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XVI Seminário Cláudio Peres de Práticas de Ensino e Geografia Aplicada:

GEOTECNOLOGIAS E ANÁLISE ESPACIAL

O geoprocessamento da cartografia histórica do arraial de Belo Horizonte MG 1

Alessandro Borsagli PUC Minas PPGG-TIE

borsagli@gmail.com

INTRODUÇÃO

O arraial de Belo Horizonte, antigo Curral del Rey, foi escolhido no ano de 1893 para sediar a nova capital de Minas Gerais. A escolha do sitio, que viria a abrigar a nova capital do estado de Minas Gerais, foi precedida por um estudo minucioso sobre as condições que cada localidade oferecia para a construção de uma cidade salubre, higiênica e racional, assim como a possibilidade de oferecer condições que possibilitaria uma maior economia perante o vultoso investimento, necessário para dotar a nova sede da administração estadual dos aparatos necessários, urbanos e institucionais (BARRETO, 1936, p.251). Entre as condicionantes analisadas, a abertura de um ramal ferroviário foi considerada de grande importância para a escolha do arraial, até então conectado com as cidades mais próximas por caminhos precários e tortuosos (BARRETO, 1936, p.252). O estudo das localidades indicadas ficou a cargo da Comissão de Estudos das Localidades Indicadas para a Nova Capital, responsável pela elaboração de dois mapas do arraial de Belo Horizonte, a partir dos levantamentos de campo realizados no primeiro semestre do ano de 1893 (MINAS GERAES, 1893, p.3). Esses mapas figuram como a primeira representação cartográfica do arraial de Belo Horizonte, até então representado de forma genérica nos mapas do Estado de Minas Gerais. Deste modo, este trabalho aborda sobre a importância do uso das técnicas do geoprocessamento na análise dos mapas monocromáticos elaborados pela Comissão de Estudos, que apresentam informações relevantes para a visualização do sítio do arraial de Belo Horizonte, arruamentos e vias de comunicação, além dos estudos topográficos realizados para a abertura do ramal ferroviário. Como observado por Santos, Graça e Menezes (2015, p.1735):

Para a Cartografia Histórica, os mapas históricos são excelentes arquivos temporais, atuando como se fossem registros de época, para um determinado espaço geográfico, fornecendo subsídios para o posicionamento correto do espaço no tempo, permitindo assim a recuperação de informações de um dado período. Os mapas constituem uma linguagem gráfica especializada, um modelo de representação, um instrumento de comunicação que expressa uma visão temporal de mundo, representado elementos construídos e formas de organização das sociedades em um dado período.

Assim como observado por Castro (2017, p.25) o uso das técnicas do Geoprocessamento nos mapas históricos tem se mostrado eficiente em relação à recuperação de informações representadas graficamente nos documentos, permitindo a visualização e a reconstrução do espaço geográfico de épocas pretéritas. Portanto, o emprego dos recursos do geoprocessamento permitiu a reconstituição do tecido urbano do arraial de Belo Horizonte, sua posição geográfica, as vias de comunicação e os locais indicados para a abertura do ramal ferroviário.

1 Parte da dissertação de mestrado orientada pelo Prof. Dr. José Flávio Morais Castro, do programa de Pós-Graduação em Geografia - Tratamento da Informação Espacial (PPGG-TIE) da PUC Minas.

PUC Minas - 2 a 4 de maio de 2018

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PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

A metodologia utilizada fundamenta-se na leitura e levantamento de referenciais

que tratam do geoprocessamento de mapas históricos, documentos e o relatório apresentado Commissão de Estudo das Localidades Indicadas para a nova Capital no ano de 1893, o qual contém os mapas referentes ao arraial de Belo Horizonte. A vetorização das informações foi realizada no software de SIG ArcGis. O procedimento foi realizado a partir da proposta de geoprocessamento em mapas históricos desenvolvida por Castro (2017, p.28), a qual apresenta três etapas: inventario das fontes, processo e produto.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O emprego dos recursos do geoprocessamento no primeiro mapa analisado (Figura 1), possibilitou a reconstituição do tecido urbano do arraial de Belo Horizonte, sua localização e posição geográfica, assim como a visualização das vias de comunicação que permitiam a comunicação com os povoados e as cidades circunvizinhas. Destacam- se ainda o ribeirão Arrudas, bacia na qual o arraial foi edificado e os arruamentos, desaparecidos após a construção da nova capital.

desaparecidos após a construção da nova capital. Figura 1: Mapa do arraial de Belo Horizonte (1893)

Figura 1: Mapa do arraial de Belo Horizonte (1893) tratado e vetorizado. Fonte: modificado de Arquivo Público Mineiro

O arraial de Belo Horizonte se localizava na vertente sul do ribeirão Arrudas, entre

o talvegue e o sopé da Serra do Curral e apresentava um tecido urbano irregular que seguia as principais vias de comunicação, dando ao povoado o formato de um “T”, sendo ainda possível perceber uma grande área entre o ribeirão Arrudas e o núcleo central do

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arraial, correspondente à uma gleba de terras atualmente ocupadas pelo Parque Municipal, identificação que foi possível com à vetorização realizada no mapa. As estradas conectavam o arraial com a região norte do estado, com as cidades inseridas no Quadrilátero Ferrífero (região aurífera) e com a cidade de Sabará, da qual Belo Horizonte era subordinada. Dessa forma, a posição geográfica do arraial possibilitou o seu crescimento no período colonial, visto se encontrar à margem do caminho entre os currais e as minas, um importante entreposto comercial localizado na região central do Estado, como observado por Barreto (1936, p.109). A existência de estradas de abrangência local ficou evidente a partir da vetorização dos arruamentos do arraial e das estradas intermunicipais, a qual delimitou ainda o perímetro do arraial e o curso natural do ribeirão Arrudas, desaparecido após intervenções realizadas ao longo do século XX. Na representação cartográfica não existe menção as três porções do perímetro analisadas pela Comissão (Pintos, Santa Cruz e o Arraial) e a utilização das técnicas de geoprocessamento estabeleceu os limites e os entrelaçamentos territoriais das áreas estudadas. A Comissão realizou ainda estudos para a abertura de um ramal ferroviário (Figura 2), considerada como o único entrave para a escolha do sítio de Belo Horizonte, localizado a poucos quilômetros da linha tronco da Estrada de Ferro Central do Brasil.

da linha tronco da Estrada de Ferro Central do Brasil. Figura 2: Mapa representando as alternativas

Figura 2: Mapa representando as alternativas estudas para a construção do ramal ferroviário (1893), tratado e vetorizado. Fonte: modificado de Arquivo Público Mineiro

No mapa monocromático a análise das possibilidades estudadas pela Comissão é prejudicada devido à falta de referências em relação as quatro alternativas apresentadas (Honório Bicalho/Belo Horizonte via Lagoa Seca; Garganta do João Alves; Garganta do Taquaril e General Carneiro/Barra do rio das Velhas), que em alguns pontos se confunde com as curvas de nível.

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O mapa vetorizado (Figura 2) permite a identificação dos estudos realizados e a sua localização geográfica, assim como principal alternativa para a abertura do ramal, prevalecendo a proposta do vale do ribeirão Arrudas para o assentamento das linhas férreas, devido à pouca declividade e a distância mais curta em relação a linha principal (MINAS GERAIS, 1893, p.31). Em vermelho é possível visualizar a estrada para Sabará, considerada a principal via de comunicação do arraial, e em azul o ribeirão Arrudas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir da cartografia apresentada, buscou-se analisar os primeiros mapas elaborados do sítio, o qual veio a abrigar a nova capital do Estado de Minas Gerais, considerando às representações do arraial de Belo Horizonte, seu tecido urbano e vias de comunicação, além dos estudos realizados para a abertura do ramal ferroviário, por meio do uso de técnicas de geoprocessamento que permitiram a visualização dos detalhes contidos nos mapas. Os mapas, por serem monocromáticos, apresentam uma aparente desarmonia de informações, confundindo-se com as curvas de nível, hidrografia e estradas em alguns casos, impossibilitando a plena identificação dos elementos. Além disso, a vetorização dos dados representados possibilitou a compreensão da posição geográfica do arraial e dos paleoeixos viários que nortearam o seu crescimento. As quatro possibilidades ferroviárias apontadas, descritas e cartografadas pela Comissão, também se tornaram visíveis a partir do emprego da técnica de vetorização, assim como as regiões percorridas pelos engenheiros para a elaboração da planta, restrita ao maciço da Serra do Curral e os vales dos ribeirões Arrudas e Onça. Dessa forma, é possível perceber que o emprego do geoprocessamento aprimora de maneira significativa a visualização dos mapas históricos do arraial de Belo Horizonte.

Agradecimentos

O autor agradece ao PPGG-TIE PUC Minas pelo suporte técnico e ao CNPq pelo suporte

financeiro.

REFERÊNCIAS

BARRETO, Abílio. Belo Horizonte: memória histórica e descritiva: história antiga.

1ª edição. Belo Horizonte: Livraria Rex, 1936.

CASTRO José Flávio Morais. Geoprocessamento de mapas de Minas Gerais nos séculos XVIII e XIX. 1ª edição. Belo Horizonte: Editora PUC Minas, 2017.

MINAS GERAES. Commissão d'Estudo das Localidades Indicadas para a nova Capital. Relatório apresentado a S. Ex. Sr. Dr. Affonso Penna, Presidente do Estado, pelo engenheiro civil Aarão Reis. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1893.

SANTOS, Kairo da Silva; GRAÇA, Alan José Salomão; MENEZES, Paulo Marcio Leal. Evolução dos limites distritais da cidade do Rio de Janeiro, um recorte do século XX. Revista Brasileira de Cartografia, nº 67/8, p. 1733-1747, dez/2015.

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