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Variante do Dragão
Ataque Iugoslavo
Variante Clássica
Ataque Levenfish
As Brancas Jogam g2-g3

1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 g6 (Diagrama 1)


A Variante do Dragão é a forma mais natural e mais lógica da Siciliana. As
pretas desenvolvem suas peças nas casas mais ativas. Em particular, ela se carac-
teriza pelo fianqueto do “bispo do Dragão” na grande diagonal, ao longo da qual
ele impõe sua marcante presença.

Diagrama 1
Posição inicial do Dragão Siciliano
12 John Emms

Possivelmente a origem do nome Dragão se deva aos contornos da ilha for-


mada pelos peões negros da coluna d à h. Seu nome certamente é compatível
com o tipo de xadrez que produz: agressivo, implacável e temível. Essa linha do
Dragão Siciliano não é para índoles conservadoras! O Dragão existe há aproxi-
madamente um século. Tal estratégia foi usada pela primeira vez na década de
1880, por Louis Paulsen, renomado teórico de aberturas, tendo sido adotada
também por Harry Nelson Pillsbury, um dos mais famosos enxadristas na virada
do século IX. Atualmente, o Dragão Siciliano possui adeptos em todos os níveis
de xadrez. Em 1995 recebeu um selo definitivo de aprovação, quando Garry
Kasparov o utilizou com sucesso na partida do campeonato contra Vishy Anand.

ATAQUE IUGOSLAVO

1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 g6 6 Be3


Esse lance do bispo, desenvolvendo a ala da dama, é um indício de que as
brancas se preparam para jogar o Ataque Iugoslavo. Essa linha (também conhecida
por “Ataque Rauzer”) ocorreu algumas vezes na década de 1930 na União Sovié-
tica, sendo posteriormente refinada por renomados enxadristas iugoslavos.
O Ataque Iugoslavo é o teste definitivo do Dragão. As brancas se desenvol-
vem rapidamente e fortalecem a ala da dama, bem antes de se preocuparem com
um assalto massivo ao rei preto. Para observadores com menos prática, esse tipo
de ataque pode parecer, ao mesmo tempo, terrível e desalentador.

6...Bg7
O ataque ao bispo com 6...Cg4?? é um erro grave, considerando que a répli-
ca 7 Bb5+! ganha material depois de 7...Cc6 8 Cxc6 bxc6 9 Bxc6+ Bd7 10 Bxa8
ou 7...Bd7 8 Dxg4 (o bispo está cravado em d7).

7 f3
Evita a incômoda possibilidade de ...Cg4 e, conseqüentemente, prepara Dd2
e 0-0-0.

7...0-0 8 Dd2 Cc6 9 Bc4


Outra grande possibilidade para as brancas é o 9 0-0-0 imediato, não gastan-
do tempo com a manobra Bc4-b3. Essa jogada pode dar às brancas um pouco mais
de tempo para conduzirem o ataque. Entretanto, isso pode também dar às pretas a
opção extra de um ataque imediato no centro com 9...d5!? (veja a Partida 3).
Defesa Siciliana 13
9 ... Bd7 10 0-0-0 (Diagrama 2)

Diagrama 2
Posição inicial típica no Ataque Iugoslavo

Estratégias
As brancas planejam o seguinte:

1. Abrir a coluna-h com h2-h4-h5, talvez com apoio de g2-g4.


2. Trocar os principais defensores das pretas na ala do rei. Existe a possibi-
lidade de trocar o bispo do Dragão em g7 por Be3-h6. Pode-se trocar ou
eliminar o cavalo defensivo em f6 de várias maneiras, incluindo Cd5 e
g4-g5.

Em outras palavras, como dizia Bobby Fisher: “Abra a coluna-h e, sac, sac ...
mate!”
As pretas planejam o contra-jogo na ala da dama com lances como ...Ta8-c8,
... Ce5-c4, ...b7-b5 e ...Dd8-a5. Às vezes, sacrificam uma torre por um cavalo com
...Tc8xc3, quebrando a estrutura de peões ao redor do rei branco. Sob o ponto de
vista defensivo, as pretas podem considerar a hipótese de interromperem o avan-
ço do peão branco em h com ...h7-h5. Embora essa estratégia permita que as
brancas permaneçam no ataque com g2-g4, isso, às vezes é mais difícil. Se hou-
ver tempo, as pretas podem mover a torre-f8, cuja finalidade é responder Bh6 com
...Bh8. Isso permite manter o “bispo do Dragão”, que executa um trabalho excepci-
onal na grande diagonal, tanto na defesa quanto no ataque.
Em comparação com outras variantes do Dragão, o Ataque Iugoslavo é de
longe a mais tática e dinâmica. Combinações de mate e sacrifícios são abundan-
14 John Emms

tes, na medida em que os jogadores “vão direto na jugular”. Jogo posicional é


raro, mas é mais provável se as damas forem trocadas logo. Às vezes isso é possí-
vel se um lance precoce ...Dd8-a5 for respondido por Cc3-d5, oferecendo uma
troca em d2.

Teoria
O Ataque Iugoslavo talvez seja a linha teórica mais complexa de todas as
aberturas. Embora os princípios gerais sejam úteis, nessa abertura não existem
alternativas senão aprender a quantidade aparentemente interminável de varian-
tes críticas. Aquele que tem intenção de jogar o Dragão precisa estar totalmente
preparado para todas as opções com as brancas no Ataque Iugoslavo. Isso signi-
fica uma boa dose de trabalho. Entretanto, a recompensa para os jogadores bem-
preparados pode ser a facilidade para marcar muitos pontos.

Estatística
Por ser extremamente excitante, o Ataque Iugoslavo é fantasticamente po-
pular em todos os níveis de xadrez. A posição do Diagrama 2 foi atingida literal-
mente milhares de vezes no xadrez internacional. De acordo com a Mega Database
2002 (banco de dados contendo cerca de dois milhões de partidas de alto nível),
a performance das brancas fica em torno de 55%, 1% acima da média. A estatís-
tica mais reveladora é que cerca de 75% de todos os jogos são decisivos no Ata-
que Iugoslavo (o percentual típico fica em torno de 65%).

Partidas ilustrativas

Partida 1
Minic P.Lee
Cracóvia, 1964

1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 g6 6 Be3 Bg7 7 f3


0-0 8 Dd2 Cc6 9 Bc4 Bd7 10 0-0-0 Tc8
Início do contra-jogo na coluna-e meio-aberta.
O lance 10...Da5 é outra linha popular, defendida por Chris Ward, grande
mestre inglês e especialista na Variante do Dragão. Nessa variante, as pretas pla-
nejam deslocar a torre-f8 para c8, permitindo, assim, a opção de enfrentar Bh6
com...Bh8.

11 Bb3
Jogada sensata. O bispo se afasta da linha de fogo na coluna-c.
Defesa Siciliana 15
11 ...Ce5
Liberando a torre e preparando...Ce5-c4.

12 h4
Lá vem aquele peão da coluna-h! Agora as pretas têm duas grandes alterna-
tivas.

12 ...Cc4
Outra grande possibilidade para as pretas é 12...h5 (veja a Partida 2).

13 Bxc4
Geralmente a melhor opção das brancas é trocar o bispo de casas brancas
pelo cavalo; o outro bispo é imprescindível para trocar “o bispo do Dragão das
pretas”.

13 ...Txc4 14 h5
Também é possível jogar o lance mais lento 14 g4, preparando h4-h5 sem
sacrifício.

Exercício 1: O que há de errado com o imediato 14 Bh6, oferecendo uma troca de bispos
de casas pretas?

14 ...Cxh5 15 g4
O ponto: as brancas sacrificaram um peão para abrir a coluna-h e ganhar
tempo para o ataque, ao atacar o cavalo.

15 ...Cf6 16 Bh6!? (Diagrama 3)


Esse lance leva a grandes complicações.

Diagrama 3 Diagrama 4
As brancas oferecem uma troca Como as brancas irão prosseguir?
16 John Emms

16 ... Bxh6
Se um lance aparentemente natural perder o controle, significa que o siste-
ma é, sem dúvida, perigoso.

AVISO: No Ataque Iugoslavo, qualquer descuido dos jogadores geralmente é decisivo.

O lance 16...Cxe4!, liberando o “bispo do Dragão” no ataque a d4, é uma


recomendação teórica. Certamente há um número incrível de tentativas para
ambos os lados. Entretanto, décadas de experiência revelam que a linha crítica é
17 De3! Txc3 (enfraquecendo os peões na ala da dama) 18bxc3 Cf6 19 Bxg7
Rxg7, com uma posição pouco clara. As brancas têm uma qualidade por um peão
de vantagem material e ainda têm chances de atacar na coluna-h. O rei branco,
entretanto, parece bastante desprotegido e, por isso, as pretas podem desencade-
ar um rápido contra-ataque com ...Da5 e ...Tc8. Observe que a seqüência 20
Dh6+ Rh8! 21 g5 Ch5 defende as pretas, por exemplo: 22 Txh5 gxh5 23 Th1 Tg8
24 Txh5 Tg7 e o ataque das brancas chegou a um beco sem saída.

17 Dxh6 Txc3
Uma resposta lógica. As pretas entregam a torre por um cavalo, impedindo
Cd5 e destroçando a estrutura de peões ao redor do rei branco. Trata-se de um
lance típico das pretas no Dragão. Aqui, infelizmente, ele chega muito tarde.

18 g5!
As brancas simplesmente ignoram a torre; o ataque na coluna-h será de-
vastador.

18...Ch5 (Diagrama 4) 19 Txh5!


Eliminação do defensor final das pretas.

19...gxh5 20 Th1
Apesar de terem uma torre a mais, as pretas não têm nenhuma defesa para
o ataque de mate ao longo da coluna-h.

20...Dc8
Ou 20...f6 21 g6! hxg6 22 Dxg6+ Rh8 23 Txh5 mate.

21 Txh5 Bf5 22 exf5 Txc2+ 23 Cxc2 Dxf5 24 g6! as pretas abandonam


Uma tática final. A seqüência 24...Dxg6 25 Tg5 vence a dama, deixando as
pretas irremediavelmente atrás em termos de material.

Partida 2
Koval Berman
Por correspondência, 1985
Defesa Siciliana 17
1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 g6 6 Be3 Bg7 7 f3
Cc6 8 Dd2 0-0 9 Bc4 Bd7 10 h4 Tc8 11 Bb3 h5 12 0-0-0 Ce5
Utilizando uma ordem de lances ligeiramente diferente, atingimos a posi-
ção principal, onde as pretas jogam ...h7-h5, impedindo as brancas de jogarem
h4-h5.

13 Bg5
Movendo o bispo para uma casa ativa e preparando operações na ala do rei.
É claro que as brancas têm várias maneiras de conduzir o ataque: podem conti-
nuar também com o ultra-agressivo 13 g4 ou 13 Bh6, ou jogar um lance defensi-
vo preparatório como 13 Rb1.

13...Tc5
Além de aumentar a pressão na coluna-c, a torre também pode ser usada
para fins defensivos na quarta fileira.

14 g4!?
As brancas vão “com tudo”.

14...hxg4 15 Bxf6?
Um erro fundamental. As brancas eliminam um defensor das pretas, porém
agora não têm como se livrar do poderoso “bispo do Dragão” das pretas.

AVISO: No Dragão, seja cauteloso ao trocar o bispo de casas pretas por um cavalo. A não ser que
resulte em algo concreto, essa manobra geralmente não é uma boa idéia (isso se aplica tanto às
brancas quanto às pretas).

Uma das maneiras de avançar é com o sacrifício 15 h5, levando a complica-


ções massivas.

15...Bxf6 16 h5 g5!
Recusando a abrir a coluna-h.

17 Cd5 Txd5!
Outro exemplo de sacrifício eficaz de qualidade. O poderoso cavalo das bran-
cas é eliminado do tabuleiro.

18 exd5 gxf3 19 c3 g4
O ataque das brancas atingiu um beco sem saída na ala do rei. Lentamente,
mas com segurança, as pretas assumem o controle da operação.
18 John Emms

20 Rb1 Db6 21 Bc2 Cc4 22 Dc1 Tc8 23 Cf5? (Diagrama 5)


Permite uma combinação letal.

Diagrama 5 Diagrama 6
As pretas têm uma tática vencedora As brancas têm um bispo forte em c5

23...Ca3+ 24 Ra1 Txc3! 25 Cxe7+ Rf8 as brancas abandonam


As pretas dão mate depois de 26 bxc3 Bxc3+, enquanto a posição das bran-
cas entra em colapso após 26 Th2 f2.

Partida 3
Almasi Watson
Liga Alemã, 1995

1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 g6 6 Be3 Bg7 7 f3


0-0 8 Dd2 Cc6 9 0-0-0
As brancas esperam ganhar tempo no ataque na ala do rei, retardando (ou
abandonando) o desenvolvimento do bispo para c4. Se as pretas se desenvolve-
rem normalmente, esse tempo adicional pode ser extremamente vantajoso para
as brancas.

9 ...d5!?
Isso é o que é permitido pelo último lance das brancas. Agora ocorrem algu-
mas trocas no centro.

10 exd5 Cxd5 11 Cxc6 bxc6 12 Bd4


Abordagem posicional que possibilita a troca dos bispos de casas pretas. As
brancas podem ganhar um peão com 12 Cxd5 cxd5 13 Dxd5. Entretanto, depois
de 13...Dc7, as colunas abertas na ala da dama criam amplas possibilidades de
Defesa Siciliana 19
ataque para as pretas. Observe que 14 Dxa8 Bf5! ganha a dama. Depois de 15
Dxf8+ Rxf8, as pretas ainda têm uma ataque poderoso.

12...e5 13 Bc5 Be6!


Outra oferta típica de sacrifício de qualidade no Dragão.

14 Ce4!
A maioria dos especialistas concorda que, depois de 14 Bxf8 Dxf8, as oportu-
nidades de ataque das pretas e o controle das casas pretas mais do que compensam
o ligeiro déficit de material. Observe que as pretas já ameaçam ...Bh6, cravando a
dama branca no rei. O especialista em Dragão e Grande Mestre Eduard Gufeld
venceu pelo menos uma vez dessa forma!

NOTA: Os sacrifícios de qualidade são muito comuns no Ataque Iugoslavo.

14...Te8 15 g4 h6 16 h4 a5 17 g5 h5 18 a4 Dc7 19 Bc4 Ted8


20 Df2 Db7 21 b3 (Diagrama 6)
Aqui, o jogo é mais lento que em outras partidas no Ataque Iugoslavo, visto
que há um bloqueio parcial tanto na ala do rei como na ala da dama.

21 ...Cf4 22 Bxe6 Cxe6 23 Txd8+! Txd8 24 Bb6 Ta8 25 Td1 Cd4 26 Bc5 Dd7
27 Cf6+Bxf6 28 gxf6 Df5?
Um erro. O lance correto é 28...Td8!, depois do qual a seqüência 29 Td3??
Cxb3+! 30 Txb3 Dd1+ 31 Rb2 Td2 (Almasi) dá às pretas um ataque vencedor.

29 Bxd4 exd4 30 Dxd4 Dxf3 31 De5!


As brancas estão abrindo caminho na ala do rei.

31...Df2 32 Td7! Tf8 33 Rb2 c5 34 Txf7! As pretas abandonam


Uma ótima combinação para encerrar a partida. As brancas dão mate de-
pois de 34...Rxf7 35 De7+ Rg8 36 Dg7 e 34...Txf7 35 De8+ Tf8 36 Dxg6+ Rh8
37 Dg7.

VARIANTE CLÁSSICA

1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 g6 6 Be2


Embora o Ataque Iugoslavo seja realmente o teste crucial do Dragão, esse
estilo bombástico de jogar não agrada a todos. Para os mais conservadores a
Variante Clássica é a escolha ideal. As brancas simplesmente se desenvolvem de
uma maneira “clássica” e rocam na ala do rei.
20 John Emms

6...Bg7 7 0-0 Cc6 (Diagrama 7)


Pressão prematura em d4. Agora as brancas devem ser cautelosas sob o
ponto de vista tático.

Diagrama 7 Diagrama 8
Posição inicial na Variante Clássica Posição típica da Variante Clássica

8 Be3
Embora seja lógico apoiar o cavalo-d4, devemos também avaliar algumas
alternativas:
a) 8 f4? (as brancas desprezam a ameaça) 8...Cxe4! (liberando o poder do
bispo) 9 Cxc6 (9 Cxe4 Cxd4 também ganha um peão).
9...Db6+ 10 Rh1 Cxc3 11 bxc3 bxc6 e as pretas ganham um peão vital.

NOTA: No Dragão, as pretas dispõem de um arsenal de táticas para explorar a pressão na grande
diagonal a1-h8.

b) O lance 8 Cb3 opta por afastar imediatamente o cavalo do fogo cruzado


que assola o centro. Depois de 8...0-0, as brancas geralmente prosseguem com 9
Bg5, linha popularizada por Karpov no final da década de 1970 (veja a Partida 4).

8...0-0 9 Cb3
Novamente se remove o cavalo do centro, eliminando, assim, táticas emba-
raçosas das pretas. Lances de semi-espera como 9 Rh1 podem ser realizados
diretamente pelo avanço estratégico e desejável 9...d5!. As pretas ficam extre-
mamente ativas com 10 exd5 Cxd5 11 Cxd5 Dxd5 12 Bf3 Da5 13 Cxc6 bxe6 14
Bxc6 Tb8.
Aparentemente há alguma lógica em iniciar a ofensiva com 9 f4, embora as
pretas possam explorar a debilidade da posição das brancas com o perigosíssimo
lance 9...Db6. A teoria aqui é complexa, mas a posição das pretas é perfeitamen-
te sustentável.
Defesa Siciliana 21

NOTA: Normalmente as brancas devem tentar impedir o avanço ...d6-d5.

9...Be6 (Diagrama 8)
Uma excelente casa para o bispo, apontando ameaçadoramente para a ala
da dama.

Estratégias
O palco está preparado para uma interessante batalha posicional. As bran-
cas tentam manter um domínio firme nas casas centrais (especialmente em d5),
podendo jogar agressivamente com f2-f4-f5 e inclusive com g2-g4-g5. Entretan-
to, esses lances são como uma faca de dois gumes. Se as brancas não tomarem
cuidado, podem ficar superestendidas e vulneráveis a contra-ataques.
A melhor oportunidade de contra-jogo para as pretas é a coluna-c meio-
aberta, assim como a possibilidade de avançar os peões a e b. Uma tentativa
interessante seria colocar uma peça na cobiçada casa-c4. Essa jogada pode
ser factível, por exemplo, com ...Tc8, ...Ce5 (a5) e ...Cc4 (ou Bc4). Em qual-
quer momento, as pretas avaliarão a possibilidade de um avanço favorável
em ...d6-d5.
A Variante Clássica leva a jogo posicional muito mais freqüentemente do
que o Ataque Iugoslavo. As brancas ainda se concentram principalmente na ala
do rei (e as pretas na outra ala), embora os respectivos ataques sejam mais con-
trolados, com maior ênfase no ganho de espaço, em vez de ataques massivos em
busca do mate. A Variante Clássica atrai os jogadores das brancas mais propensos
à adoção de estratégias posicionais.

Teoria
A Variante Clássica é menos teórica do que o Ataque Iugoslavo, ou seja, os
jogadores estão mais propensos a salvar a pele jogando com base apenas nos
princípios gerais.

Estatística
Tudo parece inexpressivo em relação à popularidade do Ataque Iugoslavo.
Entretanto, com certeza, a Variante Clássica ocupa o segundo lugar. De acordo
com a Mega Database 2002, o Diagrama 7 ocorreu em aproximadamente 1.200
partidas. No total, as brancas atingem a marca aproximada de 52%, sendo 66%
das partidas decisivas.
22 John Emms

Partidas ilustrativas

Partida 4
Apicella Svidler
Olimpíada de Yerevan, 1996

1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 g6 6 Be2 Bg7 7 0-0 Cc6 8 Cb3 0-0 9 Bg5 a6
As pretas iniciam operações na ala da dama.

10 f4 b5 11 Bf3
Ameaça e4-e5, porém as pretas têm uma resposta natural.

11...Bb7 12 Rh1
Esse é um lance comum em várias posições da Siciliana. O rei está mais
seguro em h1, e as brancas não precisam calcular consistentemente linhas envol-
vendo o xeque de dama em b6.

12...Cd7 13 Tb1
Defendendo o peão-b, de maneira que o cavalo-c3 possa se mover para d5.

13...Te8 14 Cd5
Aqui, as brancas exercem pressão irritante contra o peão-e7. As pretas en-
frentam essa situação de forma surpreendente.

14...f6!
Esse lance foi descoberto pelo campeão mundial Vladimir Kramnik. Embora
pareça estranho bloquear o bispo do Dragão dessa maneira, parece que há outros
fatores posicionais que favorecem as pretas.

15 Bh4 e6 16 Ce3 g5! 17 Bg3


Depois de 17 fxg5 fxg5 18 Bg3 Nde5, o “bispo do Dragão” renasceu e as
pretas assumiram o controle da casa-e5, transformando-a em um importante
posto avançado.

NOTA: O posto avançado é uma casa que dificilmente é atacada por peões inimigos.
Na Siciliana, a casa-e5 geralmente é um posto avançado muito útil para as pretas.

17...gxf4 18 Bxf4 Cde5 19 Bh5 Tf8 (Diagrama 9)


Embora o “bispo do Dragão” das pretas tenha sido confinado pelo peão-f6,
as pretas têm uma posição extremamente sólida e possuem um bom posto avan-
çado defensivo em e5.
Defesa Siciliana 23
20 c3 De7 21 De2 Cg6 22 Bg3 Cce5 23 Cd2 Rh8 24 Tf2 Tad8 25 Tbf1 Bh6
O bispo de casas pretas está tão ativo quanto seu parceiro em b7.

Diagrama 9 Diagrama 10
As pretas têm uma posição As brancas ditam as regras
extremamente sólida

26 Cg4?! Cxg4 27 Bxg4 d5!


Desmantelando o centro e aumentando a atividade de sua peça, aqui as
pretas estão solidamente no controle.

28 Bh5 dxe4 29 Cxe4 f5 30 Bxg6 hxg6 31 Cd6 Ba8!


31...Txd6? perde material para 32 De5+!.

32 Be5+ Rg8 33 Td1 Td7 34 Dd3 Tfd8


Embora o cavalo-d6 possa causar uma forte impressão, na realidade está
bastante vulnerável, considerando que não há nenhuma casa segura onde possa
se abrigar.

35 Dg3 Dg5 36 Dxg5 Bxg5 37 Td3 Be4 38 Th3 Txd6 39 Th8+ Rf7 40 Th7+ Re8 41 Th8+ Rd7 as
brancas abandonam
Imediatamente após 42 Txd8+ Bxd8 43 Bxd6 Rxd6 44 Td2+ Re7, os dois
bispos são muito superiores à torre nesse final de partida.

Partida 5
Thipsay Duncan
Londres, 1994
24 John Emms

1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 g6 6 Be2 Bg7 7 0-0 Cc6


8 Be3 0-0 9 Cb3 Be6 10 f4 Tc8 11 Rh1
As brancas podem jogar mais agressivamente com 11 f5. Entretanto, de-
pois de 11...Bd7, devem tomar cuidado para não ficar superestendidas. Depois
de 11 f5 Bd7 12 g4?! Ce5! 13 g5 Txc3! 14 bxc3 Cxe4, as pretas dominam o
tabuleiro.

NOTA: O sacrifício de qualidade ...Txc3 é particularmente eficaz se as pretas puderem também


capturar o importante peão central das brancas.

11...Ca5
Planejando usar a casa-c4. As pretas também podem manter suas opções
abertas com 11...a6, tendo ...b7-b5-b4 sempre em mente.

12 f5 Cc4
Talvez 12...Bc4 seja mais forte.

13 Bd4 Bd7 14 Bxc4 Txc4 15 Dd3 Tc8 16 a4


O espaço extra das brancas promete uma pequena vantagem.

16...a6 17 a5 Bc6 18 Cd2 Dd7?!


18...Dc7 impede o próximo lance das brancas.

19 Cd5! Bxd5 20 exd5 Cg4 21 Bxg7 Rxg7 22 c4 Ce5 23 De4 Rh8 24 b3


(Diagrama 10)
A mudança na estrutura de peões favoreceu as brancas. As pretas não têm
mais opção de contra-jogo na ala da dama, ao passo que as brancas estão livres
para concentrar suas operações na ala do rei.

24...Tg8 25 h3 Tg7 26 f6! exf6 27 Txf6 Tgg8 28 Dd4 Tge8 29 Ce4 De7 30 Taf1 Tcd8
31 Txf7 Dh4 32 Cf6 Dh6 33 Cxe8 Txe8 34 T7f6 as pretas abandonam

ATAQUE LEVENFISH
1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 g6 6 f4
(Diagrama 11)
O Grande Mestre russo Grigory Levenfish desenvolveu sua linha ardilosa
nos anos 1930, em contraposição à testada e confiável Variante Clássica.

6...Cc6
Embora seja o lance mais natural na posição, o lance 6...Bg7!? permite que
as brancas compliquem com 7 e5 (veja a Partida 6).
Defesa Siciliana 25

Diagrama 11
Posição inicial no Ataque Levenfish

7 Cxc6 bxc6 8 e5 Cd7 9 exd6 exd6


Isso nos leva à Partida 7.

Estratégias
As brancas esperam pegar as pretas no contrapé com um avanço rápido no
centro. Com auxílio do peão-f, as brancas movimentam rapidamente seu peão-e
para e5, desalojando o cavalo-f6 preto e impedindo o desenvolvimento confortá-
vel de seus contendores.
A estratégia das pretas deve ser a sobrevivência durante os poucos lances de
abertura, sem deixar acontecer nenhum desastre, o que, às vezes, é mais fácil
dizer do que fazer! Entretanto, se as pretas tiverem condições de superar esses
primeiros lances difíceis, terão certamente chances de conquistar uma posição
bastante promissora no início do meio-jogo.
O Ataque Levenfish geralmente inicia com uma rajada de táticas. Entretan-
to, presumindo que as pretas sobrevivam sem nenhum tipo de problema, as posi-
ções resultantes podem ser de natureza tática ou estratégica.

Teoria
Os jogadores das pretas são aconselhados a desenvolver metodicamente uma
defesa aceitável para o Ataque Levenfish. Caso contrário, pode haver um desas-
tre prematuro e, nessa ocasião, ninguém gostaria de aprender lições de tal desa-
gradável experiência.

Estatística
O Ataque Levenfish não é popular nos níveis mais elevados, sendo que exis-
tem pouquíssimas partidas de grandes mestres com esse ataque nos últimos anos.
26 John Emms

Entretanto, nos níveis inferiores, o Ataque Levenfish é mais popular e mais bem-
sucedido. Muitos jogadores inexperientes das pretas acabam caindo em alguma
das muitas ciladas.

Partidas ilustrativas

Partida 6
Pilnik Kashdan
Nova York, 1948

1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 g6 6 f4 Bg7 7 e5!


Depois desse lance, as pretas devem ser muito cuidadosas.

7...dxe5
Outra opção para as pretas é 7...Ch5. Agora, aparentemente o lance 8 g4?
pega o cavalo preto na armadilha. Entretanto, as pretas dispõem do recurso
8...Cxf4! 9 Bxf4 dxe5, recuperando a peça com vantagem. Em vez de 8 g4, as
brancas deveriam jogar 8 Bb5+ Bd7 9 e6!.

8 fxe5 Cg4?

AVISO: O cavalo-g4 pode ficar vulnerável a táticas durante a abertura.

O lance 8...Cfd7 9 e6 Ce5 é a melhor maneira de as pretas prosseguirem.


Depois de 8...Cg4?, as brancas ganham material à força.

9 Bb5+! (Diagrama 12)

Diagrama 12 Diagrama 13
As pretas estão em apuros O cavalo das pretas é uma fera!
Defesa Siciliana 27
9...Cc6
Lance único. Tanto 9...Bd7 como 9...Cd7 perde uma peça para 10 Dxg4,
enquanto 9...Rf8? tem um destino pior, depois de 10 Ce6+! e 11 Dxd8.

10 Cxc6 Dxd1+
Ou 10...bxc6 11 Bxc6+, seguido por Bxa8.

11 Cxd1 a6 12 Ba4 Bd7 13 h3 Ch6


Ao cravar o cavalo ao bispo, as pretas recuperam sua peça. Entretanto,
uma pequena artimanha garante que as brancas mantenham um peão valioso a
mais.

14 Cxe7! Bxa4 15 Cd5 Td8 16 c4 Cf5 17 Bg5 Td7 18 C1c3 Bc6 19 0-0-0 h5
19...Bxe5 perde material para 20 The1, produzindo uma cravada mortal.

20 Cc7+! Rf8
20…Txc7 permite o mate em um com 21 Td8.

21 Txd7 Bxd7 22 Td1


As pretas são obrigadas a ceder uma peça. O lance 22...Be8 perde para 23
Td8.

22...Bxe5 23 Txd7 h4 24 Ce4 Cd4 25 Td8+ Rg7 26 Ce8+ Rh7 27 C4f6+ Bxf6 28 Cxf6+
as pretas abandonam

Partida 7
Illijin Cebalo
Baden, 1999

1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 g6 6 f4 Cc6!


Até certo ponto, esse lance evita as ciladas.

7 Cxc6
Ou 7 Bb5 Bd7 8 Bxc6 bxc6 9 e5 Cd5 10 Cxd5 cxd5 11 exd6 e6! (Ward), e as
pretas seguem com ...Bxd6.
As brancas podem jogar tranqüilamente com 7 Cf3!?, embora isso não cons-
titua nenhuma ameaça real para a posição das pretas. A partida permanece equi-
librada depois de 7...Bg7 8 Bd3 0-0 9 0-0 Bg4.

7...bxc6 8 e5
As brancas insistem na ruptura central.
28 John Emms

8...Cd7 9 exd6 exd6 10 Dd4


Atacando a torre no canto e preparando para rocar na ala da dama, as bran-
cas conseguem manter a iniciativa. Objetivamente, o lance 10 Be2 é mais seguro,
porém não causa problemas para as pretas.

10...Cf6 11 Be3 Be7!


Uma ocorrência pouco comum no Dragão; o bispo é desenvolvido em e7 em
vez de g7!. Entretanto, há uma forte razão para isso; isto é, depois de 11...Bg7 12
0-0-0 d5 13 Dc5!, as pretas têm problemas para rocar.

12 0-0-0 0-0 13 h3
Impedindo ...Cg4.

13...d5 14 Ca4?!
Preparando Cc5, porém as pretas chegam na frente!

14...Ce4! (Diagrama 13)


Esse é um poderoso posto avançado para o cavalo preto.

15 Be2 Be6
Agora o ataque das pretas na ala da dama é bastante automático, aflorando
à mente lances como ...Da5, ...Tb8 e ...Bf6. O próximo lance das brancas, sacrifi-
cando um peão para abrir as linhas, tem o sabor de desespero.

16 f5 Bxf5 17 Bh6 Bf6! 18 De3 Te8 19 Df4 Da5 20 b3 Cc3 21 Bd3 Cxa2+ 22 Rb1 Cc3+
23 Rc1 Te4 24 Dd6 Be7 25 Dxc6 Tc8 26 Da6 Txa4 27 bxa4 Ce2+ as brancas abandonam
O mate ocorre depois de 28 Bxe2 Txc2+ 29 Rb1 Db4+ 30 Ra1 Db2.

AS BRANCAS JOGAM g2-g3


1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 g6 6 g3
(Diagrama 14)
Isso introduz um sistema sofisticado e posicional de
desenvolvimento que, todavia, a maioria considera ino-
fensivo contra o Dragão. As brancas gastam tempo extra
para desenvolver o bispo da ala do rei em g2, onde será
bloqueado pelo peão-e4. Colocado nesses termos, é sur-
preendente que essa linha tenha conquistado alguma
popularidade. Entretanto, como veremos a seguir, há al-
gumas características que redimem esse método de de-
senvolvimento.

6...Cc6 7 Cde2
Diagrama 14 Veja na Partida 8 mais detalhes sobre 7 Bg2 Cxd4 8
Posição inicial da variante g3 Dxd4 Bg7 9 0-0 0-0.
Defesa Siciliana 29
7...Bg7 8 Bg2 0-0 9 0-0

Estratégias
Uma vez no Dragão, o jogo das brancas não é motivado por um ataque ao rei
preto. Em vez disso, seu principal objetivo geralmente é fazer pressão posicional
no centro.
O bispo-g2 superprotege o peão-e4. Isso permite que o cavalo-c3 branco se
movimente. Uma idéia comum para as brancas é jogar Cc3-d5, o que pode se
tornar extremamente irritante. Se as pretas capturam em d5, as brancas geral-
mente recapturam com o peão-e4, oferecendo às brancas a oportunidade de uti-
lizar a recém-formada coluna-e meio-aberta. Se, ao contrário, as pretas atacam o
cavalo com ...e7-e6, o peão-d6 fica ligeiramente vulnerável.
Novamente as pretas olham para a ala da dama em busca de contra-jogo,
embora devam tomar cuidado para não avançar prematuramente seus peões
nessa ala, pois isso permite que as brancas soltem seu bispo de casas brancas
com e4-e5. Em vez de buscar uma troca, quando o cavalo atinge d5, as pretas
geralmente tentam jogar ao seu redor, antes de ejetá-lo com um ...e7-e6 (veja a
Partida 9).

Teoria
A linha g3 do Dragão é pouco teórica, sendo geralmente praticada por joga-
dores que procuram evitar uma batalha teórica pesada. Há apenas uma ou duas
variantes que precisam ser estudadas.

Estatística
Essa linha não é muito popular, porém encontramos aproximadamente mil
exemplos do Diagrama 14 na Mega Database 2002, com as brancas atingindo a
marca surpreendente de 60%. Talvez o lance g3 tenha sido subestimado contra o
Dragão!
Entretanto, imagino que nos níveis inferiores essa linha seja menos popular,
considerando que a maioria dos jogadores é seduzida com as recompensas e
complicações do Ataque Iugoslavo e do Ataque Levenfish.

Partidas ilustrativas

Partida 8
Adams Kramnik
Wijk aan Zee, 1998
30 John Emms

1 e4 c5 2 Cf3 Cc6 3 Cc3


As brancas utilizam uma ordem de lances atípica, mas irão transpor para
uma Siciliana Aberta.

3...d6 4 d4 cxd4 5 Cxd4 Cf6 6 g3 g6


O que iniciou como uma defesa Siciliana Clássica, acabou transpondo para
uma variante do Dragão.

NOTA: Há inúmeras possibilidades transposicionais na Defesa Siciliana.

7 Bg2 Cxd4
Não é usual as pretas trocarem os cavalos tão prematuramente, embora,
nesse caso, elas acreditem que a dama possa ficar vulnerável em d4.

8 Dxd4 Bg7 9 0-0 0-0 10 Db4?!


Raciocínio profilático. As brancas removem a dama de d4 antes que as pre-
tas tenham a oportunidade de levar vantagem. Entretanto, a dama continua vul-
nerável nessa casa. As brancas deveriam levar em consideração 10 h3 Be6 11
Dd1 ou 10 Dd3!?.

NOTA: Profilaxia é a idéia estratégica de prever ou antecipar uma ameaça do oponente,


mesmo antes que ela exista.

10...a5! 11 Db3 Be6! (Diagrama 15)


As pretas oferecem o sacrifício de um peão na tentativa de atrair a dama
branca para dentro do território inimigo.

12 Cd5
Depois de 12 Dxb7 Cd7, para compensar o peão, as pretas se tornam muito
ativas e a dama das brancas fica bastante vulnerável.

12...a4!
Forçando o jogo.
Defesa Siciliana 31

Diagrama 15 Diagrama 16
Convidando a dama a As pretas perdem a
capturar um peão envenenado oportunidade de complicar

13 Dxb7 Cxd5 14 exd5 Bf5


Embora as brancas estejam com um peão a mais, a situação das pretas é
melhor. Os peões c2 e b2 estão vulneráveis, e a dama branca não está bem colo-
cada em b7.

15 Bg5 Db8!
Mesmo o final ainda favorecerá as pretas.

16 Dxb8 Tfxb8 17 Bxe7 Txb2 18 a3


Ou 18 Bxd6 Txc2 19 Tad1 Txa2 (Kramnik) e o peão passado das pretas é
mais forte que o das brancas.

18...Txc2 19 Tae1 Ta6


Protegendo o vital peão-d6. Agora a principal debilidade posicional é o peão-
a3 das brancas.

20 Be4 Bxe4 21 Txe4 Bb2 22 Tfe1?


22 Te3! limita os danos.

22 ...Tc1!
Agora o peão-a está perdido. Observe que 22...Bxa3?? permite 23 Bf6! com
mate inexorável em e8.
32 John Emms

23 Txc1 Bxc1 24 Bf6 Ta8 25 Tc4 Bxa3 26 Bd4 Bc5!


As pretas devolvem o peão para chegar a um final tecnicamente ganho.

27 Bxc5 dxc5 28 Txc5 a3 29 Tc1 a2 as brancas abandonam


Não há esperança. Por exemplo: 30 Ta1 Rf8 31 Rg2 Re7 32 Rf3 Rd6 33 Rf4
h6 34 Re4 Ta4+ 35 Rd3 Rxd5 36 Rc3 Re4 37 Rb3 Ta7 38 Txa2 Txa2 39 Rxa2 Rf3,
e o rei preto engole os peões brancos.

Partida 9
Malakhov Svidler
Elista, 1997

1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 Cc6 6 Cde2 g6 7 g3 Bg7 8 Bg2 0-0 9 0-0 Tb8
Preparando o contra-jogo na ala da dama com ...b7-b5.

10 a4 a6 11 Cd5
A ocupação dessa casa com o cavalo é um procedimento normal nas linhas g3.

11...b5
O lance 11...Cxd5?! 12 exd5! melhora a estrutura de peões, favorecendo as
brancas. O peão-d5 é um pequeno espinho na posição das pretas, sendo que o
peão-e7 pode ficar exposto na coluna-e meio-aberta.

12 axb5 axb5 13 h3
As brancas querem jogar Bc1-e3 sem ter de se preocupar com ...Cg4.

13...b4 14 Be3 Cd7!


As pretas estão prontas para ejetar o cavalo com …e7-e6.

15 Dc1
Defendendo o peão-b2. Observe que depois de 15 Cd4?, as pretas podem
ganhar uma peça de maneira surpreendente: 15...Bxd4 (as pretas trocam seu
poderoso bispo, mas ...) 16 Bxd4 e6! 17 Ce3 e5 18 Ba7 Tb7 e o bispo-a7 cai na
armadilha.

DICA: Não descarte lances que possam parecer estranhos – eles podem ser
ao mesmo tempo estranhos e bons!
Defesa Siciliana 33
15...e6! 16 Cdf4 Dc7 17 Ta2 Cf6 18 Cd3 Td8 19 c4 Bb7 20 b3 (Diagrama 16)

20...Cd7
Agora, as pretas poderiam ter jogado 20...Ca5!, atingindo simultaneamente
os peões e4 e b3. Malakhov sugere a seguinte linha: 21 Cd4 Bxe4 22 Bxe4 Cxe4
23 Cb5 Cxb3! 24 Cxc7 Cxc1 25 Txc1 b3 com uma posição pouco clara.

21 Td1 Cce5?
Péssimo lance. As pretas sacrificam seu peão-b4, mas seus cálculos estão
errados.

22 Cxb4 Cc5 23 Cd4! Bxe4 24 Bxe4 Txb4


O lance 24...Cxe4 permite 25 Ca6, dando um garfo na dama e na torre.

25 Cb5! Db6 26 Da3 Cxc4?


26...Db8! 27 Dxb4 Cxe4 era a última chance.

27 bxc4 Txc4 28 Bd3! as pretas abandonam


28...Dxb5 29 Bxc4 Dxc4 30 Bxc5 e as brancas têm uma torre a mais em
troca de dois peões insignificantes.

RESUMO
1. O Dragão Siciliano é para almas corajosas. Se as brancas jogarem o
temível Ataque Iugoslavo, os dois jogadores devem se preparar para
uma “batalha sangrenta”.
2. Os jogadores das brancas com índole mais conservadora são mais incli-
nados a jogar a Variante Clássica ou a variante g3.
3. O Ataque Levenfish se caracteriza por várias ciladas. Por essa razão, as
pretas precisam memorizar uma defesa confiável.
4. A variante g3 é enganadora – é melhor do que parece!