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01/12/2018

Como suspender o uso de benzodiazepínicos após o uso de longo prazo – Um guia para a retirada de benzodiazepínicos

Contexto

Quando comecei a administrar minha clínica para auxiliar na retirada de benzodiazepínicos em 1982, ninguém tinha muita experiência sobre como realizar o desmame desses medicamentos. Ainda assim, existia uma enorme demanda por parte dos pacientes por ajuda e conselhos sobre como realizar a

retirada. Dessa forma, médicos e pacientes encontraram um caminho para fazer

a retirada segura desses medicamentos. No começo, o desmame foi um

processo de várias tentativas (acompanhado de muitos erros), porém, nesse processo, alguns princípios básicos da retirada – o que funciona melhor para a maioria das pessoas – se consolidou. Esses princípios básicos nasceram das 300 pessoas que participaram da minha clínica até 1994 e foram confirmados anos após anos por centenas de usuários de benzodiazepínicos pelos quais tive contato mediante grupos de apoio de pessoas que queriam largar os tranquilizantes no Reino Unido e em outros países.

Logo ficou claro que cada pessoa tem uma experiência única ao realizar a retirada desses remédios. Embora existam muitos erros em comum, cada indivíduo tem seu próprio padrão de sintomas durante o desmame. Esse sintomas variam em tipo, severidade, tempo de duração entre outros. Essa variedade de sintomas não traz surpresas já que o andamento da retirada depende de vários fatores: a dose, o tipo de benzodiazepínico, velocidade de eliminação, tempo de uso, a razão pela qual o remédio foi receitado, as

vulnerabilidades de personalidade e individualidade do paciente, seu estilo de vida, stress e seu histórico de vida, a porcentagem da quantidade retirada e o nível de suporte recebido durante e após o processo de desmame. Por esse motivo os conselhos de como realizar a retirada deve ser considerada um guia geral; cada indivíduo deve adaptar seu processo de desmame de acordo com suas possibilidades. Porém, o guia foi utilizado por um grande número de pessoas, de 18 a 88 anos, homens e mulheres, de diferentes áreas profissionais e diferentes realidades socioeconômicas e que obtiveram sucesso ao suspender

o uso do medicamento através das informações aqui contidas. A taxa de

sucesso é relativamente alta (>90%), e aqueles que conseguiram suspender a medicação, ainda que a tenham tomado por 20 anos, descrevem se sentir melhor mental e fisicamente.

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Para vocês que estão começando a retirada, muitos pacientes que o fizeram lhe dirão que se você realmente quer parar com a medicação você conseguirá. Mas não fique surpreso se seus sintomas (ou falta deles) são diferentes das pessoas que estão embarcando nessa jornada com você.

Por que eu deveria parar de tomar rivotril/benzodiazepínicos?

Como descrito no capítulo 1, o uso de benzodiazepínicos no longo prazo pode acarretar no surgimento de muitos efeitos indesejados, incluindo memória prejudicada e problemas de cognição, embotamento emocional, depressão, aumento de ansiedade, sintomas físicos e dependência. Todos os benzodiazepínicos podem resultar no aparecimento desses sintomas mesmo se tomados em doses terapêuticas como remédios para dormir ou para combater a ansiedade. Além disso, as evidências sugerem que os benzodiazepínicos perdem sua eficácia após algumas semanas ou meses de uso diário. Eles perdem sua eficácia devido ao desenvolvimento de tolerância aos efeitos. Quando a tolerância se desenvolve, sintomas de abstinência podem surgir mesmo que o paciente esteja tomando sua dose habitual. Portanto os sintomas vividos por usuários de longa data são uma mistura dos efeitos adversos da droga e sintomas de abstinência que são desenvolvidos uma vez que o paciente alcança a tolerância a medicação. O Comité de Medicina Segura e a Royal College of Psychiatrist no Reino Unido concluiu em várias notas (1988 e 1992) que o uso de benzodiazepínicos no longo prazo são insustentáveis e que seu uso não deveria ser maior do que 2 a 4 semanas.

Adiciona-se ao fato de que experiências clínicas demonstram que usuários de longo prazo de benzodiazepínicos, na realidade, se sentem melhor após abandonar o uso desses medicamentos. Muitos pacientes afirmam que não foi até largarem o rivotril que eles perceberam que eles tinham vivido abaixo do seu máximo potencial durante todos os anos nos quais tomaram o benzodiazepínico. Era como se uma cortina havia sido retirada dos seus olhos e lentamente as cores ganharam mais brilho, a mente obteve mais claridade, medos antigos sumiram, o humor melhorou e o vigor físico havia retornado.

Portanto, existem boas razões para pessoas que usam rivotril/benzodiazepínicos no longo prazo para parar com a medicação caso acreditem que o medicamento está lhes fazendo mal. Muitas pessoas se sentem aterrorizadas em fazer a retirada, relatos de que ao realizar a retirada “se sentiram no inferno” são muitas vezes exagerados. Com uma redução gradual e um cronograma individualizado, como já dito nesse documento, a retirada pode ser tolerável, em alguns casos até fácil, especialmente quando o paciente entende a causa e a natureza dos sintomas que se apresentam e dessa maneira, informado sobre os potenciais sintomas, reduz-se o medo ao começar o processo de retirada gradual. Muitos “sintomas de abstinência” nascem devido ao próprio medo da abstinência (ou até mesmo medo do medo). Pessoas que tem experiências ruins durante a retirada, normalmente realizaram um desmame muito rápido (na maioria das vezes proposto por médicos com pouco conhecimento sobre benzodiazepínicos) e não

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receberam nenhuma informação prévia dos sintomas que poderiam surgir

durante o processo. No outro extremo, existem pessoas que conseguem realizar

a retirada sem sentir nenhum sintoma de abstinência: de acordo com algumas

autoridades médicos esse número pode chegar a 50% dos pacientes, mesmo após o uso diário durante anos. Mesmo se esses dados estejam corretos, não é inteligente parar abruptamente com sua medicação. Existem casos de mortes relacionadas a pessoas que pararam abruptamente e que sofreram de uma convulsão fatal.

As vantagens de diminuir sua dosagem gradativamente não significa necessariamente que todos os usuários de longa data devem fazer o desmame. Ninguém deve ser persuadido a fazer a retirada contra sua própria vontade. Na verdade, pessoas que são forçadas pelos seus médicos a fazerem a retirada normalmente passam por uma experiência ruim. Por outro lado, as chances de sucesso são altas para aqueles que estão motivados e determinados a realizar a suspensão gradual da medicação. Como dito, quase todos que querem largar o rivotril / benzodiazepínico conseguem largar o remédio. A opção é toda sua.

Antes de começar a retirada não deixe de ler isso

Uma vez que você decidiu que quer fazer a retirada do medicamento, é importante levar em conta alguns passos antes de começar.

Consulte seu médico. Seu médico pode ter um entendimento se é apropriado ou não para você parar com o benzodiazepínico. Em um número reduzido de pessoas a retirada não é aconselhada. Alguns médicos, especialmente no Brasil, acreditam que a utilização de longo prazo de rivotril / benzodiazepínicos é indicada para alguns casos de ansiedade, pânico e agorafobia e algumas condições psiquiátricas. No entanto, opiniões médicas tendem a ser diferentes, e mesmo se a retirada completa não é recomendada, pode ser benéfico reduzir a dose ou tomar doses intermitentes com intervalos sem a toma do remédio.

A concordância do seu médico é necessária por que é ele quem vai ser responsável por preencher sua receita de rivotril / benzodiazepínico. Muitos médicos ficam receosos em como administrar um cronograma de retirada do medicamento e acabam não concordando com o processo. Mas você pode tranquilizar seu médico afirmando que você pretende estar no comando do seu próprio programa de retirada e que você irá proceder no tempo que for mais confortável para você. É importante escutar os conselhos que seu médico lhe passar, para que se possa estabelecer uma relação saudável durante todo o processo de retirada. Destacamos a importância de que você esteja no controle do seu tempo de retirada. Não permita que médicos imponham uma data limite para você realizar seu desmame, caso isso aconteça busque outro médico que esteja disposto a lhe dar autonomia durante o processo de retirada.

É uma boa ideia dar uma cópia ao seu médico do seu planejamento de retirada

(ver abaixo) no estágio inicial. Você pode mencionar a importância da flexibilidade, para que a quantidade da dose retirada possa variar a qualquer

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tempo, de acordo com seu cronograma de desmame. Podem surgir momentos em que você vai preferir parar de reduzir sua dosagem por um tempo determinado até que o seu organismo se acostume e você se sinta confortável

para seguir adiante. Quando você decidir retomar a retirada gradual dependendo

de como você está se sentindo, é aconselhável informar ao seu médico por que

você parou em determinada dose e por que você deseja agora continuar a redução gradual.

Por fim, seu médico pode apreciar que você apresente literatura sobre a

abstinência de benzodiazepínicos para que ele se sinta mais informado durante

o processo e possa lhe fornecer dicas mais embasadas em dados científicos. O material infelizmente, apenas se encontra em língua inglesa e pode ser acessado aqui.

Certifique-se que você tem apoio psicológico adequado. Apoio pode vir do seu esposo(a), parceiro, família ou um amigo próximo. Um médico compreensivo também pode ser fonte de apoio assim como de conselhos. Idealmente, a pessoa que está te ajudando deve ser alguém que entende a dinâmica de retirada desse tipo de medicamentos ou alguém que esteja disposto a ler e aprender o máximo possível sobre a retirada dos benzodiazepínicos. Não é necessário que a pessoa que esteja te apoiando tenha passado pela retirada do

rivotril – algumas vezes ex-usuários que tiveram experiências negativas durante o processo de retirada podem te assustar quando compartilham os sintomas ruins que tiveram durante o desmame. Frequentemente o apoio de um terapeuta, psicólogo ou algum médico da área de saúde mental é extremamente valiosa, especialmente para lhe ensinar técnicas de relaxamento como respiração profunda, como lidar com ataques de pânico entre outros. Algumas pessoas acreditam que práticas alternativas como aromaterapia, acupuntura e yoga podem ser benéficas durante o processo, mas provavelmente essas práticas apenas atuam como uma ajuda de relaxamento. Na minha experiência,

a hipnoterapia não foi de muita ajuda em pacientes que tomavam benzodiazepínicos no longo prazo.

Melhor que (ou como complemento) terapeutas caros, você precisa de um grupo

de confiança, quem irá te fornecer apoio quando você precisar, tanto durante o

processo de desmame quando alguns meses depois. Grupos de ajuda para pessoas que querem largar tranquilizantes tarja preta podem ser de grande ajuda, por que eles normalmente são gerenciados por pessoas que passaram por todo o processo de retirada dos medicamentos de forma bem sucedida e por isso entendem pelo o que você está passando e podem lhe oferecer conforto e alívio. Pode ser encorajador entender que você não está passando por isso sozinho, que existem muitos outras pessoas com problemas iguais aos seus. Porém, não seja levado a pensar que você sofrerá de todos os sintomas que

atingem outras pessoas que estão no processo de retirada. Todos são diferentes

e algumas pessoas, com o cronograma de retirada correto e o apoio necessário, sequer são acometidos por sintomas desconfortáveis. Inclusive, alguns pacientes conseguiram parar com sua medicação por conta própria sem nenhum tipo de ajuda.

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Entre no processo com pensamentos otimistas.

Seja confiante. você consegue. Se estiver em dúvida, tente uma redução extremamente pequena por alguns dias (por exemplo: reduzir a sua dose em 10% ou 8%, você pode fazer isso cortando seu comprimido em 4 partes iguais). Provavelmente, com essa pequena redução você não terá sintomas. Se ainda estiver em dúvida, foque seu objetivo central em reduzir pequenas doses, deixe um pouco de lado o pensamento de suspender por completo a sua dosagem. Esse pensamento fará com que você seja motivado a seguir enfrente.

Seja paciente. Não há nenhuma necessidade de aumentar o passo da sua retirada. Seu corpo (e cérebro) talvez precise de tempo para se ajustar a redução de dose após anos tomando esse tipo de medicação. Muitas pessoas levaram mais de um ano para completar sua retirada. Por isso, não tenha pressa e acima de tudo, não pare abruptamente sua medicação

Escolha seu método. infelizmente, não existe uma cura rápida. É possível ir a clínicas de reabilitação ou de detox. Porém, esses locais tendem a fazer uma retirada demasiadamente rápida que pode trazer prejuízos enormes ao paciente. Esse lugares podem ser adequados para uma pequena parcela de pessoas que tem problemas psicológicos. No entanto, eles tiram o poder do paciente sobre seu próprio processo de retirada do medicamento e pioras dos quadros ao voltar para casa não são incomuns, especialmente, por que não houve tempo para que o paciente aprenda a lidar com os sintomas da retirada rápida do benzodiazepínico. A redução lenta e gradual em um ambiente familiar permite que o paciente tenha a possibilidade de se adequar fisicamente e psicologicamente, permitindo que você continue trabalhando, para adequar o andar da retirada de acordo com as demandas da sua vida e para construir estratégias alternativas para começar a viver sem o uso de benzodiazepínicos.

O desmame

Desmame gradual. Não existe dúvida alguma que o desmame de qualquer benzodiazepínico usado no longo prazo deve ser realizado de forma lenta. A retirada abrupta ou uma retirada rápida, especialmente de altas doses, pode fazer surgir sintomas severos (convulsão, reações psicóticas, estados agudos de ansiedade) e podem aumentar o riscos de síndrome de retirada proativa (ver capítulo 3). O desmame lento significa reduzir a dose gradualmente, normalmente num período de meses. O objetivo é obter uma redução suave, regular e consistente na concentração de benzodiazepínicos nos tecidos e no sangue para que os sistemas naturais do cérebro possam recuperar seu estado original de funcionamento. Como explicado no Capítulo 1, o uso de benzodiazepínicos de forma crônica e no longo prazo assumem o controle de muitas das funções tranquilizadoras naturais do próprio organismo, mediados pelo neurotransmissor GABA. Como resultado, as funções dos receptores GABA sofrem uma significativa redução. A retirada abrupta de benzodiazepínicos resulta em um cérebro deficiente das ações tranquilizadoras do GABA, resultando na hiperexcitabilidade do sistema nervosa. Essa hiperexcitabilidade é

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a raiz de todos os sintomas de abstinência que surgem e serão apresentados no

próximo capítulo. Porém, uma redução suficientemente gradual e suave, permite que com a retirada do benzodiazepínico – feito de forma lenta e gradual – os sistemas naturais e com características tranquilizadoras voltem a retomar o controle das funções que foram prejudicadas durante a presença do benzodiazepínicos. Existem evidências científicas que a retomada das funções cerebrais levam um longo tempo. A recuperação do cérebro após a utilização de longo prazo de benzodiazepínicos não é diferente da recuperação gradual que o corpo passa após sofrer uma operação cirúrgica complexa. A cura, do corpo e da menta, é um processo lento.

A exata porcentagem de redução é um assunto individual. Depende de vários

fatores incluindo a dose, o tipo de benzodiazepínico utilizado, o tempo de uso, personalidade do paciente, estilo de vida, vulnerabilidades específicas e a velocidade específica dos sistemas de recuperação do indivíduo (determinado pela genética). Normalmente, a melhor pessoa a julgar o nível de redução é você mesmo: você deve estar no controle de seu planejamento de retirada e continuar numa velocidade que seja confortável para você. É importante que você resista a tentativa de médicos de imporem um planejamento de retirada rápida. O clássico tempo de retirada de seis semanas usadas por clínicas e médicos é extremamente rápido e prejudicial para aqueles que utilizaram esses medicamentos durante anos. Na verdade, a velocidade do desmame, contato que seja lenta, não é determinante. Sejam 6, 12 ou 18 meses é de pouca importância levando em conta que você tomou benzodiazepínicos durante anos

a fio.

Algumas vezes escuta-se que a retirada muito lenta de benzodiazepínicos apenas serve para “alongar a agonia” e que é melhor abandonar o rivotril o quanto antes. No entanto, a experiência da maioria dos pacientes é que uma redução gradual é preferível, especialmente quando o paciente tem o controle sobre o ritmo de retirada do benzodiazepínico. Na verdade, muitos pacientes dizem que não existem “agonia” envolvida no processo de redução gradual. Ainda assim, não existe uma taxa mágica de retirada e cada pessoa deverá encontra o ritmo que melhor se adequá aos seus sintomas. Pessoas que tomaram benzodiazepínicos por um período relativamente curto (menos de um ano) podem, na verdade, fazer uma retirada rápida. Aqueles que tomaram doses altas de benzodiazepínicos de maior potência, como o alprazolam e o clonazepam (rivotril) normalmente precisam de mais tempo de retirada.

Cronogramas de retirada são apresentados no final desse capítulo. Como um exemplo de desmame, uma pessoa tomando 40mg de diazepam por dia (ou uma dose equivalente de outro benzodiazepínico) pode estar apta a reduzir sua dose diária por 2mg a cada 1-2 semanas até que a dose de 20mg seja atingida. Isso levaria, aproximadamente, 10-20 semanas no planejamento do desmame. Quando se alcançam as 20mg de diazepam, reduções de 1mg após 1-2 semanas são indicadas. Isso levará cerca de 20-40 semanas, dessa forma o curso completo da retirada seria de 30-60 semanas. Ainda assim, algumas pessoas preferem reduzir de forma mais rápida ou mais lenta, dependendo dos sintomas que apresentam com cada redução de dose.

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Contato, é importante que a retirada seja sempre um movimento progressivo. Se você realizar um corte na sua dose e não se sentir bem devido aos sintomas, é aconselhável que você se mantenha nessa dose até que seu organismo se “estabilize” para que você possa seguir enfrente com sua retirada. Uma vez comprometido com seu desmame, é importante que após diminuir sua dose você não volte atrás e use a sua dosagem anterior. Alguns médicos tem o costume de aconselhar ao paciente a usar doses S.O.S (uma dose extra de benzodiazepínico) particularmente em situações estressantes. Provavelmente isso não é uma boa ideia, uma vez que interrompe a gradual diminuição das concentrações de benzodiazepínicos no organismo e também interrompe o processo pelo qual o paciente começa a aprender alternativas de aprendizado para lidar com problemas estressantes sem a presença do benzodiazepínico, que é um fator fundamental durante a retirada. Se o planejamento do desmame for feito de forma correta, doses S.O.S não serão necessárias.

Trocando para um benzodiazepínico de longa duração. Com benzodiazepínicos de curta duração como o alprazolam (Xanax) e o lorazepam (Ativan) não é possível alcançar uma queda regular e lenta do medicamento nos tecidos e no sangue. Essas drogas (Xanax e Ativan) são eliminados relativamente rápidas e acabam tendo como resultado uma flutuação considerável no sangue entre as doses. Acaba-se sendo necessário consumir vários comprimidos desses benzodiazepínicos por dia e muitos pessoas sentem sintomas de “mini-abstinência”, algumas vezes até desejo pelo próximo comprimido.

Para as pessoas que estão realizando a retirada desses benzodiazepínicos de curta duração, sugere-se a transição para um benzodiazepínico de maior duração, que é lentamente metabolizado como, por exemplo, o diazepam. O diazepam (Valium) é um dos benzodiazepínicos de eliminação mais lenta existente no mercado. Sua meia vida é próxima de 200 horas, o que significa que após tomar um comprido os níveis do remédio no sangue caem pela metade após 8.3 dias. Os outros benzodiazepínicos com um perfil de meia vida parecido são os clordiazepoxido (Librium), flunitrazepam (Rohypnol) e o flurazepam (Dalmane), todos esses remédios, uma vez ingeridos pelo organismo são transformados em diazepam. A eliminação lenta do diazepam pelo organismo propicia uma queda branda e gradual nos níveis sanguíneos, permitindo que o corpo se ajuste lentamente a redução das doses feitas durante a retirada do remédio. O processo de substituição de um benzodiazepínico de curta duração para outro de longa duração deve ser feito de forma gradual, substituindo uma dose por vez. Existem muitos fatores a serem considerados. O primeiro é a diferença de potência entre os diferentes benzodiazepínicos. Muitas pessoas acabam sofrendo por que elas foram aconselhadas a mudar para um outro benzodiazepínico porém com uma dose que não é equivalente em termos de potência ao remédio que estavam tomando anteriormente. As equivalências de potências entre benzodiazepínicos são apresentadas na Tabela 1 (em construção).

Um segundo ponto a ser levado em conta é que embora os benzodiazepínicos, de forma geral, tenham efeitos parecidos, existem pequenas diferenças do

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mecanismo de ação de cada benzodiazepínico. Por exemplo, o lorazepam (Ativan) parece ter um efeito hipnótico menor do que o diazepam (Valium), provavelmente por que é um remédio de curta duração. Portanto, se alguém está usando lorazepam de 2mg três vezes ao dia e logo faz a transição para 60mg de diazepam (a dose equivalente para ansiedade) ele está propenso a ficar extremamente sonolento, mas se ele mudar para uma dose muito menor de diazepam o paciente provavelmente vai experimentar sintomas de abstinência. Realizando a transição de uma dose (ou uma dose parcial) evita que o paciente passe por isso e também o auxilia a encontrar uma dose equivalente do benzodiazepínico que estava tomando. Também pode ser uma boa estratégia fazer a primeira substituição durante a noite e a transição para o benzodiazepínico de maior duração não necessariamente precisa ser completa. Por exemplo, o paciente pode ter o costume de tomar uma dose a tarde de 2mg de lorazepam, ele pode inicialmente ao invés de passar diretamente para 10mg de diazepam (a dose equivalente), tomar 8mg de diazepam e mais 1mg de lorazepam, e durante o passar de uma ou duas semanas fazer a transição completa para 10mg de diazepam até que seu organismo esteja habituado.

Um terceiro fator fundamental para o desmame bem sucedido são as doses disponíveis no mercado dos vários benzodiazepínicos. Durante a retirada você precisa de um remédio de longa duração que pode ser reduzido utilizando doses cada vez menores. O diazepam é o único benzodiazepínico que se enquadra nessa realidade já que é possível encontrar doses de 2mg, que pode ser divida ao meio e obter uma dose de 1mg. Por contraste, a menor dose disponível de lorazepam (ativan) é de 0.5mg (equivalente a 5mg de diazepam) e a de alpralozam é de 0.25mg (equivalente a 5mg de diazepam). Ainda que você quebre esses comprimidos pela metade a sua dose mínima será de aproximadamente 2.5mg de diazepam

Alguns médicos nos EUA fazem a transição para o Rivotril, acreditando que a retirada será mais fácil do que, por exemplo, retirar o alprazolam ou o lorazepam devido ao foto de ser eliminado de forma mais lenta no organismo. Contudo, o Rivotril está longe de ser o remédio ideal para realizar o desmame. É uma droga extremamente potente e é eliminado muito mais rápido do que o diazepam e as doses disponíveis nos mercados norte-americanos e canadenses são de no mínimo 0.5mg (equivalente a 10mg de diazepam) e 0.25mg no Canadá (equivalente a 5mg de diazepam). Existe uma dificuldade com essa droga de atingir uma redução branda e gradual nos níveis de benzodiazepínicos no sangue e existem evidências que a retirada do rivotril é particularmente difícil. Algumas pessoas, no entanto, aparentam ter uma dificuldade em trocar do Rivotril para o Diazepam. Nesse caso, é possível que o paciente corte seus comprimidos até atingir a dose desejada. Dosagens menores podem ser compradas em farmácias de manipulação (*adendo: não sei se no Brasil é possível fazer isso, estou traduzindo o Manual ao pé da letra sem ter conhecimento sobre esse fato na realidade brasileira).

ADENDO A REALIDADE BRASILEIRA: No mercado brasileiro não temos disponível as doses de 2mg de diazepam. O benzodiazepínico que tem maior variação entre as doses disponíveis é o clonazepam /rivotril, existindo doses de

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0.25mg (sublingual), 0.5mg, 2mg e gotas de (0.1mg). Para o propósito de realização da retirada com o rivotril é importante termos o costume de cortar as doses, as vezes em até 1/4, e irmos diminuindo daí. Isso pode ser feito com um cortador de comprimidos encontrados na farmácia ou até com as próprias mãos. O maior problema se apresenta quando alcançamos doses muito pequenas, como 0.1mg, que equivalem a 2mg de diazepam. A partir daí a melhor estratégia seria adquirir a dosagem de 0,25mg de rivotril e tentar partir na metade por um tempo e depois cortar em quatro partes para continuar a redução gradual. Qualquer dúvida em relação a dosagem sintam-se livres para mandar um e-mail para largarrivo@gmail.com. Um exemplo: se você está tomando 1mg de Rivotril e quer reduzir para 0,95mg você pode tomar 7 gotas (0,7mg) + (0,250). Com isso, é importante ter em mãos todas as doses possíveis para que você consiga reduzir de forma realmente lenta.

Criando e se comprometendo ao seu cronograma de desmame. Alguns exemplos de cronogramas de desmame pode ser encontradas nas próximas páginas. A maioria desses cronogramas foram de fato utilizado por outras pessoas que conseguiram fazer a suspensão completa da medicação. Porém, é importante lembrar que cada cronograma deve ser criado de forma individualizada, respeitando os sintomas que aparecem e escutando seu organismo. Abaixo estão alguns pontos a serem levados em conta ao criar seu cronograma de retirada.

Crie o cronograma de acordo com seus sintomas. Por exemplo, se a insônia é um grande problema pra você, comprometa-se a tomar a sua maior dose antes de ir para a cama. Se você tem ansiedade para sair de casa pela manhã, tome sua dose logo antes de sair de casa.serem levados em conta ao criar seu cronograma de retirada. Quando trocar para o diazepam, substitua

Quando trocar para o diazepam, substitua uma dose por vez, normalmente começando pela dose da tarde ou da noite, a partir daí substitua as outras doses com intervalos de dias ou até semanas. Ao menos que você esteja reduzindo de altas doses, não é necessário focar em reduzir sua dose, apenas se comprometa a achar a dose equivalente de diazepam. Uma vez que você fez a transição completa, aí sim você pode iniciar sua redução de diazepam. Se, por acaso, você estiver tomando uma dose alta, como , por exemplo, 6mg de alprazolam (o equivalente a 120mg de diazepam), você poderá realizar pequenas reduções enquanto estiver fazendo a transição, e talvez necessitará trocar apenas uma parte da dose. Isso tem como objetivo atingir uma dose de diazepam que previna sintomas de abstinência mas sem lhe causar sonolência extrema.casa pela manhã, tome sua dose logo antes de sair de casa. O diazepam é eliminado

O diazepam é eliminado de forma muito lenta e necessita no máximo de duas doses diárias para que as concentrações no sangue do remédio permaneçam estáveis. Se você está tomando benzodiazepínicos de 3 a 4 vezes por dia é aconselhável que você espace suas doses para, no máximo, duas vezes por dia após ter feito a transição para o diazepamde abstinência mas sem lhe causar sonolência extrema.

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Quanto maior sua dosagem inicial, maior a possibilidade de fazer reduções maiores em sua dose. Você pode ter como objetivo diminuir sua dose até 10% a cada redução. Por exemplo, se você está tomando o equivalente a 40mg de diazepam você pode inicialmente reduzir de 2-4mg a cada 1 ou duas semanas. Quando você estiver tomando 20mg, as reduções podem ser de 1-2mg por semana ou a cada duas semanas. Quando você tiver alcançado 10mg de diazepam, reduções de 1mg são indicadas. A partir de 5mg de diazepam, algumas pessoas se sentem mais confortáveis reduzir 0.5mg a cada duas semanas.prazo – Um guia para a retirada de benzodiazepínicos Não existe necessidade de estabelecer uma data

Não existe necessidade de estabelecer uma data limite para concluir seu processo de desmame. É uma boa ideia fazer um cronograma das primeiras semanas e caso necessário faça alterações de acordo com o seu progresso. Prepare seu médico para que ele seja flexível em relação ao seu cronograma de retirada, ainda mais quando você decide que adotará um processo mais lento ou mais rápido do que inicialmente planejado.sentem mais confortáveis reduzir 0.5mg a cada duas semanas. Se possível, tente não aumentar sua dose

Se possível, tente não aumentar sua dose uma vez que você a reduziu. É preferível que você mantenha a sua dose e tire “férias” do seu processo de retirada até que seu organismo se acostume e você possa continuar a realizar o desmame sem muito problema, porém, resista ao máximo para aumentar novamente sua dose. Você não quer perder território que você conquistou.mais lento ou mais rápido do que inicialmente planejado. Evite tomar comprimidos extras em momentos de

Evite tomar comprimidos extras em momentos de maior stress. Aprenda a ter controle sobre seus sintomas, isso lhe dará mais confiança e determinação de que você, sozinho, sem remédios, consegue gerenciar suas emoções.Você não quer perder território que você conquistou. Evite trocar sua redução de benzodiazepínico pelo aumento

Evite trocar sua redução de benzodiazepínico pelo aumento do consumo de álcool, maconha ou remédios que não precisam de receita. Ocasionalmente, seu médico poderá sugerir outras drogas para sintomas específicos, mas não tome remédios indutores de sono como o zolpidem (Ambien), zoplicone (Zimovane, Imovane) ou zaleplon (Sonata) pois estes remédios tem a mesma ação dos benzodiazepínicos e isso poderá prejudicar seu progresso com a retirada.sozinho, sem remédios, consegue gerenciar suas emoções. Tomar o último comprimido: parar de usar a últimas

Tomar o último comprimido: parar de usar a últimas miligramas do remédio normalmente é visto como algo particularmente difícil. Isso se deve, principalmente, pelo medo de como você irá viver sua vida sem a ajuda do benzodiazepínico. Na verdade, o estágio final de desmame é surpreendentemente fácil. Quem já passou pela experiência diz que a sensação de liberdade do benzodiazepínico é extremamente recompensadora. De qualquer maneira, a 1mg ou 0,5mg de diazepam que você está tomando já não surte mais efeitos terapêuticos, apenas está mantendo a sua dependência fisiológica a droga. Não tente, no final do processo, a adotar uma retirada ridiculamente lenta tomando, pore isso poderá prejudicar seu progresso com a retirada.

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exemplo, 0,25mg de diazepam. Pare de tomar uma vez que você chegar a 0,5mg de diazepam (equivalente a 0,025 de rivotril). A recuperação completa do organismo não começa até que você pare de tomar benzodiazepínicos. Algumas pessoas, quando chegam no final da sua retirada, gostam de andar com alguns compridos na bolsa “caso seja necessário”, mas raramente utilizam esses compridos.

Não fique obcecado com o seu cronograma de retirada da medicação. Apenas deixe que isso seja outro ponto da sua vida cotidiana. Sim, você está fazendo a retirada do benzodiazepínico; como muitos outros. Não é nada demaisseja necessário”, mas raramente utilizam esses compridos. Se por algum motivo você não conseguir suspender a

Se por algum motivo você não conseguir suspender a utilização do benzodiazepínico, não se desanime, você sempre pode tentar novamente no futuro. A média de tentativas das pessoas que tentam parar de fumar tabaco é de 7 a 8 tentativas até que finalmente conseguem alcançar seu objetivo. A boa notícia é que a maioria dos usuários de longo prazo de benzodiazepínicos, munidos de informação sobre como fazer o desmame lento, consegue suspender a medicação na primeira tentativa. Uma retirada lenta, gradual e constante, com você no comando do seu cronograma , é quase sempre bem sucedido. com você no comando do seu cronograma, é quase sempre bem sucedido.

O desmame em idosos. Pessoas idosas conseguem fazer a retirada de benzodiazepínicos de forma bem sucedida tanto como jovens, mesmo que eles tenham usado a medicação por mais anos. Um estudo realizado com 273 pacientes idosos, atendidos por clínicos gerais, que utilizavam benzodiazepínicos no longo prazo (aproximadamente 15 anos) e que optaram por conta própria iniciar uma redução gradual ou uma suspensão total da medicação resultou em melhoras na qualidade do sono, melhoras na saúde física e mental e menos visitas aos médicos. Resultados parecidos foram documentados em outros países com pacientes idosos que utilizavam benzodiazepínicos no longo prazo.

Existem motivos especiais que fazem com que retirada de benzodiazepínicos em idosos seja particularmente indicado, já que, quanto mais a idade avança mais essas pessoas estão propensas a sofrer acidentes como quedas, fraturas, confusão mental, problemas de memória e problemas psiquiátricos.

Os métodos sugeridos para a retirada de benzodiazepínicos de idosos são os mesmos para pessoas jovens. Uma retirada lenta e gradual, na minha experiência, é facilmente tolerada, mesmo por pessoas de 80 anos que utilizaram benzodiazepínicos por 20 anos ou mais. O processo pode demandar que se utilize a solução em gotas, caso seja possível, de maneiro que a redução seja ainda mais lente do que com as dosagens em comprimidos.

Antidepressivos. Muitas pessoas que tomam benzodiazepínicos por longos períodos de tempo acabam sendo receitados antidepressivos, por desenvolverem depressão tanto durante o uso diário da medicação como

01/12/2018

Como suspender o uso de benzodiazepínicos após o uso de longo prazo – Um guia para a retirada de benzodiazepínicos

durante o processo de retirada. Antidepressivos também devem ser retirados de forma gradual e lenta devido a possibilidade do surgimento de sintomas de abstinência (eufemisticamente chamado pelos psiquiatras de síndrome de descontinuação). Se você já está tomando um antidepressivo e um benzodiazepínico é aconselhável que você comece primeiramente o processo de desmame do benzodiazepínico

O documento apresentado nessa pagina é de grande utilidade para pessoas que desejam administrar seu próprio processo de retirada de um benzodiazepínico e para médicos que tem interesse em ganhar maior entendimento sobre o processo de retirada de benzodiazepínicos de forma a melhor ajudar seus pacientes. Na minha clínica eu tinha o costume de planejar um cronograma de retirada junto com o paciente e debater se aquele era um caminho confortável para o mesmo. A maioria dos pacientes participa de forma ativa na construção do seu cronograma e realizem alterações e ajustes de tempos em tempos. Porém, também existem aqueles pacientes que não tinham muito interesse nos detalhes e apenas seguiam a risca o cronograma de retirada que lhes era apresentado. Ambos os perfis de pacientes alcançaram o sucesso em sua retirada. Existiam também aqueles que não queriam ter nenhum tipo de envolvimento na construção do processo de retirada e apenas queriam receber a medicação. Para esse grupo (com seu consentimento) comprimidos placebo foram gradualmente sendo substituídos pelos benzodiazepínicos. Esse método também obteve sucesso e no final do processo de retirada os pacientes desse grupo estavam incrédulos e maravilhados de saber que nas últimas 4 semanas não haviam consumido nenhum tipo de benzodiazepínico.

Esse artigo é uma tradução do capítulo 2 do Ashton Manual da Professora de Psicofarmacologia da Universidade de New Castel, Heather Ashton e pode ser encontrado aqui na língua inglesa