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ISSN eletrônico 2236 - 4552

CAMINHOS
Revista online de divulgação científica da UNIDAVI

“Especial Pós-Graduação: Inteligência Criminal”

Rio do Sul

Ano 5 (n. 13) - jul./set. 2014


CAMINHOS: Revista online de divulgação científica da
UNIDAVI

Especial Pós-Graduação: Inteligência Criminal

Coordenadores
Claudio Gomes: Diretor da Diretoria de Formação e Capacitação
Profissional (DIFC) da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP/
SC).
Ilson Paulo Ramos Blogoslawski, M.e: Coordenador de Pós-Graduação
da UNIDAVI.
Lilian Cristina Schulze: Coordenadora do Processo Seletivo da DIFC.

Avaliadores
Andreia Lilian Formento Navarini, M.a
Charles Fabiano Acordi, M.e
Giovanni Matiuzzi Zacarias, M.e
Jeferson Valdir da Silva, M.e
Jonathan Cardoso Régis, M.e
Márcia Cristiane Nunes Scarduelli, M.a
Maria Aparecida Casagrande, M.a
Michele Alves Correa, M.a
Michelle Soares Rauen, Dr.a
Peterson Livramento, M.e
Roberto Vidal Fonseca, M.e

Equipe Técnica
Sônia Regina da Silva - Coordenação Editora UNIDAVI
Grasiela Barnabé Schweder - Diagramação
Mauro Tenório Pedrosa - Arte/Capa
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO����������������������������������������������������������������9

A IMPORTÂNCIA DA COMUNICAÇÃO NO FLUXO


DE INFORMAÇÕES ENTRE AGÊNCIAS DE
INTELIGÊNCIA E UNIDADES DE INVESTIGAÇÃO11
Ana Cláudia Ramos Pires
George Felipe Dantas

A INFILTRAÇÃO POLICIAL NA REPRESSÃO


DO CRIME ORGANIZADO: ASPECTOS LEGAIS E
APLICABILIDADE NO SISTEMA JURÍDICO BRASILEIRO
����������������������������������������������������������������������������������������������31
Eduardo Vieira
Alexandre Machado Navarro Stotz

CARTEIRA DE IDENTIDADE EM SANTA CATARINA


E O REGISTRO DE IDENTIDADE CIVIL NACIONAL
– RIC. UMA FERRAMENTA DA INTELIGÊNCIA PARA
TOMADA DE DECISÃO���������������������������������������������������55
Erika Neves Figueira
Marcelo Martins

POLÍCIA CIVIL E PREVENÇÃO AO USO DE


DROGAS SOB O ENFOQUE DA INTELIGÊNCIA DE
SEGURANÇA PÚBLICA���������������������������������������������������81
Carlos Alberto Coelho
Ricardo Lemos Thomé
A PAPILOSCOPIA E SEUS PROFISSIONAIS NA
ESFERA DA INTELIGÊNCIA CRIMINAL������������������105
Daniela Paixão
Cassia Aparecida Fogaça

A IMPORTÂNCIA DO USO DA ATIVIDADE DE


INTELIGÊNCIA NO MONITORAMENTO DAS AÇÕES
DE ORGANIZAÇÕES CRIMINAIS������������������������������131
Gabriela Falck Bortolini
Marcos Erico Hoffmann

A ENTREVISTA COGNITIVA COMO MEIO PARA


MINIMIZAR AS FALSAS MEMÓRIAS�����������������������153
Heverton Luis Pahl
Marcos Erico Hoffmann

APERCEPÇÃO CONCEITUALENTRE INTELIGÊNCIA


E INVESTIGAÇÃO POLICIAL�������������������������������������171
Luiza Carla Noetzold Teixeira das Neves
Joanisval Brito Gonçalves

IMPLEMENTAÇÃO DE PRÁTICAS DE GOVERNANÇA


NO COMBATE E PREVENÇÃO À LAVAGEM DE
DINHEIRO EM FUNÇÃO DA LEI 12.683/2012�����������197
Bruna Andrade da Silva
Marcelo Martins
O USO DOS SISTEMAS DE INFORMAÇÕES
GEOGRÁFICAS (SIG) COMO FERRAMENTA DE
ANÁLISE DOS ROUBOS DE AUTOMÓVEIS EM
FLORIANÓPOLIS SC�����������������������������������������������������231
Denise Fernandes Ogando
Marcos Erico Hoffmann

O Ciclo da Produção de Conhecimento da


Atividade de Inteligência de Segurança
Pública aplicado à repressão do crime de
“Lavagem de Dinheiro”��������������������������������������255
Verdi Luz Furlanetto
George Felipe de Lima Dantas
APRESENTAÇÃO

Revista Caminhos Pós-Graduação em Inteligência


Criminal

A produção científica na área da segurança pública é um


tabu que precisa ser superado no Brasil, pois trata-se de um
tema ainda muito pouco explorado no universo acadêmico.
Estamos convencidos de que pesquisar e pensar ciência,
tecnologia e inovação torna-se tão urgente quanto respirar,
afinal, pode-se afirmar que já é mesmo condição elementar de
sobrevivência às organizações humanas.
Aprendemos com o tempo, que cada vez mais se torna
necessária uma visão interativa e contextualizada das relações
entre ciência, tecnologia e sociedade, sobretudo motivados
pelo imperativo constante de indagar sobre a natureza dessa
tecnologia, sua aplicação prática e função social.
É com esse propósito, e motivados pelo grande sucesso
que foi o lançamento da Revista Caminhos, edição especial, do
seminário de março de 2014, que tenho a honra e o privilégio
de apresentar essa nova edição, realizada em parceria com a
Editora da UNIDAVI e a Diretoria de Formação e Capacitação
da Secretaria de Segurança Pública, em que são reunidos os
melhores trabalhos do curso de pós-graduação em inteligência
criminal.
Colhe-se desse trabalho uma oportunidade para
incentivo ao diálogo e a investigação permanente entre
produção do conhecimento e sua ação transformadora no
cotidiano das organizações, em que abordagens se renovam e

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 9


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13) - jul./set. 2014.
se retroalimentam, revelando complexas relações entre ciência
e prática, e suas aplicabilidades para os campos de atividades
dos órgãos da segurança pública e da defesa social.

Boa leitura!

César Augusto Grubba


Secretário de Estado da Segurança Pública

10 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13) - jul./set. 2014.
A IMPORTÂNCIA DA COMUNICAÇÃO NO FLUXO
DE INFORMAÇÕES ENTRE AGÊNCIAS DE
INTELIGÊNCIA E UNIDADES DE INVESTIGAÇÃO

Ana Cláudia Ramos Pires1


George Felipe Dantas2

RESUMO
Este trabalho tem como objetivo demonstrar a importância da perfeita
comunicação da informação nas situações de crise. Pretende demonstrar
que a agilidade, a precisão, a concisão e o despreendimento, podem
garantir maior efetividade aos resultados em ações críticas empreendidas
pelos órgãos de segurança pública. Evidenciar que se conceitos básicos
da comunicação eficiente tivessem sido utilizados no combate à facção
criminosa PGC – Primeiro Grupo Catarinense, o combate das forças de
segurança contra a criminalidade, provavelmente teria sido mais ágil,
rápido e eficiente.

Palavras-chave: Comunicação. Inteligência Criminal. Investigação


Criminal.

ABSTRACT
This paperwork has the purpose to demonstrate the importance of the
perfect information communication in crisis situation. It aim to demonstrate
that the agility, the precision, the conciseness and release, can ensure more
effectiveness to critical actions results undertaken by the Public Security
Organisms. Pointing out that if basic concepts of efficient communication
would have been used against the criminal organization PGC - Primeiro

1 Delegada de Polícia Judiciária da Polícia Civil de Santa Catarina. Especialista em


Segurança Pública pela PUC/RS. Email: ana10737@yahoo.com.br
2 Doutor em Educação pela George Washington University (GWU) de
Washington, D.C., EUA. E-mail: delimadantas@gmail.com

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 11-30, jul./
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Grupo Catarinense - the combat of the security forces against the criminality,
would probably be more nimble, faster and efficient.

Palavras-chave: Comunication. Criminal Inteligence. Criminal


Investigation.

1 INTRODUÇÃO

A facção criminosa PGC – Primeiro Grupo Catarinense,


com o lema da “paz, justiça, lealdade e liberdade pelo crime
correto” foi criada em São Pedro de Alcântara em 03/03/2003.
As ações desta facção sempre foram mantidas no interior
das “cadeias” e “administradas” pelo sistema prisional, até o
momento em que começaram a extravasar os muros das cadeias
e passaram a atingir boa parte da sociedade catarinense.
Destarte, duas graves ondas de ataques foram
determinadas pelas lideranças da facção e sentidas pelos
órgãos de segurança e pela sociedade. No primeiro ciclo de
ataques, iniciado em 11 de novembro de 2012, e com duração
aproximada de uma semana, todos foram surpreendidos pela
violência desmedida e injustificada, que atingiu 16 (dezesseis)
cidades catarinenses em 58 (cinquenta e oito) ocorrências
criminosas, todas praticadas contra coletivos urbanos e contra
bases das polícias civil e militar.
Uma segunda série de atentados se iniciou no dia 30
de janeiro de 2013 e o número de ocorrências de incêndio
criminoso, dano ao patrimônio público e privado registradas,
chegou a 111 (cento e onze). O número de cidades atingidas
também subiu para 36 (trinta e seis), e os crimes foram
registrados até o dia 20 de fevereiro. Mais, uma vez, vimos a

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 11-30, jul./
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rotina dos moradores serem atingidas pelo medo e insegurança,
com o um tácito toque de recolher imposto por criminosos.
Os ataques eram incontroláveis, impossíveis de serem
integralmente impedidos e difíceis de conter.
Naturalmente, que os órgãos de inteligência foram
urgentemente chamados a contribuir para solução da crise sem
precedentes, que atingiu diretamente dezenas de municípios
que não dispunham sequer, de forças operacionais ostensivas
para oferecer embate contra os criminosos.
Assim, viu-se que era necessário agir rápido, com base
em elementos de informação produzidos pelas agencias de
inteligência e unidades de investigação disponíveis.
Como o Estado de Santa Catarina nunca havia passado
por crise com impacto análogo e diante de rotinas de órgãos
de inteligência, jamais submetidos a tamanho momento
de convulsão e anormalidade, o que se viu na prática foi a
dificuldade de comunicação das agências de inteligência,
que por não guardar subordinação alguma, apresentaram
grande dificuldade em dar vazão as informações pertinentes e
necessárias.
Mais especificamente, no âmbito da Polícia Civil de Santa
Catarina, a Diretoria de Inteligência da Polícia Civil, DIPC3,
tinha como função fazer o link, visando operacionalizar o fluxo
de informações entre as unidades policiais civis e também com
as outras agências da inteligência do Estado.
Nesse trabalho procuramos demonstrar, inclusive com a
aplicação de questionário específico aplicados a Policiais Civis
de diferentes cidades, como se efetivou a comunicação entre a

3 DIPC – Diretoria de Inteligência da Polícia Civil

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 11-30, jul./
set. 2014.
DIPC e outras unidades policiais civis, especializadas ou não.

2 A COMUNICAÇÃO

Para a WIKIPÉDIA4, Enciclopédia Livre, a comunicação


é um campo de conhecimento acadêmico que estuda os
processos de comunicação humana, composto por diversas
subdisciplinas, tais quais a teoria da informação, comunicação
intrapessoal e interpessoal, publicidade,  propaganda,
jornalismo, entre outras.
De modo simples também explica a comunicação como o
intercâmbio de informação entre sujeitos ou objetos, atentando
para a atual infinidade de formas de se efetivar a comunicação.
A comunicação que pode se realizar de forma verbal e
não verbal, apresenta alguns componentes. São eles: o emissor,
o receptor, a mensagem, o canal de propagação, o meio de
comunicação, a resposta (feedback) e o ambiente.
Como se pode perceber os componentes da comunicação
são praticamente autoexplicativos. Todavia, um deles merece
destaque: o ambiente. É nesse componente que costumam
aparecer a maioria, e os grandes problemas dos processos
de comunicação. O ambiente onde o processo comunicativo
se realiza está sujeito a sofrer interferência do ruído da
comunicação e a interpretação e compreensão da mensagem
está subordinada ao repertório dos agentes envolvidos.

4 WIKIPÉDIA - Enciclopédia livre cujo conteúdo pode ser ampliado ou alterado


por qualquer pessoa, desde que com seriedade e respeito às normas de conduta e de
direitos autorais. Seu conteúdo é licenciado pela GNU Free Documentation License
e pela Creative Commons SA 3.0

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 11-30, jul./
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A comunicação eficiente para as partes interessadas,
que estão envolvidas em cada processo, necessita de ser
praticada em linguagem ajustada. Caso contrário, o ruído da
comunicação será cercado de tanta interferência que não será
possível produzir ações eficientes, em busca dos resultados
pretendidos.
Além disso, tecnicamente entendemos que a
comunicação, certamente, se dá sob a óptica da Teoria Crítica
que coloca o receptor como um analista do emissor, que só
após analisar criticamente a mensagem irá aceitar o que lhe for
adequado/conveniente/crível.

2.1 A COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL

Uma organização, qualquer que seja a sua atividade


ou o seu ramo de atuação, é sempre um sistema formado
por duas ou mais pessoas. É um órgão coletivo onde as
pessoas desenvolvem suas idéias e as comunicam às partes
interessadas, sob a forma de visões, estratégias, programas
e projetos. A consecução desses planos e projetos em que as
palavras transformam-se em iniciativas e ações coletivas vão
configurar a organização.
De acordo com as orientações explanadas por Pinto5
(2009) a comunicação interna precisa ser vista dentro de
conceitos estratégicos, desempenhando a função de coordenar
o processo de formulação das mensagens que a corporação
transmitirá a todos os seus públicos, especialmente quando

5 PINTO, Elen Sallaberry. O reflexo da comunicação interna na imagem empresarial.


Comunicação Organizacional, 2009

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 11-30, jul./
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se tratar dos temas sensíveis. Destacou a autora que é preciso
desenvolver os canais mais adequados para cada tipo de
mensagem e para cada público, desenvolver mecanismos de
feedback sobre a efetividade da comunicação e finalmente
construir relacionamentos leais e duradouros por meio de
processos estruturados de diálogo. Para isso, a organização
necessitará desenvolver um planejamento integrado de ações
de comunicação, estabelecendo os objetivos e definindo
programas de ação necessários para atingi-los.
Aqui tratamos daquilo que é conhecido como
endomarketing, que é a comunicação que ocorre dentro das
empresas e tem como finalidade facilitar trocas entre seus
membros e construir o relacionamento com o público interno,
através da difusão dos objetivos da organização com confiança,
segurança e precisão.

2.2 A COMUNICAÇÃO E A INTELIGÊNCIA DA


ORGANIZAÇÃO POLICIAL

Bem ensina o professor Celso Ferro6, quando reverbera


o conhecimento de que o que verdadeiramente interessa é
que as mensagens transitem, cresçam, aperfeiçoem-se na
interconexão e sejam colocadas à disposição no momento
certo, para as pessoas certas, na medida adequada para nos
ajudar a resolver questões específicas (LEVY7, 1993).

6 FERRO, Celso Moreira Júnior. A disseminação da informação. Disponível


em: gestaopolicial.blogspot.com.br
7 LEVY, Pierre. As Tecnologias da Inteligência: O Futuro do Pensamento
na Era da Informática. Editora 34. 13ª Edição em 2004. São Paulo. 1993.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 11-30, jul./
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A teia formada pelo fluxo de informações, portanto, é
mais do que apenas a troca de informes ou informações que
circulam dentro das organizações policiais. Celso Ferro (2010)
em seu artigo A Comunicação e a inteligência da organização
policial coloca seu conhecimento, aduzindo que:

Considerando o contexto da investigação criminal, a


comunicação produz uma malha e tráfego de informações
compartilhadas, ao mesmo tempo em que contribui para
a compreensão dos processos investigativos inerentes ao
fenômeno criminal como um todo, potencializando toda a
atividade.

Aqui tangenciamos o quesito da qualidade da informação


veiculada. O volume de informações produzido além de
não necessariamente auxiliar na produção de conhecimento,
muito pelo contrário, com freqüência tem o poder avassalador
de prejudicar sensivelmente, o fluxo de comunicação
desenvolvido nas organizações policiais.

2.3 Os principais PRincípios da doutrina DE


ISP8 e do processo de comunicação

Doutrina Nacional de Inteligência de Segurança Pública


é composta por mais de uma dezena de princípios, muitos
dos quais entendemos ter influencia direta no processo de
comunicação. A DNISP dispõe que os princípios são as

8 Doutrina Nacional de Segurança Pública. Brasília, 2007.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 11-30, jul./
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proposições diretoras, as bases, os fundamentos, os alicerces,
os pilares, que orientam e definem os caminhos da atividade.
Entendemos que como norteadores, para o processo
da perfeita comunicação estão fundamentalmente presentes,
a objetividade, a oportunidade, a precisão, a simplicidade, a
imparcialidade e sigilo.
Constatamos que todos esses princípios devem orientar
a atividade da inteligência, e mapeiam naturalmente a
comunicação, sendo fundamentais para garantir o perfeito
desenvolvimento da troca de informação entre as agências de
inteligência e com os demais destinatários da informação.
Entendemos que é natural a existência de controle rígido
de informações das agências de inteligência, principalmente
respeitando o principio do sigilo, tanto na produção
de documentos, como no fluxo da comunicação desse
conhecimento. Cabe observar que o gabinete de Segurança
Institucional da Presidência da República, que de maneira
geral pode ser apresentado como o órgão responsável pela
assistência direta e imediata ao Presidente da República no seu
assessoramento pessoal em assuntos militares e de segurança,
chegou a editar instrução normativa9 nº 1 de 13 de junho de
2008, disciplinando esse assunto.

9 BRASIL. Instrução normativa GSI nº1 de 13/06/2008 – Disciplina a


Gestão de Segurança da Informação e Comunicações na APF, direta e
indireta

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3 APLICAÇÃO DE QUESTIONÁRIO E SEUS
RESULTADOS

Foi elaborado um questionário contendo cinco perguntas


simples e objetivas, com respostas positivas ou negativas, com
a finalidade de verificar se nos recentes eventos criminosos
de ataques orquestrados pela facção criminosa PGC em
novembro de 2012 e janeiro/fevereiro de 2013, a comunicação
entre os investigadores da Polícia Civil e os analistas e gestores
da inteligência da DIPC de Santa Catarina, em tese, órgão
responsável por apontar as melhores soluções do conflito se
deu de maneira adequada, garantindo o melhor resultado dos
trabalhos de tanto para a investigação quanto para a inteligência
policial.
Atualmente a Polícia Civil de Santa Catarina atua com
aproximadamente 3.500 (três mil e quinhentos) policiais, o
que consiste em 58% (cinquenta e oito por cento) do efetivo
estabelecido em Lei. São 422 (quatrocentos e vinte e dois)
Delegados de Polícia, 586 (quinhentos e oitenta e seis)
Escrivães de Polícia, 2.447 (dois mil, quatrocentos e quarenta
e sete) Agentes de Polícia, e 52 (cinquenta e dois) Psicólogos
de policia.
Tomamos o parágrafo anterior como ponto de partida
para aplicar o presente questionário aos policiais civis de Santa
Catarina e assim obter uma ideia de sua visão/percepção das
atividades de investigação e inteligência policial nos eventos
dos ataques criminosos e com policiais que trabalhavam em
cidades onde ocorreram os ataques.
Portanto, dentro de um universo de 3.507 policiais civis,
foram entrevistados 40 policiais das diversas carreiras, o que
representa 1,14% do efetivo, de modo a obter informações

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 11-30, jul./
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sobre a percepção do trabalho de inteligência policial na
PCSC.10
Receberam o questionário que visava medir a qualidade
do fluxo de informação que era destinado a produzir
informação sobre os eventos criminosos para alimentar o
órgão de inteligência da Polícia Civil, principalmente, os
policiais das Divisões de Investigações Criminais/DIC,
Núcleos de Inteligência Regionais/NINT e DEIC/Diretoria
Estadual de Investigação Criminal. Além destes, outros
agentes de unidades de comarcas que foram hábeis em apurar
informações também foram ouvidos. Assim, os questionários,
por amostragem, foram respondidos por policiais civis que à
época dos ataques trabalhavam ou prestaram atendimento nas
cidades de Florianópolis, Joinville, Palhoça, São José, Itajaí,
Criciúma, Tubarão e São Francisco do Sul. Estas cidades
foram as vítimas do maior número de ataques.
Salientamos que os policiais civis responderam as
perguntas sem qualquer indicação da parte da pesquisadora,
e receberam a garantia do anonimato de modo que pudessem
expressar seu livre e real entendimento.
Lado outro, já deixamos claro que apesar da aplicação
do questionário com policiais civis que trabalharam na “ponta”
durante o período dos atentados criminosos não pode existir

10 Dentro da metodologia de pesquisa proposta pelo IBGE e Institutos de


Pesquisas em geral, onde em um universo a ser pesquisado, pode-se fazer
inferências com margem de erro de 2-3% para mais ou para menos, com
um grupo de estudo de aproximadamente 0,05% do total, tomemos como
exemplo os números da última Eleição de 2010, que foi de 3.500.000 eleitores
em Santa Catarina. As pesquisas eleitorais utilizavam aproximadamente
1.800 entrevistados para fazer inferências sobre projeções de prováveis
cenários políticos, ou seja, aproximadamente 0,05% do eleitorado.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 11-30, jul./
set. 2014.
qualquer confusão entre a inteligência policial e a investigação
policial, pois como bem ensina Joanisval Brito Gonçalves
(2011) a inteligência criminal deve atuar prevenindo, cessando
e identificando os envolvidos em grupos criminoso, com a
finalidade de fornecer elementos, subsídios ao Poder Judiciário
e Ministério Público.
Explica também que:

Importante assinalar que a inteligência policial não deve


ser usada diretamente para a produção de provas de
materialidade e autoria de crimes. Em outras palavras, o uso
de conhecimento de inteligência na instrução de inquérito
policial é algo que vai de encontro à própria natureza da
atividade de inteligência e pode ter conseqüências graves
a ponto de comprometer o inquérito e anular o futuro do
processo penal a ele relacionado11. (GONÇALVES, p.32)

Por fim, fica a lição dos professores Dantas e Souza:

A conversão da inteligência básica em algo útil envolve a


avaliação, análise e a disseminação do material resultante para
unidades específicas da organização policial considerada.
Tais unidades poderão então utilizar a informação como
aviso de coisas que estão por acontecer ou indicação de
atividades criminais ainda no estágio de desenvolvimento.12

11 GONÇALVES, Joanisval Brito. Atividade de Inteligência e legislação


correlata. 2ª ed. Rio de Janeiro. Impetus, p. 32
12 DANTAS, George Felipe de Lima e de SOUZA, Nelson Gonçalves de
Souza. As bases introdutórias da análise criminal na inteligência policial.
Disponível em http:// www.justiça.gov.br/senasp/biblioteca/artigos/art_
As%20bases%20introduct%C3%B3rias...pdf(acesso em 20/11/2005).

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 11-30, jul./
set. 2014.
Primeira pergunta: “Durante as ondas de ataques
provocadas pela facção criminosa PGC em novembro de 2012
e em janeiro e fevereiro de 2013, você integrou algum grupo
de Investigação/Inteligência Policial, que teve como atribuição
principal a investigação e o combate aos atentados?”
Análise: O questionamento teve como resposta que 75%
afirmam ter participado de trabalhos na área de Investigação/
Inteligência Policial. Ficou claro que o número de policiais
envolvidos com aquele trabalho foi significativo, proporcional
ao tamanho da inédita crise sofrida pelo estado de Santa
Catarina.

Gráfico 1

Segunda pergunta: “Durante as ondas de ataques


provocadas pela facção criminosa PGC em novembro de 2012
e em janeiro e fevereiro de 2013, você acredita que as diretrizes
passadas pelo seu gestor tenham sido as mais apropriadas
para a realização de suas tarefas de Investigação/Inteligência
Policial?”

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 11-30, jul./
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Análise: Um número de 40% dos pesquisados respondeu
afirmativamente. Porém, 60% dos pesquisados acreditam que
os superiores que geriam a atividade em tela, não determinaram
de maneira adequada o trabalho a ser feito por parte da equipe
de operações de Investigação/Inteligência policial.

Gráfico 2

Terceira pergunta: “Durante as ondas de ataques


provocadas pela facção criminosa PGC em novembro de
2012 e em janeiro e fevereiro de 2013, você recebeu precisas
orientações sobre o encaminhamento e destino das informações
obtidas/recebidas entre os órgãos de Investigação/Inteligência
Policial?”
Análise: Essa pergunta representou uma piora da
percepção dos agentes pesquisados, pois enquanto 30% dos
policiais responderam afirmativamente, 70% dos pesquisados
responderam que não receberam com precisão a orientação
necessária para manter o fluxo de comunicação, deixando de
ser observados os princípios da objetividade, a oportunidade,

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 23


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 11-30, jul./
set. 2014.
a precisão, a simplicidade, sigilo e concisão.

Gráfico 3

Quarta pergunta: “Durante as ondas de ataques


provocadas pela facção criminosa PGC em novembro de 2012
e em janeiro e fevereiro de 2013, após o fornecimento de
informações para a Diretoria de Inteligência da Polícia Civil,
você recebeu feedback das informações produzidas pela sua
equipe em âmbito local?”
Análise: Essa é uma resposta praticamente definitiva
dos pesquisados que responderam negativamente, sendo que
apenas 6% dos pesquisados receberam feedback da DIPC,
demonstrando uma falha grave no processo de comunicação
que implica inclusive na falta de confiança, como veremos na
resposta da próxima questão.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 11-30, jul./
set. 2014.
Gráfico 4

Quinta pergunta: “Se você respondeu negativamente a


quarta questão, a falta de feedback do órgão de inteligência fez
com que você se sentisse excluído do processo, comprometendo
sua confiança no órgão de inteligência?”
Análise: 100% dos entrevistados responderam sim ao
último questionamento formulado. Naturalmente, quando
deixaram de receber o feedback do órgão de inteligência,
todos os entrevistados que colaboraram com o processo de
Investigação/Inteligência na produção de conhecimento para
a resolução da crise relacionada aos ataques provocados
pela facção PGC, sentiram-se excluídos do processo de
conhecimento.

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 25


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 11-30, jul./
set. 2014.
Gráfico 5

Diante das respostas dadas à pesquisa proposta, algumas


conclusões podem ser tiradas. Verificou-se que nesse evento
crítico, apesar do seu ineditismo, um considerável número de
policiais foi deslocado para trabalhar e produzir informações
relacionadas a crise.
Todavia, observou-se que no que concerne a orientação
prévia e a consistente formação dos agentes envolvidos com o
fluxo de informação para a produção do conhecimento de forma
técnica, muito há para se aprender. Denota-se das respostas
apresentadas, que a ação dos agentes provavelmente deve
ter sido pautada na perspicácia e em características intuitivas
personalíssimas, momento em que temos que torcer para que
os princípios necessários para manter o fluxo de comunicação
sem ruídos, como a objetividade, a precisão, a simplicidade,
o sigilo, a imparcialidade, a precisão, entre outras, estejam
presentes naturalmente. Assim, temos a percepção de que em
boa parte das vezes as orientações passadas pelos gestores
da Polícia Civil, não são as melhores e as mais adequadas à

26 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 11-30, jul./
set. 2014.
consecução do trabalho policial.
Além da dificuldade de em receber a orientação/
informação necessária e adequada, verificou-se a ausência de
feedback entre o órgão de inteligência da Polícia Civil de Santa
Catarina e demais unidades policiais envolvidas naqueles
árduos, caóticos e obscuros dias de terror.
Por essa razão, diante do distanciamento da agência
de inteligência, observou-se que muitos colaboradores, após
momentos de esforço hercúleo, se sentiram excluídos ou pouco
importantes para a consecução das metas, que era dar fim aos
dias de terror e sufocar as lideranças da facção, com posterior
desmantelamento da sua estrutura de poder.
Enfim, concluímos que é natural que na sua integralidade
todos os entrevistados que responderam a quinta pergunta
tenham se sentido fora de todo o processo de simbiose que
existe entre investigação e inteligência, e que estava sendo
construído naquele momento crítico. A falta de resposta e a
ausência de retorno de informações à origem, enfraqueceu
a endocomunicação, e a instituição Polícia Civil poderia ter
saído mais fortalecida desses eventos.

4 conclusão

Inicialmente vale mais uma vez, frisar que não há de


se fazer qualquer confusão entre investigação e inteligência
criminal. A inteligência deve ser vista como órgão de
assessoramento e produção de conhecimento com a finalidade
de atender as necessidades dos órgãos que precisam da sua
atuação oficial, porém silenciosa e sem vaidades, como é a
investigação criminal.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 11-30, jul./
set. 2014.
No caso em concreto, relacionado a atividade do órgão
de inteligência principal da Polícia Civil de Santa Catarina, que
é a Diretoria de Inteligência da Polícia Civil – DIPC, durante
o período dos ataques terroristas que assombraram este estado,
verificamos a dificuldade, na prática, do fluxo de comunicação
entre a Diretoria e demais unidades da Polícia Civil.
Entendemos que num primeiro momento, durante o auge
da crise, todo o fluxo de comunicação tenha acontecido de
maneira mais atropelada, em razão da gravidade do inusitado
colapso a que estava submetida a sociedade e o governo
catarinense.
Na verdade observamos que a surpresa com a ocorrência
dos ataques ordenados por homens reclusos no interior dos
presídios, escancarou outra mazela do governo estadual,
que era o sistema prisional e trouxe à tona a dificuldade de
comunicação entre os órgãos de inteligência do estado, da
Secretaria de Cidadania e Justiça, a inteligência do DEAP,
responsável por estes reclusos e da Secretaria de Segurança
Pública, incluindo o órgão misto das Polícias Civil e Militar,
e aqueles formados exclusivamente por Policiais Civis e
Policiais Militares.
Num segundo momento, com a nova onda de ataques,
segundo o que foi observado, verificamos que o órgão de
inteligência da Polícia Civil passou a agir com mais parcimônia,
diante de informações que eram recebidas, mas por vezes estas
informações chegavam com algum vício de origem. Além
disso, outra melhora sentida é que os destinatários desses
relatórios passaram a recebê-las, inclusive com mais precisão
temporal, mantendo presente o princípio da oportunidade.
Todavia, o que quisemos destacar no presente trabalho, e
ficou plenamente evidenciado nos questionários aplicados foi

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 11-30, jul./
set. 2014.
a dificuldade da comunicação efetiva, na troca de informações
entre o órgão de inteligência e os demais órgãos de investigação/
inteligência policial da Polícia Civil e vice-versa.
Além disso, verificamos que se o trabalho das agências
de inteligência no Brasil são relativamente novos e precisam
ainda angariar a confiança dos seus destinatários finais, preciso
é estabelecer uma prática de comunicação ausente de ruídos
e com um completo fluxo, sendo indispensável a realização
de atividades de feedback. Não há o que esperar de positivo
quando os envolvidos no processo não falam a mesma língua,
não comungam dos mesmos conceitos e se guiam pela mesma
cartilha, que deverá estar embebida na fidúcia e segurança.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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da República. Instrução normativa GSI nº 1 de 13/06/2008
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Segurança Pública. Brasília, 2007.

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www.justiça.gov.br/senasp/biblioteca/artigos/art_As%20
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informação. Disponível em: gestaopolicial.blogspot.com.br.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 11-30, jul./
set. 2014.
A INFILTRAÇÃO POLICIAL NA REPRESSÃO
DO CRIME ORGANIZADO: ASPECTOS LEGAIS
E APLICABILIDADE NO SISTEMA JURÍDICO
BRASILEIRO

Eduardo Vieira1
Alexandre Machado Navarro Stotz2

RESUMO
O tema objeto deste artigo científico aborda à aplicabilidade da infiltração
de agente policial no combate ao crime organizado, analisando aspectos
legais e práticos do uso dessa técnica de investigação criminal no sistema
jurídico brasileiro. Tornou-se prestigiosa abordagem das raízes históricas
avaliando a evolução das técnicas operacionais e de inteligência e o
surgimento do procedimento de infiltração policial, pesquisando aspectos
relativos à prática e concernentes a legislação hodierna e suas similitudes
no direito comparado. Não obstante buscou-se o entendimento doutrinário
da infiltração de agentes do Estado no cerne de organizações criminosas.
Ao ter-se acesso a dados e informações passa-se a desprezar práticas
meramente intuitivas, na pior das hipóteses, macula-se possíveis provas que
se carregadas de vícios devem ser desentrenhadas do processo juntamente

1 Eduardo Vieira, bacharel em Direito pela Universidade do Oeste de Santa


Catarina – UNOESC, Especialista em Ciências Penais pela Universidade
Anhanguera-Uniderp. Policial Militar em Santa Catarina. E-mail:
duarvier@yahoo.com.br
2 Bacharel em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina.
Especialista em Direito Público pelo Complexo de Ensino Superior de
Santa Catarina. Professor titular da Faculdade de Ciências Sociais de
Florianópolis, mantida pelo Complexo de Ensino Superior de Santa
Catarina, do Instituto de Ensino Superior da Grande Florianópolis, do
Complexo de Ensino Superior Anita Garibaldi - Faculdade Anhanguera
São José e do Centro Universitário para o Desenvolvimento do Alto
Vale do Itajaí (Unidavi). Coordenador do Núcleo de Prática Jurídica do
Complexo de Ensino Superior Anita Garibaldi - Faculdade Anhanguera
São José. Orientador do Curso de Pós-Graduação da Unidavi. E-mail:
astotz@fastlane.com.br

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 31


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 31-53, jul./
set. 2014.
com suas derivações. No entanto esse instituto é fascinante, pois possibilita
alocar o agente do estado dentre criminosos possibilitando buscar in loco;
verificar quem são; quais são e qual é o grau de envolvimento de cada
indivíduo com as práticas delituosas. O instituto também pode contribuir
ao processo de tomada de decisões, pari passu, que as informações até
então, só encontradas por meio da infiltração podem ser analisadas sendo
fundamentais na elucidação de crimes complexos que impingem dificuldade
de delimitação da autoria e materialidade. Ademais, a eficácia dos métodos
tradicionais passa a ser contestada frente ao aumento da criminalidade e
da formação de organizações criminosas, merecendo de tal forma resposta
eficaz do Estado, momento em que nos parece imprescindível o uso do
procedimento operacional da infiltração policial.

Palavras-Chave: Infiltração Policial; Crime Organizado; Meio de


Obtenção de provas;

ABSTRACT
The theme object of this research paper discusses the applicability of
infiltration of police officer in combating organized crime, analyzing
the legal and practical use of this technique of criminal investigation in
the Brazilian legal system aspects. Became prestigious historical roots
approach to evaluating the development of operational and intelligence
techniques and the emergence of police infiltration procedure, researching
aspects concerning the practice and today’s laws and their similarities in
comparative law. Nevertheless we sought doctrinal understanding of the
infiltration of agents of the state at the heart of criminal organizations.
When to have access to data and information is going to despise merely
intuitive practices, at worst, macula is possible evidence that addictions
should be charged withdrawn the process along with their derivations.
However this institute is fascinating because it enables placing agent of the
state in criminal nucleus, enabling search on site; verify who they are; what
are they and what is the degree of involvement of each individual with the
criminal practices. The institute may also contribute to the decision-making
process, at the same time, the information hitherto only found through
infiltration can be analyzed and fundamental for elucidating complex
crimes that impinge difficulty to define the authorship and materiality.
Furthermore, the effectiveness of traditional methods becomes contested
against rising crime and the formation of criminal organizations, deserving
so effective response from the State, at which point it seems necessary to

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use the operating procedure of police infiltration.

Keywords: Police Infiltration; Organized Crime; Means of Obtaining


Evidence;

1 INTRODUÇÃO

Sabe-se que não são recentes os problemas enfrentados


pela sociedade com a criminalidade. Ocorre que o século
XX nos fora revelador de novos contrastes e aspectos da
delinquência, passando a ocorrer com maior frequência
documentada a prática de delitos por grupos de indivíduos.
A marginalização encontra espaço nos meios urbano e rural,
reunindo voluntários com desígnios similares, formam-se
grupos, com intuito de obter lucro por meio da prática de
delitos.
Frente aos novos paradigmas impostos pelo crime
organizado, o governo tende a remodelar suas técnicas já não
eficazes à repressão das organizações criminosas. Crê-se que a
questão não é aperfeiçoar, mas sim remodelar os procedimentos
operacionais. Até porque não se desprezam os métodos
tradicionais, no entanto pontua-se quanto à funcionalidade
na repressão do crime, sendo prestigiosa a análise do que é
novo, em termos de procedimentos operacionais. O legislador
tem dado alguns passos, embora morosos, mas tem havido
mudanças, logo devem os órgãos de manutenção da ordem
manter-se atentos ao desenvolvimento de novas técnicas
operacionais sancionadas pelo governo, com vistas a frear a
ocorrência de ilícitos de toda ordem.
O efeito intimidatório da legislação penal tem sido
empiricamente contestado por supostamente não estar
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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 31-53, jul./
set. 2014.
repercutindo como desejado. Esses dados são preocupantes,
parece-nos salutar sopesar outras formas de interagir frente ao
problema que se tornou o crime organizado no Brasil.
No desenvolvimento do presente artigo científico, se
pretende analisar a aplicabilidade do procedimento operacional
de infiltração policial, refletindo sobre as benesses deste
procedimento investigatório na repressão ao crime organizado.
Momento em que se analisa o emprego do instituto com
vista a atual legislação, verificando sua implementação e o
valor probatório das informações e dados colhidos durante o
procedimento operacional de infiltração policial.
Em que se pesem os estudos a respeito da infiltração
policial observa-se que ainda resta celeuma sobre sua possível
aplicabilidade. Nesse sentido, é de fundamental importância à
análise das convenções nacionais e internacionais, que versem
sobre o combate ao crime organizado, tal como a convenção de
“Palermo”, sob o enfoque do ordenamento jurídico brasileiro.
Ante o exposto, é importante ressaltar que o presente
artigo científico buscará focalizar o problema de pesquisa,
analisando aspectos constitucionais e infraconstitucionais,
constituindo-se nosso objetivo, que passamos a concretizar,
numa análise crítica exegética das preceituações constitucionais
e infraconstitucionais examinadas, de forma geral, sobre os
princípios basilares.

2 ASPECTO LEGAL DA INFILTRAÇÃO POLICIAL


NO BRASIL

Ao delimitarem-se os aspectos legais do procedimento


operacional de infiltração parece-nos prestigiosa à análise do

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 31-53, jul./
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surgimento desse meio de obtenção de provas. No Brasil a
possibilidade de aplicação desse procedimento foi introduzida
pela lei nº 10.217/2001, que incluiu o inciso V ao art. 2º da
lei nº 9.034/1995. Tratava-se de inovação, embora o legislador
já tivesse olvidado incluir o procedimento de infiltração por
agentes de polícia ou de inteligência, em tarefas de investigação
na edição da lei 9.034/1995, no entanto a lei fora parcialmente
vetada principalmente no tocante ao dispositivo legal que
disciplinava a possibilidade de utilização da infiltração policial.
Na atualidade a lei nº 12.850/2013 revogou a lei 9.034/1995,
trazendo nova redação procedimento operacional de infiltração
policial.
A edição da lei nº 12.850/2013 veio a sanar inúmeros
problemas quanto à operacionalidade das ações policiais,
viabilizando a utilização do procedimento operacional de
infiltração policial que somada aos demais dispositivos de
investigação dão força às policias no combate ao crime
organizado.

2.1 DEFINIÇÃO DE ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA NO


ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO

O conceito básico de organização é que se trata de3


[...] associação ou instituição com objetivos definidos”, e por
criminosa o ato ou fato de ocorrência de delitos, para Becchi
(2000, p. 42) organização criminosa seria um “conjunto
formalizado e hierarquizado de indivíduos integrados para

3 Minidicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Editora


Nova Fronteira, 1977 – 6ª edição, Curitiba, 2004.

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 35


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 31-53, jul./
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garantir a cooperação e a coordenação dos membros” [...]
tratando-se de prática organizada e estruturada, com fins de
obtenção de lucros por meio de práticas ilícitas e reiteradas.
Inicialmente procurou o legislador definir métodos
de prevenção e repressão ao crime organizado por meio da
edição da lei nº 9.034/95, no entanto, naquela época, não fora
definido um conceito legal do que seria o crime organizado.
Essa situação restou corrigida com a nova lei nº 12.850/2013,
que, no art. 1º § 1º, dispõe in verbis:

Considera-se organização criminosa a associação de 4 (quatro)


ou mais pessoas estruturalmente ordenada e caracterizada
pela divisão de tarefas, ainda que informalmente, com
objetivo de obter, direta ou indiretamente, vantagem de
qualquer natureza, mediante a prática de infrações penais
cujas penas máximas sejam superiores a 4 (quatro) anos, ou
que sejam de caráter transnacional.

A definição doutrinária de organização criminosa


varia; mas, majoritariamente, entende-se que é a prática de
delitos de forma estruturada, planejada e com a acumulação
de poder econômico ao grupo, culminando em poder de fogo
e intimidação entre seus integrantes e também a agentes
externos, com conexões locais e internacionais. Finalmente
a típica estrutura piramidal resultante da divisão de tarefas
entre seus membros; nesse entendimento, de Silva (2003, p.
16) e coadunando o raciocínio aponta Mendroni p. 10 “[...]
se pessoas reunidas planejam de forma organizada – [...]
buscando informações privilegiadas [...] planejar rotas de
fuga, [...] neutralizar câmeras filmadoras etc. -, esse grupo
poderá ser caracterizado como uma organização criminosa”

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[...] neste caso, o autor descreve como possivelmente seria um
planejamento típico de uma organização criminosa.
Crê-se, que com o advento da nova legislação resolvam-
se inúmeras dicotomias propiciando maior segurança jurídica
aos operadores do direito e autoridades da segurança pública,
viabilizando a utilização de técnicas e meios de obtenção
de prova, dentre estes o de infiltração policial. Até porque,
foram resolvidas algumas questões que pairavam sobre a
aplicabilidade da lei nº 9.034/95, agora revogada. Parece-
nos ter havido melhorias significativas no disciplinamento e
depuração das técnicas e meios de obtenção de provas frente ao
crescente crime organizado, e que possivelmente possibilitará
maior segurança jurídica e instrumentalização aos órgãos
encarregados do combate ao crime organizado.

2.1.1 Crime Organizado e a Convenção de Palermo

Inicialmente, o ordenamento jurídico brasileiro adotou a


conceituação estabelecida pela Convenção das Nações Unidas
contra o Crime Organizado Transnacional, designada como
Convenção de Palermo, inclusive a positivou por meio da sua
inclusão ratificada no Brasil mediante o decreto legislativo
n. 231/2003 e inserida no ordenamento jurídico por meio do
Decreto n. 5.015/2004.
Ocorre que sempre existiu certa dicotomia quanto à
definição de organização criminosa ser pactuada por convenção
estrangeira. Tal não mais ocorrerá, sendo a aplicabilidade das
técnicas operacionais de investigação e repressão ao crime
organizado pautadas pelo ordenamento atual previsto na lei
nº 12.850/2013, que define organização criminosa no art.

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1º § 1º como [...] “associação de 4 (quatro) ou mais pessoas
estruturalmente ordenada e caracterizada pela divisão de
tarefas, ainda que informalmente, com objetivo de obter, direta
ou indiretamente, vantagem de qualquer natureza,[...] 4. Com
a atual legislação, a definição e o conceito de organização
criminosa foi definitivamente solidificada, sendo perfeitamente
aceitável a aplicação das técnicas de investigação destinadas
ao crime organizado.

2.2 Infiltração Policial no Ordenamento


Jurídico Brasileiro

Ocorreram mudanças significativas no código penal,


relativamente à definição do crime de quadrilha ou bando; as
alterações foram pontuais, dentre elas a designação que passou
a ser associação criminosa, verificou-se mudança significativa
do tipo penal, passando a exigir apenas três pessoas, sendo
que antes eram necessárias quatro. Com advento do novo
ordenamento houve inúmeras mudanças e dentre estas a
definição do procedimento operacional de infiltração de agente
que nos parece ter ficado circunscrita à atuação policial, como
meio de obtenção de prova, previsto no art. 3º inciso VII da
lei nº 12.850, de 02 de Agosto de 2013, vejamos trecho do
ordenamento, tal como disposto in verbis5

4 LEI nº 12.850, de 02 de Agosto de 2013.


5 LEI nº 12.850, de 02 de Agosto de 2013.

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Em qualquer fase da persecução penal, serão permitidos, sem
prejuízo de outros já previstos em lei, os seguintes meios de
obtenção da prova: [...] VII - infiltração, por policiais, em
atividade de investigação, na forma do art. 11;

A lei 12.850/2013 não alterou a redação da Lei


11.343/2006 – Lei antidrogas –, sendo mantida a redação do
art. 53 que prevê: 6 “Em qualquer fase da persecução criminal
são permitidos [...] mediante autorização judicial e ouvido o
Ministério Público, os seguintes procedimentos investigatórios:
I – A infiltração por agentes de polícia [...]”, vindo a reafirmar
a competência dos órgãos policiais na implementação desse
importante meio operacional para a prevenção e repressão de
ações praticadas por organizações criminosas.
Segundo Silva (2009, p. 74) “A infiltração de agentes
consiste em técnica de investigação criminal ou de obtenção
da prova, pela qual um agente do Estado, mediante prévia
autorização judicial, infiltra-se numa organização criminosa,
[...]”. Esta técnica consiste em colocar um policial no ambiente
de uma organização criminosa, preferencialmente em seu seio,
dentre marginais, tal como se fosse pertencente àquele grupo.
A capacidade operacional e treinamento do policial
infiltrado farão a diferença ao dificultoso manuseio dessa
técnica operacional. A qual demanda oportunidade adequada à
implementação, haja vista que em alguns casos ou mesmo na
maioria, não será possíveis à implantação dessa técnica, dadas
as características do grupo. Mas, quando obtido sucesso, a ideia
é que o policial ao interagir no cotidiano da organização passe a

6 LEI nº 11.343, de 23 de Agosto de 2006.

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 39


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 31-53, jul./
set. 2014.
se inteirar de dados e informações relativamente às conversas,
decisões, possibilitando às autoridades ter conhecimento dos
fatos, que se tratando de ilícitos merecem repressão.
Esse agente do estado infiltra-se no cerne da organização
criminosa, simulando condição de integrante. Ao adquirir
confiança dos integrantes daquela facção, a polícia passa a
utilizar de técnicas de investigação que utilizem seu agente
infiltrado na obtenção de provas que confirmem as práticas
delituosas daquele mecanismo.
São diferenciados os benefícios ocasionados pela
infiltração policial em termos estratégicos, como bem observa,
Mendroni (2009, p. 109) [...] “As vantagens que podem advir
desse mecanismo processual são evidentes: fatos criminosos
não esclarecidos podem ser desvelados, modus operandi,
nomes – principalmente dos “cabeças” da organização,”[...]
são peculiares os aspectos da infiltração policial, haja vista que
é positivada na legislação e definida como meio de obtenção
de prova, sendo mais uma ferramenta a polícia, o uso desse
procedimento operacional oferece riscos a serem basilados pelo
princípio da proporcionalidade. Em contrapartida a esse risco,
está a eficiência, que o bom uso desse mecanismo processual
pode ocasionar à polícia no combate ao crime organizado.
Ao buscar delimitar o conceito de infiltração policial,
inevitavelmente somos conduzidos à hipótese de aplicação,
analisando as reais possibilidades de atuação frente ao caso
em concreto. De acordo com Bechara e Damásio de Jesus
(2005, p.2) “A principal exigência para sua aplicação, que
constitui o standard mínimo para o deferimento da medida, está
expressamente reconhecida” [...] dentre os pressupostos da
aplicabilidade da infiltração policial consta a prévia autorização
judicial, e de tratar-se, o ilícito de organização criminosa, a

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 31-53, jul./
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ser verificada a possibilidade de utilização de outros meios
de obtenção de provas, só cabendo à utilização deste, quando
não for possível por outros meios. Dessa forma preenche-se
os requisitos de admissibilidade dessa importante ferramenta
operacional.
A aplicabilidade do instituto da infiltração policial
encontra guarida no ordenamento e está contido na lei nº
12.850/2013, tal com dispõe in verbis:7

Art. 10.  A infiltração de agentes de polícia em tarefas de


investigação, representada pelo delegado de polícia ou
requerida pelo Ministério Público, após manifestação
técnica do delegado de polícia quando solicitada no curso
de inquérito policial, será precedida de circunstanciada,
motivada e sigilosa autorização judicial, que estabelecerá
seus limites. [...] § 2o  Será admitida a infiltração se houver
indícios de infração penal de que trata o art. 1o e se a prova
não puder ser produzida por outros meios disponíveis. [...]

A infiltração policial destina-se à obtenção de provas,


trata-se de procedimento operacional acionável com intuito de
obter acesso a dados e informações negadas pelo mecanismo
com intuito de frear o crescimento frenético de organizações
criminosas, sendo imprescindível resposta estatal a contento.
No entanto, apresentam-se inúmeras barreiras. De acordo
com Grinover apud Avolio, (2010, p.25)8 “O exercício de ações
investigatórias pelos órgãos incumbidos da persecução penal

7 LEI nº 12.850, de 02 de Agosto de 2013.


8 GRINOVER, Ada Pellegrini. Liberdades Públicas e Processo Penal. São
Paulo: Revista dos Tribunais, 1973.

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quase invariavelmente colide com a barreira protetora das
constituições”[...] ao sopesar-se a aplicabilidade do instituto
torna-se imprescindível avaliar a proporcionalidade como
parâmetro e também como princípio. Isto, porque se coloca
em pauta a tutela dos bens jurídicos individuais e também
supraindividuais relativos à sociedade, logo há que sopesar-
se a proporcionalidade de um bem, frente aos demais que
estão em jogo, haja vista que a implementação do instituto
pode macular direitos dos investigados, tal como o direito à
intimidade.
De fato, há certa resistência em respeito aos princípios
constitucionais implícitos e explícitos que tratam de liberdade
e inviolabilidade da intimidade, mas a tutela dos bens jurídicos
supraindividuais dá guarida à aplicabilidade do instituto. Para
Toledo (1994, p. 10) [...] “o problema não reside na questão de
ser ou não benevolente com o crime, ninguém razoavelmente
poderia sê-lo, mas de saber como contê-lo” [...] respeitando a
legalidade dentro dos limites socialmente toleráveis, de forma
menos traumática possível, eficaz e séria.
Cabe à política criminal, portanto, eleger os ideais e
interesses reservados ao tratamento da enfermidade social que
é o crime, elaborando as estratégias para seu combate, bem
como incrementar a execução dessas estratégias. A matéria
que envolve a aplicabilidade do instituto de infiltração policial
é extremamente complexa e reflete nobres valores a serem
respeitados pela sociedade e Estado, merecendo avaliação
individual de cada caso. Momento em que se faz necessária
reflexão sobre jus puniendi do Estado e os respectivos critérios
a serem seguidos pelas autoridades de segurança.

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2.2.1 Infiltração Policial no Direito Comparado

No plano internacional a infiltração policial na


Alemanha é fixada por legislação especial, sendo concebível
no combate às organizações criminosas, com a utilização
da Verdeckter Ermittler 9 assim designada em alemão o
procedimento de infiltração policial. Sua aplicabilidade é
regulada no ordenamento jurídico alemão nos §§ 110ª e 110b
do Código de Processo Alemão. É admissível o procedimento
de infiltração policial quando pertinentes indícios de crimes:
tráfico de entorpecentes ou de armas; falsificação de moeda;
crimes contra à segurança nacional; comerciais ou habituais;
praticados por organizações criminosas, de acordo com o
entendimento de Mendroni, (2009, p.211).
Na Alemanha, em casos em que se verifique urgência,
permite-se a autoridade policial aplicação de oficio desse
método de investigação, devendo em prazo determinado
receber anuência do MP. Tal como observa Mendroni, (2009,
p.212), a operação [...] “deve ser extinta se não houver
manifestação favorável do MP no prazo de três dias”[...]. O
ministério público alemão pode dispor sobre a aplicabilidade
desse importante meio de obtenção de prova, que é empregado
por tempo determinado, sendo admissível enquanto perdurar a
situação que dá azo a seu emprego.
Na Argentina a lei nº 23.737/1989, em seu artigo 33 §
único, trata da infiltração de agente, designada como “agente

9 MENDRONI, Marcelo Batlouni. Crime Organizado: Aspectos gerais


e mecanismos legais / Marcelo Batlouni Mendroni. – 3. ed. – São Paulo:
Atlas, 2009.p. 210.

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encubierto” 10, tendo sido este dispositivo legal inserido pela
lei nº 24.424/1995. Segundo Messa; Carneiro; (2012, p. 291)
“É mister observar a importância deste dispositivo, uma vez
que também prevê o instituto da ação controlada, semelhante
a nossa legislação” [...] a ação controlada permite a autoridade
policial postergar a detenção de pessoas ou apreensão de
substâncias entorpecentes nos casos em que a prisão em flagrante
possa comprometer o êxito da investigação, esse dispositivo
permite ao juiz autorizar tal medida. É peculiar destacar que na
Argentina só é permitido o procedimento de infiltração policial
em delitos relacionados ao narcotráfico, diferente de nossa
legislação, que aborda a questão de maneira mais abrangente,
permitindo aplicação dessa ferramenta operacional em ações
de controle e repressão do crime organizado como um todo,
desde delitos que envolvam narcotráfico à criminalidade
econômica organizada.
A Itália teve casos mundialmente conhecidos envolvendo
organizações criminosas “máfias”. Visando maior eficiência
no combate ao crime organizado, o legislador italiano previu a
utilização de agentes infiltrados em alguns casos, dentre eles o
tráfico de entorpecentes que recebeu regulamentação de acordo
com Mendroni (2009, p. 236) “pelo Decreto do Presidente da
República nº 309 de 9 de outubro de 1990, em seu artigo 97 –
acquisto simulato di drogas” [...] permitindo-se em legislação
específica que o agente policial adquira entorpecente dos
suspeitos de tráfico para verificar e determinar sua procedência,
sendo permissível tal prática com fins operacionais ao agente

10 MESSA, Ana Flávia; CARNEIRO, José Reinaldo Guimarães. Crime


Organizado / coords. Ana Flávia Messa, José Reinaldo Guimarães
Carneiro. – São Paulo: Saraiva, 2012.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 31-53, jul./
set. 2014.
policial.
Os Estados Unidos seguiram a tendência europeia de
entrega desse procedimento ao Órgão do Ministério Público,
diferente do legislador brasileiro, que optou pela autorização
judicial.

2.3 Direito penal e sua relação com


procedimento operacional da infiltração
policial

O direito penal não conhece amigos ou inimigos e é sob


essa óptica que devem trabalhar os encarregados da aplicação
da lei e operadores do direito11. A infiltração policial é um dos
meios de obtenção de provas mais intromissivos já criados
na legislação brasileira, usado mediante autorização judicial
para colocar agente policial em meio a indivíduos investigados
por práticas criminosas, com intuito de saber-se o que ocorre;
quando ocorre e quais os perpetradores dos fatos.
Torna-se prestigiosa a análise desse importante
instrumento, haja vista que o apego à tradições e costumes
não nos é argumento válido a tornar inaplicáveis as técnicas
de controle e repressão ao crime organizado. Pois, é patente o
crescimento da prática desse tipo de ilícito, sendo ilustrativa
a pontuação de Luiz Carlos Cancelier de Olivo (2012, p. 27),
em reunião sobre a obra de Dostoiévski, quando afirma que
“imobilismo e coisificação representam justamente o oposto
de considerar a realidade em suas constitutivas fissuras”[...].

11 Palestra no 1º Congresso Internacional Rede LFG e IPANIDRS –


ASDEP proferida por Luigi Ferrajoli, no Brasil em 31/08/2007.

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 45


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 31-53, jul./
set. 2014.
Ao se considerar o real, o fático, é possível verificar eficácia
ou ineficácia de um meio, sendo prestigiosa a observância de
meios legais e eficazes, pois a criminalidade e a impunidade
só serão resolvidas com a presença do Estado na proteção da
cidadania, através de uma polícia cientificamente estruturada,
um judiciário ágil e próximo aos desejos do povo e uma
execução de pena efetiva.
Os crimes cometidos por organizações criminosas são de
difícil elucidação e raramente deixam rastros. Para solucioná-
los é necessária a aplicação de métodos não convencionais.
Afinal para penalizar se faz necessária obtenção de provas das
condutas, coadunando a esse entendimento Gomes, (2002, p.
15) delineia que para que se possa falar em crime “além da
presença de uma ação ou omissão (uma conduta), também se
faz necessário um resultado jurídico” [...] logo é prestigioso
ter acesso a essa fonte, que muitas vezes só poderá ser
vislumbrada de dentro pra fora, não obstante o entendimento de
Thomé, (2011) [...] “deve cada indivíduo ser julgado de forma
condizente com espaço social que ocupa, devendo o julgador
descer até o porão e analisar as condições e possibilidades de
ação dos jurisdicionados que ali vivem”, [...] tal ilustração
parece-nos designativa do que se esperar do procedimento de
infiltração policial, que traga dados desse espaço não acessível
às autoridades policiais e judiciais do Estado.
A infiltração como meio de obtenção de prova deve
ser direcionada a obtenção de dados e informações. O agente
infiltrado será os olhos do Estado, conhecendo e entendendo o
modo de operação da organização criminosa, buscando dados
relativos à identidade dos envolvidos e sua participação no
grupo. Sendo um meio de prova que para Rangel (2003, p. 406)
“são todos aqueles que o juiz, direta e indiretamente, utiliza

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 31-53, jul./
set. 2014.
para conhecer da verdade dos fatos, estejam eles previstos em
lei ou não” [...] os apontamentos do autor são designativos
de que os meios de prova fazem parte do processo cognitivo
do magistrado acerca dos fatos analisados, e que pode adota-
los estando previstos ou não no ordenamento jurídico, logo é
prestigioso lembra-se que a infiltração policial está positivada
no ordenamento jurídico brasileiro.
Segundo Rocco apud Gomes, (2002, p.10) [...]
“quando se interpreta qualquer tipo penal, a primeira tarefa
do intérprete é descobrir qual é o bem ou interesse tutelado”
[...] sendo prestigiosa a atenção do agente infiltrado para
que não desenvolva interpretação surreal dos fatos, pari
passu, para Binding apud Gomes, (2002, p.10) “a pena tem
cunho retributivo e o que vale é o Direito penal do fato, não
o do “autor”, fundado na periculosidade.”[...] a qualificação
técnica do profissional é fundamental para que na coleta de
dados e informações sejam desprezados as acepções pessoais
corrompidas no processo introdução do agente, sendo
prestigioso manter o caráter investigatório, preventivo e
repressivo almejado pela infiltração, do contrário uma possível
coleta de provas ficará no plano da “utopia”12.
Cabe à política criminal elaborar estratégias de combate
à enfermidade social gerada pela criminalidade organizada,
elegendo seus respectivos ideais pautados nos princípios
adotados explícita e implicitamente pela constituição, até

12 Utopia é o termo cunhado por Thomas More para designar uma ilha
– lugar – que não esta em local nenhum real, somente existindo no plano
do ideal, como um projeto de antecipação. (SANCHEZ VÁQUEZ, 2001,
p.361;363).

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 31-53, jul./
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porque nos dizeres de Toledo (1994, p.10) sobre o crime,
a questão é [...] “saber como contê-lo” [...] respeitando a
legalidade dentro dos limites socialmente toleráveis, de forma
eficaz e séria.
Assim, o legislador, ao incluir esse dispositivo legal,
visou possibilitar a coleta minuciosa de dados e informações
que em sua depuração coadunassem em provas a serem
carreadas ao processo, além de permitir aos órgãos policiais e
judiciais o conhecimento acerca do grau de envolvimento de
cada indivíduo com a prática do fato crime. Nunca olvidando
a necessidade da observância dos meios legais de obtenção de
provas, para fazer do processo um meio efetivo de realização
da justiça com base no entendimento e definição de (GOMES,
2011).

3 CONCLUSÃO

O desenvolvimento do presente artigo científico foi


altamente compensador, tendo propiciado profunda reflexão
vez que o tema relativo à infiltração policial na repressão
do crime organizado suscitará importantes debates dentre
estudantes e operadores de direito.
A criminalidade assola as sociedades contemporâneas
e a adoção do instituto da infiltração policial na repressão
do crime organizado pode significar um avanço necessário
indispensável quando verificada a ineficácia dos procedimentos
operacionais tradicionais. Logo, o direito não pode ser visto
tal como objeto estagnado, nossa legislação está em constante
mutação buscando transparecer os anseios da sociedade.
Questão delicada, todavia, será sempre a da aferição da

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 31-53, jul./
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legitimidade e moralidade dos meios empregados pelos agentes
do Estado, em busca das provas, responsabilidade que recai,
prima facie, sobre o julgador, sob o enfoque não meramente
utilitário do processo, mas, sobretudo, dos lineamentos
éticos que definem a aplicação dos princípios constitucionais
brasileiros.
Por meio de estudo das peculiaridades da infiltração
policial no Brasil, buscamos analisar sua natureza jurídica
encaixando-o dentre os meios de obtenção de prova sendo
instrumentos da persecução penal. Dentro desta análise, foi
possível afirmar que a infiltração policial lato senso deve ser
entendida como coleta e seleção de elementos de informação
que visem chegar o mais perto possível da verdade real de
uma infração penal para sustentar um instrumento acusatório e
garantidor da persecutio criminis por parte do Estado.
Nesse sentido, o foco da pesquisa, infiltração policial
na repressão do crime organizado, foi analisado em suas
peculiaridades como meio de obtenção prova, sendo método
extraordinário utilizado quando da ineficácia dos métodos
tradicionais, visando melhor desempenho e propiciando
o planejamento estratégico por parte das autoridades de
segurança. O combate à criminalidade e a impunidade só terá
resposta a contento com a presença do Estado, através de uma
polícia cientificamente estruturada.
O processo penal brasileiro tem o fim de proporcionar
aos jurisdicionados um julgamento dos conflitos de forma
justa, célere e adequada. Quando os fatos são delineados, a
prova torna-se o meio pelo qual a lide proposta poderá ser
solucionada, culminando em julgamento lastreado num
conjunto probatório amealhado, aceito e corroborado e de
acordo com lei, transparecendo assim a lisura, e dando suporte

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ao julgador para formar sua convicção, fulcrada em prova
lícita desde a coleta.
Dessa forma com aplicação dos princípios adotados por
nossa Constituição, com desenvolvimento de ações eficazes
que visem a garantir a todos o acesso aos direitos inalienáveis,
o processo penal atingirá seu fim, qual seja a justiça.

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atenuante inominada: uma
resposta à deslegitimação do sistema penal.
Material disponível na internet no endereço: (www.
direitosfundamentais.net) acesso em 16/01/2013.

ANEXO

TERMO DE ISENÇÃO DE RESPONSABILIDADE

Declaro, para todos os fins de direito e que se fizerem


necessários, que isento completamente o CENTRO
UNIVERSITÁRIO PARA O DESENVOLVIMENTO DO
ALTO VALE DO ITAJAÍ – UNIDAVI e o professor orientador
de toda e qualquer responsabilidade pelo conteúdo e ideias
expressas no presente Trabalho de Conclusão de Curso.

Estou ciente de que poderei responder administrativa,


civil e criminalmente em caso de plágio comprovado.

Chapecó – SC, vinte de setembro de dois mil e treze.

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 53


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 31-53, jul./
set. 2014.
CARTEIRA DE IDENTIDADE EM SANTA CATARINA
E O REGISTRO DE IDENTIDADE CIVIL NACIONAL
– RIC. UMA FERRAMENTA DA INTELIGÊNCIA
PARA TOMADA DE DECISÃO

Erika Neves Figueira1


Marcelo Martins2

RESUMO
O objetivo deste trabalho é apresentaras características, semelhanças
e diferenças entre as duas formas de identificação civil presentes no
Brasil e a importância destas para o trabalho da inteligência promovendo
segurança para a tomada de decisão. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica
e documental, descritiva e exploratória, com análise predominantemente
qualitativa. Em 29 de agosto de 1983 foi publicada a Lei nº 7.116 que
regulamentou a expedição e deu validade nacional às carteiras de identidade.
O Estado de Santa Catarina aplica a Lei Federal e os Decretos subsequentes
e se prepara para a efetiva aplicação e mudança da documentação para o
Registro de Identidade Civil, o RIC,conforme a Lei nº 9.454 de 7 de abril
de 1997.

Palavras-chave: Carteira de Identidade.RIC.Inteligência.

ABSTRACT
The objective of this paper is to present the characteristics, similarities
and differences between the two forms of civil identification existing in
Brazil and their importance to the work of intelligence promoting safety in
decision-making. It is a bibliographic and documentary research, descriptive
and exploratory, with predominantly qualitative analysis. On August 29,
1983 was published Law No. 7116 which regulates the expedition and

1 Servidora Pública – IGP. Bacharel em Ciências Contábeis – Faculdades


Barddal. E-mail: erikanf@gmail.com
2 Servidor Público – IGP. Mestre em Gestão de Políticas Públicas. E-mail:
marcelomartins597@igp.sc.gov.br

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 55


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 55-80, jul./
set. 2014.
validates national identity cards. The State of Santa Catarina uses Federal
Law and subsequent Decrees and prepares for the effective application and
documentation change for the Civil Identity Register, the RIC as Law No.
9454 of April 7, 1997. 

Keywords: Identity. RIC. Intelligence.

1 INTRODUÇÃO

Todo ser humano já nasce com identidade que se


define por qualidade de ser uma só pessoa com propriedades,
sinais ou marcas que o caracterizam individualmente. Sendo
a identidade uma qualidade específica ou um atributo, sua
determinação é a identificação.
A necessidade de se ter um sistema de identificação dos
indivíduos está presente na humanidade há séculos. Várias
foram as formas utilizadas para identificar as pessoas, desde
atribuição de nome ao uso de ferro quente para marcação de
criminosos, escravos e animais. Com o avanço da tecnologia e
o desenvolvimento da civilização os métodos de identificação
civil têm se modernizado e padronizado entre os estados e
nações.
Com a padronização do método e a publicação de Leis,
o trabalho de identificação do indivíduo se tornou cada vez
mais preciso e confiável, sendo possível hoje a determinação
da identidade de um criminoso a partir de um fragmento da
impressão digital coletada em local de crime.
O uso dessa tecnologia e do banco de dados gerado pelo
cadastramento detalhado de cada cidadão no ato da emissão de
sua carteira de identidade, regulada pela Lei nº 7.116/83, auxilia
no trabalho policial no momento da prisão ou averiguação de
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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 55-80, jul./
set. 2014.
denúncias e também na investigação realizada pelo agente de
inteligência e sua equipe no decorrer do trabalho da Atividade
de Inteligência.
Em busca de melhoramento dos métodos e padronização
nacional do documento de identidade a Lei nº 9.454/97
instituiu o número único de Registro de Identidade Civil e
em2010, a Lei nº 7.166 cria o Sistema Nacional de Registro de
Identificação Civil e institui o Comitê Gestor.
O objetivo deste trabalho é fazer a comparação dessas
tecnologias de identificação, entre a Carteira de Identidade
utilizada pelo estado de Santa Cataria e o documento de
identificação nacional denominado RIC, por meio dos
elementos e itens de segurança dos documentos e como esses
dados são utilizados pela inteligência para auxiliar na tomada
de decisão.
Diante das diferenças evidentes entre os documentos
de identificação em vigência um questionamento faz-se
necessário: quais as diferenças e semelhanças entre esses
documentos e qual a vantagem da implementação dessa nova
tecnologia?

2 REVISÃO DE LITERATURA

Poucos são os que têm acesso ao conhecimento da


atividade de inteligência sendo, portanto, pouco utilizada
como objeto de pesquisa acadêmica no Brasil.A atividade
de inteligência, ainda hoje, remete aos tempos de ditadura e
autoritarismo militar e seus órgãos são vistos com desconfiança
pela sociedade.

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 57


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 55-80, jul./
set. 2014.
Nesse contexto, Gonçalves (2009) afirma que “a
atividade de inteligência no País ainda é vista com preconceito
por parte da população, fomentado por segmentos influentes
da sociedade que menosprezam ou desconhecem a sua
importância”, e acrescenta:

A sombra do passado ainda se faz presente, particularmente


em virtude do significativo envolvimento dos órgãos de
inteligência, tanto militares quanto civis, na repressão aos
opositores do regime no período militar. Nesse contexto, o
Serviço Nacional de Informações (SNI), antecessor da Abin,
ocupou papel central no aparato de informações brasileiro e
muitas vezes esteve associado aos mecanismos de repressão,
inclusive com violações aos direitos humanos. Apesar de
extinto em 1990, o SNI ainda é lembrado quando se quer
produzir críticas e comentários pejorativos à atividade de
inteligência no Brasil.

Sobre esse tema, Antunes (2002, p. 103) nos instrui que,


“com a extinção do SNI, criou-se um vácuo na área civil de
inteligência e abriu-se um espaço para a atuação de agentes
sem regulamentação estabelecida”. Dessamaneira, conforme a
autora, até 1995, houve apenas ensaios, por parte dos Poderes
Legislativo e Executivo, de implementação de uma nova
agência de inteligência (que viria a ser a ABIN – Agência
Brasileira de Inteligência, criada pela Lei 9.883/1999).
Conforme o Decreto nº 4.376, de 13 de setembro de
2002,art. 1º, inciso 1º, a ABIN é órgão central do Sisbin,
que tem por objetivo “integrar as ações de planejamento e
execução da atividade de inteligência do País, com a finalidade
de fornecer subsídios ao Presidente da República nos assuntos
de interesse nacional”.

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De acordo, também, com o mencionado decreto em
seu art. 1º, inciso 2º, o Sisbin é responsável pelo processo de
obtenção e análise de dados e informações e pela produção e
difusão de conhecimentos necessários ao processo decisório
do Poder Executivo, em especial no tocante à segurança da
sociedade e do Estado, bem como pela salvaguarda de assuntos
sigilosos de interesse nacional.

2.1 CONCEITOS

Mesmo com a Doutrina Nacional de Inteligência de


Segurança Pública – DNISP sendo mantida em segredo pelos
próprios órgãos de inteligência, alguns autores tratamsobre
as definições e conceitos do tema. Para Ugarte (2002 apud
Gonçalves, 2011, p. 6) a inteligência é um produto sob forma
de conhecimento, informação elaborada.
Conforme a Lei nº 9.883, de 07 de dezembro de 1999,
que institui o Sistema Brasileiro de Inteligência – SISBIN e
cria a Agência Brasileira de Inteligência – ABIN, em seu art.
1º, inciso 2º, define:

[...] entende-se como inteligência a atividade que objetiva a


obtenção, análise e disseminação de conhecimentos dentro
e fora do território nacional sobre fatos e situações de
imediata ou potencial influência sobre o processo decisório e
a ação governamental sobre a salvaguarda e a segurança da
sociedade e do Estado.

Segundo a DNISP (2007) a atividade de inteligência:

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 59


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 55-80, jul./
set. 2014.
É o exercício permanente e sistemático de ações
especializadas para a identificação, acompanhamento e
avaliação de ameaças reais ou potenciais na esfera de
Segurança Pública, basicamente orientadas para produção
e salvaguarda de conhecimentos necessários para subsidiar
os governos federal e estaduais a tomada de decisões, para
o planejamento e à execução de uma política de Segurança
Pública e das ações para prever, prevenir, neutralizar e
reprimir atos criminosos de qualquer natureza ou atentatórios
à ordem pública.

Assim, a atividade de inteligência tem grande importância


para a defesa de instituições públicas ou privadas, da sociedade
e do Estado.

2.2 Finalidades

Entre as finalidades da atividade de inteligência elencadas


pela DNISP (2007), destacam-se:
- Proporcionar análises sobre a evolução de situações
do interesse da segurança pública, dando suporte no processo
decisório.
- Dar subsídio ao planejamento estratégico integrado do
sistema e a elaboração de planos específicos para as diversas
organizações do Sistema de Segurança Pública.
- Apoiar diretamente com informações relevantes as
operações policiais de prevenção, repressão, patrulhamento
ostensivo e de investigação criminal.
- Auxiliar na investigação de delitos.

60 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 55-80, jul./
set. 2014.
2.3 Características

Algumas características da atividade de Inteligênciade


Segurança Pública podem ser definidas como:
- Produção de Conhecimento: é a coleta e busca de
dados, e, por meio demetodologia específica, transformando-
os em conhecimento preciso, com a finalidade deassessorar os
usuários no processo decisório.
- Assessoria: produz conhecimentos para o processo
decisório e para auxiliaras polícias em suas atividades.
- Dinâmica: É a característica da Inteligência em
Segurança Pública que lhe possibilita evoluir adaptando-se
àsnovas tecnologias, métodos, técnicas, conceitos e processos.
- Abrangência: em razão dos métodos esistematização
característica, a inteligência pode ser empregada em qualquer
campo doconhecimento de interesse da Segurança Pública.
- Segurança: é a característica da atividade de inteligência
que visa garantir sua existência, protegidade ameaças.

2.4 Princípios da atividade de inteligência

De acordo com o disposto na DNISP (2007), os princípios


são as proposições diretoras – as bases, os fundamentos, os
alicerces, os pilares – que orientam e definem os caminhos da
atividade de inteligência.
A seguir, apresenta-se quadro-resumo sobre adefinição
de alguns princípios da Atividade de Inteligência como a
amplitude, objetividade, oportunidade, precisão, simplicidade,
controle e sigilo, os quais são expostos pela DNISP (2007):

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 61


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 55-80, jul./
set. 2014.
Quadro I – Definição dos princípios da Atividade de
Inteligência
PRINCÍPIO DEFINIÇÃO
AMPLITUDE Consiste em alcançar os mais completos
resultados possíveis nos trabalhos desenvolvidos
Norteia a atividade, para que cumpra suas
OBJETIVIDADE funçõesde forma organizada, direta e completa,
planejando e executando ações de acordocom
objetivos previamente definidos.
OPORTUNIDADE Orienta a produção deconhecimentos, a qual
deve realizar-se em prazo que permita seu
aproveitamento.
PRECISÃO Objetiva orientar a produção doconhecimento
verdadeiro, significativo, completo e útil.
SIMPLICIDADE Orienta a sua atividade de forma clarae concisa,
planejando e executando ações como mínimo de
custos e riscos.
Recomenda a supervisão e oacompanhamento
CONTROLE sistemático de todas as suas ações, de forma
a assegurar a nãointerferência de variáveis
adversas no trabalho desenvolvido.
SIGILO Visa preservar o órgão, seus integrantes eações.
Fonte: DOUTRINA NACIONAL DE SEGURANÇA PÚBLICA (2007, p.
14-15)

Além desses princípios, a DNISP (2007) apresenta os


seguintes: compartimentação (visa a restringir o acesso ao
conhecimento sigiloso somente para aqueles que tenham
a real necessidade de conhecê-lo, a fim de evitar riscos e
comprometimentos), permanência (visa proporcionar um
fluxo constante de dados e de conhecimentos), imparcialidade
(norteia a atividade de modo a serisenta de ideias preconcebidas
e\ou tendenciosas, subjetivismos e distorções) e a interação
(implica estabelecer ou adensar relaçõessistêmicas de
cooperação, visando otimizar esforços para a consecução dos

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 55-80, jul./
set. 2014.
seus objetivos).

2.5 PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO

Por ser compreendida como um conjunto de técnicas


e métodos utilizados para a produção do conhecimento a
atividade de inteligência em segurança pública – ISP, irá
subsidiar a tomada de decisão.
Desta forma, possibilita que o agente público atue de
forma eficiente, assim como viabiliza um funcionamento
institucional mais dinâmico e seguro, reduzindo os riscos da
tomada de decisões desconexas, contraditórias, destoantes de
uma estratégia racionalmente delimitada e em confronto com
o interesse público primário (ALMEIDA NETO, 2009).
Para Pacheco (2006), as atividades de inteligência
“nada mais são do que sistemas de gestão da informação,
ou, numa visão mais ampla e atual, sistemas de gestão do
conhecimento”, concentra-se na produção e na salvaguarda de
conhecimentosutilizados em uma tomada de decisão, ou em
apoio às instituições de SegurançaPública.
Para o correto exercício da atividade é indispensável o
uso de metodologia própria, deprocedimentos específicos e de
técnicas acessórias voltadas para a produção doconhecimento.A
Produção de Conhecimento compreende o tratamento, pelo
profissional deinteligência, de dados e conhecimentos.
De acordo com a DNISP (2007), dado e conhecimento
tem por definição:

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 63


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 55-80, jul./
set. 2014.
Dado é toda e qualquer representação de fato, situação,
comunicação, notícia,documento, extrato de documento,
fotografia, gravação, relato, denúncia, etc, aindanão
submetida, pelo profissional de ISP, à metodologia de
Produção deConhecimento. Conhecimento é o resultado
final - expresso por escrito ou oralmente peloprofissional
de ISP - da utilização da metodologia de Produção de
Conhecimentosobre dados e/ou conhecimentos anteriores.

Produzir conhecimento é, para a ISP, transformar dados e/


ou conhecimentosem conhecimentos avaliados, significativos,
úteis, oportunos e seguros, de acordocom metodologia própria
e específica (DNISP, 2007).
Ugarte (2002 apud Gonçalves, 2011, p. 7) lembra a
concepção trina da inteligência (conhecimento-organização-
atividade) e de sua importância para o processo decisório em
diferentes esferas de atuação, inclusive, no meio privado sendo
importante para o mercado competitivo.
Ou seja, inteligência é produção de conhecimento
para auxiliar a decisão. Desempenha o papel de assessoria
administrativa não sendo uma instância executora. Um agente
de inteligência, em nível mais elevado de hierarquia, tomará,
ou não, determinada decisão ou ação.

3 METODOLOGIA E MATERIAIS DE PESQUISA

Dentre as fases para sua realização desta pesquisa,


realizou-se a fundamentação teórica, a qual foi efetivada
por meio de levantamento bibliográfico direto e indireto. A
exposição da Atividade de Inteligência procura esclarecer um
tema pouco explorado no meio acadêmico e pouco conhecido

64 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 55-80, jul./
set. 2014.
pela população em geral. Para esse tema utilizou-se a Lei nº
9.883, de 07 de dezembro de 1999, que institui o Sistema
Brasileiro de Inteligência – SISBIN e cria a Agência Brasileira
de Inteligência – ABIN e a DNISP do ano de 2007.
Após a pesquisa bibliográfica, a segunda fase é a
descrição e exposição das características de cada um dos
documentos de identificação comlegislação vigente no país e
em aplicação do Estado de Santa Catarina.
A pesquisa foi efetuada com base na legislação que
se refere à regulação da identificação civil brasileira, Lei nº
7.116 de 29 de agosto de 1983, e duas alterações ocasionadas
pelosDecretos nº 89.250 de 27 de dezembro de 1983 e Decreto
nº 2.170 de 4 de março de 1997.
Outra fonte de pesquisa de dados são as legislações
referentes ao Registro de Identidade Civil, o RIC. Publicada
em 1997 a Lei nº 9.454 de 7 de abril, institui o número único
de Registro de Identidade Civil e apresenta outras providências
sobre o tema com as alterações realizadas pela Lei nº 12.058
de 2009. No ano de 2010, a Lei nº 7.166 de 5 de maio cria o
Sistema Nacional de Registro de Identificação Civil e Institui
o Comitê Gestor.
Segundo Marconi e Lakatos (2003, p.51), a pesquisa
bibliográfica “não é mera repetição do que já foi escrito sobre
certo assunto, mas propicia o exame de um tema sob novo
enfoque ou abordagem, chegando a conclusões inovadoras”.
Nessa fase ocorreu a obtenção de dados secundários de livros,
sítios eletrônicos e outros trabalhos publicados na área.
A última parte do trabalho consiste em verificar de forma
comparativa os itens de segurança e elementos presentes nos
documentos e como esses dados são utilizados pela inteligência
para auxiliar na tomada de decisão.

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 65


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 55-80, jul./
set. 2014.
4 Resultados

A Carteira de Identidade é um documento emitido para


cidadãos nascidos e registrados no Brasil e para nascidos no
exterior, que sejam filhos de brasileiros. O registro é válido
em todo o território nacional e em alguns países como
Argentina,  Paraguai,  Uruguai, Chile, Bolívia, Colômbia,
Equador, Peru e Venezuela é aceito para substituir o passaporte
em viagens internacionais.

4.1 REGISTRO GERAL – RG

Também conhecido como Carteira de Identidade é de


extrema importância para todo o cidadão brasileiro. Sendo
necessário para solicitação de outros documentos, a carteira de
identidade é o primeiro documento que reúne características
que individualizam uma pessoa. Sem o RG não é possível
solicitar carteira de motorista ou passaportee nem mesmo
prestar concurso público.
Regido pela Lei nº 7.116 de agosto de 1983, a emissão
da carteira de identidade é de responsabilidade dos “órgãos de
Identificação dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios
tem fé pública e validade em todo território nacional”, conforme
seu art. 1º, ficando a cargo dos Estados o sequenciamento
da numeração dos seus RG. A referida Lei e suas alterações
subsequentes não tratam do prazo de validade para a carteira
de identidade.
Para emissão da primeira via da carteira de identidade
ou a solicitação de segunda via, o cidadão nato ou naturalizado
deve apresentar somente a documentação exigida no art. 2º,

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 55-80, jul./
set. 2014.
são eles: certidão de nascimento ou casamento, certificado de
naturalização e fotografia no formato 3x4.
A Carteira de Identidade conterá os seguintes elementos,
conforme o Decreto 89.250/83 em seu art. 3º:

a) Armas da República e inscrição “República Federativa do


Brasil”;
b) nome da Unidade da Federação;
c) identificação do órgão expedidor;
d) registro geral no órgão emitente, local e data da expedição;
e) nome, filiação, local e data de nascimento do identificado,
bem como, de forma resumida, a comarca, cartório, livro,
folha e número do registro de nascimento ou casamento;
f) fotografia, no formato 3 cm x 4 cm, assinatura e impressão
digital do polegar direito do identificado;
g) assinatura do dirigente do órgão expedidor;
h) a expressão: “válida em todo o território nacional”;
i) referência à Lei 7.116, de 29 de agosto de 1983.

Para inclusão de outros dados como o número de


inscrição no Programa de Integração Social – PIS, no Programa
de Formação do Patrimônio do Servidor Público – PASEP
ou do número de cadastro de Pessoas Físicas do Ministério
da Fazenda – CPF, o cidadão deverá apresentar documentos
comprobatórios os quais serão arquivados juntamente com o
requerimento por escrito do interessado.
Em seu art. 5º a Lei nº 7.116/83 determina que:

[...] Do português beneficiado pelo Estatuto da Igualdade


será expedida consoante o disposto nesta Lei, devendo
dela constar referência a sua nacionalidade e à Convenção
promulgada pelo Decreto nº 70.391, de 12 de abril de 1972.

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 67


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 55-80, jul./
set. 2014.
Nesse caso, serão anotados o número e o ano da
Portaria Ministerial que concedeu a naturalização com a
seguinte expressão, dada pelo art. 6º, parágrafo único, do
Decreto 89.250/83: “Nacionalidade portuguesa – Decreto nº
70.391/72”.
Sobre as características físicas dos documentos de
identidade, o Decreto nº 89.250/83 determina no art. 3º que:

A Carteira de Identidade terá as dimensões 10,2 cm X 6,8


cm, e será confeccionada em papel filigranado ou fibra de
garantia, em formulário plano ou contínuo, impressa em
talho doce e offset, com fundo em verde claro e texto na cor
verde.

O Parágrafo Único, deste artigo, expõe sobre as


características de segurança:

a) tarja em talho doce na cor verde;


b) fundo numismático;
c) perfuração mecânica da sigla do órgão de identificação
sobre a fotografia do titular;
d) numeração tipográfica, sequencial, no verso, para controle
do órgão expedidor.

Os elementos e características do documento de


identificação do Estado de Santa Catarina podem ser observados
nas cédulas de identidade conforme destaques a seguir:
1. Dados do órgão emissor – informações gerais do órgão
emissor do documento.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 55-80, jul./
set. 2014.
2. Impressão digital do titular – dedo anular direito para
confronto visual das impressões digitais.
3. Perfuração Mecânica – sigla do órgão de identificação.
Utilizada para marcação da foto e da cédula.
4. Foto do titular – foto 3cm x 4cm colada, destaca-se a
facilidade de adulteração do documento.
5. Assinatura do titular – marcada a caneta.

Figura 1 – Cédula de Identidade – face A

Fonte: Adaptado do Instituto de Identificação Civil e Criminal de


Santa Catarina – IGP/SC, 2011.

Alguns itens de segurança estão presentes nas duas faces


do documento de identificação, são eles:
• Fundo invisível fluorescente – imagem invisível com
tinta fluorescente reagente a luz ultravioleta.
• Fundo numismático – desenho em linhas apresentando
efeito tridimensional. Quando escaneado ou fotocopiado,
o mesmo perde resolução e se transforma em pontos

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 55-80, jul./
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interrompidos e sem definição.
• Tarja em talho doce na cor verde– impressãoem alto
relevo sensível ao tatoque dá efeito tridimensional à imagem
devido ao claro-escuro resultante do conjunto de linhas que a
compõe. Presente nas duas faces do documento.
Na mesma área da cédula pode-se identificar também:
marca d’água, fibras invisíveis luminescentes e fibras coloridas.
Na face B da cédula, além dos itens em comum, destacam-se:

Figura 2 – Cédula de Identidade – face B.

Fonte: Adaptado do Instituto de Identificação Civil e Criminal de


Santa Catarina – IGP/SC, 2011.

1. Dados biográficos do titular – limitados ao nome,


filiação, naturalidade, data de nascimento, documento de
origem (certidão de nascimento ou casamento com averbação,
se houver).
2. Data de expedição da carteira de identidade.
3. Assinatura do responsável pelo órgão expedidor.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 55-80, jul./
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No estado de Santa Catarina a impressão da Carteira
de Identidade é feita de forma descentralizada. Para que haja
assinatura do responsável utilizam-se chancelas com os dados
do diretor do Instituto de Identificação no período da emissão,
no entanto, em muitas cidades a emissão do documento fica a
cago das Delegacias Regionais de Polícia e, portanto, são os
delegados regionais que assinam o documento.
Tal documento é expedido com base no processo de
identificação datiloscópica e dispensa qualquer apresentação
de documentos que lhe deram origem ou que foram fonte de
dados e que nela tenham sido mencionados.

4.2 REGISTRO DE IDENTIFICAÇÃO CIVIL – RIC

Lançado oficialmente no ano de 2010, pelo então


presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Registro de Identificação
Civil foi instituído pela Lei nº 9.454 de 07 de abril de 1997
por Fernando Henrique Cardoso. Este documento vem para
substituir as atuais cédulas de identidade em todo território
nacional.
No art. 3º da Lei supracitada, fica sob responsabilidade
do Poder Executivo a definição da“entidade que centralizará
as atividades de implementação, coordenação e controle do
Cadastro Nacional de Registro de Identificação Civil, que se
constituirá em órgão central do Sistema Nacional de Registro
de Identificação Civil.”.
Com o RIC cada cidadão brasileiro será identificação
por uma numeração única nacional e terá no mesmo cartão
informações que hoje carregamos em vários documentos
diferentes, como RG, CPF, Título de Eleitor, PIS, Pasep,

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 71


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 55-80, jul./
set. 2014.
Carteira de Trabalho e Carteira Nacional de Habilitação
registrados no chip de segurança, por esse motivo, a nova
carteira de identidade nacional não desobrigará a apresentação
dos documentos como CPF, título de eleitor e passaporte,
quando necessário.
A implementação do número único de registro de
identificação civil, se dará por meio de convênio entre a União,
os Estados e o Distrito Federal (inciso 1º, art. 3º, alterado pela
Lei nº 12.058, de 2009). No inciso 2º do art. 3º, trata sobreo
Sistema Nacional de Registro de Identificação Civil:

Os Estados e o Distrito Federal, signatários do convênio,


participarão do Sistema Nacional de Registro de Identificação
Civil e ficarão responsáveis pela operacionalização e
atualização, nos respectivos territórios, do Cadastro
Nacional de Registro de Identificação Civil, em regime
de compartilhamento com o órgão central, a quem caberá
disciplinar a forma de compartilhamento a que se refere este
parágrafo.

Com a adoção do RIC, todos os estados brasileiros


passarão a utilizar o mesmo sistema para emitir a nova
identidade, onde os dados essenciais serão mandados para
uma central que vai formar o Cadastro Nacional Único. Os
institutos de identificação estaduais farão uma consulta online
no Sistema Nacional de Registro de Identificação Civil, criado
pelo Decreto nº 7.166/2010, para que cada brasileiro tenha
apenas um número de identidade.
O cartão conta ainda com um código MRZ (sigla em
inglês para zona de leitura mecânica), uma sequência de
caracteres de três linhas compatível com mecanismos de

72 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 55-80, jul./
set. 2014.
identificação de outros países e que tambémtorna mais rápido
o processo de identificação dos indivíduos.
Além disso, outras tecnologias aplicadas ao documento
garantem a segurança dos dados do cidadão brasileiro como,
por exemplo, os itens em destaque na parte da frente do
Registro de Identificação Civil:

Figura 3 – Registro de Identidade Civil - Frente

Fonte: Adaptado de Portal Brasil, 2013.

1. UF – sigla da unidade da federação que expediu o


documento.
2. Dados do titular – nome, sexo, nacionalidade, data de
nascimento e data de validade do cartão do RIC.
3. Foto do titular – impressa a laser em uma camada
interna do suporte documental. Além da qualidade da
impressão, destaca-se a impossibilidade de remoção tanto
física como quimicamente.
4. DOV – Dispositivo Óptico Variável que produz

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 73


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 55-80, jul./
set. 2014.
efeito de transição de formas e cores. Trata-se de um tipo de
holograma desenvolvido com exclusividade para o governo
brasileiro. A matriz desse desenho complexo é de propriedade
do Estado e fica sob sua guarda.
5. Assinatura do titular – digitalizada e impressa a laser.
6. Chip – contém dados biográficos e biométricos,
inclusive impressões digitais, o que possibilita a identificação
eletrônica automatizada do titular e o uso da certificação
digital.
7. Número do RIC – instituído pela Lei nº 9.454/97 o
Número Único de Registro de Identidade Civil identificará
cada cidadão brasileiro, nato ou naturalizado, em suas relações
com a sociedade, com os organismos governamentais e
entidades privadas. O sequenciamento numérico será único e
gerado com base nas impressões digitais.
8. MLI - Imagens múltiplas gravadas por feixes de
raio laser que, dispostas em um ângulo específico, revelam
o estado de origem do cartão e o número RIC. Com outro
posicionamento, percebe-se a reprodução da foto e a assinatura
do titular do cartão.
No verso do cartão do RIC, destacam-se os seguintes
itens de segurança:

74 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 55-80, jul./
set. 2014.
Figura 4 – Registro de Identidade Civil –Verso.

Fonte: Adaptado de Portal Brasil, 2013.

1. Foto fantasma –é a reprodução da foto do titular no


verso do cartão, em tamanho reduzido.
2. Dados do órgão emissor – informações gerais do órgão
emissor do documento.
3. Número de série do cartão – número que identifica o
suporte documental vinculado ao cadastro do titular.
4. Impressão digital do titular – dedo indicador direito
para confronto visual das impressões digitais.
5. Dados biográficos do titular – reúne diversos números
de documentos do cidadão em um único suporte documental.
6. Campo MRZ com código OCR padrão ICAO –
conjuntode números e letras que permitem a leitura em
equipamentos utilizados, por exemplo, em aeroportos. Trata-
se do padrão internacional para identificação de documentos
de viagem.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 55-80, jul./
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O cartão do RIC ou suporte documental é elaborado por
um polímero de várias camas de alta resistência e durabilidade.
É especialmente preparado para o processo de gravação a laser
que proporciona alta qualidade gráfica e dificulta a alteração
de dados e falsificação do documento.

4.3 COMPARATIVOS

O número de elementos apresentados pelo RIC supera


e muito o número de itens utilizados atualmente pela carteira
de identidade catarinense que a comparação com a simples
classificação “presente” e “ausente” trata superficialmente as
especificidades de cada documento.
Muitos são os elementos e itens de segurança de cada
documento, apresenta-se a seguir quadro comparativo para
melhor visualização dos itensconstantes em ambos os registros,
porém, com grande diferença na tecnologia aplicada em cada
tipo de identificação:

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 55-80, jul./
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Quadro 2 – Quadro comparativo RG x RIC
ELEMENTOS REGISTRO REGISTRO DE
E ITENS DE GERAL – RG IDENTIFICAÇÃO
SEGURANÇA CIVIL - RIC
Tipo de material Papel filigranado Polímero em várias
plastificado camadas de alta resistência
Item invisível aos Fundo invisível Dispositivo óptico variável
olhos fluorescente, – holograma desenvolvido
fundo com exclusividade para o
numismático, governo
marca d’água,
fibras invisíveis
luminescentes.
Numeração Estadual Nacional
Número de série Presente somente Presente em cada cartão
na face A – foto
Foto do titular Colada Impressa a laser
Impressão digital Polegar direito Indicador direito
Assinatura Marcada a caneta Impressa a laser
Dadosarmazenados Nome, filiação, Reúne diversos números
local e data de de documentos
nascimento
Fonte: Adaptado das Leis nº 7.116/83 e nº 9.454/2007.

A tecnologia aplicada ao RIC visa prevenir o avanço da


criminalidade dificultando sua falsificação ou adulteração.

5 CONCLUSÕES

Após exposição das características semelhantes e


específicas do RG atual de Santa Catarina e do RIC nacional
fica evidente o avanço tecnológico e o aumento do número
de informações disponibilizadas no novo documento, quando
da sua efetiva implantação. O uso de um cartão com várias

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 77


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 55-80, jul./
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camadas para impressão dos dados do identificado evita
alteração do documento e maior segurança para o usuário das
informações nele contida.
Para o agente de inteligência e para a agência de
inteligência a numeração nacional dada ao documento e o banco
de dados do RIC centralizado no Sistema Nacional de Registro
de Identificação Civil viabilizará a consulta mais dinâmica do
indivíduo suspeito moderando o tempo empregado na pesquisa
e agilizando o processo de planejamento da ação policial.
Conclui-se que, o cidadão catarinense está sujeito hoje
a inúmeras possibilidades de fraudes no seu documento de
identidade pela falta de segurança na emissão e facilidade de
adulteração dos dados nele impresso.
Recomenda-se a efetiva implantação do RIC em todo
território nacional tanto com vantagens para a Segurança
Pública quanto para o cidadão brasileiro, a comodidade
proporcionada pelo armazenamento de dados no chip e
a segurança das informações nele contido garante hoje a
verdadeira individualização pessoal.

REFERÊNCIAS

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inteligência no Ministério Público. Belo Horizonte: Dictum,
2009.

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29 de agosto de 1983, que assegura validade nacional às
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05 de maio de 2010. Cria o Sistema Nacional de Registro de
Identificação Civil, institui seu Comitê Gestor, regulamenta
disposições da Lei nº 9.454, de 07 de abril de 1997, e dá
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jusbrasil.com.br/noticias/2177007/decreto-7166-2010-cria-o-
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BRASIL. Portal Brasil. Conheça o Novo Registro de


Identidade Civil (RIC). Publicado em 17/12/2010, última
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80 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


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POLÍCIA CIVIL E PREVENÇÃO AO USO DE
DROGAS SOB O ENFOQUE DA INTELIGÊNCIA DE
SEGURANÇA PÚBLICA

Carlos Alberto Coelho 1


Ricardo Lemos Thomé 2

RESUMO
O presente artigo tem por objetivo possibilitar a discussão sobre a atuação
da Polícia Civil na prevenção ao uso de entorpecentes sob o enfoque da
Inteligência de Segurança Pública. A pesquisa permitiu concluir que
embora não seja uma atribuição específica da Polícia Civil, e nem exclusiva
dos órgãos de segurança, é uma demanda social exigida pelas comunidades
onde os policiais estão inseridos e exercem suas atividades policiais,
o que não pode ser dissociado em face da natureza peculiar do trabalho
exercido pelo agente de segurança pública. Portanto, o uso da Inteligência
de Segurança Pública permite a abordagem multidisciplinar e abrangente
que o tema exige em decorrência de seus desdobramentos nos índices de
violência e criminalidade, além de suscitar um aprofundamento sobre o
tema, corroborando com a modernização da forma de gestão da Polícia
Civil, rompendo paradigmas e promovendo uma interação cada vez maior
entre a instituição e a sociedade civil.

Palavras-chave: Polícia Civil. Drogas. Uso indevido. Prevenção.


Inteligência de Segurança Pública.

 
Abstract
This article aims to allow discussion on the role of civilian police in
preventing the use of drugs with a focus on Public Security Intelligence.
The research concluded that although not a specific allocation of the Civil

1 Especialista em Inteligência Criminal, Escrivão de Polícia da Polícia


Civil do Estado de Santa Catarina,
carloscoelhopcsc@gmail.com
2 Doutor em Direito, Delegado de Polícia da Polícia Civil do Estado de
Santa Catarina, rlemos99@gmail.com

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 81-104,
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Police, and not exclusive of the security agencies, is a social demand
required by the communities where the police are inserted and exercise
their police activities, which can not be separated in the face of peculiar
nature of the work performed by public security agents. Therefore, the
use of the Public Security Intelligence provides a comprehensive and
multidisciplinary approach that requires the subject due to its unfolding
in violence and crime, as well as encourage a deepening on the subject,
supporting the modernization of police management form civil, breaking
paradigms and promoting increased interaction between the institution and
civil society.

Keywords: Civil Police. Drugs. Indevide Use. Prevention. Public Security


Intelligence.

1 INTRODUÇÃO

As drogas produzem enorme impacto na vida das pessoas,


quer seja como participantes do processo, como expectadores
de seus desdobramentos ou como estudiosos sobre o tema. Em
termos policiais este assunto se faz cada vez mais presente
no cotidiano das atividades da instituição, resultando em um
grande impacto nestas mesmas atividades em decorrência das
expectativas da sociedade, tornando evidente que o cidadão
exige cada vez mais a abrangência das ações realizadas pelos
agentes da segurança pública.
De forma geral, as drogas têm uma participação relevante
nas práticas delituosas, quando não estão relacionadas ao
crime em si, tornam-se um fator agravante a ser considerado.
Deste modo, o objetivo geral do presente artigo é abordar sob o
enfoque da Inteligência de Segurança Pública à participação da
Polícia Civil na prevenção ao uso de drogas e suas implicações
como mais uma alternativa viável e eficaz ao enfrentamento

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 81-104,
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da violência e da criminalidade. Obviamente que não há
pretensão de ser conclusivo, todavia, se apresenta como mais
uma oportunidade de aprofundamento sobre o tema, na busca
pelo atendimento as demandas da sociedade, corroborando
com a mudança de paradigma no modelo de gestão da Polícia
Civil Catarinense.

2 drogas lícitas e ilícitas

O termo droga tem sua origem na palavra droog, derivada


da língua holandesa, na sua forma antiga, cujo significado está
associado à folha seca (CEBRID, 2010). Tal associação tem
suas raízes na Antiguidade, quando quase a totalidade dos
medicamentos era produzida à base de vegetais (CEBRID,
2010).
Segundo a Organização Mundial de Saúde (SENAD,
2008, p.23), droga é “qualquer substância não produzida pelo
organismo que tem a propriedade de atuar sobre um ou mais de
seus sistemas, produzindo alterações em seu funcionamento”.
Portanto, os medicamentos também são drogas, mas o que
caracteriza uma substância como benéfica ou não para o
organismo é o uso, a quantidade, a frequência e a finalidade
com que ela é utilizada pelo indivíduo.
Neste trabalho, a abordagem sobre as drogas restringe-
se ao ponto de vista legal, ou seja, o aspecto jurídico. Desse
modo, as drogas podem ser classificadas em lícitas e ilícitas,
sendo que as primeiras são todas as drogas comercializadas de
forma legal, submetidas ou não a algum tipo de restrição, como
o álcool, o tabaco e alguns medicamentos de uso controlado
(SENAD, 2004), e as segundas são as proibidas por lei.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 81-104,
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As drogas que alteram o funcionamento do cérebro,
modificando o psiquismo ou estado mental das pessoas que a
utilizam, são chamadas de drogas psicotrópicas ou substâncias
psicoativas (SENAD, 2008). Conforme as modificações que
produzem na atividade cerebral ou no comportamento as drogas
podem, didaticamente, ser classificadas em: depressoras,
estimulantes e perturbadoras (SENAD, 2008).
Na categoria das drogas depressoras está incluída uma
grande variedade de substâncias, de diferentes propriedades
físicas e químicas, que apresentam em comum os efeitos que
produzem: diminuição da atividade motora, da sensibilidade
à dor e da ansiedade; euforia inicial e, posterior, sonolência.
Sendo destacado como exemplo o álcool, os barbitúricos, os
benzodiazepínicos, os opióides e os solventes ou inalantes
(SENAD, 2008).
As drogas estimulantes são drogas capazes de elevar a
atividade cerebral, produzindo um estado de alerta exagerado,
insônia e aceleração dos processos psíquicos. As anfetaminas,
a cocaína e o crack podem ser elencados nesta categoria
(SENAD, 2008).
A maconha, o LSD ou Dietilamida do Ácido Lisérgico,
o ecstasy e os anticolinérgicos são drogas perturbadoras da
atividade mental pois provocam alterações no funcionamento
cerebral, resultando em fenômenos psíquicos anormais, entre
os quais delírios e alucinações (SENAD, 2008). Entende-se
por delírio um falso juízo da realidade, em que o indivíduo
atribui significados anormais aos eventos reais que ocorrem
à sua volta. As alucinações são uma percepção sem objeto, o
indivíduo vê ou sente algo que não existe (SENAD, 2008).

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 81-104,
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2.1. DROGAS: USO E USO INDEVIDO

Podemos definir o uso quando há um vínculo frágil


com a droga, quando a utilização permite a manutenção das
atividades diárias, seja trabalho, estudo, convivência social,
relacionamento familiar e afetivo, entre outras. O uso indevido
se caracteriza quando há prejuízo no exercício destas atividades
ou a impossibilidade de mantê-las (SENAD, 2008).
Com relação à utilização das drogas é preciso considerar
que o que caracteriza o uso indevido são a quantidade e a
forma de utilização. Nesse aspecto devemos pontuar o uso
de medicamentos, de álcool e de tabaco. Muitas vezes não
consideramos que os medicamentos também são drogas,
inclusive alguns deles de uso contínuo e com venda mediante
retenção da receita, mas seu uso é benéfico se consumidos
conforme a prescrição médica. Todavia, esses mesmos
medicamentos fora das doses recomendadas e da sintomatologia
a que se destinam, serão prejudiciais ao indivíduo. Com o
consumo de álcool e tabaco pode ocorrer o que chamamos de
“uso socialmente aceito”, que é quando a substância deixa de
ser considerada como droga, sendo incorporada a atividades
recreativas, relaxantes, culturais, fazendo parte da realidade
individual, familiar e social do indivíduo. Portanto, o uso
indevido de drogas configura-se num fenômeno complexo,
resultante da combinação de inúmeros fatores, entre eles: o
indivíduo, a substância e o contexto social e cultural em que
sua utilização e o usuário estão inseridos (SENAD, 2008).
Segundo a Organização Mundial de Saúde (apud
SENAD, 2008), o uso de drogas pode ser classificado quanto à
utilização e a frequência. Quanto à utilização são considerados
seis níveis de uso: a) na vida, quando o uso ocorreu pelo

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menos uma vez durante a vida do indivíduo; b) no ano, quando
a utilização ocorreu nos últimos doze meses; c) no mês ou
recente, houve uso pelo menos uma vez nos últimos trinta
dias; d) uso frequente, o uso aconteceu seis ou mais vezes nos
últimos trinta dias; e) de risco, quando o padrão de uso implica
em alto dano à saúde física ou mental do usuário, embora
ainda não tenha resultado em doença orgânica ou psicológica;
e f) prejudicial, quando o uso está provocando dano à saúde
física e/ou mental.
Quanto à frequência o usuário pode ser: a) não usuário,
nunca utilizou drogas; b) usuário leve utilizou drogas nos
últimos trinta dias, mas o consumo foi inferior a uma vez por
semana; c) usuário moderado, o uso ocorreu semanalmente,
porém não todos os dias, durante o último mês; e d) usuário
pesado, utilizou drogas, diariamente, durante os últimos trinta
dias (SENAD, 2008).
Na história da humanidade há inúmeros registros sobre
o uso de drogas em situações específicas, como cerimônias
e rituais religiosos, que contextualizadas não representavam
ameaça à saúde pública. Portanto, a relação dos indivíduos
com as drogas não é algo recente, entretanto, somente no final
do século XIX, início do século XX, com a aceleração da
urbanização e da industrialização, com a implantação de uma
nova ordem médica, o uso e o abuso de vários tipos de drogas
passaram a ser problematizados. Assim o controle sobre o
uso passa da esfera religiosa e dos costumes para a esfera da
biomedicina (BUCHER, 1986, p. 66 apud SENAD, 2008), e,
atualmente, para a esfera jurídica.
Em uma sociedade focada no consumo, em que
o importante é o “ter” e não o “ser”, em que a inversão de
crenças e valores gera desigualdades sociais, que favorece a

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competitividade e o individualismo, não há mais “certezas”
religiosas, morais, econômicas ou políticas. Esse estado de
insegurança, de insatisfação e de estresse constante incentiva à
busca de novos produtos e prazeres – nesse contexto, as drogas
podem ser um deles (SENAD, 2008).

2.2. O CONSUMO DE DROGAS NO BRASIL

Os dados em relação à oferta e demanda de drogas no


Brasil existiam de forma muito dispersa. Em 2001 e 2005
foram realizados, respectivamente, o I e o II Levantamento
Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil, que
resultou na divulgação do Relatório Brasileiro sobre Drogas,
permitindo que os dados disponíveis fossem unificados,
apresentando “diversos indicadores que possibilitam avaliar
a situação do consumo de diversas drogas no Brasil e seu
impacto sobre a sociedade” (BRASIL, 2009, p. 12).
Segundo o Relatório Brasileiro sobre Drogas (BRASIL,
2009), a porcentagem total de uso de qualquer droga na vida
foi de 22,8% da população, com exceção do álcool e do
tabaco. Nas 108 maiores cidades do país, distribuídas pelas
cinco regiões, foi relatado pelo total de entrevistados o uso na
vida de: 74,6% para o álcool; 44% para o tabaco; 8,8% para a
maconha; 6,1% para os solventes; 2,9% para a cocaína e 07%
para o crack. Quanto à dependência os índices nacionais são de
12,3% para o álcool e de 10,1% para o tabaco.
O consumo de drogas por cada uma das cinco regiões
brasileiras apresenta-se da seguinte forma: Região Norte -
14,4%; Região Sul - 14,8%; Região Centro-Oeste - 17,0%;
Região Sudeste - 24,5% e Região Nordeste - 27,6%.

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Com base no II Levantamento Domiciliar sobre o Uso
de Drogas Psicotrópicas no Brasil (SENAD, 2005), o álcool e
o tabaco lideram as estatísticas de uso e dependência, seguidos
da maconha, benzodiazepínicos, solventes e estimulantes.
Em relação ao gênero, o masculino apresenta maior
uso na vida e maior dependência de álcool e tabaco; maior
prevalência de uso na vida de maconha, solventes, cocaína,
alucinógenos, crack, merla e esteróides, enquanto que o
gênero feminino apresenta maior uso de estimulantes,
benzodiazepínicos, orexígenos e opiáceos. É baixo o consumo
de heroína para os dois gêneros. Em 2001, a prevalência de uso
de anticolinérgicos é igual para ambos os sexos, mas aumenta
em 2005 em três vezes para o gênero masculino. Em 2001 os
xaropes e barbitúricos apresentam maior incidência para o
gênero feminino e em 2005 são praticamente iguais entre os
gêneros (BRASIL, 2009).
Em relação à faixa etária, em 2005, a maconha e os
solventes têm prevalência entre os 18 e 24 anos. O consumo
de cocaína supera o de maconha entre os 25 e 34 anos. Os
orexígenos, opiáceos, anticolinérgicos, alucinógenos,
esteróides e barbitúricos têm prevalência praticamente iguais
entre os 18 e 34 anos. Acima dos 35 anos prevalecem os
benzodiazepínicos e xaropes. Estimulantes e crack prevalecem
na faixa etária dos 25 a 34 anos (BRASIL, 2009).
Quanto à percepção de risco grave de uso, as mulheres
são mais conscientes, com enfoque para o álcool, maconha e
cocaína/crack. Todavia, em se tratando de uso frequente de
cocaína e crack, homens e mulheres têm percepção de risco
muito semelhantes. Em termos estatísticos, de 2001 para 2005,
a percepção de risco para o uso eventual de maconha e cocaína/
crack aumentou, mas diminuiu a percepção de risco para uso

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de álcool, o que gera um sinal de alerta para necessidade de
realização de forma permanente de campanhas de prevenção
com enfoque na conscientização dos riscos envolvidos no
consumo frequente e indevido de drogas (BRASIL, 2009).

2.3 OS ASPECTOS DA LEGISLAÇÃO SOBRE DROGAS


NO BRASIL

Atualmente a política penal antidrogas brasileira é regida


pela Lei 11.343, que entrou em vigor em 2006, substituindo as
Leis 6.368/76 e 10.409/02, esta última foi revogada, teve seus
artigos vetados em decorrência da redação inadequada (VEJA,
2011).
A Lei 11.343 é ampla, possui 75 artigos, institui o Sistema
Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas (SISNAD);
prescreve medidas para prevenção do uso indevido, atenção
e reinserção social de usuários e dependentes de drogas;
estabelece normas para repressão à produção não autorizada
e ao tráfico de drogas; define crimes e dá outras providências
(BRASIL, 2006).
Infelizmente, há uma lacuna entre a previsão legal
e a prática. A Lei 11.343 estabelece que consumir ou
comercializar drogas é crime. Todavia, prevê punições
distintas para usuário e traficante. Ao primeiro, a lei imputa
três tipos de pena: advertência sobre os efeitos das drogas,
prestação de serviços à comunidade e medida educativa de
comparecimento a programa ou curso educativo; ao segundo,
a lei atribui pena de reclusão e pagamento de multa. Alguns
fatores são considerados pelo juiz para determinar a finalidade
da droga: a natureza e a quantidade da substância apreendida,

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os antecedentes dos envolvidos, entre outros. Sob os olhos da
lei o usuário precisa de tratamento e não de punição. Contudo,
na realidade, a estrutura oferecida pelo Estado de forma a
contemplar a previsão legal é insuficiente.
A realidade da prática policial muitas vezes ultrapassa
o que é atribuição legal e o que é comprometimento com o
cidadão que tem na polícia um ponto de apoio, informação,
esclarecimento, direcionamento ou até seu último recurso
na tentativa de solução para o seu problema. É a inabdicável
função social que o exercício profissional e a própria sociedade
nos confere.
Os conflitos sociais aportam nas delegacias em toda a sua
dimensão desesperadora... todos buscam no único representante
estatal de plantão ao qual têm acesso permanente e fácil, uma
solução imediata e milagrosa para os problemas que os afligem.
Não há recusa por parte da polícia em atender estas demandas
reprimidas, mesmo que para alguns não seja esta a atribuição
a ela conferida pela Constituição. O sofrimento alheio, a dor
da alma, permitem que o ser humano seja desnudado em sua
essência de fragilidade... que não é capaz de compreender que
a polícia não foi estruturada para solucionar o tipo de problema
que o atormenta e à sua família ... Nestas ocasiões os policiais
atuam como psicólogos, conciliadores, médicos, advogados,
religiosos, etc... na intenção suprema de desempenhar um papel
que vai além daquele que o Estado outorgou (CHEGURY,
2010, p.1).
Por vezes não eram problemas policiais, mas o
envolvimento com o uso indevido de drogas agravou os seus
desdobramentos, resultando em delitos tipificados na lei.
Comprovadamente a prática policial nos remete ao
aumento das ocorrências policiais em que temos relacionados

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o tráfico e o uso de drogas, sejam estas lícitas ou ilícitas.
Pesquisas no Brasil demonstram que 80% dos crimes estão
ligados às drogas e a melhor forma do Estado agir não é
somente utilizando políticas repressivas, pois que o uso
indevido de drogas passa a ser um problema do Estado a
partir do momento em que a coletividade, o interesse público
é atingido, no momento em que a droga gera danos à saúde,
desigualdades sociais e violência (LOURIDO JÚNIOR, 2007).
A norma penal reconhece o tráfico como um agente
“catastrófico” que num ciclo vicioso é mantido pelo usuário;
portanto, neste contexto a prevenção ao uso indevido de
drogas figura também como uma forma de enfrentamento do
problema (LOURIDO JÚNIOR, 2007).
Na prática policial, basicamente, o que determina se o
envolvimento do indivíduo com as drogas pode ser definido
como tráfico ou uso é quantidade de droga apreendida; em
seguida outros elementos devem ser considerados: o histórico
pessoal de antecedentes criminais, se o(s) indivíduo(s) era(m)
alvo de investigação prévia, se no local da apreensão foram
identificados instrumentos que possam ser associados ao tráfico
(balança de precisão, embalagens para acondicionamento
da(s) substância(s) psicoativa(s), dinheiro, produtos químicos,
entre outros. A contextualização geral permite ao Delegado
de Polícia adotar os procedimentos adequados a cada caso.
Em se tratando de usuário o procedimento instaurado é um
Termo Circunstanciado (TC), o conduzido é compromissado
para comparecer perante o Juiz da Comarca, em data e horário
pré-agendados, sendo liberado em seguida. Contudo, se for
caracterizado o flagrante de tráfico, é lavrado o Auto de Prisão
(APF) e comunicado ao Poder Judiciário da Comarca onde
ocorreu o delito, sendo que o conduzido permanecerá sob

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custódia do Estado, a disposição do Juiz.

2.4 PREVENÇÃO AO USO DE DROGAS

Num sentido amplo podemos conceituar prevenção


como uma intervenção prévia que deve ser efetuada antes
que determinado fenômeno aconteça (IMESC, 2011). Quanto
à prevenção de forma específica, no que concerne às drogas
é a adoção de uma atitude responsável em relação ao uso
(IMESC, 2011). Portanto, prevenção ao uso indevido de
drogas é uma intervenção cujo objetivo é evitar a instalação
de um uso problemático, considerando-se as circunstâncias
em que ocorra o uso, a finalidade e o tipo de relação que o
indivíduo mantenha com a substância, seja ela lícita ou ilícita
(IMESC, 2011).
Segundo o Relatório Brasileiro sobre Drogas (BRASIL,
2009), entre 2006 e 2007, foram mapeadas em todo o país 9.038
instituições que atuam com atividades relativas à prevenção
ao uso indevido de álcool e outras drogas; ao tratamento,
recuperação e reinserção social; a redução de danos sociais e
a saúde e que desenvolvem ensino e/ou pesquisa relacionada
às drogas. Deste total, 6.367 instituições são de autoajuda e
as outras 2.671 instituições desenvolvem pelo menos uma
das atividades descritas anteriormente; sendo que 646 destas
desenvolvem programas de redução de danos e 93 desenvolvem
atividades de ensino e/ou pesquisa (BRASIL, 2009).
A prevenção ao uso indevido de drogas é um desafio,
“não há um modelo de prevenção que tenha garantia de
sucesso”, pois as drogas na atualidade “são uma incógnita
para sociedade, os especialistas, o governo e a política”

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(BARROS e RAMOS, 1998, p. 41). Esse contexto reforça que
a prevenção deve ser um evento sistemático, pois trabalhada de
forma isolada e dissociada da realidade tende a não produzir
os efeitos esperados, uma vez que restringir a abordagem da
prevenção ao uso indevido de drogas apenas aos tipos e efeitos
advindos do uso é muito limitador.
Deste modo, a prevenção ao uso indevido de drogas
deve ter suas bases de forma a permitir que o indivíduo “pense
e reflita de maneira crítica sobre sua vida, suas escolhas, seus
desejos, suas frustrações e seu futuro” (SODELLI, 2007, p.
2), buscando de forma permanente conhecimentos científicos
e práticas que façam sentido para os envolvidos no processo,
contexto este em que a Polícia Civil pode se valer do apoio da
Inteligência em Segurança Pública e suas áreas de abrangência.
Em se tratando de prevenção algumas iniciativas podem
ser destacadas.
Implantado em 2005 pela Secretaria Nacional Antidrogas
(SENAD), o programa “Viva Voz” (0800 510 0015) é uma
central telefônica, que funciona de segunda à sexta-feira
das 08h às 20h, aberta à população em geral, que fornece
orientações e informações sobre as características das drogas
psicoativas e sua ação no organismo. Também são fornecidas
informações sobre prevenção ao uso e os recursos disponíveis
na comunidade para quem precisa de algum tipo de atenção
com relação às drogas.
Os Alcoólicos Anônimos (AA) e os Narcóticos Anônimos
(NA) são exemplos de iniciativas de grupos de autoajuda que
têm tido sucesso ao longo dos anos. Ambos tiveram origem
nos Estados Unidos. A fundação do primeiro data de 1935, em
Akron, Ohio; no Brasil os registros datam de 1947, na cidade
do Rio de Janeiro. O segundo tem registros a partir de meados

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de 1953, tendo hoje grupos em mais de 130 países, entre eles o
Brasil. Os Alcoólicos Anônimos se autodenominam como uma
irmandade de homens e mulheres que procuram ajuda mútua
em suas vivências para evitar o envolvimento com o álcool
e os Narcóticos Anônimos são uma associação comunitária
de adictos às drogas em recuperação (ALCOÓLICOS
ANÔNIMOS, 2011; NARCÓTICOS ANÔNIMOS, 2011).
O Programa Educacional de Resistência às Drogas
e à Violência (PROERD), ministrado pela Polícia Militar, é
um programa de abrangência nacional, com representação
nos Estados da Federação. O PROERD tem sua origem no
projeto norte-americano D.A.R.E. - Drug Abuse Resistance
Education - (Educação para resistir ao abuso de drogas). O
projeto original foi desenvolvido por um grupo de psicólogos,
policiais e pedagogos do Departamento de Polícia de Los
Angeles (LAPD), em parceria com o Distrito Unificado Escolar
daquela cidade. O resultado foi muito significativo, permitindo
que o programa fosse estendido. Atualmente o D.A.R.E.
é administrado por uma organização não governamental,
sendo desenvolvido em mais de cinquenta países. Em 1992
o programa chegou ao Rio de Janeiro, recebendo adaptações
metodológicas condizentes com a realidade cultural brasileira
e a atual denominação (PROERD). Em Santa Catarina foi
implantado em 1998, para o atendimento de crianças e
adolescentes. Em 2007 o programa foi adaptado para os pais,
promovendo a participação das famílias (SSP, 2011).
Em Santa Catarina, podem ser citados também os
Conselhos Comunitários de Segurança (CONSEGs) que,
orientados sob a perspectiva da Polícia Comunitária, visam
incentivar a participação da comunidade em atividades
relativas à resolução de problemas apontados pela própria

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comunidade, ou seja, a interação instituição policial (policiais
civis e militares) e sociedade civil (SSP, 2013).
Segundo algumas pesquisas, a prevenção é um conceito
relativamente recente, bem como à atuação policial também
voltada para a questão da prevenção ao uso indevido de drogas.
Essa mudança passa pela construção de um novo paradigma
em que o policial é um ator social envolvido, diretamente, nas
cenas de construção da realidade; é um protagonista de direitos
e de cidadania; é um pedagogo; visto que, o policial, antes de
tudo, é também um cidadão (BALESTRERI, 2002).
É uma concepção mais abrangente essa inclusão
do policial também na dimensão de agente educacional,
formador de consciências e opiniões. Porém, essa condição
de legítimo educador é inabdicável e explicitada através de
comportamentos e atitudes (BALESTRERI, 2002).
Considerando-se que a sociedade apresenta novas
demandas, embora a prevenção ao uso indevido de drogas
não seja uma atribuição específica da Polícia Civil, é
imprescindível que a Segurança Pública e as instituições que a
compõem, entre elas a Polícia Civil, desenvolvam competências
para sua atuação frente a essas demandas sociais auxiliadas
pela produção de conhecimento e constante treinamento
preconizados pela Inteligência de Segurança Pública.

2.5 COMPETÊNCIAS E ESTRUTURA DE


FUNCIONAMENTO DAPOLÍCIACIVIL CATARINENSE

A Polícia Civil ou Polícia Judiciária é o órgão auxiliar da


Justiça, responsável pela investigação e apuração das infrações
penais, exceto as militares, indicando, sempre que possível,

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 81-104,
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sua autoria; fornecendo ao Ministério Público os fundamentos
para a propositura da ação penal (BRASIL, 2005). É uma
instituição subordinada ao poder executivo, tendo as suas
atribuições estabelecidas na Constituição Federal e Estadual.
A Constituição Federal, promulgada em 1988, trata
pela primeira vez sobre o tema “segurança pública”. Em
seu artigo 144, estabelece que: “a segurança pública, dever
do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida
para a preservação da ordem pública e da incolumidade das
pessoas e do patrimônio” (BRASIL, 2005), através de cinco
organizações policiais distribuídas nas esferas federal (Polícia
Federal, Polícia Rodoviária Federal e Polícia Ferroviária
Federal) e estadual (Polícia Civil e Polícia Militar).
A Constituição do Estado de Santa Catarina estabelece,
em seus artigos 105 e 106, como competência da Polícia Civil
as funções de polícia judiciária e apuração de infrações penais,
exceto as militares; a execução dos serviços administrativos
de trânsito; a supervisão dos serviços de segurança privada
e a fiscalização de jogos e diversões públicas (SANTA
CATARINA, 1989).
Em Santa Catarina a Secretaria de Segurança Pública
foi criada em 1935. Em 09 de maio de 1964 foi editada a Lei
3.427, que fixou uma nova estrutura para os órgãos policiais.
A Lei 4.265, de 07 de janeiro de 1969, alterou a anterior e
estabeleceu a necessidade de realização de concurso público
para o provimento dos cargos e a implantação de cursos de
aperfeiçoamento e formação profissional. A Lei 8.240, de 13
de abril de 1991, e as Leis Complementares n.ºs 243 e 381, de
30 de janeiro de 2003 e 07 de maio de 2007 respectivamente,
promoveram mudança nas denominações dos órgãos gestores
da Polícia Civil (GENOVEZ, 2004).

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Em Santa Catarina a Polícia Civil está subordinada
à Secretaria de Segurança Pública e conforme a hierarquia
estabelecida o cargo máximo é representado pelo Delegado
Geral da Polícia Civil. Em termos operacionais, a estrutura
divide-se em trinta regiões, representadas pelas Delegacias
Regionais de Polícia, que têm por subordinadas as Delegacias
de Polícia, as Delegacias de Polícia de Comarcas e as
Delegacias de Polícia Municipais.

3 PREVENÇÃO AO USO DE DROGAS SOB O


ENFOQUE DA INTELIGÊNCIA DE SEGURANÇA
PÚBLICA

A Polícia Civil, por atribuição Constitucional, exerce as


suas atividades de forma repressiva, ou seja, após a ocorrência
do fato delituoso. Entretanto, a prática cotidiana constata,
infelizmente, que a interferência penal está sendo utilizada
como resposta a todos os tipos de conflitos e problemas sociais,
convertendo-se em recurso público de gestão de condutas,
deixando de servir como instrumento subsidiário de proteção
de interesses ou bens jurídicos tutelados (RODRIGUES,
2008). com as drogas a situação não é diferente, pois embora
não seja uma atribuição específica da Polícia Civil, cada vez
mais a instituição vê a necessidade de tratar o assunto na esfera
preventiva.
A Inteligência de Segurança Pública pode ser conceituada
como:

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 97


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 81-104,
jul./set. 2014.
“A atividade de ISP é o exercício permanente e sistemático de
ações especializadas para a identificação, acompanhamento
e avaliação de ameaças reais ou potenciais na esfera de
Segurança Pública, basicamente orientadas para produção
e salvaguarda de conhecimentos necessários para subsidiar
os governos federal e estaduais na tomada de decisões, para
o planejamento e a execução de uma política de Segurança
Pública e das ações para prever, prevenir, neutralizar e
reprimir atos criminosos de qualquer natureza ou atentatórios
à ordem pública”. (BRASIL, 2007, p. 11)

Desta forma, podemos afirmar que a atividade de


Inteligência tem sua participação no combate da violência
de forma geral e mais especificamente nos crimes de alta
complexidade como os decorrentes de organizações criminosas
como o tráfico de drogas, pois que o uso/abuso de drogas revela-
se como um fenômeno complexo, resultante da combinação
de inúmeros fatores, entre eles: o indivíduo, a substância e o
contexto social e cultural em que sua utilização e o usuário
estão inseridos (SENAD, 2008), portanto a abordagem
precisa de um instrumento alternativo e complementar aos já
utilizados no enfrentamento do problema, buscando o objetivo
de prevenção e não somente de repressão.
A disponibilidade de uma variedade de ferramentas de
obtenção e tratamento para produção e posterior informação
e conhecimento, associada à produção destes conhecimentos
de Inteligência de Segurança Pública, se consolidam cada
vez mais como alternativas ao trabalho das instituições de
segurança pública no enfrentamento a criminalidade e a
violência, em particular as decorrentes do uso/abuso de drogas,
permitindo que os agentes policiais possam atender os anseios
e expectativas da sociedade em que exercem as suas atividades

98 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 81-104,
jul./set. 2014.
profissionais e que estão inseridos.
A manutenção da ordem pública exige dos órgãos de
Segurança Pública a existência de um sistema de inteligência
organizado, estruturado e de recursos humanos treinados, com
o objetivo de atender as demandas sociais e institucionais,
sendo justamente neste contexto que a Polícia Civil pode e
deve atuar de forma preventiva no combate ao uso de drogas e
suas consequências.

“Métodos de análise de informações proporcionam


mecanismos mais eficazes para a realização de diagnósticos e
prognósticos sobre a criminalidade. A detecção, identificação
e a antecipação de ações delitivas passam a ser um trabalho
constante e permitem uma visão contextual e global da
criminalidade.” (FERRO, 2008, p.27).

Portanto, na atividade policial e em sua gestão, as


informações produzidas nas atividades de Inteligência de
Segurança Pública se revelam como instrumento eficaz de
apoio ao enfrentamento da violência, e aos crescentes índices
de criminalidade, índices estes decorrentes da especialização
das organizações criminosas.
Estas informações contribuem para prevenção ao
proporcionarem um aperfeiçoamento do entendimento e
resolução de ilícitos, permitindo traçar estratégias para o
enfrentamento com o direcionamento de recursos materiais e
humanos de modo a favorecer a compreensão quanto à evolução
dos acontecimentos sociais contrários à ordem pública, como é
o caso do uso, abuso e comércio de substâncias entorpecentes.
O uso da Inteligência de Segurança Pública por suas

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 99


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 81-104,
jul./set. 2014.
características peculiares de produção de conhecimento,
assessoria, verdade com significado, busca de dados protegidos,
ações especializadas, economia de meios, iniciativa, dinâmica,
abrangência e segurança, pode contribuir na prevenção ao
aumento da violência e da criminalidade associada às drogas
no seu contexto mais amplo que ultrapassa os limites do
usuário e extravasa em muitas das mazelas sociais relacionadas
ao tráfico de entorpecentes e em seus reflexos vivenciados na
prática cotidiana da atividade policial.

4 CONCLUSÃO

Embora não seja uma atribuição específica da Polícia


Civil, dado seu caráter repressivo, e nem dos órgãos de
segurança, não há como separar o papel social do policial,
enquanto cidadão e agente público, frente às demandas
sociais, nem a importância da prevenção no seu aspecto de
combate aos desdobramentos advindos do uso e abuso de
drogas. Portanto, utilizar as ferramentas disponíveis através
do uso da Inteligência de Segurança Pública no enfrentamento
da violência e da criminalidade associadas às organizações
criminosas como é o caso do tráfico de drogas, possibilitará
o engajamento dos policiais civis em novos projetos, em
parceria com outras entidades e com as comunidades em que
estão inseridos no seu exercício profissional e pessoal.
A pesquisa permitiu aprofundar a compreensão de que a
prevenção ao uso indevido de drogas é um processo complexo,
que envolve múltiplos fatores e de resultados imprevisíveis,
portanto sua abordagem também precisa ser realizada de
múltiplas formas, sendo que o uso da Inteligência de Segurança

100 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 81-104,
jul./set. 2014.
Pública se torna adequada exatamente por buscar dados e
transformá-los em conhecimento; por possibilitar que este
conhecimento produzido auxilie a polícia em suas atividades
de tal modo que ou expresse as intenções dos envolvidos
no processo ou as prováveis conseqüências dos fatos; por
permitir o acesso, desde que previamente autorizados, a dados
protegidos; por exigir um aperfeiçoamento constante de seus
agentes; por otimizar os recursos; por sua pró-atividade; por sua
adaptação às novas tecnologias; por sua abrangência a qualquer
campo de interesse da Segurança Pública e por garantir sua
própria existência e proteção; estando em total sintonia com a
proposta de modernização da forma de gestão da Polícia Civil
Catarinense que tem investido no aperfeiçoamento de seus
agentes com o objetivo de qualificar os serviços oferecidos
no atendimento as reais necessidades da sociedade em que se
encontra inserida.
Para isso, o nosso olhar enquanto policiais civis deve ser
amplo, despido de preconceitos e pré-conceitos, permitindo um
exercício profissional que contemple o ordenamento jurídico,
a base de nossas ações, e o nosso papel social enquanto
defensores da garantia de princípios de cidadania.
Por fim, podemos acrescentar que como a prevenção tem
justamente a base numa intervenção prévia ao acontecimento
de fenômeno a utilização da Inteligência de Segurança Pública
se mostra eficaz e eficiente neste processo.

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jul./set. 2014.
A PAPILOSCOPIA E SEUS PROFISSIONAIS NA
ESFERA DA INTELIGÊNCIA CRIMINAL

Daniela Paixão1
Cassia Aparecida Fogaça2

RESUMO
O aumento da criminalidade na atualidade, em proporções alarmantes, assim
como a sensação de impunidade em relação ao esclarecimento de crimes,
vem instigando o interesse do Estado e demais órgãos na busca por soluções
em segurança pública. Diante deste desafio este artigo objetiva destacar a
importância da papiloscopia e seus profissionais, retratando sua atuação
atual no Estado de Santa Catarina e sua inclusão no campo da Inteligência
Criminal. A metodologia aplicada consiste em uma pesquisa bibliográfica
utilizando-se de referências impressas e virtuais, contextualizando sua
história, apontando conceitos e métodos de forma a implementá-la na
Inteligência. O presente artigo apresenta o contexto da papiloscopia na
esfera da Inteligência, considerando que esta ciência tem vital importância
na elucidação de crimes apontando sua autoria, auxiliando na punição de
culpados no uso de técnicas e métodos de individualização capazes de
produzir conhecimento de forma prática e segura. Possibilita também um
pronto atendimento no restabelecimento da ordem, paz e segurança pública,
devido às multifacetadas funções desses profissionais, juntamente com um
banco de dados a ser cada vez mais explorado no compartilhamento de
informações de interesse policial. Ao final deste trabalho, no que tange a
ciência papiloscópica, evidencia-se a necessidade de políticas de segurança
pública que invistam no aprimoramento de mecanismos técnico-científicos,
materiais de pesquisa, tecnologia, compartilhamento de informações e
valorização do material humano para uma resposta ainda mais eficiente e

1 Especialista em Inteligência Criminal. Auxiliar Criminalística do


Instituto Geral de Perícias de Chapecó – SC, graduação em Administração
Empresarial pela UNOESC. Email: danielapaixao@igp.sc.gov.br
2 Orientadora. Graduação em Administração (UNC), graduação
Enfermagem (FACVEST), especialização Administração Hospitalar
(FURB), mestrado em Educação (UNIPLAC). Email: cassiaafg@igp.
sc.gov.br

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eficaz na redução da impunidade, no atendimento aos anseios e reclames
da sociedade pela devida apuração da verdade e manutenção da ordem
pública.

Palavras-chave: Papiloscopia, inteligência criminal, segurança pública.

ABSTRACT
The increase in crime today in alarming proportions, as well as the feeling
of impunity in relation to solving crime, is urging the interest of the state
and other agencies in the search for solutions in public safety. Faced with
this challenge this paper aims to highlight the importance of papiloscopy
and its professionals, portraying their current activities at the State of
Santa Catarina and its inclusion in the field of Criminal Intelligence. The
methodology applied consists of a literature search using the printed and
virtual references, contextualizing your history, pointing concepts and
methods in order to implement it in Intelligence. This article presents
the context of papiloscopy in the sphere of intelligence, considering that
this science has vital importance in elucidating crimes pointing his own,
helping in the punishing guilty in the use of techniques and methods of
individualization able to produce knowledge in a practical and safe. Also
provides an emergency service in restoring order, peace and public safety,
due to multifaceted roles of these professionals, along with a database
being increasingly explored in sharing information of interest police.
At the end of this paper, regarding science papiloscópica, highlights the
need for public safety policies that invest in the improvement of technical
scientific mechanisms, research materials, technology, sharing information
and enhancement of human material for a further response efficient and
effective in reducing impunity in meeting the expectations of society and
reclames by proper truth-telling and maintenance public order.

Keywords: Papiloscopy, criminal intelligence, public safety.

1 INTRODUÇÃO

Atualmente, mesmo que os princípios de um Estado

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Democrático de Direitos sejam no oferecimento de garantias
de direitos humanos, justiça social, garantias fundamentais e
de segurança, vivemos com a sensação de medo e impunidade,
devido ao crescimento desenfreado da criminalidade no
Brasil e da fragilidade do sistema no trato com a violência.
Isso repercute num sentimento de descrença nas instituições
encarregadas de aplicar a lei, a ordem e a proteção aos direitos
civis da população, fazendo com que a sociedade clame
por uma ação mais enérgica do governo e das instituições
responsáveis, principalmente no que tange a impunidade e
reforço em medidas de segurança.
Perante a problemática entre crime e punição, a
segurança pública juntamente com a inteligência criminal
deve canalizar suas forças inibindo o avanço da criminalidade
e da impunidade no Brasil, utilizando-se da informação e
integração de seus organismos de segurança, principalmente
no compartilhamento de informações para que antecipem,
evitem ou senão, que tragam uma pronta resposta às ações dos
criminosos.
Podemos dizer, pelo exposto no decorrer deste artigo,
que a ciência da papiloscopia, com um sistema de banco de
dados de impressão digital de criminosos, com capacidade
em auxiliar na legitimação de cada pessoa e também auferir-
lhes um registro certificando sua unicidade, com simplicidade,
exatidão e baixo custo, é considerada uma ferramenta de suma
importância na questão da segurança e cidadania, agilizando
os processos de apuração de ilícitos penais intrínsecos a
impunidade e realizando trabalhos em prol da segurança
pública.
A multifacetada atuação desses profissionais em Santa
Catarina e sua colaboração com a sociedade, utilizando-

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se de seu trabalho técnico-científico e suas atribuições
na solução de crimes, torna relevante o objetivo deste
trabalho em salientar a importância da papiloscopia e seus
profissionais contextualizados na Inteligência, sendo através
da compreensão de seus objetivos, conceitos e técnicas, assim
como do conhecimento da sua atual atuação no Estado.
Esta pesquisa teve como metodologia a pesquisa
bibliográfica e demonstra a importância e complexidade do
trabalho da papiloscopia e seus profissionais e sua inserção
na Inteligência, no uso de ferramentas decisivas em prol da
sociedade para a manutenção do Estado de Direito Pleno num
Regime Democrático da sociedade organizada.

2 CRIMINALIDADE E IMPUNIDADE EM SANTA


CATARINA

A despeito de crime, como afirma Eleutério (2006, p. 5):


“Acredito que o atual conceito adotado pela doutrina prevalente
não perdurará por muito tempo. ‘Logo, o crime como ação ou
omissão, típica, antijurídica e culpável’, passará por algumas
modificações e “reformas”, aliás, como tudo em nossas vidas”.
Para Silva (2008), a existência de indicadores torna-
se necessária, principalmente para a segurança pública, pois
servem para situar a realidade social, com a produção de
informação para planejamentos táticos e estratégicos nos
órgãos da administração pública.
Conforme a Diretoria de Informação e Inteligência –
Núcleo de Geoprocessamento e Estatística de Santa Catarina,
os principais indicadores criminais no 1º semestre de 2012
foram os crimes de homicídios, roubos, furtos, crimes em

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caixas eletrônicos e tráfico de drogas. Citamos os dados de
homicídios por considerá-los como o principal indicador de
criminalidade: apresentou a taxa de 5,78 homicídios em 100
mil habitantes numa população de Santa Catarina de 6.248.436
no total (dados do IBGE 2010) e onde apenas 45,43% desses
homicídios no 1º semestre de 2012 obtiveram confirmação de
autoria com 76,22% sob a forma de apuração na investigação
policial.
São diversos os fatores que contribuem para o avanço
da criminalidade. Conforme Garrido (2007), causas delituosas
não são julgadas em si, mas através de todo um contexto
envolvendo mundo material e social e a economia é parte
representativa dos fenômenos criminais, com seus desajustes
nas políticas salariais, desemprego, crises empresariais e
industriais, aumento da inflação, baixo poder aquisitivo
populacional e acúmulo de riquezas no poder de poucos.
Com base em Adorno e Pasinato (2010), a evolução dos
crimes contra o patrimônio e contra a pessoa traz consigo uma
crise de legitimidade e descrenças nas instituições responsáveis
pela aplicabilidade das leis e da ordem. Estimulados pelo
sentimento coletivo de insegurança diante da fragilidade da
proteção aos direitos fundamentais e principalmente pela
impunidade, a sociedade busca proteção por conta própria,
instigando ainda mais a violência. No que tange o tema da
confiança social, existe um fluxo no sistema de justiça criminal,
que estabelece procedimentos desde o registro da ocorrência
policial até a sentença judicial, em que a investigação policial
é tarefa primordial na responsabilização penal de autorias
criminais. Mas que na prática apenas alguns crimes que chegam
ao conhecimento da autoridade policial não são investigados
por serem considerados irrelevantes como, por exemplo, o

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ato consumado ou tentado, onde não possuem cenários muito
determinados, tais como natureza da autoria ou flagrante, não
fornecendo estímulos para a investigação, tornando esse e
demais fatores colaboradores da impunidade no Brasil.
Dahrendorf (1985 apud ADORNO, 1998), expõe que
os conflitos da lei e da ordem, elencados na incapacidade do
Estado em oferecer segurança aos cidadãos, são apoiados
nas tendências ao aumento da criminalidade e nas taxas que
sugerem diminuição da capacidade punitiva do Estado, em que
o crescimento das “cifras negras”, ou seja, do crime oculto,
são advindos da ineficácia de um sistema punitivo, ora por
desistência das punições, ora por menor severidade das penas
ou pela fragilidade em se lidar com os atos delituosos.
Para Tordoro (2013) a apuração dos ilícitos penais,
realizada por alguns órgãos de segurança pública, de acordo
com o ordenamento jurídico, é primordial à persecução
criminal, tendo como finalidade da investigação apontar
o titular da infração, trazendo consigo os elementos de
informação para a condução da ação penal e colaborando com
o enfraquecimento da impunidade. Segundo Tordoro (2013, p.
3): “Apurar infrações penais é atividade que preserva a ordem
pública”.
Para Silva Filho (1998), a diminuição da impunidade
torna-se um meio de prevenção e depende de um conjunto de
fatores e problemáticas a serem considerados. Os criminosos
costumam intimidar-se com a certeza da punição mais do que
com a intensidade das penas. Devido a estes e outros fatores de
ordem criminal, a certeza de impunidade deve estar claramente
definida para todos os infratores, principalmente no que se
refere ao “como” conduzir um infrator à condenação.

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3 PAPILOSCOPIA: CONCEITOS E OBJETIVO,
DIVISÃO, PRINCIPAIS FUNDAMENTOS,
ELEMENTOS TÉCNICOS E CONTEXTO HISTÓRICO
DA IDENTIFICAÇÃO

Figini et al. (2003), conceitua papiloscopia como


sendo a ciência que estuda as papilas dérmicas (saliências
que formam desenhos situados na parte superficial da derme
e onde seus relevos são visíveis na epiderme e seu objetivo
visa à identificação humana através das impressões digitais
palmares e plantares.
A Papiloscopia divide-se em três métodos: o primeiro é a
Datiloscopia – método de identificação através de impressões
digitais; o segundo, a Quiroscopia – identificação através das
impressões palmares e o terceiro método seria a Podoscopia –
identificação através das impressões plantares. Seus princípios
fundamentais são: o princípio da perenidade, em que os
desenhos formados nas extremidades dos dedos são perenes
e iniciam-se no sexto mês de vida intrauterina; o princípio da
imutabilidade, em que os desenhos das palmares, dos plantares
e extremidades dos dedos não apresentam modificações; e o
princípio da variabilidade em que os desenhos diferem de
indivíduo para indivíduo, pois até mesmo os dedos possuem
desenhos diferentes.
Nos elementos técnicos, segundo Mazi e Dal Pino
Júnior (2009), é através da derme onde localizamos glândulas
sudoríparas e sebáceas na função de drenagem do suor e
eliminação de substâncias gordurosas que umedecem a pele,
que podemos visualizar as impressões digitais nos objetos,
devido também a variações das cristas chamadas minúcias
(pontos característicos que individualizam o ser humano) que

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podem ser descontínuas, interrompidas ou bifurcadas etc.
Além das minúcias podemos citar mais dois tipos: o
núcleo (parte central das cristas) e o delta que possui maior
abrangência entre as cristas, podem ser encontrados em
diferentes tamanhos e quantidades. E ainda na classificação
das impressões digitais, encontramos quatro tipos, que
variam conforme a quantidade e as posições dos deltas, e
que de acordo com Rabello (1996), o sistema datiloscópico é
decadatilar, ou seja, a pessoa é identificada pelo conjunto das
impressões, datilogramas ou símbolos que se classificam em
arco (não apresenta delta); presilha interna (apresenta um delta
à direita do observador); presilha externa (inverso da interna)
e verticilo (apresenta dois deltas), sendo delta um pequenino
acidente morfológico semelhante à letra grega deste nome.
E os datilogramas que não se enquadram nos citados acima
são considerados anômalos ou acidentais em que as marcas
permanentes como as cicatrizes, esmagaduras, queimaduras
prejudicam a classificação dos datilogramas.
No histórico da identificação, assim como dizem Araújo
e Pasquali (2013), foram testados vários métodos no processo
da identificação para fins civis com processos empíricos:
Nome – utilizado para fixar a identidade jurídica, mas não
obteve tanto sucesso devido a facilidade de adulteração ou
várias pessoas com mesmo nome; Ferrete – com a utilização
de ferro aquecido para marcar os criminosos, com intuito
de, além de identificação, também de punição; Mutilação –
a identificação consistia na amputação de membros ou parte
do corpo, dependendo do crime e das leis adotadas pelo país;
Tatuagem – usava-se a tatuagem em algumas partes do corpo
na identificação humana, não obtendo êxito devido a sua
aplicação dolorosa; Fotografia – é o registro da imagem de uma

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pessoa através de fotografia, era utilizada junto ao histórico de
criminosos, mas não se mostrou eficiente pela possibilidade de
alteração de características físicas.
Nos processos científicos de identificação podemos
citar, conforme Silva (2013), o Antropométrico, em que
o francês Alphonse Bertillon, na busca pela precisão e
diminuição de erros na identificação, baseado em uma visão
matemática, fez uso de dimensões do corpo humano, criando a
antropometria e também o retrato falado, ou seja, a descrição
física do indivíduo. A partir de 1894 também cria o arquivo de
impressões digitais em conjunto com o seu sistema. Mas devido
as buscas serem prejudicadas pelo crescimento de arquivos,
inclusive o datiloscópio, surge o sistema papiloscópico. Para
Araújo e Pasquali (2013), seus pioneiros seriam Henry Faulds
e William Herchel, com Henry utilizando impressões em
contratos, servindo como assinaturas, em 1858, na Índia. Em
1880 começou a observar impressões em cerâmicas japonesas
e com vários experimentos detectou a importância desses
desenhos na identificação humana. Já Sir Herchel passou
a pesquisar sobre o assunto e em 1890, concluiu , com sua
própria impressão palmar, que a formação de estrias da pele
seria a mesma durante toda a vida da pessoa. E ainda em 1880,
um antropólogo inglês chamado Francis Galton sustentou
as afirmações de Herchel sobre a perenidade das impressões
gerando um sistema de classificação de pontos característicos
chamados por ele de minutae.
Silva (2013) refere que, em 1884, um argentino chamado
Juan Vucetich, após conhecer o trabalho de Galton, criou seu
próprio sistema de arquivamento de impressões, chamado
dactiloscopia, que é o método de identificação por meio do
estudo das cristas papilares da ponta dos dedos, chegando

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 113


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a identificar a autoria de um crime em 1892. Seu método
ficou bastante conhecido, implementando os arquivos de
identificação de todo o mundo sendo que até hoje as impressões
digitais são consideradas o método mais prático e seguro para
a identificação pessoal, civil e criminal.

3.1 PAPILOSCOPIA E SEUS PROFISSIONAIS EM


SANTA CATARINA

Conforme Porto (2009), em 2007, a Lei Complementar


nº 374/07, de 30 de janeiro de 2007, estabeleceu o quadro
dos servidores do Instituto Geral de Perícias (IGP), sendo
alterada pela Lei 15.156, de 11 de maio de 2010, art. 12, em
que transforma a carreira dos Técnicos Criminalísticos em
Papiloscopistas, para os que optaram em ser servidores do
Instituto Geral de Perícias (IGP)3, ao invés de permanecerem na
Polícia Civil de onde ingressaram através de concurso público
de curso superior em faculdade reconhecida pelo Ministério da
Educação como habilitação profissional, assim também como
a conclusão de um curso de formação profissional de 360 horas
aula. As atribuições consistem em atividades de natureza técnica

3 Hoje em Santa Catarina, através de dados coletados nos Recursos


Humanos do IGP, estão atuantes 49 papiloscopistas, sendo que a maioria
opera no Instituto de Identificação (II), na confecção de Carteiras de
Identidade, também no Instituto de Criminalística (IC) em Local de crime,
no Instituto de Análises Forenses (IAF) nos laboratórios, no Instituto de
Medicina Legal (IML) com a necropapiloscopia e alguns estão nos setores
administrativos. Sendo que na capital existe uma melhor divisão dos
trabalhos do que no interior onde os papiloscopistas geralmente executam
todas as atribuições.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 105-130,
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científica na execução de exames papiloscópicos, na execução
de identificação Civil e Criminal nos setores correspondentes,
ou seja, fazendo trabalhos de Necropapiloscopia, local de
crime, identificação Civil e Criminal e Retrato Falado.
Sobre o Laudo Papiloscópico, com base em Tochetto e
Espindula (2009), constitui prova material inquestionável e
refutável, fundamentando a decisão judicial. Em sua estrutura
ele deve ser objetivo, indicando quais os fragmentos que
foram detectados ou não e no confronto devem ser colocados
na conclusão o número de fragmentos examinados e o número
de pontos característicos, valendo-se os papiloscopistas de
critérios de inclusão e exclusão do indivíduo.
Os papiloscopistas ainda não são reconhecidos
legalmente como peritos oficiais, conforme a Lei nº 11.690 de
2008, cap. II, art. 159 (Do exame do corpo de delito, e das
perícias em geral), em que afirma que o exame de corpo de
delito e outras perícias serão feitas por perito oficial, porém
não deixando claro quem incorpora a perícia oficial. Por esse
motivo a Lei 12.030/09 de 17 de setembro de 2009 foi editada,
integrando os peritos médico-legistas e odonto-legistas, porém
não incluindo os papiloscopistas. A categoria ainda está em
luta pela sua valorização e atualmente foi apresentado um
Projeto Lei nº 5.649/09 que está em tramitação Federal.

3.2 PAPILOSCOPIA EM LOCAL DE CRIME

Para Tochetto e Espindula (2009), a perícia de impressões


papilares em local de crime é o exame pericial na coleta de
impressões deixadas no local para o esclarecimento de um
crime em busca de sua autoria e está associada à dinâmica dos

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 105-130,
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fatos, permitindo que o perito criminal de local de crime decida
pela melhor aplicabilidade das técnicas de coleta, da seleção
dos materiais a serem examinados, se será realizada no local
ou se irão para o laboratório, assim como também a escolha
do profissional mais adequado para realização do exame.
Passada essa etapa, iniciam-se os exames que consistem em
pesquisar, revelar ou moldar as impressões papilares que
foram encontradas em superfícies ou objetos, além disso, é
preciso perpetuar o local de crime, fotografando os fragmentos
e materiais encontrados.
São vários os tipos de locais: homicídios, acidentes,
mortes, suicídios ou tentativas etc., e tudo isso será avaliado
devido às características e particularidades de cada caso na
utilização de técnicas, métodos e alguns materiais específicos
como pós-reveladores ou reagentes como Cianoacrilato,
Iodo e Ninidrina além da imersão em soluções de trabalho e
enxágues, dependendo das particularidades das superfícies a
serem analisadas.

3.3 PAPILOSCOPIA E IDENTIFICAÇÃO CIVIL E


CRIMINAL

Conceituamos identidade e identificação onde existe uma


inter-relação entre ambas, conforme conceitua Rabello (1996,
p. 20): “Identidade, no latim identitas, identitatis, de idem (o
mesmo), é por definição, a propriedade de cada ser, concreto
ou abstrato, animado ou inanimado, ser ele próprio e não ser
outro”, ou seja, a individualização de cada ser ou coisa que lhe
atribuem características próprias. E a Identificação, segundo o
autor, denomina-se o ato ou um conjunto de métodos, técnicas

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específicas para se chegar à verificação, fundamentação e para
evidenciar as propriedades exclusivas de um indivíduo.
A identificação pode ser imediata, direta quando a
identificação do indivíduo é feita através da constatação de
características verificadoras do próprio indivíduo, ou mediata,
indireta quando são feitas de modo indireto, comparando,
com o uso de técnicas, os vestígios de materiais detectados
relacionados com a ação delituosa, com outros vestígios de
pessoas já identificadas. E podem ser reais, quando os vestígios
são próprios à pessoa do identificado ou presumida, onde os
vestígios são de coisas ligadas à pessoa do identificado.
Segundo Pereira (2013) existe também uma inter-relação
entre Identificação Civil e Identificação Criminal, ambas
possuem a mesma base científica e a mesma importância na
“atividade fim”, ou seja, as duas se destinam na atividade
pericial dos papiloscopistas em identificar de forma segura seus
cidadãos e criminosos. O Estado objetiva com a Identificação
Civil obter um banco de dados com informações pertinentes
sobre as características dos cidadãos, como garantia de
segurança nas relações entre as pessoas e com o próprio Estado.
Já na Identificação Criminal o Estado, através de um banco
de dados ágil e seguro da identidade dos criminosos, objetiva
trazer segurança à população e a exigência dessa inter-relação
entre os sistemas de identificação dá-se devido o Estado e os
cidadãos terem uma relação de direitos e obrigações, pois
todos adquirimos direitos e obrigações para com o outro e para
com o próprio Estado.
Portanto os três objetivos dos serviços periciais na
identificação, tanto civil quanto criminal, estão em: 1)
Individualizar, ou seja, identificar a autoria dos crimes e
individualizar uma pessoa nas suas relações civis; 2) Assegurar

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direitos, isto é, dar garantias de que apenas o infrator pague
pelos seus crimes e que na área civil apenas a pessoa contraente
dos direitos e obrigações seja penalizada pelos seus atos; 3)
Identificar, com a revelação da identidade para segurança dos
cidadãos.
A implantação do sistema Automático de Impressões
Digitais (AFIS) une a papiloscopia à informática, agilizando
os processos de identificação na comparação de uma impressão
digital com as disponibilizadas em um banco de dados do sistema.
Ao invés da busca em arquivos físicos (fichas datiloscópicas),
a busca é feita com Escaneamento das digitais questionadas e
que, tendo como base Araújo (2000), a identificação criminal
tem utilizado a papiloscopia, principalmente a datiloscopia, na
identificação do ser humano, para o alcance de seus objetivos,
pela sua praticidade e vantagens como o descobrimento do
infrator através das impressões papilares deixadas no local do
crime.
Unindo-se a papiloscopia à informática no processo
de identificação humana, potencializou e trouxe vantagens à
identificação e até mesmo para a agilidade das investigações,
pois suas funções se baseiam em pesquisar o registro de pessoas
presas, além da habilidade do sistema na busca por impressões
similares às coletadas em local de delito, contribuindo na
elucidação de crimes.
Segundo Maejima e Bachinski (2013), com a implantação
de um cadastro Nacional de identificação datiloscópica
poderíamos obter os seguintes resultados: nenhum indivíduo
procurado pela polícia obteria nova identidade; evitaria a
bigamia; no sequestro de bebês teriam condições de identificá-
los mesmo após décadas; na hipótese de pessoas desaparecidas;
os fugitivos de penitenciárias não poderiam requerer novas

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certidões de nascimento; no extravio de documentos as pessoas
não teriam receio de serem usados por marginais através
da conferência das digitais; a Justiça teria como controlar o
paradeiro dos criminosos em nível de Brasil; se evitaria o
golpe do seguro em que são usados cadáveres de terceiros para
receber indenizações; se evitaria a prática do delito de registro
de nascimento de pessoa inexistente; barraria a abertura das
chamadas contas bancárias fantasmas; evitaria o crime de
abandono intelectual em que crianças são obrigadas a estudar
através de seus cadastros; obstaria a fraude de adulteração de
idade; inibiria as fraudes contra a previdência social com a
adulteração da idade; e possibilitaria a criação de um cadastro
nacional de antecedentes criminais e central nacional de
mandados de prisão.

3.4 PAPILOSCOPIA E RETRATO FALADO

Devido ao crescente aumento da criminalidade, novos


métodos foram criados, como o desenho, também encontrando
dificuldades em transformar informações subjetivas em
objetivas com uma eficiente base científica.
O retrato falado, que é um método utilizado na reprodução
da face humana com características da pessoa procurada com
a ajuda de informações da vítima, tem sido uma ferramenta
muito utilizada pelos papiloscopistas nas causas policiais e,
de acordo com Reis (2003), anteriormente aos anos 70 essa
ferramenta era pouco conhecida na identificação de criminosos
e era utilizada uma ficha antropométrica onde eram registradas
as características físicas no processo de identificação. São
encontradas várias dificuldades em relação ás informações e

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ao quadro de pessoal não capacitado na obtenção das mesmas e
além da realização dos métodos na confecção do retrato falado.
Para isso é de suma importância a entrevista e que o profissional
tenha um bom conhecimento em anatomia humana na variação
de traços, expressões faciais, exteriorização de personalidade
e expressões psicológicas além de saber expressar isso no
desenho e ter um bom conhecimento do uso do método. E
tratando-se do retrato falado como meio de prova, quando
inserido no conjunto com outras evidências auxilia na cadeia
de prova, sendo aceito no meio jurídico.

3.5 PAPILOSCOPIA E NECROPAPILOSCOPIA

Assim como diz Figini et al. (2003), a necropapiloscopia


é quando não é possível a identificação visual de um cadáver,
tornando-se necessário a identificação datiloscópica. Pode
ocorrer em tais circunstâncias: cadáver em estado de
decomposição podendo ser vítima de acidente, de soterramento,
de incêndio; cadáver mumificado: através de exposição a
produtos químicos ao frio extremo ou a umidade baixa na
qual ocorre dessecamento acentuado do corpo; e cadáver
saponificado: quando há uma transformação gordurosa e
calcária do cadáver dependendo do meio em que se encontra
e das condições intrínsecas do cadáver. A Necropapiloscopia
também possui um relevante trabalho perante a sociedade,
um exemplo disso, como expõe Nascimento (2011), são os
acidentes em massa, como aéreos, de trânsito e incêndios, onde
a necropapiloscopia possui vantagens com relação a outros
métodos na identificação post morten, pelo seu custo e rapidez.
Em Santa Catarina, esse trabalho é realizado no Instituto

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Médico Legal (IML), mas nem todos os papiloscopistas de
SC realizam esse trabalho, dependendo da disponibilidade de
profissionais. No interior geralmente existe uma acumulação
de funções e já em cidades maiores o trabalho é mais específico.

4 A IMPORTÂNCIA DA PERÍCIA PAPILOSCÓPICA


NO INQUÉRITO POLICIAL E SEU CONTEXTO NA
INTELIGÊNCIA CRIMINAL

De acordo com Nascimento (2011), para enfatizar a


materialidade do delito, o inquérito policial pode apresentar
alguns tipos de perícias, como a papiloscópica que em local de
crime, por exemplo, consiste no levantamento das impressões
papilares para confrontação com as dos suspeitos de autoria
e, através da confecção do laudo papiloscópico, trarão
embasamento à investigação criminal e ao inquérito policial
que, com a prova técnica-científica em um processo criminal,
o Juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova.
Rabello (1996, p. 12) sobre Criminalística: [...] ela pode
ser definida, quer sob o ponto de vista da sua aplicação prática
imediata aos misteres específicos da investigação criminal,
quer doutrinariamente, como uma disciplina técnico-científica
por natureza e jurídico penal por destinação, a qual concorre
para a elucidação e a prova das infrações penais e da identidade
dos autores respectivos, através da pesquisa, do adequado
exame e da interpretação correta dos vestígios materiais dessas
infrações.
Para Araújo (2010), a perícia criminal tem aplicação
nos trabalhos da inteligência, atuando em sinergia com a
investigação, pois a estratégia do que procurar e necessitando

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de conhecimentos técnico-científicos aliados à tecnologias
auxiliando nos processos investigativos como ferramenta de
inteligência.
Sobre a ligação que existe entre Inteligência Policial e
Investigação Criminal, conforme Ferro Júnior (2010), pode-se
considerar que as duas possuem o mesmo nível informacional,
pois através das evidências com sua conjuntura de fontes diversas
como base de dados, entrevistas, relatórios, reconhecimento
fotográfico, sistemas informacionais, que a informação ganha
significado e as Organizações policiais investigativas criam
suas estratégias a partir da gestão das informações na produção
de conhecimento com maior agilidade, sendo assessoradas
pela Inteligência da Organização.
Conforme Gomes (2013), no art. 1º, inciso 2º da Lei nº
9.883/1999, conceitua-se inteligência como a atividade cujo
objetivo é obter, analisar e disseminar conhecimento sobre
fatos ou situações que possuam influência nos processos
decisórios e às ações do governo e na segurança da sociedade
e do Estado. Existe uma diferença entre Inteligência de Estado
e atividade de Inteligência: a de Estado assessora o Governo
no processo decisório, e a segunda, baseia-se na produção de
provas e de autoria criminal e na produção de conhecimento
nas ações e estratégias da polícia judiciária.
Para Gonçalves (2011), as atividades de inteligência
são primordiais no desenvolvimento do Estado Democrático
de Direito, que precisa saber lidar com uma imensa gama
de informações, utilizando métodos, técnicas e ferramentas
para o gerenciamento das mesmas no estabelecimento de
suas políticas e estratégias institucionais, assessorando o
conhecimento adquirido no processo de tomada de decisões.
Para o autor existem vários tipos de Inteligência:

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Inteligência de Estado ou Clássica, que contribui para o
processo decisório, como por exemplo, o Sistema Brasileiro
de Inteligência (SISBIN), o qual assessora o presidente da
república (art. 1º da Lei nº 9.883/1999) e possui a Agência
Brasileira de Inteligência (ABIN) como órgão central que
coordena e dirige a atividade; Estratégica que contribui para
o processo de tomada de decisões nas instituições; a Tática
de natureza executiva auxiliando na produção de provas para
a investigação como também no combate às organizações
criminosas.
Em Santa Catarina, no que tange a Inteligência,
conforme o site da Secretaria de Estado da Segurança Pública
citamos a Diretoria de Informação e Inteligência (DINI) com
integrantes da polícia militar, civil entre outros Núcleos,
na execução de atividades de coleta de informações para
produção de conhecimento e também atividades de análise
criminal, estatística, geoprocessamento e operações de
inteligência e contrainteligência com objetivo de antever ações
na esfera criminal e estratégica no fornecimento de assertivas
nas tomadas de decisão nas políticas de Segurança Pública e
também auxiliando na elucidação de crimes.

5 METODOLOGIA

Para Dmitruk (2001, p. 64), “Pesquisar é sistematizar


o pensamento, articulando as contribuições historicamente
produzidas às circunstâncias concretas situadas no tempo e no
espaço”.
A metodologia utilizada neste trabalho trata-se de um
levantamento bibliográfico acerca da temática escolhida

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para chegarmos ao objetivo final. Foi realizada uma pesquisa
através de livros de Criminalística e Identificação humana,
artigos, teses, revistas, pesquisas de dados coletados por meio
da Diretoria de Informação e Inteligência, também por meios
de comunicação do mundo atual, enfim meios impressos e
virtuais, sobre a papiloscopia, seus profissionais e Inteligência
Criminal. Trazendo como principal resultado face ao exposto,
que não restam dúvidas da relevância dessa ciência técnica-
científica e seus profissionais na persecução penal, frente à
criminalidade, em busca da verdade real e formal.
É neste sentido que a papiloscopia na esfera da
Inteligência deve ser percebida, não tão somente como um
meio de prova, mas como um mecanismo hábil, indispensável
à justiça e uma questão de segurança e cidadania.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

No decorrer deste trabalho, constata-se que é


imprescindível a contribuição da papiloscopia e seus
profissionais à sociedade, tratando-se de uma questão de
segurança e cidadania, tendo em vista a importância dos
laudos periciais papiloscópicos e necropapiloscópicos,
constituindo prova incontestável e irrefutável, auxiliando as
partes investigativas e servindo para a formação da convicção
da autoridade judicial. Além disso, alguns papiloscopistas com
sua ciência técnico-científica são responsáveis pela elaboração
da representação facial humana e também muitos são dirigentes
dos institutos de identificação no fornecimento de RG (Carteiras
de Identidades), que futuramente, com a implantação de um
sistema Nacional de Registros de Identidade, a papiloscopia

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terá um recurso ainda mais eficiente na prevenção de crimes,
ampliando a atuação desses profissionais.
Essa multifacetada função dos papiloscopistas, a
demanda cada vez mais acirrada por novas técnicas, métodos,
ciências, detentores de conhecimentos científicos, assim como
também o avanço da criminalidade e de índices significativos
de impunidade, como a fragilidade no sistema nas confirmações
de autoria de crimes e principalmente pela papiloscopia ser um
dos métodos mais simples, de baixo custo e eficaz na apuração
de ilícitos penais, torna essa ciência e esses profissionais
indispensáveis no que tange as relações de segurança e
inteligência criminal e seu bom funcionamento. Para que isto
ocorra há necessidade de uma política governamental voltada
para a maximização de seus mecanismos e órgãos de segurança
pública, no aprimoramento e ampliação dos seus quadros
policiais, intercomunicação entre as instituições de segurança,
sistema integrado de formação e valorização profissional,
modernização dos sistemas informatizados e principalmente
uma aproximação imediata dos integrantes dos órgãos de
segurança pública com centros de Inteligência, enfim, uma
infraestrutura mínima para um processo de estruturação das
políticas de segurança pública e na valorização do ser humano
sobre todos os aspectos.

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jul./set. 2014.
A IMPORTÂNCIA DO USO DA ATIVIDADE DE
INTELIGÊNCIA NO MONITORAMENTO DAS AÇÕES
DE ORGANIZAÇÕES CRIMINAIS

Gabriela Falck Bortolini1


Marcos Erico Hoffmann2

RESUMO
Este artigo discorre sobre a atividade de inteligência, utilizada hoje tanto
no setor privado, como forma de tornar as empresas mais competitivas,
quanto no setor público. Neste último, foi empregada inicialmente na área
militar, expandindo-se posteriormente a outras esferas governamentais.
Tal atividade é de especial importância na área criminal, sobretudo com o
recente crescimento das organizações criminais que atuam dentro e fora de
prisões. A finalidade desta pesquisa é justamente demonstrar a importância
da atividade de inteligência no monitoramento destas organizações, o que
pode permitir ao Estado estar sempre um passo à frente de suas ações. O
presente estudo utiliza o método dedutivo, valendo-se de pesquisa realizada
em livros, revistas científicas, periódicos e textos coletados na Internet.

Palavras-chave: Inteligência. Inteligência Criminal. Organizações


Criminais. Sistema Prisional.

ABSTRACT
This article discusses the intelligence activity, now used in the private
sector as a way to make businesses more competitive, as the public sector.
In this last, was initially used in military sector, expanding later to other

1 1° Tenente da Polícia Militar do Estado de Santa Catarina. Bacharel em


Direito. Pós Graduada em Direito Penal e Processual Penal pela UNIVALI
e em Inteligência Criminal pela UNIDAVI. Email: gabibortolini@yahoo.
com.
2 Psicólogo Policial Civil. Mestre em Administração Pública e Doutor em
Psicologia pela UFSC. Docente de graduação e pós-graduação. Email:
marcoserico@yahoo.com.br.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 131-151,
jul./set. 2014.
spheres of government. This activity has particular importance in the
criminal area, especially with the recent growth of criminal organizations
that operate inside and outside of prisons. The purpose of this research
is precisely to show the importance of intelligence activity in monitoring
these organizations, which may allow the state to always be one step ahead
of their actions. This study uses the deductive method, relying on a survey
of books, journals, periodicals and texts collected from the internet.

Keywords: Intelligence. Criminal Intelligence. Criminal Organizations.


Prision System.

1 INTRODUÇÃO

Há não muito tempo atrás o Estado dispunha de


poucos recursos para levantar informações necessárias à
tomada de decisões. Este processo levava muito tempo, por
vezes semanas, meses ou, até mesmo, anos. Ainda assim,
as informações frequentemente não eram confiáveis ou já
chegavam ultrapassadas nas mãos do tomador de decisões.
Nesta segunda década do Século XXI, com a frenética
evolução da tecnologia e a velocidade com que se obtém a
informação, este cenário foi totalmente modificado. Hoje pode
ser muito mais simples para que o gestor escolha o caminho
mais apropriado, pois ele pode basear-se em informações e
dados trazidos pelo seu staff, quase que instantaneamente.
Os países desenvolvidos já perceberam a importância
de investir na atividade de inteligência e contrainteligência
como forma de prever cenários, além de detectar e neutralizar
possíveis ameaças, estando preparados para as mais variadas
adversidades. No Brasil, o investimento neste setor por parte
do Estado é relativamente recente, tendo em vista a criação do
Sistema Brasileiro de Inteligência no final da década de 1990.

132 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 131-151,
jul./set. 2014.
Aos poucos a importância da atividade vem sendo
reconhecida, porém, questiona-se se tal crescimento e
valorização ocorrem na proporção necessária para acompanhar
a demanda de crises que o país vem enfrentando, especialmente
na área da segurança pública.
O presente trabalho tem como objetivo discorrer sobre a
atividade de inteligência, especialmente na área de segurança
pública, explicando o que é e para que serve. Objetiva ainda
apresentar um breve retrato sobre as organizações criminais
que atuam dentro e fora das unidades prisionais, organizações
essas que, entre 2012 e 2013, perpetraram diversos ataques
contra as forças de segurança pública e contra cidadãos nos
Estados de São Paulo e de Santa Catarina.
Ao final, pretende-se demonstrar a importância do uso
da atividade de inteligência no monitoramento das referidas
organizações e suas práticas, a fim de que situações como as
que foram vistas nos referidos estados não voltem a provocar
intranquilidade na população.

2 A ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA

Quando se fala em atividade de inteligência, logo surge


a ideia de polícia, de “arapongas”, grampos telefônicos e
espionagem. A tendência é que se associe esses conceitos às
atividades do Estado na investigação dos cidadãos. Porém, não
é somente o ente estatal que faz uso do produto desta atividade.
O mundo globalizado trouxe profundas mudanças
impulsionadas pelas novas tecnologias, pela velocidade na
qual circula a informação, pelas transformações constantes da
economia, etc., o que levou as grandes corporações a também

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 133


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 131-151,
jul./set. 2014.
perceberem a importância de investirem em inteligência e na
busca de informação.
As empresas, sejam elas públicas ou privadas, valorizam
cada vez mais a informação e o conhecimento, os quais são
considerados um diferencial e uma vantagem competitiva,
por serem imprescindíveis para a construção dos processos
decisórios (NASSIF E SANTOS, 2009).
De acordo com Emerson Wendt (2013), a atividade de
inteligência tem a responsabilidade de gerar informações de
nível estratégico para a tomada de decisões, relativas a todo
o processo decisório.  A metodologia utilizada pela atividade
de inteligência é de grande importância na produção do
conhecimento, pois através dela serão empregados de maneira
racional os meios e recursos disponíveis para atingir os fins
almejados. O autor ainda afirma que a utilização dos dados,
transformados pelo processo de inteligência em conhecimento
estratégico, irá fomentar e subsidiar o ente estatal ou
empresarial na identificação das oportunidades, ameaças,
forças e fraquezas de seus inimigos ou competidores, para,
com isso, gerar vantagem competitiva.
Este processo tem também a função de descobrir as forças
atuantes nos negócios, reduzindo riscos e conduzindo o decisor
a agir antecipadamente (inteligência), bem como proteger o
conhecimento gerado (contrainteligência) (WENDT, 2013).
Sherman Kent (apud GONÇALVES, p. 7-8) – em uma
das mais tradicionais obras sobre inteligência já produzidas –
conceitua a atividade sob três aspectos principais, conceitos
estes que se aplicam tanto ao setor público, quanto ao privado:

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 131-151,
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Inteligência como produto, conhecimento produzido:
trata-se do resultado do processo de produção de
conhecimento e que tem como cliente o tomador de
decisão em diferentes níveis. Assim, o relatório/documento
produzido com base em um processo que usa metodologia de
inteligência tambem é chamado de inteligência. Inteligência
é, portanto, conhecimento produzido.
Inteligência como organização: diz respeito às estruturas
funcionais que têm como missão primordial a obtenção de
informações e produção de conhecimento de inteligência.
Em outras palavras, são as organizações que atuam na busca
do dado negado, na produção de inteligência e na salvaguarda
dessas informações, os serviços secretos.
Inteligência como atividade ou processo: refere-se aos
meios pelos quais certos tipos de informação são requeridos,
reunidos (por meio de coleta ou busca), analisados e
difundidos, e, ainda, os procedimentos para a obtenção
de determinados dados, em especial aqueles protegidos,
também chamados de “dados negados”. Esse processo
segue metodologia própria, a metodologia de produção de
conhecimento, ensinada nas escolas de inteligência por todo
o globo. [grifo no original]

Conforme demonstrado, diante da realidade competitiva


enfrentada atualmente pelo mundo empresarial, a utilização
dos dados produzidos pela inteligência no setor privado pode
proporcionar melhores condições para enfrentar os desafios,
indicando com antecedência as mudanças de mercado e
as melhores oportunidades, facilitando o planejamento e a
formulação de políticas empresariais.
Em relação ao setor público, oficialmente, a história
da atividade de inteligência no Brasil teve origem em 1927,
quando foi criado o Conselho de Defesa Nacional, órgão
federal diretamente subordinado ao Presidente da República.
Até então, a atividade era exercida apenas no âmbito dos

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 131-151,
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ministérios militares.
Em 7 de dezembro de 1999 surgiu a Lei n. 9.883, a qual
instituiu o Sistema Brasileiro de Inteligência (SISBIN), criou
a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) e trouxe, em seu
artigo 1°, § 2°, a definição de inteligência (BRASIL, 1999):

Para os efeitos de aplicação desta Lei, entende-se como


inteligência a atividade que objetiva a obtenção, análise e
disseminação de conhecimentos dentro e fora do território
nacional sobre fatos e situações de imediata ou potencial
influência sobre o processo decisório e a ação governamental
e sobre a salvaguarda e a segurança da sociedade e do Estado.

O mesmo artigo definiu ainda, em seu § 3°, o que


é contrainteligência (BRASIL, 1999): “Entende-se como
contrainteligência a atividade que objetiva neutralizar a
inteligência adversa.”
O surgimento da citada legislação proporcionou ao
Estado brasileiro institucionalizar a atividade de inteligência,
mediante ações de coordenação do fluxo de informações
necessárias às decisões de Governo, no que diz respeito ao
aproveitamento de oportunidades, aos antagonismos e às
ameaças, reais ou potenciais, para os mais altos interesses da
sociedade e do país3. 
Dentro da estrutura do SISBIN, também os estados
da federação contam com suas agências de inteligência para

3 Dados obtidos no site da ABIN - Agência Brasileira de Inteligência.


Disponível em: <http://www.abin.gov.br/modules/mastop_
publish/?tac=Atividade_de_Intelig%EAncia>. Acesso em 22 de setembro
de 2013.

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assessorar a tomada de decisão em seus governos. Pela natureza
desta atividade, estão estas agências ligadas às Secretarias de
Justiça e de Segurança Pública.

3 A ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA NO ÂMBITO


DA SEGURANÇA PÚBLICA

Desde os tempos mais remotos, a inteligência vem sendo


utilizada como um dos recursos para vencer batalhas. Sun Tzu
(2009, p. 35), 500 anos antes de Cristo, já ensinava:

Se você conhece o inimigo e se conhece, você não precisa ter


medo dos resultados de cem batalhas. Se você se conhece,
mas não o inimigo, para toda vitória você sofrerá também
uma derrota. Se você não conhece nem você, nem o inimigo,
você é um tolo e conhecerá derrota em toda batalha.

De acordo com a Doutrina Nacional de Inteligência de


Segurança Pública – DNISP (BRASIL, 2009), atividade de
inteligência de Segurança Pública é:

A atividade de ISP é o exercício permanente e sistemático de


ações especializadas para a identificação, acompanhamento
e avaliação de ameaças reais ou potenciais na esfera de
Segurança Pública, basicamente orientadas para produção
e salvaguarda de conhecimentos necessários para subsidiar
os governos federal e estaduais à tomada de decisões, para
o planejamento e a execução de uma política de Segurança
Pública e das ações para prever, prevenir, neutralizar e
reprimir atos criminosos de qualquer natureza ou atentatórios
à ordem pública.

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Ainda de acordo com a DNISP (BRASIL, 2009), as
finalidades da inteligência de segurança pública são variadas:
- Proporcionar diagnósticos e prognósticos sobre a
evolução de situações de interesse da Segurança Pública,
subsidiando seus usuários com informações que possam
influenciar no processo decisório.
- Contribuir para que o processo interativo entre usuários
e profissionais de inteligência produza efeitos cumulativos,
aumentando o nível de efetividade desses usuários e de suas
respectivas organizações.
- Prover suporte ao planejamento estratégico integrado
do sistema e a elaboração de planos específicos para as diversas
organizações do Sistema de Segurança Pública.
- Prestar apoio direto às operações policiais de prevenção,
repressão, patrulhamento ostensivo e de investigação criminal,
através do repasse de informações relevantes.
- Prover alerta avançado para os responsáveis civis e
militares contra crises, grave perturbação da ordem pública,
ataques surpresa e outras intercorrências.
- Auxiliar na investigação de crimes e contravenções.
- Preservar o segredo governamental sobre as necessidades
informacionais, as fontes, fluxos, métodos, técnicas e
capacidades de Inteligência das agências encarregadas da
gestão da segurança pública.
É importante ressaltar que não se pode confundir
inteligência de segurança pública com inteligência policial ou
criminal. Embora tenham algumas finalidades em comum, a
inteligência de segurança pública é mais abrangente.
No Brasil, a expressão mais comum é inteligência
policial, entretanto é preferível denominar a atividade como
inteligência criminal. A principal razão é que não apenas

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 131-151,
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as polícias trabalham nessa atividade, mas também outras
instituições, como o Exército, Ministério Público, servidores
do sistema prisional, etc. Outro motivo para esta nomenclatura
é que, seguindo a norma acadêmica, o normal é que uma
atividade de pesquisa leve o nome do objeto pesquisado, não
do pesquisador, como “Antropologia Urbana”, por exemplo.
Seja qual for o nome, trata-se de uma atividade especializada
e detentora de técnicas e métodos próprios. É considerada uma
espécie de “prima pobre” da inteligência de Estado e “prima
distante” da inteligência militar, que é a atividade mais antiga
do ramo (MINGARDI, 2007).
A inteligência criminal atua na prevenção, identificação
e neutralização das ações criminosas, visando à investigação
policial e o fornecimento de elementos e subsídios ao
Poder Judiciário e ao Ministério Público. São buscadas as
informações que identifiquem o momento e o local em que
foram realizados os atos preparatórios e a execução do crime,
respeitando-se, para tanto, os princípios legais e as garantias
individuais (GONÇALVES, 2011).
Ao contrário de outros países, no Brasil não existe
uma definição muito clara acerca do sistema de inteligência,
principalmente no que diz respeito à questão criminal. A
existência ou não de organismos de inteligência criminal,
bem como a sua quantidade, varia de Estado para Estado da
Federação.
No Estado de Santa Catarina a estrutura de inteligência
de segurança pública conta com a agência da Secretaria
de Segurança Pública, a qual recebe o nome de Diretoria
de Informação e Inteligência (DINI), que está ligada à
Coordenação Geral de Inteligência (CGI) da Secretaria
Nacional de Segurança Pública (SENASP) e realiza atividades

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 131-151,
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de coleta de informações, bem como de análise criminal,
estatística, geoprocessamento e operações de inteligência e
contrainteligência.
O objetivo desta atividade é antecipar cenários no âmbito
criminal e estratégico para fornecer embasamento à tomada
de decisão da Secretaria de Estado da Segurança Pública e
das Polícias do Estado. Além disso, auxiliar na elucidação de
delitos praticados por organizações criminais ou que gerem
grande repercussão no território catarinense.
 Desde 2002, a DINI atua na obtenção e análise de dados
e informações e na produção e difusão de conhecimentos.
Para isso, trabalha em parceria com instituições estaduais,
nacionais e internacionais de inteligência de segurança pública,
realizando um intercâmbio de informações com o objetivo de
combater as atividades criminosas.
Outros objetivos do trabalho realizado pela DINI são:
prevenir, detectar, obstruir e neutralizar ações que constituam
ameaça à segurança da sociedade e do Estado.
Seu corpo funcional congrega integrantes da Polícia
Civil e da Polícia Militar do Estado, além de especialistas de
outros órgãos públicos, divididos em cinco núcleos:
- Núcleo de Operações de Inteligência e de
Contra-Inteligência (NOICI) - Núcleo de Análise
Criminal e Processamento da Informação (NAPI)
- Núcleo de Tecnologia da Informação (NUTI)
- Núcleo de Geoprocessamento e Estatística (NUGES)
- Núcleo de Repressão ao Crime Organizado (NURCOR)4

4 Informações obtidas no site da Secretaria de Segurança Pública do


Estado de Santa Catarina, através do endereço: http://www.ssp.sc.gov.br/
index.php?option=com_content&view=article&id =178%3Adiretoria-

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A Secretaria de Segurança Pública conta ainda com a
Diretoria de Inteligência da Polícia Civil (DIPC), que coordena
os NINT’s (núcleos de inteligência das delegacias) e com a
Agência Central de Inteligência da Polícia Militar (ACI), que
coordena as agências de inteligência dos batalhões, as quais
atuam de forma integrada e em regime de colaboração com a
DINI.
O Corpo de Bombeiros Militar também possui sua
agência de inteligência, a qual atua igualmente em regime de
colaboração com a DINI. O Instituto Geral de Perícias, apesar
de ser órgão integrante da Secretaria de Segurança do Estado
de Santa Catarina, ainda não possui órgão de inteligência
estruturado.
Além disso, como integrante do sistema de inteligência
de Segurança Pública de Santa Catarina, existe a Diretoria de
Inteligência e Informação (DINF), que pertence à Secretaria
de Justiça e Cidadania (SJC), a qual gerencia as informações
referentes ao sistema prisional do Estado, trabalhando em
cooperação com as agências anteriormente citadas.

4 SISTEMA PRISIONAL E ORGANIZAÇÕES


CRIMINOSAS

Não é necessário ser um estudioso da área para saber que


o sistema prisional brasileiro nunca foi tratado com a devida
atenção por parte do Estado. Basta mencionar a já antiga

de-infromacao-e- inteligencia&catid=37&Itemid=70. Acesso em 23 de


setembro de 2013.

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 141


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comparação que as pessoas costumam fazer quando chamam
as prisões de “escola do crime”.
A grave situação de superlotação das unidades prisionais
e a falta de investimento em educação geral e profissionalizante
em nada contribuem para a reintegração social dos detentos.
Lima (2009, p.59) aponta três itens que contribuem para
a atual situação de superlotação das unidades prisionais:

Os dados são realmente preocupantes, ainda mais se


levando em conta que existe um déficit muito grande de
vagas no país, apesar dos investimentos que são feitos na
construção de novos estabelecimentos prisionais. O que
leva a essa saturação do sistema são três itens que, somados,
contribuem de forma conjunta para a problemática em
questão. Primeiramente existe o fato de que o brasileiro
está adentrando ao caminho da delinqüência em maior
número de casos; em segundo lugar, compreende-se que o
aparato de repressão estatal (leia-se polícia) vem agindo com
eficiência (e truculência) cada vez maior, o que fatalmente
incide num número maior de detenções; por fim, a própria
Justiça brasileira equivocadamente tem adotado um sistema
de julgamento que procura fazer mais “justiça” do que o
necessário, condenando à prisão, em muitos casos, sujeitos
que praticaram crimes de baixo teor ofensivo.

Seja pelos fatores apontados, ou por outros que a estes


somam-se diariamente, o ambiente carcerário brasileiro
contribui para a formação de gangues e organizações
criminosas dentro das unidades prisionais, as quais estendem
suas ramificações para fora destas casas de detenção.
A exemplo disso, pode-se citar o chamado Primeiro
Comando da Capital (PCC), facção criminosa que surgiu na
Casa de Custódia de Taubaté, interior de São Paulo, em 1993

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(MINGARDI, 2007). No âmbito de Santa Catarina, é possível
citar o Primeiro Grupo Catarinense (PGC), o qual surgiu
oficialmente no ano de 2003, na ala de segurança máxima da
Penitenciária de Florianópolis5.
Esses grupos e tantas outras organizações criminais que
atuam dentro e fora do sistema prisional, passam a viver e
agir sob o domínio de regras próprias, ignorando a legislação
pátria. Sobre este tema, a pesquisadora Camila Caldeira
Nunes Dias (2009) explica que, dentro de uma sociedade,
alguns grupos – em especial aqueles que foram privados dos
direitos previstos nas leis oficiais, cujo acesso às instituições
de justiça é precário ou inexistente – engendram e sancionam
seu próprio direito, exercendo formas de controle internas ao
grupo, independentes do direito oficial.
Citando o exemplo da organização Primeiro Comando
da Capital (PCC), Dias (2009, p. 86) explica:

Nas áreas sob sua influência, o PCC controla desde o tráfico


de drogas até o roubo de cargas e de bancos, sequestros,
assaltos a empresas de transporte de valores e a prédios de
luxo, etc. Em algumas áreas, especialmente no interior dos
presídios, a facção exerce poderes legislativo, judiciário e
executivo, à qual todos – sejam ou não membros da facção
– devem se reportar para pedir justiça e favores, resolver
conflitos etc.

A autora esclarece que, até o inicio dos anos 1990,


estas organizações caracterizavam-se por ter na violência e

5 Informação não confirmada, porém, é de domínio comum no meio


policial.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 131-151,
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na ameaça instrumentos de imposição de regras arbitrárias
por aqueles que dispõem de maior força física. O poder era
descentralizado e disseminado por entre os que possuíam os
meios – armas, força física – para se impor sobre os demais. Era,
portanto, durante este período, um poder efêmero e precário,
uma vez que continuamente surgiam aqueles que se colocavam
de forma contrária e contestavam o domínio então vigente. A
insegurança e o medo eram os sentimentos predominantes, na
medida em que não havia qualquer previsibilidade nas relações
estabelecidas entre as pessoas.
Com a expansão das organizações criminais, houve uma
centralização do poder, o que mudou o cenário completamente.
O poder deixou de ser exercido individualmente e passou
a ser exclusividade do grupo; consolidou-se um tipo de
dominação mais consistente e duradouro; houve diminuição
significativa da insegurança e do medo, pois surgiu uma
regulação social mais eficiente que tornou as relações sociais
mais previsíveis. A violência deixou de ser o único meio de
sustentar o poder; surgiu o assistencialismo e o discurso de
solidariedade, de união dos fracos contra os fortes, que passou
a ser um importante elemento de sustentação do domínio. As
organizações criminais se impõem como um árbitro de todos
os conflitos que ocorrem na sua área de abrangência e exercem
o papel de mediador entre as partes e impedem os indivíduos
de agirem de forma individual. Surgiu, desta forma, a figura
de uma autoridade acima das partes envolvidas nos conflitos,
a qual julga o caso de forma imparcial e impessoal, realizando
acordos ou, mais frequentemente, aplicando sanções conforme
o código informal vigente; a imposição das regras e normas e
a correspondente punição para quem as descumpre passaram
a ser realizadas por membros da organização com essa função

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específica, comumente chamados de “disciplinas”. Existe,
assim, um órgão especializado (DIAS, 2009).
Por meio da atividade de inteligência6, sabe-se que esses
grupos contam com pagamento de mensalidade, ou “dízimo”,
como costumam chamar. Possuem contadores e advogados a
seu serviço, bem como hierarquia e organização capazes de
suplantar a estatal, constituindo-se, desta forma, em grave
risco às leis e à ordem. Tal ameaça materializou-se nos ataques
registrados no final do ano de 2012 e também no inicio de
2013 nos estados de São Paulo e Santa Catarina, onde vários
policiais foram assassinados e centenas de ônibus incendiados,
respectivamente, nestas duas Unidades da Federação. Instalou-
se uma situação de terror entre os agentes de segurança pública
e também entre os cidadãos em geral.
Devido à sua capacidade de organização e da potencial
ameaça que representam ao Estado e à população, parece fazer-
se necessário e urgente o monitoramento constante dessas
organizações, dentro e fora das unidades prisionais.

5 UTILIZAÇÃO DA INTELIGÊNCIA COMO FORMA


DE MONITORAR AS AÇÕES DAS ORGANIZAÇÕES
CRIMINAIS

Cada vez mais a imprensa e os responsáveis pela


segurança pública apresentam o uso da inteligência policial

6 Tais informações foram obtidas por meio da Agência Central de


Inteligência da Polícia Militar de Santa Catarina, tendo por base bilhetes
interceptados de detentos integrantes da organização criminal conhecida
como Primeiro Grupo Catarinense (PGC).

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 131-151,
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como a esperança para vencer a “guerra” contra o crime
organizado. Essas afirmações, entretanto, estão longe de
corresponder à realidade. Organizações criminais parecem ser
muito mais complexas do que aparentam. Possuem liderança
fluida, são muito adaptáveis e estão de tal forma relacionadas
com o aparelho do Estado que se torna difícil “mirar um, sem
acertar também o outro” (MINGARDI, 2007).
Outro erro comum consiste em considerar que a
inteligência tem o poder de, por si só, vencer a tal “guerra”.
Mesmo nos conflitos entre nações, o uso da inteligência
sempre foi apenas um dos fatores que determinam a vitória ou
a derrota (MINGARDI, 2007).
O timing revela-se outra questão importante na
inteligência criminal. Segundo John Keegan (2003), a grande
questão para produzir inteligência utilizável é responder
adequadamente às perguntas básicas (quem, quando, onde
e como) em tempo real. Estas informações precisam chegar
a tempo de serem utilizadas com proveito pelos órgãos
operacionais. Na Segurança Pública isso significa prevenir o
crime, precaver-se contra uma nova modalidade criminal ou,
pelo menos, identificar os autores.
Ainda de acordo com Mingardi (2007), no caso das
organizações criminosas, é possível identificar pelo menos
quatro aplicações para as informações produzidas pelo setor
de inteligência:
- Prever tendências – identificar quais serão os próximos
desdobramentos do crime, ou seja, para onde ele vai migrar,
qual o tipo de crime que será a próxima “moda” etc.
- Identificar os líderes e os elementos-chave, ou seja, os
membros de destaque nas organizações criminais.
- Monitorar a movimentação da organização para

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 131-151,
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identificar qual a sua rotina.
- Identificar pontos vulneráveis e informantes em
potencial.
O autor cita como exemplo a crise na segurança de 2006
em São Paulo, quando, em sua visão, a inteligência falhou.
Mingardi (2007) relembra que a história do PCC começou
em 1993, num presídio do interior paulista e, por alguns anos,
o grupo foi visto apenas como mais uma associação de presos,
igual a muitas outras que existem pelo mundo. No final da
década, a organização já tinha uma presença forte no sistema
penitenciário paulista, porém, só foram notados pelo Estado e
pela mídia em fevereiro de 2001, quando desencadearam uma
grande rebelião no sistema prisional, atingindo 28 unidades de
detenção.
Em 2003, a organização voltou à cena, primeiramente
com o assassinato do juiz-corregedor de Presidente Prudente e,
alguns meses depois, com os ataques às bases da Polícia Militar
e em delegacias de polícia. A organização não era desconhecida
da polícia paulista. A despeito disso, muito pouco, ou quase
nada, foi feito para neutralizar ou, pelo menos, diminuir seu
poder de ação.
Mingardi (2007) ressalta que grande parte do problema
deriva das falhas do sistema de inteligência criminal ou do mau
uso que foi feito dele, e que existem algumas necessidades
básicas no emprego da inteligência que devem ser observadas
quando se quer aproveitar o que o instrumento pode oferecer.
Algumas destas foram ignoradas no período dos ataques.
O mesmo ocorreu em Santa Catarina quando dos ataques
orquestrados pelo Primeiro Grupo Catarinense (PGC) em
2012 e 2013, tendo em vista que, a exemplo do que ocorreu
em São Paulo, as primeiras reações do Estado às notícias sobre

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o crescimento do PGC foram de simplesmente negar a sua
existência.
Tanto no caso paulista, como no catarinense, havia
alguns fatores que poderiam ter ajudado as autoridades a
controlar a crise. Porém, isso exigia que houvesse um trabalho
prévio de inteligência dentro do sistema penitenciário e que as
citadas organizações criminosas (PCC e PGC) tivessem sido
identificadas como alvos prioritários, o que, efetivamente, não
ocorreu.
Ataques em série como os que foram vistos exigem
uma grande organização e prévia preparação dos detentos.
Certamente esta preparação demandou muitas conversas
entre detentos de várias unidades prisionais (tendo em vista
que os ataques se deram em mais de um município), troca de
mensagens por bilhetes ou celular, emails e outros meios, os
mais diversos possíveis. Essa comunicação certamente deixou
muitos indícios do que estava ocorrendo. Muitas informações
devem ter chegado ao conhecimento dos servidores do sistema
prisional. A pergunta que fica no ar é se esses indícios foram
ou não levados à administração do sistema prisional e, em
caso afirmativo, se foi ou não produzido conhecimento sobre
a situação que estava para se desenhar. Diante do cenário
presenciado, tanto em São Paulo como em Santa Catarina,
tudo indica que a resposta a ambas as questões é negativa.

6 CONCLUSÃO

Em Santa Catarina, por meio dos trabalhos de inteligência,


foi possível constatar que membros de organizações criminais
que estão no interior das prisões é que são os grandes

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“comandantes”, de quem partem as ordens e a palavra final
sobre o que vai ser ou não realizado dentro e fora das unidades
prisionais.
Conforme demonstrado neste estudo, parece ser de
suma importância que se invista na atividade de inteligência,
especialmente no sistema prisional, a fim de que as organizações
criminais sejam constantemente monitoradas.
Como visto no início deste trabalho, a atividade de
inteligência em segurança pública consiste no exercício
permanente e sistemático de ações especializadas para a
identificação, acompanhamento e avaliação de ameaças reais
ou potenciais na esfera de segurança, a fim de que não exista a
situação de surpresa, a qual recorrentemente leva ao insucesso
na resolução de conflitos e outros problemas.
Por este motivo, faz-se necessário um amplo investimento
nos servidores que atuam dentro e fora das unidades prisionais,
capacitando-os e treinando-os para ficarem habilitados na
produção de conhecimentos de inteligência que possam
ser utilizados no tempo adequado, dotando os gestores com
as informações necessárias para saber como agir diante das
eventuais adversidades.
É fundamental que os tomadores de decisão também
sejam conscientizados da importância desta atividade, pois
de nada adianta os conhecimentos de inteligência serem
produzidos da melhor maneira e em tempo adequado, se os
gestores não confiam ou simplesmente desprezam essas
valiosas informações na hora de decidirem o que deve ou não
ser feito, especialmente nas situações de crise.
O texto aqui disponibilizado ateve-se ao enfoque
conhecido como Prevenção Criminal Situacional. Nesta
forma de análise, não há uma preocupação com relação às

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origens de determinado problema, tampouco com medidas
de médio e longo prazos que possam, efetivamente, eliminar
ou dirimir suas raízes. Volta-se para as medidas que de
imediato modifiquem as condições para que o indesejável
aconteça. Todavia, as diferentes formas de enfocar e analisar
os problemas não se excluem. Podem ser complementares
e, certamente, é isto o que a sociedade deseja. Providências
imediatas são importantes, mas desde que sejam duradouras.
Ou seja, as raízes do problema precisam ser atacadas. Neste
caso, deparamo-nos com condições de ordem estrutural, que
ensejam a criação das chamadas organizações criminais.
Está aí um valiosíssimo tema para novos (e complementares)
trabalhos.

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Segurança Pública – SENASP. Doutrina Nacional de
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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 131-151,
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A ENTREVISTA COGNITIVA COMO MEIO PARA
MINIMIZAR AS FALSAS MEMÓRIAS

Heverton Luis Pahl1


Marcos Erico Hoffmann2

RESUMO
O presente trabalho, na forma de revisão de literatura, versa sobre a técnica
da entrevista cognitiva. Objetiva discutir a importância do instrumento para
policiais e outros profissionais da segurança pública, a fim de que possam
coletar depoimentos com um maior grau de verossimilhança com o que de
fato ocorreu. O depoimento sempre exerceu um papel fundamental durante
as investigações policiais, tanto pelo fato de trazer informações novas,
quanto pela corroboração e esclarecimentos das provas técnicas. Quando
utilizamos nossas memórias residuais para prestarmos um depoimento,
pode ocorrer o fenômeno conhecido como falsas memórias, que interfere
no depoimento com distorções e/ou adições de informações que não fazem
parte do fato vivenciado. Com ênfase nas diversas etapas da entrevista
cognitiva, o texto discorre sobre a maneira de se conduzir uma entrevista, a
fim de que sejam obtidos os resultados esperados.

Palavras-chave: falsas memórias, memória, entrevista cognitiva.

Abstract
This work, in the form of literature review, focuses on the cognitive

1 Especialista em Inteligência Criminal da UNIDAVI/DIFC, Perito Oficial/


SC, Bacharel em Engenharia Civil pela UDESC.E-mail: heverton@igp.
sc.gov.br.
2 Professor da disciplina Criminologia do Curso de Especialização em
Inteligência Criminal da UNIDAVI/DIFC. Psicólogo policial civil, mestre
em Administração Pública e doutor em Psicologia pela UFSC. Docente de
graduação e de Pós-Graduação, professor da Academia da Polícia Civil de
SC e da Academia da Justiça e Cidadania de SC. E-mail: marcoserico@
yahoo.com.br.

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interview technique. Its goal is to discuss the importance of this tool for
police and other public safety professionals to collect testimonials with
a greater degree of verisimilitude with reality. The testimony has always
had a key role during police investigations, both because of bringing new
information, and by corroboration and clarification of technical evidence.
When we use our residual memories to provide a testimonial, may occur the
phenomenon of so-called false memories, which interfere in the testimony
with distortions and / or addition of information that are not part of the
previous experience. With emphasis on the different stages of cognitive
interview, the paper discusses about the way to conduct an interview, to
ensure that the expected results are obtained.

Keywords: false memories, memory, cognitive interview.

1 INTRODUÇÃO

Ao narrarmos um acontecimento, valemo-nos de nossas


recordações. Entretanto, nossa mente pode não funcionar do
modo esperado, uma vez que a memória é suscetível a falhas.
Se tentarmos recordar um evento banal do dia anterior, é muito
provável que deixemos detalhes no esquecimento ou pode
ocorrer uma “contaminação” do relato a partir de emoções e de
sobreposição de informações de outros eventos. Por exemplo,
declaramos com confiança que vimos determinada pessoa em
um determinado lugar, todavia, na realidade, a verificamos em
outro local ou mesmo neste suposto, porém em outra data. Esse
tipo de falha na recordação recebe o nome de falsa memória
e pode suceder nos depoimentos durante uma investigação
criminal. Portanto, capaz de ensejar erros em decisões e
sentenças judiciais equivocadas e injustas.
No intuito de aprimorar a coleta de depoimentos, na
década de 1980 os psicólogos Ronald P. Fisher e Edward

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Geiselman iniciaram o desenvolvimento da técnica de
entrevista cognitiva, na qual mesclavam os conhecimentos
de duas grandes áreas: a Psicologia Cognitiva e a Psicologia
Social (GEISELMAN, et al., 1985).
A presente pesquisa tem por objetivo apresentar a
técnica da entrevista cognitiva como estratégia para minimizar
a ocorrência de falsas memórias e como mecanismo de
obtenção de depoimentos com maior quantidade de detalhes e
informações fidedignas.
Devido à complexidade dos estudos psicológicos
envolvendo a memória, este trabalho dedica alguns comentários
em relação à sua conceituação e a respeito de certas variáveis
ligadas às falsas memórias. Faremos também uma descrição das
técnicas de entrevista cognitiva, com o fito de trazer subsídios
acerca deste instrumento aos agentes públicos envolvidos na
colheita de depoimentos, inclusive os referentes à inteligência
policial.

2 REVISÃO DE LITERATURA

2.1 Memória

Memória refere-se à função geral de conservação de


experiência anterior que se manifesta por meio de hábitos,
lembranças ou por recordações; seria uma tomada de
consciência do passado como tal (MEMÓRIA, 2003).
Segundo Myers (1999 apud Wilbert; Menezes,2011, p.
68), “[...] a memória humana é uma incessante tentativa de
reconstrução e reprodução de fatos já vivenciados.”

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De acordo com Cardoso (1997) a memória está
intimamente ligada à aprendizagem e compreende o arquivo e
a recuperação de experiências. Na aprendizagem utilizamos as
experiências vividas, ou seja, as informações (representações
do passado) retidas na memória, para formular o nosso
comportamento.
“Assim, aprendizagem e memória são o suporte para
todo o nosso conhecimento, habilidades e planejamento,
fazendo-nos considerar o passado, nos situarmos no presente e
prevermos o futuro.” (CARDOSO, 1997, s.p.).

O aprendizado e a memória são propriedades básicas do


sistema nervoso; não existe atividade nervosa que não inclua
ou não seja afetada de alguma forma pelo aprendizado e pela
memória. Aprendemos a caminhar, pensar, amar, imaginar,
criar, fazer atos-motores ou ideativos simples e complexos,
etc.; e nossa vida depende de que nos lembremos de tudo
isso (IZQUIERDO, 1989, p. 90).

Na formação de memórias a partir de experiências,


Izquierdo (1989), enfatiza que é necessário analisar quatro
aspectos fundamentais: 1) nossa memória não armazena
todas as informações vivenciadas; há um processo de seleção
prévio; 2) as memórias recentes passam por um processo de
consolidação antes de se tornarem estáveis; nesse momento
são suscetíveis à simplificação ou inibição; 3) nos primeiros
minutos ou horas, as memórias são sensíveis à incorporação de
informações adicionais que podem advir de outras experiências
que geram memórias; 4) as memórias não consistem em itens
isolados, senão em registros que podem ser reacondicionados,
alterados ou ampliados.

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Segundo Cardoso (1997), os tipos de memórias podem
ser classificados em três categorias: Memória Ultra-rápida (que
dura segundos), Memória de Curto Prazo (que dura minutos ou
horas) e Memória de Longo Prazo (que dura dias, semanas ou
anos). Esta última, a Memória de Longo Prazo, se subdivide
em Declarativa e Não-declarativa. A Memória Declarativa
ainda se subdivide em Episódica e Semântica.
A Memória Declarativa Episódica é o tipo comum
de memória que mais será requisitada nas esferas policial
e judicial, pois está relacionada a fatos/eventos e o tempo
correspondente.
Para Wilbert e Menezes (2011), a memória pode ser
influenciada por diversos fatores, como por exemplo, o nível
de estímulo emocional. E é no âmbito das emoções que
sucedem as falhas mais comuns nos processos de recuperação
mnemônica. São assim geradas as falsas memórias.
De acordo com Lopes Júnior e Di Gesu (2007), diante
de um crime, a tendência da mente humana é arquivar os
pontos que geram maior emoção. Com isso, certos eventos e
muitos detalhes importantes para a investigação podem ficar
no esquecimento ou serem alterados.
Um delito pode gerar um número mínimo de provas
técnicas, como perícias, exames de DNA, impressões digitais,
entre outras, fato que torna a memória imprescindível tanto no
processo para o reconhecimento dos acusados quanto para a
reconstrução do fato delituoso e todas as suas peculiaridades
(LOPES JÚNIOR; DI GESU,2007).

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 153-170,
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2.2 Falsas Memórias

O processo de armazenamento e recuperação de


informações na nossa memória pode falhar, fazendo com
que as pessoas gerem descrições distorcidas ou até relatem
situações que não presenciaram. Essa falha da memória tem
sido tema de diversos estudos e são conhecidas como Falsas
Memórias (FM). Obviamente, nada têm a ver com mentiras e
distorções intencionais, outras práticas humanas, porém muito
diferentes: são conscientes e deliberadas.

Cabe ressaltar que as FM não são mentiras ou fantasias das


pessoas, elas são semelhantes às memórias verdadeiras, tanto
no que tange à sua base cognitiva quanto neurofisiológica.
No entanto, diferenciam-se das verdadeiras, pelo fato de as
FM serem compostas no todo ou em parte por lembranças de
informações ou eventos que não ocorreram na realidade. As
FM são frutos do funcionamento normal, não patológico, de
nossa memória (STEIN et al., 2010, p. 22).

Loftus (2005 apud Alves; Lopes, 2007, p. 46) lembra


que “As FMs podem ser elaboradas pela junção de lembranças
verdadeiras e de sugestões vindas de outras pessoas, sendo
que, durante este processo, a pessoa fica suscetível a esquecer
a fonte da informação ou elas se originariam quando se é
interrogado de maneira evocativa”.
As FM são classificadas de acordo com o processo
que a gerou, podendo ser espontâneas (processo interno) ou
sugeridas (processo externo). As falsas memórias espontâneas
são frutos do próprio funcionamento da memória por meio da
autossugestão. Segundo Brainerd e Reyna (1995), esse tipo de

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 153-170,
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falsa memória é criado devido à similaridade das informações.
O indivíduo consegue recuperar a essência do fato, não os
seus detalhes. Porém, se for questionado sobre uma segunda
informação similar à primeira, criará associação com esta
segunda.
Por sua vez, as FM sugeridas são provenientes de fonte
externa ao sujeito, podendo ocorrer a partir de uma sugestão
deliberada ou acidental de informação falsa, relacionada ao
fato (STEIN; NEUFELD, 2001; ALVES; LOPES, 2007).
Dessa forma, nossa memória pode ser distorcida e sofrer
mudanças, mediante sugestões e outras informações, podendo
ser influenciada por outras pessoas e situações (STEIN et al.,
2010).

2.3 Entrevista Cognitiva

Durante uma investigação, umas das tarefas mais


importantes consiste na coleta de evidências confiáveis. Por
sua vez, uma das evidências mais importantes são os relatos dos
envolvidos diretamente no episódio, como supostas vítimas,
suspeitos e testemunhas oculares. Para isso, são realizadas as
entrevistas. De acordo com Bull et al.(2006), a entrevista deve
ser conduzida por investigadores policiais treinados para que
os mesmos possam obter o máximo de informações precisas
possíveis, até mesmo uma confissão do suspeito.
Porém, o uso de técnicas inadequadas se reflete nos dez
erros mais comuns cometidos pelos entrevistadores forenses,
conforme os estudos efetuados por Memon (2007 apud STEIN
et al.2010), mencionados a seguir:
1. Não explicar o propósito da entrevista

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2. Não explicar as regras básicas da sistemática da
entrevista
3. Não estabelecer o rapport antes de iniciar
4. Não solicitar o relato livre
5. Basear-se em perguntas fechadas e não fazer perguntas
abertas
6. Efetuar perguntas sugestivas / confirmatórias
7. Não acompanhar o que a testemunha acabou de falar
8. Não permitir pausas
9. Interromper a testemunha quando ela está falando
10. Não fazer o fechamento da entrevista.
A Entrevista Cognitiva (EC), desenvolvida na década de
1980, objetiva a aquisição de melhores depoimentos, utilizando
os conhecimentos científicos disponíveis sobre memória e
alcançando resultados mais significativos na área jurídica,
em comparação com outras formas de entrevista (STEIN et
al.,2010).

2.3.1 Etapas da entrevista cognitiva

Bull et al.(2006) e Stein et al. (2010) apresentam em


seus estudos uma sequência de fases da entrevista cognitiva.
Esta sucessão é fruto de pesquisas em diversos países, como
Alemanha, Canadá, Austrália e Estados Unidos. Em outros
estudos consultados são apresentadas séries com até nove
etapas, porém, nada mais são do que desdobramentos da
sequência: Rapport; Recriação do Contexto Original; Narrativa
Livre; e Questionamento. No Quadro 01 é possível verificar
quais são os objetivos de cada uma dessas fases:

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 153-170,
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Etapa Objetivos
I – Construção do - Personalizar a entrevista
Rapport - Construir um ambiente acolhedor
- Discutir assuntos neutros
- Explicar os objetivos da entrevista
- Transferir o controle para o entrevistado
II – Recriação do - Restabelecer mentalmente o contexto no qual a
contexto original situação ou crime ocorreu
- Recriar o contexto ambiental, perceptual e
afetivo
III – Narrativa Livre - Obter o relato livre da testemunha, sem
interrupções
IV – Questionamento - Realizar o questionamento compatível com o
nível de compreensão da testemunha
- Priorizar o uso de perguntas abertas
- Obter esclarecimentos e detalhamento do relato
- Possibilitar múltiplas recuperações
V – Fechamento - Realizar o fechamento da entrevista
- Fornecer o resumo das informações obtidas
- Discutir tópicos neutros
- Estender a vida útil da entrevista

Quadro 1 – Etapas da entrevista cognitiva.


Fonte: Stein et al. (2010, p. 213).

2.3.1.1 Construção do Rapport

De acordo com Oliveira (2005), “Rapport é a relação


harmoniosa, tranquila e serena, determinada e significada
pela empatia.Trata-se de uma relação cordial, afetuosa, de
confiança, de apreço e respeito mútuo, relação eminentemente
humana.”
É fundamental, portanto, que o entrevistador procure
inicialmente estabelecer uma relação de confiança e
tranquilidade. Somente depois disso é que se pode dar

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 153-170,
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prosseguimento à entrevista, com as condições favoráveis
para que o depoente recorde com clareza os acontecimentos,
muitas vezes complexos e angustiantes para ele. Além disso,
é muito importante que o entrevistado tenha desenvolvido
uma consideração positiva para com o entrevistador, o que
o motivará para empenhar-se numa atitude de cooperação
(BULL et al.,2006).
Para Memon e Bull (1999 apud STEIN et al., 2010), o
entrevistador precisa ter em mente o princípio da sincronia.
Ou seja: em relações interpessoais, as pessoas tendem a agir
de maneira semelhante ao seu interlocutor. Se o entrevistador
demonstrar segurança e tranquilidade, tenderá a transmitir
essas condições também para seu entrevistado.

2.3.1.2 Recriação do contexto original

Conforme Stein et al. (2010), na fase de recriação do


contexto original, o entrevistador busca colocar, mentalmente,
o entrevistado novamente na situação em estudo mediante
a exploração dos sentidos (visão, audição, tato, olfato e
gustação). Este processo precisa suceder de forma lenta e
pausada, para que o entrevistado tenha tempo suficiente para
acessar as informações contidas em sua memória.
Stein et al. (2010, p. 217) apresentam um exemplo de
instrução para a aplicação da técnica da recriação do contexto:

“[...] Neste momento eu gostaria de te ajudar a lembrar tudo


o que conseguir sobre (referir o evento em questão). Você
pode fechar os olhos, se preferir. Tente voltar mentalmente
ao exato momento em que aconteceu essa situação. [pausa]
Você não precisa me dizer nada ainda, apenas procure

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observar o local ao seu redor [pausa]. O que você consegue
ver? [pausa] Que coisas você consegue escutar? [pausa] Que
coisas passam pela sua cabeça? [pausa] Como você está
se sentindo? [pausa] Como está o clima nesse momento?
[pausa] Tem algum cheiro que você consiga sentir? [pausa]
Quando você achar que estiver pronto, pode contar tudo que
conseguir se lembrar sobre o que aconteceu, do jeito que
achar melhor”.

No exemplo anteriormente citado, é possível constatar


uma preocupação com o rapport, o que ensejou todo o empenho
para fazer com que a pessoa se imagine na situação que está
sendo pesquisada.

2.3.1.3 Narrativa livre

Os primeiros relatos que o entrevistado realiza devem


ser obtidos livres de qualquer pressão. Estudos indicam que
as pessoas fornecem informações mais precisas sobre eventos
quando se expressam com suas próprias palavras e não quando
apenas respondem perguntas. Um erro importante que deve
ser evitado refere-se à interrupção do livre relato por meio
de questionamentos que possam influenciar as respostas e
comprometer a narrativa (BULL et al., 2006).
O entrevistado possivelmente produzirá pausas, mas
que não devem ser utilizadas pelo entrevistador para fazer
perguntas. Existe uma grande demanda cognitiva no acesso às
informações presentes na memória e o entrevistado utilizará
essas pausas para acessar tais informações. O entrevistador
deve permanecer em silêncio e em posição que transmita
interesse no relato (STEIN et al.,2010).

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2.3.1.4 Questionamento

Em relação à fase do questionamento, o entrevistador


fará perguntas relacionadas às informações prestadas na fase
anterior e as perguntas precisam ser formuladas com especial
atenção, cuidando para não sugestionar ou “contaminar” as
respostas. Por exemplo: ‘Você gosta de futebol, não gosta?’
Crianças e adultos vulneráveis são propensos a responder
‘sim’ para este tipo de pergunta. Nesse caso fica prejudicada
a certeza se a resposta corresponde mesmo à verdade ou se
simplesmente trata-se de uma conformidade com a pergunta.
Bull et al. (2006), apresentam uma explicação a respeito
de dois tipos de perguntas que estão presentes nas entrevistas:
as perguntas abertas e as perguntas fechadas. As primeiras
são indicadas para a fase inicial da entrevista e convidam o
entrevistado a complementar o relato livre. Por exemplo: ‘Há
poucos minutos atrás você disse que seu tio lhe machucou.
Como ele fez isso?’. Já as questões fechadas procuram utilizar-
se de detalhes já disponíveis. Por exemplo: ‘Você disse que seu
tio colocou algo em sua boca. O que ele usou?’. A inclusão de
alternativas (sugestões) nas perguntas fechadas traz enormes
riscos, como a não inclusão da opção correta, bem como a
presença de alternativa sugestiva, aquela que aparece soar
mais correta que as outras.
Segundo Stein et al. (2010, p. 221), “O entrevistador deve
estar atento para a seguinte regra geral: dar sempre prioridade
para as perguntas abertas em detrimento das fechadas.” As
perguntas abertas facilitam o processo de recuperação de
informações na memória do entrevistado.
Além das perguntas abertas e das perguntas fechadas,
existem as perguntas múltiplas, tendenciosas/sugestivas e as

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confirmatórias/inquisitivas.
Nos estudos de Milne (2004), Stein, Pergher e Feix
(2009) e Stein et al. (2010) há diversos exemplos dos tipos
de perguntas levantados. Apresentamos em seguida um quadro
que mescla os exemplos presentes nos mencionados estudos:

Tipo de Definição/ Exemplos


pergunta Efeitos
Abertas Permitem que a “O que você viu quando entrou na
pessoa que está loja?”
respondendo “O que aconteceu quando vocês
dê mais entraram no quarto?”
informações. “Você falou que o autor era um
homem. Descreva ele para mim.”
Fechadas Limitam a “Era manhã, tarde ou noite quando
resposta entre o fato aconteceu?”
sim / não ou a “Você estava no quarto ou na
escolha entre sala quando o seu tio veio falar
uma alternativa. contigo?”
Restringe o relato
espontâneo.
Múltiplas Várias questões “Você viu o rosto do assaltante? Ele
colocadas foi agressivo? O que ele falou?”
simultaneamente “Quando isso aconteceu? Ele bateu
que acabam em você? Você tentou reagir?”
por confundir o
entrevistado.
Tendenciosas/ Conduzem o “Tendo em vista que o Borracha
Sugestivas entrevistado a é um bandido foragido e no
uma determinada momento dos fatos estava nas
resposta, imediações, você não acha que ele
podendo produzir possuía algum envolvimento com o
falsos relatos. crime?”
“O que ele fez quando te empurrou
para cama?” (a vítima não disse que
o perpetrador a havia empurrado
para a cama)

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 165


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 153-170,
jul./set. 2014.
Confirmatórias/ Procuram “Então você está me dizendo que
Inquisitivas confirmar aquilo viu aquele seu vizinho no local
que foi dito ou do crime?” (quando a testemunha
uma hipótese falou que a pessoa do local do
levantada pelo crime lembrava o vizinho)
entrevistador.
Quadro 2 – Tipos de perguntas e suas características.
Fonte: Milne (2004), Stein; Pergher; Feix (2009) e Stein et al. (2010).

2.3.1.5 Fechamento

Na fase de fechamento, o entrevistador verifica se houve


claro entendimento sobre o que o depoente reportou. Caso
necessário, volta a entrevista para o ponto que for preciso. Nessa
etapa o entrevistador fará também uma síntese do diálogo e o
entrevistado terá então uma oportunidade de adicionar detalhes
ou identificar distorções presentes no resumo (PINHO, 2006
apud STEIN et al., 2010).
Fisher e Geiselman (1992 apud STEIN et al., 2010),
destacam que o entrevistador deve deixar um canal aberto
de comunicação com o entrevistado, para o caso de ele vir a
recordar detalhes não relatados na entrevista.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na busca de depoimentos com maior qualidade, uma


especial atenção merece ser concedida à utilização da técnica
de entrevista cognitiva. Como vimos, a entrevista cognitiva
não consiste numa enxurrada de perguntas, mas sim num
meio técnico de proporcionar ao depoente uma atmosfera de

166 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 153-170,
jul./set. 2014.
segurança para que ele possa relatar da forma mais precisa
possível o evento pelo qual passou ou presenciou.
Uma das principais vantagens da entrevista cognitiva
consiste na redução das ocorrências de falsas memórias, devido
à diminuição do uso de perguntas impróprias e/ou sugestivas.
Stein et al. (2010, p. 223) indicam outro ponto que
precisa ser considerado: a redução do número de depoimentos
prestados. Os depoimentos conduzidos por profissionais
bem treinados coletam todas as informações necessárias à
investigação em poucas entrevistas. Dessa forma, também se
reduz a ocorrência de contaminação dos relatos com falsas
memórias. Em cada ocasião que uma vítima, por exemplo,
é obrigada a repetir um depoimento, seja por dúvidas não
esclarecidas no depoimento anterior, seja por técnicas de
entrevista mal utilizadas, a vítima acaba por recordar os
momentos desagradáveis e passa pelo doloroso processo de
revitimização.
Ainda sobre as entrevistas cognitivas, Stein et al. (2010,
p. 224) apresentam algumas limitações de ordem prática: a)
necessidade de treinamento extensivo dos entrevistadores e
que envolve custos; b) exigência de algumas condições físicas,
porém comuns a quaisquer outras modalidades (ambiente
confortável e silencioso, tempo de entrevista) e tecnologias
(gravação em áudio e vídeo) adequadas e; c) necessidade de um
certo nível de capacidade cognitiva, por parte do entrevistado,
para aplicação dessas técnicas.
As limitações de ordem física e de treinamento podem ser
facilmente superadas com a adoção de políticas de segurança
que visem à eficiência da ação policial. Seger e Lopez Júnior
(2012) consideram também a relação custo-benefício da
técnica, acreditando que uma prova oral obtida com maior

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 167


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 153-170,
jul./set. 2014.
qualidade, por meio de entrevista cognitiva, favorece um
avanço social imensurável, o que, de certa forma, compensaria
eventuais desvantagens da técnica.
No Brasil, bem como em qualquer parte do mundo, não
há mais espaço para amadorismos e ações inconsequentes. No
âmbito da segurança pública, cada vez mais o conhecimento
científico e as tecnologias vêm sendo utilizados. Da mesma
forma, os policiais e outros profissionais da segurança pública
têm cada vez mais atuado dentro da técnica e, sempre que
possível, também produzido e divulgado novos conhecimentos.
Essas interações e trocas proporcionam ganhos tanto
para a Ciência, como para o mundo do trabalho. De sua parte,
a atividade de inteligência policial encontra na entrevista
cognitiva uma importante aliada na busca da verdade. A
verdade, no caso, consiste na base para a realização da justiça.
E justiça, o que será? A quê e a quem serve o que supomos que
seja justiça? Parece estar aí um valioso e instigante tema para
novas pesquisas e reflexões.

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170 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 153-170,
jul./set. 2014.
A PERCEPÇÃO CONCEITUAL ENTRE
INTELIGÊNCIA E INVESTIGAÇÃO POLICIAL

Luiza Carla Noetzold Teixeira das Neves1


Joanisval Brito Gonçalves2

RESUMO
No âmbito da Secretaria de Segurança Pública, a atividade de Inteligência
Policial e Investigação Policial são atividades distintas e que se completam,
mas suas finalidades e interpretação ainda são confusas pelo leitor,
enredando aos agentes e à instituição policial ao equívoco constante diante
de um serviço altamente especializado. O objetivo geral deste estudo é
esclarecer a miscigenação de interpretação da atividade de Inteligência
Policial e Investigação Policial.

Palavras-chave: Inteligência, investigação criminal, inteligência policial.

ABSTRACT
At the Brazilian States Public Security Bureaus, the activitis of Police
Intelligence and Investigation Officer are distinct, but complementary.
However, the perception of their purposes and its interpretation is still
confused amongst public authorities in Brazil. The aim of this study is to
contribute to a better comprehension of the differences between Police
Intelligence and Police Investigation.

Keywords: Intelligence, police investigation, criminal intelligence.

1 Luiza Carla Noetzold Teixeira das Neves é Bacharel em Direito,


especializada em Inteligência Criminal. Policial Militar na Polícia Militar
Ambiental de Herval d’ Oeste/SC. E-mail para contato: escrevapraluiza@
gmail.com
2 Joanisval Brito Gonçalves é Doutor em Relações Internacionais pela
Universidade de Brasília, especializado em Inteligência. Consultor
Legislativo do Senado Federal, é também professor do Curso de
Especialização em Inteligência Criminal da Universidade do Alto-Vale do
Itajaí (UNIDAVI). E-mail para contato: joanisval@gmail.com.

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 171


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 171-195,
jul./set. 2014.
1 INTRODUÇÃO

No Brasil é comum a miscigenação na interpretação


de informações transmitidas no noticiário policial. Neste
trabalho, procura-se mostrar a diferença que há entre atividade
de Inteligência Policial e Investigação Policial. No tocante ao
assunto, Couto (2010) comenta que há distorção na missão de
ambas as atividades, uma vez que são distintas, mas comumente
a publicação em jornais, revistas, nos canais televisivos ou
virtuais trata como sinonímias.
Identificar os possíveis equívocos praticados na
miscigenação dos binômios é fundamental, somente assim,
mediante o desenvolvimento de novos estudos poderão ajudar
a corrigir, no momento presente e futuro, para esclarecer essa
confusão, fazendo com que seja veiculado o noticiário correto,
sobre o real trabalho realizado pela Secretaria de Segurança
Pública, remetendo o expectador ao correto entendimento
(ROSITO, 2006).
A escolha deste tema se justifica pela repercussão
distorcida da missão das atividades de Inteligência Policial
e Investigação Policial nos diversos canais de circulação de
notícias no Brasil. Normalmente, o trabalho de reportagem
confunde os termos Investigação Policial e Inteligência
Policial, motivando a necessidade de afastar a miscigenação
de interpretações, que geram consequências para a Segurança
Pública. Com base nesse fundamento, Martins Júnior (2011, p.
1), aponta,

É de uso comum, na veiculação de notícias policiais na mídia,


a expressão “inteligência”, como se fosse […] sinônima de
“investigação”. Ações realizadas sob tal rotulação muitas

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 171-195,
jul./set. 2014.
vezes vêm a demonstrar de público, que instituições que não
possuem prerrogativas investigativas têm tentado se arvorar
da posição que, por ordem constitucional e legal, é reservada
às Polícias Judiciárias.

Pesquisadores como Dantas e Souza (2007) comentam


sobre a diferença que existe entre atividade de Inteligência
Policial e atividade de Investigação Policial, embora sutil. A
Investigação Policial tem como função subsidiar a persecução
penal, ao passo que a Inteligência Policial serve para executar
as atividades de Segurança Pública.
Para Fernandes (2006), as duas atividades possuem
semelhanças e por isso exigem que sejam adequadamente
delimitadas, identificando os pontos de incongruência sobre a
Atividade de Inteligência quando veiculados.
Nesta abordagem procura-se tratar da Doutrina Nacional
de Inteligência da Segurança Pública (DNISP) brasileira e
investigar a influência que exerce na miscigenação entre os
conceitos e como a Secretaria de Segurança Pública lida com
essa confusa rede de entendimentos.
Como problema de pesquisa procura-se elucidar a
principal finalidade das atividades de “Inteligência Policial”
e “Investigação Policial” na execução dos serviços praticados
pela Secretaria de Segurança Pública no Brasil e analisar os
impactos quando veiculadas erroneamente.
Nesta abordagem procura-se analisar a confusão entre
os conceitos veiculados em matérias escritas ou transmitidas
em jornais televisivos ou no rádio, para identificar a percepção
errônea que se tem sobre as atividades de Inteligência e
Investigação Policial. Parte-se desses argumentos para
investigar: Quais os principais impactos da miscigenação de

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 173


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 171-195,
jul./set. 2014.
interpretação dos termos “Inteligência Policial” e “Investigação
Policial”, produzida e veiculada em matérias escritas ou
faladas?
Como objetivo geral procura-se identificar a miscigenação
conceitual na interpretação entre a atividade de “Inteligência
Policial” (AIP) e a atividade de “Investigação Policial” (AIP)
para mostrar a diferença que existe quanto aos fins.
Como objetivos específicos procura-se conceituar as
atividades e apontar a semelhança/dessemelhança; Analisar
os equívocos praticados quanto à interpretação e demonstrar
como essa confusão repercute nos fins a que se destinam.
No desenvolvimento deste estudo emprega-se o método
de revisão lógico-dedutivo, para apresentar os conceitos e
definições, possibilitando esclarecer a confusão no emprego
dos termos em matérias veiculadas nos diversos meios
de transmissão de notícias - escritos ou falados e elucidar
semelhanças e dessemelhanças conceituais.

2 INTELIGÊNCIA EM SEGURANÇA PÚBLICA

2.1 SEGURANÇA PÚBLICA

No Brasil, a segurança pública (SP) tem como escopo


fundamental proteger a sociedade e o Estado, com visão
social e inovadora dá continuidade aos preceitos contidos na
Constituição da República Federativa do Brasil (1988) que,
pautada na ética e no respeito aos princípios constitucionais,
trabalha para combater a violência, em contextos isolados ou
coletivos, em ações violentas de criminalidade, roubo, furto,

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 171-195,
jul./set. 2014.
tráfico de drogas ou entorpecentes ou problemas que integram
as vivências sociais.
Como integrante das políticas públicas, procura atender
os diferentes sujeitos, suas diferenças sociais em contextos
multiformes, centralizada no ser social, suas desigualdades e
mazelas, assegurando o controle e harmonia para que o sujeito
possa ter livre passagem e direito em expressar-se livremente.
Os serviços ofertados pela Secretaria de Segurança
Pública contemplam a organização e manutenção do
policiamento ostensivo com o dever de proteger a população
nas relações entre sujeitos, para combater atos praticados
contra o Estado e contra o cidadão.
As comunidades e o Estado, em conjunto, se esforçam
para reduzir a criminalidade e os atos violentos cometidos
por criminosos ou organizações criminosas, evitando que as
ações violentas se propaguem no meio social, com a adoção
de estratégias alternativas, desenvolvidas mediante a análise
diagnóstica, com projetos centralizados e regionais. As
políticas de segurança pública são essenciais ao Estado e ao
cidadão e devem pautar-se no seguinte pressuposto,

As políticas devem ter metas claras e definidas, que


devem ser alcançadas através de medidas confiáveis para a
avaliação desses objetivos e pelos meios disponíveis para
sua realização de forma democrática. A condição desejável
a ser perseguida pode consistir na redução de alguns
tipos de crimes específicos a um custo razoável para sua
implementação (BEATO FILHO, 1999, p. 10).

Beato Filho (1999, p. 10) comenta que as políticas de


segurança pública envolvem componentes informacionais

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 175


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 171-195,
jul./set. 2014.
e técnicos, programas, projetos, métodos analíticos de
monitoramento, avaliação de performance e desempenho.
A formulação de problemas resulta em alternativas, ações e
resultados com avaliação, monitoramento, recomendações e
estruturação do melhor custo/benefício possível, efetividade,
eficiência e equidade. Desta forma, são necessários métodos
de monitoramento e avaliação permanente no trabalho policial
visando promover maior eficiência e equidade. No Brasil, a
proposição de políticas de segurança pública é um movimento
social, individual e coletivo, principalmente, porque o crime
resulta de ações que emergem no próprio campo social,
praticado pelo individual ou um coletivo de indivíduos.
Os fatores socioeconômicos podem impedir o acesso do
sujeito aos meios legítimos de sobrevivência, bloqueando o
emprego, trabalho, educação, qualificação profissional, renda,
saúde e segurança, restringindo às oportunidades de trabalho
que permanecem marginalizadas, restando o crime como meio
de vida. De acordo com Beato Filho (1999, p. 10):

A deterioração das condições de vida se traduz no acesso


restrito de alguns setores da população a oportunidades
no mercado de trabalho e de bens e serviços, assim como
na má socialização a que são submetidos nos âmbitos:
familiar, escolar e na convivência com subgrupos desviantes.
[...] Propostas de controle da criminalidade passam,
inevitavelmente, tanto por reformas sociais de profundidade
como por reformas individuais voltadas a reeducar e
ressocializar criminosos para o convívio em sociedade.

No entendimento de Ferro Júnior (2010), o termo


segurança pública é um binômio indissociável e nessa esfera a

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 171-195,
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Inteligência é o segundo elemento mais importante que, além
de ser uma necessidade premente opera com competência e
com profissionais especializados, utilizando a Tecnologia
da Informação como instrumento para gerar conhecimentos,
em delitos ou ações complexas que representem ameaça
ou possível ameaça à sociedade e ao Estado, resultantes do
crime estruturado. A atividade de inteligência dá suporte às
investigações dos crimes produzidos em massa e procura
assegurar melhores condições para a atividade operacional
do homem da ponta da linha, representada pelo policial
investigador ou policial ostensivo em contato com o criminoso.
A Inteligência em segurança pública significa uma,

[...] atividade permanente e sistemática, via ações


especializadas que visa identificar, acompanhar e avaliar
ameaças, reais ou potenciais, sobre a segurança pública e
produzir conhecimentos e informações que subsidiem o
planejamento e a execução de políticas de Segurança Pública,
bem como ações para prevenir, neutralizar e reprimir atos
criminosos de qualquer natureza, de forma integrada e em
subsídio à investigação e à produção de conhecimentos
(ALVES, 2011, p. 13).

A inteligência policial atua de forma sistêmica na


organização e contempla as necessidades operacionais,
como atividades de assessoramento da investigação criminal,
desenvolvendo técnicas e habilidades para monitorar o
crime visando dar maior efetividade da ação policial. O
monitoramento visa observar fatos e atos, produzindo
conhecimento antecipado sobre os eventos criminosos com
ações proativas rumo à promoção de alertas na tomada de

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 177


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 171-195,
jul./set. 2014.
decisão (FERRO JÚNIOR, 2010).

2.2 INTELIGÊNCIA

Para esta abordagem interessa somente entender a


Inteligência relacionada à Segurança Pública para a guarda e
proteção do Estado e da sociedade. A Lei no. 9.883, de sete de
dezembro de 1999 criou a Agência Brasileira de Inteligência
(ABIN) e instituiu o Sistema Brasileiro de Inteligência
(SISBIN), cujo art. 2o, da referida Lei a define como sendo,

[...] a atividade que objetiva a obtenção, análise e


disseminação de conhecimentos, dentro e fora do território
nacional, sobre fatos e situações de imediata ou potencial
influência sobre o processo decisório e a ação governamental
e sobre a salvaguarda e a segurança da sociedade e do Estado
[...].

No entendimento de Freitas (2004), a atividade de


Inteligência é uma ação constante, concernente ao passado,
presente ou futuro. No entendimento de Alves (2011, p. 11),

A Inteligência é a atividade de exercício permanente e


sistemático de ações especializadas orientadas, basicamente,
para a produção, difusão e salvaguarda de conhecimentos
necessários ao assessoramento para a decisão dos
planejadores, nos respectivos níveis de decisão (Político,
Estratégico, Tático e Operacional), campos de atuação e
fontes utilizadas.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 171-195,
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De acordo com a Rosito (2006), o termo inteligência
envolve uma atividade, o produto-alvo da atividade a ser
investigada e as unidades organizadas para o fim a que se
propõe (órgãos, departamentos, núcleos, seções, etc.) a
atividade objeto de investigação. De acordo com Martins
Júnior (2011, p. 2), inteligência vem ser,

[…] a produção do conhecimento para auxiliar na decisão.


[…] não é uma instância executora, faz levantando de dados
e informes, produz conhecimento para alguém em nível mais
elevado de hierarquia, toma ou não, determinada decisão ou
ação. […] possui um ciclo próprio: demanda - planejamento
– reunião – coleta – busca – análise – avaliação – produção
– difusão - feedback.

As diversas organizações contemporâneas, sejam elas


públicas ou privadas, fazem uso permanente da atividade
de inteligência em segurança pública, seja para investigar
fatos, atos ou como forma estratégica para aprimorar e/ou
potencializar os resultados das tarefas inerentes ao sistema.
No setor privado a atividade de inteligência é conhecida
como inteligência competitiva, conhecida também por
inteligência empresarial3. Na esfera pública, com foco na

3 De acordo com o Glossário de Inteligência Competitiva, a atividade de


inteligência pode ser definida como o: processo que tem como objetivo de
produzir inteligência para a tomada de decisão ou desenvolver atividades que
objetivam negar a um ator a possibilidade de levantar dados e informações
por meio de coleta/busca sobre o modo de agir de outro autor. Constitui-
se processo informacional proativo e sistemático, que visa a identificar os
atores e as forças que regem as atividades da organização, reduzir o risco
e conduzir o tomador de decisão à melhor posicionar-se em seu ambiente,

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 179


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 171-195,
jul./set. 2014.
Segurança Pública, é um instrumento utilizado para combater o
crime organizado. Gonçalves (2011, p. 19) conceitua o termo,
utilizando a abordagem de Gill e Mark Phytian,

“Inteligência” é o termo geral para um amplo espectro de


atividades – do planejamento e da reunião de informação
à análise e à disseminação de conhecimento – conduzidas
em segredo e com o propósito de manter ou aumentar
a segurança, por meio da antecipação de ameaças ou
potenciais, de maneira a permitir a implementação oportuna
de políticas ou estratégias preventivas ou o recurso, quando
necessário, a atividades clandestinas”.

Note-se que as atividades de inteligência envolvem


um ciclo e estão profundamente relacionadas à inteligência,
segredo, proteção contra ameaça e assessoramento estratégico
do processo decisório.

2.2 INTELIGÊNCIA POLICIAL

O serviço de Inteligência Policial é responsável pela


produção de informações permanentes e o seu devido
tratamento, transformando-as em dados possíveis de leitura,
de conteúdos obtidos de fontes diversas, de forma a gerar

bem como proteger o conhecimento sensível gerado. Caracteriza-se pela


coleta, busca de dados/informações que os outros não estão vendo – quer
porque estão ocultos e/ou desconexos, quer porque estão camuflados ou
mesmo distorcidos -, e sua posterior análise e identificação de impactos
(apud GONÇALVES, 2011, p. 19).

180 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 171-195,
jul./set. 2014.
conhecimento e feedback para aquele que está no comando
(decisor hierárquico) e que detém poder para decidir se tais
informações são suficientes, se requerem aprofundamento ou
redirecionamento de complementação (MARTINS JÚNIOR,
2011).
Na medida em que a atividade de Inteligência se difunde
em meio às reportagens e noticiários veiculados nas diversas
produções de informações no Brasil, se tornam confusas e
confundem os ouvintes do rádio e da TV, leitores de jornais,
revistas e artigos disponibilizados na Internet. É comum ouvir
noticiários com reportagens veiculadas de atividades puras de
investigação policial, conforme Martins Júnior (2001), mas
apresentadas equivocadamente como atividade de Inteligência
Policial.
De acordo com o art. 1o., Decreto no. 3695/2000,

Art. 1º. Fica criado, no âmbito do Sistema Brasileiro de


Inteligência, instituído pela Lei no 9.883, de 7 de dezembro
de 1999, o Subsistema de Inteligência de Segurança Pública,
com a finalidade de coordenar e integrar as atividades de
inteligência de Segurança Pública em todo o país, bem como
suprir os governos federal e estaduais de informações que
subsidiem a tomada de decisões neste campo.
[...]
Art. 4º. Compete ao Conselho Especial:
I - elaborar e aprovar seu regimento interno;
II - propor a integração dos Órgãos de Inteligência de
Segurança Pública dos Estados e do Distrito Federal ao
Subsistema;
III - estabelecer as normas operativas e de coordenação
da atividade de inteligência de segurança pública;
IV - acompanhar e avaliar o desempenho da atividade de
inteligência de segurança pública; e
V - constituir comitês técnicos para analisar matérias

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 181


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 171-195,
jul./set. 2014.
específicas, podendo convidar especialistas para opinar
sobre o assunto.

A agilidade e a eficiência na tomada de decisão demandam


de conhecimento e perícia para obter informações em tempo
recorde, favorecendo aos tomadores de decisão da Inteligência
Policial, que utilizando métodos e técnicas peculiares, coletam
dados e informações (dados tratados) servindo como aliados
para a investigação policial (DANTAS, 2013).
A atividade de “Inteligência Policial”, segundo a
Doutrina Nacional de Inteligência de Segurança Pública
(DNISP), idealizada pela Secretaria Nacional de Segurança
Pública do Ministério da Justiça (SENASP/2009) dispõe que
sua atuação se volta à prevenção e produção de conhecimento,
resultante da análise de padrões e tendências visando antecipar
situações futuras. Tem como objetivo servir de base para os
órgãos competentes, elaborar planos de ação de prevenção de
atividades policiais e fatos delitivos que possam apresentar
qualquer vulnerabilidade para a Segurança Nacional Brasileira
(Estado, território ou município), onde o delito ocorreu. Atua
em favor da repressão e produção de conhecimento para
assessorar a investigação policial.
A Lei Federal no. 9.883/1999 instituiu o Sistema Brasileiro
de Inteligência, criou a Agência Brasileira de Inteligência,
Diploma que entende como inteligência a atividade que
objetiva obter, analisar e disseminar o conhecimento dentro e
fora do território nacional, sobre fatos e situações imediatas ou
não, com potencial influência sobre o processo decisório, ação
governamental, segurança da sociedade e do Estado brasileiro
para salvaguardá-lo integralmente.

182 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 171-195,
jul./set. 2014.
A atividade de Inteligência se caracteriza pela busca
incessante de dados e informações, a fim de fornecer
subsídios ao tomador de decisão, para propor ações concretas
e fundamentadas na segurança pública. É um instrumento de
produção de conhecimento por meio do qual se buscam dados
e, através de uma metodologia específica, transforma-os em
conhecimento, servindo como base para que o chefe tome a
decisão mais coerente e correta possível.
No entendimento de Freitas Lima (2004), a Inteligência
Policial serve para praticamente todo tipo de atividade humana,
ao passo que a Investigação Policial tem uma atuação restrita
a apuração de irregularidades. O ciclo da Inteligência Policial
é linear, ao passo que o ciclo da Investigação pode sofrer
variação de etapas e sua captura ocorre em qualquer uma das
fases.
Hammerschmidtet al. (2012) comentaram que o crime
transnacional utiliza técnicas operacionais díspares para
mascarar suas atividades, expandindo-se assustadoramente em
todos os segmentos sociais. E em virtude da complexidade e
amplitude das atividades criminosas (interna e transnacional),
ações empreendidas para no combate do crime organizado
pouco tem resolvido, embora com atividades exclusivas e
caráter ostensivo.
No entendimento deste mesmo autor, pelo
posicionamento geoestratégico do Brasil e por assumir
dimensões intercontinentais constitui um ponto logístico
e operacional para os grupos criminosos, instalando-se e
projetando-se, originados de grupos transnacionais. As
Secretarias Estaduais de Segurança Pública contrapõem-se
reativamente e desenvolvem estruturas de Inteligência para
serem empregadas no combate do crime organizado. Na

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 183


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 171-195,
jul./set. 2014.
atualidade, motivada na Doutrina Nacional de Inteligência de
Segurança Pública (DNSP) somente ser aprovada em 2009,
atua de forma incipiente.
No Brasil, a atividade de Inteligência é fundamental contra
ações criminosas e fornecimento de dados úteis na repreensão
de delitos, no estabelecimento de cenários e estratégias para
atuar nas áreas da segurança pública e institucional. As ações
de Inteligência devem ser integradas e favorecer a proteção do
conhecimento, coordenação, controle e fiscalização no sentido
de proporcionar condições para trabalho de seus profissionais.

2.3 INVESTIGAÇÃO POLICIAL

A Investigação policial é responsável pelo levantamento


de indícios de provas ou provas já materializadas, que
conduzam ao esclarecimento de fato delituoso com atuação
restrita a evento criminal único ou em crimes relacionados.
A atividade de Investigação criminal independe da vontade
do administrador, volta-se à análise dos fatos consumados,
para a qual o administrador seria impotente para esclarecer
(MARTINS e JÚNIOR, 2011).
O ciclo de investigação policial passa por alguns ciclos,
sendo primeiro o delito ocorrido, depois o conhecimento sobre
o fato delituoso pela autoridade competente, posteriormente,
pelo levantamento, momento em que investigadores
buscam indícios do delito, provas documentais, periciais ou
testemunhais, que a autoridade avalie se o levantamento
efetuado é pertinente ao caso ou não; onde os investigadores
capturam eprendem, caso haja convencimento de suspeitos
culpados ou infratores; envolve a produção de conhecimento,

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 171-195,
jul./set. 2014.
momento em que a autoridade produz a peça acusatória.
No entendimento de Lima (2004), a Inteligência policial
não é executora no levantamento de dados e informações,
com ciclo próprio, alguém com hierarquia superior toma ou
não, determinada decisão ou ação. O papel fundamental da
atividade de Inteligência policial é prevenir e repreender ações
criminosas, produzindo conhecimento para auxiliar e assessorar
aos tomadores de decisões e atua como contrainteligência.
Segundo a Doutrina Nacional de Inteligência de
Segurança Pública (DNISP), trata-se de Atividade em
Segurança Pública, destinada a produzir conhecimento para
proteger a atividade de Inteligência e o Estado como instituição
visando salvaguardar dados coletados, informações (dados
tratados), conhecimentos sigilosos, identificar e neutralizar
ações adversas de qualquer natureza. No entendimento de
Gonçalves (2011 p. 20), contrainteligência: [...] é a atividade
voltada à neutralização da Inteligência adversa (art. 3o.), tanto
de governos, como de organizações privadas.

Contrainteligência: atividade que objetiva salvaguardar


dados e conhecimentos sigilosos e identificar e neutralizar
ações adversas de qualquer natureza que constituam ameaça
à salvaguarda de dados, informações e conhecimentos de
interesse da segurança da sociedade e do Estado, bem como
das áreas e dos meios que os retenham ou em que transitem
(ALVES, 2011, p. 12).

A principal semelhança entre atividade de Inteligência


e Investigação Policial reside no fato que investigação e
inteligência abrangem processos de coleta e análise de

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 185


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 171-195,
jul./set. 2014.
informações sensíveis, instruindo na tomada de decisão do
Chefe do Poder Executivo, no âmbito da inteligência, ao
Delegado de Polícia, Promotor de Justiça ou Juiz Criminal,
na esfera da investigação. A inteligência policial não tem essa
limitação, qualquer demanda que se encaixe nos interesses do
usuário é suficiente para sua atuação.
No entendimento de Pacheco (2008), a investigação
criminal trata-se de um procedimento preliminar e tem caráter
administrativo, comum na Polícia Judiciária, zelosamente
ocupa-se em reunir um mínimo possível de provas, que permita
ao acusador pedir o início do processo penal. A investigação
policial se preocupa em averiguar a infração penal e sua autoria,
limita-se em agir quando de sua ocorrência, em fato penalmente
relevante. A investigação policial procura apurar infrações
penais na sua materialidade e a autoria se instrumentaliza com
o Inquérito Policial, fornece ao sujeito ativo da acusação, seja
o Ministério Público ou querelante, subsídios eficazes para
instaurar a ação penal.
A atividade de Inteligência e Investigação Policial produz
conhecimento e faz uso de métodos semelhantes, porém, o
que diferencia é a forma de como utilizam o conhecimento.
Assim sendo: “[...] dois ramos intrinsecamente ligados não
possuem limites precisos uma vez que se inter-relacionam e
independem” entre si (DNISP, 2009, p. 14).
Souza (2009) comenta que existem semelhanças
e dessemelhanças entre os conceitos de Inteligência e
Investigação policial. A inteligência se destaca pela sua
capacidade de gerar cultura organizacional e valorizar a
informação dentro da instituição, cuja doutrina promove força
para explorar e construir conhecimento em dada organização.
A investigação policial tem como objetivo instrumentalizar

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 171-195,
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a persecução penal, atividade preponderante em nível
operacional da organização policial de investigação.
Ferro Júnior (2008) comenta sobre a fundamental,

[...] necessidade de gerar informação e conhecimento de


forma mais rápida, em razão da complexidade e velocidade
que ocorrem os fenômenos criminais, vem impulsionando o
trabalho policial para a implementação de novos processos,
infraestrutura tecnológica com a edificação de um modelo de
gestão policial com suporte na inteligência da organização.
Este trabalho aborda os elementos de inteligência
organizacional (comunicação, memória, aprendizagem,
cognição e raciocínio) e sua utilidade estratégica para o
funcionamento de um sistema de fluxo de conhecimento,
possibilitando a propagação de conhecimento produzido
em todos os setores policiais, criando um ambiente
cumulativo e acessível por toda a organização policial (apud
HAMMERSCHMIDT et al., 2012, p. 153).

Inteligência e Investigação policial são similares,


podendo haver a integração e assessoramento entre uma e
outra, mas é importante reconhecer que não se confundem entre
si. A Investigação policial produz um conhecimento capaz de
instruir no processo judiciário, cuja missão esta ligada à busca
da verdade real, encontra provas e subsídios para comprovar
a materialidade do delito e em sede do Inquérito Policial sua
destinação final é a Autoridade Policial. Durante a persecução
penal seu destinatário é o Ministério Público, o qual opina
por oferecer ou não a denúncia, finalmente, em se tratando de
processo, o destinatário final é o Juiz que com base na juntada
de provas nos autos condena ou não o acusado.
Segundo Lima (2004), a Investigação Policial levanta

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 187


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 171-195,
jul./set. 2014.
indícios e provas que conduzam ao esclarecimento de fato
delituoso, onde o tomador de decisão é imponente e restrito
as informações levantadas visando instruir a peça acusatória,
que com natureza reativa e repressiva age no pós-crime. No
entanto, há crimes cuja peculiaridade aproxima a atividade
investigativa da atividade de Inteligência e sua consumação
se estende no tempo, a exemplo, o tráfico de drogas ilícitas e
armas (LIMA, 2004).
Na separação dos conceitos Costa (2011) entende que
ambos os institutos, cada qual de modo peculiar, utilizam
métodos científicos para buscar a verdade real, cujos métodos,
técnicas, ferramentas e instrumentos de busca podem se
transformar em um modelo único de comparação. A técnica
denominada observação funciona em sentido de vigilância na
inteligência e campana na investigação.
Para Martins Júnior (2010), as organizações policiais
e muito especialmente, as que são voltadas à atividade
investigativa percebem que administrar a informação se
caracteriza como uma importante estratégica utilitária, visto
a necessidade de se produzir conhecimento de forma célere e
com boa qualidade, justificada na velocidade com que ocorrem
os fatos, sugerindo que os processos de gestão da informação e
suporte da Inteligência da organização sejam implementados,
visando suprir deficiências tecnológicas.

2.4 MISCIGENAÇÃO INTERPRETATIVA ENTRE


INTELIGÊNCIA E INVESTIGAÇÃO

Segundo o SINDEPOL/PB: “o perigo do desvirtuamento


da inteligência de polícia judiciária e usurpação de funções

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 171-195,
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investigativas” ainda se mostra como um problema que deve
ser resolvido. No entendimento de Hammerschmidtet al.
(2012), a Atividade de Inteligência proporciona subsídios
na tomada de decisão dos chefes e comandantes dos órgãos
de Segurança Pública, essencial à boa governabilidade e
manutenção da segurança pública, nos períodos de guerra
e paz. No entanto, as matérias produzidas fazem confusão
com os binômios no tratamento da atividade de “Inteligência
Policial” (AIP) e “Investigação Policial” (AIP), induzindo
o leitor, telespectador ou radio-ouvinte brasileiro entender
erroneamente, não identificando o papel individual dessas
estâncias conceituais.
O apelo permanente à atividade de Inteligência pelo
Estado, para o combate do crime organizado não remete a um
entendimento concreto, até porque quando não há um inimigo
claramente identificável não será possível falar em guerra,
apenas em repressão. Isoladamente, a Inteligência não suporta
uma compreensão decifrável e a afirmativa enseja meandros
de confusão entre Inteligência e Investigação. Veja-se que
segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2011),

A todo o momento somos bombardeados com notícias de que


o “serviço de Inteligência” da polícia X ou Y teria detectado
isso ou aquilo. Na realidade, ocorre geralmente, uma
confusão entre o uso de escuta telefônica numa investigação
e o trabalho de Inteligência. Na maioria dos casos que vêm
a público, o que é apresentado como trabalho de Inteligência
nada mais é do que uma investigação policial um pouco mais
sofisticada.

No momento que se invoca o conceito legal de Inteligência

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 189


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 171-195,
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Mingardi (2006) reconhece que Inteligência (aplicada ao
Estado) e Inteligência (aplicada à Investigação) apresentam
semelhanças com a Inteligência policial. No entanto, divergem
quanto à abrangência e quanto aos meios empregados.
Baptista (2007, p. 116) apud FÓRUM BRASILEIRO DE
SEGURANÇA PÚBLICA (2011), comenta que,

Enquanto uma trabalha com várias áreas do conhecimento


(político, tecnológico, militar, etc.), a modalidade criminal
atua apenas na área da Segurança Pública [...] na obtenção
de conhecimento que ajude a tomada de decisões quanto
à repressão ou prevenção criminal. Quanto à questão dos
meios a Inteligência Criminal tem muito mais limitações
legais do que sua prima.

A Inteligência criminal preocupa-se com as limitações


legais, enquanto organismo de informações, ainda que respeite
as leis do país, não ocorrendo o mesmo com as investigações
que são produzidas no exterior.
Há uma espécie de interseção entabulada entre
inteligência-direito e inteligência policial-persecução penal,
rumo ao enquadramento dos meios e fins da Inteligência
ou Investigação empregada. A destinação das atividades
confrontadas trazem diferenças fundamentais nos critérios de
aceitabilidade sobre a verdade, seus objetivos, marco teórico e
regras formais de produção específica.
No processo penal a Inteligência objetiva buscar a
verdade processual e indispensável na tomada de decisão
judicial, quando empregada em uma atividade de Inteligência
destinada ao processo político o grau de aceitabilidade do
caráter de verdade é necessário na decisão política.

190 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 171-195,
jul./set. 2014.
Não há possibilidade jurídica de aproveitamento
probatório dos produtos de Inteligência no universo da
persecução penal, somente se observados condicionamentos
legais aplicáveis ao caso.
A possibilidade de uso dos produtos de Inteligência
decorre do princípio da liberdade probatória do processo penal,
que pode ocorrer mais intensamente na fase de investigação
criminal, tendo como finalidade servir como base para propor
ações penais e medidas cautelares pessoais (prisões provisórias,
busca e apreensão pessoal) e reais (sequestro, arresto, busca e
apreensão de coisas, entre outros).
No processo penal, considerando as normas probatórias
limitativas, tal como o princípio do contraditório, princípio
da ampla defesa, etc., a Inteligência apresenta limitações
mais acentuadas no âmbito ético (do que legal), ao passo
que investigação criminal apresenta mais limitações legais e
formais. Há um núcleo essencial nos Direitos Fundamentais
que jamais deve ser atingido na investigação criminal e nas
operações que envolvam Inteligência.
A Inteligência produz conhecimento de qualidade que
permite ao órgão e ao gestor tomar decisões estratégicas
acertadas. O segredo de determinadas matérias e do sigilo
funcional a que se submetem os agentes de Inteligência justifica
a impossibilidade de usar dados obtidos como elementos
probatórios em atividades de Inteligência, no âmbito do Direito
Processual Penal.
Tais elementos não são reconhecidos pelo Direito
Processual como probatórios ou investigativos por força
do sigilo intrínseco e legalmente imposto aos agentes de
Inteligência ou mesmo para matérias sigilosas.
O produto final da investigação criminal é útil na

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 191


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 171-195,
jul./set. 2014.
instrução do processo judicial, trabalho resultante das
operações de Inteligência, que tem como finalidade relatar
determinado conhecimento adquirido. A polícia cuida dos
problemas internos do país, ao passo que a Inteligência
volta-se para os problemas do exterior. Ao contextualizar a
delimitação de jurisdições entre os conceitos percebeu-se que
a Inteligência policial sugere que a atividade se afina mais com
a Investigação policial e não exatamente com a Inteligência
clássica.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No plano funcional a especialidade de Inteligência


policial se desdobra na estrutura organizacional da instituição,
por reclamar competências distintas daquela, disponível
entre policiais instruídos na arte da investigação policial
propriamente. As especificidades que distinguem as atividades
policiais de Inteligência e Investigação aconselham diferentes
padrões de recrutamento.
Neste trabalho foi possível perceber alguns danos com
base nos efeitos da miscigenação dos conceitos, repercutindo
no entendimento das atividades de Inteligência policial e
Investigação policial. Assim, não se pretende que os serviços
de Inteligência policial reprogramem seus expedientes
operacionais e analíticos para agregar algum valor probatório
no seu produto, implicando em privar-se da versatilidade
que confere à Inteligência, ou melhor, o poder de chegar a
resultados inacessíveis na investigação.
Tal análise é decisiva para o destinatário de Inteligência
policial e inservível sob o ponto de vista da investigação,

192 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 171-195,
jul./set. 2014.
cuja introdução no inquérito policial torna-se estéril e expõe
o policial a questionamentos, considerando a força do sigilo
nessa tese. Há que resguardar os Direitos Fundamentais como
recurso à Inteligência policial enquanto iniciativa precursora
e preparatória — devendo recorrer aos instrumentos da
investigação policial inerentes à aptidão probatória.
Os termos Inteligência policial e Investigação policial
não são definições estanques, mas com superfícies de contato
múltiplas — com encaminhamento de demandas entre as
atividades distintas, objeto de deliberação do usuário, que
melhor será quanto mais fundamentar-se em especificidades
conceituais basilares.
 

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Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 195


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 171-195,
jul./set. 2014.
IMPLEMENTAÇÃO DE PRÁTICAS DE
GOVERNANÇA NO COMBATE E PREVENÇÃO À
LAVAGEM DE DINHEIRO EM FUNÇÃO DA LEI
12.683/2012

Bruna Andrade da Silva 1


Marcelo Martins 2

RESUMO
O objetivo da pesquisa é evidenciar como as práticas de governança
podem contribuir para a prevenção e combate à lavagem de dinheiro,
após a alteração da Lei 9.613/98 pela Lei 12.683/2012. Trata-se de uma
pesquisa bibliográfica e documental, descritiva e exploratória, com
análise predominantemente qualitativa. Com o intuito de coibir a prática
de lavagem, foram criados regulamentos de prevenção e combate. No
Brasil em três de março de 1998 foi publicada a Lei 9.613/1998 impondo
obrigações aos setores alvo de lavagem, e criou-se o COAF- Conselho
de Controle das Atividades Financeiras, órgão responsável por receber
as comunicações suspeitas sobre o crime de lavagem de dinheiro dos
setores obrigados. Passados 14 anos, objetivando sanar diversas lacunas da
legislação anti-lavagem, em julho de 2012 publicou-se a Lei 12.683/12. A
nova lei veio a acrescentar e aprimorar a lei anterior, com a preocupação
de reprimir fortemente a lavagem de dinheiro no Brasil. O comparativo
realizado entre o número de comunicações encaminhadas ao COAF e a
emissão dos normativos dos órgãos reguladores, que tratam de práticas
de governança, comprovaram o impacto da regulamentação no aumento
das comunicações de operações suspeitas. Conclui-se que os órgãos
reguladores são de fundamental importância, tendo em vista o seu papel
fiscalizador e regulamentador no processo de prevenção e combate à
lavagem de dinheiro.

Palavras-Chave: governança, auditoria, controles internos, compliance,

1 Auxiliar Criminalístico. Pós-Graduada em Inteligência Criminal. E-mail:


bruna@ssp.sc.gov.br
2 Perito Criminal. Mestre em Gestão de Políticas Públicas. E-mail:
marcelomartins597@igp.sc.gov.br

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 197


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
lavagem de dinheiro.

ABSTRACT
The research’s intend is to show how public governance practices can
contribute to the prevention and decrease the money laundering, after
the changings of Law 9.613/98 through the Law 12.683/2012. It is a
bibliographic and documentary research, descriptive and exploratory,
with predominantly qualitative analysis. In order to curb the practice of
the money laundering, regulations were created to prevent and decrease.
In Brazil on March 3, 1998 was published the Law 9.613/1998 imposing
obligations to corrupted sectors, and created COAF-Board Control of
Financial Activities, the agency responsible for receiving suspicious reports
about money laundering crimes sectors required. After 14 years, aiming
to remedy various loopholes in anti-money laundering, in July 2012 was
published the Law 12.683/12. The new law has come to add and improve
the previous law, with strongly concern to repress money laundering
in Brazil. The comparison made ​​between the number of reports sent to
COAF and the of issues normative regulatory agencies, dealing with public
governance practices, documented the impact of regulation on the increase
of suspicious transaction reports. It is concluded that regulation’s agencies
are of fundamental importance, in view of its regulatory and supervisory
role in the process of preventing and decrease money laundering.

Keywords: governance, audit, internal control, compliance, money


laundering.

1 INTRODUÇÃO

A lavagem de dinheiro de acordo com dados do Escritório


das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes – UNODC (2010)
movimenta 5% do PIB mundial. Segundo Ferreira e Credencio
(2012) “uma rede criada pelo Ministério da Justiça conseguiu
identificar onze bilhões de reais movimentados por esquemas
de lavagem de dinheiro no Brasil de 2009 até junho do ano de
2012”. Todo esse dinheiro que é transitado foi obtido de forma

198 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
ilícita, e acaba financiando a criminalidade.
Com o objetivo de combater essa modalidade de crime
foi criada a Lei 9.613/1998 impondo obrigações aos setores
alvo, e o Conselho de Controle das Atividades Financeiras
– COAF que é responsável por receber as denúncias sobre o
crime de lavagem de dinheiro e investigá-las. Em dez de julho
de 2012, foi publicada a Lei 12.683, impondo controles mais
rigorosos para o crime de lavagem de dinheiro. A busca de
maior regulamentação é uma tendência mundial em paralelo
com a crescente aplicabilidade dos conceitos de governança
nas organizações.
A criação do COAF, a Lei 9.613/1998 bem como a
Resolução do Banco Central - BACEN nº 2.554/1998, a
Instrução nº 463/2008 da Comissão de Valores Mobiliários –
CVM, a Instrução nº 26/2008 da Superintendência Nacional
de Previdência Complementar - PREVIC, as Circulares nº
327/2006, 380/2008 e 445/2012 da Superintendência de
Seguros Privados – SUSEP, e a nova Lei 12.683/2012, objetos
de estudo desse trabalho, buscam evitar que os setores da
economia continuem fazendo parte das operações ilícitas.
Constata-se a partir de estudos que há impactos
na prevenção e combate à lavagem de dinheiro com a
implementação de auditoria, controles internos e compliance
(AMORIM, 2011) e pesquisas que sugerem que a governança,
bem como a função de compliance atuam fortemente junto às
instituições financeiras para mitigar riscos e evitar a lavagem
de dinheiro (Manzi 2008).
A identificação da relação de sucesso entre os
mecanismos utilizados pelos setores obrigados pela Lei
9.613/1998 e o resultado obtido na prevenção e combate à
lavagem de dinheiro fez surgir o seguinte questionamento:

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 199


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
como as práticas de governança podem contribuir para o
combate e prevenção à lavagem de dinheiro à luz das novas
exigências da Lei 12.683/2012?
O estudo identificou que a utilização da governança
aliada a rigorosos controles internos ocasionam impactos no
combate à lavagem de dinheiro, sobretudo nas instituições
financeiras onde existe uma maior cobrança por parte dos
órgãos reguladores. Após a alteração da Lei 9.613/98 pela
Lei 12.683/2012, incluíram-se novos setores regulados, a
implementação da governança em novos setores amplia a
possibilidade de prevenção ao crime de lavagem de dinheiro.
Tendo em vista a relevância do tema combate à lavagem
de dinheiro, bem como a pouca literatura a respeito dos
mecanismos que podem contribuir para evitar a ocorrência
desse crime o estudo em apreço se justifica.
Segundo Gonçalves (2011), a lavagem de dinheiro é um
dos principais alicerces do crime organizado. Com o aumento
de movimentação dos montantes com origem em crimes
como narcotráfico, corrupção e evasão de divisas os Estados
têm buscado desenvolver ações com foco na identificação de
delitos financeiros e produção do conhecimento através das
informações. A ação do Estado é chamada de inteligência
financeira. Assim, a inteligência financeira foi aprimorada para
conter a lavagem de dinheiro, e consequentemente o crime
organizado.

1.1 LAVAGEM DE DINHEIRO

De acordo com a Convenção de Viena de 1988, traduzido


por Teixeira (2009, p. 8-9), a lavagem de dinheiro é:
200 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:
Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
converter ou transferir propriedade, sabendo que tal
propriedade é derivada de crime [...] com o objetivo de
dissimular a origem ilícita da propriedade ou de assistir
qualquer pessoa que esteja envolvida no cometimento de
tal crime [...] para evitar as consequências legais de seus
atos; ocultar ou dissimular a natureza, fonte, localização,
movimentação ou propriedade de bens, sabendo serem
provenientes de crime; adquirir, possuir ou utilizar
propriedade, sabendo ser proveniente de um crime.

No que concerne Lavagem de Dinheiro, pode ser divida


de forma prática em três fases segundo Pitombo (2003):
ocultação, dissimulação e integração de recursos. A ocultação
é responsável pela inserção do dinheiro ilícito no sistema
financeiro. A fase seguinte, dissimulação, é responsável pela
divisão dos recursos ilícitos e sua posterior movimentação
no sistema econômico financeiro. A última fase do processo
segundo Elias (2005) é onde os recursos retornam ao sistema
econômico imunes de suspeitas sobre sua origem, podendo
assim ser utilizados como for mais conveniente ao seu
proprietário.
A teoria de Mandinger e Zalopany, de acordo com
Mendroni (2001) e Amorim (2009) entende que a lavagem de
dinheiro tenha surgido por meio da pirataria nas embarcações,
no século XVII, na Inglaterra. Segundo Lilley (2001), por
volta de 1920 nos Estados Unidos as quadrilhas compravam
lavanderias para fazer circular os recursos, daí surgiu então à
expressão “lavagem de dinheiro”.
A criminalização da lavagem de dinheiro já era exigida
no passado por vários instrumentos de direito internacional,
dentre eles o principal foi a Convenção de Viena em 1988,
após reunião da Organização das Nações Unidas (ONU).

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 201


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
A convenção tratou sobre o combate ao tráfico ilícito de
entorpecentes e substâncias psicotrópicas, por meio da
prevenção e repressão dos processos de lavagem de dinheiro.
As normas criadas a partir da Convenção de Viena são
classificadas em primeira, segunda e terceira geração baseadas
na designação do crime antecedente à lavagem de dinheiro.
O Brasil veio a desenvolver sua legislação apenas dez anos
após a Convenção de Viena com a Lei 9.613/98 de três de
março de 1998, classificada já como segunda geração devido
a discriminar os crimes antecedentes. A referida Lei dispõe
sobre os crimes de “lavagem” ou ocultação de bens, direitos e
valores; a prevenção da utilização do sistema financeiro para
os ilícitos previstos nesta Lei; cria o Conselho de Controle de
Atividades Financeiras - COAF, e dá outras providências.
A Lei 9.613/98 foi alterada em nove de julho de 2012
pela Lei 12.683/2012 para tornar mais eficiente à persecução
penal dos crimes de lavagem de dinheiro, e coloca a legislação
brasileira na terceira geração por alterar o rol taxativo dos
crimes antecedentes. Importante ressaltar que a nova Lei
12.683/2012 realiza atualizações, mas não revoga a Lei
9.613/98. Dentre as principais alterações ocorridas na Lei
podemos citar os crimes antecedentes e as pessoas sujeitas à
Lei, visualizadas no quadro a seguir:

202 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
Quadro 1- Tópicos Comparativos: Lei 9.613/98 e Lei
12.683/2013.
Tópicos
Lei 9.613/98 Lei 12.683/2013
Principais
Redação mais abrangente
ampliando a aplicação da
Previa lavagem de dinheiro
lavagem de dinheiro a
apenas quando os valores
crimes e contravenção
fossem provenientes de um
Crimes penal. Inclusão das
crime específico como tráfico
Antecedentes contravenções, jogos do
ilícito de drogas e armas,
bicho ou de azar passam
terrorismo, extorsão mediante
a ser considerados como
sequestro.
crime antecedente à
lavagem de dinheiro.
Ampliou o rol de
pessoas responsáveis
por comunicar qualquer
Definia como sujeitas a Lei
atividade suspeita de
apenas as pessoas jurídicas
Pessoas lavagem, incluindo
envolvidas com movimentação
Sujeitas à Lei pessoas físicas,
financeira, sem abranger as
profissionais do setor
pessoas físicas.
financeiro, de compra
e venda de imóveis,
advogados, entre outros.
Ampliação da
condenação, o
Ampliação da condenação, o perdimento de bens,
Multas e perdimento de bens, direitos e direitos e valores
Condenações valores deveriam ser objeto da necessitam apenas
lavagem de dinheiro. estarem ligados direta
ou indiretamente com a
lavagem de dinheiro.
Fonte: Adaptado da Lei 9.613/98 e Lei 12.683/2012.

Em síntese, o COAF (2012) aponta as principais


novidades da Lei 12.683/2012:

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 203


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
1 - a extinção da lista de crimes antecedentes, passando
a considerar agora qualquer infração penal como
antecedente da lavagem de dinheiro; 
2 - a inclusão da alienação antecipada de bens; 
3 - a permissão  da  delação premiada  a qualquer tempo,
mesmo após a sentença penal condenatória; 
4 - a inclusão de novos sujeitos obrigados às medidas preventivas,
tais como profissionais que prestem serviços de assessoria,
consultoria, auditoria, empresários de atletas e artistas,
comerciantes  de  bens  de  luxo, cartórios, juntas
comerciais, dentre outros; 
5 - a elevação do teto das multas, passando de R$ 200 mil
para R$ 20 milhões; 
6 - a inclusão  da  obrigação para que as pessoas físicas
ou jurídicas abrangidas pela  lei  reportem ao órgão
regulador de sua atividade ou, na sua falta, ao COAF, a não
ocorrência de situações passíveis de serem comunicadas.

As alterações na Lei da lavagem de dinheiro vêm em


encontro com a necessidade de transparência nas informações
divulgadas pelas organizações, e está ligada ao número de
denúncias que são encaminhadas ao COAF, pois amplia o rol
de crime antecedente bem como a abrangência das pessoas
sujeitas a Lei. Os números estatísticos divulgados pelo
COAF serão abordados pela autora na análise dos resultados.
Outro fator que impulsiona a quantificação de denúncias é
o aperfeiçoamento das técnicas de inteligência financeira
utilizadas pelo COAF.

1.2 GOVERNANÇA

O surgimento da Governança se deu nos Estados Unidos


na primeira metade dos anos 80, conforme dados do IBGC

204 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
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(2012), os acionistas sentiram a necessidade de se proteger dos
abusos da diretoria executiva das empresas, bem como seus
conselhos e auditorias externas. A Governança surge então
nesse contexto para superar o conflito de agência.
Agovernança é tema de normativos dos órgãos reguladores
dos setores alvo de lavagem de dinheiro. A Comissão de
Valores Mobiliários - CVM dispõe recomendações sobre
governança corporativa em 2002, onde define a governança
e suas aplicações práticas aos órgãos regulados “a análise
das práticas de governança corporativa aplicada ao mercado
de capitais envolve, principalmente: transparência, equidade
de tratamento dos acionistas e prestação de contas” (CVM -
Cartilha de Governança, 2002, p.1)
No Brasil, o IBGC (2009) descreve as linhas mestras
das boas práticas de Governança Corporativa como seu
Código Brasileiro das Melhores Práticas, relacionando-as
em quatro vertentes: a prestação de contas (accountability),
a transparência (disclosure), a eqüidade (fairness) e a
responsabilidade corporativa na conformidade com as regras
(compliance). O mesmo Instituto define três ferramentas de
governança: o Conselho de Administração, o Conselho Fiscal
e a Auditoria Independente.
A Superintendência Nacional de Previdência
Complementar - PREVIC define governança como o conjunto
de regras que devem ser difundidas e aplicadas em toda a
organização para que efetivem seus princípios com base no
valor e controle de riscos, para isso, promove o relacionamento
de participantes, conselhos, diretoria, auditores e consultores
na adoção das práticas de governança, monitoramento de
riscos, implementação e aperfeiçoamento de controles.
A Superintendência de Seguros Privados - SUSEP

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 205


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
apresenta práticas de governança regulando a aplicação de
controles internos por meio de suas resoluções. As práticas
de governança corporativa de instituições financeiras segundo
a Cartilha de Governança Corporativa da ABBC (2009, p.6)
“podem afetar o seu custo de capital, o desempenho de sua
gestão e a eficiência do seu processo decisório”.
O Quadro 2 aponta a convergência dos princípios
de governança corporativa nas instituições financeiras
relacionadas às exigências da legislação da lavagem de
dinheiro:

Quadro 2 - Relação entre Governança e Lavagem de


Dinheiro.
Aspectos Oriundos do Processo de
Princípios de Governança nas
Prevenção e Combate à Lavagem de
Instituições Financeiras
Dinheiro

Contribuir para a perenidade Redução do risco de insolvência da


da organização, pela ótica da organização pelo acompanhamento das
sustentabilidade e visão de longo operações e atualização do cadastro de
prazo. clientes.
Transparência e confiança para Redução do risco de imagem pela resposta
ambiente interno e externo. rápida e precisa às denúncias.
Equidade pelo tratamento
Sistema com filtros em bases legais, sem
uniforme sem existência de
oportunidade de dúbia interpretação.
política discriminatória.
Responsabilidade Corporativa
das instituições pela sua função Mecanismos de bloqueio de capitais
social, colaborando para relacionados a atividades ilícitas e
integridade do sistema financeiro, comunicação de indícios de lavagem de
inibindo atividades criminosas e dinheiro às autoridades competentes.
privilegiando atividades legais.
Implantação de controles internos que
Transparência das informações.
melhorem a qualidade das informações.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
Maior facilidade de acesso às
Implantação de controles relacionados à
informações requeridas pela
auditoria interna e externa.
auditoria independente.
Preservação da instituição Exigência de registro e controle de
quanto às situações de conflito de operações buscando inibir o envolvimento
interesses. da instituição em privilégios ilícitos.
Treinamento e divulgação das normas
Disseminação de valores
de prevenção e combate à lavagem de
referente ao código de conduta.
dinheiro.
Fonte: Adaptado de Machado, 2006.

A importância da governança nas instituições financeiras


possui reconhecimento mundial, acordos internacionais, como
Basiléia I firmado em 1988, busca a mitigação dos riscos aos
quais está exposto esse tipo de organização. O novo acordo de
capitais Basiléia II de 2004 coloca as práticas de governança
como um de seus pilares. As práticas de governança aplicadas
aos setores alvo da lavagem de dinheiro são fundamentais para
adequação das organizações às exigências legais e do mercado
em que está inserido, fato esse que aumenta a relevância dos
mecanismos de controles internos, auditoria e compliance,
responsáveis por alinhar os interesses da sociedade e das
instituições.

1.3 CONTROLES INTERNOS, AUDITORIA E


COMPLIANCE

De acordo com Almeida (2009, p. 63), o “controle interno


representa em uma organização o conjunto de procedimentos,
métodos ou rotinas com os objetivos de proteger os ativos,
produzir dados contábeis confiáveis e ajudar a administração na
condução ordenada dos negócios”. Moltocaro (2000) elucida

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 207


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
que fortes controles podem minimizar os riscos de crédito,
como também os inerentes à imagem da instituição. Uma
organização utilizada para lavagem de dinheiro certamente
perderia sua credibilidade no mercado.
Os controles internos são revisados de maneira constante
pela técnica de auditoria. Segundo Attie (2009, p. 25) a
auditoria é: “voltada a testar a eficiência e eficácia do controle
patrimonial implantado com o objetivo de expressar uma
opinião sobre determinado dado.” A auditoria é responsável por
verificar testes práticos e assim poder avaliar a funcionalidade
dos controles internos e compliance, identificando as
inconformidades que podem ser corrigidas e por consequência
auxiliando a prevenção aos crimes de lavagem de dinheiro em
instituições financeiras.
A auditoria visa prevenir situações propiciadoras de
fraudes, simulações, desfalques, dentre outras, por técnicas
próprias. Segundo Amorim (2009, p.47) “nas Instituições
financeiras brasileiras, há a exigência de auditoria dos controles
internos e compliance, de acordo com a Resolução do Banco
Central do Brasil n° 2.554/98”.
A Circular n° 3.461/09 do BACEN determina às
instituições autorizadas a funcionar pelo Banco Central do
Brasil que implementem controles objetivando prevenir
os crimes tratados na Lei 9.613/98, e que os mesmos sejam
auditados pelo menos uma vez ao ano. Manzi (2008) aponta a
intersecção entre a compliance e a auditoria, segundo a autora
a auditoria é responsável por analisar o nível de conformidade
com as normas, mas realiza isso por amostragem. A compliance
deve ocorrer de forma permanente e preocupar-se em tratar os
casos que não estão em conformidade.
O compliance surgiu com a criação do Banco Central

208 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
Americano em 1913, buscando uma maior segurança no
sistema financeiro, como uma forma de mitigação de riscos.
Para Manzi (2008, p. 15) “O termo compliance origina-se do
verbo em inglês to comply, que significa cumprir, executar,
satisfazer, realizar algo imposto. Compliance é o ato de
cumprir, de estar em conformidade e executar regulamentos
internos e externos, impostos às atividades da instituição,
buscando mitigar o risco atrelado à reputação e ao regulatório
legal”
A discussão sobre ética dentro da organização é vista por
Manzi (2008) como uma das peças fundamentais da compliance,
além de garantir a conformidade com as leis e políticas que
cercam a organização. O autor ainda afirma que “não se pode
falar em governança corporativa e sustentabilidade sem se
referir à ética e consequentemente considerar a importância
de compliance” (Manzi, 2008, p. 123). O ambiente ético,
com controles internos e enfoque em transparência torna a
compliance um dos pilares da governança.
É possível concluir que direta ou indiretamente a
ocorrência do risco de compliance irá resultar em perda
financeira, pois sanções ou mesmo denúncias que colocam em
dúvida a credibilidade da instituição terão reflexo direto em seu
faturamento, principalmente no que se refere às instituições
financeiras.

2 METODOLOGIA

Esta pesquisa consiste em três fases para sua realização.


A primeira é a fundamentação teórica, a qual foi realizada por
meio de levantamento bibliográfico direto e indireto. Segundo

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 209


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
Marconi e Lakatos (2003, p.51), a pesquisa bibliográfica “não
é mera repetição do que já foi escrito sobre certo assunto, mas
propicia o exame de um tema sob novo enfoque ou abordagem,
chegando a conclusões inovadoras”. Nessa fase ocorreu a
obtenção de dados secundários de livros, sítios eletrônicos e
outros trabalhos publicados na área.
A pesquisa bibliográfica foi efetuada com base na
mudança da legislação que se refere à lavagem de dinheiro
buscando identificar as alterações ocasionadas pela Lei
12.683/2012. Após a pesquisa bibliográfica, a segunda fase é o
estudo de caso descritivo e exploratório.
O presente estudo ainda que tenha utilizado dados
quantitativos para obtenção de quadros e gráficos, caracteriza
sua análise como qualitativa focada em descrever correlações
entre as variáveis. Segundo Richardson (1999, p. 90), a
abordagem qualitativa caracteriza-se como: “[...] a tentativa de
uma compreensão detalhada dos significados e características
situacionais apresentadas pelos entrevistados, em lugar da
produção de medidas quantitativas de características ou
comportamentos.”
A pesquisa ocorreu por meio de acesso aos sítios dos
órgãos reguladores, Conselho de Controle das Atividades
Financeiras – COAF, Banco Central do Brasil – BACEN,
Comissão de Valores Mobiliários – CVM, Superintendência
Nacional de Previdência Complementar - PREVIC e
Superintendência de Seguros Privados – SUSEP, onde
foram pesquisados os normativos relacionados às práticas de
governança publicados por esses órgãos desde a publicação da
Lei 9.613/2012 referente à prevenção e combate à lavagem de
dinheiro.
A última parte do trabalho consistiu em verificar de

210 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
forma comparativa o aumento no número de publicações
dos órgãos reguladores sobre lavagem de dinheiro e práticas
de governança com o número de comunicações enviadas ao
COAF por estes órgãos.

3 RESULTADOS

O estudo apresenta uma análise comparativa entre


os normativos publicados pelos órgãos reguladores e o
quantitativo de comunicações referente a possíveis transações
de lavagem de dinheiro ao COAF, com vistas a destacar os
impactos que as práticas de governança têm no aumento das
comunicações remetidas ao órgão.

3.1 conselho de controle das atividades


financeiras - coaf

Segundo o Relatório de Gestão do COAF (2012), “o


COAF é uma Unidade de Inteligência Financeira – UIF, do
tipo administrativo, vinculado ao Ministério da Fazenda”. O
órgão exerce funções reguladoras de normatizar sem prejuízo
aos demais órgãos e aplicar penas administrativas. As funções
de inteligência abrangem receber as comunicações dos órgãos
reguladores, realizarem análise de existência de indícios
e após isso comunicar ao órgão competente para que sejam
instaurados os procedimentos cabíveis.
As comunicações são encaminhadas ao COAF pelos
órgãos reguladores das pessoas obrigadas a comunicar suspeitas
de lavagem de dinheiro pela Lei n° 9.613/98, como Banco

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 211


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
Central do Brasil (BACEN), a Superintendência de Seguros
Privados (SUSEP), a Comissão de Valores Mobiliários (CVM)
e a Superintendência Nacional de Previdência Complementar
- PREVIC.
As denúncias encaminhadas para o COAF não serão
necessariamente encaminhadas a uma autoridade policial.
Existe a realização de uma análise sobre os fatos descritos
para verificar a origem dos recursos. Quando as operações que
geraram o bem ou capital forem identificadas como lícitas, o
processo vai para arquivo.
O ciclo das transações suspeitas e seu impacto nas
práticas de governança conforme Amorim (2009) inicia quando
um criminoso introduz em um Banco recursos ilícitos, como
o Banco possui práticas de governança bem desenvolvidas a
operação suspeita é detectada e repassada ao BACEN, órgão
responsável por receber as denúncias de bancos e repassá-la
ao COAF. O Conselho analisa a denúncia e encontrando fatos
suspeitos encaminha à Polícia para abertura de Inquérito.
Após abertura do Inquérito policial ocorre o repasse ao
Ministério Público para verificar se existe adminissibilidade
da denúncia. Confirmado será encaminhado ao magistrado
para que sejam dados os trâmites legais, e caso comprovada
a existência de lavagem de dinheiro o responsável será
condenado.

3.2 dados apresentados pelo coaf por


órgão regulados

O período dos dados analisados será do ano de 2003 a


2012, O Quadro 9 apresenta os dados emitidos pelo COAF

212 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
atualizados até 31 de dezembro de 2012.

Quadro 3 - Quantidade de Comunicações recebidas pelo


COAF pelos Reguladores
Comunicações Recebidas dos Setores Obrigados
2003-
  2007 2008 2009 2010 2011 2012
2006
Setores com Órgão Regulador
Sistema
Financeiro 36.026 15.842 17.389 22.042 31.283 41.819 213.734
(BACEN)
Seguros 7.653 112.856 305.498 1.392.597 256.820 467.512 2.875.817
(SUSEP)

Valores
Mobiliários 395 287 823 1.264 1.475 1.139 6.579
(CVM)

Fundos
de Pensão 336 721 20.989 6.106 5.242 7.433 46.912
(PREVIC)
Compra
Venda de 2.746 1.736 2.766 3.142 3.112 5.473 25.030
Móveis
(COFEC)
Transporte/
Guarda de 0 0 0 0 5 1.014 1.036
Valores
(DPF)
Operações
em Espécie 410.056 193.788 284.486 359.228 577.020 811.869 3.365.842
(BACEN)

Total 478.295 335.364 645.785 1.802.865 1.038.505 1.538.172 7.185.023


Fonte: Adaptado de COAF, 2012.

Observa-se que em geral o número de comunicações


de suspeitas de lavagem de dinheiro ao COAF é crescente. O
volume de comunicações aumentou 467% no ano de 2012 em
comparação com 2011, e ainda 123% em relação ao montante
de comunicações recebidas durante o período de 2003 a 2011.
Essa alavancagem é decorrente da Lei 12.683/2012 que alterou
a Lei 9.613/98 quando aumentou o rol de crime antecedente a
as pessoas sujeitas à Lei.

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 213


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
Alguns órgãos reguladores que possuem maior
relevância nesse quantitativo no período observado e terão
seus percentuais apresentados no Gráfico 1.

Gráfico 1 - Percentual de Comunicações ao COAF por


Órgão Regulador.

Fonte: Adaptado de COAF, 2012.

A concentração dos envios de operações suspeitas ao


COAF está nos BACEN e na SUSEP, consequentemente esses
órgãos são os que mais emitem regulamentos e normativos
sobre governança, controles internos, compliance e auditoria
aos setores regulados, o que mostra a relação das práticas de
governança com o aumento na identificação de operações
suspeitas.

214 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
Gráfico 2 - Evolução das Comunicações recebidas pelo
COAF no período de 2003 a 2012.

Fonte: Adaptado de COAF, 2012.

O Gráfico 2 mostra que existe uma tendência aumentativa


de comunicações e revela um pico no ano de 2009 da SUSEP,
ultrapassando BACEN, órgão que possui domínio no número
de comunicações em todos os outros períodos apresentados.
Essa alteração está relacionada ao impacto da Circular n.
380/2008 publicada pela SUSEP. A análise comparativa dos
impactos dos regulamentos e normativos no aumento de
comunicações ao COAF será realizada a seguir.

3.3 análise dos dados e comparativos

A publicação de normativos dos órgãos reguladores e


os dados estatísticos fornecidos pelo COAF proporcionam
a oportunidade de analisar a relação entre as duas variáveis.
Os quadros 4, 5, 6 e 7 irão abordar esse relacionamento
nos seguintes órgãos reguladores: Banco Central do Brasil
- BACEN, Comissão de Valores Mobiliários - CVM,

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 215


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
Superintendência Nacional de Previdência Complementar -
PREVIC e Superintendência de Seguros Privados - SUSEP
respectivamente.

Quadro 4 - Relaciona a emissão de normativos e os


resultados no aumento das comunicações do BACEN.
ÓRGÃO E NORMATIVO
PRINCIPAIS CONTROLES
BACEN
• Especificar, em documento interno, as
responsabilidades dos integrantes de cada nível
hierárquico da instituição;
• Coleta e registro de informações tempestivas
Resolução nº 2.554/98 sobre clientes, que permitam a identificação dos
Carta Circular nº 2826/98 riscos de ocorrência da prática dos mencionados
Circular nº 3234/06 crimes;
Circular nº 3325/06 • Caracterização ou não de clientes como pessoas
Carta Circular nº 3260/06 politicamente expostas;
Carta Circular nº 3337/08 • Renda mensal e patrimônio, no caso de pessoas
Circular nº. 3461/09 naturais, e de faturamento médio mensal dos doze
Circular nº. 3467/09 meses anteriores, no caso de pessoas jurídicas;
Circular nº 3542/2012 • Controles informatizados para prevenção à
Circular nº 3654/2013 lavagem de dinheiro;
• Implementação de controles de acordo com o
porte da organização e volume das operações;
• Aumento de informações no cadastro de clientes
físicos e jurídicos.
RESULTADOS OBTIDOS
O BACEN se destacou como
Gráfico 3 - Evolução das comunicações do
o órgão que mais enviou
BACEN
comunicações de 1998 a 2008,
tendo em média 103% de aumento
nas comunicações por ano, de 2003
a 2012. O ano de 2012 possui um
grande volume devido a publicação
de duas Circulares após a alteração
da Lei de Lavagem de dinheiro,
ainda em 2012.
Fonte: Adaptado de COAF, 2013.

Fonte: Adaptado de Amorim, 2009.

216 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
O Quadro 4 demonstrou que o BACEN é órgão regulador
que mais emite normativos relacionados a implementação de
controles internos, compliance e práticas de governança às
organizações reguladas, em consequência é destaque no número
de comunicações de operações suspeitas ao COAF. O quadro
5 a seguir mostra os resultados obtidos pela CVM no período
em que foi realizado o estudo. A CVM inicia a publicação de
normativos apenas em 2008, dez anos após Lei 9.613/1998,
isso fez com que até o ano de 2007 esse órgão regulador não
possuísse um número de comunicações relevantes ao COAF.

Quadro 5 - Relaciona a emissão de normativos e os


resultados no aumento das comunicações da CVM.
ÓRGÃO E NORMATIVO CVM PRINCIPAIS CONTROLES

• Movimentação financeira de cada


cliente, com base em critério definido nos
procedimentos de controle da instituição,
em face da situação patrimonial e financeira
constante de seu cadastro;
Instrução nº 463/ 2008
• Operações liquidadas em espécie, se e
Instrução nº 523/ 2012
quando permitido;
• Transferências privadas, sem motivação
aparente, de recursos e de valores
mobiliários;
• Informações cadastrais de seus clientes,
monitoramento das operações por eles
realizadas, de forma a evitar o uso da conta
por terceiros.
RESULTADOS OBTIDOS

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 217


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
Após a publicação da Instrução CVM Gráfico 4 - Evolução das comunicações
463/08, observou-se um comportamento da CVM.
crescente no número de comunicações ao
COAF. O crescimento acumulado de 2007
até 2010 foi de aproximadamente 514%.
No ano de 2011 ocorreu uma quebra
no crescimento de encaminhamento
ao COAF com uma queda em torno de
10% das comunicações. O ano de 2012,
possui crescimento relevante devido a
publicação da nova Lei 12.683/2012. Fonte: Adaptado de COAF, 2013.

Fonte: Adaptado de Amorim, 2009.

A CVM conforme o Quadro 5 apresenta um crescimento


de aproximadamente 517% em quatro anos, no período de 2007
a 2010. A elevação no período das publicações de normativos
é reincidente no Quadro 6, referente à PREVIC.

Quadro 6 - Relaciona a emissão de normativos e os


resultados no aumento das comunicações da PREVIC.
ÓRGÃO E NORMATIVO PREVIC PRINCIPAIS CONTROLES

• Plano de benefícios, pelo cliente, cujo valor se


afigure objetivamente incompatível com a sua
ocupação profissional ou com seus rendimentos;
• Aporte ao plano de benefícios efetuado por
outra pessoa física que não o próprio cliente
Instrução nº 26/2008
ou por pessoa jurídica que não a patrocinadora,
igual ou superior a R$ 10.000,00;
• Pagamento em espécie, a uma mesma pessoa
física ou jurídica, cujo valor seja superior a R$
10.000,00, no mesmo mês.
RESULTADOS OBTIDOS

218 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
Após a publicação da Instrução
MPS/SPC nº 26/2008 observou-
Gráfico 5 - Evolução das comunicações da
se um aumento de mais de 2900%
CVM
das comunicações de 2008 em
relação a 2009. O ano de 2010
apresentou uma queda de 71% nos
encaminhamentos ao COAF. Após
esse período houve uma estabilidade
na quantidade de comunicações com
uma variação média de 15% para
mais ou para menos entre os anos em
contrapartida a ausência de instruções
regulamentadoras. A publicação da
Fonte: Adaptado de COAF, 2013.
Lei 12.683/2013 ocasionou aumento
de 631% no número de comunicações.
Fonte: Adaptado de Amorim, 2009.

A PREVIC apresentou um crescimento exorbitante no


número de comunicações decorrente da publicação da Instrução
26/2008. A falta de outros normativos representou uma queda
nos anos posteriores até 201. Em seguida apresentar-se-á
o Quadro 7 sobre a análise da SUSEP, onde se identificou
uma grande elevação após a Circular nº 380/2008, chegando
a ultrapassar o número de comunicações encaminhadas ao
COAF em 2009 pelo BACEN.

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 219


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
Quadro 7 - Relaciona a emissão de normativos e os
resultados no aumento das comunicações da SUSEP.
ÓRGÃO E NORMATIVO SUSEP PRINCIPAIS CONTROLES

• A identificação de pessoas consideradas


politicamente expostas dentre seus
clientes, beneficiários, terceiros e outras
partes relacionadas;
• Verificação da natureza, complexidade e
Circular nº 327/2006
riscos das operações realizadas;
Circular nº 380/2008
• Política de prevenção e combate à
Circular nº 445/2012
lavagem de dinheiro e ao financiamento
do terrorismo;
• Elaboração e execução de programa
anual de auditoria interna;
• Programa de treinamento e qualificação.

RESULTADOS OBTIDOS

A SUSEP apresentou um aumento de


aproximadamente de 3600% em 2007
quando comparado ao ano de 2006.
O crescimento está relacionado à
publicação da Circular 327/2006. Outro
crescimento relevante ocorre após a Gráfico 6 - Evolução das comunicações
Circular 380/2008, quando o número de da SUSEP.
comunicações cresce aproximadamente
456% em 2009, ultrapassando um milhão
de encaminhamentos ao COAF. Após esse
pico o número de comunicações sofreu
decréscimo voltando a valores semelhantes
aos encontrados em 2007. Nota-se um
comportamento crescente novamente
no ano de 2012, no qual foi publicada a
Circular 445/2012. O COAF aponta que Fonte: Adaptado de COAF, 2013.
até 31 de julho de 2012 a SUSEP realizou
329.133 comunicações contra 332.606
em todo o período de 2011. Em 2012
publicou a Circular 445/2012 e obteve uma
alavancagem de 615% em 2012.

Fonte: Adaptado de Amorim, 2009.

220 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
O aumento no número de normativos dos órgãos
reguladores de setores conforme a análise ocasiona impacto
direto no número de comunicações ao COAF. A Legislação
corrobora com as práticas de governança, exigindo cada vez
mais controles internos, auditorias e consequentemente a
execução de uma gestão de compliance. A conformidade dos
setores com os normativos gera uma resposta no curto prazo
sobre a identificação de operações suspeitas.
O estudo revelou que o BACEN é o órgão que mais
emite normativo e também o que mais comunica operações
suspeitas ao COAF. A SUSEP também possui relevância no
número de normativos e ocupa o segundo lugar no número
de comunicações ao COAF. A Figura 6 demonstra como essa
relação funciona dentro do ciclo da lavagem de dinheiro onde
existe implementada a governança.

Figura 1 - Tentativa de Lavagem de Dinheiro em Instituição


Financeira com Governança.

Fonte: Amorim, Cardozo e Vicente (2011, p.13)

O criminoso, conforme a Figura 1, consegue dinheiro


Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 221
Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
a partir de práticas ilícitas e ao tentar “lavar” o dinheiro com
auxílio das instituições financeiras, o sistema de governança
em funcionamento, utilizando-se das suas práticas, detecta a
operação como suspeita. A operação suspeita é repassada na
forma de comunicação ao COAF pelos órgãos reguladores,
onde então será examinada a fim de verificar qual a origem
do recurso. Quando a origem for identificada como ilícita é
formulado o RIF e encaminhado às autoridades competentes
como Polícia Federal, Ministério Público e Justiça, quando
cumprido os requisitos é instaurado inquérito e posterior
julgamento. Após todo o processo caso pertinente o criminoso
será condenado e preso.
A primeira sentença responsável por condenar um
criminoso pela Lei da lavagem de dinheiro no Brasil ocorreu
somente em 2003, ou seja, cinco anos após a Lei n. 9.613/98
e a publicação de normativos pelos órgãos reguladores, para
Manzi (2008, p.58) a condenação foi efetuada “devido envio
ilegal de dinheiro por meio de conta CC5 (conta de não
residentes no país)”. Após esse marco, é possível verificar o
aumento no número de comunicações, condenações e réus.
O Relatório de Gestão 2011 do COAF apresenta o número
de comunicações recebidas anualmente desde 2002 até 2012.
Ainda segundo Relatório de Gestão (2011) o COAF afirma que
o crescimento ocorre principalmente nos segmentos bancários
e de seguros, setores esses que mais emitem normativos e
que já utilizam as práticas de governança corporativa em suas
organizações. Os números indicam o contínuo “engajamento
dos setores obrigados no combate e prevenção à lavagem de
dinheiro e ao financiamento ao terrorismo”.
Segundo Manzi (2008) no ano de 2005 foram
encaminhadas pelo COAF à Polícia Federal, Ministério

222 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
Público e demais instituições 664 relatórios com operações
que possuíam indícios de origem criminosa. Essa quantia
representa 52/75% a mais do que os relatórios enviados no ano
de 2004.
Os milhares de comunicações enviadas ao COAF, no
período de 2005 a 2010, resultaram segundo o Relatório de
Gestão (2011) em 10,9 mil Relatórios de Inteligência Financeira
- RIF produzidos com base em 271,8 mil comunicações dos
setores obrigados e 88,7 mil pessoas envolvidas. No período
de 2005 a 2010, segundo o levantamento da Polícia Federal
foram encaminhados pelo COAF 2,02 mil RIF, os quais
geraram 136 inquéritos.
A Lei 12.683/2012 ampliou as pessoas sujeitas à lei de
Prevenção e Combate à Lavagem de Dinheiro, essa alteração
aumentou o número de comunicações realizadas ao COAF,
no ano de 2012 foram produzidos 2.104 RIF, quantidade
que representa 43% em relação ao produzido em 2011. A
aplicação da nova legislação de combate e prevenção ao crime
de lavagem de dinheiro só terá efetividade nos novos setores
incluídos se for regulamentada por órgãos responsáveis ou
pelo próprio COAF.
A normatização é necessária, pois induz a implementação
das práticas de governança, compliance, controles internos e
auditoria, todo esse processo é responsável por otimizar os
resultados combate à lavagem de dinheiro, e por reflexo na
redução do crime organizado.

4 CONCLUSÕES

O presente trabalho identificou que as práticas de

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 223


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
governança, já existentes nos setores alvo sujeitos à Lei
9.613/98 são responsáveis pela identificação das operações
suspeitas, as quais são encaminhadas ao COAF para análise
e posterior encaminhamento aos órgãos competentes quando
não realizada a identificação da origem do recurso. Assim,
a implantação dos princípios da governança nas instituições
contribui diretamente no combate a lavagem de dinheiro.
Para obtenção do objetivo proposto foi efetuado o estudo
do conceito da lavagem de dinheiro e suas fases, realizou
por análise que essa modalidade de crime é cada vez mais
utilizada, principalmente dentro do crime organizado e traz
consequências catastróficas à sociedade e à economia. Após
a análise verificou-se que poucas raras eram as publicações
que tratavam da lavagem de dinheiro após a Lei 12.683/2012,
principalmente atrelada a práticas de governança.
As alterações sofridas na Lei 9.613/98 pela Lei
12.683/2012 trouxeram destaque à ampliação dos crimes
antecedentes, incluindo agora contravenções e a ampliação
de pessoas sujeitas à lei, antes somente pessoas jurídicas e
agora pessoas físicas. As mudanças acarretam a necessidade
de adequação dos novos setores obrigados à legislação, e para
isso é necessário o desenvolvimento de controles internos,
compliance e práticas de governança, já existentes nos setores
alvo da Lei 9.613/98.
A fim de identificar quais as práticas de governança
utilizada pelos setores alvos foram apresentados conceitos,
objetivos e funções práticas dos controles internos, compliance
e auditoria no combate e prevenção à lavagem de dinheiro.
Constatou-se que a transparência e qualidade da informação
com controles eficientes nas instituições são fundamentais
para o cumprimento da legislação da lavagem de dinheiro.

224 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
O surgimento de normativos que auxiliem a
implementação da governança nos novos setores regulados
pela Lei 12.683/2012 é fundamental para que as organizações
consigam cumprir a legislação. Quanto mais consistente
for o funcionamento da governança, maior o número de
operações suspeitas identificadas e repassadas ao COAF,
e consequentemente o sistema de combate e prevenção a
lavagem de dinheiro será mais eficiente.
O comportamento quantitativo das comunicações sofre
relação direta à publicação de normativos, refletido, por
exemplo, na evolução das operações suspeitas encaminhadas
em 2009 pela PREVIC, com um aumento de 2900% em
relação a 2008, após a publicação da Instrução 26/2008. Outro
apontamento foi o ocorrido com a SUSEP que posteriormente
à publicação da Circular 380/2008 ultrapassou o BACEN em
2009, visto até então como líder absoluto nessa estatística.
Observou-se, portanto que existe uma relação entre as
variáveis estatísticas divulgadas no sítio do COAF sobre o
número de comunicações em comparativo com os normativos
emitidos pelos órgãos reguladores. O aumento da exigência de
práticas de governança corporativa aos setores regulados eleva
a quantidade de casos suspeitos identificados e encaminhados
ao COAF para posterior análise e encaminhamento aos órgãos
competentes quando for pertinente.
A funcionalidade dos controles internos efetivos,
constantes e atualizados nas instituições financeiras comprova
que os novos setores obrigados pela Lei 12.683/2012, pessoas
físicas e jurídicas, devem buscar a profissionalização da gestão
por meio da implantação de forma eficiente das práticas de
governança corporativa para que possam cumprir a legislação.
O aumento das regulamentações eleva o risco de

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 225


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 197-229,
jul./set. 2014.
compliance, e tornam maiores os efeitos financeiros de uma
não conformidade. A obrigação da Lei não garante a eficiência
do seu resultado. Somente com o aumento de controles
pela emissão de normativos é possível aumentar o número
de comunicações ao COAF, e assim mais processos serão
analisados e julgados.
O aumento de normativos que definam a aplicabilidade
das práticas de governança, compliance, auditoria e controles
internos, e divulguem modelos de operações suspeitas,
garantem uma maior eficiência na repressão ao crime de
lavagem de dinheiro evitando que os criminosos possam
tornar seus recursos lícitos e continuar auferindo lucros que
são reinvestidos em seus “negócios” ilegais.

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jul./set. 2014.
O USO DOS SISTEMAS DE INFORMAÇÕES
GEOGRÁFICAS (SIG) COMO FERRAMENTA DE
ANÁLISE DOS ROUBOS DE AUTOMÓVEIS EM
FLORIANÓPOLIS SC

Denise Fernandes Ogando1


Marcos Erico Hoffmann2

RESUMO
O presente trabalho discorre sobre a possibilidade de utilização de Sistemas
de Informações Geográficas (SIG) aplicados à análise de eventos criminais.
A chance de sobrepor informações e mapear ocorrências agrega outros
significados e abre novas perspectivas às informações que antes restringiam-
se apenas a gráficos e planilhas eletrônicas. O emprego de ferramentas
como o geoprocessamento e de outras técnicas inovadoras são cada vez
mais indispensáveis para um melhor planejamento e gestão de pessoas e de
recursos diversos na segurança pública. O objetivo deste artigo consiste em
demonstrar a utilização prática do SIG no mapeamento das ocorrências de
roubos de automóveis ocorridas no município de Florianópolis SC durante
o ano de 2012, explorando suas vantagens e demonstrando as possíveis
limitações.

Palavras-chave: Sistemas de Informação Geográfica (SIG), roubo de


automóvel, criminalidade, mapeamento.

1 Agente de Polícia Civil.Especialista em Inteligência Criminal da


UNIDAVI/DIFC. e-mail: denise_ogando@yahoo.com.br.
2 Psicólogo policial civil.Professor da disciplina Criminologia do Curso
de Especialização em Inteligência Criminal da UNIDAVI/DIFC, mestre
em Administração Pública e doutor em Psicologia pela UFSC. Docente de
Graduação e de Pós-Graduação, professor da Academia da Polícia Civil de
SC e da Academia da Justiça e Cidadania de SC. E-mail: marcoserico@
yahoo.com.br.

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 231


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 231-254,
jul./set. 2014.
ABSTRACT
This article discusses the possibility of using Geographic Information
Systems (GIS) applied to the analysis of criminal events. The chance of
overlapping information and map occurrences adds other meanings and
new perspectives to information that previously restricted only to graphics
and spreadsheets. The use of tools such as GIS and other innovative
techniques are increasingly essential for better planning and management
of people and resources in the various public safety. The purpose of this
piece is to demonstrate the practical use of GIS for mapping occurrences
of auto thefts occurred in Florianópolis during the year 2012, exploring its
advantages and demonstrating the possible limitations.

Keywords: Geographic Information Systems (GIS), auto theft, crime,


mapping.

1 INTRODUÇÃO

O acompanhamento e a análise dos eventos criminais


não constituem novidade para os profissionais de Segurança
Pública. Inicialmente, o monitoramento das ocorrências era
realizado em grandes mapas de papel e com alfinetes coloridos
colocados nos pontos onde ocorriam os delitos.
O crescimento dinâmico de algumas cidades e,
consequentemente, da criminalidade, tornou inviável a
continuação do uso dos mapas em papel, pois demandava muito
espaço e impossibilitava o acompanhamento de delitos durante
um período mais longo. Atualmente, o acompanhamento dos
eventos criminais está agregando o geoprocessamento aos
dados de tabelas e gráficos já conhecidos, o que traz uma
visualização completamente nova. A associação da imagem
geográfica com os dados visualizados em quadros, gráficos
e outras figuras estatísticas permite uma análise muito mais
ampla da criminalidade em certa região.

232 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 231-254,
jul./set. 2014.
O uso de Sistemas de Informação Geográfica (SIG)
vem sendo cada vez mais disseminado pelos órgãos de
segurança pública em todo o mundo. Com o intuito de buscar
novas ferramentas na prevenção e combate a certos delitos,
a utilização de sistemas computacionais como o SIG vem
para a segurança pública como um importante aliado para os
gestores, transformando informações inseridas nos Boletins de
Ocorrência (B.Os.) em dados fundamentais para a análise da
criminalidade e para a tomada de decisões.
No intuito de discutir a utilização do SIG como ferramenta
de análise criminal no mapeamento das ocorrências de roubo
de automóveis ocorridas no município de Florianópolis SC
durante o ano de 2012, este artigo propõe-se a: inicialmente,
introduzir alguns conceitos importantes de cartografia. Em
seguida, discorrer sobre os Sistemas de Informação Geográfica
e algumas de suas características. A situação dos roubos de
automóveis em Florianópolis constituirá o tópico seguinte,
precedendo uma discussão em torno da utilização do SIG
em episódios de roubos, bem como as dificuldades de seu
aproveitamento, além das mais importantes vantagens.

2 CONCEITOS DE CARTOGRAFIA

2.1 MAPA

No âmbito da Geografia existem diferentes tipos de


representações cartográficas para as áreas a serem estudadas.
Um dos mais conhecidos é o mapa.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 233


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 231-254,
jul./set. 2014.
(IBGE, 2013), um mapa possui as seguintes características:

– representação plana;
– escala geralmente pequena;
– área delimitada por acidentes naturais (bacias, planaltos,
chapadas, etc.), político-administrativos;
– destinação a fins temáticos, culturais ou ilustrativos.

Ainda de acordo com o IBGE, a partir das características


citadas temos o seguinte conceito:

Mapa é a representação no plano, normalmente em escala


pequena, dos aspectos geográficos, naturais, culturais e
artificiais de uma área tomada na superfície de uma figura
planetária, delimitada por elementos físicos, político-
administrativos, destinada aos mais variados usos, temáticos,
culturais e ilustrativos (IBGE, 2013).

Existem mais duas formas de representação cartográfica


por traços: a carta e a planta. Neste trabalho não será avaliada
a diferenciação entre esses três tipos de representação, sendo
utilizado apenas o mapa como referência.

2.2 SISTEMA DE COORDENADAS

Para localizar um objeto ou um lugar no mundo, como uma


cidade ou uma rua, são utilizados os sistemas de coordenadas.
Estes sistemas utilizam como referência coordenadas fixas
e, por meio delas, é possível obter a localização de um
234 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:
Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 231-254,
jul./set. 2014.
determinado ponto na superfície do planeta.
Existem dois grandes grupos de sistemas de coordenadas:
sistemas de coordenadas geográficas e sistemas de coordenadas
planas ou cartesianas. Em ambos os casos é viável converter as
coordenadas de um sistema para outro, pois são relacionadas
matematicamente, o que resulta no exato posicionamento do
ponto na superfície terrestre.

2.2.1 Sistema de Coordenadas Planas

Nos sistemas de coordenadas planas ou cartesianas, a


posição de um ponto é definida mediante um par de coordenadas
(x, y) utilizando dois eixos perpendiculares, normalmente
chamados de horizontal e vertical.

A correlação entre latitude, longitude, meridianos e paralelos


nos permite empregar conceitos como o de sistemas de
coordenadas planas, também conhecido por sistema de
coordenadas cartesianas, baseia-se na escolha de dois eixos
perpendiculares, usualmente denominados eixos horizontal e
vertical, cuja interseção é denominada origem, estabelecida
como base para a localização de qualquer ponto do plano
(CÂMARA et al.,1996, p.7).

2.2.2 Sistema de Coordenadas Geográficas

Nos sistemas de coordenadas geográficas considera-


se que qualquer ponto tem a mesma distância do centro do
planeta, representado por uma esfera. Para as coordenadas são
utilizadas a latitude (j) e a longitude (i).
Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 235
Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 231-254,
jul./set. 2014.
As linhas horizontais chamam-se paralelos, pois são
paralelas à linha do equador, e servem para medir a latitude
(direção norte-sul), enquanto que as linhas verticais desta
rede são os chamados meridianos e vão de um polo a outro,
servindo para medir a longitude (direção leste-oeste). (PINA;
SANTOS, 2000, p. 94).

2.3 GEOPROCESSAMENTO

A importância da coleta de dados sobre distribuição de


recursos hídricos, florestas, ocupação do solo e transportes,
por exemplo, é de grande valia para a administração e o
planejamento das cidades, bem como das organizações em
geral. Graças ao desenvolvimento tecnológico, esses dados
podem ser comparados e sobrepostos para uma melhor
visualização e interpretação.

O termo Geoprocessamento denota a disciplina do


conhecimento que utiliza técnicas matemáticas e
computacionais para o tratamento da informação geográfica
e que vem influenciando de maneira crescente as áreas de
Cartografia, Análise de Recursos Naturais, Transportes,
Comunicações, Energia, Planejamento Urbano e Regional
(CÂMARA; DAVIS; MONTEIRO, 2001, p.1).

Segundo Rodrigues (1993, p. 20), “Geoprocessamento é


um conjunto de tecnologias de coleta, tratamento, manipulação
e apresentação de informações espaciais voltado para um
objetivo específico”.
O geoprocessamento engloba diversas tecnologias que
facilitam e aprimoram a coleta, visualização e interpretação

236 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 231-254,
jul./set. 2014.
das informações. Dentre as tecnologias relacionadas ao
geoprocessamento, estão o Sistema de Posicionamento Global,
mais conhecido como Global Positioning System (GPS), e os
Sistemas de Informações Geográficas (SIG).

3 SISTEMAS DE INFORMAÇÕES GEOGRÁFiCAS


– SIG

O uso de sistemas computacionais passou por uma


popularização a partir da década de 1990 e início dos anos
2000, com a utilização dos sistemas em ambientes visualmente
atraentes e mais intuitivos. Ao mesmo tempo, houve uma queda
dos preços de equipamentos e um aumento da capacidade de
processamento e de armazenamento de dados, o que contribuiu
para que cada vez mais brasileiros tivessem acesso a essa
ferramenta tão indispensável nos dias atuais.
O referido aumento pode ser verificado por meio da
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD)
realizada pelo IBGE:

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 237


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 231-254,
jul./set. 2014.
Gráfico 1: Percentual de domicílios permanentes com
microcomputador no Brasil.
Fonte: IBGE, PNAD – Pesquisa nacional por amostra de domicílios.

É indiscutível, cada vez mais, a utilização da informática


nas mais diversas áreas. Suas possibilidades parecem quase
infinitas e a cada dia são testados e lançados novos sistemas e
aplicativos que atendem uma ampla gama de usuários, incluindo
os da agricultura, ciências biológicas, indústrias, serviços
diversos e também os da segurança pública. Atualmente,
pouco se faz sem a utilização de softwares especializados e, à
medida que os anos passam, a necessidade de utilização desses
recursos aumenta.
O número de equipamentos e softwares especializados
desenvolvidos para os mais variados usos tem sido
significativamente ampliado e os equipamentos tornam-
se cada vez mais portáteis. Alguns autores comparam essa
revolução digital com a revolução industrial vivida no mundo

238 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 231-254,
jul./set. 2014.
a partir do século XVIII. Com uma quantidade cada vez maior
de dados disponíveis, o desafio afigura-se agora em fazer com
que a informação coletada esteja disponível aos usuários que a
procuram, por meio da integração dos dados coletados.
Uma das ferramentas utilizadas em diversas áreas são os
Sistemas de Informações Geográficas (SIG). Estes Sistemas
têm suas origens muito antes da invenção dos computadores
ou GPS, segundo Foresman (1998), citado por Nicolau (2005).
Foram encontradas evidências de que o modelo conceitual dos
SIG foi utilizado no complexo de templos de Angkor Wat,
construídos no século XI no Camboja.Na área da saúde, a
utilização de mapas para identificar a distribuição geográfica
de doenças também é antiga. Em 1768, foi publicado um livro
chamado An Essay on Deases Incidental to Europeans in
Hot Climates, onde eram mapeadas áreas de incidências de
doenças.
Um dos estudos mais significativos e que mostrou a
importância da análise espacial de dados foi realizado por John
Snow ainda no século XIX, quando houve um surto de cólera
em Londres. Como havia poucas informações sobre a doença,
foram mapeados os pontos de coleta de água e os casos de
real contaminação. Graças a esse estudo publicado em 1855,
ficou comprovada a relação da doença com a ingestão de
água contaminada, a qual vinha sendo coletada em um ponto
específico.
Os Sistemas de Informações Geográficas (SIG) de
que dispomos atualmente são frutos de trabalhos realizados
na década de 1960, principalmente no Reino Unido, Canadá
e Estados Unidos. Um dos fatores mais importantes foi a
criação do Canada Geografic Information System (CGIS),
durante os anos 1960, que é considerado o primeiro SIG nos

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 239


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 231-254,
jul./set. 2014.
modelos utilizados atualmente. Foi também daí que surgiu a
nomenclatura hoje empregada.

3.1 SIG APLICADO À SEGURANÇA PÚBLICA

De acordo com Harries (1999, p.1), o Departamento de


Polícia de Nova Iorque utilizava alfinetes em mapas desde 1900,
pelo menos. O procedimento tradicional para o mapeamento
da criminalidade consistia em pregar os pequenos alfinetes
em cada local onde houvera um crime. Porém, esse método
possuía muitas limitações.
Havia o problema do espaço para armazenamento dos
mapas após sua utilização, de maneira que, quando eram
atualizados, os padrões anteriores ficavam perdidos. No
mesmo mapa eram marcados múltiplos tipos de delitos, cada
um representado por um alfinete de cor diferente. Ficava muito
difícil, portanto, acompanhar um tipo de crime por determinado
período, já que o mapa de alfinetes dispunha de um limitado
tempo de vida útil.
Com o aumento da capacidade de processamento dos
computadores no início dos anos 1990, a disponibilização
de softwares para mapeamento, alguns gratuitos, possibilitou
acesso mais fácil ao registro e ao acompanhamento eletrônico
de crimes.
O mapeamento da criminalidade possibilita, dentre
outras vantagens, verificar em que tipo de ambiente o ofensor
prefere agir. É possível inserir diversas informações além da
localização, como por exemplo, em qual horário ocorreu o
crime, de que forma a vítima foi abordada, quantas pessoas
participaram da ação, etc. Dessa forma, o SIG é extremamente

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 231-254,
jul./set. 2014.
útil à análise criminal, assim definida na Doutrina Nacional de
Inteligência de Segurança Pública (DNISP, 2010, p.48):

Análise Criminal: é, genericamente, a coleta e análise


da informação pertinente ao fenômeno da criminalidade.
Sua finalidade é a produção de conhecimento relativo à
identificação de parâmetros temporais e geográficos do
crime e eventuais cifras obscuras, detecção da atividade e
identidade da delinquência correspondente, subsidiando
as ações dos operadores diretos do sistema (análise
criminal tática) bem como dos formuladores de políticas
de controle (análise criminal estratégica e administrativa).
As informações são utilizadas para o dimensionamento e
posicionamento de recursos, bem como para a realização
de ações gerais de gestão em relação ao patrulhamento e
investigação policial.

No Estado da Bahia, por exemplo, o Departamento de


Homicídios e Proteção da Pessoa (DHPP), desde 2011 faz uso
do SIG por meio de telefone celular com acesso à Internet para
mapear as ocorrências de homicídios.
Em Porto Alegre RS, o mapeamento de ocorrências
utilizando o Google Earth vem sendo aproveitado desde o
início de 2010. Os policiais militares que vão in loco atender
as ocorrências identificam o endereço que aparece no sistema
de georeferenciamento, disponibilizados também para os
comandos regionais e o comando geral.
A Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP)
já sinalizou a intenção de inserir nos registros das ocorrências
policiais em todo Brasil dois campos obrigatórios: latitude e
longitude. Dessa forma, além do relato da ocorrência, tipificação
e demais dados, as coordenadas geográficas indicariam o local

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 231-254,
jul./set. 2014.
exato da ocorrência.
Uma das ferramentas disponibilizadas gratuitamente
consiste num sistema criado pela empresa Google, o Google
Maps. Fácil de manusear, está disponível em qualquer lugar
do mundo, basta ter acesso a um computador, smartphone ou
outro equipamento com acesso à Internet. A utilização dessa
ferramenta é intuitiva, a pessoa digita o endereço desejado e
o sistema busca automaticamente o local, seja no Brasil ou
em qualquer outro lugar do planeta. Fornece, inclusive, as
coordenadas geográficas (latitude e longitude) do ponto.
É importante frisar, porém, que nem sempre os endereços
estão precisamente atualizados. As cidades são dinâmicas,
em constante modificação, endereços novos são criados,
ruas podem ter seus nomes alterados, assim como também é
possível que alguns endereços não sejam localizados.

Figura 1: Visualização do Google Maps.


Fonte: Google Maps

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 231-254,
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4 O ROUBO DE AUTOMÓVEIS EM FLORIANÓPOLIS

De acordo com o Departamento Nacional de Trânsito


(DENATRAN), em dezembro de 2009 a frota de automóveis
registrados no município de Florianópolis era de 171.882
unidades. Já em dezembro de 2012 a frota de automóveis no
mesmo município era de 198.705, ou seja, houve um acréscimo
de 13,5 %.

Gráfico 2: Frota de automóveis em Florianópolis em


dezembro dos respectivos anos.
Fonte: Departamento Nacional de Trânsito (DENATRAN).

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 231-254,
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Gráfico 3: Registros de roubos de automóveis nas Delegacias
de Florianópolis
Fonte: Relatório 18, módulo “Boletim de Ocorrência” - SISP.

Conforme os dados do Sistema Integrado de Segurança


Pública (SISP) de Santa Catarina, nas delegacias do município
de Florianópolis foram registrados sessenta e oito roubos de
automóveis em 2009. Já no ano de 2012 esse número passa
para trezentos e vinte e quatro registros do mesmo delito, que
é tipificado no artigo 157 do Código Penal Brasileiro (CPB):
“Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante
grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de havê-la, por
qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência”.
Analisando os números apresentados, enquanto a frota
de automóveis de Florianópolis cresceu 13,5% no período de
2009 a 2012, o registro de roubos de automóvel aumentou
79%.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 231-254,
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5 A UTILIZAÇÃO DO SIG NO ESTUDO DOS
ROUBOS DE AUTOMÓVEIS EM FLORIANÓPOLIS

Todos os registros de ocorrências de roubos de


automóveis realizados nas delegacias de Florianópolis foram
lidos e analisados individualmente. Dos trezentos e vinte e
quatro registrados, trinta e um deles não foram considerados:
oito foram tipificados de forma incorreta pois, na verdade,
eram furtos; em dezessete, o fato ocorreu em outro município;
dois não apresentavam o endereço da ocorrência e quatro
expunham outros problemas que não permitiam a inserção
do ponto da ocorrência no mapa. Em resumo, das trezentas
e vinte e quatro ocorrências registradas, duzentas e noventa
e três (90,43%) foram efetivamente mapeadas e trinta e uma
(9,57%) desconsideradas.
Com o uso de mapeamento, é possível verificar que a
região continental do município de Florianópolis possui uma
incidência alta de roubos de automóveis, se comparada com a
região insular.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 231-254,
jul./set. 2014.
Figura 2: Visualização das ocorrências mapeadas no
Google Maps com a ferramenta Fusion Table
Fonte: Mapeamento realizado pelos autores, com dados das ocorrências
registradas nas Delegacias de Polícia Civil de Florianópolis.

Na Figura 2, cada ponto vermelho representa uma


ocorrência de roubo de automóvel no ano de 2012 no município
de Florianópolis.
O Google Maps fornece as coordenadas mediante
o endereço inserido pelo usuário. Estas coordenadas são
colocadas em uma planilha com diversos dados considerados
úteis. Por exemplo: endereço, horário e data da ocorrência, sexo
da vítima, etc. Após inserir os dados desejados, basta utilizar
a ferramenta Fusion Table (também da empresa Google).
Automaticamente, os dados inseridos na planilha eletrônica
serão transferidos para uma visualização no Google Maps,
onde será marcado o local do evento por meio das coordenadas
geográficas inseridas na planilha e dos demais dados referentes
a cada registro.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 231-254,
jul./set. 2014.
Figura 3: Visualização da parte continental de Florianópolis,
Centro e bairros no entorno.
Fonte: Mapeamento realizado pelos autores, com dados das ocorrências
registradas nas Delegacias de Polícia Civil de Florianópolis.

Figura 4: Exemplo de visualização dos detalhes de uma


ocorrência.
Fonte: Ocorrências registradas nas Delegacias de Polícia Civil de
Florianópolis.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 231-254,
jul./set. 2014.
Além da localização, foram inseridos outros dados.
São eles: coordenadas; endereço completo com logradouro,
número, bairro e ponto de referência; marca, modelo e ano do
automóvel roubado; Delegacia onde foi realizado o registro;
número do Boletim de Ocorrência (B.O.); data e hora do fato.
Esses dados podem ser alterados, assim como podem
ser inseridas outras informações. Por exemplo, a cor do
automóvel, o sexo da vítima, etc. É possível também retirar as
informações consideradas irrelevantes.

6 DIFICULDADES NO USO DO SIG

Atualmente, o sistema utilizado pela Polícia Civil


de Santa Catarina para o registro das ocorrências ainda não
conta com campos apropriados para inserir as coordenadas
geográficas dos fatos e, muito menos, dispõe dos mapas dos
municípios do Estado. É possível realizar o registro de uma
ocorrência com o endereço incorreto, incompleto ou até
mesmo com a opção de “endereço não informado”. Tudo isso
dificulta e, por vezes, inviabiliza seu mapeamento.
Existem casos de falha na tipificação. Nesta pesquisa,
por exemplo, houve oito ocorrências, ou seja, 2,47%, dos
episódios que foram registrados como roubo, mas na verdade
eram furtos de automóveis. Estes delitos são tipificados no
artigo 155 do Código Penal Brasileiro e referem-se a: “Subtrair,
para si ou para outrem, coisa alheia móvel”. Ou seja, diferente
dos roubos, nos furtos não há ameaça ou violência diretamente
contra a(s) pessoa(s).
Atualmente, só é possível realizar o mapeamento das
ocorrências se cada Delegacia, por conta própria, criar seus

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 231-254,
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arquivos utilizando um SIG, como vem sendo feito pela
Diretoria de Inteligência da Polícia Civil, desde o início de
2013, com as ocorrências de homicídios registradas no Estado.
Trata-se de um trabalho contínuo, que exige dedicação e, por
não ser efetuado de modo automático, precisa ser atualizado
manualmente. Portanto, os registros não sucedem em tempo
real, muitas ocorrências só serão mapeadas alguns dias após o
seu registro.

7 VANTAGENS DO USO DOS SISTEMAS DE


INFORMAÇÕES GEOGRÁFICOS

O SIG pode ser uma importante ferramenta para a


segurança pública. No policiamento ostensivo, por exemplo,
com a análise dos locais e horários das ocorrências, é possível
saber onde estão os pontos com maior incidência de um
determinado delito. No caso em estudo, em quais regiões
estão aumentando ou diminuindo os roubos de automóveis e,
consequentemente, deslocar para essas áreas um maior efetivo
nos horários mais propícios para a prática de roubos. Enfim,
trata-se de uma base concreta de informações para a melhor
distribuição dos profissionais, de viaturas e, até mesmo, de
bases policiais.
Após diagnosticar os bairros mais suscetíveis, é viável
a realização de campanhas para conscientizar e prevenir
os moradores. No ano de 2012, dos duzentos e noventa e
três registros efetuados nas Delegacias de Florianópolis
e confirmados como roubos de automóveis, oitenta e sete
deles (29,69%), ocorreram durante roubos às residências das
vítimas ou quando estas estavam saindo ou chegando às suas

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 231-254,
jul./set. 2014.
residências.
Para a Polícia Judiciária, uma das vantajosas
possibilidades do uso do SIG consiste em poder sobrepor os
dados das ocorrências mapeadas, facilitando a identificação
dos suspeitos, por meio do modus operandi (modo de agir)
e visualizando com maior facilidade a área de atuação dos
ofensores.
Vários mapas sobre criminalidade podem ser criados,
sem necessidade de maior espaço físico nas delegacias. Em
um único mapa podem ser inseridos vários delitos, cada um
com marcador de cor diferente, por exemplo. Também pode
ser utilizada a visualização de imagem por satélite, verificando
se há muitas construções ao redor do local, se é uma região
menos habitada, se existem rios, se o terreno é plano, se em
aclive ou em declive, etc. Todas essas informações costumam
ser úteis em uma investigação, assim como em levantamentos
prévios antes do cumprimento de um mandado, bem como em
potenciais rotas de fuga utilizadas por perpetradores de delitos.
Todas essas informações podem ser armazenadas,
atualizadas e acessadas mediante um dispositivo conectado à
Internet, seja um tablet, smartphone, ou um computador.
É ainda factível compartilhar essas informações com
interessados, disponibilizando aos usuários somente a
visualização ou, conforme a necessidade, permitindo que
outros profissionais editem as informações presentes em um
mapa criado com a ferramenta Fusion Table do Google Maps.

8 CONCLUSÕES

A utilização de sistemas computacionais está cada vez

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mais presente no dia a dia das pessoas, inclusive no âmbito
da Segurança Pública. Esses sistemas podem exercer o papel
de auxiliar e facilitar a sobreposição de dados diversos que,
de alguma forma, se relacionam. Os Sistemas de Informação
Geográfica (SIG) aplicados à Segurança Pública agregam
muitas possibilidades, dentre elas a economia de espaço, a
facilidade de acesso, o compartilhamento e armazenamento
de informações, o mapeamento de delitos e a sobreposição de
dados considerados úteis para a compreensão desses eventos
criminais.
Existem algumas barreiras para a ampla utilização do
SIG pela Polícia Civil de Santa Catarina. A principal delas
reside no fato de que o sistema usado atualmente para o registro
de ocorrências não é adaptado ao uso do SIG e não dispõe de
campo adequado para inserir as coordenadas geográficas do
local do delito. Consequentemente, não existe a possibilidade
de visualizar a localização exata de onde o delito foi praticado.
Atualmente, é possível realizar o mapeamento de ocorrências
manualmente utilizando a ferramenta Fusion Table e Google
Maps. Por se tratar de um SIG gratuito e acessível via Internet,
as possibilidades de sua utilização são amplas e disponíveis
a todas as Delegacias do Estado, já que todas possuem
computadores com acesso à Internet.
O registro de ocorrências de roubo de automóvel no
município de Florianópolis vem crescendo nos últimos anos e,
de 2009 a 2012, houve um expressivo aumento de 79%, sendo
que a frota de veículos no município, no mesmo período,
cresceu apenas 13,5%. Com a utilização do SIG, conseguimos
verificar os locais de maior incidência desse delito, mapeando
as ocorrências e sobrepondo informações importantes sobre
horários e locais mais suscetíveis, além da forma de agir

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 231-254,
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dos infratores. Ainda, é viável extrair outras informações
das ocorrências, como modelo do veículo, cor do automóvel
subtraído e sexo da vítima, possibilitando traçar um perfil,
tanto dos criminosos quanto das vítimas, inclusive sobre os
modelos de automóveis mais roubados.
Nesta pesquisa, foi possível verificar que a Região
Continental de Florianópolis é onde estão concentradas a
maioria das ocorrências, ou seja, cento e cinquenta e duas, dos
duzentos e noventa e três episódios confirmados, perfazendo
51,88% dos episódios. Importante frisar que a maior parte do
território de Florianópolis situa-se na parte insular e não na
parte continental.
A violência urbana vem adquirindo características
diferentes ao longo do tempo e o uso de novas tecnologias é
capaz de trazer benefícios. No caso em questão, transformando
dados inseridos nos Boletins de Ocorrência em informações
importantes para a análise dos eventos criminais e a tomada de
decisões para reduzi-los.
Desse modo, o uso dos Sistemas de Informação
Geográfica na área de Inteligência em Segurança Pública é
capaz de suprir os gestores com as informações necessárias
para identificar as áreas onde o roubo de automóveis é
mais frequente, permitindo que sejam tomadas as medidas
preventivas com maiores chances de êxito. Portanto, o uso e o
aprimoramento de ferramentas inovadoras como o SIG podem
ser úteis para a sociedade, desde que haja interesse e vontade
política de disponibilizá-las e mantê-las atualizadas.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 231-254,
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jul./set. 2014.
O Ciclo da Produção de Conhecimento
da Atividade de Inteligência de
Segurança Pública aplicado à repressão
do crime de “Lavagem de Dinheiro”

Verdi Luz Furlanetto1


George Felipe de Lima Dantas2

RESUMO
Este trabalho apresenta uma metodologia de investigação e análise de
dados, utilizando o Ciclo de Produção de Conhecimento da Doutrina
Nacional de Inteligência de Segurança Pública, voltada ao combatendo
delito de “Lavagem de Dinheiro”.

Palavras-chave: Investigação Policial.Análise Criminal. “Lavagem de

1 Especialista em Direito Constitucional, pela Universidade Estácio de


Sá, Pós graduando em Inteligência Criminal, pela UNIDAVI, Delegado
de Polícia da Polícia Civil de Santa Catarina (PCSC), Coordenador do
Laboratório de Combate à “Lavagem de Dinheiro”/SC e Coordenador do
Sistema de Movimentação Bancária (SIMBA) da PCSC, e responsável
pela Divisão de Combate à “Lavagem de Dinheiro” (DC-LD), sediado
na Diretoria Estadual de Investigações Criminais (DEIC). E-mail:
verdifurlanetto@hotmail.com
2 Doutor em Educação pela George Washington University (GWU)
de Washington, D.C., EUA. Docente de disciplinas de Inteligência
de Segurança Pública e de Metodologia da Pesquisa do curso de Pós-
Graduação em Inteligência Criminal do Centro Universitário para o
Desenvolvimento do Alto Vale do Itajaí (UNIDAVI) em associação com
a Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina (SSPSC) e Secretaria
Nacional de Segurança Pública (SENASP). Membro (presidente)
do Instituto Brasileiro de Inteligência Criminal (INTECRIM) e do
“Capítulo Brasil” (vice-presidente) da  InternationalAssociationof Law
EnforcementIntelligenceAnalysts (IALEIA). Consultor, autor e palestrante
em temas de gestão da segurança pública. Tenente Coronel Reformado da
Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF). E-mail: delimadantas@gmail.
com

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 255


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
Dinheiro”. DNISP(2007)

ABSTRACT
This paper presents a research methodology and data analysis, using the
production cycle Knowledge Doctrine of National Intelligence for Public
Security, aimed at combating the crime of “Money Laundering”.

Keywords: Police Investigation. Criminal Analysis. “Money Laundering”.


DNISP (2007)

1 INTRODUÇÃO

Tendo em vista que o ordenamento jurídico brasileiro


traz como regra matriz o princípio da legalidade, somente é
possível aos agentes públicos atuarem de acordo com lei ou
regulamento. Do conhecimento de tal ordenamento resulta
que não há normas específicas disciplinando a metodologia de
repressão à chamada “Lavagem de Dinheiro”.
Em razão da importância cada vez maior da repressão
destes delitos se faz necessário o aprimoramento e
especialização dos meios de investigação. A falta de uma
metodologia específica demanda uma discussão a respeito do
modo pelo qual essa investigação possa ser realizada, pois a
referida omissão dá abertura para uma redução na qualidade
do produto da investigação policial em virtude de uma atuação
profissional mais intuitiva e menos técnica.
Como ensina FERRO JÚNIOR e DANTAS (2006)3,

3 FERRO JÚNIOR, Celso Moreira; DANTAS, George Felipe de


Lima. A descoberta e a análise de vínculos na complexidade da
investigação criminal moderna.  2006. Disponível em:  <http://jus.com.
br/artigos/10002>. Acesso em: 2 set. 2013.

256 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
“O Estado moderno estaria passando hoje por uma
sequência de estágios ou níveis de enfrentamento com
o crime organizado, começando por um estágio inicial
de confrontação, com o Estado considerado muitas
vezes dispondo apenas de métodos e técnicas policiais
ultrapassadas e ineficazes. Com a incapacidade de conter o
fenômeno dessa nova criminalidade organizada, complexa
e transnacional, em um estágio seguinte ao da confrontação
surgiria o da aquiescência relutante”.

A Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à


“Lavagem de Dinheiro”(ENCCLA),na definição das ações
para 2013, em sua “ação 9” dispõe: “Elaborar proposta de
aperfeiçoamento dos meios operacionais de investigação nos
crimes relacionados à lavagem de dinheiro e à corrupção”4.
No mesmo sentido, a “recomendação nº 4”, da ENCCLA
2013, considerando a necessidade de aperfeiçoamento da
persecução penal do referido crime no âmbito estadual,
recomenda às Secretarias de Segurança Pública ou Secretarias
congêneres e Polícias Civis dos Estados e do Distrito Federal
a criação, no âmbito das polícias judiciárias, de Delegacias
Especializadas na repressão à “lavagem de dinheiro”.
Portanto, a referida lacuna procedimental, além de estar
em descompasso com o princípio da legalidade, tem sua provisão
fomentada pela ENCCLA, que propõe o aperfeiçoamento dos
meios operacionais e persecução penal do delito tratado neste
trabalho, conforme a ação 9 e a recomendação 4, de 2013.
A diretriz escolhida para abordarmos o problema em
questão será a Doutrina Nacional de Inteligência de Segurança

4 ENCCLA – Nos dias 26 a 30 de novembro de 2012, em João Pessoa (PB),


reuniram-se mais de 60 órgãos para definirem as ações e recomendações
para 2013.

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 257


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
Pública (DNISP)5.Esta será utilizada como fonte primária
de conceitos e definições para a criação da metodologia
procedimental na investigação do aludido crime.
Assim, a finalidade deste trabalho originado de pesquisa
acadêmica, é apresentar uma sugestão de regulamento de
análise e investigação voltada à repressão ao Crime de Lavagem
dinheiro, tendo como objeto de estudo as legislações penais
em vigor e a Doutrina Nacional de Inteligência de Segurança
Pública (DNISP), em especial o respectivo Ciclo da Produção
de Conhecimento (CPC).

2 LACUNAS LEGISLATIVAS

A Lei nº 9.613/98, que versa sobre os crimes de


“lavagem” ou ocultação de bens, direitos e valores, prevenção
da utilização do sistema financeiro para os ilícitos previstos
nesta Lei, em nenhum de seus artigos estabelece norma para a
investigação de tais delitos.
No ordenamento jurídico criminal brasileiro, o Decreto-
Lei nº 3.689/41, conhecido como o Código de Processo Penal
(CPP) disciplina a investigação penal de modo genérico, como
se vê a seguir:

Art. 6o Logo que tiver conhecimento da prática da infração


penal, a autoridade policial deverá:

5 A Doutrina Nacional de Inteligência de Segurança Pública, publicada


no ano de 2007, não tem classificação, podendo assim ser utilizada em
material acadêmico.

258 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
I - dirigir-se ao local, providenciando para que não se alterem
o estado e conservação das coisas, até a chegada dos peritos
criminais;
II - apreender os objetos que tiverem relação com o fato,
após liberados pelos peritos criminais;
III - colher todas as provas que servirem para o esclarecimento
do fato e suas circunstâncias;
IV - ouvir o ofendido;
V  -  ouvir o indiciado, com observância, no que for
aplicável, do disposto no Capítulo III do Título VII, deste
Livro, devendo o respectivo termo ser assinado por duas
testemunhas que lhe tenham ouvido a leitura;
VI - proceder a reconhecimento de pessoas e coisas e a
acareações;
VII  -  determinar se for caso, que se proceda a exame de
corpo de delito e a quaisquer outras perícias;
VIII  -  ordenar a identificação do indiciado pelo processo
datiloscópico, se possível, e fazer juntar aos autos sua
folha de antecedentes;
IX - averiguar a vida pregressa do indiciado, sob o ponto de
vista individual, familiar e social, sua condição econômica,
sua atitude e estado de ânimo antes e depois do crime e
durante ele, e quaisquer outros elementos que contribuírem
para a apreciação do seu temperamento e caráter.

Conforme o referido artigo, somente há uma mera


relação de diligências que podem ou devem ser realizadas,
sem, contudo estabelecer uma metodologia de investigação.
O Anteprojeto do novo Código de Processo Penal (2009,
p. 28) ,o qual tramita no Congresso Nacional, dispõe:
6

6 Projeto de Lei 8.045/2010, o qual foi elaborado por Comissão de


Juristas de o anteprojeto de reforma do Código de Processo Penal, sendo
o Coordenador o Ministro Hamilton Carvalhido e relator o Dr. Eugênio
Pacelli de Oliveira.

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 259


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
Art. 9º. A autoridade competente para conduzir a investigação
criminal, os procedimentos a serem observados e o seu prazo
de encerramento serão definidos em lei.

Este artigo que está insculpido no Anteprojeto do novo


Código de Processo Penal determina que os procedimentos
a serem observados e o seu prazo de encerramento serão
definidos em lei, ou seja, ganha importância a discussão sobre
o tema metodologia de investigação, pois a lei definirá de
acordo com o princípio da legalidade.
A Lei nº 12.830/13promulgada em 20 de junho de 2013,
inova o ordenamento jurídico com a investigação criminal
conduzida pelo delegado de polícia.

Art. 1o  Esta Lei dispõe sobre a investigação criminal


conduzida pelo delegado de polícia. 
Art. 2o  As funções de polícia judiciária e a apuração de
infrações penais exercidas pelo delegado de polícia são de
natureza jurídica, essenciais e exclusivas de Estado. 
§ 1o  Ao delegado de polícia, na qualidade de autoridade
policial, cabe a condução da investigação criminal por meio
de inquérito policial ou outro procedimento previsto em lei,
que tem como objetivo a apuração das circunstâncias, da
materialidade e da autoria das infrações penais.
§ 2o  Durante a investigação criminal, cabe ao delegado de
polícia a requisição de perícia, informações, documentos e
dados que interessem à apuração dos fatos.

Assim, descreve o seu artigo 1º que: “Esta Lei dispõe sobre


a investigação criminal conduzida pelo delegado de polícia”,
em seus artigos não há descrição de atos procedimentais e de
atos de investigações.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
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No âmbito do Ministério Público, editada pelo Conselho
Nacional do Ministério Público (CNMP), dele se origina
a Resolução nº 13/20067, que regulamenta o art. 8º da Lei
Complementar 75/93 e o art. 26 da Lei n.º 8.625/93, a qual prevê
a instauração e tramitação do procedimento investigatório
criminal, como se vê a seguir:

Art. 6º Sem prejuízo de outras providências inerentes à sua


atribuição funcional elegalmente previstas, o Membro do
Ministério Público, na condução das investigações, poderá:
I – fazer ou determinar vistorias, inspeções e quaisquer
outras diligências; II – requisitar informações, exames,
perícias e documentos de autoridades, órgãos e entidades
da Administração Pública direta e indireta, da União, dos
Estados, do Distrito Federal e dos Municípios; III –
requisitar informações e documentos de entidades privadas,
inclusive de natureza cadastral; IV – notificar testemunhas
e vítimas e requisitar sua condução coercitiva, nos casos de
ausência injustificada, ressalvadas as prerrogativas legais; V
– acompanhar buscas e apreensões deferidas pela autoridade
judiciária; VI – acompanhar cumprimento de mandados
de prisão preventiva ou temporária deferidas pela autoridade
judiciária; VII – expedir notificações e intimações
necessárias; VIII- realizar oitivas para colheita de
informações e esclarecimentos; IX – ter acesso incondicional
a qualquer banco de dados de caráter público ou relativo a
serviço de relevância pública; X – requisitar auxílio de
força policial.

Conforme o artigo da referida resolução, somente há


uma mera relação de diligências que podem ser realizadas,

7 O caderno investigativo do Ministério Público, com fundamento nesta


Resolução, é denominado Procedimento de Investigação Criminal (PIC).

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 261


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
sem, contudo estabelecer uma metodologia de investigação.

3 CICLO DA PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO

Para a DNISP (2007, p. 20), o Ciclo de Produção de


Conhecimento (CPC) pode ser definido como:

“Um processo formal e regular separado em duas etapas


principais, uma vinculada à reunião de dados e a outra
ao processo de análise. Nesse processo, o conhecimento
produzido é disponibilizado aos usuários agregando-se
medidas de proteção e negação do conhecimento”.

Segundo a DNISP (2007, p. 17):

“Dado é toda e qualquer representação de fato, situação,


comunicação, notícia, documento, extrato de documento,
fotografia, gravação, relato, denúncia, etc., ainda não
submetida pelo profissional de ISP à metodologia de
Produção de Conhecimento”.

A DNISP (2007) define conhecimento como o resultado


final, que poderá ser escrito ou oral, realizado pelo profissional
de ISP, com a utilização da metodologia de Produção de
Conhecimento sobre dados e/ou conhecimentos anteriores.
Ciclo de Produção de Conhecimento (CPC) é composto
pelas seguintes fases: planejamento; reunião de dados,
processamento e difusão, conforme prega a DNISP (2007).

262 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
A definição de planejamento segundo a DNISP (2007,
p. 20), é:

“Planejamento é a fase do CPC na qual são ordenadas,


de forma sistematizada e lógica, as etapas do trabalho
a ser desenvolvido. Aí são estabelecidos os objetivos e/
ou as necessidades, os prazos, prioridades e cronologia,
e são definidos os parâmetros e as técnicas a serem
utilizadas, partindo-se, sempre, dos procedimentos
mais simples para os mais complexos. Planejar deve
constituir-se em uma ação rotineira do profissional de
inteligência”.

A reunião de dados, nos termos da DNISP é a etapa do


CPC, que procura obter dados e/ou conhecimentos por meio
da coleta ou busca. Ao refletir sobre o tema Denílson Feitoza
Pacheco (2005)8, diferencia coleta de busca:

“Nas atividades de inteligência, a coleta é a consulta


a fontes abertas, como internet, livros etc. A busca é
o levantamento de  dados negados,  que se referem
a fontes  não abertas. A ideia de busca, na atividade
de inteligência, antecedeu historicamente à própria
investigação criminal. Já nos tempos antigos eram
enviadas pessoas para fazer levantamento da estrutura
dos exércitos, características da economia, da população
e da tecnologia etc.”

8 PACHECO, Denílson Feitoza. Atividades de Inteligência e Processo


Penal. Disponível em:  <http://www.advogado.adv.br/direitomilitar/
ano2005/denilsonfeitozapacheco/atividadedeinteligencia.htm>. Acesso
em: 22 ago. 2013.

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 263


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
O processamento é a fase na qual o conhecimento é
produzido, sendo, portanto, a fase intelectual em que o analista
percorre as seguintes etapas: avaliação, análise, integração e
interpretação (DNISP, 2007).
Avaliação pode ser conceituada como a etapa na qual se
determina a pertinência e o grau de credibilidade dos dados, a
fim de classificar e ordenar àqueles que, prioritariamente, serão
utilizados e influenciarão decisivamente no conhecimento a
ser produzido.
A próxima etapa do processamento é a análise, onde
são decompostos os dados, posteriormente reunidos, em suas
partes já devidamente avaliadas. Assim a finalidade é obter os
aspectos essenciais levantados examinados de cada uma delas,
a fim de estabelecer sua importância em relação ao assunto em
pauta.
Integração é a etapa do processamento na qual o analista
monta um conjunto ordenado e lógico com base nas frações
significativas, já devidamente avaliadas. O aproveitamento
de uma fração significativa varia de acordo com o tipo de
conhecimento que se pretende produzir.
Interpretação é a etapa do processamento na qual
se esclarece o significado final do assunto tratado. Após o
processo de avaliação, análise e integração, deve-se buscar
estabelecer as relações de causa e efeito, apontar tendências e
padrões e fazer previsões, baseadas no raciocínio.
Ainda nos termos da DNISP (2007), após o processo de
avaliação, análise e integração, deve-se buscar estabelecer as
relações de causa e efeito, apontar tendências e padrões e fazer
previsões, baseadas no raciocínio.
A última fase do ciclo da produção do conhecimento é
a difusão, onde o conhecimento produzido será formalizado

264 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
em documentos, os quais podem ser de inteligência ou não,
a depender de sua natureza, disponibilizada para o usuário
ou outros destinatários. Em atendimento ao princípio da
oportunidade admite-se a difusão informal, previamente à sua
formalização (DNISP, 2007).

4 METODOLOGIA DE INVESTIGAÇÃO VOLTADA


À REPRESSÃO AO CRIME DE “LAVAGEM DE
DINHEIRO”

Primeiramente temos que conceituar metodologia. Na


visão de Barros (1986, p.01)9:

“Consiste em estudar e avaliar os vários métodos disponíveis,


identificando suas limitações ou não ao nível das implicações
de suas utilizações. A Metodologia, num nível aplicado,
examina e avalia as técnicas de pesquisa bem como a geração
ou verificação de novos métodos que conduzem à captação
e processamento de informações com vistas à resolução de
problemas de investigação.”

Como visto anteriormente, as fases do ciclo de produção


do conhecimento estabelecido na doutrina de inteligência
podem ser amplamente utilizadas na investigação dos crimes
de “Lavagem de Dinheiro”, com o intuito de suprir a lacuna
legislativa e regulamentar.

9 BARROS, Aidil Jesus Paes de & SOUZA, Neide Aparecida de.


Fundamentos de Metodologia. São Paulo: McGraw-Hill, 1986.

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 265


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
Conforme Maurício Correali (2007, p. 8)10:

 “A atividade de Inteligência de Segurança Pública


(ISP), compreende um conjunto de ações voltadas à
produção de conhecimentos orientadores dos gestores
públicos da segurança na prevenção e no enfrentamento
do fenômeno criminal, identificando suas causas e
minimizando seus efeitos, a partir do emprego de
metodologia própria”.

Em decorrência da omissão legislativa sobre o tema,


estabeleceremos a integração das referidas quatro fases
-Planejamento, Reunião de Dados, Processamento e Difusão-
sob dois enfoques: a metodologia na investigação dos crimes
de “lavagem de dinheiro” e análise de dados.
Na metodologia na investigação destes crimes se destaca
a busca pela a reunião dos dados, os quais estão disseminados
em diversas fontes, em base de dados de órgãos e instituições.
Esta fase é na realidade a mais trabalhosa, tendo em vista a coleta
das informações abrange não somente o alvo da investigação,
mas também pessoas próximas a eles e interpostas pessoas.
O grande desafio tecnológico a ser enfrentado na
atualidade é a junção das consultas a serem realizadas em um
único sistema que integre os diversos bancos de dados. A
solução tecnológica para tanto é o sistema de Web Service11que

10 CORREALI, Maurício.  A atividade de inteligência de Segurança


Pública e sua importância para o aperfeiçoamento da investigação
policial. São Paulo. 2007.
11 Web Service é uma solução utilizada na integração de sistemas e na
comunicação entre  aplicações  diferentes e  podem trazer agilidade para

266 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
busca o conteúdo desejado de forma estruturada facilitando as
pesquisas, devendo para tanto buscarmos a integração entre
todos os órgãos de investigação.
A metodologia em análise de dados, como processo
autônomo, na qual se restringe aos dados já reunidos,
havendo prevalência do processamento, pois os dados a
serem analisados geralmente são os bancários, telefônicos e
contábeis, caracterizando-se pelo grande volume e demanda
conhecimentos técnicos específicos.

4.1 Metodologia na investigação dos


crimes de “lavagem de dinheiro”.

Com o novo paradigma criado em decorrência da Lei


nº 12.683/12, que promoveu alterações na Lei de “Lavagem
de Dinheiro”, em razão de não haver mais rol taxativo destes
crimes, houve ampliação de sua abrangência. A perda de bens
em favor do Estado (união federativa) e reaparelhamento do
órgão incumbido da produção da investigação é outra novidade.
Assim para obtermos sucesso na investigação em
crimes de “lavagem de dinheiro” a coleta de informações
para a produção do conhecimento abrangerá a utilização de
diversas ferramentas de busca dados na rede, além de ofícios
requisitórios.
Desta forma, assim como na análise de dados, o
Ciclo da Produção do Conhecimento da Doutrina Nacional

os processos e eficiência na comunicação entre cadeias de produção ou


de  logística. Toda e qualquer comunicação entre sistemas passa a ser
dinâmica e principalmente segura, pois não há intervenção humana.

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 267


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
de Inteligência de Segurança Pública (DNISP) é aplicável
como metodologia de investigação em crimes de “lavagem de
dinheiro”.
Conforme salientado anteriormente, a investigação
dos crimes delimitados neste trabalho se caracteriza por sua
complexidade. Por consequência, a sua investigação demanda
maiores esforços e mais tempo de apuração, sendo crucial
seguir uma metodologia na qual estabelece diretrizes de forma
ordenada para atuação.
Pertinente é a observação de Denílson Feitoza Pacheco
(2005)12sobre a investigação, como se observa a seguir:

“Infelizmente, o CPP13 e o CPPM14 têm apenas alguns


poucos tópicos sobre a investigação criminal, que a maioria
dos atores (operadores) jurídicos, como juízes e promotores
de Justiça, dos professores e dos juristas considera suficiente
para aferição do cumprimento do princípio do devido
processo legal. Na verdade, não existe um saber consolidado
sobre a investigação criminal, como ocorre na metodologia
científica. O CPP e o CPPM têm orientações muitíssimo
genéricas a respeito. Por exemplo, estabelecem coisas do
tipo “ouvir o indiciado”, “ouvir o ofendido” etc., mas não há
critérios de confiabilidade do testemunho, técnicas de oitiva
etc”.

Em observância as fases do Ciclo da Produção do

12 PACHECO, Denílson Feitoza. Atividades de Inteligência e Processo


Penal. Disponível em:  <http://www.advogado.adv.br/direitomilitar/
ano2005/denilsonfeitozapacheco/atividadedeinteligencia.htm>. Acesso
em: 22 ago. 2013.
13 Código de Processo Penal.
14 Código de Processo Penal Militar.

268 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
Conhecimento (CPC), serão demonstradas a viabilidade da
concretização metodológica de acordo com tal paradigma.
Reafirmando o que foi dito anteriormente, na análise criminal
há prevalência da fase do processamento e suas etapas
intrínsecas (avaliação, análise, integração e interpretação dos
dados). Na apuração da infração penal há prevalência da fase
reunião de dados, sem excluir obviamente a importância das
outras fases.
Para obtermos uma investigação exitosa, o primeiro
passo é o planejamento. O que caracteriza o delito de “lavagem
de dinheiro” é a ocultação ou dissimulação da origem ilícita de
bens, valores ou direitos decorrentes de uma infração penal
antecedente.
Assim, não basta a mera aquisição do valor ilícito, seja
qual for o crime ou contravenção, deve-se convertê-lo de ilícito
para lícito. Desta forma, a estratégia a respeito da apuração dos
atos dos investigados, como se estabeleceu a transferência de
valores ilícitos e a quem se destinou o produto ilegal será o
escopo investigatório.
O crime de “lavagem de dinheiro” por depender de uma
infração penal antecedente haverá elementos para definirem o
modo pelo qual se desenvolverá o trabalho de investigação,
consubstanciando a instauração do caderno investigativo por
uma portaria de abertura do procedimento onde serão traçadas
as linhas definidoras da persecução penal.
O próximo passo é a reunião de dados, na qual poderá
ser materializada no Relatório de Investigação Preliminar
(R.I.P)15 que subsidiará a Representação Judicial com o intuito

15 Este relatório é um marco para a reunião de dados, buscando-se todos


que estão disponíveis, e servindo de preparação do pedido daqueles que se

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 269


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
de obter medidas cautelares. Este relatório tem a finalidade de
fazer a conexão com outros relatórios que foram elaborados
no decorrer da investigação, como, relatório de vigilância e
levantamento, relatório de análise de dados e informações, etc.
O Relatório de Investigação Preliminar é composto
por três partes (breve relato dos fatos antecedente, descreve
atos caracterizadores do crime de lavagem de capitais
e considerações finais), com a finalidade de delimitar e
estabelecer de forma didática os elementos de convicção para
o seu destinatário que julgará o caso.
Na primeira parte há um breve relato dos fatos antecedente
para caracterizar a infração penal concebida como pressuposto
para o crime de “lavagem de dinheiro”. Tais informações são
obtidas de um inquérito policial, procedimento de investigação
criminal ou procedimento já judicializado onde tenha havido
indícios de obtenção de proveito de bens e valores ilícitos.
A segunda parte descreve atos caracterizadores do crime
de lavagem de capitais propriamente ditos, demonstrando-se
as interconexões e vínculos resultantes da coleta de dados por
todos os meios disponíveis, inclusive, sendo ilustrado com
fotografias e diagramas. Nesta etapa, em razão do grande
volume de informações caracterizador do crime em tela,
procura-se objetivar demonstrando os fatos mais significativos
considerados como delituosos.
A terceira parte se completa com as considerações finais,
indicando pessoas, contas bancárias, números de telefones,
e-mails, endereços para em seguida Representar Judicialmente
pelo o afastamento do sigilo bancário, fiscal, telemático e

submetem a necessária autorização judicial.

270 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
telefônico, assim como pelo mandado de busca e apreensão.
O processamento se materializa no Relatório de
Investigação Complementar (R.I.C)16. Este relatório tem a
finalidade de fazer a conexão com outros relatórios que foram
elaborados no decorrer da investigação com todos os dados
sensíveis decorrentes do afastamento do sigilo bancário, fiscal,
telemático e telefônico, assim como pelo mandado de busca e
apreensão.
Com o processamento das informações já constante
no caderno investigativo haverá a complementação com as
diligências faltantes com o intuito de formar a convicção
da imputabilidade do crime em questão. Este é o momento
oportuno de se Representar Judicialmente, baseado no
Relatório de Investigação Complementar, para novas buscas
e apreensões, sequestro de bens e prisões temporárias ou
preventivas.
Após a reunião e processamento de dados, a representação
para a prisão preventiva deverá ser efetivada nesta fase, pois
com o encarceramento o procedimento investigatório tem
prazo certo de conclusão que é de dez dias, como regra geral17.
A última fase é a difusão representada pelo Relatório Final,
sendo esta a conclusão do inquérito policial ou procedimento

16 Neste relatório, após o recebimento de todos os dados que estão


disponíveis e aqueles que se submetem a autorização judicial, serve para
demarcar a fase em que se processam todas as informações com a finalidade
de se atingir o conhecimento que se pretende na investigação do crime de
“lavagem de dinheiro”.
17 Conforme dispõe o artigo 10 do CPP, “O inquérito deverá terminar no
prazo de 10 dias, se o indiciado tiver sido preso em flagrante, ou estiver
preso preventivamente, contado o prazo, nesta hipótese, a partir do dia em
que se executar a ordem de prisão, ou no prazo de 30 dias, quando estiver
solto, mediante fiança ou sem ela”.

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 271


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
investigatório. Neste momento, há o encerramento da
investigação fazendo-se o indiciamento dos investigados,
individualizando a conduta de cada um, atribuindo-se os fatos
caracterizadores do ilícito penal e os valores ilegalmente
ocultados e dissimulados representando pela perda e
reaparelhamento do órgão de repressão responsável.

4.2 Metodologia na análise criminal de


dados

Oportuno ressaltar neste tópico a existência do


Laboratório de Tecnologia contra “Lavagem de Dinheiro”
(LAB-LD)18, cujo seu início decorre da realização da meta 16
da ENCCLA 2006, e tem por finalidade a difusão de estudos
sobre as melhores práticas e metodologia em análise de dados.
Instalado no âmbito do Departamento de Recuperação
de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI)
da Secretaria Nacional de Justiça (SNJ), coordena a Rede
Nacional de Laboratórios contra “Lavagem de Dinheiro”
(REDE-LAB)19 instalados em diversas instituições como:
Ministérios Públicos, Polícias Civis, Polícia Federal, Receita
Federal, entre outros.

18 O LAB-LD se originou da observação, pelos órgãos participantes da


ENCCLA, de que as investigações de casos de “lavagem de dinheiro’ ou
corrupção envolviam quebras de sigilo bancário de inúmeras contas, além
de sigilos telefônico e fiscal, abrangendo grandes períodos, o que gerava
uma grande massa de dados a ser analisada”.
19 A REDE-LAB tem por finalidade o compartilhamento de experiências,
técnicas e soluções voltadas para análise de dados financeiros, busca das
melhores práticas do combate à “lavagem de dinheiro”.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
A proposta do LAB-LD é a aplicação de soluções de
análise tecnológica em grandes volumes de informações e para
a difusão de estudos sobre as melhores práticas em hardware,
software e a adequação de perfis profissionais.
Como gestor do LAB-LD/SC20, observa-se que na
prática, de acordo com a diretriz do Laboratório Central
– DRCI, a qual não é pública, mas não possui classificação
reservada,a “Gestão de Casos LAB-LD” se divide em sete fases:
solicitação; aceitação; abertura; planejamento; processamento;
relatório; conclusão.
Conforme lição de Denílson Feitoza Pacheco (2005)21:

“Há várias teorias sobre quais fases compõem o  ciclo de


inteligência. Podemos, por exemplo, numa perspectiva
acadêmica, ter as seguintes fases: identificação das
necessidades informacionais do usuário final (requerimento
ou determinação da produção de determinada informação/
conhecimento), planejamento da obtenção dos dados/
informações requeridos, gerenciamento dos meios técnicos de
obtenção, obtenção (coleta ou busca) dos dados/informações,
processamento dos dados/informações (organização,
avaliação e armazenagem), produção do conhecimento
(análise, interpretação e síntese dos dados/informações),
disseminação do conhecimento, uso do conhecimento e
avaliação do ciclo (feedback quanto ao uso do conhecimento
para aperfeiçoamento do ciclo de inteligência)”.

20 O autor deste artigo é coordenador do LAB-LD/SC.


21 PACHECO, Denílson Feitoza. Atividades de Inteligência e Processo
Penal. Disponível em:  <http://www.advogado.adv.br/direitomilitar/
ano2005/denilsonfeitozapacheco/atividadedeinteligencia.htm>. Acesso
em: 22 ago. 2013.

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 273


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
Ao analisarmos a metodologia de análise criminal de
dados sob o enfoque do Ciclo da Produção do Conhecimento
podemos observar que a Gestão de Casos LAB-LD está de
acordo com a DNISP, pois suas sete fases correlacionam
com a mencionada doutrina, onde há um momento inicial
de pré-planejamento (solicitação; aceitação e abertura),
o planejamento (onde está inserida a reunião de dados);
processamento; relatório e conclusão (os dois últimos estão
alocados na difusão).
O planejamento abrange a verificação do caso com a
prévia determinação do assunto, consistindo em especificar o
fato ou a situação, objeto do conhecimento a ser produzido. O
assunto terá que ser preciso, determinado e específico.
Deve-se atentar para o planejamento da demanda de
forma objetiva, onde se fará um breve conhecimento da
apuração do caso. Desta forma, o objeto da análise também
se baseará nos dados a respeito das pessoas, das atividades
suspeitas, sinais de riquezas, incompatibilidades e vínculos
interpessoais, etc. Portanto, para planejar o seu escopo deve-
se observar as hipóteses já formuladas projetando-se para o
futuro os passos a serem realizados.
Na reunião de dados utilizam-se diversas ferramentas,
desde a busca na rede mundial de computadores até os
tradicionais ofícios requisitórios encaminhados as instituições
governamentais ou não. Também é realizado o acesso a
informações nos bancos de dados dos órgãos de investigação,
além do monitoramento de rede social22.

22 Rede social é uma estrutura social composta por pessoas ou organizações,


conectadas por um ou vários tipos de relações, que partilham valores e
objetivos comuns. Uma das características fundamentais na definição

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
Buscam-se também dados mais sensíveis, como os
concebidos constitucionalmente em direitos e garantias
fundamentais do cidadão, que se sujeitam a reserva de
jurisdição, os quais somente se tem acesso após autorização
judicial. Como exemplo podemos citar o sigilo bancário, fiscal,
telefônico e telemático.
A captação dos dados poderá ser oriunda de pesquisas em
relatórios de documentação apreendida, relatórios de mídias
apreendidas, relatórios de interceptação de sinais (telefônicos,
telemáticos e ambientais), relatórios de diligências de campo
(vigilância, ação controlada e infiltração de agentes) e
depoimentos já coletados, entre outros23.
O processamento é a fase da análise do caso em que
se trabalha com os dados obtidos estabelecendo-se vínculos,
inter-relações, descobertas em consonância, a priori, com as
hipóteses da linha de planejamento. Assim, ao estabelecer
o escopo do trabalho a análise de dados será direcionada à
identificação das atividades suspeitas e ilícitas.
O que caracteriza a análise em investigação em crimes
de “lavagem de dinheiro” é o grande volume de dados
digitais. A depender da quantidade de investigados, contas
bancárias, dados telefônicos, telemáticos e contábeis o volume
de informação requer especial cuidado já que o trabalho de
“mineração24”, se torna mais minucioso e detalhado.
Uma análise baseada em metodologia e ferramentas

das redes é a sua abertura e porosidade, possibilitando relacionamentos


horizontais e não hierárquicos entre os participantes.
23 Há diversas modalidades de investigação, além das informadas
anteriormente, sendo cláusula aberta os meios investigatórios.
24 Este termo designa a procura de dados relevantes, importante e com
grande valor.

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 275


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
tecnológicas de última geração se faz imprescindível para a
produção de um resultado seguro e confiável. Vale dizer, se
torna obrigatório para atender a demanda de modo satisfatório
a aplicação de soluções tecnológicas, metodologia e perfis
profissionais próprios e qualificados.
Atualmente, os órgãos de inteligência e investigação de
ponta utilizam notórias ferramentas, no entanto, a que mais
se destaca na análise é o Analyst´s Notebook - I2, pertencente
atualmente à IBM25. Outra ferramenta importante é a análise
textual em documentos digitalizados, de modo que se possa
indexar para facilitar as buscas em documentos, pastas,
diretórios e até em banco de dados.
Conforme assevera Dantas (2012)26 ao discorrer sobre
os avanços e desafios para a investigação criminal moderna,
salienta:

“O moderno operador da segurança” pública, antes


essencialmente um “artesão intuído” do conhecimento
policial, passou a ter de ser também um “operador do
conhecimento sistematizado e automatizado. (...) Mudar
implica transformar e romper paradigmas (contrariando o
princípio da “conservação da cultura”…), o que demanda
novos modelos assertivos de “gestão da mudança.” Esse novo
tempo precisa estar baseado na gestão pelo conhecimento e

25 O IBM i2 Analyst’s Notebook é um ambiente de  análise de


inteligência que permite que órgãos governamentais e empresas do setor
privado maximizem o valor da massa de informações que coletam.
26 DANTAS, George Felipe de Lima. Entrevista com o especialista
em Segurança Pública, Dr. George Felipe de Lima Dantas.2012.
Disponível em: <http://atualidadesdodireito.com.br/iab/seguranca-publica/
entrevista-com-o-especialista-em-seguranca-publica-dr-george-felipe-de-
lima-dantas/>. Acesso em: 1 set. 2013.

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Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
resultados, promovendo o atingimento de metas e resultados
transparentes e aferíveis”. 

Para a análise bancária, o Sistema de Investigação


de Movimentação Bancária (SIMBA)27,é o que há de mais
moderno em nosso pais, utilizada por órgãos conveniados
de inteligência e investigação. Estão em evolução e em
implementação o Sistema de Investigação Telemática e
Telefônica (SITTEL) e o Sistema de Investigação Fiscal
(SIFISCO), sendo as referidas ferramentas desenvolvidas no
âmbito da Procuradoria Geral da República.
Por fim, temos a difusão como a última etapa do ciclo da
produção do conhecimento que se materializa com a Produção
do Relatório. Segue as seguintes espécies de relatórios, de
acordo com o que propõe a prática da Gestão de Casos LAB-
LD, sendo eles: Relatório de Inteligência, Relatório de Análise
Técnica, Relatório de Pesquisa, Relatório de Nota Técnica e
Relatório Preliminar.
Orienta-se também, que ao final de cada caso trabalhado
deverá ser confeccionado o Termo de Conclusão de Caso o
qual se destina a formalizar a metodologia utilizada em cada
trabalho realizado para se alcançar o constante aprimoramento.
O Relatório de Inteligência tem por objetivo a produção
e análise de dados de inteligência, por exemplo, como fontes
vale lembrar-nos do COAF28. Por ter natureza de inteligência

27 O Sistema de Investigação de Movimentações Bancárias - SIMBA é um


conjunto de processos, módulos e normas para tráfego de dados bancários
entre instituições financeiras e órgãos governamentais.
28 Conselho de Controle de Atividades Financeiras – Unidade de
Inteligência Financeira do Brasil

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 277


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
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este documento não é juntado aos autos, ainda mais em razão de
recentes decisões das cortes superiores os quais não os admite
como prova processual. Assim, este relatório tem a finalidade
de servir como um elemento para tomada de decisões.
Quanto ao Relatório de Análise Técnica este visa
à análise dos dados apresentados, normalmente os sob a
reserva jurisdicional (sigilos bancários, fiscais, telefônicos,
telemáticos, etc) e que demandam um corpo técnico com
conhecimento específico. Neste relatório, não obstante estar
presente todas as fases do ciclo de produção do conhecimento
há prevalência da etapa “processamento”, pois o trabalho
versará sobre a avaliação, análise, integração e interpretação
dos dados entregues para análise.
 O Relatório de Pesquisa serve para atender à solicitação
do tipo “Pesquisas em Sistemas e Banco de Dados”. Trata-se
de simples obtenção de dados nos sistemas e banco de dados
disponíveis no LAB-LD, não exigindo um trabalho analítico
por parte da equipe do Laboratório. 
O relatório de Nota Técnica serve para
atender à solicitação do tipo “Apoio Técnico”. 
Neste tipo de trabalho não há a realização de pesquisas, nem
tampouco exame analítico de material, mas tão somente
um atendimento técnico, especialmente os relacionados à
Tecnologia da Informação. 
O Relatório Preliminar é uma demonstração parcial da
análise, informando o solicitante sobre andamento do caso até
aquele momento. Pode conter, ainda, sugestões de medidas
que só o próprio Solicitante pode providenciar, especialmente
para agilizar o envio de informações ou dados faltantes.
Por fim, propomos a inclusão do Relatório de
Investigação, o qual será o resultado final do conjunto de atos

278 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
sequenciais que resultarão no produto a ser incorporado ao
procedimento investigatório, que vimos no tópico anterior.
De acordo com a doutrina de Dantas (2002)29:

“Assim como a inteligência policial pode ser entendida como


um simples processo de produção de informação confiável
sobre problemas potenciais, ela também pode constituir-se-á
num processo complexo, envolvendo a avaliação de situações
ou fatos, em curso, que digam respeito às atividades ilícitas
de indivíduos ou organizações sistematicamente engajadas
no crime”.

5 CONCLUSÃO

Podemos constatar, portanto, a atualidade do tema


e a necessidade de o aprimoramento e especialização dos
meios de investigação, utilizando-se metodologia específica.
Considerando que não há normas disciplinando um modelo
de atuação investigatório, tal lacuna procedimental pode
ocasionara diminuição na qualidade do produto da investigação
policial.
Neste contexto, tanto a “ação 9” como a “recomendação
4” da ENCCLA 2013 propõe o aperfeiçoamento dos meios
operacionais e persecução penal de tal delito, por tais motivos,
propõe-se o aperfeiçoamento da análise de dados e persecução
penal do crime em pauta, utilizando o ciclo da produção
de conhecimento da Doutrina Nacional de Inteligência de

29 DANTAS, George Felipe de Lima. A gestão científica da Segurança


Pública: Estatísticas Criminais. 2002. Disponível em:  <http://www.
malagrino.com.br/vivaciencia/03_01_002.asp>. Acesso em: 1 set. 2013.

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 279


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
Segurança Pública (DNISP).
A investigação nos crimes de “lavagem de dinheiro”
inicia-se com portaria de abertura do procedimento ensejando
o planejamento. A reunião de dados produz o Relatório de
Investigação Preliminar que subsidiará a Representação
Judicial, posteriormente o processamento trará o Relatório de
Investigação Complementar, com finalidade integrar todas as
informações,produzindo o conhecimento para a difusão pelo
Relatório Final.
A DNISP também é aplicável na análise de dados criminal,
em consonância com o Ciclo da Produção do Conhecimento
(CPC),e compreende o planejamento especificando o fato
ou a situação, objeto do conhecimento a ser produzido, para
a reunião de dados com a utilização de diversas ferramentas
de busca, em seguida o processamento dos dados obtidos
estabelecendo vínculos e inter-relações para a difusão com três
espécies de relatórios.
Em consonância com tudo o que foi dito anteriormente,
de maneira reveladora, Ferro Júnior e Dantas(2008)30lecionam
sobre a conexão entre o crime sofisticado, a repressão
qualificada, Inteligência de Segurança Pública e tecnologia do
conhecimento:

“A cada dia, a ‘nova delinquência sofisticada e


aparentemente impessoal’ do ‘colarinho branco’ passa a ser

30 FERRO JÚNIOR, Celso Moreira; DANTAS, George Felipe de Lima.O


contexto do crime e as bases para a inteligência organizacional
nas polícias judiciárias.2008. Disponível em:  <http://www.trgroup.
com.br/upload/Artigo_Celso_Ferro_e_George_Felipe_Dantas_
IACP_04AGO2008%202.pdf>. Acesso em: 2 set. 2013.

280 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
mais visível e detectável. Isso acontece graças a uma ‘nova
repressão qualificada’, cujo arsenal passou a estar muito
mais na Inteligência de Segurança Pública (ISP) e nas suas
respectivas análises investigativa e de inteligência, lastradas
nas aplicações da ciência e da tecnologia do conhecimento
deste novo século, e menos na “tecnologia da pólvora de
vários séculos atrás”. A ‘repressão qualificada’ está baseada
essencialmente na ‘tecnologia do conhecimento’”.

Desta forma, a seguir será exposta uma sugestão de


norma ou regulamento para a produção do conhecimento de
acordo com o ciclo da produção do conhecimento da Doutrina
Nacional de Inteligência de Segurança Pública.

“LEI/REGULAMENTO/RESOLUÇÃO/PORTARIA31
Nº ___/2013”

Esta norma trata do ciclo da produção do conhecimento em


investigação e análise do crime previsto na Lei nº 9.613/98.

Art. 1o  Este regulamento dispõe sobre a investigação nos


crimes de “lavagem de dinheiro”, sendo a sequência de
atos coordenados e organizados destinados a descoberta da
autoria, materialidade e recuperação do ativo ilícito.

Parágrafo único. A análise criminal de dados tem por escopo a


produção de relatório para subsidiar a investigação criminal.

Art. 2o A investigação nos crimes de “lavagem de dinheiro”32

31 A denominação da norma dependerá da natureza do órgão que a


elaborou, sendo Lei a elaborada pelo Legislativo,caso seja o Executivo a
instância criadora do ato, neste caso teremos ato administrativo.
32 O artigo 2º dispõe sobre a metodologia de investigação, traçando o
passo a passo. Portanto, cada parágrafo relaciona-se a uma fase do CPC,

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 281


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
observará as fases nos parágrafos seguintes. 
§ 1o  A portaria de abertura de instauração da investigação
criminal conterá providências destinada são planejamento
dos atos da persecução penal.

 § 2o O Relatório de Investigação Preliminar – R.I.P conterá


a reunião de dados em consonância com demais relatórios
elaborados no decorrer da investigação, como, o de vigilância
e levantamento,de análise de dados, informações, requisições
periciais,de documentos e outros dados que interessem
à apuração dos fatos. A finalidade do R.I.P. é subsidiar a
Representação Judicial pelo afastamento do sigilo bancário,
fiscal, telemático e telefônico, busca e apreensão, que forem
cabíveis.

  § 3º  O Relatório de Investigação Complementar – R.I.C.


tem a finalidade de gerar o processamento dos dados
e informações provenientes de afastamento do sigilo
bancário, fiscal, telemático e telefônico, busca e apreensão
com outros relatórios que foram elaborados no decorrer da
investigação.O R.I.C. será integrado às novas diligências
decorrentes de buscas e apreensões, sequestro de bens e
prisões temporárias ou preventivas.

 § 4º O Relatório Final será difundido com o encerramento


das investigações apontando os indiciados, individualizando
a conduta de cada um, atribuindo-se os fatos caracterizadores
do ilícito penal e os valores ilegalmente ocultados e
dissimulados. A solicitação da recuperação do ativo ilícito
ocorrerá com a representação pela perda dos bens para
o reaparelhamento do órgão de repressão responsável,
preferivelmente nesta fase.

Art. 2o A análise criminal de dados33tem por escopo a

contendo diversas diligências que o compõe.


33 Já o artigo 3º trata do procedimento da análise de grande volume
de dados, podendo ser uma parte da investigação ou um documento de
inteligência, e também cada parágrafo do referido artigo delimita uma fase
do CPC.

282 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
identificação das informações relevantes e produção de
relatório(s), auxiliando na apuração do crime de que trata
este regulamento.
§ 1o  No planejamento se especificará o fato e o objeto do
conhecimento a ser produzido, delimitando o assunto
de forma precisa, determinada e específica, observando-
se as pessoas, as atividades suspeitas, sinais de riquezas,
incompatibilidades e vínculos interpessoais.

§ 2o A reunião dos dados será efetuada com ferramentas de


busca na rede mundial de computadores, ofícios requisitórios
governamentais ou não, acesso a informações nos bancos de
dados dos órgãos de investigação, monitoramento de social
networks, além do afastamento de sigilos bancário, fiscal,
telefônico, telemático, ambientais, entre outros dispostos na
legislação em vigor.

§ 3o  No processamento objetiva-se estabelecer vínculos,


inter-relações, das atividades suspeitas e ilícitas de acordo
com os investigados, contas bancárias, dados telefônicos,
telemáticos e contábeis, utilizando-se de ferramentas
tecnológicas para a produção de um resultado seguro e
confiável.

  § 4o A difusão do relatório de análise criminal de dados


poderá ocorrer de seis formas:

a)Relatório de Inteligência tem por objetivo a produção e


análise de dados de inteligência com a finalidade de servir
como um elemento para tomada de decisões, sem validade
probatória;

b) Relatório de Análise visa apresentar uma interpretação


estabelecendo vínculos entre os investigados, a hipótese
sugeridas, objeto da demanda contidos nos dados
apresentados, com finalidade probatória analítica;

c) Relatório de Pesquisa serve para atender à solicitação do


tipo pesquisas em Sistemas e Banco de Dados, não exigindo
um trabalho analítico.

Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação: 283


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
jul./set. 2014.
d) Relatório de Nota Técnica serve para atender à solicitação
do tipo apoio técnico, especialmente os relacionados à
Tecnologia da Informação. 
e) Relatório Preliminar é uma demonstração parcial da
análise, informando sobre andamento do caso até aquele
momento, sugestões de medidas, especialmente para
agilizara apresentação de informações ou dados faltantes. 

f) Relatório de Investigação34 será o resultado do conjunto de


atos e diligências de persecução que resultarão no produto a
ser incorporado ao procedimento investigatório.

Art. 3o  A diretriz traçada neste regulamento observará


as especificidades de cada caso e será aplicada todas as
inovações tecnológicas de coleta de dados que surgirem,
respeitando-se sempre os princípios e as normas legais e
Constitucionais.

Art. 4o  Este regulamento35 entra em vigor da data de sua


publicação.

REFERÊNCIA

BARROS, Aidil Jesus Paes de & SOUZA, Neide Aparecida


de. Fundamentos de Metodologia. São Paulo: McGraw-
Hill, 1986.

34 Na metodologia da REDE LAB-LD o relatório de investigação não está


inserido dentre as espécies de relatórios, no entanto, cremos ser necessário
existir esta modalidade, pois a coleta de dados pode ser realizada de
diversas formas conforme dito anteriormente, inclusive com investigação e
todas as suas formas para obtermos os dados pretendidos.
35 Conforme já informado anteriormente, a denominação deste instrumento
dependerá de sua natureza jurídica e do órgão que o criou.

284 Revista Caminhos, Online “Especial Pós-Graduação:


Inteligência Criminal”, Rio do Sul, ano 5 (n. 13), p. 255-286,
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4348-B9CB-4EA6164801A5%7D;&UIPartUID=%7B286
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Segurança Pública. Doutrina Nacional de Inteligência
de Segurança Pública. Brasília, 2007 (material não
classificado).

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CORREALI, Maurício. A atividade de inteligência
de Segurança Pública e sua importância para o
aperfeiçoamento da investigação policial. Dissertação
apresentada para Seleção de Professor Temporário de
Inteligência Policial. Academia de Polícia “Dr. Coriolano
Nogueira Cobra”. São Paulo. 2007.

DANTAS, George Felipe de Lima. A gestão científica


da Segurança Pública: Estatísticas Criminais..2002.
Disponível em: <http://www.malagrino.com.br/
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