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OS SIGNOS EM PIERCE

1. AS CATEGORIAS FENOMENOLÓGICAS DE PEIRCE


Peirce conclui que tudo que aparece à consciência, assim o faz numa gradação de três
propriedades que correspondem aos três elementos formais de toda e qualquer experiência.
Em 1867, essas categorias foram denominadas: 1) Qualidade; 2) Relação; e 3)
Representação. (SEMIÓTICA..., 2018)
PRIMEIRIDADE
A qualidade da consciência imediata é uma impressão (sentimento) in totum, indivisível, não
analisável, inocente e frágil. (SEMIÓTICA..., 2018)
A SECUNDIDADE
Ao contrário da Primeiridade e seu carácter de sentimento, que envolve um espécie de
brumas, a Secundidade é a categoria do conflito. Já não há mais a bruma, que nos impede de
desnudar o fenómeno ao qual nos deparamos. Na secundidade, há algo que se impõe, que
resiste.
Segue-se que em toda experiência, quer seja de objectos interiores ou exteriores, há sempre
elemento de reacção ou segundo, anterior à mediação do pensamento articulado e subsequente
ao puro sentir. (Santaella, 1998:50). (SEMIÓTICA..., 2018).
A TERCEIRIDADE
Diante de qualquer fenómeno, isto é, para conhecer e compreender qualquer coisa, a
consciência produz um signo, ou seja, um pensamento como mediação irrecusável entre nós e
os fenómenos. E isto, já ao nível do que chamamos de percepção. Perceber não é senão
traduzir um objecto de percepção em um julgamento de percepção, ou melhor, é interpor uma
camada interpretativa entre a consciência e o que é percebido.
O homem só conhece o mundo porque, de alguma forma, o representa e só interpreta essa
representação numa outra representação, que Peirce denomina interpretante da primeira. Daí
que o signo seja uma coisa de cujo conhecimento depende do signo, isto é, aquilo que é
representado pelo signo.(…) (Santaella, 1998:51,52).
"(…) Daí que, para nós, o signo seja um primeiro, o objecto um segundo e o interpretante um
terceiro. Para conhecer e se conhecer o homem se faz signo e só interpreta esses signos
traduzindo-os em outros signos.
Em síntese: compreender, interpretar é traduzir um pensamento em outro pensamento num
movimento ininterrupto, pois só podemos pensar um pensamento em outro pensamento. É
porque o signo está numa relação a três termos que sua acção pode ser bilateral: de um lado,
representa o que está fora dele, seu objecto, e de outro lado, dirige-se para alguém em cuja
mente se processará sua remessa para um outro signo ou pensamento onde seu sentido se
traduz. E esse sentido, para ser interpretado tem de ser traduzido em outro signo e assim ad
infinitum. O significado, portanto, é aquilo que se desloca e se esquiva incessantemente. O
significado de um pensamento ou signo é um outro pensamento. (SEMIÓTICA..., 2018)
RESUMO FENOMENOLOGIA: Retomando, resumidamente e de maneira simplificadora,
podemos dizer que a Primeiridade é tudo que está presente à consciência num determinado
instante e é composta de todo aspecto de qualidade vivenciado neste determinado momento.
O primeiro é espontâneo e imediato, original e livre. A Secundidade é a reflexão envolvida
nesse processo, quando surgem as referências que permitirão inferências que levarão a um
terceiro. Por fim, a Terceiridade é o que se segue ao sentimento e ao conflito, à resistência. É
a “camada da inteligibilidade”. (SEMIÓTICA..., 2018)
Você vê, pensa, etc. e reage para produzir signos. Vendo um caro, penso em sua função (1º),
este pensamento é a reação de uma percepção pura (2º) que se torna inteligível (3º ).
2. O SIGNO DE PIERCE E AS SUAS DIVISÕES

signo 1º em si mesmo signo 2º com seu objeto signo 3º com seu


interpretante

1.º quali-signo ícone rema


2.º sin-signo índice dicente
3.º legi-signo símbolo argumento

A Terceiridade predomina na generalidade, na continuidade que permite, por exemplo, a


elaboração de leis. Toda a lei depende de um referencial (primeiro e segundo), de que ela é o
terceiro. O signo, segundo Peirce, é a ideia mais simples da terceiridade, já que, para ele, o
Signo é aquilo que representa alguma coisa para alguém, sob determinado prisma.

A coisa representada denomina‐a Objecto. Portanto, o primeiro signo denomina‐se


Representamen. Cria na mente da pessoa, o qual é direccionado como emissão, um signo
equivalente a si próprio. A flor que existe no mundo independe de minha vontade. A palavra
flor (ou flower, ou fleur, ou fiore) é um signo gerado pelo primeiro signo que é a flor. Esse
outro signo, mais desenvolvido que o representamen, denomina‐o Peirce Interpretante.
Decorre daí uma nova relação triádica ‐ signo/objeto/interpretante, como abaixo:

Entre signo‐interpretante e interpretante‐objecto, as relações são causais. Já entre signo e


objecto não há relação de pertinência, porque arbitrária. O signo não pertence ao objecto, o
objecto não pertence ao signo. Decorre que o interpretante passa a funcionar como a chave da
relação (inexistente) signo e objecto. As três entidades formam a relação triádica do signo.

A partir de um interpretante e por causa dele, torna‐se possível um


signo. Nem interpretante, nem signo, estão contidos na primeiridade ou na secundidade.
Como categoria lógica, ambos incluem‐se na terceiridade.

O signo apresenta, ainda três sub‐categorias básicas. A partir dessa nova proposição
triádica, Peirce concebe que todo o signo:

A. Em si próprio, pode ser:

1) mera qualidade (QUALI‐SIGNO é todo signo que é uma qualidade. Como tal,
semanticamente, um determinante. O azul é um determinante (qualidade) de cor);
(SEMIÓTICA..., 2018)

2) existência concreta (SIN‐SIGNO é todo o signo que é uma coisa existente, um


acontecimento real. Em princípio, envolve vários quali‐signos (ou permite vários
determinantes). O vermelho é soma dos quali‐signos de vermelho (que é uma cor, que é sinal
de proibição, que é sinal de alerta, que é sinal de perigo). O vermelho é o signo de si próprio
(sin‐signo), somatório de todos os quali‐signos de vermelho). Uma palavra, como tal é seu
sin‐signo.); (SEMIÓTICA..., 2018)

3) lei geral (LEGI‐SIGNO é o signo que é uma lei. O vermelho como pare, na codificação
visual das leis de trânsito, é um legi‐signo. Contudo, inexiste legi‐signo sem sin‐signos
prévios. O vermelho existe antes como sin‐signo, antes de ser uma lei de trânsito.
(SEMIÓTICA..., 2018).

B. Em relação ao seu Objecto, pode ser:


ÍCONE: (escala de correspondência: primeiridade, sintaxe, quali‐signo, possibilidade). É um
representamen que, em virtude de qualidades próprias, se qualifica em relação a um objecto,
representando‐o por traços de semelhança ou analogia, e de tal modo que novos aspectos,
verdades ou propriedades relativos ao objecto podem ser descobertos ou revelados. Há ícones
degenerados, representamens icónicos, que Peirce denomina hipo‐ícones, classificando‐os em
três tipos: Imagens, Diagramas e Metáforas;

ÍNDICE: (escala de correspondência: secundidade, semântica, sin‐signo, existente) – signo


que serefere ao Objecto designado em virtude de ser realmente afectado por ele. Tendo
alguma qualidade em comum com o objecto, envolve também uma espécie de ícone, mas é o
fato de sua ligação directa com o objecto que o caracteriza como índice, e não os traços de
semelhança. Há ícones degenerados, já convencionalizados: um nome próprio, um pronome
pessoal;

SÍMBOLO: (escala de correspondência: terceiridade, nível pragmático, legi‐signo, lei ou


pensamento) – signo que se refere ao Objecto em virtude de uma convenção, lei ou associação
geral de ideias. Actua por meio de réplicas. Implica ideia geral. Envolve um índice, embora de
natureza peculiar, como foi observado acima a respeito do sin‐signo. A palavra é o símbolo
por excelência. (SEMIÓTICA..., 2018).

C. Em relação ao seu Interpretante, pode ser:

REMA: (escala de correspondência: primeiridade, sintaxe, quali‐signo, ícone, possibilidade) –


signo, para o seu interpretante, de uma possibilidade qualitativa; termo ou função
proposicional que representa tal ou qual espécie de objecto possível, destituída da pretensão
de ser realmente afectada pelo objecto ou lei à qual se refere; (SEMIÓTICA..., 2018)

“O conjectural ou remático [diz respeito] a incompletude dos fragmentos sígnicos e a sugestão


que se objetiva à mente em completá-los”. (SANTOS, 2011, p. 19).

“O remático ou rema é um signo interpretante atuando no nível da sugestão, no caso, o


compósito de signos (quali-signos/sin-signos/legi-signos, ícones/índices/ símbolos), que
arranjados em fluxo projetam o clima ou a tônica no qual os personagens na tela estão
envolvidos. Portanto, esse compósito de signos tem o potencial de gerar ou projetar um tipo
de sentimento, seja suspense, alegria, terror etc. (SANTOS, 2017, p. 5).

DICI‐SIGNO ou SIGNO DICENTE: (escala de correspondência: secundidade, semântica,


sinsigno, índice, existente) – signo, para seu interpretante – de existência real. É uma
proposição ou quase‐proposição envolvendo um Rema; (SEMIÓTICA..., 2018).

O Dicissigno ou Proposição é um signo interpretante atuando no nível das premissas e


evidências, não afirma certo ou errado, apenas as coloca em relevo. (SANTOS, 2017, p. 05).
O dicissigno ou proposição evolui pelo viés informacional, isto é, pelas evidências e fatos que
vão se sucedendo no tempo e colocados em relevo. (SANTOS, 2017, p. 16)

A proposição é aquele tipo de argumento que está conectado a eventos, mas sua função é
apenas demonstrá-los, colocá-los na superfície para que a mente se detenha neles. Dessa
forma, a proposição não tem como fundamento afirmar se algo é verdadeiro ou falso, pois seu
papel está em constatar os fatos. Assim, o filme mostra e acompanha uma história e seu
caráter semiótico se delineia em oferecer à mente uma série de premissas/eventos, portanto
uma série de proposições. (SANTOS, 2011, p. 19).

ARGUMENTO: (escala de correspondência: terceiridade, nível pragmático, legi‐signo,


símbolo, lei) Signo – para seu interpretante – de uma lei, de um enunciado, de uma
proposição‐enquanto signo. Ou seja, o objecto de um Argumento, para o seu interpretante, é
representado em seu carácter de signo; esse objecto é uma lei geral ou tipo. Envolve um Dici‐
signo. (SEMIÓTICA..., 2018).

Já a argumentação (ideia geral, conceito) que gerou e organizou todo o filme se constitui em
uma generalidade simbólica e tem que ser compreendida da seguinte maneira: “[...] deveria
significar uma coisa que corre junto com, tal como (êmbolo) é uma coisa que corre dentro de
algo” (Peirce, 2000, p. 72). Como uma lei, é algo de natureza abstrata que ordena os fatos
dando-lhes um sentido, é experimentável por sua presença na organização fatos. A mente
identifica e reconhece que há uma lógica operando por trás da narrativa, corre junto, por
dentro, aberta a efetivar a inferência e a abstração. (SANTOS, 2011, p. 19).

Referências:

SEMIÓTICA/Ciências Sociais e Humanas: o blog da disciplina de Semiótica dos alunos do 2º


ano de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Cabo Verde.
http://semiotica-unicv.blogspot.com.br/2010/05/o-signo-de-pierce-e-as-suas-divisoes.html 22
de jan. de 2018.
SANTOS, Marcelo Moreira. Cinema e semiótica: a construção sígnica do discurso
cinematográfica, Revista fronteiras: estudos midiáticos, vol. 13, n. 1, jan/mai, p. 11-19. 2011
– semiótica- livros 3
______. Os Oito Odiados: uma análise semiótica-sistêmica-psicanalítica. Revista Famecos:
mídia, cultura e tecnologia, Porto Alegre, v. 24, n.2, mai/ago, p. 1-19. 2017.