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METODOLOGIA PARA OTIMIZAÇÃO DA GESTÃO DO CONHECIMENTO NA

MANUTENÇÃO

Joslei Lessa (1)

RESUMO

A competitividade no setor de serviços tem levado empresas deste segmento a apostar na


alta performance como fator diferencial e de longevidade para contratos em um cenário
altamente concorrido. Uma vez atingida no contexto do contrato, a alta performance deixa de
ser o “alvo” a ser perseguido e novas oportunidades passam a ser vislumbradas. No contexto
da manutenção industrial, onde a entrega ou produto muitas vezes passa pela experiência ou
conhecimento do manutentor, uma das apostas para diferenciar e direcionar um contrato rumo
a excelência operacional, têm sido a Gestão do Conhecimento aplicada a manutenção de
ativos.

Neste modelo de negócio, onde atualmente muitas organizações encontram-se em um nível de


alta performance, com modelos de gestão e indicadores consolidados, a Gestão do
Conhecimento surge como opção inovadora e arrojada. O presente trabalho busca, não
somente apresentar a metodologia e seus resultados, mas também despertar o interesse do
profissional de manutenção mostrando que o conhecimento pode ser, de fato, um novo e
eficiente ativo da empresa.

1. INTRODUÇÃO

Para que uma organização alcance níveis elevados de competitividade, faz-se necessário a
adoção de técnicas eficazes de gestão da rotina e do conhecimento, de acordo com o objetivo
do negócio. Ainda assim, a simples adoção unilateral destas técnicas não garante o sucesso
do empreendimento.

(1) Manserv Montagem e Manutenção S/A – Planejamento de Manutenção


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Dentro deste contexto, a manutenção industrial tem ganhado destaque especial nas
organizações quando se fala em disponibilidade de máquinas e equipamentos. Contudo, um
dos principais desafios da manutenção industrial está justamente na gestão da informação e do
conhecimento acerca dos ativos da organização, uma vez que a atividade manutenção passa
necessariamente pelas mentes dos profissionais desta estratégica área de negócio.

Desta maneira, o desempenho da função manutenção dentro das organizações sofre, muitas
vezes, a influência de fatores característicos da gestão de talentos tais como qualificação
profissional, formação técnica, turnover da empresa e plano de carreira, cargos e benefícios.
Os gráficos abaixo apontam algumas das dificuldades que afetam o desempenho da função
manutenção:

Figura 1 – Curva do turnover da manutenção Figura 2 – Nível dos profissionais de manutenção

Diante destas dificuldades, onde percebe-se um ambiente propenso a falhas no desempenho


da função manutenção, a Gestão do Conhecimento focada na manutenção de ativos figura
como um diferencial poderoso e estratégico para as organizações.

2. METODOLOGIA:

A Gestão do Conhecimento aplicada a manutenção de ativos foi uma opção decorrente da


dificuldade de se manter um padrão de manutenção preventiva bem como o conhecimento
empírico acerca dos ativos da organização, este último decorrente do turnover compreendido
naquele momento. Assim, foi proposta uma ação para desenvolvimento de um projeto para
elaboração dos procedimentos de manutenção preventiva dos ativos da manutenção de
UTILIDADES. A metodologia apresentada partiu das premissas de um projeto básico, com
início, término, caminho crítico, cenários (pessimista, otimista e real) conforme as etapas
descritas a seguir:

2.1. Mapeamento das informações e do conhecimento existentes

Foi verificado o maior número de fontes de informação possível, tais como histórico e roteiro
das Ordens de Manutenção, catálogo e manuais dos equipamentos, planos de manutenção
existentes, registro fotográfico, informações e dados empíricos do manutentor, etc.

Figura 3 – OM do cliente, versão Excel Figura 4 – Planos de manutenção na rede do cliente

Durante a etapa do mapeamento das informações, foi realizado uma avaliação e análise da
atual situação da manutenção, tal como verificar a curva de aprendizagem atual, tempos de
execução, critérios para os procedimentos, qualidade e assertividade das intervenções em
máquinas e equipamentos. Estas informações foram necessárias para poder destacar os
avanços e conquistas do projeto bem como endossar a importância e perspectiva do projeto.

(1) Manserv Montagem e Manutenção S/A – Planejamento de Manutenção


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APTIDÃO APTIDÃO
APTIDÃO APTIDÃO
(s/ procedimentos (c/ procedimentos
(s/ procedimentos (c/ procedimentos
RE COLABORADOR ESPECIALIDADE de manutenção) de manutenção) RE COLABORADOR ESPECIALIDADE de manutenção) de manutenção)
02004 L. KIRCHMAIR ELETRICISTA DE MANUTENÇÃO 79,0 dias 04202 M. MOREIRA MECÂNICO DE MANUTENÇÃO 138,0 dias
02011 N. DIAS ELETRICISTA DE MANUTENÇÃO 32,0 dias 04205 N. DA SILVA MECÂNICO DE MANUTENÇÃO 157,0 dias
04189 F. DA SILVA ELETRICISTA DE MANUTENÇÃO 132,0 dias 07076 F. RAMOS MECÂNICO DE MANUTENÇÃO 127,0 dias
04201 M. DOS SANTOS ELETRICISTA DE MANUTENÇÃO 92,0 dias 08693 M. PACHECO MECÂNICO DE MANUTENÇÃO 59,0 dias
07006 A. DA SILVA ELETRICISTA DE MANUTENÇÃO 33,0 dias 11640 D. COPINI MECÂNICO DE MANUTENÇÃO 48,0 dias
12589 D. GOMES ELETRICISTA DE MANUTENÇÃO 38,0 dias 13379 J. SALAZAR MECÂNICO DE MANUTENÇÃO 61,0 dias
101,0 dias 34,3 dias 140,7 dias 56,0 dias

Figura 5 – Comparativo da aptidão de eletricistas Figura 6 – Comparativo da aptidão de mecânicos

2.2. Elaboração do projeto

Nesta etapa, foi realizado um levantamento dos equipamentos os quais a Manserv atua dentro
dos sistemas de HVAC (climatização) e PRS (recuperação de solventes), considerando itens
como matriz de criticidade, complexidade e estado de conservação do equipamento e
desempenho. Deste resultado, elaborou-se um cronograma dividido em equipamentos de
CLIMATIZAÇÃO (45 TAG's) e PRS (60 TAG's). Este último com um nível de dificuldade
bastante elevado, decorrente da nacionalidade da unidade e obsolescência de boa parte dos
componentes assim como um déficit no conhecimento e entendimento do funcionamento de
grande parte destes equipamentos. Ainda assim, para fins de visualização do cronograma, fora
estimado um prazo que, de fato, mudou conforme as dificuldades ao longo da segunda fase do
projeto.

Figura 7 – Projeto de elaboração dos procedimentos de manutenção

Importante salientar que, por se tratar de um projeto no qual pressupõe uma melhoria de
determinada situação bem como a utilização de recurso não dedicado (Analista de PCM), por
vezes o desenvolvimento do projeto competiu com outras demandas consideradas mais críticas
a organização. Desta forma, fez-se necessário utilizar-se do uso de técnicas de gestão do
tempo, para mitigar o impacto das postergações impostas pela priorização de atividades
características da manutenção. Dentre as técnicas empregadas na gestão do tempo, estão
matriz GUT, agenda do Planejador entre outras.
F-318-0548.000 F-318-0171.036
AGENDA DO PLANEJADOR Vs. 03
Pág. 1/1 MATRIZ DE PRIORIZAÇÃO GUT Vs. 04
Pág. 1/1
Hora SEGUNDA TERÇA QUARTA QUINTA SEXTA
S
08:00 08:20

08:30 09:30
D.D.S

Proced. de Manutenção PRS


D.D.S

Proced. de Manutenção PRS


D.D.S

Proced. de Manutenção PRS


D.D.S

Proced. de Manutenção PRS


D.D.S

Proced. de Manutenção PRS


E
Q
PROBLEMA

01 Validar indicador de ÍNDICE DE AVARIAS da LOGÍSTICA


G
POUCO GRAVE
U
CURTO PRAZO
T
PERMANECE
PONTUAÇÃO

24 ptos
09:30 10:30 Proced. de Manutenção PRS Proced. de Manutenção PRS Reunião de Resultados Proced. de Manutenção PRS Proced. de Manutenção PRS
02 Lição em um ponto, procedimento e ferramentas para rearme do sistema de CO2
GRAVE MÉDIO PRAZO PERMANECE 27 ptos
10:30 11:30 Análise do DownTime Análise do DownTime Reunião de Resultados Análise do DownTime Análise do DownTime 03 Implementar o controle de BRF4 SEM GRAVIDADE LONGO PRAZO PERMANECE 6 ptos
11:30 12:30 Almoço Almoço Almoço Almoço Almoço 04 Iniciar as inspeções/manutenções preventivas mecânica/elétrica na PRS conforme
GRAVE cronograma
CURTOdePRAZO
periodicidadesAUMENTA 48 ptos
da DEC. Garantir o preenchimento da planilha de gestão à vista.

13:00 14:00 rotinas de PPCM rotinas de PPCM rotinas de PPCM rotinas de PPCM rotinas de PPCM 05 Desenvolver sistema/placa/padrão de TAGEAMENTO para ativos da manutenção UTILIDADES
SEM GRAVIDADE LONGO PRAZO REDUZ 4 ptos
06 Acompanhar o processo de abastecimento do caminhão (blend ou acetato) para o operação
GRAVE pilotoPRAZO
MÉDIO de SOLVENTES
DESAPARECE 9 ptos
14:00 15:00 rotinas de PPCM rotinas de PPCM rotinas de PPCM rotinas de PPCM rotinas de PPCM

S
16:00 16:30 rotinas de PPCM rotinas de PPCM rotinas de PPCM rotinas de PPCM rotinas de PPCM
E PROBLEMA PONTUAÇÃO AÇÃO RECOMENDADA NÍVEL
16:30 17:00 rotinas de PPCM rotinas de PPCM rotinas de PPCM rotinas de PPCM rotinas de PPCM
Q
01ª Iniciar as inspeções/manutenções preventivas mecânica/elétrica na PRS 48
conforme MAIS
ptos cronograma RÁPIDO POSSÍVEL
de periodicidades da DEC. Garantir o preenchimento
3 da planilha de gestão à vista.
17:00 17:35 APOIO OPERACIONAL APOIO OPERACIONAL APOIO OPERACIONAL APOIO OPERACIONAL APOIO OPERACIONAL 02ª Lição em um ponto, procedimento e ferramentas para rearme do sistema27
de ptos
CO2 MAIS RÁPIDO POSSÍVEL 3
carga SEGUNDA [ 90,0% ] carga TERÇA [ 90,0% ] carga QUARTA [ 90,0% ] carga QUINTA [ 90,0% ] carga SEXTA [ 90,0% ]
03ª Validar indicador de ÍNDICE DE AVARIAS da LOGÍSTICA 24 ptos MAIS RÁPIDO POSSÍVEL 3
ATIVIDADES QUINZENAIS ATIVIDADES MENSAIS ATIVIDADES NÃO CÍCLICAS

9 ptos
04ª Acompanhar o processo de abastecimento do caminhão (blend ou acetato) POUCO
para o operação piloto URGENTE
de SOLVENTES 2

44:00 previstas / semana 100% 05ª Implementar o controle de BRF4 6 ptos POUCO URGENTE 2
37:35 alocadas / semana 85,42% M1: Elaboração de BMS Duração: 01:00 NC1: elaboração de Relatório de HE
M2: Reunião de Segurança Duração: 0:30 NC2: programar serviço externo 4 ptos UTILIDADES
06ª Desenvolver sistema/placa/padrão de TAGEAMENTO para ativos da manutenção PODE ESPERAR 1

Figura 8 – Agenda do Planejamento de Manutenção Figura 9 – Matriz de priorização G.U.T

2.3. Desenvolvimento dos procedimentos de manutenção

Nesta etapa, a aceitação e contribuição da equipe de manutenção foi fundamental para o


sucesso do projeto. A premissa que norteou o desenvolvimento dos procedimentos foi a de que
estes deveriam ser mais “intuitivos” e menos textuais, para ser mais amigável ao manuseio no
dia-a-dia do manutentor. Desta forma, o desafio foi transformar a maior quantidade de
informação, proveniente de manuais e catálogos técnicos, em imagem.

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Figura 10 – Procedimento de Manutenção Preventiva, no formato-padrão pretendido pelo cliente

2.4. Validação com a equipe de manutenção

Nesta fase, houveram dificuldades extras relacionadas ao agendar as reuniões de validação


dos procedimentos, junto a equipe operacional e liderança da Manserv, em decorrência da
dinâmica inerente da atividade Manutenção. A alternativa encontrada, tem sido discutir em
micro reuniões procedimento a procedimento, dentro da agenda de cada participante da equipe
e validá-los a medida do possível.

Figura 11 – Reuniões periódicas para validação junto a equipe de manutenção


2.5. Validação com o cliente

Nesta última fase do projeto, dado o planejamento e os controles realizados bem como o
acompanhamento e a linha de comunicação praticados para e com o cliente, a validação
mostrou-se relativamente simples e natural. Assim que validados os procedimentos junto ao
cliente, o mesmo solicitou o carregamento e inserção nos respectivos equipamentos no
ambiente ERP, de forma a tornar o documento disponível dentro da plataforma oficial da
organização.

Figura 12 – Sistema ERP BaaN com os equipamentos de HVAC e seus respectivos procedimentos.

3. RESULTADOS OBTIDOS

Os resultados obtidos com a prática da Gestão do Conhecimento focada na manutenção de


ativos pertinentes a Engenharia de UTILIDADES, permitiram observar uma redução de 66,0%
e 60,2% no tempo necessário para tornar apto, respectivamente, um eletricista de manutenção
e um mecânico de manutenção a executar as rotinas preventivas nestes equipamentos com a
utilização de procedimentos operacionais.

Figura 13 – Δt de aptidão para manutenção preventiva elétrica Figura 14 – Δt de aptidão para manutenção preventiva mecânica

Neste aspecto, foi observado uma redução média de 66,2% no tempo médio necessário para
tornar apto um profissional a executar as rotinas de manutenção preventivas nos ativos de
HVAC, conforme mostra a figura 15.

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Figura 15 – Gráfico do tempo de aptidão para realização da manutenção preventiva

A eficácia desta redução no tempo de formação da aptidão do manutentor nos equipamentos


do sistema de HVAC pode ser verificada com a análise crítica das Ordens de Manutenção, onde
fora observado um comportamento-padrão tanto no preenchimento dos itens quanto na
sequência de realização dos roteiros da mesma.

Figura 16 – OM preventiva elétrica, FEV/2018 Figura 17 – OM preventiva elétrica, MAI/2018

Não obstante aos resultados obtidos diretamente, também foi possível verificar uma melhora
significativa na assertividade destas rotinas, na análise dos riscos da atividade, na progressão
pessoal da equipe bem como o nivelamento técnico da mesma. Importante mencionar o valor
agregado ao contexto do contrato, uma vez que a “entrega” não se restringe apenas ao pacote
da execução da manutenção, como também a Gestão do Conhecimento acerca desta rotina.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante do nível de competitividade observado atualmente, gerenciar e catalogar o


conhecimento pode, ainda que por vezes os ganhos marginais possam parecer de difícil
incorporação, prestar importante contribuição para o aumento da produtividade, da melhoria da
qualidade bem como do crescimento e rentabilidade do negócio.

Assim, a Gestão do Conhecimento figura como uma ferramenta útil e importante para
organização, contribuindo desta forma, para uma maior performance em termos de
produtividade e confiabilidade dos equipamentos.

5. BIBLIOGRAFIA

ABRAMAN. Documento Nacional 2013: A Situação da Manutenção no Brasil

Guia de Desenvolvimento - Competitividade Manserv (Material Institucional). Manserv


Montagem e Manutenção S.A.

REY, Beatriz. Como fazer um brainstorming eficiente. Revista Você S/A, Edição 181, 2013.
Disponível em: < http://exame.abril.com.br/revista-voce-sa/edicoes/181/noticias/como-fazer-
um-brainstorming-eficiente?page=3 >. Acesso em 20/08/2014.

TUBINO, Dalvio Ferrari. Planejamento e Controle da Produção: teoria e prática. São Paulo:
Atlas, 2007.

PALMER, Richard. Maintenance Planning and Scheduling Handbook – New York: McGraw-Hill
Handbooks, 2006.

Manutenção & Gestão de Ativos. Rio de Janeiro: Revista ABRAMAN - EDIÇÃO 163, ano 28
2017

(1) Manserv Montagem e Manutenção S/A – Planejamento de Manutenção


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