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DOIS ENSAIOS

POLITICAMENTE INCORRETOS
SOBRE ARTE

Davi Samuel Valukas Lopes


DOIS ENSAIOS POLITICAMENTE
INCORRETOS SOBRE ARTE

Davi Samuel Valukas Lopes


Davi Samuel Valukas Lopes

DOIS ENSAIOS POLITICAMENTE


INCORRETOS SOBRE ARTE

1ª Edição
Copyright © 2018
Davi Samuel Valukas Lopes
Todos os direitos reservados.
DOIS ENSAIOS POLITICAMENTE INCORRETOS SOBRE ARTE

1ª Edição - Dezembro 2018


Diagramação | Arte Final: Marcelo Soares da Silva

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)

L965u LOPES, Davi Samuel Valukas


Dois ensaios politicamente incorretos sobre Arte
1ª ed / Uberlândia–MG: 2018.

92p.; il.;

1. ??? 2. ??? 3. ???

I. MUNDIM, Silvio André Pereira II. Título

CDD ???

É proibida a reprodução total ou parcial | Impresso no Brasil / Printed in Brazil


A comercialização desta obra é proibida
CONSELHO EDITORIAL
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Professor da Universidade Estadual de São Paulo - campus Franca

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Professor da Universidade Federal de Uberlandia - UFU

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Doutor em Direito pela UFMG
Professor da Universidade Federal de Goiás - UFG

Viviane Séllos Knoer


Doutora em Direito pela PUC-SP
Professora do Centro Universitário Curitiba - UniCURITIBA
Agradeço primeiramente a Deus Pai pela vida
e pela Graça de Seu Filho, Nosso Senhor Jesus
Cristo. Agradeço meus pais, José Francisco e
Margarida, a minha irmã Sara e sua família, a
minha esposa Fabiana e minha filha Monize,
por terem me ensinado na prática o conceito
de amor. Agradeço ao professor Dennys
Xavier por ter acreditado nesse projeto quando
nem eu acreditava. E agradeço também aos
amigos e irmãos de batalha da Per Onore, uma
irmandade de homens livres e sábios. Sem o seu
suporte esse livro não seria viável!
SUMÁRIO
A arte moderna destruiu a beleza............................ 11
Introdução . ..................................................... 15
Ars longa vita brevis ............................................ 15
A função poética e a importância da forma na
obra de arte ....................................................... 17

A importância das formas fixas no


desenvolvimento técnico do artista . ....................... 19

O feio na Arte .................................................... 21


Forma e substância .............................................. 24
Liberdade artística ............................................... 25
Uma velhice não muito confortável . ...................... 26
Beleza castrada ................................................... 27
A mentalidade revolucionária dos modernistas . ....... 29
Platão e a música decadente .................................. 32
Classe artística e conservadorismo . ....................... 34
Tonalidade, hierarquia e o primeiro mandamento ..... 36
Arte engajada, discurso anexo e empobrecimento
estético .............................................................. 38

A patrulha ideológica .......................................... 40


A classe artística não está .................................... 42
nem aí pra você ................................................... 42
Equilíbrio entre tradição e individualidade .............. 44
Mas por que a beleza importa. ............................... 46
tanto assim? ...................................................... 46

O que é o discurso anexo .................................... 48


Tradição, modernidade e materialismo .................... 49
Resumo da ópera ................................................. 51
Deus, . ............................................................... 53
armas e roquenrou. ............................................. 53

Introdução: ....................................................... 55
rebeldia e maturidade ........................................... 55

O mal que os homens fazem . ................................ 57


Metallica e a triste verdade sobre a natureza
humana . ............................................................ 59

Elvis não morreu ................................................. 61


A infame passeata contra a guitarra elétrica ............ 64
Velha guarda do rock: ......................................... 66
talento versus lacração ........................................ 66

Country music e o ocidente livre . .......................... 68


Música pop e o mito da ........................................ 70
eterna juventude .................................................. 70

A Wilson Simonalização da música brasileira .......... 73


DEUS, armas e roquenrou ................................... 75
Resumo da ópera ................................................. 78
A arte
moderna
destruiu a
beleza
O Abaporu - Tarsila do Amaral

13
14
Introdução

Ars longa vita brevis


Neste ensaio, não tenho a pretensão de escrever um
tratado sobre estética ou técnicas artísticas, tampouco ditar
regras sobre o comportamento que artistas devam ou não
seguir. Minha única pretensão é demonstrar as observações
de um conservador (eu mesmo, no caso) que se dedica aos
estudos artísticos, estéticos e culturais, partindo da filosofia
grega, que forma as bases da Civilização Ocidental em
conjunto com o direito romano e a moral judaico- cristã,
passando pelos estetas medievais até chegar aos pensadores
como Roger Scruton, Theodore Dalrymple e G.K. Chesterton,
que tratam a beleza com o devido respeito à tradição que
consagrou as belas-artes como o divino na Terra. Pretendo
demonstrar também que sempre houve mudanças nos
paradigmas artísticos, que o consenso nunca existiu. Porém,
as mudanças, técnicas, estéticas ou conceituais, ocorriam de
forma gradual, equilibrando o novo e o antigo (ars nova/ars
antiqua) na fiel balança do bom senso. Ao contrário, o que
ocorreu entre meados dos séculos XIX e XX foi uma brusca
e dramática ruptura (ou tentativa de) com a tradição, por
questões menos artísticas do que políticas e ideológicas.
O supracitado tripé civilizacional é uma construção
milenar, que foi sendo aprimorada durante a Idade Média,
15
passando pela Renascença, ganhando contornos celestiais
nos períodos barroco e clássico, mas que começou a fraquejar
durante o romantismo oitocentista, período de incertezas
filosóficas, culturais e espirituais pós-Revolução Francesa,
tempos de dissolução das monarquias tradicionais e de
aberrações intelectuais de arrogância cientificista, como o
marxismo, o positivismo e o determinismo. O século XIX
fundou as bases da decadência modernista!

16
A função poética e a importância da
forma na obra de arte

A obra de arte, como qualquer outra linguagem,


transmite ideias, sentimentos e informações, podendo
inclusive gerar conhecimento. E como qualquer outra forma de
comunicação, é movida por funções da linguagem. Sabemos
que as seis funções da linguagem são: função poética, função
conativa, função fática, função metalinguística, função
referencial e função emotiva. Mas como nosso assunto é a
obra de arte, vamos nos reter apenas à função poética.
Função poética é aquela que está centrada na própria
mensagem, ou seja, a estrutura da mensagem se encontra
em si mesma. Um poema diz mais sobre si mesmo através
de sua estrutura (soneto, quadras, redondilhas, etc.) do que
das ideias que deseja transmitir. Uma sinfonia só é uma
sinfonia se estiver estruturada na forma-sonata (exposição,
desenvolvimento e reexposição). Qualquer peça musical só é
tonal se sua harmonia seguir a ideia do centro tonal (acorde
tônico como referência) e do princípio de tensão e repouso,
sendo o primeiro grau o repouso e o quinto grau a tensão
(I-IV-V), como um pêndulo que insistentemente balança de
um lado para o outro. Determinada dança folclórica só pode
carregar o nome se seguir as regras daquele gênero. E assim
por diante. Seguindo essa lógica, podemos dizer que um
determinado assunto pode ser tratado de formas diferentes
por artistas diferentes. O sexo pode ser o tema central de
uma canção sem necessariamente ser vulgar. O adultério
pode ser tratado de forma diversa por William Shakespeare
e por um teledramaturgo. A violência pode ser tratada de
forma extremamente lírica por um diretor de cinema, e de
forma extremamente grosseira e gratuita por outro. O que
vale no final das contas é que a técnica é fundamental. Sem
ela, qualquer garatuja poderia ser considerada bela caligrafia,
17
qualquer castelo de areia na praia seria uma escultura, qualquer
encadeamento aleatório de notas defecadas em uma partitura
seria uma peça musical. Se a Beleza é o foco do artista, sendo
a única restrição a sua desenfreada criatividade, a técnica é o
que delimita sua ação, diferenciando artistas bem treinados e
capacitados de simples diletantes ou malucos gratuitos.

18
A importância das formas fixas no
desenvolvimento técnico do artista

Desconstruir é uma palavra em voga no mundo


progressista. O ranço que é nutrido pelos defensores da ideia
da desconstrução em relação ao que é tradicional e consagrado
é tão grande, que não precisa haver motivos aparentemente
razoáveis para o ato. Desconstruir por desconstruir já basta
por si mesmo! Desde que o passado seja varrido da realidade
presente, sendo estocado nos livros de História (geralmente
tendenciosos, por sinal), tudo bem! Mas isso se torna um
grande problema quando falamos em educação artística.
Como em todo aprendizado, um postulante a artista,
o aprendiz de músico, poeta, ator, bailarino, pintor etc.
precisa exercitar sua arte por anos a fio, de forma disciplinada
e contundente, até que possa dizer publicamente que é um
praticante dessa ou daquela técnica. Não basta o sujeito
aprender uma escala de Dó Maior em uma flauta doce, não
fazer nada além disso, e dizer que é músico. O mesmo vale
para as outras linguagens artísticas.
É aí que começa o papel fundamental das formas fixas,
que são as estruturas consagradas em qualquer linguagem
artística. Um soneto é composto, necessariamente, por dois
quartetos e dois tercetos, totalizando quatorze versos, todos
eles decassílabos (com dez sílabas poéticas). Toda valsa é
escrita em divisão ternária simples (três por quatro). Todo
compositor de música tonal deve utilizar o ciclos das quartas e
quintas, o princípio de tensão e repouso e o centro tonal como
parâmetro da construção harmônica, além de conhecer as
regras das escalas diatônicas para escrever suas melodias. Eis
alguns exemplos de formas fixas, ou seja, formas consagradas
dentro de parâmetros estritos e imutáveis!
Isso não quer dizer que todo artista deve estar preso às
formas fixas. Mas quer dizer, necessariamente, que todo artista
19
que ousa adentrar as pantanosas vias do experimentalismo
deve conhecê-las muito bem. Arnold Schoenberg foi muito
claro em seu Tratado de Harmonia ao dizer que todo
compositor que desejasse compor música atonal deveria
conhecer profundamente as regras da composição tonal,
pois essa seria a única forma de diferenciar um compositor
que abriu mão das formas fixas de um leigo que cria ruídos
interessantes e vende como música. Isso vale também para
as outras linguagens: poetas que utilizam o verso branco
(sem rima e métrica) deve saber escrever rimas alternadas ou
invertidas, redondilhas maiores e menores, fazer terza rima
etc. Pintores que se aventuram no abstratismo devem saber
executar obras pictóricas. E assim por diante.
Em suma, as formas fixas são fundamentais na vida
de um artista, mesmo que este abra mão de seu uso corrente
depois que já está versado no assunto, pois são elemento
obrigatório no aprendizado de sua arte. É a disciplina, a
humildade e, por fim, a liberdade artística em estado pleno!

20
O feio na Arte
“O belo é aquilo que agrada universalmente, ainda
que não se possa justificá- lo intelectualmente.”
Immanuel Kant

Depois do estremecimento das bases culturais e


artísticas provocado pelo romantismo, só poderíamos chegar
a tempos sombrios. A mentalidade revolucionária tomava
conta dos artistas e intelectuais da época, que passaram a ter
ojeriza (ou tomar ranço, como se diz popularmente) de tudo o
que fosse tradicional e atemporal ou fizesse qualquer menção
às estruturas fundantes do ocidente civilizado. Eram tempos
de dissolução, de desconstrução (termo eufemístico para
destruição), de inovação oca e sem bases sólidas. Eram tempos
de implantação de uma nova linguagem que substituísse o
que fora consagrado pelo tempo e pelo consenso dos grandes
mestres. Eram tempos de arte moderna.
Tradicionalmente, a beleza está associada à simetria.
Esse é um conceito criado pelos antigos gregos, observadores
contumazes da natureza, com seus grandiosos princípios
geométricos e aritméticos. Há quem possa alegar que o padrão
grego não seja universal. Os egípcios, por exemplo, criavam
suas obras de arte com outros intuitos, como a evidente
intenção de causar impacto através da grandiosidade (veja
o tamanho das pirâmides, por exemplo). Até hoje grandes
empreendimentos são chamados de faraônicos por conta do
caráter suntuoso.
Porém, devemos olhar para essa questão com os olhos
ocidentais. O ápice do fazer artístico é atingido pela Civilização
Ocidental a partir de um processo de continuidade, que se
inicia na Grécia Clássica, amalgama-se ao Império Romano,
ganha contornos épicos com os bárbaros que criaram a Era
Medieval, retorna às origens recorrentemente através das
21
diversas renascenças desde o século XII até o século XVI e
atinge a maturidade com o barroco, o clássico e o romântico
(período de início da decadência do tradicional).
Filósofos liberais como David Hume e John Locke
foram os primeiros a demonstrarem que a beleza de uma obra
de arte não depende apenas do próprio objeto artístico, mas
primordialmente da percepção do sujeito que o contempla.
Na ânsia de emancipar o indivíduo e coroá-lo com os
louros da liberdade, acabou-se por lançar as sementes do
que insensatamente viria a se transformar em regra alguns
séculos mais tarde, ou seja, a absolutização da subjetividade.
Evidentemente o subjetivo tem papel fundamental na fruição
de uma obra de arte. Dois sujeitos que contemplam uma mesma
tela, ou ouvem uma mesma canção, leem um mesmo poema
etc. terão percepções diferentes daquele objeto, pois partem de
concepções diferentes, valores diferentes, níveis educacionais
e instrucionais diferentes, entre outras diferenças. Porém,
abandonar a objetividade da obra é desequilibrar a balança
em um dos lados. Não se pode esquecer que Arte é ars/
techne (raízes latina e grega da palavra, que remetem à ideia
de técnica), e que a função da linguagem que empregamos
quando observamos uma peça artística é a função poética,
caracterizada pela máxima “o meio é a mensagem”, ou seja, a
comunicação estabelecida pela obra é indissociável dos meios
formais e materiais que a constituem.
Para dirimir as querelas causadas pelo dualismo
objetividade versus subjetividade, Immanuel Kant trouxe
no século XVIII a ideia de que a percepção do indivíduo é
subjetiva, porém a fruição da obra de arte é universal, ou seja,
está ao alcance de todos, e se realiza através dos julgamentos
estéticos. Uma resolução elegante para um problema secular.
Tendo em vista o supracitado, vamos nos perguntar
qual a função do feio na Arte: o feio pode e deve estar presente
em obras artísticas, pois está presente na vida, e a Arte não é
um elemento alienígena. Porém, o emprego do feio não deve
ser confundido com o feio formal, ou seja, o feio aparece de
22
modo conceitual, mas formalmente empregado de forma
bela. Eu explico.
Um exemplo clássico do contraste feiura/beleza na
Arte é a tela Monalisa, de Leonardo da Vinci. La Gioconda, a
mulher representada na obra, não é das mulheres mais belas.
Pelo contrário, trata-se certamente de uma mulher feia. Porém,
do ponto de vista artístico, é uma bela obra. Como é possível?
Conceitualmente, é uma mulher feia, mas formalmente, uma
mulher bela, pois atende aos padrões estéticos e artísticos de
simetria.
Podemos citar outros tantos exemplos, como as obras
do pintor espanhol Francisco Goya, do poeta americano
Edgar Allain Poe, do compositor húngaro Béla Bartók etc.
Entender a diferença entre conceitual e formal (ou estrutural)
fará toda a diferença para entender como se dá a relação entre
a Arte e o feio ou o grotesco.
Em síntese, o feio não deve ser alijado da obra artística,
mas apenas em seus aspectos conceituais. O feio jamais deve
estar atrelado aos aspectos formais da obra, e esse é um
dos grandes pecados cometidos pelos modernistas, como
pretendo demonstrar nas próximas linhas.

23
Forma e substância
Conforme demonstrei um pouco acima, uma confusão
muito comum no que tange a obras de arte é a diferenciação
entre forma e substância. Trocar os dois de lugar pode gerar
uma série de confusões conceituais. Enquanto a forma diz
respeito ao objeto material da arte (tinta, tela, papel, som,
palavras, rimas etc.), a substância diz respeito ao conteúdo
espiritual da obra (não em um sentido estritamente religioso,
embora possa sê-lo também), às ideias que o artista deseja
transmitir ou mesmo às ideias alheias à própria vontade do
artífice, que acabam sendo geradas espontaneamente através
da contemplação e da fruição por parte do espectador, que
não é um elemento passivo do processo, mas um elemento
ativo capaz de ressignificar o objeto artístico conforme suas
condições culturais, estéticas e seu senso crítico.
Como citado no início do presente ensaio, arte é o
mesmo que técnica, ou seja, a forma está diretamente ligada
não apenas ao processo de composição da obra (meios), mas
aos resultados fruitivos (fins). Os aspectos formais, partindo
do pressuposto de que a comunicação em Arte ocorre por
meio da função poética (o meio é a mensagem), não têm uma
relação direta com os aspectos substanciais (ou conceituais)
da obra. Artista não é aquele ser criativo através da matéria,
mas criativo através do espírito, respeitando as regras da
matéria.

24
Liberdade artística
Portanto, a liberdade do artista não está atrelada à
obra enquanto objeto, mas à obra enquanto ideia. O fazer
artístico tem regras estritas, que devem ser obedecidas sob
pena de excomunhão da obra enquanto tal. O fazedor de arte
deve exercitar sua liberdade no plano das ideias, enquanto
segue obedientemente as fronteiras limítrofes da técnica. Não
é à toa que os maiores artistas são os mais disciplinados de
todos. Enquanto encantam multidões com sua criatividade
e inventividade, encantam as mesmas multidões com sua
técnica apurada e seu esmero em relação aos detalhes de suas
criações.
Aqui cabe uma breve explanação sobre os conceitos de
liberdade e disciplina, conforme definição do arte-educador
Herbert Read, em seu clássico livro A Redenção do Robô.
Segundo ele, o termo disciplina tem sido mal empregado na
educação moderna, o que gera reflexos negativos também
no campo da Arte. Disciplina vem de discípulo, ou seja,
está relacionada não a uma ideia de subserviência a tiranos
e regras mortas, mas sim à ideia de seguir o que já foi
testado e aprovado. O mesmo problema ocorre com o termo
liberdade, que gerou uma série de experimentos disformes e
bizarros, com resultados catastróficos. Confundindo forma
e substância, muitos acabam confundindo liberdade com
libertinagem e desleixo. Dessa forma, tudo passa a ser arte e,
consequentemente, tudo deixa de ser arte!

25
Uma velhice não muito confortável
Do final da Idade Média até o início do século XX, a
Música Ocidental seguiu uma linha evolutiva bem desenhada:
nasceu do ventre da polifonia medieval, teve sua infância nas
obras renascentistas, chegou à maturidade com o sistema
temperado no Barroco, atingiu o apogeu no Classicismo
setecentista e chegou à terceira idade no Romantismo. Uma
longa e próspera vida dedicada à Beleza!
Esta seria uma linda história se não houvesse um
posfácio macabro: após o falecimento dessa singela senhora,
a Música Ocidental, um vírus tomou conta de seu corpo,
trazendo-o novamente à vida, digo, a algo parecido com uma
vida. O tal vírus criou a chamada Música Moderna, que por
sua vez criou um exército de outros zumbis (dodecafonismo,
música atonal, música pós-tonal, música serial e tutti quanti).
Se antes nossa doce Música Ocidental dedicava seus dias à
Beleza, agora o que sobrou de seu corpo (sua alma já se foi há
tempos) dedica-se a um culto demoníaco ao caos, à bizarrice,
à militância anti estética da pior qualidade! Um verdadeiro
prelúdio do fim dos tempos!
Se uma melodia pode elevar o espírito do Homem às
alturas celestiais, se os encadeamentos harmônicos podem
fazer a mente viajar, na Música Moderna tudo isso se perde
em devaneios tolos e circunvoluções que conduzem ao nada!
As linhas melódicas nada dizem, pois não seguem a lógica
natural da tonalidade. A harmonia, que nega a tonalidade, é
substituída por texturas pasteurizadas, matematicamente frias
e inócuas! Nada pode ficar na mente do ouvinte, pois nada
diz exatamente… Nada! Por conta desse caráter obscuro, a
Música Moderna transformou-se em uma arte oculta para um
círculo de iniciados, afastando o povo das salas de concerto
e consequentemente da fruição da Alta Cultura, fazendo com
que gerações de jovens perdessem o apetite e a sensibilidade
pelo caráter estético da Música! É a zumbificação cultural
colocada em prática!
26
Beleza castrada
Desde que artistas em geral decidiram deixar a Beleza
de lado para abraçar questões subalternas, como a militância
política, as críticas sociais, ou mesmo o simples choque do
contemplador (vulgo público consumidor), a coisa começou
a degringolar. O relativismo passou a vigorar como um ente
absoluto (parece contraditório, e é mesmo), enquanto a mais
tenra manifestação de tradicionalismo, qualquer elemento
que soasse antigo, passou a ser execrado como um demônio
proscrito, como se a desconstrução tivesse sido promovida ao
patamar da própria construção! Uma loucura.
A gênese dessa situação está no Romantismo, que em
si mesmo não significa uma ruptura com os valores artísticos
e estéticos tradicionais, mas que representa o surgimento
de alguns conceitos que possibilitaram tal ruptura, como
a glamourização da autodestruição por parte do artista, a
elevação do criador de arte ao patamar de “gênio excêntrico
que habita a torre de marfim”, a adoção do idealismo como
bandeira política, na ânsia de “construir um mundo melhor”
(essa hedionda ideia que sempre conduz à barbárie e ao
genocídio). Enfim, é no Movimento Romântico que afloram
tais ideias que, elevadas à categoria de santidade intocável
pelos modernistas, possibilitou a castração do belo nas Artes!
Obras supostamente musicais, que negam a
tonalidade, o princípio de tensão e repouso e o centro tonal,
ou mesmo outras mais radicais (é possível, meu Deus?!),
como a famigerada 4’33”, de John Cage, que passa quase
cinco minutos em absoluto silêncio, pululam por todo o
século XX (seria esse o século da bestialidade como regra?).
Movimentos de índole revolucionária, como o dadaísmo,
o dodecafonismo, o serialismo, o futurismo, entre outros,
devotaram sua existência à destruição dos valores fundantes
da Arte (o belo, o bom, com a técnica a serviço destes, e não
o oposto, e a verdade), ao mesmo tempo que instituíram uma
27
espécie de “deusa técnica”, puramente matematizada sem
nenhum vínculo com os reais sentimentos outrora evocados
pelos grandes mestres! Nas artes plásticas, aberrações como
o urinol de R. Mutt (pseudônimo utilizado por Marcel
Duchamp), chamado de “A Fonte”, empesteiam museus
por aí. Casos ao mesmo tempo hilários e desesperadores de
faxineiras que “limparam” exposições achando que aquilo
fosse lixo vivem a aparecer nos noticiários. Afinal, gente
simples ainda tem bom senso!
Em suma, na ânsia de reorientar o sentido da Arte,
muitos artistas castraram a Beleza, que é a única coisa que
realmente importa em uma obra artística, deixando-a estéril,
inútil, e principalmente afastando o grande público. Criou-se
um verdadeiro “clubinho fechado apenas para os iniciados”,
que se aplaudem mutuamente, rasgando seda uns para os
outros. Um verdadeiro retrocesso!

28
A mentalidade revolucionária dos
modernistas

A Arte Moderna teve início logo após o período


romântico, entre o final do século XIX e o início do século XX.
Suas principais características estão no experimentalismo, na
desconstrução da tradição ocidental, na inserção de elementos
heterodoxos, assim como na valorização da percepção
sensorial sobre o efeito estético em si (o efeito psicológico da
peça é mais importante que a beleza transmitida pela obra).
O vanguardismo é o elemento-chave para o artista moderno.
Resumindo, o foco do artista está no choque causado no
contemplador da obra.
Todo esse processo de mudanças no cenário artístico
erudito ocidental não ocorreu por acaso, ou pela sequência
lógica do progresso técnico. Pelo contrário, tudo foi motivado
pela ação de uma mentalidade revolucionária que tomou
conta do meio artístico desde a ascensão do Romantismo.
Mas o que é essa tal Mentalidade Revolucionária? Segundo
o filósofo Olavo de Carvalho, “Mentalidade Revolucionária é
o estado de espírito, permanente ou transitório, no qual um
indivíduo ou grupo se crê habilitado a remoldar o conjunto da
sociedade – senão a natureza humana em geral – por meio da
ação política; e acredita que, como agente ou portador de um
futuro melhor, está acima de todo julgamento pela humanidade
presente ou passada, só tendo satisfações a prestar ao tribunal
da História”. Portanto, um grupo de pessoas, nesse caso
os artistas do período, ou a ampla maioria deles, pretendia
remoldar a cultura ocidental, construída durante mais de dez
séculos, pois em sua visão progressista, tal cultura era algo
“reacionário, retrógrado, aristocrático e elitista”. O recém-
falecido Pierre Boulez, assecla do modernismo musical, dizia
que depois do advento dos compositores austríacos modernos
(Schoenberg e Webern principalmente), toda música que
29
não fosse dodecafônica (melodias baseadas em séries de
doze sons que não se repetem enquanto todas as doze notas
não aparecerem na frase) era inútil. Jogar composições
atemporais do barroco, da renascença, do classicismo, do
romantismo e de outros movimentos artísticos históricos na
lata do lixo é a forma mais vil de remoldar a Arte! Apesar
do discurso revolucionário calcado na “democracia cultural”,
no fim da “elitização burguesa e aristocrática dos clássicos”
e outras balelas, o efeito prático do modernismo foi um só: o
esvaziamento das salas de concerto, museus, teatros etc! Se
antes do século XX qualquer família de miseráveis apreciava
uma boa obra de arte (Shakespeare era considerado popular e
lotava teatros londrinos), muitas vezes sacrificando o próprio
conforto (por mais parco que fosse) para mandar os filhos
para estudar violino, piano, canto, pintura, escultura, teatro
ou qualquer outra linguagem artística nos centros culturais
(não só na Europa, mas também nas colônias: no Brasil,
havia uma tradição de músicos eruditos negros e mestiços
no interior de Minas Gerais nos bons tempos do Império que
jamais conseguiremos igualar, sem falar em nomes como
Aleijadinho, escultor magnífico do barroco mineiro e filho
ilegítimo de um português com uma escrava), hoje quem
não faz parte do “clubinho esclarecido e excêntrico” dos
apreciadores da maçaroca chique do modernismo, está alijado
da fruição erudita. Ao invés de trazer Alta Cultura para o
povo, os modernistas afastaram qualquer possibilidade de
apreciação artística por parte dos leigos no assunto, abrindo
espaço para uma enxurrada de aberrações que vieram depois!
Outro fator que não podemos deixar de lado é
o chamado discurso anexo, ou seja, toda a explicação
verborrágica que deve acompanhar uma obra desse tipo,
pois é impossível apreciar a bagunça moderninha sem que o
autor da obra explique porque cargas d’água escreveu aquele
troço! Enquanto a arte tradicional é apreciável por si só, pois
é mergulhada na mais alta e espiritualizada Beleza, atemporal
e divina, a arte contemporânea e/ou moderna é robótica,
30
indecifrável, vem do nada para se dirigir a lugar nenhum,
expressando apenas um sentimento: a confusão mental do
artista!
A mentalidade revolucionária foi um espírito de
confusão que se instalou no seio da classe dos artistas, com
a finalidade de instaurar o caos, demolir a Beleza através da
destruição da técnica tradicional, além de afastar o Homem
comum da fruição artística. Se há algo mais deletério que isso
artisticamente falando, o diabo guardou para si!

31
Platão e a música decadente

Estamos falando de obras de arte em geral, mas é


inegável que a Música tem um alcance muito mais amplo
socialmente do que qualquer outra linguagem artística. Ela
é a mais universal das artes, talvez por ser a única que não
precisa passar pelo intelecto para ser apreciada, falando
diretamente aos sentimentos humanos.
Não sei dizer se Platão tinha pretensões futurísticas
quando escreveu o antológico A República, mas a cada
carro de som que passa pela rua, lembro-me imediatamente
de suas palavras em relação ao efeito nocivo na mente dos
jovens de alguns tipos específicos de música. O velho filósofo
grego tinha preocupações éticas em relação à música, e
sua concepção musical passa pela ideia de contribuição do
homem à sociedade. Ou seja, a música não seria apenas um
divertimento banal, como ocorre hodiernamente, mas um
elemento fundamental ético, estético e educacional tanto na
formação do caráter individual, quanto na constituição de
uma sociedade sadia!
Segundo Platão, a virtude é o conceito mais importante
que há, sendo inclusive o único caminho de atingimento da
felicidade. Com isso, músicas que proporcionem a decadência
moral, o desvio das veras virtudes, o afrouxamento da
masculinidade enquanto aspecto ativo de uma sociedade
livre e autossuficiente (isso não tem nenhuma relação com a
sexualidade) são um empecilho social e devem ser combatidas.
Nesse sentido, ética e estética, beleza e bondade, acabam
sendo termos correlatos, que não vivem isoladamente.
Para Platão, assim como para Pitágoras, a proporção
matemática da música é um indício de sua perfeição
espiritual, pois traz paz, harmonia e beleza, espantando o
caos, a desarmonia e, consequentemente, elevando a alma ao
patamar da plena felicidade!
32
Ainda segundo o filósofo ateniense, combater o
hedonismo e a banalização, não apenas na música, mas
também na poesia e na pintura, é uma obrigação! Qualquer
sociedade sadia que se preze afasta os jovens dessas formas
perniciosas de arte, ou pseudoarte. Mas o que torna tal tarefa
tão difícil na sociedade moderna é o politicamente correto, é
o multiculturalismo, é a ideia de que todos têm o direito de
se expressar da forma que bem entenderem, apostatando da
tradição musical e da técnica consagrada como se estas fossem
algo atrasado, retrógrado. É a busca incessante por uma
pretensa liberdade que, na prática, não passa de libertinagem.
Nada mais distante da genuína liberdade!
Analisar o gosto musical deturpado virou uma ofensa
em uma sociedade mergulhada na fragilidade emocional,
imersa na ignorância cultural, afundada no chorume caótico
de um falso pluralismo, que na realidade apenas pasteurizou
a cultura musical, transformando-a em mero entretenimento
barato e em glorificação do animal selvagem que se esconde
no âmago de cada um de nós!

33
Classe artística e conservadorismo
“O anarquismo nos estimula a sermos artistas criativos
arrojados e a não dar atenção alguma a leis e limites. Mas é
impossível ser artista e não dar atenção a leis e limites. A Arte
é limitação.” G.K. Chesterton
A ideia geral que se tem dos artistas é que são pessoas
idealistas, com uma sensibilidade social aguçada, sedentos
por transformar o mundo em um lugar melhor. Logo,
o senso comum os coloca no lado esquerdo do espectro
político-ideológico. Quando jovens, tais artistas cometem
bobagens sem fim em nome desse ideal utópico, manchando
suas carreiras de forma indelével. Assim como o coração se
encontra mais à esquerda no peito, o lado emotivo dessa gente
os coloca no lado esquerdo da coisa.
Contudo, não raras vezes vemos os mesmos artistas
“rebeldes sem causa” migrando para o lado direito do espectro
político, ou mesmo se abstendo de estar em um lado da coisa,
depois de atingirem a maturidade. É a razão tomando conta
de suas mentes antes embebidas em ideologia barata!
Ser conservador não é uma ideologia, mas sim uma
postura diante da vida. Isso é facilmente comprovável quando
vemos que toda linha ideológica prega uma determinada
moldagem do mundo, para atingir os fins desejados. O
socialismo deseja abolir as classes sociais, o liberalismo
deseja implantar o livre mercado, o anarquismo deseja abolir
toda forma de governo, o nazismo desejava implantar a raça
pura, assim por diante. Enquanto isso, o conservador é aquele
sujeito avesso a mudanças bruscas, essas mesmas apregoadas
pelos ideólogos supracitados. Pelo contrário, o conservador
quer conservar os valores atemporais que compõem a base
da civilização, não para ser um simples retrógrado que deseja
manter o status quo, mas para que as mudanças respeitem um
ciclo moderado e sustentável existencialmente falando!
34
Quando um artista chega à maturidade etária, mas
mantém a postura rebelde da juventude, vemos que este
não cresceu de fato, e ainda nutre dentro de si uma criança
mimada que jamais aceitará a realidade como ela é. Uma boa
análise transacional explicaria muita coisa! No fundo, esse
rebelde que se diz defensor de um mundo melhor, tolerante,
“pra frentex”, não passa de um inimigo da liberdade, da
sociedade, da cultura, dos indivíduos e das instituições que
garantem o direito de ir-e-vir, e que impedem que o governo
e o Estado engulam comunidades locais e sua forma de vida
de maneira voraz.
É compreensível e, até certo ponto, louvável que o artista
seja um idealista cheio de boas intenções nos primeiros anos
de sua vida adulta, mas é igualmente respeitável que ele reveja
suas posições após certa idade, sob pena de se transformar em
um deplorável fantoche involuntário de forças malignas que
ele ignora completamente!

35
Tonalidade, hierarquia e o primeiro
mandamento

A música tonal é o ápice da evolução musical,


construída depois de muitos séculos de aprimoramento,
tentativa e erro, e aderência ao que a própria alma humana
naturalmente já sabia: o centro tonal e sua inerente hierarquia
são imprescindíveis! Mas como funciona esse centro tonal?
A música é dividida em três elementos fundamentais:
melodia, harmonia e ritmo (pulsação). A tonalidade é a lei que
rege tanto a construção de linhas melódicas (horizontalidade)
quanto a construção dos acordes (verticalidade) da peça
musical. Em relação aos acordes, temos os sete graus (lembre-
se que o sete é o número da perfeição): tônica, supertônica,
mediante, subdominante, dominante, superdominante e
sensível. O terceiro grau é chamado de mediante exatamente
por fazer a mediação entre os dois graus mais importantes
e consonantes da harmonia, a tônica e a dominante. E é a
tônica o centro tonal, uma espécie de Sol musical, ao redor do
qual orbitam os “acordes planetários”, tributando-lhe toda a
reverência por ser o principal acorde de todos. Vale lembrar
que um acorde pode ser a tônica, como pode ser qualquer
dos outros graus, dependendo da tonalidade da peça. Um C
(Dó Maior) terá o acorde de C como tônica, o acorde de F
como quarta (subdominante) e o acorde de G como quinta
(dominante). Mas um G (Sol Maior) terá o G como tônica,
o C como subdominante e o D como dominante, e assim
sucessivamente.
Dentro desse contexto, temos o princípio de tensão e
repouso, que é a relação pendular entre os graus I, IV e V
(tônica, subdominante e dominante), sendo o I o repouso, o
IV a semi-tensão e o V a tensão, que deve necessariamente
ter a resolução no I, retornando à tensão inicial. Nessa
oscilação entre tensão e repouso, o ouvido naturalmente pede
a resolução no acorde principal, como se outro grau que não
36
o primeiro deixasse a coisa toda suspensa no ar, de maneira
quase insuportável!
Diz o primeiro mandamento, descrito em Êxodo 20,
e depois reforçado por Nosso Senhor Jesus Cristo (confira
em Matheus 22), que devemos amar a Deus ACIMA de todas
as coisas. E Cristo ainda reforça que, além disso, amemos
ao próximo como a nós mesmos, e que todos os outros
mandamentos e todos os profetas dependem disso, ou seja,
se não acatarmos a noção de hierarquia estipulada por esse
mandamento, obedecer a qualquer outro se torna um árduo
exercício de inutilidade. E na música não é diferente: a moderna
música atonal, ou pós-tonal, compreendida em suas diversas
manifestações (dodecafonismo, atonalismo, serialismo,
música concreta etc.) nega o princípio básico da harmonia, ou
seja, renega a tonalidade, renegando consequentemente todas
as regras possíveis, o que torna inútil a adesão a qualquer
regra musical que seja.
Não é à toa que existe hoje uma sanha incalculável por
“igualdade”, negando-se qualquer autoridade como atitude
retrógrada. Novos modelos de organograma corporativo têm
sido desenhados de forma circular, onde o gestor tem uma
função quase simbólica. Isto ocorre também na Educação,
onde o professor perdeu sua antiga autoridade de mestre,
estando hoje subjugado pela violência de alunos cada vez mais
distantes da acepção original do termo, que designa aquele
que é alimentado por outrem (vejam só, pelo professor!). Tudo
isso é resultado de uma diabólica vontade moderna de negar
a autoridade, o princípio de hierarquia que sempre regeu o
Universo, desde os sistemas planetários, até a Harmonia
Musical, tema que deu origem a este artigo.
Resumindo a ópera, negar a tonalidade, além de ser
antinatural, é um tremendo mal social e cultural, um grande
prejuízo à Humanidade. Tal afirmação pode soar como um
exagero, mas tudo está interligado. A barbárie passa pelo
colapso da autoridade, e é para isto que caminha a renitente
raça humana! Cumpram-se as incontornáveis profecias,
regidas também pelo primeiro mandamento!
37
Arte engajada, discurso anexo e
empobrecimento estético

A arte é o mais livre dos fenômenos humanos. Seu


único compromisso é com a Beleza e a Estética. Uma obra
de arte é um hino ao belo, e sua liberdade conceitual, aliada
à disciplina técnica, é o que garante a eficácia desse hino.
Porém, desde o final do período romântico, com particular
ênfase no advento do modernismo, ela tem sido sequestrada
por ideólogos que a transformaram em matéria panfletária
dos mais variados matizes, instrumentalizando a técnica e
escravizando a beleza. É o que chamam de arte engajada.
Como dito acima, existe um equilíbrio entre liberdade
conceitual e disciplina técnica que muitas vezes é invertida ou
mesmo desprezada pelos ditos artistas modernos. Enquanto
o artista é livre para abordar o que aprouver a sua alma e a
sua consciência, sem rabo preso com ninguém, a técnica
é a baliza que dá sentido material a sua obra, sem a qual a
peça pretensamente artística não passa de um amontoado de
maluquices de um lunático.
Todavia, o que vemos em álbuns musicais, bienais
do livro, exposições e instalações de arte contemporânea et
caterva é a inversão da supracitada regra: enquanto o criador
da obra se escraviza a um conceito político, transformando
seu trabalho em curral ideológico (e às vezes eleitoral), o
que naturalmente tira a liberdade conceitual e espiritual
inerente à obra, abre-se mão completamente de qualquer
disciplina técnica, o que transforma a obra em um monturo
sem o mínimo sentido material. O que era para ser bom,
belo e verdadeiro, através da evidência técnica e da liberdade
conceitual, passa a ser mau, feio e mentiroso, através da
escravidão conceitual e da bagunça resultante do aspecto
material. Nada menos artístico que isso!
38
Na arte moderna e contemporânea, o que dá sentido
à obra é o discurso anexo, explicação externa à obra de
arte em si, sem a qual a peça não passa de um pedaço de
alguma coisa qualquer. Um mictório é apenas um mictório
se não vier acompanhado de todo um discurso neurótico
e pseudo intelectual que justifique aquele pedaço de louça
no meio do salão. Um “poema” dadaísta é apenas um
amontoado de palavras aleatórias se não for justificado por
uma argumentação pacifista e um tanto cafona. Os exemplos
são muitos, mas culminam em uma estonteante realidade:
uma obra de arte DE VERDADE não precisa de justificativa
alguma, pois ela se justifica por si mesma. Uma ópera de
Verdi, um soneto de Shakespeare, uma tela de Da Vinci ou
uma escultura de Michelangelo se explicam por si mesmas,
pois estão calcadas na alma do artista, que é livre por natureza,
sem embaraços mundanos, e ao mesmo tempo disciplinadas
pela técnica material.
Resumindo, podemos dizer que a verdadeira obra
de arte, em contrapartida do falso panfleto de inclinação
artística, é liberal no espírito e conservadora na matéria.
Exercita a liberdade das ideias e de consciência, e a rigidez
da técnica, nunca o contrário. Não estou aqui dizendo que
não possa haver um tema político na obra de arte, afinal, se
existe a tal liberdade citada acima, o artista é livre também
para expressar seus ideais políticos. Contudo, há um grande
perigo nesse quesito, pois artistas são frequentemente
utilizados como massa de manobra para atender a interesses
de poderosos, além de ser fácil transformar uma expressão
artística em serva de um ideal, o que prostitui os princípios
artísticos. Por isso, é necessário tomar muito cuidado quando
se apresentar em nossa frente um artista engajado, um ativista
cultural. Se a obra não se sustenta por si mesma, tendo a
necessidade de um discurso anexo como fonte de sentido,
trata-se de um embuste!

39
A patrulha ideológica
“Picasso é comunista. Eu também não.”
Salvador Dalí

Jean Sibelius nasceu na Finlândia, em 1865, e faleceu no


mesmo país, em 1957. Um dos maiores nomes da composição
do século XX, ele escreveu sete notáveis sinfonias, todas
tributárias do estilo romântico de compor, já que o finlandês
havia estudado com afinco o trabalho de Richard Wagner e de
outros românticos alemães, além de outras obras magníficas,
dentre elas o poema sinfônico “Finlandia”, considerado uma
ode à liberdade de seu povo contra a opressão russa. Mesmo
assim, Sibelius passou boa parte do século XX no mais
absoluto silêncio, muito por conta da perseguição que sofria
dos chamados modernos (a tríade Schoenberg-Berg-Webern),
que o consideravam um reacionário pelo simples fato de não
ter abandonado o tonalismo. Um de seus maiores êxitos foi
ter sido detestado pelo (esse sim) detestável Theodor Adorno,
um canalha das letras e um dos maiores responsáveis pelo
triunfo do marxismo cultural!
Analisando a biografia de Sibelius, podemos notar
com nitidez que a patrulha ideológica progressista não é tão
jovem assim no meio artístico. Os bambambãs do cenário
musical da época, os supracitados Arnold Schoenberg, Alban
Berg e Anton Webern, além de alguns de seus discípulos,
como Stockhausen, Pierre Boulez e outros, ditavam as normas
estéticas e estilísticas da composição no início do século
passado. Com o já batido argumento modernista de superar
um suposto estilo retrógrado, eles mandavam às favas técnicas
consagradas de composição, como o centro tonal, o princípio
de tensão e repouso, a forma-sonata e o sistema temperado,
que permaneceu incólume apenas no dodecafonismo, mas da
forma mais errônea possível!
40
Em um determinado encontro com Gustav Mahler,
Sibelius declarou que “priorizava o vínculo interno entre todos
os motivos” em suas composições, o que nos parece óbvio, já
que tal disciplina traz sentido à obra como um todo, além de
tornar a obra palatável para o público leigo. Porém, Mahler
respondeu horrorizado que “a sinfonia deve abraçar o mundo”.
Quando retornou a Viena, Mahler declarou que Sibelius era
um compositor provinciano e de segunda categoria. Estava
carimbado o passaporte do compositor nórdico para a terra
dos artistas rejeitados. De 1927 a 1957, ano de sua morte, Jean
não compôs nada, além de ter mergulhado no alcoolismo.
Guardadas as devidas proporções, é inevitável comparar o
caso ao de Wilson Simonal, maior cantor brasileiro da era dos
festivais, relegado ao ostracismo pela patrulha ideológica que
domina a MPB.
Jean Sibelius é sem dúvida o maior sinfonista do século
XX, tão maltratado por déspotas musicais, que trocaram a
beleza da música erudita tradicional por um troço ideológico
que privilegia a feiura diabólica!
Salvador Dalí nasceu na Espanha, em 1904, e faleceu
no mesmo país, em 1989. Um dos precursores do movimento
surrealista, Dalí combinava traços clássicos a uma estética
moderna. Obras geniais saíram de suas mãos.
Apesar de ter sido um modernista (o surrealismo
é uma corrente modernista), Dalí não aceitava os aspectos
militantes de seus coetâneos, e sofreu duras penas por isso.
Comunista na juventude, o pintor rompeu com o marxismo
na maturidade, o que gerou uma rixa com André Breton,
fundador do Movimento Surrealista. Por conta disso,
Breton o expulsou do movimento e passou a difamar o
pintor catalão, dizendo que ele pintava por dinheiro (sic). O
assassinato de reputações é uma especialidade da esquerda, e
nem os grandes gênios estarão imunes caso ousem contrariar
o clubinho. Se Dalí valorizava os atributos econômicos de sua
arte, o que é nenhum crime, Breton e Cia não passavam de
lacaios e escravos de uma ideologia que deforma o verdadeiro
fazer artístico!
41
A classe artística não está
nem aí pra você

“A decadência da sociedade é louvada pelos artistas assim


como a decadência de um defunto é louvada pelos vermes”
G.K. Chesterton

O estilo de vida dos artistas em geral, desde que


o romantismo passou a glamourizar a degeneração e a
autodestruição, sempre foi encarado pela sociedade como
algo excêntrico, pitoresco. “Ah, são artistas, releve”; essa era a
opinião do senso comum quando um popstar cometia alguma
imbecilidade que a mídia logo corria a noticiar, feliz da vida!
Mas de uns tempos pra cá, principalmente depois do advento
das redes sociais, quanto mais tresloucada é a opinião de um
artista, mais relevância ele tem, não importando o que ele
pode fazer em seu campo de atuação. Lacrou, arrasou!
Isso não é novidade. Na guerra do Vietnã, nomes
como John Lennon e sua esposa Yoko Ono lideraram
multidões de hippies que mal entendiam o que se passava na
esquina de suas casas, o que dirá da situação geopolítica de
um país asiático. Mas isso não importava, pois o que valia
era ser “paz e amor”, mesmo que isso significasse a assunção
de sanguinolentos comunistas ao poder! Hoje, contudo, a
situação se intensificou de tal forma, que tudo virou motivo
para os veículos de comunicação darem espaço para algum
desajustado vomitar as mais desajustadas opiniões. Se antes
os complexos motivos de uma guerra deixavam esse pessoal
meio perturbado, hoje tudo vale uma lacrada, da cor do papel
higiênico à reforma trabalhista.
Trocando em miúdos, o grande desejo dessa
turma é posar de bacanas, enquanto empurram sórdidos
posicionamentos goela abaixo daqueles que justificam seus
42
vultosos cachês! Se o discurso transparece uma bondade que
os profetas mais achegados a Deus jamais sonhariam ter, na
prática o que vale é a truculência do pensamento único. É a
ditadura do politicamente correto, um regime totalitário todo
trabalhado no marketing dos sorrisos amarelados!

43
Equilíbrio entre tradição e
individualidade

Foi o movimento romântico que deu o pontapé inicial


à ideia da individualidade e da genialidade (forma mais radical
de exercício individual), tanto na arte quanto na filosofia.
Podemos notar esse viés em composições do violinista
italiano Nicolau Paganini, que subverteu a forma tradicional
de se tocar violino imprimindo uma expressividade inédita
no jeito de se executar o instrumento, perceptível nas técnicas
inovadoras desenvolvidas pelo compositor.
Antes do romantismo, predominavam o equilíbrio
técnico e a sobriedade formal, fosse no período clássico, na
renascença ou no barroco (com exceção do período final desse
movimento, chamado rococó, caracterizado pelo exagero que
beirava o cafona; não é à toa que esse período é conhecido
como a decadência do barroco). A tradição estava acima da
individualidade. A obediência aos cânones estabelecidos era
superior às vontades egoístas do indivíduo fazedor de arte.
Quando Beethoven rompeu com o mecenato dos
nobres e do clero, deu-se aí uma ruptura irrevogável: o artista
passava aí a um estado de liberdade criativa jamais pensada
no tempo dos Médici. Não havia mais a necessidade de
um nobre, fosse da Igreja ou do Estado, encomendar uma
obra, com uma finalidade específica. Ele podia enfim criar
conforme sua própria consciência. Isso teve consequências
positivas e negativas, como veremos a seguir.
As consequências positivas estão associadas à
supracitada consciência do artista. Com liberdade para criar,
sem rabo preso com uma elite muitas vezes leiga em relação às
artes e à estética, o artista tinha em suas mãos a possibilidade
de desenvolver suas habilidades e talentos de forma plena! Por
outro lado, as consequências negativas, curiosamente, partem
do mesmo local, a consciência do artista. Desarraigando-se
44
de uma linhagem tradicional que vinha se aperfeiçoando
desde a Grécia antiga, passando por Roma, pelo medievo e
pela renascença, que justamente partia da premissa do resgate
dessas raízes, toda maluquice poderia ser considerada como
arte, já que o critério principal era a consciência subjetiva e não
uma tradição objetiva, estabelecida e consagrada. Abriam-se
inexoravelmente as portas para a Arte Moderna, o apogeu da
bizarrice e do mau gosto!
Levando-se em consideração os pontos acima
tratados, o que beira a perfeição na criação artística é o
equilíbrio entre o respeito às tradições já consagradas pelos
grandes do passado e uma liberdade artística responsável,
pois muitas vezes o artista tem uma percepção distorcida da
realidade, fruto de diversas perturbações. Se a obra de arte
é a eternização concreta de sentimentos e ideias abstratas e
muitas vezes fugazes, buscar esse equilíbrio passa a ser uma
obrigação daqueles que se propõem a fazer arte. Uma obra de
arte não existe para ter uma utilidade imediata, como uma
cadeira ou um garfo (a menos que eles façam parte de uma
obra). Por isso mesmo, faz-se necessária uma dose considerável
de criatividade e de licença poética, já que uma obra “inútil”
do ponto de vista utilitário cotidiano só pode existir se for
concebida “fora da caixa”. Simultaneamente, uma obra de
arte somente o é de facto se estiver esquadrinhada dentro
de preceitos pré estabelecidos e consagrados por uma dada
tradição. Se tudo é arte, nada é arte.
O artista que alcança o equilíbrio entre o respeito à
tradição e a liberdade criadora de sua individualidade atingiu
um patamar raro! Temos aí um ser virtuoso e culturalmente
elevado, uma jóia rara do ponto de vista social e civilizacional!

45
Mas por que a beleza importa
tanto assim?

“Em qualquer tempo entre 1750 e 1930, se você


pedisse para qualquer pessoa educada descrever o objetivo
da música, da arte e da poesia, a resposta seria: a beleza.”
Roger Scruton (Why Beauty Matters)

Em seu documentário Why Beauty Matters (Porque


a Beleza Importante, disponível legendado e gratuitamente
no YouTube), o filósofo Roger Scruton explica que a beleza
é um valor tão importante quanto a verdade e a bondade.
Isso pode soar estranho a ouvidos modernos, acostumados à
utilitarização/instrumentalização de tudo, mas a beleza não
é apenas um acessório opcional (seja em Arte, seja na vida),
um meio para enfeitar as coisas, mas um valor-em-si-mesmo.
Scruton nos explica que, no século XX, a finalidade da
Arte deixou de ser a beleza e passou o choque e a perturbação.
Para tanto, os artistas passaram a se utilizar da originalidade
a qualquer custo e por qualquer meio! Essa “atitude
revolucionária e progressista” criou um culto bizarro à feiúra
e transformou as obras de arte em objetos sem alma e vazios.
Em determinado ponto do documentário, Scruton
diz: “Penso que estamos perdendo a beleza, e existe o perigo
de que, com isso, percamos o sentido da vida”. Com isso, o
filósofo britânico evidencia a angústia moderna. O niilismo
tomou conta do Homem Moderno, o desespero transformou-
se na tônica de sua parca existência. E isso se reflete na Arte
que ele produz, tão vazia, angustiante e desesperadora quanto
sua vida mesquinha!
No início deste ensaio, eu falei que devemos enxergar
a Arte sob o prisma da Civilização Ocidental, desde a Grécia
até o século XIX. Essa necessidade fica clara no em Why
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Beauty Matters, pois Scruton demonstra que o surgimento
da Beleza como centro do fazer artístico está intimamente
ligado ao surgimento da Filosofia como a conhecemos hoje.
Se antes a Arte tinha funções estritamente religiosas, tribais
e bélicas, praticada de forma irrefletida como extensão do
mundo mágico, a partir dos gregos ela passa a ser fruto da
reflexão filosófica, e figura entre as principais meditações do
Homem. Compor uma peça musical, esculpir uma estátua de
mármore, esquadrinhar um poema épico, escrever uma peça
teatral, ou qualquer outra manifestação artística, deixa de ser
uma atividade puramente anímica e passa a ser uma atividade
racional e intelectual!

“Através da percepção da beleza, moldamos


o mundo como um lar. Também passamos a
entender sua própria natureza, sua essência
espiritual. Mas nosso mundo virou as costas
para a Beleza, e por este fato nos encontramos
rodeados de feiúra e alienação”. Roger Scruton.

Excluindo-se a Beleza da concepção artística exclui-


se a moldagem do mundo como um lar. Excluindo-se a
moldagem do mundo como um lar, passamos a ser forasteiros
apátridas! Tendo voltado suas costas para o belo, o mundo
moderno descartou por tabela também o bom e o verdadeiro,
inserindo em seu lugar uma visão tecnicista acinzentada e
desprovida de espiritualidade.
É evidente que existe sim espaço para o feio, o grotesco
e o chocante na Arte. El Greco já se utilizava desses elementos
no século XVI, muito antes de qualquer moderninho pensar
em existir. Mas a diferença entre uma tela de El Greco sobre
o juízo final e um mictório no centro de uma galeria de
artes está menos na substância que na forma. E para suprir o
vazio deixado pela ausência ou perversão da forma, o artista
hodierno cria uma falsa substância, um argumento artificial
que podemos chamar de “discurso anexo”.

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O que é o discurso anexo
Discurso anexo nada mais é que uma explicação
mirabolante e recheada de termos obscuros, com o fito de
causar uma boa impressão no público (geralmente os próprios
pares daqueles que criam tais aberrações, já que o grande
público leigo está cada vez mais afastado do círculo artístico,
que não lhe transmite nada além de estranheza, rubor facial e
constrangimento alheio).
O discurso anexo gira em torno de alguns temas
específicos, como guerra, política, causas sociais e sexo. Ao
invés de abarcar a própria existência humana, expandindo
os horizontes, como faz a verdadeira arte, os modernos
limitaram o próprio trabalho a questões ideológicas,
geralmente associadas a críticas a favor de um mundo
melhor, de mais tolerância, de aceitação das minorias etc.
Esse discurso desloca a linguagem artística da função
poética para a função conativa (ou apelativa), o que cria tabus
praticamente intransponíveis, já que se rebelar contra a arte
moderna se transforma em discurso reacionário, retrógrado
e preconceituoso. É a novilíngua orwelliana em pleno
funcionamento. É o politicamente correto em pleno vigor!

48
Tradição, modernidade e materialismo
“A obra de arte traz consolação na tristeza e
afirmação na alegria.”
Roger Scruton

Plínio Salgado, escritor, teólogo e jornalista fundador


da Ação Integralista, rejeitava a visão convencional que separa
as ideologias políticas em um espectro dividido entre direita
e esquerda. Ele julgava ser esta uma visão ultrapassada, que
deveria ser substituída por uma visão atemporal que separasse
as diversas correntes de pensamento entre materialistas e
espiritualistas. Dessa forma, toda corrente que privilegiasse
os aspectos econômicos acima dos demais, estaria no lado
materialista. Marxistas e sua luta de classes e sua ideia de
alienação da mão-de-obra e liberais e seu livre mercado
estariam, de tal forma, no mesmo lado do jogo, cada qual com
suas finalidades específicas.
O presente ensaio não tem nenhuma intenção de ser
antiliberal ou anticapitalista, pois considero a importância
vital de determinadas liberdades para que uma sociedade
seja sadia. Contudo, enquanto conservador e monarquista,
estou do lado espiritualista do espectro de Plínio Salgado,
e devo salientar a preponderância dos elementos culturais
e espirituais acima de qualquer outra ideia, inserindo-se
inclusive os elementos econômicos sob a tutela da Cultura.
Dessa forma, toda Arte Moderna é guiada de
determinada forma pelo materialismo. Muitas correntes
modernistas tomaram o marxismo como escopo de sua
existência, chegando às raias da loucura com chamado
realismo socialista da União Soviética, que praticava uma
censura explícita aos artistas, proibindo qualquer obra que
não glorificasse os ideais comunistas. Por sua vez, outras
correntes tomaram um suposto caminho oposto, levando em
49
conta unicamente a funcionalidade da obra, argumentando
em favor de tal ideia através de um discurso anexo de cunho
ideológico específico. Desse modo, o caráter estético ficava
em segundo plano.
Arthur Schopenhauer considerava o mundo como
uma espécie de ciclo vicioso de vontade e sofrimento. As
vontades seriam a mola propulsora do ser humano, mas
tais vontades provocariam sofrimentos que gerariam mais
vontades e assim sucessivamente. A única forma de encerrar
provisoriamente tal ciclo seria por meio da Arte, mas
apenas enquanto os efeitos fruitivos durassem. Porém, se
tradicionalmente a arte era o remédio para o ciclo de vontade
e sofrimento, modernamente tal função semi-sacerdotal foi
retirada da arte. A beleza enquanto remédio foi desterrada!
Dessa forma, podemos entender a diferença entre o
uso da feiúra e do sofrimento como matéria-prima na arte
tradicional ou clássica e na arte moderna. Enquanto na arte
tradicional ou clássica, a feiúra e o sofrimento funcionam
como uma catarse, um modo de expurgar a alma humana
de suas tristezas, na arte moderna a feiúra tornou-se um fim-
em-si-mesmo, um meio de chocar as pessoas, confundindo
forma e substância, objeto concreto e ideal abstrato.

50
Resumo da ópera
Em suma, a Arte é a expressão dos sentimentos e
pensamentos humanos. Portanto, não podemos admitir
apenas o que é belo ou sublime, mas também o que geralmente
consideramos inconveniente, feio, grotesco etc. Contudo, o
grande pecado da Arte Moderna está na desconstrução da
tradição artística, na mentalidade revolucionária que renega
o passado, no novo pelo novo e na intenção de chocar o
espectador. Conforme dito no início do presente ensaio, esse
não é um manual de regras ou de técnica artística, mas sim a
percepção deste que vos escreve acerca dos temas tratados no
decorrer do texto.
Que possamos trazer à tona a sacrossanta função da
arte, ligada diretamente à beleza, à verdade e à bondade. Com
isso, talvez tenhamos a oportunidade de retomar o caminho
que decidimos abandonar, deslumbrados que estávamos com
os resultados atingidos pelo progresso. Ars gratia artis!

51
52
Deus,
armas e
roquenrou

53
54
Introdução:

rebeldia e maturidade

Uma característica indelével da juventude é a rebeldia.


Recém-chegados à fase pensante da vida, jovens em “início de
carreira” ainda não aprenderam a dançar a dança da vida e, por
isso, acabam reagindo a tal choque de forma desequilibrada.
Além disso, tais jovens desejam ardentemente se adequar
a um grupo, seja ele qual for, e geralmente tal grupo acaba
destoando do que é socialmente adequado (sim, isso existe).
A combinação desses dois fatores acaba gerando a famigerada
rebeldia juvenil, muito bem explorada pela indústria do
entretenimento e pela cultura pop.
No âmbito estritamente musical, a rebeldia sempre
teve lugar para expressar sua fascinação pelo irreverente. No
século XIX, primeiramente na Alemanha e depois no restante
do Ocidente, isso ficou conhecido como Romantismo, e
teve nomes de peso como Ludwig van Beethoven, Robert
Schumann, Franz Schubert, Johannes Brahms, entre outros.
Mas foi no século XX que a coisa aflorou. No sul dos EUA,
tivemos o jazz e o blues. No Brasil, o samba e seu culto à
malandragem. Na Argentina, o tango. E assim por diante.
Mas foi depois da II Guerra Mundial que surgiu aquele que
talvez seja o mais rebelde de todos os ritmos, ou pelo menos o
55
que melhor vendeu tal imagem: o rock and roll.
Surgido em meados da década de 1950, através de
nomes como Little Richard, Elvis Presley, Jerry Lee Lewis,
Bill Haley, Chuck Berry, entre outros, o fenômeno roqueiro
arrebatou multidões e se transformou em cultura de massas
em um curto período de tempo. Mesclando a country music
dos brancos texanos e o blues dos negros do Mississipi, o rock
instituiu uma nova maneira de fazer e ouvir música.
Com o passar do tempo, o fenômeno que antes apenas
cutucava o ego da família tradicional com suas dancinhas
sensuais em programas de TV aberta e com letras simplórias
que versavam sobre beijos escondidos em garotas do colegial,
motores de carros e outras futilidades que todos adoram,
começou a amadurecer. Sargent Peppers Lonely Heart Club
Band, disco dos Beatles de 1967, talvez seja o divisor de águas
de tal processo. Depois disso, veio o heavy metal com uma
nova forma de extravasar a rebeldia, através da violência,
do misticismo, da magia, do escapismo neo romântico etc.
O rock progressivo trouxe a sofisticação da música erudita
e abandonou completamente a simplicidade irreverente dos
primórdios, que veio a ser retomada pelo movimento punk.
Ciclos de revezamento apolíneo-dionisíaco estão na raiz do
filho mestiço da América!

56
O mal que os homens fazem
“O mal que os homens fazem vive para sempre, e o
bem frequentemente é enterrado com seus ossos.”
Marco Antonio
(Julius Caesar, ato III, cena 2 – William Shakespeare).

O rock é um fenômeno de massa que ganhou


notoriedade em um mundo pop moderno, pregando a
simplicidade, a anarquia e a liberdade. Mas algumas bandas
desse gênero musical superaram os limites da música
comercial e atingiram um status que David Bowie chamava de
“The fine Art”. Guardadas as devidas proporções, tais bandas
estão acima da grande maioria das outras, estando um pouco
mais próximas (ou menos afastadas) da Alta Cultura erudita.
No dia 11 de abril de 1988, a banda britânica Iron
Maiden lançava um dos discos antológicos da história do
heavy metal, Seventh Son of a Seventh Son. Baseado em um
romance de 1987, do escritor americano Orson Scott Card,
esse é um disco conceitual, ou seja, conta uma história, sendo
cada faixa similar a um capítulo. A história relata um homem
que tem visões sobrenaturais, o sétimo filho que também
tem sete filhos, sendo este último profetizado como uma
criança portadora de grandes poderes, disputada por anjos
e demônios como possível instrumento na terra. Um bom
enredo de horror e fantasia!
Uma das faixas do disco é a conhecidíssima The Evil
That Men Do, baseada em uma fala da peça Julius Caesar, de
William Shakespeare. Na segunda cena do terceiro ato, Marco
Antônio lamenta o assassinato do imperador Júlio César ante
os senadores que haviam traído o monarca, dizendo que o
bem que os homens fazem geralmente é enterrado com eles,
ou seja, cai no esquecimento rapidamente, ao passo que o mal
praticado pelos mesmos homens ecoa pela eternidade, sendo
57
cravado na História como um legado maldito!
Como bons britânicos bebedores da ácida fonte
filosófica dos escritores de língua inglesa, Adrian Smith,
Bruce Dickinson e Steve Harris, autores da canção, fazem
uma crua análise da natureza humana. Anjo e monstro ao
mesmo tempo, o fascinante e assustador ser humano é capaz
de realizar feitos magníficos e atrocidades macabras. Obra das
mãos do Criador, portador do sopro divino, a queda levou-o
à imperfeição perene, que passa de pai para filho através do
pecado hereditário. Depois de adquirir o conhecimento do
bem e do mal (seja através da tentação de Lúcifer ou do presente
suspeito de Prometeu), este se transformou em sua maldição,
sua sina de vida. Salomão se lembra de tão enfadonho fado ao
escrever O Eclesiastes (o Pregador), quando diz que não há
limite para o aprendizado e que escrever é enfado e cansaço.
Ainda falando sobre os céticos escritores britânicos,
encontramos essa acidez em nomes como Roger Scruton,
Theodore Dalrymple, G.K. Chesterton, David Hume, entre
outros. Graças ao bom Deus, tal linhagem, diversa em
outros temas, mas coesa em relação ao ceticismo quanto à
imperfectibilidade humana, nos abençoa com seus escritos.
Deve ser por esta tradição que o socialismo e o marxismo
não floresceram com tanta intensidade na classe pensante
britânica como entre os alemães e os franceses (idealistas e
rebeldes por natureza).
Em suma, The Evil That Men Do é uma canção ao
mesmo tempo bela, visceral, profunda, densa, agressiva e
musicalmente interessante (pesada, mas não tão dissonante
para ser considerada extravagante ou simplesmente feia).
Analisa o ser humano com base na melhor tradição literária
possível, sendo um petardo de virulência e sabedoria. A
donzela de ferro é um grande presente para quem sabe
enxergar além das convenções. Up the Irons!

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Metallica e a triste verdade sobre a
natureza humana

Eu sou seu sonho, faço você real


Sou seus olhos quando você precisa roubar
Sou sua dor quando você não pode sentir
Triste, mas verdade
Sou sua verdade, dizendo mentiras
Sou seus álibis racionais
Estou em você, abra seus olhos
Eu sou você Triste, mas verdade
Sad But True – Metallica

O trecho acima é parte de uma das mais viscerais


canções de heavy metal de todos os tempos! E isso não é pouco,
levando-se em conta que visceralidade é praticamente uma
conditio sine qua non no meio headbanger. Há várias teorias
sobre os significados dessa letra. Alguns dizem que ela trata
de um bizarro diálogo entre o vício e o viciado (o vocalista
James Hetfield escreveu várias canções sobre o vício, como
uma espécie de catarse para expurgar os próprios), outros
dizem que ela trata do ego, espécie de demônio manipulador
que todos temos dentro de nós. Mas a verdade é que todas as
teorias a respeito dessa enigmática letra giram em torno de
um tema específico: a natureza humana!
A imperfectibilidade humana é um facto consumado.
Somos seres não apenas imperfeitos, mas invariavelmente
fracassados nas incontáveis tentativas de atingir a perfeição,
como na simbologia da passagem bíblica da Torre de Babel,
na qual os seres humanos tentam construir uma torre que
atingiria os céus, mas acabam sendo frustrados por Deus
com a confusão das línguas. Jamais atingiremos os céus nesta
baixa terra!
De modo pendular, o ser humano oscila entre o bem
e o mal como a maré oscila para cima e para baixo. Citando
59
novamente as Sagradas Escrituras, São Paulo Apóstolo nos
diz que “não faço o bem que quero, mas o mal que não quero”
(Romanos 7:19). Não se trata de justificar atos criminosos ou
pecaminosos, como uma espécie de vitimismo teológico, mas
sim de confessar nossa própria limitação moral. Como reflexo
da Queda, pecamos constantemente, por atos, pensamentos
ou palavras. Eis o cerne da decaída existência humana!
Voltando à canção do Metallica, um efeito interessante
que ela produz nos desavisados é parecer que está se referindo
a uma criatura externa. Alguns dirão que é o Diabo, outros que
é Mefistófeles, outros ainda culparão Loki ou Hades, mas no
penúltimo verso, tudo se desnuda. Descobrimos atônitos, que
esse malévolo ser que confessa os maiores horrores possíveis,
o eu-lírico da canção, fala de dentro de cada um! Ele é nossas
“verdades” dizendo mentiras, nossos álibis supostamente
racionais tapeando nossa consciência e maculando nossa
alma com a mais pérfida canalhice! Triste, mas real.

60
Elvis não morreu
No dia 16 de agosto de 2017, completaram-se 40 anos
da morte de Sua Majestade, o Rei do Rock, Elvis Presley. O
estrondo dessa contraditória figura foi tão grande que até
os dias de hoje existem muitas teorias da conspiração que
tentam provar que sua morte foi forjada. Algumas dessas
teorias dizem que ele se cansou do sucesso, outras que ele
estava quebrado financeiramente e precisava se retirar de
cena para se livrar dos cobradores. Algumas outras dizem
até que ele vive em Buenos Aires, Argentina. Maluquices à
parte, a verdade é que o fenômeno Elvis não morreu, mesmo
que sua morte física tenha de facto ocorrido no dia 16 de
agosto de 1977. Mas um lado dessa potente marca chamada
Elvis Presley que muitos desconhecem é o patriotismo e a luta
do artista contra o progressismo e o esquerdismo que desde
sempre assolam a cultura pop.
Elvis vendeu mais de 600 milhões de discos desde que
lançou Elvis Presley, em 1956, um fenômeno que nem mesmo
Michael Jackson, seu genro por alguns anos, conseguiu
igualar. Em 1958, no auge do sucesso, Elvis foi convocado para
servir o Exército americano. Muitos dizem que ele poderia
ter descartado a convocação, mas decidiu aproveitar a chance
para fazer marketing. Porém, nós sabemos que o mundo da
música pop não vê com bons olhos a vida militar, e não passa
de disparate qualquer teoria que insinue que o rei do rock não
foi um patriota!
Outros factores que atestam a contrapartida do rei em
relação ao espírito reinante no universo da música industrial
é a sua admiração por políticos do Partido Republicano
(a direita americana), sua luta contra a glamourização das
drogas no meio artístico, sua paixão por armas e uniformes
militares e sua contestada, mas muito importante parceria
com o FBI no combate ao tráfico de drogas e ao comunismo.
Seu apoio à campanha de Richard Nixon é o ápice dessa
61
realidade, de causar chiliques na esquerda antidemocrática
(com o perdão da redundância), mas que demonstra como o
rei não é majestático apenas nos palcos, mas também na vida
como um cidadão honrado! Um emblemático episódio está
relacionado ao apoio de Elvis à campanha pela expulsão do
progressista John Lennon dos Estados Unidos, pois este havia
se unido aos terroristas dos Panteras Negras numa suposta
luta contra a Guerra do Vietnã, importante luta contra o
comunismo no extremo oriente.
Enfim, Elvis Presley não morreu! E digo isso sem
nenhuma expectativa de trazer à tona qualquer conspiração
maluca, pois apesar da morte física, a marca permanece
incólume, como uma lenda moderna. E apesar da chiadeira
dos rebeldes sem causa, a atuação do rei foi digna de um nobre
tanto nos estúdios e palcos (no cinema nem tanto), quanto
na atuação política em prol de uma América livre do ranço
vermelho dos comunistas. E se sua derrocada veio por meio
de medicamentos barbitúricos e analgésicos(muitos vendidos
em qualquer farmácia), o facto não contradiz de forma
alguma a luta de Elvis contra o tráfico de drogas pesadas,
como a cocaína e a heroína, que sustenta desde sempre
narco-guerrilhas e revoluções tirânicas e sangrentas de viés
marxista. Chamado pejorativamente de caipira reacionário
por setores inglórios da mídia mundial, tenhamos orgulho da
memória e da obra do maior de todos os músicos do rock!
Richard Nixon e Elvis Presley

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Elvis Presley em visita ao presidente americano Richard Nixon, do
Partido Republicano

63
A infame passeata contra a guitarra
elétrica

No dia 17 de julho de 1967, ocorreu um dos mais


constrangedores e vergonhosos episódios de nossa famigerada
cultura popular: a passeata contra a guitarra elétrica. Para
os desavisados, tratou-se de um evento realizado na capital
paulista, uma passeata contra a “invasão americana da música
brasileira” (sic), que tinha na guitarra elétrica um símbolo
quase fálico do pavor que o roquenrou e outros elementos
pop causavam nos militantes emepebistas, receosos de perder
seu sancto espaço entre os jovens, que evidentemente não
estavam nem aí para a lenga-lenga guerrilheira sofredora dos
cantores de festivais, e se animavam ao som dos hits roqueiros
da jovem guarda.
Dos muitos participantes do evento que se iniciou no
largo São Francisco (faculdade de Direito da USP, sempre
eles), os mais notórios, são Elis Regina, Geraldo Vandré,
Edu Lobo, Jair Rodrigues e Gilberto Gil. Justiça seja feita,
Caetano Veloso negou-se a participar do evento, prevendo o
efeito negativo que ele causaria, mesmo sendo ele um nome
fortíssimo do coronelato cultural brasileiro. Vale lembrar
ainda que a tal passeata ocorreu um mês e meio depois do
lançamento do bombástico Sgt. Peppers Lonely Heart Club
Band, disco histórico dos Beatles, um divisor de águas e
atestado de entrada na maioridade do até então adolescente
movimento roqueiro. Mais um erro crasso dos ávidos,
porém incautos manifestantes. Que ficassem com suas
canções macunaímicas neo-antropofágicas, assim passariam
vergonha apenas uma vez!
O evento foi tão vexatório, que não há um só maluco
que ainda defenda o ato, mesmo que tenha participado
ativamente dele! Dizem as más línguas que a TV Record
estava por trás da ação, já que seu programa O Fino da Bossa,
64
encabeçado por Elis Regina, perdia espaço para o programa
Jovem Guarda, da mesma emissora. Uma jogada de marketing
que visava jogar lenha numa fogueira que não existia. Um
belo tiro no pé!
Três meses depois do carnavalesco evento, aconteceria
o III Festival de Música da mesma TV Record, que teria
elementos de roquenrou incrustados em suas apresentações,
incluindo os mesmos artistas militantes que participaram
da marcha! Prova viva de que o evento foi um retumbante
fracasso, embebido em um nacionalismo bocó e nadando
contra a forte maré do mercado fonográfico, já que Beatles,
Led Zeppelin, Black Sabbath, The Who, The Doors, dentre
muitas outras bandas, invadiam as vitrolas e rádios de todo
o mundo ocidental, levando os jovens ao delírio com sua
irreverência.
Em suma, o presente texto não pretende defender este
ou aquele gênero musical, mas demonstrar como a ideologia
contamina nossa música popular desde seus primórdios.
Lembrando que MPB é, em si mesma, uma sigla ideológica,
não tendo nenhuma relação com a verdadeira música
popular brasileira, apreciada pelo povão, sendo uma música
hermética, chata e artificialmente complexa. Mas se alguma
herança tal passeata deixou, foi a sub-utilização da guitarra na
música nacional. Mesmo em gravações de rock, temos o que o
cantor, compositor, instrumentista e escritor Lobão chama de
“guitarra de arame”, ou seja, um sonzinho chocho, meia boca,
que fica ali naquele chove-não-molha, mais atrapalhando a
composição que contribuindo com o arranjo. A fim de não
“ofender” os sensíveis ouvidos do brasileiro médio, a passeata
da guitarra elétrica nos deixou como herança um lugar
garantido entre o que chamávamos de café-com-leite quando
éramos crianças. Não fede nem cheira!

65
Velha guarda do rock:
talento versus lacração

“O roquenrou foi feito para se distanciar o máximo


possível da política. Quando os meus pais começavam a
conversar sobre eleições, eu ia para o meu quarto e ouvia
Beatles ou Rolling Stones. Até hoje sou assim. As pessoas
acham que os rockstars sabem mais que os outros e essa é a
maior mentira do mundo. Rockstars não devem se meter em
política.” Alice Cooper, em entrevista à Rádio Rock 89 FM,
em 2016
A edição de 2017 do Rock in Rio, evento que se propôs
a ser o mais engajado de todos os tempos nessa Via Láctea de
meu Deus, nos ensinou algumas lições importantes sobre o
papel da classe artística em geral e dos pop stars em particular.
Entre performances que vão do genial ao grotesco, algumas
lições podem ser tiradas do festival. A seguir, pontuarei
algumas delas.
As principais bandas do evento faziam os dois últimos
shows da noite, como Aerosmith, Guns n’ Roses, The Who,
Bon Jovi, Red Hot Chili Peppers (com algumas estranhas
exceções, como os veteranos Nile Rodgers e Alice Cooper, que
fizeram shows memoráveis no tímido Palco Sunset). Enfim, a
velha guarda não decepcionou. Como era de se esperar.
Um detalhe interessante sobre as apresentações está
na militância forçada que o festival quis transmitir, com
apoio do canal Multishow, transmissora oficial do RiR 2017.
Em quase todos os shows brasileiros havia um #ForaTemer,
um #SOSAmazônia ou algo do tipo (se você estiver lendo
esse livro e não souber do que estou falando, sorte a sua).
Um ativismo bocó e pretensioso para inglês (e brasileiro)
ver. Protestar a favor da Amazônia e depois deixar uma
montanha de lixo, como se viu, é de uma hipocrisia risível!
Outro ponto forte foi a tônica LGBT. Pabllo Vittar fez um
66
show musicalmente grotesco, mas seus fãs não ligaram, pois
a lacração falou mais alto! O que ninguém diz é que ele está
longe de ser o primeiro homossexual a pisar naquele palco:
além do Pet Shop Boys, que fez um showzaço na primeira
semana, podemos citar Queen, que talvez tenha feito o maior
show de todas as edições, em 1985, ou Elton John, que fez
um show muito elegante em 2015. E nenhum deles precisou
se valer de sua sexualidade para ganhar voz, já que são (ou
foram) extremamente talentosos! Nenhum artista que tenha
talento de facto precisa se valer de questões extrínsecas a sua
própria arte para conquistar espaço no mercado, já que sua
mensagem é sua própria arte.
Não estou aqui a dizer que esses mitos da velha guarda
não abordem questões sociais ou políticas em sua obra (Alice
Cooper abomina o tema), mas o que os diferencia de jovens
famosinhos e sem talento é a necessidade destes de engatilhar
um “discurso anexo”, vociferando-o o tempo todo, pois se
dependessem única e exclusivamente de sua música, estariam
todos desempregados! Criam uma espécie de “chantagem
do bem”, forçando o público a apreciar o seu trabalho por
defenderem causas “para um mundo melhor”.
Obviamente, o artista enquanto cidadão tem todo o
direito de expressar suas opiniões políticas, religiosas, sociais e
culturais. Contudo, utilizar-se dessas opiniões para mascarar
sua falta de talento, ou confundir um suposto talento com
a capacidade de fazer burburinho, é de uma mediocridade
estonteante!

67
Country music e o ocidente livre
Esse é um ensaio sobre rock, mas é de suma
importância abordarmos as características conservadoras de
um de seus progenitores, a country music, para entendermos
como é possível associar rock, conservadorismo ou qualquer
coisa que não seja progressista e revolucionária. O atentado
a tiros no show de nomes famosos da country music, como
Garth Brooks e James Aldean, ocorrido em Las Vegas no
dia 2 de outubro de 2017, tem uma profunda simbologia
na guerra cultural que estamos travando contra as forças
que desejam ardorosamente destruir o Ocidente e suas
conquistas civilizacionais. O atirador, Stephen Paddock, era
um homem branco, contador aposentado e jogador de pôquer
e sem histórico militar ou religioso. Então, como explicar o
ocorrido?
Algo que a grande mídia vai esconder de todos é a
existência da guerra cultural que ela mesma está ajudando a
travar contra o ocidente livre, já que foi tomada por dentro
através da hegemonia cultural gramsciana e da tomada de
espaços da escola de Frankfurt. Por isso, ela não revela seu
verdadeiro intento enquanto mente descaradamente para o
cidadão médio, pagador de tributos (imposto é roubo!), que
nem imagina o que está acontecendo ao seu redor. Ornada por
um verniz de imparcialidade e transmissão de informações,
ela traz um viés progressista destrutivo! Quando a grande
mídia deu essa informação, martelou centenas de vezes que
a culpa era das armas legalizadas nos Estados Unidos, o que
é garantido pela Segunda Emenda à Constituição. Como
argumento, utilizaram o fato de o atirador possuir mais de
trinta armas semiautomáticas.
Porém, o que quase nenhum veículo noticiou é que
Stephen Paddock nunca gostou de armas, não foi militar
e, apesar de não ter um histórico de frequência religiosa,
recentemente havia se convertido ao islamismo, como atestou
68
o próprio Estado Islâmico, que reivindicou a autoria do
atentado. Pelo contrário, o que foi amplamente noticiado foi o
facto de o pai de Stephen ter sido um famoso ladrão de bancos
nos anos 70, o que inconscientemente vincula donos de armas,
que existem aos montes por aquelas bandas, pais de família
honrados e trabalhadores, ao terrorismo e ao banditismo. Ou
seja, abra mão ao seu direito de defesa ou seja tachado como a
escória do Novo Mundo que estamos construindo!
Outro fator importante, que deve ser levado em conta,
é o público alvo do atentado: fãs de country music, gênero
musical muito comum no sul dos Estados Unidos (região
majoritariamente republicana e conservadora). É impossível
afirmar com certeza, mas é bem provável que a maior parte
das vítimas votou em Donald Trump. Agora raciocinem
comigo: um sujeito recém convertido ao Islã, sem nenhum
histórico de envolvimento com armas ou à vida militar, de
repente “fica doidão” e decide metralhar fãs do estilo musical
mais conservador da América. Só não enxerga a conexão entre
os factos quem realmente está entorpecido pela pasmaceira
inoculada pela mídia diariamente em seus espelhos negros e
papéis que pintam as mãos.
Na guerra cultural, com sua semântica extremamente
simbólica, a invasão dos “de turbante” representa nossa
derrocada, enquanto cantores americanos caipiras, e aqueles
de outras partes do glorioso Oeste que se identifiquem com
sua música, pautada pela temática do patriotismo, do amor à
terra natal, da virilidade do homem que defende sua família
e suas propriedades, representam tudo o que devemos lutar
para conservar quando os “de turbante” de facto chegaram.
Não há meio termo: ou somos firmes em nosso propósito de
manter nosso estilo de vida e nossos valores, como liberdade,
propriedade, religião e patriotismo, ou entregamos tudo
àqueles que desejam impor o ignóbil califado mundial.
Escolha um lado e arque com as consequências de sua escolha!

69
Música pop e o mito da
eterna juventude

Segundo as Sagradas Escrituras, Deus criou o ser


humano a Sua imagem e semelhança, não apenas do ponto
de vista físico, mas principalmente moral, para que vivesse
para sempre, em uma espécie de estado de pureza espiritual
bem diferente de sua decaída natureza atual, controlada pelos
vícios, pelo pecado e sua consequente escravidão. E desde sua
queda, quando comeu do fruto proibido, que lhe conferiu o
conhecimento do bem e do mal, e consequentemente a quebra
da supracitada pureza, o homem vem buscando maneiras
de retornar ao estado original, seja através do próprio
conhecimento que o derrubou (existem várias passagens
bíblicas que confirmam a primeira, como por exemplo a
ênfase que o livro do Eclesiastes, ou pregador, dá ao caráter
enfadonho que existe na interminável busca por mais e
mais e mais conhecimento), como a famosa pedra filosofal
dos alquimistas, seja através da religião, termo que significa
religar com o homem ao mundo espiritual, seja através dos
prazeres mundanos, que anestesiam a consciência mas não
apagam a triste e última verdade: todos morreremos e seremos
sumariamente esquecidos!
Essa religação com o mundo espiritual sempre foi
papel da religião, base civilizacional por excelência. Contudo,
como bem frisou o filósofo britânico John Gray em seu livro
Missa Negra, que recomendo a todos, as ideias progressistas e
iluministas são uma espécie de perversão da tradição religiosa.
Se analisarmos o marxismo e os regimes políticos do século
XX que se apoiaram em suas teses econômicas, veremos
traços inconfundíveis da religião cristã em seu bojo, mesmo
que Marx tenha dito, em seus Manuscritos Econômico-
Filosóficos, que o ateísmo é a essência do comunismo. Lógico
que esses traços são perversões, o que demonstra seu caráter
70
satânico, já que Satã, ser das trevas não dotado do poder
de criação, pode no máximo macaquear a verdade. Veja as
missas negras (qualquer semelhança com o título do livro
de Gray NÃO é mera coincidência), que seguem à risca os
ritos religiosos, mas de forma invertida, com seus crucifixos
de ponta-cabeça e seus sacrifícios que zombam do sacrifício
perpétuo do Filho de DEUS! O caráter religioso das correntes
políticas modernas é essencialmente satânico!
Mas onde entra a música pop nessa brincadeira toda
(lembrando que não falo apenas de pop music da forma
que a mídia nos mostra, mas de todo movimento que tenha
raízes pop)? Pois bem, se o pensamento político (não apenas
o marxismo, que fique claro) perverte a religião no intuito
de dar um novo significado à eterna busca do Homem pelo
reencontro com a eternidade e o mundo espiritual, no século
XX temos uma versão 2.0 desse processo, encabeçada pelo
entretenimento de massas. O novo elixir da eterna juventude
não está mais em uma pedra filosofal, em uma poção mágica
ou nos novos mitos políticos e sua narrativa perversa. O
novo elixir da eterna juventude aparece na TV, tem canal
no YouTube, página no Facebook e perfil no Twitter e no
Instagram. Ele posta fotos todos os dias e faz lives mostrando
como o jovem deve fazer para jamais envelhecer. Seja através
de uma falsa beleza maquiada pela fama e pela exposição
midiática, que atrai belas mulheres e falsos amigos, seja através
das dietas milagrosas e da pseudociência, que garantem o
fim das rugas e dos pneuzinhos, mas não dos demônios que
infernizam sua atormentada alma!
Como tudo o que perverte os caminhos de DEUS,
o mito da eterna juventude propagado pelos artistas pop
também é diabólico e deve ser descartado sumariamente!
Um bom artista deve saber envelhecer, inclusive utilizando a
maturidade como um trunfo a favor de sua arte, o que servirá
de ensinamento a seus fãs mais jovens. Caso contrário, suas
atitudes serão um falso elixir que envenenará o coração de seus
seguidores, trazendo malefícios sociais incalculáveis, como a
71
drogadição, o alcoolismo, a prostituição e outras válvulas de
escape! Se a inconformação com a morte e o envelhecimento
são naturais do ser humano pelo facto de sua alma eterna não
estar alinhada à decadência moral e espiritual provocada no
Éden, formas pervertidas de anular esse fator são inaceitáveis.
Quem conhece o famoso romance O retrato de Dorian Gray,
escrito por Oscar Wilde, que conta a história de um magnata
que faz um pacto com o diabo para nunca envelhecer (quem
envelhece é um retrato do sujeito, que jamais pode ser visto
por ele) sabe bem do que estou falando. O ser humano não
pode ser escravo do hedonismo e outras formas de ilusão,
mesmo que em nome de uma suposta liberdade. Libertar-se é
também se conformar com o inevitável!

72
A Wilson Simonalização da música
brasileira

É necessário abrir aqui um parêntesis no assunto


para assinalar o que estava acontecendo na música brasileira
enquanto o rock se tornava o que é. Para quem não sabe,
Wilson Simonal foi um grande cantor da Música Popular
Brasileira, principalmente nos estilos soul e funk. Ele é pai
dos cantores Simoninha e Max de Castro. Simonal, talvez,
seja o mais injustiçado artista brasileiro, assim como foi o
goleiro Barbosa, da seleção que perdeu a Copa para o Uruguai
em 1950.
Wilson Simonal teve sua carreira bruscamente
modificada (para pior) quando um episódio envolvendo
seu contador, que supostamente teria desviado dinheiro do
cantor (nunca comprovado) e dois amigos seus, agentes do
DOPS, acabou parando nos tribunais. Simonal ficaria para
sempre alcunhado como delator, e sua carreira nunca mais
seria a mesma, até sua morte no ano 2000.
Podemos chamar de Wilson Simonalização um
processo que praticamente obriga artistas brasileiros a serem
de esquerda, militantes dos direitos humanos, ambientalistas,
politicamente corretos e toda essa baboseira neomarxista.
E quem ousar questionar os dogmas vermelhos, será
sumariamente tratado como o pior lixo da Humanidade.
Hoje, podemos citar os casos dos roqueiros Lobão, que
escreveu livros como Manifesto do Nada na Terra do Nunca,
Em Busca do Rigor e da Misericórdia e Guia Politicamente
Incorreto dos Anos 80 pelo Rock, que analisam as influências
que o Movimento Modernista trouxe à Cultura Popular
do nosso país, que cristalizou um determinado coronelato
cultural no poder da indústria artística, e Roger Moreira, do
Ultraje a Rigor, libertário declarado. Os dois sofrem críticas
que mais se assemelham a argumentum ad hominem, pois
73
não passam de ataques pessoais, sem consistência ideológica.
Um caso ao mesmo tempo oposto e semelhante
é o do cantor Geraldo Vandré, que compôs a famosa e já
desgastada canção Pra Não Dizer que Não Falei das Flores,
que virou hit entre militantes universitários, bichos-grilos e
maconheiros em geral. Para justificar o uso da canção, criou-
se uma mitologia em torno da vida de Vandré. Uns dizem
que ele foi torturado, outros dizem que até arrancaram um
de seus testículos na tortura, outros dizem que os traumas o
afastaram dos palcos. Tudo bobagem! Vandré nunca foi contra
os militares, é freqüentador assíduo do Clube Militar, nunca
foi torturado e se afastou da MPB por conta da mediocridade
que reina nesse meio. Palavras do próprio numa raríssima
entrevista a Geneton Morais na Globo News.
Em suma, artistas brasileiros, dos cânones da MPB aos
atores globais, são dominados pelo totalitarismo politicamente
correto, que os impede de pensar fora da caixinha vermelha
que os criou. E ai daqueles que contestarem!

74
DEUS, armas e roquenrou
Dizer que o rock é um movimento genuinamente
conservador seria um tremendo exagero, visto que sua raiz
reside na rebeldia e há muito progressismo nas ideias de
vários ícones do gênero. Porém, não podemos nos esquecer
que esse estilo musical contestador juvenil nasceu na parte
sul dos Estados Unidos, região marcada pela forte influência
do conservadorismo, pelo patriotismo dos caipiras rednecks
e hillbillies, pela música country, blues e bluegrass, pelos
bares honky tonks, pelo amor à propriedade privada, à
religião cristã e às armas de fogo, e pela ojeriza ao governo
central. Nomes como o do guitarrista e cantor Ted Nugent, do
também guitarrista, das bandas Iced Earth e Sons of Liberty,
Jon Schaffer, do vocalista do Metallica James Hetfield, de
Johnny Ramone, guitarrista da banda Ramones e membro
da NRA (em português, Associação Nacional do Rifle) e
do Partido Republicano e defensor aberto do presidente
George W. Bush, dos membros da banda Lynyrd Skynyrd,
entre outros, figuram no hall dos roqueiros que quebraram o
paradigma do rebelde sem causa e assumiram publicamente
uma postura mais condizente com as raízes conservadoras
da grande pátria dos Founding Fathers! E é de um trabalho
específico dessa última banda citada que falaremos a seguir:
Guns & Gods.
God & Guns é o décimo segundo álbum de estúdio da
veterana banda de Southern rock, Lynyrd Skynyrd, lançado
no ano de 2009. Não se trata de um disco conceitual, que
conta uma história na qual cada faixa representa um capítulo,
mas podemos encontrar um tema comum em todas as
canções do disco: o direito à posse de armas para a caça e a
legítima defesa da vida e da propriedade privada, as raízes
cristãs da América, o apego a um estilo de vida simples, em
contrapartida à ostentação moderna, o amor à pátria etc.
Podemos identificar isso com facilidade em versos como
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“Porque essa não é a minha América, não são as raízes deste
país, você quer bater no velho Tio Sam, mas eu não vou deixar”
(That Ain’t my America), “Bem, os jovens estão dizendo: ´Nós
estamos mudando para melhor ‘, bem isso não me interessa”
(Simple Life), “Deus e armas nos mantêm fortes, isso é sob
o que este país foi fundado. Bem, nós podemos muito bem
desistir e correr, se nós os deixarmos tomar o nosso Deus e
as nossas armas” (God & Guns, faixa título). A cada faixa do
disco, a cada canção bravamente entoada por Johnny Van
Zant e tocada por seus confrades, as raízes da América vão
sendo defendidas de forma unívoca e corajosa.
Em um meio tomado por detratores do Ocidente e suas
tradições (falo da indústria fonográfica em geral, não apenas
do rock), geralmente progressistas, entreguistas e depravados,
God & Guns é um belo exemplo de como os conservadores
podem muito bem se utilizar de uma espécie de “hegemonia
cultural reversa”, em referência aos (des) ensinamentos de
Antonio Gramsci, que a esquerda abraçou e implantou com
relativo sucesso no cinema, no teatro, na música, na TV, nas
rádios, jornais e toda sorte de espaços de criatividade, erguer
os punhos em riste e entoar com amor e orgulho os valores
que mantêm o Ocidente de pé há dois milênios: o direito
romano, a filosofia grega e a moral judaico-cristã, valores
estes que a arrogância cafona da esquerda progressista jamais
conseguirá entender, por serem demais altivos para sua
pequenez existencial!
Se o apego vicioso à feiura é uma marca registrada
da esquerda, contemplemos a beleza de cada verso desse
monumental trabalho musical do Lynyrd Skynyrd, não
apenas como um entretenimento para as enfadonhas tardes
de domingo que a modernidade insiste em maquiar com
bizarrices televisivas, mas também como um manifesto
sincero e honesto de amor a tudo o que nos mantém erectos
entre as ruínas!

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Capa do álbum God & Guns, da banda Lynyrd Skynyrd

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Resumo da ópera
“Eu sou um viciado em Rock’n’Roll. O motivo
porque tantos tomam drogas e se ferram, é que queremos
que a festa continue. Mas isso é realmente o fundo do poço
se comparado a um bom show de rock.”
Ozzy Osbourne

Em suma, o roquenrou é um ritmo geralmente


lembrado pela rebeldia, mas também pode ser algo mais
profundo. Pode ser uma reflexão sobre os dilemas da vida
ou da natureza humana. Pode ser uma crítica aos políticos,
mas também uma mais apurada reflexão sobre o papel
do indivíduo perante o Estado. Pode ser uma análise dos
últimos tempos, ou do zeitgeist. Pode ser ainda uma bandeira
conservadora em prol dos valores culturais que estão na base
do mundo ocidental, que o mantêm de pé e que estão ruindo
ante forças externas e internas ávidas para tomar seu lugar no
protagonismo cultural, material e espiritual da humanidade!

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Membros da banda Ramones satirizando um anúncio de esquerda. O
anúncio diz, em português: Vote em comunistas ou em socialistas do
partido trabalhista. O povo governa!

Bandeira dos confederados, símbolo muito utilizado por bandas de rock


sulistas e por motoclubes
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