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Análise da vibração de trator estático e em movimento com implemento

agrícola
Rafael Brito Solane
Programa de Pós-graduação em Engenharia Mecânica, FEB/UNESP, Bauru/SP
rafaelsolane@gmail.com

Alana Indah Boaventura


Programa de Pós-graduação em Engenharia Mecânica, FEB/UNESP, Bauru/SP
alanaboaventura@gmail.com

Victor Manieri Schutzer


Programa de Pós-graduação em Engenharia Mecânica, FEB/UNESP, Bauru/SP
victor_schutzer@hotmail.com

Bento Rodrigues de Pontes Junior


Departamento de Engenharia Mecânica, FEB/UNESP, Bauru/SP
brpontes@feb.unesp.br

João Eduardo Guarnetti dos Santos


Departamento de Engenharia Mecânica, FEB/UNESP, Bauru/SP
guarneti@feb.unesp.br

Resumo: Este estudo teve por finalidade analisar o comportamento da vibração no sistema homem-máquina.
Para isto, utilizou-se um trator agrícola, com diferentes velocidades de avanço e acoplado a uma roçadora
agrícola. Os dados experimentais foram analisados segundo a Norma de Higiene Ocupacional 09 - NHO-09. Os
resultados obtidos mostraram que os níveis de vibração em baixa rotação estão de acordo com o que preconiza a
norma para uma jornada de 8 horas diária de trabalho. Já para os testes em alta rotação, os níveis de vibração
foram preocupantes, já que não permitem a exposição a esses níveis preconizado pela norma NHO 09.

Palavras-chave: Vibração. Ergonomia. Trator. Processamento de sinais.

Introdução

A mecanização agrícola vem sendo cada vez mais difundida, tendo como objetivo principal a
redução de custos de insumos e o aumento da produção agrícola, visando a otimização e viabilidade na
produtividade agropecuária, desta forma, tem sido uma alternativa ao pequeno e médio produtor.
(KUMAR et al., 2016; VERMA; TRIPATHI, 2015). Com o crescimento da mecanização na
agricultura, cresce também o número de acidentes neste ramo, gerando uma preocupação com a saúde
dos operadores deste setor, devido os mesmos estarem expostos, na maioria das vezes, às atividades de
alto risco à saúde ocupacional, devido a problemas ergonômicos encontrados em maquinários
agrícolas (SANTOS et al., 2014)
A ergonomia estuda a adaptação da máquina ao homem e o seu principal objetivo é modificar
os sistemas de trabalho para adequar a atividade nele existente, ou seja, auxiliar em projeto de
máquinas de maneira a acomodar a variabilidade natural, associando-a ao desempenho humano,
atingindo o propósito geral do sistema com segurança e produtividade (HASSALL, et al, 2015).
O trator agrícola é uma máquina de importância singular na produção agropecuária, por estar
presente na maioria das fases do processo produtivo e é utilizado como gerador de potência para
utilização de implementos agrícolas, como por exemplo a roçadora, elemento de análise do presente
trabalho (ROZIN, 2004).
Segundo Andersson (2015), um dos fatores de grande importância para seleção de tratores
agrícolas é o critério ergonômico, pois, longas horas de trabalho com movimentos repetitivos e
posicionamento impróprio dos operadores em máquinas, aumentam o risco de fadiga e desconforto
físico, afetando, consequentemente, sua saúde.
Dentre os problemas ergonômicos, têm-se a vibração, caracterizada como um distúrbio físico
que ocorre em máquinas, onde sua natureza depende de características dinâmicas do sistema e dos
componentes que compõe a máquina. E seu efeito sobre o corpo humano depende, principalmente, da
frequência, magnitude, direção, área de contato e duração da exposição (BAAD; QAIMI, 2016).
A vibração ocupacional quando transmitida em mãos e braços pode trazer doenças ocupacionais
envolvendo o sistema vascular, neurológico e musculoesquelético. O risco de desenvolver doenças,
depende da magnitude da vibração, da frequência e da duração da exposição (THOMPSON et al.,
2011). Segundo uma pesquisa realizada por Vihlborg et al. (2017), cerca de 21% dos funcionários que
trabalham com ferramentas vibratórias em indústrias, foram diagnosticados com problemas
relacionados com vibração, mesmo com exposição relativamente baixa.
A exposição humana à vibração pode ser classificada como Vibração de Corpo Inteiro (VCI) e
Vibração em Mãos e Braços. Para a vibração que afeta o corpo inteiro, a faixa de frequência mais
prejudicial é entre 0,5 e 80 Hz. Esse tipo de vibração está presente, principalmente, em sistemas de
transporte como trens, carros, ônibus, etc (GOMES; SAVIONEK, 2014).
Desta forma, nota-se a fundamental importância do estudo da vibração em tratores agrícolas, tal
estudo têm como intuito, contribuir para o aperfeiçoamento de projetos destes equipamentos,
objetivando o conforto do operador no decorrer do seu trabalho.

Metodologia

Para realização dos ensaios, utilizou-se um trator agrícola monocilíndrico com 14,7cv de
potência e motor a 2750rpm e um implemento agrícola do tipo roçadora. O trator já com o implemento
agrícola acoplado é apresentado na Figura 1a, abaixo. E para captar a vibração no operador, utilizou-se
um sensor de assento com acelerômetro triaxial da marca Larson Davis, modelo Triaxial ICP, série:
SEN027, o qual foi fixado no assento do trator, de maneira que os eixos obedecessem ao sistema de
coordenadas proposta pela NHO 09 (2013), de acordo com a Figura 1b e 1c. Para a aquisição dos
dados em campo, foi utilizado o módulo HVM100, modelo 1.33 e para a leitura dos sinais, o software
Blaze.

z
y
x

a b c
Figura l: a) Trator com implemento agrícola do tipo roçadora; b) Sensor de assento com acelerômetro tri
dimensional. c) Sistema de coordenadas proposta pela NHO 09 para fixação do acelerômetro de corpo inteiro.
O sensor triaxial foi fixado no assento do trator, conforme a norma NHO 09 (2013), e um
operador qualificado na categoria, com massa de aproximadamente 65 kg, operou o trator com o
implemento agrícola.
Os experimentos foram realizados considerando duas situações, sendo elas: primeiramente o
trator estático, posteriormente em movimento. Em ambas situações, o trator encontrava-se ligado,
assim como o implemento agrícola, que estava em funcionamento, realizando a ceifa da vegetação.
Então, variou-se a potência do motor em duas condições distintas: baixa (966 rpm) e alta rotação
(1422 rpm). Na Tabela 1, a seguir, é possível visualizar as condições ensaiadas.

Tabela l: Condições estabelecidas para o experimento.


FATORES NÍVEIS CONDIÇÕES

EA
TRATOR [E] Estático [M] Movimento
EB
MA
ROTAÇÃO [A] Alta rotação (1422 rpm) [B] Baixa rotação (966 rpm)
MB

Para cada condição apresentada na Tabela 1, realizou-se quatro repetições com duração de um
minuto, totalizando em 16 ensaios, cujos dados obtidos no experimento, foram arquivados pelo
módulo de aquisição de sinais.
Após a realização das medições em campo, os dados experimentais foram transferidos para o
software Blaze, e então analisados e manipulados estatisticamente, utilizando software Excel.
O software Blaze fornece os valores da aceleração de vibração instantânea, ou seja, o valor de
aceleração ponderada em frequência no instante de tempo “t”, expressa em m/s2, segundo um
determinado eixo de direção “j”, sendo que “j” corresponde aos eixos ortogonais “x”, “y” ou “z”.
Também é fornecida é a aceleração média (amj), que é a raiz média quadrática dos diversos valores da
aceleração instantânea ocorridos no período de medição, dada pela Equação 1, em m/s2, na direção “j”,
apresentada a seguir:

(1)

Sendo: aj(t) corresponde aos valores ax(t), ay(t) ou az(t), em m/s2, segundo os eixos ortogonais x,
y e z, respectivamente, e t2 – t1 correspondente ao intervalo de medição.
Outra variável fornecida pelo software Blaze é a aceleração média resultante (amr):
correspondente à raiz quadrada da soma dos quadrados das acelerações médias, medidas segundo os
três eixos ortogonais “x”, “y” e “z”, definida pela Equação 2, a seguir.

(2)

Sendo fj o fator de multiplicação em função do eixo considerado (f = 1,4 para os eixos “x” e “y”
e f = 1,0 para o eixo “z”), valores estes fornecidos pelas normas ISO 2631-97 e NHO 09.
Ainda, o software Blaze apresenta a aceleração resultante de exposição (are), que corresponde à
aceleração média resultante representativa da exposição ocupacional diária, considerando os três eixos
ortogonais e as diversas componentes de exposição indentificadas (NHO 09, 2013), definida pela
expressão a seguir:

(3)

Sendo: arepi a aceleração resultante de exposiçao parcial, ni o número de repetições da


componente de exposição “i”ao longo da jornada de trabalho, Ti o tempo de duração da componente de
exposição “i”, m o número de componentes de exposição que compõem a exposição diária e T o
tempo de duração da jornada diária de trabalho.
Vale ressaltar que, as variáveis expressas nas Equações 1, 2 e 3 são fornecidas pelo software
Blaze, não sendo necessário calculá-las.
Na análise de estatística, fez-se o gráfico boxplot e de barras com as médias dos dados, com
intuito de visualizar a variabilidade e simetria dos valores encontrados nos ensaios. Posteriormente,
realizou-se as análises dos dados técnicos, neste momento, utilizou-se como referência a norma
internacional ISO 2631-97 e NHO 09.
Para a manipulação e análise dos resultados, utilizou-se o valor RMS ou valor eficaz, que é a
raiz quadrada da média aritmética dos quadrados dos valores da aceleração. Este valor é considerado a
mais importante medida da amplitude, pois ela fornece a média da energia contida no movimento
vibratório (XIMENES, 2006).
A aceleração normalizada para uma jornada de 8 horas de trabalho (aren), descrita pela
normativa NHO 09 (CUNHA; GIAMPAOLI, 2013), pode ser calculada utilizando a Equação 4, a
seguir.
(4)

Sendo are a aceleração resultante da exposição (obtida durante os ensaios), T o tempo de


exposição e T0 o tempo correspondente à 8 horas, ou em minutos, T0 = 480 minutos.
Rearranjando a Equação 4, calculou-se o tempo máximo de exposição do operador, em relação à
vibração ocupacional.
(5)

Utilizando a tabela apresentada na norma NHO 09, a qual relaciona os valores da dose de
vibração (VDV) com o valor da aceleração resultante da exposição, é possível encontrar o tempo
máximo de exposição, utilizando a Equação 4. Na Tabela 2, a seguir, é apresentado a relação entre os
valores are e os valores da dose de vibração, bem como a consideração técnica e atuação recomendada
pela norma.

Tabela 2: Critério de julgamento e tomada de decisão.


Consideração
are (m/s2) VDV (m/s1,75) Atuação Recomendada
Técnica

No mínimo manutenção da condição


0 a 0,5 0 a 9,1 Aceitável
existente.

Acima do nível No mínimo adoção de medidas


> 0,5 a < 0,9 > 9,1 a < 16,4
de ação preventivas.
Adoção de medidas preventivas e
Região de
0,9 a 1,1 16,4 a 21 corretivas visando à redução da
incerteza
exposição diária.

Acima do limite Adoção imediata de medidas


Acima de 1,1 Acima de 21
de exposição corretivas.

Para análise dos dados experimentais, foi calculado o tempo máximo de exposição considerando
a aceleração resultante de exposição, are igual a 0,5 m/s2, ou seja, o valor aceitável segundo a
normativa NHO 09 (2013).

Resultados e Discussões

A partir da aquisição dos dados, os mesmos foram tratados e analisados através do software
Excel. Então, gerou-se o gráfico boxplot para melhor visualização das suas características, ou seja, a
localização, dispersão, assimetria e outiliers (medidas discrepantes) dos dados em conjunto. Na Figura
2 é apresentado o gráfico com o valor médio das condições analisadas e na Figura 3, encontra-se o
gráfico boxplot, apresentando o comportamento das acelerações nos ensaios.

Figura 2: Aceleração média das condições ensaiadas.

Figura 3: Comportamento da aceleração média das condições.

Nota-se, ao observar a Figura 2, que as acelerações seguiram a seguinte ordem crescente:


EB<MB<EA<MA. E por meio do gráfico boxplot (Figura 3), nota-se que os dados apresentaram baixa
variabilidade, principalmente nos ensaios de baixa rotação, e os outilers apresentados, são devido aos
picos decorrente dos ensaios. Na Figura 4, a seguir, pode ser melhor visto os picos presentes, bem
como a análise do comportamento do trator.

Figura 4: Comportamento da aceleração instantânea dos quatro ensaios.

Os picos apresentados nas curvas (Figura 4), se devem ao funcionamento do implemento em


contato com o solo e, pelo fato do mesmo apresentar irregularidades, o que fez com que ocorresse o
aumento do nível de vibração no operador. Esses picos, são os outiliers apresentados no gráfico da
Figura 3.
Analisando ainda as curvas na Figura 4, e o gráfico das médias, apresentado na Figura 2, nota-se
que nos equipamentos.
Verificou-se, também, que em todos os ensaios realizados, obteve-se maior aceleração de
vibração no eixo “x”, que mede a vibração nos membros inferiores do operador, no sentido
longitudinal às pernas (Figura 1c). Sabe-se que, a intensa exposição do operador às vibrações
mecânicas nos membros inferiores pode acarretar em problemas de circulação, além de reduzir a sua
resistência vascular periférica (KERSCHAN-SCHINDL et al., 2001).
A partir destes resultados, calculou-se o tempo máximo de exposição para cada condição
ensaiada, utilizando a Equação 1, apresentada anteriormente, conforme preconiza a norma NHO 09
(2013). Os valores podem ser observados no gráfico da Figura 5, a seguir.

Figura 5: Tempo de exposição para as condições ensaiadas.


Nota-se que o trator funcionando em baixa rotação, apresenta situação de menor risco ao
operador, possibilitando que trabalhe as 8 horas diárias sem causar danos à saúde. Já em alta rotação, o
tempo de exposição é reduzido drásticamente, não atendendo o valor de 8 horas diárias preconizado
pela norma NHO 09. Nestas condições, o operador pode ficar exposto à aproximadamente 3 horas e
meia para o trator estático e aproximadamente 2 horas para o trator em movimento, diariamente.
Sendo que, ao ultrapassar este tempo, pode ocorrer graves danos à saúde do operador.

Conclusões

A partir dos resultados encontrados, pode-se concluir que o trator analisado, quando utilizado
em baixa rotação, não trará malefícios a saúde ocupacional do operador, porém, deve-se atentar a
carga horária de trabalho para operações com alta rotação, pois o tempo recomendado de exposição à
vibração é muito menor do que as 8 horas de uma jornada de trabalho, e desta forma, pode trazer
grandes prejuízos a saúde do operador. Conclui-se ainda, que o maior risco à saúde ocupacional é no
eixo “x”, que se refere à vibração nos membros inferiores referente às pernas do operador.
Recomenda-se como melhoria, a utilização de assentos com maior nível de absorção,
diminuindo a transmissibilidade da vibração ao operador. Também, recomenda-se a manutenção
periódica do trator, pois as suas condições de uso podem influenciar no nível de vibração ocupacional.

Agradecimentos

À CAPES - Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior, pela concessão da


Bolsa de Mestrado.

Referências

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