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Prof.

Jorge Henrique Barro


Doutor em Teologia

Iremos desfrutar das bênçãos de Deus juntos. Missão Urbana é um desafio


permanente para todos nós e para a igreja de Cristo. Nossa melhor atitude para
com as cidades é o amor de Deus, "porque Deus amou a cidade de tal maneira..."
Minha oração é que o Espírito nos guie nesse curso e nos capacite para realizar a
Missio Dei nas cidades para a Sua própria glória. Receba meu abraço fraterno!

Programa do Curso
Ementa : “Estudo da cidade na Bíblia e suas implicações para a missão urbana”.

Problema Geral: Quais os significados da cidade na Bíblia e suas possíveis implicações


para a missão urbana hoje?

Objetivos :

Ao final do curso, o(a) estudante será capaz de:

1. Compreender a centralidade da cidade na Bíblia.


2. Desenvolver uma teologia bíblica de missão urbana.
3. Discernir algumas implicações para a missão urbana hoje.
4. Desenvolver uma atitude de mais amor e compaixão pela cidade (atitudinal)

Justificativa da disciplina na missão da FTSA:

1. Capacitar os alunos para compreenderem que a espiritualidade deve ser solidária,


especialmente no contexto urbano;
2. Demonstrar aos alunos que o Reino de Deus é prioridade da igreja como agente de
transformação no contexto urbano;
3. Encorajar o desenvolvimento de ministérios relevantes para a realidade urbana;
4. Capacitar o estudante no desenvolvimento de uma teologia bíblica e contextual, com um
olhar mais específico para a cidade.
Bibliografia Básica

BARRO, Jorge Henrique. De Cidade em Cidade. Londrina: Editora Descoberta, 2000.


COMBLIN, José. Teologia da Cidade. São Paulo, SP: Edições Paulinas, 1991.
ELLUL, Jacques. La ciudad. Buenos Aires: Editorial la Aurora, 1972

Bibliografia Complementar

ANGEL, Shlomo, Ed. Land for Housing the Poor. Singapore: Select Books, 1983.
ANTONIAZZI, Alberto e Cleto CALIMAN org. A Presença da igreja com na cidade. Petrópolis:
EditoraVozez, 1994.
BARRO, Jorge Henrique. Ações Pastorais da Igreja com a Cidade. Londrina: Editora
Descoberta, 2000.
____. O Pastor Urbano (Org.). Londrina: Editora Descoberta, 2003.
____. Uma Igreja sem Propósitos (Org.). São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2004.
BENEVOLO, Leonardo. História da Cidade. 3.a. Edição. São Paulo, SP: Editora Perspectiva
S.A., 1997.
BEOZZO, José Oscar, Org. Curso de Verão Ano VIII ("A Cidade, um Desafio para as Igrejas
e Movimentos Populares"). São Paulo, SP: Paulus, 1994.
BOBSIN, Oneide, Org. Desafios urbanos à igreja. São Leopoldo, RS: Editora Sinodal, 1995.
BOLLE, Willi. Fisiognomia da metrópole moderna: representação da história em Walter
Benjamim. 2.ed. São Paulo: EDUSP, 2000.
CAMPOS, Candido Malta. Os rumos da cidade. São Paulo: Editora Senac, 2002.
CARLOS, Ana Fani A. A cidade. São Paulo: Editora Contexto, 1992.
CASÉ, Paulo. A cidade desvendada. Rio de Janeiro: Ediouro Publicações, 2000.
CASTELLS, Manuel. A questão urbana. São Paulo: Paz e Terra, 1975.
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(Editora da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista), 1996.
____. Por uma fé cidadã: a dimensão pública da igreja. São Bernardo do Campo: UMESP e
São Paulo: Edições Loyola, 2000.
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1997.
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Vozes, 1997.
____. O fenômeno urbano: Desafio para a pastoral. Petrópolis: Editora Vozes, 1995.
COMBLIN, José. Pastoral urbana. Petrópolis: Editora Vozes, 1999.
COMISSÃO EPISCOPAL REGIONAL. Pastoral Urbana. São Paulo, SP: Edições Paulinas, 1981.
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Grand Rapids, MI: Baker Books, 1987.
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____. Harvie M. The American City and the Evangelical Church: An Historical Overview.
Grand Rapids, MI: Baker Books, 1994.
DAWSON, John. Reconquiste Sua Cidade para Deus. São Paulo, SP: Editora Betânia S/C,
1995.
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EditoraVozez, 1997.
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LEFEBVRE, Henri. A revolução urbana. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999.
LINTHICUM, Robert. C. City of God, City of Satan: A Biblical Theology of the Urban Church.
Grand Rapids, MI: Zondervan, 1991.
MARX, Murillo. Cidade no Brasil, Terra de Quem? São Paulo, SP: EDUSP/Nobel, 1991.
OLALQUIAGA, Celeste. Megalópolis: Sensibilidades Culturais Conteporâneas. São Paulo, SP:
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PALLAMIN, Vera M. org. Cidade e cultura: esfera pública e transformação urbana. São
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ROLNIK, Raquel. O que é a cidade. 3.a. São Paulo: Editora Brasiliense, 1994.
SANTOS, Milton. O espaço do cidadão. 4.ed. São Paulo, SP: Livros Studio Nobel Ltda, 1998.
SASSEN, Saskia. As Cidades na Economia Mundial. São Paulo, SP: Studio Nobel, 1998.
SCARLON, A. Clark. Cristo na cidade. Rio de Janeiro: JUERP, 1978.
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UNESP: Presidente Prudente, 2001.
____. Capitalismo e urbanização. São Paulo: Editora Contexto, 1998.
VAN ENGEN, Charles e Jude TIERSMA, Ed. God So Loves the City: Seeking Theology for
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VELHO, Gilberto. Antropologia urbana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.
VILLAFAÑE, Eldin. Seek the Peace of the City: Reflections on Urban Ministry. Grand Rapids,
MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 1995.
VV.AA. Pastoral Urbana. São Paulo, SP: Edições Paulinas, 1980.
WEBER, Max. The city. New York: The Free Press, 1958.
WILLIAMS, Cecil with Rebecca LAIRD. No Hiding Place: Empowerment for Our Troubled
Communities. New York: HarperSanFrancisco, 1992.
WINTER, Gibson. The New Creation as Metropolis. New York, NY: The Macmillan Company,
1964.
YAMAMORI, Tetsunao, Bryant L. MYERS, and Kenneth L. LUSCOMBE, eds. Serving with the
Urban Poor. Monrovia, CA: MARC, 1998.

Esta seção tem por finalidade oferecer ao estudante fundamentos bíblicos da missão
urbana no Antigo Testamento.

O SIGNIFICADO DA CIDADE
Somos cidadãos de duas "cidades": a terrestre e a celestial. Vivemos na "velha Jerusalém"
mas já somos habitantes da "nova Jerusalém". Viver nessa tensão entre o "já" e "ainda
não" nem sempre é fácil. Muitas pessoas vivem na "velha" como se não existisse a "nova".
Outros pensam mais na "nova" sem se importar com a "velha". Como você vive na "velha
Jerusalém"? Essa aula te ajudará a fazer uma revisão da sua peregrinação no aqui e agora.

1. O Significado da Cidade - Parte 1

CIDADES NA BÍBLIA
A construção/desenvolvimento das cidades não é um fenômeno moderno. Assim que Adão
e Eva foram expulsos do jardim, seu filho Caim começou a construir uma cidade. Logo após
o dilúvio, várias cidades são mencionadas, incluindo a cidade de Babel. Nimrode é
mencionado como um construtor, guerreiro do rei. As raízes da urbanização podem ser
traçadas desde os primeiros passos da história da humanidade.

Liste todas as cidades mencionadas na Bíblia que você pode lembrar. Escreva ao lado delas
fatos significativos, pessoas ou incidentes relacionados com a cidade.

Mas o que o termo cidade significa na Bíblia? Podemos fazer algumas válidas conexões
entre esses povoamentos bíblicos com os grandes centros industriais, políticos e
econômicos do nosso tempo? A palavra hebraica para cidade pode se referir há vários tipos
de povoamentos, alguns dos quais não eram mais que provavelmente pequenas vilas.
Assim, precisamos ter cuidado sobre como aplicar textos bíblicos para as cidades
modernas.

Mas a função essencial da cidade na verdade não mudou. Mesmo as cidades bíblicas eram
centros de poder com uma significativa influência em suas áreas circunvizinhas. Elas eram
dinamicamente equivalentes as cidades modernas. De fato, o estilo de vida da cidade já
começava a ser desenhado nestas primeiras cidades.

Mais tarde é conhecido que algumas cidades bíblicas eram muito grandes. Nínive tinha
aproximadamente 100,000 habitantes no tempo de Jonas: ela era provavelmente
construída em três povoamentos –Calah, Resen e a própria Nínive. Este talvez seja o
primeiro exemplo da explosão urbana e a erosão do cinturão verde.

• Cidades, especialmente as capitais, são freqüentemente mencionadas como


representando nações. Quando o profeta fala para Damascos, suas palavras na verdade
são para toda a nação da Síria. Isso nos é familiar nos dias atuais. Quando escutamos
reportagens sobre Washington ou Moscou, sabemos que estamos ouvindo atividades sobre
os Americanos ou Russos, e não somente algo restrito às duas cidades. Cidades são focos
nacionais. A Bíblia reconhece sua importância estratégica.

• Cidades são mencionadas como personalidades corporativas, e não somente coleções de


indivíduos. Nosso individualismo ocidental tem dificuldades com esse conceito, mas ele é
um elemento chave da narrativa bíblica. Julgamento, responsabilidade pelo pecado,
arrependimento e benção toma lugar no nível da cidade como também entre os indivíduos.
Se um profeta convoca uma cidade ao arrependimento, é a cidade como um todo que deve
responder. Alguns cidadãos podem ter culpa pessoal, outros estão tolerando o pecado,
enquanto outros podem ser vítimas – mas todos fazem parte de uma cidade pecadora.
Pessoas de bom coração podem fazer a diferença, mas a personalidade corporativa da
cidade é um aspecto da revelação bíblica do qual devemos lidar.

• A Bíblia não fala somente de várias cidades mas sobre a cidade como uma instituição ou
realidade espiritual. Particularmente em Hebreus e Apocalipse, a cidade é um símbolo como
também a geografia do futuro. A cidade existe para o mundo mas sem Deus, uma cultura
secular, a exclusão dos valores absolutos morais e espirituais. Cada cidade tem sua
característica única e sua própria história, mas todas as cidades manifestam o mesmo
"espírito urbano". Isso fica claro nos últimos capítulos de Apocalipse: todas as cidades são
identificadas com a Grande Babilônia. Quando ela cair, todas cairiam. A cidade é o mundo
de forma concentrada.

• A Bíblia não é anti-urbana. A Bíblia não é contra a cidade, mas sim sua maldade, valores
corrompidos e corrupção. A cidade do futuro contém elementos rurais e urbanos na Cidade
de Deus. Mas a Bíblia reconhece que existe algo distintivo sobre a cidade, uma diferença de
grau: o mundo esta debaixo da influência maligna (1 Jo 5:19), e seu quartel general parece
estar na cidade . O pecado está presente em todos os lugares, mas sua concentração e sua
forma mais virulenta parece estar na cidade. As cidades são focos de uma batalha
espiritual.

2. O Significado da Cidade - Parte 2

1. “DO JARDIM DO ÉDEN À NOVA JERUSALÉM”: A CIDADE NA


BÍBLIA
Existem duas imagens muito claras na Bíblia a respeito da geografia da humanidade: o
Jardim do Éden e a Nova Jerusalém. O jardim é prefigurado como a harmonia de Deus e a
nova Jerusalém como a cidade redimida caracteriza pela diversidade na unidade.
Diversidade porque será uma “grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as
nações, tribos, povos e línguas...” É essa riqueza multi-étnica, multi-cutural, multi-
linguística que se juntam para celebrar o Cordeiro. Unidade porque estas nações, tribos,
povos e línguas agora estarão “em pé diante do Cordeiro, vestidos de vestiduras brancas,
com palmas nas mãos e clamavam em grande voz, dizendo: Ao nosso Deus, que se
assenta no trono, e ao Cordeiro, pertence a salvação” (Ap 7:9-10). O Cordeiro, que redimiu
e salvou estas nações, tribos, povos é o elo de ligação e todos clamam: ao Cordeiro
pertence a salvação. Esta é a beleza e a riqueza de uma cidade marcada pela diversidade
(símbolo da criatividade e respeito de Deus para todas as culturas) que unifica em Cristo, o
Cordeiro. Assim passa a se desenvolver a dramática história da humanidade. A humanidade
agora, inclusive nós, vive no período pós – pré: pós-jardim e pré-nova Jerusalém. È nesse
período que somos chamados a viver: na lembrança do que era e na esperança do que
virá. Entre o trauma do pecado e esperança da redenção. Entre o já e ainda não. É nesse
período somos convocados a viver e desenvolver nossa missão. A Bíblia passa a revelar a
história de um povo peregrino, que anda de cidade em cidade, em busca da terra
prometida. Passa a ser, portanto, a história da redenção e da salvação da humanidade, que
é acima de tudo a história do amor de Deus que busca a redimir seu povo dos seus
pecados.

Nossa história se dá neste período do jardim à cidade santa. Não podemos nos esquecer de
nenhum deles. O jardim nos lembra (1) qual era o propósito de Deus para humanidade e
também (2) qual foi a decisão/resposta do ser humano para com esse propósito. Esquecer
do jardim é se esquecer de onde viemos. Não podemos lembrar do Jardim como apenas a
geografia da tentação e do pecado. Minha percepção é que nos lembramos muito mais do
pecado e da serpente (tentador) do que o próprio Deus. Isso demonstra a tendência que
temos para lembrar mais das coisas ruins e negativas. Precisamos e devemos lembrar que
“Deus andava no jardim pela viração do dia” (Gn 3:8). Deus não somente andava no
jardim, mas falava. O jardim é uma demonstração clara de que Deus é o Deus-da-relação.
Diante da decisão errada do ser humano, sua fala foi e continua sendo a fala que busca a
relação com sua criatura: onde estás? (Gn 3:9). Até o dia em que estaremos na nova
Jerusalém, continuará ecoando nos quatro cantos da terra a mesma voz: onde estás? Onde
estás revela o caráter e o clamor amoroso de Deus, como também revela o nosso caráter e
a nossa disposição para o pecado. E foi por causa desta disposição para o pecado que Deus
“lançou fora do Jardim do Éden, a fim de lavrar a terra de que fora tomado” (Gn 3:23).

Também não podemos viver no aqui e agora sem a visão do celeste. O protestantismo
acertou em nos ensinar que não somos deste mundo, que o nosso lar é lá no céu. Mas
errou em não enfatizar que devemos viver no já com o paradigma do ainda não. O celeste
porvir, a cidade celestial, deve nos impulsionar a viver e desenvolver nossa missão na
cidade terrestre. Sem essa utopia e esperança não tem sentido viver neste mundo. Não
somos chamados para viver separado deste mundo, mas como separados de Deus para o
mundo. Se no jardim o ser humano foi expulso (Gn 3:24), na nova Jerusalém, informados
por João, somos recebidos por Jesus, pois “pelo sangue, nos libertou dos nossos pecados”
(Ap 1:5). Quando expulsos andamos como errantes e sem-teto nos assentos da vida.
Agora, redimidos pelo sangue do Cordeiro, entramos nas moradas/habitações preparadas
por ele mesmo.

Eis o drama da história da humanidade: da expulsão ao acolhimento, da condenação a


redenção, dos guardas querubins e espadas cortantes (Gn 3:24) ao Cordeiro de Deus, da
servidão à adoração. A pergunta continua sendo a mesma: onde estás? Da expulsão do
Jardim do Éden às portas da Nova Jerusalém continua ecoando esse onde estás. Eis,
portanto, a nossa missão, que na verdade é a missão de Deus, que é a de ajudar as
pessoas a responderem a pergunta mesma onde estás? Deus, por meio de nós e sua igreja,
continua perguntando aos expulsos do jardim: onde estas? Ele pergunta porque seu desejo
é que “milhões de milhões e milhares de milhares” (Ap 5:11) possam proclamar em alta
voz: “Digno é o Cordeiro que foi morto de receber o poder, e riqueza e sabedoria, e força e
honra, e glória, e louvor” (Ap 5:12).

Vimos que “a Bíblia começa com um jardim perfeito e termina com uma cidade perfeita”
(LIM 1988:38).

2. “DEPOIS DO JARDIM DO ÉDEN E ANTES DA NOVA


JERUSALÉM”: A VELHA CIDADE (JERUSALÉM)
Logo após a expulsão do jardim do Éden o ser humano agora precisa re-começar sua vida.
No Jardim ele possuía alimentos, frutas, sombra e água fresca. Agora, sem teto, “em
fadigas obterá dela [terra] o sustento durante os dias da tua vida. Ela produzirá cardos e
abrolhos, e tu comerás a erva do campo. No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que
tornes a terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás” (Gn 3:17-19).
Agora, o ser humano tem que “lavrar a terra de que fora tomado” (Gn 3:23).
É agora, depois do Jardim do Éden e antes da nova Jerusalém, que o trama da história
humana se desenvolve. Pão, sombra e água fresca passam a ser a busca desesperada do
ser humano até os dias de hoje. Pão como símbolo do alimento diário. Sombra como
símbolo de teto, casa e lar. Água fresca como símbolo das coisas que saciam a sede do ser
humano. Nessa busca encontramos uma história de beleza e maldade cujo ator principal é
o próprio ser humano. Para conseguir essas coisas ele é capaz de tudo: de amar e odiar, de
cantar e amaldiçoar, de tocar e matar, de construir e destruir. E as cidades passam a fazer
parte integrante nesta história. Eis a cidade de Babel e sua torre.

A cidade de Babel é, ao meu ver, um símbolo negativo da relação entre o ser humano e
Deus. Babel é justamente o contrário daquilo que Deus intencionava para a cidade. Babel é
a cidade-mãe da secularização. Sua proposta era viver uma vida onde o centro de todas as
coisas não era Deus, mas eles mesmos, querendo tornar seus nomes célebres (Gn 11:4).
Eles no centro e Deus na periferia. Um culto à eles mesmos.

Disseram: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo tope chegue até aos
céus e tornemos célebre nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda terra.
Então desceu Deus para ver a cidade e a torre, que os filhos dos homens edificaram; e o
Senhor disse: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o
começo, agora não haverá restrição para tudo o que intentarem fazer. Vinde, desçamos e
confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem do outro.
Destarte, o Senhor os dispersou dali para a superfície da terra; e cessaram de edificar a
cidade (Gn 11:4-8).

Deus toma essa atitude por entender que isto era apenas o começo. Ou seja, muito mais
estava por vir por serem unidos e falarem a mesma língua. Deus sempre se mostrou
preocupado com inclusividade e não exclusividade dos povos. Caminha assim, a cidade de
Babel com sua torre era uma candidata a dominadora, egocêntrica, superioridade cultural
(mesma língua). Deus percebe isso e os dispersa. A cidade que Deus deseja é inclusiva,
multi-cultural, muti-linguística, multi-étnica. O único a ser adorado é ele e não a torre.
Desde cedo, Deus já nos dava pistas que o evangelho iria ser pregado, proclamado e vivido
num contexto multi-cultural. Que o desafio do evangelho iria ser trans-cultural, ainda que
dentro de uma mesma cidade, como são as grandes cidades do mundo de hoje.Em Babel,
eles estavam buscando a unidade em uniformidade – um povo vivendo juntos em uma
grande cidade, tendo uma torre e uma mesma língua em comum. Porém, em nossas
cidades de hoje nós celebramos a unidade em diversidade. A diversidade das línguas, das
culturas, das classes sociais, das festas, etc... ou seja, um mundo multi-cultural. Se nós
como igreja queremos falar relevantemente para este mundo, precisamos aprender a
conviver e a cruzar essas barreiras culturais e raciais.

A uniformidade da cidade de Babel precisa dar lugar a rica diversidade da Nova Jerusalém.
Na Revelação do Apocalipses as nações marcharão para a cidade, cada povo e cultura trará
seus dons e talentos em frente de toda a humanidade. Será uma festa das nações. Nações
que aparentemente foram destruídas no decorrer da história irão marchar para a Cidade de
Deus, limpas e convertidas, trazendo sua glória para dentro dela. Esta é a beleza do lindo
significado da descrição que temos da Cidade de Deus com doze portões cada um feito de
pérolas, paredes de jaspe e com doze fundações, cada uma com pedras preciosas
diferentes, e as ruas pavimentadas com ouro – que rica diversidade que se une ao redor do
trono de Deus.

Muitas das nossas cidades de hoje ilustram a diversidade da cidade moderna. Ande pelas
ruas de São Paulo e você encontrará centenas de padarias portuguesas. Entre em uma
livraria e você encontrará um cristão, um espírita e um ateu procurando por algo que lhes
interesse. Você pode escolher comer uma bela macarronada no Bexiga ou uma comida
japonesa no bairro da liberdade. Se preferir, você pode degustar uma porção de carne seca
acebolada ao som de um pagode, em algum bar da cidade. Ao andar no centro, você
acabará inevitavelmente se esbarrando nas barracas dos camelôs, onde se compra quase
de tudo, e ainda por quebra acaba comendo um acarajé, caso você não tenha problemas
com comidas dedicadas aos santos da Bahia. Pedintes, homens de terno e gravata, as
cores dos times de futebol, carros e muita gente. Um microcosmo – um mosaico – do nosso
mundo atual. No final dos tempos, os tesouros das nações serão redimidos e encontrará
seu lugar na Cidade de Deus, a nova Jerusalém.

Seria muito afirmar que a Babel se tornará a nova Jerusalém? A cidade de Satanás se torna
na Cidade de Deus. O exclusivo, uniforme, pecadora cidade com sua alta torre, se
transforma agora na cidade aberta, diversa, que recepciona com seus portões abertos dia e
noite. E nós vivemos na cidade do meio - depois do Jardim do Éden e antes da Nova
Jerusalém – que é a velha Jerusalém. O tempo na cidade ambígua, esta misturado entre o
bem e o mal, certo e errado, belo e horrível, riqueza e pobreza, fraco e forte, poderoso e o
sem voz. Uma cidade que nos alegra é também a cidade cheia de situações que nos causa
pavores. È um lugar ambíguo. E na verdade não sabemos muito o que fazer com isto.

Por isso - esse sentimento de não saber o que fazer – faço três perguntas que devem
nortear nossa reflexão enquanto caminhamos e vivemos nas cidades modernas:

 O que Deus pensa da cidade?


 Onde está Deus na cidade?
 E o que Deus quer que sua igreja seja na cidade?

Creio que nossas repostas à estas perguntas indicarão os caminhos para podermos ver a
cidade com os olhos de Deus.

O que Deus pensa sobre a cidade? Liste alguns motivos que você encontra.

2.1. O que Deus pensa sobre a Cidade


Se queremos falar sobre a visão de Deus para – como Ele vê a cidade – precisamos
começar pelo centro de tudo, pelo amor de Deus pela cidade. A maioria das pessoas vê a
cidade como centro da maldade, crueldade, impiedade, impunidade, criminalidade,
corrupção, e coisas afins. É certo que todas estas situações, e muitas outras ainda, fazem
parte até mesmo do cotidiano da cidade. Porém, não deve ser esta a nossa abordagem da
cidade. A nossa abordagem deve ser o amor de Deus - porque Deus amou o mundo. Ao
criar todas as coisas, viu Deus que era bom. Seu olhar foi o olhar da bondade e da beleza
(Gn 1:31). Estou convencido que se existe algo que necessita ser mudado em nossa
perspectiva em relação à cidade é a nossa visão, ou seja, o modo como vemos a cidade.
Ouso a dizer que o modo como vemos a cidade determinará o tipo de envolvimento para
com a mesma.

Deus não somente que ao criar viu que era bom, mas também Deus ama a cidade como
se fosse sua. Em Ezequiel 16:1-14 temos uma profunda descrição do amor de Deus para
com a cidade.

(1) Veio a mim esta palavra do SENHOR: (2) “Filho do homem, confronte Jerusalém com
suas práticas detestáveis (3) e diga: Assim diz o Soberano, o SENHOR, a Jerusalém: Sua
origem e seu nascimento foram na terra dos cananeus; seu pai era um amorreu e sua mãe
uma hitita. (4) Seu nascimento foi assim: no dia em que você nasceu, o seu cordão
umbilical não foi cortado, você não foi lavada com água para que ficasse limpa, não foi
esfregada com sal nem enrolada em panos. (5) Ninguém olhou para você com piedade nem
teve suficiente compaixão para fazer qualquer uma dessas coisas por você. Ao contrário,
você foi jogada fora, em campo aberto, pois, no dia em que nasceu, foi desprezada.(6)
“Então, passando por perto, vi você se esperneando em seu sangue e, enquanto você jazia
ali em seu sangue, eu lhe disse: Viva! (7) E eu a fiz crescer como uma planta no campo.
Você cresceu e se desenvolveu e se tornou a mais linda das jóias. Seus seios se formaram
e seu cabelo cresceu, mas você ainda estava totalmente nua. (8) “Mais tarde, quando
passei de novo por perto, olhei para você e vi que já tinha idade suficiente para amar;
então estendi a minha capa sobre você e cobri a sua nudez. Fiz um juramento e estabeleci
uma aliança com você, palavra do Soberano, o SENHOR, e você se tornou minha. (9) “Eu
lhe dei banho com água e, ao lavá-la, limpei o seu sangue e a perfumei. (10) Pus-lhe um
vestido bordado e sandálias de couro. Eu a vesti de linho fino e a cobri com roupas caras.
(11) Adornei-a com jóias; pus braceletes em seus braços e uma gargantilha em torno de
seu pescoço; (12) dei-lhe um pendente, pus brincos em suas orelhas e uma linda coroa em
sua cabeça. (13) Assim você foi adornada com ouro e prata; suas roupas eram de linho
fino, tecido caro e pano bordado. Sua comida era a melhor farinha, mel e azeite de oliva.
Você se tornou muito linda e uma rainha. (14) Sua fama espalhou-se entre as nações por
sua beleza, porque o esplendor que eu lhe dera tornou perfeita a sua formosura. Palavra do
Soberano, o SENHOR.

Jerusalém é como uma criança órfã recém nascida que Deus a adota. Deus ama a cidade a
ponto de declarar que ela a Ele pertence -“...e você se tornou minha” (verso 8). Creio ser
muito importante afirmar que a cidade pertence a Deus – “minha é a terra”, porque existe
por ai, em meio de alguns irmãos nossos, uma idéia não bíblica de que a cidade pertence a
Satanás. O mundo jaz no maligno, mas jamais a Bíblia afirmou o mundo pertence ao
maligno.

Aquele que ama e como fruto deste amor adota a cidade é também aquele que demonstra
compaixão e justiça em relação à cidade. Esta é a terceira maneira como Deus vê a cidade:
ele a vê por meio da compaixão e justiça. Compaixão por que tem a capacidade de
chorar e derramar lágrimas por estado da cidade. Jesus ao ver Jerusalém chorou (Lc
13:34-35). Foi um choro que demonstrou o quanto ele amava aquela cidade e também em
ver o estado de pecado em que ela se encontrava. Foi como o choro de uma mãe que sente
a dor de uma filha que se dela se afasta (por isso a imagem da galinha/pintinhos).

A continuação do texto de Ezequiel 16 deixa claro essa maneira compassiva e justa do


olhar de Deus para com a cidade:

(15) “Mas você confiou em sua beleza e usou sua fama para se tornar uma prostituta. Você
concedeu os seus favores a todos os que passaram por perto, e a sua beleza se tornou
deles.e (16) Você usou algumas de suas roupas para adornar altares idólatras, onde levou
adiante a sua prostituição. Coisas assim jamais deveriam acontecer! (17) Você apanhou as
jóias finas que eu lhe tinha dado, jóias feitas com meu ouro e minha prata, e fez para si
mesma ídolos em forma de homem e se prostituiu com eles. (18) Você também os vestiu
com suas roupas bordadas, e lhes ofereceu o meu óleo e o meu incenso. (19) E até a
minha comida que lhe dei: a melhor farinha, o azeite de oliva e o mel; você lhes ofereceu
tudo como incenso aromático. Foi isso que aconteceu, diz o Soberano, o SENHOR. (20) “E
você ainda pegou seus filhos e filhas, que havia gerado para mim, e os sacrificou como
comida para os ídolos. A sua prostituição não foi suficiente? (21) Você abateu os meus
filhos e os sacrificou para os ídolos! (22) Em todas as suas práticas detestáveis, como em
sua prostituição, você não se lembrou dos dias de sua infância, quando estava totalmente
nua, esperneando em seu sangue. (23) “Ai! Ai de você! Palavra do Soberano, o SENHOR.
Somando-se a todas as suas outras maldades, (24) em cada praça pública, você construiu
para si mesma altares e santuários elevados. (25) No começo de cada rua você construiu
seus santuários elevados e deturpou sua beleza, oferecendo seu corpo com promiscuidade
cada vez maior a qualquer um que passasse. (26) Você se prostituiu com os egípcios, os
seus vizinhos cobiçosos, e provocou a minha ira com sua promiscuidade cada vez maior.
(27) Por isso estendi o meu braço contra você e reduzi o seu território; eu a entreguei à
vontade das suas inimigas, as filhas dos filisteus, que ficaram chocadas com a sua conduta
lasciva. (28) Você se prostituiu também com os assírios, porque era insaciável, e, mesmo
depois disso, ainda não ficou satisfeita. (29) Então você aumentou a sua promiscuidade
também com a Babilônia, uma terra de comerciantes, mas nem com isso ficou satisfeita.
(30) “Como você tem pouca força de vontade, palavra do Soberano, o SENHOR, quando
você faz todas essas coisas, agindo como uma prostituta descarada! (31) Quando construía
os seus altares idólatras em cada esquina e fazia seus santuários elevados em cada praça
pública, você só não foi como prostituta porque desprezou o pagamento. (32) “Você,
mulher adúltera! Prefere estranhos ao seu próprio marido! (33) Toda prostituta recebe
pagamento, mas você dá presentes a todos os seus amantes, subornando-os para que
venham de todos os lugares receber de você os seus favores ilícitos. (34) Em sua
prostituição dá-se o contrário do que acontece com outras mulheres; ninguém corre atrás
de você em busca dos seus favores. Você é o oposto, pois você faz o pagamento e nada
recebe. (35) “Por isso, prostituta, ouça a palavra do SENHOR! (36) Assim diz o Soberano, o
SENHOR: Por você ter desperdiçado a sua riqueza e ter exposto a sua nudez em
promiscuidade com os seus amantes, por causa de todos os seus ídolos detestáveis, e do
sangue dos seus filhos dado a eles, (37) por esse motivo vou ajuntar todos os seus
amantes, com quem você encontrou tanto prazer, tanto os que você amou como aqueles
que você odiou. Eu os ajuntarei contra você de todos os lados e a deixarei nua na frente
deles, e eles verão toda a sua nudez. (38) Eu a condenarei ao castigo determinado para
mulheres que cometem adultério e que derramam sangue; trarei sobre você a vingança de
sangue da minha ira e da indignação que o meu ciúme provoca. (39) Depois eu a
entregarei nas mãos de seus amantes, e eles despedaçarão os seus outeiros e destruirão
os seus santuários elevados. Eles arrancarão as suas roupas e apanharão as suas jóias
finas e a deixarão nua. (40) Trarão uma multidão contra você, que a apedrejará e com
suas espadas a despedaçará. (41) Eles destruirão a fogo as suas casas e lhe infligirão
castigo à vista de muitas mulheres. Porei fim à sua prostituição, e você não pagará mais
nada aos seus amantes. (42) Então a minha ira contra você diminuirá e a minha indignação
cheia de ciúme se desviará de você; ficarei tranqüilo e já não estarei irado. (43) “Por você
não se ter lembrado dos dias de sua infância, mas ter provocado a minha ira com todas
essas coisas, certamente farei cair sobre a sua cabeça o que você fez. Palavra do
Soberano, o SENHOR. Acaso você não acrescentou lascívia a todas as suas outras práticas
repugnantes? (44) “Todos os que gostam de citar provérbios citarão este provérbio sobre
você: ‘Tal mãe, tal filha’. (45) Você é uma verdadeira filha de sua mãe, que detestou o seu
marido e os seus filhos; e você é uma verdadeira irmã de suas irmãs, as quais detestaram
os seus maridos e os seus filhos. A mãe de vocês era uma hitita e o pai de vocês, um
amorreu. (46) Sua irmã mais velha era Samaria, que vivia ao norte de você com suas
filhas; e sua irmã mais nova, que vivia ao sul com suas filhas, era Sodoma. (47) Você não
apenas andou nos caminhos delas e imitou suas práticas repugnantes, mas também, em
todos os seus caminhos, logo se tornou mais depravada do que elas. (48) Juro pela minha
vida, palavra do Soberano, o SENHOR, sua irmã Sodoma e as filhas dela jamais fizeram o
que você e as suas filhas têm feito. (49) “Ora, este foi o pecado de sua irmã Sodoma: ela e
suas filhas eram arrogantes, tinham fartura de comida e viviam despreocupadas; não
ajudavam os pobres e os necessitados. (50) Eram altivas e cometeram práticas
repugnantes diante de mim. Por isso eu me desfiz delas, conforme você viu. (51) Samaria
não cometeu metade dos pecados que você cometeu. Você tem cometido mais práticas
repugnantes do que elas, e tem feito suas irmãs parecerem mais justas, dadas todas as
suas práticas repugnantes. (52) Agüente a sua vergonha, pois você proporcionou alguma
justificativa às suas irmãs. Visto que os seus pecados são mais detestáveis que os delas,
elas parecem mais justas que você. Envergonhe-se, pois, e suporte a sua humilhação,
porquanto você fez as suas irmãs parecerem justas. (53) “Contudo, eu restaurarei a sorte
de Sodoma e das suas filhas, e de Samaria e das suas filhas, e a sua sorte junto com elas,
(54) para que você carregue a sua vergonha e seja humilhada por tudo o que você fez, o
que serviu de consolo para elas. (55) E suas irmãs, Sodoma com suas filhas e Samaria com
suas filhas, voltarão para o que elas eram antes; e você e suas filhas voltarão ao que eram
antes. (56) Você nem mencionaria o nome de sua irmã Sodoma na época do orgulho que
você sentia, (57) antes da sua impiedade ser trazida a público. Mas agora você é alvo da
zombaria das filhas de Edom e de todos os vizinhos dela, e das filhas dos filisteus, de todos
os que vivem ao seu redor e que a desprezam. (58) Você sofrerá as conseqüências da sua
lascívia e das suas práticas repugnantes. Palavra do SENHOR. (59) “Assim diz o Soberano,
o SENHOR: Eu a tratarei como merece, porque você desprezou o meu juramento ao romper
a aliança. (60) Contudo, eu me lembrarei da aliança que fiz com você nos dias da sua
infância, e com você estabelecerei uma aliança eterna. (61) Então você se lembrará dos
seus caminhos e se envergonhará quando receber suas irmãs, a mais velha e a mais nova.
Eu as darei a você como filhas, não porém com base em minha aliança com você. (62) Por
isso estabelecerei a minha aliança com você, e você saberá que eu sou o SENHOR. (63)
Então, quando eu fizer propiciação em seu favor por tudo o que você tem feito, você se
lembrará e se envergonhará e jamais voltará a abrir a boca por causa da sua humilhação.
Palavra do Soberano, o SENHOR” (Ez 16:15-63).

Estas palavras precisam ser lidas com a ótica de um traído e abandonado. Deus sofre ao
ver a cidade se corrompendo e andando longe dele. Apesar de pronunciar sua compaixão e
justiça, o final de tudo é este: “por isso estabelecerei a minha aliança com você, e você
saberá que eu sou o SENHOR. Então, quando eu fizer propiciação em seu favor por tudo o
que você tem feito...” (Ez 16:62-64).

Deus se regozija na cidade, querendo redimir e não esquecer sua criação . Deus
deseja redimir a cidade reconstruindo a velha Jerusalém que será remodelada e
reconstruída na nova Jerusalém. Essa reconstrução pode ser física, econômica, política e
espiritual. Quantas instituições e movimentos não encontramos nas cidades que ao meu
ver são braços de Deus visando sua restauração e redenção. As muitas creches, asilos,
orfanatos, lares, distribuição de comida, casas de recuperação são expressões do amor
redentivo de Deus. Do ponto de vista cultural, a restauração das praças, parques, lugares
turísticos são também obras com o dedo de Deus. A igreja com a cidade será aquela que
trabalha na reconstrução e redenção da mesma.

2.2. Onde está Deus na cidade?


Onde está Deus em tudo isso? É a pergunta que muitos fazem em meio ao caos urbano. A
resposta é simples: Deus esta bem no meio de tudo isso! No meio do quebrado e
contundiu, do atordoado e desorientado, do fraco e vulnerável, do moribundo e morte. Ele
não está confortavelmente sentado em uma poltrona celestial, assistindo a vida humana
com um controle remoto em suas mãos. Ele está aqui, no meio da vida humana. E esse é o
lugar onde a igreja deve estar também. Aqueles que crêem que Deus esta longe assistindo
a drama ad vida, tendem também a ter uma igreja distante, que não participa da vida
cotidiana. Tendem a desenvolver uma espiritualidade de geografias, os seja, de lugares
sagrados para com Ele se encontrar. Por esta razão muitas pessoas oram assim ao entrar
na igreja: “Senhor, agora que entramos em tua presença...” E a pergunta que fica é esta:
qual saiu? Simples: ao sair da igreja. Deus, é portanto, refém da nossa visão. Infelizmente
os teólogos sistemáticos não nos ajudaram muito neste aspecto. Parece que enfatizaram
muito mais o Deus absconditus do que Emanuel. Mais o Deus de olhos gigantes do que o
Deus com mãos solidárias. Eu me treino constantemente para poder ver em meio a vida
humana. Existe uma tragédia, minha tendência é dizer que Satanás se fez presente. Eu me
re-educo para poder ver Deus bem no meio da vida. Me faço lembrar do seu Filho, que é
Deus conosco, que se fez presente entre os pobres, fracos, que ia em festas, que comia
com pecadores, que era solidário ao doente, que se compadecia que gente entupida de
pecados. Onde esta Deus nisso tudo? Ele está aqui no meio de tudo. Ele está onde sua
criação esta. Onde o necessitado e aflito estão ele também esta para socorrer. Ele esta em
relação e interação. É possível ver Deus exatamente de forma contrário como aqui
descrevo, mas eu me nego.

Jesus disse “o que vocês deixaram de fazer a alguns destes mais pequeninos, também a
mim deixaram de fazê-lo” (Mt 25:45). Deixar de fazer é não ser compassivo e amoroso.
Quando buscamos suprir as necessidades do próximo, ali estava Deus bem no meio de tudo
através de nós. Jesus também disse na parábola do Bom Samaritano, “vá e faça o mesmo”
(Lc 10:37). Nos tornamos como Cristo para o próximo quando vamos e fazemos o mesmo.
Quando acudimos ao necessitado , limpamos sua ferida, e os despedimos em paz. Deus
está no meio de nossos relacionamentos. Nós tornamos a presença de Deus real quando
encarnamos em nossas cidades de hoje nossos atitudes de compaixão e amor.

No livro de Apocalipses temos uma dica de como é o plano de Deus para a cidade, que lá
Deus habitará finalmente com seu povo. Na cidade não haverá templos: “não vi templo
algum na cidade, pois o Senhor Deus todo-poderoso e o Cordeiro são o seu templo” (Ap
21:22). Creio que nós poderíamos acelerar esse processo. Hoje eu não posso dizer assim:
não vejo nenhum templo na cidade. Nossa escassez não é de templo, mas o que fazer com
eles. Para alguns, o templo é muito santo e sagrada para certas atividades. Se desde agora
o Senhor Deus todo-poderoso e o Cordeiro são nossos templos, então podemos pensar
melhor sobre a resposta da pergunta, onde esta Deus na cidade. Ele está onde nós
estivermos. Mas se não estivermos ele deixará de estar.Certamente não! Porém, se Deus
esta presente entre nós, então devemos tratar cada um, nossos visitantes e estrangeiros
que encontramos em nossos caminhos com respeito, porque quem sabe se não estamos
hospedamos anjos e nem sabíamos disto.

2.3. O que Deus quer que sua igreja seja na cidade?


A partir desta reflexão quero compartilhar finalmente como eu acho que Deus gostaria que
sua comunidade fosse na cidade. Talvez isto tenha a ver muito mais com meus anseios do
que com uma justa e clara visão a respeito do próprio Deus. Colocando assim, não corro o
risco de colocar Deus em prejuízo. Isto é o que eu penso a respeito do que Deus pensa
sobre ba ação da igreja na cidade.

Eu vejo que Deus deseja que sua igreja seja um centro de hospitalidade para cidade.
Creio que a visão de Deus para a cidade é que sua igreja seja um lugar onde todos são
bem recebidos. A qualquer momento, o estrangeiro é bem recebido entre nós. Teremos
duas afirmações possíveis. Quando Jesus fizer a chamada: Mateus 25:35 – muitos dirão:
presente! (“fui estrangeiro, e vocês me acolheram”). Também quando Jesus fizer a
chamada: Mateus 25:43 – muitos dirão: presente! (“fui estrangeiro, e vocês não me
acolheram”). A igreja deve ser um centro de hospitalidade. Um centro de hospitalidade é
um lugar de boas vindas. Um lugar onde as pessoas possam se sentir em casa. Isto não é
simplesmente ter uma recepção de boas vindas nas igrejas, mas ter toda a comunidade
que demonstra a hospitalidade para com o estrangeiro. Um centro de hospitalidade onde o
solitário encontra amizade, onde o confuso encontra entendimento.

Vejo também que Deus deseja que sua igreja seja um centro de refúgio onde os fora e os
estrangeiros, o pobre e o fraco, o perseguido e o não-amado possam encontrar um
santuário. Isto nos faz lembrar das Cidades Refúgios que Deus preparou Israel no Antigo
Testamento. Talvez a palavra asilo possa ser pertinente aqui. Ela oferece asilo para pessoas
que:

- estão passando por situações de crises


- estão pressionadas pela muitas atividades de uma vida cotidiana estressante - estão
solitárias e sem amizades sólidas
- estão confusas e não tem ninguém que as ouça
- estão famintas e sedentas para achar o verdadeiro Deus

Muitas vezes o fato de termos um estoque de cestas básicas em algum lugar da igreja fala
mais do que até mesmo encher a barriga de alguém. Demonstra nossa preocupação de
sermos asilo para o desamparado. Revela nossa intenção de ser asilo. Isto me faz lembrar
de uma história de um sacerdote católico da cidade de Los Angeles, que fomos (eu e um
grupo de alunos do Fuller Theological Seminary) visitar por ser sua paróquia uma
comunidade urbana, em meio as gangs de Los Angeles. Ele nos contou a seguinte história.

Certa vez um homem que no passado havia pertencido a nossa paróquia veio nos visitar.
Depois de conversarmos um pouco, ele assim me disse. “Padre, foi aqui nesta paróquia que
foi batizado, onde aprendi as coisas a respeito de Deus, onde minha fé foi alimentada.
Porém, hoje este lugar não mais uma igreja, pois olhe aquele mendigo sentado lá no fundo.
E aquele lugar ali que costumava ser uma sala de oração virou banheiros onde os mendigos
tomam banho. Antes este lugar era organizado, agora é uma baderna, um entra e sai de
gente. Isto mais se parece como uma rodoviária do que com uma igreja. É, de fato, isto era
uma igreja”. O padre, sabendo exatamente o que se passava no coração daquele homem,
em vez de responder ou retrucar, preferiu chamar um daqueles homens que ali estavam.
Ele disse: “Pedro, você poderia vir aqui um instante,, por favor”. E lá vem o Pedro, todo
alegre e feliz. “Pedro”, pergunta o padre, “o que significa este lugar para você?”. Ah padre,
este lugar é tudo para mim. Eu estava morrendo debaixo da ponte e quando me trouxeram
para este lugar eu encontrei uma família. Este lugar é a família que eu nunca tive. O padre
agradece ao Pedro e o despede. Em seguida ele chama uma moça, e faz a mesma
pergunta. Ela logo diz que aquele lugar salvou a vida dela, pois estava grávida, correndo
risco de vida, e ali ela havia encontrado refúgio para poder receber a criança que estava
em seu ventre. O padre agradece a moça e a despede. E assim ele o fez com mais algumas
pessoas. Ao final de tudo ele se vira para o Pedro e diz: “Pedro, eu sinto muito que para
você este lugar era uma igreja. Mas eu não sinto nem pouco por todas estas pessoas que
estão aqui, pois para elas, esta é a única igreja e família que eles possuem”. É claro que eu
nem preciso dizer que ao ouvir esta história verdadeira que nós estávamos em pranto,
percebendo que aquela comunidade havia se tornado um centro de hospitalidade, um
centro de refúgio, uma cidade santa para aqueles que haviam, perdido as esperanças de
viver.

Ainda vejo que Deus deseja que sua igreja seja um centro de misericórdia, esperança e
vida. Igreja é betesda – uma casa de misericórdia. Se existe um lugar no mundo onde a
vida deve receber o máximo valor e na igreja na vida daqueles que professam a Jesus.
Nossos legalismos e tradicionalismos só existem porque a vida não é nossa prioridade.
Quando a vida esta acima de tudo e ocupa a prioridade das nossas agendas, então é
possível colher espigas no sábado (Lc 6:1). Então é possível curar um homem de mão
atrofiada no mesmo sábado (Lc 6:6). È sábado, mas existe uma mulher que esta
encurvada, com problemas na colina cerca de dezoito anos, e ela sai curada (Lc 13:11). A
vida esta em primeiro lugar, mesmo o líder fique “indignado porque Jesus havia curado no
sábado, o dirigente da sinagoga disse ao povo: “Há seis dias em que se deve trabalhar.
Venham para ser curados nesses dias, e não no sábado” (Lc 13:14). Havia um homem cujo
corpo estava to inchado (Lc 14:1-2) e Jesus faz a seguinte pergunta para os religiosos, “Se
um de vocês tiver um filho ou um boi, e este cair num poço no dia de sábado, não irá tirá-
lo imediatamente?” (Lc. 14:5). A resposta deles foi o silêncio: “e eles nada puderam
responder” (Lc 14:6). Em vez de se posicionarem um função da vida, escolheram a
covardia da tradição. É triste ter que chegar a esta conclusão por causa das tradições:
“Hoje é sábado, não lhe é permitido carregar a maca” (Jo 5:10).

Creio que também precisamos aprender o que Jesus disse aos que refutavam sua
participação com os pecadores: “vão aprender o que significa isto: ‘Desejo misericórdia,
não sacrifícios’. Pois eu não vim chamar justos, mas pecadores” (Mt 9:13; 12:7). É possível
fazer as coisas e até mesmo liderar a igreja de Deus sem misericórdia. Por isso Jesus disse:
“Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro
e do cominho, mas têm negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a
misericórdia e a fidelidade. Vocês devem praticar estas coisas, sem omitir aquelas” (Mt
23:23).

Jesus tinha o desejo que sua casa fosse lembrada como uma casa de oração: “a minha
casa será casa de oração” (Lc 19:46). Qual é lugar da oração nesta reflexão? Por meio da
oração demonstramos misericórdia, esperança para pessoas e valorizamos a vida das
mesmas. Ouso afirmar que a oração deveria produzir em nós um coração mais
misericordioso. Uma boca que profere esperança para o outro e a vida como centro das
nossas atenções. Uma casa de oração é uma casa de misericórdia. Uma casa de oração é
uma casa de esperança. Uma casa de oração é uma casa de vida!

Finalmente, eu preciso ver que Deus deseja que sua igreja seja um centro sinalizador do
Reino. Assim como o farol esta para o mar, assim também esta a igreja para a cidade. A
igreja é convocada para ser “um sinal de contradição”, assim como foi Jesus. Simeão avisa
e previne Maria que seu filho seria “um sinal de contradição” (Lc 2:34). Isto significa
desafiar as normas e valores deste mundo, como demonstrado o sermão do monte.

A igreja esta na cidade e com a cidade. Está junto com muitas outras instituições, prédios,
centros comerciais, entre os ricos e pobres, poderosos e sem vozes, sendo ela também um
sinal de contradição – contra as coisas que são desumanas, desafiando os valores do
mundo e apontam os valores do reino de Deus, sua justiça, uma igreja inclusive e aberta,
unida na diversidade, uma comunidade de compaixão.

2.4. Conclusão

2.4. Conclusão
Começamos nossa reflexão discernindo duas localidades geográficas: o jardim do Éden e a
Nova Jerusalém. Sabemos de onde viemos, o que fizemos, e para onde vamos. Viemos de
um lugar projetado para ser harmônico, que foi invadido pelo pecado e vamos para a Nova
Jerusalém, a santa cidade restaurada por Deus. Enquanto lá não estamos, nosso desafio é
viver no já do nosso chão com os paradigmas do ainda não. Se para lá vamos, então
vamos trazer o lá para o aqui. Nada de escapismos e de fuga. Sejamos crentes e oremos
como Jesus nos ensinou: venha o teu reino; e seja feita a tua vontade, assim na terra
como no céu” (Mt 6:10). Não nos pode passar desapercebidos esses assim na e como no.
Assim como a vontade de Deus é plena no céu, da mesma forma seja ela na terra. Isto nos
lembra outro assim como: “assim como o Pai me enviou, eu os envio” (Jo 20:21). Por
isso, me esforcei para demonstrar que enquanto não estamos na Nova Jerusalém é o nosso
dever missionário viver na Velha Jerusalém (o nosso hoje) como se estivéssemos na Nova
Jerusalém. Somos como os patriarcas da fé, que “esperavam eles uma pátria melhor, isto
é, a pátria celestial. Por essa razão Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles,
e lhes preparou uma cidade” (Hb 11:6). Para isso, me esforcei em demonstrar três
perspectivas:

 Como Deus vê a cidade? Ele vê (1) com os olhos do amor, (2) como se sendo sua,
(3) com olhos compassivos e justos, e (4) com olhos que busca e redime sua criação.

 Onde está Deus na cidade? Bem no meio dela. Como eu afirmei anteriormente,
Deus está no meio do quebrado e contundiu, do atordoado e desorientado, do fraco e
vulnerável, do moribundo e morte. Ele não está confortavelmente sentado em uma
poltrona celestial, assistindo a vida humana com um controle remoto em suas mãos.
Ele está aqui, no meio da vida humana. E esse é o lugar onde a igreja deve estar
também.

 E o que Deus quer que sua igreja seja na cidade? Um centro! Centro não para si
mesma, mas pra o outro. Um centro de hospitalidade. Um centro de refúgio. Um centro
de misercórdia-esperança-vida. Um centro sinalizador do Reino. Assim como o farol
esta para o mar, assim também esta a igreja para a cidade.

Onde esta Deus? Ele esta aqui, no meio de nós e tudo.

O que é a sua igreja? Um coração que bate no coração da cidade. Se esse coração vai
continuar batendo ou não depende nós. Essa foi a proposta de Jeremias (29:7) para os
judeus que estavam exilados na Babilônia, sem esperança, rejeitados, sonhando um voltar
aos velhos e gloriosos dias de Jerusalém e seu Templo. Jeremias fala para eles pararem de
pensar no passado e começar a viver o presente, o aqui e agora, no meio de uma cultura e
um povo estranho. Trabalhem (produzam) o bem onde vocês estão. Construam casas e
casam-se, construam uma comunidade, compram e vendam – ou seja – vivam plenamente
onde Deus os colocou. “Busquem a prosperidade da cidade para a qual eu os deportei e
orem ao Senhor em favor dela, porque a prosperidade de vocês depende da prosperidade
dela” (Jr 29:7).

Nós todos estamos nesta vida juntos. Estamos inter-conectados, inter-ligados, Igreja e
Cidade. Não somos entidades separadas, costa a costa. As portas das nossas igrejas devem
olhar para cidade e a cidade deve olhar para as portas das nossas igrejas. Estamos ligados
juntos e juntos devemos viver. O bem-estar nosso depende também do bem-estar da
cidade. Na prosperidade da cidade seremos prósperos também. Willian Temple disse que a
igreja que vive para ela mesma morrerá por ela mesma.

Deus continua procurando sua criatura, reclamando dela uma resposta a sua pergunta:
Onde estas? Esta pergunta também serve para a igreja: onde está a minha paróquia? Que
nossa resposta seja a de John Wesley, “minha paróquia é o mundo”.

As Primeiras Cidades
“Fugitivo e errante serás sobre toda a terra”. Essa foi a sentença final em que Deus disse
para Caim. Nesta sentença não existe uma caráter de maldição, mas sim da graça e
misericórdia de Deus prometendo colocar em Caim uma marca (sinal) para protege-lo. Mas
Caim teve outra idéia! Ele fugiu da presença de Deus – “saiu e habitou” (mesmo que
aconteceu com Jonas) e construiu uma cidade. Não contente com uma marca (sinal) que
representava a segurança em Deus, ele construiu um lugar visível para o seu refúgio.
O que você aprende de Gênesis 4:8-17 sobre as motivações que envolvem a construção da
primeira cidade na Bíblia? Como você interpreta isso? Quais são as conseqüências da
desobediência de Caim?
Uma olhar mais criterioso deste capítulo sugere que a construção da primeira cidade na
Bíblia foi um ato de fuga e desobediência. Ao recusar a proposta de Deus, para estar
debaixo da sua segurança e supervisão, Caim constrói sua própria cidade, como símbolo de
auto-suficiência e independência. Ao fugir da presença de Deus ele constrói a cidade e
coloca o nome do seu filho como expressão que seu futuro estaria sendo construído na
segurança de uma família e não em Deus.

Em Gênesis 4:26 diz que “as pessoas começaram a invocar o nome do Senhor”, e a
construção dessa cidade foi uma tentativa de Caim para “perpetuar seu próprio nome na
auto-segurança da sua cidade” (COM a GREENWAY, Discipling the City, Baker Book House:
1987:227).

Esta é uma trágica história do começo da cidade na Bíblia. A cidade representa a


alternativa humana de comunhão em vez de Deus, uma tentativa de segurança e
significado. Concebida em pecado e fuga, nascida longe da presença de Deus como o
excluindo. Uma expressão concreta da auto-independência, mas também um símbolo de
alienação.

Alienado, homem e mulher criam um novo ambiente para eles mesmos. Alienados dos
outros seres humanos, eles constroem muros ao redor deles. Alienados de Deus, eles
criaram um pequeno novo mundo para ter domínio sobre. A cidade é o seu reino, seu
orgulho e alegria, sua grande vitória – e, como veremos, o lugar onde eles tinham menos
segurança e mais alienação.

Se a cidade de Caim simboliza segurança, o que as cidades de Ninrode simbolizam? Leia


Gênesis 10:8-12 e reflita...

O segundo construtor de cidades na Bíblia foi Ninrode, que construiu muitas cidades
incluindo Nínive. Apesar dos detalhes sobre sua serem poucos, parece claro que ele um rei
agressivo e sanguinário, para fortalecer e talvez adornar as terras que ele conquistava.

Caim construiu uma cidade para acampar e se proteger dos inimigos. As cidades Ninrode
tem outra perspectiva, a de serem centros de poder militar nos quais ele baseava seus
assaltos ou para dominar territórios subjugados. Se a cidade de Caim representa
segurança, as de Ninrode representam dominação: ambas símbolos da ambição humana.

Quais paralelos – especialmente em termos de motivo – você percebe na construção de


Babel e na da cidade de Caim? Leia Gênesis 11:1-9 e reflita...

A mais famosa e significante das primeiras cidades foi Babel. Temos considerável
informações sobre as motivações por detrás da sua construção e pela primeira vez
descobrimos algo sobre a resposta do Senhor sobre a construção da cidade. Ver Gn 11:4.

Você percebe a similaridade dos motivos de Caim – fazer o nome e evitar de ser andarilho?
A famosa torre era uma maneira de dizer: quem precisa de um deus se podemos construir
nosso caminho para o céu?

O entusiasmo dos construtores era evidente, mas seu trabalho foi em vão. O Deus que eles
desprezaram interveio em algo que ela morriam de medo. Sua língua foi confundida, sua
unidade e segurança destruída e eles foram dispersos.
Por que Deus interviu? É usualmente assumido que o orgulho dos construtores ofendeu a
Deus, mas talvez o real motivo seja a própria misericórdia de Deu, para diminuir o ritmo do
ser humano em querem alcançar seus esforços por eles mesmos e limitar o potencial deles
em querer um mundo pra eles mesmos sem a presença de Deus.

Babel é um evento histórico para nos lembrar que nenhuma cidade está totalmente
completada. A cidade é sempre um alvo em vez de algo acabado. Estragada pelo pecado, a
cidade nunca poderá preencher sua satisfação por meio das aspirações humanas. Ela falha
em prover respostas satisfatórias aos problemas, tais como insegurança. Somente a cidade
de Deus, a qual é perfeita desde a sua fundação pode proporcionar isso. Mas ela está muito
longe ainda na estrada que vamos seguir...

ASPECTOS CONDENATÓRIOS DA VIDA NA CIDADE

Cidades são produtos da criatividade, habilidade e indústria humana. Assim como a raça
humana, as cidades também estão cheias de corrupção e de bons desejos para buscar o
bem. Muitas passagens bíblicas (como Ezequiel 27:1-11) celebram a beleza, arquitetura e a
cultura da cidade. A ordem e segurança são valores a serem buscados. Mesmo quando o
julgamento é predito sobre a cidade, é feito com tristeza e não com prazer. Quais aspectos
trazem condenação sobre uma cidade?

Aspectos Condenatórios da Vida na Cidade


Cidades são produtos da criatividade, habilidade e indústria humana. Assim como a raça
humana, as cidades também estão cheias de corrupção e de bons desejos para buscar o
bem. Muitas passagens bíblicas (como Ezequiel 27:1-11) celebram a beleza, arquitetura e a
cultura da cidade. A ordem e segurança são valores a serem buscados. Mesmo quando o
julgamento é predito sobre a cidade, é feito com tristeza e não com prazer. Os escritores
bíblicos não são anti-urbanos, contrastando o horror da cidade e o mérito das áreas
urbanas.

Existe um potencial na cidade tanto para o bem como para o mal. Sejam quais forem os
motivos por detrás da construção das cidades e seja o quer for que eles simbolizem, o ser
humano feito a imagem de Deus não consegue ajudar a produzir coisas de que somente
expressem bons valores. As cidades precisam ser resgatadas. Mesmo sendo elas
construídas para a glória humana em vez da glória de Deus, mas existe nela uma glória
que é digna de ser redimida. O desejo do coração de Deus não é destruir a cidade, mas
restaurá-la. E isso é fundamental para a missão urbana: restauração e não destruição!

Mas o Antigo Testamento é realista sobre os pecados da cidade. Os profetas enfatizaram


muitos diferentes pecados e cada cidade tem suas fraquezas peculiares – o militarismo de
Nínive, a perversão sexual e injustiça de Sodoma, as más atitudes de Tiro.

A partir das muitas referências bíblicas sobre as cidades, podemos verificar pelo menos
cinco (5) passagens do Antigo Testamento as quais os profetas foram enfáticos em
condenar seus pecados.
Leia

Jeremias 6:6

“Assim diz o SENHOR dos Exércitos: ‘Derrubem as árvores e construam rampas de cerco
contra Jerusalém. Ó cidade da falsidade! Ela está cheia de opressão’”.

Ezequiel 22:6-13

6 “Veja como cada um dos príncipes de Israel que aí está usa o seu poder para derramar
sangue. 7 Em seu meio eles têm desprezado pai e mãe, oprimido o estrangeiro e
maltratado o órfão e a viúva. 8 Você desprezou as minhas dádivas sagradas e profanou os
meus sábados. 9 Em seu meio há caluniadores, prontos para derramar sangue; em seu
meio há os que comem nos santuários dos montes e praticam atos lascivos; 10 em seu
meio há aqueles que desonram a cama dos seus pais, e aqueles que têm relações com as
mulheres nos dias de sua menstruação. 11 Um homem comete adultério com a mulher do
seu próximo, outro contamina vergonhosamente a sua nora, e outro desonra a sua irmã,
filha de seu próprio pai. 12 Em seu meio há homens que aceitam suborno para derramar
sangue; você empresta a juros, visando lucro, e obtém ganhos injustos, extorquindo o
próximo. E você se esqueceu de mim. Palavra do Soberano, o SENHOR. 13 "Mas você me
verá bater as minhas mãos uma na outra contra os ganhos injustos que você obteve e
contra o sangue que você derramou”.

Amós 4:1

“Ouçam esta palavra, vocês, vacas de Basã que estão no monte de Samaria, vocês, que
oprimem os pobres e esmagam os necessitados e dizem aos senhores deles: ‘Tragam
bebidas e vamos beber!’”.

Sofonias 3:1

“Ai da cidade rebelde, impura e opressora!”

Que aspecto da cidade está debaixo da condenação desses profetas?

Opressão: o tratamento injusto do pobre pelo rico, o fraco pelo forte, os cidadãos pelo
seus governantes. Uso de violência, suborno, extorsão, opressores dominando as cidades.
Muitos profetas destacaram o julgamento nos comportamentos das situações na cidade.

Leia

Jeremias 22:8-9

8 “De numerosas nações muitos passarão por esta cidade e perguntarão uns aos outros:
'Por que o SENHOR fez uma coisa dessas a esta grande cidade?' 9 E lhes responderão: 'Foi
porque abandonaram a aliança do SENHOR, do seu Deus, e adoraram outros deuses e
prestaram-lhes culto”

Naum 1:14

“O SENHOR decreta o seguinte a seu respeito, ó rei de Nínive: ‘Você não terá descendentes
que perpetuem o seu nome. Destruirei as imagens esculpidas e os ídolos de metal do
templo dos seus deuses. Prepararei o seu túmulo, porque você é desprezível’”.

Miquéias 5:11-14 e ...


11 “Destruirei também as cidades da sua terra e arrasarei todas as suas fortalezas. 12
Acabarei com a sua feitiçaria, e vocês não farão mais adivinhações. 13 Destruirei as suas
imagens esculpidas e as suas colunas sagradas; vocês não se curvarão mais diante da obra
de suas mãos. 14 Desarraigarei do meio de vocês os seus postes sagrados e derrubarei os
seus ídolos”.

... compare com:

Atos 17:16

“Enquanto esperava por eles em Atenas, Paulo ficou profundamente indignado ao ver que a
cidade estava cheia de ídolos”.

Atos 19:34

“Mas quando ficaram sabendo que ele era judeu, todos gritaram a uma só voz durante
cerca de duas horas: ‘Grande é a Ártemis dos efésios!’”.

Que aspecto da cidade está debaixo da condenação desses profetas?

Idolatria: a idolatria não está confinada na cidade apenas; muitas vezes as áreas rurais
também estavam cheias de ídolos. Mas os profetas falaram de forma clara e aberta contra
a idolatria urbana. Jeremias imaginou pessoas andando nas ruínas de Jerusalém e
perguntou: “Por que o SENHOR fez uma coisa dessas a esta grande cidade?” (22:8). A
resposta que as pessoas receberiam “foi porque abandonaram a aliança do SENHOR, do
seu Deus, e adoraram outros deuses e prestaram-lhes culto” (22:9).

Leia

Jeremias 26:15

“Entretanto, estejam certos de que, se me matarem, vocês, esta cidade e os seus


habitantes serão responsáveis por derramar sangue inocente, pois, na verdade, o SENHOR
enviou-me a vocês para anunciar-lhes essas palavras”.

Ezequiel 22:3-4

“3 e diga: Assim diz o Soberano, o SENHOR: Ó cidade, que traz condenação sobre si
mesma por derramar sangue em seu meio e por se contaminar fazendo ídolos! 4 Você se
tornou culpada por causa do sangue que derramou e por ter se contaminado com os ídolos
que fez. Você deu cabo dos seus dias; chegou o fim dos seus anos. Por isso farei de você
objeto de zombaria para as nações e de escárnio em todas as terras”.

Ezequiel 24:6-9

“6 Porque assim diz o Soberano, o SENHOR: Ai da cidade sanguinária, da panela que agora
tem uma crosta, cujo resíduo não desaparecerá! Esvazie-a, tirando pedaço por pedaço,
sem sorteá-los. 7 Pois o sangue que ela derramou está no meio dela; ela o derramou na
rocha nua; não o derramou no chão, onde o pó o cobriria. 8 Para atiçar a minha ira e me
vingar, pus o sangue dela sobre a rocha nua, para que ele não fosse coberto. 9 Portanto,
assim diz o Soberano, o SENHOR: Ai da cidade sanguinária! Eu também farei uma pilha de
lenha, uma pilha bem alta”.

Habacuque 2:12
“Ai daquele que edifica uma cidade com sangue e a estabelece com crime!”.

Que aspecto da cidade está debaixo da condenação desses profetas?

Derramar Sangue: cidades são lugares de violência onde o fraco e inocente tem seu
sangue derramado. Duas vezes Ezequiel fala: “Ai da cidade sanguinária” (24:6,9) e declara
que “o sangue que ela derramou está no meio dela; ela o derramou na rocha nua; não o
derramou no chão, onde o pó o cobriria”. Seria aqui um eco do sangue de Abel clamando
contra os primeiros construtores das cidades? È em particular o sangue derramado do
inocente que coloca a cidade debaixo do julgamento divino.

Leia

Ezequiel 16:1-63

“1 Veio a mim esta palavra do SENHOR: 2 "Filho do homem, confronte Jerusalém com suas
práticas detestáveis 3 e diga: Assim diz o Soberano, o SENHOR, a Jerusalém: Sua origem e
seu nascimento foram na terra dos cananeus; seu pai era um amorreu e sua mãe uma
hitita. 4 Seu nascimento foi assim: no dia em que você nasceu, o seu cordão umbilical não
foi cortado, você não foi lavada com água para que ficasse limpa, não foi esfregada com sal
nem enrolada em panos. 5 Ninguém olhou para você com piedade nem teve suficiente
compaixão para fazer qualquer uma dessas coisas por você. Ao contrário, você foi jogada
fora, em campo aberto, pois, no dia em que nasceu, foi desprezada. 6 "Então, passando
por perto, vi você se esperneando em seu sangue e, enquanto você jazia ali em seu
sangue, eu lhe disse: Viva!{1} 7 E eu a fiz crescer como uma planta no campo. Você
cresceu e se desenvolveu e se tornou a mais linda das jóias{2}. Seus seios se formaram e
seu cabelo cresceu, mas você ainda estava totalmente nua. 8 "Mais tarde, quando passei
de novo por perto, olhei para você e vi que já tinha idade suficiente para amar; então
estendi a minha capa sobre você e cobri a sua nudez. Fiz um juramento e estabeleci uma
aliança com você, palavra do Soberano, o SENHOR, e você se tornou minha. 9 "Eu lhe
dei{3} banho com água e, ao lavá-la, limpei o seu sangue e a perfumei. 10 Pus-lhe um
vestido bordado e sandálias de couro{4}. Eu a vesti de linho fino e a cobri com roupas
caras. 11 Adornei-a com jóias; pus braceletes em seus braços e uma gargantilha em torno
de seu pescoço; 12 dei-lhe um pendente, pus brincos em suas orelhas e uma linda coroa
em sua cabeça. 13 Assim você foi adornada com ouro e prata; suas roupas eram de linho
fino, tecido caro e pano bordado. Sua comida era a melhor farinha, mel e azeite de oliva.
Você se tornou muito linda e uma rainha. 14 Sua fama espalhou-se entre as nações por sua
beleza, porque o esplendor que eu lhe dera tornou perfeita a sua formosura. Palavra do
Soberano, o SENHOR. 15 "Mas você confiou em sua beleza e usou sua fama para se tornar
uma prostituta. Você concedeu os seus favores a todos os que passaram por perto, e a sua
beleza se tornou deles.{5} 16 Você usou algumas de suas roupas para adornar altares
idólatras, onde levou adiante a sua prostituição. Coisas assim jamais deveriam acontecer!
17 Você apanhou as jóias finas que eu lhe tinha dado, jóias feitas com meu ouro e minha
prata, e fez para si mesma ídolos em forma de homem e se prostituiu com eles. 18 Você
também os vestiu com suas roupas bordadas, e lhes ofereceu o meu óleo e o meu incenso.
19 E até a minha comida que lhe dei: a melhor farinha, o azeite de oliva e o mel; você lhes
ofereceu tudo como incenso aromático. Foi isso que aconteceu, diz o Soberano, o SENHOR.
20 "E você ainda pegou seus filhos e filhas, que havia gerado para mim, e os sacrificou
como comida para os ídolos. A sua prostituição não foi suficiente? 21 Você abateu os meus
filhos e os sacrificou{6} para os ídolos! 22 Em todas as suas práticas detestáveis, como em
sua prostituição, você não se lembrou dos dias de sua infância, quando estava totalmente
nua, esperneando em seu sangue. 23 "Ai! Ai de você! Palavra do Soberano, o SENHOR.
Somando-se a todas as suas outras maldades, 24 em cada praça pública, você construiu
para si mesma altares e santuários elevados. 25 No começo de cada rua você construiu
seus santuários elevados e deturpou sua beleza, oferecendo seu corpo com promiscuidade
cada vez maior a qualquer um que passasse. 26 Você se prostituiu com os egípcios, os seus
vizinhos cobiçosos, e provocou a minha ira com sua promiscuidade cada vez maior. 27 Por
isso estendi o meu braço contra você e reduzi o seu território; eu a entreguei à vontade
das suas inimigas, as filhas dos filisteus, que ficaram chocadas com a sua conduta lasciva.
28 Você se prostituiu também com os assírios, porque era insaciável, e, mesmo depois
disso, ainda não ficou satisfeita. 29 Então você aumentou a sua promiscuidade também
com a Babilônia, uma terra de comerciantes, mas nem com isso ficou satisfeita. 30 "Como
você tem pouca força de vontade, palavra do Soberano, o SENHOR, quando você faz todas
essas coisas, agindo como uma prostituta descarada! 31 Quando construía os seus altares
idólatras em cada esquina e fazia seus santuários elevados em cada praça pública, você só
não foi como prostituta porque desprezou o pagamento. 32 "Você, mulher adúltera! Prefere
estranhos ao seu próprio marido! 33 Toda prostituta recebe pagamento, mas você dá
presentes a todos os seus amantes, subornando-os para que venham de todos os lugares
receber de você os seus favores ilícitos. 34 Em sua prostituição dá-se o contrário do que
acontece com outras mulheres; ninguém corre atrás de você em busca dos seus favores.
Você é o oposto, pois você faz o pagamento e nada recebe. 35 "Por isso, prostituta, ouça a
palavra do SENHOR! 36 Assim diz o Soberano, o SENHOR: Por você ter desperdiçado a sua
riqueza{7} e ter exposto a sua nudez em promiscuidade com os seus amantes, por causa
de todos os seus ídolos detestáveis, e do sangue dos seus filhos dado a eles, 37 por esse
motivo vou ajuntar todos os seus amantes, com quem você encontrou tanto prazer, tanto
os que você amou como aqueles que você odiou. Eu os ajuntarei contra você de todos os
lados e a deixarei nua na frente deles, e eles verão toda a sua nudez. 38 Eu a condenarei
ao castigo determinado para mulheres que cometem adultério e que derramam sangue;
trarei sobre você a vingança de sangue da minha ira e da indignação que o meu ciúme
provoca. 39 Depois eu a entregarei nas mãos de seus amantes, e eles despedaçarão os
seus outeiros e destruirão os seus santuários elevados. Eles arrancarão as suas roupas e
apanharão as suas jóias finas e a deixarão nua. 40 Trarão uma multidão contra você, que a
apedrejará e com suas espadas a despedaçará. 41 Eles destruirão a fogo as suas casas e
lhe infligirão castigo à vista de muitas mulheres. Porei fim à sua prostituição, e você não
pagará mais nada aos seus amantes. 42 Então a minha ira contra você diminuirá e a minha
indignação cheia de ciúme se desviará de você; ficarei tranqüilo e já não estarei irado. 43
"Por você não se ter lembrado dos dias de sua infância, mas ter provocado a minha ira com
todas essas coisas, certamente farei cair sobre a sua cabeça o que você fez. Palavra do
Soberano, o SENHOR. Acaso você não acrescentou lascívia a todas as suas outras práticas
repugnantes? 44 "Todos os que gostam de citar provérbios citarão este provérbio sobre
você: 'Tal mãe, tal filha'. 45 Você é uma verdadeira filha de sua mãe, que detestou o seu
marido e os seus filhos; e você é uma verdadeira irmã de suas irmãs, as quais detestaram
os seus maridos e os seus filhos. A mãe de vocês era uma hitita e o pai de vocês, um
amorreu. 46 Sua irmã mais velha era Samaria, que vivia ao norte de você com suas filhas;
e sua irmã mais nova, que vivia ao sul com suas filhas, era Sodoma. 47 Você não apenas
andou nos caminhos delas e imitou suas práticas repugnantes, mas também, em todos os
seus caminhos, logo se tornou mais depravada do que elas. 48 Juro pela minha vida,
palavra do Soberano, o SENHOR, sua irmã Sodoma e as filhas dela jamais fizeram o que
você e as suas filhas têm feito. 49 "Ora, este foi o pecado de sua irmã Sodoma: ela e suas
filhas eram arrogantes, tinham fartura de comida e viviam despreocupadas; não ajudavam
os pobres e os necessitados. 50 Eram altivas e cometeram práticas repugnantes diante de
mim. Por isso eu me desfiz delas, conforme você viu. 51 Samaria não cometeu metade dos
pecados que você cometeu. Você tem cometido mais práticas repugnantes do que elas, e
tem feito suas irmãs parecerem mais justas, dadas todas as suas práticas repugnantes. 52
Agüente a sua vergonha, pois você proporcionou alguma justificativa às suas irmãs. Visto
que os seus pecados são mais detestáveis que os delas, elas parecem mais justas que
você. Envergonhe-se, pois, e suporte a sua humilhação, porquanto você fez as suas irmãs
parecerem justas. 53 "Contudo, eu restaurarei a sorte de Sodoma e das suas filhas, e de
Samaria e das suas filhas, e a sua sorte junto com elas, 54 para que você carregue a sua
vergonha e seja humilhada por tudo o que você fez, o que serviu de consolo para elas. 55 E
suas irmãs, Sodoma com suas filhas e Samaria com suas filhas, voltarão para o que elas
eram antes; e você e suas filhas voltarão ao que eram antes. 56 Você nem mencionaria o
nome de sua irmã Sodoma na época do orgulho que você sentia, 57 antes da sua
impiedade ser trazida a público. Mas agora você é alvo da zombaria das filhas de Edom{8}
e de todos os vizinhos dela, e das filhas dos filisteus, de todos os que vivem ao seu redor e
que a desprezam. 58 Você sofrerá as conseqüências da sua lascívia e das suas práticas
repugnantes. Palavra do SENHOR. 59 "Assim diz o Soberano, o SENHOR: Eu a tratarei
como merece, porque você desprezou o meu juramento ao romper a aliança. 60 Contudo,
eu me lembrarei da aliança que fiz com você nos dias da sua infância, e com você
estabelecerei uma aliança eterna. 61 Então você se lembrará dos seus caminhos e se
envergonhará quando receber suas irmãs, a mais velha e a mais nova. Eu as darei a você
como filhas, não porém com base em minha aliança com você. 62 Por isso estabelecerei a
minha aliança com você, e você saberá que eu sou o SENHOR. 63 Então, quando eu fizer
propiciação em seu favor por tudo o que você tem feito, você se lembrará e se
envergonhará e jamais voltará a abrir a boca por causa da sua humilhação. Palavra do
Soberano, o SENHOR”.

Ezequiel 22:6-13

“6 Veja como cada um dos príncipes de Israel que aí está usa o seu poder para derramar
sangue. 7 Em seu meio eles têm desprezado pai e mãe, oprimido o estrangeiro e
maltratado o órfão e a viúva. 8 Você desprezou as minhas dádivas sagradas e profanou os
meus sábados. 9 Em seu meio há caluniadores, prontos para derramar sangue; em seu
meio há os que comem nos santuários dos montes e praticam atos lascivos; 10 em seu
meio há aqueles que desonram a cama dos seus pais, e aqueles que têm relações com as
mulheres nos dias de sua menstruação. 11 Um homem comete adultério com a mulher do
seu próximo, outro contamina vergonhosamente a sua nora, e outro desonra a sua irmã,
filha de seu próprio pai. 12 Em seu meio há homens que aceitam suborno para derramar
sangue; você empresta a juros, visando lucro, e obtém ganhos injustos, extorquindo o
próximo. E você se esqueceu de mim. Palavra do Soberano, o SENHOR. 13 "Mas você me
verá bater as minhas mãos uma na outra contra os ganhos injustos que você obteve e
contra o sangue que você derramou”.

Naum 3:4

“Tudo por causa do desejo desenfreado de uma prostituta sedutora, mestra de feitiçarias,
que escravizou nações com a sua prostituição e povos, com a sua feitiçaria”.

Que aspecto da cidade está debaixo da condenação desses profetas?

Imoralidade Sexual: Sodoma e Gomorra são conhecidas pela sua perversão sexual assim
como muitas outras cidades eram centros de promiscuidade sexual (Corinto). Em um dos
capítulos mais revoltosos da Bíblia (capítulo 16), Ezequiel compara a imoralidade de
Jerusalém muito próxima ao comportamento de Sodoma. È valioso notar neste capítulo que
o pecado da injustiça e da imoralidade sexual são expostos e condenados juntos. Existe
uma tendência na igreja de enfatizar um em detrimento do outro, mas pureza sexual e
justiça social são ambos importantes para a vida urbana.

Leia

Isaías 3:9

“O jeito como olham testifica contra eles; eles mostram seu pecado como Sodoma, sem
nada esconder. Ai deles! Pois trouxeram desgraça sobre si mesmos”.

Ezequiel 16:49
“Ora, este foi o pecado de sua irmã Sodoma: ela e suas filhas eram arrogantes, tinham
fartura de comida e viviam despreocupadas; não ajudavam os pobres e os necessitados”.

Ezequiel 27:3

“Diga a Tiro, que está junto à entrada para o mar, e que negocia com povos de muitos
litorais: Assim diz o Soberano, o SENHOR: ‘Você diz, ó Tiro: 'Minha beleza é perfeita’”.

Ezequiel 28:2

“Filho do homem, diga ao governante de Tiro: Assim diz o Soberano, o SENHOR: "No
orgulho do seu coração você diz: 'Sou um deus; sento-me no trono de um deus no coração
dos mares'. Mas você é um homem, e não um deus, embora se considere tão sábio quanto
Deus”.

Sofonias 2:15

“Essa é a cidade que exultava, vivendo despreocupada, e dizia para si mesma: ‘Eu, e mais
ninguém!’ Que ruínas sobraram! Uma toca de animais selvagens! Todos os que passam por
ela zombam e sacodem os punhos”.

Que aspecto da cidade está debaixo da condenação desses profetas?

Orgulho: é a arrogância e a dureza da cidade em relação a Deus. Sofonias captura o


espírito da cidade de modo perfeito quando escreveu assim de Nínive: “Essa é a cidade que
exultava, vivendo despreocupada, e dizia para si mesma: ‘Eu, e mais ninguém!’”. Essa é
uma linguagem de divindade e orgulho excedente.

Qual seria sua resposta para essas cidades? Fazê-las sumirem? Riscarem do mapa?

Certamente não podemos afirmar que nossas cidades são melhores do que estas. As
cidades continuam sendo lugares onde o pobre e o fraco (sem poder) são esmagados. Elas
continuam sendo centros da liberdade sexual e exploração. Templos de mamom dominam
os arranhe céus urbanos da mesma forma que os muitos ídolos permaneciam em pé nos
tempos antigos. A violência e o derramar do sangue inocente tem se tornado tão familiar e
comum que já nos acostumamos com essa notícia urbana, nos sendo familiar. E o orgulho
civil ainda continua contando para muitos onde o perigo do espírito da igualdade ameaça
tantos.

Nós não precisamos e podemos nos desesperar! A boa notícia é que Deus detesta esses
tipos de pecados na cidade. Deus ama a cidade e não a abandona. É muito importante
descobrimos o equilíbrio do tratamento bíblico da cidade, porque ou você vai odiá-la ou
justificar seus pecados. A cidade está debaixo de julgamento – ele é inevitável. Existe
esperança para cidade? Sim, pois Deus tem uma estratégia para resgatar a cidade. É isso
que veremos de agora em diante...

ESPERANÇA PARA AS CIDADES


Apesar de Deus detestar o pecado da cidade, seu amor é tão forte que não a abandona.
Esse equilíbrio é muito importante pra o exercício da missão urbana no tratamento com a
cidade. Desprezar isso é o mesmo que (1) abandonar a cidade aos seus próprios destinos
ou (2) justificar seus pecados. O julgamento existe sim, mas o projeto de deus é restaurar
e redimir a cidade, para a esperança seja a motivação para a transformação das vidas e
realidades. Isso é o que veremos nessa aula.

Esperança para as Cidades


As passagens refletidas na aula anterior soam um tanto quanto negativas a respeito do
julgamento de Deus sobre as cidades em relação à opressão, idolatria, o derramar de
sangue, a imoralidade sexual e o orgulho. Essas características da cidade provocaram o
julgamento de Deus sobre, não para destruição, mas para o arrependimento; não como ato
punitivo a apenas por parte de Deus, mas como fruto do seu amor e misericórdia. Porque
apesar de Deus detestar o pecado da cidade, seu amor é tão forte que não a abandona.
Esse equilíbrio é muito importante pra o exercício da missão urbana no tratamento com a
cidade. Desprezar isso é o mesmo que (1) abandonar a cidade aos seus próprios destinos
ou (2) justificar seus pecados. O julgamento existe sim, mas o projeto de deus é restaurar
e redimir a cidade, para a esperança seja a motivação para a transformação das vidas e
realidades. Isso é o que veremos agora.

ESPERANÇA PARA A CIDADE


A missão urbana não está fundamentada no aspecto condenatória de Deus para a cidade,
mas em seu amor – “porque Deus amou a cidade”. O missão de Deus para a cidade é a
missão do amor – porque Deus ama, Deus age.

Leia

Isaías 26:1-6

“1 Naquele dia este cântico será entoado em Judá: Temos uma cidade forte; Deus
estabelece a salvação como muros e trincheiras. 2 Abram as portas para que entre a nação
justa, a nação que se mantém fiel. 3 Tu, SENHOR, guardarás em perfeita paz aquele cujo
propósito está firme, porque em ti confia. 4 Confiem para sempre no SENHOR, pois o
SENHOR, somente o SENHOR, é a Rocha eterna. 5 Ele humilha os que habitam nas alturas,
rebaixa e arrasa a cidade altiva, e a lança ao pó. 6 Pés as pisoteiam, os pés dos
necessitados, os passos dos pobres”.

60:14-18

“14 Os filhos dos seus opressores virão e se inclinarão diante de você; todos os que a
desprezam se curvarão aos seus pés e a chamarão Cidade do SENHOR, Sião do Santo de
Israel. 15 "Em vez de abandonada e odiada, sem que ninguém quisesse percorrê-la, farei
de você um orgulho, uma alegria para todas as gerações. 16 Você beberá o leite das
nações e será amamentada por mulheres nobres. Então você saberá que eu, o SENHOR,
sou o seu Salvador, o seu Redentor, o Poderoso de Jacó. 17 Em vez de bronze eu lhe trarei
ouro, e em vez de ferro, prata. Em vez de madeira eu lhe trarei bronze, e em vez de
pedras, ferro. Farei da paz o seu dominador, da justiça, o seu governador. 18 Não se ouvirá
mais falar de violência em sua terra, nem de ruína e destruição dentro de suas fronteiras.
Os seus muros você chamará salvação, e as suas portas, louvor”.

Isaías 62:12
“12 Eles serão chamados povo santo, redimidos do SENHOR; e você será chamada
procurada, cidade não abandonada”.

Isaías 65:17-25

“17 Pois vejam! Criarei novos céus e nova terra, e as coisas passadas não serão lembradas.
Jamais virão à mente! 18 Alegrem-se, porém, e regozijem-se para sempre no que vou
criar, porque vou criar Jerusalém para regozijo, e seu povo para alegria. 19 Por Jerusalém
me regozijarei e em meu povo terei prazer; nunca mais se ouvirão nela voz de pranto e
choro de tristeza. 20 "Nunca mais haverá nela uma criança que viva poucos dias, e um
idoso que não complete os seus anos de idade; quem morrer aos cem anos ainda será
jovem, e quem não chegar{1} aos cem será maldito. 21 Construirão casas e nelas
habitarão; plantarão vinhas e comerão do seu fruto. 22 Já não construirão casas para
outros ocuparem, nem plantarão para outros comerem. Pois o meu povo terá vida longa
como as árvores; os meus escolhidos esbanjarão o fruto do seu trabalho. 23 Não labutarão
inutilmente, nem gerarão filhos para a infelicidade; pois serão um povo abençoado pelo
SENHOR, eles e os seus descendentes. 24 Antes de clamarem, eu responderei; ainda não
estarão falando, e eu os ouvirei. 25 O lobo e o cordeiro comerão juntos, e o leão comerá
feno, como o boi, mas o pó será a comida da serpente. Ninguém fará nem mal nem
destruição em todo o meu santo monte", diz o SENHOR”.

Ezequiel 48:35

35 “A distância total ao redor será de nove quilômetros. E daquele momento em diante, o


nome da cidade será: O SENHOR ESTÁ AQUI”.

Zacarias 2:4-5

“4 e lhe disse: Corra e diga àquele jovem: Jerusalém será habitada como uma cidade sem
muros por causa dos seus muitos habitantes e rebanhos. 5 E eu mesmo serei para ela um
muro de fogo ao seu redor, declara o SENHOR, e dentro dela serei a sua glória”.

Zacarias 8:3-5

“3 Assim diz o SENHOR: ‘Estou voltando para Sião e habitarei em Jerusalém. Então
Jerusalém será chamada Cidade da Verdade, e o monte do SENHOR dos Exércitos será
chamado monte Sagrado’. 4 Assim diz o SENHOR dos Exércitos: "Homens e mulheres de
idade avançada voltarão a sentar-se nas praças de Jerusalém, cada um com sua bengala,
por causa da idade. 5 As ruas da cidade ficarão cheias de meninos e meninas brincando”.

Que sinais de esperança para as cidades você discerne nessas passagens – vindas dos
mesmos profetas que pronunciaram julgamento sobre elas?

Leia

Salmo 107

“1 Dêem graças ao SENHOR porque ele é bom; o seu amor dura para sempre. 2 Assim o
digam os que o SENHOR resgatou, os que livrou das mãos do adversário, 3 e reuniu de
outras terras, do oriente e do ocidente, do norte e do sul{1}. 4 Perambularam pelo deserto
e por terras áridas sem encontrar cidade habitada. 5 Estavam famintos e sedentos; sua
vida ia se esvaindo. 6 Na sua aflição, clamaram ao SENHOR, e ele os livrou da tribulação
em que se encontravam 7 e os conduziu por caminho seguro a uma cidade habitada. 8 Que
eles dêem graças ao SENHOR por seu amor leal e por suas maravilhas em favor dos
homens, 9 porque ele sacia o sedento e satisfaz plenamente o faminto. 10 Assentaram-se
nas trevas e na sombra mortal, aflitos, acorrentados, 11 pois se rebelaram contra as
palavras de Deus e desprezaram os desígnios do Altíssimo. 12 Por isso ele os sujeitou a
trabalhos pesados; eles tropeçaram, e não houve quem os ajudasse. 13 Na sua aflição,
clamaram ao SENHOR, e eles os salvou da tribulação em que se encontravam. 14 Ele os
tirou das trevas e da sombra mortal, e quebrou as correntes que os prendiam. 15 Que eles
dêem graças ao SENHOR, por seu amor leal e por suas maravilhas em favor dos homens,
16 porque despedaçou as portas de bronze e rompeu as trancas de ferro. 17 Tornaram-se
tolos por causa dos seus caminhos rebeldes, e sofreram por causa das suas maldades. 18
Sentiram repugnância por toda comida e chegaram perto das portas da morte. 19 Na sua
aflição, clamaram ao SENHOR, e ele os salvou da tribulação em que se encontravam. 20
Ele enviou a sua palavra e os curou, e os livrou da morte. 21 Que eles dêem graças ao
SENHOR, por seu amor leal e por suas maravilhas em favor dos homens. 22 Que eles
ofereçam sacrifícios de ação de graças e anunciem as suas obras com cânticos de alegria.
23 Fizeram-se ao mar em navios, para negócios na imensidão das águas, 24 e viram as
obras do SENHOR, as suas maravilhas nas profundezas. 25 Deus falou e provocou um
vendaval que levantava as ondas. 26 Subiam aos céus e desciam aos abismos; diante de
tal perigo, perderam a coragem. 27 Cambaleavam, tontos como bêbados, e toda a sua
habilidade foi inútil. 28 Na sua aflição, clamaram ao SENHOR, e ele os tirou da tribulação
em que se encontravam. 29 Reduziu a tempestade a uma brisa e serenou as ondas. 30 As
ondas sossegaram, eles se alegraram, e Deus os guiou ao porto almejado. 31 Que eles
dêem graças ao SENHOR por seu amor leal e por suas maravilhas em favor dos homens. 32
Que o exaltem na assembléia do povo e o louvem na reunião dos líderes. 33 Ele transforma
os rios em deserto e as fontes em terra seca, 34 faz da terra fértil um solo estéril, por
causa da maldade dos seus moradores. 35 Transforma o deserto em açudes e a terra
ressecada, em fontes. 36 Ali ele assenta os famintos, para fundarem uma cidade habitável,
37 semearem lavouras, plantarem vinhas e colherem uma grande safra. 38 Ele os abençoa,
e eles se multiplicam; e não deixa que os seus rebanhos diminuam. 39 Quando, porém,
reduzidos, são humilhados com opressão, desgraça e tristeza. 40 Deus derrama desprezo
sobre os nobres e os faz vagar num deserto sem caminhos. 41 Mas tira os pobres da
miséria e aumenta as suas famílias como rebanhos. 42 Os justos vêem tudo isso e se
alegram, mas todos os perversos se calam. 43 Reflitam nisso os sábios e considerem a
bondade do SENHOR”.

Josué 20

“1 Disse o SENHOR a Josué: 2 "Diga aos israelitas que designem as cidades de refúgio,
como lhes ordenei por meio de Moisés, 3 para que todo aquele que matar alguém sem
intenção e acidentalmente possa fugir para lá e proteger-se do vingador da vítima. 4
"Quando o homicida involuntário fugir para uma dessas cidades, terá que colocar-se junto à
porta da cidade e expor o caso às autoridades daquela cidade. Eles o receberão e lhe darão
um local para morar entre eles. 5 Caso o vingador da vítima o persiga, eles não o
entregarão, pois matou seu próximo acidentalmente, sem maldade e sem premeditação. 6
Todavia, ele terá que permanecer naquela cidade até comparecer a julgamento perante a
comunidade e até morrer o sumo sacerdote que estiver servindo naquele período. Então
poderá voltar para a sua própria casa, à cidade de onde fugiu". 7 Assim eles separaram
Quedes, na Galiléia, nos montes de Naftali, Siquém, nos montes de Efraim, e Quiriate-Arba,
que é Hebrom, nos montes de Judá. 8 No lado leste do Jordão, perto de Jericó, designaram
Bezer, no planalto desértico da tribo de Rúben; Ramote, em Gileade, na tribo de Gade; e
Golã, em Basã, na tribo de Manassés. 9 Qualquer israelita ou estrangeiro residente que
matasse alguém sem intenção, poderia fugir para qualquer dessas cidades para isso
designadas e escapar do vingador da vítima, antes de comparecer a julgamento perante a
comunidade”.
Que sinais de esperança para as cidades você discerne nessas outras passagens do Antigo
Testamento?

Existem alguns sinais de esperança para a cidade no Antigo Testamento:

 Deus ama a cidade : É conhecido de Deus todos nós o amor de Deus por
Jerusalém como também por Damasco: “Como está abandonada a cidade famosa, a
cidade da alegria!” (Jr 49:25). Jonas foi duramente criticado por Deus quando ele não
quis compartilhar com Nínive o seu amor: “Contudo, Nínive tem mais de cento e vinte
mil pessoas que não sabem nem distinguir a mão direita da esquerda, além de muitos
rebanhos. Não deveria eu ter pena dessa grande cidade?” (Jn 4:11). O ingrediente vital
para o ministério urbano é o amor doador de Deus pela cidade.

 O ministério dos profetas : Miquéias disse: “A voz do SENHOR está clamando à


cidade; é sensato temer o seu nome! ‘Ouçam, tribo de Judá e assembléia da cidade!’”
(6:9). Muito freqüentemente sua mensagem era avisar que vinha um julgamento, mas
o ponto aqui é que Deus se importa o suficiente pela cidade a ponto de enviar um
mensageiro à ela. Os profetas de Deus receberam várias revelações sobre a vida
urbana e as características das cidades. A cidade de Deus (Jerusalém) é prefigurada no
Antigo Testamento como uma cidade restaurada, uma cidade sem muros, mas
totalmente segura.

 Deus usa a cidade : Salmo 107 celebra os benefícios da vida urbana,


contrastando-o com a hostilidade da vida no deserto e nas regiões afastadas: ela
aparece como a solução de Deus para as necessidades humanas. Apesar da sua
rebelião no início de tudo, Deus graciosamente adota a cidade e a usa como
restauradora de necessidades. E isso nos traz esperança.

 As cidade refúgios : As cidades refúgio são uma demonstração significante da boa


vontade de Deus para usar a cidade (Js 20:1-9). Ele não somente usa a cidade
construída pelo ser humano, como também a usa de modo similar. Caim construiu uma
cidade refúgio. Agora Deus estava estabelecendo refúgios – mas com uma significativa
diferença que elas não seriam invadidas pelos criminosos. Caim não achou refúgio lá.
Isso é redentivo – usar a cidade de maneira que honre os motivos por de trás da sua
construção sem compromete-la. Àquilo que é injusto é tirado dela; o positivo e útil é
afirmado.

Leia

Salmo 46, 48, 87, 122, 125, 127, 132

Que sinais de esperança para as cidades você discerne nesses Salmos?

A CIDADE DE JERUSALÉM
Jerusalém é o centro do plano restaurador de Deus para a cidade no Antigo Testamento.
Sua resposta ao desenvolvimento das cidades era a construção da sua própria cidade.
Jerusalém, a cidade de Deus, foi imaginada para ser uma alternativa radical, a cidade
construída no monte, para demonstrar o que uma cidade deveria ser. O que Israel deveria
ser a nível nacional, Jerusalém deveria ser a nível urbano, um modelo de justiça, alegria e
paz.

Israel não foi uma nação construtora de cidades. Deixando a experiência de construir as
cidades celeiro no Egito, até o tempo de Salomão não havia construído nenhuma cidade.
Receberam como herança as cidades Cananitas. Deus de maneira impressionante protegeu
os Israelitas do desejo de construir cidades. Foi somente quando as coisas começaram a
dar errado (notável idolatria) que Israel copiou outras nações desenvolvendo um programa
de construção de cidades.

Jerusalém contudo não era uma construção Israelita. Em vez disso, foi uma das últimas
cidades em Canaã a ser capturada por Israel. Um detalhe rico para uma cidade que capital.
Qual a questão em foco? Deus escolheu para ser a sua cidade um lugar que não tinha
história para não da a Israel um motivo de orgulho em suas conquistas. A questão crucial
sobre essa cidade não era a sua história, mas o seu destino!

Os Salmos 46, 48, 87, 122, 125, 127, 132 falam de Jerusalém em termos de glória, em
contraste com aquilo que os profetas estimaram para outras cidades. O Salmo 87 fala de
um povo clamando para serem admitidos como cidadãos da cidade alegre de Deus.
Jerusalém era um sinal concreto de que Deus não havia rejeitado a cidade, um modelo
prático para o Novo Testamento que estava vindo.

DESAPONTAMENTO E ESPERANÇA

Leia

Sofonias 3:1

“Ai da cidade rebelde, impura e opressora! 2 Não ouve a ninguém, e não aceita correção.
Não confia no SENHOR, não se aproxima do seu Deus”.

Ezequiel 16:1-63

“1 Veio a mim esta palavra do SENHOR: 2 "Filho do homem, confronte Jerusalém com suas
práticas detestáveis 3 e diga: Assim diz o Soberano, o SENHOR, a Jerusalém: Sua origem e
seu nascimento foram na terra dos cananeus; seu pai era um amorreu e sua mãe uma
hitita. 4 Seu nascimento foi assim: no dia em que você nasceu, o seu cordão umbilical não
foi cortado, você não foi lavada com água para que ficasse limpa, não foi esfregada com sal
nem enrolada em panos. 5 Ninguém olhou para você com piedade nem teve suficiente
compaixão para fazer qualquer uma dessas coisas por você. Ao contrário, você foi jogada
fora, em campo aberto, pois, no dia em que nasceu, foi desprezada. 6 "Então, passando
por perto, vi você se esperneando em seu sangue e, enquanto você jazia ali em seu
sangue, eu lhe disse: Viva!{1} 7 E eu a fiz crescer como uma planta no campo. Você
cresceu e se desenvolveu e se tornou a mais linda das jóias{2}. Seus seios se formaram e
seu cabelo cresceu, mas você ainda estava totalmente nua. 8 "Mais tarde, quando passei
de novo por perto, olhei para você e vi que já tinha idade suficiente para amar; então
estendi a minha capa sobre você e cobri a sua nudez. Fiz um juramento e estabeleci uma
aliança com você, palavra do Soberano, o SENHOR, e você se tornou minha. 9 "Eu lhe
dei{3} banho com água e, ao lavá-la, limpei o seu sangue e a perfumei. 10 Pus-lhe um
vestido bordado e sandálias de couro{4}. Eu a vesti de linho fino e a cobri com roupas
caras. 11 Adornei-a com jóias; pus braceletes em seus braços e uma gargantilha em torno
de seu pescoço; 12 dei-lhe um pendente, pus brincos em suas orelhas e uma linda coroa
em sua cabeça. 13 Assim você foi adornada com ouro e prata; suas roupas eram de linho
fino, tecido caro e pano bordado. Sua comida era a melhor farinha, mel e azeite de oliva.
Você se tornou muito linda e uma rainha. 14 Sua fama espalhou-se entre as nações por sua
beleza, porque o esplendor que eu lhe dera tornou perfeita a sua formosura. Palavra do
Soberano, o SENHOR. 15 "Mas você confiou em sua beleza e usou sua fama para se tornar
uma prostituta. Você concedeu os seus favores a todos os que passaram por perto, e a sua
beleza se tornou deles.{5} 16 Você usou algumas de suas roupas para adornar altares
idólatras, onde levou adiante a sua prostituição. Coisas assim jamais deveriam acontecer!
17 Você apanhou as jóias finas que eu lhe tinha dado, jóias feitas com meu ouro e minha
prata, e fez para si mesma ídolos em forma de homem e se prostituiu com eles. 18 Você
também os vestiu com suas roupas bordadas, e lhes ofereceu o meu óleo e o meu incenso.
19 E até a minha comida que lhe dei: a melhor farinha, o azeite de oliva e o mel; você lhes
ofereceu tudo como incenso aromático. Foi isso que aconteceu, diz o Soberano, o SENHOR.
20 "E você ainda pegou seus filhos e filhas, que havia gerado para mim, e os sacrificou
como comida para os ídolos. A sua prostituição não foi suficiente? 21 Você abateu os meus
filhos e os sacrificou{6} para os ídolos! 22 Em todas as suas práticas detestáveis, como em
sua prostituição, você não se lembrou dos dias de sua infância, quando estava totalmente
nua, esperneando em seu sangue. 23 "Ai! Ai de você! Palavra do Soberano, o SENHOR.
Somando-se a todas as suas outras maldades, 24 em cada praça pública, você construiu
para si mesma altares e santuários elevados. 25 No começo de cada rua você construiu
seus santuários elevados e deturpou sua beleza, oferecendo seu corpo com promiscuidade
cada vez maior a qualquer um que passasse. 26 Você se prostituiu com os egípcios, os seus
vizinhos cobiçosos, e provocou a minha ira com sua promiscuidade cada vez maior. 27 Por
isso estendi o meu braço contra você e reduzi o seu território; eu a entreguei à vontade
das suas inimigas, as filhas dos filisteus, que ficaram chocadas com a sua conduta lasciva.
28 Você se prostituiu também com os assírios, porque era insaciável, e, mesmo depois
disso, ainda não ficou satisfeita. 29 Então você aumentou a sua promiscuidade também
com a Babilônia, uma terra de comerciantes, mas nem com isso ficou satisfeita. 30 "Como
você tem pouca força de vontade, palavra do Soberano, o SENHOR, quando você faz todas
essas coisas, agindo como uma prostituta descarada! 31 Quando construía os seus altares
idólatras em cada esquina e fazia seus santuários elevados em cada praça pública, você só
não foi como prostituta porque desprezou o pagamento. 32 "Você, mulher adúltera! Prefere
estranhos ao seu próprio marido! 33 Toda prostituta recebe pagamento, mas você dá
presentes a todos os seus amantes, subornando-os para que venham de todos os lugares
receber de você os seus favores ilícitos. 34 Em sua prostituição dá-se o contrário do que
acontece com outras mulheres; ninguém corre atrás de você em busca dos seus favores.
Você é o oposto, pois você faz o pagamento e nada recebe. 35 "Por isso, prostituta, ouça a
palavra do SENHOR! 36 Assim diz o Soberano, o SENHOR: Por você ter desperdiçado a sua
riqueza{7} e ter exposto a sua nudez em promiscuidade com os seus amantes, por causa
de todos os seus ídolos detestáveis, e do sangue dos seus filhos dado a eles, 37 por esse
motivo vou ajuntar todos os seus amantes, com quem você encontrou tanto prazer, tanto
os que você amou como aqueles que você odiou. Eu os ajuntarei contra você de todos os
lados e a deixarei nua na frente deles, e eles verão toda a sua nudez. 38 Eu a condenarei
ao castigo determinado para mulheres que cometem adultério e que derramam sangue;
trarei sobre você a vingança de sangue da minha ira e da indignação que o meu ciúme
provoca. 39 Depois eu a entregarei nas mãos de seus amantes, e eles despedaçarão os
seus outeiros e destruirão os seus santuários elevados. Eles arrancarão as suas roupas e
apanharão as suas jóias finas e a deixarão nua. 40 Trarão uma multidão contra você, que a
apedrejará e com suas espadas a despedaçará. 41 Eles destruirão a fogo as suas casas e
lhe infligirão castigo à vista de muitas mulheres. Porei fim à sua prostituição, e você não
pagará mais nada aos seus amantes. 42 Então a minha ira contra você diminuirá e a minha
indignação cheia de ciúme se desviará de você; ficarei tranqüilo e já não estarei irado. 43
"Por você não se ter lembrado dos dias de sua infância, mas ter provocado a minha ira com
todas essas coisas, certamente farei cair sobre a sua cabeça o que você fez. Palavra do
Soberano, o SENHOR. Acaso você não acrescentou lascívia a todas as suas outras práticas
repugnantes? 44 "Todos os que gostam de citar provérbios citarão este provérbio sobre
você: 'Tal mãe, tal filha'. 45 Você é uma verdadeira filha de sua mãe, que detestou o seu
marido e os seus filhos; e você é uma verdadeira irmã de suas irmãs, as quais detestaram
os seus maridos e os seus filhos. A mãe de vocês era uma hitita e o pai de vocês, um
amorreu. 46 Sua irmã mais velha era Samaria, que vivia ao norte de você com suas filhas;
e sua irmã mais nova, que vivia ao sul com suas filhas, era Sodoma. 47 Você não apenas
andou nos caminhos delas e imitou suas práticas repugnantes, mas também, em todos os
seus caminhos, logo se tornou mais depravada do que elas. 48 Juro pela minha vida,
palavra do Soberano, o SENHOR, sua irmã Sodoma e as filhas dela jamais fizeram o que
você e as suas filhas têm feito. 49 "Ora, este foi o pecado de sua irmã Sodoma: ela e suas
filhas eram arrogantes, tinham fartura de comida e viviam despreocupadas; não ajudavam
os pobres e os necessitados. 50 Eram altivas e cometeram práticas repugnantes diante de
mim. Por isso eu me desfiz delas, conforme você viu. 51 Samaria não cometeu metade dos
pecados que você cometeu. Você tem cometido mais práticas repugnantes do que elas, e
tem feito suas irmãs parecerem mais justas, dadas todas as suas práticas repugnantes. 52
Agüente a sua vergonha, pois você proporcionou alguma justificativa às suas irmãs. Visto
que os seus pecados são mais detestáveis que os delas, elas parecem mais justas que
você. Envergonhe-se, pois, e suporte a sua humilhação, porquanto você fez as suas irmãs
parecerem justas. 53 "Contudo, eu restaurarei a sorte de Sodoma e das suas filhas, e de
Samaria e das suas filhas, e a sua sorte junto com elas, 54 para que você carregue a sua
vergonha e seja humilhada por tudo o que você fez, o que serviu de consolo para elas. 55 E
suas irmãs, Sodoma com suas filhas e Samaria com suas filhas, voltarão para o que elas
eram antes; e você e suas filhas voltarão ao que eram antes. 56 Você nem mencionaria o
nome de sua irmã Sodoma na época do orgulho que você sentia, 57 antes da sua
impiedade ser trazida a público. Mas agora você é alvo da zombaria das filhas de Edom{8}
e de todos os vizinhos dela, e das filhas dos filisteus, de todos os que vivem ao seu redor e
que a desprezam. 58 Você sofrerá as conseqüências da sua lascívia e das suas práticas
repugnantes. Palavra do SENHOR. 59 "Assim diz o Soberano, o SENHOR: Eu a tratarei
como merece, porque você desprezou o meu juramento ao romper a aliança. 60 Contudo,
eu me lembrarei da aliança que fiz com você nos dias da sua infância, e com você
estabelecerei uma aliança eterna. 61 Então você se lembrará dos seus caminhos e se
envergonhará quando receber suas irmãs, a mais velha e a mais nova. Eu as darei a você
como filhas, não porém com base em minha aliança com você. 62 Por isso estabelecerei a
minha aliança com você, e você saberá que eu sou o SENHOR. 63 Então, quando eu fizer
propiciação em seu favor por tudo o que você tem feito, você se lembrará e se
envergonhará e jamais voltará a abrir a boca por causa da sua humilhação. Palavra do
Soberano, o SENHOR”.

Ezequiel 22:3

“3 e diga: Assim diz o Soberano, o SENHOR: Ó cidade, que traz condenação sobre si
mesma por derramar sangue em seu meio e por se contaminar fazendo ídolos!”

Amós 6:8

“8 O SENHOR, o Soberano, jurou por si mesmo! Assim declara o SENHOR, o Deus dos
Exércitos: "Eu detesto o orgulho de Jacó e odeio os seus palácios; entregarei a cidade e
tudo o que nela existe”.

Uma das grandes tragédias do Antigo Testamento é que Jerusalém falhou em cumprir seu
destino. Todos os pecados associados às outras cidades são encontrados nela também. Em
certo sentido, era muito pior que as outras considerando a altura que ela caiu. Os profetas
enviaram muitas mensagens, mas ela não quis ouvir (“Jerusalém, Jerusalém, você, que
mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados!” – Mt 23:37), baseados na certeza
que Deus não iria permitir a queda da cidade.

Mas a queda veio e seus habitantes foram levados para a Babilônia. Babilônia é o primeiro
símbolo da rebelião humana, ficando em direta oposição a tudo que Jerusalém fazia. Mas se
os cidadãos de Jerusalém vão viver como os habitantes de Babilônia, então porque não ir
logo viver na Babilônia? A ironia da queda de Jerusalém é que Deus usaria uma cidade
como a Babilônia para ser um instrumento de julgamento.

Parece que o plano de Deus havia ido para água a baixo! O Antigo Testamento termina com
a cidade de Jerusalém como sendo uma sombra e não a glória que ela havia sido
planejada. É verdade que os muros foram construídos e o templo restaurado
(investigaremos o ministério urbano de Neemias mais tarde), mas havia uma pequena
visão ou possibilidade de Jerusalém influenciar alguém. Era um objeto de escárnio,e não
um lugar de respeito.

Leia

Isaías 1:21-23

“21 Vejam como a cidade fiel se tornou prostituta! Antes cheia de justiça e habitada pela
retidão, agora está cheia de assassinos! 22 Sua prata tornou-se escória, seu licor ficou
aguado. 23 Seus líderes são rebeldes, amigos de ladrões; todos eles amam o suborno e
andam atrás de presentes. Eles não defendem os direitos do órfão, e não tomam
conhecimento da causa da viúva”.

Jeremias 33:8-9

“8 Eu os purificarei de todo o pecado que cometeram contra mim e perdoarei todos os seus
pecados de rebelião contra mim. 9 Então Jerusalém será para mim uma fonte de alegria,
de louvor e de glória, diante de todas as nações da terra que ouvirem acerca de todos os
benefícios que faço por ela. Elas temerão e tremerão diante da paz e da prosperidade que
eu lhe concedo”.

Mas apesar de tudo o profeta nos dá esperança. Muitos falaram da restauração após
julgamento. Jerusalém falhou sim, mas o propósito de Deus seria cumprido plenamente.
Uma nova Jerusalém iria vir para demonstrar o propósito de Deus para a vida urbana. O
plano restaurador seria anunciado pelo anjo: “Hoje, na cidade de Davi, lhes nasceu o
Salvador, que é Cristo, o Senhor” (Lc 2:11). Com a vida de Jesus, o plano restaurador de
Deus para a raça humana e suas cidades entra em uma nova fase.

Mas antes de entrarmos na história do Evangelho, devemos explorar outra questão que,
começa no Antigo Testamento e torna-se mais no Novo Testamento – quem governa a
cidade? A questão do poder por detrás da cidade.

Reconstruindo a Cidade
O PODER E A CIDADE

Poder e cidade parecem que são irmãos gêmeos. Os problemas urbanos são imensos e
muitas vezes insolúveis. Por que existe tanta mudança nos poderes políticos e
governamentais e isso faz tão pouca diferença. Sistemas e instituições da cidade pouco
podem fazer, e o muito que o povo faz é pouco.

O Poder e a Cidade
A trilogia do filme Matrix produzida no início do século XXI apresenta um mundo no qual é
difícil diferenciar entre a realidade e a ilusão, um mundo no qual as coisas aconteciam mais
por detrás das cenas do que aquilo que era aparente. A linguagem do Novo Testamento
para descrever esse fenômeno é principados e potestades.

No Antigo Testamento, no desenrolar da história, ocasionalmente vemos forças malignas


que estão agindo por detrás das estruturas visíveis da vida da cidade. Existem duas
passagens importantes no Antigo Testamento dos profetas que nos dão algumas idéias
dessa dimensão: a profecia contra o rei da Babilônia em Isaías e a profecia contra o
governador de Tiro em Ezequiel.

LEIA ISAÍAS 14 E EZEQUIEL 28


O que essas passagens revelam sobre o poder por detrás da cidade?

Isaías 14

1 O SENHOR terá compaixão de Jacó; tornará a escolher Israel e os estabelecerá em sua


própria terra. Os estrangeiros se juntarão a eles e farão parte da descendência de Jacó. 2
Povos os apanharão e os levarão ao seu próprio lugar. E a descendência de Israel possuirá
os povos como servos e servas na terra do SENHOR. Farão prisioneiros os seus captores e
dominarão sobre os seus opressores. 3 No dia em que o SENHOR lhe der descanso do
sofrimento, da perturbação e da cruel escravidão que sobre você foi imposta, 4 você
zombará assim do rei da Babilônia: Como chegou ao fim o opressor! Sua arrogância{1}
acabou-se! 5 O SENHOR quebrou a vara dos ímpios, o cetro dos governantes, 6 que irados
feriram os povos com golpes incessantes, e enfurecidos subjugaram as nações com
perseguição implacável. 7 Toda a terra descansa tranqüila, todos irrompem em gritos de
alegria. 8 Até os pinheiros e os cedros do Líbano alegram-se por sua causa e dizem: "Agora
que você foi derrubado, nenhum lenhador vem derrubar-nos!" 9 Nas profundezas o
Sheol{2} está todo agitado para recebê-lo quando chegar. Por sua causa ele desperta os
espíritos dos mortos, todos os governantes da terra. Ele os faz levantar-se dos seus tronos,
todos os reis dos povos. 10 Todos responderão e lhe dirão: "Você também perdeu as forças
como nós, e tornou-se como um de nós". 11 Sua soberba foi lançada na sepultura, junto
com o som das suas liras; sua cama é de larvas, sua coberta, de vermes. 12 Como você
caiu dos céus, ó estrela da manhã, filho da alvorada! Como foi atirado à terra, você, que
derrubava as nações! 13 Você, que dizia no seu coração: "Subirei aos céus; erguerei o meu
trono acima das estrelas de Deus; eu me assentarei no monte da assembléia, no ponto
mais elevado do monte santo{3}. 14 Subirei mais alto que as mais altas nuvens; serei
como o Altíssimo". 15 Mas às profundezas do Sheol você será levado, irá ao fundo do
abismo! 16 Os que olham para você admiram-se da sua situação, e a seu respeito
ponderam: "É esse o homem que fazia tremer a terra, abalava os reinos, 17 fez do mundo
um deserto, conquistou cidades e não deixou que os seus prisioneiros voltassem para
casa?" 18 Todos os reis das nações jazem honrosamente, cada um em seu próprio túmulo.
19 Mas você é atirado fora do seu túmulo, como um galho rejeitado; como as roupas dos
mortos que foram feridos à espada; como os que descem às pedras da cova; como um
cadáver pisoteado, 20 você não se unirá a eles num sepultamento, pois destruiu a sua
própria terra, e matou o seu próprio povo. Nunca se mencione a descendência dos
malfeitores! 21 Preparem um local para matar os filhos dele por causa da iniqüidade dos
seus antepassados; para que eles não se levantem para herdar a terra e cobri-la de
cidades. 22 "Eu me levantarei contra eles", diz o SENHOR dos Exércitos. "Eliminarei da
Babilônia o seu nome e os seus sobreviventes, sua prole e os seus descendentes", diz o
SENHOR. 23 "Farei dela um lugar para corujas e uma terra pantanosa; vou varrê-la com a
vassoura da destruição", diz o SENHOR dos Exércitos. 24 O SENHOR dos Exércitos jurou:
"Certamente, como planejei, assim acontecerá, e, como pensei, assim será. 25 Esmagarei a
Assíria na minha terra; nos meus montes a pisotearei. O seu jugo será tirado do meu povo,
e o seu fardo, dos ombros dele". 26 Esse é o plano estabelecido para toda a terra; essa é a
mão estendida sobre todas as nações. 27 Pois esse é o propósito do SENHOR dos Exércitos;
quem pode impedi-lo? Sua mão está estendida; quem pode fazê-la recuar? 28 Esta
advertência veio no ano em que o rei Acaz morreu: 29 Vocês, filisteus, todos vocês, não se
alegrem porque a vara que os feria está quebrada! Da raiz da cobra brotará uma víbora, e
o seu fruto será uma serpente veloz. 30 O mais pobre dos pobres achará pastagem, e os
necessitados descansarão em segurança. Mas eu matarei de fome a raiz de vocês, e ela
matará os seus sobreviventes. 31 Lamente, ó porta! Clame, ó cidade! Derretam-se todos
vocês, filisteus! Do norte vem um exército, e ninguém desertou de suas fileiras. 32 Que
resposta se dará aos emissários daquela nação? Esta: "O SENHOR estabeleceu Sião, e nela
encontrarão refúgio os aflitos do seu povo".

Ezequiel 28
1 Veio a mim esta palavra do SENHOR: 2 "Filho do homem, diga ao governante de Tiro:
Assim diz o Soberano, o SENHOR: "No orgulho do seu coração você diz: 'Sou um deus;
sento-me no trono de um deus no coração dos mares'. Mas você é um homem, e não um
deus, embora se considere tão sábio quanto Deus. 3 Você é mais sábio que Daniel{1} ?
Não haverá segredo que lhe seja oculto? 4 Mediante a sua sabedoria e o seu entendimento,
você granjeou riquezas e acumulou ouro e prata em seus tesouros. 5 Por sua grande
habilidade comercial você aumentou as suas riquezas e, por causa das suas riquezas, o seu
coração ficou cada vez mais orgulhoso. 6 "Por isso, assim diz o Soberano, o SENHOR:
"Porque você pensa que é sábio, tão sábio quanto Deus, 7 trarei estrangeiros contra você,
das mais impiedosas nações; eles empunharão suas espadas contra a sua beleza e a sua
sabedoria e traspassarão o seu esplendor fulgurante. 8 Eles o farão descer à cova, e você
terá morte violenta no coração dos mares. 9 Dirá você então: 'Eu sou um deus' na
presença daqueles que o matarem? Você será tão-somente um homem, e não um deus,
nas mãos daqueles que o abaterem. 10 Você terá a morte dos incircuncisos nas mãos de
estrangeiros. Eu falei. Palavra do Soberano, o SENHOR". 11 Esta palavra do SENHOR veio a
mim: 12 "Filho do homem, erga um lamento a respeito do rei de Tiro e diga-lhe: Assim diz
o Soberano, o SENHOR: "Você era o modelo da perfeição, cheio de sabedoria e de perfeita
beleza. 13 Você estava no Éden, no jardim de Deus; todas as pedras preciosas o
enfeitavam: sárdio, topázio e diamante, berilo, ônix e jaspe, safira, carbúnculo e
esmeralda.{2} Seus engastes e guarnições eram feitos de ouro; tudo foi preparado no dia
em que você foi criado. 14 Você foi ungido como um querubim guardião, pois para isso eu
o designei. Você estava no monte santo de Deus e caminhava entre as pedras fulgurantes.
15 Você era inculpável em seus caminhos desde o dia em que foi criado até que se achou
maldade em você. 16 Por meio do seu amplo comércio, você encheu-se de violência e
pecou. Por isso eu o lancei, humilhado, para longe do monte de Deus, e o expulsei, ó
querubim guardião, do meio das pedras fulgurantes. 17 Seu coração tornou-se orgulhoso
por causa da sua beleza, e você corrompeu a sua sabedoria por causa do seu esplendor.
Por isso eu o atirei à terra; fiz de você um espetáculo para os reis. 18 Por meio dos seus
muitos pecados e do seu comércio desonesto você profanou os seus santuários. Por isso fiz
sair de você um fogo, que o consumiu, e reduzi você a cinzas no chão, à vista de todos os
que estavam observando. 19 Todas as nações que o conheciam espantaram-se ao vê-lo;
chegou o seu terrível fim, você não mais existirá". 20 Veio a mim esta palavra do SENHOR:
21 "Filho do homem, vire o rosto contra Sidom; profetize contra ela 22 e diga: Assim diz o
Soberano, o SENHOR: "Estou contra você, Sidom, e manifestarei a minha glória dentro de
você. Todos saberão que eu sou o SENHOR, quando eu castigá-la e mostrar-me santo em
seu meio. 23 Enviarei uma peste sobre você e farei sangue correr em suas ruas. Os mortos
cairão, derrubados pela espada que virá de todos os lados contra você. E todos saberão
que eu sou o SENHOR. 24 "Israel não terá mais vizinhos maldosos agindo como roseiras
bravas dolorosas e espinhos pontudos. Pois eles saberão que eu sou o Soberano, o
SENHOR. 25 "Assim diz o Soberano, o SENHOR: Quando eu reunir Israel dentre as nações
nas quais foi espalhado, eu me mostrarei santo entre eles à vista das nações. Então eles
viverão em sua própria terra, a qual dei ao meu servo Jacó. 26 Eles viverão ali em
segurança, construirão casas e plantarão vinhas; viverão em segurança quando eu castigar
todos os seus vizinhos que lhes fizeram mal. Então eles saberão que eu sou o SENHOR, o
seu Deus".

Em ambas passagens existe uma interação entre elementos visíveis e invisíveis. É como
olhar uma fotografia com dupla exposição: às vezes é clara e nítida, outras vezes é confusa
e borrada.

A profecia de Isaías 14 é o contexto é o Seol, a reino da morte. O profeta imagina o


governador da Babilônia chegando para dar as boas vindas e se encontrar com o comitê
dos líderes mundiais, muitos dos quais foram conquistados pela Babibônia. “ Você também
perdeu as forças como nós, e tornou-se como um de nós” (v.10), Assim são saudados. A
profecia garante que todos os que foram oprimidos que a Babilônia cairia e seus
governantes morreriam como todos os mortais.
Essa é a essência da profecia no nível humano, mas no meio disso tudo achamos algumas
frases que parecem nos conduzir a outra dimensão:

12 Como você caiu dos céus, ó estrela da manhã, filho da alvorada! Como foi atirado à
terra, você, que derrubava as nações! 13 Você, que dizia no seu coração: "Subirei aos
céus; erguerei o meu trono acima das estrelas de Deus; eu me assentarei no monte da
assembléia, no ponto mais elevado do monte santo{3}. 14 Subirei mais alto que as mais
altas nuvens; serei como o Altíssimo".

O que fazemos com isso? Certamente é verdadeiro que os governantes da Babilônia se


consideravam semi-deuses e falavam em uma linguagem de grandiosidade sobre eles
mesmos, mas parece existir nessa passagem mais do que a arrogância humana. Alguns
comentaristas falam aqui da sombra da figura que está por detrás dos governantes
humanos. Alguns têm identificado com o que a Bíblia chama de Satanás, aspirando ser
como o Todo-Poderoso e sendo lançado fora do céu. O governador terreno é lançado no
Seol; a figura espiritual é lançada abaixo na terra: são relacionados, mas distintos.

Qual quer que seja a figura espiritual, Satanás mesmo ou o poder por detrás da cidade, o
ponto é que a cidade possui uma dimensão espiritual como também uma dimensão natural.
Essas dimensões reforçam uma a outra: o destino da cidade está vinculado com o reino
espiritual e com as questões terrenas.

A mesma mistura do visível e invisível pode ser encontrado no lamento sobre o rei de Tiro
em Ezequiel 28. Nos primeiros versos encontramos várias referências sobre a auto-
glorificação e blasfêmia dos governantes humanos (28:2,6,9) e uma forte afirmação de
confronto: “'Eu sou um deus' na presença daqueles que o matarem? Você será tão-somente
um homem, e não um deus, nas mãos daqueles que o abaterem” (v.9). Mas nos versos que
seguem o foco muda para outra figura:

12 "Filho do homem, erga um lamento a respeito do rei de Tiro e diga-lhe: Assim diz o
Soberano, o SENHOR: "Você era o modelo da perfeição, cheio de sabedoria e de perfeita
beleza. 13 Você estava no Éden, no jardim de Deus; todas as pedras preciosas o
enfeitavam: sárdio, topázio e diamante, berilo, ônix e jaspe, safira, carbúnculo e
esmeralda. Seus engastes e guarnições eram feitos de ouro; tudo foi preparado no dia em
que você foi criado. 14 Você foi ungido como um querubim guardião, pois para isso eu o
designei. Você estava no monte santo de Deus e caminhava entre as pedras fulgurantes.
15 Você era inculpável em seus caminhos desde o dia em que foi criado até que se achou
maldade em você. 16 Por meio do seu amplo comércio, você encheu-se de violência e
pecou. Por isso eu o lancei, humilhado, para longe do monte de Deus, e o expulsei, ó
querubim guardião, do meio das pedras fulgurantes. 17 Seu coração tornou-se orgulhoso
por causa da sua beleza, e você corrompeu a sua sabedoria por causa do seu esplendor.
Por isso eu o atirei à terra; fiz de você um espetáculo para os reis.

Esse deve ser um ser espiritual, talvez o próprio Satanás, cuja influencia estava por detrás
do governador terreno de Tiro.

Por que as pessoas não se sentem plenas e satisfeitas em suas próprias cidades? Por que
suas atitudes para com a cidade e as pessoas são tão ambivalentes?

Homens e mulheres procuram as cidades em busca de casas, trabalho, glamour, diversão,


e outras coisas mais. Mas no fundo, encontram-se solitárias, em miséria, exploradas e em
profunda pobreza. Enquanto alguns movem-se para dentro das cidades, outros movem-se
para fora, procurando melhores lugares para fugir das pressões urbanas.

Por que a cidade não somente é inadequada mas hostil e opressiva? O pecado humano
certamente também é determinante para isso.

A perspectiva bíblica é que Satanás seqüestrou a cidade. Assim como ele invadiu o jardim e
estragou a beleza da criação de Deus, assim também ele o fez com a cidade e tirando o
controle dela dos seus cidadãos, arruinando o processo. A corrupção da cidade é fácil de
ser vista: ela já estava fugindo da presença de Deus, tentando chuta-lo. Feita por seres
humanos cai nos propósitos malignos. A cidade passa a ser um instrumento em suas mãos,
uma poderosa ferramenta em sua campanha para apagar a imagem de Deus da terra e
manter homens e mulheres longe da presença dEle.

A Bíblia indica que Satanás foi expulso do céu e consignado para a terra. Um andarilho
como Caim, conforme descrito em Jó 1:7: “De perambular pela terra e andar por ela”.
Assim como a raça humana perdeu o Éden, assim Satanás perdeu o céu. A humanidade
construiu uma casa para ela mesma, mas Satanás e suas forças moveram-se para dentro
dela.

Não devemos pensar que Satanás opera somente nas cidades, e também que o pecado
está confinado nas cidades. Mas, somente que as cidade são lugares onde a concentram as
pessoas, e portanto, concentração de pecados – como centros (fortalezas) de operação dos
poderes demoníacos. As cidades não são somente bases de poder militar – são também
centros de lutas espirituais. Quando Jesus fala a Igreja de Pérgamo ele diz: “Ao anjo da
igreja em Pérgamo escreva: Estas são as palavras daquele que tem a espada afiada de dois
gumes. Sei onde você vive - onde está o trono de Satanás. Contudo, você permanece fiel
ao meu nome e não renunciou à sua fé em mim, nem mesmo quando Antipas, minha fiel
testemunha, foi morto nessa cidade, onde Satanás habita” (Ap 2:12-13).

Na sua opinião: é o poder corrompe o homem ou é o homem corrompe poder?

Diferentes cristãos ou igrejas irão enfatizar diferentes aspectos do trabalho dos principados
e potestades ou a figura chamada Satanás na Bíblia:

· Alguns sugerem que o poder está em um nível pessoal, atacando o povo de Deus e
obstruindo o ministério deles, sempre buscando oportunidades para influenciar pessoas e
suas casas.

· Outros sugerem, apesar de que a opressão demoníaca não está confinada na cidade, que
prevalece nela. Muitas áreas urbanas têm uma história de práticas de ocultismo, com casas
mal assombradas, e muitos ministérios urbanos parecem ter que lidar com certas questões
como essas. Existem certas áreas urbanas que a presença dos cristãos é muito fraca e os
poderes ocupados nunca foram efetivamente desafiados.

· Alguns sugerem que a batalha não é somente a nível individual. O salmista escreveu que
“A destruição impera na cidade; a opressão e a fraude jamais deixam suas ruas” (Sl
55:11). Muitos vêm essas forças na estrutura e no sistema da cidade, trazendo opressão e
prejudicando o progresso e a justiça.
Será que necessitamos fazer uma escolha entre essas opiniões? David Sheppard escreveu:
“Eu não encontro melhor maneira de descrever o poder do mal depois de ter ministrado por
18 anos em Londres do que o nome de Satanás na Bíblia...inteligência demoníaca parece
estar por detrás com tanta maldade que nos confronta” (Sheppard, David. Built as city .
Hodder & Stoughton, 1974:430).

Quem governa a cidade? A cidade não é um espaço somente para aqueles que nela vive. È
mais do que a soma dos cidadãos, suas possessões e casas. A cidade tem uma
personalidade corporativa, a vida nela mesma, que a torna independente da humanidade.

No livro de Apocalipse nós somos introduzidos a Babilônia numa visão de revolta como uma
prostituta bêbada com o sangue da humanidade. Muitas cidades na Bíblia recebem nomes
femininos, como personalidade corporativa, mas uma fascinante frase usada para uma
personalidade urbana é: “A mulher que você viu é a grande cidade que reina sobre os reis
da terra” (Ap 17:18).

Apesar de ser esta uma crítica indiscutível ao imperialismo Romano em seu contexto
original, no qual muitos reis eram sujeitos ao imperador da cidade de Roma, a linguagem é
intrigante. Nós normalmente pensamos que os reis governam sobre suas cidades, e isso
certamente é o que os reis pensam que estão fazendo. Mas nessa passagem é a cidade
imperial que governo sobre os reis. Talvez isso inclua o próprio imperador!

Seres humanos crêem que nós governamos sobre as cidades, mas a Bíblia indica que as
nossas cidades governam sobre nós. A cidade, nossa criação, cresceu poderosamente e
agora está sem controle. Como na ficção científica em que o robô foi criado por mãos
humanas e depois toma o controle e seu poder, assim também a cidade tomou o controle
sobre os seus criadores.

Umas das respostas do porquê disso é que as agências malignas de poderes espirituais são
intencionalmente corruptas e opressivas. Não podemos escapar da responsabilidade das
nossas cidades e seus pecados, mas é importante entender que existe uma dimensão
espiritual envolvida que exacerbara os problemas da cidade.

Isso nos ajuda a entender o que está acontecendo com as nossas cidades. Não é de
surpreender os inúmeros problemas urbanos, sendo imensos, insolúveis. Explica porque
existe tanta mudança nos poderes políticos e governamentais e isso faz tão pouca
diferença. Sistemas e instituições da cidade pouco podem fazer, e o muito que o povo faz é
pouco.

O paradoxo é este: quanto mais poderoso é o indivíduo, tanto mais ele se torna escravo
servindo a cidade. Seres humanos são escravos em suas próprias cidades – e a maioria das
pessoas não têm idéia que é assim.

A igreja precisa lidar com essa questão e dimensão se deseja ter um ministério urbano
efetivo. Junto com outras agências que trabalham na cidade, a igreja tem a habilidade para
discernir essas forças espirituais e engajar-se nelas.

Pare por um momento e pense: quais as implicações dessa aula para o seu ministério
urbano!!!
Esta seção tem por finalidade oferecer ao estudante fundamentos bíblicos da missão
urbana no Novo Testamento.

JESUS E A CIDADE

O ministério de Jesus passa pelas cidades. Ele andava de "cidade em cidade e de aldeia em
aldeia" (Lc. 8:1). Lucas demonstra no evangelho como Jesus realizou sua missão na (1)
Galiléia; (2) Samaria/Judéia e em (3) Jerusalém. Essa aula é uma caminhada com Jesus
pelas cidades que Ele andou. vamos com Ele!!!

Jesus e a Cidade
Introdução: estatísticas a respeito do termo “cidade” em Lucas-Atos
“Lucas-Atos deve desempenhar um papel central no desenvolvimento de uma teologia
bíblica de missão e, de maneira mais específica, de uma teologia bíblica de missão urbana”
(Conn 1985: 410). Esta afirmação pode ser observada pelas 39 utilizações de palavras
relacionadas no evangelho de Lucas, tais como pólis (1), pólin (17), póleos (9), pólei (7),
póleis (1), póleon (3) e pólesin (1). Isso significa que a cidade tem um papel importante
em Lucas. Em seu trabalho de dois volumes, podemos ver facilmente o desenvolvimento da
teologia de missão de Lucas desde Nazaré até Jerusalém (Evangelho de Lucas) e de
Jerusalém a Roma (Atos). Como veremos adiante, existem diferentes abordagens e
métodos para cada um destes lugares. A missão não acontece no vácuo, mas em lugares e
situações concretas nos quais as pessoas vivem.

Lucas está interessado em dar os nomes apropriados às localidades quando menciona cada
pólis. Por exemplo, Cafarnaum não é apenas Cafarnaum, mas também “uma cidade da
Galiléia” (Lc 4.31). Lucas enfatiza que os fariseus e os doutores da lei vinham “de todas as
aldeias da Galiléia, da Judéia e de Jerusalém” (Lc 5.17). A viúva não está simplesmente em
Naim, mas em “uma cidade chamada Naim” (Lc 7.11). Ainda, Betsaida não é apenas
Betsaida, mas “uma cidade chamada Betsaida” (Lc 9.10).

Como veremos, Lucas nos mostra a importância da narrativa geográfica da missão de


Jesus. Para ele, Jesus deveria anunciar “o evangelho do Reino de Deus também às outras
cidades” (Lc 4.43). Jesus é aquele “que andava de cidade em cidade e de aldeia em aldeia,
pregando e anunciando o evangelho do Reino de Deus” (Lc 8.1) e vinham “ter com ele
gente de todas as cidades” (Lc 8.4). Os 72 foram enviados dois a dois “para que o
procedessem em cada cidade e lugar aonde ele estava por ir” (Lc 10.1,8,10-12). Sem
dúvida, Jerusalém era a cidade que desempenhava um papel importante na narrativa
lucana. Jesus “passava por cidades e aldeias, ensinando e caminhando para Jerusalém” (Lc
13.22). Na jornada de Jesus para Jerusalém, somos informados que “grandes multidões o
acompanhavam” (Lc 14.25). E Jesus “passava pelo meio de Samaria e da Galiléia” (Lc
17.11). Finalmente, os discípulos receberiam a promessa do Pai para pregar o
arrependimento e o perdão dos pecados “a todas as nações, começando de Jerusalém” (Lc
24.47).

No livro de Atos, as palavras relacionadas a “cidade” aparecem 43 vezes: pólis (5), pólin
(14), póleos (10), pólei (9), póleis (4) e póleon (1). Em Atos, Lucas evidencia que a
mensagem do evangelho se move a partir de Jerusalém até aos confins da terra. Na
verdade, Lucas nos oferece a moldura geográfica do seu segundo volume, afirmando que a
missão da igreja primitiva, capacitada pelo Espírito Santo, é levar a de ser testemunha
“tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra” (At 1.8).
Novamente, como em seu primeiro volume, Lucas dá uma atenção especial à cidade. Para
ele, não era apenas uma multidão reunida como resultado de muitos sinais milagrosos e
maravilhas feitos pelas mãos dos apóstolos, mas “gente das cidades vizinhas a Jerusalém”
(At 5.16). Lucas ainda nos diz que a cidade é o lugar onde a crueldade está presente. Por
exemplo, Estevão foi “lançado fora da cidade” e apedrejado (At 7.58). Simão, o mágico, “ali
praticava a mágica, iludindo o povo de Samaria” (At 8.9). Depois da conversão de Paulo, os
judeus “dia e noite guardavam também as portas [da cidade], para o matarem” (At 9.24).

Mais uma vez, Lucas não fala apenas de Jopa, mas da “cidade de Jopa” (At 11.5). Não
apenas de Listra e Derbe, mas de “Listra e Derbe, cidades da Licaônia e circunvizinhança”
(At 14.6). No discurso de Tiago, no Concílio de Jerusalém, Lucas nos informa de que
“Moisés tem, em cada cidade, desde os tempos antigos, os que pregam nas sinagogas” (At
15.21). Não se fala apenas de Tiatira, mas “da cidade de Tiatira” (At 16.14); não apenas de
Éfeso, mas da “cidade de Éfeso” (At 19.35); por fim, fala-se da “cidade de Laséia” (At
27.8).

Metade das referências à cidade em o Novo Testamento é encontrada nos escritos lucanos.
Neste sentido, este estudo também busca compreender algumas das implicações e
significâncias teológicas para a cidade. O empreendimento missionário em Lucas-Atos é
estruturado nos termos de uma perspectiva geográfico-teológica. Este estudo vai ser
desenvolvido em seis seções, baseadas nesta perspectiva.

A primeira é a missão de Jesus para as cidades da Galiléia. Vamos observar o contexto


histórico da Galiléia, com referência especial às cidades de Nazaré a Cafarnaum. A missão
de Jesus começa em um lugar específico, que é a Galiléia dos gentios.

A segunda é a missão de Jesus na jornada para Jerusalém. Nesta seção vamos estudar este
jornada. É importante observar a prática do ensino de Jesus aos seus discípulos nesta
seção. Estudaremos quatro perspectivas de missão no relato desta viagem: a centralidade
do Reino de Deus, os ensinamentos de Jesus, o discipulado e a missão a partir dos e com
os sofrimentos.

A terceira é a missão de Jesus em Jerusalém. Não há dúvidas de que Jerusalém é a cidade


mais importante da atividade de Jesus. No entanto, Jerusalém tornou-se a cidade da
rejeição e, como conseqüência, previsões de julgamento contra ela eram inevitáveis. A
cruz, sob esta perspectiva, não é apenas um sinal de esperança, mas também um sinal de
rejeição, a rejeição do Messias. Depois da ressurreição de Jesus os discípulos e a
comunidade primitiva receberam a comissão de pregar o arrependimento e o perdão dos
pecados até aos confins da terra, começando em Jerusalém.
A quarta perspectiva é a missão da igreja em Jerusalém. Nesta fase, observaremos o
nascimento, o crescimento e a expansão da igreja. Três personagens são centrais neste
momento: Pedro, Estevão e Filipe.

A quinta perspectiva fala da missão da igreja na Judéia e Samaria. Três personagens vão se
destacar neste momento: Filipe, Pedro e Paulo. Esta seção é a preparação para a missão
aos confins da terra. A missão da igreja está se movendo das fronteiras judaicas para o
mundo gentio. Vamos estudar que a missão também é para os “outros”.

A sexta perspectiva é a missão até aos confins da terra. Estudaremos dois momentos. O
primeiro é o da missão da igreja de Antioquia da Síria. Antioquia foi a cidade na qual os
fundamentos da missão mundial foram estabelecidos para alcançar os confins da terra, o
mundo gentio. Quatro elementos são indispensáveis para compreender as perspectivas da
missão nesta cidade: nascimento, testemunho, liderança e alcance da igreja em Antioquia
da Síria. Finalmente, é a missão de Paulo nas cidades. Paulo era uma pessoa da cidade.
Sua missão foi muito estratégica, escolhendo lugares influentes de onde o evangelho se
espalharia para outras cidades e regiões. Em suas viagens missionárias observamos
cidades como Antioquia da Síria, Filipos, Tessalônica, Atenas, Corinto, Éfeso e Roma –
cidades extremamente influentes.

Eventos em Jerusalém precedentes à missão de Jesus


Os eventos precedentes à missão de Jesus são narrados em Lucas 1.1 a 4.13. A primeira
área geográfica mencionada por Lucas é a cidade de Jerusalém. A narrativa de Lucas se
inicia e termina em Jerusalém, mostrando a centralidade desta cidade em seu relato. Além
disso, o Templo tinha um papel importante no início e no fim de seu evangelho. Lucas
mencionou a cidade de Jerusalém XXX vezes nesta seção. XXX delas estão relacionadas à
narrativa da infância e uma à tentação de Jesus.

A NARRATIVA DA INFÂNCIA
As menções à cidade de Jerusalém nesta seção estão relacionadas ao nascimento e
crescimento de Jesus. “Completados oito dias para ser circuncidado o menino, deram-lhe o
nome de Jesus, como lhe chamara o anjo, antes de ser concebido. Passados os dias da
purificação deles segundo a lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para o apresentarem ao
Senhor” (Lc 2.21-22). José e Maria observaram a Lei. Jerusalém, com o seu Templo, era o
centro da sociedade judaica. Eles trouxeram o menino Jesus ao Templo de Jerusalém para
apresentá-lo ao Senhor, observando a Lei: “conforme o que está escrito na lei do Senhor:
todo primogênito ao Senhor será consagrado” (Lc 2.23; Ex 13.2,12).

Um homem, chamado Simeão, justo e piedoso, vivia em Jerusalém. Ele “esperava a


consolação de Israel” (Lc 2.25). Também vivia ali uma profetisa chamada Ana, filha de
Fanuel. Ela “não deixava o templo, mas adorava noite e dia em jejuns e orações. E,
chegando naquela hora, dava graças a Deus e falava a respeito do menino a todos os que
esperavam a redenção de Jerusalém” (Lc 2.37,38).

Muito provavelmente, José e Maria retornaram a Jerusalém, educando Jesus no mesmo


respeito à Lei do Senhor, já que “anualmente iam seus pais [de Jesus] a Jerusalém, para a
Festa da Páscoa” (Lc 2.41). Jesus tinha doze anos, e durante uma destas viagens,
“permaneceu o menino Jesus em Jerusalém” (Lc 2.43). Depois de três dias ele foi
encontrado no Templo e disse aos seus pais: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que me
cumpria estar na casa de meu Pai?” (Lc 2.49). Esta declaração tem uma clara conexão com
o que Jesus falou na sua primeira ação em Jerusalém, anos depois: “a minha casa será
casa de oração” (Lc 19.46).

Jesus, um filho obediente, “desceu com eles para Nazaré. E crescia Jesus em sabedoria,
estatura e graça, diante de deus e dos homens” (Lc 2.51,52). A próxima cena que
aconteceria em Jerusalém seria uma afirmação do seu compromisso com Deus,
confirmando sua fidelidade evidenciada antes mesmo da tentação pelo diabo.

A TENTAÇÃO DE JESUS
Os eventos da narrativa da infância têm a ver com autoridade. Lucas nos mostra que Jesus
é aquele que traria “salvação” (Lc 2.30; 3.6) e “redenção” (Lc 2.38) para “todos os povos”
(lc 2.31) e para “Israel” (Lc 2.32). Esta era a sua missão. O Espírito Santo ratificou a
autoridade de Jesus quando “desceu sobre ele em forma corpórea como pomba” (Lc 3.22).
“Ora, Jesus tinha cerca de trinta anos ao começar o seu ministério” (Lc 3.23). Este era o
tempo para se iniciar o seu ministério público. No entanto, era também o tempo para um
momento privado, mas decisivo: a tentação no deserto pelo demônio.

Esta tentação se deu em três momentos: no próprio deserto, em um lugar mais alto (com
vista para “os reinos deste mundo”) e no ponto mais alto do Templo (o pináculo). O
programa demoníaco tinha basicamente três propostas.

“USE O SEU PRÓPRIO PODER”


A primeira proposta do programa do diabo para Jesus é que ele usasse o seu próprio poder.
A cena se passa ali mesmo, no deserto, e o desafio era: “se és o Filho de Deus, manda que
esta pedra se transforme em pão” (Lc 4.3). Jesus tinha todo o poder e autoridade, que não
seriam colocados em teste. O Espírito Santo já tinha dado a ele a autoridade necessária
para o seu ministério. O diabo estava tentando Jesus com o intuito de fazê-lo usar este
poder e autoridade para demonstrar que ele era o Filho de Deus. Jesus entendeu que sua
identidade não tinha nada a ver com uma demonstração de poder. A identidade de Jesus
fora confirmada antes mesmo de qualquer atuação pública. A voz que veio dos céus disse
“tu és meu filho amado”. Jesus já era o Filho de Deus. No entanto, o diabo estava
provocando-o a fazer sinais maravilhosos para provar a ele mesmo que era o Filho de
Deus. Parece que o diabo é um expert em tirar vantagem de idéias, conceitos e coisas que
não pertencem a ele, já que ele é incapaz de criar.

É muito comum provarmos a nossa identidade quando achamos necessário. Queremos


mostrar a todos que somos capazes e poderosos. No entanto, o nosso fracasso pode vir
exatamente por este caminho. Jesus compreendeu a proposta do diabo, respondendo:
“está escrito: não só de pão viverá o homem” (Lc 4.4). Jesus não precisava provar quem
ele era para o diabo. Ele sabia quem era. Mas uma nova proposta estava vindo. Era para
que Jesus usasse o poder do diabo.

“USE O MEU PODER”


Como Jesus se recusou a usar o seu próprio poder para mostrar que era o Filho de Deus,
ele estava agora sendo convidado a usar o poder do diabo. Esta segunda proposta
aconteceu em um lugar alto. O diabo levou Jesus até ali para mostrá-lo, “num momento,
todos os reinos do mundo” (Lc 4.5). Mais uma vez, poder e autoridade eram o centro da
proposta. O diabo disse: “dar-te-ei toda esta autoridade e glória destes reinos, porque ela
me foi entregue, e a dou a quem quiser. Portanto, se prostrado me adorares, toda será
tua” (Lc 4.6,7). “Jesus estava sendo desafiado a aceitar o domínio sobre os reinos do
mundo de outro além de Deus” (Fitzmeyer 1981:511). Ao adorar o diabo, Jesus
reconheceria que ele era senhor. A fonte do poder e da autoridade de Jesus era Deus e o
Espírito Santo exclusivamente. Satanás é o rei dos reinos deste mundo; Jesus já era o Rei
do Reino de Deus. O poder e autoridade de Deus já estavam investidos em Jesus, mesmo
sobre o reinado do diabo. “Mas Jesus lhe respondeu: Está escrito: Ao Senhor, teu Deus,
adorarás e só a ele darás culto” (Lc 4.8). Então, veio a tentação final, desafiando Jesus,
mais uma vez, a fazer uso do seu poder, só que de uma perspectiva diferente.

“USE O PODER DE DEUS”


A terceira tentativa do diabo é provavelmente o ataque mais incisivo. Agora o diabo “o
levou a Jerusalém, e o colocou sobre o pináculo do templo” (Lc 4.9). A primeira tinha sido
no próprio deserto, a segunda num lugar alto, e agora a terceira tentação acontecia no
lugar mais alto do templo – o pináculo. Novamente, o diabo tentava Jesus no que concernia
à sua identidade: “Se és o Filho de Deus” (Lc 4.9). De uma maneira diferente da primeira
tentação, Jesus agora era desafiado a usar o poder de Deus, que “aos seus anjos ordenará
a seu respeito; eles te susterão nas suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra” (Lc
4.10,11). É claro que Jesus fez uso do poder de Deus durante todo o seu ministério. O
desafio contido nesta tentação era verificar que Deus era mesmo poderoso ou não,
colocando ele mesmo em teste. É por isso que Jesus respondeu: “Dito está: Não tentarás o
Senhor, teu Deus” (Lc 4.12).

Nesta tentação vemos o diabo, por duas vezes, colocando a identidade de Jesus em teste –
“se és” (Lc 4.3,9). O diabo estava dando a Jesus uma oportunidade de endossar e validar a
sua identidade. Além disso, o diabo apresentou-se como alguém que daria a Jesus
autoridade (exousía) e glória.

É comumente aceito que a primeira tentação tinha a ver com necessidades físicas (pedra –
pão), que a segunda se mostrava mais política (reinos deste mundo) e que a terceira, por
fim, tinha um caráter espiritual (a proteção de Deus).

Não podemos entender a missão de Jesus, a missão dos discípulos, a missão da igreja
primitiva e, finalmente, a nossa missão sem reconhecer a ação e influência demoníaca no
mundo. Missão, quer gostemos disso ou não, tem a ver com poder e autoridade. Esta
compreensão é crucial, especialmente para aqueles que trabalham na cidade. Missão na
cidade envolve confrontação com poderes. Isto é exemplificado no ministério de Jesus, dos
discípulos, da igreja em Atos e hoje em dia.

A pista que nos diz para esperarmos por mais intervenções do diabo no ministério de Jesus
é que “apartou-se dele o diabo, até momento oportuno” (Lc 4.13). A intenção do diabo era
a de ser bem-sucedido em sua tentativa. Isso não aconteceu. Ao invés de retornar dali no
poder e autoridade do diabo, “Jesus, no poder do Espírito, regressou para a Galiléia” (Lc
4.14). Este é o poder que lhe daria força, coragem e autoridade para proclamar as boas
novas do Reino de Deus, e não um programa demoníaco, começando com as cidades da
Galiléia.

Você já se perguntou por que Jesus foi conduzido pelo Espírito no deserto? Qual o motivo
dessas tentações? Pense sobre isso e depois assiste o filme abaixo.
Lembrando novamente, “Lucas-Atos deve desempenhar um papel central no
desenvolvimento de uma teologia bíblica de missão urbana” (Conn 1985: 410, grifo
acrescentado). Nesta seção vamos estudar o ministério urbano de Jesus nas cidades da
Galiléia, Samaria e Judéia (a caminho de Jerusalém) e na própria Jerusalém. A missão de
Jesus é da periferia (Galiléia) para o centro (Jerusalém). A fim de compreender a missão de
Jesus na Galiléia, devemos entender o contexto histórico desta região sofredora.

1. A missão de Jesus nas cidades da Galiléia


A primeira área geográfica do ministério de Jesus, de acordo com o relato de Lucas, é a
província da Galiléia. A Galiléia dos gentios era conhecida como “círculo dos povos”, numa
provável referência a uma área que era circulada, política e geograficamente, por cidades .
Nesta província encontramos muitas cidades, tais como Corazin, Betsaida, Cafarnaum,
Magdala, Tiberias, Caná, Nazaré, Gerasa, Genazaré e Gadara , além de duas importantes
montanhas. A primeira era o Monte Carmelo , próximo ao Mar Mediterrâneo, o lugar onde
Elias confrontou os profetas de Baal (1Rs 18.18). A segunda era o Monte Tabor , quase
vinte quilômetros a oeste Mar da Galiléia. Tradicionalmente afirma-se que este foi o lugar
da Transfiguração.

A vida da Galiléia girava em torno do seu lago, o Lago da Galiléia (ou o Mar da Galiléia),
chamado no Antigo Testamento de Mar de Quinerete (Nm 34.11; Js 12.3; 13.27). O Mar da
Galiléia tem aproximadamente 31 quilômetros de comprimento de norte a sul e 13 de
largura de leste a oeste, em suas maiores distâncias; ele fica 212 metros abaixo do nível
do Mar Mediterrâneo e chega a uma profundidade de aproximadamente 61 metros (Bruce
1997:18).

Antes de analisar o ministério de Jesus na província da Galiléia, precisamos compreender o


contexto histórico que acabou gerando as cidades. A Galiléia era tradicionalmente
caracterizada como um lugar de conflitos e guerras. Precisamos ter em mente os fatos mais
importantes da história da Galiléia.

O antigo Israel controlava a província. Depois da conquista de Canaã, a terra fora


distribuída para o estabelecimento das Doze Tribos. Mais tarde, as tribos de Zebulon e
Naftali ocuparam a província da Galiléia. “Designaram, pois, solenemente, Quedes, na
Galiléia, na região montanhosa de Naftali” (Js 20.7). “Aos filhos de Gérson, das famílias dos
levitas, deram [...], da tribo de Naftali, na Galiléia, Quedes, cidade de refúgio para o
homicida, com seus arredores, Hamote-Dor com seus arredores e Cartá com seus
arredores, ao todo, três cidades” (Js 21.27a,32; 1Cr 6.76).

O Reino de Israel permaneceu unido por aproximadamente 120 anos – 40 anos sob o
reinado de Saul (1050-1010), 40 anos sob Davi (1010-970) e 40 anos sob Salomão (970-
930). As fronteiras da Galiléia estavam sempre sendo alteradas durante os seus governos.
Por exemplo, quando Salomão estava governando, ele premiou Hirão por certos serviços
realizados em prol da construção do Templo. O seu prêmio foi uma terra montanhosa entre
as montanhas de Naftali. “Ora, como Hirão, rei de Tiro, trouxera a Salomão madeira de
cedro e de cipreste e ouro, segundo todo o seu desejo, este lhe deu vinte cidades na terra
da Galiléia” (1Rs 9.11). No entanto, Hirão não ficou satisfeito com o presente, e pediu pela
Terra de Cabul (1Rs 9.12). “Cabul” significa “muito pequeno, quase nada, bom para nada”.
Mais tarde, Salomão “edificou as cidades que Hirão lhe tinha dado; e fez habitar nelas os
filhos de Israel” (2Cr 8.2).

O reino ficou dividido por aproximadamente 400 anos. “Nos dias de Peca, rei de Israel, veio
Tiglate-Pileser, rei da Assíria, e tomou a Ijom, a Abel-Bete-Maaca, a Janoa, a Quedes, a
Hazor, a Gileade e à Galiléia, a toda a terra de Naftali, e levou os seus habitantes para a
Assíria” (2Rs 15.29). No tempo do exílio, alguns povos judeus foram assentados na
Galiléia.

Por séculos, a província da Galiléia esteve sob o domínio de diferentes mãos, regimes e
sistemas. A Galiléia era uma terra de conflitos, privada de sua própria independência e
autonomia. No período asmoneu, o povo da região norte não foi considerado como sendo
uma parte do povo judeu. Por esta razão, ela começou a ser chamada de “Galiléia dos
gentios” (Is 9.1; Mt 4.15).

Os judeus remanescentes foram evacuados dali durante a Revolta dos Macabeus (1Mac
5.23). Em 104/103 a.C., o rei asmoneu Aristóbolo conquistou a Galiléia. Ele forçou a
população gentia a se converter ao judaísmo, trazendo-a novamente para o domínio
judaico.

Provavelmente, o último evento importante da história da Galiléia, antes do ministério de


Jesus, seja a conquista por Pompeu. Neste momento, “a Galiléia foi reorganizada como
uma unidade administrativa autônoma sob Garbínio (57 a.C.)” (Pritchard 1991:114).

Lealdade a Jerusalém, ao seu Templo e à Torah eram requisitos para os galileus na época
de Jesus. O grande desejo do povo da Galiléia era o de ser religiosa, política e
culturalmente independente do domínio romano. Os galileus eram considerados pessoas
úteis nas mãos dos poderosos, vivendo à periferia da vida, servindo como propriedade de
outros, como fonte renovável de impostos e como mão-de-obra barata. Este contexto
histórico nos oferece o cenário da área na qual Jesus desenvolveu seu ministério na
Galiléia, a província do “círculo dos povos”.

No tempo do ministério de Jesus, a Palestina estava dividida em três províncias: Judéia,


Samaria e Galileia. A Galiléia era a maior das três. Ela foi o cenário de alguns dos eventos
mais memoráveis da história dos judeus. Herodes, o grande, morreu em 4 a.C. Ele deixou
um testamento dizendo que o seu domínio deveria ser dividido em três partes. Cada uma
deveria ser dada a um dos seus filhos: Arquelau, Herodes Antipas e Filipe. Arquelau (25
a.C. – 18 d.C.) recebeu as províncias de Judéia e Samaria. Herodes Antipas (23 a.C. – 29
d.C.) recebeu as províncias de Galiléia e Peréia. Filipe (24 a.C. – 34 d.C.) recebeu partes do
norte da Transjordânia (Bataneia, Auranitis, Trachonitis e Pareas e Gaulanitis). O governo
da palestina manteve-se nas mãos da família de Herodes, sob o consentimento de Augusto.

A província da Galiléia estava subdividida em “Alta Galiléia” (ao norte, com seu solo
montanhoso e seco, de difícil acesso) e “Baixa Galiléia” (ao sul, com seus vales e um solo
apropriado para plantações). Os primeiros três evangelhos tratam primariamente do
ministério de Jesus nesta província. Por exemplo, 19 das 32 parábolas ocorreram na
Galiléia . Não é menos notável que, dos 33 grandes milagres de Jesus, 25 foram
realizados ali. Na Galiléia, Jesus pregou o Sermão da Montanha e algumas das suas
grandes mensagens, sobre temas tais como o Pão da Vida, a pureza, a humildade, o
perdão e a humildade . Na Galiléia, ele chamou os seus primeiros discípulos; finalmente, ali
ocorreu a cena sublime da Transfiguração.

Um habitante ou nativo da Galiléia era chamado “Galileu”. Os significados desta palavra são
diversos, tais como: o extremista, o anarquista, o inflexível . A palavra era usada como
um nome pejorativo quando aplicado aos discípulos de Jesus. Pedro denunciou a si mesmo
pelo seu sotaque Galileu (“também este, verdadeiramente, estava com ele, porque também
é Galileu” – Lc 22.59 e At 2.7). Todos os apóstolos, com a exceção de Judas Iscariotes,
eram galileus. Judas Iscariotes, filho de Simão, recebera a alcunha de Iscariote por ser,
provavelmente, da região de Queriote, uma cidade ao sul de Judá (Js 15.25).
O ministério de Jesus na Galiléia no Evangelho de Lucas é narrado de 4.14 a 9.50. Este
ministério foi marcado por milagres, curas, controvérsias com os fariseus, pregações,
discursos e manifestações de poder . Um dos objetivos do relato de Lucas é demonstrar
que o lugar final e culminante do ministério de Jesus é a cidade escolhida de Jerusalém.
Para Lucas, Jerusalém é o objetivo e a cena final da atividade de Jesus. Mesmo tendo isto
em mente, ele não “via” a Galiléia apenas como parte de sua rota. Jesus ministrou ali
demonstrando vida verdadeira enquanto interagia com as pessoas, oferecendo-se a si
mesmo em amor evidenciado por interesse e por atos.

Orlando Costas, enfatizando esta parte do ministério de Jesus, disse que “Jesus é
apresentado não apenas como aquele que veio da Galiléia mas também como aquele que
veio para a Galiléia” (Costas 1989:53).

NAZARÉ
Jesus nasceu em Belém, apesar de ter se tornado conhecido como “Jesus de Nazaré” (Lc
4.34; 18.37; 24.19; At 2.22; 3.6; 4.10; 6.14; 10.38; 22.8; 26.9). O próprio Jesus deu a si
mesmo este título quando Paulo perguntou a ele: “Quem és tu, Senhor?”, ao que Jesus
respondeu: “Eu sou Jesus, o Nazareno, a quem tu persegues” (At 22.8).

Nazaré provavelmente significa “torre de vigia” Não há menção desta cidade no Antigo
Testamento. É aceito que, no tempo de Jesus, Nazaré tinha de 15 a 20 mil habitantes. A
maioria deles era considerada como sendo pertencente a uma classe rude e mal-educada.
Nazaré foi povoada basicamente por gentios, assim como o restante da província da
Galiléia. Como conseqüência, Nazaré tornou-se uma cidade desprezada. No entanto, é na
cidade de Nazaré, e mais precisamente na Sinagoga de Nazaré, que o programa da missão
de Jesus é definido. Mortimer Arias e Alan Johnson afirmam que:

Lucas 4.16-30 tem sido chamado de “microcosmo de Lucas-Atos, o evangelho-no-


evangelho” . E eu creio que temos aqui uma pista decisiva para a missão libertadora,
curadora e capacitadora de Jesus, a qual somos chamados a continuar (1992: 60).

À Sinagoga de Nazaré “Jesus estabeleceu suas credenciais messiânicas, construiu a base da


comunidade messiânica e começou a experimentar os seus sofrimentos messiânicos pelo
mundo” (Costas 1989: 55). Qual é o conceito da missão de Jesus declarado na Sinagoga de
Nazaré? Escolhendo uma passagem de Isaías 61.1,2 e 58.6, Jesus começou o seu
ministério proclamando:

O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres;
enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração de vista aos cegos, para pôr
em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor (Lc 4.18,19).

Nesta passagem, encontramos o programa messiânico da agenda missionária de Jesus: 1.


o Espírito Santo; 2. as boas novas aos pobres; 3. libertação aos cativos; 4. restauração da
vista aos cegos; 5. liberdade aos oprimidos, e; 6. o ano aceitável do Senhor. Em outras
palavras, as perspectivas da missão de Jesus são basicamente duas: no poder do Espírito
Santo, a missão de Jesus é proclamar e encarnar as boas novas integrais do Reino de
Deus, compreendidas na proclamação da salvação, libertação, perdão, cura e restauração.

O PODER DO ESPÍRITO SANTO


O Espírito Santo é mencionado 33 vezes no Evangelho de Lucas e 42 vezes em
Atos. O programa da missão de Jesus não poder ser completado sem a unção do Espírito.
Os eventos que precederam o que aconteceu na Sinagoga de Nazaré são muito importantes
para se compreender a centralidade do Espírito Santo. Lucas quer nos informar que João
Batista seria “cheio do Espírito Santo, já do ventre materno” (Lc 1.15). Além disso, Maria
ouve do anjo que o Espírito Santo desceria sobre ela, e o poder do Altíssimo a envolveria
(Lc 1.35). Quando Maria compartilhou com Isabel que estava grávida, “a criança lhe
estremeceu no ventre; então, Isabel ficou possuída do Espírito Santo. E exclamou em alta
voz: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre” (Lc 1.41-42). Isabel
deu à luz, tendo o seu filho, e o pai Zacarias ficou “cheio do Espírito Santo e profetizou” (Lc
1.67). O Espírito Santo estava trabalhando, preparando vidas e circunstâncias para a
redenção vindoura. “havia em Jerusalém um homem chamado Simeão; homem este justo e
piedoso que esperava a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele. Revelara-
lhe o Espírito Santo que não passaria pela morte antes de ver o Cristo do Senhor. Movido
pelo Espírito Santo, foi ao templo” (Lc 2.25-27). O povo de Israel estava na expectativa (Lc
3.15) da redenção prometida e João dizia a todos: “Eu, na verdade, vos batizo com água,
mas vem o que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de desatar-lhe as
correias das sandálias; ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Lc 3.16). “E
aconteceu que, ao ser todo o povo batizado, também o foi Jesus; e, estando ele a orar, o
céu se abriu, e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea como pomba; e ouviu-
se uma voz do céu: Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo” (Lc 3.21,22). Depois
disso, “Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi guiado pelo mesmo Espírito,
no deserto, durante quarenta dias, sendo tentado pelo diabo” (Lc 4.1,2). Jesus não apenas
entrou no deserto cheio do Espírito Santo, mas também, “no poder do Espírito, regressou
para a Galiléia” (Lc 4.14).

Ao ler todos estes eventos precedentes ao ministério de Jesus, sob a ótica da ação do
Espírito Santo, pode-se concluir que Lucas estava construindo a base que deu identidade e
autoridade a Jesus. Precisamos nos lembrar de que o diabo já tinha proposto a Jesus a
autoridade e glória dos reinos deste mundo (Lc 4.6). O diabo estava tentando Jesus a
aceitar este anti-programa, a missão do diabo. O programa missionário de Jesus era
completamente oposto – nada a ver com a glória dos reinos da terra, mas com um serviço
humilde àqueles que não tinham acesso à fama, à celebridade, à grandeza e à glória. O
programa de Jesus era um autêntico programa de salvação, no poder do Espírito Santo,
trazendo libertação, perdão, cura e restauração para os marginalizados pela sociedade.

Os líderes da sinagoga também questionaram a autoridade de Jesus. Mesmo apesar do fato


de que eles “se maravilhavam das palavras de graça que lhe saíam dos lábios, e
perguntavam: Não é este o filho de José?” (Lc 4.22). Em outras palavras, este carpinteiro é
um profeta qualificado para dizer o que ele está dizendo? Jesus respondeu a eles dizendo
não! Para vocês, isso é impossível: “nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra”
(Lc 4.24). Em sua surpresa, eles ficaram furiosos. Como resultado, eles “expulsaram-no da
cidade e o levaram até ao cume do monte sobre o qual estava edificada, para, de lá, o
precipitarem abaixo” (Lc 4.29).

Como é possível para uma pessoa, depois de tantas confrontações a respeito de sua
identidade e autoridade espiritual, ser rejeitado pelo seu próprio povo, ainda encontrar
força e vontade para simplesmente passar “por entre eles”, retirando-se (Lc 4.30)? A única
resposta é que Jesus “continuou em seu caminho” no poder do Espírito Santo, que deu a
ele força, motivação e compaixão para cumprir a missão recebida na Sinagoga de Nazaré.
Em todos estes episódios Jesus nos ensina que a missão deve continuar, mesmo sob
oposição e rejeição. Através do poder e da unção do Espírito Santo, somos chamados para
proclamar salvação, libertação, perdão, cura e restauração – as marcas visíveis do Reino de
Deus.

A PROCLAMAÇÃO INTEGRAL E A PRESENÇA DO REINO DE DEUS


No poder do Espírito Santo, a agenda programática da missão de Jesus era: 1. pregar as
boas novas aos pobres; 2. proclamar libertação aos cativos; 3. restaurar a vista aos cegos;
4. libertar aos oprimidos, e; 5. proclamar o ano aceitável do Senhor. É comumente aceito
que os cativos, os cegos e os oprimidos estão na categoria dos pobres. Existem “boas
novas” para eles – as boas novas de que o Reino de Deus é aqui e agora, trazendo
esperança para o seu futuro, a esperança do ano aceitável do Senhor. Finalmente os
pobres tinham alguém que não estava contra eles, mas a seu favor; alguém que tinha a
coragem de incluir os excluídos da sociedade, tornando-os receptores da graça do Senhor.

AS BOAS NOVAS AOS POBRES


O primeiro item da agenda missionária de Jesus é pregar as boas novas aos
pobres. “Os pobres, materialmente privados ou espiritualmente famintos, são
considerados mais abertos à ação salvadora de Jesus” (Glasser 1989:197). Quem são os
pobres? Bosch afirma que “os prisioneiros, os cegos e os oprimidos (ou os doentes) são
todos colocados sob a categoria ‘os pobres’; eles são todos manifestações da pobreza,
todos em necessidade de ‘boas novas’” (1996: 100). Michael Prior nos oferece duas
suposições a respeito deste assunto. Primeira, os pobres são identificados com os
destituídos e indigentes da sociedade. Segunda, os pobres são aqueles que são tão
deficientes em posses materiais que colocam toda a sua confiança em Deus” (1995: 164).
Como demonstrado anteriormente, os exemplos usados por Jesus na Sinagoga de Nazaré
tipificam os pobres: a viúva pobre de Sarepta e Naamã, o siro.

O ANO ACEITÁVEL DO SENHOR


O segundo item da agenda de Jesus é a proclamação do ano da bênção do Senhor
. O “ano aceitável do Senhor” ou o “ano da bênção do Senhor” tem muitas interpretações.
Existe a interpretação espiritualista, segundo a qual a libertação dos pobres, dos cativos,
dos cegos e dos oprimidos é vista em termos de uma bênção espiritual. Há também a
interpretação do Jubileu como apenas um evento escatológico, no qual as dívidas serão
finalmente canceladas e perdoadas. Há a interpretação do Jubileu em termos de reforma
econômica e política, como um novo sistema no qual Jesus seria um líder político. A
interpretação de Johnson é que Lucas retrata o seu trabalho libertador [de Jesus] em
termos de exorcismos pessoais, curas e ensino aos pobres. O caráter radical da sua missão
é especificado acima de tudo por estar sendo oferecida e aceita por aqueles que são
excluídos (1991: 81).

Outro ponto de vista sobre o Jubileu é dado por John Howard Yoder. Ele entende que não é
fácil interpretá-lo, e sua conclusão é que podemos enfrentar grande dificuldade em saber
em que sentido este evento aconteceu ou poderia ter acontecido; mas o que o evento
deveria ser está claro: é uma reestruturação sócio-política visível das relações entre o povo
de Deus realizada pela sua intervenção na pessoa de Jesus como Ungido e selado com o
Espírito (1972: 39).

Apesar de todos os problemas hermenêuticos concernentes ao significado do Jubileu, não


devemos evitar suas perspectivas missiológicas para a nossa missão, hoje. Arias propõe
que o Jubileu seja uma perspectiva para a missão, em quatro perspectivas (1984:44-48).

A primeira perspectiva é missão como libertação . A missão é a proclamação da


libertação: histórica e eterna, material e espiritual, econômica (devolução da terra,
cancelamento das dívidas), social (emancipação dos escravos) e espiritual (o cativeiro mais
interior do pecado). A missão que tem o Jubileu como paradigma deve enfrentar todas as
formas e tipos de opressão.
A segunda perspectiva é missão como retificação . O acúmulo de poder e riquezas
produz desigualdades sociais, como resultado do pecado humano e das ambições materiais.
O Jubileu, neste sentido, significa que a sociedade necessita ser continuamente
reestruturada, trazendo não apenas a justiça, mas também equilíbrio à ordem humana. A
missão como retificação tem como implicação uma convocação à justiça e ao
arrependimento.

A terceira perspectiva é a missão como restauração . O Jubileu, como ano aceitável


do Senhor. É recriação e renovação em três momentos: restauração do povo, dos
relacionamentos sociais e da própria natureza. Jesus “enviou os seus discípulos para
anunciar a vida, para defender a vida, para restaurar a vida, para celebrar a vida” (Arias
1984:47).

A quarta perspectiva é a da missão como inauguração . Esta é uma perspectiva


escatológica da missão em referência ao Jubileu. Esta é a tensão entre o “já” e o “ainda
não” do Reino de Deus. Como o Reino já está aqui, podemos buscar a libertação, a
retificação e a restauração da dignidade humana. No entanto, como o Reino ainda não está
aqui em sua plenitude, devemos buscar a sua proclamação, inaugurando a vinda do ano
aceitável do Senhor.

Lucas está nos oferecendo a moldura completa dos seus dois volumes. Toda a narrativa
lucana da missão de Jesus e da Igreja Primitiva se encontra dentro desta moldura. Esta
compreensão é crucial no desenvolvimento das perspectivas da missão na cidade. O quadro
geral de Lucas-Atos pode ser compreendido desta forma: o Espírito Santo capacita Jesus e
sua igreja a proclamar as boas novas do Reino de Deus manifestadas através da salvação,
libertação, perdão, cura e restauração. Este é o evangelho-no-evangelho. Isto é o que
vemos em Cafarnaum.

CAFARNAUM
Logo após o episódio de Nazaré, quando sua missão tornou-se pública, Jesus “desceu a
Cafarnaum, cidade da Galiléia” (Lc 4.31). Bruce 1997:25. Esta cidade era considerada
como uma das mais importantes da província da Galiléia. Estava localizada próxima ao Mar
da Galiléia, com indústrias pesqueiras, de conserto de redes e de barcos de pesca.
Cafarnaum tinha também um solo fértil, um clima quente, água abundante do mar e das
chuvas. Esta combinação tornou possível o cultivo de frutas, oliveiras e vários tipos de
colheitas.

Cafarnaum estava localizada em um lugar extremamente estratégico, às margens de uma


rota internacional de comércio que ligava Egito, Palestina, Síria e Mesopotâmia. É possível
que Cafarnaum tivesse uma presença expressiva de militares romanos (Lc 7.1,2). Junto
com Corazim e Betsaida , Cafarnaum foi condenada por Jesus quando ele disse: “Tu,
Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno” (Lc 10.15).

Em Cafarnaum, Jesus curou e libertou pessoas. “Os quatro episódios seguintes ilustram
concretamente o que tinha sido relatado sobre ele em Nazaré a respeito da sua atividade
em Cafarnaum” (Fitzmyer 1981:541).

O primeiro encontro de Jesus em Cafarnaum foi com um homem possesso por um


demônio (um espírito mau) na sinagoga, num Sábado.

Podemos sentir a atmosfera desta cena. A sinagoga estava provavelmente cheia de


pessoas piedosas e religiosas, que não podiam discernir que ali estava um homem possuído
por um demônio. Lucas quer nos mostrar “no meio deles todos” (4.35) que o Espírito do
Senhor estava em Jesus para “pôr em liberdade os oprimidos” (Lc 4.18). Aquele que põe
em liberdade os oprimidos é chamado por este homem, “em alta voz” (Lc 4.33), porque
todos vão saber que seu nome não é apenas Jesus, mas e “Jesus de Nazaré” (Lc 4.34). Fica
claro que Lucas está demonstrando neste momento que há um confronto entre a
autoridade de Jesus (“o Espírito do Senhor está sobre mim) e a autoridade dos líderes da
sinagoga, que perguntam: “Que palavra é esta, pois, com autoridade e poder, ordena aos
espíritos imundos, e eles saem?” (Lc 4.36).

Este é o primeiro das 21 histórias de milagres no Evangelho de Lucas. Como Bultmann


ressalta (HIST, 210), ela tem todas as características de uma típica história de exorcismo:
(a) o demônio reconhece o exorcista resiste; (b) o exorcista emite um desafio ou comando;
(c) o demônio sai, fazendo uma cena; (d) a reação dos espectadores é registrada (Fitzmyer
1981:541).

“E a sua fama corria por todos os lugares da circunvizinhança” (Lc 4.37).

O segundo encontro nesta cidade foi à casa de Simão, durante a cura de sua
sogra, que estava sofrendo com uma febre muito alta . Podemos perceber este
padrão no ministério de Jesus, curando os doentes e animando os fracos. A pessoa fraca,
neste caso, era uma mulher, um tema altamente enfatizado na narrativa de Lucas.

O terceiro encontro em Cafarnaum foi com muitas pessoas, num pôr-do-sol no


qual muitos foram curados : “ao pôr-do-sol, todos os que tinham enfermos de diferentes
moléstias lhos traziam; e ele os curava, impondo as mãos sobre cada um” (Lc 4.40). Este
encontro não é marcado apenas pelas curas, mas também pelas pessoas sendo libertas da
influência demoníaca – “de muitos saíam demônios” (Lc 4.41).

Finalmente, “sendo dia, [Jesus] saiu e foi para um lugar deserto” (Lc 4.42). Deste
lugar deserto Jesus partiu de Cafarnaum em direção à Judéia. É interessante perceber que,
de acordo com a narrativa de Lucas, Jesus começou sua peregrinação de um lugar solitário
(o deserto, conforme Lucas 4.1) e também encerra a sua jornada em Cafarnaum em um
lugar solitário. Se Jesus definiu intencionalmente sua agenda missionária diante da
liderança da Sinagoga de Cafarnaum, agora ele está deixando esta mesma agenda clara
para “as multidões” (Lc 4.42) que estavam pedido para que ele não fosse, proclamando: “é
necessário que eu anuncie o evangelho do Reino de Deus também às outras cidades, pois
para isso é que fui enviado” (Lc 4.43). Jesus não está redefinindo a sua missão; ele está
tornando-a conhecida para o povo em gral. Estava claro, a partir da declaração de Jesus na
Sinagoga de Cafarnaum e neste lugar solitário, que sua missão tinha o Reino de Deus como
motivação central, sendo realizada através de palavras e atos, no poder do Espírito Santo.
O Reino de Deus não é para uma classe privilegiada da sociedade (ou seja, não é exclusivo
e segregado); o Reino de Deus é, de acordo com Lucas 4.43, “para as outras cidades
também” (ou seja, é inclusivo e universal). Uma pessoa sozinha não pode realizar a
missão às outras cidades – é o momento de estabelecer parcerias. Se a missão
pretende ser inclusiva e universal, então já é o tempo de Jesus chamar os seus
parceiros, os discípulos, para a proclamação das boas novas do Reino de Deus.

A MISSÃO DOS DOZE


A partir deste momento, Lucas passa à narração do chamado dos discípulos de Jesus.
Como temos visto desde o início, a missão tem a ver com autoridade. Os discípulos serão
chamados para participar da missão de Jesus, comissionados por ele, tendo a própria
autoridade dele.

A primeira pessoa chamada por Jesus foi Simão, um pescador. É interessante


perceber que Jesus realizou um milagre para convencer Pedro de sua autoridade. Jesus
disse a ele: “Faze-te ao largo, e lançai as vossas redes para pescar” (Lc 5.4). Mas esta
ordem não foi suficiente para convencer Simão, que respondeu: “Mestre, havendo
trabalhado toda a noite, nada apanhamos, mas sob tua palavra lançarei as redes” (Lc 5.5).
Depois do milagre de Jesus, Simão finalmente reconhece a sua autoridade, exclamando:
“Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador” (Lc 5.8). A proposta de Jesus não tinha
nada a ver com “retirar-se”, mas com andar muito próximo de Simão, pois Jesus faria dele
um “pescador de homens” (Lc 5.11). Então, Simão o seguiu. (Lc 5.12).

A segunda pessoa chamada por Jesus foi Levi, um coletor de impostos . Ele era
completamente diferente de Simão. Levi estava “assentado na coletoria” e Jesus diz,
poderosamente: “Segue-me”. Imediatamente, “ele se levantou e, deixando tudo, o seguiu”
(Lc 5.27,28). Como resultado, “lhe ofereceu Levi um grande banquete em sua casa; e
numerosos publicanos e outros estavam com eles à mesa” (Lc 5.29).

Em ambos os exemplos encontramos um elemento comum: deixar coisas para trás. Simão
e Levi “deixaram tudo” (cf. Lc 5.11,28). A partir daquele encontro ambos experimentariam
um novo momento em suas vidas – de uma vida rotineira e comum para uma irregular e
cheia de novas situações, lado a lado com Jesus.

O terceiro chamado se deu não exatamente a uma pessoa, mas a um grupo, os


Doze . “Naqueles dias, retirou-se para o monte, a fim de orar, e passou a noite orando a
Deus. E, quando amanheceu, chamou a si os seus discípulos e escolheu doze dentre eles,
aos quais deu também o nome de apóstolos: Simão, a quem acrescentou o nome de Pedro,
e André, seu irmão; Tiago e João; Filipe e Bartolomeu; Mateus e Tomé; Tiago, filho de
Alfeu, e Simão, chamado Zelote; Judas, filho de Tiago, e Judas Iscariotes, que se tornou o
traidor” (Lc 6.12-16).

O grupo de Jesus estava finalmente formado, mas até aquele momento Jesus não
teve a oportunidade de dar a ele instruções e ensiná-lo sobre o Reino de Deus. O
tempo tinha chegado. Então, “descendo com eles, parou numa planura [... e]
olhando ele para os seus discípulos, disse-lhes...” (Lc 6.17,20). Qual é o conteúdo
do ensino de Jesus?

O primeiro item é a pobreza . Mais uma vez Jesus se colocava em harmonia com o seu
programa messiânico (“pregar as boas novas aos pobres” – Lc 4.18). A declaração “Bem-
aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus” (Lc 6.20) estava em
oposição com “Ai de vós, os ricos! Porque tendes a vossa consolação” (Lc 6.24). O discípulo
precisa estar prevenido de que a pobreza será uma parte integrante da sua missão.

O segundo é a fome . Os famintos eram aqueles que estavam economicamente privados


do alimento diário. “Bem-aventurados vós, os que agora tendes fome, porque sereis fartos”
(6.21a) se opõe a “Ai de vós, os que estais agora fartos! Porque vireis a ter fome” (6.25a).

O terceiro é o choro . Os que choram são os que estão de coração partido, os que
enfrentam dramas afetivos. “Bem-aventurados vós, os que agora chorais, porque haveis de
rir” (6.21b) se opõe a “Ai de vós, os que agora rides! Porque haveis de lamentar e chorar”
(6.25b).

O quarto é a rejeição . Rejeição e sofrimento seriam as marcas dos seguidores de Jesus.


“Bem-aventurados sois quando os homens vos odiarem e quando vos expulsarem da sua
companhia, vos injuriarem e rejeitarem o vosso nome como indigno, por causa do Filho do
homem se opõe” (6.22) a “Ai de vós, quando vos louvarem! Porque assim procederam os
seus pais com os falsos profetas” (6.26).

Jesus estava ensinando a eles que a missão tinha a ver com o “aqui e agora” e com o
“amanhã” – a tensão entre o “já” e o “ainda não”. Os discípulos deveriam ser capazes de
lidar com situações em suas vidas que abordariam: 1. os pobres e os ricos; 2. os famintos
e os fartos; 3. os que choram e os satisfeitos; 4. os que odeiam e os que louvam. Em
outras palavras, Jesus tentava comunicar a eles que eles eram muito pobres e
experimentariam, algumas vezes, a fome, situações difíceis, a negligência e a rejeição. Este
era o tipo de missão que os discípulos enfrentariam num futuro próximo. Contudo, eles
seriam, algum dia, recompensados. Jesus prometeu a eles o “já” presente Reino de Deus.
Um dia eles seriam satisfeitos, eles iriam rir e uma grande recompensa os esperaria no céu.

Para Lucas era muito importante demonstrar a práxis e o ensino de Jesus aos discípulos,
antes do comissionamento para a missão. Tendo isto em mente, Lucas nos introduz a
missão dos Doze, que é narrada no último capítulo do ministério de Jesus na Galiléia. Isso
demonstra que antes dos discípulos de Jesus começarem o seu ministério, eles precisavam
observar como ele ministrava, percebendo como ele lidava com as controvérsias com
aqueles que se opunham a ele e aos seus ensinamentos. Eles precisavam ver como Jesus
ensinava, aprender do conteúdo da sua pregação e da sua metodologia, especialmente das
parábolas. Finalmente, eles entenderiam a messianidade de Jesus e, como um resultado, o
poder de Deus no ministério de Jesus. Depois destes eventos cruciais, eles estariam
preparados para conduzir a missão que Jesus lhes daria. Em outras palavras, a missão do
Doze segue exemplos, modelos e demonstrações. Exatamente neste ponto, Lucas narra:

Tendo Jesus convocado os doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios, e
para efetuarem curas. Também os enviou a pregar o Reino de Deus e a curar os enfermos.
E disse-lhes: Nada leveis para o caminho: nem bordão, nem alforje, nem pão, nem
dinheiro; nem deveis ter duas túnicas. Na casa em que entrardes, ali permanecei e dali
saireis. E onde quer que não vos receberem, ao sairdes daquela cidade, sacudi o pós dos
vossos pés em testemunho contra eles. Então, saindo, percorriam todas as aldeias,
anunciando o evangelho e efetuando curas por toda parte (Lc 9.1-6).

A missão dos doze não é outra além da missão do próprio Jesus . É missão a partir
da autoridade de Jesus e um comissionamento para continuar o seu ministério. Enquanto
estavam juntos, Jesus “deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios, e para
efetuarem curas. Também os enviou a pregar o Reino de Deus e a curar os enfermos” (Lc
9.1,2). Com o poder e a autoridade de Jesus eles iriam: 1. expulsar os demônios; 2.
efetuarem curas; 3. pregar o Reino de Deus, e; 4. curar os enfermos. “Então, saindo,
percorriam todas as aldeias, anunciando o evangelho e efetuando curas por toda parte” (Lc
9.6). Este episódio nos lembra de dois fatos. Primeiro, de quando Jesus recebeu a sua
missão na Sinagoga de Nazaré. Ele estava compartilhando com seus discípulos a sua
própria missão declarada. “As testemunhas da Galiléia que Jesus tinha estado treinando
estavam agora sendo enviadas para participar na sua própria missão, mesmo durante o
ministério no período de Jesus” (Fitzmyer 1981:754). Segundo, nos lembra de quando
Jesus declarou aos seus discípulos:

A vós outros é dado conhecer os mistérios do Reino de Deus; aos demais, fala-se por
parábolas, para que, vendo, não vejam; e, ouvindo, não entendam [...] nada h;á oculto
que não haja de manifestar-se, nem escondido, que não venha a ser conhecido e revelado
(Lc 8.10,17).

A missão a partir da autoridade de Jesus é uma das perspectivas chave para a missão na
cidade. O lugar do cumprimento desta missão dada por Jesus é a cidade, porque os
discípulos “percorriam todas as aldeias, anunciando o evangelho e efetuando curas por toda
parte” (Lc 9.6). A partir da missão de Jesus nas cidades da Galiléia, três
perspectivas da missão na cidade podem ser destacadas.

A primeira perspectiva é a centralidade do Reino de Deus . “Aconteceu, depois disto,


que andava Jesus de cidade em cidade e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o
evangelho do Reino de Deus” (Lc 8.1). o Reino de Deus é o conteúdo da missão de Jesus.
Jesus sabia que a mensagem do Reino de Deus traria confrontações e transformações às
cidades e aldeias pelas quais passaria. “Os reinos deste mundo” (Lc 4.5) são influenciados
pela “autoridade e glória” (Lc 4.6) do diabo. A proclamação do diabo tem a ver com os
reinos deste mundo, permeados de poderes e sistemas políticos, envolvendo todos os tipos
de manipulações e relacionamentos sociais voltados para a difusão do anti-programa da
missão do diabo. Ao proclamar o Reino de Deus, Jesus mostrou-nos que o único caminho
para que o mundo, com seus reinos demoníacos, seja transformado é através da
mensagem poderosa que penetra, salva, cura, liberta e perdoa. Aqueles que desejam ser
efetivos em seus esforços para alcançar a cidade devem estar prevenidos de que a
proclamação das boas novas do Reino de Deus é central na irrupção de transformações.

A segunda perspectiva é a missão a partir da periferia . Esta é uma das perspectivas


mais revolucionárias da missão de Jesus. Muitos teólogos, especialmente da América
Latina, entendem que a periferia é a chave hermenêutica para a compreensão da missão
de Jesus e da sua opção pelos excluídos da sociedade. O mesmo conceito é chamado de
“missão de baixo”. De forma paradoxal, “a Galiléia é retratada como a terra da salvação;
Jerusalém como a terra da rejeição de Jesus” (Hertig 1997:385). A Galiléia torna-se “um
marco na prática evangelística de Jesus” (Costas 1989:53).

Bosch categorizou três tipos de pessoas no Evangelho de Lucas que nos ajudam a entender
a audiência do ministério de Jesus: Eles são: 1. os “fracos” e os “inferiores”, exemplificados
pelos samaritanos, mulheres, coletores de impostos e os pobres; 2. os “doentes”,
exemplificados pelos cegos, mancos, surdos, leprosos e os possuídos por demônios, e; 3.
os “perdidos”, exemplificados pelos pecadores (1989:5-16). Os fracos e inferiores, os
doentes e os perdidos são convidados não somente para se tornarem membros do Reino de
Deus, mas também agentes ativos da missão. Samaritanos, mulheres, coletores de
impostos, pobres, cegos, surdos, leprosos, possuídos pelos demônios e pecadores, aqueles
na periferia da sociedade da Galiléia, todos eles se tornaram “alguém” através daquele que
se tornou “ninguém”: Jesus, o Messias!

O que Jesus fez com estas pessoas? Aos fracos e inferiores, ele deu poder. Aos doentes, ele
curou. Aos perdidos, ele salvou. Em outras palavras, das poder, curar e salvar são
elementos cruciais na agenda da missão de Jesus. Ao fazer tudo isso com as pessoas da
periferia da sociedade, Jesus estava cumprindo o seu propósito.

Como este elemento se relaciona com a missão na cidade? Jesus recebeu o seu programa
missionário num lugar que não era o centro do poder religioso (Jerusalém), mas com os
desprezados na pequena cidade de Nazaré. A província da Galiléia era um símbolo da
periferia.

A localização do ministério de Jesus na periferia da Galiléia é congruente com o testemunho


do Novo Testamento como um todo, no qual se vê Jesus como uma pessoa pobre que se
identificou com os oprimidos e morreu como um deles a fim de libertar a humanidade do
poder do pecado e da morte e tornar possível a nova ordem da vida – a ordem do amor, da
justiça, da liberdade e da paz (Costas 1989:61).

A cidade é um desafio permanente para a igreja. O mundo está se tornando cada vez mais
urbano, e como resultado veremos ainda mais marginalização, violência e desemprego. É
nessa geografia da miséria que somos chamados a exercer a nossa missão. Muitas igrejas
de hoje estão optando por sair do centro da cidade em direção aos bairros de classe média.
Este movimento é exatamente oposto à atitude de Jesus. Como vimos, ele não somente
situou sua missão na periferia da Galiléia, mas também a encarnou desta forma, sendo, ele
mesmo, “as boas novas para os pobres”.

A terceira perspectiva é a missão a partir da autoridade de Jesus . A missão deve


ser exercida a partir do comissionamento por Jesus, no poder do Espírito Santo. O poder
para a missão não reside na autoridade daqueles que são chamados para a sua realização,
mas no comissionador, que é Jesus. Como agentes da missão, somos comissionados a
realizar a missão de Jesus através do seu poder e autoridade compartilhados. Como o
Espírito Santo capacitou Jesus a desempenhar a sua missão, assim também o seremos
hoje. O diabo sugeriu que Jesus conduzisse a sua missão pela sua autoridade. Missão não
tem nada a ver com poder natural e pessoal. A missão é possível apenas quando exercitada
com a unção do Espírito Santo. O poder dos discípulos e da igreja é derivado. No poder do
Espírito Santo proclamamos as boas novas do Reino de Deus, de cidade em cidade.

Tendo como poder o Espírito Santo, como conteúdo o Reino de Deus, como autoridade o
chamamento de Jesus e como audiência os excluídos da sociedade, Lucas nos apresenta
uma nova fase do ministério de Jesus, andando com seus discípulos, a caminho de
Jerusalém, a cidade do destino.

2. A missão de Jesus na jornada para Jerusalém -


Samaria e Judéia
De agora em diante perceberemos um foco geográfico diferente. Se na primeira parte o
foco era a Galiléia, agora o foco está na própria jornada, que termina na cidade de
Jerusalém, passando pela Samaria e Judéia.

A segunda grande seção da narrativa do Evangelho de Lucas, de 9.51 a 19.27 é a jornada


de Jesus a Jerusalém, “o assim chamado relato de viagem” (Fitzmyer 1981:823). Lucas
afirma que “ao se completarem os dias em que devia ser ele assunto ao céu, manifestou,
no semblante, a intrépida resolução de ir para Jerusalém” (Lc 9.51). É difícil rastrear esta
viagem porque em seu relato não há menção das cidades em que Jesus e seus discípulos
entraram. As únicas referências geográficas explícitas são a menção da fronteira entre a
Samaria e a Galiléia ( – Lc 17.11) e à cidade de Jericó, quando Jesus a atravessava. Esta
cidade é mencionada em Lucas 19.1 e em 10.30, na parábola do Bom Samaritano.

Encontramos as cidades de Sodoma (Lc 10.12; 17.29), Corazin (10.13), Betsaida (9.10;
10.13), Tiro (10.13,14), Sidom (10.13,14), Cafarnaum (10.12-15) e Nínive (11.32)
mencionadas como exemplos de cidades que não receberam as boas novas do Reino. Jesus
pronunciou o seu julgamento a cada cidade. Também encontramos Jesus mencionando a
Torre de Siloé . Por três vezes Jesus mencionou a cidade de Jerusalém: a primeira na
parábola do Bom Samaritano (10.30); a segunda para expressar a sua tristeza por ela
(13.34); e a terceira como uma predição de que o Filho do Homem morreria (19.31).

“Apesar de Jesus estar sempre viajando para Jerusalém, ele nunca faz um progresso real
nesta viagem” (Fitzmyer 1981:825). Uma das possibilidades pelas quais Lucas não
menciona os nomes das cidades e lugares pelos quais Jesus passou é que “ele decidiu levar
Jesus a Jerusalém, a cidade do destino” (Fitzmyer 1981:824). Neste caso, desde que não
temos um traçado geográfico exato da jornada de Jesus para Jerusalém, nossa ênfase deve
estar em o que Jesus fez em termos de perspectivas missiológicas neste caminho. Isto
afetou a vida dos discípulos. Joseph A. Fitzmyer nos ajuda a entender este ponto:

É uma parte importante do evangelho no que diz respeito à maneira como afetou os
seguidores de Jesus, já que ele subia a Jerusalém acompanhado dos discípulos. Eles iriam
se tornar testemunhas autenticadas de tudo o que ele havia ensinado e de tudo o que
havia feito. O relato da viagem, além do mais, torna-se um recurso especial usado por
Lucas para o treinamento posterior daqueles testemunhas da Galiléia [...] Se Jesus vai para
a cidade do destino de acordo com o que tinha sido determinado, ele equipa os seus
seguidores para a missão de proclamá-lo e à sua mensagem de salvação, depois de sua
morte e ressurreição, até aos confins da terra” (At 1.8). O relato de viagem se torna,
então, uma coleção de ensinamentos para a jovem igreja missionária, na qual as instruções
aos discípulos se alternam com debates com os seus oponentes (1981:826).

A próxima parte analisará as quatro perspectivas missionárias neste relato de


viagem . Missão, como já termos visto, está ligada ao Reino de Deus. O Reino tem
princípios que os discípulos devem seguir, os quais são os ensinamentos de Jesus. Também
está claro que a missão tem suas conseqüências, sendo que o sofrimento é uma delas.

MISSÃO A PARTIR DA CENTRALIDADE DO REINO DE DEUS


Como demonstrado acima, o Reino de Deus ocupou um lugar central na missão de Jesus na
Galiléia. Agora, quando Jesus está em seu caminho para Jerusalém, o mesmo conceito
missionário aparece mais uma vez. De Lucas 9.5 a 19.27, a expressão “Reino de Deus”
aparece 33 vezes, muito mais que na província da Galiléia (oito vezes).

Não é por acaso ou por acidente que Lucas enfatiza o Reino de Deus no relato de viagem.
Contudo, Lucas vai além do conceito desenvolvido na Galiléia. De modo similar, o Reino de
Deus, no relato de viagem, carrega consigo os conceitos de: 1. proclamação (“Jesus
insistiu: Deixa aos mortos o sepultar os próprios mortos. Tu, porém, vai e prega o Reino de
Deus” – Lc 9.60); 2. cura (“Curai os enfermos que nela houver e anunciai-lhes: A vós
outros está próximo o Reino de Deus” – Lc 10.9), e; 3. expulsão de demônios (“Se, porém,
eu expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente, é chegado o Reino de Deus sobre
vós” – Lc 11.20). No entanto, Lucas introduz outras perspectivas especialmente porque
este é o tempo que Jesus usou para ensinar seus discípulos. Jesus sabia que, uma vez em
Jerusalém, seu tempo seria muito curto e concentrado na sua paixão. No caminho, Jesus
ofereceu as seguintes perspectivas do Reino de Deus aos seus discípulos:

O Reino de Deus é a prioridade: “Jesus insistiu: Deixa aos mortos o sepultar os próprios
mortos. Tu, porém, vai e prega o Reino de Deus” (Lc 9.60), e “Mas Jesus lhe replicou:
Ninguém que, tendo posto a mão no arado, olha para trás, é apto para o Reino de Deus”
(Lc 9.62);

O Reino de Deus liberta as pessoas : “Se, porém, eu expulso os demônios pelo dedo de
Deus, certamente, é chegado o Reino de Deus sobre vós” (Lc 11.20);

O Reino de Deus pode trazer rejeição: “Até o pó da vossa cidade, que se nos pegou aos
pés, sacudimos contra vós outros. Não obstante, sabei que está próximo o Reino de Deus”;

O Reino de Deus é universal: “Muitos virão do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul e


tomarão lugares à mesa do Reino de Deus” (Lc 13.29);

O Reino de Deus requer compromisso: “E Jesus, vendo-o assim triste, disse: Quão
dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! Porque é mais fácil passar um
camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus” (Lc 18.24,25).
E: “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa,
ou mulher, ou irmãos, ou pais, ou filhos, por causa do reino de Deus” (Lc 18.29).

O Reino de Deus também pertence às crianças: “Jesus, porém, chamando-as para


junto de si, ordenou: Deixai vir a mim os pequeninos e não os embaraceis, porque dos tais
é o reino de Deus. Em verdade vos digo: Quem não receber o reino de Deus como uma
criança de maneira alguma entrará nele” (Lc 18.16,17);

O Reino de Deus é uma realidade presente e futura: “Ora, ouvindo tais palavras, um
dos que estavam com ele à mesa, disse-lhe: Bem-aventurado aquele que comer pão no
reino de Deus” (Lc 14.15). “Pois vos digo que nunca mais a comerei, até que ela se cumpra
no reino de Deus” (Lc 22.16). “Pois digo que, de agora em diante, não mais beberei do
fruto da videira, até que venha o Reino de Deus” (Lc 22.18). “Assim também, quando
virdes acontecerem estas coisas, sabei que está próximo o reino de Deus” (Lc 21.31).

A mudança da ênfase de Lucas sobre o Reino de Deus pode ser vista nos milagres de Jesus.
A caminho de Jerusalém, Jesus realizou cinco milagres, comparados aos dez realizados na
Galiléia. Como não encontramos Jesus se relacionando com as pessoas em geral, parece
que Lucas, a partir de agora, está se concentrando no ministério de Jesus mais em termos
de ensino e preparação dos discípulos para a tarefa missionária de proclamar as boas novas
até aos confins da terra.

MISSÃO A PARTIR DOS ENSINAMENTOS DE JESUS


O segundo conceito de missão que precisamos observar agora é o “treinamento daquelas
testemunhas da Galiléia” (Fitzmyer 1981:826). Por quê? É pelo fato de que eles “iriam se
tornar testemunhas autenticadas de tudo o que ele havia ensinado e de tudo o que havia
feito” (Fitzmyer 1981:826). Neste sentido, Lucas enfatiza os discursos, as lições, as
exortações e as parábolas de Jesus.

É nas parábolas que encontramos a maioria dos ensinamentos de Jesus a respeito de


missão. As parábolas representam o que Jesus queria ensinar aos seus discípulos. Na
Galiléia, Jesus fez uso de seis parábolas; a caminho de Jerusalém ele usou vinte. Uma das
perspectivas missionárias contidas nas parábolas é o tema dos “perdidos”. Os “perdidos”
são aqueles que estão longe de Deus. Nas parábolas, eles são representados por:

Ovelha : “Qual, dentre vós, é o homem que, possuindo cem ovelhas e perdendo uma
delas, não deixa no deserto as noventa e nove e vai em busca da que se perdeu, até
encontrá-la? [...] E, indo para casa, reúne os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos
comigo, porque já achei a minha ovelha perdida” (15.4,6);

Moeda : “E, tendo-a achado, reúne as amigas e vizinhas, dizendo: Alegrai-vos comigo,
porque achei a dracma que eu tinha perdido” (15.9)

Filho : “porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E
começaram a regozijar-se [...] Entretanto, era preciso que nos regozijássemos e nos
alegrássemos, porque esse teu irmão estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado”
(15.24,32)

Logo que os perdidos são encontrados, uma celebração se inicia. O próprio Jesus declarou:
“Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido” (19.10). Jesus não está
interessado em ser um contador de histórias por excelência; ele está interessado em
explicar os significados que estão por trás da história. Um deles é a sua tarefa missionária.
Neste caso, os discípulos deveriam aprender que Jesus se importa com aqueles que estão
longe. Os perdidos são o objeto do seu amor e do seu sofrimento, já que ele não apenas
busca, mas salva.

MISSÃO A PARTIR DO DISCIPULADO


O discipulado, no relato de viagem, é crucial para o futuro da missão. Nesta seção vemos
Jesus rodeados pelos discípulos (seus companheiros) o tempo todo. Lucas nos mostra a
proximidade entre Jesus e os discípulos. É um discipulado no caminho, de lugar a lugar,
sob diferentes circunstâncias de vida. Muitas vezes Lucas afirma: “E seguiram para outra
aldeia” (Lc 9.56); “Indo eles caminho fora” (Lc 9.57); “Indo eles de caminho” (Lc 10.38).
Não há dúvida de que os discípulos são o foco da atenção de Jesus. Toda circunstância de
vida era uma oportunidade para o discipulado. Algo acontecia, e então Jesus tirava um
tempo para ensinar aos discípulos algo relativo à missão e ao Reino de Deus. É fascinante
ver quantas vezes Lucas usou expressões como “disse Jesus aos seus discípulos” ou “disse-
lhes Jesus” (Lc 10.23; 11.1,5; 12.15,22; 16.1; 17.1,22; 18.1,29,31). Isso significa que “o
discipulado cristão não é meramente a aceitação do ensinamento do mestre, mas uma
identificação da pessoa com o próprio modo de vida e do destino do mestre, um
seguimento que envolve intimidade e imitação” (Fitzmyer 1981:134). Umas das
perspectivas desenvolvidas por Jesus em seu discipulado era o seguimento dele. O
sofrimento é o que os discípulos deveriam esperar como o custo de seguir Jesus.

MISSÃO A PARTIR DO E COM SOFRIMENTO


Não é por acaso que a missão de Jesus é marcada pelo sofrimento. Na Galiléia, na cidade
de Nazaré, Jesus afirmou a sua missão sob rejeição (Lc 4.28,29). A caminho de Jerusalém,
sua primeira experiência numa aldeia samaritana foi a oposição das pessoas (Lc 9.53). em
Jerusalém, Jesus conduziu a sua missão sob rejeição, oposição e, mais tarde, o seu último
sofrimento, a morte.

O sofrimento é a marca patente da igreja através de toda a história. Aquele que pretender
seguir e proclamar Jesus deve aprender do seu sofrimento. Desde a Galiléia, Jesus avisou
os seus discípulos que ele sofreria: “dizendo: É necessário que o Filho do Homem sofra
muitas coisas, seja rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas;
seja morto e, no terceiro dia, ressuscite” (Lc 9.22). em sua tristeza por Jerusalém, ele
afirmou novamente que “no terceiro dia, terminarei” (Lc 13.22). no caminho de Jerusalém,
Jesus reuniu os Doze e disse a eles:

Tomando consigo os doze, disse-lhes Jesus: Eis que subimos para Jerusalém, e vai
cumprir-se ali tudo quanto está escrito por intermédio dos profetas, no tocante ao Filho do
Homem; pois será ele entregue aos gentios, escarnecido, ultrajado e cuspido; e, depois de
o açoitarem, tirar-lhe-ão a vida; mas, ao terceiro dia, ressuscitará (Lc 18.31-33).

Mesmo que “eles, porém, nada compreenderam acerca destas coisas; e o sentido destas
palavras era-lhes encoberto, de sorte que não percebiam o que ele dizia” (Lc 18.34), Jesus
estava preparando-os e ensinando-os não apenas no tocante ao que aconteceria com ele,
mas também a respeito do próprio futuro deles. Finalmente, em Jerusalém, ao ensinar no
Templo, “os principais sacerdotes, os escribas e os maiorais do povo procuravam eliminá-
lo” (Lc 19.47). Além disso, depois de sua ressurreição, Jesus aparece aos discípulos e
confirma o que já tinha tentado dizer três vezes: “e lhes disse: Assim está escrito que o
Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia” (Lc 24.46). Elben
Scheffler afirma que:

Nas exigências lucanas para que os seus seguidores tomem suas cruzes (9.23) e sigam-no
– em outras palavras, sigam-no mesmo até a morte [...] Jesus está dizendo que ele irá
sofrer e seus discípulos sofrerão também [...] o fato de que Lucas retrata o sofrimento de
Jesus e de seus discípulos de uma maneira muito semelhante é atestado pela correlação
explícita que Jesus faz com seu próprio sofrimento (1993:148).

Pode-se perguntar: Há alguma relação entre missão e sofrimento? Observemos a história


cristã! Ou ainda, deixemos a cidade de Jerusalém ilustrar este fato, cidade para a qual nos
voltamos agora.

3. A missão de Jesus em Jerusalém


A terceira seção da narrativa do Evangelho de Lucas, de 19.28 a 24.53, se passa na cidade
do destino, Jerusalém. “Esta parte do Evangelho de Lucas é grandemente devotada ao
ministério de Jesus no Templo de Jerusalém” (Fitzmyer 1981:1242). De acordo com
Fitzmyer, “toda a seção destinada a Jerusalém no evangelho [...] forma, para o
evangelista, o clímax geográfico do evangelho como um todo” (1981:1242). De fato, Lucas
já havia mencionado a cidade de Jerusalém na seção anterior (o relato de viagem) em
9.51,53; 10.30; 13.4,22,33,34; 17.11; 18.31; 19.11). “Mesmo uma leitura casual de
Lucas-Atos revela o lugar proeminente que Lucas atribui à cidade de Jerusalém e ao
Templo” (Chance 1988:1).

Jerusalém estava situada nas montanhas centrais de Israel, entre o Mar Mediterrâneo e o
Mar Morto. A cidade estava localizada na interseção de importantes rotas comerciais que
corriam de norte a sul e de leste a oeste. Jerusalém existia como uma pequena cidade
murada desde 2000 a.C. o Rei Davi tomou-a dos jebuseus, um clã cananeu, por volta de
1000 a.C. e fez dela sua capital. Quando Salomão tornou-se rei, ele aumentou o tamanho
da cidade de 11 para 32 acres, e ali construiu o seu templo. No final do século VIII a.C., o
Rei Ezequias fortaleceu as defesas da cidade construindo um túnel de 1750 pés em volta do
spring da cidade. Depois, em 587 a.C., o Templo, as casas e os muros da cidade foram
destruídos pelos babilônios depois de um grande cerco (2Rs 25.10), mas foram
posteriormente reconstruídos.

Jerusalém esteve sob um longo período de ocupação pelos persas, gregos e romanos. A
partir de 37 a.C., o Rei Herodes, o Grande, construiu muros mais fortes, a Fortaleza
Antonina, um moat , um palácio suntuoso e um aqueduto para trazer mais água. Os
romanos destruíram a cidade em 70 d.C. Depois disso, ela permaneceu como um pequeno
acampamento militar até que Constantino fez dela uma cidade sagrada para os cristãos do
século IV.

Se a ênfase das duas primeiras seções do Evangelho de Lucas estava na periferia e nas
pessoas que ali viviam, então na última seção Lucas enfatiza a cidade do destino, o centro
do poder religioso, monetário, de devoção espiritual e da própria vida. Não há dúvida de
que Jerusalém tem uma conotação especial para Jesus.

ENSINO E MINISTÉRIO DE JESUS EM JERUSALÉM


Foi em Jerusalém que Jesus ensinou, sofreu, morreu, foi sepultado e ali ele ressuscitou
dentre os mortos. Basicamente, o ministério de Jesus em Jerusalém foi desde o Templo até
o Monte das Oliveiras e desde o Monte das Oliveiras até o Templo. “Jesus ensinava todos os
dias no templo, mas à noite, saindo, ia pousar no monte chamado das Oliveiras e todo o
povo madrugava para ir ter com ele no templo, a fim de ouvi-lo” (Lc 21.37-38).

Na última cena do Templo do Evangelho de Lucas, além do mais, Lucas desejou retratar o
Templo como o lugar onde a vontade de Deus foi feita conhecida ao povo de Israel pelo
caminho do Messias. Mais ainda, uma investigação mais profunda da atividade de Jesus ao
ensinar a vontade de Deus revela que tal ensinamento tinha uma confiança escatológica
para Lucas (Chance 1988:59).

Neste sentido, é importante perceber que Lucas “substituiu ‘ensinamento’ por ‘proclamação
da vinda do Reino” (Chance 1988:60). Ao contrário das duas seções anteriores, Lucas
agora se refere ao Reino de Deus apenas quatro vezes, como um evento escatológico. O
povo devia estar atento ao fato de que quando certos eventos acontecem, “o Reino de
Deus está próximo” (Lc 21.31). Na última ceia de Jesus com os discípulos, ele declarou o
caráter escatológico do Reino dizendo: “Pois vos digo que nunca mais a comerei, até que
ela se cumpra no reino de Deus [...] pois vos digo que, de agora em diante, não mais
beberei do fruto da videira, até que venha o reino de Deus” (Lc 22.16,18).
Os receptores desta mensagem de salvação escatológica de Deus são todas as pessoas,
“pelo que Lucas quer dizer Israel como um todo. Aqui, Lucas retrata o Messias Jesus
confrontando pela última vez o povo de Deus com a mensagem da salvação” (Chance
1988:61). O ministério poderoso de Jesus em palavras e atos foi “diante de Deus e de todo
o povo” (Lc 24.19). “Diariamente, Jesus ensinava no templo; mas os principais sacerdotes,
os escribas e os maiorais do povo procuravam eliminá-lo; contudo, não atinavam em como
fazê-lo, porque todo o povo, ao ouvi-lo, ficava dominado por ele” (Lc 19.47-48).

Lucas nos informa que “Jesus ensinava todos os dias no templo, mas à noite, saindo, ia
pousar no monte chamado das Oliveiras e todo o povo madrugava para ir ter com ele no
templo, a fim de ouvi-lo” (Lc 21.37,38). O que Jesus ensinava? De Lucas 19.45 a 21.4,
encontramos sete ensinamentos de Jesus no Templo.

O primeiro ensinamento é a controvérsia a respeito de autoridade (Lc 20.1-8).


Três grandes autoridades representadas no Sinédrio estavam lá: os principais sacerdotes,
os escribas e os anciãos. O Templo estava sob a autoridade deles. O que estava em
questão neste episódio era a exousía de Jesus para ensinar no Templo – “Dize-nos: com
que autoridade fazes estas coisas? Ou quem te deu esta autoridade?” (Lc 20.2). Jesus
ofereceu a eles uma questão teológica, porque, afinal de contas, eles eram a autoridade
final no Templo, especialmente com respeito a assuntos religiosos. A questão teológica era
a respeito da origem do batismo de João: era do céu ou era de homens? Eles não tinham
escolha a não ser declarar a sua ignorância a respeito deste assunto. “Por fim,
responderam que não sabiam” (Lc 20.7). Jesus declarou sua autoridade diante deles
dizendo: “Pois nem eu vos digo com que autoridade faço estas coisas” (Lc 20.8).

O segundo ensinamento é a parábola dos lavradores maus (Lc 20.9-19). Mesmo


que esta parábola fosse destinada “ao povo” (Lc 20.9,16), “os escribas e os principais
sacerdotes procuravam lançar-lhe as mãos, pois perceberam que, em referência a eles,
dissera esta parábola; mas temiam o povo” (Lc 20.19). Jesus, nesta parábola, estava
falando a respeito de lavradores maus e servos. Jesus se colocava como um servo, aquele
que seria morto pelos lavradores maus da vinha. Jesus era “a pedra que os construtores
rejeitaram”, que “veio a ser a principal pedra, angular” (Lc 20.17).

O terceiro ensinamento é a controvérsia a respeito do pagamento de impostos a


César (Lc 20.20-26). Lucas declara a motivação desta ação no início do episódio:
“Observando-o, subornaram emissários que se fingiam de justos para verem se o
apanhavam em alguma palavra, a fim de entregá-lo à jurisdição e à autoridade do
governador” (Lc 20.20). Mais uma vez percebemos uma disputa pelo poder. Os líderes não
estavam convencidos ou satisfeitos com a autoridade de Jesus. Eles agora propõem uma
questão mais oficial, referente a impostos que deviam ser pagos a César. Ao dizer “dai,
pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, Jesus estava desafiando-os a
serem coerentes e comprometidos com o sistema econômico ao qual se submetiam, sob o
domínio de César. Mais uma vez, “não puderam apanhá-lo em palavra alguma diante do
povo; e, admirados da sua resposta, calaram-se” (Lc 20.26).

O quarto ensinamento é a controvérsia a respeito da ressurreição (Lc 20.27-40).


Os líderes tentavam de tudo para pegar Jesus numa armadilha. De uma questão política
pularam para uma religiosa. Esta controvérsia, sobre a ressurreição, é eminentemente
hermenêutica. Os saduceus vieram com sua exegese rabínica legalista e tentaram pegar
Jesus numa cilada a respeito do que a Lei de Moisés dizia a respeito do levirato. A questao
central era: “Esta mulher, pois, no dia da ressurreição, de qual deles será esposa? Porque
os sete a desposaram” (Lc 20.33). a hermenêutica de Jesus era pela vida, porque “Deus
não é Deus de mortos, e sim de vivos; porque para ele todos vivem” (Lc 20.38). Mais uma
vez, “Então, disseram alguns dos escribas: Mestre, respondeste bem! Dali por diante, não
ousaram mais interrogá-lo” (Lc 20.39,40).
O quinto ensinamento é a questão da identidade de Jesus (Lc 20.41-44). De, na
última controvérsia, “não ousaram mais interrogá-lo” (Lc 20.40), neste momento era a vez
de Jesus formular uma questão: “Como podem dizer que o Cristo é filho de Davi” (Lc
20.41). Jesus estava levantando uma questão sobre sua própria identidade. Muito curioso é
o fato de que Lucas nunca usou, no evangelho, a combinação “Jesus Cristo” – o nome e o
título juntos. O título “Cristo” foi mencionado sete vezes por Lucas entre os capítulos 20 e
24 (20.41; 22.67; 23.2,35,39; 24.26,46), evidenciando que o problema a respeito da
identidade de Jesus era muito relevante na última fase de seu ministério em Jerusalém.
Não houve resposta para a pergunta de Jesus.

O sexto ensinamento é a censura contra os escribas (Lc 20.45-47). O aviso de Jesus


foi: “Guardai-vos dos escribas, que gostam de andar com vestes talares e muito apreciam
as saudações nas praças, as primeiras cadeiras nas sinagogas e os primeiros lugares nos
banquetes; os quais devoram as casas das viúvas e, para o justificar, fazem longas
orações; estes sofrerão juízo muito mais severo” (Lc 20.46,47). Estava claro que Jesus
estava avisando os seus discípulos para que não fossem como os escribas. É fácil tornar-se
um religioso profissional. É fácil sermos competentes no que fazemos, deixando de ter
devoção, cuidado e amor, obtendo motivação na vaidade – este era o caso dos escribas.

O sétimo ensinamento é a oferta humilde da viúva pobre (Lc 21.1-4). O episódio


mostra a severidade com a qual Jesus critica o sistema religioso de sua época. Há duas
maneiras de se interpretar esta ação: como um exemplo de atitude generosa que devia ser
seguido pelos discípulos ou por alguém que estava sendo usado pelo sistema religioso.
Ambas são coerentes com a narrativa de Lucas. Como a primeira é comumente entendida e
aplicada neste texto, vou explorar um pouco mais a segunda. No aviso contra a motivação
dos escribas, Jesus disse que eles “devoram as casas das viúvas e, para o justificar, fazem
longas orações” (Lc 20.47). Assim que Jesus fez esta afirmação, Lucas diz que ele “estava
a observar” e “viu os ricos lançarem suas ofertas no gazofilácio. Viu também certa viúva
pobre lançar ali duas pequenas moedas” (Lc 21.1,2). É possível que Jesus tenha flagrado a
exploração religiosa do sistema do Templo, alienando os pobres. Esta interpretação é
congruente com a visão de Lucas do Templo. Devemos nos lembrar de que a primeira ação
de Jesus em Jerusalém foi ao Templo, e ele havia dito profeticamente que sua casa de
oração tinha sido transformada em “covil de salteadores” (Lc 19.46). se temos espaço em
nossa teologia para entendermos esta passagem desta forma, então esta casa,
ornamentada pelas oferendas (de ricos e pobres), estará sob o julgamento de Jesus.

PREDIÇÃO DO JULGAMENTO SOBRE JERUSALÉM


Jerusalém é fundamental na teologia lucana. Lucas nos informa que, quando Jesus estava
se aproximando de Jerusalém e vislumbrou a cidade, ele gemeu e disse:

Ah! Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz! Mas isto está agora
oculto aos teus olhos. Pois sobre ti virão dias em que os teus inimigos te cercarão de
trincheiras e, por todos os lados, te apertarão o cerco; e te arrasarão e aos teus filhos
dentro de ti; não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste a
oportunidade da tua visitação (Lc 19.42-44).

Jerusalém, como uma cidade e com o seu sistema, “não reconheceu a oportunidade” que
vinha sobre ela (Lc 19.44) [1] . Jesus era a oportunidade que vinha para Jerusalém, e da
mesma forma como ele fora rejeitado em Nazaré, assim também o seria em Jerusalém.
Jerusalém, de acordo com Jesus, estava contra os atos de Deus em favor dela. Ela
desenvolvera uma hostilidade contra aqueles que vinham “trazer a paz” (Lc 19.42),
preferindo a rejeição, ao invés de “reconhecer a oportunidade” (Lc 19.44). Como resultado,
a cidade se expôs ao julgamento, porque já “virão os dias” (Lc 19.43). O julgamento de
Jesus (“Discurso Apocalíptico”) sobre Jerusalém foi:
Quando, porém, virdes Jerusalém sitiada de exércitos, sabei que está próxima a sua
devastação. Então, os que estiverem na Judéia, fujam para os montes; os que se
encontrarem dentro da cidade, retirem-se; e os que estiverem nos campos, não entrem
nela. Porque estes dias são de vingança, para se cumprir tudo o que está escrito. Ai das
que estiverem grávidas e das que amamentarem naqueles dias! Porque haverá grande
aflição na terra e ira contra este povo. Cairão a fio de espada e serão levados cativos para
todas as nações; e, até que os tempos dos gentios se completem, Jerusalém será pisada
por eles (Lc 21.20-24).

De acordo com Peter Walker, “a principal causa do julgamento de Jerusalém, de acordo


com Lucas, está relacionada com a sua resposta a Jesus e aos seus seguidores” (1996:75).
Ao rejeitar Jesus, Jerusalém estava rejeitando também o próprio Deus, através do seu
Filho. E não era uma rejeição passiva – ela culminou com a morte de Jesus na cruz.

A CRUZ
Finalmente, a assembléia (o conselho dos anciãos do povo, tanto os principais sacerdotes
quanto os escribas) trouxe Jesus a Pilatos. A acusação feita por eles era: “Encontramos
este homem pervertendo a nossa nação, vedando pagar tributo a César e afirmando ser ele
o Cristo, o Rei” (Lc 23.2). Numa sentença que resume a missão geográfica de Jesus,
disseram: “Ele alvoroça o povo, ensinando por toda a Judéia, desde a Galiléia, onde
começou, até aqui” (Lc 23.5). neste sentido, Jesus e Barrabás estavam sendo acusados de
“sedição na cidade” (Lc 23.19) no entanto, eles decidiram libertar o assassino, Barrabás.

Mesmo sob esta situação dramática, Jesus encontrou forças para declarar suas últimas
palavras ao povo da cidade de Jerusalém:

Porém Jesus, voltando-se para elas, disse: Filhas de Jerusalém, não choreis por mim;
chorai, antes, por vós mesmas e por vossos filhos! Porque dias virão em que se dirá: Bem-
aventuradas as estéreis, que não geraram, nem amamentaram. Nesses dias, dirão aos
montes: Caí sobre nós! E aos outeiros: Cobri-nos! Porque, se em lenho verde fazem isto,
que será no lenho seco? (Lc 23.28-31).

Depois da declaração de Jesus (“Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!” – Lc 23.46), o
centurião é o primeiro a ser alcançado pela cruz, dizendo: “Verdadeiramente, este homem
era justo” (Lc 23.47). E ele adorou a Deus.

A RESSURREIÇÃO E A COMISSÃO
A ressurreição de Jesus tem um caráter de missão e para a missão. Jesus apareceu aos
discípulos para dar a eles a comissão para a continuidade para a missão. Encontramos a
Grande Comissão de Lucas em 24.44-49:

A seguir, Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco:
importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e
nos Salmos. Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras; e lhes
disse: Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no
terceiro dia e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a
todas as nações, começando de Jerusalém. Vós sois testemunhas destas coisas. Eis que
envio sobre vós a promessa de meu Pai; permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais
revestidos de poder.

Esta Grande Comissão tem cinco marcas indispensáveis da teologia de missão de Lucas:
1. Fundamento: “A seguir, Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei,
estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de
Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem
as Escrituras; e lhes disse: Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar
dentre os mortos no terceiro dia” (Lc 24.44-46). O cumprimento das Escrituras e o Senhor
ressurreto são pré-condições para a missão dos discípulos. Jesus é o cumprimento da Lei
de Moisés, dos Profetas e dos Salmos. Jesus é aquele que traz significância para a
Escritura. Ele cumpre esta Escritura ao ressuscitar dentre os mortos ao terceiro dia. Ao
ressuscitar dentre os mortos, a Escritura é cumprida. Este é o fundamento sobre o qual os
discípulos pregariam o arrependimento e o perdão em seu nome. Esta também é a ligação
entre Israel e a comunidade emergente.

2. Conteúdo: “que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados”


(Lc 24.47a). O conteúdo da missão é explícito: arrependimento e perdão. Este é um
chamado para a conversão com uma promessa, o perdão dos pecados. Conversão e perdão
são possíveis apenas quando pregados em nome de Jesus. Isso explica porque o “nome de
Jesus” tornou-se a fórmula cristã no livro de Atos. Os discípulos levaram esta instrução a
sério. (Senior e Sthulmueller 1995: 258).

3. Audiência: “a todas as nações, começando de Jerusalém” (Lc 24.47b). Já vimos a


importância de Jerusalém na teologia de missão de Lucas. A mensagem do evangelho deve
ser pregada a partir da audiência local (Jerusalém) em direção à global (todas as nações).
“Começando de Jerusalém” é uma clara indicação da continuidade com Israel. Por outro
lado, “a todas as nações” mostra uma descontinuidade com Israel. Lucas é coerente com
sua narrativa, demonstrando que Israel tem o privilégio de ser a primeira nação a ouvir a
mensagem de Deus. No entanto, Jerusalém não é o fim da missão – é o centro a partir do
qual a missão deve ser realizada em todas as nações. “Todas as nações” é o objetivo final
de Lucas, mostrando a universalidade da missão. As boas novas do evangelho não podem
ser restritas a nenhum lugar ou cultura. A missão de Jesus é uma missão mundial.

4. Agentes: “Vós sois testemunhas destas coisas” (Lc 24.48). tendo o fundamento, o
conteúdo e a audiência, o foco agora está sobre os agentes da missão: os companheiros de
Jesus. Os Doze possuem a chave para o nascimento, crescimento, liderança e expansão da
igreja. Eles não são testemunhas de algo que ouviram falar, mas de algo que viram. O que
eles viram? Eles viram a crucificação, a morte, a ressurreição e a ascensão de Jesus.
Conseqüentemente, eles se tornaram testemunhas, sendo instrumentos na mão de Deus
para proclamar a missão universal.

5. Autoridade: “Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai; permanecei, pois, na
cidade, até que do alto sejais revestidos de poder” (Lc 24.49). Como já reforçamos neste
estudo, missão e Espírito Santo são inseparáveis. O Espírito Santo é o agente da missão
por excelência. Mesmo tendo o fundamento, o conteúdo, a audiência e os agentes, a
missão sem a autoridade do Espírito Santo não é possível. A ordem de Jesus é clara:
“permanecei na cidade”. Eles deveriam permanecer na cidade por duas razões. A primeira,
porque Jesus enviaria a eles a promessa do Pai, que é o Espírito Santo – poder do alto.
Apenas através do poder do Espírito Santo os discípulos seriam capazes de testemunhar
para todas as nações. A segunda, porque eles deveriam começar um novo processo em
suas vidas – a comunidade do Senhor ressurreto, que anda no poder do Espírito Santo.
Esperando para que isso acontecesse, eles, em obediência, “estavam sempre no templo,
louvando a Deus” (Lc 24.53).

Ao concluir esta parte do estudo, é importante destacar dois pontos. Estivemos analisando
três momentos geográficos no Evangelho de Lucas: Galiléia, a jornada para Jerusalém e na
cidade de Jerusalém. Na Galiléia, Lucas se focaliza na missão de Jesus. Foi nesta seção que
encontramos a declaração de missão de Jesus na Sinagoga de Nazaré. O Espírito Santo
capacitou Jesus a proclamar as boas novas do Reino de Deus através da salvação,
libertação, perdão, cura e restauração. Isso significa missão a partir da centralidade do
Reino de Deus. Também foi na Galiléia que vimos a missão sendo desenvolvida a partir da
periferia, para aqueles que não tinham voz e poder – os marginalizados. A cidade de
Cafarnaum, além de suas vizinhanças, foi o local onde Jesus gastou mais tempo. Outro
conceito destacado por Lucas foi a missão a partir da autoridade de Jesus. Jesus é o
conteúdo do evangelho nesta seção.

Na segunda seção, a jornada para Jerusalém, Lucas destacou a missão dos discípulos. Este
foi o tempo usado por Jesus para preparar seus discípulos para oexercício da sua missão.
Como a missão vem da autoridade de Jesus, os discípulos deveriam entender que a missão
deveria ser realizada a partir da centralidade do Reino de Deus, como Jesus havia
demonstrado na Galiléia. Além disso, é no caminho que eles aprenderam, nos
ensinamentos de Jesus, através de suas palavras e discursos, as perspectivas da missão.
Finalmente, os discípulos aprenderam que a missão também tem como implicação o
sofrimento. Jesus estava preparando-os para um futuro próximo, no qual eles iriam sofrer
as conseqüências de segui-lo. Foi no caminho que Jesus esteve ensinando e discipulando os
seus seguidores, transferindo sua missão para eles.

O terceiro momento é diferente dos outros dois. O foco está na cidade do destino,
Jerusalém. Diferentemente da Galiléia, Samaria e Judéia, Jerusalém era o centro do poder
religioso, onde o Templo representava sua máxima expressão. O primeiro lugar no qual
Jesus entrou foi o Templo, que Jesus considerava sua casa (Lc 19.46). nesta seção, Lucas
concentra-se na perspectiva escatológica-cristológica do ministério de Jesus. Jesus agora
estava concentrando o seu ministério no Templo, ensinando ali diariamente. Os seus
ensinamentos eram cheios de perspectivas escatológicas. Podemos entender este momento
como um tempo de renovação, como missão na Casa de Israel? Provavelmente sim,
especialmente se observamos as palavras de julgamento ditas a Jerusalém e ao seu
Templo. Neste sentido, nem Israel e nem o Templo podem considerar a missão como um
privilégio para eles próprios. Mesmo que Lucas não tenha mencionado as palavras “para
todas as nações” em 19.46, sabemos que Jesus estava citando Isaías 56.7: “porque a
minha casa será chamada de Casa de Oração para todos os povos”. Esta é a missão para
todos os povos da terra. Jerusalém tinha um papel especial neste trabalho, porque é
ordenado que, em nome de Cristo,“se pregasse arrependimento para remissão de pecados
a todas as nações, começando de Jerusalém” (Lc 24.47). Jerusalém não é o fim da
pregação de arrependimento e perdão – como igreja-mãe, ela é o ponto de partida, já que
foi onde os discípulos receberam a Grande Comissão para pregar arrependimento e perdão
a todas as nações.

Tempo de meditação

Depois de uma longa aula como essa, só posso pedir uma coisa para você: ORE!!! Reserve
um tempo em solitude e deixe que o Espírito de Deus traga à sua memória o que ficou mais
forte nessa aula. Só podemos discernir as coisas quando antes somos discernidos pela
Palavra e pelo Espírito.
A IGREJA PRIMITIVA E A CIDADE

Resumo: Chegamos em Atos dos Apóstolos! Agora Lucas nos mostrará como a missão da
igreja se desenvolveu em (1) Jerusalém, (2) Samaria/Judéia e chegando finalmente a (3)
Roma. Assim como Jesus estava para Jerusalém, Paulo estava para Roma.

A Missão da Igreja em Jerusalém


Os discípulos, depois de Jesus ter sido elevado aos céus, “voltaram para Jerusalém,
tomados de grande júbilo; e estavam sempre no templo, louvando a Deus” (Lc
24.52,53). De Jerusalém eles poderiam espalhar as boas novas para todas as nações.
No entanto, antes disso, deveriam ficar na cidade para receber a promessa do Pai, o
poder do Espírito Santo. A comunidade dos discípulos estava reunida em Jerusalém
esperando pelo cumprimento das palavras de Jesus dadas a eles. Enquanto
esperavam, “estavam sempre no templo, louvando a Deus” (Lc 24.52,53). Este é o
contexto que estabelece a continuidade do evangelho com o livro de Atos.

A comunidade dos discípulos tinha agora a incumbência de difundir a missão até aos
confins da terra. A fim de alcançar esta tarefa missionária, os discípulos deveriam
cruzar muitas cidades e territórios. O propósito deste estudo não é analisar todos os
detalhes do livro de Atos, mas estudar as perspectivas missionárias desenvolvidas pela
comunidade nas cidades nas quais estiveram, anunciado as boas novas do Senhor
ressurreto, no poder do Espírito Santo.

Como já vimos no Evangelho de Lucas, também em Atos as cidades tinham um papel


importante na difusão da missão. “Não é um exagero dizer que quase todo o livro de
Atos fala de cidades; o trabalho missionário é quase limitado a elas” (Conn 1985:417).
Apenas para termos uma idéia da importância das cidades em Atos, veja quantas
vezes Lucas citou o nome das cidades mais importantes de seu tempo: Jerusalém, 59;
Cesaréia, 17; Antioquia, 19; Roma, 7. A palavra “cidade” aparece 43 vezes no livro de
Atos.

Da mesma forma como fizemos com o Evangelho de Lucas, também precisamos


entender a estrutura geográfica básica de Atos. Dois conceitos dominantes são
importantes em termos de estrutura em Atos:

Primeiro, Jesus de Nazaré é o Filho ungido Deus Altíssimo. Ele é dotado de todo poder
em sua própria mão, como um sinal da sua não divisão em relação ao Pai e ao Espírito
Santo. Tendo cumprido o período de sua humilhação e sofrimento terrestre,
endireitando o caminho da salvação para os homens, ele ascendeu às regiões celestes
e já administra, e através do Espírito Santo administrará, misericórdia, justiça e
verdade até o fim das eras. Segundo, este Cristo, apesar de cumprir literalmente todas
as promessas feitas a respeito do Messias, não é apenas salvador dos judeus, sejam
eles hebreus ou mesmo prosélitos, mas ele é a única e abundante esperança de
redenção universal sem qualquer limitação ou restrição de sexo, raça, lugar, época ou
situação social (Sitterly 1915:16)

É comumente aceito que "a seqüência de Jersusalém-Samria-até os confins da terra


norteia o movimento básico da narrativa" (Senior e Sthulmueller 1995:269). A missão
universal da igreja seguirá este esquema. Fitzmyer enfatiza que ele mostra
o progresso gradual da palavra de Deus a partir de Jerusalém, a igreja-mãe; em
direção ao resto da Judéia e Samaria (8.1,5,26), à Cesaréia Marítima (8.40), à Galiléia
(9.31), a Damasco (p.2), à Fenícia, Chipre e Antioquia da Síria (11.19), às províncias
romanas da Cilícia, Galácia, Ásia, Macedônia e Acaia, e finalmente a Roma, os próprios
“confins da terra” (At 1.8; 23.11; 28.14; cf PS. Sol. 8.15). Além disso, no terceiro
evangelho, tudo é orientado para Jerusalém; em Atos, tudo parte de Jerusalém – até
aos confins da terra (1998:56).

Existem algumas possibilidades, em termos da estrutura do livro de Atos, que


precisam ser exploradas. A primeira, de maneira simples, pode ser apresentada em
duas partes: 1. a missão cristã ao mundo judeu (2.42-12.24), e; 2. a missão cristã ao
mundo gentio (12.25-28.31). Outra possibilidade é dada por Fitzmyer (1998:120-123)
e se apresenta em sete seções:

1. A comunidade cristã primitiva (1.1-26);


2. A missão do testemunho em Jerusalém (2.1-8.4);
3. A missão do testemunho na Judéia e Samaria (8.5-40);
4. A Palavra é levada mais além: testemunho até para os gentios (9.1-14.28);
5. A decisão de Jerusalém a respeito dos cristãos gentios (15.1-35);
6. A missão e o testemunho universal de Paulo (15.36-22.21), e;
7. Paulo é aprisionado por causa do seu testemunho para o mundo (22.22-28.31).

Dois elementos estão muito claros nesta estrutura de Atos. Primeiro, ela se dá de
forma geográfica. “Esta perspectiva geográfica deu cores a todo o relato lucano da
história de Jesus e sua seqüência, e ainda revela um aspecto teológico importante do
propósito de Lucas-Atos” (Fitzmyer 1998:56). Segundo, ela possui uma perspectiva
missionária. A perspectiva geográfica é um elemento fundamental na narrativa de
Lucas para demonstrar a missão universal da comunidade. Se o propósito de Lucas é
demonstrar que a mensagem de Jesus deve ser pregada até aos confins da terra,
então as cidades, lugares e territórios são uma clara demonstração de que a
penetração das boas novas alcançaram o seu propósito. Como já foi destacado por
Harvie M. Conn:

O interesse do evangelho na ampla distribuição geográfica do


ministério de Jesus fica ainda mais evidente no livro de Atos. Ele é
reforçado pela história missionária da expansão étnica da cristandade
desde a Galiléia até aos confins da terra. E, como no evangelho, esta
expansão continua a se mover em uma direção urbana (1985:416).

Anteriormente estudamos o ministério urbano de Jesus nas cidades da Galiléia,


Samaria e Judéia (a caminho de Jerusalém) e na própria Jerusalém. Com o mesmo
olhar, neste capítulo, focalizaremos três momentos distintos. Em primeiro lugar,
estudaremos a missão da igreja de Jerusalém. Será essencial observarmos o
nascimento, o crescimento e a expansão da igreja através dos ministérios de Pedro,
Estevão e Filipe. Em segundo lugar, estudaremos a missão da igreja de Antioquia da
Síria. Finalmente, observaremos a missão de Paulo em cidades altamente influentes e
estratégicas, tais como: Antioquia da Psídia, Filipos, Tessalônica, Atenas, Corinto,
Éfeso e Roma. Vamos nos voltar para a igreja de Jerusalém a fim de compreendermos
as perspectivas da missão nesta cidade.
1.1. O Nascimento da Igreja
De Atos 1.1 a 8.3, Lucas enfatiza que a missão da igreja em Jerusalém é o epicentro da missão universal. É “a
cidade a partir da qual o testemunho deve ser conduzido por testemunhas e a Palavra que elas carregarão deve
ir adiante” (Fitzmyer 1998:199).

No prólogo de seu segundo volume, Lucas resume a missão da igreja em quatro instruções:

1. Conteúdo: o Reino de Deus (“depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas provas
incontestáveis, aparecendo-lhes continuamente durante quarenta dias e falando das cousas concernentes ao
Reino de Deus” – At 1.3). O conteúdo da missão da igreja ainda é o mesmo, tal como era para Jesus: o Reino
de Deus;

2. Ordem: não deixar Jerusalém (“determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém” – At 1.4). Eles
deveriam permanecer na cidade por pelo menos dois motivos. Primeiro, porque Jesus enviaria a eles a
promessa do Pai, que é o Espírito Santo – poder do alto. Apenas através do poder do Espírito Santo os
discípulos seriam capazes de testemunhar para todas as nações. A segunda, porque eles deveriam começar um
novo processo em suas vidas – a comunidade do Senhor ressurreto, que anda no poder do Espírito Santo.
Esperando para que isso acontecesse, eles, em obediência, “estavam sempre no templo, louvando a Deus” (Lc
24.53).

3. Promessa: o batismo do Espírito Santo (“mas que esperassem a promessa do Pai, a qual, disse ele, de
mim ouvistes” – At 1.4). Da forma como Jesus fora batizado no início de seu ministério, assim também os
discípulos receberiam o mesmo Espírito, que concederia a eles autoridade e confiança para pregar as boas
novas.

4. Comissão: testemunho para o mundo (“e sereis minhas testemunhas” – At 1.8). Não há chamado sem
missão e não há missão sem chamado. Capacitados pelo Espírito Santo, os discípulos são chamados a
proclamar a mensagem do Reino de Deus nas cidades do mundo, começando de Jerusalém, Judéia, Samaria e
até aos confins da terra.

Estas instruções demonstram a continuidade entre Jesus e sua igreja através da presença do Espírito Santo.
Elas também demonstram a continuidade entre Israel e a igreja, já que eles estavam esperando pela
restauração do reino de Israel (conforme Atos 1.1-7 e também Lucas 17.20). É importante destacar que Jacob
Jervell, em sua compreensão a respeito da restauração de Israel e a salvação dos gentios, entende que:

O relato lucano da mensagem cristã não pode mais, de maneira coerente, ser interpretado no sentido de
significar que a proclamação cristã primitiva estava direcionada a todos os povos sem nenhuma preocupação
pela posição especial de Israel dentro da história da salvação (1972:42).

Jervell ressalta três teses da teologia de missão de Lucas em relação a Israel e os gentios. Sua primeira tese é
que Israel está dividido em dois grupos: os contritos e os não-contritos. Como conseqüência, sua segunda tese
é que Israel está agora caracterizado e identificado como um povo de arrependimento (cristão) e de cegueira
(judeus). Ele afirma que Israel é constituído não apenas de judeus e gentios, mas da porção arrependida de
Israel. Finalmente, sua terceira tese é que os gentios têm uma participação na salvação. Eles agora participam
das promessas de Israel. A salvação de Deus deve prosseguir, a partir do Israel restaurado, em direção aos
gentios. Esta participação na salvação é o cumprimento das promessas a Israel (Jervell 1972:42,43). Isso
significa que o nascimento da igreja em Atos tem a ver com a restauração de Israel. Por que a missão para os
gentios foi acionada? Será porque Israel rejeitou a mensagem divina? “É mais correto dizer que apenas
quando Israel aceitou o evangelho o caminho para os gentios pôde ser aberto. A aceitação da mensagem teve
lugar, primariamente, através da comunidade judaico-cristã em Jerusalém” (Jervell 1972:55).

Em obediência às instruções de Jesus, os discípulos “voltaram para Jerusalém, do monte chamado Olival” (At
1.12), aproximadamente a um quilômetro da cidade. Como eles seriam capazes de conduzir esta missão? A
igreja precisaria de liderança, poder, vida em comunhão, capacidade para resolver conflitos, proclamar o
evangelho e ter firmeza diante da perseguição.

A igreja em Jerusalém nasceu sob um propósito missionário. No poder do Espírito


Santo a igreja é chamada a proclamar o Reino de Deus a todas as nações, tendo
Jerusalém como plataforma de lançamento. O resultado é crescimento!

1.2. O Crescimento da Igreja


Orlando Costas afirma que, de Atos 1.12 a 8.3, podemos observar o crescimento da igreja
em quatro dimensões: orgânica, diaconal, conceitual e numérica (Para maiores estudos
sobre Costas, veja Orlando E. Costas: Mission Theologian on the Way and at the
Crossroads, por Antonio Carlos Barro - Tese de doutorado apresentada no Fuller Theological
Seminary).

Crescimento Orgânico
O crescimento orgânico da igreja está relacionado com a sua dimensão interna (centrípeta).
A definição de Costas de crescimento orgânico é:

Por crescimento orgânico entendemos o desenvolvimento interno da comunidade de fé. Ele


tem a ver como sistema de relação entre os membors: sua forma de governo, sua
estrutura financeira, seus líderes, o tipo de atividade na qual investe seu tempo e recursos
e sua celebralção cutural(1974:90).

O organismo precisa de organização, e a igreja em Jerusalém descobriu isto logo em seu


estágio inicial. Pedro, citando o texto de Salmo 109.8, disse “tome outro o seu [Judas]
encargo” (At 1.20). É bem evidente que a liderança de Pedro nesta fase da igreja. A igreja
já “compunha-se [...] de umas dento e vinte pessoas” (At 1.15), e Pedro sentiu a
necessidade de ter mais alguém “para preencher esta vaga neste ministério e apostolado”
(At 1.25). Então, a Matias foi “votado lugar com os onze apóstolos” (At 1.26).

Outro momento relacionado à liderança da igreja nesta fase foi a escolha dos sete (At 6.1-
7). Um dos problemas da igreja que cresce rapidamente a um número maior é a
possibilidade de não perceber, negligenciar e ignorar seu próprio povo, especialmente
aqueles que estão em necessidade. Era exatamente este o caso da igreja de Jerusalém.
“Ora, naqueles dias, multiplicando-se o número dos discípulos, houve murmuração dos
helenistas contra os hebreus, porque as viúvas deles estavam sendo esquecidas na
distribuição diária” (At 6.1). Devemos nos lembrar de que o número de discípulos já era de
mais de cinco mil (At 4.4; 5.14). A decisão dos apóstolos foi escolher sete homens para
cuidar daqueles que estavam em necessidade. Eles eram Estevão, Filipe, Prócoro, Nicanor,
Timão, Pármenas e Nicolau (At 6.5). Os apóstolos consentiram e “lhes impuseram as mãos”
(At 6.7).

Outra marca do crescimento orgânico da igreja em Jerusalém era a sua comunhão. A


comunidade tinha um sentimento de união. Eles “estavam juntos” (At 2.44) e
“perseveravam unânimes no templo, partiam o pão de casa em casa” (At 2.46). Ensino,
comunhão à mesa, oração e adoração são essenciais para uma nova igreja, a fim de
estabelecer identidade, confiança e fidelidade à missão. O crescimento orgânico, de acordo
com o exemplo desta igreja, não é um fim em si mesmo. O propósito final é a missão. A
conseqüência final do crescimento interno desta igreja foi o evangelismo. O estilo de vida
daquelas pessoas produziu uma nova aparência para os de fora – eles contavam com a
simpatia do povo (At 2.47). Como resultado, “acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que
iam sendo salvos” (At 2.47).
Crescimento Diaconal
O crescimento diaconal (ou encarnacional) da igreja está relacionado com a sua dimensão
interna-externa (centrípeta-centrífuga). A definição de Costas para o crescimento diaconal
é:

Por crescimento diaconal entendemos a intesidade do serviço que a igreja presta ao


mundo, como prova concreta do amor redentor de Deus. Essa dimensão envolve o impacto
que o ministério reconciliador da igreja exerce sobre o mundo, o seu grau de participação
na vida, conflitos, temores e esperanças da sociedade e a medida em que seu serviço ajuda
a aliviar a dor humana e a transformar as condições sociais que têm concenado milhões de
homens, mulheres e crianças à pobreza (1974:90 ).

Parece que nesta igreja não havia conflito entre os de dentro e os de fora. Eles ajudavam-
se a si mesmos concomitantemente. Os crentes ajudavam uns aos outros vendendo “as
suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha
necessidade” (At 2.45). As suas posses eram graciosamente compartilhadas:

Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava


exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum. Da
multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente
sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum. Pois nenhum
necessitado havia entre eles, porquanto os que possuíam terras ou casas, vendendo-as,
traziam os valores correspondentes (At 4.32-35).

Dois exemplos podem ser vistos para ilustrar esta questão do compartilhar das posses.
Positivamente, isto é visto em Barnabé. Ele vendeu um campo, “trouxe o preço e o
depositou aos pés dos apóstolos” (At 4.37). Negativamente, há o caso de Ananias e suas
esposa Safira. A motivação deles era totalmente contrária à de Barnabé. A motivação deles
era impressionar os apóstolos, mostrando a sua generosidade. No entanto, Ananias “reteve
parte do preço e, levando o restante, depositou-o aos pés dos apóstolos” (At 5.2). A
conseqüência desta ação foi a morte (At 5.5,10).

Outro exemplo de crescimento diaconal, já mencionado na seção acima, é a escolha dos


sete que deveriam servir às mesas, especialmente às viúvas pobres.

Na dimensão externa (centrífuga) deste crescimento, podemos observar a ação da igreja


com relação aos doentes, proclamando a cura. Pedro disse poderosamente ao mendigo
coxo: “Não possuo nem prata nem ouro, mas o que tenho, isso te dou: em nome de Jesus
Cristo, o Nazareno, anda!” (At 3.6). Ele e João foram levados diante do Sinédrio por causa
desta ação. Esta igreja estava do lado de foras, nas ruas. “E crescia mais e mais a multidão
de crentes [...] a ponto de levarem os enfermos até pelas ruas e os colocarem sobre leitos
e macas, para que, ao passar Pedro, ao menos a sua sombra se projetasse nalguns deles”
(At 5.14,15).

Crescimento Conceitual
O crescimento conceitual está relacionado à fé e à identidade da igreja. Também se
relaciona com o nível de maturidade da igreja, enfatizando o ensino. A definição de Costas
para crescimento conceitual é:

Por crescimento conceitual nos referimos à expansão na inteligência da fé: o grau de


consciência que a comunidade eclesial tem a respeito da sua existência e razão de ser, sua
compreensão ad fé cristã (as Escrituras), sua interação com a história dessa fé e sua
compreensão do mundo que a rodeia (1974:90).
A espiritualidade é essencial para este crescimento. “Todos estes perseveravam unânimes
em oração, com as mulheres, com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele” (At 1.14). A
ligação entre oração e crescimento de igreja é indispensável. A história dos avivamentos é,
na maioria das vezes, relacionada a um grupo (geralmente pequeno) que ora, jejua e
busca a face do Senhor. Este é o caso da igreja em Jerusalém, que estava constantemente
em oração. Este grupo perseverava “na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do
pão e nas orações [...] louvando a Deus” (At 2.42,47). Os líderes da igreja estabeleceram
um exemplo para que os outros pudessem seguir. Esta igreja sabia que seus líderes eram
dependentes de Deus. Pedro e João não apenas “subiam ao templo para a oração da hora
nona” (At 3.1), mas também se posicionaram firmemente diante do Sinédrio, no poder de
Jesus. Quando voltaram para a comunidade e relataram o acontecido, “ouvindo isto,
unânimes, levantaram a voz a Deus e disseram: Tu, Soberano Senhor, que fizeste o céu, a
terra, o mar e tudo o que neles há” (At 4.24). “Tendo eles orado, tremeu o lugar onde
estavam reunidos; todos ficaram cheios do Espírito Santo e, com intrepidez, anunciavam a
palavra de Deus” (At 4.31).

A oração era de importância vital para os apóstolos. Vendo a possibilidade de estarem se


preocupando com muitas atividades, eles disseram: “quanto a nós, nos consagraremos à
oração e ao ministério da palavra” (At 6.4). Como resultado, apresentaram aqueles que
receberam a tarefa de servir às mesas “perante os apóstolos, e estes, orando, lhes
impuseram as mãos” (At 6.6).

Finalmente, é através da oração que os discípulos encontraram força e coragem para pagar
o preço do seguimento de Jesus. Este foi o caso de Estevão. Enquanto as pessoas estavam
apedrejando Estevão, ele “invocava e dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito!” (At
7.59).

Crescimento Numérico
O crescimento numérico está relacionado com a incorporação de novos crentes à
comunidade. Como resultado da pregação e da ação da igreja, muitos são adicionados à
sua vida comunitária. A definição de Costas para o crescimento numérico é:

Por crescimento numérico entendemos a reproduçaõ que o povo de Deus experimenta ao


proclamar o evangelho, chamando homens e mulheres ao arrependimento de seus pecados
e à fé em Jesus Cristo como Senhor e Salvador de suas vidas como também incorporando
numa comunidade local de crentes aqueles que respondem afirmativamente, insrindo-os na
luta do reino contra o exército do mal (1974:90 ).

O pequeno grupo de pessoas composto pelos apóstolos estava constantemente reunido,


junto a Maria, a mãe de Jesus, e seus irmãos (At 1.14). De um pequeno salão, eles
começaram a crescer ao número de aproximadamente “cento e vinte” (At 1.15). Destes
cento e vinte, pulavam agora para três mil – “os que lhe aceitaram a palavra foram
batizados, havendo um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas” (At 2.41). De
acordo com a fidelidade desta igreja, que seguia no cumprimento de sua missão,
“acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos” (At 2.47). Dos três mil,
passaram a cinco mil – “muitos, porém, dos que ouviram a palavra a aceitaram, subindo o
número de homens a quase cinco mil” (At 4.4). Dia após dia, “crescia mais e mais a
multidão de crentes, tanto homens como mulheres, agregados ao Senhor” (At 5.14).
Sabemos ainda que naqueles dias ainda estava “multiplicando-se o número dos discípulos”
(At 6.1). E. por fim, “crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número
dos discípulos; também muitíssimos sacerdotes obedeciam à fé” (At 6.7).

A igreja deve crescer de forma equilibrada, em relacionamento (orgânico), em serviço


(diaconal), em fé (conceitual) e em número (numérico). Se a igreja reforça uma destas
dimensões em detrimento das outras, então está começando a se tornar uma igreja não-
integral.

1.3. A Expansão da Igreja


A expansão da igreja de Jerusalém estava relacionada ao Espírito Santo e a três
personagens: Pedro, Estevão e Filipe. O Espírito Santo é, certamente, o mais destacado, já
que a missão não pode ser realizada sem ele. Através dele, a igreja, Pedro, Estevão e Filipe
seriam capazes de espalhar as boas novas do Reino de Deus.

Missão a partir do Espírito Santo


Lucas menciona a palavra “Espírito” 21 vezes de 1.1 a 8.4. o Espírito Santo é o agente mais
importante da missão de acordo com a visão de Lucas. De fato, “Lucas apresenta a
primeira grande missão das testemunhas apostólicas como sendo no Pentecostes”
(Fitzmyer 1998:232). A experiência do Pentecostes em Jerusalém (At 2.5) é o cumprimento
da ordem de Jesus para que permanecessem na cidade até que fossem revestidos de poder
(Lc 24.49). Havia ali pessoas das mais diversas áreas: partos, medos, elamitas, da
Capadócia, Ponto, Ásia, Frigia, Panfília, Egito, partes da Líbia, Cirene, Roma, cretenses e
árabes.

O que é de fundamental importância no derramamento do Espírito Santo? É a missão para


todas as nações. A partir de um texto de Joel, Lucas nos informa que “acontecerá nos
últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne” (At 2.17).
Lucas menciona todos estes catorze lugares, mesmo que de uma forma bem superficial,
para demonstrar o cumprimento desta promessa de que “toda a carne” seria receptora
deste derramar. Ao fim do discurso de Pedro à multidão, ele diz: “E acontecerá que todo
aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (At 2.21). A salvação deve ser o
resultado do Pentecostes. “No dia do Pentecostes, Cristo, através do poder do Espírito
Santo, abre as portas e envia os discípulos para o mundo” (Bosch 1996:40). A Tabela 2 nos
mostra os efeitos de longo alcance do Pentecostes:

Povos Características

Região sudeste do Mar Cáspio, que nos tempos do Novo Testamento


Partos alcançava até o Rio Eufrates. Os partos eram os sucessores dos antigos
persas e tornaram-se adversários dos romanos.

Medos Povo indo-europeu que habitava a área ao sudoeste do Mar Cáspio.

Povo que habitava Elam, o distrito ao norte do Golfo Pérsico, próximo à parte
Elamitas
inferior do Rio Tigre e ao sul da região dos medos.

Judéia A área na qual se encontrava Jerusalém.

Um território na parte leste da Ásia Menor, ao sul de Ponto e oeste da


Capadócia
Armênia.

Era, originalmente, o nome do Mar Negro, mas veio a designar a área da


Ponto
fronteira deste mar na parte nordeste da Ásia Menor.

Ásia Era a província romana da Ásia Menor, formada em 133 a.C.


Frigia Era a maior área no centro da Ásia Menor.

Era um distrito costeiro na região sul da Ásia Menor, a leste da Lícia e oeste
Panfília
da Cilícia, ao sul da Psídia.

Egito Um antigo país no continente africano, lar dos antigos faraós.

Partes da Líbia
Era um território na costa norte da África, cuja capital era Cirene.
e Cirene

Este é o nome de uma cidade, e não de um território, o único local que não
Roma
estava na área leste do Mediterrâneo.

Do oeste (habitantes da ilha de Creta) e do leste (povos do deserto da Síria,


Cretenses e
a oeste da Mesopotâmia e leste do Orontes, e da península limitada pela
Árabes
Golfo Pérsico, Oceano Índico e Mar Vermelho).

Tabela 2: As nações representadas no Pentecostes (Fitzmyer 1998:240-243)

A missão não pode ser realizada pelos próprios agentes. Ela só é feita possível através do e
com o poder do alto. Da mesma forma como o Espírito Santo estava sobre Jesus (“o
Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu” – Lc 4.18), assim o Espírito
também estava sobre os discípulos, ungindo-os para fazer crentes em todas as nações.
Vamos deter nossa atenção em dois destes discípulos, Pedro e Estevão, a fim de observar
como eles realizaram a sua missão na igreja. Dois elementos da sua missão devem ser
destacados: a importância dos seus discursos e a instrumentalidade dos sinais e
maravilhas.

Missão a partir da pregação


“Os discursos missionários aos judeus (e aos tementes a Deus Cornélio e seus associados)
dominam a primeira porção do livro” (Conzelmann 1987:xliv). A pregação é muito
importante nesta fase da igreja em Jerusalém. Por quê? Devido ao fato de que “os
discursos se adequam a várias realidades sociais e geográficas aludidas em Atos 1.8,
demonstrando através de amostras selecionadas como a mensagem se espalhou de
Jerusalém até aos confins da terra, adaptando-se às respectivas circunstâncias ao longo do
caminho” (Bayer 1998:258-259). Os discursos de Pedro (três) e Estevão (um) têm uma
função importante na narrativa lucana, revelando missiologia através deles.

O primeiro discurso de Pedro (At 2.14-40) é endereçado à multidão no Pentecostes.


Pedro lhes dá uma compreensão teológica do significado e da significância do Pentecostes.
O elemento missiológico deste discurso é a convocação de “toda a casa de Israel” (At 2.36)
para o arrependimento e conversão – “arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em
nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito
Santo” (At 2.38). Como resultado, “os que lhe aceitaram a palavra foram batizados,
havendo um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas” (At 2.41).

O segundo discurso de Pedro (At 3.12-26) é endereçado à multidão no Templo. Pedro


exorta o povo judeu ao arrependimento pela crucificação do messias. “É, novamente, um
discurso missionário, endereçado aos judeus, um sermão querigmático no qual Pedro
repete a proclamação cristã básica: Deus glorificou seu servo Jesus, ressuscitando-o dentre
os mortos, e em seu nome aquele mendigo tinha sido curado” (Fitzmyer 1998:282). Este
discurso acontece logo depois de Pedro e João terem curado um mendigo coxo “em nome
de Jesus Cristo, o Nazareno” (At 3.6). “Pedro, de fato, desafia os judeus em Jerusalém a
clamar pelo “nome de Jesus”, ou seja, a colocar a sua fé nesta pessoa a quem aprouve
Deus enviar ao seu meio para o próprio benefício deles” (Fitzmyer 1998:283).

O terceiro discurso de Pedro (At 4.5-12) é endereçado ao Sinédrio. Pedro testemunha


que um homem abandonado fora curado pelo poder (nome) de Jesus. Novamente, este é
um discurso missionário. Com firmeza e “cheio do Espírito Santo” (At 4.8), Pedro proclama
a salvação ao Sinédrio e ao “povo de Israel” (At 4.10), dizendo: “tomai conhecimento, vós
todos e todo o povo de Israel, de que, em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, a quem vós
crucificastes, e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, sim, em seu nome é que este
está curado perante vós. Este Jesus é pedra rejeitada por vós, os construtores, a qual se
tornou a pedra angular. E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não
existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos”
(At 4.10-12).

Finalmente, o quarto discurso pertence a Estevão, e foi proferido perante o


Sinédrio (At 7). Estevão faz uma longa recapitulação da história judaica e acusa os judeus
de matarem o Messias. Estevão proferiu este discurso em resposta às acusações da
sinagoga composta de judeus de Cirene, Alexandria, Cilícia e Ásia. Eles “discutiam com
Estevão” (At 6.9). Que tipo de discurso Estevão pregou? De acordo com Fitzmyer, “o
discurso tenta provar que Deus tem estado trabalhando constantemente na história do seu
povo, e tem constantemente trazido o bem sobre o mal” (1998:364). Neste sentido, o
discurso “não era querigmático ou missionário” (Fitzmyer 1998:364). Se este discurso
busca provar que Deus tem estado trabalhando constantemente na história do seu povo,
então ele é claramente uma atestação da missio Dei. E por que Deus tem estado
trabalhando na história do seu povo? É porque a missão é “o movimento do amor de Deus
em direção ao seu povo, uma vez que Deus é uma fonte de amor” (Bosch 1996:390).
Estevão está fazendo uma convocação aos judeus que são participantes como agentes
ativos na história da salvação. Em sua conclusão, ele disse:

Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvidos, vós sempre resistis ao


Espírito Santo; assim como fizeram vossos pais, também vós o fazeis. Qual dos profetas
vossos pais não perseguiram? Eles mataram os que anteriormente anunciavam a vinda do
Justo, do qual vós agora vos tornastes traidores e assassinos, vós que recebestes a lei por
ministério de anjos e não a guardastes (At 7.51-53).

Em outras palavras, Estevão está tentando dizer: 1. vocês vão resistir ao Espírito Santo, da
mesma forma que os seus antecessores?; 2. vocês vão imitar aqueles que mataram os
profetas?; 3. vocês vão negligenciar e desobedecer a Lei? Fica claro que Estevão estava
sendo um profeta para eles (como outros no passado, eles o matariam). Justiça e
condenação estavam incluídas neste discurso. No entanto, Estevão ainda tentava
convencê-los a não resistir ao Espírito Santo e a arrepender-se pela morte do Messias,
tornando-se parte da história da salvação como agentes missionários de Deus.

Como estes discursos se relacionam com a missão na cidade? É importante perceber que os
discursos são uma resposta apologética-teológica, considerando o contexto em questão.
Pregar, independentemente da forma (apologética, confrontacional, verbal e
encarnacional), sempre representou uma forma eficaz de anunciar as boas novas na
cidade. À pregação do evangelho ao longo do caminho, de lugar em lugar, de cidade em
cidade, a resposta pode ser tanto negativa quanto positiva. A missão da igreja na cidade
envolve a pregação, a proclamação e o ensino (At 5.21,25,28,42). Além disso, a igreja
deve exercer sua voz profética. Os elementos comuns destes quatro discursos são as
petições pela justiça e a denúncia das atitudes daqueles que rejeitam Jesus. “A missão
como um luta pela justiça” (Bosch 1996:400) estava na mente de Pedro e Estevão, mesmo
nestas situações tão difíceis.
Missão a partir de sinais e maravilhas
A terceira parcela que integra a fórmula do alcance da igreja de Jerusalém, somando-se ao
Espírito Santo e à pregação, é composta pelos sinais e maravilhas. Jesus reuniu os Doze e
deu a eles “Tendo Jesus convocado os doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os
demônios, e para efetuarem curas. Também os enviou a pregar o reino de Deus e a curar
os enfermos” (Lc 9.1,2). Os apóstolos foram investidos da autoridade de Jesus para usar
este poder como um instrumento na proclamação do Reino de Deus.

Agora, os apóstolos e discípulos estão na cidade de Jerusalém, o monte sagrado de Deus e


o símbolo do poder religioso. Jesus foi questionado, no passado, sobre a fonte de sua
autoridade (“Dize-nos: com que autoridade fazes estas coisas? Ou quem te deu esta
autoridade?” (Lc 20.2). Agora, é a vez dos apóstolos: “Com que poder ou em nome de
quem fizestes isto? ” (At 4.7). O sumo sacerdote, os sacerdotes, anciãos e a assembléia
dos anciãos de Israel não podia conceber que “homens iletrados e incultos” (At 4.13)
realizavam tais atos poderosos e maravilhas.

Da mesma forma como este assunto foi controverso junto aos legisladores de Jerusalém,
ele ainda é controverso junto aos líderes da igreja de hoje. Será possível incluir “sinais e
maravilhas” em Atos 1.8? É claro que este é o poder pelo qual os discípulos estavam
esperando. Esta é a promessa, que é o Espírito Santo. Este poder permitiria que os
discípulos fossem testemunhas de Jesus, “tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e
Samaria e até aos confins da terra” (At 1.8). No entanto, haveria algum espaço em nossa
teologia para também interpretar este poder como sinais e maravilhas? Se a resposta for
não, então estamos em dissonância com o que os apóstolos faziam no seu testemunho “em
Jerusalém”, a primeira fase da comissão de Jesus.

Pedro, ao se referir à profecia de Joel em seu discurso à multidão, disse: “Mostrarei


prodígios em cima no céu e sinais embaixo na terra: sangue, fogo e vapor de fumaça” (At
2.19). Desafiando a multidão, ele disse: “Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus,
o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os
quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis” (At
2.22). Lucas nos informa que “muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos
apóstolos” (At 2.43). Um deles foi a cura do mendigo coxo. Esta cura traz uma
compreensão bem teológica da fonte destes sinais e maravilhas. Pedro disse ao povo:
“Israelitas, por que vos maravilhais disto ou por que fitais os olhos em nós como se pelo
nosso próprio poder ou piedade o tivéssemos feito andar? ” (At 3.12). Não era pelo poder
de Pedro; era pelo poder do Espírito Santo. Como resultado desta cura, Pedro e João foram
obrigados a relatar os detalhes do que aconteceu diante do Sinédrio para a igreja. Então,
“ouvindo isto, unânimes, levantaram a voz a Deus [em louvor]” (At 4.24), clamando:
“estendes a mão para fazer curas, sinais e prodígios por intermédio do nome do teu santo
Servo Jesus” (At 4.30). Lucas nos informa que “com grande poder, os apóstolos davam
testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça” (At
4.33).

Os apóstolos encheram Jerusalém de sinais e maravilhas. Esta passagem é muito


importante para compreendermos este conceito de missão na cidade:

Muitos sinais e prodígios eram feitos entre o povo pelas mãos dos apóstolos. E costumavam
todos reunir-se, de comum acordo, no Pórtico de Salomão. Mas, dos restantes, ninguém
ousava ajuntar-se a eles; porém o povo lhes tributava grande admiração. E crescia mais e
mais a multidão de crentes, tanto homens como mulheres, agregados ao Senhor, a ponto
de levarem os enfermos até pelas ruas e os colocarem sobre leitos e macas, para que, ao
passar Pedro, ao menos a sua sombra se projetasse nalguns deles. Afluía também muita
gente das cidades vizinhas a Jerusalém, levando doentes e atormentados de espíritos
imundos, e todos eram curados (At 5.12-16)
É muito significativo que as pessoas levavam “os enfermos até pelas ruas” (At 5.15) e que
“afluía também muita gente das cidades vizinhas a Jerusalém, levando doentes e
atormentados de espíritos imundos, e todos eram curados” (At 5.16). Esta é uma área na
qual a igreja de hoje precisa ser desafiada. Esperamos que as pessoas venham até nós, e
as pessoas esperam que vamos a elas. O rosto da igreja urbana deve ser o rosto da cidade.
Se a igreja vai a ela, então ela vem até a igreja. Como podemos ir até as pessoas? Como
Estevão fez: “cheio de graça e poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo” (At
6.8). O Espírito não está confinado ao ministério dos apóstolos. Estevão, o primeiro
escolhido de uma lista de sete, não apenas realizou sinais e maravilhas entre o povo como
também testificou diante do Sinédrio que Deus levou o seu povo para fora do Egito
“fazendo prodígios e sinais” (At 7.36).

Como resultado do ministério e do discurso de Estevão, “Eles, porém, clamando em alta


voz, taparam os ouvidos e, unânimes, arremeteram contra ele. E, lançando-o fora da
cidade, o apedrejaram.” (At 7.57,58). Jerusalém, como uma cidade, era muita santa para
ter um homem sendo morto em suas ruas. No entanto, fora da cidade tudo era permitido!

Sinais e maravilhas não são um fim em si mesmos. Eles são instrumentos do poder de
Deus para libertar as pessoas. O propósito final é fazer das pessoas crentes em Jesus Cristo
– “E crescia mais e mais a multidão de crentes, tanto homens como mulheres, agregados
ao Senhor” (At 5.14).

Não há dúvida de que o alcance da igreja de Jerusalém é um resultado da presença do


Espírito Santo, dando firmeza aos apóstolos para pregar as boas novas de Jesus Cristo
ressuscitado. Além disso, pelo poder do Espírito Santo, os apóstolos realizaram sinais e
maravilhas, os quais resultaram em salvação. Proclamação e ação (palavras e atos)
andavam juntas na expansão desta igreja. Na próxima seção geográfica de sua narrativa,
Lucas começa a nos mostrar, uma nova fase da igreja: a missão da igreja na Judéia e
Samaria.

2. A Missão da Igreja na Judéia e em Samaria


Deixando Jerusalém, entramos na segunda fase da missão no livro de Atos. De 8.5 a 12.25,
Lucas enfatiza a missão na Judéia e em Samaria. Os apóstolos decidiram ficar em
Jerusalém e, com exceção deles, todos foram espalhados por toda a Judéia e Samaria,
como resultado da “grande perseguição contra a igreja em Jerusalém” (At 8.1). Neste
momento, os ministérios de Filipe, Barnabé e Paulo são destacados. No entanto, Paulo é a
figura central na narrativa de Lucas. A missão cristã na Judéia e em Samaria é
caracterizada pelos sinais e maravilhas, pelas perseguições, por mal-entendidos teológico-
culturais, pelo foco no “outro” (o povo não-judeu) e pela alegria proporcionada pelo
contínuo crescimento numérico da igreja.

Missão a partir de sinais e maravilhas


Lucas inicia a sua narrativa em Samaria com Filipe*. Fitzmyer Entende que este “não é o
Filipe mencionado em 1.13, um dos Doze, nem o mencionado em João 12 [...] Este é Filipe,
o evangelista, um dos Sete” (1998:402). Provavelmente, a cidade em questão é Samaria-
Sebaste:

Samaria-Sebaste é a cidade mais importante de Herodes e um grande empreendimento


arquitetônico no interior montanhoso de Samaria [...] A cidade, a uns sessenta quilômetros
ao Norte de Jerusalém e a quarenta do Mediterrâneo, estava estrategicamente localizada
nas montanhas de Samaria, o território entre a Judéia e a Galiléia. Este local era vital por
pelo menos três motivos. Primeiro, Samari-Sebaste tinha uma vista muito ampla da maior
estrada norte-sul que ligava Jerusalém ao planalto de Esdraelon, que separava a Galiléia da
Samaria e através do qual a estrada passava e ainda uma outra estrada leste-oeste que
ligava a antiga cidade de Siquém (provavelmente a cidade neotestamentária de Sicar) à
costa do Mediterrâneo. Segundo, porque o local ficava aproximadamente 300 pés dos vales
ao redor, e poderia ser facilmente fortificada e defendida. Terceiro, porque os vales ao
derredor eram férteis e proviam recursos agrícolas valiosos (DeVries 1997:314).

É nesta importante cidade que Filipe “anunciava-lhes a Cristo” (At 8.5). A abordagem de
Filipe foi através de “sinais que ele operava” (At 8.6). A evangelização do povo de Samaria-
Sebaste era acompanhada de milagres, e “as multidões atendiam unânimes” (At 8.6).
Como resultado, houve um grande júbilo naquela cidade porque “os espíritos imundos de
muitos possessos saíam gritando em alta voz; e muitos paralíticos e coxos foram curados”
(At 8.7).

Pedro também usou sinais e maravilhas para proclamar as boas novas. Ele estava viajando
“por toda parte” (At 9.32) e foi visitar os santos em Lida. Ali encontrou um homem
chamado Enéias, um paralítico que jazia na cama havia oito anos. “Disse-lhe Pedro: Enéias,
Jesus Cristo te cura! Levanta-te e arruma o teu leito. Ele, imediatamente, se levantou” (At
9.34). Mais uma vez, os milagres resultaram em salvação, porque “viram-no todos os
habitantes de Lida e Sarona, os quais se converteram ao Senhor” (At 9.35). Converter o
povo ao Senhor é o propósito final dos sinais e maravilhas. Sinais e maravilhas, da
perspectiva de Lucas, têm um propósito missionário, como “a combinação de salvação e
cura” (Stott 1990:148).

Lida ficava próxima à cidade de Jope. Os discípulos enviaram dois homens para pedir a
Pedro que viesse até ali porque havia uma menina que tinha morrido, chamada Tabita (em
aramaico) ou Dorcas (em grego). Diante do pedido:

Pedro atendeu e foi com eles. Tendo chegado, conduziram-no para o cenáculo; e todas as
viúvas o cercaram, chorando e mostrando-lhe túnicas e vestidos que Dorcas fizera
enquanto estava com elas. Mas Pedro, tendo feito sair a todos, pondo-se de joelhos, orou;
e, voltando-se para o corpo, disse: Tabita, levanta-te! Ela abriu os olhos e, vendo a Pedro,
sentou-se. Ele, dando-lhe a mão, levantou-a; e, chamando os santos, especialmente as
viúvas, apresentou-a viva (At 9.39-41).

Como vemos, mais uma vez este milagre trouxe salvação a muitas pessoas – “Isto se
tornou conhecido por toda Jope, e muitos creram no Senhor” (At 9.42). O próximo episódio
do ministério de Filipe vai nos trazer outro conceito de missão, que é a missão em busca
dos “outros”.

A missão em busca dos “outros”


Toda a narrativa na Judéia e em Samaria é a respeito dos “outros”. Podemos ainda dizer
que é a respeito da missão na periferia. No entanto, a missão em busca dos outros parece
ser um título mais apropriado a esta seção.

O primeiro exemplo deste conceito de missão é a viagem de Filipe de Jerusalém a


Gaza. Apesar de todas as controvérsias a respeito do contexto daquele etíope, “este
episódio mostra a força irresistível da palavra de Deus, que supera barreiras raciais e
culturais, diminuindo as distâncias étnicas e sociais” (Stadelmann 1989:5). Além disso,
“este episódio aborda o modo Omo a Palavra de Deus tinha se espalhado até mesmo para
um indivíduo de um contexto diferente, de um país distante, que vinha a Jerusalém em
peregrinação” (Fitzmyer 1998:411).
O segundo exemplo é Paulo. Ele é chamado para ser “um instrumento escolhido para
levar o meu nome perante os gentios” (At 9.15), aos “outros”. Não há chamado sem
missão; não há missão sem chamado. O instrumento é um agente de Deus para cumprir o
seu plano. O desejo de Paulo era ir a Damasco.

Damasco – a mais antiga das cidades orientais; a capital da Síria (Is 7.8; 17.3); situada a
aproximadamente duzentos quilômetros ao norte de Jerusalém. Seu nome moderno é Esh-
Sham, ou seja, “Oeste”. Afirma-se que esta cidade é a mais bela de toda o Oriente Asiático.
É mencionada entre as conquistas do rei egípcio Thothmes III (1500 a.C.) e nas tábuas de
Amarna (1400 a.C). É mencionada pela primeira vez nas Escrituras em conexão com a
vitória de Abraão sobre os reis reunidos por Quedorlaomer (Gn 14.15). Era o lugar de
nascimento do herdeiro de Abraão (Gn 15.2). Não é citada novamente até a época de Davi,
quando “vieram os siros de Damasco a socorrer Hadadezer” (2Sm 8.5; 1Cr 18.5). No
reinado de Salomão, um grupo liderado por Rezom se revoltou contra Hadadezer (1Rs
11.23) e fugiu para Damasco, assentando-se ali e proclamando-o como rei. Houve uma
longa guerra, com sucesso variável, entre os israelitas e os siros, os quais, num período
posterior, tornaram-se aliados de Israel contra Judá (2Rs 15.37). Por fim, os siros foram
subjugados pelos assírios, a cidade de Damasco foi tomada e destruída, e seus habitantes
levados cativos para a Assíria (2Rs 16.7-9, comparado a Is 7.8). Neste evento, a profecia
de Isaías 17.1, Amós 1.4 e Jeremias 49.24 foi cumprida. O reino da Síria permaneceu como
uma província da Assíria até a captura de Nínive por Medes (625 a.C.), quando caiu sob os
conquistadores. Depois de passar por muitas vicissitudes, a Síria foi invadida pelos
romanos (64 a.C.) e Damasco se tornou a sede do governo da província. Em 37 d.C.,
Aretas, rei da Arábia, tornou-se o mestre de Damasco, tendo levado Herodes Antipas de
volta (Easton 1996).

O desejo de Paulo era ir a Damasco para aprisionar “alguns que eram do Caminho” (At
9.2). No entanto, o plano de Deus era diferente: Paulo deveria se tornar um agente para os
gentios:

E partiu Barnabé para Tarso à procura de Saulo; tendo-o encontrado, levou-o para
Antioquia. E, por todo um ano, se reuniram naquela igreja e ensinaram numerosa multidão.
Em Antioquia, foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos (At 11.25,26).

O terceiro exemplo é Pedro, que estava na cidade de Jope. O Senhor pediu a


Cornélio, que pertencia ao regimento italiano, que chamasse Pedro. Da Cesaréia, Cornélio
enviou dois (ou três? – veja At 10.19; 11.11) soldados devotos a Jopa para que
chamassem Pedro. “No dia seguinte, indo eles de caminho e estando já perto da cidade,
subiu Pedro ao eirado, por volta da hora sexta, a fim de orar” (At 10.9). Enquanto orava,
Pedro teve uma visão neste telhado. Qual era o propósito disto? Era para que Pedro
entendesse que Deus estava chamando-o para os gentios. Diante de muitas pessoas que se
reuniam na casa de Cornélio (At 10.27), Pedro perguntou a eles:

Vós bem sabeis que é proibido a um judeu ajuntar-se ou mesmo aproximar-se a alguém de
outra raça; mas Deus me demonstrou que a nenhum homem considerasse comum ou
imundo; por isso, uma vez chamado, vim sem vacilar. Pergunto, pois: por que razão me
mandastes chamar? (At 10.28,29)

Pedro estava confuso. Ele não entendia porque Deus o chamava para “os outros”. Depois
da explicação de Cornélio, ele chegou finalmente a esta conclusão:

Então, falou Pedro, dizendo: Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de
pessoas; pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é
aceitável. Esta é a palavra que Deus enviou aos filhos de Israel, anunciando-lhes o
evangelho da paz, por meio de Jesus Cristo. Este é o Senhor de todos. Vós conheceis a
palavra que se divulgou por toda a Judéia, tendo começado desde a Galiléia, depois do
batismo que João pregou, como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com
poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do
diabo, porque Deus era com ele; e nós somos testemunhas de tudo o que ele fez na terra
dos judeus e em Jerusalém; ao qual também tiraram a vida, pendurando-o no madeiro (At
10.34-39).

A conclusão de Pedro foi que “Deus não faz acepção de pessoas; pelo contrário, em
qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável” (At 10.34,35). Como
resultado desta conversão cultural (“conversão cultural” porque Deus estava quebrando a
visão de Pedro que focalizava apenas os judeus. Os olhos do apóstolo deveriam estar em
“todas as nações” - At 10.35), “caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra.
E os fiéis que eram da circuncisão, que vieram com Pedro, admiraram-se, porque também
sobre os gentios foi derramado o dom do Espírito Santo” (At 10.44,45). Etao, foram
batizados com ou em água.

Esta nova compreensão missionária-cultural deu a Pedro a oportunidade de compartilhar


com os crentes circuncidados em Jerusalém (judeus-cristãos) o que tinha acontecido na
casa de Cornélio. Depois da explicação de Pedro, os crentes circuncidados “apaziguaram-se
e glorificaram a Deus, dizendo: Logo, também aos gentios foi por Deus concedido o
arrependimento para vida” (At 11.18). Neste sentido, “da mesma forma como Pedro tinha
aprendido deste encontro com o romano Cornélio, os judeus-cristãos aprenderam de Pedro”
(Fitzmyer 1998:470). Depois da prisão de Pedro pelo Rei Herodes, e devido à sua fuga
milagrosa, o anjo o “livrou da mão de Herodes e de toda a expectativa do povo judaico” (At
12.11). A missão estava avançando, e “a palavra do Senhor crescia e se multiplicava” (At
12.24).

Não há dúvidas de que Lucas está nos mostrando, através de Filipe, Paulo e Pedro, que a
missão é para “os outros”: “Deus não faz acepção de pessoas; pelo contrário, em qualquer
nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável” (At 10.34,35). Sim, “mesmo
os gentios” (cf. At 10.45; 11.18). Este episódio mostra claramente que Lucas está
enfatizando a missão de Deus.

De acordo com Lucas, os líderes da missão primitiva cristã eram judeus, fiéis à Lei, e que
não pretendiam, originalmente, assumir nenhuma missão para os gentios. Eles eram, no
entanto, dirigidos de forma irresistível pelo próprio Deus. Este é o tema básico ao qual
Lucas adicionou motivações auxiliares (Jervell 1972:42, grifo acrescentado).

Pedro finalmente compreendeu que Deus estava levando-o de forma irresistível para os
gentios. O próprio Pedro disse: “Pois, se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós nos
outorgou quando cremos no Senhor Jesus, quem era eu para que pudesse resistir a Deus?”
(At 11.17). Ele estava certo! Ninguém pode se opor à missão de Deus. O próprio Deus
cuida de sua missão, mesmo para os gentios. Deus “forçou” a igreja primitiva à missão.
Esta é a missio Dei, como iniciativa divina, para todas as nações.

De agora em diante Lucas nos leva à sua última e derradeira fase da missão cristã: os
confins da terra.

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* Filipe – amigo dos cavalos.

1. Um dos doze apóstolos; nativo de Betsaida, “a cidade de Pedro e André” (Jo 1.44). Ele prontamente respondeu
ao chamado de Jesus quando este se dirigiu a ele pela primeira vez (43), e logo a seguir trouxe também Natanael a
Jesus (45,46). Aparentemente, teve um lugar proeminente entre os apóstolos (Mt 10.3; Mc 3.18; Jo 6.5-7;
12.21,22; 14.8,9; At 1.13). De sua vida posterior nada é conhecido com certeza. Afirma-se que pregou na Frigia e
ter encontrado sua morte em Hierápolis).
2. Um dos “sete” (At 6.5), chamado também de “o evangelista” (21.8,9). Foi um dos “dispersos” pela perseguição
que se levantou com a morte de Estevão. Foi primeiramente à Samaria, onde trabalho como evangelista com muito
sucesso (8.5-13). Enquanto estava ali recebeu uma ordem divina para ir em direção ao sul, ao longo da estrada que
levava de Jerusalém a Gaza. Aquelas cidades eram ligadas por duas estradas. A que Filipe tomou era a que passava
por Hebron e dali para um distrito pouco habitado, até chamado de “deserto”. Enquanto viajava ao longo desta
estrada, foi ultrapassado por uma carruagem na qual estava um homem da Etiópia, um eunuco ou oficial chefe da
Rainha Candance, o qual estava, naquele momento, lendo uma porção das profecias de Isaías (53.6,7),
provavelmente de uma versão da Septuaginta. Filipe começou a conversar com ele, expondo aqueles versos,
pregando a ele the glad tidings do Salvador. O eunuco recebeu a mensagem e creu, sendo batizado logo a seguir e
então, “continuou em seu caminho regozijando-se: Filipe foi instantaneamente levado pelo Espírito depois do
batismo, e o eunuco não mais o viu. Filipe é encontrado novamente em Azoto, de onde ele continuou o seu trabalho
evangelístico até chegar a Cesaréia. Ele não é mencionado novamente por pelo menos vinte anos, quando é
novamente encontrado em Cesaréia (At 21.8), no momento em que Paulo e seus companheiros estavam a caminho
de Jerusalém. Finalmente, ele desaparece das páginas da história” (Easton 1996).

3. A Missão da Igreja até aos Confins da Terra (Roma)


A última fase da narrativa geográfica de Lucas vai de 13.1 a 28.31. Nesta parte do
presente estudo estarei colocando o foco sobre dois ministérios urbanos, observando como
eles concentraram os seus esforços missionários a fim de proclamar as boas novas até aos
confins da terra. O primeiro é a igreja em Antioquia da Síria e o segundo é a missão de
Paulo em algumas cidades urbanas.

A igreja em Antioquia da Síria é mencionada por Lucas em Atos 11.19-30. É comumente


aceito que a missão até aos confins da terra comece no capítulo 13. No entanto, escolhi
situar o exemplo da missão desta igreja neste momento, já que entendo que é em
Antioquia da Síria que o processo de alcançar o mundo gentio começou.

A missão da igreja em Antioquia da Síria


Antioquia era a cidade em que foram lançados os fundamentos da missão até os confins da
terra – o mundo gentio. Era uma cidade cosmopolitana, a metrópole da Síria, e mais tarde
tornou-se a capital da província romana da Ásia.

Uma breve visão histórica desta cidade mostra que ela foi fundada por Selêuco I Nicator em
300 a.C., às margens do Rio Orontes, a 25 quilômetros do Mediterrâneo e quase
quinhentos ao norte de Jerusalém. Antioquia tornou-se a capital da dinastia dos selêucidas,
que vinha desde Antíoco I, o pai de Selêuco, um dos generais de Alexandre, o Grande. Em
64 a.C., sob a liderança de Pompeu, os romanos chegaram a Antioquia, controlando-a
como um centro administrativo e militar. Centro um importante centro de
empreendimentos comerciais e militares, Antioquia tornou-se um centro urbano influente,
uma cidade helenística (pólis). Era também a terceira maior cidade do Império Romano (a
primeira era a própria Roma e a segunda era Alexandria), sendo um mosaico de culturas,
conhecida como a “primeira cidade do Leste”. LaMoine F. DeVries entende que “Antioquia
estava apenas atrás de Jerusalém em termos de centro do cristianismo primitivo” (DeVries
1997:345). Através desta igreja, a missão mundial foi estabelecida para alcançar os confins
da terra.É muito importante estudar o seu nascimento, testemunho, liderança e expansão.

O nascimento da igreja
A igreja em Antioquia da Síria nascera “por causa da tribulação que sobreveio a Estêvão”
(At 11.19). Esta igreja era uma filha da perseguição e Estevão tem um lugar em sua
história. Depois do discurso de Estevão e, conseqüentemente, de sua morte, “levantou-se
grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram
dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria” (At 8.1). Nada podia deter o avanço da
Palavra de Deus. “Entrementes, os que foram dispersos iam por toda parte pregando a
palavra” (At 8.4).
Quem eram aqueles que foram dispersos “por causa da tribulação que sobreveio a
Estevão”? Eram leigos, cujos nomes são desconhecidos, judeus helenistas cristãos, que
falavam grego, pessoas bi-culturais e bilíngües. A perseguição afetou mais a população
helenista, que foi pela Samaria e Judéia, e pelas cidades de Azoto e por “todas as cidades
até chegar a Cesaréia” (At 8.40), na costa do Mediterrâneo. Passando “pelas regiões da
Judéia e Samaria” (At 8.1), eles finalmente se “espalharam até aFenícia, Chipre e
Antioquia” (At 11.19).

A liderança da igreja
Sendo uma cidade multi-étnica, “dividida em segmentos gregos, sírios, judeus, lations e
africanos” (Blakke 1997:146), a igreja ali instalada refletia este caráter. Uma equipe
multicultural e multi-étnica formava a liderança pastoral da igreja. Isto nos mostra a
heterogeneidade da igreja. “Havia na igreja de Antioquia profetas e mestres: Barnabé,
Simeão, por sobrenome Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes, o tetrarca e
Saulo” (At 13.1). Barnabé era um levita, do Chipre (At 4.36). Simeão, chamado Níger
(negro) era provavelmente um prosélito. Lúcio era de Cirene, uma cidade africana. Era um
gentio ou um judeu com um nome romano. Manaém (“Confortador”), fora criado com
Herodes Antipas, o tetrarca da Galiléia. Saulo era um ex-fariseu e um cidadão romano. A
partir desta variedade de contextos, a liderança da igreja em Antioquia fora estabelecida.

Não há dúvidas de que o mais proeminente líder desta igreja era Barnabé, “a ponte ideal
entre dois mundos, uma pessoas que tinha a confiança tanto dos moradores de Jerusalém
que falavam aramaico, quanto dos helenistas, ‘homens de Chipre e Cirene’” (Crowe
1997:92). O trabalho missionário foi tão bem-sucedido que “a notícia a respeito deles
chegou aos ouvidos da igreja que estava em Jerusalém” (At 11.22). Querendo saber o que
se passava ali, eles “enviaram Barnabé até Antioquia” (At 11.22). Existem três hipóteses a
respeito de Barnabé. Primeira, que ele era um helenista moderado, tendo um
relacionamento íntimo com os apóstolos, que não precisara fugir da perseguição de Atos
8.1-3. Segunda, que ele era parte de um grupo que tinha fundado esta igreja. Terceira, que
ele era um missionário independente que veio para Antioquia. Se, por um lado, existem
dúvidas a respeito de sua pessoa, por outro não existem dúvidas a respeito do seu caráter,
já que ele era “homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé” (At 11.24).

Barnabé teve uma importância fundamental na solidificação desta igreja. Seu primeiro
passo foi convocar Saulo para juntar-se à sua equipe, trazendo-o para Antioquia. A missão
deles era reunirem-se na igreja e ensinarem as multidões (cf. At 11.26). Como resultado
deste trabalho missionário, eles se tornaram delegados oficiais e receberam a missão de
viajar e proclamar as boas novas do Senhor Jesus (At 13.2,3).

O testemunho da igreja
Infelizmente, Lucas não nos oferece uma narrativa detalhada a respeito do ministério desta
igreja. Se ela foi a primeira a pregar as boas novas do Senhor Jesus fora dos limites
judeus, tornando-se o ponto de partida para o mundo gentio, esperaríamos mais detalhes
desta igreja tão importante, especialmente se aceitarmos que Lucas era de Antioquia da
Síria. No entanto, as poucas informações nos ajudam a ter uma visão do tipo de igreja que
era. O testemunho da igreja pode ser visto sob três aspectos.

Testemunho para todos


Esta igreja fora “plantada entre judeus e gregos” (Towner 1998:422). A audiência da
mensagem era composta de judeus e gregos. “Não anunciando a ninguém a palavra, senão
somente aos judeus” (At 11.29) deve ser compreendida sob a perspectiva da teologia de
missão de Lucas: primeiro aos judeus, depois aos gentios. Não tinha a ver com
exclusividade, mas com prioridade. No verso seguinte, Lucas diz que “alguns deles, porém,
que eram de Chipre e de Cirene e que foram até Antioquia, falavam também aos gregos”
(At 11.20). Se a igreja deveria pregar as boas novas do Senhor Jesus a todos, então elas
deveriam ser pregadas de forma inclusiva, universal, inter-racial, inter-étnica, cruzando as
barreiras culturais e orientada para os grupos de pessoas não-alcançadas.

Testemunho contextualizado, centrado na proclamação do “Senhor Jesus”


Atos 11.20 é a primeira vez que Lucas faz uso desta expressão. A igreja testemunhava a
respeito “do evangelho do Senhor Jesus” e “muitos, crendo, se converteram ao Senhor” (At
11.20,21). É claro que o conteúdo da mensagem era o mesmo. No entanto, a expressão
“Senhor Jesus” estava mais contextualizada com as pessoas e com a cidade de Antioquia
da Síria. Isso se deve ao fato de que a igreja procurava alcançar um tipo de pessoa (os
gregos) que não tinha uma formação teológica sólida, tal como os judeus. É por isso que
Lucas não menciona o Reino de Deus, o Messias, o Cristo, o Filho do Homem muitas vezes,
pois são nomes significativos apenas para um audiência judaica. É importante perceber que
“o termo ‘Senhor’ carrega significados um pouco diferentes no mundo helenista, onde,
como Paulo dizia, ‘ há muitos deuses e muitos senhores’ (cf. 1Co 8,5). Em Antioquia, o
título ‘Senhor’ era normalmente usado pelos pagãos para designar os deuses que eles
adoravam, tais como Ísis e Serápis, além do imperador romano, que era aclamado como
‘Senhor’ no ritual de adoração ao imperados” (Crowe 1997:105).

Testemunho sacrificial abnegado


A igreja de Antioquia não tinha problemas teológicos com a controvérsia entre pregar e
fazer. Ela não testemunhava apenas através da proclamação. “e, apresentando-se um
deles, chamado Ágabo, dava a entender, pelo Espírito, que estava para vir grande fome por
todo o mundo, a qual sobreveio nos dias de Cláudio” (At 11.28). Como resultado, “os
discípulos, cada um conforme as suas posses, resolveram enviar socorro aos irmãos que
moravam na Judéia; o que eles, com efeito, fizeram, enviando-o aos presbíteros por
intermédio de Barnabé e de Saulo” (At 11.29,30).

Provavelmente, esta igreja conhecia o significado da palavra necessidade. Ela sofreu de


falta de finanças e recursos quando estava sendo plantada. Agora, no momento em que a
igreja-mãe em Jerusalém passava por necessidade, é a igreja perseguida que manda o
auxílio financeiro. Que alegria para os presbíteros da igreja de Jerusalém receber de
Barnabé e Saulo esta bênção dos cristãos antioquenos (At 11.30).

A expansão da igreja
A igreja em Antioquia da Síria tinha um forte sentimento de missão. Esta igreja entendeu
que missão era a razão para a sua existência. Ela tornou-se a mãe de muitas igrejas, como
resultado dos esforços dos missionários que sustentava. Na história desta igreja, podemos
ver não somente o seu próprio trabalho, mas também o trabalho do Espírito Santo. O
Espírito Santo e a missão são inseparáveis. A igreja missionária está aberta à manifestação
do Espírito Santo. “E, servindo eles ao Senhor e jejuando, E, servindo eles ao Senhor e
jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os
tenho chamado. Então, jejuando, e orando, e impondo sobre eles as mãos, os despediram”
(At 13.2,3).

Antioquia da Síria tornou-se a base para os missionários. “e dali [de Atália] navegaram
para Antioquia, onde tinham sido recomendados à graça de Deus para a obra que haviam
já cumprido. Ali chegados, reunida a igreja, relataram quantas coisas fizera Deus com eles
e como abrira aos gentios a porta da fé. E permaneceram não pouco tempo com os
discípulos. (At 14.26-28). Ao final de sua segunda viagem missionária, Paulo, “chegando a
Cesaréia, desembarcou, subindo a Jerusalém; e, tendo saudado a igreja, desceu para
Antioquia. Havendo passado ali algum tempo, saiu, atravessando sucessivamente a região
da Galácia e Frígia, confirmando todos os discípulos (At 18.22,23). A partir do exemplo
desta igreja, aprendemos que a sua expansão estava fundamentada: no Espírito Santo, na
adoração, no jejum e oração, na autoridade investida e no envio de missionários.

Concluindo esta seção sobre a igreja de Antioquia da Síria, podemos afirmar que ela tinha
uma ênfase evangelística, que encorajava os seus pastores, com uma liderança múltipla,
ensino profético, serviço sacrificial, adoração autêntica e missão iniciada pelo Espírito Santo
(Hansen 1998a). Se a igreja em Jerusalém é conhecida como a igreja-mãe da cristandade,
a igreja em Antioquia tornou-se conhecida como a igreja-mãe do mundo gentio, tornando-
se um modelo de missão urbana. É este modelo que Barnabé e Paulo tinham em mente
para plantar igrejas em cada cidade por onde viajaram.

ELEMENTOS PARA A MISSÃO URBANA

Essa aula é uma reflexão de Mateus 9:35 a 10:1. Aqui destaco 5 elementos da missão
urbana na ótica de Jesus. Seus discípulos estão prontos para serem enviados para a
missão. Mas antes eles precisavam ter mais uma aula com o mestre. Os 5 elementos
começam com a letra "C".