibilidade de cursa aquilo, que ele tenha possibilidade. Ótimo, tudo bem, mas não esqueça de todas as
outras possibilidades que a gente precisa dar para a criança, possibilidades de... quer dizer, nós crescemos
numa sociedade (falando agora bem Brasil) nós crescemos numa sociedade... que existem nas novelas da
globo. É um horror isso. Um horror. Saber que uma criança cresce com isto de imagem. Ou com esses
desenhos de hoje em dia – e por aí a fora.

Quer dizer, nós temos esse compromisso com as crianças, as meninas, então, compromisso de
ofertar possibilidades deste mundo feminino. Aquela coisa que a mãe fazia de ensinar a filha a cozinhar tem
que fazer mesmo, tem que ensinar a limpar a casa; não que ela tenha que ser dona de casa mas ela tem que
saber o que que é isso, qual o valor disso; e o menino também tem que assumir um monte de tarefas, tem
que aprender também a dar valor um monte de coisas, mas a educação feminina passa por isso, passa por
uma educação sentimental, quer dizer, a menina precisa ser educada sentimentalmente. Não sei se você
acompanham um seriado chamado... o seriado está na quinta temporada, ele se passa do século XIX para o
século XX, eu estava lá assistindo a quinta temporada (porque eu fico sempre esperando o próximo episódio)
e agora estamos lá no ano de 1920 e pouco... uma família que a gente acompanha, de uma família
aristocrática. Sensacional! E aí tô lá nesse episódio da quinta temporada em que a avó, de uns 70 e poucos
anos, está falando com a neta de 20 e poucos, e ela falando que uma mulher nunca deve ser dominada pelos
seus sentimentos e ela estava querendo dizer assim (porque a neta estava tentando justificar para a avó por
que que ela foi dormir com o cara, lá no início do século XX você imagina o horror daquilo etc., ela dormiu
com o sujeito sem casas com ele tal e tal. E a avó descobriu.) E ele foi, toda feminista, 1920 e pouco, falar:
“mas, vovó, hoje em dia... e eu fui seduzida, gostei”. E aí a avó responde: uma mulher nunca deve ser
dominada pelos seus sentimentos, uma mulher deve governar os próprios sentimentos.

Ela quis dizer que uma mulher deve educar a sua vida sentimental; não para que ela não durma com
homens quando for seduzida, mas para que ela sempre saiba por que que ela está fazendo aquilo, por que
ela sempre tem uma justificativa interior para o que ela está fazendo – por que o reino do sentimento é o
reino da mulher.

Ela precisa governar esse reino; não ser governada. Quer dizer: quando eu penso em mulheres de
séculos anteriores eu falo: “A gente está muito longe da figura feminina, verdadeiramente falando”. Porque
hoje é muito comum a gente ouvir da mulher “mas é que eu sou mulher, sou levada pelos sentimentos...”
não, não confunda: por ser mulher você é rica em sentimentos, você tem uma riqueza; é algo assim que está
muito mais pulsante, muito mais do que em nós homens; mas isso não quer dizer que você é dominada por
eles apenas que o teu reino de sentimentos é maior; você transita de um sentimento a outro com mais
facilidade e por isso mesmo os perigos para vocês são maiores do que pra nós na vida sentimental. É preciso
que você governem a própria vida. [0:30]

00h30 a 00h40

Por isso mesmo os perigos para vocês são maiores dos que pra nós na vida sentimental. É
preciso que vocês governem a própria vida, é preciso que vocês reinem sobre os sentimentos. E reinar sobre
os sentimentos não é o controle ditatorial, “não vou me apaixonar”, não é isso, é se apaixonar pelo que é
apaixonável. Básico, né? Às vezes eu vejo essas tentativas nas mulheres: “não vou mais fazer isso”, “não
quero”. Não, pera lá, você está errando, não é isso. Se você fizer isso você vai secar, eu falo isso nas aulas
atrás, você vai secar se fizer isso. “Não vou me envolver”, “não vou me apaixonar”, “não vou”, né? Então tá,
se você não vai fazer isso você vai secar como mulher. E ninguém vai querer prestar muita atenção em você
daqui um tempo. Não é isso, é você educar sua vida sentimental a ponto de você amar o amável.

Por isso que em grande parte a infelicidade feminina está no sentimento, né? Num grau muito mais
alto do que para o homem, porque a mulher quando erra no sentimento ela erra no domínio dela. A mulher
quando erra o objeto de amor, a gente falou semana passa sobre objetos de amor, ela erra muito mais feio
que o homem porque ela está totalmente envolvida sentimentalmente naquilo. Então é preciso que ela
eduque a percepção dela, é preciso que ela eduque as sensações dela. Eu nunca aceitei como resposta de
aluno aquela coisa “mas eu não gosto disso que você gosta”, eu sempre respondi “mas gosto se educa”.
Gosto se educa. Você não nasceu gostando, eu imagino, de culinária francesa, mas podemos educar pra você
gostar e perceber que aquilo é melhor que hotdog. Então, sim, se você percebe que os seus sentimentos te
assaltam, então vamos educar os sentimentos para que você não vire uma terra seca, mas justamente o
contrário, uma riqueza de vida, uma riqueza de experiências porque em você só se semeia o que é bom,
verdadeiramente bom. Os seus sentimentos só são inclinados ao que verdadeiramente vale a pena e por isso
brota em você, brota nova vida, brota novas experiências e isso pode acontecer em todas as idades da sua
vida. Todas, todas, todas. Então, está aqui um alerta a quem têm filhas, sobrinhas. É preciso educar os
sentimentos dessas meninas.

A gente está num mundo em que mulheres são chamadas de cachorras. Duro ter que falar uma coisa
dessas, mas as mulheres são chamadas de cachorras e ninguém se revolta com uma coisa dessas.
Absolutamente ninguém. As pessoas se divertem com isso. Se você perdeu a capacidade de se indignar com
uma coisa dessas, meu Deus, o que foi que aconteceu com a sua percepção? O que foi que aconteceu com
seu reino interior? Você não se indigna mais com isso.

Então, voltando aquele ponto da menina que se torna mulher porque escolhe um modelo, seria
interessante cada uma das mulheres que está ouvindo aqui, e os homens podem fazer com seus modelos,
quem foi que te inspirou naquele momento? Naquele momento em que você começou a virar mulher? Quem
que você quis copiar? E daí, a partir disso, você planejou uma trajetória e a sua vida desde então, até hoje,
tem sido um desvio ou uma realização desta trajetória. A questão também é você se perguntar: “é essa a
trajetória que eu escolhi para mim? Adotando tais modelos, querendo ser tal mulher, ela é boa? É a trajetória
que eu devia estar seguindo? Se eu levar isso aqui às últimas consequências isso aqui vai terminar bem?”.

E há um perigo também, hoje esse perigo está ainda mais evidente na nossa sociedade, de que
naquela fase, essa primeira fase da menina se tornando mulher, há o perigo da precoce sensualidade. E que
hoje, eu que estava em sala de aula até pouco tempo atrás dando aula para adolescente sei o que estou
falando, os assuntos, as roupas, a maneira de lidar com o próprio corpo, o tipo de arte que aprecia, a relação
com os meninos. Uma das brincadeiras que meus alunos mais faziam, do primeiro ano do ensino médio,
segundo ano do ensino médio – quatorze anos, quinze anos, dezesseis anos – era sempre passar a mão na
bunda um do outro, o cumprimento deles era batendo na bunda da menina e a menina rindo. Quer dizer –
é, as coisas estão assim – se a menina fala uma coisa que eles consideram idiota eles têm o direito de aperta
os seios dela. A coisa está neste nível e eu não estou falando de escola pública de periferia, eu só dei aula em
colégios particulares. Então essa sensualidade precoce, que muito disso se deve a uma exposição absurda
que a gente tem de sexualidade – não de vida sexuada, mas de sexualidade mesmo, sexo –, tem
consequências. E ai as consequências disso podem ser tratadas – ainda bem que tem remédio – podem ser
curadas com o que o Julian Marías chama de lirismo. A cura para essa sensualidade precoce, e às vezes
exagerada, tem nome: é o lirismo, é a poesia, é o galanteio, é educar a menina. Mas, de novo, é educa-la.

Aquelas coisas que o pai fazia em relação à menina “olha, se esse cara não tiver como sobreviver, se
esse cara não tiver uma cara limpa, se esse cara não for isso eu não vou aceitar o teu namoro”, os pais
impunham algumas condições, né? Quer dizer, isso não está totalmente errado porque se a menina estava
lá um pouco perdida na mão de um aventureiro, aquilo enquadrava ela de novo. E claro, quando a gente
chegou ao ponto de umas três, quatro décadas atrás que os pais ficaram mais impositivos ali na década de
sessenta e setenta é porque algum respeito anterior já tinha sido perdido e alguma educação dos
sentimentos femininos já tinha sido também levado as brecas. Então, também não adianta hoje querer ser
agora o radical e proibir tudo, a questão é prestar atenção no que nós estamos oferecendo para essas
meninas. Pensem o que ofereceram pra você quando você tinha essa idade, quando estava nessa primeira
fase de vida. Quais foram às imagens que concederam a você? Que tipo de educação sentimental você teve?
Que tipo de músicas você ouviu? Quando você queria falar sobre amor, o que você usava? Letra do Caetano?
Você usava música, sei lá, samba e pagode? Como você fazia pra, sem nenhum julgamento, quero que cada
uma responda a si mesma, como você fazia para se expressar sentimentalmente? Quais eram, porque a arte
é pra isso, ela dá expressão, como você fazia para expressar teu desgosto? Um sentimento de, sei lá, de
mágoa ou de amargura ou uma paixão arrebatadora? Como você fazia para expressar isso? Como você punha
isso em palavras? O que você escrevia na cartinha lá pro outro? Ali, se você lembrar do fazia, do que você
curtia – pra usar uma palavra bem atual – na época, você vai ter uma ideia da tua educação sentimental.

E quando que a mulher chega à fase adulta? Então tem essa da menina para a mulher, essa primeira
fase, e ai em algum momento da vida ela vira uma adulta. Quando será? Na primeira fase a biologia teve um
papel determinante, né, a menstruação. Nessa segunda fase não é a biologia que tem um papel
determinante, é outra coisa. Quando você acha que você ficou madura? Que você se tornou uma mulher?
Ou se já se tornou, não sei como vocês estão com isso. O Julian Marías da a seguinte resposta: que é quando
a mulher descobre-se e passa a falar em nome próprio. [40:03]

00h40 a 00h50

Quando você acha que você ficou madura, que você se tornou uma mulher (se já se tornou, não sei
como é que vocês estão com isso)? O Julián Marías da a seguinte resposta: que é quando a mulher descobre-
se e passa a falar em nome próprio. Nossa é uma coisa tão simples. Não é tão simples. O que é falar em nome
próprio? Muitas vezes na sua adolescência, muito mais na sua infância, quando perguntavam se você queria
alguma coisa, se você queria fazer tal coisa, você falava o que você ouvia. Você repetia padrões familiares,
você repetia os desejos da casa, você não falava em seu próprio nome, você falava em nome de uma herança,
em nome de um código genético, em nome de uma convivência. Depois, na escola, você passou a fazer coisas
em nome de uma sociedade (quantas vezes não vi minhas alunas fazerem coisas que elas não queriam fazer,
elas visivelmente não queriam, mas elas faziam porque, se não fizessem, o que os meninos iriam pensar?).

Quando você já não tem mais nenhum problema com isso e quando você consegue falar diretamente
em seu próprio nome, arcando com tudo o que você fala e com tudo o que você quer, pronto, você chegou
a maturidade. Você é uma mulher. É uma mulherzona.

Alias, vocês sabiam que a Igreja Católica ensina que a alma tem três inimigos: o Mundo, o Diabo e a
Carne. Todo ser humano tem três inimigos, o primeiro é a carne, que está ligado aos desejos que não são os
desejos da alma. Aquilo que trabalha contra a gente, os vícios, etc. O outro inimigo da alma humana é o Diabo
e o Diabo quer aqui significar a mentira. A mentira nos leva à perdição. E a gente mente todo dia. Mentiras
bobinhas até as mais sérias. Esses inimigos são no sentido de que põem a perder a nossa vida. Não são
inimigozinhos quaisquer. E o terceiro inimigo segundo a Igreja é o Mundo, em que sentido ela está falando
do mundo? É o falatório. O que vão pensar de mim? Ou seja, a Igreja está dizendo para você que é um inimigo
seu essa preocupação com o que eu vão achar, com o que vão achar, se vão aprovar, tal coisa tal atitude, tal
decisão. Isso é um inimigo para você.

Então, quando você já não tem mais problema com isso, quando você não está mais preocupada se
terá o aval social, você já está madura. Quando você fala em seu nome e arca com isso você chegou à
maturidade.

E aí, tem um momento que a gente envelhece e a mulher envelhece. E quando é que a mulher
envelhece? Quando a gente pode chamar a mulher de velha? Socialmente dizem que nunca. Menopausa?
Veja isso é interessante porque também antes as mulheres viviam menos, quando chegava realmente à
menopausa significava que ela não tinha mais muitos anos de vida. As médias de idade de séculos anteriores,
as mulheres tinham cara de velha muito antes. O estilo de vida que elas tinham, elas ficavam muito mais
tempo dentro de casa, com a mãe, na igreja, elas tinham menos convívio social, menos extrusão biográfica.
E sim elas envelheciam, a nosso ver, precocemente. Quando vinha a menopausa, mais alguns anos.

Hoje, a mulher aumentou bastante a sua longevidade biológica. O homem e a mulher aumentaram
bastante. Daí vem a menopausa com uns 45 anos e depois ela tem mais uns 30 anos. E a gente não chama a
mulher de velha e ela não está velha aos 50 anos.

Então, o que será que faz de uma mulher velha? Ela ganhou bastante tempo. E isso é um dos
desesperos da mulher hoje, uma das preocupações. Porque ela tem mais tempo quem qual lidar agora. Ela
tem mais anos para ficar bonita. Isso é terrível. Antes não, a mulher morria com 60 anos. Estava com cara de
velha, mas era isso. Hoje não, não pode aparentar velhice com 60 anos. Então há um perigo em algum
momento nessa história, que eu não seu precisar a idade que a mulher fica velha, que o homem fica velho.
Tem um perigo, que a hora que ela se sentir velha, ela provavelmente vai correr o perigo de dizer para si
mesma que já viveu, que está feita a vida. Eu digo isso porque temos um número muito grande, aqui no Brasil
também, que passam a última fase da vida sozinhas. Ou porque perderam seus maridos, os homens tendem
a morrer antes, ou porque se separaram, se divorciaram, ou porque ficaram sozinhas mesmo. Mas nós temos
um contingente de mulheres sozinha bem grande nessa idade com mais de 65 anos.

E aí há um perigo para as mulheres nessa fase da vida. Que a gente pode enquadrar como velhice.
De já ter vivido. De ela achar que já deu. E esse já deu, já vivi, já fiz minha parte, já criei meus filhos (Quem já
não ouviu isso de uma vó, de uma tia?). “Eu já fiz a minha parte...” Isto é a morte precoce biográfica. Aí
percebam que as mulheres correm bastante risco nessa idade de reter-se, recolher-se participar menos da
vida social. O máximo que ela faz é casa, igreja, família. E a mulher perde daí, outro perigo na velhice, a
capacidade de espera. Porque uma das coisas que configuram a mulher, ao longo de todas as idades da vida,
é a expectativa. A mulher que espera. Espera o convite, espera, carta, espera o filho, a esperar parece o verbo
feminino. Tudo na vida de uma mulher é espera, percebam. E ela trabalha a vida toda com essa expectativa.
E por isso que às vezes uma mulher é tão frustrada, porque as esperas não são correspondidas; os homens
não atendem ao que ela estava esperando, mas ela continua esperando. Isso é saudável. Ela esperar. O que
define uma mulher nesse sentido que eu estou falando em relação ao tempo e a relação dela com o tempo
é a esperança, é a expectativa. E aí veja, quando ela tem lá seus 25, 30, 35 anos é muito fácil ter esperança,
é muito fácil ter expectativas. Ela está na idade de procriar, de casar, de criar uma carreira... Nessa idade a
espera fica fácil. Terrível é a sociedade que até para essas mulheres de 30 está terrível esperar. Elas
envelheceram antes. As mulheres com 70, 75 anos tem dificuldade de esperar, de ter uma expectativa diante
da vida.

Aí a gente entra no seguinte dilema: a mulher de hoje, a mulher do séc. XX, XXI, ela não que mais ter
essa esperança ela não quer mais ficar esperando da realidade ela quer se sentir segura, ela quer trocar uma
coisa pela outra. Porque talvez ao longo da história a espera tenha sido atendida. Ela troca a espera, a
condição de expectativa feminina pela segurança. Melhor não esperar nada de ninguém. Melhor não projetar
tanto assim para a vida, vamos fazer com o que tem. Aí a troca da espera pela segurança é outra morte
biográfica, é outro perigo terrível para a mulher. Por que uma mulher não é segura. Uma mulher é confiante,
é diferente. A segurança está em mim, a confiança está em algo. Mulher não é segura, mulher é confiante.
Toda a vez que a mulher quer ser segura ela faz mal para si mesmo. [00:50:17]
00h50 a 00h55

Uma mulher não é segura, é confiante, é diferente. A confiança está em mim, a confiança está em
algo. Mulher não é segura, mulher é confiante. Toda vez que a mulher quer ser segura ela faz mal pra si
mesma, porque irá se iludir a tal ponto de tentar encontrar uma segurança que não existe, é por isso que ela
precisa dos homens. A segurança estrutural é masculina, é da virilidade. Então a mulher na tentativa de ser
segura perde a esperança, sendo que o que ela deve na verdade é alimentar a confiança dela, naquilo que
inspira confiança.

Então fica um desafio às mulheres, do quanto ela conseguiria abdicar do apego a segurança
existencial em nome da confiança. Quando a mulher consegue fazer essa troca, para seu próprio bem, ela irá
confiar no que, ou em que? Em grande parte é obvio que a culpa é dos homens, que não estão inspirando
grande confiança, então a mulher tenta caçar com o que tem para sentir-se minimamente segura, isso em
todas as idades e fases da vida, ela precisa dar um jeito nisso. Mas o homem piorou como homem, ele deveria
ser a condição do varão que dá esta segurança. Não é ser forte mas, assumir que tem que ser forte. O homem
tem que querer ser forte, isso define um homem. O homem que não está nem aí pra isso está muito longe
da condição sexuada dele, então é claro que a mulher tem que tapar um buraco de alguma forma buscando
a segurança de algum outro jeito, que seja a financeira, por exemplo.

A questão é que se a mulher conseguiu escolher bons modelos, ser fiel a uma trajetória, ser autora
da própria vida, falar com sua própria voz, em seu próprio nome sobre si mesma e chegar a velhice com uma
certa temperança e equilíbrio, aberta ainda para as experiências da vida, na velhice será o momento em que
a mulher mais saberá de si mesma. E justamente a velhice é para isso, passou mais tempo, mais histórias
foram contadas, mais narrativas foram feitas, mais você pôde possuir de si e da substância do tempo,
portanto a velhice é para coroar o que você sabe a respeito de si mesma. Então a velhice só pode ser positiva,
nunca negativa, porque você saberá mais de si e da vida, quando você for velha. E você poderá dizer aquelas
frases clichês: “Ah! Se eu soubesse disso com trinta anos”.

Mas a vida é isso, projeção e antecipação, projeção e antecipação.

Duvidas? Todas loucas para envelhecer?

Esta aula de hoje será emendada numa mudança que haverá no curso, as próximas aulas não serão
mais aliviadas, falaremos sobre amor e eternidade. Vimos a mulher até agora na perspectiva do tempo, da
qui para frente falaremos de outra perspectiva, a mulher como símbolo da eternidade.
AULA 08

00h00 a 00h20

Hoje é nossa 8ª aula, passamos boa parte do curso. Como eu já disse outras vezes, espero que essas
aulas, que muitas vezes, parte do que digo aqui soa como novidades, para quem nunca tinha se deparado
com certos conteúdos, ou pelo menos a forma de explicar desses filósofos que eu tenho usado,
especialmente Julián Marías, é importante que durante a semana isso seja reavivado, que isso faça parte do
seu dia-a-dia. É importante, para que você nunca esqueça um curso, que ele lhe altere. Você jamais
esquecerá se ele lhe alterar. Lembro-me sempre da frase de Jean Filloux, um autor que li que escreveu um
livrinho maravilhoso chamado A Memória. Desde então a minha perspectiva sobre a memória mudou, para
sempre. Vocês não vão achar edições novas para comprar, tem de procurar em sebo. A epígrafe do livro diz
assim: “Eu lembro daquilo que eu sou”.

Então quando a gente fala assim, “Puxa, eu vou lá na aula, vou no curso, e não lembro depois o que
eu queria lembrar”. Provavelmente você não lembra porque aquilo não se tornou você. Aquilo é um
conteúdo, é uma informação. Aquilo na hora até soou como interessante. Mas efetivamente não afetou seu
núcleo pessoal. Eu tenho falado bastante desse núcleo pessoal, de onde partem os grandes desejos, os mais
sinceros projetos, aquele núcleo pessoal que ama e é amado etc. É importante você ver o quanto da primeira
aula, da segunda aula, você não esqueceu. Se você não esqueceu é porque está aqui, está atualizado em
você. Você não precisa recorrer a nenhum subterfúgio, não precisa ir ao caderno, não esquece aquilo porque
aquilo já é você. Como diz Piaget, o coelho comeu o alface e o alface se tornou o coelho.

Olavo de Carvalho explica assim, eu sei que aprendi uma coisa quando esqueço que aprendi. Ou seja,
na hora em que tenho de me referir àquilo não fico buscando a informação, mas falo de mim. Eu falo de mim
desde a perspectiva de alterá-lo (?).

Um curso é mais efetivo, é mais eficaz, quanto mais ele altera a realidade de alguém, do aluno,
daquele que está ouvindo, do professor que está revivendo aquelas coisas. Nós temos que nos permitir essa
alteração, e não tem nada que nos altere mais que amar. O amor é talvez a mais radical alteração da nossa
condição. Aquele que não está disposto a ser alterado, aquele que não está disposto a ser modificado, não
está disposto ou não está aberto para amar. Aquele que está apenas disposto a continuar sendo quem
sempre foi, está apenas disposto a amar a si mesmo. Por isso que amar o outro é baixar a guarda. Por isso
que a gente se sente muitas vezes invadido. Por isso que causa sofrimento. Por isso que muitas vezes a gente
se vê fazendo coisas que jamais faria se não fosse em nome do outro. Mas isso é realmente amar. Se eu tiver
uma justificativa biográfica para isso, se aquilo for condizente com meu argumento de vida, com a minha
vocação, eu devo sim permitir todas as alterações possíveis, desde que aquilo não fira meu núcleo pessoal.

Eu sou a pessoa que abre mão de certas coisas, que abre mão de projetos para ajudar o projeto do
outro, por exemplo? Eu sou essa pessoa? Se eu sou, eu tenho mais é que abrir. Todo mundo que já teve
relações – acho que todo mundo aqui já teve breves relações, longas relações –, cada relação serve para
fazer o mesmo tipo de balanço, tenha ela durado o tempo que durou, se ela foi verdadeiramente uma
relação. Acho que para cada uma dessas experiências vale a seguinte pergunta: onde eu estava quando eu
comecei? Onde eu cheguei quando eu terminei? Quem eu era quando comecei essa relação? E quem eu sou
agora que eu terminei? Eu sou o mesmo? Se eu sou o mesmo então o que aconteceu entre nós dois?

É claro que “relações” no geral nos alteram, a amizade também nos altera. A amizade também está
baseada no campo de abertura que eu dou para o outro, para ele fazer parte da minha vida, para ele me dar
conselhos, para eu seguir os conselhos dele etc. Claro que uma amizade também altera, mas uma amizade
funciona muito mais numa clave de confirmação do outro. O amigo funciona mais como aquele que
potencializa aquilo que existe de bom em nós. O grande amigo, o verdadeiro amigo é aquele que é uma
presença que eleva porque eleva aquilo que eu tenho já de melhor.

Agora, a relação entre dois amantes, a relação entre um homem e uma mulher, essa relação é a mais
radical de todas porque é a que mais altera a própria condição do amante, ele é alterado pelo objeto que ele
ama, que é o outro.

Hoje falaremos disso, obviamente trazendo para a perspectiva da mulher: a mulher que ama, que
não ama, por que não consegue amar?, por que ama demais? etc.

Eu não acredito em mulher que “ama demais”. Existe aí uma conotação histérica. Existe mulher que
ama, que hoje já é minoria, e existe mulher que não sabe amar ainda. Qual será que é a diferença?

Eu começo propondo a seguinte questão a vocês: Qual foi o erro de Narciso? O famoso Narciso, da
poesia antiga.

Aluna: Olhar apenas para si mesmo?

Prof.: O que mais Narciso fez? Tem um livro de Lavelle que se chama, justamente, O erro de Narciso.
Qual é o grande erro de Narciso? É amar a si mesmo. Existe um perigo para todos nós, homens e mulheres,
e esse perigo se chama amor-próprio. Veja que tudo o que vou falar vai praticamente contra tudo o que
vocês ouvem aí fora, quase tudo. Especialmente livro de auto-ajuda. Já sei que sou aquela voz gritando no
deserto, mas eu tenho que fazer esse papel. Eu sei que se vocês saírem daqui, forem até alguma livraria de
Curitiba e procurarem um livro sobre auto-estima, motivação etc., talvez a lauda 1 seja essa: Ame a si mesmo.
E eu estou aqui começando esta aula dizendo: não ame a si mesmo. Evite o amor-próprio, porque o amor-
próprio é o maior impedimento no direcionamento do amor para outro. É porque a gente se ama demais
que a gente ama o outro de menos. Se a gente fizesse um exercício de imaginação, se fosse possível que
alguém nos amasse exatamente como a gente e que a gente não precisasse mudar uma vírgula dentro de
nós, e que entendesse todos os nossos tiques nervosos, entendesse todas as nossas manias, entendesse tudo
o que a gente como a gente faz, não reclamasse de nada, nossa, que maravilha! Mas na maior parte das
vezes, para não dizer sempre, não é isso que acontece. A gente encontra um outro que não funciona do
mesmo jeito que a gente, não aceita uma parte das nossas manias, uma parte de nossos estímulos, uma
parte das nossas atitudes, e aí começa aquele choque. E a grande dificuldade é o abrir mão de certas porções
às quais somos tão apegados, historicamente apegados, em nome do outro. Em nome do outro ou em nome
de uma coisa que quero ter com o outro. Será que o outro, ele, pura e simplesmente, vale isso, ou é uma
coisa que eu quero construir com ele? Que faz com que eu, enfim, me sacrifique, abnegue etc. etc.

Então, esta é uma primeira pergunta. Pensar o quanto que o erro de Narciso também é o seu erro. O
quanto você também se ama demais. Porque vejam, aquele sofrimento de novela, aquele choro encostado
na parede, aquilo tudo é amor-próprio. Sabe porque o amor-próprio é terrível? Porque ele esconde um dos
piores sentimentos humanos, um dos mais devastadores sentimentos humanos, que se chama orgulho. Entre
acreditar que você é muito bom e acreditar que você não vale nada, sempre é melhor acreditar que você não
vale nada. Eu seu como isso está soando, eu sei, mas deixe a palavra ressumar. Porque quando eu acredito
que eu sou o maioral, é tipo aquela filosofia socrática: só aprende aquele que sabe que não sabe. Sócrates
diferenciava o ignorante do filósofo justamente neste ponto. A gente pode fazer uma analogia. O ignorante
é aquele que acha que sabe.

Aluna: Ele tem certeza.

Prof.: Ele tem certeza, inclusive. E o filósofo é aquele que sabe que não sabe, portanto é aquele que
está em condição de aprendizado. É aquele que está aberto. Como sou professor já conheço tantos alunos,
já dei aula para criança, adolescente, adulto, terceira idade, já dei aula para gente de todas as idades, tenho
aluno de 80 anos, já tive aluno de 9, 10 anos – para mim aquela coisa de “inteligência e burrice” não é bem
assim que funciona. Tem gente mais inteligente, realmente, mas para mim o aprendizado, o funcionamento
e a eficácia do aprendizado, está basicamente ligado a uma coisa: abertura. Ou o sujeito está aberto àquilo,
ou está fechado. Não tem outra para mim. Claro, como eu aprendi com Hugo de São Vitor, um filósofo da
Idade Média, existem pessoas obtusas. Existem. Existem pessoas obtusas, eu aprendi isso, e eu tenho
experiência de professor suficiente para dizer que conheci algumas, e a que você explica e explica de novo,
novo e de novo e ela não entende. E quando digo “não entende” não é porque racionalmente ela não
compreenda a idéia, é porque nada muda para ela, está pronta, fechadinha. Não há o que ser feito, não há
britadeira para resolver o problema. Aliás você escolhe as melhores britadeiras: Platão, Santo Tomás de
Aquino, Literatura, Dostoievski, Shakespeare. Nenhuma britadeira funciona. Então não dá. Tem uma hora
em que você fala “não tenho mais meios para fazer isso aqui”. Então sim, existe gente obtusa. Mas é uma
minoria. Na maior parte das vezes não se trata de obtusidade, se trata de fechamento da alma. O sujeito não
quer verdadeiramente saber aquilo, porque saber aquilo custa um preço, porque saber aquilo traz
consequências. Por exemplo, você pode vir para aula, ouvir as coisas da aula, as coisas mais chocantes, as
coisas mais interessantes etc., e, enfim, tocar a sua vida como sempre tocou. E não estou dizendo que tocou
mal, tocou bem... Não, simplesmente você sai daqui do mesmo jeito que chegou. Quer dizer, de que vale?

Existe uma coisa que nós temos de recuperar na nossa vida, principalmente depois dessa sociedade
de massa, dessa sociedade que foi inventada pós-Revolução Industrial, que é a coisa da gravidade do tempo
perdido. Você já parou para tentar fazer uma higiene do seu tempo e ver quanto dele você perde com quem
não merece 5 segundos?

É preciso passar mesmo uma régua e se perguntar: como estou gastando o meu tempo? Sabe por
que você tem de fazer essa pergunta que parece tão bobinha? Porque onde e como você gasta o seu tempo
é como você está vivendo a sua vida. A sua vida está sendo isso, a sua vida não está diferente do tempo que
você está gastando. É como aquela pessoa que diz assim “Puxa, Thiago, cheguei aos quarenta e não sei nada”.
A primeira pergunta que faço: quanto tempo dos quarenta você gastou para saber? “Ah, não gastei, fiz outras
coisas”. Bom, então está tudo certo. Você está no ponto que você quis estar. Trata-se sempre de eleição. “O
que eu quero fazer com meu tempo” significa “O que eu quero fazer com a minha vida”. O que que eu quero
fazer com a minha vida? É aí como vou gastar o meu tempo. Não há como acreditar numa pessoa que diz “Eu
quero ser tal pessoa, quero ser aquilo, quero ter aquela virtude, quero fazer aquilo”, e nada do tempo dela
me mostra isso. E nenhuma das atitudes, nenhuma das eleições dela, nenhuma das escolhas me diz que ela
quer ser aquilo. Então aquilo funciona como um fetiche. “Não, mas eu quero ser melhor, porque eu acho que
o que importa é evoluir”, eu tenho uma raiva dessa frase. Evoluir para onde? Para onde você quer evoluir?
Evoluir como? Se você está falando em evoluir, quer dizer que tem lá um ponto final que é a evolução
máxima, onde chegou. Ou seja, qual é o ponto em que você quer chegar? Você tem clareza da imagem de
quem você quer ser, do seu eu ideal? E você não tem noção ainda, com alguns aninhos de vida, que a
evolução não é possível porque na vida humana nada é linear, uma subidinha reta? Viver não é andar um pra
frente e dois pra trás, daí tropeçar, conquistar uma coisa ali e daí voltar naquela? Quer dizer, é dramática a
experiência humana. Não é uma subidinha. “Ah, eu estou sempre evoluindo”, tenho vontade de bater na
pessoa. Como assim você está sempre evoluindo? Eu se dizer uma coisa dessa pode me prender, não me
deixe mais dar aula. Porque na mesma hora que eu penso que estou evoluindo eu já cai. Já regredi só por
falar uma idiotice dessa, “estou evoluindo”. Como assim? Eu tenho um dever comigo mesmo que é tentar
ser um pouquinho melhor do que ontem. E grande parte das vezes eu chego à conclusão no final do dia de
que eu não fui melhor. Eu tenho de fazer essa anamnese do meu tempo, anamnese da minha vida.

Estou falando tudo isso, no tema da aula, que é o amor, porque para mim isso é crucial: a abertura
que nós temos diante de tudo – O nome do meu livro será A Abertura da Alma – nós sofremos tudo isso
porque nós sofremos de um fechamento, estamos fechados para o que verdadeiramente importa. Nós
estamos abertos só para o que nós estamos acostumados a estar abertos. Então esse é um primeiro ponto.

Segundo ponto: pense em todas as pessoas que você – não me leve a mal – “amou”. Entenderam as
aspas?... Pense em todas as pessoas que você “amou” até hoje. Por que vocês amaram essas pessoas? O que
eles tinham? Quem eles eram? O que eles proporcionaram? Que mudanças eles causaram em vocês? Por
que tais homens – no caso das mulheres – foram dignos da sua atenção amorosa? Porque a gente tem a
atenção e existe uma atençãozinha especial que se chama atenção amorosa, aquela inclinação para amar.
Por que aqueles homens mereceram a sua atenção e não outros? E veja que não se trata de beleza, às vezes
não é o mais bonito. Para nós homens também, às vezes não é a mais bonita. A mais bonita desperta um
interesse, a gente gosta de olhar... Mas muitas vezes a mulher mais linda da festa o homem tem certeza que
ela seria apenas ou uma grande amiga, ou uma parceira, ou uma ótima transa, mas grande parte das vezes
os homens sabem se aquela pessoa seria uma mulher para amar. E somos atraídos por diferentes questões.
Porque eu me atraio por algumas mulheres, o Rafael se atai por outras e assim sucessivamente. Por que que
os que chamaram a sua atenção, os que foram dignos da sua atenção amorosa foram aqueles? O que eles
tinham? Ou: você consegue responder quem eles eram?

00h20 a 00h30

[0:20] Ou: você consegue responder quem eles eram¿ Porque a atenção amorosa ela nunca é difusa,
a atenção amorosa parte de um núcleo em direção ao outro. Há uma unicidade na atenção amorosa tanto é
que tudo o mais se “apaga” em volta. É daqui pra ele, pra ela; é uma flecha dirigida a atenção amorosa. Você
chegou na festa começou olhar, bateu o olho: é aquela. Aquela que me interessa. E daí você começa
conversar, comprovou, além de bonita é legal; tem interesses convergentes, de repente é só pra ela que você
está olhando. Então, há uma unicidade. Por aí agente já pode excluir todas aquelas situações que estando
com alguém eu continuo olhando para os outros (isso não é amor). Não quer dizer que eu tenha que estar
morto, eu não estou morto; sexualmente eu não estou morto. Mesmo amando alguém. Eu posso sentir
desejo, eu posso me sentir atraído; mas atenção amorosa é por uma. Ninguém está aqui para praticar moral
de criança de quinta série, na vida adulta sabe que a gente ama e sente-se atraído por outras pessoas. Isso é
sinal de que tem sangue circulando nas veias. Mas você tem o dever de não confundir isso com a atenção
amorosa.

Existe uma coisa na relação, quando você estabelece uma relação amorosa, que o Julian Marias diz
que no momento que você estabelece uma relação “você sabe se ela terá futuro se desde o início se
estabelecer ali uma linguagem amorosa”. Vocês conhecem, vivem ou não, casais que se destratam; casais
que não se amam verbalmente – e a gente está longe de falar daquele nhenhenhém de namorado: “ah, meu
docinho; não é isso”. Existe uma coisa que tem que haver entre um casal, há certas palavras, há certas coisas
que nunca devem ser ditas entre um homem e uma mulher; que eu devo guardar isso para a briga com
qualquer outra pessoa menos com a minha mulher. Porque essas palavras principalmente para vocês
mulheres essas palavras elas são destrutivas de qualquer pureza, de qualquer origem, fonte, verdadeira de
amor que possa ver entre vocês. As palavras, sim, tem força porque as palavras – eu já expliquei isso – as
palavras elas dizem respeito a realidades. Então se eu digo a palavra “casa” remete a uma realidade que você
conhece que é a casa. Se eu digo a palavra “vagabunda” ela remete a uma realidade, e isto é muito sério.

Então, se nós homens (seres humanos) somos os únicos que temos linguagem é por que nós temos,
portanto, certo dever perante a própria criação em relação à dignidade da linguagem. É por isso que a gente
lê literatura, é por isso que a gente tem que falar o português minimamente correto é por isso que a gente
tem que ter um apreço por essas coisas. Porque a linguagem é um distintivo do homem “é uma das
instalações do ser humano”, segundo Julian Marias. Então eu preciso estar constantemente preocupado com
a dignidade da linguagem: há coisas que eu jamais devo falar para os meus filhos, há coisas que eu jamais
devo falar numa aula, há coisas que eu jamais devo falar a um decoro nas relações. E na relação entre homem
e mulher isso é ainda mais radical.

O Julian Marias diz que além da linguagem amorosa; uma coisa que sustenta o amor a dois é uma
característica que deve haver no homem e outra característica que deve haver na mulher. No homem deve
haver uma coisa e que quando ela não há mais entra em perigo ali, a relação amorosa, no homem deve haver
uma coisa chamada entusiasmo. Um homem que não está entusiasmado pela própria mulher põe em risco
a relação; o entusiasmo é uma força vibrante é uma coisa que põe a gente em direção ao outro. O cara está
lá no trabalho lembra dela e, mesmo quando ele ver uma outra mulher bonita, ele lembra da mulher dele.
Esse tipo de coisa entusiasmo da convivência, do querer ficar perto; na relação amorosa um homem sem
entusiasmo põe tudo a perder. E no caso da mulher ela precisa de imaginação: uma mulher sem imaginação
é o que a gente chamou já de uma mulher seca, uma mulher que não gasta tempo projetando para a relação.
Quando o homem não está entusiasmado e a mulher não está imaginando possibilidades para o casal, não
há mais a relação amorosa. Aquela coisa da mulher passar o dia todo pensando o que ela vai fazer para ele à
noite, que ele diz para ela que eles vão sair – as mil coisas que ela já está imaginando que vão acontecer; o
gasto do tempo com isso. Isso é fundamental. A relação amorosa – na parte da mulher – depende em grande
medida disso, do seu poder de imaginar os dois; os dois não é só ela. Ela imagina os dois. Por isso que a gente
já falou outras vezes que a mulher é mais frustrada porque ela tem uma imaginação muito mais fértil, ela é
capaz de imaginar detalhes da relação, detalhes do que vai acontecer. A condição de expectante é o que
define a mulher. Por isso que um homem entusiasmado é um homem que presta atenção na mulher e nas
expectativas dela. Isso é o “casal perfeito”.

A mulher fica imaginando, mas daí ela faz muita expectativas. Mas calma lá, se o homem está
entusiasmado nela ele olhou para ela, ele prestou atenção na expectativa dela, ele soube ler os sinais que
ela foi deixando (porque ela deixa, vocês deixam milhões de sinais do que vocês querem, do que vocês estão
projetando etc.). Veja que a gente chega num patamar de muito caos no casamento quando nem o homem
sabe o que a mulher quer, nem a mulher gasta tanto tempo projetando para os dois. Quer dizer a coisa se
perdeu mesmo. O que eu estou falando aqui é de uma sintonia, uma intimidade que tem que ser cultivada
desde a primeira palavra proferida entre os dois. O amor não um sentimento, quem ama tem sentimentos
amorosos mas o amor não é um sentimento. O amor é uma determinação ontológica. Por que isso¿ Ontologia
na filosofia é o estudo do ser: nós estamos de alguma forma aqui nesse curso fazendo a ontologia da mulher,
o estudo do ser da mulher.

Então quando eu digo que o amor não é um sentimento, o amor é uma determinação ontológica eu
estou querendo dizer o seguinte: só ama aquele que muda, só ama aquele que não é mais o mesmo. Você
sabe que você tem amor verdadeiramente quando após uma relação você já não é mais o mesmo – mesmo
que tenha dado errado a relação, não ficaram juntos ou por que ele não quis. Por que é claro a condição de
amante ela nem sempre trás a reciprocidade: às vezes você está lá amando mesmo alguém, mas o outro não
está te amando; não importa, está acontecendo ali uma relação amorosa porque mesmo que o outro não
queira ele é parte da tua projeção; ele te altera mesmo não querendo. Mesmo não querendo ficar com você.
[0:30]

00h30 a 00h40

29:44:

A condição de amante nem sempre traz a reciprocidade. Tem isso. Muitas vezes você está lá, amando
mesmo alguém, mas o outro não está te mando. Não importa. Está acontecendo ali uma relação amorosa
porque mesmo que o outro não queira, ele é parte da tua projeção. Ele te altera, mesmo não querendo.
Mesmo não querendo ficar com você, ele te altera. Porque você está aberto a isso, você está se projetando
nesse sentido. Então, passando um tempo você vai desistir, vai ver que aquilo não vai dar em nada, etc etc...
Mas você amou. E ao final disso, você tem que fazer aquele balanço: já não sou mais o mesmo. Então, o amor
é um tipo de experiência, e é uma experiência radical. Porque ela vai na base da estrutura da vida. Isso que
eu estou falando, quando você pensa naquelas frases feitas do tipo “você tem que me amar assim, por que
eu sou assim”, “ou você me ama assim ou você não me ama”... Então não me ama. Não tem espaço para o
amor nesse tipo de comportamento. “Eu sou assim”. Qual é, você está morto? É preciso aceitar que você é
assim? Que você é mal-educado? Que você é grosso.... tem que aceitar tudo? A gente esqueceu aqui que
aqui relação amorosa, quando ela se estabelece, ela é um vai-e-vem. Eu não vou ficar anos numa relação
amorosa que só eu estou indo e não tem ninguém vindo na minha direção. Quer dizer, então eu tenho que
aceitar todas as tuas misérias? Eu aceito, via de regra eu aceito as tuas misérias porque eu aceito a tua
condição de ser humano. O ser humano é miserável mesmo. Mas só haverá amor aqui se soubermos que no
projeto a dois nós queremos superar essas coisas. Eu não vou procurar uma pessoa perfeita pra ficar comigo.
Primeiro porque ela não existe. Um parêntese: (havia uma brincadeira que eu fazia quando trabalhava na
PUC, com padres, freiras, etc: as únicas que acharam o par perfeito foram as irmãs, as religiosas. Estas
acharam o par perfeito. O “sujeito” não trai... que é o Cristo). Mas todas as outras, todas vocês aqui que não
optaram pelo hábito, pela vida religiosa, vocês estão no mesmo barco, é o barco da angústia, do amante, da
alteração pelo objeto amado, etc.

O Julián Marías diz uma frase que eu anotei aqui: “O amor é afetado pela falta de projeção
pessoal.” O que será que ele quis dizer com esta frase? O Julian Marias dedica várias páginas no livro A Mulher
no Século XX para falar sobre as novas relações, sobre os tipos de relação que excluem o matrimônio, onde
não acontece o sacramento do matrimônio. As pessoas tentam, se juntam, etc. Enfim, essas coisas que desde
o séc. XX as pessoas têm tentado, em vez de optar pelo tradicional matrimônio. E na análise dele, ele percebe
que esses relacionamentos duram ainda menos que os casamentos. Essas tentativas têm durado ainda
menos. Aliás o divórcio nunca esteve tão em alta quanto hoje. Por quê?

Aluna: Porque eles não têm um projeto juntos para o futuro...

Sim. Isso falta, mas isso falta até naquele casal que casou na igreja, etc, e se separou uns anos depois.
Deve ser uma outra coisa que o Julián Marías está olhando. Ele está olhando para um problema que endêmico
hoje: quando duas pessoas se juntam sem um longo tempo de namoro, um longo tempo de conhecimento,
elas não sabem com quem elas estão se juntando. Este é o problema. Então, olhem a frase: “O amor é afetado
pela falta de projeção pessoal.” Eu não sei que eu sou, o que dirá quem o outro é, na sociedade atual. Como
é que vão se juntar dois que não se sabem. Quer dizer, a relação amorosa, para ser um sucesso, para ela dar
certo, parte de um princípio, precisa de uma coisinha só: que você seja uma pessoa. E eu não estou de
brincadeira. É que nem todo mundo conquistou a condição de pessoalidade. A condição da pessoalidade é
fruto de uma larga experiência, de autoconhecimento, das minhas limitações, minha finitude, minhas
misérias, do que gosto, do que eu não gosto, do que eu abro mão, do que eu não abro mão de jeito nenhum,
do que é mortalmente interessante pra mim, do que eu abro mão com facilidade, aonde eu quero chegar
com a minha vida... Essas coisas as pessoas já não sabem mais hoje em dia. Então, você junta dois desses,
são dois adolescentes batendo a cabeça dentro de um apartamento. Vejam: antigamente, as experiências da
vida eram mais dramáticas, mais intensas, envolviam guerra, doença, um monte de coisas que não tinham
solução na época, isso fazia com que o homem “acumulasse vida”. Mesmo com mais sofrimento, mais dor,
com mais ausência, mais distância, a gente talhava a gente mesmo com mais propriedade. Veja, é muito raro
ler a biografia de um personagem do séc. XIX para traz que nãos seja “alguém”. Uma pessoa esmo, um bloco,
um Dom Quixote. É muito raro. Aliás, faça essa comparação na literatura. Gaste tempo lendo o Dom Quixote
de Miguel de Cervantes e depois leia romances do séc. XIX, e compare os personagens dos romances do
século XIX - desvairados, sofrendo por amor, por isso, por aquilo, “óh minha vida” – e compare com Dom
Quixote. Um homem, bloco, um peso na vida, que sabe o que quer, sabe o que vai fazer, que luta contra os
moinhos de vento porque que uma coisa só: aquilo era um homem. Claro que Cervantes está fazendo uma
alegoria, usando gracejos, mas ele está mostrando um tipo de homem – que não existe mais. Nós somos
mais esses moderninhos dos séculos XIX e XX: “Não sei se vou”, “não sei se quero”, “não sei se vou casar com
você”, “eu te quero, mas também não te quero”, “eu quero você mas eu quero as outras também”, “quero
você e quero voar”, “olha, quis você até ontem, hoje já não quero mais”... Olha isso está cada vez mais
comum, e eu não estou fazendo nenhum julgamento moral. Eu to no barco, estou vivendo o mesmo tempo,
não sou nenhum alienígena. Nós estamos mais adolescentes no jeito de ser. Ou seja, nós vivemos as coisas
mais intensamente, aqueles turbilhões de emoções, de sentimentos, de vontade de querer, mas a gente não
consegue reunir os estilhaços, a gente não consegue dar unicidade ao nosso eu. A gente não consegue amar
porque a agente não consegue ser. Ser alguém. Quer dizer, o casamento, uma vida a dois, juntar os trapos,
morar no mesmo apartamento, é uma decisão que altera toda uma biografia. Mas é preciso ter uma biografia
pra ser alterada. Até pra você poder dizer que foi um fracasso a relação, bem, mas qual era o sucesso
pretendido. O Julián Marias diz uma coisa que eu acho ainda mais cruel, ele cutuca ainda mais. Ele diz assim:
dificilmente a pessoa que entrou numa relação furada, não sabe que entrou numa relação furada. Ele fala
com outras palavras mais elegantes, mas estou citando de cabeça. Diz ele, dificilmente alguém entrou numa
relação, sofreu, saiu dela, e não sabia que estava entrando numa furada. A gente sabe. E porque a gente
entra: Porque a gente quer. Ou seja, a gente não tem domínio da gente mesmo. E vejam o paradoxo: quanto
menos domínio eu tenho de mim, mais domínio do outro eu quero ter. Não é assim? Eu quero prever a
atitude dele. Eu quero que ele faça exatamente aquilo que eu quero. Eu quero ter algum alívio, dominando
o outro, pelo menos. E se ele não faz aquilo que eu quero que ele faça, a minha vida interior vira um caos. E
existem várias formas de remediar a situação. Tem aquelas pessoas que por não dominarem a si mesmas,
estabelecem sentenças irrevogáveis sobre si mesmo 40:06

00h40 a 00h50

00:39:52 - E existem várias formas de remediar a situação. Tem aquelas pessoas que, por não
dominarem a si mesmas, estabelecem sentenças irrevogáveis sobre si mesmos. Eu gosto de homem assim
‘ponto’! Se fizerem isso comigo não dá. E não vamos revisitar a questão que é muito perigoso. Eu não tenho
domínio da nebulosidade que compõe todo o ser humano. Mesmo porque eu não tenho nem as lanternas
certas para iluminar isso. Vai ver é por isso que estou nesse curso. Vai ver eu estou precisando de uma
lanterna. Vai ver eu estou precisando... Lancei um S.O.S. e parece que alguém me ouviu. E eu estou aqui, tem
um baita de um porão aqui dentro que eu nunca entro que já faz mil anos que eu não troco a lâmpada e que
essas coisas começam a me deixar tão nervosa. Tão nervosa, que uma hora eu vou ter que abrir esse porão.
E vão sair cobras e lagartos de lá de dentro e você vai ter que estar minimamente equilibrada para aguentar
as cobras e os lagartos que vão sair. Vai ter que se abrir. De novo, abertura.

Próximo passo. O Ortega e Gasset, que foi o mestre o Julián Marías, grande filósofo do inicio do
século XX. Ele dizia uma seguinte frase: Eu sou eu em minha circunstância. Quer dizer, eu nunca estou
sozinho. Eu Tiago, de tudo o que me circunda. A vida do Tiago contém a Gla, o Bernardo e o João Pedro, a
sala de aula, o Brasil, o século XXI, as obras do Julián Marías, a dor de barriga, a gripe. Tudo isso acompanha
a circunstância do Tiago. E o Ortega e Gasset diz: e se eu não salvo a minha circunstância, é a mim que eu me
perco. Então você não está solto no mundo. Você está sempre instalado em uma circunstancia. E você pode
lutar contra ela Você pode fazer de conta que ela não está acontecendo. Ah, faz de conta que não tem nada,
que não tem nenhuma água batendo aqui no meu casco. Quase virando o meu barco. Faz de conta que não
está acontecendo nada. O barco está quase virando e eu continuo achando que o mar está calmo. E eu tomo
aquele remédio para dormir e tudo continua bem. E o barco lá, e a onde está virando. E eu não quero a
circunstância. Mas se você não salvá-la é você que se perderá. E diz o Julián Marías: a mais radical das
circunstancias é a necessidade de amar. Ele diz isso. Todos os amores, todos, o amor que nos temos pelos
nossos filhos, quem já é mãe, o amor que nós temos pelos nossos pais, o amor que nós temos pela pátria, o
amor que nós temos pela vida intelectual. Nós temos por carro, paixões em geral, qualquer tipo de amor que
a gente tem, pelos animais, diz o Tem um só núcleo e uma só origem. O amor entre o homem e a mulher. É
esse tipo de amor que possibilita todo o tipo de amor. Porque é este amor entre homem e a mulher o mais
fecundo de todos os amores. Tanto é que desse amor saem novas criaturas. Veja só. Esta é uma circunstância
com a qual você não tem como fugir, afazer de conta que ela não é sua. Existe uma necessidade presente na
sua circunstância, ou seja, na sua vida que merece ser salva por você essa necessidade de amor isso define o
ser humano, nós necessitamos amar. Nós podemos sim passar uma vida toda sozinho. Por mil coisas que
deram erradas. Porque não era a pessoa ou porque a pessoa certa aconteceu uma tragédia. Enfim, mas o
fato é que você amou. O que você teve que dar uma resposta a essa necessidade. E eu digo mais. Conforme
você se relacionou com essa circunstância, com essa necessidade é assim que acontecerão todos os outros
amores. Eles estão ligados a este. Aquele sujeito que ama demais o verde. A eu amo o verde. Então me
mostra o verde concretamente que você ama. Você ama uma coisa em abstrato, um conceito. Você ama a
natureza. Se você ficar gastando tempo amando a natureza. Você não ama um cachorro. Por que você não
faz uma coisa concreta e objetiva por algo que pode ser objeto de amor. As pessoas hoje, ilusoriamente,
gastam tempo com amores abstratos, porque isso é uma solução (das piores possíveis) àquele amor que elas
não vivem na base: o amor radical entre uma pessoa e outra, ente um homem eu uma mulher.

Se você for fazer um questionário com os revolucionários do tipo Chê Guevara ou fulano que passa
a vida tentando salvar a baleia, na maior grande parte das vezes eles são solteiros ou têm problemas na vida
amorosa. Que coincidência, né? O cara quer salvar o mundo, mas ele não consegue de relacionar com uma
pessoa.

Você entende porque o Julián Marias dá uma importância e uma gravidade pro amor entre o homem
e a mulher. Se a coisa aqui não acontecer ela não acontecerá em nenhum outro campo do amor.
É quase que a sua biografia depende da tua relação amorosa. A tua biografia depende do seu sucesso,
da sua felicidade amorosa. O Julián Marías diz assim: o amor entre homem e mulher é o amor em sentido
rigoroso. E aí ele estabelece uma diferença: uma coisa é o amor e outra coisa é o enamoramento. Eu acho
coisa mais linda. A gente ama muitas coisas, mas enamorar-se apenas por alguém. E o que é o
enamoramento? O enamoramento é quando a pessoa, aquela e mais nenhuma outra, é o meu projeto
principal. Eu não tenho projetos com ela, projetos com ela seria um ato de amor. Por exemplo: Eu vou abrir
um negócio com a Aline. Nós vamos começar a vender tortas de limão da Mari. Então veja, eu tenho um
projeto com a Aline, sou amigo da Aline. É um projeto amoroso. É uma coisa para fazer o bem para nossas
famílias, etc... Isso é uma coisa, isso poder ter amor sim. Outra coisa é eu pensar assim: a minha vida não
será plena e não se realizará sem a Aline. Isso é outra coisa. Aí eu não estou tendo um projeto com a Aline, a
Aline é o meu projeto. Daí fica mais doloroso ainda... O Julián Marías diz... Aline pode a até morrer que eu
continuarei tentando realizar o meu projeto dela, em forma de privação. Quando estou enamorado eu estou
desde a minha raiz alterado em todos os meus hábitos, em todos os meus planos, em todos os meus projetos
pela realidade do outro. Ele diz assim. O Julian Marias está falando do que ele fez. É um teórico que está
falando do que ele viveu. Ele amou a Lolita. A sua esposa que morreu 30 anos antes dele. Em uma das suas
últimas entrevistas que eu vi dele, antes dele morrer, ele disse abertamente “Eu choro todos os dias a morte
da Lolita.” E quando ele fala isso do enamoramento... Na mesma entrevista ele fala “Sem a Lolita (e ela está
presente de alguma forma no meu coração, ela está viva dentro de mim, ela é o meu projeto principal), sem
a Lolita eu já não sou mais eu.” 00:50

00h50 a 00h55

[49:50] Na mesma entrevista ele fala: “A Lolita está presente de alguma forma no coração, ela é meu
projeto principal; sem a Lolita, eu já não sou mais eu”. Este é o grau de amor ao qual a humanidade é
chamada. Qualquer coisa abaixo disso não é o amor, o amor entre homem e mulher. É esse tipo de
radicalidade de amor ao qual nós somos chamados.

O que é ser chamado? Às vezes a gente consegue entender o chamado, às vezes não; mas tem de
entender que foi chamado. Amar nesta magnitude: “eu não serei o mesmo sem ela, jamais”. Julián Marías
diz: “há um imperativo no amor, no enamoramento”. Qual imperativo? O mesmo da vocação: “vocare”, no
latim, quer dizer “chamar”; aquele que é vocacionado é chamado a alguma coisa. “Eu sou vocacionado ao
magistério”: eu sou chamado a fazer isto aqui; e dou uma resposta para a vida: “aceito” – poderia recusar, e
sofrer a vida inteira. Vocês entendem que a vocação é uma coisa que a vida impõe? Muitas vezes vocês
podem ler por aí: “ah, você tem que construir sua vocação” – não, vocação não se constrói: vocação se
admite. Se você fizer – e por isso eu pratico a bioiatria – a anamnese, a revisitação, da sua história, você vai
ver que aquilo que você nasceu para fazer já está lá desde a sua infância. Não tem “construção” nisso aqui.
A vida espera algo de você; para os religiosos, Deus espera algo de você: Deus te fez, você é um projeto. Olha
que coisa; a gente só está falando de projeto [neste curso]: você é um projeto divino – a coisa para mim mais
óbvia no mundo. E desde a infância Ele dá pistas, porque não é sádico, não brinca de gato e rato: “vamos ver
se ele descobre a vocação dele, hahaha” – não é assim que Ele opera, tenho certeza. Quando olho para a
minha história vejo que não foi assim: ele me deu pistas desde o começo, algumas delas escancaradas… era
só prestar atenção, que meu destino estava ali na minha frente. Bati um pouco a cabeça ali e ali, mas olha:
quase sempre fiz coisas parecidas a isto que estou fazendo.
A vocação é uma imposição da vida que exige uma resposta: “aceito”. Diz Julián Marías: “O
enamoramento é como uma vocação”: você, no fundo, no fundo, não escolhe quem você ama; no fundo, no
fundo, no fundo, você aceita: você admite, você confessa: “é ela”. É aquela pessoa. E o que é que você faz:
você vai realizar a vocação, o enamoramento – realizar… você vai precisar colocar aquilo em forma pessoal:
milhões de pessoas são chamadas a serem professores, como eu, mas só eu sou o professor Tiago. Eu sou
chamado pela vida a dar uma resposta a algo que ela já está impondo para mim, a vocação do professor, mas
eu tenho a liberdade de dar o tom, o ethos, o argumento, a história narrativa dessa vocação; essa é minha
responsabilidade. Viver não é fazer as perguntas, inventar os teus caminhos: viver é uma coisa bem mais
simples e humilhante do que isso. Viver é confessar o teu destino. Existe algo pré-disposto para você, você
gostando ou não; e você tem de realizar aquilo; e, como aquilo diz respeito à tua essência, se você realizar
você vai ser feliz.

Se você amar aquela pessoa que a realidade te impôs para amar – porque a realidade impõe, você
sabe disso: não é um “ah, até que ela é bacaninha, eu me interessei”, isso é outra coisa: o amor é uma coisa
que você sabe que você está rendido para aquela situação… o que te sobra ali é a liberdade de como escrever
aquela história a dois. Como. Como fazer uma biografia daquela relação… mas tem de ser aquela pessoa. Só
resta o “como vou escrever”? Só há esta dúvida. Você pode fugir – “não quero”, “não, não, não pode ser ele
etc.”, “minha mãe diz que não pode” –, mas isso é a liberdade humana, que Deus preserva; você é livre até
para ir para o Inferno. Não se esqueça disso. Tanto para ir para o Céu quanto para ir para o Inferno você é
livre. Todo mundo que está no Inferno está lá porque quer. Porque não quis amar a Deus.

O Amor é uma vocação pessoal. Julián Marías diz: “Ninguém elege o amor; é o amor que elege, é o
amor que chama; é uma necessidade que não obriga; é a forma suprema de aceitação do destino; é a entrega
livre ao enamoramento.” Isto é amar alguém. Se você quer saber o que é viver uma vocação plenamente, se
quer saber o que é ser feliz, ame. “Ai, Tiago, ando meio infeliz...” – ah, é? Qual é a solução? Ame. É só isso.
Ame. “Que resposta mais… parece coisa de cartão de Natal!” – é isso mesmo. Sto. Agostinho disse
exatamente isso lá no século V: “Ama e faz o que queres.”

Aluno: [Inaudível].

Resposta: Não. Você pode abrir, né? “Eu estou aberto para amar”; o amor começa com essa decisão
de amar; “eu vou amar” porque o amor é uma condição da vida humana: se eu me fechei para ele, eu me
fechei para a vida humana; se eu não quiser amar eu me fechei para a espécie… eu não realizarei a minha
espécie, não realizarei nenhum destino se não amar; por isso não é compreensível, nessa perspectiva, o
sujeito que não quer ter ninguém, que quer ficar sozinho para sempre. O celibato de freiras e padres, por
exemplo, já é outro departamento, porque eles não estão sozinhos, tem mais essa: eles vivem em
comunidade. É outra história, outro amor, outro enamoramento, do qual não temos tempo de falar agora.

Se você quer curar todos os seus draminhas, os seus probleminhas, eu digo para você: ame. Esta é a
única solução, amar. E nós perdemos em grande parte essa capacidade por amar demais a nós mesmos, por
cometer o erro de Narciso, por nos apaixonar por nós mesmos e querer que o outro se apaixone por nós na
mesma medida. Porque temos os nossos projetos, as nossas escolhas. “Eu quero fazer isso e aquilo, eu quero
construir, eu, eu, eu” – e o Narciso vai se enchendo, ficando cada vez maior, e o orgulho vai se inflando, e o
egoísmo vem junto, e a Soberba, que é um dos sete pecados capitais, vai te levando à ruína.

Aluno: Você tem então de equilibrar seu argumento pessoal, porque ele também não vai deixar de
existir.
Professor: Não, não vai. É como eu fiz com a minha vocação: faça esta analogia. Eu estava vivendo
uma vida quando me dei conta que devia ser professor. Eu estava em uma faculdade de direito quando me
dei conta disso. E o que fiz? Fiz uma adaptação, porque eu tinha de responder a esse chamado; aquilo era
uma imposição da vida. A mesma coisa na relação amorosa: você está lá vivendo, aí chegou a pessoa; aí você
viu que a vida colocou para você que é aquela pessoa; aí você faz agora a alteração da sua realidade com ela;
você não vai deixar de ter a sua biografia pessoal, não vai anular a si mesmo, porque… o que Julián Marías
diz (de novo): “O amor é afetado pela falta de projeção pessoal” – tem que continuar existindo uma pessoa
única ali, que no entanto será alterada como nunca pela relação amorosa. Nada a alterará mais do que isso.

Se eu quisesse ir ainda mais longe, para deixar vocês em mil parafusos, eu diria: “Como é que alguém
pode falar que ama a Deus, se não ama a uma pessoa como ela?” Peguem essas pessoas que vivem dentro
da Igreja, e rezam, rezam, rezam: “Eu amo o Senhor” – tudo bem, eu acredito na sua sinceridade, você quer
amar ao Senhor; mas você ama alguém, criatura, você ama alguma pessoa? Você abdica, se sacrifica, você
abre sua vida, seus projetos, você reconfigura o seu destino em nome de alguém? Como é que você vai amar
a Deus, que você não vê? Isto é bíblico.

Me parece que Deus faz um grande ensaio com a gente. O amor entre um homem e uma mulher é o
grande ensaio do amor que a gente tem que ter por Deus, que é um amor necessário. Sto. Agostinho de
novo: “O amor pelo outro é a base da sociedade humana”. Amar, amar, amar, amar. Tinha um padre amigo
meu chamado Miguel Ceschinni, que teve diabetes, precisou amputar a perna e acabou falecendo novo…
tive muitas conversas com ele; e ele me ensinou grande parte do pouquinho que eu sei sobre Igreja, teologia
etc. E as conversas com ele eram maravilhosas. Uma vez eu, com 17 anos, estava falando sobre uma pessoa
(alguém lá do meu grupo de jovens) – porque pessoas desinteressantes falam sobre pessoas, já pessoas
interessantes falam sobre coisas, realidades –, e disse: “Padre, mas eu não gosto dele”; e ele respondeu:
“Mas não precisa gostar; basta amar… Está bom para você?” Eu falei: “Ahn?” – “É, não tem que gostar,
mesmo. Basta amar.”

As nossas relações do dia-a-dia são muito pueris. São muito superficiais. São muito egoístas. São
muito orgulhosas. Esta é a grande verdade. A gente tá reclamando… claro que a gente tem problemas,
também, coisas com as quais lidar, com as quais precisamos de ajuda, terapia, remédio; não estou falando
que essas coisas não existam, mas que o grande drama humano é a falta de amor. E para uma mulher isto é
fatal. É para o homem também, mas para a mulher, com toda a sua vida interior, sua intimidade, sua vida
sentimental ainda mais pulsante do que a do homem, a falta de amor põe a perder uma vida inteira.

Vamos ler um parágrafo do Julián Marías, onde ele vai dar outro conceito de amor: “Em meu livro
Miguel de Unamuno, de 1943, comentando a acertada definição que Ortega dava do amor – ‘Entrega por
encantamento’ –, eu achava falta de outra nota essencial: a necessidade, conseqüência de seu caráter de
determinação ontológica, de algo que afeta a realidade pessoal, e não só os sentimentos e em geral a vida
psíquica; eu acrescentava que esta é a explicação do caráter matrimonial do amor realizado, diferentemente
do que se frustra ou, no máximo, inicia-se ou começa sem chegar ao que depois denominei instalação. Aquele
que ama de verdade, dizia eu, sente-se unido à pessoa amada por um vínculo necessário, independente da
vontade e dos sentimentos, porque reside em estratos muito mais profundos. Percebe que não pode
desligar-se da pessoa a quem ama; e ao falar dessa impossibilidade não quero dizer simplesmente que seja
penoso ou doloroso, e sim, com todo o rigor, não factível, porque o ser mesmo do amante complica e inclui
de um modo forçoso o do amado.” Isto é do livro A Mulher no Século XX, à p. 192.

Eu quero terminar dizendo o seguinte: a gente sabe que a gente ama quando a gente necessita do
outro para a gente ser quem a gente é. “Sem ele eu não sou eu.” Tamanha a complicação da relação: a gente
vai lá e volta, implica no outro e ele em mim.
AULA 09

00h00 a 00h10

Como falei na última aula, nessas aulas finais – 9°, 10° e 11° – íamos fazer uma mudança, subir para
um outro andar no nosso curso, porque até agora os filósofos espanhóis, especialmente Julian Marías, foram
os intelectuais e os pensadores que eu usei para montar as aulas, que eu mais citei, que mais comentei,
porque eu tinha um objetivo com isso nessas duas primeiras partes do curso; já nesta terceira e última parte
o objetivo é que a gente, enfim, com a ajuda principalmente da Gertrud von Le Fort, que é a autora de A
Mulher Eterna, trate da mulher numa outra perspectiva, que é a perspectiva da Eternidade.

Nós tratamos da mulher nessa perspectiva, claro, vez ou outra; nós falamos sobre isso em todas as
aulas, mas a tônica dessas primeiras aulas obviamente foi uma tônica de compreensão do mundo da mulher,
do mundo existencialmente falando. Ou seja, tudo que compete à mulher aqui no mundo. Essa foi a tônica
da primeira e da segunda parte do curso.

Agora a gente vai tentar olhá-la desde cima. Existem dois tipos de olhar a que o ser humano é
convidado a ver tudo que acontece com ele, tudo que ele presencia na vida, na realidade. Um chamamos de
sub specie aeternitatis e outro que chamamos sub specie mortis. Quer dizer, o ser humano tem o tempo
todo o direito de escolher com que perspectiva ele vai ver a vida. Se ele escolhe a perspectiva sub specie
mortis – sob o olhar da morte –, ele escolhe ver as coisas sob olhar do mundo, o olhar do cosmos.

Um exemplo bem concreto: a gente conhece alguém, essa pessoa ficou doente e faleceu muito jovem
– de um câncer, ou qualquer outra coisa que acabou levando nosso amigo, ou amiga, muito cedo segundo
os nossos padrões. Se eu me indigno com isso, se eu não consigo compreender, se eu não consigo aceitar, se
eu não consigo admitir, se eu acho um absurdo, se eu me revolto, estou olhando o fato sub specie mortis,
quer dizer, estou olhando o fato com os olhos do mundo, onde as coisas perecem. E muitas vezes nós não
aceitamos o perecimento das coisas, o perecimento da vida.

A minha própria vida pode ser vista nessa perspectiva, o meu envelhecimento. Os anos vão passando
e nós vamos envelhecendo, e se eu me sinto muito mal com isso é porque estou enxergando a mim mesmo
sub specie mortis.

Na maior parte das vezes, infelizmente, hoje, o ser humano vê as coisas com esse olhar; por isso o
ser humano hoje precisa guardar dinheiro; por isso o ser humano hoje tem medo das doenças; por isso o ser
humano hoje tem problema com a morte: porque ele vê as coisas com os olhos do mundo. E ver as coisas
com os olhos do mundo tem consequências, que são as consequências que nós, seres humanos moderninhos,
estamos sofrendo.

Se eu escolho ver as coisas sub specie aeternitatis – com o olhar da eternidade –, as coisas ganham
uma nova dimensão, elas têm um outro jeito de serem vistas. Sub specie aeternitatis é quando eu convido –
e aí vamos ter que entrar em um campo mais teológico – Deus para que Ele infunda em mim um olhar mais
penetrante sobre a realidade. Um olhar que vá no âmago das coisas, no âmago dos acontecimentos. Um
olhar que vá na essência das coisas.
Eu posso olhar aquela mesma doença que levou aquela pessoa muito jovem, que levou-a do nosso
convívio, procurando em todo aquele fato e na morte daquela minha amiga um sentido, que é, por exemplo,
o que Viktor Frankl faz com toda sua psicologia, a psicologia da busca do sentido da vida.

Viktor Frankl teve exatamente esse mesmo confronto dentro dele, quando ele estava no campo de
concentração, passando por todas aquelas coisas sem ter feito nada para merecer absolutamente aquilo, a
não ser ser judeu. Perdeu sua família, sua mulher, perdeu todo mundo e ele tinha as duas opções que todo
ser humano tem: eu eu vejo o que está acontecendo comigo sub specie mortis, ou eu vejo o que está
acontecendo comigo sob os olhos da eternidade, e aí deve ter algum sentido para isso aqui acontecer.

Quando eu era aluno do Olavo de Carvalho lembro de ele falar diversas vezes do sentimento de
revolta que existe no coração do homem moderno. O homem moderno é mais revoltado do que qualquer
outro homem que já existiu. A gente se indigna, a gente se revolta contra a estrutura mesma da realidade.
Sendo que os homens de antes da modernidade eram homens mais resignados, os homens admitiam,
confessavam a estrutura das coisas, a estrutura da vida e da realidade. Eles não combatiam a realidade. Eles
a admitiam.

Isso é uma questão de serenidade, sabedoria. Julian Marías também fala isso. Você tem que entender
que você não tem que só aceitar o que acontece no mundo, o que acontece consigo, tem que querer e admitir
aquilo também. É a diferença entre a a obediência e a docilidade. Quando uma criança é obediente quer
dizer que ela atende ao que o pai manda; quando ela é dócil quer dizer que ela quer a mesma coisa que o pai
quer. É diferente.

Nós, no olhar sub specie aeternitatis, somos convidados a ser dóceis, não obedientes. A obediência
não basta. Não basta eu falar “Ah!, tá bom! Já que tem que ser assim a minha vida, que seja!” Não basta isso.
Basta é querer a mesma coisa que a vida quer.

Ortega y Gasset falava que a vida é uma sequência de perguntas, a vida o tempo todo está lhe
inquerindo. O tempo todo a vida está lhe colocando contra a parede, fazendo-lhe pergunta: “O que você vai
fazer agora? O que você vai fazer agora?”, “O que você vai fazer da sua vida?”, “Para onde você vai?”, “Como
você vai educar seu filho?”, “Como você vai ganhar dinheiro?”. Toda hora a vida está lhe colando contra a
parede, por isso é sempre um tipo de resposta viver. Então quem consegue selecionar as verdadeiras
perguntas consegue viver melhor, porque nem toda pergunta merece ser respondida. Tem pergunta que não
merece resposta mesmo, e tem pergunta que a gente deveria gastar uma vida inteira tentando responder.

Quais são as perguntas que importam e quais as que não importam? Parece-me que as perguntas
que importam são aquelas que revelam o olhar da eternidade.

Estou falando de eternidade, mas o que é eternidade?

Existe o “para sempre” que a gente costuma ouvir em filme romântico, canções etc. “É para sempre
o nosso amor” etc. O “para sempre” significa que algo teve um começo mas não terá fim. Isso é durar para
sempre. E tem coisas que duram para sempre mesmo. Agora, o eterno é aquilo que não tem começo e não
tem fim.

Na definição de Boécio, que é um filósofo antigo, que considero a melhor definição, a eternidade é a
simultaneidade de todos os momentos. Tente imaginar isso. A simultaneidade de todos os momentos: isso é
a eternidade.
Nós, por estarmos no tempo, padecemos da sucessão. O que é o tempo? O tempo é sucessão de
fatos. Por isso que existe um passado, um presente – eu estou vivendo agora este momento da sucessão – e
um futuro, o próximo momento, o posterior. Então estar no tempo é estar condicionado a uma sucessão, ou
seja, a capítulos.

É por isso que a literatura é tão importante na compreensão da vida humana. Porque ao dividir-se
em capítulos, ao contar cena após cena da história de um personagem, ela está reproduzindo a estrutura da
vida humana. A vida humana acontece daquele jeito, do jeito que acontece num romance: uma coisa depois
da outra. Porque eu cometi um crime lá no começo eu senti culpa depois, e me resignei no final: Crime e
Castigo.

Mas a eternidade é tudo ao mesmo tempo. É a simultaneidade. Quer dizer que todos os tempos
estão lá. Então quando a gente para pensar na nossa vida e consegue ter um insight sobre a gente mesmo,
resgatando uma memória do passado, vendo como que aquilo ecoa em mim hoje e como que posso fazer
para ser diferente amanhã, quando eu consigo juntar um pouco do meu passado com um pouco das
projeções de futuro que eu quero para minha vida, eu tenho ali uma experiência análoga à da eternidade.

00h10 a 00h20

[0:10] E o que será, então, olhar a mulher sob a perspectiva da eternidade? Não deve ser a mesma
coisa que olhar o homem, porque existe a visão da eternidade sobre a espécie humana, isso é uma coisa.
Mas aqui nós vamos tentar fazer um recorte e pensar especificamente sobre a mulher. O que é que a
eternidade tem a dizer sobre a mulher? O que é que a eternidade espera da mulher?

Se eu perguntasse a vocês assim: qual é a origem e o fim da mulher?

Tivemos alguns santos na Igreja Católica que tentaram responder isso em relação ao ser humano.
Qual é o fim do ser humano, qual é a finalidade do ser humano? E dentro da filosofia cristã a resposta foi
nesse sentido: o ser humano nasceu e existe para louvar e glorificar a Deus. Essa é uma resposta cristã à
pergunta “qual é a finalidade do homem?”

Mas estou fazendo a pergunta especificamente sobre a mulher. Qual é a origem – porque a origem
esconde uma parte da finalidade – e o fim da mulher?

Minha pergunta é, sub specie aeternitatis, para que que vocês foram feitas? Porque sub specie mortis
a gente sabe para que que vocês foram feitas. Vocês foram feitas para ajudar na reprodução da espécie, para
todas as coisas que a gente sabe, que vive e sente no dia a dia. Mas com os olhos da eternidade, por que,
para que vocês foram feitas? É fácil responder essa pergunta?

Ou, de outro modo, Gertrude von Le Fort coloca assim a questão: qual é o mistério que envolve a
mulher?

Porque em toda realidade criado por Deus – e aí falaremos bastante de criação, dessa noção de Deus
criador porque é a noção, é a instalação radical que Gertrude von Le Fort vai fazer a análise no livro A Mulher
Eterna. Então, qual é o mistério? Tudo que existe tem mistério, tudo que foi feito por Deus tem mistério. Por
quê? Porque tudo que está presente na realidade fala de Deus. Absolutamente tudo. Tudo que foi feito por
Ele fala d’Ele. Um animal fala de Deus. Uma criança fala de Deus. Uma paisagem natural fala de Deus. O
homem fala de Deus, a existência dele comunica algo sobre o mistério divino, porque Deus é um mistério.
Então qual é o mistério da mulher? Sobre o que ela fala? A existência da mulher revela o quê? Que
aspecto da divindade é revelado pela mulher e não pelo homem? Porque é tão rica a criação do Homem que
existem dois modos de revelar a divindade: o homem e a mulher. O homem revela algo de Deus, o varão, e
a mulher revela outra coisa, a mulher expressa outra coisa. O que a mulher especificamente expressa?

Aí está o sentido da existência dela, a origem e o fim.

Aluna: (inaudível)

Prof.: A Religião? Em que sentido? Ah, sim. A religião é campo do domínio feminino. A gente vai
entender por que esse campo é domínio feminino.

Antes de entendermos isso falarei um pouquinho de Aristóteles para vocês. Aristóteles dizia que tudo
no ser humano tem uma finalidade. Não existe um ato do homem que não tenha um destino, que não tenha
um objetivo. Nenhum, nenhum.

Então o homem levanta de manhã para ir trabalhar. Então está aí a finalidade. O homem aguenta o
chefe chato dele porque quer ganhar o salário para sustentar a casa dele: está aí a finalidade. O homem sai
de casa para ir à padaria, ele está com fome: está aí a finalidade. O homem se casa, porque quer ter alguém,
quer ser pai: está aí a finalidade. Vocês vêm ao curso, deve ter uma finalidade. O homem não consegue agir
sem finalidade. Claro que a finalidade pode estar mais consciente, menos consciente, mas existe uma
finalidade para cada conduta humana.

Dito isso, deve existir uma finalidade no ser da mulher. Se cada conduta nossa revela uma finalidade,
o nosso ser deve revelar uma grande finalidade. É nesse sentido que eu estava falando qual é a origem e o
fim da mulher, qual é o mistério que envolve a mulher. Ou seja, qual é a finalidade nesse sentido?

Porque quando eu conseguir responder qual é a finalidade do ser da mulher, saberemos de maneira
mais consciente o que é que vocês mulheres vão ter que tentar revelar em cada atitude de vocês.

Quer dizer, se conseguirmos responder qual é a finalidade do ser feminino, nós poderemos ajudar as
mulheres que estão assistindo este curso a buscar essa finalidade em cada conduta delas. Porque cada
conduta dela, cada ato dela como mulher deve estar pleno do objetivo, da finalidade que revela todo seu
ser.

É por isso que a gente fala assim: “é inadmissível para a espécie humana que ele aprecie certos tipos
de coisas, que ele gaste tempo com certos tipos de coisas, que permita que certos tipos de coisas aconteçam
na vida dele; é inadmissível, é indigno do status do homem na realidade. Tem um monte de coisa da qual a
gente fala “meu Deus, como é que pode alguém fazer uma coisa dessa!?”

Vamos sair desse campo genérico e trazer apenas para a mulher: o que que é indigno da mulher? O
que que é uma traição da finalidade do ser da mulher? O que que vai contra, que é ilegítimo, no caso da
mulher, em certas condutas dela?

Gertrude von Le Fort diz assim, quando uma mulher passa a se preocupar com ela mesma, ela traiu
a si.

Aluna: Então, quando você está falando tudo isso, à minha cabeça só fica vindo “família, família”, é
o que fica para mim.
Prof.: Pode ser que porque na vida familiar Aline consiga expressar essa coisa que a gente está
tentando descobrir qual é. A vocação da Aline tem tudo a ver com a família. Não quer dizer que todas as
mulheres consigam na família. Estou pensando, por exemplo, nas mulheres religiosas, as freiras. Elas não têm
o mesmo tipo de convívio familiar que nós temos, que você como mulher tem. No caso da Aline me parece,
então, que na convivência de família ela consegue expressar, ou ela se sente mais segura para expressar isso
que é o que identifica a mulher. Então ela sabe na convivência familiar quando é que ela trai também. Porque
para você é mais forte isso. Pode ser que seja para todas aqui, pode ser que para alguma não seja, mas é ali.
Cada uma tem que procurar agora, dentro do seu argumento biográfico, do seu sistema de condutas e do
sentido da sua própria vida, onde é que trai e onde é que realiza o ser feminino. Mas para conseguir procurar
a gente precisa saber o que é então, qual é a grande finalidade do ser feminino. E eu tinha acabado de dizer
que para Gertrude von Le Fort, quando uma mulher preocupa-se primeiramente com ela mesma, ela acabou
de trair essa finalidade. Ela acabou de colocar em perigo a finalidade do ser feminino. E aí a gente começa a
entrar num caminho bem tênue, que é aquele caminho do “mas a mulher deve então a mulher deve sempre
se colocar abaixo de quem está perto dela, ela deve sempre se colocar a serviço, ela não deve nunca
expressar os seus desejos, o que ela precisa, ela deve sempre apenas querer atender aos outros, o que que
é o equilíbrio, onde fica a mulher nessa história toda? O que que é próprio da mulher?”

Aluna: Servir?

Prof.: É servir? Em que sentido de serviço?

Para responder isso nós vamos usar uma imagem que Gertrude von Le Fort usa no livro, que é a
imagem da própria Virgem Maria. Essa imagem é importante, mesmo que quem esteja assistindo, vamos
imaginar que não seja católica, ou que não acredite. É como símbolo que vamos pegar aqui Nossa Senhora.

O símbolo da Nossa Senhora é o seguinte: quando acontece a Anunciação, quando o anjo Gabriel vai
até Maria, acontece ali uma atitude da parte de Maria que é uma atitude reveladora, não só da condição da
vida humana, mas especificamente da condição da mulher. Quando Maria diz para o anjo Gabriel “Faça-se
em mim segundo a Sua vontade”, ali – e daí a concepção acontece, o próprio Deus concebe a Cristo no seio
da Virgem Maria, Cristo é gerado e não criado – acontece algo que define e revela algo do ser feminino.

00h20 a 00h30

[0:20] Quando Maria diz para o anjo Gabriel: “Faça-se em mim segundo a sua vontade” alí (e daí a
concepção acontece), enfim, o próprio Deus concebe a Cristo no seio da Virgem Maria; Cristo e gerado e não
criado etc. Ali acontece algo que define e revela algo do ser feminino que nas palavra de Gertrud Von Le Fort
são as seguintes: “na anunciação, e portanto concepção do próprio Cristo no seio da Virgem Maria, revela-
se a especificidade da mulher, dá a idéia universal do que pode ser a integração do religioso no humano”.
Veja como é perfeita a cena da anunciação. A cena da anunciação, acreditando ou não acreditando, se ela
funciona como símbolo para você ela é maravilhosa que é justamente o seguinte: é a cena em que o religioso
encontra o humano de uma maneira perfeita – há um casamento ali; no seio da Virgem Maria. E a ponte para
o encontro do religioso com o humano é a mulher. Isso só poderia ter acontecido com uma mulher. Maria é
ali preenchida – tanto é que é feita uma ode a Maria, ela é “cheia de graça” – do amor divino, preenchida da
realidade divina; é como se Maria ali se portasse como um receptáculo, como um vaso que é preenchido
metafisicamente, quer dizer, é preenchido com algo muito além dela. A mulher é o vaso que contém e que
comporta a mensagem do religioso.
Quer dizer, a figura de Maria – e por isso o culto dela é tão importante – é a figura do elemento
religioso que presta culto a Deus; o casamento perfeito, a religiosidade na sua expressão máxima está
personificada na figura de Maria.

Então a contemplação da realidade de Maria, da realidade mariana, e por isso daí fica um pouco
complicado para quem quer que não aceite ou não acredite, eu fico numa situação complicada aqui porque
eu estou expressando o livro da Gertrud Von Le Fort. Mas quando você toma Maria como uma realidade –
você não precisa entrar na discussão se Ela, enfim, está sentada junto de Deus ou não (a discussão entre
católicos e evangélicos) –, a realidade da pessoa Dela porque nisso evangélicos e católicos concordam: Ela
foi a Mãe do Senhor. Quando eu tomo a realidade dela eu vejo ali a perfeita expressão do religioso na vida
humana. Esse é um primeiro ponto importantíssimo da aula de hoje. Vejam a altura que a gente chegou
agora na aula; a altura de que vocês mulheres são o receptáculo do divino, e, portanto o fato do Cristo estar
aqui no ventre da Virgem é símbolo disso que estou falando; ou seja, uma outra frase da Gertrud: “é a mulher
que introduz os grandes mistérios [especificamente agora do cristianismo] na vida humana”. Os grande
mistérios acontecem por uma encarnação que só foi possível pela mulher.

Então a gente está falando aqui de uma coisa que a gente está tentando estabelecer, com uma
linguagem religiosa, a verdadeira dignidade da mulher. Vejam só qual é a verdadeira dignidade de vocês; e
portanto, o que seria trair a isso, e quais são os modos de traição desta dignidade; e quais são, não só os
modos de traição (às vezes a traição e inconsciente), mas os modos de revolta com esta condição porque ser
o receptáculo da divindade, ser o canal do religioso, é ter, sim, uma atitude mais passiva diante da realidade;
menos ativa, mais passiva. E por isso mais religiosa, menos mundana. O homem é aquele que tem uma
atitude mais ativa porque o homem representa o mundo.

A minha professora, a Luciane Amato, sempre disse isso, principalmente para os alunos homens: “O
mundo e dos homens”. E o que ela estava querendo dizer não é uma frase de machismo mas [que] o mundo,
o cosmos é dos homens; agora a penetração dos conteúdos religiosos que sustentam a vida humana aqui,
que significam a vida aqui isso só pode ser feito por intermédio da mulher. É por isso que perante o mundo
ela está numa condição passiva, porque passividade é o que a define, nesse sentido.

Vejam uma coisa que eu acho lindo da imagem de Gertrud Von Le Fort que ela usa: “olha pensa na
natureza, nos animais agora e o quanto as fêmeas da natureza são mais iluminadas quando estão com os
filhotes”. Quer dizer, é algo que acontece através dela como fêmea mas que não termina nela (que ela só é
canal) que verdadeiramente ilumina a sua própria existência. Isso parece ser a tônica do feminino. Isso parece
ser o feminino. Quer dizer, nunca começa e termina nela, ela é sempre um canal.

Todo mundo já deve ter visto em Animal Planet ou Globo Reporter a leoa com os leõezinhos em
torno dela e o quanto aquilo ilumina a cena, e o quanto aquilo parece estabelecer a função da fêmea mesmo.
Ela está falando de fêmea no geral. Vamos pensar agora na mulher: o quanto a abnegação o quanto a
aceitação de ser apenas esse vaso, esse canal; o quanto a admissão dessa condição, a aceitação e a confissão
dessa condição, o quanto isso é restaurador da dignidade da mulher. A mulher plenifica, a mulher atualiza a
sua verdadeira dignidade quando ela está lá com a cria nos braços; quando a luz sai dela e vai em direção ao
outro não nela. É por isso que a Gertrud fala “a mulher trai a si mesmo quando pensa em si mesmo”. E eu sei
que isso tem um monte de desdobramentos no mundo e que são desdobramentos cansativos porque
nenhuma mulher vai dizer que adora ficar o dia inteiro cuidando da vida de todo mundo: do filho, do marido
etc., e como isso é cansativo e como isso acaba com as forças dela, no final do dia ela quer mais é deitar e
dormir. Chega de filho! Chega de marido! Sim, essas coisas são cansativas, mas essas coisas serão ainda mais
cansativas quando vistas sub especie mortis. E mesmo que a mulher reclame ela terá que ter em algum
momento encontro com ela para reconhecer que no fundo é isso que dá sentido à própria existência dela.
Olha só o que a Gertrud fala: “Quanto mais profundamente ela é mulher mais ela não é ela”. Olha só
que coisa, que frase interessante. “visto que – continua a Gertrud – também a define é a oferta”. Quanto
mais mulher você é mais você oferece, mais você tira de você e passa para o outro, mais luz você lança no
que está além de você.

Quer dizer, essa coisa da mulher de estar com o filho no ventre, de nutrir uma vida e de colocar essa
vida pra fora dela; este é o símbolo. É uma vida que nasce aqui mas é pra fora não fica dentro dela; é sempre
pra fora dela. Quanto mais mulher ela é mais ela emana para fora dela, mais ela leva o olhar – principalmente
dos homens – para o que está para além dela, para o que esta acima dela, por isso ela é a ponte; por isso ela
é o receptáculo do religioso. E aí a Gertrud ainda fala da importância do véu porque durante muitos e muitos
séculos as mulheres usaram véu, e aqui no Brasil mesmo, elas deixaram de usar nas celebrações religiosas,
nas missas, não faz lá muito tempo. Pode ser que as mães ainda aqui de alguns tenham usado véu nas missas
porque ele foi “cair” ali no final da década de 60, início da década de 70. [0:30]

00h30 a 00h40

Pode ser que as mães de alguns tenham usado véu nas missas, porque ele foi cair no final da década
de 60, início da de 70, em que houve a mudança do rito da missa, o Concílio Vaticano II etc., e as mulheres
foram dispensados do véu. Mas não só nos ritos religiosos eles eram usados, o véu era uma parte da
vestimenta da mulher. E o que ele significava? E o que significa usar o véu?

As muçulmanas mantêm, e pelo mesmo motivo. É claro que quando falamos de muçulmanos etc.,
remetemos àquelas questões: elas não podem sensualizar os homens, têm que esconder o cabelo etc., existe
também essa preocupação no caso do islamismo, mas a função primeira do véu não é essa. A função primeira
do véu é lembrar algo que faz parte da condição da mulher. O véu é aquilo que mantem as coisas escondidas.

Quando uma mulher não se preocupa em manter o mistério ela também trai a si mesma. É aquela
coisa, quando ela se entrega para um homem, por exemplo. Até ali havia um mistério, no momento em que
ela se entrega é desfeito. Por isso que ela sempre, ao longo da história, cuidou muito em relação a isso, para
quem ela ia se entregar, como isso ia ser, como ela imaginava isso e como o homem tratava aquela situação,
e como é triste quando o homem não dá a devida importância e não trata adequadamente aquilo, e as
mulheres sofreram muito por causa disso também.

O véu sempre representou o que a mulher no fundo representa: ela é aquela que mantém vivo tudo
aquilo que não pode ser lançado à luz do dia, de qualquer forma, tudo aquilo que não pode ser massificado,
tudo aquilo que deve ser mantido nos mistérios da vida.

Com o uso do véu ela mantem o atributo do invisível, e as coisas invisíveis são as coisas mais
importantes.

Mostre-me o amor! Não dá. Mostre-me a bondade etc. Você pode mostrar “gestos de”, mas o amor
não pode me mostrar. As coisas mais importantes são invisíveis, portanto, a mulher, quando usava o véu,
estava representando a sua própria missão como mulher, a sua própria finalidade como mulher, a finalidade
do manter as coisas invisíveis como devem ser mantidas, numa zona misteriosa que se revela pouco a pouco,
de maneira muito delicada, a quem se interessa.

Se eu me interessava por aquela mulher, então tinha que partir para a conquista daquela mulher, o
merecimento de seu amor, até que tirasse seu véu. Nos casamentos usava-se isso até um tempo atrás, o
noivo chegava e, para beijar, tirava o véu. Isso é cheio de símbolo, entende? O tirar o véu é: “estou
penetrando seu mistério”.

Gertrud diz: “Todos os valores cuja substância se acha realmente escondida do mundo”. É isso o que
o véu representa. “E na maior parte do tempo são traídas”.

A mulher tem o dever, a missão de resguardar todas as substâncias que ficam escondidas dos olhos
do mundo, todas as coisas que só podem ser vistas com os olhos da eternidade. Portanto, a masculinização
da mulher, nesse sentido, é, no mínimo, nefasta. É a corrupção das corrupções. A leitura do livro da Gertrud
é uma leitura que vai angustiando, angustiou a mim como homem, e imagino que uma mulher deve ficar
desesperada, porque ela vai, a cada página, devolvendo a responsabilidade da mulher com a atual condição
do mundo.

Aluna: Necessariamente, se ela não se vê como esse receptáculo, por exemplo, é um desvio?

Tiago Amorim: Para Gertrud sim. É uma corrupção do ser. É claro que existem milhões de formas de
ser isso existencialmente, mas o que defina a condição dela é isso. Existem outras maneiras de representar
isso, e acho que por isso temos tão poucas, por exemplo, críticas, filósofas, pensadoras, começaram a existir
mais de um tempo para cá, porque acho que para a mulher ter esse tipo de sucesso mundano e ao mesmo
tempo o sucesso na vida do espírito, é complicado. Por isso que são poucos os modelos que tempos, porque
ou temos um modelo como Santa Catarina de Siena, ou temos o modelo da vitoriosa do mundo, como
Margaret Thatcher.

Temos uma santa do séc. XX, Gianna Beretta Molla, uma mulher comum como qualquer outra,
casada, querendo ser mãe de família etc., que se tornou santa porque na hora do parto do filho, o médico,
nas condições da época não podia salvar os dois, foi uma complicação na hora do parto, e ele perguntou, “E
agora? Para salvar você vamos ter que matar a criança, não vai dar para salvar a criança e salvar você”. Ela
falou, “Não, salve a criança e mate a mim”. Essa foi a atitude dela, e ela é santa, é a padroeira das mães.

Existem, talvez, uma série de matizes entre a Santa Catarina de Siena – a santa, aquela que devotou
sua vida a um certo tipo de vetor, aqui religioso – e a Margaret Thatcher, que tem o sucesso do mundo. Tem
uma série de matizes entre uma coisa e outra. Acho que aquelas mulheres que não enxergam facilmente seu
meio de expressão, como esse de ser mãe de família, devem procurar algum desses matizes, porque existem.
Agora começa o trabalho de busca dos modelos. Lembrando que, seja qual for o modelo adequado, portanto
que vai fazer você efetivar algo existencialmente, esse modelo tem que resguardar a verdadeira missão do
feminino, que é essa das substâncias invisíveis.

Gertrud diz ainda: “O brilho, a luz da mulher, se extingue quando a mulher procura a si própria”. Isso
seria uma forma, inclusive, de masculinização da mulher, porque o homem está procurando a si própria
quase que o tempo todo.

“Ao sublinhar seus traços pessoais, a mulher destrói sua figura eterna”, quer dizer, a grande tentação
da mulher é colocar a si mesma em primeiro plano, a grande tentação da mulher é querer que comece e
termine nela a razão da vida. Se já é estranho ver um homem que acho que ele é o fim de si mesmo, numa
mulher a coisa fica ainda mais estranha, ainda mais fora da forma, a mulher corrompe diversas áreas de seu
ser quando faz isso.

Como isso está ecoando em vocês? O que estão pensando neste momento? Queria saber o que uma
mulher pensa ao ouvir uma coisa dessa, porque só consigo pensar como homem. Como homem sou tentado
a começar a querer entender um monte de problemas do mundo atual a partir disso. Como homem, porque
estou vendo do outro lado, um monte de coisa começa a ficar claro para mim quando começo a ver isso e
começo a olhar para as mulheres de hoje. Como mulher, como isso vai caindo?

Aluna: Vai caindo em conflito com o mundo de hoje, porque o mundo humano é uma coisa e, no
fundo, talvez... é o que deveria ser.

00h40 a 00h50

00:39:20 Como homem, veja, eu sou tentado começar a querer entender um monte de problemas
do mundo atual, a partir disso daqui. Por que para mim estou vendo do outro lado, um monte de coisas ficam
claras para mim. Quando eu começo a ver isso e começo a olhar para as mulheres de hoje. Um monte de
coisa começa a ficar clara para mim. Como homem. Mas como mulher como é que isso vai caindo?

Aluna - “Você caiu num conflito com o mundo de hoje.”.

Aluna 2 – O mais complicado é achar, é saber quais são os caminhos que podem aplicar? Como
expressar a finalidade? A família é uma coisa bem clara para mim. Tem mulheres que poderiam se doar para
outras coisas. Ou a própria Margaret Thatcher poderia ter se doado e ter sido esse modelo, mas como fazer?
É complicado saber quais os caminhos.

Tiago – Vocês percebem que quando admiramos a Margaret Thatcher , as atitudes, as decisões, a
vida pública dela. A estadista que ela foi. Todas as coisas quando a gente exalta são um tanto quanto
masculinas.

Aluna - Mas não poderia ser a natureza dela? Poderia ser um desperdício se ela não fosse a “Margaret
Thatcher”. Se ela tinha essa capacidade, não seria uma violência ela ficar em casa?

Tiago – Ah. Sim. Com certeza. Mas talvez a grande questão da Thatcher (é que a agora está ventando
explicações sobre uma grande personagem) tenha sido esta. Como ser esta, a estadista que me parecia que
ela era mesmo, porque nada é fake nela como estadista, e revelar aquilo tudo. Eu não sei qual era o grau de
consciência que a Thatcher tinha disso, mas enfim. O fato é que devia haver algum conflito na vida dela. E
quem conhece um pouquinho da biografia dela sabe que filho e marido deram um pouco de trabalho para
ela. Ela deve ter sofrido, em alguma medida ela deve ter sofrido.

Um sofrimento que um homem não teria. Então é nesse sentido que para a mulher fica mais
complicado mesmo. Mas eu concordo com você. Ela parece que nasceu para fazer aquilo. Se ela não fizesse
teria sido algum tipo de violência. E por isso que o Julian Marias, numa aula anterior que eu falei para vocês,
lembram? Até um certo momento da história século XVIII mais ou menos, o número de caminhos era tão
reduzido que não criavam angústia, ou era criar uma família ou era ir para o convento. Qual era angústia?
Nenhuma, né? É lá ou cá. Agora...Tudo bem, o Julian Marias diz, enriqueceu a vida. Então as mulheres agora
têm um monte de destinos possíveis, mas agora veio junto com isso a angustia. Qual seguir? Como fazer para
realizar isso e aquilo? A gente está pagando um preço por uma coisa que nós buscamos: novas possibilidades
de vida. E o mais engraçado de tudo: Não importa você ser deputado estadual, ou você ser dona de casa, ou
você ser dentista, a vida das mulheres está bem parecidinha. Esse é o paradoxo. Eu acho a coisa mais
interessante do mundo. A riqueza de vida interior, por exemplo, que existia há um tempo atrás quando
tinham menos caminhos possíveis e a riqueza da realidade das mulheres e dos homens (vale para os dois
isso) e o quanto está todo mundo tão parecido.
Eu atendo médica, advogada, atendo gente que não tem profissão, eu atendo gente que ficou em
casa 50 anos e reclama por causa disso, eu atendo aquela que só trabalhou e reclama por causa disso e está
todo mundo com a vida muito parecida. Mas que coisa estranha, hein? Que coisa no mínimo curiosa.

Aluna – Mas antigamente a vida também era muito mais parecida.

Thiago – Do ponto de vista do mundo, sim.

Aluna – Do ponto de vista da mulher...

Thiago – Do ponto de vista interior, não sei se era tão parecido assim. Não sei se os dilemas, os
draminhas eram tão parecidos assim como são hoje. Quase toda mulher que senta na minha frente eu quase
consigo prever qual vai ser o drama. Porque não foge muito de uma coisa aqui, entendeu? Não foge.

Aluna - E você acha que esses dramas vêm por causa da distância disso aqui?

Aluna 2 – E você acha que a

Thiago – Eu não tenho visto uma mulher com consciência deste drama de fundo, que é o drama da
finalidade do ser dela. Esse drama não está conscientizado ainda. Então ela se bate nos dramas psicológicos,
nos dramas históricos da vida dela. Mas ela tem muita dificuldade hoje (Eu estou falando “dela” porque o
assunto é mulher não homem, mas o homem mereceria uma aula também.), ela não consegue nem chegar
na raiz do problema. E eu não posso chegar na raiz do problema na primeira aula, no primeiro atendimento.
Eu preciso que ela chegue, mas a raiz do problema é este: Você não está conseguindo expressar a finalidade
do seu ser. É esse o problema!

Daí como que ele se revela? Ele se revela nesses draminhas aí que você está vivendo. Mas no fundo
é esse. Como é o problema do fundo dos homens para a seguinte finalidade de homem.

Aluna: - Então você entende que antigamente a mulher conseguia expressar sua finalidade?

Thiago: - A mulher tinha menos distrações, menos possibilidades. Ela ficava menos distante da
finalidade do ser.

Quando eu olho com os olhos do mundo, principalmente do mundo atual, é claro que eu acho pobre
isso aqui. Não tinha opção.

Aluna – Não sei se é pobre...

Thiago – Não pobre no pejorativo, mas como “poucas opções” mesmo.

Mas veja, nós temos lá os diários, relatos, etc. Estava todo mundo relativamente feliz. Hoje nós temos
o problema do psicologismo, que é o que muitos filósofos estudaram. Nunca demos tanta importância para
o que a gente fica pensando. Nunca demos tanta importância para os problemas psicológicos. Por isso que
os consultórios estão cheios.

Elas davam menos importância para isso, porque na verdade elas estavam mais em contado com o
drama de fundo. E o drama de fundo não é psicológico. O drama de fundo é muito mais do que psicológico.
O drama de fundo é o sentido da própria existência.

Enquanto a gente fica preocupado com os dramas psicológicos a gente não está preocupado com o
drama do fundo. Não deixa de ser uma autodefesa ficar tratando de draminhas psicológicos. Para não falar
do que realmente importa. Vamos falar dos probleminhas...O problema é lá na raiz. Eu com o meu ser. As
minhas atitudes no meu dia a dia não revelando a finalidade do meu ser. Esse é um problema de fundo. Aí
diz o Olavo de Carvalho, quando eu me revolto em relação a isso eu me torno um revolucionário moderno.

A mente das pessoas revolucionárias, das que querem mudar as coisas, que não aceitam que o
mundo seja assim, etc... Que preguiça dessas pessoas. Elas têm um problema com a própria condição. Eu falo
a frase do Macunaíma quando vejo uma pessoa dessas: “Ai que preguiça! ” Então você quer mudar o mundo?
Ai que preguiça! Como diz o proverbio árabe: “Quando te der vontade de mudar o mundo, dê três voltas na
sua casa. ” Basta fazer isso. Já resolve. Cura já metade.

Então vamos tratar do que realmente importa. A Gertude vonlefort trata assim, com remédio para a
doença certa. A doença certa é essa e não as outras. As outras são a ponta do iceberg. ‘Não me entendo com
o meu marido, não consigo fazer isso e aquilo...’ Tudo bem, mas tudo isso revela uma mesma coisa: Qual é a
origem e a qual finalidade da mulher?

E não adianta. Nisso o movimento social feminista atrapalhou. Atrapalhou bastante. Porque ele
deslocou o foco do problema. Apesar da gente achar positivo todos os direitos conquistados. Não estou
falando isso. Mas o fato é que para conquistar todos esses direitos que vocês mereciam e conquistaram, teve
que desfocar do problema.

Aluna – E a gente luta cada vez mais. Essa semana o ABI brigando para que 30% eleitos sejam
mulheres...

Thiago – Acho positivo tudo o que foi conquistado enquanto direito, mas acho que há um grande
perigo nisso. Que é o perigo que todos nós escorregamos. Aí a gente esquece do problema de fundo. E a
gente fica tentando conquistar coisas neste andar (superficial) e aquele andar lá fica esquecido,
completamente esquecido.

Aluna – Acho que é um pouco difícil pensar assim nos dias de hoje.

Tiago – Nos dias de hoje é quase impossível pensar assim.

Aluna – Eu estava achando um pouco machista tudo isso, mas ao mesmo tempo eu queria esganar
as feministas.

Tiago – É lógico. Daí você pensa na marcha das vadias e compara com isso que eu estou falando.
00:50:04

00h50 a 00h55

Gertrud Von Le Fort diz que a raíz do pecado reside na mulher, falando do pecado original ela diz que
ele não acontece apenas porque Eva foi lá antes de Adão mas porque ela pegou aquele fruto como mulher,
ou seja: o receptáculo do divino, a ponte com o divino, a encarnação do religioso, o casamento perfeito entre
o humano e o religioso traiu na essência ao tomar o fruto. Ela diz exatamente o seguinte: “não é apenas Eva
mas é a Eva como mulher que pecou, portanto na sua substância feminina, na substância como mulher que
é a da espera religiosa, por isso Eva é mais culpada que Adão”. Era na mulher que a coisa teria que ser
corrompida, então a raíz do pecado é da mulher, segundo Gertrud Von Le Fort, uma mulher absolutamente
genial, porque ela traiu na substância. Adão foi atrás e traiu também, mas não é a substância de Adão ser a
ponte do religioso. A Eva contaminou para nós toda a dimensão religiosa, Gertrud diz isso já no início de seu
livro o que torna até difícil de assimilar.

De um modo geral para nós que fizemos catequese e ouvimos explicações sobre a Bíblia, etc., quando
se fala no pecado original, fala-se sobre a Eva. No fundo a Gertud está apenas confirmando isso, que a raíz
do pecado é de responsabilidade da mulher. Então ela diz que há inúmeros exemplos que confirmam a sua
tese, porque é a mulher quem amamenta e cria e gera os próximos homens e mulheres e o pecado que pode
ser cortado ou continuado ali. A mulher tem uma responsabilidade grande sobre isso. Eu não fico espantado
que o homem faça uma letra de funk chamando a mulher disso ou daquilo, eu fico mais espantado que a
mulher dance aquilo. O horror está nisso, não está no sujeito que teve a idéia porque idiotas sempre existiram
e irão existir, o pior é a mulher aceitar aquilo. A mulher que deveria cuspir e dar na cara do sujeito que faz
isso ainda paga pra ver e vai ao encontro daquilo, então ela aceitou mesmo a traição a inferioridade e tudo
que tem de mais perverso. Dentro da sua imaginação já perverteu totalmente o que é ser mulher e, perversão
é isso, é um erro de imaginação. O pervertido é aquele que imagina errado, ele vê uma criança e ao invés de
pensar em algo puro transforma aquilo em um objeto sexual, é uma imaginação completamente corrompida.

A mulher que aceita esse tipo de coisa e ainda aceita e admira é uma pervertida mesmo, e ela
perverte no que tem de mais substancial da sua condição. Vejam quantas consequências decorrentes disso
podemos tirar, como por exemplo: uma mulher que não reza. Como fica? A é só vocês não rezarem e verão
como ficará o negócio aqui pois a graça é feminina. Quando uma mãe não reza por um filho, não que o pai
não deva rezar, mas ela está traindo na substância., o que torna muito mais grave do que quando um homem
deixa de fazer. Gertrud diz em seu livro que os homens temiam as mulheres antigamente, dando o exemplo
das bruxas no final da idade média, início da idade moderna, na verdade estavam pervertendo uma coisa que
é delas, que é ser o canal do divino, por isso mesmo só poderiam haver bruxas e não bruxos. Os homens
temiam as mulheres pela finalidade metafisica que elas tinham, quando chegou nas bruxas eles temiam por
outros motivos também porque criam que ela poderia fazer acontecer algo ruim com ele apenas espetando
um bonequinho. Os egípcios eram outro exemplo que temiam as mulheres. Então ela continua: “hoje o
pecado da mulher se materializa numa trivialidade abjeta”. Ou seja: onde foi parar o mistério? Onde foi parar
o invisível? Aquilo que deveria ficar escondido debaixo do véu. A mulher ficou trivial e isso para Gertrud Von
Le Fort é abjeto. E o que fica trivial não desperta mais o medo, não desperta mais o pavor. É aquele medo de
reverência que o homem tinha pela mulher e não um medo de “ai que medo da minha mulher”, era a
reverência diante daquilo que ela representava. O homem já não tem mais esse medo.

Então lembrando lá da primeira aula, quando uma coisa deixa de se atualizar na mulher, deixa de
aparecer no outro polo que é o homem, um vai se tornando responsável pelo outro. Hoje está mais pesado
porque estamos aqui culpando a mulher no sentido mais radical da coisa, falando metafisicamente. E Gertrud
continua dizendo: “a mulher carrega a responsabilidade radical de todos os pecados pois pecar é trair no
domínio reservado a mulher”. Só poderia ter sido uma mulher a introduzir o pecado, só poderia ter sido uma
mulher a introduzir a possibilidade de salvação. Eva e Maria. Isso é ver a condição feminina sub espécie
aeternitatis.

Na próxima aula continuaremos falando da mulher eterna e se temos algum jeito de solucionar este
problema neste mundo agora, porque ao pensar na mulher como está sendo descrita pela Gertrud Von Le
Fort não precisamos ser muito gênios para ver que estamos realmente muito longe disso e o quanto isso é
ruim e quais são as consequências disso, é pra se pensar ao longo dos dias até a próxima aula.
AULA 10

00h00 a 00h10

Retomando o nosso curso. Hoje é nossa 10ª aula: temos essa e a próxima para encerrar o curso. Nas
últimas aulas eu citei poucos livros, isso me incomodou um pouco. Então eu trouxe outras indicações para
hoje e que vão ao encontro do tema de hoje. Para quem está aqui eu vou passar os livros para que elas vejam.
O primeiro deles (esse não encontra em português mas espanhol) do Miguel de Unamuno chama “O
Sentimento Trágico da Vida”, a pergunta que guia o livro é a pergunta que vai guiar a aula de hoje que é a
pergunta pela imortalidade. O outro é do nosso filósofo Julian Marias, esse também vai ao encontro das
últimas aulas do curso, chama “A Perspectiva Cristã”, um livro curto mas profundo, uma explicação da visão
cristã do mundo. Outro (que esse eu gosto bastante também, uma das leituras marcantes da minha vida) do
Gabriel Marcel chama “Os Homens contra o Homem”. Também muito a ver com a aula de hoje, vocês vão
saber depois por quê, “Uma Vida Presente – Memórias” do Julian Marias. E que tem muito a ver também
com essas últimas aulas do curso chama “Legenda Áurea” do Jacopo de Varazze, que é uma compilação da
vidas dos santos, são hagiografias que são a biografia dos santos. É um dos mais tradicionais nomes da Igreja,
biografados de maneira resumida. Segundo Olavo de Carvalho este livro tem o efeito de curar a sua alma.
Você vai conhecendo a vida dos santos e vai tomando aquilo como modelo. Que é mais ou menos isso que
vamos tratar hoje: como agir estando no mundo sem ser do mundo. Se eu pudesse resumir a aula de hoje, a
proposta de hoje seria mais ou menos isso: como que a mulher especialmente (mas hoje nós vamos
transcender o universo da mulher, falar da vida humana). Mas como que nós podemos estar no mundo e não
ser engolidos pelo mundo talvez essa seja uma das grandes angustias do homem moderno, do “homem
massa”, como diria Ortega y Gasset do ser humano atual que é esse que quando ele se deixa levar pelas
coisas do mundo, o mundo o carrega nos braços e ele vai confirmando e atualizando no seu dia-a-dia toda a
perspectiva mundana que é o que chamamos de subespecie mortis, então nós vamos falar um pouco sobre
isso hoje.

Nós lembramos aqui na aula 09 agente terminou falando, com ajuda da Gertrud Von Le Fort, do
símbolo feminino diante da vida, símbolo feminino que representa; a mulher representa como que um vaso
que contém o segredo do sagrado, a mulher usa o véu por que ela contém o mistério divino, e nós falamos
basicamente sobre isso na aula passada do quanto a mulher é co-responsável diante da vida e diante de
Deus, diante da eternidade – de ser essa ponte entre o mundo (como nós o conhecemos, o sentimos, o
vivemos aqui) e a vida espiritual. Então a mulher ela tem esta dimensão e esse dever – o que trás bastante
gravidade para o ser da mulher. Falamos do quanto que é de alguma forma, também, dramática essa
condição da mulher o que ela é e o que ela tem que ser. Isso na filosofia a gente sempre explica com aquele
famoso dever-ser kantiano: a gente é uma coisa e a gente tem que ser outra. A vida humana é feita disso: do
que está atualizado e do que não está atualizado, e que precisa ser atualizado. Na última aula teve, sob os
olhos da eternidade, uma imagem da mulher ideal. E aquilo não sei se angustiou ou se soou como eu queria
que soasse vocês quando ouviram a aula: nós temos aqui um plano ideal da mulher, o plano do dever-ser
então se você pudesse realizar todas as suas potências você seria aquilo que a Gertrud Von Le Fort está
chamando “A Mulher Eterna”. Claro, qual de nós realiza todas as suas potências, todas as suas capacidades?
Não, nós não realizamos. Mas a vida – ensina Aristóteles – é feita de escolha em relação aos bens que eu
quero atingir. Aristóteles, no seu livro Ética expõe uma hierarquia de bens. Por exemplo, ele fala: “o sujeito
vulgar – e ele não está fazendo nenhum julgamento moral aqui. Para ele “vulgar” é o sujeito com alma de
escravo – é aquele que basicamente procura prazer e dinheiro”. Então é o sujeito que passa sua vida; nas
escolhas que ele faz a grande maioria das vezes as escolhas que mais o define são as escolhas entre prazer e
dinheiro, entre garantir algum tipo de segurança financeira e garantir algum tipo de alivio existencial. Nós
aprendemos na filosofia que viver em busca do prazer é o não-viver porque nenhum ser humano, mesmo o
que esteja nas melhores condições existenciais possíveis, com muita saúde, com muito dinheiro, muito bom
em tudo, mesmo esse sujeito a vida dele será mais dor e incompletude que prazer. Qualquer ser humano
normal sabe que o prazer é quase que uma exceção na vida e que quando ela acontece ótimo mas que a vida
não deveria ser pautada pela busca dele.

Um dos segredos que aprendemos em filosofia, e é uma das coisas em que eu não tenho pudor em
espalhar essa mensagem porque estamos ressuscitar esse tipo de coisa, é que em vez de buscarmos prazer
precisamos fortalecer a própria vida, a própria existência e suportar o desprazer. O prazer (quando ele surgir)
ele pode surgir, sim, como um alívio, como um alento, mas a busca dele, a busca desesperada por ele isso
não condiz com a vida humana. Não vivemos na clave do prazer-falta de prazer isso é uma tensão secundária
na vida humana. Pois bem, isso e o vulgar para Aristóteles. Aí tem o sujeito com vocação política, o sujeito
com vocação política é aquele que busca a honra: “eu quero ser bem falado, eu quero ser bem comentado
na minha sociedade, eu quero que quando pensem em mim pensem em honestidade, em pessoa direita, que
todo mundo que olhe para mim me ache um sujeito ilibado etc.”[0:10]

00h10 a 00h20

[0:10] (...), que todo mundo que olhe para mim me ache um sujeito ilibado etc. Que dá para confiar,
gente boa. Esse é o sujeito político, por excelência. Claro que a noção de política de Aristóteles não é a nossa
noção de política eleitoreira. É política como dimensão da vida humana. Nós convivemos, precisamos uns
dos outros, isso é política. Então o sujeito que está preocupado com essa dimensão da vida como a mais
importante, esse sujeito está basicamente buscando a honra.

E existe um terceiro tipo de vida, que é a vida do contemplativo, como diz Aristóteles: o filósofo, o
sacerdote, os sábios, os intelectuais, os escritores. Esse sujeito busca basicamente aqueles bens que
justificam a si mesmos, que são considerados os maiores bens: a Justiça, a Verdade e por aí afora.

Você vê que nos outros dois tipos sujeitos, tanto no vulgar quanto no político, os bens que eles
procuram não justificam a si mesmos. Por exemplo, o sujeito que busca dinheiro não busca o dinheiro, ele
quer aquilo que o dinheiro pode dar. O dinheiro é um meio. O sujeito que busca a honra, a busca não termina
na honra mas nas consequências sócias de ser honrado. Agora, o sujeito que busca a justiça termina ali.
Ponto. Eu quero a justiça. Não tem nada além da justiça, a justiça é o bem em si mesmo. Então esse terceiro
tipo de vida, que para Aristóteles é o tipo mais feliz, claro, é aquele que no cômputo geral das escolhas do
indivíduo, das condutas dele, das ações dele, ele tencionou a vida dele em direção a esse tipo de bem. À
verdade, à justiça, ao Sumo Bem, por assim dizer, à suma desses tipos de bem.

Então Aristóteles está mais ou menos querendo dizer assim para nós, coisa que parece autoajuda
mas é verdade: você buscou a vida inteira dinheiro, prazer, honra etc. e agora está reclamando que não é
feliz. Mas qual foi a parte que você entendeu da vida que isso não daria felicidade? O que ele está querendo
dizer é: se você quer ser feliz então busque os bens que podem conduzir à felicidade. E esses bens são bens
de uma ordem superior. Então ou você tenciona sua vida em direção a isso, ou contenta-se com o tipo de
vida que terá ao gastar sua energia buscando outros tipos de bens.
Então, o ser humano atual é aquele que está fincado no tempo, fincado no espaço, totalmente
enraizado no mundo e está chateado por não ter as alegrias celestes. Então estamos totalmente mundanos,
como cidadãos do mundo mesmo, estamos vivendo a vida como se o hoje fosse a única coisa que tivéssemos
como posse, e aí, com o passar do tempo, vamos sentindo que algo está faltando, e esse algo que está
faltando não se encontra no mundo, ou pelo menos não tem sua origem no mundo, e aí temos aquela
angústia existencial. Aí a gente sente tédio, a gente fica deprê, aí a gente precisa de ajuda. Por quê? Porque
nós estamos exigindo deste plano algo que este plano não pode dar.

Então basicamente o primeiro ponto de hoje seria este: o homem moderno, quer dizer, o homem
pós-revoluções – as revoluções que alteraram a face do mundo, principalmente Revolução Francesa,
Revolução Industrial – é o homem mais mundano de todos.

Roger Scruton, por exemplo, acrescenta o seguinte: se tem algo que fez mal para o ser humano,
talvez mais mal do que qualquer outra das revoluções, foi uma coisa chamada televisão. Porque a televisão
parece que tirou do horizonte de consciência das pessoas qualquer noção supratemporal, supraespacial,
qualquer noção de existência extramundana, fora do mundo, fora do aprisionamento do presente, por assim
dizer. Então a televisão nos aprisiona no presente.

E quando admitimos para nós mesmos que a única coisa que existe é o presente, que não existe nada
para além do tempo, surge aquela angústia de tentar aproveitar ao máximo cada segundo da vida. De não
perder tempo. Porque afinal de contas, se a vida é o presente, e nada além do presente, a vida tem de ser
consumida no máximo que ela puder ofertar. Então eu tenho que viajar em todas as possibilidades que tiver,
tenho que ficar com o máximo de pessoas que eu conseguir. Tenho que aproveitar o máximo de festas a que
me convidarem. Tenho que passar menos tempo de domingo em casa. Eu tenho que gozar da vida, porque
afinal de contas é o agora que eu tenho. Eu só tenho isso. Só tenho o presente. Só tenho o tempo, e o tempo
presente. O passado já não está mais aqui comigo, o futuro ainda nem chegou, eu tenho é o presente, é com
ele que eu opero.

Então, se só tenho ele, estou aprisionado nele. Esse é o saldo das Revoluções que nós tivemos. Estou
aprisionado no presente, então eu preciso de alguma forma, desesperadamente, preencher o meu presente
de significado. Ao fazer isso, essa tentativa doida de preencher o presente de significado – por que que eu
falo “doida”? Porque não se preenche, é impossível, ninguém tem uma vida 24 horas na vibe total. É
impossível, uma hora o sujeito tem que parar para dormir, por exemplo. O sujeito vai para uma rave. Tudo
bem, ele aguenta às vezes ficar sem dormir 72 horas, não é? Eu escuto isso “Ah mas a gente toma isso,
aguenta ficar 48, 72 horas”, com aquele tipo de música repetitiva, tudo isso é feito para isso, inclusive. Tudo
dentro de uma mesma sintonia, então você não sai daquilo, é um aprisionamento. E o sujeito acha que ali
ele está tendo um gozo de liberdade. E aí passadas 70 horas o sujeito está lá na estafa total, o sujeito cai lá e
dorme na barraca. Quer dizer, ninguém consegue viver na vibe, no prazer total, intenso, toda hora. O melhor
sexo do mundo dura lá um certo tempo e depois tem que parar e tentar continuar mais tarde. E a gente tem
remédio hoje para não parar, inclusive. Não para, não para porque nada satisfaz.

Então a gente está numa angústia, que é a angústia do aprisionamento do presente. O presente que
poderia soar (?) e poderia ser sim uma dádiva na verdade se tornou prisão.

E aí, se eu faço um link disso que estou falando agora com a aula anterior a gente vê que em grande
medida a mulher tem aqui uma responsabilidade. É a responsabilidade de que ela deveria ser para nós o
bastião, por assim dizer, ela deveria ser para nós a baliza de que as coisas não estavam indo bem e de que o
mundo é mais do que o momento presente.
Quando a gente pega o livro da Gertrud von Le Fort, ele é divido lá em alguns capítulos, o último
capítulo tem por nome, se não me falha a memória, A Mulher Fora do Tempo. Começa com A Mulher Eterna,
depois tem A Mulher no Tempo, o último é A Mulher Fora do Tempo. Quando ela está nessa parte, A Mulher
Fora do Tempo, ela diz que a vitória da mulher e a situação em que a mulher mais consegue incarnar essa
vitória sobre o tempo, ou seja, a explosão do aprisionamento do momento presente, é quando a mulher se
torna mãe.

Por quê? Por que que a maternidade é o momento auge da simbologia da mulher e do que a Gertrud
está chamando de a Mulher Fora do Tempo? Por que que tem essa função?

Aluna: A mulher está gerando outra vida e vai se perpetuar.

Prof.: De alguma forma ela está repetindo algo que desde o início dos tempos acontece. Ela está
fecundando de novo a vida. Quer dizer, a vida não se esgota. Na maternidade temos uma renovação da vida.
Então a vida renova, renova, ela nunca cessa. Ou seja, a vida não é contida. Na maternidade nós
transgredimos os limites. A mulher, por ser o canal de nascimento de uma nova criatura, rompe os limites da
existência. Ela atualiza a eternidade no tempo. Isso é de uma beleza impressionante. A aceitação da
maternidade, a relação com a maternidade, é a relação que a mulher deve ter com o “dever ser” dela.
Quando falamos assim: qual é a imagem ideal do dever ser da mulher, aquela mulher eterna de que falamos
na aula anterior? É a maternidade. Ali nós vemos a transgressão daquela prisão. A vida ganha um novo sopro.
Exatamente isso acontece. Fisicamente também. Um novo sopro acontece.

É mais ou menos a explicação que o Olavo dá quando trata daquelas leis de Newton, da entropia.
Não sei se vocês conhecem um pouquinho de física mas, se nós aceitássemos algumas leis da física, algumas
leis newtonianas, aceitássemos como certas, o mundo já teria acabado.

00h20 a 00h30

[0:20] É mais ou menos a explicação que o Olavo de Carvalho dá quando ele trata das Leis de Newton
da entropia (não sei se vocês conhecem um pouquinho de física), mas se nós aceitássemos algumas leis da
física, algumas leis Newtonianas, aceitássemos elas como certas, o mundo já teria acabado. Se nós não
admitíssemos que acontecem coisas como milagres o mundo já teria acabado porque sei aceito as Leis da
Física, por exemplo, eu aceito que o mundo é como um campo de futebol que só conta com a sua própria
energia para existir. Em nenhum elemento externo, novo, entra naquele campo. Então é como se você
instalasse ali um gerador com um tempo útil de vida e você nunca pudesse abastecer aquele gerador; ou
seja, aquilo que foi feito que é o mundo (campo de futebol) tem que se alimentar com as forças que estão
ali, qualquer elemento novo que entrasse romperia com a lei da física newtoniana (essa é da entropia). Então
o Olavo de Carvalho explica assim: se não acontecessem milagres qualquer campo de força que existisse (o
universo é um campo de força) já teria esgotado as suas energias porque se ele só contasse com as suas
próprias forças ele já teria esgotado as forças, porque as energias se dissipam. O que é o milagre? O que é
maternidade? É quando naquele campo de forças eu introduzo novos elementos de energia e o campo se
renova – e ele pode continuar existindo.

É necessário logicamente a existência do milagre; ou um campo de força chamado Planeta Terra já


teria se esgotado. Você tem, por exemplo, o surgimento de novas espécies ao longo da história do mundo:
essas novas espécies são novos elementos de força e de energia neste campo. A maternidade mantém viva
alguma coisa; é uma nova energia que acontece no mundo. Pois bem, a pergunta que eu faço agora, dado
esse primeiro ponto, é uma pergunta da Gertrud Von Le Fort faz: “quando é que um homem perde o seu
valor?” Tudo aquilo que nós esperamos do símbolo “homem”, da existência masculina... Vocês entendem
que a função do vaso é conter alguma coisa: a mulher ela contém um segredo, ela contém um mistério que
é o mistério da divindade, porém esse mistério precisa assumir uma forma no mundo, ele precisa de uma
plasticidade, por assim dizer; quem dá essa forma no mundo é o homem. O homem é aquele que comunicado
do segredo da vida, que está na mulher, ele dá uma forma para isso na história; que como diz a Gertrud Von
Le Fort: “Sabemos que existe 50% de homens e 50% de mulheres, mas quem dá a formas da história são os
homens”. Essa frase soaria muito machista mas são os homens que – pelo menos até agora a história tem
sido assim. A mulher ela contém o segredo; ela comunica esse segredo na relação com o homem; e aí o
homem dá uma expressão plástica para aquilo que é sua ação na história, no mundo. O homem não vive sem
os segredos da mulher e ela não vive sem a fecundação do homem no mundo (que é mais ou menos assim
que acontece, também, no ato sexual). No fundo o segredo acontece dentro da mulher (a gestação: é dentro
dela que acontece) mas é preciso que o homem vá e insira um elemento; é isso que o homem faz ao longo
da história: ele toma o segredo e dá uma forma plástica para aquilo.

Voltando à pergunta: quando que um homem perde o seu valor? Essa pergunta ela teria vários níveis;
você poderia perguntar “quando que um homem perde valor para mim?” Num relacionamento. Quando foi
que você deu um pé na bunda de um sujeito, por exemplo. Quando ele queria ficar mais bonito que você
antes de sair e você começou a achar aquilo um pouco estranho. Se cansou; você ficou um pouco de saco
cheio e mando ele passear. Isso revela algo que é mais sério – que é a pergunta da Gertrud: “quando que um
homem perde o seu valor?”. Ou seja, não é um homem efetivamente falando. Os homens mudam no tempo,
claro; nós não vamos exigir de um homem hoje o que era o homem nas cruzadas medievais fazia. Mas existe
algo que é perene no homem medieval e no homem de hoje, algo que se espera que faz parte do dever-ser
dele. E se não cumpre “que vantagem Maria leva” de estar com esse homem, ou desse homem estar por aí.
Tem algo a ver com a virilidade. O que que é a virilidade? Quando você pensa num homem viril você pensa
no que? Força. Não tem espaço para fraqueza no homem viril. É o sujeito que não fica doente, que não
reclama, que está ali. “Não, mas deixa que eu faço”. “Deixa que eu saio na chuva”. Este é o cara! Por que a
gente sabe o que presta e o que não presta. A gente sabe o que é um homem de verdade. No fundo todo
mundo sabe. Então diz a Gertrud Von Le Fort: “o homem perde o seu valor quando ele não realiza a potência
de conter as forças brutas no mundo”. No mundo existem muitas forças e o homem tem uma grande missão:
contê-las! Barrá-las! Segurá-las com o braço! Ele pode não conseguir conter todas, mas ele tem que tentar
conter; este é o que define o homem, ele é uma força que contém outras.

Agora, quando é que uma mulher perde o seu valor? Quando ela perde a graça, quando ela quer
conter forças. Isso tudo são formas de perversão mesmo. Mas qual é a atitude? Para o homem é não querer
ser forte, e para a mulher? Se há motivos certos não querer ser mãe é sim um problema. Quando a mulher
se prostitui e podemos até pegar a palavra no sentido literal. E aí pense na condição de prostituta e entende
o que ela está querendo dizer. Quando a mulher se prostitui em vez de ofertar a vida ela só oferta o sexo;
ela só oferta o que lhe sobra. Quer dizer, enquanto o homem é chamado a conter as forças, a barrar as forças
e, portanto um homem fraco é um não-homem; a mulher quando se prostitui ela não oferece tudo que ela
pode oferecer e sacrificar – como falamos na aula passada –, ela oferece apenas o que resta e que é imediato
nela; seu próprio corpo. É o que lhe restou. A prostituição leva a mulher a ofertar o que lhe restou; ela não
tem mais nada a oferecer então oferece o corpo. Na nossa sociedade atual isso é altamente patente, você vê
aí pessoas famosas, tem sites de notícias, de fofoca; enfim você vai vê ali um monte de prostituição no sentido
que a Gertrud Von Le Fort está falando. Não precisa chegar ao ponto de cobrar, não é isso. Qual de nós nunca
se prostituiu? Todo mundo já se prostituiu, todo mundo já deu apenas o que estava sobrando. É o que a
prostituta faz: ela não perde o corpo dela na hora que oferece. [0:30]
00h30 a 00h40

[0:30] Todo mundo já deu apenas o que estava sobrando. É o que a prostituta faz: ela não perde o
corpo dela na hora em que ela oferece. É o que ela tem de imediato. Então, a “oferta” [de] que a Gertrude
fala na aula anterior que eu falava para vocês do ofertar tudo que ela tem, ofertar aquilo que ela tem de
sobre o que ela tem de pouco, ofertar o seu tempo, ofertar uma parte da sua biografia, tudo aquilo é a oferta
no sentido lato que nós falamos na aula passada, e aqui não, na prostituição ele oferta o que sobra, e ela
quer ser respeitada e amada por isso (tem mais essa ainda); ela só tem isso a oferecer (eu sei que é duro, é
cruel falar nesses termos mas é a realidade), ela só tem isso a oferecer e ela quer ser respeitada. Então é o
homem fraco que quer ser reconhecido como machinho. Inclusive é ele que grita mais alto porque como eu
aprendi com a Margaret Thatcher: “se você tem que dizer que você tem uma virtude então você não tem”.
“Respeite que eu sou homem” – já era! Então você não é. O fato que ter de dizer já prova que você não é.
Porque senão as pessoas estariam reconhecendo isso. Estaria atualizado na tua alma. O que está atualizado
é patente. O que não está atualizado é latente então isso eu não consigo ver. Então se a masculinidade e
virilidade não estão patente, então você tem que aceitar minha porçãozinha de dúvida.

Essa condição de mulher, esse dever-ser, não está patente em você aceita a minha pontinha de
dúvida é enxergar isso mesmo. Tudo isso como diz a Gertrude: “essa destruição do mistério feminino pela
prostituição ela atinge o nível abjeto de que tudo perdeu a sua vocação metafísica”. O que que ela está
querendo dizer com isso? De novo! Vamos pegar o exemplo da prostituta. Ela repete tantas vezes aquilo que
ela perdeu a noção de que aquilo ecoa na eternidade, de que aquilo tem conseqüências. E eu não estou
fazendo aqui fazendo nenhuma condenação da prostituta, não tem nada que ver com que eu estou falando,
estou falando do símbolo da prostituição porque também vamos lembrar aqui que Cristo falou que as
prostitutas vos precederam no Reino dos Céus, então agente não pode sair condenando prostituta nenhuma
aí porque é capaz de elas estarem na frente lá na hora. Mas enfim, o que nós estamos falando é do símbolo,
da corrupção do próprio dever-ser. O saldo disso, o saldo da prostituição da condição feminina, é ela achar
que nada extrapola mais o tempo, que nada ecoa fora do tempo porque não existe algo acima do tempo,
não existe a metafísica para essa mulher prostituída. Então ela pode se sujeitar a qualquer tipo de coisa;
afinal, as conseqüências são aqui e agora, apenas. Então se ela não pegou doença, nem ficou grávida, está
valendo. Se ela foi naquela festa e ela foi o objeto lá de não sei quantas pessoas então, beleza, nem uma
outra conseqüência. Então é esse tipo de coisa, é a gravidade sob essa perspectiva e essa luz que a Gertrude
está falando. Eu sei que é extremamente incomodo e radical porque na verdade é incomodo porque devolve
agente para um lugar que agente sempre deveria enxergar as coisas.

Quantos atos seus, quantas coisas que você faz você quando faz pensa assim: qual será a
conseqüência disso para daqui um ano? E a conseqüência disso para daqui dez anos? E a conseqüência disso
para depois da minha morte? Vocês fazem essa pergunta sobre cada decisão que vocês tomam, por exemplo?
Ir pra cá ou ir pra lá me levará a que lugar daqui vinte anos ou depois da morte. Vocês consideram que isso
é o famoso horizonte de consciência. Você tem um horizonte de consciência restrito? – “Não. Eu planejo
minha vida de dez em dez anos.” Nossa! Você se sente o máximo porque você planeja a sua vida de dez em
dez. O Julian Marias diz: se você tem planos apenas para esse mundo, mesmo que seja para daqui vinte,
trinta anos, você já está depressivo e não sabe. Porque o projeto que Julian Marias fala, as ilusões a respeito
da vida devem ultrapassar a morte. Por que dado que você não será aniquilado no dia da sua morte, você
continuará existindo, então você tem que ter planos para depois da morte. O quanto nós conseguimos, no
aprisionamento dos dias, no cotidiano, na repetição, na rotina, o quanto que agente consegue na rotina dos
dias mensurar os efeitos dos nossos atos? Considerando que a vida atravessa o tempo, vai para além do
tempo. [Há uma pergunta que eu proponho quando sugiro] a leitura do livro Tolstoi, “A Morte de Ivan Ilitch”
– o sujeito que passou ali uma vida de quarenta e poucos anos só pensando nos efeitos do tempo: “agora
preciso ter sucesso, preciso ser um grande juiz, preciso ser respeitado”. E aí de repente a morte se aproxima
e aí tudo muda de figura; o que era importante não é mais. E o que não era importante passa a ser. Nunca
ouviram falar do sujeito que mudou depois do infarto? É mais ou menos isso que eu estou falando.

Quer dizer, a vida diante de certas coisas, certos eventos, certas catástrofes (infelizmente), certos
tomadas de consciência – no melhor jeito: não precisa perder ninguém, sem passar por uma catástrofe
simplesmente uma tomada de consciência. Quando acontecem essas coisas conosco agente abre o nosso
horizonte, nosso horizonte se amplia e eu começo a enxergar a minha biografia, os meus atos; cada escolha
que eu faço como engrenagens de uma grande máquina que ecoa para além de mim. E aí é esse tipo de
conversa que dá para agente ter agora quando agente quiser propor a redenção da nossa própria imagem,
da nossa própria vida. Então vejam só. Agora vou usar aqui o Olavo de Carvalho, uma aula que eu assisti dele
em que ele explica isso. Ele diz assim: todos nós temos um eu, eu, Tiago. Quando alguém fala “Tiago” eu
respondo. É o meu eu que está se referindo. Todo mundo tem um eu. Mas esse eu tem níveis, ele tem
instâncias. Qual seria a instância mais superficial do eu? É o que o Olavo chama de “eu presencial”, ou seja,
é o eu agora. Por exemplo, você está com fome. Quem está com fome? O eu presencial. Esse, agora, nesse
momento. Ela está sentindo fome, ele vai lá e come e no instante seguinte ele sente sono ou ele sente
vontade de ler ou ele quer assistir um pouco de tevê ou ele quer ficar com o filho – este eu é o que agente
chama de “eu presencial”. Dentro da estrutura do eu, que é você, existe uma porção superficial chamada “eu
presencial”; o que o define é a transitoriedade de desejos e querer. A cada momento esse “eu presencial”,
quer dizer o eu do agora, ele quer uma coisa. Você pode estar querendo agora continuar vendo essa aula
como você pode estar querendo parar e fazer outra coisa, você pode ir embora e pensar na vida como você
por estar querendo se jogar do sexto andar. O eu presencial ele vive de um apetite provisório.

Depois dele, um pouquinho mais profundo, tem uma coisa chamada “eu social” que como o nome já
diz é aquele eu que se estabelece na relação com o outro. Este “eu social” é aquela parte do eu que conhece
um pouco das outras pessoas e de si mesmo através das outras pessoas porque isso é uma verdade da vida
humana: uma boa parte do que você sabe sobre você mesmo, vocês deve às outras pessoas. Por que no ser
humano acontece uma coisa chamada espelhismo, mesmo que seja para afirmar em você uma coisa contrária
do outro; funciona por que existe o outro. Por exemplo, você está diante de um cara que é muito paciente e
bonzinho (eu na frente de uma pessoa dessas) e eu conheço um pouco mais de mim ao pensar assim: “meu
Deus como ele consegue ser assim”. Por quê? Porque eu não sou. O outro funciona para mim; ele é um
espelho. E ás vezes funciona para dizer: “nossa, eu sou igualzinho a ele”, “isso é igualzinho a minha mãe”,
“isso é igualzinho meu pai”. Então a presença do outro e as relações que nós temos uns com os outros elas
definem essa outra parte do eu. [0:40]

00h40 a 00h50

[00:50:00] A presença do outro, as relações que nós tínhamos uns com os outros elas definem essa
outra parte do eu. O eu que não está sozinho, o eu que se reconhece nas relações. E, portanto, quando ele
não está em relação ele deixa de se reconhecer. Então cada vez que você estabelece uma relação com
alguém, e ali você começa esse processo de autoconhecimento e de conhecimento do outro, essa troca que
é sempre bilateral, você está falando aqui do “eu social”.

Por isso que os filósofos espanhóis dizem que comunicação, intimidade só existe dois a dois, não tem
3 o terceiro sempre está sobrando.

Você quer conversar um negócio sério, profundo, não vá em grupo. Não existe isso. As pessoas não
estarão lá em sintonia da comunicação de intimidade que exige o par. E estou falando assim, tanto homem
e mulher, amigo e amiga, amiga e amiga. A comunicação mais efetiva, a comunhão mais fecunda que existe
é entre dois. Se houver um terceiro alguém vai sobrar.

Claro que existem as situações que vocês saem em grupo e que obviamente você conversa sobre
tudo e o grupo participa. Mas em situações de intimidade, a gente reconhece que é uma coisa do olho no
olho, é um com o outro.

E existe um terceiro nível de eu, que é o “eu narrativo”. O que é o eu narrativo? É aquele eu que
refere-se a si mesmo e à sua própria história. Ou seja, todo o conjunto de experiências que você já teve com
você mesmo, com outra pessoa, sozinha, imaginária, factual, exterior, interior, tudo aquilo que você
conseguiu registrar sobre você e sobre sua vida está no seu “eu narrativo”. O seu “eu narrativo” é a porção
de história que você sabe de você mesmo.

Então podemos dizer assim, o seu “eu narrativo” é aquilo que você sabe a seu respeito.

Tanto é, que quando você conhece alguém, quando você vai ao terapeuta, quando você está
conhecendo seu futuro marido, você fala de você mesmo com base naquilo que você sabe de você mesmo.
Então você está usando naquele momento o seu “eu narrativo”, o seu eu que é o contador de história. De
tudo o que você conseguiu guardar de experiência de viver, de estar em relação com os outros, de ter papel
social, por aí afora.

Porém, tanto o “eu presencial”, o “eu social” e o “eu narrativo”, os três são transitórios e os três
mudam. Não é? O primeiro porque a cada novo presente você está desejando outra coisa. O segundo porque
as relações têm história e você vai encontrando as pessoas e vai mudando as suas relações, e vai
amadurecendo e vai incluindo gente e vai cortando gente. O “eu social” é dinâmico. O “eu narrativo” é... de
ontem para hoje aconteceram coisas com você que foram acrescidas... Foram costuradas às experiências
anteriores. Então o “eu narrativo” também está mudando porque ele está contado a história dele. Então ele
tem uma história até o dia do casamento, a partir do dia do casamento ele tem que contar esse capítulo
também.

Então os três “eus” são mutáveis. E aí fica nossa pergunta. (Se a explicação do Olavo terminasse aqui,
nós estaríamos em um baita de um problema. Por quê? Como é que você consegue se referir à criança que
você era e dizer que é o mesmo?) Se eu fosse apenas transitoriedade, se eu fosse apenas mudança no tempo,
seja em qualquer um dos três níveis de eu. Como eu poderia ter identidade?

Ou seja, aí vem a patê maravilhosa da história. Você tem um eu chamado substancial, aquele que
você é, sempre foi e sempre será. Este “eu” não muda, é sua alma essencial. Este eu é você.

Você só é capaz de perceber mudança porque alguma coisa não mudou. “Nossa, eu era tão bravo
antes. ”. Como é que você é capaz de avaliar a mudança? Como é que você consegue mensurar o quanto
você mudou? Porque existe um fundo perene não transitório chamado “eu substancial”. Quem você é
essencialmente.
Quando Deus te fez ele fez o “EU SUBSTANCIAL”. Ele fez a tua essência, ai você caiu no mundo e
adquiriu os outros “eus” ali. Você se tornou uma presença no mundo. Você começou a se relacionar com o
mundo e você começou a ter história.

Quando você vai na terapia qual eu que você trata? Bom, basicamente o eu narrativo, não é? O ego!
O que a psicologia chama de ego. Para que que isso importa? Para você saber que grande parte do tempo
você está gastando sua energia e seus pensamentos sobre os extratos dos “eus” que eu apresentei. Pouca
parte do tempo, para não querer dizer nunca, para ser um pouquinho esperançoso, você está realmente em
contato com o seu “eu substancial”.

Ou seja, o fundo perene, a realidade de fundo que permite que esses três outros eus existam. Quem
está com fome? Quem está se relacionando? Quem está contando a sua história? Qual é o fundo disso tudo?
Então, existe um problema quando a gente fala do “eu substancial”... Eu consigo conhecer o eu presencial –
estou com fome -, consigo conhecer o social e consigo conhecer o eu narrativo, eu me refiro a ele o tempo
todo. “Eu sempre gostei de música clássica...” Agora... Como que eu faço para conhecer meu eu substancial?
Não dá né? Eu não tenho meios de acessar o eu substancial. Então diz Olavo de Carvalho sobre o eu
substancial, que permite qualquer outro eu, só me cabe confessar que existe, admitir.” Eu sou uma realidade
contínua, perene e não transitória. Portanto, quando eu morrer, o que vai morrer? Aspectos do eu. Mas o eu
substancial persistirá.

O que que é o tempo? O mundo? E tudo isso que a gente gasta a maior parte da nossa energia e da
nossa vida? São como analogias dos aspectos do eu. O fim do mundo... O que é o fim do mundo? É o fim
destas ilusões. O fim do mundo, que acontecerá para cada um e nós na hora da nossa morte, é um
descortinar. Você vai parar de ficar olhando apenas o aspecto presencial, superficial, social, narrativo da
história e verá o núcleo da existência. Você adentrará o ser. Ou como diria o Olavo de Carvalho, quando a
gente morre a gente volta para a mente de Deus. Se descortina uma parte da realidade que é a parte
substancial. Porém, sem a qual nós não conseguiríamos dar um passo na vida. Quando você se refere a uma
pessoa, apesar de você estar usando o seu eu narrativo, o seu eu social, você só se refere a ela porque você
imagina que ela continua existindo. Ou seja, ela é um “eu substancial”. Você é capaz de fazer projetos com
aquela pessoa, com aquela pessoa de hoje, mas que você espera que no futuro ela seja um pouquinho
diferente, porque ela é um “eu substancial”. Porque se ela fosse apenas um “eu social” e “eu presencial” dela
não dá muita esperança, né? Mas é porque ela é um eu substancial, ela é alguma coisa, é uma realidade.
Então quando você admite...

É a experiência de você pegar uma foto tua com cinco anos de idade e você olhar para aquela foto
com cinco anos de idade e veja, era outra pessoa, muito diferente dessa de hoje. Mas você olha e diz: “Olha
como eu era.” Eu. É o mesmo. Existe um princípio de identidade que para ser identidade é contínuo e o
mesmo. Então os outros “eus” (narrativo, social, presencial) fazem aqui analogia em relação ao tempo. O
tempo muda. O tempo é uma sucessão de eventos. Mas o segredo da vida, o segredo da existência, não está
na sucessão dos acontecimentos. Mas no argumento que costura todos os eventos. Naquilo que permite
como um fundo, debaixo do tempo, que os eventos aconteçam. Isto é a eternidade. O seu eu substancial
pertence e destinado à eternidade.

00h50 a 00h55
O tempo é uma sucessão de eventos, mas o segredo da vida e o segredo da existência não está na
sucessão dos eventos, e sim no argumento que costura todos os eventos, naquilo que permite no fundo,
debaixo do tempo que os eventos aconteçam. Isso é a eternidade. O seu eu substancial pertence e está
destinado à eternidade. Então não seria possível simplesmente você saber que é o mesmo de ontem, o fato
de nós ainda conseguirmos interagir a nós mesmos e conhecer aspectos da nossa vida e nos reportarmos a
aspectos da nossa existência, dar sentenças sobre nós mesmos, isso só é possível porque existe um fundo
perene que permite esse conhecimento do transitório. Então nós seres humanos com nosso eu social e
presencial, etecetera, conhecemos aspectos da vida, Deus conhece a vida em si mesmo porque Deus é o ato
do eu substancial. Qual é o conceito de eternidade? É a simultaneidade de todos os momentos. Tente
imaginar isso e você saberá o que é eternidade.

O Que é o eu substancial? É a simultaneidade de todos os “eus”. O eu substancial é aquele que


pertence a eternidade, o eu presencial, narrativo e social é o que pertence ao tempo e a sucessão das coisas
no tempo. Então o que eu tenho que fazer é me esforçar ao me deparar com a minha vida, com a minha
existência, com a minha vocação e meu sentido de vida, buscar olhando os fatos e as coisas que se sucedem
no tempo, buscar aquele fundo que permite que essas coisas aconteçam e que junta tudo isso dando sentido
a todas estas coisas, tenho que buscar aquela linha que junta tudo, o cimento de todas as coisas. Perguntar
pelo sentido da vida, perguntar pelo fio biográfico, o que o mundo espera de mim ou que Deus quer que eu
faça, é perguntar por este fundo perene. Quer dizer que a grande sacada sobre a sua vida, o “insight” maior
sobre a sua própria vida, seu destino e vocação, não está em fatos isolados da vida, mas está no argumento
que conjuga todos os fatos da vida, o argumento da sua biografia. Este que refere-se a eternidade. E
eternidade sempre é junção, enquanto tempo é separação, um fato depois do outro. Não é assim que
acontece com o tempo? Um capítulo depois do outro, assim é o romance. Mas a eternidade é tudo ao mesmo
tempo, tudo coeso, tudo ordenado, essa é a maravilha da coisa. Nós só não estamos perdidos no mundo,
completamente desarraigados, sem raiz, flutuando aqui nessa existência, porque no fundo sabemos que o
mundo é feito disso.

Então a mulher eterna, a mulher que atravessa o tempo, é a mulher que fala consigo mesma desde
o seu eu substancial, ainda que ela não consiga expressar em palavras, porque nenhuma expressão, ainda
que ela não consiga conhece-lo como ela conhece os outros extratos do eu, quando ela fala, quando ela
escolhe, quando ela olha pra vida, ela olha desde o eu substancial, desde a sua porção essencial. Esta conduta
aqui vai confirmar ou não a minha vocação? Esta escolha aqui vai me inserir como personagem da história
eterna ou uma personagem apenas da história terrestre? Eu quero ser um evento a mais no tempo ou eu
quero ser uma personagem da verdadeira história que conjuga, contém e que ordena todas as histórias no
tempo? É a pergunta de Santo Agostinho no livro “Cidade de Deus”. Você quer ser uma personagem da
história de Roma ou quer ser uma personagem da história celeste? Você quer ocupar uma fala transitória e
limitada, ou você quer ocupar uma fala perene e eterna?

Portanto, o convite hoje é pela transgressão do tempo. O tempo é uma circunstância nossa, o
envelhecimento é uma circunstância nossa, o passar dos dias, são coisas que não podemos reter. Mas como
circunstância ele tem que ser absorvido, porque é matéria para a eternidade, aquilo que você faz aqui e agora
ecoa na eternidade. O modo como você vive a tua biografia hoje é o modo como você será lembrado na
eternidade. Quando você morrer a vida dará uma forma final para você, que será admitido na eternidade por
aquela forma final. Como você quer que a eternidade lembre-se de você? É aquela pergunta: o que você quer
que as pessoas falem de você quando você morrer? Por exemplo: “lá se foi fulano, era um pouco bravo, mas
era gente boa. Era turrão, fez bastante burrada, mas no final até que era uma pessoa legal. Resistiu, resistiu,
mas no fim aceitou a sua vocação”.
O que será testemunhado pela sua vida? A mulher eterna é aquela que tem consciência disso, de
toda essa conversa que estamos tendo agora. Ela tem consciência e é sinal vido disso para as outras pessoas.
Porque se nós deixarmos o homem ao seu bel prazer, na condição masculina, o homem irá esquecer todas
estas coisas, ele precisa da mulher porque ela é o meio de atualização de todas estas coisas. É uma parte da
explicação de porque estamos vivendo no mundo como está hoje. E é muito difícil você falar de eternidade,
de atos que vão para além da morte e de escolhas nesta gravidade, nos dias de hoje e com as pessoas de
hoje. Parece conversa de gente louca. Proponha esse tema numa roda social, num lugar bem chique, cheia
de dondoca em volta e diga: “gente, vocês pensam na morte?” Proponha para ver o que acontece. Você será
um chato obviamente, totalmente deslocado. Isso porque existe uma coisa que é a moral do tempo moderno
e há certos assuntos que são inadmissíveis e por ficarem fora das rodas sociais eles ficaram fora da realidade
do mundo. Porque estamos cada vez mais apegados a este tipo de conversação e linguagem. Então como diz
o Olavo, quando você para de usar a palavra ideal no sentido exato que a palavra tem, você perde aquela
realidade. Hoje as pessoas usam a palavra ideal no sentido mais de novelas e desenhos animados. “ah, eu
tenho um ideal, um sonho”. Esse é o sentido que as coisas tomam. “Eu amo...”, nós já sabemos pela (.......)
o que é amar. Quando você deixa de usar as palavras referindo-se as realidades do que elas realmente
representam você tem uma camada mais superficial de linguagem, e essa camada superficial de linguagem
te faz esquecer o que aquela palavra realmente representa. Morte tem uma realidade, vida eterna é uma
realidade, e se eu paro de olhar para a realidade que estas palavras anunciam elas se tornam quase que
fantasmagóricas. Falar da vida eterna é coisa pra púlpito de igreja. Então diz Miguel de Unamuno no livro
que eu indiquei aqui, “O Sentimento Trágico da Vida”, ele pergunta no livro: ”eu acho que toda filosofia, a
vida intelectual, tudo que se faz e a sabedoria da vida humana, só interessam por um motivo, para mim há
apenas uma pergunta importante _Eu vou durar para sempre ou não”?

Esta é a única pergunta que interessa. Eu sou imortal ou não? Porque se eu sou a vida ganha um
aspecto, ganha um sentido. E se eu não sou a vida ganha outro sentido. A consciência desta pergunta, deste
drama de fundo é o que estamos chamados a restaurar em nós. A consciência da dimensão da vida humana.
A vida humana não se restringe ao agora e por mais que eu queira me ludibria e me enganar, dizendo o
contrário para mim mesmo, eu sei que apenas estarei retardando as crises existenciais que virão. E quanto
mais o tempo passar de mais ajuda vou precisar, daqui um tempo não terá terapia que salve e a paulada será
mais forte. Todos que estão acompanhando o curso têm tempo suficiente para restaurar as verdadeiras
perguntas dentro de si.
AULA 11

00h00 a 00h10

Bem, então nós chegamos aqui na nossa última aula do curso da Filosofia da Mulher. Eu não sei se
ficou claro mas [na] última aula a gente tenta resgatar alguns objetivos e tentar deixar de novo claro o
programa (ou o argumento) do curso. O curso, assim como as vidas individuais, também tinham argumento.
E o argumento principal do curso era de que ele deveria ser pessoal. Esse era o argumento é o que mais me
preocupava na hora de preparar as aulas, escolher os temas, por que claro tinha muita coisa para ser dita,
tivemos que fazer um recorte não só de temas, mas de pensadores, de filósofos e por minha preferência
pessoal eu escolhi esses que eu apresentei para vocês durante as aulas. Mas o mais importante para mim, o
mais radical mesmo, era que o curso fosse pessoal no sentido em que ele te aproximava mais do teu “eu
substancial”, quer dizer, que o curso não fosse um conteúdo na sua vida, mas que o curso fosse de alguma
forma um instrumento para a posse de si mesmo, um instrumento para tornar a vida cada vez mais
radicalmente pessoal. Que você fosse mais você ainda depois dessas aulas, então me lembro que citei essa
frase numa das aulas, uma frase do Jean C. Filloux, no livro “A memória”, em que ele diz no livro: “eu lembro
daquilo que eu sou”. Tudo aquilo que eu tenho dificuldade para lembrar é por que aquilo não virou eu,
porque eu não esqueço de mim não é verdade? Não esqueço que eu existo. Não esqueço que eu estou aqui.
Então tudo aquilo que se torna eu, tudo aquilo que se torna realidade pessoal para mim, tudo aquilo que eu
toco e que se torna pessoal, aquilo eu jamais esquecerei.

Então essa era a minha preocupação principal: que todos os temas abordados eles fossem ao
encontro desse argumento, que fortalecessem esse argumento principal, o argumento da pessoalidade. Nós
o estávamos procurando principalmente falando da figura abstrativamente da mulher. O conceito de mulher,
ou a filosofia da mulher nesse sentido mais intelectual, por assim dizer. Nós estamos o tempo todo tentando
trazer a substância da mulher e para quem é mulher fazendo esse curso não era muito difícil de fazer daí a
analogia com a própria vida e para, nós, homens, fazendo o curso, a gente fazia uma espécie de comparação
e buscava dentro de nós realidades semelhantes e realidade opostas; mas a idéia era justamente essa
radicalidade. E tivemos uma crescente no curso: os temas foram ficando cada vez mais radicais, cada vez
mais intensos, por assim dizer. E eu terminei a aula passada falando que nós falaríamos um pouco mais de...
enfim de encontro definitivo da vida. O homem como diz o Julian Marias ele tem uma estrutura fechada por
que o homem não é só aquele que morre mas é aquele também tem que morrer; isso define o ser humano:
a gente morre e a gente tem que morrer

Então como diz Julian Marias: “os que estão vivos ainda quer dizer que não morreram mas pelo que
tudo indica morreram um dia”. Nós não temos essa certeza absoluta como diz o Julian Marias mas baseado
na experiência e no que conhecemos na estrutura da vida humana os que estão vivo morreram também.
Mas o homem também tem uma estrutura aberta, diz ele. Que é a estrutura da biografia, a estrutura
projetiva. Essa está aberta. Essa não tem um fechamento. Tem um fechamento uma circunstância – que é a
vida corporalmente falando. Essa terá um fechamento. Mas vida biograficamente falando essa continua
porque dada as premissas das duas últimas aulas nós não aceitamos aqui a aniquilação do eu, a gente não
aceitou isso como premissa; nós vimos que isso é uma impossibilidade, o eu aniquilado. Por que que é uma
impossibilidade o eu aniquilado (você quando morrer simplesmente sumir do espaço)? Por que a única
realidade que realmente existe para você é sua própria vida; todas as outras coisas que você conhece, todas
as outras coisas com as quais você se encontra no mundo (isso é Ortega Y Gasset, filósofo espanhol também)
todas elas dizem respeito à sua vida. Quando você diz “o mundo”, você está falando o mundo que você
conhece; quando você fala “eu acho que os casais” você está falando daquilo que conhece de casamento;
quando você fala “mãe e pai devem agir assim com filhos” está falando desde aquilo que você conhece,
praticou, leu, sobre educação de filhos.

Quer dizer, o mundo é sempre o meu mundo. Se eu adotasse a premissa de que o eu pode ser
aniquilado na morte; você não existir mais em nenhuma forma; quer dizer que o mundo acabaria porque o
mundo é o mundo possível para você é o que é radical para você. É o que te toca. Então este mundo continua;
este universo pessoal continua, por isso a morte tem duas significações: a morte tem um significado de
fechamento daquela estrutura que é fechada (então chegou a ter “aquilo”; esgotou as suas possibilidades
em termo de estrutura empírica da vida humana, você envelheceu enfim gozou da vida não gozou, sofreu,
foi feliz, casou, não casou, teve filhos, não teve etc. Esgotou. Houve um fechamento ali, e aí com o
fechamento um julgamento. Isso [é] fatal. Você será julgado. Você será julgado pela vida, pelas pessoas,
enfim é impossível escapar ao julgamento que a morte trará. Mas [a morte] significa também essa nova
dimensão dos projetos vitais , e é essa nova dimensão que a gente pode falar mais – porque é essa que nos
interessa mais. Você veja que falar sobre a morte, quando nós falamos e a gente aborda sobre a morte num
curso esse, é claro que a morte lhe soa como um conteúdo intelectual porque falar sobre a morte é falar
sobre algo que não nos aconteceu ainda. Então, se não nos aconteceu, que experiência nós temos da morte?
Nós temos uma experiência por analogia. Algumas pessoas morreram perto de nós. Nós tivemos parentes,
amigos enfim pessoas conhecidas. Já fomos a velório, enterros etc., que morreram. E por mais que elas
fossem próximas a nós, por mais que elas nos “dissessem respeito”, por assim dizer, não éramos nós. Então
aquela morte não é minha. Não foi o meu mundo que acabou ali. Foi o mundo do outro. Eu posso até me
esforçar para imaginar o que pode ser isso, mas de fato eu não sei. Então pensar sobre a morte desde o ponto
de vista pessoal que eu estou falando é na verdade tornar a morte um projeto. Dado que não te aconteceu
ainda, dado que você não sabe exatamente o que é morrer – e como diz o próprio Julian Marias: “que certeza
absoluta nós temos do que virá depois?” Não temos nenhuma. Então o que nos resta quando falamos de
morte? Resta tratar a morte como um projeto, e um dos projetos fundamentais da vida. É mais ou menos
isso, eu acho, que o Platão queria dizer com “filosofar é pensar na própria morte todos os dias”.

Quero fazer um pergunta para você. Uma pergunta bem radical. O que realmente interessa nessa
vida? O que realmente importa? Hoje a gente tem aqueles filmes holiodianos meio comédia romântica, ou
aqueles filmes da família que o pessoal briga, acontece alguma coisa, no final odo mundo vive, o que importa
é a família. Fica todo mundo feliz juntos etc. São modos um pouco mais superficiais de querer resgatar ou
reafirmar algum valor, alguma coisa que puxa o ser humano sempre tomou como sério e importante mas eu
acho que a gente não pode se pautar por essas produções atuais. Acho que nós temos que ser um pouco
mais profundos e radicais também nessa investigação. Então, perguntar diante de si mesmo, diante o seu
próprio eu o que realmente importa? E quando você vai responder essa pergunta vai surgir o seguinte
problema (já vou responder essa pergunta) porque você dará uma resposta, provavelmente uma resposta
fruto de um monte de coisa que você aprendeu e de um monte de coisas que te ensinaram como valorável
também, e de que sua família te passou de que você sente que é importante mesmo na vida humana. E em
seguida você verá que você não gasta a maior parte do tempo indo atrás dessas coisas. Então já digo: a
resposta para essa pergunta causará uma certa angustia. É como se dissesse o seguinte: no plano intelectual,
no plano mental, você sabe o que importa. Mas no plano existencial, no plano fático da vida, você parece
não saber o que importa. Esquece que importa. [0:10]
00h10 a 00h20

É como se dissesse o seguinte: [0:10] no plano intelectual, no plano mental, você sabe o que importa.
Mas no plano existencial, no plano fático da vida, você parece não saber o que importa. Esquece o que
importa. Ou não age como se soubesse.

Ou seja, se a gente aplicasse aqui o critério do Olavo de Carvalho para o inventário de crenças... O
que é um inventário de crença, o que é uma crença? Uma crença é algo que motiva uma ação. Motiva
continuamente uma ação sua, um tipo de ação.

Então, como diz o Olavo de Carvalho, as crenças de um sujeito não estão nas suas falas, não estão
nas suas profissões de fé. A crença de um sujeito está nas suas condutas, nas suas ações.

Lembrando de novo Aristóteles, a ética de Aristóteles, a felicidade, a teoria da ação, de Aristóteles,


da finalidade das ações: de fato, ao respondermos essa pergunta “o que realmente importa na vida?”, é
importante responder essa pergunta, porque daí nós nos daremos conta, e precisamos confessar para nós
mesmos, que vivemos um dilema, que é o dilema de não crer realmente naquilo que dizemos. Porque se
passarmos aquele famoso pente fino é isso que perceberemos.

Por quê? Bom, porque a gente pode fazer uma anamnese do tempo, do tempo gasto com as coisas.
Por que a gente pode usar o tempo como um critério, uma categoria? Porque, como diz Gabriel Marcel,
tempo é vida. Então, como você gasta seu tempo é como você gasta sua vida.

Então vamos lá, pega lá seu dia, suas 24 horas, dia de semana, fim de semana também, e faça uma
anamnese do que você faz efetivamente, como você age, não no plano do “eu gostaria de”. O plano do “eu
gostaria de” está embutido na resposta a “o que importa na vida? Ah, importa isso, a família, o amor...” A
gente sabe que aquilo ali vai estar no plano do “puxa! eu queria mesmo era fazer isso”. Mas quando você faz
a anamnese dos dias, você percebe que não é bem assim. Não é exatamente nisso que você está mais
acreditando. Então nós vivemos uma crise de crenças, entende?

Talvez por isso também a religiosidade esteja sofrendo um pouco nos dias atuais, porque a
religiosidade também se tornou algo para dizer, para contar, para professar aos quatro ventos “eu creio, eu
amo a Deus, eu posto no facebook uma oração por dia”. A coisa também foi para o plano da linguagem e
parece que correu o perigo, e acabou caindo nisso, ficou no plano da linguagem.

A minha professora sempre disse para mim: “se você fala muito da sua experiência com Deus é
porque provavelmente você não teve experiência.” Porque a experiência profunda é indizível. E eu já falei
outras vezes que toda vez que eu trago para o plano da linguagem, que eu trago para o plano do discurso
uma realidade, eu a torno mais superficial, porque este é um limite da linguagem. Qual é a angústia do
escritor, qual é a angústia dos poetas? A angústia dos poetas é espremer a linguagem até o ponto de ela
conseguir dizer um pouco mais, um pouco mais, um pouco mais... porque a língua é limitada. A comunicação
verbal é limitada e todo mundo aqui sabe disso, que poderia querer arrancar a realidade de dentro de si e
mostrar para o outro em sua inteireza, mas não dá, então a gente usa a comunicação verbal. A gente tenta
explicar para a criatura, “olha, você não está entendendo, estou me sentindo assim, assim, assim”... e parece
que ele não entende. Por quê? Porque é indizível. A realidade mesmo, o núcleo pessoal humano, é
incomunicável nesses termos. É comunicável em outro, mas nesses termos ela é incomunicável mesmo.
Então, as crenças passam por uma crise à medida em que elas se tornam um objeto de desejo, na
verdade. Quando a gente diz “o que importa na vida são os amigos”, “o que importa na vida é a família”, “o
que importa na vida é o que a gente tem dentro de casa”. Mas não é isso o que nós fazemos no passar do
tempo, a maior parte do nosso tempo na semana não é nisso que estamos gastando nossa energia.

Aluna: Por quê?

Prof.: Porque no fundo, no fundo, não é nisso que acreditamos.

Aluna: Tá. Mas por exemplo, a gente passa a maior parte do tempo trabalhando. Por que que você
trabalha? O que realmente importa? A minha família. Por que que eu trabalho? Para poder dar o melhor para
minha família, para poder ter o melhor para minha família, para poder viajar com a minha família, para poder
ir a bons restaurantes com a minha família. Então eu não consigo entender muito bem...

Prof.: É porque talvez você pudesse questionar, para efeitos de exercício, se isso é o melhor. Se dar
a melhor escola, o melhor restaurante e as melhores viagens, é o melhor. Se ter dinheiro para oferecer essas
coisas é o melhor mesmo, ou é um jeito de nós acalmarmos um pouco a nossa própria alma, por um buraco
que a gente entrou desde uma coisa chamada Revolução Industrial e da qual a gente não consegue sair.
Todos nós trabalhamos e todos nós ficamos mais horas fora de casa do que dentro. É uma angústia isso, e a
gente precisa justificar isso de alguma forma. É aquela coisa “puxa! é que eu quero oferecer aquilo”. Eu
entendo perfeitamente o que você está falando. “Eu quero oferecer aquilo para os meus filhos”, “eu quero
fazer aquilo por ela”, “eu quero que ela passe por aquilo”, “eu quero evitar que ela sofra com a falta daquilo”.
Realmente parece que é um buraco no qual a gente caiu e só fica suportável se houver uma mínima
justificativa.

Mas o que eu estou propondo aqui é mais radical: é o questionamento de se isso é o melhor, se isso
realmente vai ao encontro daquelas crenças que você coloca quando responde à pergunta “o que importa
na vida, mesmo?”.

Eu fui a uma missa nesse domingo – fazia tempo que eu não ia à missa, bastante tempo –, eu e minha
família, era uma missa de catequese, coralzinho de criança, aquelas coisas bem simples, e todas as músicas
eram do padre Zezinho, é de uma simplicidade e diversos momentos na missa eu tive de controlar a minha
emoção. O quanto o simples verdadeiramente toca. O quanto o simples fala com você, sem grandes aparatos,
entende? Inclusive desafinado. Eu consegui ir além daquilo. E aí aquelas musiquinhas do tipo “O que é preciso
para ser feliz”, “um dia uma criança me parou” etc., aquela simplicidade. Por um momento pensei nisso e já
linquei com a aula que a gente teria, pensei “vou falar isso para elas”. É isso só que a gente precisa. No fundo,
mesmo, é só isso que a gente precisa

Aluna: Eu já tive a experiência contrária de ir a um restaurante muito bacana e estar com pessoas
que vão sempre, e reclamando de tudo: “ah! a comida não foi incrível, o garçom não sei o quê”. Então às
vezes a pessoa está atrás de outra coisa. Não dá valor.

Prof.: Eu acho que o caminho perigoso é o seguinte: a gente quer oferecer mais, por exemplo, para
os nossos filhos. Só que esse “mais”, “mais”, “mais”, começa a ficar cada vez mais insuficiente.

Aluna: (inaudível) a gente usa os filhos?

Prof.: Ah! claro. Eles também servem como justificativa, mas isso é muito triste para nós admitirmos.
O fato é que quanto mais eu quero dar, percebem, mais haverá insuficiência. Porque alguém vai estar dando
mais do que eu dou, entendeu? E mais. E mais
Por isso que eu acho que a via negativa é muito mais, não vou dizer certa, mas a via negativa é a do
“o que a gente realmente precisa?”. Bom, a gente realmente precisa, e isso está lá na Bíblia, do mínimo.

Então é aquela coisa: como eu vou educar meus filhos mostrando para eles que do que a gente
precisa mesmo é do mínimo?

Aluna: Mas e se a gente admitir para nós que na verdade a gente faz porque a gente quer, e não por
eles?

Prof.: Eu acho que esse é o objetivo da conversa: admitir que é porque a gente quer.

Foi o meu filho que inventou uma festa com palhaço e aquilo, aquilo, aquilo... e hoje ele quer aquilo?
Não. Fui eu que incuti nele.

Aluna: Mas depende da idade...

Prof.: Mas aquilo teve de ser apresentado para ele.

Aluna: Talvez porque você tenha um filho que vai em outras festas...

Prof.: Ele teve que ter visto aquilo.

A questão é: estamos trabalhando contra nós mesmos. É isso que eu estou querendo falar.

Aluna: A televisão.

Prof.: Essa bela porcaria chamada televisão.

00h20 a 00h30

[0:20] A questão é: a gente está trabalhando contra nós mesmos. A televisão, esta bela porcaria
chamada televisão, a gente está trabalhando contra. Por que a gente está assim criando cada vez mais
necessidades daí tendo que se ausentar mais para satisfazer necessidades que nós estamos criando. E que
nunca vão acabar. O que que parece ser a “tônica” do que eu vejo escuto e que em qualquer tipo de lugar
que eu vá escuto mais ou menos isso: essa coisa do nunca está bom. Nunca satisfaz plenamente. Estávamos
falando agora mesmo: nós, aqui de Curitiba, estão existindo um certo tipo de shopping em Curitiba, mas
depois foi criado o A+1, mas agora tem o A+2, e vai precisar ter um A+3 porque o A+2 vai achar que aquilo
não é para ele; está misturando muito com o A+1. Então, nunca está bom. E eu não quero que isso soe como
aquelas conversas esquerdistas contra conforto, contra dinheiro. Eu sou totalmente a favor do conforto e do
dinheiro. Mas eu estou apenas falando que é para a gente não cair em certas ciladas. A gente deve se
apropriar dos bens no valor que eles realmente tem. Nós falamos um pouco sobre isso na aula passada.
Então, diante da morte o quanto essas coisa na sua vida nas quais gastamos tanto tempo o quanto elas
valem? O Julian Marias responde exatamente assim: “para mim o que realmente importa na vida é aquilo
que não corre risco nenhum diante da morte”. Isso é uma perfeita resposta. O que que importa na vida?
Aquilo que sobrevive à morte. É uma chave essa. Então, por exemplo, amar importa? Amar importa porque
a morte não liquida um amor. Ele mesmo Julian Marias é a prova disso: amou uma mulher até o fim da vida
mesmo ela tendo morrido trinta anos antes dele. E mesmo que ele tivesse se casado com outra não quer
dizer que ele não amaria ainda aquela. São amores diferentes. O ser humano, enfim, foi uma opção dele.
Não tem porque condenar uma pessoa que faça diferente. Mas é muito bonito o exemplo dele é muito
inspirador o exemplo dele porque ele está mostrando que ele realmente acredita o que ele está dizendo que
acredita. Então, o que mais que sobrevive à morte? Sua vocação. Sua vocação sobrevive à morte. Você
deixará de ser professor porque morreu? Não. Terei outras espécies de alunos, talvez. Ensinarei outras coisas,
talvez. Não sei como é que vai ser lá. Mas, enfim, eu não deixarei de ser porque morri. Se professor é uma
parte de mim; me constitui. Então, assim, aquelas coisa que sobrevivem à determinação da morte, essas são
as que importam.

Outra pergunta. O Julian Marias diz que existem duas perguntas decisivas na vida. A primeira é “quem
sou eu?” e a segunda é “que vai ser de mim?” Todo mundo de alguma forma já pensou nelas. Quando a gente
estava ali no começo da infância inclusive com 5 aninhos, por exemplo. Quando diz o Freud: “o ego está se
formando”, começa a ter um ego com 5 anos de idade você já um sentimento você também está fazendo
essa pergunta já. Quem sou eu? Quando você com quatro anos já percebe que não é o seu pai, você não é a
sua mãe, você não é o seu irmão, você é uma outra coisa. Você tem os teus gostos, você quer aquele carrinho
de natal, você é outro. Então aquela perguntinha já começa a demonstrar ali as suas garras. Quem sou eu?
Aí chega na adolescência e ela vira aquele problema. Aí você acha que responder essa pergunta é fazer
diferente de todo mundo: não serei a minha mãe, não serei o meu pai, não serei o meu irmão. Serei diferente.
Esse sou eu. É normal isso porque vem aquele ímpeto de autoria: “preciso ser alguém. Eu não posso ser uma
repetição só”. Aí vai chegando ali um pouquinho da juventude, dos adultos e você começa perceber que você
não é tão criativo assim. Nem tão novo assim de baixo do céu e você tem muitas coisas repetida em você. Aí
fica mais complicada a pergunta da vida adulta porque diante das repetições qual a parte repetível aqui?
Como diria a Elis Regina: “como nossos pais”, sabendo que eu tenho isso da minha mãe, tenho isso do meu
pai, isso do meu vô, isso do meu tio que eu estou fazendo igualzinho. Meu irmão fez. Diante disso qual é a
parte só minha? Qual é a parte aqui que aconteceu pela primeira vez no mundo? Essa é a pergunta do quem
sou eu. Ela fica assim na vida adulta. Deveria ficar assim na vida adulta. E aí junto com ela vem a segunda: aí
a segunda se apresenta. E o que vai ser de mim? E daí é a pergunta do que que eu vou fazer, qual lado
profissional eu vou, se eu vou casar se eu não vou, se eu vou ter filho ou não vou ter filho. O que vai ser de
mim? Quer dizer, que destino isso aqui vai assumir? Esse quem, esse núcleo, qual será o destino disso daqui?

Outra pergunta. Por que nós fazemos o que fazemos? Pense em tudo que você faz. E agora tente
responder essa pergunta: por que que você faz o que você faz? Tenta olhar para aquele eu substancial e vê
se aquilo se encaixa. Por que que eu faço isso a tanto tempo? Como eu sempre digo – e a filosofia que eu
aprendi é essa, não sei outra: nós somos sempre bem menos bonitinhos do que pensamos. Então, toda
filosofia de auto-ajuda na verdade é um perigo danado aquele perigo de eu começar a achar que eu sou
muito bom (esse é o perigo da auto-ajuda). A questão é: quanto mais radicalmente eu reconhecer aquilo que
eu sou e reconhecer com certa sabedoria e maturidade eu quero isso por que eu sou realmente um filha da
mãe. Só por isso que eu quero. Eu gasto tempo nisso por que eu sou um sem vergonha.

Cada coisa na qual você gasta tempo, na qual você gasta vida mereceria uma resposta adequada. Por
isso que a vida é intrinsicamente moral. Não tem como não ter moral na vida porque todos os lados são
motivados, todos os lados têm um fundo bom ou mal. É intrínseco no ser humano. Isso não acontece nos
animais, os animais nem levantam essa questão: “por que que eu gosto de ração?” Não levantam essa
questão. Não há moralidade no reino animal nesse sentido, nem nos vegetais etc. Mas para nós a moralidade
se apresenta como necessária porque todos os atos são motivados. E aí o que o Julian Marias nos ensina é
que nós não devemos buscar apenas isoladamente um motivo de cada coisa que a gente faz. Mas a gente
tem que encontrar sistematicamente o grande motivo de todas as coisas que a gente faz.

Quer dizer, você tem esses dois caminhos para percorrer. Então, por que que eu faço aquilo, aquilo
e aquilo na minha semana, e por que que eu faço tudo isso? Quer dizer, elevar um pouco a questão assim
para o nível argumental da vida. Por que que eu quero o que eu quero? E que se revela em todas essas coisas
que eu estou fazendo. O que motiva a minha vida? [0:30]

00h30 a 00h40

[0:30] É porque sendo o ser humano uma realidade em aberto você vai aprendendo mais elementos
e pode ser que tenha que rever aquela resposta que você deu antes e por aí a fora. A chegada da maturidade
– que não chega antes do quarenta anos mesmo – deve trazer a resposta um pouco mais fundada nesse nível
que eu estou falando, nesse nível argumentativo. Porque daí com quarenta anos você consolidou algumas
coisas então aí você já tem aquele dever de saber realmente “o que é que você está fazendo aqui?” Agora,
até ali você tem, sim, essa liberdade de cátedra da própria vida, “puxa achei que era aquilo, não é”. Existe
uma liberdade maior. Quando você chega aos quarenta, você tem menos potências e mais atos. Diante dos
atos já consagrados nós sua vida que você pode responder qual é o projeto radical sobre o qual todos os
meus atos acontecem. Projeto radical. Ora, tudo que eu faço: ser mãe, ser advogada, ser cantora, ser
mosaicista, ser professora, ser amiga, tudo isso está sobre um projeto radical; aquele que justifica,
fundamenta todos eles.

Agente tem o dever de chegar a uma resposta em relação a isso. A esse nível da questão; ao projeto
radical. Radical é o que é meu não seu. Existe uma noção – dentro da filosofia espanhola – que existe a
realidade e existe a realidade radical. Por exemplo, a Islândia é uma realidade mas ela não é uma realidade
radical para mim porque não toca a minha vida. Não está comigo aqui agora. Realidade radical é o sinônimo
para os espanhóis de “minha vida”.

Dado que eu falei dessa questão do amor... a vida humana é intrinsicamente moral eu faço uma nova
pergunta: qual deve ser o nosso dever moral por excelência? Dado que a vida humana é intrinsicamente
moral, qual é o meu dever moral por excelência? Nós podemos responder essa pergunta da seguinte forma:
a vida humana é intrinsicamente moral e os atos humanos são todos eivados de moralidade; nem um ato
está desconectado da moral. Todo ato tem um fim portanto todo ato tem um intenção, todo ato é passível
de julgamento (nesse sentido é moral). E aí, portanto, a resposta dessa pergunta – qual é o dever moral por
excelência? – me parece ser o seguinte: saber justificar diante de si mesmo porque você escolhe o que
escolhe. Por que você se atem a certas coisas e não a outras.

Diante de si mesmo porque você poderia querer justificar diante dos outros e diante dos outros é um
problema, porque há pessoas que gastam uma biografia justificando diante dos outros. Perdeu a biografia.
Como diz a Igreja Católica: “um dos inimigos da alma humana é o mundo”, e o mundo é o que vão falar de
mim? Eu me preocupar com o que vão falar de mim é um dos inimigos é uma das coisas que faz perder a
vida. Realmente isso não deve ser uma preocupação, a não ser que agente tivesse vocação política; na
vocação política me preocupo, sim, em certa medida, com o que vão falar de mim, afinal de contas eu preciso
do voto deles. Mas fora isso, uma preocupação limitada, nós nunca devemos nos preocupar com o que
pensar de nós se nós tivermos realmente preocupados ao que nós nos atemos, por que escolhemos o que
escolhemos se nós conseguimos justificar para nós mesmos diante de nós e do nosso eu substancial porque
que eu adoro tal caminho e não aquele.

A média de idade das pessoas que me procuram é 40 anos, (que é uma coisa interessantíssima
porque próximo dos quarenta é quando agente faz um balanço da vida. Parece que é quando a angustia fica
mais forte e aí que se deparar com questões da própria vida etc). Geralmente as pessoas me procuram e daí
eu escuto muito isso: “puxa, Tiago, perdi 10 anos da minha vida sem estudar. Podia ter estudado né?! 10
anos e eu não estudei essas coisas tal e tal”. E eu aqui dentro fico pensando “mas você queria mesmo?”
Vamos colocar a conversa no plano certo: você não quis. Existe uma máxima na filosofia que diz assim: “tudo
o que está oculto aparecerá”.

O Julian Marias traduz da seguinte forma isso daqui: “tudo aquilo realmente querido será”. Você
chegou num ponto da sua vida que, “puxa, olha só, eu não queria estar aqui. Eu não queria estar neste ponto,
vivendo deste jeito ou colhendo este fruto” – e aí eu diria para você: não, você queria.

Porque nós temos só uma outra alternativa fora essa – e aí você não poderia nem fazer bioiatria. Se
você dissesse assim: “não, Tiago, eu não queria mesmo, eu não queria de jeito nenhum e eu cheguei aqui”.
Puxa então você não tem nem a mínima vontade. Então você não queria mesmo alguém te trouxe, uma força
oculta te trouxe nesse ponto da vida desse jeito que você está hoje. Puxa então, nós temos muito pouco a
fazer por você. Eu prefiro que você diga – e isso é um dos princípios mais fortes dos atendimentos – “é
realmente, eu quis estar aqui. Nesta merda que estou eu quis estar”. Opa, então, agora agente pode pegar
isso e fazer alguma coisa. Você está confessando a total inaptidão, a total falta de capacidade de dirigir a
própria vida, de definir o próprio caminho, de fazer algo por você mesmo. Na verdade eu não acredito que
exista alguém assim – que não consegue fazer nada na própria vida – no fundo eu acredito que são pessoa
que não conseguem admitir que o que elas quiseram foi aquilo. Eu já ouvi coisas terríveis, já ouvi de gente
de 70 anos – e, portanto, tem pouco tempo vital para arrumar uma coisa dessas – chegar para mim no
primeiro atendimento e dizer “eu vim aqui para saber por que que minha vida deu errado”. Isso é muito
sério. É muito grave. É triste e eu não posso começar falando assim: “é porque você quis”. Tenho que amaciar
um pouco a coisa, também não posso sair assim... No fundo esse princípio da filosofia antiga ele se prova
verdadeiro todos os dias para mim. Você será aquilo que você quis ser. Julian Marias diz no livro Antropologia
Metafísica no último capítulo que ele está falando sobre morte ele diz isso: “estamos condenados a ser o que
escolhemos ser”.

Aluna: mas e se em algum momento da nossa vida agente realmente quis aquilo, e depois as
condições mudaram de uma forma que aquilo que você queria talvez não seja o que você quer agora.

Tiago: Sim. Isso acontece. E daí é aquela coisa da maleabilidade da vida. Isso é o vitalismo. “Puxa, não
quero mais isso. Agora eu quero outra coisa”. Isso aconteceu comigo: eu achei que eu queria uma coisa até
os meus 22 anos. E depois não quis mais. E você tem que ter aquela humildade de confessar que você buscou
por um tempo uma coisa que não é para você e tentar agora apostar tuas fichas em outra. E aí você assumir
todas as conseqüência disso – isso é viver! Ao mesmo tempo em que é uma liberdade o ser humano poder
escolher quem ele quer ser, nenhuma outra criatura pode; nem os anjos. Os anjos já estão determinados,
inclusive. Nós não. Vocês nunca se perguntaram por que que Deus não nos colocou direto no Paraíso? Qual
foi a sacanagem que ele quis fazer? Eu já ouvi essa conversa: “olha, Deus é tão bom”. Então porque que Ele
fez o mundo e enfiou agente aqui? Por que que Ele já não fez o Paraíso e já inventou agente e deixou lá.
[0:40]

00h40 a 00h50

Qual foi a sacanagem que Ele quis fazer? Eu já ouvi essa conversa. Deus é tão bom. Vocês ficam falando que
Deus é tão maravilhoso. Então por que que ele criou o mundo e enfiou a gente aqui?
Por que que ele não criou o paraíso e já inventou a gente e deixou a gente lá? Qual foi o jogo que
Deus quis inventar? Por que que nós estamos passando por isso daqui? Por que que nós não fomos colocados
direto no paraíso?

Todo mundo eu acho que já teve alguma briguinha com Deus e propôs algo parecido.

Na verdade o ser humano é a única criatura que precisa fazer a si mesmo. Todos nascem prontos. O
ser humano é o único que precisa do mundo para fazer a si mesmo. Então ele só pode entrar no paraíso
quando ele já fez algo. Depois dele ter feito a si mesmo. Veja nós nascemos em parte com uma vida, Deus
nos dá a vida, nos dá o ser, mas Ele nos dá aquilo em aberto. Então a gente assim a gente precisa construir,
precisa fazer alguma coisa com aquilo que ele deu. Isso é ser humano. Então nós precisamos da experiência
da vida, no cosmo, no mundo, para escolher algo, para realizar algo, e com esse algo penetrar a eternidade.
Então, é algo inexorável para nó apenas. Apenas para nós.

Fazer algo com o que nos foi dado. Por isso, como diz o Ortega y Gasset, viver é eleger. Então a gente
está lá e elegeu uma coisa e “Puts, não era essa.” Então vai, elege outra.

Qual é o grau de radicalidade com o qual você escolhe o novo caminho? O quanto realmente aquilo
reflete você? Você pode justificar aquilo biograficamente diante do seu eu substancial? Estou indo por aqui
por causa disso, disso e disso...E mesmo naquele caminho que eu fui errado eu estava atrás daquilo, daquilo
e daquilo...

Então a pergunta dessa segunda parte era: A que eu me atenho? O que me sustenta de pé? O que
me deixa de pé? Mesmo quando eu mudo de caminho. Mesmo quando eu mudo de profissão. O que me
mantém de pé diante de todas as mudanças da minha vida? O que que me sustenta?

Sujeito vira chefe de cozinha aos 40/50 anos. Chefes famosos, eu leio as biografias deles, eles eram
empresários, trabalharam em alguma multinacional até os 35 anos e de repente largaram e correram fazer
um curso de chefe de cozinha.

Aluna: Geralmente eles estão no meio corporativo.

Thiago: E os caras começam aos 45. Geralmente eles estão muito bem na vida, profissionalmente
falando...

Viver é ter que eleger. A sabedoria da vida é: Se a gente consegue eleger sempre o melhor. Por isso
a da vida é intrinsicamente moral. Consigo eleger o melhor? E se eu eleger o melhor, o próximo eu consigo
eleger o melhor do melhor? E depois? A vida é isso, gente.

Com o Aristóteles eu aprendi que você poderia se contentar com o melhor. Mas a vida não se
constitui disso. O Aristóteles diz: viver e ser feliz é você realizar as virtudes. Atingir os bens, na máxima
excelência deles. Máxima! Não cabe menos. “Puxa, mas eu até que domino um pouco a língua portuguesa.”
Não, não é isso. Não é disso que se trata viver. O que que você quer fazer para a sua vida? Quais bens você
precisa adquirir para chegar lá? Preciso da estudiosidade, da vontade, da paciência. Então agora você tem
que realizá-los excelentemente. Isso é a felicidade, diz o Aristóteles. Porque as intempéries da vida que
acontecerão, todos os elementos dramáticos da vida estarão presentes, te afetarão menos, quanto mais
excelente for a virtude que você realiza.

Por isso que O filósofo, O místico, O sacerdote, ele é menos afetado pelas mundanidades. Não quer
dizer que ele não esteja no mundo como nós, que ele não tenha dor de barriga. Não! Quer dizer que ele dá
o devido valor para cada coisa.
Porque o fato de ele olhar para a excelência da vida. Para o melhor do melhor do melhor e por querer
alcançar apenas isso e não menos. Faz com que ele adquira uma certa substancialidade, uma certa fortaleza
que as coisas do dia a dia não afetam tanto. Quando nós, se nós depararmos os nossos problemas com os
problemas de Viktor Frankel todos nós aqui vamos para debaixo da mesa de vergonha.

Podemos dizer que nós temos problemas da dimensão dos problemas do Viktor Frankel? Não. Viktor
Frankel tinha um problemaque nenhum de nós jamais provará. E veja o que ele fez com a vida dele. Veja o
que ele fez. E nós estamos aqui lamentando, dia após dia, aqueles problemas psicológicos e aquelas coisinhas
e o fulano que não respondeu o meu e-mail e o siclano que me deu um oi atravessado. Isso é de dar embrulho
no estômago. Eu estou dizendo isso como parte do problema aqui. Eu estou no mundo junto com vocês, eu
vivo isso também. A gente está completamente cego diante do que realmente importa. Então, por exemplo,
se tem uma coisa que nos diferencia dos europeus é isso. Não que o europeu não tenha piorado também. O
mundo tem ficado bem brasileiro. O mundo está piorando. O europeu sempre teve essa justa medida no
olhar. É mais fácil para eles. Porque eles são do mundo velho, eles sabem mais da vida. O brasileiro sempre
foi mais sentimental nas coisas, né? Ao passo de o dia dela mudar porque a fulana não conversou com ela.
Não é? Mudou porque no cafezinho ela foi diferente. Então ela não consegue voltar para o computador dela
e fazer o que ela precisa fazer. “O que será que eu fiz para ela?”. E um europeu voltaria e continuaria
trabalhando.

Aluna: Será?

Thiago: Em grande parte sim. Senão eles não estariam onde eles estão. Não existiria essa diferença
abissal entre nós.

Existe uma diferença abissal entre nós. Existe uma diferença abissal que não é só uma questão de
tempo. É uma questão de substância que existe entre nós. Nós precisamos viver mais. Como disse o
Aristóteles “A primeira condição para a felicidade é nascer num país velho. ” Acabou. Fecha o livro. Vamos
embora. Quem tem um pezinho lá que prepare o barco.

Diz o Julián Marías, ainda sobre a morte, não basta saber se há outra vida. Vida após morte. Isso não
basta, diz ele. Você ainda precisa responder como ela vai ser.

Uma das melhores coisas que eu aprendi com o Olavo de Carvalho: Não existe céu genérico. Porque
se existisse esse céu genérico (todo mundo nas nuvens, tocando arpa com os anjos) seria um lugar muito
chato, um porre. Eu não quero ir para esse lugar, inclusive. Aquela mesma coisa, com a arpa tocando e todo
mundo fraternalmente cantando “We are the world”. Eu não quero isso. Não sei você, mas eu tenho pavor
disso. Eu tenho pavor de qualquer rotina.

Então imagina, eu não quero ir para o céu, se for uma coisa dessas.

Então a mesmice, o genérico é oposto do céu. Então, como diz o Olavo de Carvalho, um bom jeito de
gastar o seu tempinho, às vezes você está entediado, é gastar no seguinte: Como vai ser o seu céu? O que
que vai ter lá? Quem vai estar lá? Quem? O que você vai ficar fazendo lá?

É claro que a própria bíblia, a própria igreja, elas nos dão algumas imagens bem amplas de paraíso, é
claro, para nos orientar. Você tem que ter pelo menos um paradigma, umas balizas, mas enfim o
preenchimento do quadro é pessoal. Eu não imagino que Deus, tendo feito a individualidades, tenha
preparado um destino massivamente coletivo. Uma massa. O céu é para a massa. Imagine no céu o show da
Ivete Sangalo? Eu sairia correndo de lá. Socorro! Deus me livre um troço desses. É claro que no céu não tem
o show da Ivete, porque no céu não tem nada para a massa. No céu só tem coisa para mim. De Deus comigo.
[00:50:04]

00h50 a 00h55

É claro que no céu não haverá show da Ivete. No céu não tem nada para a massa, no céu só tem
coisas para mim, de Deus comigo. Eu sou um filho amado dEle, é uma comunicação dEle comigo, então meu
céu tem que ser eu e Ele, tudo que eu amo e quem eu amo.

A princípio na teologia cristã não há lugar para cachorros no céu, mas no meu céu o meu cachorro
estará, porque eu verdadeiramente o amo. O que mais haverá lá? Por exemplo no meu céu haverão alunos.
Por que fazemos este exercício? Parece uma bobeira, mas fazemos este exercício para tentar deixar claro a
você mesmo o que você ama e o que você elege. O que terá no seu paraíso? E uma das coisas mais
interessantes deste exercício é que você irá perceber que tem uma imaginação bem pobre do paraíso. E
como diz o próprio Olavo, se você não tem uma imaginação rica do paraíso, se ele não se torna atraente, por
que você irá querer ir para lá? Bem, existe uma outra opção.

Eu acho que a coisa funciona em oito ou oitenta, ou você está buscando este lugar que projetou, não
me refiro a morte como projeto mas o céu é o projeto, ou você não está indo atrás. E se você não está indo
atrás, não poderá surpreender-se com o resultado. A morte chegará inevitavelmente e enfim, haverá um
outro destino. Como eu tenho dito tudo é biográfico, inclusive a morte. O tema da morte é biográfico, assim
como a feminilidade, o ser mulher, o amor. Tudo é biográfico, ou seja, tudo tem uma história para você.
Quando foi que o paraíso apareceu na tua vida? Quando você lembra que alguém te falou do céu? Como diz
o padre Zezinho, saudades temos apenas do céu, é uma palavra que só deveria ser aplicada a isso. Na
catequese como te apresentaram isso? Na minha eu lembro que foi apresentado assim: “não pode mentir,
não pode fazer isso ou aquilo, porque você não irá para o céu”. É uma imagem genérica, a primeira que eu
tive. Muito tempo depois eu fui entender que algumas pessoas estariam no paraíso. Então a coisa começou
a ficar um pouco mais interessante, pois estariam meus avós e outras pessoas que eu amei.

O que aconteceu com a imagem do paraíso? Qual é a tua história em relação a ele? Por exemplo,
tudo deve ser narrado, qual foi a sua primeira amizade? Como aconteceu, se romperam, se brigaram, se
nunca mais se falaram, se são amigos até hoje. Então, o tema da morte é mais um tema biográfico, que faz
com que a vida expanda e ultrapasse os limites.

Vou ler algo para vocês, um texto do Ângelo Monteiro, de quem já falei algumas vezes, aconselho a
vocês que leiam um livro dele chamado “Todas as coisas tem língua”. O Ângelo Monteiro é um poeta mas
este livro é de prosa. Um dos últimos dele é “Arte ou desastre”, em que ele analisa o que aconteceu com a
arte contemporânea e que vai de encontro com o tema do café filosófico sobre a beleza na quarta-feira.

Bem o Ângelo Monteiro escreveu algo e um amigo postou no facebook e eu copiei. Disse o Ângelo:
“Nunca esquecerei da visão do inferno do retrato do artista quando jovem de James Joyce, evocando na
pregação de um padre jesuíta, um consagrado santo testemunhou uma vez uma visão do inferno, pareceu
estar no meio de um grande vestíbulo negro e silencioso onde não havia nada se não o bater de um grande
relógio. O bater prosseguia insistentemente e a esse santo pareceu que o som deste relógio era a repetição
sem cessar das palavras sempre e nunca, sempre, nunca”. Não pode haver nada mais parecido com a
experiência do inferno, do que a atmosfera medonha da repetição a que somos obrigados a partilhar dia
após dia. Quando tudo se reduz a um único discurso e a uma prática de enervante mesmice, não temos outra
alternativa, se não afirmar com a máxima segurança que já estamos vivenciando o inferno.

A repetição dos dias, aquela rotina em que você não encontra mais nada extraordinário no ordinário
da mesmice, isto já é o análogo do inferno, uma antecipação da condenação, porque o inferno é
caracterizado pela repetição porque lá não pode haver criação. Esta é a simples diferença entre o inferno e
o paraíso. No paraíso todas as coisas são novas, é a palavra de Cristo: “Eis que faço novas todas as coisas”.
Tudo é sempre novo, tudo jubila, tudo acontece, tudo é diferente. E no inferno tudo é sempre igual, e não
existe nada mais infernal do que isto. Quando a pessoa chega no ponto em que ela diz estar entediada com
a vida, diz não aguentar mais a repetição reclamando de fazer todo dia a mesma coisa, não há outra coisa a
dizer a não ser que esta pessoa está numa existência infernal. Isto é o oposto do que já foi desejado por você,
é o oposto do que você deveria escolher, eleger e moralmente justificar para si mesma. Como é que você
justifica moralmente para si mesma a escolha pelo inferno? É como bem disse minha professora: “quem está
no inferno, está porque quer”.

Existe um aspecto da rotina que é o dos afazeres diários, imaginemos uma pessoa que tem um
trabalho repetitivo, no sentido de repetir o mesmo tipo de coisa no trabalho, isto não quer dizer que a vida
dela seja uma mesmice se ela conseguir enxergar nisso uma escolha moralmente justificável para si. Não é a
mesmice no que você faz, é a mesmice do tom da vida, da produção da vida, do argumento, como se dessa
vida não saísse mais nada. Um escritor está sempre escrevendo, mas mudam as escritas, é outra realidade
que está sendo iluminada. O sujeito pode ser advogado, professor, todo dia está dando aula, mas não é igual.
Então não é no sentido de rotina de afazeres, mas no sentido de não produzir nada novo. É no sentido da sua
vida esgotar as possibilidades. Isto é a morte antecipada, isto é o inferno. Por que sentimos tédio? Porque
não enxergamos uma nova possibilidade. A sensação do tédio é a sensação do marasmo, não tem nada de
novo. Ficamos num conjunto de coisas de onde não conseguimos sair. Isto é o tédio, por isso o tédio é um
análogo do inferno, nada novo irá acontecer, porque não há uma atitude nova, não há nenhuma criação,
então não pode acontecer nada novo.