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Disciplina: Teologia Fundamental

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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Escola Mater Ecclesiae – Núcleo Inhaúma


Paróquia de São Tiago

Introdução

A revelação ou a palavra de Deus à humanidade é a primeira realidade cristã; o primeiro


fato, o primeiro mistério, a primeira categoria. A revelação é o mistério primordial, o que nos
comunica todos os outros. A revelação é a primeira das categorias que fundamentam toda a
pesquisa teológica. Revelação, Inspiração, Tradição significam para a ciência teológica o
mesmo que as noções básicas para as ciências humanas. A revelação é o primeiro fato, primeiro
mistério e a primeira categoria do cristianismo. A revelação observa “a realidade primária e
fundamental” do cristianismo. Por isso, é tanto mais de se admirar que a teologia católica não
tenha quase examinado e desenvolvido todas as variações desse tema. Em teologia tudo depende
da revelação divina, tudo a ela se refere, nada se explica a não ser mediante a sua luz.

Em teologia, contudo há um tratado sobre a revelação. Tratado que estuda o fato


revelação e o conjunto de sinais que nos permitam estabelecê-lo com certeza. Se deixássemos
de refletir sobre a intervenção de Deus na história e sobre os sinais dessa intervenção, se exporia
afinal ao perigo do fideísmo1. É estabelecido que Deus falou, e que a aparição do Cristo na
história é o ponto mais denso dessa intervenção, já teríamos, sem dúvida, feito muito, mas não
tudo. O conceito de revelação é: “A intervenção primeira de Deus que sai do seu mistério,
dirigindo-se a humanidade e comunicando-lhe seu desígnio salvífico”. Assim, a Teologia
Fundamental é o tratado que estuda o fato da revelação e o conjunto de sinais que nos permitam
estabelecê-lo com certeza. A teologia fundamental tem as seguintes funções: Teologia
apologética e Teologia dogmática. Também outro conceito muito importante dentro deste
tratado teológico é o de Fé como a resposta do homem a Deus que se revela e a ele se doa,
trazendo ao mesmo tempo uma luz superabundante ao homem em busca do sentido ultimo de
sua vida (CIC no 26).

I – PARTE: NOÇÃO BÍBLICA DE REVELAÇÃO

A revelação no Antigo Testamento

Caracteriza a religião do Antigo Testamento pela afirmação da intervenção de Deus na


história, intervenção devida unicamente a sua livre decisão. Essa intervenção pode ser entendida
como: encontro de Alguém com alguém; Deus que interpela ao homem e este que lhe responde
mediante a fé e a obediência. O fato desse conteúdo expresso acima, dessa comunicação nós o
chamamos de “revelação”. Essa revelação se apresenta, como a experiência da ação de uma
Potência Soberana que modifica o curso normal da história e da existência individual. Porém,
não é uma manifestação violenta de poder, é uma potência que dialoga, anuncia e explica o seu
desígnio de salvação. Sendo que Deus não fala a massa, mas sim, a um povo por meio de seus
intermediários que transmitirão sua palavra e exigirá em seu Nome uma resposta.

No antigo testamento ainda não tem um termo técnico que possa traduzir a idéia de
revelação, porém, se utiliza muito a expressão “Palavra de Iahweh”, para expressar o termo
revelação e a comunicação Divina. O mais importante no antigo testamento não é ver a
divindade, mas sim, ouvir a sua palavra. É por sua palavra que Deus, progressivamente,
introduz ao homem no conhecimento de seu ser íntimo2. Traçar, pois, a história da palavra de
Deus é traçar ao mesmo tempo a história da revelação.

1 do latim fides, fé. Doutrina religiosa que prega que as verdades metafísicas, morais e religiosas, como a existência
de Deus, a justiça divina após a morte e a imortalidade, são inalcançáveis através da razão, e só serão compreendidas
por intermédio da fé.
2 “A palavra de Deus, no antigo testamento, dirige e inspira uma história que se inicia pela Palavra divina

pronunciada na criação e que termina com a palavra feita carne. (E. Jacob)”.
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Revelação no Antigo Testamento: É a intervenção gratuita e livre de Deus, Santo e o


oculto que, progressivamente se manifesta e torna conhecidos seus desígnios salvífico de
estabelecer uma aliança com Israel, e depois com todos os povos, para afinal realizar na pessoa
de seu ungido a promessa outrora feita a Abrão.

As etapas da história da Revelação.

Fase Antiga, Gênesis. Caracteriza pelas teofanias e manifestações oraculares. Narra que
Iahweh apareceu sob formas humanas a Abraão3, para anunciar-lhe o nascimento de Isaac. No
antigo testamento nos momentos mais difíceis o povo consultava a Iahweh, seu Deus, que ele
sabe estar presentes em todas as suas ações. Fases características do antigo testamento: teofanias
– manifestações oracular. Técnicas para penetrar nos pensamentos e segredos dos deuses. Com
os profetas essas técnicas arcaicas tendem a desaparecer, dando lugar à experiência da Palavra
que prevalece, purifica-se então as técnicas usadas pelos povos politeístas antigos, a era da
Palavra de Iahweh.

Fase Mosaica - A aliança no Sinai. Deus libertador do povo. Liberta das mãos do faraó
para fazer uma aliança com o povo, os libertou “De”, mas “Para” ser seu povo
escolhido.Consiste em que Iahweh por seu poder e sua fidelidade, livra o povo do domínio
egípcio4, por essa aliança faz desse povo sua propriedade e torna-se chefe da nação. A aliança
transformou em comunidades as tribos que tinham saído do Egito, dando-lhes uma lei, um culto,
um Deus, uma consciência religiosa5. Torna-se Israel um povo governado por Iahweh.

O Profetismo. Nova fase da história da palavra. Os profetas fazem o chamamento à


justiça e a fidelidade ao serviço de Deus. Jeremias tentou determinar os critérios da autêntica
palavra de Deus: a) A realização da palavra do profeta; b) Fidelidade a Iahweh e a religião
tradicional; c) O testemunho do próprio profeta de sua vocação. Constitui uma nova etapa da
palavra. Os profetas anteriores ao exílio (Amós, Oséias, Miquéias, Isaias) são os guardiões e
defensores da ordem moral imposta pela aliança. Sua pregação consiste na interpelação a justiça
e a fidelidade, ao serviço do Deus todo poderoso e três vezes santo.

Fase Deuteronômica. Teologia da lei, quem cumpre a lei é abençoado, quem não
cumpre é amaldiçoado. A lei não é um simples mandamento, um simples comentário, mas são
preceitos acompanhados de evocações históricas, promessas e ameaças que inspira amor e
respeito pela lei. Tradição oriunda do oriente, que tem duas correntes: legalista e profética6. A
história de Israel, com suas desgraças aparecem como conseqüência lógica da infidelidade
constante e renovada. Iahweh, revelando sua vontade prometera sua bênção à obediência de seu
povo. Israel, pois, se quiser viver, deve por em prática todas as palavras da lei, que saída da
boca de Iahweh é fonte de vida. Também chama o decálogo de: as de 10 palavras, estende a
expressão a todas as cláusulas da lei, isto é, ao conjunto das leis morais, civis, religiosas e
criminais. Nas leis do Sinai, o dabar divino era simples mandamento, sem comentários. No
deuteronômio, pelo contrário, os preceitos são acompanhados de evocações históricas,
promessas e ameaças, que deve inspirar o respeito e o amor a lei. Consiste a lei em amar a Deus
de todo o coração e de toda a alma.

A literatura histórica. A palavra de Deus faz a história e se torna compreensível. É a


teologia da história. Pois, conta à realidade da história da salvação e uma teologia da história. A
aliança concluída por Iahweh e as condições impostas por Ele supõem, que o curso dos

3 “Alusão à figura de três homens junto a Abraão” (Gn 18.1.)


4 Libertação do povo de Deus do Egito se deu por volta do ano 1300 a.C.
5 Como prova de submissão total de um povo a Deus, feito pela libertação do Egito. Faz-se então um pacto, uma

aliança entre o Povo e Deus (Deus que liberta o povo e este que lhe promete ser fiel, por meio do decálogo) - Ex
20,22-23.
6 Legalista: expressão mor do sacerdócio – o cumprimento da lei.

Profético: tem o sentido de ser fiel à lei.


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acontecimentos é regulado pela vontade divina, levando em conta as atitudes do povo eleito. Em
última análise, é a palavra de Deus que faz a história e a torna compreensível. O importante
nessa literatura histórica é o texto da profecia de Natan que dá a aliança conexões com a realeza
e inicia o messianismo real. Com essa profecia a dinastia de Davi tornar-se para sempre a aliada
direta de Iahweh, ponto central da história da Salvação.

Profetismo no exílio7. Sem deixar de ser uma palavra viva se torna uma palavra escrita.
Ezequiel é o ministro de uma palavra irrevogável, que anuncia os acontecimentos dando-lhes
um desenrolar infalível. Uma das primeiras profecias de Ezequiel é o número e amplitudes das
visões. Há palavras que comentam essas visões por si mesmas, são ensinamentos. Uma segunda
característica é o tom pastoral da palavra de Ezequiel. Ezequiel começa a formar o novo Israel,
como faria um diretor espiritual. Deutero-Isaias, que devemos ler no contexto do exílio,
considerar o dabar divino em seu dinamismo a uma só vez cósmica e histórica. Manifesta-se a
transcendência de Iahweh primeiramente em natureza.

Literatura sapiencial: Deus usou da experiência humana para dar o homem a conhecer-
se a si mesmo.É testemunha de uma tradição muito antiga de Israel. O mesmo Deus que ilumina
os profetas usou a experiência humana para dar o homem conhecer-se a si mesmo. Inicialmente,
a sabedoria do livro dos Provérbios, é a simples reflexão, positiva e realista, sobre o homem e
seu comportamento, para ajudá-lo a se orientar na vida com prudência e descrição. Assim diz o
provérbio: ”Sábio é quem cumpre a lei de Deus, pois toda a sabedoria provém de Deus.
Somente Ele a possui plenamente; manifesta-se em suas obras e comunica aos que o amam”.

O saltério. Resposta do homem à revelação; realização da revelação. Escrito por Davi e


Salomão e assim nasceu a fé de Israel de forma rezada. Este livro foi formado aos poucos, ao
longo de toda uma história, é principalmente uma resposta a revelação; mas também revelação,
pois a oração dos homens, pelos sentimentos que manifesta, dá a revelação toda a sua
dimensão. A grande, a majestade, a potência, a fidelidade, a santidade de Iahweh revelada pelos
profetas, refletem-se nas atitudes do crente e na intensidade de sua oração (lex orandi, lex
credenti). Em resumo: para os salmistas a palavra de Deus é ao mesmo tempo promessa e
potência que se exerce em a natureza e na história8.

O papel da escritura na história da salvação. Após o exílio somente é que se


constituíram essas grandes compilações, redigidas em camadas sucessivas, com dados muito
antigos, chamadas código deutero-canônico e código sacerdotal. Fixando-se, corre o risco de
perder um tanto do dinamismo que tivera nos profetas; será preciso atualizá-la sempre,
aplicando-a as novas situações históricas, numa releitura constante que por si mesma será um
aprofundamento.

Valor noético e dinâmico da palavra de Deus

A palavra de Deus vem apresentada etimologicamente como o dabar divino. A palavra


não é, pois, uma simples expressão de idéias abstratas, está carregada de sentido, tem um
conteúdo noético que vem da concentração do coração sobre o objeto ou de pensamentos que
dele se apossam, traduzindo ao mesmo tempo um estado da alma, que de algum modo impregna
a palavra pronunciada, articulada. Em outras palavras, “A palavra é a expressão corporal do
conteúdo da alma, por isso quem dirige uma palavra a outro, faz nascer um pouco de sua própria
alma na alma do outro“. Para Israel a palavra tem duplo valor: noético e dinâmico. Em resumo:
a palavra é uma força atuante cujo dinamismo se fundamenta no dinamismo mesmo de quem a
pronunciou. Por isso ela é reveladora. Ninguém fala sem se revelar.

7O exílio do povo de Israel se deu por volta do ano 587 até 538.
8Características dos salmos sob o ponto de vista da revelação: 1) Preceito; 2) Revelação – a lei; 3) Compromisso; 4)
A veracidade e a fidelidade de Iahweh; 5) O valor de uma promessa; 6) A palavra criadora.
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Revelação cósmica e revelação histórica

A revelação cósmica: Principalmente através da história é que Israel conheceu Iahweh,


quando no Egito experimentou seu poder libertador (Deus é um Deus que liberta).
Compreendeu Israel que o mesmo Deus que o suscitara do nada da escravidão, também do nada
fizera surgir o cosmos. Sua soberania é universal. Sendo que uma vez que a criação é o que foi
dito por Deus, ela é também revelação.

A revelação histórica: começa com Abraão, Moisés e os profetas. Torna-se então


palavra plenamente inteligível. Dirige-se Deus ao homem, interpela-o, torna-o participante de
seu desígnio, fala-lhe. Torna assim, a revelação mistério de um encontro pessoal entre o Deus
vivo e o homem. A lei e a palavra profética são as formas privilegiadas dessa revelação.

A revelação profética

A revelação profética é a outra forma de revelação histórica. A revelação do Sinai


constitui sempre um bloco central da revelação; mas, se perdurou no AT, principalmente através
da época dos reis do exílio, se foi aprofundada e desenvolvida, foi mérito principalmente dos
profetas. A autoridade e originalidade do profeta vêm de sua experiência privilegiada: ele
conhece Iahweh, pois Iahweh lhe falou e confiou sua palavra9. O profeta recebeu a palavra não
para guardá-la, mas para publicar e anunciar. O profeta é o arauto de Iahweh, escolhido para
proclamar as palavras que d’Ele recebeu e ouviu. É o homem da palavra. Está entre os homens
como intérprete, autorizado por Deus, de tudo que acontece no mundo, na humanidade e na
história. Por fim, o profeta está ligado a Deus por sua palavra.

O campo de ação da palavra profética é a história, da qual é criadora e intérprete. A


ação divina, que faz da história uma obra de salvação ou de condenação, é duplamente o efeito
da palavra: é a palavra de Iahweh que suscita e dirige os acontecimentos, como também é a
palavra de Iahweh que lhes interpreta o sentido. Todas as etapas da história de Israel foram
precedidas pela palavra: criação (Gn 1,3), o dilúvio (Gn 6,7), vocação de Abraão (Gn 12,1),
vocação de Moises e saída do Egito (Ex 3,14, 30, 31), a marcha desde o Horeb até Cannã (Dt
1,6), vocação de Samuel (1Sm 3), realeza (1Sm 8,7), eleição de Davi (1Sm 15,10), aliança com
a dinastia de Davi na profecia de Natã (2Sm 7), divisão do reino de Israel (1 Rs 11,31), queda da
casa de Acab (1Rs 21,17-24), o exílio (Jer 25,1-3), ruína de Jerusalém (Ez 1,23), retorno do
cativeiro (Is 40,2). Para Israel, a história é um processo que Iahweh dirige para um término que
prefixou. A palavra profética não apenas anuncia e suscita a história, como também a
interpreta10. A história da salvação enfim, é uma seqüência de intervenções Divinas
interpretadas pelos profetas.

Conclusão: “Conseqüentemente, Deus, seus atributos, seus desígnios, se revelam, não


abstrata, mas concretamente na história e pela história. A mensagem de revelação está
incorporada na história. Há progresso no conhecimento de Deus, mas através dos
acontecimentos que a palavra de Deus anuncia, realiza, interpreta”.

Objeto da Revelação

O objeto da revelação é a revelação do próprio Iahweh e revelação do seu desígnio de


salvação. O Deus do AT revela-se inicialmente como um Deus vivo e pessoal, como Aquele que
é, em oposição aos ídolos mudos e mortos. Os profetas aos poucos vão educando Israel para

9 Os profetas afirmam que Deus lhes falou e que sua palavra chegou até eles. Devemos notar também que o termo
palavra de Deus não se verifica sempre do mesmo modo, nem com a mesma intensidade. Na vida dos profetas há
momentos privilegiados, quando a palavra de Deus se apodera deles de forma mais intensa. O momento mais
importante é o de sua vocação.
10 Resumo: O Deus do antigo testamento é um Deus de intervenções e o profeta as interpreta, percebe e proclama o

seu valor salutar.


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uma compreensão sempre mais profunda dos atributos divinos: Amós põe em evidência sua
justiça; Oséias, seu amor terno e ciumento. Isaias, sua grandeza e transcendência; Jeremias
ensina uma religião mais interior; Ezequiel lembra as exigências da santidade de Deus; Deutero-
Isaias, leva para uma religião mais universalista.

Resposta do homem à revelação

Se Deus fala, o homem deve escutar. Escutar indica a primeira atitude do homem ante a
revelação: não de modo material e passivo, mas em disponibilidade totalmente ativa. A palavra
ouvida deve ser assimilada pela fé e pela submissão, numa entrega de todo o ser, como fez
Abraão. Revelação e fé são correlativas: a fé do antigo testamento, com efeito, corresponde
exatamente ao tipo de revelação que lhe foi feita. No AT a revelação era essencialmente lei e
promessa de salvação; a fé, principalmente, obediência e confiança11.

Traços característicos da Revelação

A revelação é essencialmente interpessoal: Antes que manifestação de alguma coisa é


manifestação de alguém com alguém. Iahweh o Deus vivo, estabelece com o homem relação de
pessoa a pessoa.

A revelação bíblica é uma iniciativa Divina: não é o homem que descobre a Deus; é
Iahweh que antes, se manifesta, quando quer, a quem ele quer.

É a palavra que dá unidade a economia da revelação: a religião do AT é a religião da


palavra ouvida. Deus revela e se revela pela palavra. Os profetas comunicam “a palavra de
Deus”, seus desígnios e as vontades de Deus, o homem é convidado à obediência da fé.

Pela revelação o homem é posto em confronto com a palavra, uma palavra que exige fé
e execução: a sorte do homem dependerá da opção decisiva a favor ou contra a palavra. O
objetivo, porém, da revelação é a vida e a salvação do homem, sua comunhão com Deus.

A revelação é toda orientada para a esperança de uma salvação que há de vir: cada
revelação profética marca uma realização da palavra, mas deixa, ao mesmo tempo, lugar para a
esperança de uma realização ainda mais decisiva.

Conclusão

A noção de revelação é a intervenção gratuita e livre do Deus Santo e oculto que,


progressivamente, se manifesta e torna-se conhecido seu desígnio salvífico de estabelecer uma
aliança com Israel, e depois com todos os povos, para, afinal, realizar na pessoa de seu Ungido a
promessa feita a Abraão, abençoando em sua posteridade todos os povos da terra.

A Revelação no Novo Testamento

A noção de revelação no NT apresenta-se com maior complexidade e diversidade do


que no AT. Entre ambas as alianças, deu-se um acontecimento de capital importância: “Muitas
vezes e de muitos modos falou Deus outrora a nossos pais, nos profetas; nestes últimos tempos
falou a nos no seu Filho” (Hb 1,1). Em Jesus, o verbo encarnado, o Filho está presente entre
nós. Sendo assim, Cristo é a plenitude da revelação.

Revelação no NT: É a ação, sumamente livre e amorosa, pela qual Deus, numa
economia de encarnação, já de alguma forma iniciada no AT, dá-se a conhecer em sua vida

11Para um hebreu, acreditar é obedecer e confiar; é reconhecer Iahweh, como o único Deus salvador de Israel, o que
lhe deu a lei e prometeu a salvação; e aceitar a sua vontade e confiar-se em suas promessas.
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intima e no desígnio amoroso que eternamente formou, de salvar e reconduzir a si todos os


homens pelo Cristo.

A tradição sinótica

Os vocábulos

Na tradição sinótica os termos que descrevem a ação reveladora de Cristo são: pregar
(no sentido de proclamar), pregar o Evangelho, evangelizar, ensinar e revelar. Como os profetas,
Cristo prega e apresenta sinais. Cristo não recusa os títulos (Mestre, Rabbi etc) e tampouco os
reinvidica. Pois, ele é mais que um profeta e rabbi: é o Filho de Deus que partilha dos segredos
do Pai. Habitualmente os sinóticos apresentam a Cristo ensinando. Ao passo que “Kerigma”,
corresponde principalmente ao aspecto dinâmico da palavra. O ensinamento acompanha
normalmente o choque do primeiro anúncio da salvação.

O Cristo como pregador

Pela sua pregação Cristo continua a tradição dos profetas. Essencialmente sua pregação
é o evangelho e o Reino de Deus.Mas, pela sua pessoa ele sobrepassa os profetas. Cristo
continua a tradição dos profetas e aperfeiçoa. Percorre todo caminho predito pelos profetas.
Essencialmente sua pregação é o evangelho do Reino: Cristo anuncia a inauguração desse Reino
cuja eminência fora anunciada pelo Batista. Como revelador, pela excelência de sua pessoa,
sobrepassa os profetas.É válido lembrar que Cristo não somente prega, mas também convida a
outros a participar de sua missão: “E constitui doze deles, para andarem com Ele, e para os
mandar pregar”12. Os que acolherem a mensagem dos apóstolos serão salvos; os outros serão
condenados13. Entre a pregação de Cristo e a dos apóstolos há continuidade.

O Cristo como Doutor

O Cristo ensina, chamam-no de Rabi. Aos 12 anos já ensina no templo entre os


doutores. Ensina nas sinagogas e nas montanhas. Ele tem discípulos como os doutores de Israel.
Manifesta esclarecimentos, instrui, discute e polemiza. Fala com autoridade de Iahweh. Cristo
quando ensina chamam-no de Rabbi14. O povo e os doutores da lei dão-lhe, umas quarenta vezes
esse título. Muitas vezes o ensino de Cristo é ocasional; responde as perguntas, corrige as
atitudes (ciúme, instinto de vingança, vaidade e violência) inculca-lhes princípios da nova
moral: pobreza, humildade e caridade. Contudo, seu ensino, sua pedagogia é sistemática.

Cristo Filho do Pai

Cristo é em si mesmo a mais alta manifestação profética, por ser o filho único do Pai, o
herdeiro, é por isso que ensina com grande autoridade. Se o Cristo é em si mesmo a mais alta
manifestação profética possível, se ensina com tão grande autoridade, deve-se ao fato de ser Ele
o Filho único, o herdeiro, a quem o Pai confiou tudo15. Ele é o Filho, pois conhece o Pai e seus
segredos, cujo conhecimento comunica a quem bem lhe apraz. O Filho não pode ser
reconhecido pelo que é sem uma luz concedida pelo Pai: graça recusada ao orgulho dos sábios.
A aceitação da revelação Divina é obra da Graça.

A fé, resposta do homem

12 Cf: Mt 3,14.
13 Cf: Mc 16,16.
14 Cf: Mc 9,5.
15 Cf: Mc 12,6.
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A resposta condizente com a pregação da Boa Nova é a fé. São os homens convidados a
escutar e compreender, isto é, a aceitar na fé a palavra de Deus e viver de acordo. Com efeito,
Deus revela-se de forma tão desorientadora que a revelação se pode tornar para os homens
pedra de escândalo, ocasião de incredulidade.

Conclusão

Na tradição sinótica, Cristo é o revelador enquanto proclama a Boa Nova do Reino dos
céus e ensina com autoridade a palavra de Deus. A fé, dom de Deus, revelação do Pai, é a
resposta do homem à pregação do Evangelho. O conteúdo essencial da revelação é a salvação
oferecida à humanidade sob a imagem do Reino de Deus, anunciado e instaurado por Cristo.

Atos dos apóstolos

Os atos dos apóstolos refletem a linguagem da Igreja primitiva e sua nova fé. Os verbos
concernentes aos atos dos apóstolos são: testemunhar, proclamar o Evangelho e ensinar,
formam a função apostólica.

a) Os apóstolos testemunham: A primeira parte dos atos dos apóstolos insiste nos termos:
testemunhas e testemunhar. Testemunhar caracteriza a atividade apostólica nos
primeiros tempos após a ressurreição. Os que viram o ressuscitado testemunham a sua
volta à vida, tomando partido por ele ante os inimigos. Testemunhas são em primeiro
lugar os apóstolos, são três as características dos apóstolos: 1)São escolhidos por Deus;
2) São associados a Cristo durante a sua vida; 3) Viram-no após sua ressurreição.

b) Testemunha por excelência é quem conheceu toda a obra de Cristo, do batismo a


ressurreição que é o término e a coroa de um só e único processo de salvação.
Testemunhar é, pois, a função própria dos que viram e ouviram a Cristo, que viveram
em sua intimidade e tiveram, portanto, uma experiência direta, viva, de sua pessoa,
doutrina e obra. Os apóstolos em primeiro lugar são testemunhas da ressurreição, pois, é
esse o fato essencial que garante tudo o que procede e tudo o que ainda deve vir. O
testemunho apostólico é dado sob o poder do Espírito Santo16.

c) Os apóstolos proclamam a Boa Nova: O testemunho dos apóstolos e dado na pregação


ou kerigma. O testemunho implica fidelidade a uma experiência e coragem para atestá-
la. Kerigma indica retumbância, poder, expansão, publicidade.

Objeto do testemunho e da pregação

O que os apóstolos pregam, ensinam, atestam, o que seus ouvintes são convidados a
escutar e receber, é o Cristo ou a Palavra sobre o Cristo.

A fé, resposta do homem

A resposta conveniente ao kerigma e ao testemunho é a fé. Os Atos dos apost. descrevem o


aumento continuo dos crentes sob a ação da Palavra. A fé, segundo os Atos, é algo de global: é
uma absoluta e total adesão ao Cristo, é a fé no Senhor Jesus Cristo e em nome de Jesus. É
doação ao Cristo, aceitando-o totalmente, com tudo o que isso implica. Comporta também uma
“conversão“ quem acredita no Senhor, converte-se.

Conclusão

16 Cf: At 1,8
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Os Atos descrevem a atividade apostólica como em uma continuação da obra de Cristo.


Os apóstolos ouviram-no falar, pregar, ensinar, revelar. Recebeu D’ele a missão de testemunhar,
sendo seu depoimento constituinte da nossa fé. Essa fé é a resposta do homem a pregação, esta
por sua vez é obra divina, despertada pelo Espírito Santo que interiormente fecunda a palavra
extenuada e ouvida.

São Paulo

São Paulo para penetrar no âmago da idéia de revelação usa as categorias de “mistério e
de Evangelho”.

Os termos

A simples justaposição dos vocábulos usados já indica o movimento de seu pensamento


sobre a revelação. Deus revela, torna manifesto, dá a conhecer, ilumina. Os apóstolos falam,
ensinam, pregam, anunciam a Boa Nova.

O mistério Paulino

A teologia paulina é uma soteriologia,17 cuja intuição fundamental se exprime com o


conceito de mistério. Principalmente nas epístolas do cativeiro é que o termo aparece em toda a
sua plenitude: indica então, o plano divino da salvação manifestado e realizado em Cristo. 18
Reunindo todos esses elementos de diversos textos, podemos dizer que o mistério, de que fala
Paulo, é o plano divino da salvação, oculto desde toda eternidade e agora revelado, pelo qual
Deus estabeleceu a Cristo como centro da nova economia, constituindo-o, pela sua morte e
ressurreição, único princípio de salvação tanto para os gentios como para os judeus, cabeça de
todos os seres, anjos e homens.

Etapas da revelação do mistério

Pode-se considerar o mistério em diversos planos:

a) No plano da intenção (mistério de Deus); na fase inicial o mistério de Deus está oculto:
segredo de infinita sabedoria.
b) No plano da realização, no Cristo e pelo Cristo (o mistério de Cristo); Mas agora o
mistério que outrora estava oculto está manifesto, revelado. Pela vida, morte e
ressurreição de Jesus o mistério entrou em fase de realização; em Jesus Cristo cumpre-
se e ao mesmo tempo revela-se o desígnio salvífico de Deus. O mistério inicialmente é
comunicado a testemunhas privilegiadas: os apóstolos e os profetas. São eles os
mediadores e os arautos do mistério.
c) No plano do encontro pessoal (mistério do evangelho, da palavra e da fé); revelado a
testemunhas escolhidas, o mistério é dado a conhecer a todos os chamados a Igreja. São
Paulo estabeleceu uma equivalência “concreta” entre o evangelho e mistério. Em ambos
os casos temos a mesma realidade, isto é: o plano da salvação considerado porém, sob
ângulos diversos. Sob um aspecto, é um “segredo”, desvendado, revelado, manifestado,
transmitido ou comunicado; sob outro, é a boa nova, uma mensagem proclamada
anunciada. Evangelho e mistério têm o mesmo conteúdo e objeto. Objeto duplo:
soteriológico, isto é: a economia da salvação pelo Cristo, e escatológico, ou seja, a
promessa da glória com todos os bens destinados aos escolhidos, frutos da cruz e da
morte de Cristo.

d) No plano da sua extensão a humanidade (o mistério da Igreja).

17 sobre as realidades referente a salvação.


18 Cf: Rom 16, 25-27. Col 1, 25-28. Ef 3, 6 e 1, 10.
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Resposta do homem

É pela fé que se tem acesso ao mistério, ao evangelho, a palavra. Fé que é a resposta


especifica do homem a palavra do Evangelho. É pela fé na mensagem que os cristãos se abrem
para a salvação. A palavra exige ser escutada, acolhida e guardada. A adesão e submissão à
mensagem evangélica que não seria possível de forma meramente natural. É preciso um dom da
graça: a “iluminação” que venha de Deus como a criação da luz no primeiro dia. Uma unção
divina que desperta a fé nos corações dos que ouvem a palavra de Deus. A palavra de Deus não
é um simplesmente um enunciado de verdades; é principalmente uma apresentação da pessoa de
Cristo, Senhor e Salvador, e do que Ele significa para todo o homem.

a) Aprofundamento do mistério: O conhecimento do mistério e do evangelho é um


conhecimento dinâmico, sempre em crescimento. Progresso que se prende a sabedoria
do desígnio divino, medir-lhe a profundidade, é preciso que tenha uma alma
transformada pelo Espírito: exige uma verta maturidade religiosa.

b) Revelação histórica e revelação escatológica: A revelação escatológica será plena


manifestação e visão. Essa tensão entre a história e a escatologia, entre a economia da
palavra e a da visão, da humildade e da glória, é característica de São Paulo.

c) Finalidade do mistério: A finalidade imediata da revelação do mistério e da pregação do


Evangelho é levar os homens a obediência da fé.19 “Tornar todos os homens perfeitos
em Cristo”. “Edificar um templo santo do Senhor”. Por fim tem a finalidade “o louvor a
glória e a graça” de Deus.

Conclusão

Segundo são Paulo podemos definir a revelação como: “A ação livre e gratuita de Deus
que, no Cristo e pelo Cristo, manifesta ao mundo, a economia da salvação, isto é, seu eterno
desígnio de reunir tudo no Cristo, Salvador e cabeça da nova criação”. A comunicação desse
desígnio se faz pela pregação do Evangelho, confiada aos apóstolos e profetas do novo
testamento. A obediência da fé é a resposta do homem a pregação evangélica, sob a iluminação
do Espírito Santo; sendo uma adesão amorosa ao plano de sua infinita sabedoria e caridade. A fé
dá o começo a um processo de crescimento contínuo no conhecimento do mistério que atingirá
seu termo na revelação de visão.

Epístola aos Hebreus

Dirige-se aos judeus cristãos a epístolas aos hebreus. Demonstra a excelência de Cristo
como mediador e a superioridade de seu sacerdócio sobre o da antiga aliança. Faz o paralelo
entre a revelação da antiga aliança e a da nova aliança. Para a história da noção de revelação a
epístola aos hebreus traz duas novidades; comparação entre a revelação da nova aliança e da
antiga aliança, grandeza e exigência da palavra de Deus.

a) Revelação da antiga e da nova aliança: O paralelo entre a revelação em ambas às


alianças apresentam-se desde o primeiro versículo: “Muitas vezes e de muitos modos
falou Deus aos nossos pais, nos profetas; nestes últimos tempos, falou a nos no seu
Filho, a quem conferiu o domínio de todas as coisas”.( Hb 1, 1-2). Entre ambas as
economias há relação de continuidade (Deus falou), diferença (tempo, modo,
mediadores, destinatários), e excelência (superioridade da nova economia). Entre a
revelação da antiga e da nova aliança e a da nova Aliança existe uma continuidade e
semelhança, mas há também diferença e separação. Primeira diferença: de época.

19 Cf: Rom 16, 26.


Disciplina: Teologia Fundamental
10
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Segunda diferença: quanto ao modo. Terceira diferença: quanto aos destinatários.


Quarta diferença: os mediadores da revelação. É a pessoa do Filho que, em última
análise, constitui a superioridade da revelação nova sobre a antiga. É a revelação do
antigo testamento, feita pelo intermédio dos anjos, e a revelação do novo testamento,
feita pelo Filho de Deus e suas testemunhas. A nova revelação pelo contrário vem do
céu, por um mediador celeste, Jesus, que inaugura o caminho novo e vivo, através do
véu de sua carne.
b) Grandeza e exigência da palavra de Deus: O segundo tema que trata a epístola aos
Hebreus e sobre a grandeza e as exigências da palavra de Deus, sempre na perspectiva
de comparação entre ambas às alianças. O Cristo tem assim direito a uma fidelidade
muito superior a merecida por Moises, como Filho constituído sobre a casa. Os cristãos
são convidados a entrar no repouso do Senhor, contanto, porém, que ninguém caia no
mesmo exemplo da infidelidade.
c) Conclusão: Na epístola aos hebreus o termo mais usado para designar revelação é
“palavra”. Numa comparação entre as duas fases da economia da salvação, a epístola
põe em evidência a continuidade entre as revelações, ao mesmo tempo a excelência da
nova revelação.

São João

Nos sinóticos, atos dos apóstolos e nas epístolas de São Paulo, palavra de Deus é a
designação que se dá a mensagem evangélica. A grande novidade de São João é a equação que
ele estabelece entre o Cristo, Filho do Pai, e o Logos.

a) Jesus Cristo, palavra de Deus e Filho de Deus: O antigo testamento conhecia também a
palavra criadora e reveladora, enviada a terra para revelar os segredos de Deus, a Ele
retornando uma vez cumprida sua missão. Mas o antigo testamento não entendia (e
dificilmente poderia, pelo seu monoteísmo radical) a Sabedoria e a Palavra de Deus
como uma pessoa realmente distinta. Jesus Cristo é a palavra eterna do Pai, como
criadora e reveladora, mas enquanto pessoa. Para João o Logos é uma pessoa, que
mantém com o Pai o mais íntimo comércio, dele distinta, Deus, no entanto, como ele
mesmo, verbo de Deus, palavra de Deus.
b) A gesta do Logos: Apresenta-se o prólogo do Evangelho de São João como a gesta do
Logos, um resumo da história da manifestação de Deus por sua palavra. Podemos
distinguir três etapas dessa economia. A primeira manifestação de Deus é a criança.
Tudo criou com a palavra, Deus criou o mundo pela palavra. Mas, de fato o homem
permaneceu surdo a mensagem de Deus e foi um fracasso: “O Logos estava no mundo,
e o mundo por Ele foi feito, mas o mundo não o conheceu”. Por isso Deus escolheu um
povo e se lhe manifestou pela lei e pelos profetas; mas essa revelação, como a primeira
malogrou: “O Logos veio para sua casa e os seus não o receberam”. Finalmente, depois
de ter falado pelos profetas, falou-no Deus por seu Filho. Jesus Cristo é a palavra
substancial de Deu, o Filho único do Pai. Realiza-se a revelação porque a Palavra se fez
carne e assim se tornou mensagem divina, contando-nos em termos e preposições
humanas os segredos do Pai, principalmente o mistério de seu amor por seus filhos.
Três elementos fazem de Cristo o perfeito revelador do Pai: sua preexistência como
Logos do Deus. A encarnação do Logos. A intimidade da vida permanente do Filho
com o Pai, antes e depois da encarnação.
c) A revelação no vocabulário Joanino: Para João o Cristo é a palavra de Deus. Os termos
que traduzem a visão interior de João prendem-se, em sua maioria a idéia de revelação:
palavra testemunho, luz, verdade, glória, sinal, conhecer, saber, ver manifestar etc.
testemunhar é afirmar a realidade de um fato, dando a afirmação toda a solenidade
exigida pelas circunstâncias. Um processo, uma contestação, forma o contexto natural
do testemunho.
Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

d) O Cristo, testemunha do Pai: O Cristo fala como testemunha qualificada, pois é palavra
de Deus. O essencial do seu testemunho é que o Cristo é o Filho do Pai, o enviado do
Pai. o Salvador do mundo e que, pela fé nele depositado é que os homens poderão
chegar a vida eterna.

O testemunho do Pai

De dois modos testemunha o Pai em favor de seu Filho. Em primeiro lugar pelas obras.
É o Pai que pelas obras de Jesus, testemunha em favor de seu Filho.Mas, para que dêem adesão
a palavra do Filho é preciso que o Pai arraste os homens e os de ao Filho. A fé um dom do Pai.
E mais, o testemunho é uma ação de toda a trindade. O Espírito finalmente, não apenas
possibilita a adesão a verdade, mas age também nos corações para que continue sempre ativa a
palavra de Deus recebida na fé. É o Espírito que aplica e interioriza a palavra e o testemunho.

O Cristo, Deus que revela e Deus revelado

A revelação parte do Cristo e ao mesmo tempo que do Pai. O Cristo é ao mesmo tempo,
pois, o Deus que fala e ao Deus ao qual se fala, quem revela o mistério e é o próprio mistério.

Características da Revelação

Em primeiro lugar é como um escândalo feito de forma inaudita e inesperada: que a


palavra seja feita em forma de carne e que o acontecimento da salvação nos seja trazido por um
homem visível e palpável. A palavra de Cristo coloca o homem ante a uma opção decisiva: a
favor ou contra a vida. A revelação, com efeito, é a luz da vida, já no prólogo Joanino o Logus é
luz e vida para os homens. A tragicidade da revelação está em o homem pode fechar os olhos a
luz, não aceitar o testemunho e correr assim para a ruína.

Conclusão

Para João a revelação como palavra de Deus é feita carne, e por essa carne, palavra e
testemunho formulada humanamente, dirigida imediatamente aos apóstolos e por eles a toda a
humanidade, para atestar a caridade do Pai, que envia o seu Filho entre os homens para que,
acreditando nele, tenham a vida eterna. A revelação é a ação sumamente livre e amorosa, pela
qual Deus, numa economia de encarnação, já de alguma forma iniciada no antigo testamento
(pela instrumentalidade da palavra profética), dá se a conhecer em sua vida íntima e no desígnio
amorosos que eternamente formou de salvar e reconduzir a si todos os homens pelo Cristo.
Ação que se realiza pelo testemunho exterior do Cristo e dos apóstolos e pelo testemunho
interior do Espírito que opera internamente para a conversão dos homens ao Cristo. Esse
testemunho do Cristo e dos apóstolos é ampliado e confirmado pelos sinais de poder. Dessa
forma, pela ação conjunta do Filho e do Espírito, o Pai manifesta e realiza seu desígnio de
salvação.

II – PARTE: O TEMA DA REVELAÇÃO NOS STOS PADRES

Para bem situar a contribuição de Orígenes, seria preciso escrever, pelo menos
brevemente, uma história da função reveladora do Verbo encarnado antes de Orígenes. Os
historiadores, do dogma, absorvidos por outros problemas (Trindade, cristologia, soteriologia,
teologia sacramental etc), não chegaram a perceber suficientemente a grande importância do
tema da revelação na teologia dos três primeiros séculos.É claro que nenhum dos santos padres
puderam escrever um tratado sobre a revelação, apesar de muitas vezes podemos encontrar
dispersos em seus escritos quase todos os elementos necessários para uma síntese doutrinal
sobre o assunto.

PRIMEIRAS TESTEMUNHAS
Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Os padres apostólicos:

O autor da didaché recomenda que ninguém se separe dos “mandamentos do Senhor”,


mas que todos sigam “a regra do Evangelho”, conformando-lhes as ações.

Clemente de Roma: atesta a fé recebida. Uma das características de sua epístola é a


fidelidade a herança que recebera dos apóstolos e que transmite integralmente. O Cristo é
apresentado como mestre cujo ensinamento leva a salvação, sendo os apóstolos mensageiros da
Boa Nova por ele anunciada.

Policarpo (bispo de Esmirna) recomenda aos filipenses que marchem no caminho da


verdade traçado pelo Senhor, que sejam “dóceis a palavra da justiça”. Insiste sirvamos ao
Senhor “como ele mesmo nos mandou”, assim como os apóstolos que nos pregaram o
Evangelho e os profetas que nos anunciaram a vinda do Senhor.

Pápias: estabelece oposição entre os “mandamentos estranhos” e os mandamentos


dados pelo Senhor, a fé nascidos a própria verdade.

Inácio de Antioquia: está todo impregnado do novo testamento, principalmente de


Paulo e João. Vê em Cristo o conjunto de verdade e da vida, o mediador da revelação e da
salvação. Antes de se encarnar, manifestar-se o verbo pela criação do mundo; depois em todo o
antigo testamento: os profetas pelo Espírito eram seus discípulos, e o ouviam como a seu
mestre.

Os padres apostólicos vêem no Cristo o todo da revelação e o todo da salvação. Nele,


verdade e vida estão inseparavelmente unidas. Na encarnação do Filho termina e atinge o seu
ponto mais alto a economia da revelação. O Cristo é o conhecimento do Pai.

Os Padres apologetas: Procuram nos sistemas filosóficos do século segundo todos os


recursos que pensam poder encontrar e apresentar o evangelho ao mundo helênico, definindo
em categorias desse mesmo mundo. Assim, pensam eles, o mistério cristão atingirá essas almas
sem as espantar. A teologia, pois, dos apologetas será elaborada a partir da teologia do Logos.
Será uma teologia da manifestação do Deus transcendente pelo Logos criador, revelador e
salvador.

São Justino: No pensar de são Justino, o Pai, transcendente, incognoscível, invisível,


age através do Logos: por ele criou o mundo; por ele fez conhecer; por ele opera a salvação do
mundo. O Logos exerce também a função religiosa como revelador e salvador. Sua ação
reveladora, difundida na humanidade manifesta-se mais claramente entre os judeus e nos
profetas e é total somente em Jesus Cristo. Segundo São Justino, toda verdade origina-se do
Logos ou Verbo divino. Em cada homem há uma semente, um “germe do Logos”, que lhe
permite atingir parcialmente a verdade e exprimi-la. Foi devido a essa participação e sementes
do Logos que os filósofos pagãos puderam perceber alguns raios da verdade merecendo assim o
título de cristãos. Os profetas são as testemunhas de Deus: “viram e anunciaram a verdade aos
homens”. Para falar não usaram demonstrações porque acima de qualquer demonstração era,
eles as dignas testemunhas da verdade. A doutrina de Justino é doutrina de salvação: o Logos se
fez homem, para trazer uma doutrina que renovasse e regenerasse o gênero humano. Doutrina
que, contida nas memórias dos apóstolos, “que denominamos Evangelhos”. Somos convidados
a receber na fé, conformando-lhe nossa vida. Adesão que se realiza pela “graça” (pois ninguém
pode ver ou compreender se Deus e seu Cristo não lhe dão a compreender).

Atenágoras: Atenágoras acentua que Deus é invisível e incompreensível: somente Deus


nos pode ensinar algo sobre Ele. Os preceitos cristãos não são preceitos humanos, foram
proferidos e ensinados por Deus. Atenágoras reconhece que o Deus invisível pode, por suas
Disciplina: Teologia Fundamental
13
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

obras ser conhecido pela razão. A ordem do universo manifesta o criador, artífice e arquiteto da
beleza e da harmonia invisíveis. Os filósofos “conseguiram conceber, mas não encontram o ser,
pois não se dignaram a aprender de Deus o que Deus se refere, mas de si mesmo o quiseram
aprender. É por isso que cada um apresentou opinião diferente sobre Deus, sobre a
natureza,sobre as formas e o mundo”.

São Teófilo de Antioquia: Também admite que a razão pode apresentar certa
demonstração da existência de Deus. Teófilo insiste na importância dos profetas na economia da
revelação.e afirma que somente os cristãos possuem de fato a verdade, porque foram instruídos
pelo Espírito Santo, que falando nos santos profetas, tudo predisse.

Epístola a Diogneto: Conforme o autor da epístola a Diogneto os cristãos são


“defensores de uma doutrina humana”, de origem terrestre: sua fé vem do próprio Deus que
“entre os homens estabeleceu a verdade, o Logos santo e incompreensível.”Pela fé conhecemos
a Deus de uma maneira eficaz. Se alguém se espanta de a revelação ter vindo tão tarde,
responder o autor que a revelação se realiza no tempo, ma realiza um desígnio eterno do coração
de Deus. A epístola insiste na continuidade entre a missão do Logos e a missão da Igreja. O que
o Verbo ensinou, e os apóstolos receberam, continua na Igreja.

Conclusão: Mesmo reconhecendo a razão humana poder chegar a certo conhecimento


de Deus e captar elementos de verdade moral e religiosa, os apologetas concluem ser necessária
a revelação para chegarmos a um conhecimento autêntico do Deus incognoscível e
transcendente.

SANTO IRINEU

A obra de santo Irineu insere-se num contexto de polêmicas antignósticas. Os sequazes


de Ptolomeu e Marcião fazem do Cristo o revelador de um Deus desconhecido no AT: teria o
Cristo revelado um Deus distinto do Deus da lei e dos profetas. Santo Irineu diz que: é
impossível conhecer a Deus sem Deus, o Verbo de Deus é que ensina a humanidade a conhecê-
lo. É no comentário a Mateus (11, 25-27) que Irineu expressa o que pensa sobre a ação
reveladora de Deus e sobre seus fundamentos trinitários dessa ação. “ninguém, pode conhecer o
Pai a não ser pelo Verbo de Deus, isto é, se o Filho não o revela. Nem se pode conhecer o Filho
se não ao bel prazer do Pai”.20 Irineu admira a maravilha unidade e progressão do plano da
revelação. Com o Verbo encarnado culmina um processo que se desenvolve desde a origem do
mundo: inicialmente pela obra da criação, depois pela lei e pelos profetas, finalmente pela
encarnação.

A correlação entre ambos os testamentos está situada também na perspectiva da


economia ou do plano salvífico concebido e realizado por Deus numa história culminada no
Cristo. Desde Abraão até o Cristo e os apóstolos, é o mesmo Deus que age, faz suas promessas e
as cumpre, seguindo um plano simultaneamente uno e multiforme. A criação é a primeira etapa
da revelação: “é o Filho que aparece, não o Pai: todas as visões desse tipo indicam o Filho de
Deus falando e conversando com os homens, pois não é o Pai de todos e o criador do universo...
que veio falar com Abraão nesse recanto de terra, mas o Verbo de Deus sempre estava com o
gênero humano e que de antemão anunciava os acontecimentos futuros, ensinando aos homens
as coisas de Deus”. A revelação tem características que a distinguem de qualquer doutrina
humana. Em primeiro lugar, é essencialmente obra da graça. Em segundo lugar, a revelação é
obra de salvação. Para santo Irineu revelação é: “A epifania de Deus no Cristo e pelo Cristo; é a
manifestação do Pai pelo Filho e por todos os meios de expressão possibilitados pela
encarnação”.

TESTEMUNHAS DA IGREJA GREGA

20 Para santo Irineu realmente, a manifestação do Filho é conhecimento do Pai, pois tudo é manifestado pelo Verbo.
Disciplina: Teologia Fundamental
14
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Os alexandrinos

Clemente de Alexandria: Clemente procura em primeiro lugar a revelação de Deus: “se,


por alguma hipótese, oferecesse aos gnósticos a escolha entre o conhecimento de Deus e a
salvação eterna, como se fossem realmente distintas, quando sabemos serem, ao contrário,
idênticas, ele não hesitaria um momento em escolher o conhecimento de Deus.” No centro da
história humana, como no centro de sua teologia, Clemente coloca o Logos encarnado, o Cristo,
fonte de todo o conhecimento e salvador dos homens. Como Justino e Irineu, Clemente atribui
ao Logos as teofanias. É o Logos quem fala com Abraão, faz as promessas a Jacó, luta com ele.
Ao revelar o Verbo tem um só fim: salvar a humanidade: desvenda toda a verdade aos homens
para mostrar-lhes a sublimidade da salvação. A teologia de Clemente situa a própria filosofia na
órbita da economia da revelação. Considera-a como um “dom de Deus aos gregos”. A filosofia
foi dada aos gregos tendo-se em vista a sua salvação “Antes da vinda do Senhor à filosofia era
necessária aos gregos para a justificação”.

Orígenes: O sistema de Orígenes edifica-se a partir de Deus. “Quando se vê a imagem


de alguém, vê-se aquele de quem é a imagem: assim, pelo Verbo de Deus, sua imagem, veremos
a Deus”. Orígenes exprimiu-se quase com as mesmas palavras de Clemente. O Verbo procede
do Pai, do qual é o revelador nato enquanto sua imagem e palavra. O verbo está naturalmente
qualificado para sua missão de revelador, pois antes mesmo de ser enviado para o meio dos
homens, ele já é no seio da Trindade a imagem reveladora do Pai. O Verbo fez-se carne e
habitou entre nós, para levar-nos, a nós que éramos carne, a vê-lo tal qual era antes de se fazer
carne. A visão material não basta então para nos dá a conhecer o Verbo de Deus. Para Orígenes
o próprio Cristo, em o Novo Testamento, não se manifestou senão progressiva e parcialmente ,
pois se o Verbo tivesse manifestado toda a sua glória, o mundo inteiro não poderia conter. A
vinda de Cristo é uma promoção do todo o AT. “A luz contida na lei de Moises, oculta sob um
véu, brilhou quando da vinda de Jesus, que afastou o véu e fez conhecer rapidamente os bens
cuja sombra se continha na terra”. Contra aqueles que queriam dividir os dois Testamentos
Orígenes diz: “O Antigo e o Novo Testamento, devem ser lidos do mesmo modo: para se ter o
espírito das escrituras, que é o espírito de Cristo, é preciso ter o Espírito de Cristo”. Segundo
Orígenes a função do teólogo é escrutar as escrituras, pois ali está contida toda verdade. Quanto
a revelação natural e a filosofia, Orígenes é muito mais moderado do que Clemente.

Santo Atanásio: Além do ensinamento de Cristo, Atanásio distingue duas fontes do


conhecimento de Deus: uma direta e interior; outra, pelo testemunho da criação. Atanásio fala
sobre o conhecimento de Deus por um caminho interior, sendo o homem a imagem e
semelhança de Deus, pode conhecer a imagem que é o Verbo de Deus, e nele pode conhecer o
Pai,antes mesmo que a imagem se manifeste pela encarnação: “Quando a alma se liberta de
qualquer mancha deixada pelo pecado, e não guarda a pureza total senão a semelhança da
imagem, por isso mesmo, quando essa imagem é iluminada, como num espelho, pode nela
contemplar o Verbo – imagem do Pai – nele contempla o Pai, cuja imagem é o Salvador”.

São Cirilo de Alexandria: Seguindo a Escritura Cirilo repete que ninguém viu a Deus e
que o conhecimento do Pai nos vem pelo Filho. O Cristo, Verbo encarnado, é a porta e o
caminho que conduz ao conhecimento do Pai. Para designar a função reveladora do Cristo,
Cirilo dá o título de luz.

Os Capadócios

O problema da revelação não preocupa os Capadócios. Em seu horizonte o primeiro


plano é ocupado pela Trindade e pela Cristologia. Para eles, a partir do mundo visível, pode o
homem chegar a conhecer a Deus, sua existência e seus atributos, mas a essência mesma de
Deus continua sendo trevas que não se pode penetrar totalmente.
Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

São Basílio: São Basílio ensina que somente o Filho e o Espírito conhecem
intimamente o Pai. A são Basílio, porém, mais do o dom da doutrina revelada, interessa sua
plena assimilação e frutificação na alma por uma “iluminação da gnose”. A gnose é um
elemento essencial na assimilação progressiva a Deus, da divinização do cristão.

São Gregório de Nissa: Insiste, contra Eunômio, na inacessibilidade da essência divina.


Deve-se, contudo, distinguir entre o conhecimento de Deus autor do mundo e o da sua essência.
Deus não apenas se deixa conhecer pela pregação silenciosa do universo, mas vem ao encontro
do homem estabelecendo com ele uma comunicação pessoal.

Conclusão: Os capadócios,ao mesmo tempo em que se opõem a Eunômio, reconhecem


duplo caminho de acesso no conhecimento de Deus: pela criação visível e pelo ensinamento da
fé. Por Cristo nos vem o conhecimento dos mistérios divinos.

São João Crisóstomo: São João Crisóstomo escreve contra os anomeus: repete que
Deus, mesmo depois da revelação, continua o Deus oculto e incompreensível. Fala, porém, de
forma mais pastoral. Deus é o incompreensível, o inenarrável segundo Crisóstomo e que o
perfeito conhecimento de Deus é privilégio do Espírito Santo. São João Crisóstomo, não proíbe
aos cristãos de aprofundar na fé; recusa, porém, as especulações. Se Deus fala, o homem deve
conformar sua vida aos ensinamentos divinos. Para Ele, só o Filho e o Espírito conhecem
perfeitamente a Deus. O que dele sabemos, nos vem pelos profetas e principalmente pelo Xto, o
Filho do Pai que veio trazer aos homens o conhcto da economia salvífica oculta aos anjos e as
nações. São João Crisóstomo não apresenta nada de sistemático sobre a revelação.

TESTEMUNHAS DA IGREJA LATINA

Tertuliano: Para Tertuliano a doutrina revelada e transmitida se identifica, praticamente


com as escrituras. Mais que Irineu, insiste Tertuliano no caráter concreto da sucessão apostólica,
sobre a assistência do Espírito Santo na transmissão da doutrina revelada. A doutrina da
verdade está consignada nas Escrituras, conforme são lidas e entendidas pelas Igrejas
apostólicas.

São Cipriano: Cipriano, para designar a ação reveladora de Deus adota o termo
tradição. O mesmo se deve dizer da tradição apostólica. Cipriano dá, pois, ao termo tradição o
sentido ativo e forte de primeira comunicação da verdade, ou seja, revelação. A fonte de origem
da verdade cristã é a tradição evangélica e apostólica ou ensinamento do Cristo e a pregação dos
apóstolos.

Santo Agostinho: Revelação para santo Agostinho: “A revelação não é a comunicação


aos homens de uma verdade abstrata: insere-se no tempo e toma forma de uma história: nesta
religião o ponto essencial que se deve admitir é a história e a profecia do modo como a
providência divina realizará no tempo a salvação do gênero humano, restaurando-o e
renovando-o para a vida eterna”. Realizada numa economia de encarnação, a revelação utiliza
todos os caminhos da carne. Como os outros padres da Igreja. Agostinho não tratou ex professo
do conceito da revelação, Agostinho afirma que a visão de Deus agora nos é impossível. O
mediador de toda a revelação é Jesus Cristo, Verbo de Deus, que por suas palavras e ações veio
manifestar-nos e Evangelho de Salvação.

Conclusões

A onipresença do tema da revelação: O incognoscível saiu de seu mistério e


manifestou-se aos homens: primeiro ao povo judeu, pela lei e pelos profetas, depois a
humanidade toda pelo Cristo, Verbo encarnado, que veio pessoalmente contar-nos os mistérios
do Pai. Esse tema da revelação tem diversas causas: As primeiras gerações cristãs estão ainda
sob o impacto da grande epifania. A preocupação de atingir os pagãos leva os pensadores
Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

cristãos a procurar pontos de aproximação entre o cristianismo e o pensamento contemporâneo.


Também os primeiros hereges levaram os pensadores cristãos ao terreno da revelação.21

Conhecimento natural e o conhecimento sobrenatural: Os padres da Igreja afirmam que


Deus é “inefável e incompreensível”. Pelo fato de ser incognoscível aí se percebe a necessidade
da revelação.

Os dois Testamentos: unidade e progresso: No começo do cristianismo um dos maiores


um dos maiores problemas é o da relação entre os dois testamentos. Os judaizantes querem
conservar a primazia da revelação profética, enquanto os marcionitas estabelecem uma
oposição entre ambos. Os padres da Igreja examinaram a relação entre a lei e o Evangelho.
salientam a unidade profunda de ambos: “Um só e mesmo Deus é o autor da revelação por seu
Verbo ou Logos, sendo a criação, as teofanias, a lei e os profetas, a encarnação etapas dessa
única e contínua manifestação de Deus através da história humana”.

As etapas da revelação: Os pontos principais são: de um lado a lei e os profetas; de


outro, os apóstolos e a Igreja; no centro e no ápice o Cristo.

III – PARTE: A NOÇÃO DE REVELAÇÃO NA TRADIÇÃO TEOLÓGICA

A ESCOLÁSTICA DO SÉCULO XIII

Aqui interessa a revelação imediata dirigida aos profetas. Partindo dos dado da
Escritura, tradição e ensino da Igreja que descrevem e concebe a noção de revelação. Não é
preocupação dos escolásticos do século XIII nem da teologia que os procedeu interrogar-se
especialmente sobre a natureza e as propriedades da revelação Cristã.

São Boaventura (1221): São Boaventura fala ocasionalmente sobre a revelação em seu,
“Comentários das Sentenças” de Pedro Lombardo e nos seus comentários bíblicos; fala mais
explicitamente em seus comentários bíblicos

a) Revelação e economia da Salvação: O emprego do termo revelação no proêmio ao


comentário das sentenças indica-nos a inclinação de seu pensamento: a revelação é luz
para o Espírito.22 São Boaventura chama a revelação luz interior ou iluminação certa.
Deus revela algo a humanidade quando fala ao homem, isto é, ilumina seu espírito.
Revelação, palavra, iluminação são termos conversíveis. A revelação é uma ação
comum a trindade; atribui-se, porém, especialmente ao Filho e ao Espírito. Contudo, o
Filho e o Espírito não nos revelaram tudo, mas apenas o necessário para a salvação. A
revelação começou com os profetas e só com Cristo e os apóstolos projetaram sua luz
total.
b) A revelação profética: Sua doutrina depende de Santo Agostinho e, mais diretamente, de
seu mestre Alexandre de Hales. Seu pensamento reduz-se a: primeiro deve se distinguir
profecia e dom de profecia. O dom de profecia é um habito que para agir exige uma
iluminação divina atual. A profecia por si mesma é um ato transitório. O que caracteriza
o verdadeiro profeta é a iluminação para que compreenda o que vem representado.
Chama-se infusa essa iluminação, pois que eleva o espírito ao conhecimento do que, por
suas próprias forças, não poderia perceber. Podemos, com efeito, distinguir três modos
de revelação profética: sensível, imaginativa e intelectual.23

21 Os gnósticos, em certo sentido elevavam ao máximo o conceito de revelação, mas o deformou ao mesmo tempo.
22 A revelação para São Boaventura é mos se fosse iluminação. É importante salientar que Boaventura não distingue
revelação e profecias.
23 Este último é o mais alto e supõe sempre uma revelação e não se dá mesmo modo com os outros dois modos de

revelação.
Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

c) Fé e revelação: Da revelação, nasce a fé da ação conjugada da palavra exterior e da


palavra interior, do ensinamento e da pregação que fere os ouvidos e do ensinamento do
Espírito Santo que fala no segredo do coração.
d) Conclusão: Para São Boaventura a revelação designa em primeiro lugar a ação
iluminadora de Deus ou a iluminação subjetiva resultado dessa ação. Tal é a revelação
feita aos profetas. Também o ensino de Cristo é entendido como uma iluminação da
humanidade. São Boaventura não distingue claramente as duas noções da revelação e de
inspiração. Seguindo a Escritura ele igualmente chama de revelação a iluminação
interior pela graça da fé. Salienta o caráter trinitário da ação da revelação, como
também no aspecto da economia. Na importância dada a iluminação, percebemos as
perspectivas agostinianas. Entre a iluminação do conhecimento natural, da revelação,
da fé, da contemplação e da visão Boaventura percebe uma continuidade e um
aprofundamento dos dons divinos.

Santo Tomás de Aquino (1225): “Santo Tomás fala várias vezes de revelação:
considera-a como operação salvífica, que procede do livre amor de Deus e proporciona ao
homem luzes indispensáveis ou simplesmente úteis na busca da salvação; ou como um
acontecimento histórico, que se desenrola no tempo e atinge os homens de todos os séculos
numa complexa economia de intermediários, de etapas e de modalidades”.

a) A revelação como operação salvífica: Iniciando a suma, Santo Tomás coloca o fato
fundamental da revelação como ponto de apoio e de fé cristã. Inspirado pelo livre amor
divino, a revelação existente para a salvação do homem. A revelação de verdades de
ordem natural sobre Deus e nossas relações com ele, mesmo não sendo absolutamente
necessário, era moralmente requerida. Santo Tomás considera, pois, a revelação como a
ação do Deus da salvação que, livre e graciosamente, fornece aos homens todas as
verdades necessárias e úteis para a consecução do fim sobrenatural.
b) A revelação como acontecimento da história: A revelação, acontecimento no tempo,
apresenta-se a Santo Tomás como uma operação hierárquica, sucessiva, progressiva,
polimorfa. A revelação hierárquica é começada com os anjos e depois os homens:
primeiro os maiores entre eles, isto é, profetas e apóstolos. Atinge depois a multidão dos
que acolhem a fé. A revelação é marcada pela sucessão: não se realiza de repente, mas
por etapas, que são realizações parciais do desígnio divino. A primeira etapa é
patriarcal, destinada a apenas a algumas umas famílias. A revelação polimorfa (de
várias formas) para se tornar conhecido, Deus não desdenhou nenhum meio de
comunicação.
c) Revelação profética como carisma de conhecimento: Para Santo Tomás profecia é
”Conhecimento, sobrenatural dado ao homem, de verdades que atualmente superam o
alcance de seu espírito, que lhe são manifestadas por Deus para o bem da comunidade”.
A profecia em primeiro lugar e principalmente é um conhecimento e secundariamente
locução.
d) Revelação, Escritura, Igreja: O conjunto dos conhecimentos que Deus revelou aos
profetas e aos apóstolos chama-se “Doutrina Sagrada”. O objeto da nossa fé é a verdade
primeira posta na Escritura, compreendida, porém, segunda a sã doutrina da Igreja.
Deus propôs sua doutrina diretamente aos profetas e apóstolos; a nós propõe pela Igreja.
e) Da revelação a fé: Os homens, ao contrário das grandes testemunhas de Deus, apóstolos
e profetas, chegam a revelação apenas mediante: de um intermediário humano é que
recebem a verdade da fé.
f) Revelação como grau no conhecimento de Deus: Revelação e fé não existem por si
mesmas, mas para a visão, pois o fim do homem é chegar, um dia, a contemplar face a
face o divino. Nesse sentido a revelação é um conhecimento imperfeito, um momento
de nossa iniciação a visão. “De três modos o homem pode conhecer as coisas divinas;
pelo primeiro o homem, graças a luz natural da razão, eleva-se ao conhecimento de
Deus pela razão; pelo segundo, a verdade divina que ultrapassa os limites de nossa
inteligência, desce a nós pela revelação não como evidentemente demonstrada, mas
Disciplina: Teologia Fundamental
18
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

como palavra que se deve crer; pelo terceiro, a alma será elevada para ver perfeitamente
o que lhe fora revelado”.
g) Conclusões: A base da teologia e da fé católica, Santo Tomás coloca o fato primordial
da revelação: operação salvífica pela qual Deus, não querendo deixar o homem entregue
apenas aos recursos da razão, fornece-lhes todas as verdades necessárias e úteis para a
salvação.24 Esta operação se realiza por etapas sucessivas, progredindo tanto no âmbito
como na compreensão das verdades reveladas. Dos patriarcas e profetas até os
apóstolos, formam o depósito sagrado da verdade revelada. A encarnação de Cristo
marca a plenitude e a consumação da revelação. Santo Tomás interessa-se
principalmente pela revelação imediata, e mais especificamente pela profética. Esta é
para ele, essencialmente um ato cognoscitivo: graças a uma iluminação especial, o
profeta julga com certeza e sem erro, conforme a intenção divina, os objetos presentes a
sua consciência, chegando assim a posse da verdade que Deus lhe quer comunicar. O
conjunto de verdades que Deus nos dá a conhecer denomina Santo Tomás doutrina que
procede da revelação, doutrina sagrada, verdade de fé. Duas coisas são exigidas na fé:
“um objeto para ser crido, verdades propostas e o assentimento a essas verdades”.

Duns Scot: Para ele a revelação é a tradição ativa que faz ao homem da doutrina
necessária ou útil para a salvação. Doutrina comunicada aos profetas mediante imagens ou por
uma ação direta de Deus na inteligência: palavra interior de Deus, iluminação do profeta.A ação
reveladora do Xto e dos apóstolos é brevemente delineada: o Xto promulga e transmite, os
apóstolos promulgam e transmitem à Igreja. Características comum do conhecimento dos
profetas e dos apóstolos: a certeza inabalável do seu conhecimento. A doutrina da salvação está
contida na Escritura e, complementariamente, na Tradição ou costume universal da Igreja.

ESCOLÁSTICOS PÓS –TRIDENTINOS

No século XVI, o movimento humanista e a necessidade de reagir contra a


intemperança do iluminismo protestante suscitam na Igreja um conjunto de novas questões e um
imenso esforço que levam a criar uma teologia que estuda as fontes da Revelação por si mesma
com maior atenção. Trata-se de uma luta contra a concepção protestante de uma Revelação
imediata do Espírito Santo a cada fiel, procurando demonstrar que é suficiente a Revelação
mediata.

Melchior Cano e Domingos Banes: Em seus escritos a noção de Revelação aparece


apenas indiretamente, por ocasião da análise da fé. Entende que para se chegar a fé é preciso
alguns elementos exteriores (pregação persuasiva, milagres) que induzem a crer, porém, toda
persuasão externa e humana não basta, é ainda necessária uma causa interior, isto é, uma luz
divina que incite à fé, olhos interiores dados por Deus para ver. Diz ainda que o fundamento
último de nossa fé não é a autoridade da Igreja nem da Escritura, mas a autoridade de Deus que
revela. Limita-se a chamar de Revelação a Revelação incriada, que existe em Deus, ou então a
iluminação interior da graça de fé que induz a crer. Não chama de Revelação a doutrina de
salvação proposta pela pregação da Igreja. O seu discípulo Domingos Banes, entende o mesmo
modo de Revelação (o efeito que Deus, revelando, produz em nós, efeito pelo qual alguma coisa
nos e formalmente manifestada ou revelada).

Francisco Suares: Insiste na Revelação mediata. Revela-se Deus à multidão, não,


porém, imediatamente, mas por seus legados. Tendo Cristo instruído a Igreja apostólica, é pela
Igreja que ele instrui cada fiel, “tanto que uma definição da Igreja equivale a uma Revelação”.
Logo, quem ouve a Igreja, ouve o próprio Deus que lhe fala.

24 Para Santo Tomás, revelação significa a relação entre fé e verdade.


Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

a) Revelação no sentido estrito: É a simples proposição suficiente do objeto revelado,


acredite ou não aquele a quem se faz essa Revelação, seja feita interna e imediatamente
por Deus mesmo, ou por seus anjos, ou que se faça externamente pela pregação
humana. Considera a Revelação a partir do objeto (que se deve crer sub divina
auctoritate). Sendo necessário duas coisas para o conhecimento da fé: primeiro a
apreensão do que se deve crer; em segundo o assentimento ao que foi proposto.
b) Iluminação ou revelação do objeto e da potência: A fé vem de Deus, tanto quanto ao
objeto como quanto ao socorro ou à virtude sobrenatural dada à potência. A doutrina é
de Deus e a graça é de Deus. Sob ambos os aspectos podemos devidamente chamá-la de
iluminação. Assim, têm-se duas formas de iluminação com uma importante diferença:
enquanto a iluminação ex-parte objecti pode ser feita por Deus ou por seus anjos, a
iluminação ex parte potentiae faz-se sempre imediatamente por Deus. Os teólogos
distinguem entre a Revelação necessária à fé e a infusão do hábito, entre a Revelação
propriamente dita (percebida pela inteligência) e o instinto divino (a infusão da fé não é
percebida pelo espírito, mas é operada invisivelmente pelo próprio Deus).

João de Lugo

a) A revelação como palavra: Tanto a Revelação mediata como a imediata são consignadas
pela Escritura como PALAVRA DE DEUS. Afirma que para se verificar o conceito de
palavra não basta que apresentemos a alguém um objeto; é preciso que também lhe
manifestemos o que pensamos desse objeto. A palavra de per si e imediatamente
ordena-se a manifestar-se a alguém o pensamento de quem fala. Na Revelação imediata
(os profetas, por exemplo), Deus pode servir-se de sinais sensíveis, como a palavra
humana, e assim manifestar o seu pensamento; ou então, agindo internamente, pode
gerar imediatamente o conhecimento do objeto que deseja comunicar, manifestando-o
como sendo verdadeiramente o objeto de seu pensamento. O mesmo se diz da palavra
mediata pela qual Deus atualmente nos propõe o mistério da fé.
b) Revelação e hábito ou auxílio da fé: Deus não nos fala enquanto nos dá habitus da fé.
Deus, dando-nos a inteligência e o habitus da fé, dá-nos a faculdade que nos torna
capazes de ouvir sua voz e de acreditar; não se diz porém, que ele fala, pois a palavra é
produção de verbos que exprimem o pensamento de quem fala (a inteligência, ou o
habitul da fé, não é verbo de Deus), por isso, a sua produção não é de forma alguma
palavra ou Revelação de Deus, portanto, o instinto interior não é nem total nem
parcialmente, palavra de Deus). Distingue claramente entre moção interior, que dispõe e
inclina ao assenso da fé e ao ensinamento

A RENOVAÇÃO ESCOLASTICA DO SÉCULO XIX

De 1760 a 1840, a Teologia, em de procurar sua inspiração na grande tradição cristã de


Santo Agostinho, Santo Tomás, São Boa Ventura, procura seu fundamento nas filosofias sempre
mutante da época. Cada vez mais se avilta e cai no marasmo do filosofismo. De modo particular
Pio lX reafirma os direitos do sobrenatural ante o racionalismo e dá novamente à Teologia seu
verdadeiro sentido. Nessa renovação sobressaem alguns nomes, tais como Möhler, Kleutgen,
Denzinger, Franzelin, Scheeben. ... todos tiveram que falar da Revelação, ... pelo menos para
afirmar sua possibilidade e realidade.

João Möhler: Mais que todos, Möhler foi, na Alemanha, o chefe da renovação teológica.
Sua obra “A Unidade da Igreja” é um protesto da vida contra a anemia do reino das luzes. Nessa
obra apresenta a Igreja como uma realidade viva, ativa, criadora, que o Espírito do Cristo
vivifica sempre. “Para quem penetra o conjunto de nossa fé, a vida do Espírito em nós tem
prioridade sobre o ensinamento ou a fé formulada”. O que Cristo fizera, fizeram-no os apóstolos
por sua vez, formando eles também outros discípulos. Assim, através dos séculos, a Igreja
invisível veio sempre da Igreja visível: “Essa ordem exigia a idéia de uma Revelação exterior e
histórica, que, por sua própria natureza, exigia um magistério permanente, determinado,
Disciplina: Teologia Fundamental
20
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

exterior, ao se deve referir quem quer que deseje conhecer essa Revelação”... Em Lutero, a
autoridade exterior da Igreja transformou-se em autoridade interior e a palavra exterior
reconhecida como divina tornou-se voz interior do Cristo e de seu Espírito. A posição
protestante... Esquece “que a Revelação interior é condicionada pela palavra exterior e que a
inteligência da palavra interior é condicionada pela palavra exterior que se dirige ao homem”.
Se Möhler salienta ao máximo o caráter de objetividade e de exterioridade da Revelação, foi por
ter escrito contra os protestantes que tudo sacrificam à subjetividade e à interioridade.

H. J. Domingos Denzinger: Não foi um inovador como Möhler, muito contribuiu,


porém, para uma teologia mais positiva. Ou seja, em poucas palavras: o objeto imediato da
Revelação é a própria verdade como verdade, e a Revelação é a comunicação desse objeto pela
palavra ou por um sinal adequado, ou pela contemplação direta.

J.B. Franzelin: Como Möhler e Denzinger, também Franzelin orienta seu ensino para as
pesquisas positivas. Quando Deus fala aos homens, diz, seja imediatamente, como aos profetas
e aos apóstolos, seja mediante seus legados, faz que sua palavra seja reconhecida por sinais que
a garantem como sendo realmente sua. Esses sinais são os milagres e os carismas sobrenaturais:
“o falar divino consiste em palavras como sendo locução divina”. “Pois Deus não fala somente
pelas palavras, mas ao mesmo tempo pelas palavras e pelos fatos”. Esses fatos, realizados pelo
Cristo e pelos apóstolos, pertencem agora à Igreja e constituem sua herança. Em resumo, eis
como Franzelin entende a Revelação: Toda verdade salvífica foi revelada aos apóstolos por
Cristo, que ensinava visivelmente e pelo dom de seu Espírito. Essa verdade é o Evangelho que
os apóstolos devem pregar a toda criatura e transmitir à Igreja. Esta, por sua vez, conserva e
prega a verdade total, definitiva, que recebeu dos apóstolos.

J. Henrique Newman: Ao falar, de passagem, da Revelação, Newman reconhece-lhe as


seguintes características: Primária e essencialmente a Revelação é um conhecimento religioso.
Em segundo lugar, a Revelação é um mistério. Dá-nos esclarecimento sobre Deus, mas não
suprime o mistério que o rodeia. Em terceiro lugar, a Revelação apresenta-se como uma
economia. Fez-se em etapas sucessivas, progredindo em qualidade e quantidade, até a plenitude
do Cristo. A encarnação é, por excelência, o tipo dessa divina economia. Em quarto lugar, a
Revelação é doutrinal. Transmiti-nos um ensinamento, uma mensagem. Finalmente, a
Revelação é dogmática: impõem-se autoritativamente. O cristianismo é uma “revelatio
revelata”, é uma mensagem definida de Deus para o homem, transmitida por instrumentos
escolhidos e recebida como tal mensagem o merece: positivamente recebida, aceita e defendida
como verdadeira... vinda daquele que não pode enganar-se nem enganar-nos... É religião
dogmática justamente porque religião revelada. Diga-se o mesmo de sua imutabilidade.

M. J. Scheeben: Segundo ele, podemos distinguir três formas de Revelação. Num


sentido amplo, revela-se Deus ao homem pelas obras da criação que refletem seu poder e suas
perfeições, pela comunicação da luz interior da razão que nos torna capazes de conhecer as
obras de Deus e o próprio Deus em suas obras. Ação que merece ser chamada locução divina.
“Em sentido mais estrito e elevado”, Revelação é o ato pelo qual um espírito apresenta a outro o
objeto de seu próprio conhecimento, possibilitando-lhe que, mesmo sem ver por si mesmo o
objeto, aproprie-se de seu conteúdo, apoiando-se nas luzes de quem se lhe revela. O veículo
dessa Revelação é a palavra dita (locutio formalis). “Num sentido mais estrirto ainda e também
mais alto, denomina-se Revelação divina uma manifestação pela qual Deus torna nosso
conhecimento inteiramente conforme ao seu, de modo que o conhecemos como ele a si mesmo
se conhece: é a visão face a face”. Nessa Revelação, a manifestação objetiva, real ou verbal, é
substituída pela visão sem véu da natureza íntima de Deus. Para Scheeben, Revelação é, no
sentido estrito, a comunicação ao homem do pensamento divino mediante a palavra humana do
Cristo, Logos encarnado. Outro mérito de Scheeben é ter posto em evidencia o caráter ao
mesmo tempo sobrenatural e histórico da Revelação. O caráter histórico da Revelação mostra-se
nas sucessivas fases de sua realização temporal. Na Revelação pública Scheeben distingue duas
fases: a Revelação feita à humanidade em seu estado de pecado, Revelação evangélica e
Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

redentora. Essa, por sua vez, realiza-se em duas etapas: a Revelação preparatória do Antigo
Testamento e a consumação em o Novo Testamento. O progresso da Revelação é extensivo: a
Revelação patriarcal dirige-se a uma família; a mosaica, a um povo; a cristã, à humanidade toda.
É também quantitativo e qualitativo: o campo da Revelação alarga-se sem cessar e a luz
difundida é cada vez mais abundante. Em Jesus Cristo temos a plenitude da Luz e da Verdade.

TEOLOGIA DA REVELAÇÃO NO SÉCULO XX

A doutrina comum no começo do século XX

A teologia fundamental, no século XX, estruturou se segundo as indicações do Concilio


Vaticano I, e os documentos anti-modernista; definiu a revelação na perspectiva desses
documentos. Era preciso proteger-lhe o conceito contra as negações do racionalismo ou contra
as contaminações do protestantismo liberal. Sobre a transcendência da Revelação, bem como no
caráter doutrinário do objeto revelado: o que se comunica ao homem é um conjunto de verdades
necessárias à Revelação. “Quando dizemos que Deus revelou, entendemos que Deus falou aos
homens para lhes manifestar alguma verdade, e que os homens reconheceram sua voz”. “A
Revelação é a comunicação, ao homem, de verdades religiosas”.

“A Revelação sobrenatural direta é a manifestação de Deus pela palavra divina, isto é,


por um ato de Deus, ordenado direta e imediatamente para manifestar ao homem seu
conhecimento próprio”. “A Revelação nada mais é que a manifestação duma verdade, que Deus
realiza no homem mediante a iluminação sobrenatural de sua inteligência”. A essa iluminação
corresponde não a ciência, mas a fé. “A Revelação divina, no sentido estrito, é a palavra de
Deus, mediante a qual ele se comunica aos homens algo do ele conhece, assim que os homens o
creiam pela autoridade de Deus que fala”. O elemento formal dessa palavra usa o conceito de
testemunho: a Revelação é uma palavra que atesta uma palavra de Deus que testemunha.

O conceito modernista de Revelação, representado por Loisy e Tyrrell, insiste Gardeil


na finalidade social do carisma profético e na denuntio da verdade revelada. Sendo o
conhecimento profético essencialmente um carisma social, deve “comunicar-nos um objeto
válido para todos, expresso bastante claramente pra servir de ponto de convergência para todos
que procuram o divino”... É preciso o dado revelado seja comunicado de um modo que lhe
garanta o valor exato, absoluto, imutável, indefinidamente transmissível através do tempo e do
espaço. Sua comunicabilidade, com essas características, está garantida:

a) Pelo conteúdo de pensamento proposto por Deus;


b) Pela ação do espírito que mantém a fidelidade... ;
c) Pelo absoluto de que são capazes algumas afirmações humanas.

Na Revelação, o que é diretamente ativado não é o coração do profeta, e sim a sua


inteligência capaz do absoluto. A Revelação segundo Gardeil, mostra-se como uma ação divina,
uma finalidade social, que ativa e dirige a faculdade da afirmação do profeta, assim que os seus
julgamentos, proferidos sob a luz divina, seja comunicáveis à toada à sociedade humana. Ao
analisar o processo do conhecimento profético, Gardeil fundamentalmente se mantém fiel aos
elementos de santo Tomás. O conhecimento profético, como qualquer outro, supõe... A luz de
divina realça o poder de expressão desses sinais mentais; o profeta, então, “reagindo ante o
objeto que lhe é posto ao realce divinamente iluminado”, concebe, afirma e denuncia o que
Deus queria que ele afirmasse. O profeta reafirma o que está vendo, primeiro para si mesmo,
depois para os outros homens aos quais tem a missão de esclarecer. Sendo a profecia um a
carisma social, é preciso que “o profeta exprima externamente o que julga internamente como
verdade revelada por Deus”...

O P. Lagrange escreveu trinta páginas sobre o conceito de Revelação: Primeiro define a


partir dos documentos da Igreja, depois lhe dá uma definição teológica. Diz “A Revelação é a
Disciplina: Teologia Fundamental
22
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

ação divina, livre e essencialmente sobrenatural, pela qual deus, querendo conduzir o gênero
humano a seu fim sobrenatural que consiste na visão da essência divina, falando-nos pelos
profetas e nestes últimos tempos pelo cristo, manifestou-nos um tanto obscuramente mistérios
sobrenaturais e também verdades da religião natural, que depois possam ser infalivelmente
proposto pela a Igreja, sem mudança de sentido, até o fim do mundo”. Ao dar a explicação
teológica ele define formalmente à Revelação como “palavra de Deus enquanto ensinamento”.
Afirmação que fundamenta está em Hebr 1,1; Is 50,4; os 2,4... e nas passagens da escritura
onde se diz que as multidões davam ao Cristo o titulo de mestre, (Mt 8.28; Jo 8,13). Por ele
coloca que a Revelação é descrita principalmente como ensinamento, analisada em termos de
relacionamento de mestre e discípulo... No Novo Testamento a Revelação ganha um outro
sentido; “a palavra é o ato pelo qual alguém diretamente manifesta a outro seu pensamento”.
Noção de palavra que inclui três elementos:

a) Uma manifestação do pensamento;


b) Manifestação direta do pensamento: portanto, o conhecimento de deus a partir de suas
obras não verifica estreitamente a noção de palavra;
c) Uma dualidade de pessoas concebidas como tais: Deus deve ser conhecido como pessoa
que se dirige ao homem como pessoa. Por outro lado também a palavra revelada é um
testemunho: isto significa que ela reclama um assentamento baseado na autoridade de
quem fala.

Fatores da renovação e orientações atuais

Ponto de partida: insatisfações e queixas

Entre os teólogos católicos, o que lhe é do seu interesse é a realidade cristã da


Revelação. Na realidade, a Revelação apresenta-se nas escrituras de modo muito menos
nocional e muito mais pessoal: è antes de tudo a manifestação do próprio deus que, através
duma história sacra que culmina com a morte e a ressurreição do Cristo... De fato, diz ele, para
os católicos a Revelação é também Revelação do mistério real que é o próprio Deus

Teologia protestante

A maioria dos teólogos protestantes, contemporâneos consagra ao tema da Revelação,


não, apenas importantes capítulos, mas obras inteiras. Podemos afirmar que, em seu conjunto, o
pensamento concebido como uma manifestação e uma notificação de verdades sobre Deus ou de
verdades ditas por Deus. Na Revelação vê, primeiramente, a manifestação pessoal do Deus vivo
que ativamente se torna presente ao homem para salva-lo e estabelecer com ele uma comunhão
de vida.

A teologia bíblica protestante insiste fortemente na consideração da Revelação enquanto


acontecimento e historia. A Revelação é acontecimento e está ligada a acontecimentos, isto é,
aos atos salvíficos de Deus. Não apenas se insere na trama da historia humana: ela mesma é
histórica. O que Deus fala, diz G. E Wright, é principalmente o Deus que age.
Ação, acontecimento, encontro: são os aspectos que a teologia protestante atual considera como
mais importantes na Revelação. O aspecto doutrinal fica perceptivelmente desvalorizado.

Renovação bíblica e patrística

No ambiente católico, o interesse pela teologia da Revelação deve se a diversos


fatores... O primeiro e mais importante é a renovação bíblica e patristica. A atenção dedicada ao
dado revelado não poderia de se estender também ao Deus que revela.
Sob os pontos de vista da exegese e teologia bíblica, considera: a) a educação progressiva de
Israel: a Revelação é um lento caminhar das trevas para a luz (idéias de Deus, de aliança, de
messias, de reino, de salvação, de graça etc.)
Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Reflexão sobre a teologia

Ponto de partida da teologia é a fé na Revelação, que é testemunho de Deus sobre si


mesmo. Mas esse “testemunho é apenas o veiculo de um conhecimento real, que nos é ainda que
em mistério, uma realidade divina, como objeto de percepção e amor”. A teologia deve centra -
se na história da salvação, nas “imprevisíveis histórias do amor gratuito de deus” a teologia,
pois, em segundo lugar, é realista por ser a inteligência da ordem da salvação em sua realização
histórica. Finalmente, uma descrição fiel da Revelação deve evidenciar um terceiro elemento. O
objeto de fé (proposições e realidade) não se pode atingir formalmente se não sob uma luz
proporcionada: a luz da fé. Luz interior que é a palavra de Deus em mim: “graça pessoal, que
me põe em diálogo e comércio direto com ele, presença misteriosa, à qual o homem, em novo
tem acesso, não porque sua razão introduza, mas porque Deus se revela. Sem essa luz não existe
verdadeira comunhão com o pensamento divino”...

Falando da Revelação ou da fé, podemos insistir sobre a mensagem ouvida e aceita


sobre a fides ex auditu, ou então sobre a realidade do mistério e sobre o testemunho interior, a
luz interior. E a fé divina: “não é uma simples adesão a qualquer testemunho exterior de Deu”,
é adesão ao próprio deus mistério, a Deus que se nos revela em, sua luz. “A fé supõe que nós,
através do conceito e da formula, atingimos... a própria realidade divina”.

Charlier considera como o mais importante na Revelação, não a comunicação duma


mensagem referente a deus e a nossa salvação, mas o dado revelado - realidade, isto é, o próprio
Deus em pessoa que se dá e se revela ao fiel em sua própria luz. Esse dado revelado está
presente na Igreja, e é na Igreja que ele se desenvolve “à medida que a Igreja o assimila e lhe
permite nela crescer”.

O P charlier insiste no caráter histórico da Revelação. Ela “não é um sistema de idéias


abstratas”, mas o relato das realizações divinas a partir de um grandioso desígnio, em cujo
centro Deus se coloca e do qual o homem é beneficiário. Assim, conforme o P. Charlier, a
Revelação é principalmente a comunicação da própria realidade divina: presença misteriosa
oferecida à experiência de fé...

Teologia querigmática

A teologia querigmática, mesmo sem apresentar uma nova concepção da Revelação, pós
em maior evidência certos aspectos que contribuíram pra uma Revelação da teologia da
Revelação.

a) O caráter histórico da Revelação. Salientam os querigmáticos que o conteúdo essencial


da Revelação é o Evangelho, isto é, a boa nova da salvação. Objeto dessa boa nova é,
em primeiro lugar, um sistema de proposições especulativas e práticas, mas é o Cristo
em sua vida e em sua obra de salvação.
b) Revelação enquanto economia. O cristianismo baseia-se em acontecimentos, não
isolados, mas organicamente ligados entre si, segundo a unidade harmoniosa do plano
divino. A Revelação apresenta se como uma economia: foi dada a humanidade segundo
uma ordem, a da sabedoria de Deus.
c) A Revelação crística. Toda Revelação está centrada sobre Jesus Cristo. O Antigo
testamento será um anúncio e uma preparação do Cristo: uma profecia e uma pedagogia
do Cristo. O centro e objeto do Evangelho, em o Novo Testamento, é o cristo.
d) O aspecto salvífico da salvação. A idéia que domina e dirige todo o progredir da
Revelação, do começo ao fim e que lhe dá a unidade, é a salvação anunciada e
finalmente dada no Cristo e pelo Cristo. A Revelação é Revelação de deus que salva
pelo Cristo. O Evangelho é uma mensagem da salvação: notifica a salvação posta a
nosso alcance pelo Cristo e pela Igreja.
Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

e) Revelação interpessoal. A Revelação é palavra do deus vivo e pessoal que se dirige ao


homem para convidá-lo à fé e a obediência.

Desenvolvimento do dogma

Também o problema do desenvolvimento do dogma levou os teólogos a se


questionarem quanto à noção de Revelação. Assim, por exemplo, o p. de Lubac, observa que
nesta questão do desenvolvimento do dogma, o nó do problema está numa idéia exata da
Revelação, que é o ponto de partida desse desenvolvimento. Ora, “o conteúdo da Revelação, em
sua forma primitiva e em sua interioridade subsiste, não pode ser, nem exata nem
suficientemente, designada como uma série de enunciáveis”. Em Jesus cristo coincide: realidade
revelada e ação reveladora, dom e Revelação do dom. O Cristo é ao mesmo tempo, o mistério e
a Revelação do mistério, o Todo da Revelação e o todo do dogma.

È fato que o Todo da Revelação, principalmente na terminologia de são Paulo, é o


mistério, isto é todo o desígnio salvífico concebido e querido por Deus. O mistério, porém,
enquanto revelado, isto é, manifestado aos homens, São Paulo denomina o Evangelho, ou seja,
boa nova, mensagem de salvação (Rm 16,25; Col 1, 25-26 Ef 1,9-13;3,5-6) È o Evangelho (que
se refere ao Cristo e ao seu mistério) que é pregado e que é aceito pela fé (Rm 10, 4-17). A
Revelação cristã comporta necessariamente duas coisas: primeira, a realidade da pregação e da
salvação realizada pelo Cristo; segunda, o testemunho dado pelos apóstolos em favor de Cristo.

Teologia da revelação e da fé

Essa teologia insiste primeiramente sobre o caráter especifico da Revelação cristã. Não
se trata de uma Revelação qualquer, gnose grega ou conhecimento hermético das religiões de
mistérios. Trata se de uma Revelação de um tipo absolutamente único, que foge a toda a
previsão ou dedução humana. Os teólogos da Revelação sublinham unicamente o caráter
histórico da Revelação. Deus vem, intervém na história humana por uma série de
acontecimentos que culminam no acontecimento central da encarnação. Enfim, a história não é
o lugar da Revelação, não somente a Revelação faz história e tem sua história, mas a própria
história, divinamente interpretada, é o médium da Revelação. Outra característica posta em
evidência pela teologia da Revelação, e esta mais bem estudada, é o caráter interpessoal da
Revelação. Esta iniciativa pessoal do Deus vivo e a manifestação de seu mistério pessoal. Deus
estabelece com o homem relações de pessoa a pessoa: o Eu divino interpela o eu do homem. A
Revelação é personalizada e personificante. Antes de revelar qualquer coisa, Deus revela-se a si
mesmo em seu mistério: Deus tem um nome, fala, podemos invocá-lo e ele também sua vida
intima; faz aliança com o homem, oferece-lhe sua amizade, seu amor, sua vida.

O II CONCÍLIO DO VAT. E A CONSTITUIÇÃO “DEI VERBUM”

Entre os problemas em jogo, foi principalmente das relações entre a sagrada Escritura e
Tradição que prendeu a atenção. A partir do dia 20 de novembro de 62, o problema do conteúdo
material da Escritura e da Tradição continua sendo um problema aberto, que os teólogos e
exegetas poderão continuar aprofundando. O concílio, escolhendo outro caminho, preocupo-se
mais com marcar bem claramente a unidade orgânica entre a Escritura e a Tradição, e o estreito
relacionamento entre a Escritura, Tradição e Igreja. Durante a segunda sessão, reinou o mais
completo silêncio sobre o esquema da revelação. No seu conjunto, o texto agradou aos padres,
porque equilibrado, de sabor bíblico, cristocêntrico, com uma longa exposição sobre a tradição
e, finalmente, porque deixava aos teólogos liberdade quanto às questões controvertidas. A
constituição dogmática “Dei Verbum”, votada capítulo por capítulo no dia 29 de outubro de 65,
e aprovada por quase unanimidade, foi oficialmente promulgada por Paulo VI a 18 de novembro
de 65.

DEI VERBUM:
Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Deus, o Deus vivo, falou a humanidade. O termo” palavra de Deus” aplica-se em


primeiro lugar a revelação, a essa intervenção primeira pela qual Deus sai de seu mistério,
dirigi-se a humanidade para manifestar-lhes os segredos de sua vida divina e comunicar-lhes seu
desígnio de salvação. A segunda frase indica a finalidade da constituição. O concílio quer expor
a verdadeira doutrina sobre a revelação e sobre sua transmissão.

CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA DEI VERBUM SOBRE A REVELAÇÃO DIVINA

PROÉMIO

Intenção do Concílio

1. O sagrado Concilio, ouvindo religiosamente a Palavra de Deus proclamando-a com


confiança, faz suas as palavras de S. João: «anunciamo-vos a vida eterna, que estava junto do
Pai e nos apareceu: anunciamo-vos o que vimos e ouvimos, para que também vós vivais em
comunhão connosco, e a nossa comunhão seja com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo" (1 Jo.
1, 2-3). Por isso, segundo os Concílios Tridentino e Vaticano I, entende propor a genuína
doutrina sobre a Revelação divina e a sua transmissão, para que o mundo inteiro, ouvindo,
acredite na mensagem da salvação, acreditando espere, e esperando ame (1).

CAPÍTULO I: A REVELAÇÃO EM SI MESMA

Natureza e objecto da revelação

2. Aprouve a Deus. na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer


o mistério da sua vontade (cfr. Ef. 1,9), segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo
encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina (cfr.
Ef. 2,18; 2 Ped. 1,4). Em virtude desta revelação, Deus invisível (cfr. Col. 1,15; 1 Tim. 1,17), na
riqueza do seu amor fala aos homens como amigos (cfr. Ex. 33, 11; Jo. 15,1415) e convive com
eles (cfr. Bar. 3,38), para os convidar e admitir à comunhão com Ele. Esta «economia» da
revelação realiza-se por meio de acções e palavras ìntimamente relacionadas entre si, de tal
maneira que as obras, realizadas por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a
doutrina e as realidades significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez, declaram as
obras e esclarecem o mistério nelas contido. Porém, a verdade profunda tanto a respeito de Deus
como a respeito da salvação dos homens, manifesta-se-nos, por esta revelação, em Cristo, que é,
simultâneamente, o mediador e a plenitude de toda a revelação (2).

Preparação da revelação evangélica

3. Deus, criando e conservando todas as coisas pelo Verbo (cfr. Jo. 1,3), oferece aos
homens um testemunho perene de Si mesmo na criação (cfr. Rom. 1, 1-20) e, além disso,
decidindo abrir o caminho da salvação sobrenatural, manifestou-se a Si mesmo, desde o
princípio, aos nossos primeiros pais. Depois da sua queda, com a promessa de redenção, deu-
lhes a esperança da salvação (cfr. Gén. 3,15), e cuidou contìnuamente do género humano, para
dar a vida eterna a todos aqueles que, perseverando na prática das boas obras, procuram a
salvação (cfr. Rom. 2, 6-7). No devido tempo chamou Abraão, para fazer dele pai dum grande
povo (cfr. Gén. 12,2), povo que, depois dos patriarcas, ele instruiu, por meio de Moisés e dos
profetas, para que o reconhecessem como único Deus vivo e verdadeiro, pai providente e juiz
justo, e para que esperassem o Salvador prometido; assim preparou Deus através dos tempos o
caminho ao Evangelho.

Consumação e plenitude da revelação em Cristo


Disciplina: Teologia Fundamental
26
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

4. Depois de ter falado muitas vezes e de muitos modos pelos profetas, falou-nos Deus
nestes nossos dias, que são os últimos, através de Seu Filho (Heb. 1, 1-2). Com efeito, enviou o
Seu Filho, isto é, o Verbo eterno, que ilumina todos os homens, para habitar entre os homens e
manifestar-lhes a vida íntima de Deus (cfr. Jo. 1, 1-18). Jesus Cristo, Verbo feito carne, enviado
«como homem para os homens» (3), «fala, portanto, as palavras de Deus» (Jo. 3,34) e consuma
a obra de salvação que o Pai lhe mandou realizar (cfr. Jo. 5,36; 17,4). Por isso, Ele, vê-lo a Ele é
ver o Pai (cfr. Jo. 14,9), com toda a sua presença e manifestação da sua pessoa, com palavras e
obras, sinais e milagres, e sobretudo com a sua morte e gloriosa ressurreição, enfim, com o
envio do Espírito de verdade, completa totalmente e confirma com o testemunho divino a
revelação, a saber, que Deus está connosco para nos libertar das trevas do pecado e da morte e
para nos ressuscitar para a vida eterna.

Portanto, a economia cristã, como nova e definitiva aliança, jamais passará, e não se há-
de esperar nenhuma outra revelação pública antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor
Jesus Cristo (cfr. 1 Tim. 6,14; Tit. 2,13).

Aceitação da revelação pela fé

5. A Deus que revela é devida a «obediência da fé» (Rom. 16,26; cfr. Rom. 1,5; 2 Cor.
10, 5-6); pela fé, o homem entrega-se total e livremente a Deus oferecendo «a Deus revelador o
obséquio pleno da inteligência e da vontade» (4) e prestando voluntário assentimento à Sua
revelação. Para prestar esta adesão da fé, são necessários a prévia e concomitante ajuda da graça
divina e os interiores auxílios do Espírito Santo, o qual move e converte a Deus o coração, abre
os olhos do entendimento, e dá «a todos a suavidade em aceitar e crer a verdade» (5). Para que a
compreensão da revelação seja sempre mais profunda, o mesmo Espírito Santo aperfeiçoa sem
cessar a fé mediante os seus dons
Necessidade da revelação

6. Pela revelação divina quis Deus manifestar e comunicar-se a Si mesmo e os decretos


eternos da Sua vontade a respeito da salvação dos homens, «para os fazer participar dos bens
divinos, que superam absolutamente a capacidade da inteligência humana»(6).

O sagrado Concílio professa que Deus, princípio e fim de todas as coisas, se pode
conhecer com certeza pela luz natural da razão a partir das criaturas» (cfr. Rom. 1,20); mas
ensina também que deve atribuir-se à Sua revelação «poderem todos os homens conhecer com
facilidade, firme certeza e sem mistura de erro aquilo que nas coisas divinas não é inacessível à
razão humana, mesmo na presente condição do género humano» (7).

CAPÍTULO II: A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA

Os apóstolos e seus sucessores, transmissores do Evangelho

7. Deus dispôs amorosamente que permanecesse integro e fosse transmitido a todas as


gerações tudo quanto tinha revelado para salvação de todos os povos. Por isso, Cristo Senhor,
em quem toda a revelação do Deus altíssimo se consuma (cfr. 2 Cor. 1,20; 3,16-4,6), mandou
aos Apóstolos que pregassem a todos, como fonte de toda a verdade salutar e de toda a
disciplina de costumes, o Evangelho prometido antes pelos profetas e por Ele cumprido e
promulgado pessoalmente (1), comunicando-lhes assim os dons divinos. Isto foi realizado com
fidelidade, tanto pelos Apóstolos que, na sua pregação oral, exemplos e instituições,
transmitiram aquilo que tinham recebido dos lábios, trato e obras de Cristo, e o que tinham
aprendido por inspiração do Espírito Santo, como por aqueles Apóstolos e varões apostólicos
que, sob a inspiração do mesmo Espírito Santo, escreveram a mensagem da salvação (2).

Porém, para que o Evangelho fosse perenemente conservado integro e vivo na Igreja, os
Apóstolos deixaram os Bispos como seus sucessores, «entregando lhes o seu próprio ofício de
Disciplina: Teologia Fundamental
27
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

magistério» (3). Portanto, esta sagrada Tradição e a Sagrada Escritura dos dois Testamentos são
como um espelho no qual a Igreja peregrina na terra contempla a Deus, de quem tudo recebe,
até ser conduzida a vê-lo face a face tal qual Ele é (cfr. 1 Jo. 3,2).

A sagrada Tradição

8. E assim, a pregação apostólica, que se exprime de modo especial nos livros


inspirados, devia conservar-se, por uma sucessão contínua, até à consumação dos tempos. Por
isso, os Apóstolos, transmitindo o que eles mesmos receberam, advertem os fiéis a que
observem as tradições que tinham aprendido quer por palavras quer por escrito (cfr. 2 Tess.
2,15), e a que lutem pela fé recebida dama vez para sempre (cfr. Jud. 3)(4). Ora, o que foi
transmitido pelos Apóstolos, abrange tudo quanto contribui para a vida santa do Povo de Deus e
para o aumento da sua fé; e assim a Igreja, na sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a
todas as gerações tudo aquilo que ela é e tudo quanto acredita.

Esta tradição apostólica progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo (5). Com
efeito, progride a percepção tanto das coisas como das palavras transmitidas, quer mercê da
contemplação e estudo dos crentes, que as meditam no seu coração (cfr. Lc. 2, 19. 51), quer
mercê da íntima inteligência que experimentam das coisas espirituais, quer mercê da pregação
daqueles que, com a sucessão do episcopado, receberam o carisma da verdade. Isto é, a Igreja,
no decurso dos séculos, tende contìnuamente para a plenitude da verdade divina, até que nela se
realizem as palavras de Deus.

Afirmações dos santos Padres testemunham a presença vivificadora desta Tradição,


cujas riquezas entram na prática e na vida da Igreja crente e orante. Mediante a mesma
Tradição, conhece a Igreja o cânon inteiro dos livros sagrados, e a própria Sagrada Escritura
entende-se nela mais profundamente e torna-se incessantemente operante; e assim, Deus, que
outrora falou, dialoga sem interrupção com a esposa do seu amado Filho; e o Espírito Santo -
por quem ressoa a voz do Evangelho na Igreja e, pela Igreja, no mundo - introduz os crentes na
verdade plena e faz com que a palavra de Cristo neles habite em toda a sua riqueza (cfr. Col.
3,16).

Relação entre a sagrada Tradição e a Sagrada Escritura

9. A sagrada Tradição, portanto, e a Sagrada Escritura estão ìntimamente unidas e


compenetradas entre si. Com efeito, derivando ambas da mesma fonte divina, fazem como que
uma coisa só e tendem ao mesmo fim. A Sagrada Escritura é a palavra de Deus enquanto foi
escrita por inspiração do Espírito Santo; a sagrada Tradição, por sua vez, transmite
integralmente aos sucessores dos Apóstolos a palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo
Espírito Santo aos Apóstolos, para que eles, com a luz do Espírito de verdade, a conservem, a
exponham e a difundam fielmente na sua pregação; donde resulta assim que a Igreja não tira só
da Sagrada Escritura a sua certeza a respeito de todas as coisas reveladas. Por isso, ambas
devem ser recebidas e veneradas com igual espírito de piedade e reverência (6).

Relação de uma e outra com a Igreja e com o Magistério eclesiástico

10. A sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só depósito sagrado da


palavra de Deus, confiado à Igreja; aderindo a este, todo o Povo santo persevera unido aos seus
pastores na doutrina dos Apóstolos e na comunhão, na fracção do pão e na oração (cfr. Act. 2,42
gr.), de tal modo que, na conservação, actuação e profissão da fé transmitida, haja uma especial
concordância dos pastores e dos fiéis (7).

Porém, o encargo de interpretar autênticamente a palavra de Deus escrita ou contida na


Tradição (8), foi confiado só ao magistério vivo da Igreja (9), cuja autoridade é exercida em
nome de Jesus Cristo. Este magistério não está acima da palavra de Deus, mas sim ao seu
Disciplina: Teologia Fundamental
28
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato divino e com a
assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda religiosamente e a expõe fielmente,
haurindo deste depósito único da fé tudo quanto propõe à fé como divinamente revelado.

É claro, portanto, que a sagrada Tradição, a sagrada Escritura e o magistério da Igreja,


segundo o sapientíssimo desígnio de Deus, de tal maneira se unem e se associam que um sem os
outros não se mantém, e todos juntos, cada um a seu modo, sob a acção do mesmo Espírito
Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas.

CAPÍTULO III: A INSPIRAÇÃO DIVINA DA SAGRADA ESCRITURA E A SUA


INTERPRETAÇÃO

Natureza da inspiração e verdade da Sagrada Escritura

11. As coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na Sagrada Escritura, foram
escritas por inspiração do Espírito Santo. Com efeito, a santa mãe Igreja, segundo a fé
apostólica, considera como santos e canónicos os livros inteiros do Antigo e do Novo
Testamento com todas as suas partes, porque, escritos por inspiração do Espírito Santo (cfr. Jo.
20,31; 2 Tim. 3,16; 2 Ped. 1, 19-21; 3, 15-16), têm Deus por autor, e como tais foram confiados
à própria Igreja (1). Todavia, para escrever os livros sagrados, Deus escolheu e serviu-se de
homens na posse das suas faculdades e capacidades (2), para que, agindo Ele neles e por eles
(3), pusessem por escrito, como verdadeiros autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele queria (4).

E assim, como tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido
como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve acreditar que os livros da Escritura
ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salvação, quis que
fosse consignada nas sagradas Letras (5). Por isso, «toda a Escritura é divinamente inspirada e
útil para ensinar, para corrigir, para instruir na justiça: para que o homem de Deus seja perfeito,
experimentado em todas as obras boas» ( Tim. 3, 7-17 gr.).

Interpretação da Sagrada Escritura

12. Como, porém, Deus na Sagrada Escritura falou por meio dos homens e à maneira
humana (6), o intérprete da Sagrada Escritura, para saber o que Ele quis comunicar-nos, deve
investigar com atenção o que os hagiógrafos realmente quiseram significar e que aprouve a
Deus manifestar por meio das suas palavras.

Para descobrir a intenção dos hagiógrafos, devem ser tidos também em conta, entre
outras coisas, os «géneros literários». Com efeito, a verdade é proposta e expressa de modos
diversos, segundo se trata de géneros histéricos, proféticos, poéticos ou outros. Importa, além
disso, que o intérprete busque o sentido que o hagiógrafo em determinadas circunstâncias,
segundo as condições do seu tempo e da sua cultura, pretendeu exprimir e de facto exprimiu
servindo se os géneros literários então usados (7). Com efeito, para entender rectamente o que
autor sagrado quis afirmar, deve atender-se convenientemente, quer aos modos nativos de sentir,
dizer ou narrar em uso nos tempos do hagiógrafo, quer àqueles que costumavam empregar-se
frequentemente nas relações entre os homens de então (8).

Mas, como a Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada com o mesmo espírito com
que foi escrita (9), não menos atenção se deve dar, na investigação do recto sentido dos textos
sagrados, ao contexto e à unidade de toda a Escritura, tendo em conta a Tradição viva de toda a
Igreja e a analogia da fé. Cabe aos exegetas trabalhar, de harmonia com estas regras, por
entender e expor mais profundamente o sentido da Escritura, para que, mercê deste estudo de
algum modo preparatório, amadureça o juízo da Igreja. Com efeito, tudo quanto diz respeito à
interpretação da Escritura, está sujeito ao juízo último da Igreja, que tem o divino mandato e o
ministério de guardar e interpretar a palavra de Deus (10).
Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Condescendência de Deus

13. Portanto, na Sagrada Escritura, salvas sempre a verdade e a santidade de Deus,


manifesta-se a admirável «condescendência» da eterna sabedoria, «para conhecermos a inefável
benignidade de Deus e com quanta acomodação Ele falou, tomando providência e cuidado da
nossa natureza» (11). As palavras de Deus com efeito, expressas por línguas humanas,
tornaram-se ìntimamente semelhantes à linguagem humana, como outrora o Verbo do eterno Pai
se assemelhou aos homens tomando a carne da fraqueza humana.

CAPÍTULO IV: O ANTIGO TESTAMENTO

A história da salvação consignada nos livros do Antigo Testamento

14. Deus amantíssimo, desejando e preparando com solicitude a salvação de todo o


género humano, escolheu por especial providência um povo a quem confiar as suas promessas.
Tendo estabelecido aliança com Abraão (cfr. Gén. 15,18), e com o povo de Israel por meio de
Moisés (cfr. Ex. 24,8), revelou-se ao Povo escolhido como único Deus verdadeiro e vivo, em
palavras e obras, de tal modo que Israel pudesse conhecer por experiência os planos de Deus
sobre os homens, os compreendesse cada vez mais profunda e claramente, ouvindo o mesmo
Deus falar por boca dos profetas, e os difundisse mais amplamente entre os homens (cfr. Salm.
21, 28-29; 95, 1-3; Is. 2, 1-4; Jer. 3,17). A «economia» da salvação de antemão anunciada,
narrada e explicada pelos autores sagrados, encontra-se nos livros do Antigo Testamento como
verdadeira palavra de Deus. Por isso, estes livros divinamente inspirados conservam um valor
perene: «Tudo quanto está escrito, para nossa instrução está escrito, para que, por meio da
paciência e consolação que nos vem da Escritura, tenhamos esperança» (Rom. 15,4).

Importância do Antigo Testamento para os cristãos

15. A «economia» do Antigo Testamento destinava-se sobretudo a preparar, a anunciar


profèticamente (cfr. Lc. 24,44; Jo. 5,39; 1 Ped. 1,10) e a simbolizar com várias figuras (cfr. 1
Cor. 10,11) o advento de Cristo, redentor universal, e o do reino messiânico. Mas os livros do
Antigo Testamento, segundo a condição do género humano antes do tempo da salvação
estabelecida por Cristo, manifestam a todos o conhecimento de Deus e do homem, e o modo
com que Deus justo e misericordioso trata os homens. Tais livros, apesar de conterem também
coisas imperfeitas e transitórias, revelam, contudo, a verdadeira pedagogia divina (1). Por isso,
os fieis devem receber com devoção estes livros que exprimem o vivo sentido de Deus, nos
quais se encontram sublimes doutrinas a respeito de Deus, uma sabedoria salutar a respeito da
vida humana, bem como admiráveis tesouros de preces, nos quais, finalmente, está latente o
mistério da nossa salvação.

Unidade de ambos ao Testamentos

16. Foi por isso que Deus, inspirador e autor dos livros dos dois Testamentos, dispôs tão
sàbiamente as coisas, que o Novo Testamento está latente no Antigo, e o Antigo está patente no
Novo (2). Pois, apesar de Cristo ter alicerçado à nova Aliança no seu sangue (cfr. Lc. 22,20; 1
Cor. 11,25), os livros do Antigo Testamento, ao serem integralmente assumidos na pregação
evangélica (3) adquirem e manifestam a sua plena significação no Novo Testamento (cfr. Mt.
5,17; Lc. 24,27; Rom. 16, 25-26; 2 Cor. 3, 1416), que por sua vez iluminam e explicam.

CAPÍTULO V: O NOVO TESTAMENTO

Excelência do Novo Testamento


Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

17. A palavra de Deus, que é virtude de Deus para a salvação de todos os crentes (cfr.
Rom. 1,16), apresenta-se e manifesta o seu poder dum modo eminente nos escritos do Novo
Testamento. Com efeito, quando chegou a plenitude dos tempos (cfr. Gál. 4,4), o Verbo fez-se
carne e habitou entre nós cheio de graça e verdade (cfr. Jo. 1,14). Cristo estabeleceu o reino de
Deus na terra, manifestou com obras e palavras o Pai e a Si mesmo, e levou a cabo a Sua obra
com a Sua morte, ressurreição, e gloriosa ascensão, e com o envio do Espírito Santo. Sendo
levantado da terra, atrai todos a si (cfr. Jo. 12,32 gr.), Ele que é o único que tem palavras de vida
eterna (cfr. Jo. 6,68). Este mistério, porém, não foi descoberto a outras gerações como foi agora
revelado aos seus santos Apóstolos e aos profetas no Espírito Santo (cfr. Ef. 3, 46 gr.) para que
pregassem o Evangelho, e despertassem a fé em Jesus Cristo e Senhor, e congregassem a Igreja.
Os escritos do Novo Testamento são um testemunho perene e divino de todas estas coisas.

Origem apostólica dos Evangelhos

18. Ninguém ignora que entre todas as Escrituras, mesmo do Novo Testamento, os
Evangelhos têm o primeiro lugar, enquanto são o principal testemunho da vida e doutrina do
Verbo encarnado, nosso salvador.

A Igreja defendeu e defende sempre e em toda a parte a origem apostólica dos quatro
Evangelhos. Com efeito, aquelas coisas que os Apóstolos, por ordem de Cristo, pregaram,
foram depois, por inspiração do Espírito Santo, transmitidas por escrito por eles mesmos e por
varões apostólicos como fundamento da fé, ou seja, o Evangelho quadriforme, segundo Mateus,
Marcos, Lucas e João (1).

Carácter histórico dos Evangelhos

19. A santa mãe Igreja defendeu e defende firme e constantemente que estes quatro
Evangelhos, cuja historicidade afirma sem hesitação, transmitem fielmente as coisas que Jesus,
Filho de Deus. durante a sua vida terrena, realmente operou e ensinou para salvação eterna dos
homens, até ao dia em que subiu ao céu (cfr. Act. 1. 1-2). Na verdade, após a ascensão do
Senhor, os Apóstolos transmitiram aos seus ouvintes, com aquela compreensão mais plena de
que eles, instruídos pelos acontecimentos gloriosos de Cristo e iluminados pelo Espírito de
verdade (2) gozavam (3), as coisas que Ele tinha dito e feito. Os autores sagrados, porém,
escreveram os quatro Evangelhos, escolhendo algumas coisas entre as muitas transmitidas por
palavra ou por escrito, sintetizando umas, desenvolvendo outras, segundo o estado das igrejas,
conservando, finalmente, o carácter de pregação, mas sempre de maneira a comunicar-nos
coisas autênticas e verdadeiras acerca de Jesus (4). Com efeito, quer relatassem aquilo de que se
lembravam e recordavam, quer se baseassem no testemunho daqueles «que desde o princípio
foram testemunhas oculares e ministros da palavra», fizeram-no sempre com intenção de que
conheçamos a «verdade» das coisas a respeito das quais fomos instruídos (cfr. Lc. 1, 2-4).

Os restantes escritos do Novo Testamento

20. O cânon do Novo Testamento contém igualmente além dos quatro Evangelhos, as
Epístolas de S. Paulo e outros escritos apostólicos redigidos por inspiração do Espírito Santo,
com os quais, segundo o plano da sabedoria divina, é confirmado o que diz respeito a Cristo
Senhor, é explicada mais e mais a sua genuína doutrina, é pregada a virtude salvadora da obra
divina de Cristo, são narrados os começos da Igreja e a sua admirável difusão, e é anunciada a
sua consumação gloriosa.

Com efeito, o Senhor Jesus assistiu os seus Apóstolos como tinha prometido (cfr. Mt.
28,20) e enviou-lhes o Espírito consolador que os devia introduzir na plenitude da verdade (cfr.
Jo. 16,13).

CAPÍTULO VI: A SAGRADA ESCRITURA NA VIDA DA IGREJA


Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

A Igreja venera as Sagradas Escrituras

21. A Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do
Senhor, não deixando jamais, sobretudo na sagrada Liturgia, de tomar e distribuir aos fiéis o pão
da vida, quer da mesa da palavra de Deus quer da do Corpo de Cristo. Sempre as considerou, e
continua a considerar, juntamente com a sagrada Tradição, como regra suprema da sua fé; elas,
com efeito, inspiradas como são por Deus, e exaradas por escrito duma vez para sempre,
continuam a dar-nos imutàvelmente a palavra do próprio Deus, e fazem ouvir a voz do Espírito
Santo através das palavras dos profetas e dos Apóstolos. É preciso, pois, que toda a pregação
eclesiástica, assim como a própria religião cristã, seja alimentada e regida pela Sagrada
Escritura. Com efeito, nos livros sagrados, o Pai que está nos céus vem amorosamente ao
encontro de Seus filhos, a conversar com eles; e é tão grande a força e a virtude da palavra de
Deus que se torna o apoio vigoroso da Igreja, solidez da fé para os filhos da Igreja, alimento da
alma, fonte pura e perene de vida espiritual. Por isso se devem aplicar por excelência à Sagrada
Escritura as palavras: «A palavra de Deus é viva e eficaz» (Hebr. 4,12), «capaz de edificar e dar
a herança a todos os santificados», (Act. 20,32; cfr. 1 Tess. 2,13).

Traduções da Sagrada Escritura

22. É preciso que os fiéis tenham acesso patente à Sagrada Escritura. Por esta razão, a
Igreja logo desde os seus começos fez sua aquela tradução grega antiquíssima do Antigo
Testamento chamada dos Setenta; e sempre tem em grande apreço as outras traduções, quer
orientais quer latinas, sobretudo a chamada Vulgata. Mas, visto que a palavra de Deus deve
estar sempre acessível a todos, a Igreja procura com solicitude maternal que se façam traduções
aptas e fiéis nas várias línguas, sobretudo a partir dos textos originais dos livros sagrados. Se
porém, segundo a oportunidade e com a aprovação da autoridade da Igreja, essas traduções se
fizerem em colaboração com os irmãos separados, poderão ser usadas por todos os cristãos.

Investigação Bíblica

23. A esposa do Verbo encarnado, isto é, a Igreja, ensinada pelo Espírito Santo, esforça-
se por conseguir uma inteligência cada vez mais profunda da Sagrada Escritura, para poder
alimentar contìnuamente os seus filhos com os divinos ensinamentos; por isso, vai fomentando
também convenientemente o estudo dos santos Padres do Oriente e do Ocidente, bem como das
sagradas liturgias. É preciso, porém, que os exegetas católicos e os demais estudiosos da
sagrada teologia, trabalhem em íntima colaboração de esforços, para que, sob a vigilância do
sagrado magistério, lançando mão de meios aptos, estudem e expliquem as divinas Letras de
modo que o maior número possível de ministros da palavra de Deus possa oferecer com fruto ao
Povo de Deus o alimento das Escrituras, que ilumine o espírito, robusteça as vontades, e inflame
os corações dos homens no amor de Deus (1). O sagrado Concilio encoraja os filhos da Igreja
que cultivam as ciências bíblicas para que continuem a realizar com todo o empenho, segundo o
sentir da Igreja, a empresa felizmente começada, renovando constantemente as suas forças (2).

Importância da Sagrada Escritura para a Teologia

24. A sagrada Teologia apoia-se, como em seu fundamento perene, na palavra de Deus
escrita e na sagrada Tradição, e nela se consolida firmemente e sem cessar se rejuvenesce,
investigando, à luz da fé, toda a verdade contida no mistério de Cristo. As Sagradas Escrituras
contêm a palavra de Deus, e, pelo facto de serem inspiradas, são verdadeiramente a palavra de
Deus; e por isso, o estudo destes sagrados livros deve ser como que a alma da sagrada teologia
(3). Também o ministério da palavra, isto é, a pregação pastoral, a catequese, e toda a espécie de
instrução cristã, na qual a homilia litúrgica deve ter um lugar principal, com proveito se
alimenta e santamente se revigora com a palavra da Escritura.
Disciplina: Teologia Fundamental
32
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Leitura da Sagrada Escritura

25. É necessário, por isso, que todos os clérigos e sobretudo os sacerdotes de Cristo e
outros que, como os diáconos e os catequistas, se consagram legìtimamente ao ministério da
palavra, mantenham um contacto íntimo com as Escrituras, mediante a leitura assídua e o estudo
aturado, a fim de que nenhum deles se torne «pregador vão e superficial da palavra de Deus. por
não a ouvir de dentro» (4), tendo, como têm, a obrigação de comunicar aos fiéis que lhes estão
confiados as grandíssimas riquezas da palavra divina, sobretudo na sagrada Liturgia. Do mesmo
modo, o sagrado Concílio exorta com ardor e insistência todos os fiéis, mormente os religiosos,
a que aprendam «a sublime ciência de Jesus Cristo» (Fil. 3,8) com a leitura frequente das
divinas Escrituras, porque «a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo» (5). Debrucem-
se, pois, gostosamente sobre o texto sagrado, quer através da sagrada Liturgia, rica de palavras
divinas, quer pela leitura espiritual, quer por outros meios que se vão espalhando tão
louvàvelmente por toda a parte, com a aprovação e estímulo dos pastores da Igreja. Lembrem-
se, porém, que a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada de oração para que seja
possível o diálogo entre Deus e o homem; porque «a Ele falamos, quando rezamos, a Ele
ouvimos, quando lemos os divinos oráculos» (6).

Compete aos sagrados pastores «depositários da doutrina apostólica» (7), ensinar


oportunamente os fiéis que lhes foram confiados no uso recto dos livros divinos, de modo
particular do Novo Testamento, e sobretudo dos Evangelhos. E isto por meio de traduções dos
textos sagrados, que devem ser acompanhadas das explicações necessárias e verdadeiramente
suficientes, para que os filhos da Igreja se familiarizem dum modo seguro e. útil com a Sagrada
Escritura, e se penetrem do seu espírito.

Além disso, façam-se edições da Sagrada Escritura, munidas das convenientes


anotações, para uso também dos não cristãos, e adaptadas às suas condições; e tanto os pastores
de almas como os cristãos de qualquer estado procuram difundi-las com zelo e prudência.

Influência e importância da renovação escriturística

26. Deste modo, pois, com a leitura e estudo dos livros sagrados, «a palavra de Deus se
difunda e resplandeça (2 Tess. 3,1), e o tesouro da revelação confiado à Igreja encha cada vez
mais os corações dos homens. Assim como a vida da Igreja cresce com a assídua frequência do
mistério eucarístico, assim também é lícito esperar um novo impulso de vida espiritual, se
fizermos crescer a veneração pela palavra de Deus, que «permanece para sempre» (Is. 40,8; cfr.
l Pedr. 1, 23-25).

Roma, 18 de Novembro de 1965


PAPA PAULO VI

Notas
1. Cfr. S. Agostinho, De catechizandis rudibus, c. IV, 8: PL 40, 316.
2. Cfr. Mt. 11,27; Jo. 1,14 e 17; 14,6; 17, 1-3; 2 Cor. 3,16 e 4,6; Ef. 1, 3-14.
3. Epist. ad Diognetum, c. VII, 4: Funk, Patres Apostolici, I, p. 403.
4. Conc. Vat. I, Const. dogmatica De fide catholica, Dei Filius, cap. 3: Denz. 1789 (3008).
5. Conc. Araus. II, can. 7: Denz, 180 (377); Conc. Vat. I, 1. c.: Denz. 1791 (3010).
6. Conc. Vat. I, Const. dogmatica De fide catholica, Dei Filius, cap. 2 Denz. 1786 (3005).
7. Ibid.: Denz. 1785 e 1786 (3004 e 3005).
Capítulo II
1. Cfr. Mt. 28, 19-20 e Mc. 16,15; Concilio Tridentino decr. De canonicis Scripturis: Denz. 783
(1501).
2. Cfr. Concílio Tridentino, I. c.; Concílio Vat I, sess. III, Const. dogmatica De fide catholica,
Dei Filius, cap. 2. Denz. 1787 (3006).
3. S. Ireneu, Adv. Haer. III, 3, 1: PG 7, 848: Harvey, 2, p. 9.
Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

4. Cfr. II Concílio Niceno, Denz. 303 (602); IV Concilio Constantinopolitano, sess. X, can. 1:
Denz. 336 (650-652).
5. Cfr. Concílio Vat. I, Const. dogm. De fide catholica, Dei Filius, cap. 4: Denz. 1800 (3020).
6. Cfr. Concílio Tridentino, Decr. De canonicis scripturis: Denz. 783 (1501).
7. Cfr. Pio XII, Const. apost. Munificentissimus Deus, 1 nov. 1950: AAS 42 (1950) 756;
conforme as palavras de S. Cipriano, Epist. 66,8: CSEL, 3,2, 733: «A Igreja e o povo unido ao
sacerdote e o rebanho unido ao seu pastor».
8. Cfr. Concilio Vat. I, Const. dogmatica De fide catholica, Dei Filius, cap. 3: Denz. 1792
(3011).
9. Cfr. Pio XII, Enciclica Humani generis, 12 ago. 1950: AAS 42 (1950) 568-569: Denz. 2314
(3886).
Capítulo III
1. Cfr. Conc. Vat. I, Const. dogm. de fide cath., Dei Filius, cap. 2: Denz. 1787 (3006). Denz. da
Comissão Biblica, 18 jun. 1915: Denz. 2180 (3629) ; EB 420. Santo Officio, Epist.; 22 dez.
1923: EB 499.
2. Cfr. Pio XII, Encíclica Divino afflante Spiritu, 30 set. 1944: AAS 35 (1943) 314; EB 556.
3. Em o por o homem: cfr. Hebr. 1,1 e 4,7 (Em); 2 Sam. 23,2; Mt. 1,22 e passim (por); Conc.
Vat. I: schema de doctr. cath., nota 9: Coll. Lac. VII, 522.
4. Leão XIII, Encíclica Providentissimus Deus, 18 nov. 1893: Denz. 1952 (3293) EB 125.
5. Cfr. S. Agostinho, De Gen. ad Litt. 2, 9, 20: PL 34, 270-271; CSEL 28, 1, 46-47 e Epist. 82,
3: PL 33, 277: CSEL 34, 2, p. 354.—S. Tomás, De Ver. q. 12, a. 2 c. —Conc. de Trento, decr.
De canonicis Scripturis: Denz. 783 (1501) —Ledo XIII, Enc. Providentissimus: EB 121, 124,
126-127—Pio XII, Enc. Divino afflante Spiritu: EB 539.
6. S. Agostinho, De civ. Dei, XVII, 6, 2: PL 41, 537: CSEL XL 2, 228.
7. S. Agostinho, De doct. christ., III, 18, 26: PL 34, 75-76; CSEL 80, 95.
8. Pio XII, 1. c.: Denz. 2294 (3829-3830); EB 557-562.
9. Cfr. Bento XV, Enc. Spiritus Paraclitus, 15 set. 1920: EB 469.- S. Jerónimo, In Gal., 5, 19-
21: PL 26, 417 A.
10. Cfr. Conc. Vat. I, Const. dogm. De fide catholica, Dei Filius, cap. 2: Denz. 1788 (3007).
11. S. João Crisóstomo, In Gen. 3,8 (hom. 17,1): PG 53, 134. «Acomodação», em grego
synkatábasis.
Capítulo IV
1. Pio XI, Enc. Mit brennender Sorge, 14 mar. 1937: AAS 29 (1937) 151.
2. S. Agostinho, Quaest. in Hept. 2, 73: PL 34, 623.
3. S. Ireneu, Adv.: Haer. III, 21, 3: PG 7, 950: ( = 25, 1: Harvey 2, p. 115). S. Cirilo de
Jerusalém, Caech. 4, 35: PG 33, 497, Teodoro de Mopsuesta, In Soph. 1, 4-6: PG 66, 452 D-453
A.
Capítulo V
1. Cfr. S, Ireneu, Adv. Haer. III, 11, 8: PG. 7, 885; ed. Sagnard, p. 194.
2. Cfr. Jo. 14,26; 16,13,
3. Cfr. Jo. 2,22; 12,16; de acordo com 14,26; 16, 12-13; 7,39.
4. Cfr. Instrução Sancta Mater Ecclesia, da Pontifícia Comissão Bíblica: AAS 56 (1964) 715.
Capítulo VI
1. Cfr. Pio XII, Enc. Divino afflante, 30. set. 1943: EB 551, 553, 567. — Pontifícia Comissão
Bíblica, Instructio de S. Scriptura in Clericorum seminariis et Religiosorum Collegiis recte
docenda, 13 maio 1950: AAS 42 (1950) 495-505.
2. Cfr. Pio XII, 1. c.: EB 569.
3. Cfr. Leão XIII, Enc. Providentissimus Deus: EB 114; Bento XV, Enc., Spiritus Paraclitus,
15. set. 1920: EB 483.
4. S. Agostinho, Serm. 179, 1: PL 38, 966.
5. S. Jerónimo, Comm. in Is. Prol.: PL 24, 17. — Cfr. Bento XV, Enc. Spiritus Paraclitus: EB
475-480; Pio XII, Enc. Divino afflante: EB 544.
6. S. Ambrósio, De officiis ministrorum I, 20, 88: PL 16, 50.
7. S. Ireneu, Adv. Haer. IV, 32, 1: PG 7, 1071; ( = 49, 2), Harvey, 2, p. 255.
Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

COMENTÁRIO AO TEXTO

a) Natureza e objeto da revelação: Da revelação é preciso dizer que ela é efeito do


beneplácito divino. É graça, é livre iniciativa de Deus, e não o efeito de uma coação ou
solicitação por parte do homem. Como obra de amor ela precede da bondade e da
sabedoria de Deus. Deus falou a humanidade. Mediante sua palavra o que é Invisível se
fez conhecer, que sua transcendência se fez proximidade. A economia é economia de
palavra e de fé. A visão está para além da morte. Nosso Deus é o Deus da palavra: fala a
Abraão, a Moises, aos profetas e, por eles, fala a seu povo. Pelo Cristo Deus fala aos
apóstolos e por eles a nós. Nele é o Filho que nos fala pessoalmente. Dirigindo-se ao
homem, ser de carne e espírito, mergulhado no tempo, Deus comunicou-se com o
homem pelas vias da encarnação e da história. Pela primeira vez um documento do
magistério descreve assim a economia da revelação em seu exercício concreto e nessa
fase ativa que a faz existir. Esses gestos são, por exemplo, no Antigo Testamento:
acontecimentos do Êxodo, o estabelecimento da monarquia, os julgamentos de Deus
manifestados na derrota dos exércitos, o exílio, o cativeiro e a restauração. Em o Novo
Testamento: são as ações da vida de Cristo, principalmente seus milagres, sua morte e
sua ressurreição. A ressurreição de Cristo confirma a verdade de seu testemunho e a
realidade de sua missão como Filho de Deus, vindo para salvar os homens do pecado e
da morte. Muitas vezes, as obras são passíveis de equivoca. É função das palavras
dissipar essa ambigüidade e proclamar o sentido autêntico e misterioso da ações
divinas: “As palavras proclamam e iluminam o mistério contido nas obras”. O concílio,
insistindo nas obras e nas palavras como elementos constitutivos da revelação,e na sua
íntima união põe em evidência o caráter histórico e sacramental da revelação:
acontecimentos iluminados pela palavra dos profetas, do Cristo e dos apóstolos. Cristo
é, ao mesmo tempo, mediador e plenitude da revelação.
b) A preparação da revelação evangélica A primeira frase afirma e distingue uma dupla
manifestação de Deus: a primeira, pelo testemunho da criação, dirigida a todos os
homens; a segunda, por uma revelação positiva, dirigida a nossos primeiros pais. O
mesmo Deus que criou o cosmo manifestou-se na história humana. Em poucas palavras,
o texto descreve esta primeira manifestação de Deus na criação. O mesmo Deus que se
manifestou a humanidade por seu verbo criador é também o Deus salvador. A última
frase evoca rapidamente dois milênios de história, de Abraão a Jesus Cristo: Deus
chamou Abraão, instituiu-o e formou Israel seu povo, preparando assim o caminha para
o Evangelho.

CONCLUSÕES:

1) Autor a finalidade da revelação: A revelação é uma ação de toda a Trindade: o Pai, que
tem iniciativa; o Verbo que, por sua encarnação, é o mediador; o Espírito que torna a
palavra de Cristo assimilável para a alma, que move o coração do homem e volta-o para
Deus. A revelação é, pois, iniciativa gratuita da benevolência divina para com o
homem, puro dom do seu amor, do mesmo modo toda economia sobrenatural,
encarnação, redenção, eleição.
2) Natureza da revelação: Essa comunicação entre o Deus transcendente e sua criatura,
comunicação que chamamos revelação, a Igreja descreve-a, com os termos da própria
Escritura, como palavra de alguém a alguém: Deus falou a humanidade.
3) História da revelação: A atividade reveladora de Deus, iniciada na aurora da
humanidade, constitui uma longa série de intervenções das quais Cristo é o tema e o
ponto dominante. O Cristo é ao mesmo tempo o mediador e a plenitude da revelação.
Nele conhecemos a verdade de Deus, verdade que nos conduz a vida.
4) Objeto da revelação: O objeto material da revelação pode ser considerado de duas
maneiras. Em se mesma: Deus e o “mistério” de sua vontade, tal como nos foi
manifestado no Cristo e pelo Cristo; ou então, comparativamente com a capacidade
natural da inteligência criada.
Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

5) A revelação e seus nomes: A revelação em sua forma plena pode ser chamada
equivalentemente: a palavra de Deus, a palavra divina, a palavra revelada, a palavra
pronunciada por Deus, a palavra testada, a revelação...
6) Revelação, Escritura, Tradição: A revelação chega até nós mediante a tradição e a
Escritura, ambas estreitamente unidas e interdependentes. Ambas derivam da mesma
fonte divina, exprimem o mesmo mistério e concorrem para o mesmo fim, a salvação da
humanidade.
7) Revelação, Igreja, Magistério: O depósito da revelação formado pela Tradição e pela
Escritura, foi confiado a Igreja toda, isto é, ao povo cristão unido a seus sacerdotes, para
que ela viva desse depósito e entre todos os fiéis haja união na profissão e exercício da
fé transmitida, pertence, porém, unicamente ao Magistério a função de interpretar o
depósito da fé.
8) Característica da revelação:
a) a revelação é interpessoal: ao contrário da revelação natural pela qual Deus se
manifesta ao Espírito como objeto e se deixa antes deduzir como o princípio e fim
de todas as coisas, a revelação sobrenatural é palavra de Deus, diálogo e mensagem.
b) A revelação é gratuita: livre iniciativa da benevolência de Deus que se inclina para
o homem, iniciativa de seu amor salvífico.
c) A revelação é social: O homem criado por Deus não é apenas indivíduo, mas
sociedade. Assim também a revelação, que dissemos ser interpessoal é também
social, destinada a toda a humanidade.
d) A revelação é histórica: primeiro porque se apresenta como intervenção de Deus na
história, intervenções interligadas e tendo em vista um único desígnio de salvação.
A revelação é acontecimento da história e história.
e) A revelação é encarnada: recebida numa inteligência humana, deve acomodar-se as
condições da concepção humana. O objeto da revelação é o designo de Deus, mas é
humano e limitado o modo de concepção e expressão desse designo. A revelação é
doutrinal e realista: em sua forma plena, a revelação não é pura ação de Deus que se
oferece à amizade humana, puro contato do espírito conosco, pura inteligência
interna sem conteúdo e sem doutrina fixa. É uma mensagem promulgada pelo
Cristo e transmitida pelos Apóstolos.
f) A revelação é salvífica: é feita para a salvação, para a salvação de todos os homens.
É um conhecimento que tem por finalidade a vida. Não é sabedoria humana,
invenção filosófica, nem produto do subconsciente, e sim sabedoria divina,
essencialmente ordenada para a salvação.
9) A fé resposta a revelação: A fé, resposta à revelação, e ao mesmo tempo dom pessoal de
todo homem que livremente se entrega a Deus numa homenagem total de sua
inteligência e de sua vontade, livre assentimento à verdade por Deus revelada. É ainda
ao Espírito que se deve atribuir o aprofundamento da fé.

IV - PARTE – REFLEXÃO TEOLÓGICA

A teologia procura penetrar o mistério que já possui pela fé, procurando obter uma
inteligência mais viva. Portanto; a função reflexiva da teologia não se justapõe a função
positiva: é antes sua decorrência homogênea. É inteligência, mas inteligência da dado revelado.
Nesta última parte queremos estudar os problemas levantados pelo próprio dado revelado.

ENCARNAÇÃO E REVELAÇÃO

A teologia contemporânea consiste muito na necessidade de estabelecer um nexo


estreito entre a Revelação e a Pessoa do Cristo. Ela também reclama uma fidelidade mais
autêntica ao realismo da encarnação, uma fidelidade levada às últimas conseqüências. Se a
natureza humana do Cristo não é um disfarce, mas a “auto-expressão de Deus quando Seu
Verbo é proferido com amor em o nada absoluto e sem Deus”, se pela encarnação houve
Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

verdadeira “in-humanizaçao” de Deus, então é o homem enquanto homem que se torna


expressão do mistério de Deus.

No Antigo Testamento, para a compreensão da Revelação o problema central é o das


relações entre encarnação e Revelação, entre o Cristo e a Revelação. Qual é pois a relação entre
o Cristo e a Revelação? E, mais precisamente, como o Cristo utilizou os caminhos da
encarnação para revelar-nos Deus e seus desígnios de salvação?

Inteligibilidade de uma economia de encarnação para a revelação

Santo Tomás declara tranqüilamente: da mesma maneira que o homem, para comunicar
seu pensamento, o reveste de certo modo, com letras e sons, “assim também, Deus querendo
manifestar-se aos homens, revestiu de carne, no tempo, seu Verbo concebido desde toda
eternidade”. Em se tratando de uma Revelação de Deus ao homem mediante a encarnação, essa
inteligibilidade aparece evidente quer consideremos o mistério do ponto de vista de Deus, quer
do ponto de vista do homem.

Primeiramente, Deus exprime a si mesmo, em si mesmo, para si mesmo: Ele se conhece


em seu verbo. E quando Ele se exprime ad extra, então essa expressão é a expressão desse verbo
imanente. Era sumamente conveniente que o Verbo de Deus fosse o seu Revelador, que o Filho
do Pai, seu Amém, iniciasse o homem em sua vida filial. Também os padres gregos, como
Justino, Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes, vêem no Verbo, o único revelador possível.
Sendo a Revelação, Revelação de pessoas e não de problemas, somente uma pessoa poderia
introduzir-nos no conhecimento do mistério trinitário.

Pela encarnação Deus tomou o suporte material que nos era necessário para que a sua
presença nos fosse acessível. No Cristo Deus tornou-se presente para nós de maneira humana,
ao mesmo tempo que se manifestava como Deus. Em Jesus Cristo e por Jesus Cristo, aquele que
em Deus é a verdade e o Amém do Pai, interpreta para nós o Pai. Assim, o Cristo diz
humanamente o que Deus quer dizer de si mesmo.

Plenitude e realismo da encarnação

É preciso insistir na plenitude e no realismo da encarnação. A humanidade do Cristo


não é uma simples aparência, uma espécie de personagem da qual se servisse para manifestar
sua presença e dissimulá-la ao mesmo tempo. A natureza humana é a expressão o próprio Deus,
“a auto-expressão” de Deus-para-fora-de-si-mesmo. A segunda pessoa da Santíssima Trindade é
pessoalmente homem; esse homem é pessoalmente Deus. O Cristo é Deus de maneira humana e
é homem de maneira divina. As palavras do Cristo são palavras humanas de Deus; os atos de
Cristo são os atos de Deus em forma de manifestação humana.
Deus mesmo, em pessoa, concretamente se revelou no Cristo: tal é o fato inaudito, decisivo que
o Novo Testamento proclama e se esforça para traduzir pela plenitude de suas fórmulas nas
quais o Cristo e o conhecimento de Deus estão indissoluvelmente ligados: “Deus nestes últimos
tempos, falou a nós no Filho” (Hb 1,2).

É essa plenitude da encarnação que os Santos Padres exprimem em sua forma ao mesmo
tempo concisa e concreta: “o conhecimento de Deus é Jesus Cristo”, diz Santo Inácio de
Antioquia. Ou ainda: “não existe senão um Deus, manifestado por Jesus Cristo seu filho, que é a
Palavra saída do silencio.” Conforme Santo Irineu, a Revelação é a epifania do Pai através do
Verbo encarnado: “Pelo Filho, feito visível e palpável, apareceu o Pai.

Mais propriamente, a encanação é o caminho escolhido por Deus para revelar e se


revelar. Tem por fim tornar possível, ao desígnio do homem, o conhecimento de Deus e de seu
desígnio de salvação. Portanto, é legítimo dizer que a encarnação do Filho – concretamente
entendida – é a Revelação do Filho e, por ele, do Pai.
Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Revelação mediante a encarnação

Se o Filho se encarna para revelar, devemos afirmar que todos os recursos da natureza
humana serão assumidos por ele para servirem de expansão à sua pessoa de Filho de Deus.
Portanto, as palavras do Cristo, seu ensinamento, e também suas ações, suas atitudes, seu
comportamento, toda a sua existência humana serão assumidos por ele para servirem de
expressão à sua pessoa de Filho de Deus. Portanto, as palavras de Cristo, seu ensinamento, e
também suas ações, atitudes, comportamento, também toda a sua existência humana será
perfeitamente utilizada para revelar-nos as profundezas do mistério divino.

A Revelação, portanto, se realiza seguindo uma dupla linha de manifestação:

a) Por palavras explicitando os gestos: Os gestos e as ações, por sua vez, encarnam as
palavras e lhes dão um valor de vida. Assim, o acontecimento da encarnação que
podemos chamar de Revelação “em primeiro grau”, deve completar-se pela Revelação-
palavra que é seu comentário necessário. A Revelação como acontecimento supõe a
Revelação como palavra.
b) A palavra de Cristo é, pois o elemento da Revelação. Isso por diversos títulos:

1. Por que Deus, assumindo a humanidade, assume ao mesmo tempo a palavra como
expressão privilegiada entre os homens, ou seja, Ele diz com palavras inteligíveis o que
está realizando.
2. Por que estando a verdade no juízo, e não na simples apresentação dos acontecimentos,
é pela palavra que se exprime o juízo, que une o sujeito ao predicado.
3. Porque o objeto da Revelação não são apenas os fatos históricos, mas também os
mistérios da Trindade, da filiação Divina do Cristo, de nossa participação na vida da
Trindade.
4. Porque as ações, os gestos, os acontecimentos, os mistérios da vida de Cristo não podem
ser cridos com fé divina a não ser que sejam apresentados como objeto do testemunho
divino.

Proposição humana e verdade divina

A encarnação parece resolver a mais grave e aparentemente única dificuldade da


Revelação, ou seja, a de uma comunicação autêntica do desígnio divino para o espírito humano.
A união de naturezas na unidade da Pessoa possibilita a passagem do plano divino, inacessível
ao plano humano e ao mesmo tempo garante a fidelidade da transmissão. O Cristo é o perfeito
Vidente-Deus que exprime em linguagem humana o que vê. Efetua-se pois a passagem da visão
divina à expressão humana. Se a Revelação chega até nós mediante noções e proposições
humanas, como podem essas noções e proposições dar-nos acesso ao mistério divino? Como
pode Deus garantir a verdade humana duma afirmação essencialmente composta de ingredientes
humanos? Vejamos duas posições:

a) Karl Barth: responde que a verdade da afirmação humana, isto é, a correspondência


entre o discurso humano e a realidade divina, é garantida apenas pela graça da
Revelação. Mas essa resposta não resolve o problema.
b) P. H. Bouillard: diz que apoiados ou não pela Revelação, conceitos e termos atribuídos
a Deus são nossos, são humanos. Trata-se de saber como um discurso humano, mesmo
baseado na Bíblia, pode referir-se a Deus.

Portanto, a Revelação,mesma feita por Cristo, não é imaginável a não ser que tenha por
base a analogia, como seu processo de negação e superação. Quem não aceita a analogia deve
também recusar a Revelação. Pois a Revelação supõe dois termo – Deus e o homem – que ao
mesmo tempo se aproximam e se distinguem. Se é possível a distinção entre Deus e o homem,
Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

estamos reduzidos ao monismo. Se, pelo contrário, for impossível a aproximação entre Deus e o
homem, então estamos reduzidos ao agnosticismo absoluto ou ao transcendentalismo absoluto
que condena Deus ao silêncio. A analogia nega ao mesmo tempo que a palavra divina seja da
mesma natureza da palavra humana e que seja uma palavra sem qualquer relação com a palavra
humana incapaz, portanto, de estabelecer qualquer diálogo verdadeiro.

Porque Deus fez todas as coisas e particularmente a natureza humana, como um reflexo
de sua própria perfeição, todas as coisas tem sua fonte em Deus, e por isso é possível uma
relação entre Deus e o homem. A Revelação pela palavra pressupõe a linguagem da criação
feita por Deus, do mesmo modo que a graça tem seu apoio na natureza intelectual e espiritual do
homem. Assim, não é apenas porque foram escolhidos pelo Cristo que nosso conceitos e nossos
temos humanos são válidos para enunciar o mistério; é antes porque eles tem uma relação com o
Ser Divino que o Cristo os pôde utilizar.

Contudo, paternidade e Revelação são duas analogias reveladas, escolhidas pelo Cristo,
que, têm, portanto o caráter necessário e normativo de analogias impostas pelo próprio Deus.
Essas analogias reveladas despertam a reflexão humana que procura purificá-las e transfigurá-
las para poder entrever alguma coisa das profundezas da vida divina. Trabalho é feito sob a
direção da Igreja que aprova, corrige ou recusa.

A Revelação do Cristo não se compõe apenas de analogias reveladas: compreende


também juízos que ligam essas analogias entre si. Assim, é a analogia que legitima o uso dos
termos da proposição; é a qualidade de Filho do Pai que permite ao Cristo uni-los em juízo
conformes à realidade do mistério divino.

Situação do Cristo

A encarnação estabelece entre o Cristo, os apóstolos e a Igreja, com referência à


Revelação, relações que deviemos agora definir. O Cristo é ao mesmo tempo Deus que revela e
Deus Revelado, caminho e sina da Revelação, resposta a Revelação.

O Cristo é Deus que revela, pois o Verbo de Deus, o Filho, Jesus Cristo, é tudo uma só
realidade. O Cristo é causa e autor da Revelação, pois a Revelação origina-se tanto do Cristo
como do Pai e do Espírito.

O Cristo sendo o Deus que revela é ao mesmo tempo o Deus Revelado. Ele é ao mesmo
tempo o Deus que fala do qual se fala, a testemunha e o objeto do testemunho, autor e objeto da
Revelação, aquele que revela o mistério e o próprio mistério em Pessoa. Enquanto Verbo
Encarnado, ele é a expressão que revela; enquanto Verbo de Deus, é em Pessoa a Verdade que
ele prega e ensina.

No Antigo Testamento Deus utilizou-se do psiquismo dos profetas para se fazer


conhecer; agora, une-se hipostaticamente à natureza humana e manifesta seu desígnio de vida
pelas palavras, ações, gestos, atitudes e comportamentos do Cristo.

O Cristo é o Sinal da Revelação: sinal ao mesmo tempo confirmativo (motivo de


credibilidade) e figurativo (símbolo).

Finalmente, o Cristo é a perfeita resposta que a humanidade dá a Revelação. Ao


movimento descendente da Revelação corresponde um movimento ascendente, que vai do
Cristo ao Pai. O Cristo é ao mesmo tempo Revelação do amor do Pai e resposta a esse amor.
O Cristo estabelece com o Pai esse dialogo harmonioso que é a norma de toda resposta e de
todo encontro com Deus. Cristo é, pois, a Plenitude da Revelação. Nele culmina a Revelação
como ação, como economia, como mensagem e como encontro.
Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Situação dos Apóstolos

Na economia da encarnação da Revelação os apóstolos ocupam lugar único com relação


ao Cristo e à Igreja. Eles são as testemunhas privilegiadas de “antemão designadas”,
“escolhidas”, para serem ministros da palavra. Constituem o germe do novo povo que o Cristo
conquistou com seu sangue, e desse povo eles serão os pastores.

Sua missão é uma participação na missão que o próprio Cristo recebera do Pai.
Tertuliano fala da doutrina que as Igrejas receberam dos apóstolos; os apóstolos, do Cristo; o
Cristo de Deus.

Cristo veio para fundar uma religião cujo centro e o objetivo é Ele mesmo em pessoa.
Se a Revelação se realizou pelo o encontro com o Deus Vivo, em Jesus Cristo, então somente
poderão ser mediadores autênticos da Revelação os que foram testemunhas de sua vida,
iniciados no mistério de Sua Pessoa. Sem eles não podemos atingir Cristo. Quem se separa deles
perde o contato com o Cristo. Pois, só os apóstolos tiveram do Cristo uma experiência viva e
direta.

Apesar dessa plenitude de experiência, os apóstolos não transmitiram tudo nem o


podiam transmitir. Sua pregação não podia esgotar aquilo que há de inefável em qualquer
encontro pessoal. Transmitiram pelo menos o essencial das palavras e das ações do Cristo:
aquilo que propriamente constitui a economia da salvação. Transmitiram o ensinamento do
Cristo com a máxima fidelidade, levando em conta os ouvintes e os ambientes.

A situação da Igreja

É pois diversa a condição dos apóstolos e a da Igreja. Esse diferença de condição


aparece claramente na primeira Carta de São João. Os cristãos aos quais ele se dirige não
conheceram a Jesus; não tem outro meio de conhecê-lo senão o testemunho de quem viveu com
ele. Como poderiam os cristão participar desta experiência? Mediante o testemunho apostólico e
a fé nesse testemunho. É através da pregação objetiva do apóstolo, subjetivamente acolhida pela
fé e praticada pelos mandamentos, que os cristãos entrarão em comunhão com o Verbo da Vida.
A experiência que os apóstolos tiveram do Cristo é levada ao conhecimento dos homens pelo
testemunho e pelo querigma apostólico. O conteúdo dessa Boa – nova, é a mensagem da
salvação, a palavra de verdade, ou simplesmente o Cristo. A ação que corresponde a
testemunhar, pregar, evangelizar, é a de ouvir com fé. O que propõe primeiramente a Igreja, não
é, a experiência concreta, viva, intuitiva da Pessoa do Cristo como a puderam ter os apóstolos
mediante a encarnação, mas é o testemunho apostólico sobre o fazer e o ensinar do Cristo:
testemunho que se dirige “ex auditu” à inteligência que, internamente iluminada pelo Espírito
Santo, assimila o que os ouvidos ouviram.

Portanto, os documentos do Magistério estão conforme aos dados da Escritura e da


Tradição quando equivalentemente falam da doutrina apostólica, de doutrina revelada, de
Revelação transmitida pelos apóstolos ou de deposito da fé confiada a Igreja. Assim a
Revelação atual é o testemunho apostólico depositado na memória da Igreja.

A teologia protestante atual resiste à idéia de uma Revelação concebida como


dispensação de verdades divinamente garantidas. Contudo, a teologia católica é a primeira a
declarar que a Revelação é uma ação, um acontecimento, um encontro que transforma a
existência do homem e o convida a uma decisão, a um comprometimento de toda pessoa. A
Revelação é uma ordem de conhecimento que tem por finalidade uma ordem de vida. Se Deus
nos fala, é para associar-nos à sua vida. Nossa adesão ao Cristo é mediatizada e normalizada
pela nossa união e adesão ao testemunho e à doutrina dos apóstolos: uma doutrina de salvação,
uma palavra de vida.
Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

A resistência contra uma Revelação entendida como doutrina procede, em muitos


protestantes atuais, do desejo de marcar ainda mais a característica personalista, existencial,
“factual” da Revelação; em outros, porém, procede da recusa clara ou disfarçada da encarnação.

MILAGRE E REVELAÇÃO

O primeiro Concílio do Vaticano denomina os milagres fatos divinos, provas, e sinais.


Sua função é estabelecer solidamente “a origem divina da religião cristã”. Assim, o magistério
da Igreja põe em destaque uma função importante do milagre – seu papel comprobatório:
aprovação selo de Deus sobre uma palavra que pretende ser divina. Pelo milagre Deus garante
que está com o seu enviado, que a sua palavra é realmente palavra de Deus. Realmente, o
milagre é um sinal polivalente.

Polivalência do milagre

Sinal da ágape de Deus

Até para os menos atentos os milagres do Cristo mostram-se primeiramente como obras
de misericórdia e bondade. No Cristo “apareceu a benignidade de Deus, nosso Salvador, e seu
amor pelos homens” (Tit 3,4). Os milagres do Cristo são as manifestações da ágape de Deus,
isto é, de sua caridade, ativa e compassiva, que se inclina sobre a miséria humana. No milagre
da multiplicação, foi o Cristo que primeiro “teve dó” da multidão, “porque eram como ovelhas
sem pastor” (Mc. 6,34; 8,1-13).

Outros milagres, porém apresentam-se como resposta do Cristo a uma prece, às vezes
clara, outras muda, implícita num gesto, numa atitude. Em seu aspecto mais evidente os
milagres são uma resposta da ágape de Deus ao apelo da miséria humana. Deus é amor! (I Jo.
4,8). No Cristo esse amor toma forma humana, coração humano, para chegar a miséria do
homem e mostrar-lhe a intensidade do amor divino.

Sinal da chegada do reino redentor

Os profetas do antigo testamento anunciaram a era messiânica e os sinais da mesma.


Será um tempo de milagres. “Então – proclama Isaías (35,5-6) – abrir-se-ão os olhos aos cegos,
e os ouvidos aos surdos descerrar-se-ão. No pensar dos profetas a era messiânica reproduzirá,
mais grandiosamente as maravilhas do Êxodo. Os evangelistas vêem nos milagres do Cristo a
realização dessas profecias. Em Jesus está presente o messias. O acontecimento, tão esperado,
realizou-se na sinagoga de Nazaré o Cristo declara explicitamente que seus milagres O indicam
como aquele que deve vir (Lc. 4,16-22)

Na vida de Cristo as curas e os exorcismos estão intimamente ligados à sua obra de


salvação. Estão igualmente ligados aos poderes que ele conferiu a seus apóstolos: de pregar,
curar e expulsar demônios. (Mt 10,1; Mc3, 14; Lc9, 1). O Cristo apresenta-se como aquele que
veio para destruir o reino de satanás. Toda sua vida pública esta dominada pela consciência de
dever manter um combate pessoal contra satanás. “Para isso aparece o Filho de Deus: para
desfazer as obras do diabo” (1Jo 3,8). O milagre torna sensível e visível a renovação espiritual e
invisível. Torna visível a presença e a ação salvífica do Cristo.

Sinal da missão divina

Em toda a tradição bíblica o milagre tem como função garantir uma missão como
divina. Do profeta que se apresenta em nome de Deus, os Judeus exigem provas. Moisés pede e
recebe de javé o sinal que lhe prove que Javé “está com ele” e que “a sua missão vem dele” (Ex
3,12). Através da história do profetismo é o milagre constantemente invocado para fazer a
separação entre os verdadeiros e falsos profetas. Para muitos já a grande multidão de
Disciplina: Teologia Fundamental
41
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

milagres é um sinal. Os milagres do Cristo atestam que ele é o enviado de Deus. Se o cristo
realizou curas e expulsou demônios é porque “Deus estava com ele” (At. 2,22).

Sinal da glória do Cristo

Para quem os recebeu, os milagres são sinais, mas do ponto de vista do Cristo, são mais
propriamente obras do Filho. Os milagres são a atividade divina do filho de Deus entre os
homens. O Pai “ama o Filho e todas as coisas entregou em sua mão” (Jo 3,35), então os
milagres são sinais manifestos da aprovação do Pai. Cristo apresenta seus milagres como
testemunho do Pai em seu favor. É preciso acreditar no Cristo, se não por suas palavras, ao
menos por suas obras. (Jo 10,37-38).

Revelação do mistério trinitário

De fato, as obras do Cristo são ao mesmo tempo suas obras (Jo 5,36) e obras do Pai (Jo
9,3-4). Portanto, ver a atividade do Cristo, é ver o Pai presente no Filho, exercendo través das
obras do Filho sua atividade criadora e salvífica (Jo 14,9-10). Portanto, os milagres do Filho
devem ser postos em paralelo com as grandes obras de Deus na história de Israel, a criação e os
prodígios. As obras do Cristo são reveladoras da vida trinitária, isso, porém enquanto unidas ao
testemunho de Jesus sobre si mesmo e sobre sua missão.

Símbolo da economia sacramental

Estaríamos falseando a Escritura se reduzíssemos o milagre apenas a seu valor


comprobatório ou jurídico. O milagre está intrinsecamente ligado à mensagem. Como diz Santo
Agostinho: “Perguntemos aos milagres o que eles nos têm a dizer sobre o Cristo; para quem os
compreendem, eles tem sua linguagem. Com efeito, o Cristo sendo o Verbo de Deus, cada ação
do Verbo é também uma palavra que nos é dirigida”. A vinda de Cristo inaugura um mundo
novo, o da Graça; faz uma revolução, a da salvação pela cruz. Cristo vem salvar, libertar do
pecado. Em primeiro sua ação atinge a raiz do mal, mas a atividade salvífica sensível
simboliza, ao mesmo tempo que a garante, a atividade salvífica espiritual. No Evangelho de
João se manifesta o simbolismo dos gestos miraculosos do cristo. Este é o Evangelho dos sinais.
A transformação da água em vinho (Jo 2) inaugura a nova criação. Na multiplicação dos pães
(Jo 6), Cristo convida a reconhecer o sinal do verdadeiro pão, símbolo evidente da ceia
Eucarística. Finalmente a ressurreição de Lázaro (Jo 11, 1-14) apresenta o Cristo como a
ressurreição e a vida. Simboliza a vitória total do cristo sobre a morte e prefigura a nossa
ressurreição e a sua.

Sinal das transformações do mundo escatológico

O milagre, finalmente, é sinal prefigurativo das transformações que se devem operar no


fim dos tempos, no corpo humano e no universo físico. Em primeiro lugar, o milagre é sinal da
libertação e da glorificação dos corpos. O milagre é também sinal anunciador da redenção do
universo. Na mentalidade bíblica, há uma intima solidariedade entre o homem e o universo
físico. Todo o universo, arrastado pelo homem, participa de seus pecados e da sua redenção. O
cristo por sua morte veio restabelecer a ordem onde reina o pecado. A presença de Deus entre os
homens era o princípio de harmonia no paraíso. A paz entre Deus e o homem era a fone de paz
entre o homem e o mundo. O pecado, rompendo a intimidade entre Deus e o homem rompe essa
harmonia.

Revelação e funções do milagre

Segundo a Escritura os milagres do Cristo mostram-se primeiro como manifestações da


Ágape de Deus que responde à miséria do homem. Isso significa que, o reino anunciado chegou
e que Jesus é o Messias esperado. Os milagres cumprem as Escrituras. O milagre manifesta que
Disciplina: Teologia Fundamental
42
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

deus está presente no Cristo, e a Gloria do pai qualifica seu ser, ao mesmo tempo em que o
confirma como filho de Deus. Com referencia a revelação, podemos reduzir a função essencial
dos milagres em três. Dispõe, comprova juridicamente e figura e simboliza. O milagre dispõe
para ouvir a mensagem, pois é um sinal de benevolência, é uma palavra de graça. É sinal de
alguém para alguém, sinal expressivo da benevolência de Deus para com o homem. Blondel diz
que o milagre “manifesta analogicamente a derrogação real que a ordem da graça e da caridade
introduz nas relações entre o homem e Deus”. A primeira função do milagre é significar a
presença e a benévola iniciativa do Deus de amor e dispor a alma para ouvir a Boa-nova. Na
segunda função, comprobatória ou jurídica, o milagre apresenta-se como um sinal de Deus. A
revelação é comunicação da mensagem e convite para crer nesta. O milagre é o selo divino
sobre a mensagem, garantia de sua origem divina. A função comprobatória do milagre é
inseparável de sua função figurativa ou simbólica. A mensagem recebe do milagre um
acompanhamento contínuo no plano sensível. O milagre é a dimensão carnal da mensagem
espiritual; ele visualiza a palavra e lhe dá relevo. O milagre demonstra também que a palavra da
salvação não é sem sentido, mas uma palavra-energia palavra-ato. Milagre e revelação
caminham juntos, são como as duas faces, visível e invisível do mistério. Portanto as três
funções são inseparáveis e estão a serviço da mesma realidade.

FINALIDADE DA REVELAÇÃO

Podemos ver a finalidade por duas perspectivas: 1) Teocêntrica (a revelação feita em


vista da glória de Deus); e 2) Antropocêntrica (é feita em vista da salvação do homem).

A revelação é para a salvação do homem

Do ponto de vista do homem, é a salvação do homem. Em termos mais positivos, é a


visão, participação na vida divina. A revelação é uma obra essencialmente salvífica. Deus não
se revela para satisfazer nossa curiosidade ou para aumentar nossos conhecimentos, mas para
tirar o homem da morte do pecado e fazê-lo viver de uma vida eterna.A salvação será um
acontecimento da história, trazida aos homens pelo Ungido de Deus, que salvará Israel e toda a
humanidade mediante Israel (esperança do AT) e a Igreja (NT). Se o homem pela fé, adere ao
mistério que lhe é revelado e vive em comunhão com a Trindade, ele realiza sua salvação e
glorifica a Deus.

A revelação é para a glória de Deus

O fim último da revelação é a glória de Deus. Para o Xto, dar testemunho ao Pai, manifestar o
seu Nome, revelar o seu Nome, é o mesmo que glorificá-lo. No Xto e nos apóstolos a revelação
atinge plenamente sua finalidade. Xto glorificou o Pai pois manifestou aos homens o desígnio
de graça do Pai, ele é perfeito glorificador do Pai. A glória de Deus indica o próprio Deus, na
perfeição de seu Ser e na irradiação de usa perfeição. O xtão glorifica a Deus qdo adere, pela fé,
ao plano de salvação eleva uma vida condizente com essa fé. O homem glorifica a Deus pela fé,
comunhão de espírito com o Pensamento de Deus e pela caridade, que insere no seu coração o
próprio Amor de Deus. Assim, glorifica a Deus e realiza sua salvação; pois vivendo plenamente
a vida de filho, realiza sua salvação que é também a glória de Deus.

V – PARTE: A SAGRADA ESCRITURA

O texto, inspiração, canonicidade, verdade bíblica e interpretação da bíblia.

TEXTO

A bíblia pode ser descrita como coleção de escritos, reconhecidos como inspirados. Ela
recebe uma variação no seu nome: Escritura Sagrada, Livros Sagrados, Testamento. Ela é,
comumente, considerada como uma grande obra – obra de um único autor -, mas, do ponto de
Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

vista humano, constitui uma biblioteca. Este livro é dividido em duas partes: Antigo e Novo
Testamento25; ambos testamentos falam das alianças que Deus estabeleceu com a humanidade.
Em meio a tantas infidelidades do povo escolhido e da permanente fidelidade de Deus, o Antigo
Testamento constitui uma preparação para o ato definitivo do amor de Deus para com a
humanidade.

Subdivisão dos livros nas duas Alianças

Os judeus fizeram a seguinte divisão para o Antigo Testamento: Lei – Pentateuco -,


Profetas - Anteriores, Posteriores e Menores – e Escritos. Mas desde o século XIII, os católicos
o dividem desse modo: Históricos, Didáticos e Proféticos. O Novo Testamento é dividido com
base no modelo do Antigo, ou seja: Históricos, Didáticos e Profético.

A formação da bíblia

O Antigo Testamento foi formado a partir de um longo processo iniciado com Abraão
(séc. XIX a.C); as origens do A.T. remontam a ele. Mas foi Moisés (séc. XIII a.C) o líder
material e o legislador que iniciou o grande movimento religioso, o qual deu início a essa
grande obra literária.

O Pentateuco traz a marca de Moisés, mas a sua forma final só se deu no século VI a.C.
Os livros Proféticos tiveram o seu início no século VIII a.C. e a sua conclusão no século IV a.C.
O século VI constitui a fase áurea da literatura sapiencial, mas o seu início se reporta a Salomão
(séc. X a.C.). O livro da Sabedoria surgiu quando mal começava o século I da nossa era. Muito
da literatura do A.T. está baseado em tradições orais.

Como o Antigo Testamento, também o Novo relata a história de um povo; ele esboça a
vida dos primeiros cristãos: novo povo de Deus. Contrariamente ao Antigo, que precisou de
quase um milênio para ser composto, todo Novo Testamento foi escrito dentro de um só século
(o I). Vemos, desse modo, que ambas as Alianças são um resultado final de um coletivo esforço.
Os livros canônicos da bíblia foram escritos em três línguas: hebraico, aramaico e grego; sendo
que a maior parte do A.T. foi escrita em hebraico. Todo o Novo Testamento foi escrito em
grego. É bem verdade que não existe nenhum texto original dos escritos bíblicos, pois desde o
século III da era cristã tinham-se perdido. Isso se deu devido ao sensível material no qual foram
postos: papiro e pergaminho.

INSPIRAÇÃO

Existe uma definição precisa sobre esse tema: a inspiração bíblica é o resultado
mistérico da ação carismática de Deus nos hagiógrafos enquanto membros da comunidade
crente, seja judaica seja cristã; os quais, usando de todas as suas faculdades e talentos e agindo
Deus neles e por meio deles, põem por escrito tudo e só o que Deus quer em ordem à salvação
da humanidade “...

De modo esquemático - A inspiração bíblica é o resultado mistérico (em quanto que a


letra visível desvela e vela ao mesmo tempo a revelação do invisível) da ação carismática de
Deus (causa principal, autor) nos hagiógrafos enquanto membros da comunidade crente, seja
judaica seja cristã; os quais ( causa instrumental, autor), usando de todas as suas faculdades e
talentos (modo humano) e agindo Deus neles e por meio deles (modo divino), põem por escrito
tudo e só o que Deus quer (efeito), em ordem à salvação da humanidade (fim)”26.

25Esta palavra provém do grego e significa aliança.


26 GARCÍA, Antonio Izquierdo. La Palabra viva: introducción a la Sagrada Escritura. México: Nueva
Evangelización, 1990, p. 59. Este parágrafo foi traduzido livremente do espanhol.
Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Assim, o Concílio Vaticano II afirma que: “As coisas divinamente reveladas, que se
encerram por escrito e se manifestam na Sagrada Escritura, foram consignadas sob inspiração
do Espírito Santo”27.

Não só nas manifestações do Magistério, mas também na mesma Sagrada Escritura nós
encontramos claramente uma consciência do fenômeno da inspiração; isto se dá em todas as
partes, desde o A.T. até o Novo. Jesus tem consciência de ser a plena revelação do Pai.
A Igreja, baseada na mesma revelação e querendo defender a sua integridade, depois uma
reflexão plurissecular, definiu como dogma o fenômeno da inspiração; essa definição foi
promulgada pelo Concílio Vaticano I na Constituição Dogmática Dei Filius.

CANONICIDADE

Intimamente ligado à inspiração se encontra o aspecto da canonicidade. São canônicos


os livros divinamente inspirados, recebidos pela Igreja e reconhecidos por ela como a infalível
regra de fé e prática em virtude de sua origem divina. Embora todos os livros canônicos sejam
inspirados e nenhum livro inspirado exista fora do cânon, as noções de canonicidade não são as
mesmas. Os livros são inspirados porque Deus é o seu autor; eles são canônicos por que a Igreja
os reconheceu e os admitiu como inspirados, pois, só a Igreja, por meio da revelação, pode
reconhecer o fato sobrenatural da inspiração.

Poderemos nos perguntar quais as causas que levaram a estabelecer a canonicidade?


Certamente tanto no judaísmo quanto o cristianismo houve motivos para que fosse estabelecido
um cânon. No caso do judaísmo alega-se: a - conservação da própria identidade por conta do
progresso do cristianismo; b – ante a ameaça da diáspora; c – enfim, por conta do
desenvolvimento co’natural e dinâmico da tradição judia, que surgia com a reflexão dos rabinos.

No caso dos cristãos a necessidade surgiu por conta da expansão contínua da igreja;
fazia-se necessária uma mesma regra de fé para todas as Igrejas; desse modo se manifestava a
sua universalidade. Um segundo motivo deveu-se ao fato de colocar um ponto final nos
heréticos que recorriam aos escritos apócrifos.

Para estabelecer os livros canônicos, a Igreja teve um duplo trabalho: determinar os


livros canônicos do A.T e, ao mesmo tempo, determinar quais os livros que entrariam como
canônicos para o Novo Testamento. Desse modo, foi necessário estabelecer a distinção entre
A.T e Novo Testamento, falar da diferença e da continuidade; o Novo Testamento tinha seu
aspecto peculiar: era munido de uma originalidade e novidade.
Mas para determinar os livros canônicos foram necessários alguns critérios. Para o A.T:
era imprescindível: a – a tradução dos LXX, b – o uso no culto e c – o uso nos escritos do Novo
Testamento. Para a determinação do Novo Testamento os critérios foram: a – origem apostólica,
b – uso no culto, c – a ortodoxia e d – as listas antigas do cânon.

Ante as dúvidas surgidas em relação à autoria e autenticidade de alguns escritos, o


concilio de Trento, na sessão IV, proclamou como verdade de fé o dogma da canonicidade.
Comumente se afirma que o mesmo Deus que inspirou os textos, do mesmo modo inspirou
também a Igreja para canonizar os escritos.

VERDADE BÍBLICA

Faz-se necessário distinguir e definir os seguintes conceitos:

27 Dei Verbum, nº 11.


Disciplina: Teologia Fundamental
45
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

a) Verdade bíblica (ou salvífica): é aquela verdade cujo objeto formal é o conhecimento
íntegro de tudo o que o homem precisa de saber para a vida e para a salvação, que nos
foi outorgado por Cristo;
b) Inerrância: é a qualidade da bíblia, pela qual a revelação de Deus nela contida está livre
de todo erro.Apesar de a inerrância ter sido afirmado desde as origens da tradição, tanto
judaica quanto cristã, durante todos séculos de nossa era houve resistências contra essa
verdade; de modo particular se destaca o século XVI, com a introdução do estudo
crítico e racionalista da Escritura, mas sobretudo os séculos XVII –XIX com o
desenvolvimento das ciências astronômicas28, palenteológicas29 e históricas30. Todo o
desenvolvimento científico foi causa de fortes tensões entre os homens da ciência, de
um lado, e os teólogos e magistério, do outro, chegando-se a pensar na impossibilidade
de conciliar razão fé.

Princípios da verdade bíblica

Fala-se comumente de alguns princípios fundantes da verdade bíblica: “O objeto formal


da verdade bíblica é a salvação do homem”31; ou seja, mesmo que a bíblia nos traga
informações e dados científicos e históricos, ela têm como fim proporcionar o conhecimento de
Deus a fim de que ele seja salvo. Para assentir à verdade bíblica é indispensável o conhecimento
e o bom uso dos gêneros literários. A verdade bíblica é historicamente progressiva e tem sua
culminação e plenitude em Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida.

Sua especificidade

Como sabemos, ao se tratar de verdade, podemos dizer que há uma diversidade32, mas
que, na diversidade, há um elemento comum33 a todos. Todavia, além disso, vale ressaltar que,
no caso da verdade bíblica, há o que chamamos de especificidade; Qual será? A verdade bíblica
é uma verdade lógica e ontologicamente especificada pelo seu objeto formal, ou seja, a
revelação de Deus para a salvação do homem. Ela se caracteriza por ser: de gênero semítico, de
caráter religioso, de caráter dialético, que se vai descobrindo pouco a pouco, seja em seu
progresso rumo à plenitude que é Cristo, seja em seu caráter sobrenatural que supera as
verdades meramente humanas.

INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA

Para uma interpretação coerente da bíblia são necessários critérios. O primeiro deles
consiste em ter presente a base da interpretação, ou seja, a noção básica de hermenêutica. Quais
são os aspectos considerados por ela? São: a) o texto literário; b) o receptor ou o homem
contemporâneo; c) o autor do texto; d) o tema e) e a linguagem.

Como podemos definir a interpretação bíblica ou hermenêutica? “É uma parte da


ciência bíblica, que tem por objeto a compreensão, explicação, interpretação dos textos bíblicos
em sua linguagem e conteúdo, estabelecendo uma mediação entre o texto antigo e o homem

28 O famoso caso Galileu; ele afirmava o movimento da terra sobre o sol; a mentalidade da época afirmava
diversamente.
29 O darwinismo – com a teoria da evolução das espécies - deu origem ao Poligenismo.
30 Progresso da arqueologia e da historiografia.
31 DV, 11.
32 Essa diversidade pode ser constatada a partir do objeto formal – que se caracteriza pelo princípio de

verificabilidade, o qual determina a verdade e falsidade da ciência – de cada uma das ciências.
33 É a adequação existente em cada ciência entre o entendimento humano e a realidade que a ciência estuda segundo o

seu objeto formal e segundo seus princípios e métodos característicos. O elemento comum da verdade de toda ciência
consiste em atuar segundo a natureza própria da mesma (verdade ontológica). .
Disciplina: Teologia Fundamental
46
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

contemporâneo, mediante o uso dos métodos científicos mais apropriados, com o fim de fazer o
texto vivo e atual para o homem”34.

Por que é necessária a interpretação bíblica? Os motivos são diversos: a- por causa da
natureza mesma do texto; ele continua a ser fonte de inspiração e de novidade para todos os
tempos; b- por causa da sua finalidade, pois ela é dirigida a todos os homens de todos os
tempos; c- por causa da dificuldade do texto em si mesmo, é um texto antigo que, à medida que
o tempo passa, se distancia sempre mais do presente, mas também porque nele está contida uma
série de passagens obscuras; d- porque sua interpretação é interminável, pois em cada época
surgem novas descobertas na filosofia, na exegese, na ciência e na técnica que contribuem para
a sua interpretação; e- sobretudo pelo fato da relação do homem com Deus, pois não é
indiferente ao homem conhecer Deus ou não, conhecê-Lo melhor ou não; assim está em jogo a
relação pessoal e comunitária do homem com Deus.

A hermenêutica bíblica tem uma história; ela atravessou milênios e séculos; suas fases
são: hermenêutica própria do A.T., do N.T., da época Patrística e Medieval, no qual se destaca
são Tomás, o período moderno, onde surgem teorias divergentes da interpretação tradicional:
influenciam o Renascimento humanista, a Reforma protestante, os novos movimentos
filosóficos: o iluminismo, positivismo e o romantismo. Esse encadeamento do período moderno
tem o seu ponto de partida no racionalismo cartesiano. Cada um desses períodos traz a sua
peculiaridade.

A hermenêutica católica entra num momento de decadência, mas ganha novo impulso
com a Providetissimus Deus (1893) até a Dei Verbum. Durante esse ínterim convém que
distingamos na história uma exegese católica e outra protestante.

Mas quais os princípios determinantes de uma interpretação católica da Bíblia? A Dei


Verbum e o documento da comissão bíblica determina o conjunto de critérios: leitura no
Espírito, a intenção do autor35, o conteúdo e a unidade de toda a Bíblia, a Tradição viva de toda
a Igreja e a analogia da fé36.

Sobre os métodos de interpretação são-nos bastante conhecidos o Diacrônico (ou


histórico-crítico), o que estuda o texto sagrado em seu processo de formação, e o Sincrônico,
que se ocupa do texto enquanto tal.

VI – PARTE: A TRADIÇÃO: objeto, sujeito e monumentos.

Objeto: “O que a Igreja transmite é a parádosis (do grego:


tradição; N.T. Tradição apostólica). divino-apostólica, que não é somente palavra, mas também
sacramento. Isso decorre do fato de que a Tradição de Cristo é dupla: Ele nos ‘entrega’ as
palavras e o mistério do Pai e ‘se entrega’ por nós na cruz. Do mesmo modo, a recepção da
Tradição é dupla: escuta-se a palavra de Cristo e Ele habita no cristão, ou seja, há uma tradição
verbal e uma real. A parádosis divina, enquanto tem em Cristo seu portador, continua sendo
transmitida através do anúncio do evangelho; enquanto tem Cristo como objeto, continua
através da administração dos sacramentos”.

Sujeito: “A Transmissão da Tradição é primariamente uma tarefa de toda a Igreja;


pastores e fiéis são sujeitos da transmissão; Espírito Santo é sujeito transcendente da Tradição;
Ele atualiza e interioriza o que foi dito e feito por Jesus”.

34 GARCÍA, Antonio Izquierdo. La Palabra viva: introducción a la Sagrada Escritura. México: Nueva
Evangelización, 199. p.132.
35 Fundem-se aqui a intenção do autor humano e do autor divino.
36 Define-se como a conexão coerente da fé objetiva da Igreja, o nexo interno dos mistérios entre si.
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Monumentos: “A Tradição só se torna presente sob a forma de tradições e de


testemunhos eclesiásticos, litúrgicos e teológicos, chamados comumente de monumentos da
Tradição, ou seja, as expressões concretas pelas quais ela pode ser compreendida. Entre os
meios e testemunhas da Tradição, a liturgia ocupa um lugar privilegiado, porque enquanto se
expressa em obras e em palavras, é o centro e modelo de transmissão. A liturgia é expressão da
Igreja em sua vitalidade, em seu louvor a Deus, em sua comunhão santa com Ele; é a voz da
Igreja que ama e ora, voz que não só expressa sua fé, mas que a canta e a pratica numa
celebração viva. De igual modo, ocupam um lugar muito importante na Tradição os Padres da
Igreja, entre os quais podemos considerar os autores da Escritura, os Santos Padres, os
Concílios, os Papas, em uma palavra, todas as autoridades normativas que deram à tradição
eclesiástica seus traços característicos. A eles se deve precisão de doutrina em relação a certas
interpretações que se desviaram da revelação. (...) Foram eles também os que estabeleceram as
bases para uma disciplina eclesiástica e os que fixaram as formas de celebração litúrgica. Desse
modo, nos âmbitos da fé, do culto e da disciplina, os Padres estabeleceram a vida da Igreja.
Além disso, podemos destacar os gestos e os costumes por meio dos quais se expressa o espírito
cristão, a vida santa de tantos membros da comunidade cristã e, em geral, todas as formas
através das quais se expressa a fé, aí incluída a arte cristã. Dentro da Tradição temos de situar
também o Magistério, que é um órgão da Tradição e que cumpre uma tarefa específica em
função da transmissão e da interpretação do dado revelado”.

Critérios para discernir a tradição apostólica

“Como as expressões da Tradição são múltiplas e variadas, a ponto de, muitas vezes,
serem quase identificadas com a vida toda da Igreja, é necessário que se apontem alguns
critérios que sirvam para reconhecimento da Tradição; com eles se procura identificar o que é
próprio da Tradição apostólica e o que pertence à tradição eclesiástica.

1. Magistério: sua função já nos é conhecida: interpretar de tal modo a Palavra de Deus
que procura discernir o que o Espírito diz à Igreja hoje.
2. Antigüidade: este critério tem seu fundamento em Trento; considera como tradições
somente aquelas que chegaram até nós, indicando assim sua universalidade e
verificando sua continuidade ao longo da história. (...) Com ele se quer expressar que
uma tradição que provenha da época apostólica e que continue até os nossos dias
demonstra sua autenticidade e vitalidade para a vida de fé e serve como critério para
aquisição de novas tradições.
3. Sensus Fidei: o sentido de fé faz referência direta à comunhão da Igreja em todos os
seus membros e supõe a presença do Espírito Santo para que todos os fiéis reconheçam
a expressão clara da fé e tenham um sentido interior das realidades espirituais que
experimentam. Para discernir as tradições através do Sensus Fidei é necessário que se
examinem a fé e a prática da Igreja toda desde o Bispo até o último dos fiéis, levando-se
em conta, contudo, que o reconhecimento mesmo do sentido da fé supõe sempre uma
verificação através dos frutos visíveis do Espírito.
4. Fidelidade: continuidade e renovação: a transmissão fiel da verdade salvífica não
significa imobilismo; significa que deve está ligada às suas origens, mas ao mesmo
tempo aberta a novas mudanças que permitam tornar mais visível a realidade salvífica,
de modo a responder aos anelos e às aspirações do homem atual (Portanto: inovação
que mantenha a identidade essencial da Igreja).
5. A profissão de fé: entre os vários documentos do patrimônio eclesiástico, o ‘credo’ dos
apóstolos, o Niceno e outras profissões de fé serviram como instrumentos para verificar
as tradições herdadas. Neles se faz uma síntese maravilhosa do que ensina a Escritura e
do que pregou a Igreja, de modo a nos apresentar o núcleo básico com o qual se podem
confrontar as novas formulações e a pregação atual.
6. A Sagrada Escritura: ela é memória normativa da origem da fé; por conseguinte, toda
tradição na Igreja deve ser confrontada com ela como critério normativo e de existência
Disciplina: Teologia Fundamental
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Evangelizador: Luis Carlos Pereira

eclesial; ela é decisiva para a orientação da fé e da vida dos fiéis, tanto mais quanto é
formalmente Palavra de Deus.
7. Cristo ressuscitado: o critério fundamental – para o qual todos os demais se voltam – é
Cristo, Palavra última e definitiva de Deus aos homens”.

VII – PARTE: FUNÇÃO DO MAGISTÉRIO37 NA TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO

Intimamente ligado ao tema da Escritura encontra-se o da Tradição. A propósito desta


relação, a Igreja tem manifestado a sua preocupação ao publicar alguns documentos doutrinais,
mas também a própria teologia tem refletido sobre a questão. O próprio Concílio Vaticano II
tem dado uma palavra de importante relevo para a teologia.

O conceito de Tradição é de suma importância na história das religiões; por isso o termo
pode receber uma definição genérica e outra particular. No sentido mais amplo, tradição
significa o dado recebido nos primeiros tempos e transmitido sem interrupção. No sentido mais
restrito, ou seja, no âmbito histórico-religioso judaico-cristão, Tradição está unida ao dado da
Revelação; sendo que, enquanto para o Antigo Testamento, o significado recai para a Lei
(Torá), no Novo Testamento o momento incisivo é o evento Cristo.

Cristo: evento que deveria ser transmitido às gerações futuras de um duplo modo: pela
pregação da palavra e pelos sinais salvíficos. A Tradição recebeu significado especial quando as
testemunhas oculares e auriculares começaram a desaparecer; mas não só isso, sobretudo
quando começaram a surgir as heresias: Cristo e sua mensagem estavam sendo transmitidos
com uma roupagem falsa, senão era-Lhe negado verdadeira importância. Nesta situação, a
Igreja teve que encontrar meios para continuar a transmissão intactamente da fé, recebida de
Cristo, testemunhada e garantida pelas testemunhas oculares e auriculares a fim de que Cristo e
sua identidade histórica não fossem extintas.

Essa tentativa de conservar a integridade da revelação de Deus em Jesus Cristo aparece


nos escritos do N.T nos evangelhos de Marcos e Lucas, nas cartas pastorais38, na segunda carta
de Pedro, nas cartas de João e na de Judas.

37 Magistério oficial da Igreja: é INFALÍVEL: não por própria força, mas em virtude do Espírito Santo e em
benefício da fé e da Igreja universal; é infalível no sentido de que a “Igreja do Novo Testamento, ao falar em virtude
de sua autoridade doutrinal obrigatória, não pode se enganar, graças à assistência do Espírito Santo”. Órgãos do
Magistério: Magistério Ordinário: é o caso normal da pregação docente da Igreja e se exterioriza através do ensino
próprio de cada um dos bispos. Magistério Extraordinário: constituído pelos concílios, sínodos e conferências
episcopais, os quais se reúnem em determinadas circunstâncias para se manifestar a propósito de questões doutrinais
ou de costumes. Dentro desse magistério extraordinário somente podem se manifestar de maneira infalível o concílio
ecumênico e o Papa quando fala “ex cathedra”. Sujeito da infalibilidade: de acordo com a doutrina do Vaticano II, o
verdadeiro lugar da infalibilidade é a Igreja toda como “sacramento universal de salvação”, e o fundamento disso é a
presença nela de Cristo e de seu Espírito. Daí a infalibilidade do sentido da fé, do qual participam todos os membros
da Igreja. Contudo, com referência ao Magistério explicitamente, na Igreja só existe um sujeito da infalibilidade: o
Colégio dos Bispos, tendo o Papa como cabeça. Esse sujeito de infalibilidade pode se manifesta de diversos modos:
no concílio, no Magistério ordinário universal e numa decisão “ex-cathedra” do Papa, que age como cabeça do corpo
episcopal. Magistério do Papa: quando o Pontífice Romano exerce seu poder como Cabeça do Colégio episcopal,
seus poderes não derivam desse Colégio, mas do próprio Cristo. Por força de seu ministério próprio a serviço de toda
a Igreja para a confirmação de seus irmãos na fé, compete a ele um Magistério peculiar. O Papa só é infalível quando
fala “ex cathedra”, ou seja, quando, para cumprir seu ofício de pastor e de doutor da Igreja, define com autoridade
apostólica que a Igreja universal deve aceitar uma doutrina pertencente à fé ou aos costumes. Para que ele fale desse
modo, é necessário que exercite seu pleno poder docente e anuncie com clareza que quer definir uma doutrina; que
queira impô-la como obrigação de fé a toda a Igreja; e que se refira à matéria de fé ou de costumes para a vida cristã.
Uma decisão tomada “ex cathedra” não necessita de ulterior aprovação da Igreja. Além desse caso limite máximo e,
portanto, excepcional e pouco freqüente, o Papa tem um magistério ordinário não infalível que se expressa através de
encíclicas, constituições e exortações apostólicas, motus próprios, e alocuções, que, em razão de sua autoridade
magisterial, pedem que o teólogo possa continuar suas investigações nas matérias assim tratadas pelo Pontífice
Romano. Em relação ao Magistério o fiel é convidado à aceitação de fé e ao obséquio religioso.
38 IITm 1, 13ss; 2, 2; 4, 1ss.
Disciplina: Teologia Fundamental
49
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

“No período da tradição, que vai ao final da ascensão de Cristo ao final do tempo
apostólico, isto é, até o nascimento da Escritura, dá-se uma interpretação progressiva do
mistério de Cristo, baseada na experiência histórica com Jesus de Nazaré, e na experiência
pascal das aparições do Senhor e da ação do Espírito Santo. Surge assim uma norma de fé,
precursora dos símbolos de fé, tendo seu lugar próprio (...) na liturgia eclesiástica. Esta norma
foi anterior à Escritura, mas nela desaguou. Conheçamo-la pela Escritura, da qual faz parte. Por
isso, a Escritura deve ser interpretada pela norma de fé recebida nela, porém já constituída
anteriormente”39.

A Escritura, pelo seu conteúdo duradouro, claro e pleno, contém dado objetivo para que
a mensagem salvífica seja transmitida até a irrupção do futuro absoluto. Mas não podemos
negar o fato de ter sido introduzido alguma deformação humana na transmissão do conteúdo
comunicado pelos apóstolos e seus discípulos. Por esse motivo é que se diz que dificilmente se
pode alcançar a forma pura do objeto transmitido oralmente; daí também mais um motivo pelo
qual só a Igreja ter a autoridade de interpretar e transmitir o conteúdo.

Nos últimos anos40 tem-se dado importância à discussão da possibilidade de a Tradição


escrita oferecer um conteúdo mais amplo do que a Sagrada Escritura. A esse respeito Trento não
faz distinção, pois afirma que tanto o A.T.e o N.T. – de quem Deus mesmo é o Autor – quanto
as tradições atinentes à fé e aos costumes procedem da boca de Cristo. Até pouco tempo se
defendia a teoria das duas fontes41.

O CVII também considerou o problema, mas renunciou a essa teoria. Ele prefere
afirmar que o conteúdo transmitido pelos apóstolos encerra tudo o que é necessário saber para
que o povo de Deus viva santamente. Mas esta Tradição que procede dos apóstolos progride na
Igreja sob a assistência do Espírito Santo, enquanto progride no conhecimento das coisas e
palavras transmitidas.

Mas qual é a prova viva dessa tradição? O ensinamento dos Santos Padres, cujos
tesouros se comunicam à prática e à vida da Igreja que crê e reza. Assim percebemos a íntima
relação entre Escritura Sagrada e Sagrada Tradição; ambas surgem da mesma fonte, fundem-se
de certo modo e tendem a uma mesma finalidade; a Palavra de Deus, escrita sob a inspiração do
Espírito, foi confiada aos apóstolos; por eles, é transmitida integralmente aos seus sucessores,
para que estes a guardem fielmente, exponham-na e a difundam coma sua pregação; resultando
dessa atitude que a Igreja não tira as verdades reveladas apenas da Sagrada Escritura, mas
também da Tradição.

Escritura Sagrada e Sagrada Tradição constituem um mesmo e único Depósito. Fiel a


esse mesmo Depósito, todo povo santo, unido com seus pastores na doutrina dos apóstolos e na
comunhão, persevera constantemente na fração do pão e na oração, de modo que haja uma
colaboração especial de fiéis e prelados em guardar, exercer e professar a fé recebida; mas só ao
Magistério, unicamente a ele, foi confiada a função de interpretar a Palavra de Deus, seja ela
escrita ou transmitida; ele exerce sua autoridade em nome de Cristo e não se coloca sobre o
Depósito, mas a seu serviço; exerce a sua função ensinando unicamente o que foi transmitido,
escutando, guardando diligentemente e expondo com fidelidade. Deste único Depósito de fé, o
Magistério tira tudo o que propõe para se crer como verdade revelada por Deus. Assim, pois,
Sagrada Escritura, Tradição Sagrada e Magistério estão de tal modo unidos entre si que não há
consistência de um sem o outro; e juntos, cada um a seu modo, sob a inspiração do Espírito de
Deus, contribuem para a salvação dos homens.

39 A fé da Igreja, p. 146.
40 A partir dos documentos de Trento.
41 Segunda esta, as verdades estabelecidas pela Igreja, que não estão fundadas na Escritura, podem ser demonstradas

pela tradição não escrita.


Disciplina: Teologia Fundamental
50
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Mesmo expondo definitivamente muitos pontos que desde os concílios tridentino e


Vaticano I eram objetos de reflexões, o Concílio Vaticano II deixou, intencionalmente, algumas
questões a serem estudas; entre ela destaca-se o fato de a Sagrada Escritura ser concebida como
uma sedimentação da pregação apostólica, por meio da qual é transmitida de modo especial a
Palavra de Deus.

A visão elaborada do Vaticano II remete a Tradição em sua dupla dimensão: regressiva


que vai até a pregação apostólica; e progressiva que se estende à pregação do Magistério
eclesiástico. Com relação a esta última, faz-se necessário estabelecer relação com a sucessão
apostólica, pois a Tradição também consiste em transmitir a Palavra de Deus aos sucessores dos
Apóstolos. Assim, vemos que a atividade transmissora não se conclui com a criação do cânon –
como na Tradição escrita -, mas se continua até o retorno de Cristo. Todavia, os escritos
reunidos no cânon constituem o instrumento da pregação eclesial. Desse modo, a Sagrada
Tradição ajuda a entender mais profundamente a Escritura e a acioná-la mais eficazmente.
Portanto, a atividade transmissora leva à interpretação e ao desenvolvimento da Sagrada
Escritura.

Existe o famoso problema da suficiência da Sagrada Escritura; o que dizer a este


respeito? Em primeiro lugar é mister entender o conceito suficiente, pois ele deixa a si dupla
interpretação: a) a Sagrada Escritura oferece a Palavra de Deus com plenitude suficiente para a
salvação; b) se esta palavra se refere à consecução da salvação, então não se deve entender a
partir da Sagrada Escritura, mas de Cristo, pois é Ele que produz a bem-aventurança, é somente
a fé em Cristo que opera através da Escritura, e não a fé na palavra nela contida. A Sagrada
Tradição ou Tradição não escrita não apresenta conteúdo revelado que não esteja na Escritura,
mas ela é apenas um desenvolvimento dela.

Quais são os portadores da Tradição? O Concílio Vaticano II afirma ser todo o povo de
Deus, que tem um senso, um instinto de fé por meio do qual sabe julgar a conformidade e não
conformidade de uma proposição ou de um comportamento com o mistério de Cristo; é uma
espécie de sexto sentido. Contudo, a Igreja universal só pode atualizar a função de transmitir a
Tradição incorporando-a e subordinando-a ao Magistério eclesiástico.

VIII – PARTE: O DOGMA42

O ponto de partida do dogma são o Querigma43 e a catequese primitiva. Estes foram, à


luz da ressurreição, reinterpretados e postos por escrito, à luz do Espírito. A Igreja sente a
necessidade de comunicar a todo homem em todos os tempos o mesmo anúncio salvífico, mas
sempre conservando a integridade da revelação. Para tanto, o dogma parece ser uma das formas
mais típicas e oficiais do desenvolvimento do querigma e da interpretação da Sagrada Escritura
ao longo dos séculos no curso da Igreja, pois ele é o que torna presente uma compreensão
autêntica do Evangelho através de expressões doutrinais que atualizam a formulação bíblica
original, ou proveniente da Tradição em nome da autoridade do Magistério da Igreja. Assim, o
dogma aparece como atualização do querigma e do dado bíblico no decurso da história. Mas,
com o passar dos tempos, essa atualização recebeu um caráter “definidor”, em sentido doutrinal.
Das diversas definições, algumas constituem como que os pilares de toda a Tradição,
especialmente aqueles que permanecem fixas na confissão de fé do credo da Igreja Católica.

O que significa a palavra “Dogma”? Os dogmas da Igreja contêm uma doutrina que não
é produto de simples descoberta da razão humana e, portanto, não são unicamente a expressão

42 “As definições de fé, ou fórmulas dogmáticas do Magistério da Igreja, pretenderam sempre a ajudar a compreensão
do dado revelado, determinando com autoridade o que o crente deve obrigatoriamente aceitar na fé. E quando a Igreja
faz novos enunciados tema intenção de confirmar ou esclarecer as verdades já contidas de algum modo na Sagrada
Escritura ou em expressões precedentes da Tradição, mas, ao mesmo tempo, costuma pensar em resolver certas
questões.
43 Anúncio do Senhor morto e ressuscitado.
Disciplina: Teologia Fundamental
51
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

de determinada escola teológica. A doutrina exposta no dogma tem caráter divino, enquanto é a
expressão e explicação de um conteúdo da revelação, sob a luz e a guia do Espírito Santo.

O dogma, como regra de fé, portanto, é tudo o que é verdade revelada por Deus e
definida como tal pelo Magistério. Ele comporta duas realidades fundamentais: o que se propõe
no dogma pertence de fato à revelação divina, pública e oficial tal qual nos é transmitida na
Escritura e na Tradição; a Igreja propõe explícita e definitivamente como pertencente à
Revelação.

Daí podemos concluir que a Igreja não pode inventar dogmas, o que faz é explicitar
verdades contidas na Revelação; ele está a serviço da verdade revelada.
Existe uma imutabilidade e evolução nos dogmas, ou seja, um desenvolvimento dogmático; este
consiste no processo pelo qual a verdade revelada passou da pregação dos Apóstolos ao
ensinamento atual da Igreja. Esta tem a missão de transmitir a verdade revelada, mas deve fazer
um esforço para um entendimento crescente e atual da mesma mensagem. Esse
desenvolvimento crescente se transforma em processo dogmático quando o melhor
entendimento conseguido é proclamado infalivelmente pelo Magistério da Igreja como verdade
contida no Depósito da revelação, ou seja, dogma. O desenvolvimento dogmático sempre se
realizou através da imutabilidade e evolução do dogma.

a) Imutabilidade das definições de fé: O valor absoluto e imutável do dogma tem sido
reiteradamente sustentado pelo Magistério contra todas as formas de “relativismo
dogmático”.
b) Evolução do dogma: os novos tempos exigem que os dogmas sejam explicados como
novos enunciados que esclareçam, completem e atualizem as definições anteriores; só
desse modo se podem evitar os erros futuros.

Fala-se, comumente, de alguns fatores do desenvolvimento dogmático; são:

a) Espírito Santo: Ele constitui o princípio ativo do desenvolvimento dogmático; a


evolução dos dogmas é de iniciativa divina; é o Espírito Santo quem guia a Igreja a uma
compreensão mais profunda.
b) A contemplação e o estudo: esta atividade intelectual própria do crente vai conseguindo
algum entendimento dos mistérios revelados na Escritura e na Tradição; essa busca por
mais compreensão é dever de todo fiel, mas de modo particular do teólogo.
c) Sentido da fé: este é suscitado no povo crente pela garça e pelos dons do Espírito Santo;
esse sentido faz o povo descobrir na Palavra de Deus significados e valores autênticos
que, muitas vezes, são menos acessíveis até aos próprios teólogos.
d) Magistério eclesiástico: a intervenção do Magistério no desenvolvimento da
compreensão do dogma se realiza quando os bispos, em comunhão com o Papa, pregam
com o carisma da verdade. Apresentam aos fiéis o depósito da fé e dão sua Palavra
autorizada pela qual se indica o que deve ser crido e vivido pela comunidade. Além
disso, o ensinamento geral e constante constitui o horizonte no qual o progresso
dogmático pode se realizar autenticamente.

IX – PARTE: O ATO DE FÉ COMO RESPOSTA À REVELAÇÃO

Diante do fenômeno da revelação o homem tem duas opções: aceitar ou recusar. O pólo
“aceitar” é o que interessa a nós. Responder positivamente à revelação e corresponder a ela é o
que chamamos de fé. Ela pode ser tanto “aceitação de certas verdades no sentido de declarações
conceituais, como confiança e obediência na aceitação da única ação salvífica de Deus em
Jesus”.

O modo pleno de responder a Deus só se dá com a vinda de Jesus. Os mistérios de sua


vida, morte e ressurreição foram acontecimentos decisivos sobre a salvação, pois manifestaram-
Disciplina: Teologia Fundamental
52
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

se, ao mesmo tempo, o portador da mensagem e a própria mensagem, o revelador e a própria


revelação.

Na história, desde o Antigo Testamento até o Novo – neste se compreende também até
os nossos dias -, a fé recebeu diversas matizes. Não nos é possível elencar as características da
fé em toda a história e em cada um dos seus momentos, mas queremos indicar ao menos alguns
aspectos, pois eles são determinantes para a compreensão do tema:

Paulo diz que a fé inclui em si mesma uma nova auto-inteligência do homem; a fé, para
ele, é o conhecimento de Deus, da Verdade; é obedecer a Deus e aprender a salvação em Cristo
e granjear a esperança do futuro absoluto;

João: fé é ir a Jesus, é unidade de vida com Ele; é passar da morte para a vida, mas
também compreende uma dimensão escatológica, no sentido de esperança do futuro.

Patrística: a fé recebe matiz preferentemente intelectual, é verdadeira gnose, filosofia;

Escolástica: esforçou-se para uma análise psicológica da fé. Tomás define a fé como
“participação pela graça no conhecimento do próprio Deus”;

Reforma: Lutero dá à fé uma conotação de confiança e entrega;

Período pós-tridentino: a partir de então podemos falar de duas concepções de fé:


católica – que desenvolve o aspecto objetivo do conteúdo – e a protestante – que dá maior
atenção ao aspecto da subjetividade;

Teologia atual: a fé é objeto de discussão tanto na filosofia quanto na teologia; pois o


problema surge quando se pergunta sobre a estrutura objetiva e pessoal da fé: ela consiste em
um “sim” a determinadas declarações ou a um Tu pessoal? Dessa discussão surge a famosa
pergunta; “cremos em algo ou alguém”? Afirma-se normalmente que essa oposição entre o
aspecto pessoal –bíblico – e o ontológico – grego - não tem sentido; pois “se o homem crê deste
modo em Jesus Cristo e nele baseia sua existência (...), realiza-se a si mesmo da maneira
requerida por seu núcleo pessoal. Surge a forma de existência descrita por Paulo: ‘estar em
Cristo’. Essa fé não só é expressão da estrutura pessoal do homem, como sobretudo repercute
nele. Aqui se realiza o que Agostinho opinava com as palavras: creio ‘em’ ti. A fé cristã é fé
‘em’ Deus, e como Deus apareceu historicamente em Jesus Cristo, a fé em Deus é também fé
em Cristo. Inversamente a fé em Cristo, representante de Deus na história humana, é fé em
Deus. A estrutura da fé em Deus é dada pelo fato de se chegar a Ele no ato de fé em Cristo. A fé
em alguém tem o aspecto de fé em algo, enquanto expressa as declarações do Tu afirmado na
fé”. Portanto ambas não se contradizem, mas se complementam.
Disciplina: Teologia Fundamental
53
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

BIBLIOGRAFIA

BIBLIA DE JERUSALÉM
BIBLIA DO PEREGRINO
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Loyola, 2000.
COLLANTES, Justo. Fé Católica: Documentos do Magistério da Igreja. Rio de Janeiro, RJ:
Lumen Christi; Anápolis, GO: Diocese de Anápolis, 2003.
COMPÊNDIO VATICANO II. Constituição Dogmática Lumem Gentium. São Paulo: Paulus,
2000.
CONCÍLIO VATICANO II, Constituição Dogmática Dei Verbum. São Paulo: Paulus, 2001.
DENZINGER, Heinrich. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. São
Paulo: Paulinas; Edições Loyola, 2007.
FISICHELLA, R. Dicionário de Teologia Fundamental. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 1094
GARCÍA, Antonio Izquierdo. La Palabra viva: introducción a la Sagrada Escritura. México:
Nueva Evangelización, 199. p.132.
LATOURELLE René. Teologia da revelação. São Paulo: edições Paulinas, 1973

QUESTÕES DE TEOLOGIA FUNDAMENTAL

Qual o conceito de REVELAÇÃO para o Antigo Testamento?


Qual deve ser sempre a resposta do homem diante de Deus que se revela?
Diga quais são as etapas da história da revelação no Antigo Testamento?
Diferencie revelação cósmica e revelação histórica.
Mostre quais as etapas da história de Israel que foram precedidas pela palavra?
Qual é o objeto da revelação no Antigo Testamento/
Quais sãos os traços característicos da Revelação no AT?
Qual o conceito de REVELAÇÃO para o Novo Testamento?
Na tradição sinótica quais são os termos que descrevem a ação reveladora de Cristo?
Nos Atos as testemunhas são em primeiro lugar os apóstolos, cite as três as características
necessárias para ser considerado um APÓSTOLO?
São Paulo para penetrar no âmago da ideia de revelação usa as categorias de “mistério e de
Evangelho”. Explique as etapas da revelação do mistério.
Diga quais são os termos utilizados para revelação no vocabulário Joanino?
Em resumo (conclusão) qual é o conceito de revelação para são João?
Como os PADRES APOSTÓLICOS concebem (veem) ao Cristo?
Qual é a doutrina da Salvação de São Justino?
Para Santo Irineu a criação é a primeira etapa da revelação, assim o que é Revelação para ele?
Quem são os padres Alexandrinos (testemunhas da Igreja Grega) e exponha o conceito de uma
deles?
Quem são os Padres capadócios? E qual é a preocupação em primeiro plano de que se ocupam?
O que é revelação para Santo Agostinho?
No pensamento da Escolástica do Século XIII temos a figura de São Boaventura. Qual é o
conceito de Revelação para ele? Qual palavra é central no seu pensamento?
Quais são as etapas da revelação profética segundo são Boaventura?
Como Santo Tomas de Aquino considera a Revelação?
A revelação, acontecimento no tempo, apresenta-se a Santo Tomás como uma operação em três
fases. Quais são elas?
Quais foram os principais autores da Renovação Escolástica do Século XIX?
No século XIX, ouve Concilio Ecumênico que respondeu aos erros do racionalismo e
protestantismo liberal. Qual foi? Quando aconteceu? Quais documentos foi publicados?
A teologia querigmática pós em maior evidência certos aspectos que contribuíram pra uma
renovação da teologia da Revelação. Quais são as principais características?
No Concilio Vaticano II temos uma das primeiras constituições dogmáticas deste. Qual o nome
dela, qual o conteúdo principal? Qual a finalidade da constituição?
Disciplina: Teologia Fundamental
54
Evangelizador: Luis Carlos Pereira

Segundo a Dei Verbum, qual é o objeto da revelação?


Cite as características da Revelação segundo a Dei Verbum?
Qual é a resposta para a revelação divina?
Qual é a plenitude e o realismo da ENCARNAÇÃO?
Na economia da encarnação e da Revelação os apóstolos ocupam lugar único com relação ao
Cristo e à Igreja. Qual é a Situação dos Apóstolos? Qual é sua missão?
Diante da situação da Igreja perante a Encarnação, qual é a resistência da Teologia Protestante
atual?
O que são MILAGRES segundo o Vaticano I?
Os milagres em si possuem uma variedade de significados, cite as 04 polivalências dos milagres
(sinais)?
Explique as 02 (duas) finalidades da Revelação.
Em quantas partes está dividida a Bíblia? Que assunto único falam as partes?
Em que língua foram escritos os livros da Bíblia?
O que é inspiração bíblica?
Quais os critérios para que os livros fossem considerados canônicos tanto no AT como NT?
O que é verdade bíblica e inerrância?
Para uma interpretação coerente da bíblia são necessários alguns critérios. Quais são os aspectos
considerados por ela?
Por que é necessária a interpretação bíblica?
Explique quem é o objeto e o sujeito da Tradição?
Cite os critérios para discernir a tradição apostólica.
Por que o Magistério oficial da Igreja é infalível?
Quais são os órgãos do Magistério/
O que significa a palavra “Dogma”? A Igreja pode inventar dogmas?
Cite os fatores do desenvolvimento dogmático?
Explique a frase: “Diante do fenômeno da revelação o homem tem duas opções: aceitar ou
recusar”