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A POÉTICA DA HISTÓRIA NA OBRA DE HAYDEN WHITE

Construções da narrativa histórica e as possibilidades literárias


Tairon Villi1
UFPR
RESUMO
Na segunda metade do século XX houve um processo de efervescência nas
ciências humanas, a saber, o linguistic turn ou cultural turn. Desse período
resultaram várias inquietações nas áreas de humanidades. Surgiram
questionamentos sobre o caráter narrativo e a estrutura narrativa que compunha o
discurso de cada uma dessas áreas. No campo da história não foi diferente, e nesse
contexto destacamos o papel de Hayden White, que preconizou a discussão sobre
narratividade da história em trabalhos como The Burden of History e Meta-História.
Nesses trabalhos White discute a forma pela qual o discurso histórico é estabelecido
e as limitações e possibilidades que tal forma oferece – e essa forma é a narrativa.
Versamos sobre um ponto específico – porém, amplo e fundamental – dessa
discussão, a poética da história. White desenvolve a teoria dos tropos, e identifica os
elementos notadamente literários na elaboração do discurso histórico, e assim, a
atitude poética do historiador na construção da narrativa histórica, e por fim procura
delinear a relação história-literatura. E é sobre essa poética no fazer historiográfico,
indicado por White, que nos dedicamos nesse trabalho.
Palvras-chave: Hayden White; história e literatura; historiografia; poética da história;
teoria da história.

Na segunda metade do século XX, ocorreu nas ciências humanas um


fenômeno e/ou processo denominado de linguistic turn, também conhecido como
“giro linguístico”. Esse giro consistiu numa guinada das ciências humanas
(sociologia, antropologia, história, etc.) para as questões da forma com que cada
uma dessas áreas produz, estabelece e relaciona-se com seus respectivos
discursos. Nesse momento de questionamento sobre “como fazer”, ou, de onde vem
o substrato que possibilita a esses campos de estudo um lugar privilegiado na
linguagem, foi aberto um diálogo maior com a literatura, a linguística e a semiologia
e/ou semiótica. A partir desse período se deu início ao processo de desconstrução
de determinados discursos das humanidades e também a busca por uma
reestruturação no tocante às formas possíveis de se engendrar esses discursos. Foi

1 Tairon Villi é bacharel em História Memória e Imagem pela Universidade Federal do Paraná, e
mestrando no Programa de Pós-Graduação em História da mesma instituição, na linha de pesquisa
Arte Memória e Narrativa.
nesse período que se destacaram nomes e ideias de intelectuais – ou ainda, através
desses intelectuais ocorreu esse processo de giro linguístico – como Michel
Foucault, Roland Barthes, Jacques Derrida, etc.
No campo da história, especificamente, um nome que teve papel referencial
nesse processo foi Hayden White. Seus questionamentos acerca da narratividade da
história, da relação passado-presente, e principalmente os apontamentos referentes
ao discurso histórico e sua linguagem, lhe puseram num lugar privilegiado – e
também atacado e criticado. Pode-se dizer que ele foi um dos responsáveis pelo
início da discussão moderna sobre o caráter narrativo – portanto, literário – da
história. Seu livro Meta- História – A Imaginação Histórica no Século XIX foi basilar
nessa discussão, sendo o precursor de muitos outros historiadores que viriam a
tomar posição em torno desse tema.
Fato é que mesmo com toda a importância conferida à Hayden White nesse
contexto de uma nova história cultural e da discussão sobre as possibilidades
narrativas da história, ele é pouco estudado no Brasil. Um dos motivos para tal pode
ser a predominância de escolas historiográficas europeias no país, em detrimento da
pluralidade de olhares sobre o pensamento histórico. Dois nomes proeminentes
dessas escolas historiográficas referenciais no Brasil, por sua vez, têm pesadas
críticas à White, sejam eles Roger Chartier e Carlo Ginzburg.
Mesmo com grande importância no cenário da discussão histórica, White é
pouco estudado. Isto justifica uma pesquisa dedicada à sua obra. É fundamental,
portanto, que os questionamentos sobre a narratividade do discurso histórico
estejam presentes, também, na historiográfica brasileira. Muitos historiadores
permanecem ainda alheios aos apontamentos de White e nem sequer se dispõem a
estudá-lo devido às críticas de Chartier e Ginzburg endereçadas a ele.
O presente trabalho justifica-se pela proposta de ampliar o debate acerca das
teorias de Hayden White no cenário acadêmico nacional, bem como, elucidar alguns
indicativos quanto ao trabalho de White, por exemplo, as questões que gravitam na
órbita da aproximação história-literatura, e ainda esclarecer temas como a redução
da história a um gênero literário.
Se, “o historicamente real, o passado real, é aquilo a que eu só posso
reportar-me através de um artefato que é textual por natureza”2, nada mais
pertinente que estudar essas estruturas textuais e suas limitações e possibilidades.
No trabalho de Lloyd Kramer no qual ele estuda as indicações de Hayden White e
Dominick LaCapra, é ainda possível inferir que o universo histórico não existe fora
do papel, de modo estarem imbricados o texto e o contexto 3. Salientando que todas
as tentativas de descrever acontecimentos históricos baseiam-se necessariamente
em narrativas4, o estudo aprofundado dessas narrativas ligando-se às matérias que
se dedicam ao estudo da linguagem textual (literatura, linguística, semiótica) torna-
se fundamental.
Tendo essas premissas como pressupostos que norteiam e subsidiam a
pesquisa, é válido pontuar – no intuito de justificar o presente trabalho - que o estudo
profundo dessas estruturas textuais “podem ampliar a definição daquilo que fazem
[os historiadores] e, desse modo, ajudar a transformar a disciplina numa iniciativa
mais criativa, autoconsciente e crítica”.5
Este artigo tem por objeto o estudo da Poética da História na obra de Hayden
White. White é historiador, teórico, crítico e ensaísta. Nasceu em 1928, no estado do
Tennessee (E.U.A.), e iniciou sua produção acadêmica ainda na década de 1950 –
Ph.D pela Universidade de Michigan em 1956 – e continua em atividade. Atualmente
é vinculado à Universidade de Stanford e à Universidade da Califórnia. Suas áreas
de estudo abrangem temas da teoria da história e historiografia, teoria literária,
literatura comparada e afins.
White ocupa lugar de destaque quando se fala em Pós-Modernidade ou Pós-
Estruturalismo, devido ao seu trabalho pioneiro acerca do estudo da narrativa
histórica ainda no início da década de 1970. Teve um papel fundamental na

2 WHITE, Hayden. Content of the Form, p. 186. apud KRAMER, Lloyd S. Literatura, crítica e
imaginação histórica: o desafio literário de Hayden White e Dominick LaCapra. In: HUNT, Lynn. A
nova história cultural. Trad. Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1995. p.157.
3 KRAMER, Lloyd S. Literatura, crítica e imaginação histórica: o desafio literário de Hayden White e

Dominick LaCapra. In: HUNT, Lynn. A nova história cultural. Trad. Luiz Camargo. São Paulo: Martins
Fontes, 1995, pp, 135, 155-157.
4 Idem, p.136.
5 Idem, p. 137.
retomada da discussão em torno do pensamento histórico na segunda metade do
século XX, principalmente na mudança de pensamento sobre a escrita da história e
suas possíveis aproximações da literatura.
Seu trabalho mais importante desse período – e provavelmente mais
marcante de sua carreira – foi o livro Meta-História – A Imaginação Histórica no
Século XIX, no qual ele analisa o pensamento histórico ocidental (leia-se europeu)
no século XIX na obra de quatro mestres da historiografia, como ele mesmo define:
Michelet; Ranke; Tocqueville e Burckhardt. White ainda trabalha com quatro filósofos
da história: Hegel, Marx, Nietzsche e Croce6.
A partir dos estudos da obra dos referidos pensadores, White desenvolve sua
teoria dos tropos, na qual ele identifica uma importante conexão entre história e
literatura, à medida que encontra pontos-chave da escrita histórica que são
inerentes à literatura. Ao passo que subordina a análise das obras historiográficas à
análise literária, num viés que busca elementos internos na construção do discurso
histórico e vai além do nível superficial no texto.
“Todas as obras de história têm um profundo conteúdo estrutural, em geral poético e
de natureza especificamente linguística, que atua como paradigma pré-criticamente
aceito do que deveria ser uma explicação caracteristicamente ‘histórica’. Esse nível
de estrutura profunda torna-se o ponto de partida inevitável para que o historiador
pratique um ato essencialmente poético, no qual prefigure o campo histórico e o
constitua como um domínio onde possa exercitar as teorias específicas que usará
para explicar “o que realmente estava acontecendo nele”.7

White entende a produção historiográfica como um discurso engendrado a


partir da linguagem escrita, assim, está exposto aos julgamentos e análises
pertinentes a qualquer produção que se utilize da mesma linguagem para se
estabelecer.
“Considerei o labor histórico como o que ele manifestamente é, a saber: uma
estrutura verbal na forma de um discurso narrativo em prosa que pretende ser um
modelo, ou ícone, de estruturas e processos passados no interesse de explicar o

6WHITE, Hayden. Meta-História: A imaginação Histórica do século XIX. Tradução de José Laurêncio
de Melo. 2º Ed. São Paulo: Editora da USP, 2008, p. 12.
7 WHITE Hayden. Metahistory, pp. 10-9. apud KRAMER, Lloyd S. Literatura, crítica e imaginação

histórica: o desafio literário de Hayden White e Dominick LaCapra. In: HUNT, Lynn. A nova história
cultural. Trad. Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1995. p.146.
que eram representando-os8”.9 Nesta passagem, extraída do Meta-História, fica
explícito o posicionamento de White em relação à estrutura da narrativa histórica, ou
seja, um discurso que se apresenta de maneira textual e, portanto, sujeito aos
julgamentos do campo em que os estudo das estruturas textuais se inserem,
notadamente a linguística e a literatura.
Quais são os elementos “artísticos” de uma historiografia “realista”? Essa é a
pergunta que Hayden White faz, invertendo de certo modo, como ele mesmo
propõe, o questionamento já antes feito pelo filólogo Erich Auerbach e pelo
historiador da arte Ernst Gombrich. Estes dois versaram sobre a questão da
representação da “realidade”, o primeiro analisa as bases da literatura ocidental, e o
segundo busca as origens do realismo na representação pictórica ocidental, e a
encontra na tentativa de artistas gregos traduzirem em imagens as técnicas
narrativas de autores de textos épicos, trágicos e históricos. Partindo dos estudos
presentes, e dando prosseguimento à discussão, em Mimeses, de Auerbach, e Arte
e Ilusão, de Gombrich, Hayden White conclui que eles perguntaram: quais são os
componentes “históricos” de uma arte “realista”? Ao passo que nem um dos dois se
ateve exclusivamente a análise do conceito de representação histórica - como
sugere White - o autor viu necessário o questionamento que inicia o parágrafo, e
segue a procura de respostas, principalmente, nas obras de dois nomes da teoria
literária, Northrop Frye e Kenneth Burke10.
Destarte, o trabalho do historiador aproxima-se do trabalho do autor de
literatura convencional, isso implica em preocupações semelhantes a ambos.
“A História, portanto, é uma modalidade de literatura, e o historiador um tipo de
escritor que não deixa de enfrentar problemas similares aos de qualquer outro criador
de textos literários, tais como as questões de estilo, a seleção de modalidades de

8 WHITE, Hayden. Meta-História: A imaginação Histórica do século XIX. Tradução de José Laurêncio
de Melo. 2º Ed. São Paulo: Editora da USP, 2008, p. 18.
9 Nota: Optei por manter os grifos originais visto demonstrarem a posição de Hayden White em

relação à reinterpretação e reapropriação do passado, e a relação dialética passado-presente com a


qual o historiador trabalha, bem como questão de o que é o real.
10 WHITE, Hayden. Meta-História: A imaginação Histórica do século XIX. Tradução de José Laurêncio

de Melo. 2º Ed. São Paulo: Editora da USP, 2008, p.18-19.


intriga, a escolha (voluntária ou não) de um padrão de narratividade que dialoga com
formas de expressão como o Romance, a Comédia, a Tragédia, a Sátira”11.

Nesse escopo entra a teoria dos tropos, ou ainda, a tropologia do discurso. E


tal teoria foi o prisma pelo qual White observou as obras de Ranke, Michelet,
Burckhardt e Tocqueville. Mas o que são tropos? Hayden White, em Trópicos do
Discurso, responde a essa pergunta fazendo uma recuperação léxico-semântica do
termo:
“A palavra trópico, de tropo, deriva de tropikos, tropos, que no grego clássico significa
‘mudança de direção’, ‘desvio’, e na koiné ‘modo’ ou ‘maneira’. Ingressa nas línguas
indo-europeias modernas por meio de tropus, que em latim clássico significava
‘metáfora’ ou ‘figura de linguagem’, e no latim tardio, em especial quando aplicada à
teoria da música, ‘tom’ ou ‘compasso’. Todos esses sentidos, sedimentados na
palavra trope, do inglês antigo, encerram a força do conceito expresso no inglês
moderno pelo termo style, um conceito particularmente apropriado para o exame
daquela forma de composição verbal que, a fim de diferencia-la, de um lado, da
demonstração lógica e, de outro, da pura ficção, chamamos pelo nome de discurso”12.

Posto isso, o tropo, na obra de Hayden White, tem denotação tanto como
figura de linguagem (metáfora, metonímia, sinédoque, ironia), quanto como estilo, ou
ainda, a espinha dorsal na qual o historiador estrutura seu discurso histórico. O autor
afirma ainda que o trópico é a sombra que todo discurso realista tenta fugir – visto a
associação de tropo à linguagem poética – contudo, tal tentativa de fuga é inútil, pois
o trópico é o processo pelo qual todo discurso constitui os objetos que ele pretende
descrever realisticamente e analisar objetivamente13.
Hayden White, além da linguagem tropológica, em Meta-História, aponta
outros aspectos literários dentro da narrativa histórica, White identifica três
modalidades diferentes que fornecem subsídio para o tom explicativo da narrativa: a
explicação por argumentação formal, explicação por elaboração de enredo e
explicação por implicação ideológica. Em cada uma dessas estratégias White
classifica subgrupos de combinações possíveis que vão formar o estilo da narrativa
historiográfica. E, segundo o autor, a adoção de alguma dessas estratégias de

11 BARROS, José D'Assumpção. HISTÓRIA E LITERATURA - novas relações para os novos tempos.
Contemporâneos Revista de Artes e Humanidades, nº6, mai-out 2010. p. 10. Disponível em:
http://www.revistacontemporaneos.com.br/n6/dossie2_historia.pdf Acessado em 06/08/2014
12 WHITE, Hayden. Trópicos do Discurso: Ensaio sobre a Crítica da Cultura.Tradução de Alípio

Correia de Franca Neto. 2 ed. São Paulo, Editora da USP, 2001, p. 14.
13 Ibidem.
explicação é um posicionamento poético e o conecta aos tropos da linguagem
poética: metáfora, sinédoque, metonímia e ironia.
White elenca as combinações possíveis dentro das estratégias de explicação,
e para a explicação de elaboração por enredo a narrativa histórica assume os
contornos de romance, comédia, tragédia e sátira. A escolha de algum deles está na
percepção estética dos historiadores. Quanto à explicação por argumento formal,
White aponta para o formismo, mecanicismo, organicismo e contextualismo como as
operações cognitivas particulares dos autores de delinear a narrativa. Em relação à
explicação por implicação ideológica, White indica para as seguintes posições:
anarquismo, conservantismo, radicalismo e o liberalismo.

Modo de Elaboração de Modo de Implicação


Modo de Argumentação
Enredo Ideológica
Romance Formista Anarquista

Trágico Mecanicista Radical

Cômico Organicista Conservador

Satírico Contextualista Liberal

O autor ainda nos fornece uma tabela14 que exemplifica seu argumento:
Em que pese, o autor salienta que não necessariamente há que se fazerem
as combinações lineares, visto que os mestres que ele se dedica a estudar em
Meta-História tem seu brilhantismo justamente quanto à variação que estabelecem
na escolha de suas alternativas poéticas para urdir o enredo, a fim de estruturar a
narrativa histórica15.
A intenção de Hayden White em formular essa classificação é penetrar no
pavimento interior do texto, indo além da superfície textual - a história contada,
identificando os elementos poéticos, portanto literários, da estrutura verbal que
constituem a narrativa histórica. Nessa direção, White procura encontrar a estrutura
típico-ideal da narrativa histórica para distinguir os elementos próprios do texto

14 WHITE, Hayden. Meta-História: A imaginação Histórica do século XIX. Tradução de José Laurêncio
de Melo. 2º Ed. São Paulo: Editora da USP, 2008, p. 44.
15 WHITE, Hayden. Meta-História: A imaginação Histórica do século XIX. Tradução de José Laurêncio

de Melo. 2º Ed. São Paulo: Editora da USP, 2008, p. 44.


histórico ou da filosofia da história. Mais uma vez, após o esquadrinhamento das
obras magistrais do pensamento histórico do século XIX, o autor esquematiza um
processo pelo qual se enceta a narrativa histórica em sua estrutura típico-ideal:
crônica; estória16; modo de elaboração de enredo; modo de argumentação; e modo
de implicação ideológica. De modo que o historiador “acha” suas estórias na crônica,
e então, dos eventos encontrados na crônica ele faz uma trama conferindo
significado a esses eventos em determinada ordem de importância e transforma na
estória, que é urdida em forma de enredo e, conferindo-lhe o caráter explicativo,
modo de argumentação e implicação ideológica17.
Essa sequência tem função de trazer compreensão ao registro histórico, na
visão de White, e cumpre-se o desiderato de familiarizar o que é não familiar, ou
seja, de tornar compreensível o que é estranho, tirar do domínio do exótico e move-
lo para o conhecido, e este é um processo de compreensão tropológico 18. E onde
está a poética da história? A poética da história consiste justamente nisso, no
processo de tornar conhecido o estranho através da estrutura narrativa verbal
histórica, de transformar o evento da crônica em estória e explicá-la e torná-la
compreensível pelas estratégias explicativas de elaboração de enredo,
argumentação e implicação ideológica. Para o autor, a poética da história é o ato
criativo do historiador na construção do seu discurso historiográfico.
A poética, o ponto de aproximação entre a história e a literatura, consiste no
labor historiográfico de significar o passado-presente e fazê-lo compreensível – em
última análise, útil – através da narrativa textual. Pois, os eventos contidos numa
crônica não manifestam significado apodítico, tampouco elucidam por si próprios
determinado contexto do passado em referência ao presente em que se encontra. O
empenho por parte do historiador, em capturar o evento da história, e transformá-lo

16 White trabalha com os conceitos history e story, de modo que torna preciso pensarmos nas
designações história e estória, e esta não tem o sentido de ficção ou “história não verdadeira”, mas
sim consiste na trama narrativa construída pelo historiador a partir dos eventos analisados. Usaremos
o termo em itálico para melhor compreensão.
17 CRUZ, Marcus Silva da. ASSIS, Gabriela Lima de. A Teoria da Obra Histórica em Hayden White:

entre a História e a Literatura. Revista de História Comparada, , volume 7, número 2, pp. 75-89 Rio de
Janeiro, 2013, p. 78.
18 WHITE, Hayden. Trópicos do Discurso: Ensaio sobre a Crítica da Cultura.Tradução de Alípio

Correia de Franca Neto. 2 ed. São Paulo, Editora da USP, 2001, p. 18.
em estória, a urdidura de enredo desse processo, o enredar da história e configurá-
la em estória de tipo particular e com determinada significação configura a ação
poética do historiador.
Nesse aspecto é que se apresenta a semelhança entre o historiador e o autor
de literatura ficcional, no tocante ao processo de tornar compreensível o relato
textual, tanto o historiador quanto o autor de literatura convencional estão lidando
com a mesma linguagem, e dispõem dos mesmos instrumentos literários para
conferir forma e solidez à sua estrutura verbal.
O historiador não detém o passado, tampouco consegue recuperá-lo, o que
ele faz é uma reinterpretação, uma refiguração, uma reimpressão nos moldes do
presente em que ele vive. O passado é construído na relação dialética presente-
passado e entre a tensão passado-futuro. A cada presente o passado é refigurado, e
adquire novos contornos, assim como a pretendida e objetiva verdade histórica, o
passado é um poliedro de mil faces e nunca olhos humanos conseguirão ver todas
as suas faces ao mesmo tempo.19
Tendo em vista que dois ou mais historiadores lidando com a mesma fonte,
empregando a mesma metodologia, utilizando o mesmo referencial teórico chegarão
a resultados díspares, abre-se um precedente de que o fazer historiográfico tem algo
de inventivo, ou melhor, subjetivo. O historiador retira determinado número de
informações de uma fonte, de um evento de uma crônica, e busca significá-lo no
recorte temporal que lhe cabe e no seu dado contexto, e, se essa significação é
divergente entre historiadores mesmo com método e fonte semelhantes, tudo indica
que a significação do historiador é interpretativa, ele recorre ao seu repertório de
imagens, seu arcabouço de ideias e tira daí o substrato para preencher as lacunas
na sua estória. Não seria esse também o processo de um autor de literatura ficcional
para ligar os pontos em sua trama? Perceba-se que não nos referimos ao ponto
inicial de onde surge a trama ou a estória, sendo notadamente na primeira a
imaginação do autor (ainda que este possa se utilizar de eventos comprovados

19REIS, José Carlos Reis. História e Verdade - posições. Síntese - Revista de Filosofia, volume 27,
número 89, Belo Horizonte, 2000, pp. 321-348.
documentalmente para ambientar e/ou elaborar sua obra), e a segunda o passado
vivido, ou ainda, eventos documentalmente comprovados.
Até mesmo o critério para “diferenciar” a narrativa histórica da narrativa
ficcional e/ou convencional é comum às duas. A narrativa histórica tem a seu favor e
como elemento de transferência de credibilidade o real, e então distingui-se da
narrativa ficcional visto ter um correspondente tátil no universo palpável. A partir
disto poderia se inferir que a história se sustenta por uma “vontade de verdade”20.
Contudo, dentro de uma estrutura textual, o que confere essa correspondência com
esse universo palpável são as alegorias que buscam verossimilhança que irão
dialogar com esse real. Logo, são as “notações insignificantes” da descrição, a
colocação do real pelo referente, a representação verossímil que criam o “efeito do
real”21 . Tais alegorias são comuns a ambas as formas narrativas, e são da mesma
forma dispositivos literários, de modo que a história continua presa à narrativa
textual, e, portanto, à linguagem literária.
Se a história é disposta em forma de narrativa, utiliza dos mesmos
instrumentos para dar forma ao enredo, para explicar e argumentar, e dispõe dos
mesmos mecanismos, alegorias e tropos para produzir compreensão ao leitor, então
a narrativa histórica é um gênero literário? Hayden White propõe que sim.
Chegamos em um ponto crucial da obra de Hayden White. Grande parte da
crítica direcionada a ele consiste nessa “redução” da história a um gênero literário.
Essa é, provavelmente, a crítica mais comum tecida contra White. O fato de White
questionar a história e/ou a historiografia a partir da estrutura em que ela se
apresenta – a história e sua linguagem, problematizando a escrita da história, bem
como os pressupostos que conferiam à história certo peso “científico” e ainda, as
relações passado-presente e quão tangível é este passado pelo historiador, criaram
certo desconforto em muitos historiadores, que viam na proposta de White um

20 FOUCAULT, Michel. A ORDEM DO DISCURSO – aula inaugural no Collège de France,


pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Tradução: Laura Fraga de Almeida Sampaio. 20 ed. São
Paulo, Edições Loyola, 2010, pp. 17-19.
21 BARTHES, Roland. O Rumor da Língua. Tradução: Mario Laranjeira. São Paulo. Editora

Brasiliense, 1988, pp. 163-165.


caráter demasiado relativista, ou ainda, reducionista – e nesse ponto a crítica referia-
se à teoria dos tropos.
As inquietações e incertezas provocadas por Hayden White atingiram
historiadores de destaque como Roger Chartier22, e Carlo Ginzburg23, para o
primeiro a inquietação derivou, entre outras coisas, “da interrogação sobre as
relações entre a história e sua linguagem, o que impôs um questionamento acerca
dos limites existentes entre a história escrita e suas verdades narradas.”24 Já o
segundo move-se contra White postulando que a ideia deste abriria um precedente
perigoso com relação ao entendimento da verdade e uso histórico, e analisa o caso
do Holocausto para exemplificar seu ponto de vista25.
Em relação às acusações da relativização causada por White, no que tange
as questões referentes à veracidade da história, como também, a tornar a história
um gênero literário, podemos encontrar resposta na seguinte afirmação:

“No intuito de antecipar algumas das objeções que os historiadores opõem muitas
vezes ao argumento que segue, quero admitir desde já que os eventos históricos
diferem dos eventos ficcionais nos modos pelos quais se convencionou caracterizar
as suas diferenças desde Aristóteles 26. Os historiadores preocupam-se de eventos
que podem ser atribuídos a situações específicas de tempo e espaço, eventos que

22 Cf. CHARTIER, R. À Beira Da Falésia. A história entre certezas e inquietude. Tradução Patrícia. C.
Ramos Porto Alegre, Editora da UFRGS, 2002.
23 As críticas de Ginzburg endereçadas ao método proposto por White estão mais presentes em O Fio

e os Rastros: verdadeiro falso e fictício; e, em RELAÇÕES DE FORÇA - História, retórica, prova.


24 MAINENTE, Renato Aurélio. GAGLIARDO Vinicius Cranek. O estatuto da história e seu papel

social: um resgate do debate epistemológico a partir da década de 1970. Revista Ars Historica, v. 1,
n. 1, jan.-jun. pp. 68-79,.2010, p. 68.
Disponível em http://www.ifcs.ufrj.br/~arshistorica/junho2010/arshistorica01_a07.htm Acessado em
08/08/2014.
25 Idem, p. 72.
26
NOTA: Aqui se faz necessária menção ao clássico texto de Aristóteles que dá início a discussão
sobre poesia e história. Em Arte Poética, no capítulo IX, Aristóteles classifica a poesia como um
gênero maior e de caráter mais elevado que a história, visto que a poesia fala sobre o que ainda pode
acontecer e tem um espectro universal, enquanto que a história fala apenas do que já aconteceu e de
casos particulares, de modo que ele põe os dois campos como gêneros literários. “O historiador e o
poeta não se distinguem um do outro, pelo fato de o primeiro escrever em prosa e o segundo em
verso (pois, se a obra de Heródoto fora composta em verso, nem por isso deixaria de ser obra de
história, figurando ou não o metro nela). Diferem entre si, porque um escreveu o que aconteceu e o
outro o que poderia ter acontecido. Por tal motivo a poesia é mais filosófica e de caráter mais elevado
que a história, porque a poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular. O
universal é o que tal categoria de homens diz ou faz em determinadas circunstâncias, segundo o
verossímil ou o necessário. Outra não é a finalidade da poesia, embora dê nomes particulares aos
indivíduos; o particular é o que Alcibíades fez ou o que lhe aconteceu ” ARISTÓTELES. Arte poética e
arte retórica. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, s/d., p.14.
são (ou foram) em princípio observáveis ou perceptíveis, ao passo que os escritores
imaginativos – poetas, romancistas, dramaturgos – se ocupam tanto desse tipo de
eventos quanto dos imaginados, hipotéticos ou inventados. O problema não é a
natureza dos tipos de eventos com que se ocupam historiadores e escritores
imaginativos. O que nos deveria interessar na discussão da ‘literatura de fato’ ou,
como preferi chamar, das ‘ficções da representação factual’, é o grau em que o
discurso do historiador e o do escritor imaginativo se sobrepõe, se assemelham, ou
se correspondem mutuamente. Embora os historiadores e os escritores de ficção
possam interessar-se por tipos diferentes de eventos, tanto as formas dos seus
respectivos discurso como os seus objetivos na escrita são amiúde os mesmos. Além
disso, a meu ver, pode se mostrar que as técnicas ou estratégias de que se valem na
composição dos seus discursos são substancialmente as mesmas, por diferentes que
possam parecer num nível puramente superficial, ou diccional, dos seus textos”.27

Tendo consciência do debate que seria provocado a partir de seus


apontamentos, White se antecipa em esclarecer que a aproximação entre “literatura
de fato” e historiografia consiste no momento do estabelecimento do discurso em
forma textual, no qual, tanto os escritores quanto os historiadores acionam os
mesmos mecanismos literários para o engendramento do texto, para conferir sentido
e significado aos fatos narrados, e também para atribuir aspecto realista à narrativa
textual.
Dado o exposto, fica situada a discussão em torno do tema, a proposta de
Hayden White quanto à teoria dos tropos, que por sua vez consiste na poética da
história. Ficou esclarecida, ainda que inicialmente, visto que o curto espaço
disponível, a aproximação entre literatura e história, segundo a análise de White,
sendo a poética da história do ato criativo na produção textual do discurso histórico.
Ficam, também, evidentes alguns dos pontos onde a teoria recebe críticas, de modo
que essa pesquisa tem por intento problematizar a questão poética da história,
assim como as críticas que esta recebe, pontuando, então, inferências a partir do
diálogo entre White e seus críticos. Portanto, concluímos a apresentação do nosso
objeto de estudo salientando a importância da continuidade do debate sobre o
caráter narrativo do discurso histórico.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Fonte:

27WHITE, Hayden. Trópicos do Discurso: Ensaio sobre a Crítica da Cultura.Tradução de Alípio


Correia de Franca Neto. 2 ed. São Paulo, Editora da USP, 2001, p.137.
WHITE, H. Meta-História: A imaginação Histórica do século XIX. Tradução de José
Laurêncio de Melo. 2º Ed. São Paulo: Editora da USP, 2008.
______________. Trópicos do Discurso: Ensaio sobre a Crítica da Cultura.
Tradução de Alípio Correia de Franca Neto. 2 ed. São Paulo, Editora da USP, 2001.
______________. El contenido de la forma: narrativa, discurso y representación
histórica. Barcelona: Paidós, 1992.

Bibliografia:
ARISTÓTELES. Arte poética e arte retórica. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, s/d.
AUERBACH, E. Mímeses: a representação da realidade na literatura.São Paulo:
Perspectiva, 2011.
BARROS, J. D'A. HISTÓRIA E LITERATURA - novas relações para os novos
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