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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DESEMBARGADOR FULANO DE TAL

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO RIO GRANDE DO SUL


DD RELATOR DO AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº. 000000/RS
00ª CÂMARA CÍVEL

EMPRESA XISTA LTDA (“Agravante”), já


devidamente qualificada nos autos deste recurso de Agravo de Instrumento, vem,
com o devido respeito à presença de Vossa Excelência, intermediado por seu
patrono que abaixo firma, para, na quinzena legal (CPC, art. 1.003, caput c/c §
5º), interpor o presente

AGRAVO INTERNO,
contra a decisão monocrática que dormita às fls. 83/85, a qual negou a atribuição
de efeito suspensivo ao recurso em espécie, cujos fundamentos se encontram nas
Razões ora acostadas.

Respeitosamente, pede deferimento.

Cidade, 00 de fevereiro de 0000.

Beltrano de Tal
Advogado – OAB/RS 0000
RAZÕES DO AGRAVO INTERNO

AGRAVANTE: EMPRESA XISTA LTDA


AGRAVADO: BANCO ZETA S/A
Ref.: Apelação Cível nº 0000/RS

EGRÉGIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO RIO GRANDE DO SUL

PRECLARO RELATOR

1 - DA DECISÃO RECORRIDA

A querela em ensejo diz respeito à propositura de Ação de


Embargos à Execução, cujo âmago visa à análise de cláusulas contratuais insertas
em pacto de Cédula de Crédito Bancário.

Nos referidos Embargos o Agravante, demonstrando os


requisitos processuais do periculum in mora e fumus boni iuris, pleiteou-se ao juízo
monocrático efeito suspensivo àquela, o que fora indeferido pelo mesmo.

Diante de tal situação processual, o Recorrente interpôs


o recurso de Agravo de Instrumento, pedindo, com suporte no art. 1.019, inc. II, do
Código de Processo Civil, a suspensão do ato impugnado.

Malgrado devidamente demonstrado a pertinência de


atribuição de efeito suspensivo aos Embargos à Execução, na forma do que reza o
art. 919, § 1º, do Estatuto de Ritos, este d. Relator negou efeito suspensivo ao
recurso nestes termos:

Quanto ao pedido de recebimento no efeito suspensivo,


quanto aos Embargos manejados, tenho que a regra disposta
no art. 919, caput, do CPC prioriza o recebimento tão só no
efeito devolutivo, salvo excepcional exceção.

Ademais, não foi demonstrada pelo agravante à ocorrência de


quaisquer das hipóteses do § 1º, do art. 919, do CPC.

Assim, INDEFIRO o pedido de efeito


suspensivo.

À parte agravada para, querendo, oferecer


resposta, no prazo de 15 dias.

Expedientes necessários. “
( os destaques são nossos )

Com efeito, esses são os esclarecimentos necessários


à compreensão do ato vergastado.

PRELIMINARMENTE
Nulidade – Ausência de fundamentação

A Agravante solicitara no recurso em espécie fosse


concedido efeito suspensivo à Ação de Embargos do Devedor, ora em vertente. A
Agravante, na ocasião, fizera longos comentários acerca da propriedade do referido
pleito. Todavia, como visto, o mesmo fora negado.

A decisão guerreada negara a atribuição de efeito


suspensivo, todavia, concessa venia, sem a devida e necessária motivação.
O Agravante, como se denota do item 2.7 da peça
recursal, fizera o aludido pedido e, para tanto, em obediência aos ditames do art.
919, § 1º, da Legislação Adjetiva Civil, trouxera elementos suficientes para
concluir-se da imprescindibilidade da atribuição do efeito suspensivo .

Entre inúmeros outros argumentos e elementos


comprobatórios, o arrazoado trouxera as seguintes justificativas para que fosse
possível tal desiderato almejado:

“Seguramente o Embargante demonstrou o requisito da “fundamentação


relevante”, porquanto cristalinamente ficou comprovado que, sobretudo
alicerçado em decisão proferida em sede de Recurso Repetitivo em matéria
bancária no Superior Tribunal de Justiça (REsp nº. 1.061.530/RS): a) existiu que
a cobrança ilegal de juros capitalizados diariamente; b) que a cobrança de
encargos contratuais indevidos, no período de normalidade contratual, afasta a
mora do devedor; c) a cláusula 17ª da Cédula de Crédito Bancário anuncia,
expressamente, a possibilidade da cobrança de comissão de permanência, juros
moratórios e multa contratual, ofuscando à diretriz da Súmula do 472 do STJ .

Ademais, além da “fundamentação relevante”, devidamente


fixada anteriormente, a peça recursal preenche o requisito do “risco de lesão
grave e difícil reparação”, uma vez que, tratando-se de título executivo
extrajudicial, a execução terá seu seguimento normal. (CPC, art, 919, caput)

O bloqueio dos ativos financeiros bancários da Agravante, o qual


alcançou a cifra elevadíssima de R$ 00.000,00 ( .x.x.x. ), qualifica-se como
perigoso gravame à saúde financeira da empresa executada. Verdade seja dita, a
simples penhora de 20%(vinte por cento) sobre o faturamento bruto de uma
sociedade empresária já o suficiente para provocar desmesurados danos
financeiros. Na realidade, pouquíssimas são as empresas brasileiras que
suportariam isso, vez que, no caso, inexiste sequer a dedução dos custos
operacionais. É que a margem de lucro das empresas, como consabido, é
diminuta, chegando quase a esse patamar de percentual acima destacado.

A constrição judicial ocorrida, como se percebe, voltou-se


exclusivamente aos ativos financeiros da Recorrente. Com isso, máxime em
função do expressivo montante, certamente trará consequências nefastas e
abruptas, como o não pagamento das suas obrigações sociais, sobretudo folha
de pagamento, fornecedores, encargos tributários, consumo de energia e água
etc.

E essas circunstâncias se encontram devidamente instruídas com


a exordial dos Embargos e, igualmente, no presente recurso. É dizer, a
Embargante-Recorrente colacionara documentos que comprova a projeção de
receita da empresa; totalidade dos funcionários e a respectiva soma necessária
para pagamento desses; as despesas fiscais mensais; as despesas operacionais
permanentes; despesas mensais com fornecedores nos últimos 3 meses;
contrato social da empresa em que se evidencia um capital social diminuto;
além de outros documentos diversos que sustentam a dificuldade financeira
que passa a empresa Embargante.

De outro turno, é inconteste (CPC, art. 374, inc. I) que o cenário


atual das finanças do País é um dos piores de todos os tempos.

Nesse passo, urge evidenciar o teor substancial inserto na


Legislação Adjetiva Civil:

CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL

Art. 1º - O processo civil será ordenado, disciplinado e interpretado conforme os


valores e as normas fundamentais estabelecidos na Constituição da República
Federativa do Brasil, observando-se as disposições deste Código.
Art. 8º - Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às
exigências do bem comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa
humana e observando a proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a
publicidade e a eficiência.

Em abono ao exposto acima, urge transcrever o magistério de


José Miguel Garcia Medina:

“No contexto democrático, o modo como se manifestam e relacionam os


sujeitos do processo deve observar as garantias mínimas decorrentes do due
process of law. Assim, interessam, evidentemente, as regras dispostas no Código
de Processo Civil em outras leis, MS, sobretudo, a norma constitucional.
Entendemos que os princípios e valores dispostos na Constituição Federal
constituem o ponto de partida do trabalho do processualista. A atuação das
partes e a função jurisdicional devem ser estudadas a partir da compreensão de
que o processo é um espaço em que devem ser estudas a partir da
compreensão de que o processo é um estado em que se devem se materializar
os princípios inerentes a um Estado que se intitula ‘Democrático de Direito’ ...”
(MEDINA, José Miguel Garcia. Novo Código de Processo Civil comentado: ... --
São Paulo: RT, 2015, p. 31)

E isso, igualmente, nos remete aos preceitos legais que


preservam a função social dos contratos (CC, art. 421).

No plano constitucional observemos que:

CONSTITUIÇÃO FEDERAL

Art. 1º - A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos


Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático
de Direito e tem como fundamentos:
(...)
III - a dignidade da pessoa humana;
(...)
IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;

E ainda no mesmo importe:

LEI DE INTRODUÇÃO ÀS NORMAS DO DIREITO BRASILEIRO

Art. 5º - Na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e
às exigências do bem comum.

Destarte, a prova documental ora colacionada comprova, sem


qualquer dúvida, que a decisão que determinou o bloqueio dos ativos
financeiros da Agravante certamente inviabilizará suas atividades. E isso poderá
concorrer também para a quebra da mesma, o que, como se viu, não é o
propósito da Lei.

E foi justamente com esse salutar propósito, a evitar quebras de


empresas, que o Egrégio Tribunal Superior do Trabalho acolheu o entendimento
salutar de que é aconselhável a constrição de uma pequena parcela do
faturamento da empresa. E isso para atender, mesmo que parcialmente, o
direito a crédito alimentar do trabalhador.

Com efeito, cabe ao magistrado, inexistindo suporte sumular


nesse tocante, tomar por analogia a seguinte Orientação Jurisprudencial:

OJ nº 93 -SDI-2: É admissível a penhora sobre a renda mensal ou faturamento da


empresa, limitada a determinado percentual, desde que não comprometa o
desenvolvimento regular de suas atividades.
Há, assim, fortes possibilidades dos pedidos formulados na ação
serem julgados procedentes, razão qual merecida a concessão de efeito
suspensivo ao mesmo.”

Entrementes, a despeito de tamanha fundamentação, o


pleito fora obstado por meio da decisão antes mencionada.

Seguramente essa deliberação merece reparo.

Com esse enfoque dispõe o Código de Processo Civil que:

Art. 489. São elementos essenciais da sentença:


§ 1o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela
interlocutória, sentença ou acórdão, que:
I - se limitar à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normativo,
sem explicar sua relação com a causa ou a questão decidida;
(...)
IV - não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes
de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador;

Sem sombra de dúvidas a regra supra-aludida se


encaixa à decisão hostilizada. A mesma passa longe de invocar argumentos
capazes de motivar a rejeição ao pedido buscado.

A ratificar o exposto acima, é de todo oportuno gizar o


magistério de José Miguel Garcia Medina:

“O conceito de omissão judicial que justifica a oposição de embargos de


declaração, à luz do CPC/2015, é amplíssimo. Há omissão sobre o ponto
ou questão, isso é, ainda que não tenha controvertido as partes (questão),
mas apenas uma delas tenha suscitado o fundamento (ponto; sobre a
distinção entre ponto e questão, cf. comentário ao art. 203 do CPC/2015).
Pode, também, tratar-se de tema a respeito do qual deva o órgão
jurisdicional pronunciar-se de ofício (p. ex., art. 485, § 3º do CPC/2015), ou
em razão de requerimento da parte. Deve ser decretada a nulidade da
decisão, caso a omissão não seja sanada. “( MEDINA, José Miguel Garcia.
Novo Código de Processo Civil comentado: ... – São Paulo: RT, 2015, p.
1.415)
(itálicos do texto original)

Nesse mesmo passo são as lições de Teresa Arruda


Alvim Wambier:

“ Em boa hora, consagra o dispositivo do NCPC projetado ora comentado,


outra regra salutar no sentido de que a adequação da fundamentação da
decisão judicial não se afere única e exclusivamente pelo exame interno
da decisão. Não basta, assim, que se tenha como material para se verificar
se a decisão é adequadamente fundamentada (= é fundamentada)
exclusivamente a própria decisão. Esta nova regra prevê a necessidade de
que conste, da fundamentação da decisão, o enfrentamento dos
argumentos capazes, em tese, de afastar a conclusão adotada pelo
julgador. A expressão não é a mais feliz: argumentos. Todavia, é larga e
abrangente para acolher tese jurídica diversa da adotada, qualificação e
valoração jurídica de um texto etc.
Vê-se, portanto, que, segundo este dispositivo, o juiz deve proferir
decisão afastando, repelindo, enfrentando elementos que poderiam
fundamentar a conclusão diversa. Portanto, só se pode aferir se a
decisão é fundamentada adequadamente no contexto do processo em
que foi proferida. A coerência interna corporis é necessária, mas não
basta. “ (WAMBIER, Teresa Arruda Alvim ... [et al.]. – São Paulo: RT, 2015,
p. 1.473)
(itálicos e negritos do texto original)

Não fosse isso o bastante, urge transcrever igualmente


as lições de Luiz Guilherme Marinoni:

“Assim, o parâmetro a partir do qual se deve aferir a completude da


motivação das decisões judiciais passa longe da simples constância na
decisão do esquema lógico-jurídico mediante o qual o juiz chegou à sua
conclusão. Partindo-se da compreensão do direito ao contraditório como
direito de influência e o dever de fundamentação como dever de debate, a
completude da motivação só pode ser aferida em função dos fundamentos
arguidos pelas partes. Assim, é omissa a decisão que deixa de se
pronunciar sobre argumento formulado pela parte capaz de alterar o
conteúdo da decisão judicial. Incorre em omissão relevante toda e
qualquer decisão que esteja fundamentada de forma insuficiente (art.
1.022, parágrafo único, II), o que obviamente inclui ausência de
enfrentamento de precedentes das Cortes Supremas arguidos pelas partes
e de jurisprudência formada a partir do incidente de resolução de
demandas repetitivas e de assunção de competência perante as Cortes de
Justiça (art. 1.022, parágrafo único, I). “ (MARINONI, Luiz Guilherme;
ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. Novo curso de processo civil:
tutela ... vol. 2. – São Paulo: RT, 2015, p. 540)

É necessário não perder de vista a posição da


jurisprudência oriunda do Superior Tribunal de Justiça:
PROCESSUAL CIVIL. VIOLAÇÃO DO ART. 535 DO CPC. NÃO OCORRÊNCIA.
DECISÃO QUE ANALISA O PEDIDO DE CONCESSÃO DE EFEITO
SUSPENSIVO AOS EMBARGOS À EXECUÇÃO. FUNDAMENTAÇÃO.
NECESSIDADE. ART. 165 DO CPC.
1. Afasta-se a alegada violação do art. 535 do CPC quando o acórdão
recorrido, integrado pelo julgado proferido nos embargos de declaração,
dirime, de forma expressa, congruente e motivada, as questões suscitadas
nas razões recursais. 2. É nula, por ausência de motivação, decisão que
confere efeito suspensivo a embargos à execução nos termos do art. 739 -
A, § 1º, do CPC, sem que haja fundamento que justifique essa
excepcionalidade. 3. Agravo em Recurso Especial conhecido para negar
provimento ao recurso especial. (STJ; AREsp 120.546; Proc. 2011/0279821-
9; RS; Terceira Turma; Rel. Min. João Otávio de Noronha; DJE 16/06/2014)

No mesmo sentido:

AGRAVO DE INSTRUMENTO. IMPUGNAÇÃO AO CUMPRIMENTO DE


SENTENÇA. INDENIZATÓRIA. CEEE. CÁLCULO. CORREÇÃO. DEVER DE
FUNDAMENTAR (ART. 93 DA CF/88). DECISÃO DESCONSTITUÍDA.
Decisão judicial que se limitou a reconhecer a correção do cálculo
apresentado pela contadoria e não apreciou, de forma detida, os
argumentos deduzidos pelos litigantes, não deve ser mantida pela
ausência de fundamentação. Nula toda e qualquer decisão que não
contenha fundamentação, conforme o artigo 165, do código de processo
civil e artigo 93, ix, da constituição federal. Deram provimento ao agravo
de instrumento. (TJRS; AI 0410398-09.2015.8.21.7000; Porto Alegre;
Décima Nona Câmara Cível; Rel. Des. Eduardo João Lima Costa; Julg.
17/12/2015; DJERS 28/01/2016)
PROCESSO CIVIL. APELAÇÃO. EXECUÇÃO DE TÍTULO EXTRAJUDICIAL.
MORTE DO EXEQUENTE. SENTENÇA DE EXTINÇÃO COM BASE NOS ARTS.
267, IV, E 295, III, AMBOS DO CPC. AUSÊNCIA DE REQUISITO ESSENCIAL.
RELATÓRIO. ART. 458 DO CPC. NULIDADE. FALECIMENTO DO AUTOR DA
DEMANDA. NECESSÁRIA SUSPENSÃO DO PROCESSO. PREVISÃO LEGAL
EXPRESSA. ARTS. 43, 265, I, 791, II, E 1.055, TODOS DO CPC. SENTENÇA
ANULADA EX OFICIO.
1. São requisitos essenciais da sentença o relatório, a fundamentação e o
dispositivo. Inexistente qualquer dos requisitos expressos no art. 458,
impõe-se a anulação da sentença ex oficio. 2. Ademais, havendo notícia de
falecimento do exequente da ação, não há que se falar em extinção do
feito com base nos arts. 267, IV, e 295, III, ambos do CPC. Devendo a ação
ser suspensa, conforme previsão expressa constante nos arts. 265, I, 791,
II e 1.055, todos do mesmo diploma legal, até que seja regularizado o polo
ativo da demanda, pela habilitação-incidente do espólio ou herdeiros do
de cujus. 3. Ante o exposto, impende declarar a nulidade da sentença de
fl. 49, determinando-se a remessa dos autos à primeira instância para
suspensão da ação de execução, nos termos do art. 791, II, do CPC. 4.
Apelo parcialmente provido. (TJPE; Rec. 0093282-86.1996.8.17.0001;
Primeira Câmara Cível; Rel. Des. Roberto da Silva Maia; DJEPE 22/01/2016)

Diante disso, ou seja, face à carência de


fundamentação, mostra-se necessária a anulação do decisum combatido, e,
por tal motivo, seja proferida nova decisão (CPC, art. 1.013, § 1º).

2 - EQUÍVOCO DA R. DECISÃO ORA GUERREADA


ERROR IN JUDICANDO
De fato, como lançado na decisão vergastada, há
precedentes deste Tribunal e do Superior Tribunal de Justiça no sentido dos
fundamentos lançados na decisão combatida. Todavia, os fundamentos enfrentados
foram outros.

Diante disso, a decisão monocrática em vertente,


permissa venia, por analisar os fundamentos expostos, deve ser anulada (CPC, art.
1.013, § 3º, inc. IV).

De mais a mais, as questões destacadas na Ação de


Embargos à Execução são de gravidade extremada e reclama, sem sombra de
dúvidas, a atribuição de efeito suspensivo. Inquestionável que a hipótese ora trazida
à baila preenche os requisitos exigidos pelo art. 919, § 1º, do Estatuto de Ritos.

Convém ressaltar que o então Embargante, ora


Recorrente, ao requerer o efeito suspensivo à ação, ponderou que comprovara o
preenchimento de todos os requisitos legais para tal desiderato.

Tais pressupostos, a saber, fundamentos relevantes e


perigo de dano, são bem elucidados pelo professor Marcelo Abelha:

“ Para a sua concessaã o, o executado deve indicar na sua oposiçaã o os


fundamentos relevantes e o tal risco de que a execuçaã o poderaá causar-
lhe grave dano de difíácil ou incerta reparaçaã o.
Os requisitos compoã em o que se chama de conceitos vagos ou conceitos
jurídicos indeterminados, que deveraã o, em cada caso concreto, ser
analisados mediante diversos elementos contextuais da proá pria causa.
Naã o eá possíável estabelecer com segurança – senaã o em raros casos – um
rol de hipoá teses que de antemaã o ensejariam a concessaã o do efeito
suspensivo. Naã o eá isso que quer o legislador, pois o seu desejo eá que o
juiz, segundo as provas constantes dos autos, os elementos trazidos na
oposiçaã o e as suas maá ximas de experieê ncia., verifique em cada caso se
deve ou naã o conceder o efeito suspensivo. “ (ABELHA, Marcelo. Manual
de execução civil. 5ª Ed. Rio de Janeiro: Forense, 2015, p. 503)

Demonstrado, pois, o preenchimento dos requisitos do


“risco de lesão grave e de difícil reparação” e da “fundamentação relevante”, há de
ser concedido efeito suspensivo à ação em debate.

Como bem enfatiza Humberto Theodoro Júnior,


também no tocante aos referidos pressupostos, esse leciona que:

“Em caráter excepcional o juiz é autorizado a conferir efeito suspensivo aos


embargos do executado (art. 919, § 1º). Não se trata, porém, de um poder
discricionário. Para deferimento de semelhante eficácia, deverão ser
conjugados os mesmos requisitos para concessão de tutela provisória de
urgência (NCPC, art. 300) ou de evidência (NCPC, art. 311). “ (THEODORO
JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil . . . vol. III. 47ª Ed. Rio
de Janeiro: Forense, 2016, p. 660)

Seguramente o Embargante demonstrou o requisito da


“fundamentação relevante”, porquanto cristalinamente ficou comprovado que,
sobretudo alicerçado em decisão proferida em sede de Recurso Repetitivo em
matéria bancária no Superior Tribunal de Justiça (REsp nº. 1.061.530/RS): a)
existiu que a cobrança ilegal de juros capitalizados diariamente; b) que a cobrança
de encargos contratuais indevidos, no período de normalidade contratual, afasta a
mora do devedor; c) a cláusula 17ª da Cédula de Crédito Bancário anuncia,
expressamente, a possibilidade da cobrança de comissão de permanência, juros
moratórios e multa contratual, ofuscando à diretriz da Súmula do 472 do STJ .

Ademais, além da “fundamentação relevante”,


devidamente fixada anteriormente, a peça recursal preenche o requisito do “risco de
lesão grave e difícil reparação”, uma vez que, tratando-se de título executivo
extrajudicial, a execução terá seu seguimento normal. (CPC, art, 919, caput)

O bloqueio dos ativos financeiros bancários da


Agravante, o qual alcançou a cifra elevadíssima de R$ 00.000,00 ( .x.x.x. ),
qualifica-se como perigoso gravame à saúde financeira da empresa executada.
Verdade seja dita, a simples penhora de 20%(vinte por cento) sobre o faturamento
bruto de uma sociedade empresária já o suficiente para provocar desmesurados
danos financeiros. Na realidade, pouquíssimas são as empresas brasileiras que
suportariam isso, vez que, no caso, inexiste sequer a dedução dos custos
operacionais. É que a margem de lucro das empresas, como consabido, é diminuta,
chegando quase a esse patamar de percentual acima destacado.

A constrição judicial ocorrida em face do despacho


mencionado, como se percebe, voltou-se exclusivamente aos ativos financeiros da
Agravante. Com isso, máxime em função do expressivo montante, certamente trará
consequências nefastas e abruptas, como o não pagamento das suas obrigações
sociais, sobretudo folha de pagamento, fornecedores, encargos tributários,
consumo de energia e água etc.

E essas circunstâncias foram devidamente instruídas


com a exordial dos Embargos. É dizer, a Agravante trouxera à colação documento
que comprova a projeção de receita da empresa; totalidade dos funcionários e a
respectiva soma necessária para pagamento desses; as despesas fiscais mensais;
as despesas operacionais permanentes; despesas mensais com fornecedores nos
últimos 3 meses; contrato social da empresa em que se evidencia um capital social
diminuto; além de outros documentos diversos que sustentam a dificuldade
financeira que passa a empresa Recorrente.

De outro turno, é inconteste (CPC, art. 374, inc. I) que


o cenário atual das finanças do País é um dos piores de todos os tempos.

Nesse passo, urge evidenciar o teor substancial inserto


na Legislação Adjetiva Civil:

CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL

Art. 1º - O processo civil será ordenado, disciplinado e interpretado


conforme os valores e as normas fundamentais estabelecidos na
Constituição da República Federativa do Brasil, observando-se as
disposições deste Código.

Art. 8º - Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais


e às exigências do bem comum, resguardando e promovendo a dignidade
da pessoa humana e observando a proporcionalidade, a razoabilidade, a
legalidade, a publicidade e a eficiência.

Em abono ao exposto acima, urge transcrever o


magistério de José Miguel Garcia Medina:

“No contexto democrático, o modo como se manifestam e relacionam os


sujeitos do processo deve observar as garantias mínimas decorrentes do
due process of law. Assim, interessam, evidentemente, as regras dispostas
no Código de Processo Civil em outras leis, MS, sobretudo, a norma
constitucional. Entendemos que os princípios e valores dispostos na
Constituição Federal constituem o ponto de partida do trabalho do
processualista. A atuação das partes e a função jurisdicional devem ser
estudadas a partir da compreensão de que o processo é um espaço em
que devem ser estudas a partir da compreensão de que o processo é um
estado em que se devem se materializar os princípios inerentes a um
Estado que se intitula ‘Democrático de Direito’ ...” (MEDINA, José Miguel
Garcia. Novo Código de Processo Civil comentado: ... -- São Paulo: RT,
2015, p. 31)

E isso, igualmente, remete-nos aos preceitos legais que


preservam a função social dos contratos (CC, art. 421).

No plano constitucional observemos que:

CONSTITUIÇÃO FEDERAL

Art. 1º - A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel


dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado
Democrático de Direito e tem como fundamentos:
(...)
III - a dignidade da pessoa humana;
(...)
IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;

E ainda no mesmo importe:

LEI DE INTRODUÇÃO ÀS NORMAS DO DIREITO BRASILEIRO


Art. 5º - Na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se
dirige e às exigências do bem comum.

Destarte, a prova documental colacionada comprova,


sem qualquer dúvida, que a decisão que determinou o bloqueio dos ativos
financeiros da Agravante certamente inviabilizará suas atividades. E isso poderá
concorrer também para a quebra da mesma, o que, como se viu, não é o propósito
da Lei.

E foi justamente com esse salutar propósito, a evitar


quebras de empresas, que o Egrégio Tribunal Superior do Trabalho acolheu o
entendimento salutar de que é aconselhável a constrição de uma pequena parcela
do faturamento da empresa. E isso para atender, mesmo que parcialmente, o direito
a crédito alimentar do trabalhador.

Com efeito, cabe ao magistrado, inexistindo suporte


sumular nesse tocante, tomar por analogia a seguinte Orientação Jurisprudencial:

OJ nº 93 -SDI-2: É admissível a penhora sobre a renda mensal ou


faturamento da empresa, limitada a determinado percentual, desde que
não comprometa o desenvolvimento regular de suas atividades.

Há, assim, fortes possibilidades dos pedidos formulados


na ação serem julgados procedentes, razão qual merecida a concessão de efeito
suspensivo ao mesmo.

Com esse enfoque:


EMBARGOS À EXECUÇÃO.
Pretensão de reforma da respeitável decisão que atribuiu efeito
suspensivo aos embargos à execução. Descabimento. Hipótese em que
estão presentes os requisitos exigidos para a atribuição do efeito
suspensivo. RECURSO DESPROVIDO. (TJSP; AI 2257436-74.2015.8.26.0000;
Ac. 9215117; São Paulo; Décima Terceira Câmara de Direito Privado; Relª
Desª Ana de Lourdes; Julg. 26/02/2016; DJESP 03/03/2016)

EMBARGOS À EXECUÇÃO.
Decisão que recebe os embargos sem efeito suspensivo e indefere pedido
de denunciação da lide. Reforma processual trazida pela Lei nº
11.382/2006. Concessão de efeito suspensivo aos embargos que
caracteriza exceção à regra. Presença dos requisitos autorizadores à
concessão do pretendido efeito suspensivo. Inteligência do art. 739-A, §
1º, do CPC. Embargos que, no caso, devem ser processados com a
suspensão do curso da execução. Controvérsia quanto ao cabimento do
pedido de denunciação da lide em embargos à execução. Manutenção do
indeferimento. Recurso parcialmente provido. (TJSP; AI 2184549-
29.2014.8.26.0000; Ac. 7993067; Piracicaba; Primeira Câmara Reservada
de Direito Empresarial; Rel. Des. Francisco Loureiro; Julg. 24/02/2016;
DJESP 03/03/2016)

AGRAVO DE INSTRUMENTO. EXECUÇÃO. EMBARGOS DO DEVEDOR.


EXCLUSÃO DO CADASTRO DE INADIMPLEMENTES. IMPOSSIBILIDADE.
CONCESSÃO DE EFEITO SUSPENSIVO. PRESENÇA DOS REQUISITOS.
RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO.
Não há como excluir o nome do agravante do cadastro de inadimplentes,
se o mesmo não trouxe qualquer demonstração nos autos de indevida
negativação. Haverá atribuição de efeito suspensivo aos embargos se o
embargante preencher todos os requisitos contidos no parágrafo 1º do
artigo 739-A do CPC, quais sejam. a) relevância da fundamentação; b)
receio de grave dano de difícil ou incerta reparação; c) garantia suficiente
da execução por penhora, depósito ou caução. Presentes os requisitos
autorizadores da concessão de efeito suspensivo aos embargos à
execução, impõe-se a reforma da decisão agravada que indeferiu o pedido.
Agravo de instrumento conhecido e parcialmente provido. (TJDF; Rec
2015.00.2.027709-3; Ac. 922.087; Sexta Turma Cível; Relª Desª Ana Maria
Duarte Amarante Brito; DJDFTE 02/03/2016; Pág. 471)

AGRAVO INTERNO. DECISÃO MONOCRÁTICA DO RELATOR QUE NEGOU


PROVIMENTO AO RECURSO. EMBARGOS À EXECUÇÃO. EFEITO
SUSPENSIVO.
O artigo 739-a, §1º, do cpc autoriza que o magistrado atribua efeito
suspensivo aos embargos à execução, quando forem relevantes os
fundamentos, houver risco de dano irreparável aos interessados, bem
como quando houver garantia do juízo. Presentes todos os requisitos, no
caso concreto, estando autorizada a suspensão da demanda executiva até
que sejam julgados os embargos do executado/agravante. Deram
provimento ao agravo interno. (TJRS; AG 0430058-86.2015.8.21.7000;
Porto Alegre; Décima Nona Câmara Cível; Rel. Des. Eduardo João Lima
Costa; Julg. 25/02/2016; DJERS 02/03/2016)

Com esse enfoque é altamente ilustrativo transcrever as


lições de Luiz Guilherme Marinoni, quando, ponderando argumentos quanto à
concessão do efeito suspensivo almejado, assim avalia:

“ Por óbvio, este perigo não se caracteriza tão só pelo fato de que bens do
devedor poderão ser alienados no curso da execução, ou porque dinheiro
do devedor pode ser entregue ao credor. Fosse suficiente este risco, toda
execução dever ser paralisada pelos embargos, já que a execução que
seguisse sempre conduziria à prática destes atos expropriatórios e
satisfativos;
O perigo a ser exigido é outro, distinto das consequências – naturais – da
execução, embora possa ter nelas a sua origem. Assim, por exemplo, a
alienação de um bem com elevado valor sentimental (v.g. joia de família)
ou de que dependa o sustento da família do executado. Nestes casos, o
dano não está propriamente na alienação do bem penhorado, mas
advém da qualidade especial do bem que, ao ser retirado do patrimônio
do devedor, ocasionará o prejuízo grave e difícil ou incerta reparação; “
(MARINONI, Luiz Guilherme. ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel.
Novo curso de processo civil: ... Vol. III. – São Paulo: RT, 2015, p. 113)
(negritamos e sublinhamos)

Não bastasse isso, a execução deverá ser conduzida


de sorte a ser o quanto menos gravosa à parte executada (CPC, art. 805).

Nesse sentido:

AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO.


CONVERSÃO EM AÇÃO EXECUTIVA. PENHORA DE PERCENTUAL DO
FATURAMENTO DA EMPRESA DEVEDORA. REQUISITOS.
O art. 620, CPC [CPC/2015, art. 805], consagra o princípio da menor
onerosidade, devendo a execução se processar da forma menos gravosa
para o executado, compatibilizando-se com o direito do exeqüente à
satisfação do seu crédito e à tutela jurisdicional adequada e efetiva. A
ordem preferencial de nomeação à penhora dos bens do devedor prevista
pelo art. 655, CPC [CPC/2015, art. 835], não é absoluta, devendo sua
aplicação atender às circunstâncias do caso concreto, à potencialidade de
satisfazer o crédito exeqüendo e a forma menos onerosa para o devedor.
Segundo o Superior Tribunal de Justiça, a penhora de percentual do
faturamento de empresa devedora depende da presença dos seguintes
requisitos: o devedor não possuir bens ou, se os tiver, sejam esses de difícil
execução ou insuficientes a saldar o crédito demandado; haja indicação de
administrador e esquema de pagamento (arts. 678 e 719, CPC) [CPC/2015,
art. 863 e 869]; e o percentual fixado sobre o faturamento não torne
inviável o exercício da atividade empresarial. (TJMG; AI 1.0433.15.007899-
9/002; Rel. Des. José Arthur Filho; Julg. 02/02/2016; DJEMG 19/02/2016)

E, note-se, há aresto inclusive obstando a inclusão do


nome do devedor nos órgãos de restrições, quando a execução já esteja garantida:

PROCESSO CIVIL. AGRAVO DE INSTRUMENTO. PENHORA INTEGRAL DO


VALOR DEVIDO. MANUTENÇÃO DO NOME DO DEVEDOR EM CADASTRO
DE INADIMPLENTES. IMPOSSIBILIDADE. MEDIDA MAIS GRAVOSA.
APLICAÇÃO ART. 620, CPC.
1. Quando por vários meios o credor puder promover a execução, o juiz
mandará que se faça pelo modo menos gravoso para o devedor. Art. 620
do Código de Processo Civil. 2. Havendo a penhora da integralidade do
valor devido, a manutenção do nome da recorrente nos órgãos de
proteção ao crédito é medida por demais onerosa, pois se trata de
alternativa menos eficiente e mais prejudicial ao devedor. 3. Recurso
conhecido e desprovido. (TJDF; Rec 2015.00.2.013246-2; Ac. 879.649;
Segunda Turma Cível; Rel. Des. Mario-Zam Belmiro; DJDFTE 14/07/2015;
Pág. 117)
De toda prudência, portanto, que seja concedida a tutela
recursal, máxime em decorrência das nefastas consequências financeiras que a
constrição está ocasionando à Agravante.

3 – PEDIDOS E REQUERIMENTOS
Posto isso, o presente Agravo Regimental merece ser
conhecido e provido, principalmente quando foram comprovados os pressupostos
de sua admissibilidade, onde se pede que:

( i ) dê-se provimento ao presente recurso, ofertando


juízo de retratação e em face dos fundamentos
levantados neste Agravo Interno:

( a ) levando-se em conta os ditames do art. 919, § 1º, do


Código de Processo Civil, o Agravante pede seja suspenso o
ato impugnado e, via reflexa, torne sem efeito a decisão
que determinou o bloqueio de ativos financeiros em nome
da Agravante.

( b ) requer, ainda, que o magistrado processante seja


instado a abster-se de realizar novo bloqueio judicial em
contas correntes da Recorrente;

( c ) pleiteia, ainda, seja liberada de pronto a referida


constrição, ordenando que essa seja processada por meio
da penhora de renda da empresa Recorrente, limitada a
10%(dez por cento) do seu faturamento mensal,
observando-se a forma preceituada no art. 866, § 1º, do
CPC;
( ii ) não sendo esse o entendimento de Vossa
Excelência, ad argumentandum, requer-se que o
presente recurso seja submetido a julgamento pelo
Órgão Colegiado (CPC, art. 1.021, § 2º).

Respeitosamente, pede deferimento.

Cidade, 00 de fevereiro de 0000.

Beltrano de Tal
Advogado – OAB/RS 0000