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Título do artigo:

UMA BREVE REFLEXÃO SOBRE AS


SITUAÇÕES DE ESCRITA EM CONTEXTOS
COMUNICATIVOS NO

PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO INICIAL

Disciplina: Alfabetização

Selecionadora: Beatriz Gouveia

16ª Edição do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10 1


As práticas de alfabetização estão estreitamente relacionadas com a forma
como a escrita é concebida. A escrita pode ser considerada como um sistema de
representação da linguagem ou como um código de transcrição gráfica da fala. A
forma como a escrita é conceitualizada traz implicações pedagógicas. Pensar a escrita
como codificação é tratá-la como uma técnica que precisa ser transmitida aos alunos.
Nesta perspectiva, o ensino da escrita é reduzido à transmissão de um código e o aluno
tem papel passivo em seu processo de aprendizagem. Por outro lado, conceitualizar a
escrita como um sistema de representação é tratá-la como um conteúdo de natureza
conceitual, que para ser compreendido exige análise e reflexão sobre seu
funcionamento e suas regras de geração. Nesta perspectiva, o aluno é entendido como
um sujeito intelectualmente ativo, que formula hipóteses na busca de compreender o
que a escrita representa e como um sujeito que aprende através de suas ações sobre
os objetos do mundo.

Conceber que a escrita é um sistema de representação implica em reconhecer


dois processos para a aprendizagem da leitura e da escrita:

1. compreender a natureza do sistema alfabético de escrita (a


representação gráfica da linguagem) – as relações entre letra-som, a segmentação
entre as palavras, as restrições ortográficas;

2. compreender o funcionamento da linguagem escrita – suas


características específicas, suas diferentes formas, gêneros e discursos.

Esses dois processos acontecem simultaneamente, ou seja, ao mesmo tempo


que o aluno reflete e aprende sobre o sistema alfabético de escrita, ele aprende como
a língua escrita é utilizada socialmente.

Isso quer dizer que não basta ensinar aos alunos as características e o
funcionamento da escrita, pois esse tipo de conhecimento não os habilita para o uso
da linguagem em diferentes situações comunicativas. E, por outro lado, não basta
colocar os alunos diante das mais variadas situações de uso da linguagem para que

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aprendam o funcionamento da escrita. Isso significa dizer que o trabalho pedagógico
de alfabetização precisa articular as atividades de uso da linguagem com as atividades
de reflexão sobre a escrita. Portanto, a aprendizagem inicial da leitura e da escrita não
pode dar-se sem a presença da cultura escrita. Isso quer dizer que não se trata de
ensinar isoladamente os conteúdos envolvidos na língua escrita, mas também as
práticas sociais em que estão inseridas. A língua deve entrar na escola da mesma
forma que existe vida afora, ou seja, pelas práticas sociais de leitura e escrita: ler por
prazer, para se divertir, para buscar alguma informação específica, para compartilhar
emoções com outros, para contar para os outros, para recomendar... ; escrever para
expressar as ideias, para organizar os pensamentos, para aprender mais, para registrar
e conservar como memória, para informar, para expressar sentimentos, para
comunicar-se à distância, para influenciar os outros... (GOUVEIA e ORENSZTEJN, 2000).
E ao colocar os alunos em contato com essas práticas, é possível planejar atividades
sobre o sistema de escrita, dessa forma, ele pode atribuir muito mais sentido e
participar de práticas mediadas pela escrita. As autoras Castedo e Molinari (2008, p.
13) afirmam que:

Na concepção de ensino que considera como conteúdo escolar as práticas


sociais de leitura e escrita, a língua escrita não pode reduzir-se a um conjunto de
elementos gráficos e suas variantes tipográficas. A língua escrita é uma construção
histórica, um objeto social. Envolve práticas particulares da linguagem de acordo com
os diferentes âmbitos da esfera humana, que estão atravessadas pela cultura; práticas
históricas que se comunicam entre os usuários e se transformam. Estes usos se
concretizam em gêneros diversos com propósitos específicos, e que estão relacionados
a cada evento comunicativo.

Para as autoras, a Ed. Infantil e as primeiras séries do Ensino Fundamental têm


o desafio de inserir os alunos nas práticas sociais da leitura e da escrita, para que
sejam praticantes da cultura escrita. Essa concepção descrita acima se opõe ao
contexto em que as atividades de alfabetização são propostas de uma forma mecânica
e sem sentido, em que os alunos têm pouca oportunidade de acionar seus
conhecimentos e de aprender novos elementos presentes na cultura escrita.

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O desafio, portanto, é planejar projetos e sequências didáticas articulados às
práticas sociais comunicativas.

Vejamos dois exemplos de projetos desenvolvidos com crianças de 1º ano em


que os propósitos didáticos são interdependentes dos propósitos comunicativos da
linguagem.

Exemplo 1 – Projeto indicações literárias. A professora propõe aos alunos que


escolham os seus livros preferidos para escreverem uma indicação para outras
crianças. A proposta é compartilhar com os outros grupos quais são os livros preferidos
deste 1º ano. Para escrever a indicação, as crianças precisam conhecer bem os livros
do acervo da escola (ou da sua sala), definir o que irão escrever e como farão isso. O
objetivo do projeto é criar um contexto em que os alunos tenham a oportunidade de
desenvolver novos comportamentos leitores e escritores e refletir sobre o
funcionamento do sistema de escrita. Ao escolher uma história, o aluno precisará
justificar o motivo da escolha e o que o encanta tanto neste livro. Este é um desafio
que leva os alunos a pensarem nas características das histórias escolhidas e em suas
qualidades. Uma ótima oportunidade para desenvolverem comportamentos leitores.
Depois de definirem os títulos preferidos e justificarem suas escolhas, o desafio
seguinte é pensar o que irão escrever na indicação. Ler pequenas resenhas literárias
publicadas em catálogos de editoras, jornais e revistas poderá ajudá-los a se
aproximarem e conhecerem um pouco mais a forma desses textos, o que eles
comunicam e alguns elementos específicos da linguagem escrita. Ao iniciarem a escrita
das indicações o desafio será no como escrever, isto é, que letras usar, quantas e em
que ordem. Depois das primeiras versões de escritas o passo seguinte será a revisão,
tanto do ponto de vista discursivo, como notacional. Ou seja, propõe-se uma revisão
dos aspectos discursivos do texto escrito (considerando se o leitor irá entender, se o
texto comunica o que de melhor tem a história, se está muito repetitivo ou se pode ser
melhor escrito), e também dos aspectos notacionais, discutindo com todo o grupo as
escritas produzidas pelas crianças, perguntando se alguém tem sugestões de
mudanças, se alguma palavra pode ser escrita de outra forma, se concordam com a
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segmentação do texto. Em resumo, os objetivos principais das revisões são:
reencontrar o texto para avaliar se o leitor compreenderá a indicação e se pode ser
melhor escrito, e para propor uma análise e reflexão do sistema de escrita. A revisão é
parte integrante do processo de produção de texto e, por isso, é imprescindível que
seja proposta com as crianças, mesmo quando ainda não são escritoras convencionais.
Portanto, as revisões não são correções e não têm como objetivo corrigir as escritas
para deixá-las corretas e convencionais. Neste projeto o que se espera é propor boas
oportunidades de reflexão sobre o sistema, para que avancem em sua compreensão
da escrita e, ao mesmo tempo, que se apropriem de práticas da linguagem exercidas
na vida social. As primeiras indicações podem ser escritas no coletivo para modelizar e
compartilhar comportamentos escritores, e depois podem ser produzidas em duplas.

Exemplo 2 – Projeto animais vertebrados e invertebrados1. Os conteúdos de


leitura e escrita propostos neste projeto são: práticas de leitura e escrita, a reflexão
sobre o sistema de escrita e os comportamentos leitores e escritores durante o
processo de produção textual. O objetivo do projeto é criar um contexto de estudo
sobre os animais vertebrados e invertebrados em que os alunos tenham a
oportunidade de desenvolver novos comportamentos leitores e escritores e refletir
sobre o funcionamento do sistema de escrita. A proposta ao grupo é que no decorrer
de algumas aulas pesquisem sobre semelhanças e diferenças que existem entre os
animais. Para introduzir o tema, a professora mobiliza o interesse das crianças com
algumas perguntas, como por exemplo: Como é formado o corpo dos animais? Em que
eles se parecem e se diferenciam? Será que todos têm quatro patas? Em seguida as
crianças fazem leituras exploratórias de livros, previamente selecionados pela
professora, na tentativa de buscarem respostas a algumas perguntas e outras
informações sobre os animais. Neste momento é interessante explicar como funciona
o índice da enciclopédia, dos livros para que ajude a localizar o que procuram. Durante

1
Exemplo resumido da sequência didática Pesquisando e escrevendo sobre os animais, publicada no site da revista
Nova Escola e adaptada da Sequência Didática: Prácticas del lenguaje en contexto de estudio - Animales, elaborada
pela equipe de Práticas de Linguagem da Divisão de Educação Primária de Buenos Aires, sob a coordenação da
pesquisadora argentina Mirta Castedo. Acesso em http://revistaescola.abril.com.br/fundamental-1/sequencia-
didatica-pesquisando-escrevendo-animais-680667.shtml?page=all

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a leitura exploratória, pode-se fazer algumas intervenções como: pedir que marquem
com um papel a página em que há informações que estão procurando, perguntar por
que acham que esta página pode oferecer informações sobre o corpo de algum animal,
perguntar como encontraram as informações etc. Depois de os grupos selecionarem os
materiais e as respectivas páginas, pode-se pedir que compartilhem os resultados da
leitura exploratória. As crianças ainda não são leitoras convencionais, portanto, para
buscarem as informações nos livros, irão acionar todo o conhecimento que dispõem
sobre a escrita para descobrir o que não sabem. As intervenções ajudam a criar uma
situação de análise e reflexão sobre a escrita. Depois da coleta de informações, pode-
se propor a escrita de legendas para imagens dos animais estudados e também
produzir textos informativos. Dependendo do tempo que se planeja para o projeto
pode-se criar mais situações de leituras exploratórias, mais contextos de estudo sobre
os animais e novas situações de produção de texto. Prioritário é considerar que se for
propor a escrita de textos informativos para os alunos, eles precisarão conhecer
melhor esses textos, ter repertório, para compreender a sua forma e seu conteúdo
temático.

Nesses dois exemplos, os alunos de 1º anos, ainda não leitores e escritores


convencionais, têm a oportunidade de resolver problemas relacionados à
compreensão do sistema de escrita e, também, de enfrentar desafios relacionados à
produção textual, à escrita de indicações literárias, de legendas... portanto, são
exemplos em que os alunos aprendem a escrever escrevendo no contexto das práticas
sociais, em que refletem sobre o uso da linguagem escrita e sobre o funcionamento do
sistema de escrita.

O compromisso político é alfabetizar - formar alunos leitores e escritores


competentes, e para tanto, é necessário assegurar as melhores condições de ensino
para as crianças avançarem em seus conhecimentos na interação com as práticas
sociais, com seus colegas e professores.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 CASTEDO, M. e MOLINARI, C. A escrita na alfabetização inicial: produzir


em grupos na escola e na Educação Infantil. La Plata: Dir. General de Cultura y
Educación de La Provincia de Buenos Aires, 2008.

 GOUVEIA, B. E Orensztejn, M. Alfabetizar em Contextos de Letramento.


Publicado no caderno Salto para o Futuro em novembro de 2000. Disponível em:
www.tvbrasil.org.br/.../livros/livro_salto_praticas_de_leitura_e_escrita.pdf

 MOLINARI, C. Projetos para saber mais sobre um tema no início da


alfabetização. Revista Nova Escola. São Paulo, ed. 265, setembro 2013.

 Projeto didático: Galeria de Bruxas, publicado no site da revista Nova


Escola e adaptado do Projeto didático El Mundo de las Brujas, da Direção Provincial de
Educação Primária, da Direção Geral de Cultura e Educação de Buenos Aires, na
Argentina. Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/lingua-
portuguesa/alfabetizacao-inicial/galeria-bruxas-555315.shtml

 Sequência didática: Pesquisando e escrevendo sobre os animais,


publicada no site da revista Nova Escola e adaptada da Sequência Didática: Prácticas
del lenguaje en contexto de estudio - Animales, elaborada pela equipe de Práticas de
Linguagem da Divisão de Educação Primária de Buenos Aires, sob a coordenação da
pesquisadora argentina Mirta Castedo. Disponível em:
http://revistaescola.abril.com.br/fundamental-1/sequencia-didatica-pesquisando-
escrevendo-animais-680667.shtml?page=all

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