Você está na página 1de 13

III Encontro da Região Norte da Sociedade Brasileira de Sociologia

26 a 28 de setembro de 2012
UFAM, Manaus-AM

GRUPO DE TRABALHO
GT 05 - Cidade, Gênero e Sexualidade: sociabilidades e práticas dissidentes na metrópole

coordenadores:
Milton Ribeiro da Silva Filho (UFPA) e Ramon Pereira dos Reis (USP)

Prazer sem Limites:


notas preliminares sobre o único “cinema de pegação” de Belém do Pará

Francisco Moreira Ribeiro Neto | UFPA | netodellmar@hotmail.com


Prazer sem Limites: notas preliminares sobre o único cinema “pegação” de
Belém do Pará

Francisco Moreira Ribeiro Neto 1

Resumo: Este trabalho é resultado preliminar de uma pesquisa etnográfica sobre os tipos de
sociabilidade e trocas erótico-sexuais masculinas no único "cinema de pegação" de Belém-
PA, o Cine Ópera. Proponho, a partir da observação direta e participante no cinema e de
entrevistas, neste momento informais, analisar aspectos relacionados à pegação entre seus
agentes, seus “desejos” e “tesões”, sob o signo das construções de gênero, sexualidade e
corporalidade, que neste espaço tornam-se chaves para se compreender os (des) prazeres e as
(in) satisfações sexuais. A partir da reconstrução de suas trajetórias de vida, buscarei
compreender as motivações e representações sobre as práticas dissidentes relacionadas à
sexualidade, ao prazer com pessoas do mesmo sexo, às masturbações e à felação em/com
pessoas e corpos desconhecidos no escurinho de um cinema onde o prazer é sem limites.

Palavras Chave: “Cinema de pegação”, Sexualidade, Sociabilidade.

Considerações iniciais

Este texto é resultado preliminar de uma pesquisa etnográfica sobre os tipos de


sociabilidade e trocas erótico-sexuais masculinas no único "cinema de pegação" de Belém-
PA, o Cine Ópera. Proponho, a partir da observação participante no cinema e de entrevistas e
de conversas informais (fase em que estou neste momento), analisar aspectos relacionados ao
“consumo pornográfico” entre sujeitos, as construções de desejos e as tesões numa
perspectiva dos estudos de/sobre gênero, sexo, sexualidade, masculinidade e corporalidade,
que neste espaço tornam-se chaves para se compreender os (des)prazeres e as (in)satisfações
sexuais dos interlocutores num lugar permeado por intensas trocas sexuais.
A partir da reconstrução de suas trajetórias de vida (que neste texto não parece,
mas já proponho como ponto-chave na construção de trajetórias afetivo-sexuais de meus
interlocutores), objetivo compreender as motivações e representações sobre as práticas
dissidentes relacionadas às suas sexualidades e aos seus prazeres com pessoas do mesmo
sexo, as masturbações e a felação em pessoas, corpos e membros “desconhecidos” num
espaço “moldado” por masculinidades “viris”, por contatos corpóreos e sinalizações pouco
compreensíveis na escuridão do cinema; onde vultos transfiguram-se em corpos e

1
Graduando do 5º semestre de Ciências Sociais da Universidade Federal do Pará. E-mail:
netodellmar@hotmail.com
performances são (re)(des)construídas para que os múltiplos desejos encontrem lugar de
recepção.
Como proposta, a pesquisa tem por objetivo resultar num Trabalho de Conclusão
de Curso (TCC), ao final de 2014, dentro do campo das Ciências Sociais da Universidade
Federal do Pará (UFPA). Essa pesquisa objetiva também analisar este único cinemão como
articulador de sexualidades periféricas e sociabilidades “distintas” das chamadas sexualidades
“heteronormativas”.
Estas são compreendidas por Guacira Louro (2010) como o centro sólido de uma
identidade permanente e confiável, enquanto todas as outras sexualidades, mulher, gays e
negros, tornam-se o excêntrico, que possui outro centro e que neste sentido suas sexualidades,
quando não tem o objetivo de procriação, são consideradas “periféricas”.
Pesquisar o Cine Ópera então me pareceu interessante por este ser o único cinema
pornô de Belém e também por envolver a temática sugerida: estudos sobre masculinidades.
No entanto, reitero que as análises aqui suscitadas e posteriormente serão apenas recortes de
realidades mais complexas, tratadas de analítico e metodologicmente.
Há também um crescente interesse em pesquisas sobre masculinidades e consumo
pornográfico no Brasil e o recorte local/regional mostra-se totalmente válido porque assuntos
ligados à interação entre homens e suas masculinidades tem ganhado mais espaço e
visibilidade, vide os estudos sobre sociabilidades entre gays2, do qual existem muitas
produções.
Nesse sentido, trabalhar como pesquisador no Cine Ópera e com temas
relacionados ao sexo, sexualidades dissidentes e “consumo pornográfico” é visto por muitos
que estão fora destes debates como parte de uma “antropologia marginal”. Desses triviais
questionamentos reside a noção de que tais pesquisas sobre gênero e sexualidade poucas
questões trariam, aos seus olhos, de “positivo” a Ciência como um todo e às Ciências Sociais
em particular, apesar, contraditoriamente, de ela ser considerada a ciência por excelência de
temas diversos e incomuns:

(...) A disciplina (antropologia) freqüentemente parece compartilhar da visão


culturalmente prevalecente de que a sexualidade não é uma área de estudo
inteiramente legítima, e de que tal estudo necessariamente lança dúvidas não apenas
sobre a pesquisa, mas sobre os motivos e o caráter do pesquisador. Nisso, nós não

2
Consultar os trabalhos recentemente apresentados: SILVA FILHO, 2012 e REIS, 2012; ambos versam sobre
aspectos da sociabilidade LGBT na cidade de Belém-Pa.
temos sido nem piores nem melhores do que outras disciplinas das ciências sociais”
(VANCE apud CUNHA & CALAF, p. 29).

Desse modo, pensar o Cine Ópera como espaço de pesquisa e sociabilidade GLS,
como algo mais abrangente e para além das suas “dissidências”, como valores em relação às
próprias masculinidades ou o que vem a ser masculino entre “homens que fazem sexo com
homens”, como propõe Camilo Braz (2007). Ele sinaliza que alguns homens com contatos
homoeróticos podem ser pensados não só como “gays” ou “homossexuais”, mas machos em
busca de machos para obterem intercursos sexuais.

Cine Ópera: contexto externo e localização

As grandes capitais brasileiras oferecem espaços destinados a encontros


homossexuais masculinos, muitos deles velados alguns nem tanto, como o Cine Ópera.
Dentro do que considerou como circuito GLS3 de Belém, Silva Filho (2012) apresenta alguns
locais de sociabilidade homoerótica na cidade e contabilizou na sua pesquisa: seis boates
(Malícia, Lux, Hache, Rainbow, Vênus e R4 Point), dois bares (Bar da Ângela e Veneza),
quatro saunas (Calypso, Paradise, Reduto e Thermas 21) e um cinema (Cine Ópera).
Além dos locais de “pegação” e sociabilidade acima, pode-se encontrar também:

o Sex Shop “Comprinhas Quentes” com cabines individuais de projeção e locação de


vídeos pornôs, localizado no Telégrafo; os banheiros dos shopping centers e das
grandes lojas de departamentos, localizadas nos mais diferentes bairros da cidade; a
Doca; e a não menos observável Praça da República, tradicional ponto de
sociabilidade homoerótica, prostituição e michetagem, localizada no centro da
cidade (SILVA FILHO, 2012, p. 53).

Partindo desse “cenário GLS” da capital paraense, o bairro de Nazaré se apresenta


como um espaço dúbio quando pensamos na localização do único cinema pornô da cidade,
pois está situado bem em frente ao “símbolo máximo” do catolicismo paraense (A Basílica de
Nossa Senhora de Nazaré), conforme imagem abaixo.

3
De Gays, Lésbicas e Simpatizantes.
Imagem 1: Localização do Cine Ópera.
Fonte: Google Maps.

O CAN, como também é conhecido o Centro Arquitetônico de Nazaré, é uma


praça em frente à Basílica de Nazaré, onde acontecem, todos os anos, os festejos em
comemoração ao Círio de Nossa Senhora de Nazaré, no mês de outubro. Montam-se aí, o
Arraial de Nazaré com parque de diversões e as barracas em estilo junino que movimentam
ainda mais este quarteirão e os adjacentes.
Este bairro, a partir da história da cidade, é constituído por uma antiguidade e por
ser referência como um dos mais antigos da capital, como por exemplo, com as principais
empresas de transporte público mantendo linhas que atravessam a extensa avenida. Também é
constituído por uma classe média alta, possuindo um dos mais caros metros quadrados da
cidade. Além disso, a maioria de suas ruas são ladeadas por mangueiras centenárias,
formando um túnel verde quase homogêneo em contraste com as cores das casas e o cinza dos
prédios, permitindo aos seus transeuntes uma proteção do sol e do calor; como também, das
rápidas chuvas que desabam durante as tardes.
O quarteirão do Ópera, na Avenida Nazaré, é bastante movimentado durante a manhã
e a tarde, diminuindo um pouco seu movimento durante a noite, já que possui no seu
perímetro algumas escolas e todo um comércio “esparso”, com bancos, lanchonetes,
restaurantes, farmácias, butiques e vendas de rua, do tipo pipoca, churros, tacacá, maniçoba.
Na própria calçada do cinema há essa dualidade comercial, pois no lado direito (de
quem entra) está situada uma das Lojas Americanas da cidade configurando-se como parte do
comércio formal e do outro lado (esquerdo de quem entra), está situado um comércio
informal, com vendedores de lanches baseados nas comidas regionais.

Cinema de “pegação”: o espaço, o lugar, o lócus da pesquisa

O Cine Ópera foi inaugurado em 1961 e data da década de 1980 a publicização


como um lugar de frequente contato homoerótico, onde fica patente o clima das coisas que ali
acontecem. Por ser um dos cinemas mais antigos de Belém e o único a exibir filmes pornôs na
capital paraense foi aos poucos sendo relegado a um lugar de marginalidade, não somente por
práticas não convencionais que aconteciam em seu interior, mas por não se enquadrar nos
ideais de modernidade exigidos pelo mercado.
Sua arquitetura deixa um pouco claro sua idade, um lugar que parou no tempo,
materialmente falando, mas que ao longo da sua existência renova várias “gerações” de
masculinidades, “sexualidades plásticas” 4 e dissidentes, que contam sua história pela própria
consumação pornográfica e sexual para o qual foi construído.
Definir esse espaço de “pegação” homoerótica como é o caso do Cine Ópera,
supõe primeiramente levar em consideração a multiplicidade de sentidos que seus diversos
consumidores (homens, mulheres, casais, travestis, heterossexuais e homossexuais) lhes dão
ou particularizam, olhar como um espaço de extravasamento de sentimentos e motivações
diversas, pois são eles que o constituem enquanto espaço dotado de sentido, onde os sujeitos
são significados em relação contínua com este cenário.
Desse modo, o espaço simbólico deste cinema, multiplicado sensorialmente pelos
“cheiros”, “olhares” e “toques” entre corpos no escurinho do cinema, valoriza este espaço
enquanto possuidor de regras e códigos próprios, construtor de masculinidades alternativas e
de exercício de desejos não heteronormativos.
Nesse cenário, articulam-se como sexualidades desejadas e desejantes, pessoas
construídas como “passivo” ou “ativo”, de acordo com Peter Fry (1982). Porém, estas não
podem ser pensadas como fixas, mas que perdem sentido num ambiente de intensas trocas
sexuais para fluidamente comungar os vários sujeitos à procura de sexo: o que antes era
“passivo” pode se tornar “ativo”.

4
Antony Giddens (1993) situa a sexualidade plástica como aquela que está liberta da obrigatoriedade biológica
de gerar filhos e que desobriga os seus agentes a buscarem prazer somente através do vinculo matrimonial, isto
é, que pode ser vivenciada fora dos parâmetros do casamento heteronormativo, valorizando com isso uma
sexualidade descentralizada.
Dentre esse público estão homens (homens mais jovens e mais velhos), mulheres (em
geral mais velhas), travestis (prostitutas ou não), negros, brancos, homens de camadas médias
e populares, michês (em geral masculinizados e jovens), todos eles fazendo parte desse
cinema como o lugar por excelência de “sexualidades periféricas”, para quem os observa de
fora, e que encontram um território sem limites para extravasarem seus prazeres com aqueles
que assistem, desejam, observam, interagem e/ou se deixam entrelaçarem corporalmente por
“desconhecidos”; que compartilham as mesmas vontades de experimentação e/ou exercício
e/ou contato homossexual.
Assim, na descrição que faço do local, é possível avistar já na entrada do Cine
Ópera, que está localizado numa pequena galeria como foi exposto, uma porta do lado direito
(de quem entra), logo depois da lanchonete. Essa porta serve como a bilheteria do cinema,
contém uma minijanela em arco, da qual é quase impossível ver o bilheteiro.
A entrada é facilitada pelo baixo valor do ingresso que custa em média r$ 6,00 (a
meia-entrada) e r$ 12,00 (a inteira). Entre r$ 12,00 e r$ 24,00 é o preço do camarote (que na
verdade são cabines individuais para duas ou mais pessoas, mas que aparecem assim
vendidos).
Uma das peculiaridades é a entrada, que tem sempre algum pôster de um dos
filmes que estão sendo exibidos lá dentro, sempre expondo as mulheres nuas mas com a área
genital “censurada” por um papel/adesivo branco colado, como na Foto 1.
Na antessala, no térreo, onde se entrega o ingresso ao segundo bilheteiro que
autoriza a entrada por uma roleta, para se ter acesso a sala de projeção principal, há dentro
desta uma pequena venda de bebidas, refrigerantes, balas; atrás há uma escada, que dá acesso
à sala de projeção superior. Nesta antessala, há um sofá vermelho e uma televisão, que servem
aos frequentadores e/ou trabalhadores do cinema ou ainda servem como entretenimento ou
“descanso” ou lugar de conversa entre as travestis, mulheres e homens que circulam naquele
local, como mostra a Foto 2.
Foto 1: Este é um exemplo de pôster “censurado” na entrada do cinema.
Fonte: Pesquisa de campo, maio de 2012.

Foto 2: Lado esquerdo da sala principal do Ópera.


Fonte: Pesquisa de campo, maio de 2012.

Curiosamente, esta antessala contém vários pôsteres de alguns filmes que já foram
exibidos ou serão exibidos nas sessões futuras, no entanto, nenhum deles possui a temática
homoerótica. Um dos questionamentos possíveis seria o de que isso seria mais um movimento
para assegurar a imagem do cinema como “lugar de heterossexuais” para o resto da sociedade.
Nesse sentido, não estariam sendo camuflados, não só no Ópera mas em qualquer
“cinema de pegação”, o homoerotismo presente no público e não questionado pela população
em geral, que desconhece o que ocorre lá dentro? Ou não? Isto é, para aqueles que não
frequentam conservar este cinema (ou qualquer outro) como espaço de “pegação gay” é criar
uma zona moral impermeável pelo heterosexual? Como afirmou um dos bilheteiros do
cinema, quando indagado por mim se passava algum filme gay? “Não”, disse ele
categoricamente. Disse também que “não passavam esses filmes porque o pessoal reclamava
muito”, dizendo que os clientes preferem filmes com intercurso sexual heterossexual.
O cinema talvez sirva para extravasar tensões cotidianas e tesões sexuais, pois
como afirma Vale (2000) as motivações dos frequentadores são múltiplas, uma vez que vão
para lá, em busca de lazer, trabalho ou por desemprego, solidão ou em busca de uma
solidariedade não mais encontrada na nossa sociedade. Talvez seja por isso que nem todos se
deixem chupar por outros homens, ficando só assistindo e consumindo a pornografia em tela?
Na próxima sessão, descrevo uma conversa com um dos frequentadores do
“cinemão”, que primeiramente estava me observando e dando indicações que estaria
disponível e interessado. A conversa que se seguirá é a transcrição de um relato informal.

Iniciando uma aproximação: relatos de um interlocutor

Benedito5 é negro6, de mais ou menos 1,75m, tem aproximadamente 30 anos,


estava de camisa branca, calça jeans preta e portava uma mochila. Possui, segundo ele,
graduação em pedagogia e uma especialização e pretende futuramente fazer um mestrado,
porém, fora do Pará. Nossa aproximação se deveu à “disponibilidade” de ambas as partes.
Depois de certo contato visual, resolvi que iria estabelecer um diálogo com ele, tendo em
vista a percepção dele sobre aquele lugar, aquele ambiente. Assim, transcrevo parte da
interação:

Pesquisador: Oi, Neto, prazer!


Entrevistado: Igualmente firme: Oi, sou Benedito!
Pesquisador: Vens muito aqui?
Entrevistado: Não, mais ou menos. Uma vez a cada quinze dias ou uma vez por
mês. Não venho muito!
Entrevistado: Tu é daqui de Belém mesmo?
Pesquisador: Não, sou de Abaeté! (Abaetetuba). E tu?
Entrevistado: É, parece mesmo! (de Abaeté).

5
O nome do entrevistado é fictício para salvaguardar sua identidade.
6
Minha percepção sobre sua classificação racial.
Pesquisador: Por quê? Pergunto.
Entrevistado: Sei lá, pelo teu jeito, tu tem um jeito diferente.
Pesquisador: Acho que esse “diferente” foi pelo aperto de mão firme num lugar
onde conhecer profundamente seu parceiro ocasional ou do momento parece não
fazer parte do jogo de interações desse lugar.
Entrevistado: Sou de Marituba! (cidade próxima de Belém, aproximadamente
02:00 horas de viagem em trânsito bom). Conhece? Diz ele.
Pesquisador: Não, mas tenho uma colega que mora lá. É mesmo, ele retruca.
Colega de que? Eu faço Ciências Sociais. E ela estuda comigo. Estou aqui fazendo
pesquisa (Ele neste momento não se importa ou estranha eu estar fazendo pesquisa).
Pesquisador: Vens acompanhado ou sozinho pra cá?
Entrevistado: Sozinho, sempre sozinho!
Pesquisador: Por quê? Por que tu não vens com os teus amigos ou alguém
conhecido?
Entrevistado: Não, não gosto. Sempre venho sozinho. Se eu tivesse um namorado
eu traria ele pra cá, se ele quisesse. Mas como eu não tenho venho sozinho. (Neste
momento ele avança o corpo sobre o meu, rindo, acariciando meu braço e me
cheirando às mãos, o braço e meu ombro, especificamente, ele arrasta o nariz sobre
a minha camisa, sussurrando: “tu é cheiroso”).
Pesquisador: Nota-se que ele não estava se masturbando sozinho e nem com outros
homens como estava a maioria. Por isso, lhe pergunto se ele não ficava que nem os
outros, acenando com a cabeça para um “casal” que estavam se chupando perto da
gente.
Entrevistado: Ah, depende do dia e do cara. Ainda agora eu fui convidado por dois
rapazes pra ir pra cabine, eram até bonitinhos, só que eu fiquei com medo!
Pesquisador: Medo, pergunto! (reforçando o tom para ouvir claramente) medo de
quê?
Entrevistado: Ah, sei lá, de eles me fazerem mal lá dentro. Eram dois e eu sou só
um. Imagina só! Eles demoraram muito lá dentro; um deles ainda agora passou por
aqui, um fortinho de camiseta preta.
Pesquisador: Retomo a questão do porque vir ao Ópera. Se tu tivesse namorado tu
traria ele pra cá?
Entrevistado: Não, tu acha que eu viria pra cá depois de ter namorado. Se eu
tivesse namorado eu ia preferir ir pro motel com ele, né. Lá tem tudo, é tudo de bom.
Melhor do que vim pra cá.
Pesquisador: Mas tu não gosta que fiquem te olhando como eles gostam?
Apontando para os homens nas poltronas.
Entrevistado: Não, deixa disso!
Pesquisador: Então por que tu vens pra cá?
Entrevistado: Ah, a gente vem pra cá quando não tem ninguém pra curtir, né.
Pesquisador: Como é lá dentro, no camarote? (Os camarotes são as cabines)
Entrevistado: Tu ainda não entrou lá dentro?
Pesquisador: Respondo que ainda não, mas que estou me preparando e por isso
estou perguntando a ele como é lá dentro?
Entrevistado: Lá dentro tem um sofá, uma televisão e uma lâmpada que tu pode
apagar sem problema. Pergunto se só tem um sofá? Ele diz que sim.
Pesquisador: Mas como assim, todo mundo fica junto se chupando e fazendo sexo?
Entrevistado: Não, tá doido, cada um fica na sua cabine. Tem divisórias, ninguém
te vê lá dentro. Em seguida ele pergunta: “Iai”, já ficou com alguém hoje?
Pesquisador: Respondo que não, que estou trabalhando. E tu? Pergunto.
Entrevistado: Também não! Trabalhando? Indaga ele.
Pesquisador: Sim, estou fazendo uma pesquisa sobre o Cine Ópera.
Entrevistado: É verdade?! Então vamos fazer campo? (isto é, fazer o que os outros
estavam fazendo, se masturbamdo, se chupando ou transando nas cabines).
Pesquisador: Não, não posso, estou fazendo campo! (Neste momento, ele agarra
meu braço novamente e me puxa em direção às poltronas, meio rindo, meio nervoso
e meio desacreditado do que acabara de ouvir. Nesse vai e vem me repuxo para o
lugar que estávamos quase me chocando com outro homem).
A partir desse momento a conversa meio que desanda. Pois, ele fica receoso por
estar conversando com um “pesquisador” de verdade e fazendo parte de uma
pesquisa, onde talvez pudesse ser reconhecido por alguém, quando ele diz:
Entrevistado: É verdade mesmo, tu tá fazendo pesquisa?
Pesquisador: Sim, estou! Tem algum problema nisso?
Entrevistado: Sei lá, eu não imaginava que tu fosse pesquisador. Perguntei por que
ele achava isso? Ah, sei lá, pelo teu jeito! (neste momento ele faz menção de ir tocar
o meu rosto, acho que o meu “jeito” estaria mais ligado a eu parecer jovem e talvez
ele ter um estereotipo de pesquisador como sendo mais velho, como muitos o tem.
Essa é ou será uma das dificuldades que talvez eu encontre com frequência entre os
consumidores de prazer do Cine Ópera, uma vez que falar de desejos e sexo não é
fácil para quem o exerce, tão pouco, para quem o estuda.

Considerações finais

O trânsito entre os banheiros, o mezanino e a sala do térreo é constante, quase sempre


sendo possível observas bundas nuas, paus em riste e mamadas vorazes entre os
frequentadores. No banheiro de cima, que integra o mezanino, a porta cedeu lugar a apenas
um tecido, que a cobre até a metade, sendo que do torso para baixo as pessoas ficam visíveis a
quem estiver na pequena sala. É comum vermos mais de duas pessoas nos banheiros, quase
sempre se tocando ou masturbando-se ou transando.
Os convites e contatos para esses tipos de interação não são homogêneos ou
disseminados, tendo cada um sua forma de abordagem. Signos comuns ainda não encontraram
espaço neste ambiente, onde além do público ser volátil e “imprevisível” eles não se
conformam enquanto unidade e/ou comunidade e/ou grupo. Entre os frequentadores assíduos
do cinema é quase sempre possível encontrar um novato, que estará ali de passagem, e que
poderá não estar interessado num intercurso sexual com alguém do mesmo sexo.
Há pouca circulação de mulheres no local. Quando vão, nunca estão sozinhas. A não
ser que freqüentem o local a mais tempo, que já sejam parte daquele cenário, como a
interlocutora do trecho abaixo. No entanto, há freqüência de travestis e transexuais. Elas,
quase sempre, estão observando e selecionando um possível parceiro. Ou estão a espreita de
uma/um novata/o que invadiu-lhes o território. No trecho abaixo, uma rápida configuração do
cinema é desnudada:

Na ida, observo uma mulher me olhando de ponta de olho como se me reconhecesse


claramente, mas se ressentia em se pronunciar e eu não corresponder. Apresento-me
a ela e apertamos as mãos, ela chame-se Flor (nome fictício). Pergunto de cara se ela
frequentava há muito tempo o cinema, no que ela me responde que há pelo menos
uns dez anos. Ela tinha entre trinta e quarenta anos, estatura baixa, branca e loira.
Anteriormente, dentro do cinema, quando desci para a sala maior, ela havia me
acariciado o braço e se oferecido para me fazer um sexo oral, no que eu muito
educadamente respondi que “hoje não, quem sabe outro dia?!”. Ela respondendo:
“Tá legal”. Duvidei, nesta ocasião, se ela era mulher, pois só havia ela, muitos
homens, uma travesti e um rapaz magrinho bem afeminado. Pergunto a ela se muitos
casais frequentavam o cinema, ela me responde que “muitos poucos, assim como
poucas mulheres”. Afirmando, em tom meio jocoso, que “dava muita bicha” e que
se eu não quisesse ser “chupado” por “eles” que viesse às terças, quando ela também
vem. Despeço-me e sigo para parada de ônibus (Trecho do Diário de Campo,
novembro de 2011).

Existem também aqueles homens que só querem se masturbar. Sendo estes menos
sujeitos ao sexo. E que vão ao cinema por ser um local em que tal prática é vista como
corriqueira. A diferença entre este e um que quer ser mamado só é entendida na aproximação.
Pois em nada se diferenciam, seja na performance, seja esteticamente. E será na hora da
abordagem que as respostas surgirão.

Referências

BRAZ, Camilo. O dito pelo não dito. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 24, n. 70,
2009.

______. Macho versus Macho. In: Cadernos Pagu, (28). 2007.

CUNHA, Ana Lúcia Santos da. & CALAF, Priscila Pinto. “Todo mundo tem um
pouquinho de voyer”: Reflexões sobre o campo em um cinema pornô. Disponível em
<http://www.teoriaepesquisa.ufscar.br/index.php/tp/article/viewFile/206/164>. Acesso em:
27/08/2012.

FRY, Peter. Da Hierarquia à igualdade In Para inglês ver. Rio de Janeiro: Zahar Editores,
1982.

GIDDENS, Antony. A transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas


sociedades modernas. São Paulo: Unesp, 1993.

LACOMBE, Andrea. “tu é ruim de transa” ou como etnografar contextos de sedução lésbica
em duas boates LGBT do subúrbio do Rio de Janeiro In: DÍAZ-BENÍTEZ, María Elvira &
FÍGARI, Carlos Eduardo. Prazeres Dissidentes Eduardo. Rio de Janeiro: Garamond, 2009.

LOURO, Guacira Lopes. Corpo, gênero e sexualidade: um debate contemporâneo na


educação. 5° ed. Petrópolis-RJ, Vozes, 2010.

NUNES, Cládio Ricardo Freita. No escurinho de desejo: as heterossexualidades ao alcance


dos olhos (e das mãos). In: Anais eletrônicos do Fazendo Gênero 8: Corpo, Violência e
Poder, Florianópolis, 2008.

PENA, João Soares & BOUÇAS, Rose Leila de Jesus. Cinemas de Rua: um panorama
sobre os cinemas pornôs do centro histórico de Salvador. In: Anais do IX Seminário de
Pós-graduação em Geografia da UNESP, “Teorias e Metodologias da Geografia: Tendências
e Perspectivas”. Rio Claro, 2009.
REIS, Ramon Pereira dos. Encontros e Desencontros: Uma etnografia das relações entre
homens homossexuais em espaços de sociabilidade homossexual de Belém, Pará.
Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais, área de concentração em Antropologia) –
Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais/UFPA. Belém, 2012.

SILVA FILHO, Mílton Ribeiro da. Na rua, na praça, na boate: uma etnografia da
sociabilidade LGBT no circuito GLS de Belém-PA. Dissertação (Mestrado em Ciências
Sociais, área de concentração em Antropologia) – Programa de Pós-Graduação em Ciências
Sociais/UFPA. Belém, 2012.

VALE, Alexandre Fleming Câmara. O Cine Jangada como local de investigação In: No
escurinho do Cinema: cenas de um público implícito. São Paulo, Annablume, 2000.

VANCE, Carole. A antropologia redescobre a sexualidade: um comentário teórico. In:


PHYSIS: Revista de Saúde Pública. Rio de Janeiro. UERJ, v. 5, nº 1, 1995, p. 7-31.