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REFLEXÕES SOBRE UMA ESTÉTICA DESCOLONIAL

Levy Mota

“Descolonizar a estética para liberar a aisthesis”: esta seria, para Walter


Mignolo1, a necessária e urgente tarefa de uma estética que se proponha descolonial.
Os filósofos da europa setecentista fundam a estética enquanto teoria do belo e do
sublime através da apropriação (poderíamos dizer, do sequestro) da aisthesis – para os
gregos clássicos, a sensibilidade, compreendendo os sentidos, o sistema sensorial, e
mais, à capacidade de compreender ou conhecer o mundo pelos sentidos corporais.
Mignolo observa, no entanto, que mesmo na Poética de Aristóteles não encontramos o
termo aisthesis, e sim mimesis, poiesis e katharsis. Poderíamos comparar,
alegoricamente, o gesto da captura epistemológica da aisthesis pelos filósofos do século
XVIII com a expropriação territorial e a captura e extermínio de povos originários nas
Américas e na África pela empresa colonial europeia, dois séculos antes: movimentos
de simultânea criação e eliminação/apagamento de alteridades (outras formas de sentir
e de pensar, outras existências). A estética, moldada à imagem e semelhança de seus
criadores, desqualifica as formas de sentir e perceber da maior parte do planeta.
Edmund Burke, em “Investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias do
sublime e da beleza”2, categoriza as sensações e percepções humanas – o tato, o gosto,
os odores, os sons, as cores, etc – entre o belo e o sublime. Por vezes os conceitos se
cruzam ou algo belo pode transformar-se em sublime, assim como o contrário, mas de
modo geral Burke separa de forma contrastante o que se inscreve em cada esfera. As
cores claras, as formas sinuosas, as coisas pequenas, leves, delicadas, as superfícies lisas,
polidas, estariam na esfera da beleza. Já as cores escuras e opacas, os objetos e corpos
grandes, pesados, ásperos, caberiam à esfera do sublime, assim como o terror, a dor e
o poder. A estética de Burke se constrói nitidamente a partir de uma perspectiva branca,
de uma sociedade polida, de parâmetros coloniais.
Mesmo com as críticas à estética moderna levantadas pelo pós-modernismo, e
em seguida pelo altermodernismo, a teoria se mantém involucrada pelo manto do
colonialismo e, assim, permanecem recalcadas as formas de sensibilidade não-
ocidentais e não-europeias. A opção descolonial surge como crítica do modernismo que
nomeia e faz aparecer os “outros” do Mundo, expondo a sua ferida: o colonialismo
marcou profundamente os corpos colonizados através da racialização, da
desumanização, da subalternização. A ferida colonial não sara com o fim da colonização
e a independência dos povos, ela se torna uma herança. É esta herança que a crítica
descolonial expõe e escancara, na tentativa de expor as diferenças geopolíticas e
corpopolíticas e, assim, reduzir as distâncias entre mundos. Assim, quando Mignolo nos
convoca a “descolonizar a estética”, a tentativa é a de possibilitar outras emergências
sensíveis, para além do cerceamento do belo e do sublime estabelecido pela estética
euro-centrada. No campo das práticas artísticas, uma estética descolonial deve romper
com as limitações e imposições da estética imperialista e possibilitar a libertação dos
sentidos. A aisthesis livre da estética.
A descolonização da estética é um movimento muito mais político do que
artístico – embora no contexto contemporâneo esta separação não tenha tanto sentido
– na medida em que seu objetivo maior é possibilitar “um mundo transmoderno e
pluriversal”3. Importante ressaltar que a dimensão política na obra de arte e no
pensamento artístico descolonial não diminui a sua relevância artística. Na verdade, é
urgente perceber que outras manifestações, outras formas de arte, outras estéticas
existem e têm sido produzidas, no entanto seu status tem sido continuamente
rebaixado e sua legitimidade contestada. Inúmeras obras que não se enquadram nas
categorias da “estética universal” têm sido marcadas com o estigma das políticas
identitárias e, assim, rebaixadas em sua qualidade artística. É preciso dar-se conta de
que nosso olhar, nossa escuta, nossa abertura para a experiência estética tem sido
orientada durante séculos pelos os mesmos padrões.
A descolonialidade revelou a ferida colonial e expôs as cercas invisíveis que
restringem as formas de pensar, de sentir e de existir. Não é mais possível deixar de
perceber as marcas do colonialismo nas práticas, nas obras de arte, nas relações, nas
mais diversas formas de expressão. Uma estética descolonial se faz urgente para todos
– sejam artistas, curadores, programadores, editores – que não mais aceitem dar
continuidade e contribuir para as políticas de apagamento, silenciamento, segregação,
universalização de existências na herança colonial.
1MIGNOLO, Walter. Palestra no evento acadêmico Sentir-Pensar-Hacer realizado na
Faculdade de Artes ASAB. Bogotá: Universidade Distrital Francisco José de Caldas,
2010. Disponível no YouTube (acesso em 25/11/2018):
Parte 1: https://www.youtube.com/watch?v=ifc8fgMDjzo
Parte 2: https://www.youtube.com/watch?v=2Leh6iWBNVM

2BURKE, Edmund. Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias do


sublime e do belo. Campinas: Editora Papirus, 1993.

3 Transnational Decolonial Institute. Decolonial Aesthetics. Disponível em português


em http://www.contramare.net/site/pt/decolonial-aesthetics/ e no original (inglês)
em https://transnationaldecolonialinstitute.wordpress.com/decolonial-aesthetics/
(acesso em 25/11/2018)