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UFRRJ – Brasil III

Docente: Fabiane Popiginis


Texto 6: NASCIMENTO, Álvaro Carvalho do. Nação e Cidadania no Império.
Ordem e Liberdade: proposta da marujada cidadã. p.445- . Civilização
Brasileira. Rio de Janeiro: 2007.

Álvaro Nascimento em Ordem e Liberdade: Proposta da Marujada Cidadã, busca investigar


os significados de cidadania entre os marinheiros a partir da Revolta de 1910 – mais conhecida
como A Revolta da Chibata. Lançando um novo olhar sobre as experiências dos marinheiros e
oficiais o mesmo busca compreender quais são as interpretações das chibatas e as experiências dos
homens que são denominados como amotinados.
A investigação rompe com a ótica romantizada da Revolta da Chibata, desvinculando-se das
visões que baseavam-se em dizer que eram apenas uma revolta contra os castigos exagerados ou
uma história constituída de um grupo oprimido e opressor. Sua abordagem demostra lidar com
questões fundamentais como as diferenças raciais, socieconômicas e idade, a sexualidade e as
diversas formas de poder1 e ao mesmo tempo aborda a cidadania republicana que outrora era
questionada por pessoas comuns e torna-se um elemento de discussão entre os marinheiros em
1910.
Entre os dias 22 e 26 de novembro de 1910, nas águas da baía de Guanabara,
centenas de marinheiros mataram e expulsaram todos aqueles residentes ao
movimento no momento da tomada de quatro importantes navios da Armada,
e exigiriam o cumprimento das propostas de mudanças para aquela
força armada, ameaçando a cidade do Rio de Janeiro, então capital federal,
de bombardeio. (…) e as imprensas nacional e internacional dissecaram a
dura realidade dos marinheiros, os castigos físicos a que eram
submetidos (…) p.447

A movimentação dos marinheiros e a recepção pela mídia trouxe-se para discussão a falta
de direitos políticos, civis e sociais e os limites de representatividade e da participação política
republicana. Álvaro se propõe investigar as relações estabelecidas entre Estado e cidadãos
fardados, mas, ao mesmo tempo, dando importância a sociabilidade e identidade conferida
pelos participantes.
A perspectiva romantizada da Revolta dos Marinheiros de 1910 liga-se a luta contra os
castigos corporais aplicados nos marinheiros, constituindo-se assim como A Revolta da Chibata,
[pode colocar outros detalhes] porém, para Álvaro é necessário lidar com outras problemáticas e
exigências que foram discutidas na composição da revolta, como:
(…) O aumento do salário, a melhoria da alimentação, o fim do excesso de
trabalho nos modernos navios que a Armada havia adquirido e obviamente, o
fim dos castigos corporais. p.448.
Um movimento que outrora fora resumido em castigos corporais, mostra-se como
articulador de algo mais profundo: Propostas sólidas para remodelação da Marinha de Guerra.
1 p.468
Entretanto é necessário questionar-se: Quem é o articulador destas propostas e movimentação?
Carvalho os identifica uma não homogeneidade entre os marinheiros que acabam se
apresentando em dois grupos: Os amotinados e os “sem educação”, sendo que o primeiro grupo
quem busca defender seus interesses através de mecanismos como A Revolta dos Marinheiros.
Para compreender as articulações dos Amotinados – que se estruturavam na remodelação da
Marinha de Guerra e mais duas exigências – é necessário adentrar na experiência do marinheiro.
A metodologia empregada pelo mesmo para sua investigação fora se afastar do palco da
revolta e isto o concedeu compreender que os castigos físicos não eram o ponto de partida, mas o
de chegada. A documentação utilizada pelo mesmo – processos criminais julgados em conselhos de
guerra militares – informava que havia conflitos entre marinheiros e oficiais, assim como
marinheiros e marinheiros por inúmeras questões diferentes como: roubo, jogo, embriaguez,
xingamentos, estupros, amores (heterossexuais e homossexuais) e grande parte destes conflitos
eram punidos com castigos físicos – chibata, palmatória, prisão a pão e água), porém, não se
encontra a palavra revolta.
Por que a palavra revolta dar significado a movimentação de 1910? Qual fora a mudança de
consciência difundida entre os marinheiros naquele momento? Álvaro lança-se nestas questões e
investiga o significado do castigo que havia se modificado ao longo do século XIX para 1910.
Para entender o significado dos castigos físicos é necessário analisar a composição da
Marinha. A mesma era composta por menores órfãos, desvalidos e pobres que haviam sido
mandados às Escolas de Aprendizes Marinheiros. O serviço da armada variava entre 9 e 15 anos,
sem direito a baixa. Salários baixos e poucos conseguiam se sustentar fora do navio com a renda
que recebiam. Muitos não queiram estar ali, eram poucos que se apresentavam como voluntários.
Essa composição conflituosa da marinha fizera os castigos físicos ganharem o que Álvaro identifica
como o primeiro sentido do castigo físico: A correção de hábitos.
O navio funcionava por causa dos marinheiros, os oficiais sabiam disso e para isso,
precisavam agir de modo que contivessem os ânimos e obrigam-se se concentrar em suas
obrigações. Essa ação estruturava-se através do discurso que imperava em regulamento e
regimentos era o da obediência à disciplina e à hierarquia militar 2. Esse princípio era a base do
próprio militarismo.
O discurso de muitos oficiais que estavam a frente da correção dos hábitos – que os mesmos
deveriam ser cortados pela raiz – aplicavam a penalização de forma irregular. Por que sua aplicação
excedia? Segundo o Artigos de Guerras de XVIII que o qual encontravam-se o regulamento
herdado da Marinha Lusitana pela brasileira o artigo de número 80 declarava que o comandante
poderia interpretar a infração do modo que deseja-se, podendo assim, escolher a quantidade de

2 p.452
castigo. A aplicação das chibatadas que deveriam ser 25 diárias ultrapassavam, sendo aplicadas 100
ou além disto. Para Álvaro, os comandantes que excediam o número ordenado mostram o segundo
sentido do castigo: O princípio do militarismo.
O castigo era um espetáculo público de reafirmação de poder. O poder do
comandante primeiramente e dos seus representantes imediatos em seguida.
Atuar sobre o corpo do indisciplinado era uma forma de “relembrar” as
hierarquias de poder existentes a bordo – como bem frisavam os Artigos de
guerra. (…) A dor e os pedidos de clemência poderiam ser bons sinais de que
a correção estava sendo processada. p.453.
O espetáculo que era apresentado a partir dos castigos físicos servia como um reafirmador
da hierarquia e ordem e ao mesmo tempo desempenhava o papel de recurso pedagógico de
ensinamento utilizado pelos oficiais – pedagogia do medo. Os marinheiros mesmos que
indiretamente ao verem seus companheiros em situação de “correção” compreendiam se fugissem
do que era estabelecido sofreriam castigos semelhantes.
A partir do momento que se recupera os significados de castigos é possível entender as
opiniões dos marinheiros referentes às punições. Como os marinheiros não se apresentam em um
grupo homogêneo de homens, devem-se buscar entender suas pluralidades.
As relações nos navios eram conflituosas e perigosas. Se oficiais defendiam os princípios
militares para subjugar os marinheiros como inferiores, os marinheiros enxergavam determinados
oficiais como … e alguns dos seus companheiros marinheiros como indisciplinados.
A vida na Marinha de Guerra por ser regida de conflitos e correções, poderia não significar
uma ascensão para aqueles que buscavam crescer dentro da mesma. Ao mesmo tempo que era
necessário se submeter as ordens dos comandantes – o marinheiro nunca deveria pôr-se em
evidência nem testar o poder do comandante e seus auxiliares mais diretos (oficiais e
sargentos): tudo havia de ser a extensão da vontade do principal oficial a bordo (ou fazer
parecer que isso acontecia)3 – lidava-se ainda com os marinheiros indisciplinados, embriagados e
que arrumavam confusão todo instante. Como mediar essa situação de conflito?

- Redefinir as relações da propostas de trabalho


Pensando em diminuir os conflitos presentes no navio os amotinados pediam não apenas
uma remodelação da marinha, mas haviam duas exigências, sendo elas:
1) A retirada dos “oficiais incompetentes: indivíduos que, na hora de exigir o cumprimento de tabela
de serviços diários referente às embarcações não levavam em conta a diferença entre o acúmulo de
serviços e o número de marinheiros disponíveis.
2) Reformar o código imoral e vergonhoso a fim de que desapareça a chibata, o bolo e outros
castigos semelhantes – os marinheiros desejavam garantir a ordem por um organismo legal,
reconhecido e aprovado pelas principais autoridades constituídas.
3 p.456.
3) O governo havia de “educar os marinheiros” que não tinham “competência para vestirem a
orgulhosa farda”.
A mudança de consciência sobre os hábitos de correção do século XIX para 1910 é
procedente da introdução do governo provisório (1889-91) que o qual buscando proteger o novo
regime de qualquer ameça, declara no segundo dia de regime a extinção dos castigos corporais na
Armada e reduziu-se o tempo de serviço. O decreto colocou fim na ordem militar e isto causou
conflito para a criação de uma ordem que deveria ser pensada e criada entre as partes. Sendo assim,
os comandantes deveriam buscar outros instrumentos de coerção para garantir a hierarquia e a
disciplina militar – sem o uso de castigos. Porém, o retorno da chibata e outras punições como seus
vencimentos reduzidos à metade, rebaixamento de posto e permanecer detido no navio, trouxeram a
tona A Revolta de 1910 que não apenas reclamavam das formas de punições, mas uma mudança na
própria Marinha de Guerra, entretanto, os oficiais e o governo não os ouviram e Álvaro chama
atenção para um debate importante no início da República: A falta de cidadania aos marinheiros.
A voz marinheiros foram ouvidas pelos jornais que os quais esperavam que o conflito se
resolvessem na ordem e na legalidade:
Não fora à toa que cronistas e repórteres aguçavam a crítica contra os
oficiais da Marinha e defendiam os marinheiros amotinados. No entanto,
também concordavam que a “voz” havia sido “muito grossa”… p.459.

Naquele início do século, os direitos sociais, civis e políticos dos


marinheiros, assim como da maior parte da população, ainda não eram
realidade. A cidadania estava engatinhando.

Entretanto, as reclamações causaram incômodos a políticos, intelectuais e membros de


outros grupos que buscavam com o novo regime sepultar o passado escravocrata e monárquico que
definia o Brasil como atrasado em relação as outras nações.
Para Álvaro a cidadania brasileira é diferente da experiência inglesa entendida por José
Murilo. Segundo ele:
No Brasil, primeiro se implantaram os direitos políticos, para depois se
criarem espaços para os civis e sociais. Esse processo de implantações, com
avanços e recuos, prorrompeu uma experiência ímpar naquele período
responsável pela falta de acesso à cidadania à maior parte da população. A
liberdade de expressão, de associação e opinião, que compreende os direitos
civis, é fundamental para o cidadão. Há possibilidade de os direitos civis se
manterem desacompanhados dos direitos políticos, mas a recíproca não é
verdadeira. (…) José Murilo de Carvalho, o voto perde seu conteúdo, “serve
antes para justificar governos do que para representar cidadãos”. Ângela de
Castro Gomes vai mais adiante e mostra que os direitos aparecem como um
“anteparo e uma proteção ao poder do Estado”, defendendo os interesses do
cidadão no diálogo com os governos que se revezam no poder. No caso dos
marinheiros, estes não tinham direitos civis e nem políticos
assegurados...p.459-60.
Enquanto para alguns grupos sociais haviam justificativa para o impedimento do
exercimento do voto através da primeira constituição, no caso dos militares, não houve debate ou
emenda que explicasse essa exclusão. Caso, os marinheiros desejam-se discutir suas relações de
trabalho, teriam que negociá-las com seus superiores hierárquicos. Sendo assim, não havia como
participar na escolha de candidatos que defendessem suas reivindicações na arena política.
José Murilo de Carvalho apresenta a estadania – a participação não através de organização
dos interesses, mas a partir da máquina governamental, ou em contato direto com ela, foi a saída
para aqueles que viram excluídos de direitos políticos. Tal solução, para o autor, foi muito utilizada
por “militares”, “funcionalismo em geral e importantes setores da classe operária” 4. Porém, para
Álvaro os coletivos dos militares não eram oficiais e estavam distantes das instituições que os
ligavam aos homens do Estado, sendo assim, a estadania não foi uma saída para alcançar
mudanças nas relações de trabalho da Marinha de Guerra.
Os marinheiros lidavam com mecanismos – O código Penal militar – que os impediam de
se reunir e associar. Segundo o artigo 100:
Todo o indivíduo ao serviço da marinha de guerra que promover reunião de
militares, ou nela tomar parte, para discutir ato do seu superior, ou assunto
atinente à disciplina militar. p. 462.

Entendia-se por crime as discussões veiculadas na imprensa ou por meio da discussão oral
em reunião promovida especialmente por aquele fim. A organização e ação dos marinheiros coloca-
se contra o princípio da hierarquia e a disciplina que vinham em primeiro lugar. Colocar-se contra
as ordens e atos dos superiores era colocar-se em risco, porém, apesar dos riscos, os marinheiros
deram início às reuniões para organização da revolta.
Não havia esperanças de obter mudanças pelos meios da política
institucionalizada, da estadania ou por solicitações ao ministro da pasta da
Marinha. Assim, as primeiras reuniões que confabularam contra o governo e
os oficiais tiveram início em casas de marinheiros, ou em bilhares. p. 462.

A ausência de canais legais que dessem espaço para o diálogo – seja pela falta de direitos
políticos, seja pela rigidez militar que impedia que os superiores escutassem os inferiores, os
marinheiros de 1910 durante meses discutiam seus problemas mais imediatos, viram as diferenças
que haviam entre eles e que caminhos comuns poderiam trazer benefícios para todos, seduzindo
centenas de colegas com isso. Traçando metas, discutindo problemas, constitui-se a A Revolta de
1910.
A perspectiva de Álvaro é apresentar A Revolta de 1910 não como uma reação, mas sim,
como uma consciência ativa por parte dos marinheiros em compreender suas pluralidades e buscar
mudanças. A importância que deve se atribuir ao estudo são os marinheiros excluído do direito ao
voto. A república logo nos primeiros anos apresenta-se como insatisfatória que apresentava-se
como enganadora do povo.

4 p.
É importante enfatizar que a República não abria canais de diálogo entre os excluídos
e o Estado. A movimentação dos marinheiros fora fundamental para conquistar a cidadania
para exigir melhores condições de trabalho, sem perder o que desejavam para si mesmos das
relações estabelecidas dentro e fora da armada. Descordando de José Murilo, Álvaro
apresenta-se na perspectiva de movimentos propositivos, colocando-os em capacidade de
articulação e ação, atribuindo-lhes o papel de sujeitos ativos da história da cidade e do país. A
Revolta de 1910, havia propostas sólidas, pensadas, debatidas e articuladas por meses. O
movimento demostrava uma consciência cidadã brotara entre os amotinados.
Um cidadão é portador de direitos e nesta situação é uma relação com o Estado. Para José
Murilo de Carvalho é a conquista dos direitos políticos e depois sociais. No brasil fora primeiro os
sociais e depois os políticos.
Como se pensa política? Como se pensa em cidadania? Todas as propostas são políticas. A política é
a forma de negociação por seus direitos.
A republica é excludente, no entanto, não deixou de a ver luta. Dizer que a republica fora
excludente não é o mesmo que dizer que a população não ficou bestializada, assistindo ou apenas
resistindo, mas sim,

461 – não pela organização dos interesses, mas com uma máquina governamental, que – cidadania.
Mas ele diz que é uma luta política, ampliando seu significando. Substitui o significado de reação
para proposição.
Falta de direitos políticos e sociais.