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Capitulo XII A educagao estética A estética a servigo da pedagogia Na ciéncia psicolégica e na pedagogia tedrica até hoje nao se resolveu de forma definitiva a questo da natureza, do senti- do, do objetivo e dos métodos da educagao estética. Dos tempos mais remotos aos nossos dias tém aparecido pontos de vista extremados e contraditérios sobre essa questao, que a cada de- cénio vio se confirmando cada vez mais em toda uma série de investigagdes psicolégicas. Assim, a discussio nao se resolve nem se aproxima do fim, e o problema parece complexificar-se ainda mais na medida em que avanga 0 conhecimento cientifico. Muitos autores eram propensos a negar quase todo senti- do educativo as vivéncias estéticas, e a corrente da pedagogia vinculada a esses autores parte de uma raiz comum a deles, continua a defender a mesma idéia ao reconhecer como estreito e limitado o sentido da educacao estética. Ao contrario, a ten- déncia dos psicdlogos da outra corrente era a de exagerar demais © sentido das emogées estéticas e ver nelas quase um recurso pedagégico radical que resolve todos os problemas dificeis ¢ complexos da educagao. Entre esses pontos extremos situa-se uma gdes moderadas no papel da estética na vida da crianga, segun- ie de concep 324 Paicologia pedagegica do as quais 0 sentido da estética estd na distragio ¢ na satisfa- dio. Onde alguns enxergam o sentido sério e profundo da emogio estética, trata-se quase sempre nao da educagio estética como. ‘um objetivo em si mas apenas como meio para atingir resulta- dos pedagégicos estranhos a estética. Essa estética a servico da pedagogia sempre cumpre fungdes alheias e, segundo os peda- gogos, deve servir de via e recurso para educar 0 conhecimen- to, o sentimento ou a vontade moral. que hoje pode ser considerado indiscutivelmente esta- belecido sao a falsidade e a falta de qualidade cientifica dessa concepgao. Todos 0s trés objetivos construidos e impostos 4 es- tética — conhecimento, sentimento e moral — desempenharam na histéria dessa questao um papel que retardou extremamen- tea sua solugao. Moral e arte Costuma-se supor que uma obra de arte tem um efeito bom ‘ou mau, mas indiretamente moral. Ao avaliar-se as impressdes estéticas, sobretudo na mocidade e na idade infantil, costuma-se levar em conta antes de tudo o impulso moral decorrente de cada objeto. Organizam-se as bibliotecas infantis com a finali- dade de que as criangas tirem dos livros exemplos morais ilus- trativos ¢ ligdes edificantes, a enfadonha moral da rotina e os sermées falsamente edificantes se tornaram uma espécie de es- tilo obrigatério de uma falsa literatura infantil. Nesse caso, imagina-se que a tnica coisa de séria que a crianga pode aurir do convivio com a arte é uma ilustrago mais ou menos viva dessa ou daquela regra moral. Tudo 0 mais € proclamado como inacessivel 4 compreensio da crianga, € além dos limites da moral a literatura infantil costuma limitar- se a uma poesia de asneiras e futilidades como se fosse a unica acessivel 4 compreensio infantil. Surge dai também um senti- mentalismo idiota proprio de uma literatura infantil como trago Aeducacao esttica 325 distintivo. O adulto procura enquadrar-se na psicologia infantil e, supondo que o sentimento sério é inacessivel a crianga, ado- cica sem habilidade nem arte as situagdes os hersis: substitu o sentimento pela sensibilidade e a emogao pelo sentimento. 0 sentimentalismo nao é outra coisa senao uma tolice do senti- mento. Como resultado, a literatura infantil costuma representar um protétipo nitido de falta de gosto, de um estilo artistico gros- seiro ¢ da mais desoladora compreensio do psiquismo infantil. Antes de mais nada, é indispensdvel abrir mio da concep- do segundo a qual as emogées estéticas tém alguma relagao direta com as morais e toda obra de arte encerra uma espécie de impulso para o comportamento moral. Um fato sumamente curioso foi comunicado na imprensa pedagdgica americana em relagao ao efeito moral de um livro que pareceria tio indis- cutivelmente humano como A cabana do Pai Tomas. Respon- dendo a perguntas sobre as vontades e sentimentos desperta- dos pela leitura desse livro, varios alunos de escolas america- nas responderam que o que mais lamentavam era que o tempo da escravidio houvesse passado e naquele momento nio exis- tissem mais escravos na América. E esse fato é ainda mais sig- nificativo porque, nesse caso, nao estamos diante de alguma excepcional imbecilidade moral ou incompreensio mas de que a possibilidade de tal conclusao radica na propria natureza das vivencias estéticas das criangas e, de antemao, nunca podemos estar certos do tipo de efeito moral que esse ou aquele livro ira exercer. Nesse sentido ¢ ilustrativo 0 conto de Tchékhov sobre 0 ‘monge medieval, que com o talento de um artista magnifico narra para a irmandade sobre o poder do diabo, a depravagao, o hor- Tor eas tentagdes que ele teve a oportunidade de presenciar na cidade. O narrador estava imbuido da mais sincera indignagio e como era um artista de verdade e falava com inspiragao, be- leza e sonoridade, representou a forga do diabo e a sedugao mor- tal do pecado com tanta clareza que no dia seguinte no resta-