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A VISÃO ANTROPOLÓGICA DO CUIDADO NOS SERVIÇOS DE SAÚDE

GUERREIRO, Lidiane Trindade *; MACHADO, Aline Cardoso; MARAVILHA, Cristiane de


Alencar*; PEREIRA, Márcia de Oliveira *; NOVAES, Marlene **
*Acadêmicas do 4º ano de Enfermagem da Universidade Estadual de
** Docente do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá

RESUMO: Este trabalho aborda a humanização dos serviços de saúde, enfocando os cuidados de
enfermagem. O título encerra, na verdade, os cuidados através de uma visão antropológica
destacando-se a importância das representações da doença em cada indivíduo e suas implicações
na assistência aos mesmos. Outra discussão é o conceito que se tem sobre a hierarquização dos
profissionais da saúde, que têm como parâmetro a assistência voltada ao modelo médico.

PALAVRAS-CHAVE: humanização, serviços de saúde, cuidado, representações de doença.

INTRODUÇÃO

O enfermeiro é um ser social, que mantém crenças, valores, normas e conhecimentos.


Os valores que conserva são formulados, compartilhados com outros membros da sociedade.
Não podemos negar que somos seres humanos com sentimentos, fraquezas e que
também pertencemos a uma família e a outros grupos sociais, construindo com seres de nossa
relação uma história de vida. O enfermeiro tem necessidade de expor dúvidas e sentimentos,
pedindo e dando apoio à sua família e a outras famílias e profissionais.
O cuidado consiste no desenvolvimento de atividades e decisões realizadas com o
paciente durante a hospitalização. O enfermeiro e o paciente em um processo de interação
buscam conhecer-se mutuamente, compartilhando e negociando conhecimentos, crenças e
valores, em situações de saúde e doença. O cuidado pode ser preservado, acomodado e
reorganizado durante o processo de interação entre enfermeiro-paciente.
A assistência de enfermagem. é representada por vários elementos ou “construtos do
cuidado”, que são como bases significativas e essenciais no desenvolvimento de ações na
manutenção, promoção de saúde e luta contra a doença e/ou incapacidades.
São eles: dialogar, refletir, meditar, promover conhecimentos, orientar, educar,
confortar, prevenir, agir, ter sensibilidade, observar, expressar, ouvir atentamente, dedicar-
se, valorizar, compreender, desafiar, estimular, proteger, aliviar a dor, promover momentos de
alegria, prazer, demonstrar sentimentos de ternura (PATRÍCIO, 1994).

ATUAÇÃO DOS PROFISSIONAIS EM SAÚDE

As constantes críticas com respeito à precária assistência à saúde oferecida hoje,


principalmente aos usuários do Sistema Único de Saúde, têm nos feito refletir a respeito das
causas deste processo e qual seria o papel do enfermeiro na reversão do mesmo.
A primeira e mais corrente explicação à falência do sistema de saúde vigente é a falta
de recursos financeiros. Embora vários fatores tenham sido atribuídos a esta falência do sistema
de saúde vigente, um importante aspecto tem sido por vezes negligenciado. Trata-se de um
processo de mecanização da assistência bastante nítido.
O acesso a diversas inovações tecnológicas e a um conhecimento cada vez mais
específico não tem levado a assistência plenamente satisfatória aos usuários. Embora seja um
tanto quanto paradoxal que o acesso a um número cada vez maior de informações e uma
especialização técnica crescente da equipe de saúde, com a incorporação de sofisticadas
tecnologias não têm promovido a esperada qualidade dos serviços de saúde. Este é um
fenômeno bastante notável nas relações médico-paciente que não se vêem aprimoradas ou
beneficiadas apenas com a introdução de serviços tecnológicos.
Talvez o início desta deficiência assistencial esteja na divergência entre os objetivos de
quem trata e de quem é tratado. Ao procurar o serviço de saúde o usuário deve apresentar
alguma patologia ou queixa e o prestador de cuidado, por sua vez, deve ocupar-se de solucioná-lo.

Mas, principalmente nas unidades básicas de saúde é bastante comum que um


paciente procure o serviço apenas para ter com quem conversar ou alguém que possa

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oferecer um mínimo de atenção a ele. Para esse caso o cuidador deverá buscar o reconhecimento da
situação global na qual se encontra o paciente e o que realmente o está levando a buscar
o serviço. Podemos dizer que o objetivo da equipe de saúde é o tratamento de uma doença e o do
usuário é o tratamento de uma pessoa, ele próprio.
A maneira como cada pessoa interpreta a doença pode ou não corresponder àquela
classificação que a ciência médica adota. Segundo Laplantine (1991), o campo do médico
fundamenta sua pratica na recusa da experiência do doente, em beneficio do conhecimento
objetivo como única fonte da verdade autêntica. Ou seja, neste modelo o “dono” da doença não
é o doente, mas o médico que diagnostica, dá o prognóstico e o tratamento.
Um outro aspecto a ser levantado nesta discussão seria, qual deveria ser o caráter e a
composição de uma equipe de saúde apta a atender? E dentre os profissionais que a compõe,
qual é o mais importante? Vamos por partes, a equipe de saúde é aquela que está envolvida no
cuidado de uma pessoa, olhando sob esta ótica, esta equipe se estende muito além de médico,
enfermeira, nutricionista ou assistente social.
Tomando como exemplo, uma unidade de saúde de um nível mais complexo de atendimento,
um hospital geral. Neste hospital existem pessoas que cuidam dos pacientes através de uma roupa be
m lavada, de uma comida bem preparada, através do lixo recolhido e dos corredores bem
limpos, através da informação fornecida na portaria, ou do zelo ao controlar entradas e saídas,
para que nenhum de seus clientes seja aborrecido ou exposto.
Todos estes são cuidadores, e, dentro de suas funções todos são de
extrema importância. O mais curioso é que a assistência voltada ao modelo médico, faz com
que até mesmo estes profissionais que fazem o hospital funcionar se esqueçam de sua condição
de cuidadores e nem sejam entendidos como tal.
A hierarquização dos serviços de saúde resulta em uma crença geral que o cuidador é
essencialmente quem prescreve remédios, quem diagnostica ou quem faz um curativo, mas a
verdade é que cuidador é todo aquele que pode oferecer o mínimo de atenção ao usuário do
serviço. Merhy (1988, p.109) afirma que este modelo assistencial hierarquizado do médico
trabalhar pode ter sido criado por diversos fatores, dentre eles: “... pelo distanciamento que ele teve
dos interesses do usuário; pelo isolamento que
produziu nas suas relações com os outros trabalhadores da saúde; pelo desconhecimento da
importância das práticas de saúde dos outros profissionais; e pelo predomínio das modalidades
centradas na tecnologia,..., a partir de um saber estruturado reduzido à produção dos
procedimentos”.
O primeiro passo, portanto da otimização da assistência a saúde, seria o reconhecimento
da função de cuidador de todos os profissionais envolvidos em um serviço de saúde,
independente da existência de um relacionamento direto com o usuário; seguido da percepção
do paciente como um todo.

CONCLUSÃO

A visão dos profissionais de saúde perante o paciente deve ser totalmente holística, não
priorizando somente a patologia em questão, mas sim abordando todos os aspectos que
permeiam este indivíduo como problemas financeiros, psicológico, familiares, religiosos,
aspectos físicos e culturais.
Não podemos esquecer do pequeno recurso financeiro disponível no âmbito da saúde,
fazendo com que dificulte ainda mais o desempenho dos profissionais da área. Ficando sujeito
estes, a executar tarefas e habilidades para que desta forma não prejudique o seu cliente com
criatividade, responsabilidade, conhecimento técnico e científico, paciência e improvisos que
podem ocorrer rotineiramente.

REFERÊNCIAS

PATRICIO, Zuleica Maria. O “cuidar/cuidado” aplicação de um marco conceitual de enfoque


Sócio-cultural. In: ELSEN, Ingrid. Marcos para a prática de enfermagem. editora da UFSC, p.
139160. Florianópolis. 1994.
HENCKEMAIER, Luizita. Cuidando da família hospitalizada: uma abordagem transcultural.
Florianópolis. 1997.
MONTEIRO, Paula. Da doença à desordem. ed. Graal. p. 65 104. 1985.
CARTANA, Maria do Horto Fontoura. HECK, Rita Maria. Por que a Antropologia na
Enfermagem? 2 0f.il. Tese ( Pós-graduação em Antropologia) Universidade Estadual de
Maringá, Maringá
LAPALANTINE, F. Antropologia da Doença, Martins Fontes, São Paulo, 1991.
MERHY, Emerson Elias. A perda da dimensão cuidadora na produção da saúde: uma discussão
do modelo assistencial e da intervenção no seu modo de trabalhar assistência. In: Sistema Único
de Saúde em Belo Horizonte Reescrevendo o público. 1998