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Disciplina: Liturgia I

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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Escola Mater Ecclesiae – Núcleo Inhaúma


Paróquia de São Tiago

I. Introdução.

“O mistério é o plano de Deus de fazer o homem participante de sua vida e de seu


amor. Em Jesus Cristo realizou-se plenamente este mistério de Deus, pois n’Ele o divino e o
humano tornaram-se totalmente um, que formam uma só pessoa”(Frei Alberto Beckhäuser,
OFM). A razão última da Liturgia é fazer com que aquele que a celebra torne-se aquilo que é
celebrado. Esta afirmação encontra eco nas firmes palavras do apóstolo Paulo a respeito do
culto cristão: “Exorto-vos, portanto, irmão, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais vossos
corpos como hóstia viva, santa e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual. E não vos
conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes
discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito” (Rm 12,1-2). Nesse
sentido, LITURGIA e EVANGELIZAÇÃO se apresentam como dois aspectos da fé cristã que
possuem uma intrínseca ligação. Ora, quando pensamos em Evangelização referimo-nos aquilo
que está além da comunicação de uma mensagem, dado que seus três elementos fundamentais e
necessários são:

a) KERYGMA: anúncio;
b) MISTAGOGIA: iniciação litúrgica (Sacramentos, Lit. Horas, Ano Litúrgico);
c) EPIFANIA: testemunho de vida.

É importante o entendimento desta três realidades, visto que na Liturgia


experimentamos aquilo que ouvimos, que nos foi anunciado; ela abraça a segunda fase da
evangelização – fase mistagógica. Nela o evangelizado é posto diante d’Aquele que conheceu.
Aqui, a Liturgia torna-se, de modo particular, o referencial de toda vida de oração do crente,
visto que aquele que pretende assumir a fé autêntica da Igreja deve assumir o modo autêntico de
a Igreja orar.

Elementos constitutivos da Liturgia

Em todas as civilizações, ao longo da história, o culto litúrgico sempre foi considerado o


ápice da manifestação cultural (a liturgia, por exemplo, sempre foi alvo de estudo de várias
ciências – linguística, semiologia, etc), sempre tendo, como ponto fundamental, o fato de ser ela
o lugar da comunicação e movimento que vai da divindade ao homem e do homem a divindade,
pela expressão ritual, comunicação e participação ativa e consciente da assembleia. Toda
Liturgia é ANAMNESE (memória da Páscoa de Cristo, síntese da História da Salvação),
EPÍCLESE (ação do Espírito Santo, atualização da memória) e DOXOLOGIA
(glorificação do Pai, no louvor e no testemunho). Na ausência de qualquer um destes
elementos não podemos considerar a celebração como ato litúrgico. Estes são os três elementos
constitutivos que tornam os Ritos Litúrgicos atos salvíficos de Cristo-Cabeça e do seu Corpo, a
Igreja e, por meio dela, de todo universo. Nesse sentido, é importante considerar o seguinte:

a) ANAMNESE: antes de ser lembrança dos feitos de Deus para a humanidade, a


celebração litúrgica é lembrança destes mesmos feitos para Deus; antes de ser
lembrança para nós é lembrança para Ele. Temos, por exemplo, na Prece Eucarística a
melhor anamnese da Igreja;
b) EPICLESE: é um “clamor” para que “sobre” o povo desça a Pessoa Santificadora da
Ssma. Trindade;
c) DOXOLOGIA: louvor, culto, adoração, glorificação ascendente, reconhecimento e ação
de graças, resposta de fé.
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Liturgia e História

A natureza constitui a primeira Revelação de Deus: antes das primeiras “descobertas”


da escrita, ao longo das diferentes e intermináveis eras históricas, o homem não possuía outro
livro sagrado senão o cosmo para decodificar; nunca é demais indicar que tal livro nunca será
esgotado, pois sempre revelará algo de inédito. A celebração primordial do culto consiste em
ritualizar um fenômeno cósmico no qual se reconhece uma intervenção salvífica de uma força
superior, a Divindade. Esta intervenção é reconhecida como um ato que cria e salva da morte. O
ciclo das estações (com a primavera que a cada ano liberta o cosmo da morte do inverno), as
fases da Lua, a volta diária do Sol depois da noite que seria a morte, tudo isso constitui o pano
de fundo de todo culto e a origem dos ritos e das festas de sempre. Esta fase, pré-bíblica,
podemos chamar de Liturgia Cósmica.

Com a experiência de Abraão (Gn 12) registra-se uma nova etapa em nossa história: o
Deus que se manifesta no cosmo (ainda que de forma impessoal) se revela agora também
intervindo na história pessoal do Abraão e de sua descendência; com ele e os demais Patriarcas
desenvolve-se uma passagem progressiva de uma monolatria genérica a um monoteísmo sempre
mais reconhecido como o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. De agora em diante o culto
continua a celebrar (lembrança e atualização) os eventos salvíficos de Deus que salva o cosmo,
mas acrescenta-lhe um novo sentido, ao celebrar as intervenções de Deus na história de seu
povo. Para celebrar o Deus de seus Pais Israel não inventou novos ritos, mas acrescentou novos
significados. O ato central continua sendo o sacrifício: o sábado caldeo-babilônico é consagrado
ao Deus de Abraão; a festa da primavera – a Páscoa – continua a celebrar a volta da vida à
natureza, a partida dos rebanhos rumo aos prados verdejantes das alturas, o período da vida
nômade. Antes de celebrar a Páscoa do Êxodo já existia em Israel a celebração da Páscoa (Ex
5,1-3;10,8). Esta fase nômade da Páscoa é representada ainda hoje no sacrifício do cordeiro e
pelas ervas amargas.

O povo de Deus, portanto, reconhece nos eventos do Êxodo o selo da intervenção do


Deus de Abraão. As festas, nesse sentido, renovam a criação, mas também os eventos históricos
que marcaram a salvação do povo e a sua sobrevivência nacional. A liturgia do Antigo
Testamento vincula-se aos acontecimentos da natureza e da história. A celebração ritual, porém
não é uma mera lembrança psicológica, mas uma Renovação dos eventos celebrados de forma
ritual; é o memorial que alcança uma profunda teologia no culto. Pela celebração do memorial,
o povo de Deus se apoia no evento passado para garantir seu presente e futuro. O que Deus
outrora operou para os Patriarcas não pode ser desmentido e isto é a garantia do futuro.

No Novo Testamento, ainda durante seu ministério público, Jesus certamente dá


indícios que celebrava com intensidade o culto judaico sem, porém deixar de contestar sua
deterioração, particularmente em função de posturas assumidas por parte dos sacerdotes. Nele,
podemos identificar três atitudes básicas de Jesus diante do culto vétero-testamentário; estas
indicam que ele não contestava o culto tradicional, mas denunciava sua degeneração:

a) Devoção: Lc 2,41; 4,16;


b) Discernimento: Lc 6,1; 13,10;
c) Reprovação das incoerências: Lc 11,37; 19,45; 22,7.

Na sequencia da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, à luz da reflexão apostólica


sobre este que é o evento fundante da fé cristã (1Cor 15), encontramos elementos litúrgicos
dispostos da seguinte forma:

1. Nos escritos Paulinos sobressaem estes elementos da vida litúrgica dos primeiros
cristãos:

a) Batismo: Rm 6,1-11; 1Cor 1,11-17; Cl 2,12; Gl 3,27; Tt 3,5-7;


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b) Eucaristia: 1Cor 10,14-22; 11,17-34;


c) Oração Comunitária: 2Cor 13,13; Rm 15,13; Ef 1,3;5,19; Fl 2,6; 1Ts 5,27;

2. Nos Sinóticos, Atos dos Apóstolos e Escritos Joaninos percebemos:

a) uma vivência litúrgica já desenvolvida: At 2,42;


b) o sentido cristológico dos salmos: Mt 22,41(Sl 110,1); 23,38(Sl 118,26); Mt 27,45 (Sl
22,2); At 4, 23 (Sl 2,1);
c) alusões à oração horária no Templo, nas Sinagogas e nas casas: At 3,1; 5,42; 10,3.

3. O quarto Evangelho tem como pano de fundo o Ano Litúrgico:

a) uma vivência litúrgica já desenvolvida: At 2,42;


b) catequese batismal (3,1-21; 9,1-39; 5,1-14; 7,21-24);
c) discurso eucarístico (6).

Com a expansão da fé pelos confins do império romano, começam a surgir os diferentes


ritos ou famílias litúrgicas. Partindo da Antioquia, a evangelização difundiu-se em cidades
importantes, que se tornaram centros de verdadeira irradiação da fé cristã:

a) Em Roma (Liturgia em língua grega);


b) Em Alexandria, no Egito, e na Etiópia, nordeste da África (Liturgia em língua grega);
c) Em Cartago, noroeste da África (Liturgia em língua Latina – Tertuliano, S Cipriano e
Sto Agostinho);
d) Em Odessa e no extremo Oriente, até a Índia (Liturgia em língua siríaca)

No decorrer dos séculos, os ritos multiplicaram-se, distinguindo-se em função da língua


e região. Com o papa S Dâmaso (363 – 384), a língua litúrgica em Roma passou para o Latim,
visto que os cidadãos da capital do império bem como de quase todo ocidente não entendiam
mais o grego (o próprio papa, de origem espanhola, devido a vizinhança com Cartago, usava o
Latim na Liturgia. Todavia, desde o século II, temos o testemunho de São Justino, mártir, sobre
as grandes linhas do desenrolar da celebração eucarística. Permaneceram as mesmas até aos
nossos dias, em todas as grandes famílias litúrgicas.

II. O desenvolvimento histórico da Liturgia

As raízes judaicas da liturgia cristã

As atuais investigações acentuam fortemente a conexão genética do culto cristão, em


suas origens, com o mundo judaico, tanto bíblico como extra-bíblico. Diferentemente das outras
religiões, a religião judeu-cristã refere-se fundamentalmente a acontecimentos históricos, sendo
a coluna vertebral do seu culto o conceito de memória (zikkarôn). A fé de Israel tem seu centro
Iahweh, Deus único e pessoal, cuja presença ativa na história busca libertar salvar seu povo e
estabelecer uma aliança de amor com ele. A experiência básica do Êxodo, como movimento de
libertação e constituição do povo no nível político, traz consigo, no plano religioso, um
movimento de conversão e aceitação da fé em Iahweh, que implica, por sua vez, uma nova
categoria de culto. Todo o culto, na história de Israel, está internamente orientado para
relembrar este acontecimento-chave.

A celebração da Páscoa, que tem suas raízes cósmico-naturalistas, adquire uma nova
significação no nível histórico, chegando a ser um memorial para as sucessivas gerações.
Memorial cuja organização segue a tríplice dimensão: passado, presente e futuro, à espera de
um novo Êxodo definitivo. A berakah ou bênção judaica, típica do povo judaico, exprime uma
percepção original da realidade divina. Em sua estrutura formal, inclui como prólogo uma
explosão admirativa (bendito seja Iahweh) e uma explicitação dos motivos desse louvor, com a
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recordação das grandes obras que Deus realizou em favor do seu povo; comporta de hábito um
duplo tema básico, a criação e a história da salvação. Nessa criação da alma de Israel, a berakah
ou bênção judaica, temos de ver a matriz da eucaristia cristã.

Mas o culto que Iahweh espera do seu povo não pode limitar-se ao louvor formal, ao
gesto puramente exterior, nem a uma atitude interna de adoração, isolados da vida (cf. Dt 10,12-
13; Js 24). Pressupõe uma atenta escuta da Palavra de Deus e um prolongamento lógico na
fidelidade prática à aliança. O encontro com Iahweh libertador na história, sua celebração
agradecida no culto e a resposta coerente na fidelidade à aliança constituem três momentos
básicos e em perfeita continuidade dentro da vida do povo de Israel. É certo que no decorrer da
história, demasiadas vezes o povo estabeleceu um divórcio prático entre estes componentes. Os
profetas atacam com veemência um culto vazio e formalista, que procura encobrir e justificar,
diante de Deus, os crimes sangrentos e as profundas injustiças no plano social (Am 5,21-24; Is
29,13; Os 6,6; Mq 6,5-8; Is 1,10-17; Is 58,1-8; Jr 7,1-15; Eclo 34, 18-26...). Uma pequena
mostra do que deve ser o verdadeiro culto, encontramos em Dn 3,38-41. A prática da lei é em si
mesmo o novo culto (Eclo 35,1-10). Esta utopia não poderá concretizar-se se o próprio Deus
não se comprometer a transformar os corações pela raiz, a purificar o interior do homem
derramando profusamente seu espírito e capacitando-o a um novo culto (Jr 31,31-34; Ez 36,25-
27), aberto à comunidade de todos os povos.

Os tempos Apostólicos – séc. I:

Jesus de Nazaré vive e atua dentro do sistema de culto do seu povo. Freqüenta a reunião
sinagogal dos sábados, “segundo seu costume” (Lc 4,16; Mc 1,21-39; 3,1-6; Mt 4,23; 9,35;12,9;
13,54...); participa regularmente também, como um judeu piedoso de sua época, do culto do
templo e das festas anuais de peregrinação (Lc 2,41-42; Jo 2,13; 5,1; 7,2-14; 10,22-23...). Mas
por outro lado Jesus transgride com freqüência, inclusive de modo provocativo, essa ordem
cultual de Israel, manifestando sua liberdade soberana sobre ela, manifestando assim, sua
vontade reformadora, como um prolongamento e uma plenificação da tradição profética. O
valor ou a nulidade do culto dependem do amor e do perdão ao irmão (Mt 5,23-24; Mt 15,5-9,
retomando a crítica aos culto de Is 29,13). Longe de uma mentalidade que busca atribuir
virtualidades mágicas à reiteração de gestos rituais (Mc 7,11, Mt 15,5) e à multiplicação de
palavras nas orações (Mt 6,7), Jesus proclama, no diálogo com a samaritana, um culto em
espírito e verdade (Jo 4,20-24), que Deus espera de seus verdadeiros adoradores e que Jesus não
se limita a ensinar, mas também o vive pessoalmente em toda a sua existência.

A passagem da antiga para a nova Aliança, não se fez num piscar de olhos, foi
necessário mais de uma geração para que as primeiras comunidades cristãs se separem
definitivamente de Israel e do seu culto. Isto se deu com a destruição do templo, no ano 70.
Várias passagens mostram que Paulo continuava a freqüentar o templo. Foi o judaísmo oficial
que decidiu excluir os partidários “da seita” do Nazareno. O fundamento do novo culto é Jesus
Cristo e o seu evangelho. Se a profissão de fé judaica confessa “o Senhor, nosso Deus é o único
Senhor”, a comunidade primitiva aclama que “Jesus é o Senhor” (Fl 2,11). Cristo é a realidade
íntima e perene da celebração litúrgica e que, em conseqüência, a liturgia é o exercício da fé e a
epifania de Cristo na fé. A existência íntegra do fiel no mundo, vivida na fidelidade ao espírito
de Cristo, pode chegar a converter-se em “culto espiritual”, no culto perfeito dos últimos tempos
(cf. Rm 12,1ss).

Características da liturgia cristã

Quando o NT fala da celebração litúrgica usa normalmente os verbos congregar-se e


reunir-se (cf. Mt 18,20; 1Cor 11,17.20.33-34; 14,23.26; At 4,31; 20,7-8; Hb 10,25; Tg 2,2,...).
O fato de “reunir-se junto” dos fiéis é o elemento significativo do serviço litúrgico cristão.
Vemos as comunidades primitivas no NT celebrando, reunidas em assembléia litúrgica,
efetuando ritos. O termo ekklèsia, que evoca na Bíblia grega a assembléia de Israel no deserto,
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designa, no NT, a assembléia litúrgica como lugar em que se manifesta a própria existência da
Igreja. O rito de introdução nessa assembléia é o batismo “em nome do Senhor Jesus”, que é
constituído de três elementos: evangelização, fé (metanoia) e batismo (At 2,41; 8,12; 18,8...).

Ao ler At 2,42-47, podemos perceber o dia a dia dos primeiros cristãos. A descrição
desse “sumário” inclui os quatro elementos seguintes: o ensinamento dos apóstolos e a
comunhão fraterna (koinonia), a fração do pão e as orações. Pode-se concluir que a assembléia
cúltica reflete e reproduz as dimensões fundamentais de toda comunidade cristã que busca o
seguimento fiel do seu Mestre.

a) Os primeiros cristãos, conforme narram os Atos, “partiam o pão nas casas, tomando as
refeições com alegria e simplicidade de coração” (At 2,46). É sem dúvida o ponto
culminante da assembléia litúrgica, no qual a cristologização do culto adquire sua maior
densidade. No séc. I, a Eucaristia é celebrada junto com uma refeição, especialmente
nas comunidades de origem judaica. Este já era considerado um rito religioso próprio,
que distinguia os primeiros cristãos (em sua grande maioria oriundos do judaísmo) do
restante dos judeus. Ora, o testemunho dado pelo Apóstolo Paulo em 1 Cor 10,16; 11,23
nos assegura que, nessa reunião tipicamente cristã, já muito primitivamente, “partia-se o
pão” e “abençoava-se o vinho”. O Sentido ritual desta celebração apresentava-se, já
desde a era apostólica, da seguinte forma: 1. Memorial: o rito cria uma presença
salvífica do Senhor (Lc 24,1-35; Jo 20,20 e 24,29); a ceia do Senhor e a proclamação e
a memória da morte do Senhor, que se tornou presente no rito. Na fração do pão se dá a
presença da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo; 2) Sacrifical: já a Didaqué
(escrito que data de fins do séc. I de nossa era e, portanto, bem próximo do Novo
Testamento) vai ensinar que os fiéis “reúnam-se no dia do Senhor para partir o pão e
agradecer, depois de ter confessado os pecados, para que o sacrifício de vocês seja
puro” (Did XIV).; e 3) Eclesial: é das palavras do Apóstolo Paulo que vai emergir a
eclesialidade deste rito; “embora muitos, somos um só corpo, pois todos participamos
deste único pão”(1Cor 10,17). A Fração do Pão, podemos assim dizer, nos dá indícios
de uma primeira celebração pascal, realizada em âmbito familiar (At 2,46;20,7), e sua
periodicidade era, muito provavelmente, semanal, sendo realizada aos domingos,
conforme nos indicam os textos de At 20,7 e da Did XIV.
b) Junto com a refeição há o ensinamento dos apóstolos: as comunidades primitivas
começavam por uma didaché, que compreende a recordação das palavras e ações de
Jesus. Eram, basicamente, as instruções para os neoconvertidos e constituíam o pleno
processo de EVANGELIZAÇÃO, cujos três pilares fundamentais, conforme já
sinalizamos, podem ser identificados com o KERYGMA (anúncio da Paixão, Morte e
Ressurreição de Jesus), MISTAGOGIA (introdução aos mistérios/sacramentos da
iniciação cristã: batismo, confirmação e eucaristia) e EPIFANIA (testemunho do que
foi assimilado no anúncio e experimentado nos sacramentos). Era, ainda, caracterizado
pela explicação das escrituras a luz dos eventos cristãos, sob uma ótica eminentemente
pascal (isto podemos verificar, por exemplo, nos textos de At 2,29-36; 7,1-54; 8,26-40)
e também pela pregação apostólica, traduzida, fundamentalmente, pelo corajoso
anúncio da Paixão, Morte e Ressurreição como evento catalisador da salvação operada
por Deus por meio de Jesus Cristo (At 2,22-24; 3,12-15; 4,9-12; 5,29-33).
c) a comunhão fraterna (koinonia): a refeição em grupo e o serviço de ajuda mútua (coleta
de donativos para os mais necessitados). Percebemos nitidamente esta preocupação com
a conexão entre refeição comunitária e ajuda aos pobres em 1Cor 11,17-34. Essa
conexão interna entre a refeição comunitária e o serviço de ajuda mútua permaneceu
cristalizado num duplo relato arquetípico: o relato da ceia e o da multiplicação dos pães,
ambos unidos pelo mesmo gesto de Jesus, que preside à refeição, dá graças, parte o pão
e o distribui. Por esta razão, a refeição cristã deve dar prosseguimento e prolongar a
multiplicação dos pães. A palavra Koinonia, bem como diaconia, designam no NT a
comunhão de mesa e, ao mesmo tempo, o serviço de ajuda mútua. Este serviço era
conhecido e habitual no judaísmo do séc. I e exibia diversas formas: o dízimo dos
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peregrinos para os pobres de Jerusalém, o pouso para os peregrinos estrangeiros, a


“escudela para os pobres” em trânsito, a experiência de total partilha/comunhão
patrimonial, traduzida no testemunho apresentado por São Lucas em At 2,44 e 4,32-35:
“vendiam suas propriedades, bens e dividiam-nos entre todos, segundo a necessidade de
cada um” e, sobretudo, o costume das sinagogas, nas tardes de sexta-feira, de distribuir
a ajuda semanal para os pobres e viúvas que viviam no país;
d) as orações. Eram as orações em comum, presididas pelos apóstolos (cf. At
3,1;4,24;1,14.24;12,5). Conforme a IGLH, os primeiros cristãos, por influência do
judaísmo, tinham o costume de rezar ao anoitecer/amanhecer e “com o decorrer do
tempo, chegaram a santificar com uma prece comum também as demais horas, que os
Padres da igreja viam insinuadas nos Atos dos Apóstolos. Aí, de fato, aparecem os
discípulos reunidos as nove horas (At 2,1-15), o Príncipe dos apóstolos ‘subiu ao
terraço para orar pelas doze horas’ (At 10,9), ‘Pedro e João subiam ao Templo a hora da
oração das quinze horas’ (At 3,1), ‘por volta da meia noite, Paulo e Silas, em oração,
louvavam a Deus’ (At 16,25). Era normal que neste conjunto se manifestassem formas
de oração judaica, por exemplo a birkat há-mazon ou oração de bênção (=Eucaristia) e
elementos individuais, como aleluia, amém, hosana... O autor dos Atos, quando fala em
oração parece referir-se aos três momentos tradicionais de oração, dentro da jornada
judaica. Com efeito, vemos estes três momentos de oração serem praticados pelos
apóstolos: a oração da hora nona; da hora sexta; e da hora terça. No final do séc. I é
prescrito que a tríplice oração seja feita com o pai-nosso: “Não rezem como os
hipócritas, mas como o Senhor ordenou no evangelho, rezai assim: Pai-Nosso...”
(Didaché, 8)

A comunidade apostólica, embora não tendo ainda uma regulamentação estável da


liturgia, já dispunha de algumas formas litúrgicas próprias. Além dos testemunhos bíblicos, a
Doutrina dos doze apóstolos, e especialmente a Didaché, são duas fontes que nos dão uma
visão da liturgia no primeiro século. “Pela eucaristia, daí graças desta maneira: primeiramente
sobre o cálice: Nós te damos graças, nosso Pai, pela santa vinha de Davi, teu servidor, que nos
revelaste por Jesus, teu servidor. Glória a ti nos séculos! Depois pelo pão partido: Nós te damos
graças, nosso Pai, pela vida e o conhecimento, que nos revelaste por Jesus, teu servidor. Glória a
ti nos séculos! Como este pão partido, disseminado sobre as montanhas, foi juntado para ser um,
que tua Igreja seja ajuntada da mesma maneira das extremidades da terra dentro do teu reino.
Pois a ti pertencem a glória e o poder por Jesus Cristo nos séculos!” (Didaché, 9).

Liturgia nos séculos II – III – A liturgia na era dos mártires

Entre os anos 70 e 140, o cristianismo se estende em diversas regiões e comunidades


cristãs se afirmam em sua própria originalidade; todavia, nesse período, o desenvolvimento é
mais constatável na vida interna da Igreja do que em sua configuração externa. Permanecem as
formas do pensamento judeu-cristão. A multiplicação das seitas gnósticas (uma das
características fundamentais do movimento gnóstico, é sem dúvida, o dualismo, que implica o
desprezo pelo material e corpóreo), representam um perigoso inimigo do cristianismo nascente.
Os autores cristãos vêem-se obrigados a defender também o lado exterior e material da religião
cristã e do seu culto. Irineu de Lion, perto de final do séc. II, valoriza a oferenda interior do
coração, mas acentua e defende os elementos materiais da fé cristã. Ele mostra que a eucaristia
tem suas raízes na criação material, no pão e no vinho, que são da terra; esses elementos da
criação receberam sucessivas transformações de sentido até chegarem a ser o corpo e o sangue
de Cristo. Para ele, a eucaristia é constituída internamente, por um elemento celestial, a
invocação de Deus, e de um elemento terreno, que é parte da criação material que procede do
próprio Deus (AH 4,18,5 e 5,2,3). No final do século II e no começo do século III, o
cristianismo se liberta do mundo judaico e se difunde por todo o mundo greco-romano.
Destacam-se no discernimento da fé cristã nesta época, Clemente de Alexandria e Tertuliano.
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Enquanto que nos primeiros séculos as características do culto cristão são ainda vagas e
tênues, a partir do século III se mostram muito mais vigorosas e claras. Existe um certo
desenvolvimento da literatura litúrgica. Observam-se novos impulsos criadores de novas formas
litúrgicas, em resposta às necessidades das comunidades cristãs – cada vez mais robustas na
Igreja universal. Duas realidades essenciais marcam o cristianismo: o batismo e o martírio,
marcados por uma forte consciência eclesial. Os temas como mater ecclesia, sponsa Christi,
retornam com freqüência nos autores do século III. Nos primeiros séculos a celebração
eucarística conhece um tríplice momento evolutivo:

1) A ceia de Cristo celebrada pelo próprio Jesus Cristo, durante um banquete situado entre
dois ritos, preexistentes, mas transformados por Jesus – rito do pão e do cálice.
2) A época apostólica logo realizou um esclarecimento, reunindo esses dois ritos e
situando-os no fim do banquete.
3) Mais tarde ocorre uma mudança transcendental (talvez a maior de toda a história): o
abandono do banquete como suporte da celebração. Assim desaparecem as mesas, com
exceção a do presidente, caem em desuso os termos neotestamentários “fração do pão”
e “ceia do Senhor”; a oração de ação de graças, já unificada, se enriquece
progressivamente e alcança uma excepcional importância, a ponto de dar o nome à
celebração em seu conjunto.

A partir do séc. II, a designação empregada de modo mais generalizado é “eucaristia”.


As informações litúrgicas, nesta época nos são fornecidas pelos Padres Apostólicos: a Didaché
(70-90), Clemente Romano (96), Inácio de Antioquia (+130), Policarpo de Esmirna (+156).
Entre os Padres apologistas é importante o testemunho do filósofo e mártir Justino (150). No
texto, que ele escreve, por volta do ano 155, para explicar ao imperador pagão Antonino Pio
(138-161) o que fazem os cristãos, manifesta-se claramente que a celebração eucarística se
afastou do seu quadro natural, o banquete; contudo percebemos a presença da tríplice dimensão
interna da celebração (e da comunidade), tal como nos era mostrado no sumário de At 2,42: a
palavra, a eucaristia propriamente dita e a Koinonia ou preocupação com os irmãos
necessitados:

“No dia que se chama do Sol, celebra-se uma reunião de todos os que habitam nas
cidades e nos campos. Nela se lêem, à medida que o tempo o permita, as Memórias dos
Apóstolos ou os escritos dos profetas. Em seguida, quando o leitor termina, o
presidente, em suas próprias palavras, faz uma exortação e um convite para que
imitemos esses belos exemplos. Levantamo-nos seguidamente todos de uma vez e
elevamos nossas preces; quando terminam, como já dissemos, oferecem-se pão, vinho e
água e o presidente, segundo suas forças, também eleva a Deus suas preces e
eucaristias e todo o povo aclama dizendo: Amém. Prosseguindo vem a distribuição e
participação dos alimentos eucaristizados e o seu envio, por meio dos diáconos, aos
ausentes. Os que tem bens e querem, cada um segundo sua livre determinação, dão o
que bem lhe parece; e o que é recolhido é entregue ao presidente, que com ele socorre
órfãos e viúvas, aos que, por enfermidades ou outras causas, estão necessitados, aos
que estão nos cárceres, aos forasteiros de passagem. Em uma palavra, ele se constitui
provedor dos quantos se acham em necessidade. Celebramos essa reunião no dia do
Sol por ser o primeiro dia, no qual Deus, transformando as trevas e a matéria, fez o
mundo, bem como por ser o dia em que Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dentre
os mortos” (Apologias 65 e 67).

Por volta de 215, na Tradição Apostólica atribuída ao presbítero romano Hipólito, pela
primeira vez encontramos alguns textos litúrgicos na regulamentação eclesiástica. Ele, como
representante dos círculos conservadores, procura preservar a tradição de falsificações. Mesmo
tradicional, ele reconhece o direito de livre formulação por parte do Bispo, se este se julgar à
altura. Ele deixou escrita uma fórmula de oração eucarística. A sua oração foi adaptada aos
nossos tempos e é mais ou menos a atual Oração Eucarística nº 2.
Disciplina: Liturgia I
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Em Tertuliano (+225) e Cipriano (+258), encontramos múltiplas informações sobre a


celebração da Páscoa anual, do domingo, dos sacramentos de iniciação cristã, da eucaristia e
sobre a estruturação da oração e a ordenação do bispo, presbítero e diácono.

No campo litúrgico, como em outros setores da vida da Igreja, é um período de


improvisação e de criatividade. A improvisação pressupunha a fiel observância de alguns
cânones ou princípios tradicionais, isto é, estáveis transmitidos de uma geração a outra. Por
volta da metade do séc. III, como nos atesta a Didascália siríaca, havia em todas as
comunidades cristãs uma organização comum da liturgia eucarística, ao menos em suas
características básicas e fundamentais.

A instituição catecumenal é uma das mais acabadas realizações da Igreja nos séc. II e
III; é o desenvolvimento estruturado do que estava, em germe, presente no Novo Testamento.
Motivos de sua instituição: a importante ação evangelizadora e a forte vontade de manter a
“qualidade” dos novos convertidos e das jovens comunidades cristãs; mas também a ameaça
crescente das seitas heréticas. Segundo Hipólito, o catecumenato vem a ser um longo tempo de
formação religiosa, que costuma durar três anos e que se caracteriza por um duplo exame: a)
Entrada no catecumenato: admissão e triagem dos candidatos. Estes devem ter como fiador
(padrinho) um cristão conhecido, que possa dar garantia inicial da vontade de conversão do
aspirante; b) Formação doutrinal: período de catequese, garantida pelos “doutores”, que podem
ser tanto eclesiásticos como leigos; c) Preparação precedente ao batismo: o candidato, pela
ajuda do fiador dá provas de sua conversão a Cristo, através da prática do amor, na visita aos
doentes e na ajuda às viúvas. Ritos:

“No momento em que o galo canta, serão feitas orações, em primeiro lugar sobre a
água... Eles se desnudarão, e serão batizadas, primeiramente, as crianças. Todos os
que puderem falar por si mesmos o farão. Com relação aos que não possam, seus pais
falarão, ou algum membro da família. Depois serão batizados os homens e, por fim, as
mulheres... No momento fixado para o batismo, o bispo dará graças sobre o óleo... E o
presbítero, tomando cada um dos que recebem o batismo, lhe ordenará que renuncie
dizendo: “Renuncio a ti, Satanás, a toda a tua pompa e a todas as tuas obras”. Depois
que cada um tiver renunciado, (o presbítero) o unge com óleo de exorcismo, dizendo:
“Que todo espírito maligno se afaste de ti”. Dessa maneira, o confiará desnudo ao
bispo ou ao presbítero que se encontra perto da água para batizar. Um diácono
descerá com ele dessa maneira. Quando o que é batizado tiver descido na água, aquele
que batiza lhe dirá, impondo-lhe a mão: “Crês em Deus Pai Todo-poderoso?” e aquele
que é batizado dirá, por sua vez: “Creio”. E então (aquele que batiza), tendo a mão
posta sobre sua cabeça, o batizará uma vez. E depois dirá: “Crês em Jesus Cristo,
Filho de Deus, que nasceu do Espírito Santo da Virgem Maria, foi crucificado sob
Pôncio Pilatos, morreu e ressuscitou ao terceiro dia vivo dentre os mortos, subiu aos
céus e está sentado à direita do Pai; que virá julgar os vivos e os mortos?” e quando (o
que é batizado) tiver dito: “Creio”, será batizado pela segunda vez. Novamente (o que
batiza) dirá: “Crês no Espírito Santo, na Santa Igreja?” O que é batizado dirá:
“Creio”, e assim será batizado pela terceira vez. Depois, quando tiver subido, será
ungido pelo presbítero com o óleo de ação de graças com estas palavras: “Unjo-te com
óleo santo em nome de Jesus Cristo”. Assim, cada qual, tendo-se enxugado, voltará a
vestir-se e, depois disso entrarão na igreja...

Hipólito menciona repetidas vezes uma série de ritos pós-batismais realizados pelo
bispo: imposição das mãos com invocação, unção com óleo de ação de graças, marca na testa e
beijo da paz. Depois os neófitos se unem à comunidade dos fiéis e participam com eles da
eucaristia.

A passagem das casas aos Templos.


Disciplina: Liturgia I
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

A partir da segunda metade do séc. III, as casas não comportando mais o número de
novos cristãos, passa-se a construir recintos próprios para o culto, com uma forma diferente das
moradias. É o despertar de uma arquitetura cristã.

O Culto cristão na Igreja do Império (313-590) – De Constantino a Gregório Magno.

A igreja tem diante de si a imensa tarefa de transformar o mundo pagão num mundo
cristão. A nova situação não traz só benefícios, mas também problemas. A liberdade e a
tranqüilidade de que agora goza influem na qualidade de seus numerosos adeptos. São
abundantes as infiltrações do paganismo na base e as intromissões políticas nos dirigentes da
Igreja. Além das esplêndidas “Basílicas”, construídas sobretudo, com a ajuda do imperador e de
membros da sua família, os Bispos são equiparados aos mais altos funcionários do Império. É
imposta a celebração do domingo, protegida pela lei do Estado. Na segunda parte do séc. IV
delineia-se a estrutura definitiva do ano litúrgico, com a ciclo pascal e natalício.Os formulários
litúrgicos começaram a ser redigidos na segunda a metade do séc. IV (350) e vão até pelo fim
do século VII (680). Muitas fórmulas começaram a aparecer. Algumas até com falhas. Santo
Agostinho, pelo fim do séc. IV, se admira de que até bispos usavam fórmulas de orações
escritas por autores incompetentes e até heréticos.

Com o fim das perseguições, os mártires da fé se tornam objeto de atenção especial e de


veneração. Por volta da metade do séc. II, a comunidade de Esmirna na Ásia Menor já celebra a
memória anual do seu Bispo o mártir Policarpo. Neste período vemos o florescer e a rápida
expansão do monacato. Esta instituição vem, em certa medida, substituir o martírio da época
precedente. Numa Igreja favorecida pelos privilégios imperiais, há a nostalgia do combate e da
valentia heróica das épocas de perseguição por causa do Senhor. A “fuga do mundo” procura
suprir, com renúncia e mortificação, a entrega do martírio; como explicarão mais tarde os
monges irlandeses, o martírio branco substituiu o martírio vermelho. As empreitadas
missionárias e as peregrinações constituem um dos fatores da evolução da liturgia neste período.
O famoso Diário de Viagem da peregrina Egéria (381-384) é um testemunho de grande riqueza
para a investigação litúrgica desses séculos.

Durante mais de três séculos, a liturgia de Roma foi celebrada em grego. A latinização
da Igreja de Roma realizou-se de maneira progressiva, passando necessariamente por uma época
de bilingüismo. A passagem do grego para o latim viria a ser efetuada no pontificado do papa
Dâmaso (366-384). Até o séc XX elas permaneceriam no latim. Durante o período que vai do
séc. VI ao VIII, as liturgias latinas apresentam-se regionalmente diversificadas, não tendo ainda
a liturgia de Roma a predominância que adquiriria nos períodos seguintes. Os Padres, como
Santo Agostinho e São Gregório Magno, tem consciência das diferenças litúrgicas e afirmam
que estas não quebram a unidade da fé.

De Gregório Magno a Gregório VII – (590 –1073)

Gregório Magno – nobre e solidamente formado nas artes e no direito, eleito prefeito
de Roma, renuncia e torna-se monge. Eleito bispo, desenvolveu uma ação pastoral muito atenta
à psicologia e às necessidades do povo. Deu muita importância à liturgia como meio de
catequizar o povo, como manifestam suas homilias. Desejoso de que toda a liturgia servisse de
fato de alimento espiritual para aquele povo simples e inculto, realizou com grande liberdade
uma profunda renovação litúrgica, orientada para esta finalidade pastoral. Realizou diversas
reformas no lecionário, no sacramentário e no antifonário. Na área do canto e da expressão
musical, reforçou a schola cantorum, e com isso, o lado espetacular da liturgia cara ao povo.
Situada entre o presbitério e o povo, a schola serve de ponte entre os fiéis e o sacerdote. A obra
litúrgica de Gregório Magno, pensada e organizada para o povo de Roma, também teve êxito
fora de Roma. Diante disso, ele manifesta um grande espírito de liberdade no que toca a
inculturação e adaptação. Respondendo à Agostinho, enviado para evangelizar a Inglaterra, que
Disciplina: Liturgia I
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

expressa sua dúvida acerca do que seguir, pois constata “que, sendo uma mesma fé, não
obstante são diferentes os costumes, e uma é a organização da missa na Igreja romana e outra
diferente nas Igrejas da Gália”, ele diz:

“Tem sempre presente a tradição da Igreja Romana, na qual foste educado, e ama-a
sempre. Mas a mim me agrada que, se encontras na Igreja Romana, ou nas da Gália,
ou em qualquer outra, alguma coisa que possa agradar mais a Deus onipotente tu a
recolhas com todo o cuidado e o leves à Igreja da Inglaterra, ainda tão jovem na fé,
juntando tudo quanto hajas podido reunir das diversas Igrejas. Pois tens de amar, não
as coisas pelos lugares, mas os lugares pelas coisas boas que há neles. Assim, pois,
escolhe de cada Igreja o que é de piedoso, de religioso e de reto e, tendo tudo isso
reunido como num ramalhete, oferece-o como tradição à mente dos ingleses”.

Na história da Igreja, é o período em que o cristianismo se propaga por toda a Europa.


Nestes quatro séculos, as transformações são lentas no Ocidente, em quase todos os níveis,
assistimos a uma espécie de “hibernação”; a história do papado nunca foi tão obscura como nos
séculos VII-X; é talvez o período em que a Europa teve menor relevância no universo. E no
entanto, esses séculos mostram ser uma fecunda gestação para o futuro da Igreja. Nos séculos
VII-VIII, há uma grande influência de orientais fugitivos para a Itália; o domínio oriental afeta
profundamente a vida eclesiástica, de maneira que sete papas orientais ascendem à sede de
Pedro entre os anos 642-752. A liturgia romana recebe neste momento o impacto das influências
orientais: a introdução na missa do Agnus Dei, a adoração da cruz na sexta-feira e a aceitação
das festas marianas (Assunção, Natividade, Purificação e Anunciação). No séc IX, a situação
romana chegara a ser deplorável em muitos aspectos, incluindo aí o litúrgico. A vida litúrgica
estava ameaçada de morte.

Neste período acontece o progressivo afastamento entre o povo e a ação litúrgica. O


latim é a língua sagrada que envolve o mistério litúrgico, tornando-o cada vez mais distante do
povo. A partir do séc. VI, generaliza-se o batismo de crianças. A iniciação cristã, que em
épocas anteriores fora objeto de celebração solene e comprometida de toda a comunidade, em
datas relevantes do ano litúrgico (Páscoa, Pentecostes), passará paulatinamente a ser um assunto
individual ou familiar. A instituição penitencial não-reiterável é substituída por uma nova
disciplina penitencial. Surgem os “livros com suas tarifas penitenciais, esvaziando o sacramento
de toda sua dimensão comunitária. O exemplo mais evidente do distanciamento entre o culto e a
comunidade é a aparição da missa privada, celebrada a penas pelo padre. Esta prática surge no
séc. VI e se generaliza no séc VIII.

Neste momento crítico, a Igreja franco-germânica salva a liturgia romana para a própria
Roma e para o mundo inteiro. No ano 754, Pepino, O Breve, decreta a adoção da liturgia
romana em todo o Império Franco. Os motivos dessa introdução da liturgia romana devem ter
sido vários: politicamente buscava-se uma unidade mais profunda de todo o Império por meio
de uma liturgia única e uniforme..., combater as liturgias regionais, especialmente a gálica. O
rito romano, usado só em Roma e arredores, vem a ser com Carlos Magno (coroado imperador
do Império Franco-germânico, no ano 800) o Rito usado em quase todo o ocidente. Carlos
Magno, movido pelo apreço que ele tinha pela liturgia e considerando-se custódio da doutrina e
defensor da fé cristã por volta do ano 783, pediu ao Papa Adriano I um sacramentário
autenticamente romano. Ele tinha a idéia de unificar o Reino no seu culto. No entanto, alguns
lugares conservaram seus ritos como Milão (Ambrosiano), Aquiléia, Ravena, Gália, Espanha.
Da época Carolíngea até São Gregório VII, acontece o deslocamento do centro de vitalidade da
liturgia romana de Roma à sede da Corte imperial, dos Carolíngeos e posteriormente dos
Otonianos. A divisão do império franco a partir do séc. IX terá, como conseqüência,
desenvolvimentos litúrgicos divergentes entre a parte oriental e a parte ocidental do império.

Na história da Europa, esse período que vai da morte de São Bento (548) à de São
Bernardo (1156) costuma ser chamado “era monástica” ou “séculos beneditinos”. A fundação
Disciplina: Liturgia I
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

de Cluny, em 909, terá uma excepcional importância na renovação monástica dos séculos X-XI,
chegando a ser, ao longo do século XI, o centro espiritual da cristandade. Cluny vai difundir sua
liturgia nos mosteiros que dele dependem e estará na origem de uma liturgia menos ligada as
igrejas diocesanas. Neste período multiplicam-se as Ordens religiosas de monges e cônegos
regulares (cistercienses, cartuchos), cuja liturgia está ligada à comunidade-mãe. Os séculos IX e
XI viveram uma forte controvérsia sobre o modo de explicar a presença real de Cristo na
eucaristia. Acentuou-se a tensão entre o “realismo” e o “simbolismo”. Pascásio de Radberto
(Monge de Corbie), no seu tratado sobre a eucaristia (De corpore et sanguine Domini, em torno
de 831-833), exagera no realismo da presença de Cristo na eucaristia afirmando que:

O corpo de Cristo presente na eucaristia é o corpo mesmo que nasceu de Maria. É a


carne física de Cristo que vem como que velada sob as aparências do pão e do vinho.
As aparências do pão e do vinho são como que um envelope que escondem a carne e o
sangue reais. Se fosse possível tirar este envelope a carne o e sangue de Cristo
apareceriam na sua consistência natural. Ele diz que na comunhão recebemos a
natureza humana e divina de Cristo e pelo metabolismo natural da digestão, ele é
assimilado e se transforma em carne e sangue do fiel.

Este exagero encontra imediatamente reação da parte de um outro monge do mesmo


mosteiro chamado Retramno, mas a reação mais forte veio no século XI, com Berengário de
Tours, que nega categoricamente a presença da Cristo na eucaristia, dizendo que ela é uma
simples representação, uma simples figura de Cristo, deslanchando assim, um movimento
teológico de remarcável importância na Idade Média e até os dias de hoje. Negando a presença
real de Cristo na Eucaristia, ele não é somente considerado como herético, mas como heresiarca,
chefe de uma escola que se perpetua no tempo. Em 1059, no sínodo romano foi imposto a
professio fidei a Berengário, que dois séculos depois foram consideradas excessivamente
“sensualistas” e criticáveis por São Boaventura e São Tomás de Aquino. Toda esta controvérsia,
distancia cada vez mais o povo da eucaristia, chegando ao ponto de não comungarem mais. A
eucaristia de alimento passa a ser unicamente objeto de adoração, o altar, de mesa de refeição
sagrada passa a ser unicamente “altar de sacrifício”, o padre de pastor e presidente da celebração
da eucaristia passa a ser somente “sacrificador de Cristo”, e único com dignidade para receber o
Cristo eucarístico. No IV Concílio de Latrão (1215), a Igreja se viu obrigada a introduzir a lei de
que cada cristão deveria ao menos comungar uma vez no ano.

Da reforma gregoriana (1073-1085) até o Concílio de Trento (1546-1563).

Superada a decadência e a perda de importância sofrida por Roma no séc. X, os papas


voltam a assumir as rédeas da liturgia romana. Cedidas durante quase três séculos aos soberanos
e aos bispos do norte dos Alpes. A partir de Gregório VII e da reforma da liturgia da Igreja
latina da qual ele foi o principal instigador, a unidade litúrgica realizada por Carlos Magno em
seu império é erigida em princípio eclesiológico e os papas se reconhecem como responsáveis
em termos de decisões litúrgicas por todas as Igrejas. Direito de canonização (Alexandre III e
Inocêncio III). Direito de instituição de festas, como: Corpus Christi, por Urbano IV (1264).

Gregório VII, em sua reforma litúrgica teve também como perspectiva a moralização do
clero. Neste contexto explica-se o específico interesse pela liturgia, interpretada, porém, como
atividade própria e quase exclusiva do ministério sacerdotal. A liturgia em verdade, exige, de
quem tem o dever de presidi-la, dignidade e coerência de vida. A retaguarda eclesiológica de
toda a reforma gregoriana tem características hierárquicas e ao mesmo tempo jurídicas. Os fiéis
tinham se afastado pouco a pouco da liturgia clericalizada de maneira muito profunda. Gregório
VII não se propõe a diminuir a preponderância clerical da liturgia nem a tornar mais fácil sua
compreensão. Os objetivos que ele tem são: aumentar o apreço pelo sacerdócio; cultivar o
sentido do mistério diante da ação litúrgica e abrir espaços para as devoções, ainda que sob a
roupagem litúrgica.
Disciplina: Liturgia I
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Os ideais de unidade litúrgica do Ocidente, cultivados por Gregório VII, se consolidam


nos séculos seguintes pela atuação de outros papas, como por exemplo Inocêncio III (1198-
1216) que se empenha na reforma dos livros litúrgicos. O sacerdote vem a ser o único
verdadeiro ator, enquanto os fiéis assistem passivamente. Para ser mais prático, evitando o
incômodo de vários livros litúrgicos ao mesmo tempo (Sacramentário, Lecionário, Antifonário,
etc.), ele resolveu juntá-los num livro só, chamando-o de Missal Pleno, (que foi amplamente
difundido por toda a Europa pelos pregadores itinerantes da recém fundada Ordem Frades
Menores). Este Missal era próprio para ser usado pelos padres nas missas privadas e tarifadas
que neste tempo se tornaram de uso comum. A Santa Missa como benefício para vivos e mortos
torna-se o tema fundamental da pregação sobre a missa, enumerando-se os frutos dela obtidos,
mesmo com a mera assistência. Esses “frutos da missa” adquirem um perfil cada vez mais
materializado; como a multiplicação de missas votivas, as missas gregorianas, aumentando
desmesuradamente o número de “altaristas”, um proletariado clerical (de baixa qualidade) que
vive praticamente de salários.

No final do séc. XV, Breslau, tinha para duas Igrejas, 236 padres altaristas. Isso tudo
incorreu em sérios abusos. Já no séc. XII, Pedro Cantor advertia: Fazem falta menos igrejas,
menos altares, menos sacerdotes, mas melhor escolhidos”. Isto acarreta uma multiplicação
desmesurada de altares laterais dentro das Igrejas. Em torno do ano 1500, certas catedrais
possuíam mais de 40 altares. Não faltaram reações e resistências em relação ao predomínio das
missas privadas. Destaco a exortação feita por Francisco de Assis aos seus frades: “Advirto os
meus irmãos e exorto-os no Senhor que, nos lugares onde moram, seja celebrada uma só missa
por dia, segundo a forma da Santa Igreja. E se houver vários sacerdotes no lugar, contente-se
um sacerdote, por amor à caridade, com ouvir a missa do outro” (Carta a toda a Ordem 30-31).
É o período em que o povo não comunga mais. Se contenta em ver a eucaristia. Os padres
adotam o costume de elevar a hóstia (1200 – Paris). O que antes era assembléia, caridade,
sacrifício e comunhão, se reduz em adoração das espécies eucarísticas. De modo semelhante,
Corpus Christi se converte na festa méis importante do ano litúrgico, solenemente superior até
mesmo à Páscoa...

A liturgia no “outono da Idade Média”.

O século que se situa entre dois Concílios ecumênicos, o de Vienne na França (1311-
1312) e o de Constância (1414-1418), marca a manifestação progressiva de uma acentuada
decadência da vida e da espiritualidade litúrgicas. O fato não deve surpreender se considerarmos
os efeitos desastrosos naquele século do exílio de Avinhão (1305-1377) e do cisma ocidental.
Verifica-se uma separação, considerada providencial para alguns, entre hierarquia e fiéis: a
primeira voltada para uma vida mundana e os outros abrigados numa ardente piedade popular.

Do concílio de Trento ao Vaticano II (1546-1962)

“No século XVI a situação da liturgia no Ocidente é lamentável. Pode comparar-se a


um cadáver ricamente adornado, mas sem vida e com sintomas de decomposição. Os ritos e as
cerimônias são executadas sem sentido pastoral e acompanhadas de uma série de abusos e
superstições” (J. Llopis, La liturgia a través de los siglos). Estes 400 anos entre um concílio e
outro, podem ser divididos em três partes: a) os primeiros e os últimos 50 anos se caracterizam
por um intenso florescimento litúrgico; b) No meio estão 300 anos de imobilidade, rubricismo e
uniformidade litúrgica; c) com o documento conciliar sobre a Sagrada Liturgia, publicado a 4 de
dezembro de 1963, inicia uma nova era na liturgia. O “outono da Idade Média” (período de
intensa crise eclesial) constitui o condicionamento histórico básico da reforma protestante.
Numa situação de crise eclesial (problemas internos de extraordinária gravidade e a inovação
protestante), da qual a liturgia é parte essencial, toma força no começo do século XVI a
aspiração para uma reforma da Igreja “na cabeça e nos membros”.

Linhas da evolução litúrgica.


Disciplina: Liturgia I
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Os reformadores e o culto.

Os primeiros escritos de Lutero estão plenos de preocupação pastoral, devido aos


abusos do seu tempo, mas se mantém na perspectiva da tradição. Seus companheiros Karlstadt e
Zwilling são os primeiros a organizar uma “missa evangélica”, a abolir as missas privadas e
proibir a adoração ao Santíssimo Sacramento. Pouco depois do De captivitate babylonica
(1520), Lutero escreveu seu Abroganda missa privata (1522), onde ataca não apenas a missa
privada, mas o sacrifício da missa em geral. Apesar da radicalidade dessa obra, Lutero ainda
vacila em introduzir um novo culto. No Natal desse mesmo ano, Karlstadt celebra diante de uma
grande assembléia a “missa alemã”, pronunciando o relato da instituição em voz alta e em
alemão e omite o resto do cânon com a elevação; a comunhão é feita sob as duas espécies e, na
celebração, ele enverga vestes seculares. Dias depois, Zwilling dá a senha para que destruam as
imagens e se suprimam todos os altares laterais. Em 1525, Lutero celebra na igreja paroquial de
Wittenberg, pela primeira vez, uma missa completa em alemão, que logo aparece impressa e
difundida em outros lugares. Um dos mais importantes pontos das reformas litúrgicas luteranas
foi o uso da língua vernácula na celebração. O culto cristão é para Lutero um culto da Palavra;
ora, esse culto da Palavra não pode ser realizado de maneira frutífera pela comunidade se a
Palavra não for compreendida.

Trento assumiu como objetivo essencial a tarefa de discernir a verdade católica da


doutrina não-católica, evidenciando os aspectos unilaterais e reducionistas da doutrina dos
reformadores diante das fontes da fé (sola Scriptura = só a Escritura), do processo salvífico
(solus Deus, sola fides = só Deus, só a fé) e da concepção espiritualista e subjetiva da Igreja.
Alguns aspectos da reforma intra-eclesial (terceiro período do Concílio 1562-1563): criar um
novo clero por meio de seminários: ressuscitar a imagem do bispo como pastor, presente à sua
comunidade e nela residindo.

O trabalho litúrgico do Concílio de Trento

Nos três períodos sucessivos do Concílio, esteve muito presente o tema sacramental,
como réplica às proposições dos reformadores. Na sessão VII (3/3/1547), e como complemento
da doutrina sobre a justificação, aprovam-se os cânones sobre os sacramentos em geral, sobre o
batismo e a confirmação. Na sessão XIII (11/10/1551), examinam-se o decreto e os cânones
sobre a eucaristia, vista da perspectiva da presença real. Na sessão XIV (25/11/1551), é tratada a
doutrina sobre o sacramento da penitência e da extrema-unção. Na parte conclusiva do Concílio,
na sessão XXI (16/7/1562), são aprovados os decretos sobre a comunhão sob as duas espécies e
sobre a comunhão das crianças; na sessão XXII (17/9/1562), retorna-se ao tema da eucaristia,
desta feita sob o ângulo de sua dimensão sacrificial, fortemente combatido pelos protestantes.
Na sessão XXIII (15/7/1563), trata-se dos sacramentos restantes: a ordem e o matrimônio. Na
sessão XXII, imediatamente depois do decreto sobre o sacrifício da missa, é aprovado o
Decretum de observandis et evitandis in celebrationes missae. Já no início do concílio, 20 de
julho de 1547, fora formada uma comissão especial para recopilar os abusos que ocorriam no
sacrifício da missa. Do lado dos abusos, deviam se destacar propostas concretas para a sua
eliminação. A comissão teve de elaborar o seu projeto varas vezes, para torna-lo aceitável à
assembléia conciliar.

De todo o trabalho acumulado, só foram aprovados pelo plenário de 10 de setembro de


1562 nove cânones de reforma: 1) a cobrança de honorários pela missa; 2) a missa sicca; 3) a
celebração de várias missas ao dia; 4) a substituição da missa dominical por missas votivas ou
de mortos; 5) introduzir nas catedrais e igrejas uma missa de mortos conventual; 6) o lugar da
missa é a igreja consagrada, embora o ordinário possa admitir exceções; 7) prescrições sobre a
limpeza de vasos e ornamentos usados na missa; 8) todos os textos recitados e cantados da
missa devem ser inteligíveis aos ouvintes; 9) os excomungados e pecadores públicos devem
manter-se longe da missa.
Disciplina: Liturgia I
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

No decreto que veio a ser aprovado em 17 de setembro, faz-se recair sobre os bispos a
principal responsabilidade pela liturgia da missa. O Concílio que já estava reunido havia
demasiado tempo, confiou ao Papa, na sessão XXV, a reforma do missal e do breviário.
A questão da língua litúrgica foi abordada na sessão XXII, abrindo uma pequena possibilidade
para a língua vulgar, mas conservando a língua latina como expressão da unidade da Igreja e
remédio eficaz contra as heresias:

“Embora a missa contenha uma grande instrução do povo fiel, não pareceu aos Padres
que fosse conveniente celebra-la de ordinário em língua vulgar (cânon 9). Por essa
razão, mantido em toda parte o rito antigo de cada Igreja e aprovado pela Santa Igreja
Romana, mãe e mestra de todas as Igrejas, a fim de que as ovelhas de Cristo não
padeçam fome nem os pequeninos peçam pão e não haja quem reparta, ordena o santo
Concílio aos pastores e a quantos caiba a cura de almas, que freqüentemente, durante
a celebração das missas, diretamente ou representados, exponham algo acerca do que
se lê na missa e, entre outras coisas, declarem alguns mistérios desse santíssimo
sacrifício, em especial aos domingos e dias festivos.

A reforma dos livros litúrgicos não tardou a ser realizada. Pio V editou o Breviarium
romanum (1568) e o Missale romanum, que deveria ser a única forma para todas as Igrejas
(1570); Clemente VIII, o Pontificale romanum (1596) e o Cerimoniale episcoporum (1600) e,
Paulo V, o Rituale romanum (1614). Sisto V, criou, em 1588, a Sagrada Congregação dos Ritos
com a missão de vigiar para que o modo prescrito da celebração da missa e das demais partes da
liturgia sejam rigorosamente observados. Inicia-se a era dos rubricistas.

A liturgia na época do barroco

O século XVII é o século barroco. A consciência católica renovada e reforçada pelo


Concílio tridentino, ainda essa expressão artística peculiar, que foi denominada “arte da contra-
reforma”. O grandioso, o sentimento exaltado, a “fúria heróica” caracterizam o barroco, assim
como o entusiasmo da vitória e do triunfo, expresso com um vigor autenticamente criativo. O
barroco encarna a consciência eufórica de ter salvo a fé e a Igreja e de estar com a verdade.

Depois do Concílio de Trento, emana do interior da Igreja católica um sentimento de


segurança, uma atmosfera de triunfo e de festa invade o recinto e a expressão cúlticos. As
igrejas construídas no barroco tem o ar de um elegante salão de espetáculos, com paredes de
mármore e ouro, com pinturas no teto, ao qual não faltam palcos e galerias. É também o século
de ouro da polifonia. A música eclesiástica segue apenas critérios estéticos, deixando de lado a
funcionalidade a serviço da liturgia.

A festa do Corpus Christi.

A controvérsia com os protestantes acerca da presença real leva a Contra-Reforma a


uma ênfase especial nesse aspecto da eucaristia, tanto na teologia como na expressão litúrgica e
popular. A festa de Corpus Christi, tem como objeto, precisamente, a veneração dessa presença
sacramental como proximidade entre Deus e os homens. É também o “século da exposição
freqüente”. Intensificam-se as exposições do Santíssimo Sacramento, a devoção das “quarenta
horas”, a adoração perpétua, adoração reparadora, etc.

Outro pólo fundamental da piedade do barroco é Maria, Mãe de Deus. Multiplicam-se


as grandes peregrinações marianas e as novas festas em sua honra: as festas do rosário, do
Nome de Maria, das Mercês, do Carmo, da Imaculada conceição, etc. Os altares laterais vão se
multiplicando e se tornando privilegiados; as imagens que presidem esses altares representam
majoritariamente, não Cristo, mas os santos. A liturgia passa a ser, quase toda, um espetáculo a
que se assiste ou se ouve; a pregação se desliga da missa e se torna autônoma. A manutenção do
Disciplina: Liturgia I
15
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

latim, língua estranha ao povo, contribui sobremaneira para que o culto já não seja, sobretudo,
participação ativa da comunidade no mistério de Cristo, mas, no máximo, sua representação
quase teatral, que anima a oração pessoal e subjetiva do fiel. O culto permanece, como na Idade
Média, uma prerrogativa do clero e da hierarquia.

O iluminismo

Já no final do século XVII desponta o Iluminismo, uma civilização baseada no direito,


na consciência individual e na razão do homem e do cidadão. Esta nova concepção empreende
um trabalho inicial de demolição do antigo edifício fundado sobre a religião revelada, a
hierarquia, a disciplina, a ordem e autoridade; mas, em seguida, tenta construir os alicerces da
futura cidade: uma política sem direito divino, uma religião sem mistério, uma moral sem
dogmas. O século XVIII confia na ciência, como poder que está nas mãos do homem para os
fins do domínio da natureza, da organização do seu próprio futuro e da conquista do bem-estar e
da felicidade. No século XIX, a Igreja depara com uma cultura em larga medida a-religiosa e
anti-eclesiástica, uma cultura não cristã que se tornou pouco a pouco independente dela.
Acontece um cisma entre a Igreja e o mundo moderno, a apostasia da classe trabalhadora e o
distanciamento cada vez maior, no próprio seio da Igreja, entre as esferas hierárquicas e os fiéis
mais presentes no mundo da ciência, do trabalho e da cultura.

Bento XIV (1740-1758), ainda como bispo de Bolonha, ensaiou alguma reforma, sem
êxito. As liturgias das dioceses da França, que se multiplicam de maneira anárquica ao longo
do século XVIII, não receberam o assentimento da Santa Sé. O Sínodo de Pistoia – Itália
(1786), restringiu-se a condenações doutrinais e à sinalização de alguns pontos a reformar no
campo litúrgico, como: um só altar em cada templo, participação dos fiéis, abolição da cobrança
da missa, redução das procissões, música simples, grave e adaptada ao sentido das palavras,
ornamentação que não ofenda nem distraia o espírito, reforma do breviário e do missal, um
novo ritual, redução de excessivo número de festas, leitura em um ano da Sagrada Escritura no
ofício, etc. A maioria dessas questões encontrou eco no Concílio Vaticano II. Para a época do
Iluminismo, a liturgia se reduz a um meio de educação destinado à humanização do indivíduo;
mas já não é entendida como “adoração de Deus em espírito e verdade”.

A restauração no século XIX

Em reação a uma religião confinada aos limites da pura razão, o século XIX reafirma o
princípio da revelação, do dogma e da tradição, assim como o respeito devido à hierarquia. Esta
valorização da Tradição tem o seu reflexo na liturgia: o gosto pelas orações latinas, pelas
cerimônias e rubricas, bem como o entusiasmo pela música gregoriana caracterizam essa época
da Restauração.

Esse movimento ainda não patrocina a participação do povo na ação litúrgica; o culto
cristão chega a ser considerado como realidade intangível e misteriosa, obra perfeitíssima do
Espírito, ao abrigo da toda evolução histórica, envolto pelo halo protetor da língua sagrada: a
língua latina. Neste contexto, surge a figura, sob tantos aspectos meritória, do abade Próspero
Guéranger (1805-1875). Adversário acérrimo das “liturgias neogalicanas” surgidas no século
anterior, Guéranger exige um retorno incondicional aos livros autênticos da liturgia romana
pura. Autor de grandes obras como Institutions liturgiques e L’année liturgique, D. Guéranger,
no entanto, é partidário de uma explicação completa dos textos e cerimônias do culto diante do
povo; segundo ele, o culto deve manter-se sempre encoberto para o povo cristão pelo véu de
mistério.

A mentalidade de Guéranger pode ser condensada nas seguintes teses: a liturgia é por
excelência a oração do Espírito na Igreja, é a voz do corpo de Cristo, da esposa orante do
Espírito; há na liturgia uma presença privilegiada da graça; nela se encontra a mais genuína
expressão da igreja e de sua tradição; a chave de inteligência da liturgia é a leitura cristã do
Disciplina: Liturgia I
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Antigo Testamento, bem como a do Novo apoiada no Antigo. A Igreja como corpo e esposa de
Cristo contrasta com a piedade individualista pós-tridentina que Guéranger critica.

Movimento Litúrgico – início de uma Pastoral Litúrgica.

No Congresso de Obras Católicas (Malines – Bélgica, 23/09/1909), foi lançado


propriamente o movimento litúrgico. Seu promotor foi D. Lamberto de Beaudoin (1873-1960),
que de sacerdote dedicado ao mundo operário passara a monge beneditino de Monte César,
defende a renovação da vida litúrgica da Igreja. A partir de então, este monge beneditino lança
uma verdadeira cruzada em favor da participação dos cristãos nas celebrações. É famosa a frase
dele: “É necessário democratizar a liturgia”. Beaudoin deu continuidade, desenvolveu e deu
novo direcionamento a obra iniciada por D. Guéranger: 1) a pastoral litúrgica nas paróquias, que
impunha um raio e um ritmo de ação novos. Era necessário inspirar a piedade e a vida cristã no
culto da Igreja; para isso, cumpria promover a participação dos batizados na liturgia; 2) a
difusão do Missal Popular traduzido como a livro do cristão; 3) o aumento do caráter litúrgico
da piedade por meio da participação na missa paroquial; 4) a promoção do canto gregoriano
segundo as orientações de Pio X; 5) a organização de retiros anuais para os responsáveis pela
pastoral litúrgica.

Em 1920, J. Seitz, reeditando o Manual de Teologia Pastoral de J. E. von Pruner, usa


pela primeira vez o termo “Pastoral Litúrgica”. Depois dele, em 1924, o monge Athanasius
Wintersig retoma esta expressão e diz que uma disciplina com o referido nome é necessária ao
lado da história da liturgia e da ciência litúrgica sistemática. Trata-se de um estudo científico
pastoral da liturgia. Seu objetivo é descobrir o significado da liturgia para o conjunto da pastoral
e como se pode alimentar a vida das comunidades através dela. Em 1956, J. Jungmann, colocou
a pastoral como chave de interpretação da história da liturgia. Para Beaudoin, os grandes meios
de ação foram: a revista Questions Liturgiques paroissiales (Questões litúrgicas paroquiais), as
semanas de liturgia destinadas à mentalização do clero, publicadas em Cursos e conferências.
Ambicionava-se interromper a descristianização e renovar a Igreja.

A expansão do movimento litúrgico ficou um tanto paralisada no decorrer das duas


guerras mundiais, voltando a propagar-se com mais vigor nos respectivos períodos pós-guerra.
Contribuíram para essa difusão pastoral, na Bélgica, além da abadia de Monte César, a de Santo
André: na França, o Centro Nacional de Pastoral Litúrgica de Paris (1943), ao qual estiveram
vinculados além de Dom Lamberto Beaudoin, Dom Bernard Botte, Roguet, Martimort, Pierre
Gy, Jounel, etc. O centro fundou a revista La Maison-Dieu, dele nasceu a coleção Lex Orandi e,
junto com a Abadia de Monte César, o Instituto Superior de Liturgia de Paris. Na área
germânica, a abadia de Maria Laach destacam-se Mardini, Odo Casel, Doelger, Baumstark,
Mayer, etc., o Instituto de Liturgia de Trier (Wagner e Fischer), Pio Parsch e os cônegos
regulares de Klosterneuburg (Áustria); e, em toda a Igreja, os Congressos Internacionais de
Liturgia, organizados pelo Centro de Pastoral Litúrgico de Paris e pelo Instituto de Liturgia de
Trier: 1) Abadia de Maria Laach (1951); 2) Lugano – Suíça (1953); 3) Assis – Itália (1956), que
se destaca graças à assistência dos hierarcas e pastores de todo o mundo, à sua difusão e ao
clima criado em torno da expectativa de uma reforma litúrgica. Este congressos foram
preparando as bases da futura constituição de liturgia do Vaticano II.

O magistério da Igreja sobre a liturgia

Pio X se distinguiu pelo seu interesse litúrgico já antes de chegar ao supremo


pontificado. Três meses depois da eleição como Papa, tornou público o motu próprio Tra le
sollecitudini (1903), destinado a renovar a música religiosa e restaurar o gregoriano. Dois anos
depois, promulgou o decreto Sacra tridentina synodus (1905), para fomentar a comunhão
fraquente, e cinco anos mais tarde, o decreto Quam singulari (1910), para promover a admissão
das crianças à comunhão em tenra idade. Em 1911, publicava a constituição apostólica Divino
Disciplina: Liturgia I
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

aflanti, sobre a reforma do breviário e a revalorização da liturgia dominical. E, em 1913, Abhinc


duos annos, que inspirava um novo plano de reforma profunda do ano litúrgico do breviário.

Três linhas claras aparecem no magistério litúrgico de Pio X; a renovação da música


sagrada, porque “não devemos cantar e orar na missa, mas cantar e orar a missa”; a aproximação
entre batizados e a comunhão eucarística, aplainando o caminho para a participação sacramental
da eucaristia, mesmo que a catequese oferecida acerca dessa comunhão devesse ser
aperfeiçoada; a reforma do ano litúrgico e do breviário.

No amplo magistério de Pio XII, se destacaram: a encíclica Mediator Dei (1947),


considerada “a carta magna” do movimento litúrgico, na qual pela primeira vez o Magistério
apresenta uma doutrina litúrgica completa e estruturada. Conteúdos fundamentais do documento
papal: A teologia da liturgia como culto público integral do corpo místico de Cristo, da cabeça e
dos membros, e como presença privilegiada da mediação sacerdotal de Cristo-cabeça; A
espiritualidade da liturgia, a dimensão interior e profunda do culto da Igreja: “Estão
inteiramente equivocados aqueles que consideram a liturgia como o mero lado exterior e
sensível do culto divino ou como cerimonial decorativo; e não estão menos aqueles que pensam
ser a liturgia o conjunto de leis e preceitos com que a hierarquia eclesiástica configura e ordena
os ritos”. O equilíbrio teológico, não oportunista, entre: panliturgismo e subestimação do culto;
piedade objetiva e subjetiva; comunitarismo e individualismo; celebração e culto da eucaristia;
progressismo e conservadorismo.

Foi marcante o discurso aos participantes do Congresso Internacional de Pastoral


Litúrgica celebrado em Assis (1956). Ele declara: “O movimento litúrgico surge como um sinal
das disposições providenciais de Deus para o tempo presente, como uma passagem do Espírito
Santo em sua Igreja, para aproximar os homens dos mistérios da fé e das riquezas da graça, que
decorrer da participação ativa dos fiéis na vida litúrgica. Podemos citar outros dados da
renovação litúrgica efetuada por Pio XII, como: a Instrução sobre a formação do clero no ofício
divino (1945); a extensão ao sacerdote, am alguns casos, da faculdade de confirmar (1946); a
multiplicação dos rituais bilíngües (1947); a reforma da vigília pascal (1951) e do jejum
eucarístico (1953 e 1957); a reforma da Samana Santa (1955); lecionários bilíngües (1958). A
obra litúrgica do Papa Pacelli é coroada, em 1958, com a Instrução sobre a música sagrada e a
liturgia, nos termos da encíclica Misicae sacrae disciplinae.
III. O Concílio Vaticano II.

Dia 25 de janeiro de 1959, menos de três meses depois de sua eleição, João XXIII,
manifestou aos Cardeais reunidos no Mosteiro de São Paulo, seu desejo de convocar um
concílio. (Motivos: abuso e comprometimento da liberdade, a recusa da fé em Cristo, a busca
dos pretensos bens da terra, a atividade do príncipe das trevas, que é também príncipe deste
mundo, a luta contra a verdade e o bem, a divisão entre as duas cidades, o esforço da confusão,
a debilitação das energias do espírito, a tentação e a atração das vantagens de ordem material
que o progresso da técnica moderna engrandece e exalta...). Os Cardeais foram tomados de
surpresa. Os concílios são convocados, normalmente, para resolver problemas de ordem
doutrinal (heresias, etc). Falando aos assistentes da Ação Católica Italiana, no dia 09/08/59, ele
diz: “A idéia do concílio não amadureceu como um fruto de prolongada consideração, mas
como uma flor de inesperada primavera”. No motu próprio de 05/06/60, diz: “Consideramos
inspiração do Altíssimo a idéia de convocar um Concílio Ecumênico, que desde o início de
nosso pontificado se apresentou à nossa mente como flor de inesperada primavera”. No dia
25/12/61, na solene bula de indicção Humanae Salutis, exprime-se nestas palavras: “Acolhendo
como vinda do alto uma voz íntima no nosso espírito, julgamos estar maduro o tempo para
oferecermos à Igreja Católica e ao mundo o dom de um novo Concílio Ecumênico”.

O Documento no qual Sua Santidade mais formal e solenemente formula os objetivos


do Concílio, é a primeira encíclica Ad Petri Cathedram, de 29/06/59: “Profundamente animado
por esta suavíssima esperança, anunciamos publicamente o nosso propósito de convocar um
Disciplina: Liturgia I
18
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Concílio Ecumênico, em que hão de participar os Sagrados Pastores do Orbe Católico para
tratarem dos graves problemas da religião, principalmente para (1) conseguirem o incremento
da Fé Católica e (2) a saudável renovação dos costumes no povo cristão e para (3) a
disciplina eclesiástica se adaptar melhor as necessidades dos nossos tempos”. Se
compararmos a celebração da Liturgia há 50 anos e pensarmos como ela se apresenta hoje,
perceberemos uma imensa transformação. Quando, em dezembro de 1961, através da bula
"Humanae salutis", o Papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II (XXI Concílio
Ecumênico da Igreja Católica), sua intenção primeira era apresentar um documento relativo a
discussões sobre o tema da Igreja. No entanto, por razões diversas os padres conciliares
ocuparam-se sobre a Sagrada Liturgia. As grandes finalidades do Concílio foram assim
expressas:

a) Fomentar sempre mais a vida cristã entre os fiéis;


b) Acomodar melhora às necessidades de nossa época as instituições que são suscetíveis
de mudança;
c) Favorecer tudo o que possa contribuir para a união dos que creem em Cristo;
d) E promover tudo o que conduz ao chamamento de todos ao seio da Igreja.

Após fervorosa novena ao Divino Espírito Santo, ao som dos sinos de todos os países
do mundo, num ambiente de intensa comoção espiritual e de grande entusiasmo, inaugurou-se
solenemente, na manhã do dia 11 de outubro de 1962, Festa da Maternidade Divina de Maria
Santíssima, na Patriarcal Basílica de São Pedro, o XXI Concílio Ecumênico, chamado de
Concílio Vaticano II, o concílio mais ecumênico de toda a história. Estavam presentes na
celebração de abertura, 2540 bispos, provenientes de todos os continentes, sendo que 204 destes
eram bispos do Brasil. Faltaram uns 30, por motivo de idade ou de doença. Já no dia 22 de
outubro começaram os debates em torno da liturgia em geral e da renovação litúrgica (24/10),
língua litúrgica (26/10), participação ativa na liturgia (27/10), o princípio da adaptação (29/10),
concelebração (30/10), Liturgia da Palavra (31/10), Liturgia dos Sacramentos (06/11), o
breviário (09/11)...

A Constituição Sacrosanctum Concilium foi aprovada no dia 4 de dezembro de 1963, já


no papado de Paulo VI; era o primeiro documento conciliar exclusivamente sobre o culto oficial
da Igreja, que desde o Concílio de Trento (realizado de 1545 a 1563) havia permanecido
intocado e intocável. Ela abordava o tema da Liturgia na sua globalidade, tanto nos seus
princípios bíblico-teológicos, como nos seus aspectos celebrativos e pastorais concretos. Nela,
“se respeitou a escala dos valores e dos deveres: Deus está em primeiro lugar; a oração é a
nossa primeira obrigação; a Liturgia é a fonte primeira da vida divina que nos é comunicada, a
primeira escola da nossa vida espiritual, primeiro dom que podemos oferecer ao povo cristão
que, juntamente conosco crê e ora, e primeiro convite ao mundo, para que solte a sua língua
muda em oração feliz e autêntica e sinta a inefável força renegeradora ao cantar conosco os
louvores divinos e as esperanças humanas, por Cristo, nosso Senhor e no Espírito
Santo”(Discurso de Paulo VI no encerramento da segunda sessão do CV II, 4/12/1936).

A Sacrosanctum Concilium.

A liturgia é tida como o exercício do múnus sacerdotal de Jesus Cristo, no qual,


mediante sinais sensíveis, é significada e, de modo peculiar a cada sinal, realizada a santificação
do homem; e é exercido o culto público e integral pelo Corpo Místico de Cristo, Cabeça e
membros (SC 7). Liturgia é o cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, é a
fonte donde emana toda a sua força, da é obtida a santificação dos homens em Cristo e a
glorificação de Deus, para a qual, como a seu fim, tendem todas as demais obras da Igreja (SC
10). A própria Liturgia, impele os fiéis que, saciados dos “sacramentos pascais”, sejam
“concordes na piedade”; reza que, “conservem em suas vidas o que receberam pela fé”; a
renovação da Aliança do Senhor com os homens na Eucaristia solicita e estimula os fiéis para a
caridade imperiosa de Cristo. Da Liturgia portanto, mas da Eucaristia principalmente, como de
Disciplina: Liturgia I
19
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

uma fonte, se deriva a graça para nós e com a maior eficácia é obtida aquela santificação dos
homens em Cristo e a glorificação de Deus, para a qual, como a seu fim, tendem todas as
demais obras da Igreja (SC 10).

A Liturgia, pela qual, principalmente no divino sacrifício da Eucaristia, “se exerce a


obra de nossa Redenção”, contribui do modo mais excelente para que os fiéis exprimam em suas
vidas e aos outros manifestem o mistério de Cristo e a genuína natureza da verdadeira Igreja.
Caracteriza-se a Igreja de ser, a um só tempo, humana e divina, visível, mas ornada de dons
invisíveis, operosa na ação e devotada à contemplação, presente no mundo e no entanto
peregrina. E isso de modo que nela o humano se ordene ao divino e a ele se subordine, o visível
ao invisível, a ação à contemplação e o presente à cidade futura , que buscamos (SC 2). Cristo
está sempre presente em Sua Igreja, sobretudo nas ações litúrgicas. Presente está no sacrifício da
missa, tanto na pessoa do ministro, “pois aquele que agora oferece pelo ministério dos
sacerdotes é o mesmo que outrora se ofereceu na Cruz”, quando sobretudo sob as espécies
eucarísticas. Presente está pela Sua força nos sacramentos, de tal forma que quando alguém
batiza é Cristo mesmo que batiza. Presente está pela sua Palavra, pois é Ele mesmo que fala
quando se lêem as Sagradas Escrituras na igreja...(SC 7).

a) é uma ação sagrada: quer dizer: ação de uma comunidade – Igreja onde Cristo age. É
sagrada pois comunica Deus e por ela no comunicamos com ele. E aí entra a fé e o
amor.
b) Ritos sensíveis: esta comunicação com Deus, por Cristo e em Cristo se faz através de
sinais e símbolos, isto é, de forma sacramental.
c) O múnus sacerdotal de Cristo: É ele (Cristo) quem age e continua a realizar a obra da
salvação de modo que todos possam realizar a sua vocação sacerdotal recebida no
Batismo. A ação sagrada é de Cristo. Ele é o sacerdote principal – o oferente e a oferta.
d) Na Igreja e pela Igreja: Cristo não age sozinho mas se faz presente na e pela ação da
Igreja toda
e) Para a santificação do homem e a glorificação de Deus: estes são os dois movimentos
de cada ação litúrgica: o movimento de Deus para o homem – santificação. E o
movimento do homem para Deus – a glorificação.

O documento ficou assim estruturado:

PROÊMIO

1. Reformar e incrementar a Liturgia: para fomentar a vida cristã; acomodá-la às


necessidades e favorecer o ecumenismo.
2. A Liturgia contribui de modo mais excelente para que os fiéis vivam o Mistério de Cristo
e da Igreja na forma mais genuína.
3. Algumas reformas e normas são exclusivas do Rito Romano, outras valem também para
os Ritos não romanos.
4. Todos os Ritos não romanos, quando legitimamente aprovados gozam de igual direito e
dignidade.

CAPÍTULO I

I -NATUREZA DA SAGRADA LITURGIA E SUA IMPORTÂNCIA NA VIDA DA IGREJA

5. O Mistério Pascal é a síntese da Redenção


6. Cada celebração litúrgica renova a especificidade dos sinais
7. Cristo está, sobretudo nas Ações Litúrgicas: a) no ministro; b)nas espécies eucarísticas; c)
nos sacramentos; d) na palavra de Deus; e) na salmodia. A liturgia é o exercício do
múnus sacerdotal de Cristo. Toda celebração litúrgica é obra de Cristo sacerdote e de
Disciplina: Liturgia I
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

seu corpo, a Igreja. Por isso a sua eficácia não é igualada por nenhuma outra ação da
Igreja sob o mesmo título e grau.
8. A liturgia é escatológica
9. A liturgia não esgota toda ação da Igreja: antes de celebrar é preciso a fé e a conversão
10. A liturgia é o cume e a fonte: toda pastoral tem por finalidade levar os fiéis a se
reunirem juntos para participar da Missa e do Louvor Divino. Deles deriva a maior
eficácia para santificar as pessoas e glorificar a Deus
11. É dever dos pastores vigiar sobre o respeito das normas, para a validade dos atos
litúrgicos e para que os fiéis participem consciente, ativa e frutuosamente
12. A vida espiritual se separe da liturgia, mas todos os outros momentos do existir devem
se tornar um culto agradável a Deus
13. As devoções não litúrgicas e a piedade popular sejam conforme as Leis da Igreja. Tais
exercícios devem ser afinados aos tempos do ano litúrgico, condigam com a liturgia,
dela derivem e para ela encaminhem o povo, pois a liturgia por sua própria natureza em
muito os supera

II - EDUCAÇÃO LITÚRGICA E PARTICIPAÇÃO ATIVA

14. Todos têm direito e obrigação de serem levados à participação plena, consciente e ativa
da liturgia, pois é a primeira e necessária fonte do verdadeiro espírito cristão. Isto,
porém depende dos pastores. Por isso se cuide da formação litúrgica do clero.
15. Nos seminários, casas de estudo e faculdades teológicas sejam formados mestres em
liturgia
16. A liturgia esteja entre as disciplinas indispensáveis e principais e seja apresentada no
aspecto da teologia, história, espiritualidade, pastoral e direito. As outras disciplinas
procurem ser conexas com a liturgia
17. Os seminários e casas religiosas adquiram formação litúrgica, conhecendo o significado
dos ritos e dos símbolos. Toda vida e casas religiosas seja impregnada do espírito
litúrgico
18. Os sacerdotes entendam o que celebram e o vivam
19. Promovam com afinco e paciência a vida litúrgica dos fiéis
20. As celebrações transmitidas na rádio e televisão sejam decorosas e discretas
21. A liturgia consta de uma parte divina imutável e de uma parte humana mutável

III - REFORMA DA SAGRADA LITURGIA

22. A liturgia consta de parte imutáveis e mutáveis. A reforma das cerimônias e dos textos
pretende tornar transparente o que significam. Cabe a Santa Sé Toda Reforma da
liturgia
23. Toda reforma proceda de cuidadosa investigação histórica, teológica e pastoral. Toda
reforma derive organicamente da liturgia precedente e evite inovações inúteis. Evite-se
diferenças na mesma região
24. Os textos e os ritos tomem sua significação na Sagrada Escritura
25. Sejam reformados os livros litúrgicos pelos especialistas
26. As ações litúrgicas não são privadas, mas de toda Igreja, manifestando-a e afetando-a
27. A celebração comunitária é preferível à individual
28. Cada qual faça o que lhe compete
29. Os ajudantes, os leitores, comentaristas, cantores, etc são ministros litúrgicos e devem
ser preparados para sua função
30. Responder, cantar, salmodiar, fazer gestos e silêncio são meios para participar
31. São previstas partes que cabem aos fiéis
32. Não se permita acepção de pessoas
33. Toda liturgia tem força educativa
34. Os ritos sejam transparentes
Disciplina: Liturgia I
21
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

35. As palavras sejam conexas com os ritos: amplie-se o uso da Bíblia (leituras mais
variadas); a homilia é parte integrante da liturgia e deve haurir seus conteúdos na Bíblia
e na Liturgia; na liturgia façam-se esclarecimentos discretos; incentive-se a celebração
da Palavra de Deus, sobretudo quando falta o padre
36. Seja conservado o Latim: use-se o a língua vulgar quando for útil; compete à autoridade
territorial determinar o uso da língua vulgar; a tradução deve ser aprovada pela
autoridade eclesial territorial
37. A adaptação aos costumes dos povos não admita confusão com conteúdos supersticiosos
e esteja de acordo com as normas do espírito da liturgia cristã
38. Cuide-se da unidade do Rito Romano nas adaptações, por escrito e ordenadamente
39. As adaptações devem ser aprovadas pela autoridade competente e segundo a
Constituição Litúrgica
40. Nas adaptações mais profundas: sejam admitidos elementos da tradição popular que
sejam valiosos, com aprovação da Santa Sé; a Santa Sé dará diretrizes e orientações;
Preparem-se especialistas nas missões

IV - PROMOÇÃO DA VIDA LITÚRGICA NA DIOCESE E NA PARÓQUIA

41. O Bispo é o sumo sacerdote da grei, dele depende a vida dos fiéis, por isso enfoquem-se
as celebrações presidias pelo Bispo com seus presbíteros
42. Nas paróquias favoreça-se a celebração do domingo

V - INCREMENTO DA AÇÃO PASTORAL LITÚRGICA

43. A promoção da vida Litúrgica é como uma passagem do Espírito Santo em sua Igreja
44. Para favorecer a promoção da vida litúrgica seja instituída a Comissão Litúrgica
Nacional
45. Para favorecer a promoção da vida litúrgica seja instituída a Comissão Litúrgica
Diocesana
46. Para favorecer a promoção da vida litúrgica sejam instituídas as Comissões de música
sacra e de arte sacra

CAPÍTULO II: O SAGRADO MISTÉRIO DA EUCARISTIA

47. O nosso Salvador instituiu na última Ceia o Sacrifício eucarístico do seu Corpo e do seu
Sangue, para perpetuar o Sacrifício da cruz e confiou à Igreja o memorial da sua morte
e ressurreição;
48. A Igreja procura que os cristãos participem na ação sagrada consciente, ativa e
piedosamente por meio duma boa compreensão dos ritos e orações: sejam instruídos
pela palavra de Deus; alimentem-se à mesa do Corpo do Senhor; dêem graças a Deus;
aprendam a oferecer-se a si mesmos; que progridam na unidade com Deus e entre si,
para que finalmente Deus seja tudo em todos.
49. Para que o Sacrifício da missa alcance plena eficácia pastoral, mesmo quanto ao seu
rito, o sagrado Concílio, determina o seguinte:
50. O Ordinário da missa deve ser revisto, que os ritos se simplifiquem; sejam omitidos
todos os que se duplicaram ou menos ùtilmente se acrescentaram; restaurem-se, porém,
alguns que desapareceram com o tempo.
51. Prepare-se para os fiéis, com maior abundância, a mesa da Palavra de Deus;
52. A homilia não deve omitir-se, sem motivo grave, nas missas dos domingos e festas de
preceito, concorridas pelo povo.
53. Deve restaurar-se, especialmente nos domingos e festas de preceito, a «oração comum»
ou «oração dos fiéis», recitada após o Evangelho e a homilia
54. A língua vernácula pode dar-se, nas missas celebradas com o povo, um lugar
conveniente, sobretudo nas leituras e na «oração comum» e, segundo as diversas
circunstâncias dos lugares, nas partes que pertencem ao povo
Disciplina: Liturgia I
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

55. Recomenda-se que os fiéis, depois da comunhão do sacerdote, recebam do mesmo


Sacrifício, o Corpo do Senhor. A comunhão sob as duas espécies, pode ser permitida;
56. Devido à unidade da liturgia da palavra e da liturgia eucarística, o sagrado Concilio
exorta sobre o dever de ouvir a missa inteira, especialmente nos domingos e festas de
preceito.
57. O Concílio estende a faculdade de concelebrar aos seguintes casos: na quinta-feira da
Ceia do Senhor, tanto na missa crismal como na missa vespertina; nas missas dos
Concílios, Conferências episcopais e Sínodos; na missa da bênção dum Abade; na missa
conventual e na missa principal das igrejas; nas missas celebradas por ocasião de
qualquer espécie de reuniões de sacerdotes, tanto seculares como religiosos. É da
atribuição do Bispo regular a disciplina da concelebração na diocese. Ressalva-se,
contudo, que se mantem sempre a faculdade de qualquer sacerdote celebrar
individualmente, mas não simultâneamente na mesma igreja, nem na quinta-feira da
Ceia do Senhor.
58. Deve compor-se o novo rito da concelebração a inserir no Pontifical e no Missal
romano.

CAPÍTULO III: OS OUTROS SACRAMENTOS E OS SACRAMENTAIS

59. Os sacramentos estão ordenados à santificação dos homens, à edificação do Corpo de


Cristo e, enfim, a prestar culto a Deus; supõem a fé e a alimentam, fortificam e
exprimem por meio de palavras e coisas; e conferem a graça.
60. Os sacramentais são sinais sagrados que significam realidades, sobretudo de ordem
espiritual, e se obtêm pela oração da Igreja.
61. A liturgia dos sacramentos e sacramentais seja orientada para a santificação dos homens
e para o louvor de Deus o bom uso das coisas materiais.
62. O sagrado Concílio decretou o seguinte em ordem à revisão do ritual dos sacramentos e
sacramentais.
63. Na administração dós sacramentos e sacramentais pode usar-se o vernáculo; A
competente autoridade eclesiástica territorial prepare os Rituais particulares, adaptados
às necessidades de cada uma das regiões, mesmo quanto à língua.
64. Restaure-se o catecumenado dos adultos, com vários graus, por meio de ritos sagrados
que se hão-de celebrar em ocasiões sucessivas.
65. Seja lícito admitir nas terras de Missão os elementos de iniciação usados por cada um
desses povos, na medida em que puderem integrar-se no rito cristão.
66. Reveja-se o rito do Batismo de adultos e insira-se no Missal romano a missa própria
«para a administração do Batismo».
67. Reveja-se o rito do Batismo de crianças, dando-se maior realce, no rito, à parte e aos
deveres dos pais e padrinhos.
68. Prevejam-se adaptações no rito do Batismo tanto para quando houver grande número de
neófitos como também um «Rito mais breve» que os catequistas, possam utilizar na
ausência de um sacerdote ou diácono.
69. Componha-se um novo em que se exprima de modo mais claro e conveniente que uma
criança, batizada com o rito breve, já foi recebida na Igreja. Prepare-se também um
novo rito que exprima que são acolhidos na comunhão da Igreja os vàlidamente
batizados que se converteram à Religião católica.
70. Fora do tempo pascal, pode benzer-se a água batismal no próprio rito do batismo e com
uma fórmula especial mais breve.
71. Reveja-se o rito do sacramento da confirmação; se parecer oportuno, pode ser conferida
durante a missa.
72. Revejam-se o rito e as fórmulas da Penitência de modo que exprimam com mais clareza
a natureza e o efeito do sacramento.
73. A «Unção dos enfermos» seja também conferida quando o fiel começa, por doença ou
por velhice, a estar em perigo de morte.
Disciplina: Liturgia I
23
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

74. Componha-se um «Rito contínuo» em que a Unção se administre ao doente depois da


confissão e antes da recepção do Viático.
75. O número das unções deve regular-se segundo a oportunidade.
76. Faça-se a revisão do texto e das cerimónias do rito das Ordenações. Na sagração
episcopal, todos os Bispos presentes podem fazer a imposição das mãos.
77. Reveja-se e enriqueça-se o rito do Matrimónio que vem no Ritual romano: sejam
conservadas as louváveis tradições e cerimónias locais, devendo, porém, o sacerdote
que assiste pedir e receber o consentimento dos nubentes.
78. Celebre-se usualmente o Matrimónio dentro da missa, depois da leitura do Evangelho e
da homilia e antes da «Oração dos fiéis». A oração pela esposa, devidamente corrigida a
fim de inculcar que o dever de fidelidade é mútuo, pode dizer-se em vernáculo. Se o
Matrimónio não for celebrado dentro da missa, leiam-se no começo do rito a epístola e
o evangelho da «Missa dos esposos» e nunca se deixe de dar a bênção nupcial.
79. Faça-se uma revisão dos sacramentos, tendo presente o princípio fundamental de uma
participação consciente, ativa e fácil dos fiéis, bem como as necessidades do nosso
tempo. Limitem-se a um pequeno número as bênçãos reservadas. Providencie-se de
modo que alguns sacramentais possam ser administrados por leigos dotados das
qualidades requeridas.
80. Reveja-se o rito da consagração das Virgens, que vem no Pontifical romano. Será
louvável fazer a profissão religiosa dentro da Missa.
81. As exéquias devem exprimir melhor o sentido pascal da morte cristã. Adapte-se mais o
rito às condições e tradições das várias regiões, mesmo na cor litúrgica.
82. Faça-se a revisão do rito de sepultura das crianças e dê-se-lhe missa própria

CAPÍTULO IV: O OFÍCIO DIVINO

83. Jesus Cristo ao assumir a natureza humana, trouxe a este exílio da terra aquele hino que
se canta por toda a eternidade na celeste mansão: Ele une a si toda a humanidade e
associa-a a este cântico divino de louvor, continua esse múnus sacerdotal por
intermédio da sua Igreja, que louva o Senhor sem cessar e intercede pela salvação de
todo o mundo especialmente pela recitação do Ofício divino.
84. O Ofício divino destina-se a consagrar o curso diurno e nocturno do tempo: é
verdadeiramente a voz da Esposa que fala com o Esposo ou, melhor, a oração que
Cristo, unido ao seu Corpo, eleva ao Pai.
85. Todos os que rezam assim, cumprem, por um lado, a obrigação própria da Igreja, e, por
outro, participam na imensa honra da Esposa de Cristo, porque estão em nome da Igreja
diante do trono de Deus, a louvar o Senhor.
86. Os sacerdotes, dedicados ao sagrado ministério pastoral, recitarão com tanto mais fervor
o Ofício divino, quanto mais conscientes estiverem de que devem seguir a exortação de
S. Paulo: «Rezai sem cessar» (1 Tess. 5,17).
87. Para permitir nas circunstâncias atuais uma melhor e mais perfeita recitação do Ofício
divino, pareceu bem ao sagrado Concílio estabelecer o seguinte sobre o Ofício do rito
romano.
88. Sendo o objetivo do Ofício a santificação do dia, deve rever-se a sua estrutura
tradicional, de modo que, na medida do possível, se façam corresponder as «horas» ao
seu respectivo tempo, tendo presentes também as condições da vida hodierna em que se
encontram sobretudo os que se dedicam a obras do apostolado.
89. Por isso, na reforma do Ofício, observem-se as seguintes normas: a) As Laudes, oração
da manhã, e as Vésperas, oração da noite, tidas como os dois polos do Ofício quotidiano
pela tradição venerável da Igreja universal, devem considerar-se as principais Horas e
como tais celebrar-se; b) As Completas devem adaptar-se, para condizer com o fim do
dia; c) As Matinas, continuando embora, quando recitadas em coro, com a índole de
louvor nocturno, devem adaptar-se para ser recitadas a qualquer hora do dia; tenham
menos salmos e lições mais extensas; d) Suprima-se a Hora de Prima; e) Mantenham-se
Disciplina: Liturgia I
24
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

na recitação em coro as Horas menores de Tércia, Sexta e Noa. Fora da recitação coral,
pode escolher-se uma das três, a que mais se coadune com a hora do dia.
90. Que todos, ao recitarem-no, o espírito corresponda às palavras; para melhor o
conseguirem, procurem adquirir maior instrução litúrgica e bíblica, especialmente
quanto aos salmos.
91. Distribuam-se os salmos por mais longo espaço de tempo que uma semana apenas.
92. Quanto às leituras, sigam-se estas normas: a) Ordenem-se as leituras da Sagrada
Escritura de modo que se permita mais fácil e amplo acesso aos tesouros da palavra de
Deus; b) Faça-se melhor selecção das leituras a extrair das obras dos Santos Padres,
Doutores e Escritores eclesiásticos; c) As «Paixões» ou vidas dos Santos sejam
restituídas à verdade histórica.
93. Restaurem-se os hinos, segundo convenha, na sua forma original. Se convier, admitam-
se também outros que se encontram nas coleções hinológicas.
94. Que ao rezá-las se observe o tempo que mais se aproxima do verdadeiro tempo de cada
um das Horas canónicas.
95. As Comunidades com obrigação de coro têm o dever de celebrar, além da Missa
conventual, diàriamente e em coro, o Ofício divino
96. Os clérigos não obrigados ao coro, se já receberam Ordens maiores, são obrigados a
recitar diàriamente, ou em comum ou individualmente, todo o Ofício
97. Podem os Ordinários, em casos particulares e por causa justa, dispensar os seus súbditos
da obrigação de recitar o Ofício no todo ou em parte, ou comutá-lo.
98. Os membros dos Institutos de perfeição, que, por força das constituições, recitam
algumas partes do Ofício divino, participam na oração pública da Igreja.
99. Aconselha-se aos clérigos não obrigados ao coro, que convivem ou se retinem, que
rezem em comum ao menos alguma parte do Ofício divino.
100. Cuidem os pastores de almas que nos domingos e festas mais solenes se celebrem em
comum na igreja as Horas principais, especialmente Vésperas. Recomenda-se também
aos leigos que recitem o Ofício divino.
101. O Ordinário poderá conceder a faculdade de usarem uma tradução em vernáculo.

CAPÍTULO V: O ANO LITÚRGICO

102. A santa mãe Igreja, no dia a que chamou domingo, celebra a da Ressurreição do
Senhor, como a celebra também uma vez no ano na Páscoa, a maior das solenidades,
unida à memória da sua Paixão. Distribui todo o mistério de Cristo pelo correr do ano,
da Encarnação e Nascimento à Ascensão, ao Pentecostes, à expectativa da feliz
esperança e da vinda do Senhor: assim, oferece aos fiéis as riquezas das obras e
merecimentos do seu Senhor, a ponto de os tornar como que presentes a todo o tempo,
para que os fiéis, em contato com eles, se encham de graça.
103. Na celebração deste ciclo anual dos mistérios de Cristo, a santa Igreja venera com
especial amor a Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus.
104. A Igreja inseriu também no ciclo anual a memória dos Mártires e outros Santos.
105. Em várias épocas do ano e seguindo o uso tradicional, a Igreja completa a formação
dos fiéis servindo-se de piedosas práticas corporais e espirituais, da instrução, da oração
e das obras de penitência e misericórdia. Por isso, aprouve ao sagrado Concílio
determinar o seguinte:
106. Por tradição apostólica, que nasceu do próprio dia da Ressurreição de Cristo, a Igreja
celebra o mistério pascal todos os oito dias, no dia que bem se denomina dia do Senhor
ou domingo, fundamento e o centro de todo o Ano Litúrgico.
107. Reveja-se o ano litúrgico e se acaso forem necessárias adaptações aos vários lugares
108. Oriente-se o espírito dos fiéis em primeiro lugar para as festas do Senhor, de
preferência sobre as festas dos Santos.
109. Ponham-se em maior realce, tanto na Liturgia como na catequese litúrgica, os dois
aspectos característicos do tempo quaresmal: os elementos batismais próprios da liturgia
quaresmal e os elementos penitenciais.
Disciplina: Liturgia I
25
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

110. A penitência quaresmal deve ser também externa e social, que não só interna e
individual. Mantenha-se religiosamente o jejum pascal, que se deve observar em toda a
parte na Sexta-feira da Paixão e Morte do Senhor e, se oportuno, estender-se também ao
Sábado santo, para que os fiéis possam chegar à alegria da Ressurreição do Senhor com
elevação e largueza de espírito.
111. A Igreja, segundo a tradição, venera os Santos e as suas relíquias autênticas, bem como
as suas imagens.

CAPÍTULO VI: A MÚSICA SACRA

112. A música sacra será, por isso, tanto mais santa quanto mais intimamente unida estiver à
ação litúrgica, quer como expressão delicada da oração, quer como factor de comunhão,
quer como elemento de maior solenidade nas funções sagradas. A Igreja aprova e aceita
no culto divino todas as formas autênticas de arte, desde que dotadas das qualidades
requeridas.
113. A ação litúrgica reveste-se de maior nobreza quando é celebrada de modo solene com
canto, com a presença dos ministros sagrados e a participação activa do povo.
114. Guarde-se e desenvolva-se com diligência o património da música sacra. Promovam-se
com empenho as «Scholae cantorum».
115. Dê-se grande importância nos Seminários, Noviciados e casas de estudo de religiosos
de ambos os sexos, bem como noutros institutos e escolas católicas, à formação e
prática musical.
116. A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano; terá este
na ação litúrgica o primeiro lugar.
117. Procure terminar-se a edição típica dos livros de canto gregoriano;
118. Promova-se muito o canto popular religioso, para que os fiéis possam cantar tanto nos
exercícios piedosos e sagrados como nas próprias acções litúrgicas, segundo o que as
rubricas determinam.
119. Em certas regiões, sobretudo nas Missões, há povos com tradição musical própria.
Estime-se como se deve e dê-se-lhe o lugar que lhe compete, tanto na educação do
sentido religioso desses povos como na adaptação do culto à sua índole.
120. Tenha-se em grande apreço na Igreja latina o órgão de tubos. Podem utilizar-se no
culto divino outros instrumentos.
121. Os compositores possuídos do espírito cristão compreendam que são chamados a
cultivar a música sacra e a aumentar-lhe o património. Os textos destinados ao canto
sacro devem estar de acordo com a doutrina católica e inspirar-se sobretudo na Sagrada
Escritura e nas fontes litúrgicas.

CAPÍTULO VII: A ARTE SACRA E AS ALFAIAS LITÚRGICAS

122. A santa mãe Igreja amou sempre as belas artes e preocupou-se com muita solicitude
em que as alfaias sagradas contribuissem para a dignidade e beleza do culto, aceitando
no decorrer do tempo, na matéria, na forma e na ornamentação, as mudanças que o
progresso técnico foi introduzindo.
123. Seja cultivada livremente 'na Igreja a arte do nosso tempo, a arte de todos os povos e
regiões, desde que sirva com a devida reverência e a devida honra às exigências dos
edifícios e ritos sagrados.
124. Ao promoverem uma autêntica arte sacra, prefira-se uma beleza que seja nobre.
Aplique-se isto mesmo às vestes e ornamentos sagrados.
125. Mantenha-se o uso de expor imagens nas igrejas à veneração ds fiéis.
126. Para emitir um juízo sobre as obras de arte, escute-se parecer da Comissão de arte
sacra e de outras pessoas particularmente competentes
127. Cuidem os Bispos de, por si ou por sacerdotes idóneos e que conheçam e amem a arte,
imbuir os artistas do espírito da arte sacra e da sagrada Liturgia.
Disciplina: Liturgia I
26
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

128. Revejam-se o mais depressa possível os cânones e determinações eclesiásticas


atinentes ao conjunto das coisas externas que se referem ao culto
129. Devem os clérigos, durante o curso filosófico e teológico, estudar a história e evolução
da arte sacra, bem como os sãos princípios em que deve fundar-se.
130. É conveniente que o uso das insígnias pontificais seja reservado às pessoas
eclesiásticas que possuem a dignidade episcopal ou gozam de especial jurisdição.

IV. A liturgia nos documentos pós-conciliares (Medelín, Puebla, Santo Domingo e


Catecismo da Igreja Católica)

Medellín (1968)

A Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-americano realizou-se em


Medellín, na Colômbia no período de 24 de agosto a 6 de setembro de 1968. A Conferência foi
convocada pelo Papa Paulo VI para aplicar os ensinamentos do Concílio Vaticano II às
necessidades da Igreja presente na América Latina. A temática proposta foi “A Igreja na
presente transformação da América Latina à luz do Concílio Vaticano II”. A abertura da
Conferência foi feita pelo próprio Papa que marcou a primeira visita de um pontífice à América
Latina. Durante os três anos de duração do Concílio Vaticano II, de 1962 a 1965, os padres
conciliares latino-americanos mantiveram várias reuniões do CELAM em Roma. Ali brotou a
idéia de propor ao Santo Padre a realização da segunda Conferência Geral. Em 1966 a
presidência do CELAM apresentou a Paulo VI a proposta da nova Conferência. O pontífice a
acolheu com satisfação e a convocou para se realizar em Medellín, de 26 de agosto a 6 de
setembro de 1968. Sob o tema: “A Igreja na atual transformação da América Latina à luz do
Concílio”, Medellín apresentou-se como uma recepção do Concílio Vaticano II na América
Latina.

A Conferência foi inaugurada por Paulo VI na catedral de Bogotá, no dia 24 de agosto,


por ocasião do XXXIX Congresso Eucarístico Internacional. Dela participaram 86 bispos, 45
arcebispos, 6 cardeais, 70 sacerdotes e religiosos, 6 religiosas, 19 leigos e 9 observadores não
católicos, presididos por Antônio Cardeal Samoré, presidente da Pontifícia Comissão para a
América Latina, e por Dom Avelar Brandão Vilela, arcebispo de Teresina e presidente do
CELAM. No total, participaram 137 bispos com direito a voto e 112 delegados e observadores.
Em seu discurso inaugural, pronunciado no dia 24 de agosto em Bogotá, Paulo VI sublinhou a
secularização, que ignorava a referência essencial à verdade religiosa, e a oposição – pretendida
por alguns – entre a Igreja chamada institucional e a Igreja denominada carismática. O pontífice
também evidenciou sua preocupação com os problemas doutrinários que se percebiam no
imediato pós-concílio. Insistiu em promover a justiça e a paz, alertando diante da tática do
marxismo ateu de provocar a violência e a rebelião sistemática, e de gerar o ódio como
instrumento para alcançar a dialética de classes. Sobre a liturgia, afirmou-se o seguinte:

“A liturgia é ação de Cristo Cabeça e de seu Corpo que é a Igreja. Contém, portanto, a
iniciativa salvadora que vem do Pai pelo Verbo no Espírito Santo, e a resposta da
humanidade naqueles que se enxertam pela fé e pela caridade, no Cristo, recapitulador
de todas as coisas. A liturgia, momento em que a Igreja é mais perfeitamente ela
mesma, realiza, indissoluvelmente unidas, a comunhão com Deus e entre os homens, e
de tal maneira que a primeira é a razão da segunda. Se antes de tudo procura o louvor
da glória e da graça, também está consciente de que todos os homens precisam da
Glória de Deus para serem verdadeiramente homens” (Medellín – Lit. 9,2).

Puebla (1979)

A terceira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano foi realizada em Puebla


de los Angeles, no México, no período de 27 de janeiro a 13 de fevereiro de 1979. No fim de
1976, no transcurso da XVI Assembléia do CELAM, celebrada em San Juan de Puerto Rico,
Disciplina: Liturgia I
27
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Sebastião Cardeal Baggio, então prefeito da Congregação para os Bispos e presidente da


Pontifícia Comissão para a América Latina, anunciou que Paulo VI tinha a intenção de convocar
a III Conferência Geral. Os bispos acolheram com entusiasmo a notícia e iniciaram os trabalhos
preparatórios ao evento eclesial. Paulo VI apontou como documento de referência a Exortação
Apostólica Evangelii Nuntiandi, de 1975, na qual o pontífice analisava o que é evangelizar, qual
é o conteúdo da evangelização, quem são os destinatários da evangelização, quem são seus
agentes e que espírito deve presidi-la. Paulo VI convocou oficialmente a III Conferência no dia
12 de dezembro de 1977, sob o tema: “Evangelização no presente e no futuro da América
Latina”. O pontífice assinalou que ela seria celebrada de 12 a 18 de outubro de 1978, mas o seu
falecimento e o breve pontificado do Papa João Paulo I fizeram com que a Conferência fosse
adiada. Participaram 356 delegados, sendo previstos inicialmente 249, 221 dos quais eram
bispos.
A presidência da Conferência de Puebla esteve a cargo de Sebastião Cardeal Baggio,
prefeito da Congregação para os Bispos e presidente da Pontifícia Comissão para a América
Latina; de Dom Aloísio Cardeal Lorscheider, arcebispo de Fortaleza, presidente da CNBB e
presidente do CELAM; e de Alfonso López Trujillo, arcebispo coadjutor de Medellín, na
Colômbia e secretário-geral do CELAM. O Papa João Paulo II inaugurou a III Conferência
pessoalmente, com um discurso lido no Seminário de Puebla. Essa foi a primeira viagem deste
Papa à América e despertou o interesse de multidões. Seu discurso inaugural ditaria a marcha
dos trabalhos da reunião eclesial. O episcopado da América Latina indicou algumas pistas de
atuação da Igreja, baseadas no Vaticano II:

a) Reconhece que a pastoral litúrgica é insubstituível (927);


b) O progresso antropológico está devolvendo à liturgia o seu valor promocional e
terapêutico, reconhecendo a força humanizante dos símbolos, da música e das cores
rituais (920, 940, 947, 948);
c) A liturgia apresenta a Providência Divina e a santificação da Igreja trinitariamente
(917);
d) A liturgia é ação de Cristo e da Igreja, é exercício do sacerdócio de Jesus Cristo, é o
ápice e a fonte da vida eclesial, festa de comunhão eclesial do mistério pascal, com o
qual Cristo assume e liberta a humanidade coenvolvendo-a no plano de Deus que
transforma progressivamente a história (918);
e) O documento reconhece várias situações positivas que favorecem o papel evangelizador
da liturgia (896);
f) Expressa a necessidade de uma adaptação da própria liturgia (899);
g) Denuncia como negativas as seguintes situações: a) não se tem atribuído ainda à
pastoral litúrgica a prioridade que lhe cabe dentro da pastoral de conjunto (901); b) é
prejudicial opor evangelização e sacramentalização (901); c) Falta de formação litúrgica
do clero (901); d) ausência de catequese litúrgica aos fiéis (901); e) dicotomia entre
liturgia e vida (901); f) instrumentalização da liturgia (902); g) ignorância do
significado das normas e consequente desrespeito das mesmas (903).

Em seguida os bispos enfrentam o relacionamento entre a liturgia e piedade popular;


embora reconheça positivamente a piedade popular, afirma a necessidade de que esta seja
corrigida nos seguintes aspectos: a) Falta do Senso Eclesial (914); b) não converge para a
liturgia (914); c) desproporção do culto aos santos, em detrimento do conhecimento de Jesus
Cristo e da celebração de seu mistério (914); d) idéia deformada a respeito de Deus (914); e)
utilitarismo devocional (914); f) elementos sincréticos e supersticiosos (914).

Os bispos pedem que, nas ações da pastoral litúrgica, seja empregada a seguinte
metodologia: a) tome-se a piedade popular como ponto de partida para conseguir que a fé ganhe
maturidade e profundidade; para isso deve-se basear na palavra de Deus e no sentido de
pertença à Igreja (960); b) apresentar a devoção à Maria e aos Santos como a realização neles da
Páscoa de Cristo e recordar que deve conduzir à vivência da Palavra e ao testemunho de vida
(963); c) a liturgia não esgota toda atividade da Igreja; recomende-se os exercícios piedosos do
Disciplina: Liturgia I
28
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Povo Cristão contanto que sejam conformes às normas e Leis da Igreja, derivem da Liturgia e a
ela conduzam.

Seguem alguns artigos de Puebla:

917. O Pai, por Cristo e no Espírito, santifica a Igreja e, por ela, o mundo;
mundo e Igreja por sua vez, por Cristo e no Espírito, dão glória ao Pai.
918. A liturgia, como ação de Cristo e da Igreja, é o exercício do sacerdócio de Jesus
Cristo; é o ápice e a fonte da vida eclesial. É um encontro com Deus e os irmãos; banquete e
sacrifício realizado na Eucaristia; festa de comunhão eclesial, na qual o Senhor Jesus;
por seu mistério pascal, assume e liberta o Povo de Deus e, por ele, toda a humanidade, cuja
história é convertida em história salvífica, para reconciliar os homens entre si e com Deus.
A liturgia é também força em nosso peregrinar, para que se leve a bom termo, mediante o
compromisso transformador da vida, a realização plena do Reino, segundo o plano de
Deus.
920. O homem é um ser sacramental; no nível religioso, exprime suas relações com
Deus num conjunto de sinais e símbolos; Deus, igualmente, os utiliza quando se comunica
com os homens. Toda a criação é, de certa forma, sacramento de Deus, porque no-lo revela.
921. Cristo “é imagem de Deus invisível” (Cl 1,15). Como tal, é o sacramento
primordial e radical do Pai: “aquele que me viu, viu o Pai” (Jo 14,9)
922. A Igreja é, por sua vez, sacramento de Cristo para comunicar aos homens a
vida nova. Os sete sacramentos da Igreja concretizam e atualizam esta realidade sacramental
para as diversas situações da vida
927. Nenhuma atividade pastoral pode-se realizar sem referência à liturgia. As
celebrações litúrgicas supõem uma iniciação à fé, mediante o anúncio evangelizador, a
catequese e a pregação bíblica; esta é a razão de ser dos cursos e encontros pré-sacramentais

Santo Domingo

A Quarta Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano realizou-se em Santo


Domingo, na República Dominicana, no período de 12 a 28 de outubro de 1992. João Paulo II a
convocou oficialmente no dia 12 de dezembro de 1990, estabelecendo como tema: "Nova
evangelização, Promoção humana, Cultura cristã", sob o lema: "Jesus Cristo ontem, hoje e
sempre" (Hb 13,8). O CELAM fora o encarregado de preparar a Conferência, tendo divulgado o
Documento de Consulta em 1991. Este, após as contribuições das Igrejas locais, transformou no
Documento de Trabalho, base das discussões dos bispos e convidados. A Conferência de Santo
Domingo marcava-se no contexto da celebração dos 500 anos do início da evangelização no
Novo Mundo. Ela teria três objetivos: celebrar Jesus Cristo, ou seja, a fé e a mensagem do
Senhor crucificado e ressuscitado; prosseguir e aprofundar as orientações de Medellín e Puebla;
definir uma nova estratégia de evangelização para os próximos anos, respondendo aos desafios
do tempo. Entre bispos, peritos e convidados participaram cerca de 350 pessoas. Destas, 234
eram bispos com direito a voto.

A América Latina passara por diferentes mudanças desde 1979, data da última
conferência. Havia-se alterado a situação política das repúblicas latino-americanas, passando de
ditaduras de distintas matizes a regimes políticos mais ou menos democráticos. Constatara-se a
derrocada do “socialismo real” e afirmava-se o neoliberalismo de cunho anglo-saxão. A
violência do narcotráfico se estendia, em convivência com algumas guerrilhas. Nos anos 80 se
acentuara a urbanização, evidenciando a miséria de grandes parcelas de população aglomeradas
nas grandes cidades. Na Mensagem que os bispos da IV Conferência dirigiram aos povos
da América Latina, diz-se expressamente que a Nova Evangelização foi a idéia central de todo o
trabalho da Conferência. Todos os fiéis, especialmente os leigos e os jovens, são convocados
para a Nova Evangelização. A IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano quis
traçar linhas fundamentais de um novo impulso evangelizador, que ponha Cristo no coração e
nos lábios, na ação e na vida de todos os latino-americanos.” Em seu discurso inaugural, João
Disciplina: Liturgia I
29
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Paulo II enfatizava que o chamado à nova evangelização é antes de tudo um chamado à


conversão:

“De fato, mediante o testemunho de uma Igreja cada vez mais fiel à sua identidade e
mais viva em todas as suas manifestações, os homens e os povos poderão continuar a
encontrar Jesus Cristo e, n’Ele, a verdade da sua vocação e da sua esperança, o
caminho em direção à humanidade melhor.Todos os evangelizadores também deverão
dar uma atenção especial à catequese. No início do meu pontificado quis dar um novo
impulso a esta tarefa pastoral mediante a exortação apostólica Catechesi Tradendae e,
recentemente, aprovei o Catecismo da Igreja Católica, que recomendo como o melhor
dom que a Igreja pode fazer aos seus bispos e ao povo de Deus. Trata-se de valioso
instrumento para a nova evangelização, no qual se compendia toda doutrina que a
Igreja deve ensinar. Confio igualmente que o Movimento Bíblico continue
desenvolvendo sua benéfica tarefa na América Latina e que a Sagrada Escritura nutra
cada vez mais a vida dos fiéis, para o que se faz imprescindível que os agentes de
pastoral se aprofundem incansavelmente na Palavra de Deus, vivendo-a e
transmitindo-a aos demais com fidelidade, ou seja, tendo em conta a Tradição viva de
toda Igreja e a analogia da fé (DV 12). Da mesma forma o Movimento Litúrgico deverá
dar um impulso renovado impulso à vivência íntima dos mistérios da nossa fé, levando
ao encontro de Cristo ressuscitado na liturgia da Igreja. É na celebração da Palavra e
dos Sacramentos, mas sobretudo na celebração da Eucaristia, fonte e coroa de toda
vida da Igreja e de toda evangelização, que se realiza nosso encontro salvífico com
Cristo, a quem nos unimos misticamente formando a Igreja (cf LG 7). Por isso exorto-
vos a dar um novo impulso à celebração digna, viva e participada das assembleias
litúrgicas, com esse profundo sentido da fé e da contemplação dos mistérios da
salvação, tão enraizados em vossos povos” ( Papa João Paulo II, discurso inaugural por
ocasião da IV Conferência Geral do Episcopado Latino Americano).

A Santa Igreja encontra o sentido de sua convocação na vida de oração, louvor e ação
de graças que o céu e terra dirigem a Deus por suas obras grandes e maravilhosas (Ap 15, 3s;
7,9-17). Esta é a razão pela qual a liturgia é o cume ao qual tende toda atividade da Igreja e, ao
mesmo tempo, a fonte de onde emana toda a sua força (SC 10). Mas a liturgia é ação do Cristo
total, Cabeça e Membros, e como total deve expressar o sentido mais profundo de sua oblação
ao Pai: obedecer, fazendo de toda a sua vida a revelação do amor do Pai pelos homens. Assim
como a celebração da última ceia está essencialmente unida a vida e ao sacrifício de Cristo na
Cruz e o faz cotidianamente presente pela salvação de todos os homens, assim também os que
louvam a Deus reunidos em torno do cordeiro são os que mostram em suas vidas os sinais
testemunhais da entrega de Jesus (Ap 7,13). Por isso o culto cristão deve expressar a dupla
vertente da obediência ao Pai (glorificação) e da caridade para com os irmãos (redenção), pois a
glória de Deus é o homem vivo. Com isso, longe de alienar os homens, liberta-os e faz irmãos.

O serviço litúrgico assim realizado na Igreja tem por si mesmo um valor evangelizador,
que a Nova Evangelização deve situar em luar de destaque. Na liturgia, Cristo Salvador se faz
presente hoje. A liturgia é o anúncio e realização dos feitos salvíficos (SC 10) que nos chegam a
tocar sacramentalmente; por isso convoca, celebra e envia. É exercício da fé , útil tanto para
quem tem uma fé robusta quanto para quem a tem frágil e, inclusive, para o não crente (1 Cor
14,24-25). Sustenta o compromisso da promoção humana, enquanto orienta os fiéis a assumirem
sua responsabilidade na construção do reino, para que seja manifestado que os fiéis cristãos,
sem ser deste mundo, são a luz do mundo (SC 9). A celebração não pode ser algo separado ou
paralelo à vida (cf 1 Pd 1,15).

Por fim, é especialmente pela liturgia que o evangelho penetra no coração das culturas.
Toda celebração litúrgica de cada sacramento tem também um valor pedagógico; a linguagem
dos sinais é o melhor veículo para que a mensagem de Cristo penetre nas consciências das
pessoas e daí se projete no ethos de um povo, em suas atitudes vitais, em suas instituições e em
Disciplina: Liturgia I
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

todas as suas estruturas. Por isso as formas das celebrações litúrgicas devem ser capazes de
expressar o mistério que se celebra e, por sua vez, serem claras e intelegíveis aos homens e
mulheres de nosso tempo.

Catecismo da Igreja Católica

O Catecismo da Igreja Católica (CIC) surgiu após a Assembléia Extraordinária


do Sínodo dos Bispos em comemoração do vigésimo ano de encerramento do Concílio Vaticano
II, em 25 de janeiro de 1985. Na ocasião surgiu no coração dos Padres sinodais o desejo de
um Catecismo ou compêndio que abordasse a doutrina católica de forma geral, servindo de
referência para os catecismo ou compêndios a serem preparados em diversos lugares do mundo.
Após o Sínodo, o papa João Paulo II assumiu para si este desejo e deu início ao trabalho de
formulação do CIC, entregando-o à população no dia 11 de outubro de 1992, resultado do
trabalho que demorou seis anos. O papa João Paulo II confiou ao Cardeal Joseph Ratzinger em
1986 a responsabilidade de presidir uma Comissão composta por doze cardeais e bispos para
preparar um projeto para o catecismo. Esta equipe contou com o apoio de uma Comissão de
redação, formada por sete bispos diocesanos peritos em teologia e catequese. A Comissão deu
diretrizes ao desenvolvimento do trabalho, cuja redação sucedeu nove composições. Por outro
lado, a Comissão de redação escreveu o texto e inseriu neles as modificações pedidas pela
Comissão e examinou as observações de numerosos teólogos, exegetas e catequistas e bispos do
mundo inteiro, a fim de melhorar o texto. Podemos assim esquematizar a apresentação sobre a
Liturgia no CIC:

a) Apresenta a Liturgia numa impostação trinitária;


b) Faz uma apresentação sobre a natureza da Liturgia como ANAMNESIS, EPICLESIS e
DOXOLOGIA da HISTÓRIA DA SALVAÇÃO;
c) Está dividido em duas seções: A economia sacramental e os sete sacramentos.

CAPÍTULO I: O MISTÉRIO PASCAL NO TEMPO DA IGREJA

ARTIGO I: A Liturgia – Obra da Santíssima Trindade

1087-1083: I. O Pai, fonte e fim da Liturgia (Ef 1,3-6)


1084-1085: II. O Cristo glorificado... a liturgia é ação do cristo glorificado, pois o evento da
cruz e da ressurreição permanece e atrai tudo para a vida.
1086-1087: ...a partir da Igreja dos apóstolos... pois, assim como o Pai envia seu Filho para
realizar a redenção da humanidade, Cristo envia seus apóstolos para evangelizar realizando a
Opus Dei.
1088-1089: ...está presente na liturgia terrestre.
1090: ...que participa da liturgia celeste.
1091-1092: III. O Espírito Santo e a Igreja na liturgia = uma ação pneumático-eclesial
1093-1098: O Espírito Santo prepara para acolher a Cristo = é o caminho da pedagogia divina
que se dá ao homem na medida do próprio homem a partir da sua própria realidade.
1099-1103: O Espírito Santo recorda o Mistério de Cristo = dimensão ANAMNÉTICA.
1104-1107: O Espírito santo atualiza o Mistério de Cristo = dimensão EPICLÉTICA.
1108-1109: A comunhão do Espírito Santo = dimensão DOXOLÓGICA no já da nossa
existência.

ARTIGO II: O Mistério pascal nos sacramentos da Igreja

1113: Toda vida litúrgica da Igreja gravita em torno do sacrifício eucarístico e dos sacramentos.
1114-1116: I. Os Sacramentos de Cristo
1117-1121: II. Os sacramentos da Igreja
1122-1126: III. Os Sacramentos da Fé.
1127-1129: IV. Os Sacramentos da Salvação.
Disciplina: Liturgia I
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

1130: V. Os Sacramentos da Vida Eterna.

CAPÍTULO II: A celebração Sacramental do Mistério Pascal

1135: As questões concernentes à Liturgia para uma boa e eficaz participação.

ARTIGO I: CELEBRAR A LITURGIA

1136: I. Quem celebra?

1137-1139: Os celebrantes da liturgia celeste


1140-1145: os celebrantes da liturgia sacramental = toda comunidade, o corpo de Cristo unido à
sua Cabeça que celebra.

II. Como celebrar?

1145-1152: Sinais e Símbolos.


1153-1155: Palavras e Ações.
1156-1158: Canto e Música.
1159-1162: As santas imagens.

III. Quando Celebrar?

1163-1165: O Tempo Litúrgico = tempo pneumatizado. KAIRÓS.


1166-1167: O Dia do Senhor.
1168-1171: O Ano Litúrgico.
1172-1178: O Santoral no Ano Litúrgico.
1174-1178: A Liturgia das Horas.

1179-1186: IV. Onde celebrar? = o culto”em espírito e em verdade”(Jo 4,24) da Nova Aliança
não está ligado a um lugar exclusivo. A igreja-edifício é um sinal externo que manifesta a
presença da IGREJA-TEMPLO-ESPIRITUAL, morada de Deus com o homem.

ARTIGO II: DIVERSIDADE LITÚRGICA E UNIDADE DO MISTÉRIO

1200-1203: Tradições litúrgicas e catolicidade da Igreja


1204-1206: Liturgia e culturas

V. Sinais e Símbolos da Liturgia cristã

Na liturgia eucarística, todos estão conversi ad Dominum, voltados ao altar; “eu


acredito, portanto, que um elemento decisivo para se avaliar a qualidade de uma adequação
litúrgica é a sua capacidade de fazer perceber a orientação escatológica da assembleia
convocada pelo Senhor, sabendo que a adequação de uma igreja é um caminho de comunhão a
serviço dos cristãos, para que o seu encontro com Deus na liturgia seja aderente à sua fé e ao
espaço em que esta se expressa”( Enzo Bianchi, monge italiano, prior da Comunidade de
Bose, em artigo para o jornal Avvenire, dos bispos italianos, 31-05-2012). Sabe-se que Deus
não habita em templos feitos pela mão humana (At 17,24). No entanto, a comunidade cristã
precisa de um espaço para celebrar a liturgia. Este espaço não tem apenas uma dimensão
funcional, mas sobretudo uma dimensão simbólica, como nos diz a Instrução Geral do Missal
Romano: “Convém que a disposição geral do edifício sagrado seja tal que ofereça uma imagem
da assembléia reunida, permita uma conveniente disposição de todas as coisas e favoreça a cada
um exercer corretamente a sua função” (IGMR 294). O espaço litúrgico é o lugar da celebração
da fé da Igreja e reproduz a vivência eclesial de uma comunidade. Por isto, o Concílio Vaticano
Disciplina: Liturgia I
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

II propôs uma renovação eclesial e uma correspondente renovação litúrgica, incluindo o espaço
da celebração.

As orientações do Vaticano II, expressas na Constituição Sacrosanctum Concilium são


fundamentais para a estrutura e teologia dos lugares da celebração. Elas falam de uma
participação ativa dos fiéis; de uma liturgia hierárquica e comunitária, didática e pastoral, em
que cada um desempenha a sua função. O Concílio recupera ainda o valor da Palavra na liturgia
na própria língua dos que a escutam. A partir da nova visão do Vaticano II, o espaço sagrado
começa e se estruturar tendo em vista a funcionalidade da ação litúrgica, a partir dos seus
vetores essenciais. Acima de tudo, deve ser salvaguardada a polaridade do altar, do ambão e da
cátedra; ou seja, esses espaços precisam ser capazes de mostrar, de fazer sinal de que a verdade
cristã da santidade de Deus e da encarnação do Filho no mundo inspira a determinação do
espaço Portanto, tudo deve estar predisposto de modo que a assembleia se sinta convocada pelo
Senhor, esteja na presença do Senhor que vem , seja por ele compaginada no seu corpo,
ordenado conforme o deseja a tradição apostólica e católica. Tudo isso sempre com a intenção
de ajudar os homens e as mulheres de um determinado tempo ao louvor de Deus e ao culto
cristão.

Altar ou Mesa da Eucaristia

O altar deve ser o centro focal ao qual toda a assembleia se dirige, e deve aparecer
claramente a sua qualidade de altar do sacrifício da cruz, além do seu ser a mesa do Senhor à
qual os seus discípulos são convidados. Historicamente, o altar sempre foi o lugar mais
venerável, que sempre mereceu a suprema dignidade como lugar onde se realiza o mistério de
Cristo e da Igreja. Ele é símbolo do verdadeiro e místico altar que é Cristo. Ele é o coração de
uma igreja. Pela sua importância, por ocasião da dedicação de uma igreja, a sua consagração
constitui a parte central. Sendo a eucaristia o sacramento principal da vida da Igreja, o altar
resume em si o mistério do culto cristão de glorificação de Deus e santificação das pessoas.
Neste sentido, o altar é o lugar especial de encontro de Deus com a comunidade, através do
sacrifício pascal de Jesus Cristo. Participar da mesa do Senhor implica estar em comunhão com
ele (1Cor 10,16-21). Reunir-se em torno do altar significa reunir-se com Cristo. “A participação
do corpo e sangue de Cristo nada mais é do que nós nos transformarmos no que tomamos”.

Na celebração da dedicação, temos quatro ritos de consagração do altar que têm como
finalidade expressar com sinais visíveis a ação que Deus realiza na Igreja, especialmente quando
ela celebra a eucaristia. O objetivo destes ritos é evidenciar que o altar é o símbolo central da
igreja destinada a celebrar a eucaristia. O rito da unção com o óleo do Crisma quer significar
que o altar é sinal de Cristo, o Ungido do Pai. Por isso, o altar é motivo de muitos sinais de
veneração como a inclinação, o beijo, a incensação. O incenso é queimado sobre o altar para
significar que o sacrifício de Cristo sobe a Deus em odor de suavidade (ODEA, IV, 22b). Antes
de mais nada o altar é uma mesa, a mesa da refeição, sobre a qual o sacerdote, representando o
Cristo Senhor, realiza o que Jesus fez na quinta-feira santa quando instituiu o seu memorial.
A dignidade do altar decorre justamente do fato de ser ele a mesa da ceia do Senhor. A
comunidade que se reúne em sua volta segue o mandato de Jesus na última ceia: “Fazei isto em
memória de mim”. Assim, oferecendo Cristo ao Pai, a comunidade também se oferece ao Pai,
por Cristo, no Espírito. O altar é então ao mesmo tempo mesa do sacrifício e da ceia pascal do
Senhor.
O altar não é apenas um objeto útil para a celebração da eucaristia. Ele é o sinal da
presença de Cristo, sacerdote, altar e cordeiro. O Missal Romano chama à atenção sobre a
importância da centralidade do altar (IGMR 299). Ele deve chamar a atenção de toda a
assembléia. É ele que deve aparecer. O presidente da celebração não pode ofuscar o lugar de
destaque que é do Cristo, simbolizado no altar. “O altar é o centro das ações de graças
oferecidas pela Eucaristia, para o qual de algum modo todos os outros ritos da Igreja
convergem. Por se realçar que no altar se celebra o memorial do Senhor e se dá aos fiéis seu
Corpo e Sangue, os escritores eclesiásticos foram levados a vê-lo como sinal do próprio Cristo.
Disciplina: Liturgia I
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Por isso tornou-se comum a afirmação: ‘O altar é Cristo’”(ODEA IV.4). O altar pode ser fixo
ou móvel. Contudo, é aconselhado que o altar seja fixo, o que melhor simboliza o Cristo, a
rocha firme e forte (IGMR 298). Também, em vista do simbolismo e da dignidade que o altar
representa e do caráter da assembléia litúrgica, é fundamental que ele seja único, seguindo assim
o antigo princípio eclesial: um só Senhor, uma só mesa do Senhor, uma só comunidade.

Oração: “Diante do Altar, símbolo do vosso sacrifício pascal e mesa da vossa família, ensinai-
nos Senhor Jesus a sermos nós mesmos um altar, onde a vida se torna um culto agradável a
Deus. Enviai sobre nós o Espírito Santo: que ele faça de nós uma oblação santa, uma hóstia
pura, um cálice vivo para a honra do Pai e a salvação de muitos. Amém”

Ambão ou Mesa da Palavra

O ambão deve ser e se mostrar como o púlpito do qual ressoa a Palavra para toda a
assembleia, "a tribuna posta em um lugar elevado", segundo o trecho bíblico que testemunha,
pela primeira vez, esse elemento essencial para a assembleia nascida da Palavra (cf. Ne 8, 1-12).
Deve fazer sinal ao Cristo presente na sua Palavra, "pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a
Sagrada Escritura" (Sacrosanctum Concilium, 7). Além da mesa do altar, há no presbitério uma
outra mesa, chamada oficialmente de ambão, do qual se faz a proclamação da palavra de Deus.
A origem grega de ambão é “anabeinein” que significa “subir”. A OLM assim recomenda: “No
espaço da igreja deve haver um lugar elevado, fixo, dotado de conveniente disposição e
nobreza, que corresponda à dignidade da palavra de Deus e ao mesmo tempo recorde com
clareza aos fiéis que na Missa se prepara tanto a mesa da palavra de Deus como a mesa do corpo
de Cristo” (OLM 32).

Por sua vez, a Introdução do Missal Romano recomenda que “a dignidade da palavra de
Deus requer, na igreja, um lugar próprio para a sua proclamação. Durante a liturgia da palavra, é
para lá que deve convergir espontaneamente a atenção dos fiéis” (IGMR 309). O Missal orienta
ainda que, “em princípio, este lugar deve ser um ambão estável e não uma simples estante
móvel. Tanto quanto a arquitetura da igreja o permita, o ambão dispõe-se de modo que os
ministros possam facilmente ser vistos e ouvidos pelos fiéis” (IGMR 309). O destaque que se
deve dar ao lugar da palavra decorre da convicção de que Cristo está verdadeiramente presente
quando a Palavra da escritura é proclamada (SC 7). Daí ser importante também dar o devido
destaque ao Evangeliário, que na liturgia é levado em procissão até o altar, simbolizando a
relação entre a presença de Cristo na palavra e na eucaristia e depois até o ambão, onde é
incensado e beijado.

A celebração da Eucaristia estrutura-se em dois pólos-chave: a liturgia da palavra e a


liturgia eucarística, para os quais estão em correspondência a mesa da palavra e a mesa
eucarística. Daí se deduz que a confecção destes dois vértices devem estar em correspondência
mútua e a mesma configuração e importância. Quanto ao que deve ser proclamado no ambão, a
Ordenação das Leituras da Missa diz que ele é reservado para as leituras, o salmo responsorial e
o precônio pascal. A homilia e a oração dos fiéis também podem ser proferidas do ambão,
porque estão em conexão com a liturgia da palavra. Do ambão nos é proclamado o que Deus
fala. Dos outros lugares, especialmente da assembléia, nós falamos para Deus com palavras,
cantos e gestos. Assim, não é conveniente que o comentador, leitor ou cantor ocupem o ambão
(OLM 32) para discursos ou para a animação. O ambão é assim peça fundamental do espaço
litúrgico, mesa da partilha-distribuição da mensagem salvífica de Deus, com dignidade
semelhante à mesa eucarística. Sobre ela, na verdade, Cristo se faz realmente presente e atuante
na assembléia, oferecendo-se como “pão da palavra” para a vida dos cristãos. O ambão não é
nem mesmo local de se “falar” durante a celebração; trata-se do lugar litúrgico da Palavra
proclamada no rito dos cristãos, na celebração mistérico-pascal. Na liturgia da palavra, o ambão
é por excelência o lugar do diálogo, da renovação da aliança entre Deus e o seu povo reunido.
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Na catedral, além do significado exposto acima, o ambão adquire uma importância


maior, pois é dele que o bispo como sucessor dos apóstolos e os presbíteros que presidem sob
sua autoridade, proclamam o evangelho e atualizam a palavra de Deus para a comunidade que
está reunida representando toda a Diocese. Assim como do altar da catedral brota toda a unidade
da Diocese ao redor do seu bispo, assim também do ambão da catedral brota o anúncio profético
da realização do Reino de Deus inaugurado e realizado por Cristo, numa igreja particular
concretamente situada.

Oração: “Senhor Jesus, diante do Ambão, mesa da Palavra de Deus e símbolo do vosso
sepulcro vazio, vinde ao nosso encontro, como à Madalena, e fazei de nós testemunhas vivas da
vossa Palavra, semente do Espírito que gera os filhos da ressurreição. Amém.”

Cátedra: Lugar da Presidência

Nos primeiros séculos do cristianismo, a cátedra foi objeto de muita veneração. No


século II, Tertuliano aconselhava os cristãos a visitar as igrejas apostólicas nas quais estavam as
cadeiras dos apóstolos. Santo Agostinho, no século V, destacava a importância das comunidades
cristãs que mereceram possuir as sedes dos apóstolos e receber suas epístolas. Esta veneração
levou a dedicar festas especiais para honrar a cátedra de São Pedro em Roma e em Antioquia,
veneração esta que continuou para as cátedras dos bispos, sucessores dos apóstolos. Daí a
importância que adquiriu a igreja onde estava a cátedra do bispo.

A cátedra, embora ligeiramente elevada, deveria permanecer lá onde pode ser lida a
presidência do bispo e, ao mesmo tempo, lá onde o bispo se mostra também como o primeiro
ouvinte da Palavra, ela é o lugar daquele que guia a assembléia cristã e a preside na pessoa de
Cristo e em nome da Igreja. Toda a celebração litúrgica requer naturalmente o serviço da
presidência exercida pelo bispo ou por meio dos seus presbíteros. Quem preside fala e age em
nome de Cristo. O bispo preside como vigário de Cristo e sucessor dos apóstolos. A cátedra que
está na igreja adquire seu sentido na fé da Igreja. Por sua vez aquele que senta na cátedra é o
que garante a fé da Igreja. A sucessão apostólica não é só transmissão de poderes, mas
especialmente testemunho da fé apostólica. Quanto ao lugar da sede, o Missal Romano diz que
o seu lugar mais apropriado é de frente para o povo no fundo do presbitério, a não ser que a
estrutura do edifício sagrado ou outras circunstâncias o impeçam, por exemplo, se a demasiada
distância torna difícil a comunicação entre o sacerdote e a assembléia. No que diz respeito ao
aspecto, a sede do presidente deve ser única e não tenha forma de trono (IGMR 310).

Oração: “Senhor Jesus, diante da cátedra, símbolo da vossa presença de chefe e de mestre do
vosso povo que aqui se reúne, dai - nos entender os sinais do vosso serviço. Derramai sobre os
vossos servos que falam em vosso nome e agem com o vosso poder apesar de suas fraquezas e
pecados. Amém.”

Pia ou Fonte Batismal

O batismo é a porta de entrada na vida de Deus e da Igreja, na comunidade de fé que é o


corpo de Cristo. Pela passagem da água participamos do mistério da morte e ressurreição de
Cristo. Como diz São Paulo, “pelo batismo, fomos sepultados com ele em sua morte, para que
como Cristo foi ressuscitado dos mortos pela ação gloriosa do Pai, assim também nós vivamos
uma vida nova” (Rm 6,4). Para acolher os novos membros o Ritual do batismo de crianças,
prescreve: “O batistério, ou lugar onde a fonte batismal jorra água ou está colocada, seja
destinado exclusivamente para o rito do batismo, um lugar digno, onde renascem os cristãos
pela água e pelo Espírito Santo. Quer esteja situado em alguma capela dentro ou fora do recinto
da igreja, quer em alguma outra parte da igreja, à vista dos fiéis, deve ter tal amplitude, que
possa conter o maior número possível de pessoas presentes”. Por sua vez, o Ritual de Bênçãos
diz que o mais importante é que se destaque a conexão do Batismo com a Palavra de Deus e
com a Eucaristia. “A fonte batismal, principalmente no batistério, deve ser fixa, sempre
Disciplina: Liturgia I
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

construída com arte e com material adequado, apresentando limpeza perfeita, e oferecendo,
também a possibilidade de servir no caso de imersão de catecúmenos. Para realçar o significado
de sinal, pode-se também construir uma fonte de modo a fazer a água jorrar viva, como de uma
verdadeira fonte. Deve-se ainda possibilitar, conforme as necessidades da região, a calefação da
água”.

O Lugar da Assembléia

A igreja é essencialmente o lugar da reunião da comunidade. Na Igreja primitiva, a


palavra “ecclesia” se referia à comunidade local reunida. Só mais tarde é que esta palavra
começou a significar também a construção como tal. “A Igreja é assembléia do povo de Deus
reunido para escutar a sua palavra e para celebrar a memória das suas maravilhas. Na reunião do
povo o Senhor está presente, porque os membros estão congregados no seu nome. A obra da
salvação se atualiza no meio deles. Por estas razões, o lugar da reunião se torna lugar santo”. A
organização dos lugares deve ajudar a assembléia a celebrar ativa e frutuosamente o banquete
do Cristo, a ceia do amor, a oferta de Cristo ao Pai. O espaço da igreja deve distinguir-se não
pela suntuosidade, mas pela nobre simplicidade e dignidade, como símbolo e sinal das
realidades celestes. O ODEA diz que o edifício deve manifestar a imagem da assembléia
reunida, permitir a participação ordenada e orgânica de todos e favorecer o desempenho dos
diversos ministérios. Neste mesmo sentido, assim nos orienta o Missal Romano:
“Disponham-se os lugares dos fiéis com todo o cuidado, de sorte que possam participar
devidamente das ações sagradas com os olhos e o espírito. Convém que haja habitualmente para
eles bancos ou cadeiras. Mas, reprova-se o costume de reservar lugares para determinadas
pessoas. Sobretudo nas novas igrejas que são construídas, disponham-se os bancos ou as
cadeiras de tal forma que os fiéis possam facilmente assumir as posições requeridas pelas
diferentes partes da celebração e aproximar-se sem dificuldades da sagrada Comunhão”(IGMR
311).

O Lugar da Reconciliação

A Igreja é o sinal e instrumento visível do Cristo invisível no meio dos homens. Na


comunidade eclesial, Jesus Cristo, no Espírito, continua a sua missão reconciliadora e
libertadora. Por isso, o grande desafio da Igreja é crescer na comunhão com Cristo, por meio da
conversão, renovação e purificação, a fim de espelhar, sempre com mais fidelidade, a santidade
do Esposo e denunciar ao homem a presença do pecado nas estruturas do mundo que se afasta
do seu Deus. Pois, "o Espírito com sua vinda, convencerá o mundo do Pecado, da Justiça e do
Juízo" (Jo 16,8s). Na Igreja primitiva, somente o bispo absolvia os pecados. Esta ação litúrgica
era realizada na cátedra, sinal do poder do ministro ordenado. Posteriormente, com o
crescimento do número de cristãos e “para impedir a audição pelos outros presentes, são
elevados braços laterais desta cadeira e providos de uma grade; os genuflexórios laterais para os
penitentes foram ladeados com paredes e cobertos de tal forma que assim surgem três cubículos:
no meio para o confessor e dos dois lados para os penitentes”. A liturgia penitencial renovada
pelo Vaticano II prevê não somente a confissão individual, mas celebrações comunitárias da
penitência, na qual a confissão individual está inserida. Prevê, ainda, como modo extraordinário,
a celebração com confissão e absolvição geral. Nestes casos, não há necessidade de um lugar
específico para a celebração, já que ela está inserida no contexto comunitário. Apenas para a
confissão dos pecados é que se faz necessário o confessionário tradicional ou as salas da
reconciliação.

O Sacrário ou Tabernáculo

A capela do Santíssimo onde se coloca o tabernáculo, ou sacrário, não é propriamente


um lugar da ação litúrgica, mas sim um lugar devocional do espaço eclesial. A IGMR trata do
lugar da reserva da eucaristia nos artigos 276 e 277, quando trata também do lugar dos
instrumentos musicais, equipe de cantos e lugar das imagens. O Missal recomenda também que
Disciplina: Liturgia I
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

“é muito desejável que os fiéis recebam o Corpo do Senhor com hóstias consagradas na própria
Missa” (IGMR 85). O Ritual da Sagrada Comunhão fora da Missa também explicita bem a
distinção entre altar e tabernáculo e diz que a presença de Cristo nas espécies eucarísticas é fruto
da celebração da Missa. “O fim primário e primitivo da reserva eucarística fora da Missa é a
administração do viático; os fins secundários são a distribuição da comunhão e a adoração de
nosso Senhor Jesus Cristo presente no Santíssimo Sacramento”.

A IGMR recomenda que “de acordo com a estrutura de cada igreja e os legítimos
costumes locais, o Santíssimo Sacramento seja conservado num tabernáculo, colocado em lugar
de honra da igreja, suficientemente amplo, visível, devidamente decorado e que favoreça a
oração. Normalmente o tabernáculo seja um único, inamovível, feito de material sólido e
inviolável não transparente, e fechado de tal modo que se evite ao máximo o perigo de
profanação. Convém, além disso, que seja abençoado antes de ser destinado ao uso litúrgico,
segundo o rito descrito no Ritual Romano” (IGMR 314). Assim, pelo que se pode concluir da
Orientação do Missal e das conclusões de diversas Conferências Episcopais, o lugar do
tabernáculo deve ser uma capela especial, onde também poderá haver missas feriais e outras
celebrações da palavra. Este lugar deve favorecer a oração pessoal e a devoção eucarística. A
devoção à eucaristia é um exercício do caráter sacerdotal do povo de Deus de uma igreja
particular que o leva a uma participação mais profunda do mistério pascal. Seria, portanto,
aconselhável que a devoção à eucaristia fosse encorajada e aprofundada, como compromisso de
viver a comunhão no mundo.

O Círio Pascal

Desde os primórdios o homem percebeu na chama um dom divino para vencer as trevas
da noite e o frio do inverno. Os cristãos na noite de Páscoas iniciam sua grande vigília ao redor
da chama do círio, celebrando o Cristo que ressuscita para dissipar as trevas do coração e da
mente. Apesar de não haver nenhuma indicação no ODEA, considera-se importante prever na
catedral e em todas as igrejas um lugar para o Círio Pascal. Ele é importante pelo seu
simbolismo cristológico e pela sua função na vigília pascal, em outras vigílias, na celebração
dos sacramentos e nas celebrações da palavra. Colocado no candelabro, ele tem forma de
coluna que faz alusão ao povo que saiu do Egito, caminhando pelo deserto, com o próprio Deus
à sua frente de dia numa coluna de nuvem e de noite numa coluna de fogo (Ex 13, 21). O Círio
Pascal é símbolo do Cristo ressuscitado que vence as trevas. Ele é aceso com o fogo novo na
vigília pascal e indica a vida nova que começa a partir da ressurreição. Assim, as demais luzes
ou velas acesas no espaço litúrgico têm como ponto de partida a luz do Círio Pascal, memória
da Páscoa de Cristo. Quanto ao lugar da colocação do Círio Pascal, os bispos da Itália sugerem
que o lugar próprio do Círio Pascal é junto à estante da palavra, permanecendo aí durante o
tempo pascal.

O Círio Pascal é símbolo da Ressurreição de Nosso Senhor. É a evocação de Cristo


glorioso, vencedor da morte. Originalmente o Círio tinha a altura de um homem, simbolizando
Cristo-luz que brilha entre as trevas. Os teólogos francos e galicanos enriqueceram-no com
elementos simbólicos. Na Vigília Pascal um acólito traz ao celebrante o Círio Pascal, que grava
no mesmo as seguintes inscrições (Em itálico colocamos as palavras que o sacerdote pronuncia
ao colocar cada um dos símbolos no Círio):

1º - Uma cruz. Dizendo: "Cristo ontem e hoje. Princípio e fim".


2º - As letras Alfa e Ômega, a primeira e a última do alfabeto grego. Isso quer significar
que Deus é "o principio e o fim de tudo", que tudo provém de Deus, subsiste por causa
dele e vai para ele: "Alfa e Ômega".
3º - Os algarismos são colocados entre os braços da Cruz, marcando as cifras do ano
corrente. Isso é feito para expressar que Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro
homem, é o princípio e o fim de tudo, o Senhor do tempo, é o centro da História e a Ele
compete o tempo, a eternidade, a glória e o poder pelos séculos, a Ele oferecemos este
Disciplina: Liturgia I
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

ano e tudo o que nele fizermos; "A Ele o tempo e a eternidade a glória e o poder pelos
séculos sem fim. Amém".
4º - Cinco grãos de incenso em forma de cravos, nas cinco cavidades previamente feitas
no meio do Círio, dispostas em forma de Cruz. Esse cerimonial simboliza as cinco
chagas de Nosso Senhor nas quais penetraram os aromas e perfumes levados por Santa
Maria Madalena e as santas mulheres ao sepulcro. O incenso é uma substância
aromática que queimamos em louvor a Deus, sua fumaça, subindo, simboliza nosso
desejo de permanente união a Ele e de que nossa vida, nossas ações e nossas orações
sejam agradáveis ao Senhor. Ela representa também, nossa oração, que desejamos
chegue a Deus, como suave perfume de amor. Esses grãos simbolizam ainda as cinco
chagas gloriosas do Cristo Ressuscitado que lhe possibilitaram amar-nos totalmente,
conforme Ele mesmo dissera: "Não há maior amor do que dar a vida pelos amigos" (Jo
15, 13):"Por suas santas chagas, suas chagas gloriosas, Cristo Senhor nos proteja e nos
guarde. Amém".

VI. O culto cristão e os diferentes modos da Presença Litúrgica do Senhor

1. Existência cristã e liturgia: características do culto cristão.

No início de cada celebração eucarística afirmamos que foi “o amor de Cristo que nos
uniu”; relacionar, portanto, liturgia e vida cotidiana, liturgia e existência cristã decide se a
religião se torna ou não robusta e se a vida se transforma de fato em verdadeira adoração a
Deus. Nós celebramos a liturgia de maneira correta e fecunda quando toda a nossa vida vai se
tornando cada vez mais eucaristia e louvor; e nós nos tornamos cada vez mais capazes de
celebrar a liturgia quando ordenamos a nossa vida à luz da estrutura e das leis fundamentais da
Liturgia. Ora, segundo a mentalidade e linguagem cristã primitiva podemos até dizer: a
celebração dos sacramentos e em particular da eucaristia só atinge seu objetivo quando nos
tornamos, por assim dizer, sacramento. A nossa vida deve refletir essa realidade: “Exorto-vos,
portanto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais vossos corpos como hóstia viva,
santa e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual” (Rm 12,1). De fato, na liturgia a Igreja
experimenta a lei da própria vida, o sentido da própria existência, que é o de conformar-se
radicalmente com Cristo: “e não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos,
renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom,
agradável e perfeito”(Rm 12,2). Cristo revela-se o perfeito adorador de Deus em toda a sua vida
e sobretudo no mistério salvífico de sua morte, que celebramos em todos os sacramentos.
Somente na união muito íntima com Cristo podemos verdadeiramente adorar a Deus com toda a
nossa existência, com o nosso coração e com as nossas obras. Na verdade, Cristo nos envia do
Pai o Espírito Santo. E o Espírito Santo nos torna capazes de realizar o dom pleno de nós
mesmos e o louvor dos lábios que quer tornar-se louvor de todas as nossas aspirações e de toda
a nossa conduta. A liturgia é o melhor manual de vida cristã, que não se contenta com ensinar à
nossa inteligência, mas visa plasmar o nosso caráter. Nesse sentido é importante identificarmos
aquelas que são as principais características do culto cristão, que por assim dizer é:

a) Culto trinitário e filial: quando Cristo aparece “na plenitude dos tempos”, sua conduta e
sua palavra levam de novo a orientação e o sentido fundamental do culto para o
contexto da Aliança. Mas Jesus revela também a plenitude do culto que Deus quer, ou
seja, um culto filial que é dom do Pai por meio de Cristo e sob a ação do Espírito
Santo.Esse culto tem com núcleo a inserção da própria vida na obediência ao Filho
Jesus Cristo, mediante a fé n’Ele e a prática do amor fraterno, que desembocam na
oração filial e na ação ritual, tudo na presença do Espírito Santificador. O culto cristão é
atualização e imitação permanente da consagração de Jesus ao Pai no Espírito Santo.

b) Culto cristológico e verdadeiro: Cristo é o ponto de partida da nova situação do culto


levado à plenitude. Foi ele que recebeu do Pai e transmitiu aos homens a revelação
divina definitiva e o dom do Espírito Santo, tornando possível o culto que Deus quer.
Disciplina: Liturgia I
38
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Cristo é o templo do culto verdadeiro testemunhado pelo Espírito, lugar do encontro


definitivo de Deus com o homem.

c) Culto espiritual, ou seja, no Espírito Santo: o Espírito da verdade faz com que os
homens adorem o Pai em comunhão com Cristo-Verdade, unidos a Ele e, por meio dele,
ao Pai. O Espírito Santo, Senhor que dá a vida e que procede do Pai e do Filho, e com o
Pai e o Filho é adorado e glorificado, santifica os discípulos na verdade.

d) Culto eclesial: os cristãos se reúnem em assembleia santa para invocar sobre eles
próprios e sobre o pão e cálice da comunhão a presença onipotente do Senhor e a ação
do Espírito Santo. A comunidade ora em nome de Jesus e atualiza sua oferenda
sacerdotal para a salvação de todos os homens, dá a Deus o culto verdadeiro e
apresenta-se no meio do mundo como sinal ou sacramento da união com Deus e da
unidade de todo o gênero humano.

e) Culto sacramental: o culto cristão é interior e exterior, ou seja no íntimo do coração e ao


mesmo tempo expresso pela conduta e pelos sinais propriamente cultuais. O culto que
Cristo realizou em sua vida e em sua morte é algo mais do que o modelo de culto dos
discípulos; é a essência do culto querido por Deus. A liturgia assim entendida é mais
que mera cerimônia, pois por causa da economia da encarnação Cristo fez dela caminho
de salvação.

2. Os diferentes modos da presença litúrgica do Senhor.

De fato, Cristo o Senhor é o Emanuel, o Deus-conosco (cf Mt 1,23), que colocou sua
tenda no meio dos homens(cf Jo 1,14) para morar com eles e comunicar-lhes o dom da presença
divina. Vamos agora nos fixar nos diferentes modos da presença do Senhor, segundo a doutrina
do Vaticano II:
a) Assembleia dos fiéis: o Vaticano II, quando menciona a presença de Cristo na
comunidade dos fiéis, relaciona expressamente essa presença com a oração e o louvor;
“está presente finalmente quando a Igreja ora e salmodia. Ele que prometeu onde dois
ou três estiverem reunidos em meu nome aí estarei no meio deles”(Mt 18,20). Trata-se
pois de uma presença ligada a assembleia litúrgica, reunida em nome do Senhor, o que
equivale a dizer tendo em vista o culto ao nome do Senhor. As aparições do
ressuscitado significam o cumprimento dessas promessas. Concluído o período dessas
manifestações do Senhor, a fidelidade às assembleias de oração ficará como uma
constante na comunidade primitiva (At1,14;2,1-42;4,24) e também durante os primeiros
séculos do cristianismo essa consciência era muito forte: “quando ensinas, persuade o
povo a ser fiel à reunião da assembleia...não vos enganeis a vós mesmos, não priveis
Nosso Senhor de seus membros, não desarticuleis o seu Corpo”(Didascalia
Apostolorum,13). Ora, os cristãos são aqueles que o Pai procura para ressuscitar e que
são assim por ele encontrados na assembleia litúrgica, pois formam o Corpo de Cristo.

b) Palavra proclamada: “presente está pela sua Palavra, pois é ele mesmo que fala quando
se leem as Sagradas Escrituras na igreja”(SC 7), pois “na liturgia Deus fala ao seu povo,
Cristo ainda anuncia o evangelho(SC 33). Essa presença litúrgica do senhor na palavra
proclamada encontra sua raiz nas próprias palavras da Sagrada Escritura, visto que
destina-se a comunicar a luz e a vida do Verbo encarnado, criar e salvar, continuando a
História da Salvação. A certeza que a Igreja tem dessa presença do Senhor na
proclamação da Palavra leva-a a não omitir nunca e leitura litúrgica da escritura.

c) Pessoa do ministro: o ministro age in persona Christi, pois aquele que agora oferece
pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que outrora se ofereceu na cruz(SC 7). O
ministro do sacramento não faz as vezes de Cristo como se estivesse ausente, mas
estando este presente e atuante por meio do ministro, na ordem do sinal, pois é o Cristo
Disciplina: Liturgia I
39
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

mesmo que age sacramentalmente numa celebração litúrgica; o agente dessa presença é
o Espírito Santo, com o qual ele foi ungido no sacramento da ordem.

d) Sacramentos: os sacramentos são ações de Cristo, sendo ele seu único autor e seu ator
principal. De fato, os sacramentos são acontecimentos de salvação pelos quais Deus
intervém na vida dos homens, através de seu Filho Jesus Cristo e no Espírito Santo, na
Igreja. Todo sacramento é um ato de Cristo, que recebeu do Pai e comunicou a seus
apóstolos “todo poder no céu e na terra”(Mt 28,18). Todo sacramento é veículo
simbólico e eficaz de Cristo e do poder de seu Espírito (presença dinâmica) e contém a
eficácia das ações salvíficas de Cristo, pois é ele mesmo que se faz presente(presença
mistérica)

e) Eucaristia: na eucaristia encontramos o modo mais sublime, presença real por


antonomásia, por se tratar de uma presença substancial; ela representa o modo mais
eminente e é o cume de todas as demais, por que nela se torna presente Cristo, Deus e
homem, total e íntegro e que permanece enquanto subsistirem as espécies eucarísticas.
Trata-se de uma presença por via sacramental que não multiplica o sacrifício da Cruz,
nem mesmo dele se diferencia, pois é a mesma vítima, o mesmo oferente e o mesmo
evento salvífico da morte e ressurreição do Senhor, ocorrido uma vez para sempre.

f) Ano Litúrgico: o ano litúrgico é a sagrada lembrança em dias determinados do ano da


obra salvífica de Cristo(SC 102), em que celebramos todo mistério de Cristo, desde a
encarnação e natividade até a ascenção, o dia de pentecostes e a espera da vinda do
Senhor, portanto os mistérios da vida de Cristo que comemoramos estão presentes e
atuantes no ano litúrgico: o que está em jogo é a presença redentora da obra de Cristo na
celebração do ano litúrgico. O dia do Senhor, as festas e os diferentes tempos litúrgicos
não são aniversários da vida histórica de Jesus, mas presença in mysterio da salvação
operada neles.

VII. O Ano Litúrgico


Disciplina: Liturgia I
40
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

"O ano todo coroais com vossos dons, os vossos passos são fecundos; transborda a
fartura onde passais, brotam pastos no deserto. As colinas se enfeitam de alegria, e os campos,
de rebanhos; nossos vales se revestem de trigais: tudo canta de alegria!" (Sl 64, 12-14)

O homem primitivo estava atento aos diversos ritmos do ano e percebia algo de divino
neles. Aos poucos, o homem foi sacralizando as diversas “passagens” de Deus durante o ano, no
ritmo cíclico das estações, por exemplo. Quando Deus se revela a Israel, esse ritmo não é
rompido, mas é compreendido à luz da sua fé. O povo de Israel tinha também um ritmo cíclico
de celebrações litúrgicas que se repetiam cada ano, tornando presente de forma cúltica as
diversas passagens de Deus pela sua história. Israel entendeu que essa repetição, apesar de ser
cíclica, não era fechada e morta em si, mas aberta a futuras e novas intervenções de Deus na
história. Israel entendeu também que essas repetições tornavam presente de forma misteriosa
aqueles fatos que poderiam simplesmente ter ficado no passado. Os cristãos herdaram do povo
judeu a celebrar de forma memorial as intervenções de Deus na história.

O culto da Igreja surgiu para celebrar a Páscoa de Cristo. Os primeiros cristãos não
possuíam um “ano litúrgico” propriamente dito. A vida dos primeiros cristãos tinha como centro
a Páscoa, celebrada semanalmente no “domingo” e também anualmente no “Grande Domingo”.
Depois outras celebrações vão sendo assimiladas e o mistério pascal de Cristo passa a ser
celebrado não somente de forma “concentrada” na Páscoa, mas em cada uma de suas facetas
(sem deixar de estar inteiro em cada uma delas) no decorrer do ano.

Aos poucos, vão surgindo os chamados “tempos litúrgicos” e as “festas”: A Páscoa logo
se desenvolve num Tríduo e depois passa a se desdobrar em 50 dias (o santo Pentecostes); Para
preparar melhor a iniciação cristã que era realizada na Páscoa e também os penitentes que eram
reconciliados na quinta-feira santa surgiu a Quaresma; Surgem, também, as celebrações dos
mártires, aqueles que tornaram viva a Páscoa de Cristo no seu testemunho; O culto da Virgem
Maria; O Natal (para combater a festa pagã do chamado “sol invicto”, mostrando que Jesus é o
verdadeiro “Sol” que nasceu do alto); O Advento, para preparar o Natal, e também o chamado
“Tempo Comum” ou “Tempo Durante o Ano”.

Assim se formou o ano litúrgico como temos hoje: Iniciamos no Advento (marcado pela
cor roxa), passamos depois ao Natal e a Epifania (dourado ou branco – sentido festivo);
Seguimos pelo Tempo Comum (Cor verde) Entramos na Quaresma (roxo – sinal de penitência);
Depois no Grande Período Pascal (dourado ou branco – sentido festivo), que termina com a
Solenidade de Pentecostes (vermelho – Espírito Santo); Voltamos ao Tempo Comum, que dura
até a Festa de Cristo Rei, que coroa todo o ano litúrgico. As festas dos mártires, dos santos e da
Virgem Maria são celebradas no decorrer de todo o ano litúrgico. Em cada um destes
“mistérios” é, na verdade, o único Mistério Pascal de Cristo que está sendo celebrado.

Depois do Concílio Vaticano II, os Lecionários utilizados para a celebração da Santa


Missa foram constituídos levando-se em conta o desejo do Concílio de que os “tesouros da
Palavra de Deus” fossem mais amplamente distribuídos aos fiéis (cf. SC 51). Com isso, temos
no domingo um ciclo trienal de leituras, que são os anos A, B e C. Cada um desses anos é
marcado pela leitura mais assídua de um dos três evangelhos sinóticos: no Ano A, Mateus; no
Ano B, Marcos; no Ano C, Lucas, que agora iniciamos. O Evangelho de João perpassa todos os
três ciclos e é lido, particularmente, no Tempo Pascal. Assim no giro do ano, percorrendo esse
ciclo trienal, temos a chance de ter um contato abundante e fecundo com quase todos os textos
da Sagrada Escritura.

VIII. Liturgia da Horas (textos da IGLH)

1. A oração pública e comunitária do povo de Deus é com razão considerada uma das principais
funções da Igreja. Daí que, logo no princípio, os batizados «eram assíduos ao ensino dos
Apóstolos, à união fraterna, à fração do pão e às orações» (At 2, 42). Da oração unânime da
Disciplina: Liturgia I
41
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

comunidade cristã nos dão repetidos testemunhos os Atos dos Apóstolos. 1 Que também os fiéis
se costumavam entregar à oração individual em determinadas horas do dia, provam-no
igualmente os documentos da primitiva Igreja. Depois foi-se introduzindo muito cedo, aqui e
além, o costume de consagrar à oração comunitária alguns tempos especiais, por exemplo, a
última hora do dia, ao entardecer, no momento em que se acendiam as luzes, e a primeira hora
da manhã, quando, ao despontar o astro do dia, a noite chega ao seu termo. Com o decorrer dos
tempos, foram-se ainda santificando pela oração comunitária outras horas, que os Padres viam
insinuadas na leitura dos Atos dos Apóstolos. Assim, os Atos falam-nos dos discípulos reunidos
[para a oração] à terceira hora; 2 o Príncipe dos Apóstolos «sobe ao terraço da casa para orar,
por volta da sexta hora» (10, 9); «Pedro ... e João sobem ao templo, para a oração da hora nona»
(3, 1); «a meio da noite, Paulo e Silas, em oração, entoavam louvores a Deus» (16, 25).

2. Estas orações, feitas em comunidade, foram-se progressivamente organizando, até que vieram
a constituir um ciclo horário bem definido. Esta Liturgia das Horas, ou Ofício Divino, embora
enriquecida de leituras, é antes de mais oração de louvor e de súplica: oração da Igreja, com
Cristo e a Cristo.

I. A ORAÇÃO DE CRISTO

Cristo, Orante do Pai

3. Vindo ao mundo para comunicar aos homens a vida divina, o Verbo que procede do Pai como
esplendor da sua glória, «Sumo Sacerdote da Nova e Eterna Aliança, Cristo Jesus, ao assumir a
natureza humana, introduz nesta terra de exílio o hino que eternamente se canta no Céu».3
Desde aquele momento, ressoa no coração de Cristo o louvor divino expresso em termos
humanos de adoração, propiciação e intercessão. E tudo isto Ele apresenta ao Pai, como Cabeça
da nova humanidade, Mediador entre Deus e os homens, em nome de todos, para benefício de
todos.

4. O próprio Filho de Deus, que é «um com o Pai» (cf. Jo 10, 30) e que, ao entrar no mundo,
disse: «Eu venho, ó Deus, para cumprir a tua vontade» (Hebr 10, 9; cf. Jo 6, 38), quis-nos deixar
também exemplos da sua oração. E assim é que os Evangelhos no-l’O apresentam com muita
frequência a orar: quando pelo Pai é revelada a sua missão,4 antes de chamar os Apóstolos,5
quando bendiz a Deus na multiplicação dos pães,6 no monte, aquando da sua transfiguração,7
quando opera a cura do surdo-mudo 8 e ressuscita a Lázaro,9 antes da confissão de Pedro,10
quando ensina os discípulos a orar 11 ao regressarem os discípulos da sua missão,12 ao
abençoar as criancinhas,13 quando roga por Pedro.14 A sua atividade quotidiana vemo-la
estreitamente ligada à oração, como que nasce da oração;15 levanta-Se alta madrugada 16 ou
fica pela noite além, até à quarta vigília,17 entregue à oração a Deus.18 Temos, além disso,
justos motivos para crer que tomava parte nas orações que publicamente se faziam nas
sinagogas, onde «tinha por costume» 19 ir aos sábados, ou no templo, ao qual chamava casa de
coração,20 e bem assim nas orações que os piedosos israelitas costumavam fazer diariamente
em particular. Recitava também às refeições as tradicionais «bênçãos» a Deus, como
expressamente vem narrado na multiplicação dos pães,21 na última Ceia,22 na ceia de
Emaús;23 e (na última Ceia) cantou os salmos com os discípulos24. Até aos derradeiros
momentos da sua vida — próximo já da Paixão,25 na última Ceia,26 na agonia,27 na Cruz 28
— o Divino Mestre apresenta-nos a oração como sendo a alma do seu ministério messiânico e
do termo pascal da sua vida. Assim, «nos dias da sua vida mortal, apresentou orações e súplicas,
entre clamores e lágrimas, Àquele que O podia livrar da morte, e foi atendido pela sua piedade»
(Hebr 5, 7); e, mediante a oblação perfeita consumada na ara da cruz, «realizou a perfeição
definitiva daqueles que são santificados» (Hebr 10, 14); finalmente, ressuscitado de entre os
mortos, continua sempre vivo a interceder por nós.29

II. ORAÇÃO DA IGREJA


Disciplina: Liturgia I
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Preceito da oração

5. Aquilo que Jesus fez, isso mesmo ordenou fizéssemos nós. «Orai» — diz repetidas vezes —
«rogai», «pedi»,30 «em meu nome».31 E até nos deixou, na oração dominical, um modelo de
oração.32 Inculca a necessidade da oração,33 oração humilde,34 vigilante,35 perseverante e
cheia de confiança na bondade do Pai,36 feita com pureza de intenção, consentânea com a
natureza de Deus.37 Os Apóstolos, por sua vez, apresentam-nos com frequência, em suas
Epístolas, fórmulas de oração, mormente de louvor e ação de graças, e exortam-nos a orar no
Espírito Santo,38 pela mediação de Cristo,39 ao Pai,40 com perseverança e assiduidade;41
sublinham a eficácia da oração para alcançar a santidade;42 exortam à oração de louvor,43 de
ação de graças,44 de súplica,45 de intercessão por todos os homens.46

A Igreja continuadora da oração de Cristo

6. Vindo o homem inteiramente de Deus, é seu dever reconhecer e confessar a soberania do seu
Criador. Assim o fizeram, através da oração, os homens piedosos de todos os tempos. Mas a
oração dirigida a Deus tem de estar ligada a Cristo, Senhor de todos os homens, único
Mediador,47 o único por quem temos acesso a Deus.48 Ele une a Si toda a comunidade dos
homens,49 e de tal forma que entre a oração de Cristo e a de toda a humanidade existe uma
estreita relação. Em Cristo, e só n’Ele, é que a religião humana adquire valor salvífico e atinge o
seu fim.
7. É totalmente peculiar e profunda a união que existe entre Cristo e aqueles que, pelo
sacramento da regeneração, Ele assume como membros do seu Corpo que é a Igreja. Deste
modo, partindo da Cabeça, por todo o Corpo se difundem todas as riquezas pertencentes ao
Filho: a comunicação do Espírito, a verdade, a vida, a participação na sua filiação divina, que se
manifestava em toda a sua oração enquanto viveu no meio de nós. O sacerdócio de Cristo é
também participado por todo o Corpo da Igreja. Os batizados, mediante a regeneração e a unção
do Espírito Santo, são consagrados como casa espiritual e sacerdócio santo;50 e por esta forma,
ficam habilitados a exercer o culto da Nova Aliança, culto este proveniente, não das nossas
forças, mas dos méritos e dom de Cristo. «Nenhum dom poderia Deus ter feito aos homens mais
valioso do que este: ter-lhes dado por Cabeça o seu Verbo pelo qual criou todas as coisas, e tê-
los unido a Ele como membros seus; ter feito com que Ele seja ao mesmo tempo Filho de Deus
e Filho do homem, um só Deus com o Pai e um só homem com os homens. Deste modo, quando
falamos a Deus na oração, não podemos separar d’Ele o Filho; e, quando ora o Corpo do Filho,
não pode separar de Si mesmo a Cabeça. E assim, é Ele próprio, o Salvador único do seu Corpo,
Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, quem ora por nós, ora em nós e a Ele nós adoramos.
Ora por nós, como nosso Sacerdote; ora em nós, como nossa Cabeça; a Ele oramos, como nosso
Deus. Reconheçamos, pois, n’Ele a nossa voz, e a voz d’Ele em nós».51 E é nisto que assenta a
dignidade da oração cristã: em participar da piedade mesma do Filho Unigênito para com o Pai
e daquela oração que Ele, durante a sua vida cá na terra expressou por palavras e continua
agora, sem interrupção, em toda a Igreja e em cada um dos seus membros, em nome e para
salvação de todo o gênero humano.

Ação do Espírito Santo

8. A unidade da Igreja orante é realizada pelo Espírito Santo, o mesmo que está em Cristo,52
em toda a Igreja e em cada um dos batizados. «É o próprio Espírito que vem em auxílio da
nossa fraqueza”; é Ele que «ora por nós com gemidos inefáveis» (Rom 8,26); é Ele mesmo,
como Espírito do Filho, que infunde em nós «o espírito da adoção filial, no qual clamamos:
Abba, Pai» (Rom 8,15; cf. Gal 4,6; 1 Cor 12,3; Ef 5,18; Jud 20). Nenhuma oração, portanto, se
pode fazer sem a ação do Espírito Santo, o qual, realizando a unidade de toda a Igreja, conduz
pelo Filho ao Pai.

Caráter comunitário da oração


Disciplina: Liturgia I
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

9. O exemplo e o preceito do Senhor e dos Apóstolos, de orar incessantemente, hão de


considerar-se, não como regra puramente legal, mas como um elemento que faz parte da mais
íntima essência da própria Igreja, enquanto esta é uma comunidade e deve expressar, inclusive
pela oração, a sua natureza comunitária. Daí que, quando nos Atos dos Apóstolos se fala, pela
primeira vez, da comunidade dos fiéis, esta nos aparece reunida precisamente em oração, «com
as mulheres, com Maria, Mãe de Jesus, e seus irmãos” (At 1,14). «A multidão dos crentes era
um só coração e uma só alma» (At 4,31); e esta unanimidade assentava na palavra de Deus, na
comunhão fraterna, na oração e na Eucaristia.53 É certo que a oração feita a sós no quarto,
portas fechadas,54 é necessária e recomendável,55 e não deixa nunca de ser oração de um
membro da Igreja, por Cristo, no Espírito Santo. Todavia, a oração comunitária possui uma
dignidade especial, baseada nestas palavras de Cristo: «Onde estiverem dois ou três reunidos em
meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt 18,20).

III. A LITURGIA DAS HORAS

Consagração do tempo

10. Cristo disse: «É preciso orar sempre, sem desfalecimento” (Lc 18,1). E a Igreja, seguindo
fielmente esta recomendação, não cessa nunca de orar, ao mesmo tempo que nos exorta com
estas palavras: «Por Ele (Jesus), ofereçamos continuamente a Deus o sacrifício de louvor» (Hebr
13,15). Este preceito é cumprido, não apenas com a celebração da Eucaristia, mas também por
outras formas, de modo particular com a Liturgia das Horas. Entre as demais ações litúrgicas,
esta, segundo a antiga tradição cristã, tem como característica peculiar a de consagrar todo o
ciclo do dia e da noite.56

11. Ora, uma vez que o fim da Liturgia das Horas é a santificação do dia e de toda a atividade
humana, a sua estrutura teve que ser reformada, no sentido de repor cada uma das Horas, tanto
quanto possível, no seu tempo verdadeiro, tendo em conta o condicionalismo da vida
moderna.57
Por isso, «já para santificar realmente o dia, já para rezar as próprias Horas com fruto espiritual,
importa recitá-las no momento próprio, quer dizer, naquele que mais se aproxime do tempo
verdadeiro correspondente a cada Hora canônica”.58

Relação entre a Liturgia das Horas e a Eucaristia

12. A Liturgia das Horas alarga aos diferentes momentos do dia 59 o louvor e ação de graças, a
memória dos mistérios da salvação, as súplicas, o antegozo da glória celeste, contidos no
mistério eucarístico, «centro e vértice de toda a vida da comunidade cristã».60 A própria
celebração eucarística tem na Liturgia das Horas a sua melhor preparação, porque esta suscita e
nutre da melhor maneira as disposições necessárias para uma frutuosa celebração da Eucaristia,
quais são a fé, a esperança, a caridade, a devoção, o espírito de sacrifício.

Exercício da função sacerdotal de Cristo na Liturgia das Horas

13. «A obra da redenção e da perfeita glorificação de Deus» 61 realiza-a Cristo no Espírito


Santo por meio da Igreja. E isto, não somente na celebração da Eucaristia e na administração
dos Sacramentos, mas também, e dum modo primacial, na Liturgia das Horas.62 Nela está
Cristo presente, quando a assembléia está reunida, quando é proclamada a palavra de Deus,
quando «ora e salmodia a Igreja».63

Santificação do homem

14. Na Liturgia das Horas, opera-se a santificação do homem64 e presta-se culto a Deus, por
forma a estabelecer uma espécie de intercâmbio, um diálogo entre Deus e o homem: «Deus fala
ao seu povo, ... e o povo responde a Deus no canto e na oração».65 Aqueles que tomam parte na
Disciplina: Liturgia I
44
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Liturgia das Horas podem colher dela abundantíssimos frutos de santificação, em virtude da
palavra de Deus que nela ocupa lugar importantíssimo. Efetivamente, é da Escritura Sagrada
que são tiradas as leituras; aos salmos se vão buscar as palavras de Deus cantadas na sua
presença; duma forte inspiração bíblica estão repassadas todas as preces, orações e cânticos.66
Não só quando se lê «aquilo que foi escrito para nossa edificação» (Rom 15,4), mas também
quando a Igreja ora e canta, é alimentada a fé dos participantes e os seus corações elevam-se
para Deus, a fim de Lhe oferecerem a homenagem espiritual e d’Ele receberem a graça em
maior abundância.67

Louvor prestado a Deus, em união com a Igreja celeste

15. Na Liturgia das Horas, a Igreja exerce a função sacerdotal da sua Cabeça, «oferecendo
ininterruptamente 68 a Deus o sacrifício de louvor, ou seja, o fruto dos lábios que glorificam o
seu nome».69 Esta oração é «a voz da Esposa a falar ao Esposo, e também, a oração que o
próprio Cristo, unido ao seu Corpo, eleva ao Pai”.70 Consequentemente, «todos os que assim
rezam desempenham, por um lado, o ofício da própria Igreja, e, por outro, participam da excelsa
honra da Esposa de Cristo, enquanto estão, em nome da Igreja, diante do trono de Deus, a cantar
os divinos louvores ».71

16. Cantando os louvores de Deus nas Horas canônicas, a Igreja associa-se àquele hino de
louvor que por toda a eternidade é cantado na celeste morada.72 Ao mesmo tempo antegoza as
delícias daquele celestial louvor que João nos descreve no Apocalipse e que ressoa
ininterruptamente diante do trono de Deus e do Cordeiro. Realiza-se a nossa estreita união com
a Igreja celeste, quando «concelebramos em comum exultação os louvores da Divina Majestade,
quando todos os que fomos resgatados no sangue de Cristo, de todas as tribos, línguas, povos e
nações (cf. Ap 5, 9), congregados numa só Igreja, engrandecemos a Deus, uno e trino, no
mesmo cântico de louvor».73
Esta liturgia celeste, já os profetas a anteviram na vitória do dia sem noite, da luz sem trevas:
«Já não será o sol a tua luz durante o dia, nem a claridade da lua será a tua luz durante a noite,
porque o Senhor será a tua luz eterna» (Is 60,19; cf. Ap 21,23.25). «Será um dia contínuo,
conhecido somente do Senhor, sem alternância do dia e da noite; ao entardecer, brilhará a luz»
(Zac 14,7). Ora, «a última fase dos tempos chegou já para nós (cf. 1 Cor 10,11); a restauração
do mundo encontra-se irrevogavelmente realizada e, em certo sentido, antecipada já no tempo
presente».74 Pela fé somos instruídos acerca do sentido da própria vida temporal, de tal modo
que vivemos, com a criação inteira, na expectativa da manifestação dos filhos de Deus.75 Na
Liturgia das Horas, proclamamos a nossa fé, exprimimos e fortalecemos a nossa esperança, e
tomamos parte já, de certo modo, na alegria do louvor perene, do dia que não conhece ocaso.

Súplica e intercessão

17. Mas, na Liturgia das Horas, a par do louvor divino, a Igreja expressa igualmente os votos e
anseios de todos os cristãos; mais ainda: roga a Cristo e, por Ele, ao Pai pela salvação do mundo
inteiro.76 E esta voz não é somente a voz da Igreja; é também a voz de Cristo, uma vez que
todas as orações são proferidas em nome de Cristo – «por Nosso Senhor Jesus Cristo». Deste
modo, a Igreja prolonga aquelas preces e súplicas que o mesmo Cristo fazia nos dias da sua vida
mortal;77 daí, a sua particular eficácia. Não é, portanto, somente pela caridade, pelo exemplo,
pelas obras de penitência, mas também pela oração, que a comunidade eclesial exerce uma
verdadeira maternidade para com as almas, no sentido de as conduzir a Cristo.78 Isto diz
respeito principalmente a todos aqueles que receberam mandato especial de celebrar a Liturgia
das Horas, isto é: os bispos e presbíteros, que têm por dever de ofício orar pela grei que lhes está
confiada e por todo o povo de Deus,79 os outros ministros sagrados e os religiosos.80

Ápice e fonte da atividade pastoral


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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

18. Aqueles que tomam parte na Liturgia das Horas contribuem, através duma misteriosa
fecundidade apostólica, para o incremento do povo de Deus.81 Efetivamente, o objetivo do
trabalho apostólico é conseguir que «todos aqueles que pela fé e pelo batismo se tornaram filhos
de Deus se reúnam em assembléia, louvem a Deus na Igreja, participem no sacrifício, comam a
Ceia do Senhor».82 Por esta forma, os fiéis exprimem na sua vida e manifestam aos outros «o
mistério de Cristo e a genuína natureza da verdadeira Igreja, que tem como característica
peculiar o ser ... visível e dotada de riquezas invisíveis, ardorosa na ação e dedicada à
contemplação, presente no mundo e, todavia, peregrina».83 Por outro lado, as leituras e as
preces da Liturgia das Horas são fonte de vida cristã. Esta vida alimenta-se na mesa da Escritura
Sagrada e nas palavras dos Santos e robustece-se na oração. O Senhor, sem o qual nada
podemos fazer,84 quando O invocamos, dá eficácia e incremento às nossas obras;85 e assim,
dia após dia, vamos sendo edificados como templo de Deus no Espírito,86 até atingirmos a
medida da idade perfeita de Cristo;87 ao mesmo tempo, vamos robustecendo as nossas energias
para podermos anunciar Cristo àqueles que estão fora.88

Que a mente concorde com a voz

19. Para que esta oração seja própria de cada um daqueles que nela tomam parte, seja fonte de
piedade e da multiforme graça divina e sirva também de alimento à oração pessoal e à atividade
apostólica, importa celebrá-la com dignidade, atenção e devoção, e fazer com que o espírito
concorde com a voz.89 É necessário que todos cooperem com a graça divina, para que não a
recebam em vão. Buscando a Cristo e esforçando-se por aprofundar o seu mistério na oração,90
louvem a Deus e elevem as suas súplicas com o mesmo espírito com que orava o Divino
Salvador.

IV. QUEM CELEBRA A LITURGIA DAS HORAS

a) Celebração comunitária

20. A Liturgia das Horas, tal como as demais ações litúrgicas, não é ação privada, mas pertence
a todo o corpo da Igreja, manifesta-o e afeta.91 O caráter eclesial da celebração aparece-nos
com toda a sua clareza – e, por isso mesmo, é sumamente recomendável – quando realizada,
com a presença do próprio Bispo rodeado dos seus presbíteros e restantes ministros,92 por uma
Igreja particular, «na qual está presente e operante a Igreja de Cristo, una, santa, católica e
apostólica».93 Esta celebração, quando levada a efeito, mesmo sem a presença do Bispo, por
um cabido de cônegos ou por outros presbíteros, far-se-á sempre atendendo à verdade das Horas
e, tanto quanto possível, com a participação do povo. O mesmo se diga dos cabidos das
colegiadas.

21. As outras assembleias de fiéis, entre as quais há que destacar as paróquias como células da
diocese, localmente constituídas sob a presidência dum pastor como substituto do Bispo, e que
«dalgum modo representam a Igreja visível estabelecida por toda a terra»,94 celebrem as Horas
principais, quanto possível, na igreja e em forma comunitária.

22. Sempre que os fiéis são convocados e se reúnem para celebrar a Liturgia das Horas, pela
união das vozes e dos corações manifestam a Igreja que celebra o mistério de Cristo.95

23. É função daqueles que receberam as ordens sacras ou foram investidos dalguma especial
missão canônica96 organizar e dirigir a oração da comunidade. «Devem, por isso, esforçar-se
para que todos aqueles que estão entregues aos seus cuidados sejam unânimes na oração».97
Procurarão convidar os fiéis e formá-los mediante uma catequese adequada para a celebração
comunitária das partes mais importantes da Liturgia das Horas, mormente nos domingos e
festas.98 Hão-de ensiná-los a fazer desta participação uma oração autêntica.99 Para isso, terão
que os ajudar, através duma formação apropriada, a penetrar no sentido cristão dos salmos, por
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

forma a serem levados, pouco a pouco, a saborear e utilizar mais amplamente a oração da
Igreja.100

24. As comunidades de cônegos, de monges, de monjas e de outros religiosos, que, por força da
Regra ou das Constituições, celebram integral ou parcialmente a Liturgia dasHoras, quer
segundo o rito comum quer segundo o seu rito particular, representam a Igreja orante dum modo
muito especial. Estas comunidades reproduzem de uma forma mais completa a imagem da
Igreja a cantar ininterruptamente, numa só voz, os louvores divinos; além disso, cumprem
também o dever de «trabalhar», antes de mais pela oração, «para a edificação e crescimento de
todo o Corpo Místico de Cristo e para o bem das igrejas particulares».101 Isto se aplica de
modo especial aos que se entregam à vida contemplativa.

25. Os ministros sagrados e todos os clérigos não obrigados por outro título à celebração
comunitária, quando vivam em comunidade ou se encontrem juntos, procurem celebrar em
comum pelo menos algumas das partes da Liturgia das Horas, mormente Laudes pela manhã e
Vésperas à tarde.102

26. Aos religiosos de ambos os sexos não obrigados à celebração comunitária e aos membros de
qualquer Instituto de perfeição, recomenda-se encarecidamente que se reúnam em comum, ou
entre si ou juntamente com o povo, para celebrar a Liturgia das Horas ou alguma parte da
mesma.

27. Os grupos de leigos, onde quer que se encontrem reunidos, seja qual for o motivo destas
reuniões — oração, apostolado ou outro motivo — são igualmente convidados a desempenhar
esta função da Igreja,103 celebrando alguma parte da Liturgia das Horas. Importa, de fato, que
aprendam acima de tudo a adorar a Deus Pai em espírito e verdade104 na ação litúrgica, e se
lembrem que, através do culto público e da oração, eles podem atingir todos os homens e
contribuir muito para a salvação do mundo inteiro.105 Convém, finalmente, que a família, qual
santuário doméstico da Igreja, não se contente com a oração feita em comum, mas, dentro das
suas possibilidades, procure inserir-se mais intimamente na Igreja, com a recitação dalguma
parte da Liturgia das Horas.106

b) Mandato de celebrar a Liturgia das Horas

28. A Liturgia das Horas está, de modo muito particular, confiada aos ministros sagrados. E
assim, cada um deles está obrigado a celebrá-la, mesmo na ausência de povo, fazendo, claro
está, as necessárias adaptações. Efetivamente, os ministros sagrados são deputados pela Igreja
para celebrar a Liturgia das Horas, para que esta função de toda a comunidade seja
desempenhada ao menos através deles, de uma forma certa e constante, e se continue na Igreja,
ininterruptamente, a oração de Cristo.107 O Bispo é, de modo eminente, o representante visível
de Cristo e o sumo sacerdote do seu rebanho. Dele, em certo sentido, deriva e depende a vida
dos seus fiéis em Cristo.108 Portanto, deve ser ele, entre os membros da sua Igreja, o primeiro
na oração. E esta sua oração, quando recita a Liturgia das Horas, é feita sempre em nome da
Igreja e a favor da Igreja que lhe está confiada.109 Os presbíteros, unidos ao Bispo e a todo o
presbitério, fazem também, dum modo especial, as vezes de Cristo sacerdote, 110 e participam
da mesma função, orando por todo o povo a eles confiado e pelo mundo inteiro.111 Todos estes
desempenham o ministério do bom Pastor que roga pelos seus para que tenham a vida e sejam
consumados na unidade.112 Na Liturgia das Horas, que a Igreja lhes propõe, não somente
encontrarão uma fonte de piedade e alimento para a oração pessoal,113 mas também um meio
de alimentar e desenvolver, pela riqueza da contemplação, a sua ação pastoral e missionária,
para alegria de toda a Igreja de Deus.114

29. Por conseguinte, os bispos, os presbíteros e todos os outros ministros sagrados, que
receberam da Igreja o mandato (cf. n. 17) de celebrar a Liturgia das Horas, estão obrigados a
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

celebrar diariamente o ciclo completo destas mesmas Horas, guardando, quanto possível, a sua
correspondência com a respectiva hora do dia.
Primeiramente, darão a devida importância àquelas Horas que constituem, por assim dizer, o
fulcro desta Liturgia, isto é, Laudes e Vésperas. Estas Horas procurem não as omitir, a não ser
por motivo grave. Serão também fiéis em celebrar o Ofício das Leituras, que é por excelência
uma celebração litúrgica da palavra de Deus. Por esta forma se desempenharão cada dia do
múnus que por título peculiar lhes incumbe, que é o de acolher a palavra de Deus, a fim de se
tornarem mais perfeitos discípulos do Senhor e mais profundamente saborearem as insondáveis
riquezas de Cristo.115 Para melhor santificarem o dia, terão a peito rezar também a Hora Média,
bem como Completas, com as quais terminam o «serviço divino» e se encomendam ao Senhor
antes de recolher ao leito.

30. É da máxima conveniência que os diáconos permanentes recitem todos os dias pelo menos
parte da Liturgia das Horas, conforme a Conferência Episcopal determinar.116

31. a) Os cabidos das catedrais e das colegiadas recitarão no coro as partes da Liturgia das
Horas a que, seja pelo direito comum seja pelo direito particular, estão obrigados. E cada um
dos membros destes cabidos, além das Horas que são obrigatórias para todos os ministros
sagrados, está obrigado a recitar individualmente aquelas Horas que são celebradas pelo
respectivo cabido.117
b) As comunidades religiosas obrigadas à Liturgia das Horas, e cada um dos respectivos
membros, celebrarão as Horas segundo o que estiver determinado pelo seu direito particular,
salvo o prescrito no n. 29 para os que receberam as Ordens sacras. As comunidades obrigadas
ao coro, essas celebrarão diariamente o ciclo integral das Horas.118 Fora do coro, os membros
(destas comunidades) recitarão as Horas em conformidade com o seu direito particular, salvo
sempre o prescrito no n. 29.

32. Às restantes comunidades religiosas e a cada um dos seus membros, recomenda-se que,
tanto quanto lho permitirem as condições em que se encontram, celebrem algumas partes da
Liturgia das Horas, porque esta é a oração da Igreja, que faz de todos os que andam dispersos
um só coração e uma só alma.119 Igual recomendação é feita aos leigos.120

c) Estrutura da celebração

33. A Liturgia das Horas é regulada segundo leis próprias. Nela se combinam, de uma forma
particular, elementos comuns às outras celebrações cristãs. Na sua estrutura geral, inclui
sempre: primeiramente o hino, depois a salmodia, a seguir uma leitura, longa ou breve, da
Sagrada Escritura, finalmente as preces. Tanto na celebração comunitária como na recitação
individual, a estrutura essencial é sempre a mesma: diálogo entre Deus e o homem. Todavia, a
celebração comunitária manifesta mais claramente a natureza eclesial da Liturgia das Horas.
Pelas aclamações, pelo diálogo, pela salmodia alternada, etc., favorece também a participação
ativa de todos, segundo a condição de cada um. Além disso, respeita melhor as diferentes
formas de expressão.121 Consequentemente, sempre que seja possível uma celebração
comunitária, com a assistência e participação ativa dos fiéis, esta deve preferir-se à celebração
individual e como que privada. 122 Além disso, na recitação coral e comunitária, convém,
quanto possível, que o Ofício seja cantado de acordo com a natureza e função de cada uma das
suas partes. Deste modo se porá em prática a recomendação do Apóstolo: «A palavra de Cristo
permaneça em vós em toda a sua riqueza, para vos instruirdes e aconselhardes uns aos outros
com toda a sabedoria; e com salmos, hinos e cânticos inspirados, cantai de todo o coração a
Deus a vossa gratidão » (Col 3,16; cf. Ef 5,19-20).

NOTAS
1 Cf. At 1,14; 4,24; 12,5. 12; cf. Ef 5, 19-21.
2 Cf. At 2,1-15.,
3 Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n.° 83.
4 Lc 3, 21-22.
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5 Lc 6, 12.
6 Mt 14, 19; 15, 36; Mc 6, 41; 8, 7; Lc 9, 16; Jo 6, 11.
7 Lc 9, 28-29.
8 Mc 7, 34.
9 Jo 11, 41 ss.
10 Lc 9, 18.
11 Lc 11, 1.
12 Mt 11 25 ss.; Lc 10, 21 ss.
13 Mt 19, 13.
14 Lc 22, 32.
15 Mc 1, 35; 6, 46; Lc 5, 16; cf. Mt 4, 1 par.; Mt 14, 23.
16 Mc 1, 35.
17 Mt 14, 23. 25; Mc 6, 46. 48.
18 Lc 6, 12.
19 Lc 4, 16.
20 Mt 21, 13 par.
21 Mt 14, 19 par.; 15, 36 par.
22 Mt 26, 26 par.
23 Lc 24, 30.
24 Mt 26, 30 par.
25 Jo 12, 27 s.
26 Jo 17, 1-26.
27 Mt 26, 36-44 par.
28 Lc 23, 34. 46; Mt 27, 46; Mc 15, 34.
29 Cf. Hebr 7, 25.
30 Mt 5, 44; 7, 7; 26, 41; Mc 13, 33; 14, 38; Lc 6, 28; 10, 2; 11, 9; 22, 40. 46
31 Jo 14, 13 s.; 15, 16; 16, 23 s. 26.
32 Mt 6, 9-13; Lc 11, 2-4.
33 Lc 18, 1.
34 Lc 18, 9-14.
35 Lc 21, 36; Mc 13, 33.
36 Lc 11, 5-13; 18, 1-8; Jo 14, 13; 16, 23.
37 Mt 6, 5-8; 23, 14; Lc 20, 47; Jo 4, 23.
38 Rom 8, 15. 26; 1 Cor. 12, 3; Gal 4, 6; Jud 20.
39 2 Cor 1, 20; Col. 3, 17.
40 Hebr 13, 15.
41 Rom 12, 12; 1 Cor 7, 5; Ef 6, 18; Col 4, 2; 1 Tess 5, 17; 1 Tim 5, 5; 1 Pedro 4, 7.
42 1 Tim 4, 5; Tiago 5, 15 s.; 1 Jo 3, 22; 5, 14 s.
43 Ef 5, 19 s.; Hebr 13, 15; Ap 19, 5.
44 Col 3, 17; Fil 4, 6; 1 Tes 5, 17; Tim 2, 1.
45 Rom 8, 26; Fil 4, 6.
46 Rom 15, 30; 1 Tim 2, 1 s.; Ef 6, 18; 1 Tess 5, 25; Tiago 5, 14. 16.
47 1 Tim 2, 5; Hebr 8, 6; 9, 15; 12, 24.
48 Rom 5, 2; Ef 2, 18; 3, 12.
49 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n.° 83.
50 Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, n.° 10.
51 S. Agostinho, Enarrat. in Psalm. 85, 1: CCL 39, 1176.
52 Cf. Lc 10, 21, quando Jesus «exultou no Espírito Santo e disse: Eu te bendigo, ó Pai...».
53 Cf. At 2, 42 gr.
54 Cf. Mt 6, 6.
55 Cf. Conc. Vat II, Const. Sacrosanctum Concilium, n.° 12.
56 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, nn. 83-84.
57 Cf. Ibid., n. 88.
58 Cf. Ibid., n. 94.
59 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Presbyterorum Ordinis, n. 5.
60 Conc. Vat. II, Decr. Christus Dominus, n. 30.
61 Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 5.
62 Cf. Ibid., nn. 83 e 98.
63 Ibid., n. 7.
64 Ibid., n. 10.
65 Ibid., n. 33.
66 Ibid., n. 24.
67 Cf. Ibid., n. 33.
68 1 Tess. 5, 17.
69 Cf. Hebr 13, 15.
70 Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 84.
71 Ibid., n. 85.
72 Cf. Ibid., n. 83.
73 Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, n. 50; cf. Const. Sacrosanctum Concilium, nn. 8 e 104.
74 Cf. Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, n. 48.
75 Cf. Rom. 8, 19.
76 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 83.
77 Cf. Hebr 5, 7.
78 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Presbyterorum Ordinis, n. 6.
79 Cf. Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, n. 41.
80 Cf. infra, n. 24.
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

81 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Perfectae Caritatis, n. 7.


82 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctam Concilium, n. 10.
83 Ibid., n. 2.
84 Cf. Jo 15, 5.
85 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 86.
86 Cf. Ef 2, 21-22.
87 Cf. Ef 4, 13.
88 Cf. Conc. Vat. II, Sacrosanctum Concilium, n. 2.
89 Ibid., n. 90; cf. S. Bento, Regula Monasteriorum, c. 19.
90 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Presbyterorum Ordinis, n. 14; Decr. Optatam totius, n. 8.
91 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 26.
92 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 41.
93 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Christus Dominus, n. 11.
94 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 42: cf. Decr. Apostolicam Actuositatem, n. 10.
95 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, nn. 26 e 84.
96 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Ad gentes, n. 17.
97 Conc. Vat. II, Decr. Christus Dominus, n. 15.
98 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 100.
99 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Presbyterorum Ordinis, n. 5.
100 Cf. infra, nn. 100-109.
101 Conc. Vat. II, Decr. Christus Dominus, n. 33; cf. Decr. Perfectae Caritatis, nn. 6. 7. 15; cf. Decr. Ad gentes, n. 15.
102 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 99
103 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 100.
104 Cf. Jo 4, 23.
105 Cf. Conc. Vat. II, Decl. Gravissimum educationis, n. 2: Decr. Apostolicam Actuositatem, n. 16.
106 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Apostolicam Actuositatem, n. 11.
107 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Presbyterorum Ordinis, n. 13.
108 Cf. Conc. Vat. II, Sacrosanctum Concilium, n. 41; Const. Lumen gentium, n. 21.
109 Cf. Conc. Vat. II, Lumen gentium, n. 26; Decr. Christus Dominus, n. 15.
110 Cf. Conc. Vat. II, Decr. Presbyterorum Ordinis, n. 13.
111 Cf. Ibid., n. 5.
112 Cf. Jo 10, 11; 17, 20, 23.
113 Cf. Conc. Vat. II, Sacrosanctum Concilium, n. 90.
114 Cf. Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, n. 41.
115 Cf. Conc. Vat. II, Const. Dei Verbum, n. 25; Decr. Presbyterorum Ordinis, n. 13.
116 Paulo VI, Motu proprio Sacrum Diaconatus Ordinem, 18 de Junho de 1967, n. 27: A.A.S. 59 (1967), p. 703.
117 Cf. S. Cong. dos Ritos, Instr. Inter Oecumenici, n. 78: A.A.S. 56 (1964), p. 895.
118 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 95. 119 Cf. At. 4, 32.
120 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 100.
121 Cf. Ibid., nn. 26. 28-30.
122 Cf. Ibid., n. 27.
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Roteiro de Estudos – Liturgia I

1) Quais os elementos constitutivos da Evangelização? O processo de evangelização consta


de três elementos necessários, que são o KERYGMA (ou anúncio do evangelho), a
MISTAGOGIA (dedicada à iniciação litúrgica) e a EPIFANIA (relacionada ao testemunho de
vida).

2) Defina MISTAGOGIA. Mistagogia é a etapa da Evangelização dedicada à iniciação


litúrgica e consiste na vivência dos Sacramentos, da Liturgia das Horas e do Ano Litúrgico.

3) Quais elementos constitutivos tornam os Ritos Litúrgicos atos de Cristo e da Igreja?


Toda celebração, para ser um Ato Litúrgico, é constituída de três elementos específicos, sendo
sempre (implícita ou explicitamente) uma ANAMNESIS, uma EPÍCLESIS e uma
DOXOLOGIA.

4) Explique o que são a ANAMNESIS, a EPÍCLESIS e a DOXOLOGIA. Podemos defini-


las como os três elementos constitutivos que tornam os Ritos Litúrgicos atos salvíficos de
Cristo-Cabeça e do seu Corpo, a Igreja e, por meios dela, de todo o universo. A anamnesis é
sempre uma memória da Páscoa, enquanto síntese da História da Salvação, a epíclesis é a ação
do Espírito Santo para atualização da memória e a doxologia é a glorificação do Pai, no louvor e
no testemunho.

5) Quais são as três grandes fases históricas da Liturgia? As três fases da Liturgia são: a) Pré
Bíblica; b) do Antigo Testamento e c) do Novo Testamento.

6) Quais as atitudes de Jesus diante do culto do Antigo Testamento? Devoção; b)


Discernimento e c) Reprovação das incoerências.

7) Quais elementos da vida litúrgica emergem dos textos do NT? Em Paulo: o Batismo, a
Eucaristia, a Oração Comunitária (=Liturgia das Horas), a celebração do Domingo e da Páscoa-
Pentecostes (=Ano Litúrgico) Nos Evangelhos Sinóticos, Atos dos Apóstolos e escritos
Joaninos: uma vivência litúrgica já afirmada, o sentido cristológico dos Salmos, alusão às
Orações Horárias no Templo, nas Sinagogas e nas casas; o quarto Evangelho tem como pano de
fundo o Ano Litúrgico.

8) Porque podemos dizer que o Evangelho de João tem como pano de fundo o Ano
Litúrgico? Essa afirmação deriva do fato de que, do quarto Evangelho, emergem discursos que
se relacionam à vida sacramental das comunidades primitivas, como as catequeses sobre o
Batismo e os discursos sobre a Eucaristia.

9) Qual a origem da diversidade dos Ritos Litúrgicos? Partindo de Antioquia, a


evangelização difundiu-se nas cidades em importantes cidades, que logo se tornaram
verdadeiros centros da irradiação da fé cristã: a) em Roma (língua grega); b) em Alexandria, no
Egito, e na Etiópia, no nordeste da África (em língua grega); c) em Cartago, no noroeste da
África (língua Latina) e d) em Odessa e no extremo oriente até a Índia (língua Siríaca). No
decorrer dos séculos os ritos multiplicaram-se cada vez mais.

10) Quando e porque, em Roma, a língua litúrgica passou do grego para o latim? Essa
mudança ocorreu com o Papa S Dâmaso (363-384), pois o povo de Roma, da Itália e de todo
Ocidente não entendia mais o grego e o próprio papa, devido a sua origem espanhola, utilizava o
Latim na Liturgia, pela vizinhança com Cartago.