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Resolução 372 e a Destruição dos Rios O que você está procurando?

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 Fernando Wons  25 de maio de 2018  Entubamento / Canalização, Recursos Hídricos Superficiais


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A Desativação Também Necessita de
Licenciamento Ambiental
Artigo científico comprova que capina
química em Marau/RS contamina o rio que
abastece a cidade
Resolução 372 e a Destruição dos Rios
Urbanos

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Arborização Urbana
Capina Química e Mecânica
Denúncias / Fiscalização Ambiental
Já escrevi alguns textos sobre o entubamento de rios, um absurdo sem precedentes na “política” Download de Materiais
urbana. A falta de saneamento básico e a especulação imobiliária são as principais causas do Entubamento / Canalização
entubamento. Primeiro se joga esgoto sem tratamento, depois tenta-se justificar o entubamento Estudos Ambientais
do recurso hídrico por conta de sua poluição, então ocupa-se o local, inclusive as APPs. Ética Profissional
Histórias Absurdas
Já de inicio devo frisar que o entubamento de qualquer recurso hídrico natural é crime! Mesmo
Incompetência
que tenha uma licença ambiental, a qual não possui validade como explico ao longo do texto. Legislação/Normas Técnicas/Jurisprudência
Licenciamento Agropecuário /
Antes de prosseguir vamos deixar bem claro a diferença de canalização e entubamento.
Agrossilvipastoril
Canalização é quando se faz um canal, aberto, geralmente com a mudança do curso natural do
Licenciamento Ambiental – Geral
rio, das margens, etc. Entubamento é, quase sempre, o enterramento do recurso hídrico
Licenciamento de Mineração
através de tubos de concreto.
Licenciamento Florestal
Todos os meus textos anteriores sobre entubamento foram escritos antes da publicação da Licenciamento Industrial
Resolução Consema nº 372/2018, quando não tínhamos o Código de Ramo (CODRAM) para Meio Ambiente
entubamento. Existia apenas o CODRAM para canalização, que gerava muitas confusões, pois Notícias
os municípios usavam para o entubamento, como expliquei neste texto aqui, e como pode ser Outorga de Direito de Uso dos Recursos
visto nesta notícia aqui. Porém, quando a confusão começou a ser esclarecida e os municípios Hídricos
finalmente autuados, surge a 372. Planos de Gerenciamento de Resíduos
Sólidos – PGRSS, PGRS, PGRCC
Com a edição da nova resolução eis que o Conselho Estadual de Meio Ambiente, que deveria
Recursos Hídricos Superficiais
se chamar CONSEDRI – Conselho Estadual de Destruição de Recursos Hídricos, pois além de,
na prática, aprovar o lançamento de milhões de metros cúbicos de escrementos de suínos e
bovinos nos nossos rios, na zona rural, aprovou o entubamento dos rios na zona urbana, através
do CODRAM 3463,10 – TUBULAÇÃO DE CURSOS D’ÁGUA NATURAL EM ÁREA URBANA, e Contador de visitas
ainda passou a atribuição desse licenciamento para os municípios:

A 372 trouxe também um glossário, e até definiu, corretamente, o que é canalização e o que é
entubamento:

Esse foi, no meu entendimento, o MAIOR ABSURDO da Consema 372!

Ao invés do Consema combater o entubamento, em consonância com a Política Nacional de


Recursos Hídricos, estão promovendo!

Muitos municípios já começaram uma corrida para entubar os rios e varrer esse “problema” para
debaixo do tapete.

Aqui em Marau, segundo diversos moradores interessados, a “prefeitura” (provavelmente a


Secretaria de Cidade) já esteve em diversos locais avaliando o entubamento de novos rios ou
novos trechos.

A grande maioria dos entubamentos sempre foram feitos pelas prefeituras. Por isso muitos
municípios foram autuados, mesmo com o licenciamento ambiental, como ocorreu nesse
exemplo, do município de Getúlio Vargas/RS, que felizmente foi condenado a recuperar o dano
causado: Processo Entubamento Getúlio Vargas.

Essas autuações levaram os municípios à exigirem que o entubamento fosse passível de


licenciamento ambiental. Mas esse licenciamento deveria ser municipal, porque se fosse com a
Fepam a situação não seria facilitada o suficiente. E foi o que aconteceu, a reivindicação dos
municípios foi atendida, e não é coincidência que justo agora, em ano eleitoral…

Agora ficou fácil: na prática o município declara o entubamento como de utilidade pública, exige
que um licenciador despreparado ou um CC ou FG faça o licenciamento e pronto, mais um rio
destruído! Até alguma autoridade competente pela fiscalização entender que todo o processo é
inválido o dano já foi feito e os responsáveis estarão cada vez mais longe da punição.

Mas aí surge a pergunta: se o entubamento é uma atividade proibida, porque foi incluída na lista
de atividades passíveis de licenciamento ambiental?

Um bom exemplo é a capina química em área urbana, prática que também já abordei neste
site. Mesmo tendo sido proibida em todo o país pela Anvisa, com todas as letras (ver o item 9 da
Nota Técnica nº 4 da ANVISA (2016), o CONSEDRI, digo, CONSEMA, aprovou a resolução
colocando-a na lista de atividades passíveis de licenciamento ambiental no estado do Rio
Grande do Sul.

Eu penso que colocar na lista atividades que são proibidas é uma estratégia para agradar os
municípios, principalmente neste ano eleitoral, e ao mesmo tempo criar um passivo ambiental
gigantesco, que será jogado no colo das gerações futuras, que por sua vez será usado para
forçar mudanças (flexibilização) na legislação.

Aconteceu a mesma coisa com o código florestal de 1965: o poder executivo foi omisso, criando
um passivo gigantesco, que foi usado como argumento para, em 2012, mudar o excelente
código florestal que tínhamos. E isso é feito todo dia, já foi feito com o setor florestal e agora
está sendo feito com os recursos hídricos.

O grande problema é que na prática, a partir do momento que uma atividade está na lista de
atividades passíveis de licenciamento ambiental, todo mundo quer o licenciamento. Os prefeitos,
secretários e demais interessados, inclusive muitos técnicos, possuem uma enorme dificuldade
de entender que NÃO É SÓ PORQUE UMA ATIVIDADE ESTÁ NA LISTA COMO PASSÍVEL DE
LICENCIAMENTO AMBIENTAL QUE A MESMA SEJA PERMITIDA PELA LEGISLAÇÃO. Pois
é…

Eu simplesmente não entendo como um Conselho de MEIO AMBIENTE pode fazer tanta
bagunça. Como que podem permitir que uma atividade proibida entre na lista de atividades
passíveis de licenciamento ambiental? Até imagino o argumento deles, talvez seja o de que a
lista é apenas isso, uma simples lista de atividades, mas que para cada atividade deve ser
observada a legislação pertinente, etc. Não está errado, mas o problema é que o Conselho deve
levar em conta o que acontece na prática, na realidade, e não no plano abstrato. Na cabeça da
maioria das pessoas se a atividade está na lista é porque é permitida, simples assim. É por isso
que na prática a resolução permite o entubamento e destruição de uma grande quantidade de
rios, justamente o que o Conselho deveria evitar!

Quais os impactos ambientais de um entubamento?

O ambiente aquático, assim como a vegetação terrestre, é totalmente dependente da luz solar.
Quando um rio é entubado, fechado, as algas, o fitoplancton, as macrófitas aquáticas, enfim
todos os vegetais morrem. Quando a base morre, todo o ecossistema entra em colapso. As
extinções começam em efeito dominó, até a grande maioria dos organismos locais
desaparecerem.

Enterrar um rio é condená-lo a se transformar num simples conduto de esgoto in natura, sem
vida.

O entubamento destrói com a paisagem, um dos itens que definem legalmente o meio ambiente.
Destruir com a paisagem também é uma forma de poluição e degradação.

Um rio enterrado é um rio a menos para a utilização pela fauna, flora e pela população.

O entubamento promove ou potencializa enchentes. Dificilmente é feito um laudo hidrológico


antes do entubamento de um rio, mesmo naqueles que foram equivocadamente licenciados, de
modo que com a impermeabilização futura da bacia, aquele rio entubado começará a
transbordar.

Longe de ser uma solução, o entubamento é a promoção de mais e mais problemas, como pode
ser visto neste livro, Rios e Córregos, Preservar, Conservar, Renaturalizar.

Tecnicamente não existe justificativa para o entubamento de um recurso hídrico. Os


entubamentos e retificações feitas na Europa, por exemplo, estão sendo desfeitas e os rios
recuperados e realocados para o seu leito original – o que é chamado de renaturalização. Isso
está sendo feito porque é mais barato, a longo prazo, do que lidar com os problemas causados
por entubamentos, canalizações e retificações.

Em relação ao consumo de água potável, também é mais barato, a longo prazo, cuidar dos rios
do que tratar uma água poluída. A prevenção sempre é mais barato, principalmente em meio
ambiente, pois uma área degradada nunca mais será como antes, mesmo que se gaste todo o
dinheiro do mundo, nenhuma recuperação ou remediação trará de volta os atributos originais.

Citei apenas alguns exemplos, mas uma pesquisa a fundo com certeza vai demonstrar que o
impacto é gigantesco, muito maior do que qualquer possível benefício que um entubamento
poderia trazer.

Comentários sobre a lógica e o bom senso dos entubamentos.

O poder público é inerte no seu dever de promover o saneamento básico e como forma de
resolver essa situação, enterra um recurso hídrico? Em pleno século XXI, com todo o
conhecimento que possuímos, isso é inadmissível.

É óbvio, mas parece que estamos vivendo tempos em que é preciso dizer o óbvio: os recursos
hídricos devem ser recuperados e protegidos, e não entubados! O esgoto deve ser tratado e não
usado como argumento para destruir o recurso hídrico receptor!

Muitas pessoas costumam se importar com os grandes corpos de água, mais do que com os
pequenos, pois tratam estes últimos como desprezíveis. Mas todo grande rio é formado por
inúmeros pequenos córregos e nascentes. Não existe nascente ou pequeno rio que seja
desprezível, pois são eles que formam os grandes.

Quando o poder público se dispõem a investir tempo, esforço e dinheiro para entubar um rio,
porque não usa esses mesmos recursos para recuperá-lo?

Mas onde diz que é proibido entubar os rios?

Não tem um frase na legislação que diga: “é proibido entubar os rios”. Eu sei que a falta de uma
frase explícita, precisa e detalhada abre brecha para os desentendidos ou mal intencionados
argumentarem a favor do entubamento. Mas o fato de não estar escrito dessa forma não quer
dizer que a lei permite tal absurdo, pois toda a legislação é contrária ao entubamento, mesmo
que não de forma explícita.

Toda a legislação deve seguir os princípios da nossa constituição. Qualquer norma contrária à
ela se torna inconstitucional. No artigo 225 da CF88 diz que “todos têm direito ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de
vida […]“. Acho que até uma criança percebe que um rio entubado está muito longe de um
ambiente equilibrado, sadio e de uso comum do povo. Um rio morto não serve para nenhum uso
nobre, apenas para o escoamento de esgoto e disseminação de doenças e poluição.

O artigo 4º da Política Nacional do Meio Ambiente diz que ela visará “à preservação e
restauração dos recursos ambientais com vistas à sua utilização racional e disponibilidade
permanente, concorrendo para a manutenção do equilíbrio ecológico propício à vida“. O
entubamento de um recurso hídrico vai contra todos esses preceitos, como já expliquei mais à
cima.

A Política Nacional de Recursos Hídricos, em seu artigo 32, cria o Sistema Nacional de
Gerenciamento de Recursos Hídricos, com o seguinte objetivo: “planejar, regular e controlar o
uso, a preservação e a recuperação dos recursos hídricos“.

A Política Estadual de Recursos Hídricos do Rio Grande do Sul, tem como objetivo: “impedir a
degradação e promover a melhoria de qualidade e o aumento da capacidade de suprimento
dos corpos de água, superficiais e subterrâneos, a fim de que as atividades humanas se
processem em um contexto de desenvolvimento sócio-econômico que assegure a
disponibilidade dos recursos hídricos aos seus usuários atuais e às gerações futuras, em
padrões quantitativa e qualitativamente adequados.

Segundo o Princípio da Legalidade, que pode ser consultado neste artigo aqui, “enquanto na
administração particular é lícito fazer tudo que a lei não proíbe, na Administração Pública só é
permitido fazer o que a lei autoriza”. Desta forma se não tem lei que autorize o entubamento, é
ilícito fazê-lo, até porque a lei diz o contrário, que os rios devem ser recuperados e preservados.

Não existe motivo para eu compilar toda a legislação existente sobre recursos hídricos, visto que
isso já foi feito em diversos livros de direito ambiental. Por isso a partir daqui vou citar o melhor
livro que conheço sobre o assunto, o Direito Ambiental Brasileiro, de um dos maiores juristas do
direito ambiental no país, o Dr. Paulo Affonso Leme Machado. Vou disponibilizar o livro em PDF
aqui: MACHADO, Paulo Affonso Leme. DIREITO AMBIENTAL BRASILEIRO, porém é a edição
de 2012 e deve ser usada apenas para consulta pessoal, sendo sugerida a compra da edição
atual. Como essa parte é muito trabalhosa, vou atualizando conforme vou acumulando mais
informações a respeito.

Sobre a Lei Federal nº 9.433/1997 que institui a Política Nacional de Recursos Hídricos, o Dr.
Leme faz a seguinte citação:

É também objetivo da Política Nacional de Recursos Hídrico “a prevenção e a defesa


contra eventos hidrológicos críticos de origem natural ou decorrentes do uso inadequado
dos recursos naturais” (art. 2e, III).
As enchentes ou inundações ou cheias dos cursos d’água, na maioria das vezes, não
constituem fatos oriundos da força maior. São previsívei e evitáveis, desde que se
afastem as suas causas. A ausência de vegetação protetora das margens dos cursos de
água e o assoreamento dos leitos desses cursos estão entre as principais causas desses
eventos hidrológicos críticos. Em Hidrologia emprega-se a locução “cheia máxima
possível“, que é a “máxima cheia a ser esperada, no caso de completa coincidência de
todos os fatores capazes de produzir a maior precipitação e o escoamento máximo”.
Conceituam-se como “prevenção contra as cheias” as “técnicas para evitar os danos das
inundações às estruturas e aos edifícios situados em áreas expostas às cheias”.
Devemos apontar duas “Diretrizes Gerais de Ação” (art. 3º) como auxiliares da
consecução do objetivo de prevenir e defender a população contra as inundações:
articulação dos planejamentos dos recursos hídricos e, especialmente, da área regional e
integração com a gestão do uso do solo.
[…]
Salientemos as conseqüências da conceituação da água como “bem de uso comum do
povo”: o uso da água não pode ser apropriado por um: só pessoa física ou jurídica, com
exclusão absoluta dos outros usuários em potencial; o uso da água não pode significar a
poluição ou a agressão desse bem; o uso da água não pode esgotar o próprio bem
utilizado […].
A presença do Poder Público no setor hídrico tem que traduzir um eficiente resultado na
política de conservar e recuperar as águas. Nesse sentido o art. 11 da Lei 9.433/1997,
que diz: “O regime de outorga de direito de uso de recursos hídricos tem como objetivos
assegurar o controle quantitativo e qualitativo dos usos da água e o efetivo exercício dos
direitos de acesso à água”. O Poder Público não pode agir como um “testa de ferro” de
interesses de grupos para excluir a maioria dos usuário acesso qualitativo e quantitativo
às águas. Seria um aberrante contrassenso a dominialidade pública “aparente” das águas
[…].

Na grande maioria dos casos os entubamentos são feitos para o benefício de uma ou algumas
pessoas, por exemplo o dono do terreno, então toda a sociedade fica com o ônus para deixar o
bônus para alguns privilegiados pelo poder público.

Todos os princípios e a legislação que trata sobre recursos hídricos deixam bem claro que eles
devem ser recuperados e preservados, e não poluídos, entubados, enterrados e esquecidos.

Com toda certeza é uma atividade inconstitucional, pois os rios devem ser protegidos e
despoluídos e suas APP mantidas preservadas. Inclusive com a edição da Súmula 613 pelo
STJ, não pode mais ser usado a Teoria do Fato Consumado no direito ambiental. Portanto,
como expliquei nesse texto aqui, não se pode mais tratar um crime ambiental antigo como fato
consumado, muito menos um fato novo; essas regularizações não podem mais ser executadas.
Essas áreas devem ser recuperadas e os locais ainda não degradadas devem ser protegidas.

Quando se entuba um rio, perde-se completamente o interesse sobre o mesmo, a partir daí
pode-se poluí-lo à vontade, pois ninguém vai se preocupar com isso.

A Convenção para a Proteção e Utilização dos Cursos de Água Transfronteiriços e dos Lagos
Internacionais, de Helsinque, 1992, em suas disposições gerais, preconiza que “os recursos
hídricos são geridos de modo a responder às necessidades da geração atual sem comprometer
a capacidade das gerações futuras de satisfazer suas próprias necessidades” (art. 22, 5, “c”).

Continua…

Bibliografia.

Imagem de capa: https://www.topsulnoticias.com.br/news/politicas-sociais%3a-


canaliza%c3%a7%c3%a3o-de-sanga-no-bairro-paraiso-esta-sendo-realizada-pela-secretaria-de-
obras-crissiumal-rs/

Demais conteúdos e sites estão linkados no texto.

Trecho entubado em Marau/RS – 04/12/2017.

 Arroio, Artigo 225 da CF88, Canalização, canalização de rios, Consema 372, Destruição de
APP, destruição de recursos hídricos, Destruição dos recursos hídricos, Direito Ambiental
Brasileiro, Dr. Paulo Affonso Leme Machado, entubamento, Entubamento de rios, Livro Direito
Ambiental Brasileiro, Política Estadual de Recursos Hídricos, Política Nacional de Recursos
Hídricos, preservação e restauração dos recursos ambientais, recursos hídricos, Resolução 372,
Resolução CONSEMA 372/2018, riacho, rio, sanga

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