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AVALIAÇÃO PRESENCIAL

Acadêmico: Walderi Gouveia

“MARMORE” E “MURTA”: Padre Vieira e a interpretação da alma dos “brasís”

Reportemo-nos de início neste texto ao antropólogo Eduardo Viveiros de


Castro que em seu livro Inconstância da alma selvagem, no capitulo, O mármore
e a murta: sobre a inconstância da alma selvagem; aborda páginas do Sermão
do Espirito Santo de 1657 do Padre Antônio Vieira (1608-1697); nos relata que
aqueles que já haviam andado pelo mundo teriam observado dois tipos de
estátuas; as de mármore e as de murta, e que eram em sua constituição muito
diferentes. Assim, trabalhando o mármore na sua dureza é possível que uma
nação após toda a resistência fique firme nos propósitos da “fé”. Que, em outras
e com outras eram como as estatuas de murta – diferentes – “mais fácil de
formar”, com facilidade de dobrar seus galhos e deformar sua aparência para a
cristalização de outra mais bela. Porém, o padre acrescenta ser necessário que
o jardineiro esteja sempre atento para que à conserve no modelo escultural a
qual pretendeu um dia. E resumindo: que como murta são os povos do Brasil,
gente que se deixam com docilidade moldar, sem resistência, “sem replicar, sem
duvidar”; porém, ao afastar-se o jardineiro se entregam as volúpias de seus
deuses, as suas guerras e a devorar seus inimigos. São inconstantes em sua
alma. Assim, em alguma medida podemos intuir a priori que na sua inconstância
o índio brasileiro quer ser apenas o que ele “É”.

O LADO “MAL”, O LADO “BOM”: Cardoso e o que pensam os Brasileiros.

No Brasil os indígenas desde de seu primeiro contato com invasores e


detratores portugueses, holandeses, franceses, etc. tem vários estereótipos
cunhados ao longo do tempo de habitantes do paraíso bíblico a ferozes
silvícolas. Então vejamos como trata Cardoso em seu trabalho A sociologia do
brasil indígena, o índio na consciência nacional; a questão do que pensam os
inúmeros brasileiros deste Brasil.

Pensam diferente os homens comuns da cidade ou metrópole – que são


dóceis, bons, “incapaz de qualquer vilania” - mostrando segundo Cardoso um
certo desconhecimento na “natureza” do “nativo brasileiro”, acreditando no mito
de que os índios são possuidores de uma rusticidade; baseando suas convicções
em um gabarito civilizatório, a partir da cultura ocidental e da ideia de progresso
industrial; e, em contrapartida os homens do campo ou da floresta, o extrativista
o agricultor e pecuarista que tem grandemente seus interesses moldados pela
política de expansão de suas terras, que culmina nos conflitos entre as “gente
desses brasís” e os outros, finalizando na subjugação e mortandade de muitas
etnias; pesam serem objeto de entrave ao progresso e ao avanço econômico.

Cardoso nos fala que além de interpretar se é o índio de uma natureza


boa ou má pelos citadinos e pelo “Homem regional”; deve-se abordar a questão
mais difícil que é o procedimento após o ataque dos índios kaingáng de São
Paulo em 1910, que levou a duas posições diferentes que são: a impossibilidade
de pacificação daquele grupo de índios da etnia Jê, que deixou um rastro de
sangue na região em que construíam a ferrovia (Estrada de ferro Noroeste do
Brasil) ideia defendida por Von Ihering diretor do Museu Paulista, em oposição
ao sertanista Rondon, com uma grande experiência na área do “contato com
populações tribais” – o pacificador dos Bororo – que pregava a pacificação e que
com êxito na disputa que obteve conseguiu a criação do Serviço de Proteção ao
Índio.

Cardoso nos fala da importância de trazer ao conhecimento de toda


população brasileira o problema indígena, para que possa ser discutido em
campanhas na imprensa, como a campanha em defesa das terras indígenas que
findou na criação do Parque do Xingu. Porém e além, Cardoso pergunta quais
os obstáculos para que a questão indígena – que vai além da questão da terra –
“encontra, nos meios não-comprometidos para a formulação adequada e
racional? ” E elenca quatro, a entender e observar:

A “mentalidade” estatística: encontrada comumente entre os


intelectuais, é em um entendimento grosseiro, pois acham os intelectuais que
em detrimento de uma equação de oitenta bilhões que seria a perda de alguns;
a validade moral e a quantificação do sujeito estão em jogo. Vence então o
melhor argumento, pois a natureza de ser “nativo” parece em alguma medida
inferior a soma das perdas dos intitulados “civilizados”.
A “mentalidade” romântica: os lábios de mel de Iracema de José de
Alencar ou a bravura dos “ ...rudes, severos, sedentos de glória, ...meigos
...Timbiras, guerreiros valentes de Gonçalves Dias, estes homens ou parte da
população só sabe o que leu em livros na escola ou que é informado pela
imprensa, assim molda em sua consciência a ideia de um índio como a do poema
i-juca pirama e da ideia de uma bela índia dos lábios que “goteja” mel.

A “mentalidade” burocrática: são aqueles que entraram na


administração pública e foram incorporados ao Serviço de Proteção Indígena,
sem ter qualquer qualificação ou instrução para tal. Sendo desqualificados para
a função como nos diz Cardoso,

A “mentalidade” empresarial: o recrutamento de pessoas que não


comungavam com as ideias de Rondon mudou a concepção do que seria o
Serviço de Proteção Indigenista, transformando os postos de atendimento aos
índios em verdadeiras empresas e nos diz mais Cardoso: “dedicadas a produção
e ao lucro.

Cardoso nos diz que enquanto a “figura do índio” não chegar nas escolas
continuará a sociedade a ter uma ideia “estereotipada” do que é verdadeiramente
um “índio”; Como Padre Antônio Viera não compreendemos nada da natureza
do “Nativo dos brasís”, se: mal ou bom, ser de mármore ou murta.

RESIGNIFICAÇÃO: O “ICIBERG” E AS CATEGORIAS

Retornemos agora ao tema em que fechamos a primeira parte deste


resumido texto, não como analise de uma qualidade de murta ou de mármore ou
do que se refere Cardoso: da necessidade de alcançar a ideia de “índio” nas
escolas na sua mais “completa completude”, sem poesia ou demasiada beleza
selvagem. Oliveira nos diz então, que, não podemos mudar a narrativa diante
das crianças e da opinião pública de que a indolência e maldade e traição do
índio não é assim como o temos nas nossas compreensões diárias.

Se como diz Oliveira quem escreve a história não é etnólogo,


antropólogo ou o indígena e nem à imunidade contra qualquer tipo de
informação, pois não vivem isolados em suas comunidades. Então, segundo ele
precisamos mudar em grande medida a história do Brasil e conta-la de outra
forma pois ouve sempre um relativo equivoco e em outras palavras os encontros
fortuitos muitas vezes e quase sempre romantizados nas páginas da história do
Brasil não representam a verdadeira categoria das várias histórias a serem
contadas de muitas e tantas perspectivas; pois as subjetividades e os animais
como diz Viveiros de Castro, no livro Inconstância da alma selvagem, capitulo 7,
perspectivismo e Multinaturalismo na américa indígena; na concepção indígena
é muito diferente o olhar dos seres humanos em relação aos animais. Neste
adendo ao trabalho podemos então revisitar Oliveira que nos diz que fora as
fases de grande interesse dos estudiosos o resto dos relatos sobre a história do
povo brasileiro são “resíduos”, que com o tempo se perdem, dado a via do
esquecimento. Portanto, como diz Oliveira existe um lugar para o índio brasileiro
e deve estar inserido anteriormente a chegada dos colonizadores as terras. Se
a terminologia como “descobrimento” não se aplica a linguagem histórica, tantos
e outros não se aplicariam, pois, a posição crítica é necessária.

Se nas perspectivas dos cronistas eram eles – os nativos – eram


“perigosos, improdutivos ou incapazes”, para outra era necessária que houvesse
uma política que agregasse de alguma forma o nativo, fosse para o
fortalecimento da “companhia”, fosse para o extermínio. Todos esses projetos
foram efetivados na história; parte foi exterminado (e continua, dado a política
governamental), outra foi envolvida pelos laços dos colonizadores, incorporando
seus costumes, línguas e religião; deixando o Brasil com uma face pessoal.

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