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O RACIONALISMO COMO PROGRESSO: A AVENIDA AFONSO PENA E A

SUA INFLUÊNCIA NO CRESCIMENTO URBANO DE BELO HORIZONTE

Alessandro Borsagli
Pontifícia Universidade Católica – Minas Gerais

Fernanda Guerra Lima Medeiros


Centro de Formação e Escola Técnica – Minas Gerais

Resumo

O artigo pretende mostrar o processo de evolução da Avenida Afonso Pena,


principal eixo articulador e de socialização da região central de Belo Horizonte, assim
como as mudanças em sua paisagem urbana. Para se entender a dinâmica do processo
de evolução da avenida e do seu entorno analisaram-se as plantas cadastrais da CCNC e
da Prefeitura de Belo Horizonte, além de imagens aéreas e fotografias. A avenida se
destacaria ao longo do Século XX como a via mais arborizada de Belo Horizonte,
figurando muitas vezes como o cartão postal da nova capital. Além de ser o principal
eixo de ligação e passagem obrigatória para se deslocar dentro da urbs mineira, a
avenida também foi berço da verticalização, da sociabilidade entre a população e da
congestão urbana na região central, antigo bairro do Comércio.

Palavras-chave: Avenida Afonso Pena; Memória Urbana; Paisagem Urbana.

Grupo de Trabalho n°8:


Geografia Histórica Urbana

www.simpurb2013.com.br
1. Introdução

Belo Horizonte foi construída para ser um modelo de urbs no infante Brasil
Republicano, que carecia de uma identidade coletiva. Projetada pela equipe do
Engenheiro Aarão Reis a Planta da nova capital apresentava um traçado racional e
positivista, muito parecido com um tabuleiro de xadrez, em conformidade com o
pensamento vigente na época, sendo que a Planta rompia profundamente com a herança
colonial, ainda viva na sociedade brasileira e execrada pelos republicanos, que se
identificavam com os ideais secessionistas da Inconfidência de 1789. A nova capital,
edificada em apenas quatro anos no local escolhido pelos políticos mineiros arrasou por
completo o arraial do Curral del Rey, fundado no inicio do Século XVIII. Na nova
capital prevaleceriam às ideias sanitaristas e o convívio social, através das Praças e Ruas
arborizadas. Nesse ultimo aspecto a Avenida Afonso Pena se destacaria ao longo das
seis primeiras décadas do Século XX como a via mais arborizada de Belo Horizonte e o
ponto de encontro da população, figurando muitas vezes como o cartão postal da nova
capital. Além de ser o principal eixo de ligação e passagem obrigatória para se deslocar
dentro da nova capital mineira, a avenida também foi berço da verticalização e da
congestão urbana na região central, anteriormente denominada bairro do Comércio.
Para se compreender a dinâmica da Avenida Afonso Pena, assim como as
mudanças sofridas na região do entorno da avenida e a influencia da via no crescimento
urbano de Belo Horizonte se fez necessária a analise da primeira Planta confeccionada
pela Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC) em 1895, assim como a Planta da
porção destinada à primeira ocupação da capital feita em 1896. As Plantas
confeccionadas nas décadas seguintes foram imprescindíveis para o presente artigo, pois
elas foram produzidas em conformidade com as obras que estavam em curso no
momento da confecção, além das inúmeras fotografias tiradas ao longo das décadas, o
que permitiu uma melhor compreensão da profunda mudança espacial na qual passava a
capital mineira, em particular a Afonso Pena. De acordo com Corrêa (2000), “o espaço
urbano é um reflexo tanto de ações que se realizam no presente como também daquelas
que se realizaram no passado e que deixaram suas marcas impressas nas formas
espaciais do presente”.
O mesmo Corrêa observa que os agentes formadores do espaço urbano são
responsáveis pelas constantes mudanças que ocorrem na paisagem urbana, pois:

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A ação destes agentes é complexa, derivando da dinâmica de
acumulação de capital, das necessidades mutáveis de reprodução das
relações de produção, e dos conflitos de classe que dela emergem. A
complexidade da ação dos agentes sociais inclui práticas que levam a
um constante processo de reorganização espacial que se faz via
incorporação de novas áreas ao espaço urbano, densificação do uso do
solo, deterioração de certas áreas, renovação urbana, relocação
diferenciada da infraestrutura e mudança, coercitiva ou não, do
conteúdo social e econômico de determinadas áreas da cidade.
(CORREA, 1993, p.11)

Analisando a planta oficial da nova capital, confeccionada em 1895 percebe-se


que Aarão Reis criou a cidade com duas malhas: as das ruas formando ângulos retos e
as avenidas estrategicamente situadas, formando ângulos de 45º interagindo com as
ruas1. Essa interação tem, entre outras características evitar que sejam configuradas ruas
em ziguezague, como o antigo Curral del Rey e as cidades surgidas no período colonial,
que seguiam os traçados dos primeiros caminhos abertos. A Avenida Afonso Pena foi
pensada como um eixo de passagem obrigatório para quem deseja ir de uma ponta a
outra na zona urbana planejada, uma avenida monumental a altura da Planta
confeccionada segundo Aarão Reis, que se preocupava com a simetria e a
monumentalidade, sem levar em consideração as características físicas da região.
Observa-se também que a avenida segue cortando as curvas de nível do terreno, ligando
a parte baixa, na calha do Ribeirão Arrudas, onde se construiu o primeiro Mercado
Municipal a parte alta, na época denominada Morro do Cruzeiro2, atual Praça Milton
Campos. A Avenida do Contorno apresenta-se como o limite da zona planejada, um
“muro imaginário” com traços segregacionistas que separa a zona urbana da zona
suburbana e dos sítios, que também figuram na planta apresentando ruas traçadas de
acordo com a topografia e quarteirões irregulares, facilmente identificáveis em relação à
zona planejada.

O projeto dava maior importância à vista da Serra do Curral, que podia ser
observada de toda a cidade planejada e ela ficava nos seus limites, encaixada entre a
serra e o vale do ribeirão Arrudas. Em suma: a planta buscava atender os ideais
1
Essas malhas formaram dezenas de “corta caminhos” dentro da zona urbana planejada. Nos
engarrafamentos cotidianos de Belo Horizonte os atalhos formados, em alguns casos permitem uma maior
mobilidade nos horários de pico, mesmo estando nos aproximando do “engarrafamento final”, quando,
em um determinado horário ninguém irá à parte alguma, retidos no meio da congestão viária e da
poluição resultante dos milhões de veículos individuais.
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O Morro do Cruzeiro tinha essa denominação devido a uma cruz de madeira que ai existiu, erguida
pelos habitantes do Arraial no Século XIX.

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positivistas e progressistas presentes na nascente republica e esses ideais estão
representados em Belo Horizonte. Um espaço urbano organizado geometricamente,
hierarquizado e com funções sociais e administrativas bem definidas e delimitadas. Um
espaço que não tinha por objetivo harmonizar com o que já existia anteriormente, como
afirma um dos seis estudos acadêmicos reunidos no livro BH, Verso e Reverso (1996):

O projeto de Aarão Reis é minucioso, sofisticado, segregacionista e


elitista. O plano da cidade determina o espaço a ser ocupado tanto
pelas atividades (habitat, trabalho, lazer e administração pública, por
exemplo) quanto pelas classes sociais, preservando e isolando as de
maior poder aquisitivo. (BH Verso e Reverso,1996)

Como dito anteriormente a Avenida Afonso Pena configura-se dentro da zona


urbana planejada de Belo Horizonte como a principal via arterial da região central da
capital, responsável pelo deslocamento de grande parte do fluxo viário e populacional
proveniente dos bairros limítrofes a Avenida do Contorno em direção à região central.
Criada para ser a principal via dentro da zona urbana, responsável pela ligação das
zonas sul e norte ela apresenta um traçado retilíneo, assim como as demais avenidas
planejadas, porém apresenta uma largura de 50 metros e dividindo a zona urbana
desigualmente (Figura 01), enquanto as outras avenidas foram abertas com 35 metros de
largura. Aarão Reis, em seu relatório para a Presidência do Estado em 1895 deu uma
posição de destaque à Avenida, como se pode ler abaixo no trecho extraído do livro
Memória Histórica, de Abílio Barreto (1996):

Apenas a uma das avenidas – que corta a zona urbana de norte a sul, e
que é destinada à ligação dos bairros opostos – dei a largura de 50 m,
para constitui-la em centro obrigado da cidade e, assim, forçar a
população, quanto possivel, a ir se desenvolvendo do centro para a
periferia, como convem à economia municipal, à manutenção da
higiene sanitaria e ao prosseguimento regular dos trabalhos tecnicos.
(BARRETO, 1996)

Segundo Guimarães (1993), as avenidas da zona urbana teriam a função de


estabelecer ligações com pólos funcionais, facilitar os deslocamentos da população e
direcionar o crescimento urbano do centro para a periferia, papel atribuido por Reis a
Avenida Afonso Pena. Mas nos anos que se sucederam a inauguração da nova capital o
crescimento urbano de Belo Horizonte se deu de forma inversa, onde os vazios urbanos
dentro da Avenida do Contorno eram notaveis, e o crescimento da zona suburbana
demandava cada vez mais a atenção do Poder Público, em particular a região oeste da
capital, na qual a avenida era um dos acessos via Lagoinha e Ponte do Saco.

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Fig.01 Planta Topográfica da Cidade de Minas confeccionada em 1895, onde se destaca a
Avenida Afondo Pena, dividindo a zona urbana planejada.
Escala 1:4000.1895.
Fonte: PANORAMA, 1997

2. A avenida e a malha urbana da nova capital

A avenida, nos seus primeiros anos havia sido aberta desde o antigo Mercado,
onde hoje está a Rodoviaria até o cruzamento da Avenida Brasil. A partir daí ela se
convertia em um caminho de terra que levava ao antigo Cruzeiro. Posteriormente ela foi
estendida até o cruzamento da Avenida Paraúna, nas proximidades do Cruzeiro, ponto
final da avenida segundo a Planta de 1895. Entre 1897 e 1920 a Cidade de Minas (a
nova capital adotou o nome do antigo arraial de Belo Horizonte em 1901) apresentou
um pequeno crescimento na zona urbana compreendida dentro da Avenida do Contorno,
projetada para delimitar a zona urbana, simetricamente projetada com ruas regulares e
áreas com funções especificas para a zona suburbana, já destinada a população de
menor poder aquisitivo e que apresentava ruas e quarteirões irregulares, além da falta de
infraestrutura urbana, diferentemente do que acontecia na zona urbana. Durante esse
periodo a capital mineira permaneceu com ares de interior devido aos grandes vazios na
zona urbana, fato que nao fugiu aos olhos de diversos visitantes ilustres que passaram
por ela nesse periodo (Figura 02).

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Fig.02 Avenida Afonso Pena nos primeiros anos da nova capital.
Fonte: APCBH

A falta de investimento por parte do Poder Publico e a especulação imobiliária


atrasou a expansão urbana nos terrenos compreendidos dentro da Avenida do Contorno,
cuja ocupação se limitava a região central (bairro comercial), e os bairros Floresta e
Funcionários. A arrecadação era pequena e os recursos disponíveis não eram suficientes
para a realização das obras necessárias. Isso se deve ao fato de a nova capital ter sido
construída apenas para fins administrativos, uma utopia republicana abandonada logo
após a inauguração de Belo Horizonte e a extinção da Comissão Construtora, no inicio
de 1898. Era necessária para a expansão e manutenção da capital um comercio forte e
um parque industrial significativo, que irradiasse sua influencia por todo o Estado.
Essa preocupação com a arrecadação era sentida desde os primeiros anos da
nova capital, como se lê nas palavras do prefeito interino Antonio Carlos Ribeiro de
Andrada registrou em seu relatório (1906) que “o futuro de Belo Horizonte está na
dependencia completa das industrias que aqui se installem”.
Nas duas primeiras décadas do Século XX a Avenida Afonso e a Rua da Bahia
consolidaram-se como o principal espaço de articulação urbana da capital (Figura 03).
Eram nessas vias, calçadas somente no final da década de 1900 que se davam o maior
fluxo de pessoas e de veiculos, motorizados ou não, de Belo Horizonte. Estas vias, mais
os trechos compreendidos na Rua da Bahia entre Timbiras e Afonso Pena, Espirito
Santo entre Afonso Pena e Avenida do Comércio, Afonso Pena entre as Ruas da Bahia e
Espirito Santo, e por toda a Rua dos Caetés abrigavam grande parte das casas
comerciais da nova capital e diversas residencias, muitas delas pertencentes aos

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funcionarios da administração vindos de Ouro Preto. Outra caracteristica marcante
desse periodo foram os cafés e bares que existiram ao longo da avenida, onde se destaca
o Bar do Ponto, reduto de intelectuais e local de irradiação de noticias, discussões
politicas, esportivas que existiu em frente ao Ponto de Bondes da Avenida Afonso Pena,
no cruzamento com a Rua da Bahia. A Avenida viria a abrigar além dos cafés, hoteis,
casas comerciais e residenciais, essas ultimas tiveram uma breve existencia, a medida
que o bairro comercial vai assumindo funções especificas as residências foram sendo
“empurradas” para os bairros adjacentes à regiao central.

Fig.03 Cruzamento da Avenida Afonso Pena e Rua da Bahia na década de 1910, à


esquerda o antigo Congresso Mineiro e o Bar do Ponto. Fonte: APM

A Praça do Cruzeiro, na extremidade sul da avenida e o ponto mais elevado da


zona urbana foi o local escolhido pela CCNC para se edificar a nova Catedral da Boa
Viagem, segundo a Planta elaborada por esta Comissão. A Matriz, se construída nesse
local teria sem dúvida alterado toda a perspectiva que se tinha desde o bairro comercial
e adjacências, na outra extremidade da avenida. Talvez pela distancia que ficaria a nova
Matriz do local determinado para a primeira ocupação urbana da nova capital ela não foi
construída, preservando-se então a antiga Matriz da boa Viagem, que passou a ocupar
um quarteirão inteiro dentro da zona urbana, no limite dos bairros do Comércio e dos
Funcionários.

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Posteriormente cogitou-se em transformar a Praça do Cruzeiro em mirante, por
apresentar uma visão privilegiada de grande parte da capital, conforme relatório do
Prefeito Flavio Fernandes dos Santos em 1923:

Há muito que fazer nesta parte, mesmo não contando com a abertura
de novas ruas ou trechos de ruas, nas zonas urbana e suburbana.
Ninguém poderá negar que, ultimadas a Avenida Affonso Penna e a
Praça do Cruzeiro, onde já foi executado grande movimento de terra,
si não me engano, pela Comissão Construtora da Capital, muito terá a
lucrar o bom aspecto da cidade. Para quem viesse visitar Bello
Horizonte, desde que o accesso fosse um dos pontos forçados seria
aquella praça, a que se poderia dar um aspecto, por sua vez, agradável,
dotando-a de um jardim sem arborização espessa para não perturbar a
vista. (SANTOS, 1923)

A situação de estagnação em que se encontrava Belo Horizonte mudaria apenas


na década de 20, quando se tem a primeira grande mudança espacial na capital mineira,
em parte patrocinado pelo Estado, que tinha interesses especificos nas intervenções
realizadas, além de continuar nomeando os Prefeitos que administravam a capital, fato
que já ocorrida desde a extinção da Comissão Construtora da Nova Capital em 1898. As
intervenções patrocinadas pelo Estado permitiram a continuação da urbanização dentro
da zona compreendida dentro da Avenida do Contorno, nas proximidades da Serra do
Curral. Tornou-se então necessaria a regularização e finalização da Avenida Afonso
Pena e das vias no seu entorno. Em 1924 foi inaugurado o monumento comemorativo
do centenário da Independencia do Brasil, na Praça Quatorze de Outubro, no
cruzamento das Avenidas Afonso Pena e Amazonas. Após a inauguração do obelisco a
Praça recebeu a denominação de Praça Sete de Setembro, local que se tornaria o marco
zero do hipercentro de Belo Horizonte nas décadas seguintes, deslocando o espaço de
articulação urbana do cruzamento da Rua da Bahia e Afonso Pena para o cruzamento da
Avenida Amazonas.
A retomada dos investimentos por parte do Poder Publico na decada de 20
permitiu a finalização da Avenida na segunda metade da decada. Em 1927 foi concluída
a terraplanagem da Praça do Cruzeiro planejada pela CCNC no final do Século XIX e
realizada exatos trinta anos depois de extinta a mesma Comissão no local que deveria
ter sido erguida a nova Matriz da Boa Viagem. A terraplanagem removeu o barranco
que impedia a finalização da Avenida (Figura 04) e a terra removida do local foi
utilizada para aterrar o antigo leito do córrego do Acaba Mundo, retificado e canalizado
para a Avenida Afonso Pena entre a Rua Professor Morais e o Parque Municipal, obra
realizada no mesmo período.

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Fig.04 Terraplanagem da Praça do Cruzeiro e finalização da Avenida Afonso Pena
em 1927. Fonte: APM

No trecho aberto entre a Praça 21 de Abril (Praça Tiradentes) e a Praça do


Cruzeiro (Praça Milton Campos) a avenida se caracterizava pela predominância de
casas residenciais, ainda presentes na paisagem urbana (Figura 05). É bom ressaltar que
muitas delas já existiam mesmo estando a Avenida ainda inacabada até 1927. A região
abaixo da Praça Tiradentes, continuava apresentando uma função mista, com
predominância de casas comerciais, terrenos e edifícios institucionais, concentrados na
sua maioria nas proximidades do Parque Municipal. Até a década de 40 ainda existiam
muitos sobrados de dois pavimentos, destinados ao uso comercial e residencial. Grande
parte dos sobrados da Avenida deu lugar aos edifícios construídos a partir de 1932,
pioneiros no processo de verticalização da capital.
A verticalização de BH teve inicio justamente no bairro comercial, sendo que em
1930 praticamente não existiam mais lotes vagos na Avenida Afonso Pena, de acordo
com a Planta Cadastral de 1928/1929 (figura 05). Em Outubro de 1922 a Prefeitura
lançou o regulamento de construções na capital que permitiu o aumento da densidade da
área central, incentivando a sua verticalização. O concreto armado que já era empregado
desde os anos 20 nas construções de pontes, reservatórios e de alguns pequenos
edifícios, grande parte deles localizados na Rua dos Caetés teve de fato regulamentado o
seu uso em 1933 com o Decreto Nº. 165. Nesse mesmo decreto a capital sofreu
alterações em relação ao seu zoneamento.

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Fig.05 Planta Cadastral de Belo Horizonte confeccionada em 1928/1929,
onde se destaca a Avenida Afondo Pena e região central. Escala 1:5000. Fonte:
PANORAMA, 1997

Anterior ao decreto foi inaugurado em 1932 o Cinema Brasil decretando o fim


da “era do tijolo” e dando inicio a “era do concreto armado” em Belo Horizonte. O
prédio do Cine Brasil, localizado na Praça Sete lançou um estilo arquitetônico
amplamente adotado na capital nos anos 30 e 40: o estilo Art Decó, que traz como
características marcantes a base retangular e os frisos horizontais em baixo relevo, como
podemos observar nas imagens abaixo.
A regulamentação do uso do concreto armado mostrou as suas consequências
pouco tempo depois da publicação do Decreto. Em 1935 era inaugurado o edifício Ibaté,
o primeiro “arranha céu” de Belo Horizonte construído na Rua São Paulo esquina com a
Avenida Afonso Pena. Com a sua construção tiveram inicio a substituição das
construções de finalidade residencial na área central, em particular as casas residenciais
e comerciais na Avenida Afonso Pena, a maioria de no máximo três andares, muitas
delas datadas da construção da capital. A verticalização permitiu o maior adensamento
da região central e abriu caminho para a verticalização desenfreada das décadas
seguintes, devido às sucessivas mudanças no Regulamento de Construções. Além do
Ibaté e do Cine Brasil, ambos construídos na Afonso Pena, outros edifícios, todos
destinados ao uso comercial construídos no mesmo período selaram definitivamente a
mudança espacial da capital, adensando a área central e consolidando o modernismo

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que, graças ao concreto armado, alterou profundamente a paisagem urbana na região
central de Belo Horizonte, que se irradiou a partir da Avenida Afonso Pena (Figura 06),
atingindo os bairros adjacentes nas décadas seguintes.

Fig.06 A Avenida Afonso Pena em 1940, onde se destacam os edifícios Ibaté e Capixaba.
Fonte: APM

No inicio da década de 40, na gestão Juscelino Kubitscheck teve inicio o


prolongamento da Avenida, com a finalidade da melhoria da comunicação viária entre a
capital e a cidade de Nova Lima, e para o Rio de Janeiro. A obra de prolongamento
também previa a construção de um túnel na Serra do Curral, obra nunca realizada, mas
idealizada, como se lê no trecho extraído do Relatório de 1942:

Em demanda da Serra do Curral, fizemos prolongar a Avenida Afonso


Pena, numa extensão de 382 metros, afim de que se facilite a ligação
desta capital ao município de Nova Lima e dali à capital da Republica,
através de um Túnel em estudos e que, realizado, será uma das
maiores obras da engenharia brasileira. (RELATÓRIO,1941)

As obras foram interrompidas pouco tempo após o seu inicio, sendo abertos
apenas 700 metros (Figura 07). Desde a interrupção do prolongamento da Avenida o
local que já havia sido aberto converteu-se em um dos caminhos utilizados pelos
moradores das Favelas do Pindura Saia e Santa Isabel para se chegar a Avenida do
Contorno ou aos serviços de transporte publico que existiam no bairro Serra e Anchieta.
O barranco criado pela abertura do dito trecho em 1940 foi ocupado por diversos
barracos pertencentes a Favela do Pindura Saia. Essa obra fazia parte do projeto das
grandes avenidas radiais proposto pelo Engenheiro Lincoln Continentino e adotado em
parte por Juscelino Kubitscheck, tanto no prolongamento da Afonso Pena quanto na
abertura da Avenida Antônio Carlos, principal via de ligação com a região da

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Pampulha, apesar da Avenida Afonso Pena não ser uma via radial e sim uma via
arterial. A sua gestão na Prefeitura de Belo Horizonte foi na verdade um embrião do que
viria a fazer na Presidência da Republica, anos mais tarde.

Fig.07 Prolongamento da Avenida Afonso Pena em 1941. Fonte: APCBH

A avenida conservou-se na década seguinte de acordo com o projeto original da


CCNC: dentro dos limites da Avenida do Contorno. O prolongamento de 1940
permaneceu até a década de 60 como uma larga estrada de terra que terminava um
pouco acima da caixa d’água do Cruzeiro (Figura 08).

Fig.08 A Avenida Afonso Pena e o prolongamento iniciado em 1942 em destaque na


imagem de satélite de 1956. Escala aproximada 1:15000. Fonte: PANORAMA, 1997

3. Caos urbano e o rompimento do planejado

A década de 60, em particular o ano de 1963 foi marcado por uma das mais
profundas transformações da paisagem urbana de Belo Horizonte: o corte dos Fícus da

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Avenida Afonso Pena, com a justificativa da melhoria do fluxo viário na região central
e da extinção dos “tripés”, praga que acometia os Fícus desde o final da década de 50. A
arborização da Afonso Pena era a marca registrada da capital mineira e o seu
desaparecimento da noite para o dia deixou marcas profundas na sociedade, que podem
ser vistas até os dias atuais, nas lembranças dos moradores contemporâneos ao corte. A
Avenida e suas arvores haviam sobrevivido praticamente intactas as transformações
ocorridas no seu entorno durante a primeira metade do Século XX, mas não
sobreviveriam ao processo de metropolização que acontecia na capital desde a década
de 50, responsável pelas mudanças na paisagem urbana que também sepultariam os
principais cursos d’água da capital, em prol da mobilidade urbana, uma politica vigente
até os dias atuais. Um ano antes do corte definitivo dos Ficus, no final de 1962 foi
retirado da Praça Sete o monumento comemorativo do centenário da Independência, o
famoso “Pirulito”, sob alegação que obstruía o já caótico transito das Avenidas
Amazonas e Afonso Pena, local que havia se tornado o “epicentro” da capital mineira.
No mesmo local foi construído um novo monumento aos fundadores de Belo Horizonte,
retirado em 1972 para a desobstrução completa da Avenida3. As profundas
transformações da paisagem urbana ocorridas nas décadas de 60 e 70 viriam a
descaracterizar a Afonso Pena, antes vista como um dos mais importantes cartões
postais de Belo Horizonte, ponto de encontro da população, da construção de uma
sociabilidade e de manifestações populares4 e de resistência. Ela havia se tornado, com
a evolução urbana uma via rápida, onde reinavam a pressa e o não relacionamento, o
clímax da congestão urbana, um local cuja prioridade passou a ser do automóvel e não
do pedestre (Figuras 09 e 10).

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Considero esse momento (o ano de 1973) como a consolidação do automóvel como prioridade nas
politicas voltadas para a mobilidade urbana em Belo Horizonte, um processo que se inicia no final da
década de 50 e que perdura até os dias atuais. Na desobstrução da Avenida Afonso Pena, assim como a
cobertura dos córregos grande parte da imprensa foi a favor, assim como a população belorizontina, que
ficaria dividida quando o Obelisco comemorativo voltou para a avenida em 1980.
4
Muitas das reformas empregadas na Praça Sete visavam reprimir as manifestações públicas que ocorrem
no local desde as primeiras décadas de existência de Belo Horizonte, todas sem sucesso. O local continua
sendo o principal ponto de encontro para as manifestações e protestos populares.

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Fig.09 Título da reportagem da revista Quatro Rodas de Novembro de 1962, que sugeria a
remoção do Obelisco para a desobstrução do transito na avenida.

Fonte: Acervo Quatro Rodas

Fig.10 A Praça Sete e a Avenida Afonso Pena em três momentos, da esquerda para direita:
a Avenida em 1957, com os Ficus e os estacionamentos no centro da via, em 1966 com o
Monumento em homenagem aos fundadores da capital e em 1973 completamente
desobstruída para a melhoria do tráfego. Fonte: APM e APCBH/ASCOM

Em meio a metropolização e congestão urbana da região central, a malha urbana


da capital começa a se expandir para as partes mais altas, no sopé da Serra do Curral.
Nessa expansão a Avenida Afonso Pena teria um papel central, por permitir uma melhor
mobilidade entre o centro e a região sul, ao dar continuidade à via, como proposto em
1940 na gestão JK. Com a criação da Ferrobel em 1963, na Serra do Curral todas as
terras delimitadas por uma extensa cerca que havia nas proximidades da Avenida
Bandeirantes passaram a pertencer a essa Companhia, com a finalidade da expansão da
exploração do minério de ferro ao longo dos anos. Porém, em 1966 foi criado o Parque
das Mangabeiras nos terrenos onde a Ferrobel havia apenas iniciado a sua exploração.
Com esse Decreto, a Companhia entregou a iniciativa privada os terrenos de sua
propriedade que se localizavam abaixo da Mina das Mangabeiras, com a finalidade de
se criar um grande loteamento visando às classes mais abastadas da capital, que nesse

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momento fugiam da iminente congestão urbana da região central e bairros adjacentes,
como o bairro de Lourdes. É bom ressaltar que o loteamento das terras localizadas nas
cabeceiras do córrego do Leitão (bairros São Bento e Santa Lúcia) e a abertura da
Avenida Prudente de Morais também se iniciaram nesse período, destinadas às camadas
de maior poder aquisitivo.
Em 1966 visando melhorar a comunicação viária entre o recém-criado bairro
Mangabeiras e a zona central da capital teve inicio a expansão da avenida (Figura 11),
primeiro com o encascalhamento do prolongamento iniciado em 1940 e posteriormente
com a finalização e asfaltamento da avenida até a Praça da Bandeira, inaugurada em
19665 e a construção da Praça Milton Campos, inaugurada em 1972. Essas intervenções
realizadas pelo Poder Público também tinham como objetivo a urbanização das terras
ocupadas pelo Pindura Saia e Vila Santa Isabel, que foram fragmentadas e praticamente
extintas no período entre 1968 e 1975. A extinção de grande parte do Pindura Saia
permitiu a expansão do bairro Cruzeiro, a abertura de diversas ruas e a construção do
Mercado do Cruzeiro em 1975. A canalização das cabeceiras do córrego das
Mangabeiras no período 68/72 permitiu o prolongamento da avenida além da Praça da
Bandeira, porém batizada como Avenida Agulhas Negras, que termina no sopé do
paredão da Serra do Curral, onde se construiu o Hospital Hilton Rocha e a Praça do
Papa, além de se tornar o principal acesso para o Parque das Mangabeiras, inaugurado
em 1982. O prolongamento da Avenida Afonso Pena, assim como a sua porção inserida
dentro da Avenida do Contorno continuou a apresentar uma função mista, com a
presença, inclusive de prédios institucionais.

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A Praça da Bandeira foi inaugurada antes do inicio das obras de prolongamento da Avenida Afonso
Pena, pelo então prefeito Oswaldo Pieruccetti, que assumiu o cargo em 1965, após a cassação do prefeito
Jorge Carone pelo Governo Militar devido a divergências com a nova ordem imposta e com o Governo do
Estado.

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Fig.11 A Avenida Afonso Pena no bairro Cruzeiro em 1966, antes do inicio das
obras de prolongamento e em 1972, após a conclusão das obras. Fonte: APCBH/ASCOM

Desde a finalização da Afonso Pena na década de 70 ela continua exercendo o


papel de principal eixo articulador da zona urbana inserida dentro da Avenida do
Contorno. Com pouco mais de quatro quilômetros de extensão a avenida continua sendo
a Artéria responsável pelo recebimento dos fluxos viários de grande parte das zonas sul
e oeste da capital e abriga ainda a Estação Rodoviária, a Praça Sete, principal marco
simbólico da capital e a sede da Prefeitura.
O prolongamento da avenida, finalizado na primeira metade da década de 70
alterou o plano inicial da avenida que transpôs o “muro imaginário” estabelecido pela
CCNC, materializada pela Avenida do Contorno e levou os equipamentos urbanos para
as áreas antes ocupadas pelas primeiras Favelas da capital que foram praticamente
extintas quando do seu prolongamento nas décadas de 60 e 70. A verticalização,
expandida para os bairros que cresceram no seu entorno contribuíram, assim como os
grandes edifícios existentes ao longo da avenida para o aumento da temperatura na
região central, em particular a Praça Sete, marco zero do hipercentro de Belo Horizonte
que se apresenta como uma “ilha de calor” devido ao excesso de edifícios, intensa
impermeabilização do solo e a vegetação escassa, praticamente resumida ao canteiro
central da avenida6.

4. Considerações finais

Apesar dos 115 anos e das transformações sofridas ao longo das décadas a
Avenida Afonso Pena continua exercendo a função para a qual foi criada: a artéria
principal da cidade planejada, responsável pela ligação direta entre a parte mais baixa da
capital, localizada na calha do Ribeirão Arrudas às partes mais altas, no sopé da Serra
do Curral, atravessado toda a zona planejada e canalizando os fluxos provenientes dela,
tanto populacional quanto viário. Sem duvida uma Avenida que apresenta grandes
contrastes e diversidades ao longo de sua existência (Figuras 12 e 13).

6
Não se incluem ai o Parque Municipal e as partes mais altas da avenida que, apesar de estarem
completamente urbanizadas ainda apresentam um clima mais ameno do que a Praça Sete, situada a uma
altitude menor do que os bairros ao sul da avenida.

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Fig.12 Mapa dos usos e funcionalidades do Hipercentro de Belo Horizonte do ano de 2007.
A Avenida Afonso Pena e a Avenida Amazonas destacam-se como o eixo articulador de
toda a região central. Fonte: PBH

Fig.13 A Avenida Afonso Pena em toda a sua extensão na imagem de satélite do ano de
2008. Em destaque o Terminal Rodoviário (1), a Praça Sete (2), a Praça Milton Campos
(3) e a Praça Da Bandeira (4). Fonte: Google Earth

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As formas da paisagem urbana são diversas e, segundo Santos (1998) “é a
materialização de um instante da sociedade”. Apesar da sociedade e dos agentes
urbanos interferirem e modificarem o meio urbano de acordo com suas necessidades, a
Avenida Afonso Pena exerceu ao longo do Século XX a função de eixo irradiador do
crescimento urbano da capital mineira, mais especificamente nas zonas conectadas
diretamente a ela através dos eixos viários. Já no hipercentro de Belo Horizonte grande
parte das edificações, tanto de uso misto como institucional foram tombadas, em uma
tentativa de perpetuar os diversos períodos de ocupação da avenida e do seu entorno,
amenizando a perda da identidade local por parte da sociedade, abalada desde a década
de 60, com o processo de metropolização e com o automóvel passando a ser o
protagonista das politicas urbanas da capital. Da primitiva avenida, o principal eixo de
articulação viária de Belo Horizonte e palco principal das construções e demolições
constantes que caracterizam a capital em eterna construção, restam às imagens e os
relatos de quem a viveu intensamente, como o escritor Pedro Nava:

Íamos ao outro extremo da cidade – subindo ao Cruzeiro. Galgávamos


o barranco onde terminava a Avenida Afonso Pena e ganhávamos o
campo de futebol onde está hoje a Praça Milton Campos (ele, nesse
tempo, não praça, não estatua, às vezes conosco). Do pé da torre de
alta voltagem e da Cruz de madeira que vinha o apelido de logradouro
– olhávamos a cidade. Víamos a Avenida Afonso Pena como a
Campos Elíseos de cima dum Arco do Triunfo. Estéril, de moledo
solferino e terra escarlate, sem calçamento e com as beiradas
escavadas pela erosão das grandes chuvas que faziam sulcos
caprichosos como negativos de cordas torcidas. (NAVA,1985)

Referencias Bibliográficas

Acervos Documentais
APCBH – ARQUIVO PÚBLICO DA CIDADE DE BELO HORIZONTE. Acervo
Assessoria de Comunicação da Capital.
APM – ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO. Fundo Olegário Maciel.

Livros, teses, fontes digitais e impressas


AGUIAR, T. F. R. de. Vastos Subúrbios da Nova Capital: formação do espaço
urbano na primeira periferia de Belo Horizonte, (Doutorado em História),
Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte (2006).
BARRETO, Abílio. Belo Horizonte, memória histórica e descritiva; história média.

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v.2. Belo Horizonte: FJP/ Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1996.
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Antonio Carlos Ribeiro de Andrada ao Conselho Deliberativo de Bello Horizonte em
1906 e relatórios anexos. Belo Horizonte: Imprensa Official do Estado, 1906.
BELO HORIZONTE. Prefeitura Municipal. Mensagem apresentada pelo prefeito
Flavio Fernandes dos Santos ao Conselho Deliberativo de Bello Horizonte em
1922/1923 e relatórios anexos. Belo Horizonte: Imprensa Official do Estado, 1923.
BELO HORIZONTE. Prefeitura Municipal. Mensagem apresentada pelo prefeito
Chistiano Monteiro Machado ao Conselho Deliberativo de Bello Horizonte em 1928 e
relatórios anexos. Belo Horizonte: Imprensa Official do Estado, 1928.
BELO HORIZONTE. Prefeitura Municipal. Relatório apresentado pelo prefeito
Juscelino Kubitscheck de Oliveira a Câmara Municipal de Belo Horizonte em
1940/1941. Belo Horizonte: Imprensa Official do Estado, 1941.
BELO HORIZONTE, Prefeitura Municipal. Secretaria de Educação. BH Verso e
Reverso. Belo Horizonte, 1996.
BORSAGLI, A. Os anos 1960: a metrópole, o caos e as consequências. Em: <
http://www.curraldelrey.com/ >. Acesso em: 05 Maio 2013.
CORREA, R. L. O Espaço Urbano. São Paulo: Editora Ática, 4ª edição.
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de Belo Horizonte; Atlas Histórico, Belo Horizonte, 1997.
GUIMARÃES, B. M. Minas Gerais: a construção da nova ordem e a nova capital.
Analise e Conjuntura, v.8, Belo Horizonte, 1993.
MELO, T. S. D. A Vila Santa Isabel na Avenida Afonso Pena: A experiência positiva
da moradia popular em região central de Belo Horizonte, (Mestrado em Arquitetura e
Urbanismo), Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte (2012).
NAVA, P. Beira Mar. Rio de Janeiro Nova Fronteira, 1985
RODRIGUES, A. M. Moradia nas Cidades Brasileiras. 5.ed. São Paulo, Contexto,
1994.
SANTOS, M. Metamorfoses do espaço habitado. São Paulo: Hucitec, 1988.

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