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Costa, Samira Lima; Silva, Carlos Roberto Castro. Afeto, memória, luta, participação e sentidos
de comunidade

Afeto, memória, luta, participação e sentidos de comunidade

Affection, memory, community struggles, social participation and


community senses

Afecto, memoria, lucha, participación y sentidos de comunidad

Samira Lima da Costa1


Carlos Roberto Castro e Silva2

Resumo

O texto tem como objetivo central promover uma discussão acerca da produção dos sentidos de
comunidade a partir dos afetos, da memória coletiva e da luta comunitária, considerando diferentes
formas de participação social e seus elementos potencializadores. Utiliza de forma ilustrativa para a
discussão duas experiências distintas (um grupo de integrantes de uma OnG e um grupo de pescadores
artesanais). A reflexão se conduz em torno das potências comunitárias geradas, evidenciadas e
fortalecidas pelos processos grupais de produção de sentidos de comunidade. As experiências de afetos,
das memórias individuais e coletivas, das lutas, das intrigas e desavenças, das coesões e das coerções, da
cotidianidade e da participação social apoiam a produção de movimentos coletivos – não sem embates e
enfrentamentos internos. A perspectiva da comunidade é compreendida a partir da inevitável correlação
de forças que atuam em um coletivo, produzindo tensões, negociações, convergências e divergências,
aglutinações duradouras e temporárias. Os sentidos de comunidade, portanto, se compõem a partir da
permeabilidade e fluidez do grupo, por um lado, e da coesão e força, por outro, favorecendo a
identificação de problemas em comum e a luta coletiva por soluções.

Palavras-chave: Sentidos de Comunidade; Afeto; Luta; Memória; Participação Social.

Abstract
The text has as its main objective to promote a discussion on the production of the notions of community
based on the affections, on the collective memory, and on the community struggle, considering different
forms of social participation and its potentiating elements. It uses, as illustration for the discussion, two
different experiences (one group of members of an NGO and a group of artisanal fishers). The reflection
is conducted around the community potencies generated, evidenced, and strengthened by the group
processes of production of notions of community. The experiences of affections, the individual and
collective memories, the struggles, the intrigues and disagreements, the cohesions and coercions, the daily
lives and the social participation support the production of collective movements – not without internal
conflicts and confrontations. The perspective of the community is understood from the inevitable relation
of strengths which act in a collectivity, producing tensions, negotiations, convergences, and divergences,

1
Professora Adjunta do Departamento de Terapia Ocupacional. Professora permanente do Programa de
Pós-Graduação em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social do Instituto de Psicologia da
UFRJ. Doutora em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social (UFRJ, 2008). Mestre em
Metodologia de ensino (UFSCar, 2002); Especialista em Saúde Coletiva (UFSCar, 1996). E-
mail:biasam@uol.com.br
2
Professor adjunto da Universidade Federal de São Paulo, Baixada Santista (UNIFESP). Pós-Doutor em
Ciências Sociais pela Universityof Western Ontario, Canadá (2006). Doutor em Psicologia Social
(USP, 2004). Mestre em Psicologia Social (PUC-São Paulo, 1998). Especialista em Saúde Coletiva
(USP). E-mail:carobert3@hotmail.com

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lasting and temporary aggregations. The notions of community, therefore, are made up of the permeability
and fluidity of the group, on one side, and of the cohesion and strength, on the other side, favoring the
identification of common problems and the collective struggle for solutions.

Key-words: Notions of Community; Affection; Struggle; Memory; Social Participation.

Resumen
El texto está dirigido principalmente a promover una discusión acerca de la producción de los sentidos de
comunidad desde los afectos, de la memoria colectiva y de las luchas comunitarias, teniendo en cuenta las
diferentes formas de participación social y sus elementos reforzadores. Utiliza como ejemplo para
discusión dos experiencias distintas (un grupo de miembros de una ONG y un grupo de pescadores
artesanales). La reflexión se lleva a cabo en torno de la potencia comunitaria, generada, destacada y
reforzada por los procesos grupales de producción y sentido de comunidad. Las experiencias de afecto, de
memorias individuales y colectivas, luchas, intrigas y desavenencias, las cohesiones, la coerción de la
vida cotidiana y la participación social apoyan la producción de movimientos colectivos - no sin
conflictos internos y enfrentamientos. La perspectiva de la comunidad es entendida a partir de la
correlación inevitable de fuerzas que actúan sobre un colectivo, que producen tensiones, negociaciones,
acuerdos y desacuerdos, agregaciones, perdurables y temporables. Los sentidos de comunidad, por lo
tanto se componen a partir de la permeabilidad y la fluidez del grupo, por un lado, y de la cohesión y la
fuerza, por otro, favoreciendo la identificación de problemas comunes y la lucha colectiva por soluciones.

Palabras clave: Sentidos de Comunidad; Afecto; Lucha; Memoria; Participación Social.

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Apresentação impõe – com a quebra das fronteiras – a


destruição de hábitos e costumes
Em um momento histórico nacionais, promove a valorização de
marcado pelo avanço da globalização culturas locais e seus valores (Santos,
econômica e da comunicação – e suas 2000). Nos interstícios da sociedade os
consequências imediatas: o incremento microespaços comunitários — virtuais
de redes sociais virtuais e da ou não — tornam-se refúgios
valorização de ações filantrópicas –, as propiciadores da constituição de
pessoas vivem a sensação de estar em identidades sociais mais fortes,
contato permanente com todo o mundo. produzindo formas de interação entre as
Somos capturados diariamente pelo pessoas que facilitam a construção, no
ritmo frenético de informações espaço público, de alternativas mais
midiáticas, que nos convoca a solidárias e tolerantes de convivência
compartilhar eventos e experiências, a social (De Castro-Silva, 2013).
reconhecer e seguir celebridades, que No presente estudo, propomos
desaparecem com a mesma velocidade discutir as potências existentes em
que surgiram. determinados movimentos
Essa mesma velocidade e comunitários, formais ou não, em torno
volatilidade dos fenômenos que de questões e situações coletivas,
emergem e submergem na mídia nos produzindo, fortalecendo e dando
salvam de um mergulho mais intenso e visibilidade às formas alternativas de
profundo no significado da notícia, convivência comunitária e de
protegendo-nos de uma implicação participação social (Sawaia, 1996;
emocional e ética referentes a tais Maciel & Costa, 2009; Montero, 2003).
fenômenos. Assim, pouco ou nada Essa discussão pretende destacar
tocados pelos fenômenos que nos a dimensão dos afetos e da memória
rodeiam, vamos ficando impermeáveis, coletiva no processo de construção de
talvez pouco sensíveis, e voltamos para novas formas de sociabilidade política,
nossa rotina tão mais superficial quanto mais especificamente de convivências
mais veloz, já sedentos de “outras democráticas (Stewart, 1995; Sawaia,
novidades”, novas sensações que nos 2002, Montero, 2007, Gohn, 2010).
mantenham conectados a esse frenesi
coletivo. A categoria e os sentidos de
Apesar dessa breve caricatura de comunidade
um cotidiano comum a todos nós,
podemos verificar que existem ainda A comunidade como categoria
vias de afetação, caminhos que vêm de análise vem sendo revisitada,
sendo trilhados por grupos que se passando por novas leituras ditadas
negam a manter-se na superficialidade pelas transformações do mundo
de certos fenômenos, se implicando (Bauman, 2003). Com a globalização e
com eles e/ou sendo por eles com a aceleração das comunicações,
atravessados. Quais seriam os caminhos diminuindo ou relativizando distâncias,
pelos quais se tem construído vínculos é preciso rever o conceito de
sociais comprometidos e produtores de comunidade, entendendo-o como
transformações sociais? inerentemente paradoxal, uma vez que
A globalização, em franca se trata, ao mesmo tempo, de categoria
expansão na contemporaneidade, ao de integração e de autonomia, de
mesmo tempo em que pasteuriza e diferenciação e de identificação. A
comunidade é um conceito que está

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presente de forma intermitente na No se puedehablar de elenabstracto,


história e acompanha o conflito entre o sino a partir de La experiencia de
coletivo e o individual, nos estudos comunidad” (Montero, 2007, p. 218). É
sobre o vínculo entre as pessoas e suas especificamente nessa perspectiva que
consequências (Costa, 2008; De Castro- Costa e Maciel (2009) avançam na
Silva, 2012). discussão, referindo-se não “ao sentido
Na história da relação entre de comunidade”, mas “aos sentidos da
individualidade e comunidade, segundo comunidade”.
Sawaia (1996), o movimento O conceito de comunidade
individualista surgiu para fazer frente à precisa transbordar as concepções que a
ordem feudal injusta, que levava para a restringem a um coletivo difuso e
sociedade iluminista resquícios de harmônico (Costa & Maciel, 2009;
dominação e exploração pautados na Sawaia, 2006; D’ávila Neto, 2002;
lógica da interdependência básica do Moreira & Castro-Silva, 2013), devendo
período medieval. Esse movimento compreender os grupos de forma
individualista e anticomunitário ganhou complexa, comportando dilemas e
força com as revoluções francesa e paradoxos. Assim, ao mesmo tempo em
industrial. Para aqueles que defendiam o que se trata de um coletivo é preciso
racionalismo econômico, a ideia de que comporte também a
comunidade era um inimigo do individualidade, o que afasta a ideia de
progresso tão desejado, pois indicava um conjunto que só existe enquanto
intenções de retrocesso à ordem feudal. unidade consensual. Se por um lado
Ferdinand Tönnies (1957) podemos afirmar que “comunidade”
apresentou os retratos ideais-típicos das significa uma rede de relações
formas de associação social, a partir de estabelecidas com algum propósito
contrastes entre a natureza solidarística comum, por outro, precisamos
de relações sociais na Comunidade e as compreender que há certa fluidez dos
relações em grande escala e impessoais vínculos, ligada a alguns elementos que
nas Sociedades industrializadas. aglutinam de forma dinâmica a vida de
Introduziu assim o dualismo seus membros (Costa, 1998). É preciso,
“sociedade/comunidade” no discurso pois, entender quais elementos e
científico contemporâneo. fenômenos mobilizam os integrantes de
McMillan y Chavis (1986) e uma comunidade, convocando-os à
Montero (2007) apontam para a participação social. É preciso atentar
existência de um sentido de para a complexidade da temática da
comunidade, que seria o sentimento de participação social, pois no contexto
pertença e de importância mútua capitalista em que vivemos a
existente entre os membros de uma participação parece algo extrínseco à
comunidade, produzido nas relações vida das pessoas, como um “mal
cotidianas, entre convergências, necessário” ou um instrumento de
divergências e conflitos. Esses autores legitimação protocolar, reforçando
identificam como característica dos ações individualistas regidas pela lógica
sentidos de comunidade a crença do lucro.
compartilhada pelo grupo de que suas Aqui, longe de acolher o tema da
necessidades serão satisfeitas a partir do participação social apenas como a
compromisso de estar juntos. O sentido organização civil para o controle social
de comunidade, para esses autores, “és (previsto e, de certa forma, impelido
función de una comunidad especifica. pelas políticas públicas), propõe-se

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compreendê-la como toda possibilidade instituições dominantes; 3. Identidade


de atuar socialmente, criada, de projeto: por meio de atores sociais
conquistada, negociada e inventada no que propõem novas posturas e valores
coletivo; a participação social seria, que alteram a estrutura social, gerando
portanto, o próprio exercício da consequências nas estruturas de
convivência e da vida coletiva. E é na produção, reprodução socioeconômica,
diversidade de movimentos de inclusive, quanto aos padrões
participação produzidos e sustentados historicamente estabelecidos.
no interior das comunidades que se Para ilustrar a discussão da
manifestam suas potências criativas de temática proposta, apresentaremos
inventar a vida, orquestrando tensões e brevemente dois grupos estudados: um
concessões, negociações, cooptações e de pescadores artesanais e um de
embates. membros de uma OnG.
Os pescadores artesanais foram
Os movimentos comunitários acompanhados numa pesquisa
desenvolvida ao longo de seis anos.
Segundo Castells (1999), Segundo Costa (2008), esses pescadores
vivemos numa sociedade marcada pelo viviam a cultura caiçara havia gerações
avanço tecnológico, expressando um e, devido ao crescimento urbano que se
capitalismo que, ao mesmo tempo em impôs ao seu redor, se viram diante da
que inova e traz esperanças, também necessidade de transformar essa cultura
traz desespero. Em contrapartida, o em uma causa coletiva a ser defendida,
autor percebe movimentos de atores num movimento com certa intenção
sociais que buscam a valorização das conservadora, assemelhando-se à
culturas locais e do controle das pessoas identidade legitimadora, proposta por
sobre suas próprias vidas e ambientes. Castells (1999), que tem como marca a
“Incorporam movimentos de tendência permanência social das coisas, na forma
ativa, voltados à transformação das como que já existem.
relações humanas em seu nível mais O outro grupo é composto por
básico” (p. 18). Na tensão entre essas integrantes de uma OnG/Aids,
tendências forja-se a construção social acompanhados em pesquisa durante
de novas identidades. cinco anos. Segundo De Castro-Silva
A partir de estudos sobre (De Castro-Silva & Cavichioli, 2013),
organizações de base comunitária, De essas pessoas se uniram em torno de
Castro-Silva (2004) investe esforços em uma causa em comum (a Aids e suas
aprofundar essa questão, segundo as consequências), construindo em torno
identidades comunitárias propostas por dela uma cultura, num movimento
Castells (1999): 1. Identidade coletivo semelhante à identidade de
legitimadora: por meio das instituições projeto, de Castells (1999), que tem
dominantes, reforça os padrões de como marca a intenção de
sociabilidade e valores éticos/políticos transformação social.
vigentes na sociedade; 2. Identidade de Tanto no grupo que transformou
resistência: por meio de atores sociais sua cultura em uma causa a ser
em posições desvalorizadas/condições defendida quanto naquele que
desfavoráveis e/ou estigmatizadas, transformou sua causa em uma cultura a
criam uma resistência e formas de ser difundida, houve momentos em que
vivência e valores éticos/políticos a identidade não se constituiu nem
antagônicos àquilo proposto pelas como legitimadora nem como de

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projeto. Esses coletivos viveram A memória coletiva, nesse caso, se


momentos nos quais sua organização constituiria a partir da necessária
assumiu a identidade de resistência, diversidade que caracteriza o grupo
conforme proposição de Castells (Costa &Maciel, 2009). Os afetos
(1999), que tem como marca certo aglutinadores e as memórias coletivas
sentido bélico, com tendências à de uma comunidade se organizam em
homogeneização interna do grupo. A torno do que existe em comum na
apresentação dessas comunidades ao heterogeneidade.
longo do texto tem por propósito ilustrar A OnG estudada reúne entre
a discussão que pretendemos realizar. seus integrantes tanto portadores do
vírus HIV quanto familiares e
Afetos, memórias e solidariedade: simpatizantes do movimento de uma
perspectivas em análise forma geral. É principalmente a
identificação da discriminação, falta de
Os afetos que mobilizam um apoio e de solidariedade, que leva à
grupo se definem pelas forças de coesão procura ou ao encaminhamento para
e difusão, que aglutinam tensionam e uma OnG. Essa iniciativa de procurar
reorganizam coletivos. A partir de uma ONG singulariza essas pessoas em
situações, fenômenos e eventos que relação a todas as outras que não
produzem diferentes sentidos de procuram esse tipo de instituição. A
integração entre seus membros, uma vinculação à OnG se apoia na percepção
comunidade produz ora mais ora menos de que aquele pode ser um espaço para
afetos aglutinadores, apoiados tanto em troca de experiências que ajudem a
sentimentos de pertença e cumplicidade, superar todas as vicissitudes suscitadas
construindo experiências de pela convivência com o HIV/Aids
solidariedade, quanto em sentimentos (Castro-Silva &Cavichioli, 2013).
de divergência, tensionando e buscando, Segundo De Castro-Silva, (2009) a
de forma mais ou menos bélica, campos maneira de os integrantes lidarem ou
possíveis de negociação. Os integrantes compreenderem a discriminação e o
de uma comunidade trazem para esse estigma passa pela reelaboração de
coletivo suas memórias pessoais e valores éticos e políticos. Os integrantes
familiares, e constroem com outros da OnG, portadores ou não do vírus
integrantes as memórias coletivas, que HIV, expressam uma solidariedade
segundo Halbwachs (2006, p. 51) é a baseada na possibilidade de uma
memória de um grupo, “[...] na qual se identificação entre eles, aliando essa
destacam as lembranças dos eventos e luta a outras já existentes, como os
das experiências que dizem respeito à movimentos contra opressões de
maioria de seus membros e que gênero, de orientação sexual ou de
resultam de sua própria vida ou de suas classe social, pois percebem dimensões
relações com os grupos próximos, os de suas vidas que os tornam também
que estiveram mais frequentemente em vulneráveis. Nessa perspectiva,
contato com ele”. apresentam a vulnerabilidade como
A memória coletiva é sempre elemento irrestrito, ao qual toda a
um projeto inclusivo.Em sua humanidade está exposta. Por esse
construção, cabem diferentes narrativas motivo, entende-se essa luta como
e interpretações, familiaridades e ferramenta de solidariedade, pois não se
estranhamentos, congruências e cuida só de si mesmo, mas de todos,
distensões, agonismos e antagonismos. inclusive daqueles que não têm o vírus

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da Aids. Pode-se compreender a tanto internamente quanto no diálogo


solidariedade como potência coletiva com o “outro”, o “não caiçara”. Há no
para a transformação social, que apoiará processo certo investimento
e ajudará a suportar os desgastes conservador/legitimador, que vai em
provocados pela luta. busca de garantir os padrões de
É nesse sentido que há uma sociabilidade e valores ético-políticos
identidade comunitária de resistência, vigentes naquela comunidade, antes das
em princípio (contra o vírus, contra o mudanças indesejadas (Castells, 1999).
estigma, contra a morte, contra a Entretanto, esse grupo não
solidão), que se transforma em assume por muito tempo a identidade
identidade de projeto, ao passar a ser legitimadora, pois deixa de ser
propositva e vislumbrar transformações dominante, mesmo que em sua própria
sociais (Castells, 1999). localidade, passando a assumir a
Da mesma forma que entre os identidade de resistência (também de
integrantes da OnG, os pescadores acordo com Castells, 1999). Como
artesanais apresentaram a solidariedade lembra Halbwachs (2006), o próprio
como elemento próprio à vida em desejo de conservar requer certa
comum; a solidariedade não seria vista resistência.
como categoria oposta às divergências
comunitárias, mas colocada no mesmo Para se manifestar, essa resistência
deve emanar de um grupo. Sim, é
patamar, como composição de forças inevitável que as transformações de
inerentes à convivência. Nesse caso, uma cidade e a simples demolição de
entretanto, não foi a luta que os uma casa incomodem, perturbem e
aproximou, mas, ao contrário, desconcertem alguns indivíduos em
aproximaram-se pelo cotidiano vivido seus hábitos. […] Esses pesares ou
essas inquietações individuais não têm
juntos, em torno da cultura caiçara – as consequências porque não tocam a
festas, o trabalho, as cerimônias, o coletividade. Ao contrário, um grupo
cotidiano, as desavenças – e, em não se contenta em manifestar o que
determinado momento de suas vidas, sofre, em se indignar e protestar na
viram-se impelidos a transformar essa hora. Ele resiste com toda a força de
suas tradições e essa resistência tem
cultura em uma causa. Aqui, mais uma suas consequências (Halbwachs, 2006,
vez a solidariedade se apresenta como p. 164-165).
potência da comunidade.
Também entre os pescadores a Nesse caso, a constatação da
memória ganha destaque no processo de existência de um Outro que se aproxima
luta comunitária. Porém, nesse caso, são e ameaça o que já havia ali traz para
as memórias coletivas e não as pessoais essa luta legitimadora aspectos de uma
que ganham centralidade, atuando como identidade de resistência. A esse
amálgama do grupo e dando sentido à respeito, Costa e Carvalho (2012)
sua nova causa, ao destacar o desejo de sugerem o conceito de “território do
preservar a região da mesma forma que saber local”, em contraposição (e muitas
era “antigamente”. As divergências vezes em movimentos de resistência) às
internas se mantêm ao longo das lutas imposições de saberes e culturas
que se vão firmando, e contribuem para externos à comunidade. É preciso
ir evidenciando as forças e os ressaltar, entretanto, que a constituição
movimentos existentes no grupo, a de um Nós que resiste não significa nem
partir dos quais se podem estabelecer implica em homogeneidade de ações e
guerrilhas, negociações e concessões, intenções coletivas. A construção dos

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sentidos de comunidade se estabelece do contexto e de uma trajetória de vida


em correlação de forças, num processo marcada por adversidades. A qualidade
dinâmico, fluido e complexo. Diferentes da participação social, de fato, está
combinações e ajustes ocorrem a todo associada à possibilidade de formação
tempo e em diferentes direções. Dessa de vínculos que valorizem as
forma, pode-se dizer que as barreiras – experiências. É um instrumento que
físicas, existenciais e virtuais – se almeja formas afirmativas de superação
constituem como um elemento dos efeitos da violação de direitos
componente do processo coletivo de sociais. Entretanto, esvazia-se de
produção de sentidos de comunidade, sentido quanto mais se constitui em
mas não são necessariamente seu marco projeto protocolar; por outro lado,
ou seu limite. cresce em potência tanto mais se molda
Nas memórias dos pescadores aos diferentes relevos e contornos,
artesanais, as dificuldades valorizando os modos e os momentos
compartilhadas emergem ora de forma das comunidades em que se produz (De
dourada (na figura nostálgica da Castro-Silva, 2009,2013).
evocação dos “bons tempos...!”), ora de As dificuldades inerentes aos
maneira tensa e ressentida, como se movimentos de aglutinação e luta a
algo se tivesse perdido e toda a partir da experiência da dor ajudam a
responsabilidade fosse de um “outro” compreender os dilemas vividos pelos
inominável – talvez materializado na integrantes dessas comunidades, na
figura personificada do tempo. Tais construção de uma convivência bélica e
movimentos parecem dar hoje àqueles solidária, tensa e acolhedora,
moradores coesão e cumplicidade nos convergente e divergente. Identifica-se
processos de aglutinação em torno da que a OnG se oferece como espaço de
resistência. Tanto as tensões internas acolhida para, em seguida, se
quanto as construções bélicas de caracterizar como agente aglutinador,
encontros com este “outro” parecem tendo a mobilização de afetos, a escuta
fortalecer, nesse grupo, certos sentidos das memórias e a produção de certos
de comunidade. sentidos de comunidade como
Nesse contexto, a solidariedade ferramentas para a participação social
se destaca como potência de vida do nas lutas em torno da Aids. Assim, a
grupo, caracterizando-se como apoio participação social é como uma das
mútuo e cumplicidade, e tem seu finalidades da OnG.
sentido enlaçado pelos sentidos de Já a comunidade de pescadores
familiaridade, vizinhança e goza de laços relacionais fortes,
apadrinhamento. Não há um intuito anteriores aos fatos que levam à busca
claro de provocar participação ou de de legitimação de certos sentidos de
conquistar reivindicações. Ela é inerente comunidade. Dessa forma, ao surgirem
à convivência, assim como os conflitos. os “outros” a organização emerge, mas
apenas como recurso momentâneo, não
A participação social em construção sendo maior nem mais poderoso do que
os laços que já existiam. A participação
A delimitação do campo de ação social pelas vias oficiais (instituídas
em torno de uma causa nos convoca a como controle social) pode ser uma das
rever certas propensões e exigências de possibilidades de organização em
um tipo de participação que seja voltado comunidade, mas está longe de ser a
apenas para o bem comum, descolado mais relevante. A participação social,

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neste caso, se caracteriza mais pela senso.


construção cotidiana das relações Considerando os dois grupos
comunitárias, que passam a incorporar apresentados, verificamos que a
em sua pauta a luta em questão. mobilização de afetos – por meio da
memória coletiva e da luta – parece ter
Considerações finais: sobre afetos, atuado como elemento aglutinador dos
memória e participação social grupos, favorecendo a produção de
sentidos de comunidade e a busca
A apreensão da dimensão afetiva comum por soluções, não sem embates
nos serve de fio condutor na e enfrentamentos internos. Em outras
compreensão da trajetória dessas palavras, os sentidos de comunidade são
comunidades no enfrentamento de mobilizados no e pelo coletivo,
problemas coletivos: o diagnóstico de impulsionando a participação social em
Aids para os integrantes da OnG; a torno da construção de identidades que
transformação compulsória do lugar se transformam conforme os diferentes
onde vivem, para os pescadores contextos sócio-históricos.
artesanais. No processo de identificação
pela resistência, esses grupos passam Referências
por uma trajetória de reconhecimento e
produção de sentidos de comunidade Bauman, Z. (2003). Comunidade: a
pela convivência e pela identificação, busca por segurança no mundo atual.
mas também pela dor e pela indignação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 144p.
No encontro com as Câmara, C. & de Lima R. (2000).
comunidades aqui apresentadas, Histórico das ONGs/AIDS e sua
identifica-se que a noção de contribuição no campo das lutas sociais.
comunidade é um aspecto da relação Cadernos ABONG, São Paulo, 28, 29-
que permeia as narrativas e as 74.
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do próprio movimento. Não fosse a Paiva; Gabriela Calazans; Aluísio
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escuta de memórias e produção de direitos humanos: Prevenção e
pertencimento, não fosse a tolerância e promoção da saúde. Curitiba: Juruá, p.
a solidariedade, tais movimentos 101-122.
ganhariam menos, ou perderiam mais, Costa, I. T. M., Meihy, J. C. S. B.,
em seus campos reivindicatórios. É Siqueira, S. A., Almeida, R. S. &
preciso, assim, ampliar a perspectiva da Universidade do Rio de Janeiro. (1998).
participação para compreendermos Fragmentos discursivos de bairros do
outros modos de constituição dos Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Brasil:
movimentos também como Mestrado Memória Social e
participativos, rejeitando as margens Documento, UNI-RIO.
conceituais do controle social strictu

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Recebido em: 21/08/2014


Aprovado em: 18/09/2015

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