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EDITORA NOVA FRONTEIRA

FICHA CATALOGRÁFICA
CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros. RJ.
CDD— 157 616.8917
CDU— 159.97:615.851.1 615.851.1
© 1982 by Juan Carlos Kusnetzoff
Direitos de edição da obra em língua portuguesa adquiridos pela
EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A.

Kusnetzoff, Juan Carlos.


K98i. Introdução à psicopatologia psicanalítica / Juan Carlos Kusnetzoff. — Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1982.
(Coleção Logos)
Bibliografia.
1. Psicanálise 2. Psicopatologia
1. Título II. Série
82-0127
Dedico este livro

ao Prof. Dr. Eustáquio Porteila Nunes.


Com ele, aprendi que ainda preciso ser aluno.

Ao Dr. Moisés Groismam.


Com ele, aprendi a ser amigo.

Ao Dr. Carmine Matuscelio Neto.


Com ele, aprendi o quanto me ensinam os que penso que aprendem comigo.
SUMÁRIO

Introdução - 13

CAPÍTULO 1
Aspectos genéticos. O conceito de causalidade psicopatológica.
As séries complementares de Freud - Pág. 17

A ilusão da causa única - 17


A ilusão do encadeamento - 18
A insuficiência da causa múltipla - 19
Feedback ou causalidade de ação recíproca - 20
As séries complementares de Freud. As causas em psicopatologia psicanalítica - 21
Resumo sobre as causas ou motivações em psicopatologia psicanalítica - 23
Problemas e questionamentos sobre a ilusão da causa única - 24
Problemas e soluções do feedback – 25

CAPÍTULO II
Etapas da evolução psicossexual
Características da sexualidade infantil - Pág. 27

Estágio oral - 30
a. Fonte - 30
b. Objeto - 31
c. Finalidade pulsional - 32
1. Divisões da oralidade - 32
a. Oral primário - 32
b. Oral secundário ou canibalístico - 33 .
2. O relacionamento de objeto - 33
3. O primeiro objeto: a mãe - 34
4. A relação de dependência com o objeto primário - 35
5. A evolução no conhecimento dos objetos - 35
6. O desmame - 37
Estágio anal - 38
a. Fonte - 39
b. Objeto - 40
c. Finalidade pulsional - 42
1. O relacionamento do objeto na fase anal - 45
a. O sadismo - 45
b. O masoquismo - 46
c. A ambivalência - 46
d. Bi e homossexualidade; atividade e passividade; narcisismo anal - 46
Estágio fálico - 48
1. O desenvolvimento psicossexual - 49
O erotismo uretral - 49
A masturbação infantil - 50
a. A curiosidade sexual infantil - 52
A descoberta da diferença sexual anatômica - 52
A cena primária ou primitiva - 54
A escopofilia ou voyeurismo - 55
b. As teorias sexuais infantis - 56
Teorias infantis sobre a fecundação - 56
O parto anal - 56
A idéia do coito sádico - 57
2. O aspecto narcísico e pré-genital do estágio fálico - 57
a. A ilusão narcísica - 58
b. A descoberta e sua negativa - 59
3. Angústia de castração - 59
a. A angústia de castração no menino - 61
b. A angústia de castração na menina - 62
Estágios genitais - 63
1. O complexo de Édipo - 63
a. Formas do complexo - 64
b.Alguns conceitos básicos em relação ao Édipo - 65
Hipótese natural - 68
Hipótese dualista - 68
Hipótese social - 69
2. O problema da estrutura pré-edipiana - 70
3. O relacionamento de objeto edipiano - 73
4. O complexo de Édipo no menino - 74
5. O movimento exogâmico do menino - 75
6. O complexo de Édipo na menina - 77
A importância da mudança de objeto - 77
As decepções estruturantes - 78
Conseqüências da inveja do pênis - 79
A procura do pai - 81
Os restos da fixação à mãe - 82
7. A finalização do complexo de Édipo - 82
8. Algumas considerações sobre a importância do estudo do complexo de Édipo - 84

CAPÍTULO III
O Ego, o Superego, o Ideal do Ego - Pág. 87

A identificação - 87
a. Identificação primária - 88
b. Identificação secundária - 90
e. Fixação, identificação e Édipo completo - 91
1. Genética e dialética das identificações. Identificação primária, narcísica e edípica - 93 Algumas
definições e conceitos ligados à identificação usados em psicopatologia - 98
1. Identificação total - 98
2. Identificação parcial - 98
3. Identificação permanente - 98
4. Identificação transitória - 98
5. Identificação introjetiva - 98
6. Identificação projetiva - 99
7. Identificação com objeto total - 99
8. Identificação com objeto parcial - 99
9. Identificação progressiva - 99
10. Identificação regressiva - 99
11. Incorporação - 99
12. Assimilação - 99
13. Introjeção - 100
14. Ejeção - 100
15. Projeção - 100
16. Internalização - 101
17. Imitação - 101

18. Identidade - 101


As instâncias do ideal do ego e do superego –102
Funções do ego, do superego e do ideal do ego - 103

CAPÍTULO IV
Latência, Puberdade, Adolescência - Pág. 105

Período de latência - 105


1. Desenvolvimento psicossexual do período de latência - 106
2. O relacionamento de objeto - 107
A puberdade - 108
1. Desenvolvimento psicossexual da puberdade - 108
a. A pubescência - 108
A adolescência - 109
1. A masturbação - 110
a. Fatores externos de pressão - 112
b. Fatores internos de pressão - 112
2. O relacionamento de objeto e a escolha objetal na adolescência - 113

CAPÍTULO V
Noções de metapsicologia freudiana - Pág. 117

O que é um “modelo” - 118


O ponto de vista tópico ou topográfico - 120
1. O primeiro tópico - 120
a. O sistema percepção-consciente ou consciência - 122
b. O pré-consciente - 122
c. O inconsciente - 123
d. Censura - 125
2. O segundo tópico - 126
a. O id - 129
b. O ego - 129
c. O superego - 131
O ponto de vista econômico - 133
1. Energia livre e energia ligada - 135
2. Processo primário e processo secundário - 136
3. Princípio do prazer e princípio da realidade - 137
O ponto de vista dinâmico - 139
1. Teoria das pulsões - 142
Primeira etapa - 143
Segunda etapa - 145
Terceira etapa - 148
a. Compulsão à repetição - 149
b. A problemática do sadismo, o masoquismo e a agressão - 150
Recapitulação e revisão das teorias pulsionais - 151
Teoria da angústia - 152
1. Primeira teoria da angústia - 153
a) Considerações sobre a angústia real ou a realidade da angústia - 154
b) Susto, angústia, ansiedade e medo - 155
2. Segunda teoria da angústia - 157
a) A importância do complexo de castração na segunda teoria da angústia - 158
b) Inibição, sintoma e angústia - 159
Angústia automática - 159
“Angústia-Sinal” ou o sinal de angústia - 161

CAPÍTULO VI
Sonhos, fantasias e função imaginária - Pág. 165

Sonhos - 165
Fantasias, devaneios, nível imaginário - 171
1. Fantasias originárias ou primitivas - 178
a. Cena primária ou originária - 179
b. Fantasia primordial de sedução por um adulto - 179
e. Fantasia primordial de castração - 180

CAPÍTULO VII
Defesas, mecanismos de defesa - Pág. 183

a) O papel do mundo exterior na defesa - 184


b) O papel do superego e do sentimento de culpa - 185
c) O papel da angústia na motivação defensiva - 185
Os mecanismos de defesa do ego - 187
1. Dois mecanismos fundamentais: A repressão (recalque) e a divisão (cisão) - 188
a) Repressão, recalque - 188
b) Divisão, cisão. Recusa, rejeição, renegação - 190
Algumas considerações sobre a importância da cisão (Spaltung) em psicopatologia psicanalítica -
195

CAPÍTULO VIII
Os critérios de diagnóstico e as operações defensivas - Pág. 199

1. Parâmetros principais para o diagnóstico funcional em Psicopatologia - 201


a) Diagnóstico estrutural - 201
b) Diagnóstico de níveis de integração neurótica OU psicótica - 202
c) Diagnóstico de clivagem e estereotipia dos níveis organizativos - 203
d) Diagnósticos de níveis e graus de dependência-independência - 203
e) Diagnóstico de índices do neurotismo e do psicotismo - 204
As operações defensivas - 206
a) Considerações gerais - 206
b) Defesa e contracatéxia - 207
e) Classificação dos mecanismos de defesa - 209
Projeção - 210
Repressão, recalque - 213
Deslocamento - 213
Regressão parcial - 214
introjeção - 215
Isolamento - 216
Inibição - 216
Formação reativa - 217
Sublimação - 217
Negação (negativa) - 218
Identificação projetiva - 219
Divisão - 220
Renegação (forclusion) - 220
Regressão total - 220
Identificação introjetiva - 220
Introdução

A psicopatologia psicanalítica é uma encruzilhada de vários caminhos. Nela desembocam o


conhecimento da teoria psicanalítica geral, o conhecimento da psiquiatria dinâmica, o conhecimento
das contribuições técnicas psicanalíticas, assim como os enquadramentos epistemológicos
modernos que testam e avaliam todas essas produções discursivas.
Hoje, não resta dúvida sobre a imensa revolução. científica que significou a entrada em cena
da psicanálise no início deste século. A sistematização dos seus modelos para a compreensão da
conduta normal e anormal do homem, assim como a interpenetração de fatores biológicos,
psicossociais e culturais na produção sintomatológica, foram — e continuam sendo — de valor
inquestionável.
Mas, simultaneamente ao seu desenvolvimento como ciência, a psicanálise tornou-se cada
vez mais sofisticada. Sofisticação que alcançou tanto o nível teórico quanto o nível de ensino.
Entretanto, no meio de um vasto e às vezes confuso florescimento de escolas, surgiram tendências e
redescobertas, novas gerações de estudantes de psicologia, medicina, assistência social, sociologia,
antropologia, e até da própria psicanálise clínica. Como processo lógico, foi impossível a essas
gerações, especialmente as dos últimos vinte anos, ter acesso às leituras teóricas simples, explicadas
com certa candura.
Um dos efeitos dessa complicada pedagogia psicanalítica foi um desprezo, carregado de
temor, pelo estudo dos conceitos elementares que sustentam o trabalho clínico. Outro efeito, tão
daninho quanto o primeiro, foi o fato de ser considerado como cientista, apenas o psicólogo, o
médico psiquiatra, o psicanalista, que se expressasse em “dialeto difícil”. Os profissionais acabaram
falando em teoria psicanalítica, porém são poucos os que podem explicar o que dizem, a
importância de seu conhecimento e — sobretudo — sua articulação com a clínica cotidiana. Parece
existir uma espécie de consenso não explícito segundo o qual, quanto mais obscura, mais
complicada e mais “barroca” a explicação, mais “científica” ela é. Talvez minhas afirmações sejam
ingênuas. Efetivamente, pretendo ser ingênuo.
A ingenuidade consiste, por exemplo, em pretender ensinar as fases clássicas da evolução
psicossexual, pensando clinicamente nelas. Ou seja, explicando de maneira relativamente simples a
importância clínica de seu estudo e posterior aplicação. A ingenuidade consiste em querer mostrar
os modelos metapsicológicos freudianos da forma mais clara, para depois refletir sobre eles.
Um esclarecimento importante: pretendo ensinar a psicopatologia psicanalítica a partir dos
textos de Freud. Isso não significa desconhecimento dos autores que em grande parte contribuíram e
contribuem para o enriquecimento da clínica psicanalítica. Mas, conforme foi dito acima, penso que
é fundamental “começar desde o início”.
Este livro destina-se principalmente àqueles que precisam “pensar ‘psicopatologicamente’
com a ajuda da teoria psicanalítica”. Também pode ser consultado com proveito por aqueles que
precisam alinhavar conhecimentos dispersos. Por exemplo: que relação existe entre a oralidade e os
transtornos psicossomáticos da pele? Qual a importância do estudo do complexo de Édipo? Quais
são os vínculos teórico-clínicos entre a identificação, a pulsão e a fantasia? Quais são os
mecanismos de defesa fundamentais do aparelho psíquico? Qual a diferença e a importância prática
dos conceitos de “susto”, “medo” e “angústia”? E assim por diante.
Ou seja: o livro pode ser lido como uma espécie de “alfabetização” em psicopatologia
psicanalítica, ou como uma pequena obra de consulta de alguns conceitos não muito divulgados na
bibliografia clássica.
De qualquer maneira — e como acontece com textos similares — o leitor só terá um
conhecimento cabal de alguns temas numa segunda ou terceira leitura, além de consultar a
bibliografia mínima referida em cada caso.
Desde o aparecimento do Vocabulário da Psicanálise de e Pontalis, sua leitura, consulta e
releitura tem-se tornado indispensável para o estudioso da psicanálise. Esse livro deve ser o
acompanhante natural do estudo dos temas psicanalíticos. Contudo, a leitura dessa obra tão
profunda não substitui a dos textos freudiallos originais.
A presente Introdução à Psicopatologia Psicanalítica pretende, através das transcrições
textuais da Edição Standard Brasileira e de comentários de textos, incentivar o leitor a pesquisar no
coração da obra do criador da psicanálise. Por formação e conhecimento, sou freudiano, sem saber
muito bem que coisa é “ISSO”. Há muitos anos leio Freud, ouço falar de Freud e me aventuro em
novos “retornos” a ele. Porém, em absoluto não acredito em nenhuma “pureza” de leitura, ou em
grupos que se autodeterminam “verdadeiros” seguidores ou detentores da ortodoxia, do espírito de
Freud. Não acho que a verdade exista de uma vez por todas; antes, creio na multiplicidade com que
ela se manifesta e que permite criar, burilar, transformar.
Esta Introdução não teria sido feita sem a inestimável ajuda de Celina Portocarrero. Ela
“traduziu” meu pensamento falado num português correto e sintaticamente bem articulado. Minha
eficiente secretária, Mariza de Fátima da Silva Ramos, colaborou intensamente, datilografando uma
e outra vez as correções.
Merece palavras especiais a colaboração direta do Dr. Carmine Matusceilo Neto.
Introduzido no âmago de minhas intenções pedagógicas, foi ora um leitor delicado, ora um crítico
hábil. Fez correções com paciência e sugestões com fino tato quando considerou que o texto estava
obscuro ou incompreensível. Foi a única testemunha de meus devaneiOS docentes e ajudou
corajosamente a lhes dar luz.
Todo autor pretende a imortalidade... Por que escreveria se não fosse assim? Nesse sentido,
este livro pretende também veicular, ser porta-voz da palavra de um gênio: Freud. Mas pretende
também que a sua imortalidade não seja dogmática, repetitiva, estéril. Os tempos de hoje reclamam
criatividade, transformações, voltando-se para as necessidades dos que começam a percorrer a trilha
complicada e apaixonante da clínica psicopatológica. Os pacientes serão os verdadeiros
beneficiários.

CAPITULO 1
Aspectos genéticos
O conceito de causalidade psicopatológica
As séries complementares de Freud

Um estudo dos fenômenos psicopatológicos tal como se apresentam aos olhos do clínico
requer, antes de tudo, que este tenha permanentemente presente alguns princípios básicos relativos
ao conceito de etiologia ou causalidade. Seguiremos o ordenamento pedagógico exposto por José
Bleger em Psicologia de la Conducta (Ed. Eudeba, 1963, Buenos Aires).
A singular complexidade das manifestações psicopatológicas torna necessária a
discriminação dos diferentes tipos de causalidade que se apresentam em nosso estudo científico.
Abordaremos mais detalhadamente o conceito empregado por Freud, de uso corrente na
comunidade psicanalítica atual.
É preciso esclarecer que estudar causalidade é estudar motivações e, portanto, responder ou
tentar responder aos porquês:
Por que alguém adoeceu em determinado momento?
Por que um paciente fez uma esquizofrenia e não uma neurose obsessiva?
Quais as razões existentes para que, numa mesma família, alguns membros desenvolvam
certos tipos de condutas patológicas e outros não?
Os cientistas descrevem diversos conceitos de causalidade:

A ILUSÃO DA CAUSA ÚNICA

Também chamada monocausalidade unidirecional: é a forma mais simples de se responder a


um porquê determinado. Diz-se, igualmente, causalidade mecânica, por supor uma única causa
atuando num determinado corpo que a ela reage, e cujo efeito esgota-se posteriormente (figura 1).
A descrição desse tipo de causalidade simples é importante por se tratar da base dos
conceitos descritos a seguir, e da modalidade mais comumente utilizada por cientistas jovens, que
abordam ingenuamente fenômenos sumamente complicados, cuja explicação é tornada insuficiente
quando se emprega esse tipo de conceituação. Frisamos que nunca os sintomas ou as doenças
mentais reconhecem uma única causa produtora ou desencadeante. Pensar desta maneira é pensar
ilusoriamente, o que pode conduzir o profissional a erros graves.

A ILUSÃO DO ENCADEAMENTO

Esta é uma variação da anterior, observando-se aqui uma causa que atua sobre um
determinado corpo e produz efeitos que, por sua vez, se transformarão em estímulos para outros
corpos, e assim sucessivamente (figura 2). Um exemplo clássico seria o jogo de sinuca, no qual um
toque na primeira bola provoca o movimento subseqüente de várias outras. A duração do
movimento será proporcional, entre outras variáveis, à força do estímulo.

Observando o tipo de causalidade analisado na figura 1 veremos que ele é válido também
para esse segundo conceito de monocausalidade encadeada ou linear, onde a ilusão da causa única
está potencializada mecanicamente1.

A INSUFICIÊNCIA DA CAUSA MÚLTIPLA

Esse tipo de causalidade corrige as falhas do mecanismo implícito das duas anteriores,
adaptando-se melhor, porém, ao pensar psicopatológico. (Figura 3.)

1
Os riscos de erros são tão grandes quanto os da concepção anterior.
Esta visão tenta explicar a complexidade fenomenológica mediante uma extensa gama de
causas que atuam em diferentes ângulos e em diversas direções, incidindo sobre determinado corpo.
Como resultado, teremos um somatório das forças intervenientes.
Este conceito de causalidade foi abordado e desenvolvido por Kurt Lewin (Lewin, K.
Principies of Topological psychology, McGraw Hill, New York, 1936), sendo importante na
explicação de determinados fenômenos que acontecem com O indivíduo, tanto em contato com seu
grupo imediato, como com a comunidade. Os riscos de erros são, aqui, consideravelmente menores,
mas a complexidade dos fatores intervenientes torna esta concepção ainda insuficiente.

FEEDBACK OU CAUSALIDADE DE AÇÃO RECÍPROCA

Este tipo de causalidade é um aperfeiçoamento do tipo anterior, já que se admite nele a


multiplicidade causal, mas acrescentando que os efeitos produzidos por essas causas retroagem
sobre essas mesmas causas, produzindo-se um condicionamento mútuo às vezes extremamente
complexo. (Figura 4.)

Se A fosse uma mãe superprotetora e B seu filho que chora, cada vez que houvesse um
afastamento entre ambos, se daria uma troca de estímulos que, na linguagem da Teoria da
Comunicação, seria chamada de informações mutuamente condicionadas. A mãe estará sempre
presente tão logo o filho manifeste necessidade de sua presença. Este estímulo é qualificado de
superprotetor. Ele provocará o desaparecimento do pranto do filho, o que se constituirá em
informação para a mãe de que o filho recebeu a mensagem por ela emitida. O filho, por sua vez,
provocará a super- presença da mãe cada vez que chore.
Arbitrariamente digamos que C, em nosso esquema, é um outro filho desta mesma mãe que
com estímulos apropriados faz chorar a seu irmãozinho B, desencadeando com isso todo o esquema
de superproteção descrito acima.
No esquema podemos constatar que existem setas diretas que vinculam a mãe A ao filho C.
Facilmente se deduzirá a informação que chega a C quando A está com B e a que chega a A, ,ou
parte de C, quando este está com B.
É necessário esclarecer que este fenômeno de ação recíproca muito mais complexo, já que
os personagens de toda ação se modificam e são modificados cada vez que são sujeitos e/ou objetos
dos estímulos produzidos.
Isto é, embora aparentemente as causas atuantes sejam iguais, nunca sua qualidade é a
mesma. Cada momento é um momento diferente, singular e distinto. Dentro deste pensamentos
diremos que não há começo e fim. As causas são sempre mutuamente interdependentes.
É importante também acentuar que o fundo contextual, ou cenário, onde os fenômenos se
dão, atua por sua vez como causa, interatuando e aumentando a complexidade das relações dos
personagens. Em nosso exemplo, a configuração que arbitrariamente escolhemos por A, B e C se dá
sob um fundo mais ou menos constante, que poderia ser, por exemplo, a casa onde vivem. Mas será
suficiente mudarmos o cenário e transportá-los a outro contexto para que os fenômenos tanto dos
personagens quanto do novo cenário adquiram uma configuração diversa.
A importância do princípio de ação recíproca está no fato de que é a que melhor se adapta ao
modelo de causalidade oferecido por Freud, o que será abordado a seguir.
AS SÉRIES COMPLEMENTARES DE FREUD.
AS CAUSAS EM PSICOPATOLOGIA PSICANALÍTICA

Esta 6 a teoria dos “porquês” introduzida por Freud e que é válida e pertinente como modelo
explicativo dos fenômenos psicopatológicos. (“Conferências Introdutórias sobre Psicanálise”,
Standard Brasileira, vol. XVI, p. 423 - 1916/17.) As séries complementares são assim chamadas
precisamente por descreverem uma seqüência interdependente de causas que interatuam entre si.

Como podemos observar na figura 5, a primeira série está constituída pelos elementos
transmitidos geneticamente e também pelos que se desenvolveram durante a vida intra-uterina.
A segunda série complementar se encontra composta pelas experiências infantis que, como
ensinou Freud, adquirem relevante importância pela idade em que ocorrem, e são decisivas na
formação da personalidade.
As duas séries em conjunto e combinando-se em proporções variáveis dão como resultado a
disposição que interatuará com os diversos fatores atuais ou desencadeantes, produzindo a
sintomatologia psicopatológica. Como facilmente se deduz, um sintoma ou um conjunto deles é o
produto final de uma complicada série de fatores e situações que aparecem hoje, mas que na
realidade se originaram em outro tempo e em outro lugar.
Este último conceito é sumamente importante e também foi desenvolvido por Kurt Lewin.
Seguindo sua linha de pensamento poderemos dizer que os fatos passados não existem agora. O do
passado e sua influência são indiretos.
Assim, uma mulher aos 30 anos com paralisia histérica terá um ou vários “porquês”, que
devem ser buscados em seu passado, tanto infantil, quanto congênito ou hereditário. Mas ainda que
estes dados expliquem a paralisia, não nos fornecem o porquê do seu aparecimento em um dado
momento, em uma dada situação e vinculada a um certo tipo de objeto.
Esta maneira de observar o campo psicopatológico faz com que o presente e o passado se
articulem em uma interação constante, o que não nos impede, contudo, de hierarquizar sempre os
fatores causais, podendo dar prevalência aos mais atuais, que não só desencadeiam condutas, mas
também permitem sua persistência.
Para encerrar este capítulo, será interessante transcrever um parágrafo de Luiz Alfredo
Garcia-Roza: “Freqüentemente ouvimos a confirmação de que a psicanálise adota um conceito
histórico de causalidade porque explica os fatos presentes por fatos passados ocorridos na infância.
Parece que há aí um engano. Freud não considera que a causa de um determinado distúrbio atual
seja um fato localizado na infância. Uma coisa é a gênese histórica deste fato, isto é, como ele se
localiza num processo histórico individual que teve origem no nascimento e de que maneira ele se
relaciona com outros acontecimentos ou momentos deste processo; outra coisa é a pergunta sobre a
causa deste fato, isto é, qual a dinâmica da situação presente, que tem como resultado o
comportamento em questão. Na verdade, para Freud não fazia qualquer diferença se o fato passado
apontado como a causa do atual tivesse realmente existido ou não. Ele considera que um histérico é
uma pessoa que sofre de reminiscências. Portanto, é a sua referência a um passado que está afetada
e não este passado considerado em si mesmo”. (Psicologia Estrutural, Ed. Vozes, Petrópolis, RI,
1972.)

RESUMO SOBRE AS CAUSAS OU MOTIVAÇÕES EM PSICOPATOLOGIA PSICANALÍTICA

1. Todo fato psicopatológico se origina no passado, mas só se manifesta e se mantém devido a


fatores presentes.
2. Não existe a simplicidade causal. Um fato psicopatológico é multideterminado e se conserva em
permanente movimento: ele é criado pela interpenetração de fatores históricos presentes. Por sua
vez, ele interatua com seu meio atual modificando-o e sendo por ele modificado.
3. Deduz-se dos parágrafos anteriores que não pode ser único ou estático o diagnóstico em
psicopatologia. Um diagnóstico abrangente deverá contemplar os processos que deram aos sintomas
atuais assim como também as causas situacionais presentes que o perpetuam.

PROBLEMAS E QUESTIONAMENTOS SOBRE A ILUSÃO DA CAUSA ÚNICA

A principal crítica a esta concepção é a dos que pensam que os fatos se originam e se
mantêm linearmente, o que deveria supor, forçosamente, uma causa de origem. Esta é precisamente
a armadilha em que cai o profissional iniciante — e a que geralmente possui o paciente quando é
solicitado a dar uma explicação sobre fatos psicopatológicos atuais.
Se nós supusermos que o encadeamento histórico dos fatos tem um começo absoluto,
automaticamente se infere que houve a participação de uma CAUSA PRIMEIRA1,. A Suposição de
uma Causa Primeira é, na prática, uma suposição teológica (Santo Tomás de Aquino, Suma
Teológica, vol. 1, cap. 46, art. 2, Réplica ao Objeto 7). Facilmente se compreende que só uma
deidade (divindade) pode ser tão eficaz para resumir nela mesma todas as Causas Primeiras das
coisas, deixando em segundo plano as assim chamadas Causas Secundárias ou Naturais.
Outro problema que apresenta a Causalidade Linear ou Única é exigir a regressão ao infinito
se não se admite a hipótese da Causa Primeira. Quer dizer: retroceder em procura de alguma
explicação. Bem próximo aos inconvenientes teológicos da Causa Primeira, o postulado do assim
chamado regressus ad infinitum eleva este infinito à categoria de divindade. Assim, se a intenção é
tentar explicar o desconhecido atual mediante o conhecido histórico, a regressão ao infinito faz
exatamente o contrário: — explica as situações presentes mediante um passado totalmente
desconhecido, hipotético, mítico. Talvez em psicopatologia a maior limitação deste modo de pensar
seja sua extrema ambiguidade, que a exigência é retroceder em busca de causas, sem nos determos
em algum fato ou estágio do desenvolvimento. O pensar psicopatológico psicanalítico não pode
prescindir de níveis ou etapas definidas (como p. ex. as etapas da evolução psicossexual) num
processo contínuo dentro de novas possibilidades que vão produzindo saltos qualitativos, o que
torna descontínuo este mesmo processo.

PROBLEMAS E SOLUÇÕES DO FEEDBACK

Os modelos da monocausalidade e da causalidade linear afirmam a dependência de um


princípio geral, o princípio da causa-efeito,e levam em consideração uma atividade, mas não a
retroatividade.A partir do início do século XIX alguns cientistas e filósofos começaram a admitir
que as causas naturais sofrem sempre mudanças, as quais fazem parte de sucessivos processos mais
abrangentes que, por sua vez, produzem outras mudanças. A unidirecionalidade da causa antecedeu
o moderno conceito de interação. Os modernos conceitos de retroação ou feedback incluem, entre
outros aspectos de interesse para o psicopatologista, o mecanismo de controle. Em qualquer
aparelho elétrico, como a geladeira, o calefator, etc., uma parte dos efeitos produzidos pela entrada
da eletricidade é reenviada a um dispositivo especial que se chama “controle” e este realimenta a
entrada de energia, corrigindo e regulando-a em todo o sistema. (Figura 6.)
O aparelho se auto-regula desta maneira e também com a intervenção externa indispensável,
fazendo subir ou descer a temperatura, conforme programações prévias.
Este modelo tem então significativa relevância para os estudos Psicopatológicos modernos.
Assim, toda vez que as funções — Vistas de forma muito simplificada na figura 6 — podem ser
ocupadas por. diferentes personagens de um grupo familiar, podemos explicar a manutenção auto-
regulada de uma doença mental: Esta auto-regulação servirá de resistência a qualquer mudança,
pois o doente mental incluído dentro deste sistema estará cumprindo funções reguladoras de
equilíbrio homeostático.

Então passam a ser entendidos alguns fenômenos que ocorrem com as outras partes do
sistema familiar, quando um doente melhora, pois tende (o resto do grupo familiar) a apresentar
distúrbios de conduta que anteriormente não possuía.
Deveremos aqui advertir que o conceito de ação recíproca ou feedback tem limitações, e que
seu uso abusivo pode ser perigoso, apesar de ser muito útil aos objetivos de algumas explicações,
não só no terreno dos vínculos objetais como no de todo sistema aberto.
A maior parte dos estudiosos da epistemologia moderna alertam contra a tendência da
localização das causas e efeitos em forma simétrica, excluindo radicalmente alguns níveis de
predominância dos fatores intervenientes, assim como conexões genéticas estruturais absolutamente
irreversíveis.
Descobrir a complexidade de ligações encerradas em si mesmas dentro de um fato
psicopatológico e sua respectiva manutenção através de vínculos atuais é, portanto, de extrema
importância. O fenômeno da interação não esgota todas as Possibilidades causais, já que não está
inteiramente comprovado que as mudanças significativas sejam apenas o resultado dessa interação
dos diversos componentes entre si. Realmente, podem produzir-se mudanças ou efeitos de alta
significação apenas pela predominância clara de um dos determinantes em jogo, embora devamos
reconhecer que esta predominância se concretiza a longo prazo e por fatores externos a ela.

CAPITULO II
Etapas da evolução psicossexual
Características da sexualidade infantil

Será necessário captar bem o que é a sexualidade para a teoria psicanalítica a fim de melhor
entender os quadros psicopatológicos e agir operativamente com eles.
Mais adiante (ver p. 139) nos ocuparemos com mais detalhes do modelo dinâmico, o qual explica e
fundamenta esta sexualidade, porém adiantaremos agora o ponto de partida pelo qual Freud
concebeu este conceito.
Freud observou que as crianças que mamam no peito, após a satisfação de sua fome,
continuavam a ter uma série de movimentos labiais ou mesmo de toda a extremidade cefálica,
inclusive chupando o dedo polegar ou a mão inteira. O princípio elementar a que o grande
observador recorreu foi levantar a hipótese de que, se o neném tinha satisfeito já os instintos que
demandavam a alimentação específica, essa continuação dos movimentos era explicada por um
excesso de energia não satisfeita e que demandava, em conseqüência, objetos não alimentícios (o
ato de roçar a pele, as sensações de movimento músculo- esquelético, a sensação de suspensão ao
colo, etc.).
Freud denominou a primeira classe de instintos de autoconservação e a segunda de instintos
sexuais. Como facilmente se deduz, os instintos de autoconservação têm objetivo específico neste
caso, o leite — e sua satisfação não pode ser adiada. Por outro lado, os instintos sexuais não têm
objeto especifico - podem ser satisfeitos com a pele, com o roçar de uma coberta ou lençol, com o
movimento rítmico de um carrinho, etc. — e, além disso, não exigem satisfação imediata. Este
ultimo conceito exige um esclarecimento: quando nós dizemos que os instintos sexuais podem ser
adiados na obtenção e sua satisfação, estamos dizendo que o seu não-cumprimento, tanto total
quanto parcial, não compromete a vida do sujeito, ao contrário dos instintos de autoconservação,
cujo cumprimento é imperioso e inexorável para que a vida do sujeito não fique comprometida.
Devemos ressaltar que o conceito de sexualidade em Freud tem, sem nenhuma dúvida, um
suporte biológico, mas, como o leigo facilmente compreenderá, a sexualidade aparece como
secundária, como manifestação cuja ordem de importância vem depois de serem atendidas as
necessidades básicas de sobrevivência. Esta sexualidade ainda tem pouco a ver com a genitalidade,
pois está ligada a carinho, a afeto, a modalidades de relacionamento, ou seja, significações.
Portanto, enquanto para o biólogo, médico-pediatra, interessará a freqüência das mamadas do
neném, a quantidade do líquido ingerido, o aumento ou a diminuição do peso — elementos sem
dúvida de grande importância — para o psicólogo ou o psicanalista o que interessa é o como se
realiza essa alimentação, pois nesse como é que se poderão observar as modalidades pelas quais
serão satisfeitos os instintos sexuais.
Após esta pequena introdução, podemos dizer que a sexualidade infantil, sob o ponto de
vista descritivo, não tem nada a ver com a sexualidade adulta, e apenas que, sob o ponto de vista do
processo, esta é uma continuação direta daquela.
Talvez a diferença mais importante entre uma e outra resida naquilo que corriqueiramente se
entende por sexualidade adulta, que é predominantemente genital, enquanto que na infantil, como
no exemplo acima, a predominância é muito variável, quase sempre não genital e, na maior parte
das vezes, desorganizada, disputando primazias no percurso de seu desenvolvimento:
ora anal, ora, genital, ora oral-genital, e assim por diante.
Assim, pode-se compreender também porque alguns autores denominaram aspectos da
sexualidade infantil de fase “perverso-polimorfa”. Com este termo fazem alusão ao fato de que a
primeira sexualidade não chega ainda às fases de liderança genital, mas sim que se apresentam em
forma multifacetada, variada, com escassa organização. Outra característica da sexualidade infantil,
que a difere da do adulto, é que seus fins não tendem ao relacionamento de coito. Estes, então, e
pelo próprio impedimento biológico, ficam apenas na fantasia, referida necessariamente ao próprio
sujeito, donde a denominação de sexualidade auto-erótica.
Além do mais, a sexualidade infantil é composta por diversos fragmentos que agem como se
fossem diversas estações que vão aparecendo e tomando lideranças e predominância dentro de todo
um todo organizável. A sexualidade infantil é composta por impulsos parciais. Só no adulto normal
é que ela alcança níveis totais, ou seja, integrativos, níveis sintetizadores desses fragmentos.
Uma última característica, que a diferencia da sexualidade adulta, é o fato de agir como se
fosse uma massa de excitações cuja origem ou fonte se encontrasse em qualquer parte do
organismo. Este último conceito é de capital importância do ponto de vista psicopatológico.
Enquanto um adulto, na maioria das vezes, consegue distinguir o lugar de origem de uma excitação,
o tempo que transcorre até alcançar seu clímax e a posterior satisfação, a criança, de um modo
geral, carece de uma diferenciação nítida entre excitação e satisfação. Praticamente se confundem,
se interpenetram, devendo-se ressalvar que, embora tradicionalmente se estudem pontos de
liderança biológica funcionando à maneira de organizadores o conceito de sexualidade infantil não
se reduz unicamente aos clássicos pontos — oral, anal, fálico, etc. Como já dissemos, qualquer
ponto do organismo é capaz de se converter em fonte excitável e, portanto, de satisfação: a
atividade mecânica músculo-esquelética, a atividade intelectual, os estímulos proprioceptivos e
exteroceptivos, ou, inclusive, a própria dor. À medida que o tempo passa — e esse tempo é muito
variável — é que a sexualidade infantil vai se definir, se adultificar, isto é, as zonas genitais irão
adquirir maior importância, podendo sua excitação, manipulação e descarga adquirir formas ou
modelos semelhantes ao orgasmo do adulto.
A isto se chama a “primazia genital”, ou seja, o pênis, o clitóris, a vagina e toda a zona
genital passam a ser capazes de concentrar toda a energia, toda a excitação que anteriormente se
encontrava espalhada, repartida em outras zonas.
Não ha dúvida de que, sob o ponto de vista do ordenamento e do processo, este segue diversas
etapas em seu desenvolvimento. Mas é importante salientar que essas etapas não se dão nunca de
um modo claro e seguindo uma cronologia etária definida. Existe sempre uma evidente
interpenetração das etapas que aumenta à medida que nos aproximamos das etapas genitais. A
genitalidade é quem ordena todo o processo anterior enfileirado por trás dela.

ESTÁGIO ORAL
A) FONTE

Definimos como estágio oral aquele primeiro período onde a fonte corporal das excitações
pulsionais se dá predominante- mente na zona bucal.
É preciso compreender que embora a boca proporcione um referencial concreto e preciso,
deveremos tomá-la apenas como um modelo de relacionamento nesta etapa. Queremos dizer que a
boca não é apenas aquela cavidade anatômica que cumpre determinadas funções de ordem
biológica, mas também qualquer outro sistema ou atividade corporal que preencha os requisitos
essenciais deste modelo — corpo oco, aconchegante, com movimentos de inclusão e expulsão, etc.
— será entendido como boca. Assim, por exemplo:
— o complexo aerodigestivo, incluindo, sobretudo na primeira etapa, todo o trato
gastrintestinal;
— os órgãos da fonação e da linguagem;
— todos os órgãos dos sentidos: olfato, paladar, visão e audição, são todos cavidades em
direta relação com o mundo exterior e que servem como intermediárias para a interiorização e
exteriorização, cada um dos quais com seu material específico;
— a pele, com todas as suas funções superficiais (tato) ou profundas (sensações
proprioceptivas).
Este conceito ampliado da boca como modelo proporciona, então, base e fundamento para
pensar nas doenças ou transtornos asmáticos, por exemplo, como problemas relacionáveis a este
período cio desenvolvimento. Pensar nestes termos implicará também imaginar que quando o bebê
se sente no colo da mãe, le vivencia sensações de ser “contido”, “tomado”, “chupado”, “tocado” por
uma imensa boca. Neste período do desenvolvimento, o bebê, em seu íntimo, não pode diferenciar o
que é uma mão, uma perna, ou uma boca propriamente dita. E, muito menos, onde termina ele, com
seus músculos e sua pele, e onde começa o outro, com seus músculos e sua pele e todos os
estímulos externos procedentes. Isto é, o neném não pode distinguir a origem do estímulo, se vem
de dentro dele ou se é de outra pessoa. Mais ainda: não podendo distinguir a origem do estímulo,
não pode distinguir o conteúdo do mesmo. Daí conclui-se que funcionará como alimento o que o
neném tocar ou aquilo que o tocar. Falar e ser falado será para ele, em certo nível e em certa época,
como tocar e ser tocado. E assim por diante. Só raciocinando deste modo, reportando-se ao vínculo
filho-mãe, o psicopatologista pode explicar a confusão aparentemente sem sentido de determinados
sintomas delirantes, ou o pensamento sensorializado da esquizofrenia, por exemplo.
B) OBJETO

O objeto da etapa oral é o seio, ou seja, tudo aquilo que se refere ao seio materno ou o
substitui. É necessário destacar que o seio materno vai satisfazer não só a necessidade biológica da
alimentação, mas também outros tipos de necessidades, como por exemplo o prazer de tocar a
mucosa bucal ou a mão no peito ou outro fragmento da pele da mãe, ou a sensação de calor que
toda extensão espacial do corpo da mãe transmite à criança. Como se pode observar, o conceito de
objeto não é redutível só ao seio, anatomicamente falando. “Seios” também são os braços da mãe,
os músculos que seguram o neném, a VOZ que fala contemporaneamente à incorporação do leite,
etc.
É enorme a importância do vínculo seio-boca neste período, porque ele é herdeiro do
vínculo estabelecido entre o feto e a mãe; isto é, o seio será o substituto do cordão umbilical. A
diferença fundamental entre os dois tipos de vínculo é que, enqua0 o cordão umbilical é uma
conexão contínua, o seio é Uma conexão descontínua embora concreta. Como se poderá deduzir, o
ar, o espaço aéreo, é definitivo, é fundamental como interposição entre o neném e sua mãe. Assim,
todos os autores aludem às fantasias neste período e não deixam de mencionar c alimento como
restituidor do vínculo perdido: a simbiose biológica intra-uterina.

c) FINALIDADE PULSIONAL

Neste período, a finalidade pulsional, isto é, o alcance ou a obtenção da descarga


(satisfação), é dupla:
— por um lado, a incorporação do sustento biológico, cujo representante máximo é o leite,
sem o qual o sujeito não pode subsistir. Compreender-se-á com facilidade que dar satisfação a estas
pulsões chamadas de autoconservação é uma premissa básica, porque sem elas, que funcionam à
maneira de suporte, não existirá psicologia nenhuma.
— por outro lado, simultaneamente com a satisfação trazida pela incorporação do leite
materno, o sujeito obtém um plus de satisfação que é conseqüência de um excesso de energia que
acompanha a pulsão oral de autoconservação. A este excesso se dá o nome de pulsão sexual, e sua
satisfação se estende além do limite espacial da boca em si mesma (estimulação lábio com lábio,
dedos com dedos, dedos com boca, boca com dedos) e do limite temporal (antes e depois de mamar
a pulsão se satisfaz em diversas partes do corpo).

1. DIVISÕES DA ORALIDADE

Karl Abraham dividiu o período oral em dois subperíodos:

A) ORAL PRIMÁRIO

Estágio oral primário ou de sucção, que se estende até os 6 meses de idade,


aproximadamente. Ë também conhecido pelos nomes de fase pré-ambivalente, estágio narcísico-
primário ou estágio anaclítico. Este subperíodo tem as seguintes características:
— predominância da incorporação proveniente do mundo externo sob a liderança das
necessidades biológicas de autoconservação;
— a satisfação auto-erótica como substituto compensatório nos momentos em que o objeto
outorgante da satisfação não está presente;
— tal como já foi dito anteriormente, existe uma indiferenciação no íntimo do neném entre
ele próprio e qualquer outra coisa que se encontre no mundo exterior. Simplificando ele ainda
acredita encontrar-se no útero;
— uma característica muito discutida por diversos autores: a ausência de amor e de ódio
propriamente ditos. Quer. dizer, neste primitivíssimo período do desenvolvimento, não há dúvida de
que existem os assim chamados afetos, mas titulá-los de Amor e de Ódio, como o faz, por exemplo,
Melanie Klein, seria adultificar e, portanto, deformar um processo, retirando características que lhe
são próprias.

B) ORAL SECUNDÁRIO OU CANIBALÍSTICO

Estágio oral secundário ou canibalístico — este estágio, que transcorre no decorrer do


segundo semestre do primeiro ano de vida, é caracterizado pelo aparecimento dos dentes, daí o
nome de canibalístico. Nessa época a criança se vincula pela primeira vez com o mundo exterior,
mordendo. A incorporação dos objetos agora é predominantemente sádica, destrutiva, e o objeto
incorporado é vivido dentro do aparelho psíquico primitivo e ainda rudimentar da criança como
mutilado, atacado, no sentido descritivo.
Será importante voltar a este estágio e suas conseqüentes fantasias, quando falarmos de
depressão e melancolia.

2. O RELACIONAMENTO DE OBJETO

Referimo-nos à relação ou relacionamento de objeto na teoria Psicanalítica como ao vínculo


dialético que compreende duas as diferentes modalidades de como o sujeito organiza seus objetos
internos e externos e também o modo pelo qual estes modelam a conduta do sujeito.

3. O PRIMEIRO OBJETO: A MÃE

O fato contido neste subtítulo, aparentemente óbvio, exige um pequena explicação. Embora,
em sentido amplo, seja indiscutível que o primeiro objeto com o qual o ser humano se relaciona sua
mãe, nem sempre esta mãe precisa ser sua, nem esta si precisa ser mãe. Este pequeno trocadilho
quer frisar que a mãe para o psicopatologista, é mais que um conceito, é uma função, que ocupará
um lugar com determinadas significações para cada criança em particular. Simplificando:
chamaremos mãe ao ser humano que alimente o neném e lhe proporcione calor, sustentação
espacial, contato dérmico, estímulos auditivos, etc. Essas funções podem ser realizadas por qualquer
pessoa, independente de sexo, idade ou vínculo de parentesco com a criança.
Há um outro ponto que torna problemática a noção objeto: é que inicialmente não existem
imagens completas de objeto no sentido psicológico do termo. O neném carece do sentido de
vinculação entre uma representação sensorial e outra. Para a visão, a audição, as multivariadas e
caleidoscópicas sensações provenientes de infinitas fontes, são fragmentos de uma realidade e por
isso são denominadas parciais, e não-unificadas.
Se alguma consciência pode ter o neném nas primeiras semanas de vida, é um tipo de consciência
muito arcaica, neurofisiológica, que depende totalmente das percepções polares tensão e
relaxamento. Assim é que ele observa e codifica o mundo em torno dele. Ou seja, ou o mundo é
tenso e sem prazer, ou o mundo é relaxado e prazeroso.
Outra ressalva, que se deduz do que foi dito anteriormente, refere-se à fragmentação objetal, esta
parcialidade de objeto, que nunca é simples, nítida, recortada, pois estes objetos parciais se
encontram condensadamente constituídos por fragmentos daquilo a que chamamos “mãe” e por
fragmentos das próprias sensações corporais do neném, visto que obviamente ele ainda não tem
noção alguma do que é seu e do que pertence aos outros.

A RELAÇÃO DE DEPENDÊNCIA COM O OBJETO PRIMÁRIO

O conceito de dependência é de capital importância em psicopatologia. Simplificando, o


homem é o único ser da natureza que nasce desarvorado, isto é, sem poder sustentar-se nem sequer
engatinhar ou tatear em busca de alimento, como o faz um filhote de cachorro. Isto quer dizer que
se não houver uma ajuda externa para socorrê-lo, alimentá-lo, abrigando-o, sustentando-o,
contendo-o, este recém-nascido morrerá inexoravelmente. Esta posição dramática de dependência
de outro ser humano coloca o recém-nascido à mercê dos objetos exteriores. O sujeito tem de
aceitar como condição indispensável da vida esta extrema dependência inicial que marcará para
sempre seu desenvolvimento psicológico. Uma das primeiras conseqüências que se pode deduzir do
parágrafo anterior é que somente outro ser humano pode humanizar (ver p. 87).
Uma segunda conseqüência é que para poder aprender, a criança pagará o elevado preço da
dependência, já que incorpora não só o leite e seus derivados posteriores, mas também o
complicadíssimo conjunto de sinais que os seres humanos lhe transmitirão, entre eles a linguagem.
Encontramos então um paradoxo fundamental e básico: para poder ser independente, tem
que depender. E, a posteriori, para poder se tornar independente deverá livrar-se das marcas da
dependência.
Observe-se a construção lingüística: IN-dependência significa literalmente incorporação,
interiorização de uma dependência. Resumindo, o sujeito independente e autônomo do futuro levara
para sempre a marca indelével da dependência inicial que lhe foi necessária para sobreviver.

5. A EVOLUÇÃO NO CONHECIMENTO DOS OBJETOS

A descoberta real dos objetos, tanto no sentido qualitativo como quantitativo se faz, como é
lógico, gradualmente.
a. Como a vida aérea, extra-uterina, inaugura o ritmo de contato e interrupção de alimento
que não existia previamente, favorecido pelo progressivo desenvolvimento neurofisiológico, os
momentos de ausência terão fundamental importância. Isto significa que as distinções entre a
presença ou ausência do seio, assim como (e decorrente disso) os pequenos estados de consciência,
dependerão da sensação de espera que a criança começa a ter daquele objeto-seio que lhe satisfez
anteriormente.
b. A diferenciação das percepções começa a ser feita progressivamente e, em vez da
codificação tenso x relaxado que vimos anteriormente, agora teremos confiança ou conhecidos x
estranhos ou duvidosos. Estes últimos é que são sentidos como perigosos e serão o embasamento
daquilo a que nós chamaremos Ódio, em oposição aos outros que outorgarão confiança e serão a
base do Amor.
c. Não resta dúvida que a comunicação humana vai-se enriquecendo à medida que se
produzem as diferenciações entre as diversas percepções. A criança principia a sintetizar os sinais
procedentes do complicado jogo não verbal e verbal de sua mãe. A manipulação que os adultos
exercem sobre ela são “pacotes” de informação que servem como pontes entre ela e o mundo
exterior que vai “emergindo”.
d. Inicialmente e pelas causas acima descritas (indiferenciação do mundo interno e mundo
externo, confusão entre o que origina o prazeroso e o sem prazer, etc.), o mundo fantástico do
neném é bivalente. Isto é, ele organiza suas percepções sentindo que existem alguns objetos que lhe
dão prazer, satisfação, e outros radicalmente distintos, que lhe causam desprazer e insatisfação.
Isto é o que se conhece, na teoria kleiniana, como objetos bons e objetos maus.
Como se compreenderá, tais qualificativos não têm nada a ver com valorizações de ordem
moral no que diz respeito aos objetos, ou fragmentos deles, aqui envolvidos, O máximo que
podemos dizer, do ponto de vista operacional, é que o neném, neste período, construirá seu mundo
interior com aquilo que sinta lhe está proporcionando a primeira experiência de prazer. Seja de que
origem for, essa experiência, impossível de ser traduzida em palavras, nós, cientistas, adultos,
tentamos explicá-la por metáforas. Assim, dizemos: estes são objetos bons, protetores, calmantes,
etc. Ao contrário, todas as experiências que causam desgosto, como por exemplo, a tensão da fome,
o incômodo da primeira irritação epidérmica provocada pelo retardamento na troca das fraldas, a
ausência prolongada da mãe, etc., serão vivenciadas como provenientes de objetos maus,
destrutivos, persecutórios, etc.
Mais adiante, particularmente a partir do segundo semestre do primeiro ano de vida, e
transitando já pela segunda fase oral, o mundo começa a ser sentido como ambivalente. Isto quer
dizer que pouco a pouco, e com as sínteses que vão se produzindo em todos os níveis, a criança
começará a compreender que suas sensações nem sempre serão produzidas por diferentes objetos, e
que, quase sempre, um mesmo objeto é origem de sensações opostas. O neném terá impulsos de
aproximação, ou seja, de amor primitivo e também de afastamento e destruição (ódio primitivo) em
relação à mesma pessoa.

6. O DESMAME

Entende-se por desmame o período, em torno dos doze meses de idade, em que é retirado
definitivamente ao neném o contato com o seio materno. Temos que fazer duas ressalvas:
a primeira é que a data de doze meses é absolutamente relativa,
-variando para cada mãe, para cada criança, para cada grupo social e para cada cultura. Em segundo
lugar, sublinhamos nessa data aproximada o último contato com o seio materno, a definitiva
separação dele como fonte alimentar e, concomitantemente, de prazer. Deduz-se facilmente que esta
experiência, que aparece perante os olhos do observador externo como brusca e dramática (e que de
fato às vezes assim o é), na realidade vai-se produzindo paulatinamente, a cada mamada.
Os intervalos existentes entre elas, cada vez mais tolerados pela criança, culminam, em dado
momento, com aquilo a que chamamos de desmame definitivo. Compreende-se também que na
imensa maioria dos casos coexiste um período de alimentação mista, no qual o neném
experimentará diversos modos de vínculos alimentares que lhe proporcionarão experiências
enriquecedoras de contato e comunicação entre ele e o mundo. Isto significa que quando se der o
corte oral definitivo, este terá tido um processamento histórico de diversos afastamentos
precedentes.
É necessário repetir que aqui entendemos por seio não só o “seio de carne”, mas também o
seio artificial, proporcionado pela mamadeira e seu bico de borracha, já que, como o leitor
lembrará, o conceito de mãe não se reduz somente ao aspecto biológico-alimentar puro. É preciso
que se ofereçam ao neném, juntamente com a boa qualidade e quantidade de leite, condições de
tranqüilidade, calor, aconchego, contenção, estímulos táteis, auditivos e olfativos, para que o
constructo mãe se incorpore exatamente da mesma forma.
Deste modo poderemos dizer que uma mulher que ama naturalmente seu filho pode não
cumprir os requisitos psicológicos para que o neném possua as marcas sensório-perceptivas daquilo
a que convencionalmente denominamos bom objeto, ou boa mãe. Por outro lado, um homem que
alimente artificialmente seu neném, cumprindo esta função com requisitos de atenção e profunda
intimidade senso-perceptiva, proporcionará a este neném os tijolos necessários e adequados para a
formação de seu ego.2
Em resumo, o conceito de mãe, como se observa, é relativo. E, como tal, deverá ser
pesquisado e explorado em cada situação e em cada caso.

ESTÁGIO ANAL
No curso do segundo e terceiro anos de vida, a criança já se encontra muito desenvolvida em
comparação com os primeiros meses de sua vida extra-uterina. Embora ainda não seja de todo
independente, possui uma série de funções que lhe permitem um afastamento progressivo e
relativamente autônomo de seus objetos primários (mãe, pai).

2
* Talvez aqui também se pudesse acrescentar que mesmo alimentando naturalmente o filho, ou seja, mesmo
cumprindo os requisitos de calor, aconchego, contenção, etc., isto pode não ser suficiente para transmitir-lhe a sensação
de mãe boa, porque a vivência da mãe má ou persecutória pode se instalar enquanto o bebê tem simplesmente fome e
chora, no lapso de tempo que decorre até que chegue o leite. Quer dizer, a vivência pessoal, individual de cada criança
contribui significativamente para determinar a forma como aquela criança vai apreender aquela situação. (Carmine
Matuscello Neto. Comunicação pessoal.)
Essas ditas funções são: a) engatinhar e andar; b) a linguagem ; c) O progressivo
aprendizado de funções fisiológicas que requerem primordialmente controle motor: comer sozinho
(sem ajuda de terceiros) e controle esfincteriano.

A) FONTE

É preciso dizer que a região anal se encontra em funcionamento desde o começo da vida,
mas não adquire grau de ativação nem caracteres libidinais até que as condições neurofisiológicas
de amadurecimento e meio ambientais ressaltem a musculatura voluntária como o centro principal
do desenvolvimento.
No nosso entender, este estágio se denomina anal porque o ato da defecação ocupa um lugar
importantíssimo no desenvolvimento psicossexual da criança; porém não se resume apenas no
controle esfincteriano. Este serve de modelo para o controle motor em geral, sensações de domínio,
prazer na expulsão ou na retenção, etc.
Portanto a fonte pulsional corporal, ou zona erógena parcial, de onde emanam as pulsões
neste período é a mucosa ano-retal, que terá a seu cargo sensações conscientes de um processo
muito importante para a autoconservação: a eliminação dos resíduos alimentares indigeríveis. Mas,
observado sob este ponto de vista, a fonte pulsional neste estágio muito mais ampla. Estende-se
desde o esfíncter pilórico (que separa o estômago do intestino) até a zona fronteiriça anal, que
separa o interior corpóreo do mundo exterior.
O leitor, familiarizado já com a explicação dos fenômenos psicossexuais através dos
modelos estruturais de funcionamento do aparelho psíquico (ver . 30), poderá agora ver O ânus
como uma nova boca, enquanto separa e une dois mundos, em dois movimentos diferentes. O
mundo exterior, que na etapa oral era representado pelo peito, e que, como já vimos, a criança não
distingue nem diferencia, passa agora a ser nitidamente discriminado como elemento distinto do
mundo interior. E é o esfíncter anal que faz esta delimitação, as fezes passando a ser vivenciadas
como conteúdos internos que são exteriorizados.

B) OBJETO

Assim como era fácil distinguir o objeto da fase oral, é bem mais difícil fazê-lo no estágio
anal. O aparelho psíquico relativamente simples da etapa oral foi adquirindo maior complexidade
graças ao contato com maior número de objetos e ao amadurecimento sensório-motor. É necessário
dizer que embora estejamos estudando a etapa anal de maneira isolada, só pedagogicamente é
assim. Na realidade, ela é herdeira da etapa oral, ficando esta ativa, mas superada pelas novas
formas que as exigências do crescimento vão determinando. Ou seja, a etapa anal tem
características específicas que a distinguem, mas não é possível estudá-la sem levar em conta seus
antecedentes históricos.
A mãe continua sendo o objeto privilegiado da criança, só que agora é um objeto visualizado
por completo (objeto total). Porém, psicologicamente, passa a ser para a criança uma função que
além de alimentar, dar aconchego e conter, demonstra interesse em sua capacidade de controlar
ativamente esfíncteres, mãos, deslocamentos espaciais, etc.
Daí que, para a criança, “mãe” será tudo aquilo que tentar manipulá-la, e que, por sua vez,
ela também manipulará, tendo como modelo o controle e a “manipulação” das fezes.3
É preciso lembrar que uma das primeiras descobertas da psicanálise foi justamente o
controle e a manipulação que os neuróticos obsessivos fazem com os objetos reais, e até com os
pensamentos, tratando-os como se fossem “bolos fecais”, que se retêm, que se expulsam, e com os
quais se obtém prazer.

3
Este manipular x ser manipulado é próprio da estrutura binária pulsional antitética deste período do desenvolvimento.
O “corpo” é já uma representação, uma projeção do nível biológico concreto. A realidade exterior é uma extensão do
próprio corpo, aparecendo este como um articula- dor com o outro.
Assim o ruminar obsessivo de um pensador qualquer tem sua origem e modelo na
capacidade de controlar a musculatura esfincteriana.
O assim chamado “bolo fecal” se constitui num objeto intermediário entre a criança e o
mundo exterior, e um verdadeiro “terceiro elemento” num conjunto em que, até então, haviam
existido apenas dois. A importância que adquire o bolo fecal como campo de disputa e de controle
entre os desejos do meio ambiente (mãe, pai, familiares, etc.) e os desejos da própria criança, torna-
o apto para se constituir, por um lado, em herdeiro do objeto-peito da fase oral precedente — e, por
outro, no antecessor do pênis, objeto privilegiado da fase psicossexual subseqüente.
De tudo isto, podemos resumir do bolo fecal o seguinte:
a. Como elemento concreto, é um excitante da mucosa ano-retal e, em tal sentido, totalmente
equiparável ao relacionamento existente entre o peito e a boca. Em ambos os estágios, podemos
questionar se a sensação de prazer é primariamente fisiológica ou secundária, adquirida pelo
aprendizado, ou as duas coisas juntas.
b. O bolo fecal é expulso do corpo da criança, é um elemento que dele se desprende em
definitivo. Observe-se a diferença entre o período oral e este: no primeiro, o movimento do objeto-
peito é “centrípeto”, tomando como eixo central a criança; na fase anal, o movimento é
“centrífugo”, ou seja, há uma exteriorização dos conteúdos internos. Neste sentido, o bolo fecal
contribui para modelar a importante noção do que é interno e do que é externo ao sujeito.
Compreender-se-á agora que o medo de ser deglutido na fase oral é substituído, na fase anal, pelo
medo de ser despojado do conteúdo corporal. Esta fantasia adquire vários matizes: ser arrancado,
ser violentado, e, sobretudo, ser esvaziado.
c. Pelas características de intermediação acima comentadas, o bolo fecal vai representar um
valor de troca entre a criança e o mundo exterior. Eis aqui o substrato psicossexual das
equivalências descritas por Freud entre as fezes — presentes que se oferecem ou se recusam — e o
dinheiro, constituindo-se, assim, este ultimo, entre os adultos, na representação daquilo que se
oferece em troca de alguma coisa e que adquire determinado valor (que deve estar, portanto, além
do que está escrito nos números do papel-moeda). Esse valor, que, para o adulto, se encontra além
dos números, tem sua origem na fase anal, nas maneiras — múltiplas maneiras — mediante as quais
as fezes foram valorizadas ou desvalorizadas. Um exemplo simples: quando a criança demonstra os
primeiros indícios de autocontrole, a mãe responde com sinais de satisfação. Produz-se aí um ponto
de ancoragem, de enlaçamento, de “sujeição”, de união e separação simultâneas, onde a criança
aprende que em troca do controle do bolo fecal obtém, no mínimo, a satisfação da mãe. O bolo fecal
começa então a adquirir características de valor. Esta mesma criança, convertida em adulto, terá
também valores que atribuirá às coisas próprias ou alheias.
Assim, o “belo”, o “feio”, o que vale a pena, o desprezível, e assim por diante, terá tido sua
origem remota na maneira peculiar como ela foi tratada e/ou manipulada neste período do
desenvolvimento. Compreende-se assim como o papel-moeda corrente (dinheiro) se constitui na
representação mais comum do que originalmente foi o bolo fecal. Um indivíduo adulto será
avarento, “pão-duro” ou generoso, “mão-aberta” quanto ao uso particular de seu dinheiro, conforme
tenha sido uma criança retentiva ou tenha mais docilmente atravessado o complexo aprendizado de
seu controle esfincteriano4.

c) FINALIDADE PULSIONAL

A finalidade pulsional é complexa tanto no que se refere à sua explicação quanto no que diz
respeito ao objeto. É evidente que a satisfação proporcionada pela função fisiológica defecatória
exige uma explicação mais complexa do que aquela fornecida pela fisiologia.

4
Deste modo, o valor adquire historicidade concreta. Não é o valor segundo Platão, para quem as coisas tinham valor
por si mesmas. O valor, para Freud, é valor enquanto desejabilidade. Ou seja, enquanto existam desejos de um
indivíduo dirigidos para uma determinada coisa, essa coisa estará encaixada na história desse desejo. A história do valor
será a história do desejo. Freud se insere desta maneira dentro da problemática filosófica de Spinoza, Hegel, Nietszche e
Marx, os quais desenvolveram uma crítica dos valores insistindo em torno de sua subjetividade.
Com efeito, tanto a expulsão do produto intestinal como a protelação deste ato são de um
poder erogênico indiscutível.
Karl Abraham descreveu classicamente dois subestágios:
1. A Primeira Fase Anal ou Fase Expulsiva — o prazer desta primeira fase é fornecido por
três vias:
a. A via fisiológica, que oferece agradáveis sensações na zona ano-retal, cada vez que se
produz a eliminação das fezes. Este prazer como facilmente se compreende, é auto-erótico, pois é
fornecido pelo ato em si.
b. A via “social”, que, apoiando-se na via fisiológica natural, outorga importâncias a estas
funções anais e conduz a criança a reforçar o interesse na função evacuatória e em tudo o que ela
conota: puxar, empurrar, fazer esforço, libertar-se de uma tensão, etc.
c. A via contingente, constituída pela introdução na zona anal de medicamentos como
supositórios ou tomadas de temperatura, ou lavagens freqüentes, além de sua necessidade ocasional.
Tais ações proporcionam uma série de sensações erógenas que podem (não necessariamente) se
constituir, em conjunto com as outras vias analisadas em a e b, em predisponenteS para estruturas
psicopatológicas da personalidade.
Esta Primeira Fase Anal Expulsiva proporciona dois aspectos que deverão ser salientados:
l.°) o auto-erotismo, como vimos acima, que é equivalente ao prazer auto-erótico proporcionado
pela passagem da língua entre os lábios ou pelo roçar de lábio contra lábio durante a fase oral. 2.°) o
aspecto sádico do período anal, aspecto este que para alguns autores adquire enorme importância,
denominando- se todo o estágio como sádico-anal.
É preciso esclarecer a dupla origem do sadismo na fase anal:
a. Por um lado, o ato fisiológico da expulsão, e as fezes em si, são vivenciados pela criança
como atos e objetos de escasso valor e que é por isso mesmo que acontece o ato da expulsão
(observe-se aqui o sentimento de descrédito, de desprezo, ao comum nas fantasias dos pacientes).
Toda essa rede de significações desliza facilmente para a linguagem cotidiana através as expressões
“caguei”, “fui cagado”, e assim por diante, que significam: “expulsei sem remorsos”, “fui expulso
sem consideração”.
b. O outro aspecto do sadismo está ligado a diversos fatores sociais, que “ensinam” a criança
a instrumentalizar esta propriedade fisiológica expulsiva para desafiar a autoridade dos pais, que
querem justamente o contrário: ensiná-lo a reter, a se limpar, a ser “educado”
2. A Segunda Fase Anal ou Fase Retentiva — aqui, ao contrário da fase anterior, o prazer se
encontra no ato de retenção das fezes, mas a origem desse prazer é igual nas duas fases, embora
instrumentalizado de maneira diferente.
a. A criança vai descobrindo progressivamente que a mucosa anal pode ser não apenas
estimulada pela expulsão, mas também pela retenção.
Existe um acordo geral de que aqui se encontraria a descoberta do prazer auto-erótico masoquista,
que é um componente da sexualidade normal. É preciso grifar que masoquista, neste contexto, quer
dizer uma série de sensações despertadas passivamente, ou seja, a criança sente que o acúmulo das
fezes na parte terminal do intestino provoca-lhe sensações de prazer. É num segundo momento que
este prazer se une ao ato voluntário da retenção. Aqui, então, a busca desta sensação de prazer será
ativa.
b. Como na fase anterior, o prazer na retenção das fezes está constituído pela enorme
importância que os adultos lhe atribuem. Daí que a criança começa a saber como manipular as
pessoas através da retenção das próprias fezes. Observemos, aliás, a reemergência do sadismo nesta
Segunda Fase Anal.
A criança terá duas alternativas, a esta altura de sua evolução psicossexual:
1. Pode utilizar-se de suas fezes como um presente, para satisfazer os desejos dos outros,
agradá-los, conquistar e manter seu carinho, ou simplesmente como uma demonstração de afeto, ou
2. Numa outra alternativa, que é reter as fezes durante certo tempo, o que será, na maioria
dos casos, entendido como hostilidade dirigida a seus pais que estão preocupados com a produção
das fezes e seu respectivo auto-heterocontrole.
1. O RELACIONAMENTO DE OBJETO NA FASE ANAL

É evidente que sobre a trilha da fisiologia, da expulsão e retenção das fezes, assim como
sobre os conflitos e vicissitudes suscitados pelo controle exterior (educação, limpeza, ordem, etc.), a
criança organizará seus vínculos objetais que terão quatro características básicas:

A) O SADISMO

Já terá o leitor reparado que este período do desenvolvimento está caracterizado pelo prazer
em agredir um determinado objeto.
Isso quer dizer que erotismo e agressividade são encontrados nas duas fases da analidade: na
primeira, há uma tendência a destruir o objeto exterior (expulsão), na segunda, conservá-lo com a
finalidade de controlá-lo (retenção). Ambas as tendências são igualmente fonte de prazer.
O problema do sadismo proporciona facetas interessantes sob o ponto de vista
psicopatológico, sendo que o progressivo domínio do controle esfincteriano permite à criança ter
acesso à noção de propriedade privada (visto que suas fezes, ele pode “oferecê-las” ou retê-las).
Quase simultaneamente com a noção anterior, ele constrói a noção de poder (poder sobre seu
próprio corpo e poder afetivo sobre os objetos do mundo exterior, na medida em que os gratifica ou
frustra mediante o controle esfincteriano)
Associados a estas duas noções estão os dois sentimentos peculiares e característicos desta
fase: os sentimentos de onipotência e de superestimação narcísica que a criança experimenta
opondo-se aos desejos de controle dos objetos externos sobre ela. Isto pode ser resumido na noção
de posse.
Assim, a fantasia característica deste período, e mediante a qual a Criança deseja, é qualquer
coisa sobre a qual ela possa exercer domínio ou “seus direitos” em geral. Compreender-se-á que
qualquer objeto é redutível mais primitiva possessão: as fezes.

B) O MASOQUISMO

Entende-se por este termo os vínculos de objeto cuja finalidade é passiva e que levam, como
conseqüência, à obtenção de prazer em experiências dolorosas.
É preciso ressalvar que, normalmente, sadismo e masoquismo estão juntos, falando-se então
de sadomasoquismo. Além do mais, embora não existam dúvidas de que este tipo de relacionamento
de objeto afunda suas raízes na fase anal, as explicações que os diversos autores têm oferecido são
pouco claras e, em alguns casos, contraditórias. Assim, classicamente, admite-se que o papel das
nádegas no masoquismo é relevante porque a libido se desloca desde a mucosa ano-retal até a pele e
a musculatura da região glútea. Outros autores não outorgam importância tão destacada às nádegas
e sim à satisfação erótica associada a castigos corporais ou diversas punições sofridas no decorrer
deste período do desenvolvimento.
Talvez o aspecto mais interessante deste problema seja a constatação empírica, tanto em
crianças como em adultos, das condutas de provocação ativas e agressivas que fazem com que os
objetos exteriores, provocados e agredidos, terminem agredindo o sujeito. A estreita união entre
sadismo e masoquismo ressalta aqui com toda a clareza.

c) A AMBIVALÊNCIA

Uma leitura detalhada dos itens precedentes mostrará como os objetos são vistos e
manipulados de maneira ambivalente:
a. Por um lado, os objetos podem ser expulsos, eliminados, suprimidos, destruídos e
b. Por outro lado, estes mesmos objetos podem ser apropriados e retidos, como uma
possessão altamente valorizada e querida.
D) BI E HOMOSSEXUALIDADE; ATIVIDADE E PASSIVIDADE NARCISISMO ANAL

a. A bissexualidade humana encontra na fase anal sua expressão mais prototípica, já que o
reto, sendo um órgão de excreção oco, permite a estruturação de:

1. A masculinidade, enquanto o sujeito sente a capacidade de expulsar ativamente produtos


que se encontram dentro dele. Não é possível entender o sentido desta afirmação se não se
compreende a historicidade desta propriedade da mucosa anal. Com efeito, ela é herdeira da mucosa
oral, que forma as paredes desse primeiro oco, onde o sujeito aprendeu a “tatear” o mundo exterior.
Esta função ativa de tateamento alcança sua culminação nesta fase do desenvolvimento, quando a
criança vive a sensação de saída de seu produto intestinal como primeira função ativa. .
2. Simultaneamente, o órgão intestinal, como órgão oco, recebe sensações de ordem passiva,
pela passagem das fezes por sua parte terminal e pela possível penetração de corpos estranhos a ele.
Daqui derivariam as tendências femininas. É preciso sublinhar que na hierarquia que
adquirem os corpos estranhos a este oco vem em primeiro lugar o dedo, durante o ato da
masturbação, que serve de exploração, descobrimento e reconhecimento das propriedades desta
zona erógena.
A masturbação se constitui assim num prelúdio importantíssimo da sexualidade definitiva.

a. O par, atividade-passividade
Enquanto a masculinidade e feminilidade definitivas ainda não foram alcançadas, o binômio
atividade-passividade lidera os relacionamentos objetais nesta fase do desenvolvimento.
Seria um erro importante pensar que este binômio é o único nesta fase intermediária entre o
oral e o fálico. Com efeito, existem outros pares antagônicos que se organizam em derredor do
ativo-passivo, por exemplo, bom-mau, lindo-feio, e, sobretudo, grande-pequeno. Deste último
binômio procede um conjunto de fantasias subjacentes à estrutura dos jogos infantis neste período:
médico-paciente, herói que supera perigos na selva, chefe de um exército imaginário, etc. Daí
decorre que um os elementos da valorização amorosa se encontra na antinomia subjugar/ser
subjugado, ou dominar/ser dominado.

b. O problema do narcisismo.
Referimo-nos, com este termo, à supervalorização que a criança atribui ao bolo fecal,
mediante o qual e pelos fatores anteriormente expostos conquista o controle esfincteriano e, por
extensão, o controle da musculatura voluntária — a marcha e o deslocamento no espaço. Assim
mesmo, e pelas possibilidades que se lhe oferecem de ofertar e se opor ao objeto materno, se
alimentarão sentimentos de auto-estima e onipotência. Nessa época, os fins sexuais são
predominantemente auto-eróticos, instrumentando-se os objetos com fantasias cuja finalidade será
servir ao prazer concentrado em si mesmo.
Finalizando, e como resumo do estágio anal, diríamos que suas características são as
seguintes:
1. A oposição atividade-passividade;
2. O aspecto dual no relacionamento de objeto, querendo significar que ainda não é
totalmente triangular edípico.
3. A reafirmação e consolidação narcísica do sentimento de poder, que se encontra
intimamente vinculado a fantasias de retenção-expulsão, e grande-pequeno, entre outras.
4. O movimento predominantemente centrípeto, ou seja, narcísico, dos fins sexuais. Sendo
por definição, neste período, praticamente inexistente a diferenciação sexual, o vínculo é
homossexual, qualquer que seja o sexo real do objeto.
O ESTÁGIO FÁLICO

Por volta do terceiro ano de vida, os estágios precedentes são abandonados, passando então a
fazer parte da estrutura psicossexual da criança. Sobrevém então o estágio fálico, onde os órgãos
genitais serão alvo da concentração energética pulsional, enfileirando-se todas as outras pulsões
anteriores e parciais sob seu comando. É importante destacar que ainda não se trata da genitalização
definitiva ou verdadeira.
Ressalvamos também que nesta etapa fálica o conceito “sexo” é muito ambíguo, já que não
existe, por parte da criança, uma conscientização da diferença sexual anatômica. Muito pelo
contrário, o que conta, como o nome do estágio o indica, é o órgão anatômico masculino, que
adquire o monopólio de ser o único valor de existência, tanto para o menino, que realmente o
possui, quanto para a menina, que dele carece.
Estudaremos neste estágio três itens: o desenvolvimento psicossexual, o aspecto narcísico e
portanto pré-genital do estágio fálico, e a angústia de castração.

1. O DESENVOLVIMENTO PSICOSSEXUAL

O erotismo uretral

Esta subetapa do desenvolvimento foi descrita por Fenichel como um período intermediário
entre o estágio anal e o fálico propriamente dito. De modo geral, são atribuídas à urina as mesmas
características das fezes, ou seja, o prazer de urinar junto com o prazer da sua retenção. Embora
inicialmente seja auto-erótico, progressivamente vai adquirindo prazeres mais “centrífugos”, com
fantasias as mais diversas de urinar sobre ou em outras pessoas.
O prazer de urinar terá um duplo vértice.
(1) Em ambos os sexos, existe uma significação fálica e até sádica. O ato de micção será
equivalente a uma penetração ativa com fantasias de destruição, domínio e controle.
(2) Ao mesmo tempo, as crianças sentem prazer em sentir passivamente o correr da urina por seus
canais específicos.
Nos meninos, este caráter passivo da urina atravessando os condutos uretrais é geralmente
associado ao prazer de acariciar as zonas genitais, em combinatórias diversas com qualquer tipo de
fantasia.
Nas meninas, não há dúvida que a assim chamada “inveja do pênis”, que é um problema das
fases finais do estágio fálico e início do Complexo de Édipo, tem seu antecedente no aspecto ativo e
portanto fálico da micção. Fenichel afirma, e alguns dados clínicos o corroboram, que o prazer
passivo proporcionado pela micção está deslocado nas mulheres para o correr das lágrimas quando
estas fazem parte de quadros onde o pranto ocupa um lugar destacado. (Fenichel, O. Teoria
psicanalítica de las neurosis. Ed. Paidós, 1966.) e Segundo Fenichel, o orgulho narcísico que o
controle do vesical proporciona está freqüentemente ligado ao sentimento de vergonha, devido às
recriminações dos adultos, quando esse controle fracassa. É interessante destacar que, para esse
autor, a vergonha teria sua fixação nesta etapa, ao passo que a ambição seria um mecanismo de
defesa reativo, característico da luta contra esse sentimento.

A masturbação infantil

Queremos deixar bem claro que, se estudamos agora a masturbação infantil, não é porque
apareça nesta etapa. Como todo elemento incluído dentro de um processo histórico, a manipulação
dos órgãos genitais tem seus antecedentes históricos em etapas mais anteriores do desenvolvimento.
E, porém neste período fálico do desenvolvimento sexual que, ajudada pela contingência das
preocupações sociais de limpeza, a excitação natural da micção ficará exacerbada.
Nessa época, os jogos manuais das crianças representam o que se costuma chamar de
“masturbação primária”. Uma vez adquirida a disciplina do esfíncter vesical, este prazer,
inicialmente ligado apenas à emissão da urina, procurará ser obtido de forma dissociada dela, ativa,
e de maneira repetitiva. Isto é o que se chama de “masturbação secundária”, à qual geralmente todos
se referem.
Esta historicidade da excitação ou da procura ativa da excitação de uma parte do corpo, e
que afunda suas raízes desde o primeiro contato de um ser humano com outro ser humano, tem sua
origem na estreita ligação de “peles” e “músculos” entre o bebê e sua mãe.
Com efeito, e como já foi dito em páginas anteriores (ver p. 30 e segs.), o vínculo do neném
com o mundo exterior não se reduz ao contato peito-boca e sua satisfação específica por intermédio
do leite. Existe uma espécie de “fome” de contatos mútuos entre o ser adulto e a criança nesta
primitiva etapa do desenvolvimento que, em sua grande parte, é satisfeita através do ato de mamar,
troca de fraldas, banhos, passeios, etc. Pouco a pouco, as “marcas” da satisfação obtida nas
diferentes partes do corpo e, em especial, na zona oral, são percorridas à maneira de
reconhecimento em forma manual pelo neném.
Realmente, a exploração do próprio corpo é uma atividade substitutiva, que lembra o
conjunto de satisfações obtidas — e aprendidas em contato com outro ser humano. Leigos e
profissionais costumam chamar de masturbação ao conjunto de manipulações efetuadas sobre o
aparelho genital. Mas, quando as crianças chegam a este tipo de atividade, já percorreram muito
caminho erótico, aprendendo que os líquidos que atravessam os orais, anais, genitais, etc.,
produzem satisfações diversas caracterizadas pelo alívio de tensão decorrente de sua descarga. Por
sua vez, esse alívio de tensão vem acompanhado de determinados efeitos no mundo exterior e às
vezes as sensações são provocadas pela ação desse mundo exterior, como é o caso do bebê na fase
oral.
Já desde as primeiras semanas da vida, o ser humano proporciona prazer a si mesmo, usando
uma parte do próprio corpo para estimular outra parte, geralmente um orifício. Assim, o chupar do
polegar será o protótipo de uma satisfação substitutiva que serve como modelo de exploração e
reconhecimento do corpo.
Será preciso entender que, já desde essas primeiras semanas, o neném, ao se auto-satisfazer,
exclui os outros seres humanos como proporcionantes ativos de prazer. Metaforicamente, diríamos
que o neném dá sinais de “independência” e “autonomia”. Esta complicada gama de sentimentos de
exclusão, que no início da vida passa quase despercebida, vai adquirindo maior relevância nos
adultos familiares da criança à medida que nos aproximamos das etapas fálico-genitais. Acontece,
então, uma dupla reminiscência. Por um lado, a criança, nos diferentes períodos de seu
desenvolvimento psicossexual, ao se proporcionar prazer, exclui os adultos que, assim, revivem
primitivos sentimentos de exclusão de raízes edípicas. Por outro lado, ao contemplar a ação auto-
erótica das crianças, os adultos “lembram” sua própria atividade masturbatória recalcada.
Desta dupla ação que se potencializa mutuamente, origina-se a repressão da masturbação por
parte dos adultos contra as crianças. Numa verdadeira repetição de fatos similares, acontecidos em
sua própria infância, é que os adultos repetem — punindo, proibindo — ativamente o que sofreram
passivamente.
A amnésia infantil, ou seja, todos os fatos não lembrados pelo sujeito, em particular os
anteriores à idade de 6/7 anos, refere-se, direta ou indiretamente, às fantasias masturbatórias. Estas
compreendem cenas edípicas, misturas de personagens, desejos e proibições relativos aos pais. De
modo mais preciso, relativas a fragmentos de histórias com os pais, a fragmentos do corpo,
fragmentos de sensações, etc.
A violência que durante séculos os adultos têm exercido contra qualquer tipo de prática
masturbatória assenta, pelo acima dito, raízes em épocas pré-edípicas.

A) A CURIOSIDADE SEXUAL INFANTIL

Estudaremos, sob este título, três itens:


(a) A descoberta da diferença sexual anatômica;
(b) A cena primária ou primitiva; e
(c) A escopofilia, ou instinto epistemofílico.

A descoberta da diferença sexual anatômica

Embora a curiosidade sexual infantil tenha sua historicidade, como outros elementos do
aparelho psíquico — e, portanto não “apareça” até certa idade —, aceita-se convencionalmente que
haja, desde cedo, forte interesse voltado para as características sexuais exteriores, tanto em meninos
quanto em meninas. Mas o que de fato acontece é que, ainda no estágio fálico do desenvolvimento,
a “descoberta” não é propriamente uma descoberta. Na realidade a diferença não é percebida, e sim
negada, e em conseqüência, tanto meninos quanto meninas acreditam “ver” o pênis mesmo onde ele
não existe.
Será preciso que o leitor encare este problema como um modelo de qualquer tipo de
aproximação ao que é novo, ao que é desconhecido. Toda “descoberta” começa por ser um re-
conhecimento, ou seja, projetar-se-á o que já é velho conhecido sobre o que é novo (e, portanto,
angustiante). Daí que, tanto meninos quanto meninas, apagam a existência da diferença sexual,
porque isso em última instância acarretaria — como de fato acontece posteriormente — a perda do
narcisismo, a ilusão de que somos todos iguais.
Este período do desenvolvimento, no que se refere à significação que adquire a descoberta
da desigualdade da constituição humana, ficará gravado no psiquismo do sujeito como um fato
muitíssimo importante e, sobretudo, estruturalmente, que contribuirá para constituí-lo
definitivamente como sujeito no mundo de vinculações objetais. Até esse momento a criança não se
colocava problemas que atingissem sua própria constituição, sua procedência e a igualdade ou as
diferenças entre ela e os outros, etc. De agora em diante, e por efeito desta curiosidade, tanto
meninos quanto meninas começarão a ser pequenos filósofos, que se perguntarão e farão perguntas
inquisidoras aos adultos sobre as mais diversas matérias. Uma atenta observação poderá demonstrar
que todas as perguntas se referirão, direta ou indiretamente, origem das diferenças (grande/pequeno,
macho/fêmea, alto/baixo, rico/pobre, etc.) e às subseqüentes angústias provocadas pela constatação
progressiva dessas diferenças.
Nesta mesma ordem de curiosidade, o menino e a menina, através de suas investigações
corporais diretas, e pela visão do próprio corpo ou do corpo alheio, ou ainda do corpo de animais,
estátuas, desenhos, figuras, etc., vão progredindo e tomando consciência da realidade tal qual é,
anatomicamente falando. Mas tomar consciência desta realidade implicará se perguntar pela função
que é atribuída a esta diferença. Ou seja, perguntando, o menino saberá que sua própria origem
procede dessa diferença. Simultaneamente, ele tomará conhecimento do sentido da união sexual de
seus pais e ficará curioso para saber e conhecer o lugar de sua “ex-residência”: o útero materno.
Como conseqüência, e como contraste, ele tentará saber e conhecer qual foi e qual é a função do
pênis nesta união — concepção e nascimento.
Nos parágrafos que acabamos de descrever, o leitor teve Somente um pálido reflexo do
drama estruturante que é para
O Presente-futuro da personalidade do indivíduo, e ao qual se submete por efeito da
penetração ativa no mundo.
As respostas, assim como as fantasias que as acompanham, darão a criança à noção vivencial de sua
posição no mundo. Esta posição, em primeiro lugar, implica a existência de diferenças neste mundo
— nem tudo é igual a tudo! — principalmente, nem tudo é igual a ela. Conhecendo essa
desigualdade, o próximo passo será saber qual é o lugar ocupado por ela, dentro de toda essa
estrutura. Ela saberá, por comparação, se é menino ou menina e, em segundo lugar, que é criança
ainda e que e muitas coisas mas não pode muitas outras.
Do que foi dito, pode-se concluir pela estreita vinculação existente entre descobrir a
diferença sexual anatômica, com tudo o que isto implica, e a queda da onipotência narcísica da
infância, queda esta que se relaciona com esse NÃO estruturante que impede à criança a
consumação dos desejos naturais conhecemos com o nome de desejos edípicos. Com efeito, esse
momento, e de modo geral, metaforicamente falando, os pais satisfizeram plenamente os desejos da
criança. Este seria o SIM, base fundamental sustentadora da vida. Mas é por essa época, a partir do
estágio fálico, que os pais passam a negar- lhe a possibilidade de satisfação de desejos recentemente
descobertos. Desde o momento em que a criança descobre o sentido e a funcionalidade da diferença
sexual anatômica, ela passa a desejar também ter filhos. Evidentemente, este desejo é mera ilusão e
está fadado ao fracasso. Daí que, para a criança, a “descoberta” da diferença começa com sua
negação e culminará com toda a estruturação das funções do Complexo de Édipo.

A cena primária ou primitiva

Este conceito, na realidade, é uma fantasia que a criança elabora: a de ter sido testemunha do
relacionamento sexual dos pais. Salientamos que, embora o fato possa haver certamente ocorrido,
não é relevante para a constituição do mundo fantasmático do sujeito. O que é realmente relevante é
que, tendo essa fantasia, o sujeito se responde à pergunta sobre qual é sua origem como sujeito.
Veja-se, então, a íntima vinculação existente entre fantasia da origem e teoria da origem.
É preciso dizer que a cena primária não é a única fantasia sobre as origens elaborada pelo
sujeito. Ele elabora fantasias de sedução e fantasias de castração. Em relação ao drama da
descoberta sexual anatômica, o sujeito pode se colocar três questionamentos básicos. Um deles é:
“de onde venho?”. Este questionamento é respondido pela fantasia da Cena Primária. Um outro
será: “de onde vem esta sensação que me impulsiona até os outros, ou até o outro sexo?”. Esta
questão é respondida pela fantasia de sedução. A criança faz a fantasia de que alguém adulto a
violentou ou quis violentá-la. Obviamente, o conteúdo desta fantasia diz respeito à sexualidade
humana, aos instintos, à energia vital, que foram despertados pelo contato com outro ser humano. É
interessante consignar a qualidade de violência desta fantasia; a razão que a fundamenta é o fato de
o sujeito dar uma resposta mais ou menos coerente para as prementes impulsões características da
instintividade humana, que ele não pode controlar e que portanto o atormentam continuamente.
Quer dizer, o sujeito é passivo ou assiste passivamente o “espetáculo” das forças que tem origem
numa outra cena. sta alteridade se encontra na própria estrutura do sujeito. A biologia é um outro
misterioso que nos impulsiona e nos determina, assim como uma Outra Pessoa nos fornece
alimentos, sustentação, elementos de prazer, linguagem, etc.
Compreende-se agora, e por efeito dessa alteridade constituinte, a produção de três
mecanismos prototípicos, incluídos na fantasia da Cena Primária, que são:
— a identificação com um ou com os dois membros intervenientes na fantasia; mas o característico
é a adoção do papel passivo nesta identificação;
— a projeção de sentimentos muito primitivos de raiva, cólera, e desespero, dentro da fantasia
mesma, o que faz com que ela seja sentida como sádica, e que nos relatos tanto de crianças como de
adultos seja veiculada através de gritos, gemidos, numa mistura variável de eroticidade e de
agressividade contra o sujeito;
— o sentimento de exclusão ou abandono, por se vivenciar a posição de terceiro excluído de um
vínculo (que, como já foi dito, representa a própria origem do sujeito).

A escopofilia ou voyeurismo

Esta pulsão tem sido sempre estudada como parcial, ou seja, como fazendo parte da
curiosidade sexual infantil. Traduz-se no desejo da criança de penetrar dentro. Esta expressão pode
parecer uma redundância, mas é formulada sob o ponto de vista do sujeito que experimenta esse
desejo: ele ainda não sabe que essa penetração é fora dele, já que penetrar dentro do relacionamento
íntimo dos pais (Cena Primária) é apenas um desejo e essa fantasia reforça no sujeito o
conhecimento das origens da sua alteridade.
Esta pulsão parcial, posteriormente sublimada, será decisiva para o que se chama de conduta
epistemofílica, que o sujeito adulto terá para poder conhecer, estudar, investigar, ou, simplesmente,
ter curiosidade de modo geral.
B) AS TEORIAS SEXUAIS INFANTIS

Desde Freud, na realidade, fazemos uma equivalência absoluta entre teoria sexual e fantasia.
Uma teoria sexual infantil é uma resposta, ou um conjunto articulado de hipóteses dado a si mesma
pela criança para diversas perguntas. Essas perguntas ou hipóteses estão vinculadas ao corpo, como
lugar-fonte das pulsões, ao corpo como articulador-contato com outros corpos, e novamente ao
corpo como sede de outros corpos (gravidez).

Teorias infantis sobre a fecundação

Cada fase psicossexual deixa sua marca expressa num conjunto de fantasias onde a sua
“matéria-prima” pode ser mais ou menos reconhecível. Assim, por exemplo, temos:
— Teorias da Fecundação Oral: crenças de que, por ingestão de um alimento fantástico, ou
por contato com outra boca (beijo), se produziria a gravidez humana;
— Teorias da Fecundação Ano-Uretral; crenças de que os atos de urinar ou de defecar em
contato com outra pessoa, ou mesmo simultaneamente, seriam os responsáveis pela gravidez;
— Teorias Visuais da Fecundação: crenças de que a exibição simultânea ou sucessiva dos
órgãos genitais resultariam em gravidez.
Temos ainda as teorias de troca simbólica entre pênis e nenéns, que apenas registramos neste
item, mas que por sua importância serão desenvolvidas mais adiante. (Ver p. 62-3.)
Como deduzirá o leitor, o denominador comum de todas estas teorias é que elas são
simétricas e idênticas quanto à anatomia e à fisiologia da cópula, ou seja, não há nenhum indício de
distinção entre um sexo e outro. São fantasias especulares, narcísicas: o “outro”, como tal, ainda
não foi descoberto.

O parto anal

Talvez seja a fantasia que, como teoria sexual infantil, mais se popularizou dentro da teoria
psicanalítica. Tem suas origens na sensação e visão cotidianas do ato defecatório, como um produto
que “nasce” do corpo do sujeito, em lugar próximo ao aparelho genital. Esta teoria pode evoluir
para outros tipos de conteúdos: nascimento pelo umbigo, por extração violenta ou forçada, etc.
Reconhece-se nestas fantasias a marca histórica da analidade. Com os mesmos conteúdos, esta
teoria é referida às vezes como “teoria cloacal”.

A idéia do coito sádico

Já nos referimos a este tipo de fantasia ao falar da fantasia de Cena Primária. Mas devemos
sublinhar que esta é uma teoria sexual infantil e, como tal, uma fantasia, produto sobretudo de
fenômenos projetivos. A maior parte dessas fantasias compõe o edifício imaginativo de todo sujeito,
formando verdadeiros embasamentos que darão lugar, após sucessivas transformações, às fantasias
componentes do Complexo de Édipo. Mas o leitor não deverá perder de vista o fato de que essas
fantasias pré-genitais não são apagadas nem desaparecem: encontram-se integradas, dialeticamente,
em todo sujeito normal, ainda quando esse sujeito tenha adquirido um nível de desenvolvimento
genital amadurecido. Como determinante de patologias diversas, encontramos estas fantasias nos
quadros histéricos ou obsessivos, assim como nas patologias em que o corpo cumpre papel
relevante: doenças psicossomáticas, somatização, histeria de conversão, etc.

2. O ASPECTO NARCÍSICO E PRÉ-GENITAL DO ESTÁGIO FÁLICO

É preciso esclarecer, antes de tudo, que nesta etapa do desenvolvimento não serão atribuídas
ao pênis as suas características principais de órgão reprodutor. Muito brevemente, e de forma
resumida, poderíamos dizer que o pênis é vivenciado, percebido, e até instrumentalizado como o
órgão que oferece potência e como o lugar do corpo que, estimulado, fornece maior gratificação.
Isto quer dizer que o pênis não é o pênis (genital), mas um Falo, nome que dá título a este estágio.
Há uma certa confusão entre o que se denomina pênis e o que se denomina falo, já que
Freud, em alguns de seus artigos, empregava indistintamente. Com uma visão teórica mais
moderna, pode-se distinguir:
Pênis — é o órgão masculino por excelência, possuindo uma realidade anatômica e sensível;
Falo — ao contrário, tem uma realidade não sensível, abstrata; é um símbolo que é, às vezes,
erroneamente confundido com o pênis.
Para explicar melhor, digamos que o falo é um símbolo - mesma maneira que uma bandeira
é um resumo de idéias tal como pátria, soberania, identidade nacional, etc. Falo é, então, uma
fantasia que condensa a posse de uma unidade e de uma potência do ser. Dentro deste contexto, se
entenderá então que a posse real e concreta de um pênis dá ao sujeito a ilusão-fetichista de possuir o
falo.

A) A ILUSÃO NARCÍSICA

Pelo exposto acima, o leitor deduzirá que, ainda neste estágio, o sujeito não chega a adquirir
um conhecimento global, total, do objeto. Se entendemos por objeto o conhecimento real e o mais
objetivo possível de que existem outros (outras pessoas) independentemente de nós mesmos,
compreendemos facilmente que este estágio fálico é praticamente o último baluarte do narcisismo.
Esta frase deve ser encarada como uma metáfora, já que o sujeito nunca observa a realidade
“objetiva” tal qual ela é, e sim embora fragmentariamente — como uma extensão narcísica de si
mesmo. Aproveitamos para dizer que, por sua vez, os objetos olham para o sujeito também desde
sua subjetividade narcísica, e portanto o sujeito nunca será olhado na sua realidade objetiva, mas a
partir desta subjetividade, embora fragmentária. Concluindo, o vínculo inter-humano será um
vínculo inter-subjetivo. Ainda nesta etapa fálica, a criança será capaz de diferenciar corretamente
ambos os sexos, mas só por comparação exterior e por fatos tingidos de fantasias, o que lhe cria
armadilhas perceptuais diversas. A criança percebe que possui ou não possui um pênis, não apenas
para diferenciar duas categorias de pessoas: homem- mulher. Nesse estágio, ela está interessada na
presença ou ausência de um único elemento: o pênis. De agora em diante, ambos os pais, e por
extensão todos os adultos, serão “classificados” em função de sua potência ou fraqueza, decorrente
dessa posse ou dessa falta.

B) A DESCOBERTA E SUA NEGATIVA

Admite-se que este período fálico seja o período da descoberta da diferença sexual
anatômica. Mas, para sermos precisos, deveremos dizer que este é o período da negação desta
diferença, fazendo esta negação parte do conjunto de fantasias capazes de criar as armadilhas
perceptuais acima referidas. Essas negações, de enorme valor tanto do ponto de vista teórico como
psicopatológico, são as seguintes:
— No menino, ha a recusa em aceitar a castração e, portanto, a negação do sexo feminino. Ou seja,
a impossibilidade de conceber a falta e a instauração do privilégio do pênis trará consigo, como
conseqüência, o desconhecimento dessas “pessoas sem pênis” o sexo feminino.
O menino “não poderá” aceitar o sexo oposto porque aceitá-lo implicará o fato de que
também ele poderia perder o pênis. Ele ainda não compreende que homem e mulher são duas
categorias essenciais que independem da posse ou da falta de um órgão. E como, segundo foi dito
anteriormente, a realidade será observada e interpretada sob o ponto de vista da subjetividade
narcísica do sujeito, para o menino é inconcebível, nesse estágio, que existam pessoas não
possuidoras do que ele possui.
— Na menina existe igualmente uma recusa em aceitar a castração. Com efeito, a menina
faz a fantasia de que ela também possui um pênis, só que “não está totalmente desenvolvido”,
apoiando esta afirmação na existência do clitóris. Como se observará, tanto meninos quanto
meninas compartilham a fantasia de que só um sexo existe. Isto inevitavelmente leva ambos os
sexos a recusarem conhecimento mútuo.
Indiquemos por último que a aquisição do verdadeiro conhecimento dos sexos masculino e
feminino não pode existir isoladamente para cada sexo e só será completo mais adiante, com a
resolução do Complexo de Édipo e em etapas posteriores da adolescência

3. ANGÚSTIA DE CASTRAÇÃO

Admite-se esta expressão como a designação de um conjunto complexo de reações afetivas


que decorrem da observação e constatação da ausência do pênis. No menino, esta constatação
desperta a fantasia do temor da perda de seu pênis, e nas meninas o desejo de adquiri-lo.
Desejo ressaltar intensamente o que foi dito acima, já que a angústia de castração — embora
os termos possam confundir — é uma série de fatos que ocorrem normalmente na evolução do
sujeito, sobretudo quando ele descobre a diferença essencial constitutiva do ser humano. Além
disso, repare-se que esta angústia motiva dois tipos diversos de comportamento: o menino reagirá à
maneira de um fóbico e a menina à maneira de um melancólico. Quer dizer: o menino, ou melhor, a
essência da masculinidade, — forçando os termos — organizará sua personalidade em torno de um
forte medo de perder algo valioso para ele. A menina, após a constatação da ausência real e concreta
de um pênis, depois da comparação por observação do sexo oposto, organizará a sua personalidade
em torno de um forte anseio de suprir, preencher essa falta. Nos dois sexos, a angústia de castração
está intimamente vinculada a uma angústia muito mais global, que é a angústia de morte, frente à
qual se desenvolvem variadas defesas, como, por exemplo, ter uma criança. Esse desejo de se ver
prolongado, duplicado e transcendido num filho, fantasia comum a ambos os sexos, levará consigo
a “garantia” de se preservar contra a morte.
A angústia de castração é universal e portanto nenhuma criança escapa a ela. Como se
advertiu, a angústia consiste numa falsa representação da realidade. (Deveremos ressaltar que esta
fantasia de mutilação peniana não é exatamente igual ao que se conhece popularmente como
castração, já que esta última consiste na extração, por meios violentos, não do pênis, e sim das
gônadas.)
Um outro aspecto importante para completarmos nossa exposição: embora os adultos
intervenham, direta ou indiretamente, proibindo, punindo ou limitando algumas atividades presentes
e passadas dos meninos, a angústia de castração independe relativamente dessa contribuição
exterior. Essas intervenções limitativas exteriores contribuem sensibilizando, mas, de modo nenhum
criam a angústia de castração que, como foi dito, é um fato normal, efeito do amadurecimento
psicológico do indivíduo. Deduz-se daí que a primeira grande defesa implementada pela criança, e
depois também pelo adulto, é a atribuição da responsabilidade dos fatos (projeção) a esses
fragmentos de realidade exterior que certamente fazem parte da história do indivíduo. (Ver p. 211)

A) A ANGÚSTIA DE CASTRAÇÃO NO MENINO

Depois que o menino conhece e sabe que é possuidor de um pênis e que existe um outro
sexo caracterizado por essa falta, haverá unia superestimação, um superinvestimento dessa posse.
Em primeiro lugar, como veículo instrumentador das fantasias masturbatórias. Em segundo lugar, e
mais importante, esse superinvestimento do pênis outorga-lhe uma supervalorização narcísica, que
tende a ser assimilada pelo resto da personalidade. Este narcisismo extremo servirá como couraça
protetora frente aos danos fantasiados que seu pênis poderia vir a sofrer.
Descreveremos três passos na angústia de castração do menino:
1.°) Inicialmente, o menino tenta rejeitar a realidade e, portanto negar a diferença. Como se
trata da rejeição de um elemento externo ao aparelho psíquico, esse mecanismo será mais
corretamente chamado de renegação, repúdio, recusa, desmentido (Verwerfung). Aceita-se que em
torno desse mecanismo se originam as perversões e as psicoses. (Ver p. 188-190-202 e segs.)
2.°) Logo após esta rejeição da realidade, o menino tenta se reafirmar, atribuindo a ausência
do pênis no outro sexo a uma mutilação sofrida no passado por parte da menina. Ele ainda não teve
acesso à realidade tal qual ela é, ou seja, a de que a ausência do pênis na menina é uma condição
originária e essencial dela. Toda a fantasia de mutilação é atribuída pelo menino a uma Punição
infligida pelos pais para castigar desejos de prazeres Similares aos que ele mesmo sente como
proibidos.
3.°) O terceiro passo caracteriza-se pela recusa em estender a todas as mulheres esta carência
essencial. Para ele, só aquelas mulheres que tiveram a fantasia de obter prazer pela masturbação as
que sofreram esse “castigo”. Essa recusa em estender a todas as mulheres a propriedade
fundamental da carência do Pênis se constata na fantasia, válida para o menino e para a meninam,
de uma mãe com pênis, conhecida com o nome de mãe fálica”.
Esta fantasia, que goza da propriedade de ser idealizada e persecutória, permite à criança
pensar que ela não sofrerá as penúrias da castração. Observe-se que a fantasia de uma mãe com
pênis é uma fantasia de conservação de um pênis imaginário, que, por sua vez, simboliza a potência
adulta.
Recentemente, nesta última década, os psicanalistas revalorizaram esta fantasia, que fala da
existência, no nível imaginário, de um personagem todo-poderoso que se instala antes da distinção
completa da diferença sexual anatômica.

B) A ANGÚSTIA DE CASTRAÇÃO NA MENINA

Na teoria clássica freudiana, o desenvolvimento psicossexual da menina é praticamente


idêntico ao do menino. Segundo essa teoria, a vagina é ignorada e a atividade sexual é clitoridiana.
A passagem do clitóris para a vagina só se dá numa época posterior: a puberdade e a adolescência.
A menina descobre a ausência do pênis logo após um breve período de rejeição dessa
realidade, porém se vê forçada a inteirar-se dela rapidamente.
Talvez o mais importante a destacar no que se refere à castração seja que, na menina, essa
constatação, que proporciona o acesso ao real, e a grande frustração que sobrevém logo após,
acontece antes do Complexo de Édipo. Mais precisamente, a castração é justamente a comprovação
que permite entrar no Édipo. Ou seja, a evidência da castração lhe permite agora voltar- se para o
pai como objeto de amor, passando a ser a vagina a sede corporal de seu investimento libidinoso,
enquanto que para o menino a castração, ou melhor, o temor da castração, funciona sempre como
limite restritivo aos desejos incestuosos desta fase, contribuindo, portanto, para fechar, para pôr um
fim ao Complexo de Édipo. Sempre dentro da teoria clássica, a castração levará a uma ferida
narcísica, que provocará na menina um sentimento de inferioridade no plano corporal e genital.
Estes fatores psicológicos encontram um reforço muito forte em fatores de ordem sócio-cultural,
cuja investigação está hoje em andamento. Também na menina observam-se três passos perante a
castração:
1.°) O tema da reivindicação fálica. Também conhecido com o nome de Inveja do Pênis, este
conceito é equivalente ao da renegação da diferença por parte do menino. (Ver p. 61.) A menina
fantasiará que possuía um pênis e que alguém o tirou. Toda essa fantasia reforçará a idéia de
reconquistá-lo.
2.°) o agente dessa perda imaginária (que curiosamente é duas vezes imaginária, pois
imagina-se ter perdido um pênis que nunca se teve) será a mãe. A menina responsabilizará sua mãe
por tal fato, e isso precipitará a vinculação com seu pai. Note-se que a menina, para entrar no
Complexo de Édipo direto, deverá atacar e denegrir sua mãe, ou seja, vê-se obrigada a realizar uma
mudança de objeto. Por tudo isto, a entrada da menina na estrutura de Édipo e, por conseguinte, o
acesso à genitalidade adulta, tem muito de reacional e defensivo, posto que “cai nos braços do pai
para fugir à ameaça materna”.
3.°) Por último, e num estágio mais avançado, o tema da reivindicação se transforma. Já
ligada com seu objeto-pai, a menina substituirá o desejo de ter um pênis pelo desejo de ter uma
criança. Para poder entender a estrutura dessa substituição, o leitor deverá lembrar a assimilação
inconsciente de diversos elementos que vão se substituindo ao longo da evolução psicossexual:
útero, seio, fezes, pênis, valor, dinheiro, neném. (Ver p. 56.)

ESTÁGIOS GENITAIS

1. O COMPLEXO DE ÉDIPO

O Complexo de Édipo, nome atribuído por Freud em analogia ao antigo mito relatado na
obra de Sófocles, é uma estrutura, uma organização central e alicerçadora da personalidade humana.
Este Conceito é central num sentido duplo: por um lado, como o modulo nuclear estruturante do
psiquismo; por outro, e no que e refere à prática de psicanálise, como a referência conceitual
Primeira que outorga identidade a qualquer psicanalista, seja de que escola for.
A esta altura do conhecimento científico, devemos dizer que até poderíamos prescindir do
nome — Édipo — dado por Freud a esta estrutura. Com efeito, a tragédia sofocliana serviu- lhe
como um modelo instrumental e explicativo do conflito básico do ser humano. O importante a reter
será que, desde que todo ser humano deve sua origem a dois seres chamados Pai e Mãe, não haverá
nada passível de escapar a esta triangulação que constitui o âmago essencial do conflito humano.
Entender-se-á assim que este conflito envolve três personagens. Dizemos personagens
porque, embora este conflito se apresente com pessoas concretas, estas vão adquirindo, em
diferentes momentos e situações, papéis diversos. Assim, por exemplo, uma mulher, mãe biológica
de seu filho, poderá em dado momento assumir para este o papel funcional de uma outra pessoa, no
caso o pai. Por sua vez, e para essa mesma mãe, a presença do filho poderá reatualizar nela velhos
conflitos edípicos, vivenciando então este filho como se fosse seu pai ou um aspecto de sua mãe.
Toda esta conflitiva problemática edipiana eclode entre os 3 e os 5 anos de idade. Essa
eclosão consiste em manifestações afetivas, objetivas, mas, como pode ser facilmente
compreendido, os alicerces da estruturação edipiana estio presentes desde o nascimento.
Esta última frase faz sentido se o leitor lembrar que a origem de tal problemática é a
complexa relação existente, desde fases muito precoces, entre a criança e seus pais. Estes,
obviamente, encontram-se desde o início na vida do menino. As vicissitudes pelas quais o aparelho
psíquico em formação vai passando são marcadas pelos diferentes modos como os pais vão
aparecendo, e dão como resultado final a eclosão a que nos referimos.

A) FORMAS DO COMPLEXO

Freud descreveu duas formas aparentemente simples pelas quais se apresenta a estrutura
edípica. Tais formas levam em conta aspectos positivos que na terminologia freudiana são
representados pela libido e que o uso corrente consagrou com o nome de vínculo de amor. Existem
também aspectos negativos, que se conhecem com o nome de aspectos agressivos ou de ódio. E
preciso sublinhar que os termos positivo ou negativo não pretendem conceituar conteúdos de valor,
mas simplesmente polaridades de localização dentro da estrutura.
Assim, por exemplo, no menino, Freud descreveu o Complexo em sua forma positiva da
seguinte maneira:
a) o aspecto positivo ou libidinal dirigido para a Mãe — este seria o amor à mãe;
b) Simultaneamente, o aspecto negativo ou agressivo: o ódio ao pai. Porém, o Complexo de Édipo
pode adquirir uma forma global negativa ou invertida (no sentido da imagem fotográfica) descrita
da seguinte forma:
a) O aspecto positivo, libidinal, é uma atitude amorosa do menino em relação a seu Pai. Esta atitude
é uma posição feminina do menino em relação ao elemento masculino-Pai.
b) Simultaneamente, há o aspecto negativo ou agressivo do menino, dirigido à sua Mãe.
Compreende-se facilmente que a combinatória múltipla destas possíveis posições é o que fará variar
a forma de apresentação e a localização dos personagens. Na clínica, o mais freqüente é que se
apresentem casos de mistura dos Complexos de Édipo positivos e negativos. É o que se denomina
forma completa ou total do Complexo de Édipo.

B) ALGUNS CONCEITOS BÁSICOS EM RELAÇÃO AO ÉDIPO

O Complexo de Édipo é um drama dentro de uma estrutura básica. É um drama porque o


sujeito expressa suas vivências em forma de fantasias que, analogicamente, se assemelham a uma
peça teatral.
E o Complexo de Édipo é uma estrutura porque nesse drama fantasiado há uma organização de
personagens interligados entre Si. Nessa organização há elementos ou peças fundamentais e sempre
presentes Mãe, Pai e Sujeito. Continuando com a analogia, estas peças são os personagens básicos
do argumento. No entanto, OS atores que viverão esses papéis, assim como as vestimentas, a
decoração, a ambientação e o clima, serão diferentes em cada momento vivenciado pelo sujeito.
Não há nada fora do Complexo de Édipo. Durante a vida inteira a pessoa continua vivendo essa
peça teatral, assumindo diferentes papéis de um argumento que reflete sua história passada com os
personagens do passado e com os diferentes desfechos a que levaram as combinatórias em seu
interacionar quase infinito.5
A vulgarização da palavra complexo conduz facilmente a um pensar errôneo. Acredita-se
habitualmente que o Complexo de Édipo é algo que se supera e a que não se volta mais. A esta
altura da explicação, o leitor entenderá que esta é uma visão ingênua, mecanicista e filosoficamente
idealista. Seria o mesmo que o sujeito amputasse uma parte de seu corpo (sendo que, obviamente,
esta parte antigamente era menor e estava ligada a outras funções adequadas, na época, à idade
cronológica), e pretendesse negar as conseqüências disto. Será possível separar a história da mão da
própria mão? O mesmo acontece com o Complexo de Édipo. Estudá-lo é estudar a história
individual, pessoal e intransferível desse sujeito. Porém veremos também que, já que todo homem
nasce de um pai e de uma mãe, o Complexo de Édipo adquire características universais. E é por esta
razão que interessa o seu estudo nos níveis antropológico e sociológico.
Há uma antropologia psicanalítica que, aproveitando-se das estruturas teóricas freudianas,
procura semelhanças em diferentes culturas, O Complexo de Édipo se institui assim como o
resultado da cultura veiculada pelos pais e atuando sobre o aparelho psíquico da criança. A ação
efetiva desta cultura nas diferentes sociedades estudadas é transmitida através de uma troca de
símbolos, de complexidade variável, e que se constitui numa linguagem. E dentro desse contexto
simbólico que se transmite uma lei fundamental nas relações sociais: a proibição do incesto.
Segundo os estudos e as formulações hoje já clássicas de Claude Lévi-Strauss, o pai da
antropologia moderna, expressas em sua maior parte no texto As Estruturas Elementares do
Parentesco (Ed. Mouton, Paris, 2. ed., 1967), a proibição do incesto é a condição mínima e
universal para que a “Cultura” se distinga e se diferencie da “Natureza”. Segundo Lévi-Strauss, a
Natureza é o reino da espontaneidade, do universal, e a Cultura se delineia com precisão como o
reino da regulação e da relatividade.
Dentro da ordem da cultura, o sujeito está sujeito (daí o orne) a normas, leis, que
regulamentam, restringem e orientam a vida social. 5. Leclaire tenta mostrar como o incesto é o que
da tudo o que pertence à ordem da proibição (Leclaire, S. — para una Teoria dei Complejo de
Edipo, Ed. Nueva Visión, Buenos Aires, 1978, p. 57).
Incesto será, para esse autor, o gozo sexual com a mãe, tanto ara o menino quanto para a menina. É
preciso entender que não trata do prazer genital-sexual entendido como figura penal da legislação
corrente. Este ato, observado assim, clinicamente, será um sintoma grave da ordem das psicopatias
ou psicoses. E o incesto que se realiza concretamente, na idade adulta.

5
“Em outras palavras... o Édipo é simplesmente uma história, a história de nosso primeiro amor, nosso amor infantil, ou
então é o intemporal que faz da própria vida uma história que se repete, a ponto de que esta vida corre o risco de nunca
nascer?” (Safouan, M. A sexualidade feminina na doutrina freudiana. Zahar, Rio, 1977, p. 67.)
O incesto ao qual Leclaire se refere é superposto ao período pré-edipiano entre o nascimento
e os quatro ou cinco anos de idade. A esta altura do desenvolvimento, existe impossibilidade até
biológica de consumar o ato sexual-genital do tipo adulto. Mas, sob o ponto de vista psicanalítico, a
íntima relação erótica com a mãe proporciona um gozo, um prazer de tal ordem que é equivalente
ao incesto adulto. O problema é um complexo. Com efeito, a uma íntima relação “incestuosa” com
a mãe corresponde, invariavelmente, uma certa ausência ou queda da figura funcional do pai.
A conceituação leclaireana conduz a problemas interessantes. Em primeiro lugar, a
erotização infantil seria equivalente à capacidade de sexualização do corpo da mãe (enquanto
sexualidade mal acabada, infantil). Esse corpo erotizado encontra-se atravessado por fragmentos,
parcialidades (orais, anais, fálicas, etc.).
O corpo materno erotizado relaciona-se, também, com o Problema dos objetos parciais, que
serão vistos como objetos ainda narcísicos. Assim, a função materna será uma função dupla:
biológica e erógena (psicologizante).
Teorizando desta maneira, Leclaire chega à conclusão de que O incesto é o modelo mesmo
do gozo. De gozar com a própria mãe e, portanto, proibido. Então, o gozo será a transgressão, a
abolição do limite máximo que é o corpo da própria mãe.
As conseqüências clínicas são interessantes. Por exemplo: um paciente tem uma experiência
incestuosa (sua intensa ligação pré-edípica com sua mãe). Está fixado ali. Este paciente tem
problemas Vinculados ao prazer e ao limite, na medida em que isto lhe permite organizar o que é
proibido e o que não o é. Alguns destes pacientes vivem, em sua vida de adultos, bloqueados,
tentando levantar muros, limites, para reconstruir “alguma coisa” que garanta a inacessibilidade ao
gozo, ou seja, à experiência incestuosa com a mãe. A oscilação neurótica fará com que tentem
transgredir também este limite.
Eis aqui o paradoxo que provoca espanto: uma regulamentação restritiva dos vínculos
sociais e que, entretanto, tem características universais. Ë dessa forma que Lévi-Strauss se articula
com Freud: a proibição do incesto “é a única regra social que possui simultaneamente um caráter
cultural e de universalidade”.
Vale a pena dar uma olhada sintética nas hipóteses pré-lévis-straussianas que resultaram em
explicações insuficientes para o problema da proibição do incesto:

Hipótese natural (Westermarck,6 Havelock Ellis)

A proibição incestuosa seria causada por um horror instintivo, por uma percepção da “voz
do sangue” responsável por uma repugnância psicológica. Lévi-Strauss contesta com suas pesquisas
etnográficas esta explicação, revelando não só que não existe essa repugnância, como também
mostrando a existência de uma atração universal pelo incesto. Porém, tais estudos etnográficos
demonstram variabilidade sobre onde recai a proibição. Em algumas culturas, os eixos de proibição
recaem sobre primos nascidos de irmãos do mesmo sexo, em outras sobre primos filhos de irmãos
de sexos diferentes, etc.

Hipótese dualista (L. H. Morgan, 7 H. Maine)

A proibição incestuosa seria o efeito de uma reflexão social sobre um fenômeno natural. As
motivações desta “ação pensante” social seriam o impedimento das desastrosas conseqüências da
consangüinidade matrimonial. A contestação lévi-straussiana é contundente: os estudos de
etnografia e genética demonstram que os povos que praticam a endogamia por tradição não
possuem efeitos aberrantes na proporção em que se poderia supor. Além do mais, estes povos
ignoram obviamente toda ciência genética.

6
Westermarck, E. A. The history of human marriage. MacMillan. London (1920).
7
Morgan, L. “Systems os consanguinity and affinity of the human Family” (1871).
Hipótese social (Durkheim,8 Lennan, Averbury)

A proibição é uma regra social e a expressão biológica é um atributo acidental e secundário.


Segundo Durkheim, a regra proibitiva é derivada da exogamia. Lévi-Strauss contesta: como uma
regra universal poderia se originar de um costume não-universal? já segundo Lennan e Averbury, a
proibição seria o resultado da prática matrimonial através do “rapto” de estrangeiras. Lévi-Strauss
faz objeção a esta tese dizendo que, neste caso, trata-se de uma modalidade institucional, ineficaz
para explicar as “causas profundas e onipresentes”.
Estas explicações vão desde o natural até o cultural, misturando, como na segunda hipótese,
as duas polaridades. É o que acontece quando Lévi-Strauss emite sua hipótese em íntimo contato
com as teses freudianas. A proibição do incesto é por sua vez natural e cultural. 9 O antropólogo
francês se filia à concepção de um conhecimento e uma matéria-prima produzidos pela profunda
interação entre os homens e a natureza. A ordem da cultura será o grande filho que nascerá desta
concepção parida através dos tempos. Textualmente: “A proibição não tem origem puramente
cultural nem puramente natural; também não é uma Combinação de elementos tomados em parte da
natureza e em parte da cultura. Constitui-se num movimento fundamental graças ao qual, pelo qual,
mas sobretudo no qual se cumpre a passagem da natureza à cultura” . . . “Não é um fenômeno de
dois tempos; é o surgimento, o advento de uma nova ordem” (Lévi-Strauss, 0l. Cit., p. 30, 31).
Como pode ser visto, a proibição do inCesto é o conceito explicativo do surgimento, nada mais e
nada menos, que da cultura.
Não desejamos entrar no âmago da obra lévi-straussiana, Para o que remetemos à
bibliografia correspondente. Porém, é preciso assinalar que, desde suas primeiras obras que se
ocupam O tema, Freud fez referência a essa determinante que transcende a História e o Indivíduo,
adquirindo características de universalidade.
Já em Totem e Tabu (1912-1913) [S. B. Vol. XIII, p. 20], Freud arrisca a hipótese da
exigência que todo ser humano sente de amestrar, domesticar as situações edípicas instintivas, para
poder ter acesso a uma nova ordem. Com efeito, essas situações sumamente arcaicas supõem que
esse proto-homem tivesse organizações chamadas hordas, conduzidas por um chefe forte e brutal
que impunha sua autoridade pela força, através do assassinato e do filicídio, ou de uma atenuante
intimidatória, a castração.10 Esse Chefe-Pai primitivo (arque-pai) provocava sentimentos duplos: era
temido e respeitado e, ao mesmo tempo, profundamente odiado. Um dia X, hipotético, teórico, os
“filhos” dessa horda primitiva, revoltados, se uniram em força, matando esse chefe-Pai, e
engolindo-o. Segundo Freud, este seria o primeiro momento da humanidade. Um ponto de ruptura.
O homem começou posteriormente a lembrar o episódio através do culto e da adoração de um totem
simbolicamente representativo do Pai morto. Seria esta a primeira e mais primitiva religião da
humanidade. Por sua vez, a incorporação desse Pai primitivo fez emergirem sentimentos de remorso
e arrependimento nos filhos, motores da adoração e lembranças posteriores. Esta hipótese, hoje
discutível e dificilmente verificável, será tomada modernamente como o que é: uma hipótese, um
ponto de partida que ligará Freud a Lévi-Strauss, já que deverá ser entendida ao nível de um mito
explicativo da origem do homem. Mito explicativo da origem das regras, das normas, da cultura. No
interior desse mito estuda-se também a origem da proibição incestuosa, em torno da qual girará uma
série de problemas intimamente vinculados: autoridade, poder, agressão, repressão, revolta,
incorporação canibal, identificação primitiva, ritual obsessivo-religioso, etc.

2. O PROBLEMA DA ESTRUTURA PRÉ-EDIPIANA

8
Durkheim, E. De la djvjjón dei trabajo social, Shapire Ed. (1967). (1968)
9
Levi-Strauss, C. “Antropología estructural”, Eudeba. Buenos Aires
10
O conceito de “horda” é um conceito evolucionista, que intenta reconstituir a origem da humanidade. Foi Durkheim
quem outorgou ao conceito a significação de “unidade de sociedade”, separando-o do contexto historicista e destacando
a possibilidade de jamais ter havido sociedades históricas semelhantes. (Durkheim, E., Las regias dei entorno
sociológico. Shapire Ed., Bueno Aires (1971)).
Este problema é um problema relativamente complexo e seguiremos nesta explicação a
trilha de Laplanche e Pontalis.
Desde Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade (1905), passando pelas Conferências
Introdutórias (1916), Freud admite claramente uma vida intensa, anterior à idade em que
classicamente culmina o Complexo de Édipo (5 ou 6 anos de idade). Será preciso então distinguir a
idade do Complexo de Édipo e o período pré-edipiano que se estende praticamente desde o
nascimento até a fase genital própria do Complexo. Esse período pré-edípico é completamente
diferente da concepção da escola kleiniana, que faz questão de enfatizar a origem do Complexo de
Édipo aproximadamente aos 6 ou 8 meses de idade, na chamada “posição depressiva”. A diferença é
substancial, porque, embora Freud não desconheça as fases pelas quais atravessa o aparelho
psíquico até os 5 ou 6 anos, considera-as nada mais do que alicerces do aparelho psíquico completo,
que adquirirá seu verdadeiro significado somente depois, após a resolução do Complexo. Este
conceito está estreitamente vinculado ao de “posterioridade” ou “retroatividade” (nachträglich).
O conceito de a posteriori ou “posterioridade” foi resgatado por Lacan, adquirindo a partir
dele uma importância capital dentro da obra freudiana. A respeito da estrutura pré-edipiana, a noção
se encaixa perfeitamente na relevância que adquire o Complexo de Édipo, com suas vicissitudes
particulares, “resolvido” em torno dos 5 ou 6 anos de idade. Com efeito, retroatividade quer dizer
reformulação ou re-significação de acontecimentos ou situações que foram vividos previamente. 11
Quer dizer, nem tudo o que é vivido pelo sujeito se integra imediatamente dentro de seu aparelho
psíquico. Só depois é que esses acontecimentos vão adquirir relevância ou significado, quando o
aparelho psíquico estiver totalmente amadurecido.
Um exemplo muito simples esclarecerá o leitor: na construção de um edifício, a primeira
coisa que se faz são as fundações. Nelas serão utilizadas diversas matérias-primas e diversos tipos
de mão-de-obra, num tempo variável e com inúmeros problemas, mas essas fundações estão
fadadas ao “desaparecimento”, já que a evolução natural do edifício colocará sobre elas os
pavimentos projetados. À medida que a construção evolui, tanto as primitivas fundações quanto os
sucessivos pavimentos irão se acomodando às novas situações de peso, gravidade, resistência de
materiais, agressões climáticas ou humanas, etc. Porém, apenas quando os operários colocarem o
material do último pavimento é que o edifício estará acabado, passível de ser habitado. E possível
que agora as fundações não visíveis mostrem alguns defeitos de construção, ou de projeto, ou de
material, que se evidenciarão através de “sintomas”, como pequenas rachaduras nas paredes, perda
de água nos encanamentos, etc.
O leitor compreenderá as limitações oferecidas pelo modelo, mas o que desejo enfatizar é
que, com o termo a posteriori se quer significar que o aparelho psíquico é uma estrutura funcional,
cujo rendimento e operacionalidade serão mostrados apenas quando ele estiver completamente
acabado ou amadurecido. Ao admitir que aos 5 ou 6 anos de idade a problemática edipiana
triangular, complexa, “fecha” o aparelho, completa-o, atuando como o telhado de um edifício que se
começou a erguer há 5 ou 6 anos, a psicanálise outorga a toda a estrutura pré-edípica enorme
importância, mas sempre subordinando-se à significação definitiva que lhe dará o Complexo de
Edipo (ver Cap. 1 — O Conceito de Causalidade Psicopatológica). (Ver p. 70.)
Três problemáticas são importantes para o estudo psicopatológico relacionado com a
estrutura pré-edípica:
a) Os níveis pré-edipianos e observados retrospectivamente desde o Complexo de Edipo são
níveis de relacionamento predominantemente dual. Simplificando, poderíamos dizer que quanto
mais amadurecido for o aparelho psíquico mais “triangulado” ele está. Ao contrário, quanto mais
primitivo mais narcísico, e, portanto, mais dual e mais indiscriminado. O movimento progressivo
em direção à triangulação outorga importância à função de “terceira” pessoa, que é o Pai. Já o
movimento regressivo tende à fusão com esse objeto primitivo, único e onipresente, a Mãe.

11
Todo este assunto está implícito em Freud quando alude à questão da intemporalidade do inconsciente, que é
justamente o fator que vai permitir a reativação da situação edipiana pregressa com todo o caráter de atualidade com
que se manifesta (Freud, S., Ed. Stand., Brasil., vol. XIV, P. 214, nota de rodapé n.° 2).
b) Na realidade, admitimos, desde Freud, dois tempos de “fechamento” do aparelho
psíquico. Um primeiro tempo que ocorre em torno dos 5 ou 6 anos de idade, onde a triangulação
edipiana está em seu ápice, e quando a proibição do incesto em seu interior, como vimos,
“inaugura” a grande socialização do sujeito fora dos marcos de sua família de origem. E um
segundo tempo de “fechamento” que se completa na puberdade e adolescência, quando o sujeito,
agora de posse das identificações de seus progenitores, se dirige ao exercício da sexualidade fora
deles.

c) Outra grande problemática, vinculada ao período pré-edípico é a sexualidade feminina, onde se


estudarão os movimentos de relacionamento de objeto e de identificação que a menina terá com sua
mãe. Para a menina, a mudança de objeto amoroso que deverá efetuar, para poder superar seu
Complexo de Edipo, dará a este características específicas, que estudaremos mais adiante.

3. O RELACIONAMENTO DE OBJETO EDIPIANO

Como pequeno prefácio a este item, seguiremos alguns conceitos delineados por A. Godino
Gabas (Qedipus Complexus Est, Helguero Ed., Buenos Aires, 1979). Embora o amadurecimento
corporal do sujeito tenha destacada importância para a configuração de suas representações
psíquicas, existem opiniões que deixam em segundo plano as conseqüências de tal amadurecimento
nas aquisições “psicologizantes” do indivíduo. Tal afirmação se apóia na não-exclusividade do fator
anatômico como determinante da sexualidade, sendo que o fator relacional é imprescindível para
transformar o corpo biológico em corpo erógeno (psicológico).
Mais uma ressalva. Tende-se a pensar, esquematicamente e sob o ponto de vista anatômico,
que existem somente três zonas erógenas e suas conseqüentes relações de objeto. Na realidade, este
pensamento é reducionista, uma vez que existem múltiplas funções no organismo que lideram
outras tantas zonas erógenas. Não é preciso sublinhar que só falamos das clássicas zonas por
motivos pedagógicos, mas deveremos saber — e a clínica assim o demonstra — que tanto a pele
quanto o olho, a mão, o aparelho de fonação, etc., são zonas erógenas.
Um outro aspecto que devemos lembrar é que todas as zonas encontram-se ativadas desde o
início da vida, mas que existirá uma predominância alternada e sucessiva de alguma zona em
particular sobre as restantes.

4. O COMPLEXO DE ÉDIPO NO MENINO

Este é o tipo de estrutura que, desde os tempos de Freud, mais se conhece. Poderíamos
descrever os seguintes passos:
1. Inicialmente o menino (tanto quanto a menina) encontra-se em extrema dependência de
sua mãe. Este primeiríssimo período, como foi anteriormente descrito, é dual, predominantemente
narcísico e simbiótico. Sendo a mãe, ou as significações dela procedentes, o objeto almejado pelo
menino, institui-se ela como autoridade e poder onipresentes e altamente necessitados. À medida
que o tempo passa, e juntamente com a ampliação progressiva de seu mundo de relações, outros
personagens que não a mãe aparecem em seu campo de influência. Um desses personagens será
percebido como tendo alguma coisa a ver com a mãe e, em conseqüência, herdará seu poder e sua
autoridade. A relação dual terá se transformado em triangular. Os vínculos se tornam mais
complexos. O menino, que anteriormente desejara a mãe, agora deseja o que a mãe deseja: o pai.
Será agora ele o possuidor de um instrumento ideal que regula, dosa e regulamenta a estrutura
triangular. Esse instrumento ilusório, mas altamente eficaz, é o que se chama Falo.
2. O menino manifestará dois tipos de fixações. O primeiro é uma disposição a depositar
uma intensa carga libidinal na mãe. Manifesta esta disposição usando de todos os recursos
adaptativos e ainda agressivos que reafirmam seu di1eito de possuir o progenitor do sexo oposto. A
força impulsionadora deste tipo de atitude encontra-se naquilo que se chama de Identificação
Primária com o pai, que estudaremos posteriormente (ver p. 93). Estando o menino identificado
com seu pai, participa de sua potência mágica; porém, diante do inevitável contato com a realidade,
os impulsos de caráter agressivo sofrem uma transformação (sublimação) que é veiculada através de
atividades sociais, lúdicas ou de aprendizagem. Os conteúdos eróticos puros são também
sublimados, transformando.-se em atividades sentimentais, “correntes de ternura” que serão
instrumentadas como afirmação de presença no relacionamento com os adultos ou para aumentar a
confiança em si próprio.
Mas será importante destacar que, pelas causas apontadas em (1), o menino encontrará um
obstáculo para a obtenção do objetivo materno, que é o pai, funcionando este como rival. A
atividade fantasmática da criança, desenvolvida progressivamente desde o nascimento, atingirá essa
rivalidade com o tema da ç5traça0.
O segundo tipo de fixação, e que também ocorre interpenetrado com o anterior, é a fixação
libidinal no pai, o qual deve suportar este investimento libidinal. O pai adquire significados de dois
tipos: como rival a substituir e, simultaneamente, como modelo a imitar.
O processo é liderado também pelo mecanismo da identificação. É um movimento
complexo, que mostra que imitar o pai funciona simultaneamente como um mecanismo de defesa
que elimina o pai real (eu SOU o pai e portanto não luto com ele) e como uma forma de satisfazer,
agradar o pai, deixando-se modelar, educar, “fecundar”, metaforicamente falando, por ele. Eis aqui
a típica posição homossexual passiva do menino, de relevante importância como fator de
amadurecimento e estruturação psíquica.
No que diz respeito ao futuro destes tipos de fixações, não é fácil responder às perguntas
habituais, tais como se essas fixações podem ou não evoluir para uma homossexualidade adulta,
para uma vida de celibato em submissão ao pai, etc. Remetemos o leitor ao Capítulo 1 sobre
Causalidade Psíquica.
Especificamente quanto a este problema, é importante repetir que sempre existe uma dupla
identificação para o menino, tanto materna quanto paterna. E que na fase edipiana as relações do
menino com seu Pai estão marcadas por uma extrema ambivalência, não redutível a manifestações
de ódio. E uma outra advertência: todas essas relações descritas ocorrem no plano da fantasia, já
que a criança é criança e o amor objetal amadurecido, adulto, completado com a união genital, só
poderá ser obtido pelo menos oito ou dez anos mais tarde.
Designamos com o termo exogamia uma série de processos de ordem psíquica com
conseqüências imediatas no “social”, que levam o menino a deixar os vínculos primários (pai e
mãe), dirigindo-se ao que doravante nomearemos vínculos secundários.

5. O MOVIMENTO EXOGÂMICO DO MENINO

Por motivos já descritos e sobretudo pela impossibilidade biológica de concretizar o incesto,


o menino ficará convicto da inutilidade de seus esforços conscientes e inconscientes em busca da
satisfação incestuosa, O processo da exogamia está em marcha se compõe de três fases:
a) Uma superação da angústia de castração, ou seja,
fantasia de ser atacado pelo rival-pai será uma fortíssima motivação determinante do afastamento
do menino.
b) Simultaneamente, o menino renuncia a conquistar eroticamente a mãe e, em
conseqüência, abandona a luta contra seu competidor natural, o pai.
c) Finalmente, fechado o acesso à posse “definitiva”, de seus progenitores, só lhe resta o
caminho da procura da satisfação nos objetos substitutivos.
Vemos neste deslocamento fundamental a superação ou liquidação do Complexo de Édipo 12 que
consiste não somente numa “morte” da estrutura dirigida aos pais, mas num reinvestimento das

12
Untergang do Complexo Edípico (literalmente, sepultamento do Complexo de Édipo), implica um recolhimento
libidinal e um afundar-se, dirigir-se aos fundamentos, ou seja, ao Id. Daí o Complexo de Edipo rege a vida psíquica.
Quando há uma predominância no Ego — ou seja, é incompletamente sepultado — acontece a patologia. (A Dissolução
do Complexo de Edipo. St. Br. vol. XIX, p. 215, 1924.)
cargas libidinais em novos objetos que, direta ou indiretamente, recordarão os antigos. Assim, para
o menino, os professores serão “segundos pais” ou “segundas mães”.
Aliás, devemos lembrar ao leitor que os novos objetos são apenas relativamente novos: por
alguma característica mais ou menos importante ou intensa, o objeto precedente, velho, arcaico,
volta a se apresentar através dos novos — eis aqui a famosa frase de Freud: “O encontro de um
objeto é, na realidade, um reencontro dele”. (Três ensaios sobre a sexualidade [1905] St. Br. vol.
VII, p. 229 [1905].) Mais um elemento de importância apresenta-se nesta etapa exogâmica: é o
abandono, pelo menino, de qualquer atitude sedutora em relação ao rival paterno. A atitude
feminina de agradar o pai, deixando-se educar e modelar por ele é superada pelo processo
exogâmico. Porém, uma fixação nesse aspecto contribuirá, juntamente com outras variáveis, para
possíveis atitudes homossexuais passivas (conscientes ou inconscientes) no futuro, persistindo sob
alguns aspectos o complexo de castração, tingindo de elementos persecutórios qualquer tipo de
conduta homossexual.

6. O COMPLEXO DE ÉDIPO NA MENINA

A) A IMPORTÂNCIA DA MUDANÇA DE OBJETO

Não resta a menor dúvida de que, desde os tempos de Freud, o menino foi sempre tomado
como eixo de referência no desenvolvimento do processo de finalização do Complexo de Édipo.
Sabemos que o desenvolvimento objetal na menina é mais complicado, mas devemos confessar que
não sabemos se é mais complicado estruturalmente falando ou se, por ser observado sob o prisma
da masculinidade, aparece sempre descrito como uma transgressão.
O eixo central em torno do qual transita a problemática do Complexo de Édipo feminino é o
deslocamento do objeto primário. Com efeito, o menino está em posição de relacionamento
heterossexual com a mãe desde o nascimento e, portanto, tem o pai como rival; daí que o
movimento exogâmico será somente um afastamento “simples” desta estrutura elementar. Na
menina, porém, o relacionamento inicial é com uma pessoa do mesmo sexo, tendo o pai como rival.
Compreende-se, então, que o eixo do Complexo deverá sofrer uma espécie de torção para colocar a
mãe como rival e o pai como objeto amoroso.
No item correspondente aos estágios pré-genitais tivemos ocasião de salientar a importância
que esses períodos têm para a menina (ver p. 70). Efetivamente, o longo desenvolvimento e os
processos desenrolados em torno de sua mãe fazem com que a menina possua uma conflitiva toda
especial em relação ao seu objeto primeiro. Assim, e pelas razões apontadas naquele item, extrema
dependência, vínculo simbiótico com a mãe, relações objetais predominantemente narcísicas,
fixação(ões) pré-genital (ais) serão denominações diferentes para descrever-se a particular solução
feminina do Complexo de Édipo.
O estudo do processo pré-genital narcísico e “maternizante” faz com que a sexualidade
feminina seja estudada não só com o objetivo de se saber sobre o Complexo de Ëdipo, mas também
como modelo apto para aprofundar-se o conhecimento da dependência humana e sua saída.13
A resolução de toda esta complicada problemática, segundo Freud, gira em torno da
comprovação da inexistência de um pênis, quando se constata que o outro sexo é outro porque o
possui.

As decepções estruturantes14

Destacamos em item a parte, com finalidade pedagógica, esta decepção ou desapontamento


que a menina sofre quando chega ao período conhecido como “estágio da descoberta da diferença

13
Encontra-se tão articulado o problema da fase pré-edípica com a fixação feminina à mãe que autores franceses fazem
desses dois termos uma sinonímia, Reservam o nome de Édipo (para diferenciar de Pré-Édipo) à fixação ao pai
(Safouan, M. A sexualidade feminina na doutrina freudiana. Zahar Ed., 1977, p. 70).
14
Ver também p. 149.
sexual anatômica”. Realmente, em torno dos 5 ou 6 anos de idade, as meninas (e também os
meninos) constatam que existem, anatomicamente falando, dois sexos. Esta constatação, que se faz
mediante a observação, comparação e reafirmação, veiculadas através do ato de brincar, leva a esse
conjunto de sentimentos que nomeamos genericamente de decepção. Mas decepção com quê? Se
falamos de decepção é porque a menina tinha previamente uma idéia ilusória. Esta ilusão é a de que
existe um único sexo. Se prestarmos atenção, esta idéia ilusória, fantasiosa, é o suporte do
narcisismo ou, melhor dizendo, é o último baluarte que resta do narcisismo primitivo. Efetivamente,
a menina vem se “desiludindo” desde que nasce. Inicialmente ela perde o mundo aconchegante do
útero materno. Depois de algum tempo, perde definitivamente o peito como única e exclusiva fonte
de sustento e, mais tarde, experimenta sensações de perda de fezes a cada ato de defecação. Tem
infinitas oportunidades de experimentar a “perda” do afastamento corporal cada vez mais
prolongado do objeto original-mãe e, em algumas ocasiões, esta exclusividade, o monopólio do
“criançacentrismo”, é ainda abalada pelo nascimento de algum irmão.
Portanto, a decepção que marcará a organização final do Complexo de Édipo, na menina,
chega-lhe como uma coroação de desapontamentos anteriores, O leitor terá percebido que desses
desapontamentos participa uma única personagem: a mãe da menina. Então, não será estranho que
ao verificar, por comparação com os meninos, que carece do órgão genital chamado pênis, a menina
atribua à mãe o fato de não possuí-lo. Tem a sensação de que possuía o pênis e que sua mãe lho
tirou.
Num artigo fundamental para o entendimento da problemática feminina, Freud, referindo-se
a esta descoberta diferencial e marcante, diz: “Ela viu isso, sabe que não o tem, e quer ,tê-lo.”
(“Algumas Conseqüências Psíquicas da Distinção Anatômica Entre os Sexos” — vol. XIX p. 314) 15,
Não há dúvida de que o demonstrativo isso se refere ao órgão masculino, o pênis, e este ver isso e
querer tê-lo é o que se conhece com o nome de Complexo de Masculinidade na mulher. Este desejo
de ter um pênis, no entanto, não é assim tão simples. E um desejo que funciona como uma defesa.
Efetivamente, ela deseja avidamente isso por temor de verificar uma realidade crua: que não o tem,
não o teve e nunca o terá.
Porém, tal como Freud o descreveu, a menina conservará esta idéia ilusória que ele chamou
de esperança “de obter um dia, apesar de tudo, um pênis, e assim tornar-se semelhante a um
homem”. Esta esperança “pode persistir até uma idade incrivelmente tardia e transformar-se em
motivo para ações estranhas e de outra maneira inexplicáveis. (Idem, p. 314.)
Este desejo da menina de possuir um pênis também é conhecido como “inveja do pênis”. Se
foi bem entendido este conceito, compreender-se-á que sua função é a de um disfarce daquela
carência anatômica fundamental, ou seja, um disfarce da castração. Freud denomina esse processo
de “rejeição”. Em outros textos, aparece como “recusa” ou “renegação”. Esta rejeição é um
processo que leva a negar a carência, negação veiculada através de um desejo absolutamente normal
como processo evolutivo infantil, mas que está na base do mecanismo de defesa específico das
perversões e psicoses (ver p. 61-190, 202 e segs.).

Conseqüências da inveja do pênis

Seguindo o raciocínio das conseqüências psicopatológicas da inveja do pênis, uma menina


pode persistir na rejeição de sua própria castração construindo uma grande parte da sua
personalidade torno do desejo de ter um pênis. Como os desejos, assim como os sonhos, se dão em
tempo presente, ela pode ficar convicta que realmente o possui, comportando-se por isso como um
homem. Este comportamento “masculinóide” tenderá sempre a ser algo estranho a ela, contendo na
maioria das vezes condutas agressivas e denunciando, dessa maneira, a origem não satisfeita de
conduta.
Ë freqüente uma certa confusão decorrente da ambigüidade com que Freud denominou esse
famoso Complexo de Masculinidade na mulher. Sem pretender esgotar a multiplicidade de sentidos
15
Uso, por considerá-la mais adequada, a tradução feita nos livros de M. Safouan. (Safouan, M. Estudos sobre o Édipo,
Zahar, Rio, 1979, e A sexualidade feminina na doutrina freudiana. Zahar, Rio, 1977, p. 85.)
que pode provocar tal ambigüidade, acrescentaremos que geralmente se entende como Complexo de
Masculinidade uma estrutura composta em primeiríssimo lugar por uma relação extremamente
intensa com a mãe, mas não resolvida satisfatoriamente. Simultaneamente, é também marcante a
rivalidade com o pai, o que geralmente se expressa, por parte da menina, sob diversas formas de
descrédito ou desprezo.
Sabemos que o problema subsiste, porque o parágrafo anterior levanta questões tais como “o
que se entende por feminilidade ou por feminilidade verdadeira ou falsa?” E o problema sumamente
interessante de se saber se a mulher, para ser reconhecida como tal, não deverá mostrar nada, já que
o visível ficaria conotado como masculino.
Moustapha Safouan, em A Sexualidade Feminina na Doutrina Freudiana (Zahar Ed., p. 98), conclui
que feminilidade verdadeira é um processo de integração do desejo, efeito de um duplo movimento:
por um lado, da identificação com a mãe como objeto desejante e, por outro, pelo “reconhecimento”
do Falo (não do pênis) com o pai real. Este complicado “reconhecimento”, insistimos que é com o
Falo, ou seja, com uma marca, um símbolo do Poder, porque o que se observa na clínica é que o que
se esconde por trás da agressividade masculinóide, dos Ciúmes reivindicatórios, etc., etc., é uma
“revolta contra a arbitrariedade do pai”.
O problema de masculinidade como uma das conseqüências da inveja do pênis deverá
adquirir um sentido clínico, como uma máscara, que esconde embaixo dela, na maioria das vezes,
recusa da aceitação da diferença sexual (castração). O problema aqui, do masculino em sentido
amplo e suas vinculações com a homossexualidade na mulher, é discutível. Observado o problema
cia dicotomia masculino-feminino, em diversas sociedades, não se pode afirmar que toda uma gama
de signos exteriores (atividades, vestimentas,etc.) apague essa diferença.
Uma outra conseqüência descrita por Freud dessa decepção chamada Inveja do Pênis é o
deslocamento que persiste no traço dos ciúmes de uma mulher (Freud, vol. XIX, p. 315). Freud
outorgava enorme importância ao papel desempenhado por esse sentimento muito mais nas
mulheres que nos homens, ou seja, à rivalidade expressa, de diversas maneiras, pelas “coisas” que
outros possuem e ela não.
Segundo as conseqüências da Inveja do Pênis descritas por Freud, vemos que acontece um
afrouxamento nos vínculos de afeto da menina com sua mãe. Como se compreenderá, esse
afastamento do objeto monopolizante torna-se imprescindível para a entrada no Complexo de Édipo
feminino e, portanto, na sua futura autonomia exogâmica. Insistimos no que foi dito anteriormente:
a mãe, objeto primordial da menina, é responsabilizada por tudo, até — usando palavras de Freud
— “por enviá-la ao mundo assim, tão insuficientemente aparelhada” (Freud, S. vol.
XIX, p. 316).
Os ciúmes geralmente têm um argumento: uma vez descoberta a “inferioridade” genital, a
menina fantasia que a mãe gosta mais de outra criança, supondo que a esta outra ofereceu ou
oferece o que não lhe deu.

A procura do pai

Uma vez que a menina, por todas as operações descritas anteriormente, “decide” pelo
abandono do objeto materno, passa a ter como objetivo principal a obtenção, a partir do pai, daquilo
que a mãe se recusou dar-lhe.
A menina renuncia a possuir um pênis e se dispõe a obter uma criança, como “presente” por
parte do pai. Ou seja, ter um filho do próprio pai. Ë necessário lembrar ao leitor que este desejo de
ter um filho em vez de um pênis é o produto final de uma longa série de elementos concretos que a
menina perdeu, no percurso de seu desenvolvimento. Assim, perdeu o útero, o peito materno, fezes,
e toda uma infinita série de experiências de ordem corporal ligadas aos parâmetros psicossexuais
descritos. Em cada uma dessas experiências, a menina incorporou sensações complexas ligadas a
presença e ausência (do útero, do peito, das fezes, etc.), a proximidade e afastamento, gratificação e
frustração, cheio e oco, concreto e abstrato.
Portanto, quando se produz a “grande desilusão” de não possuir um pênis, esta não-posse é a
culminação de diversas não-posses anteriores. Como na fase anal, imediatamente anterior (ver p. 45
e segs.) a menina havia feito equações simbólicas de presença-ausência, retenção-expulsão, “dar
fezes de presente”, ser presenteada com (afagos, carinhos, gratificações diversas), será fácil
compreender agora que ela reagirá perante a não-posse do pênis compensando-a com a esperança de
ser gratificada agora por uma criança proveniente do objeto que deseja (o pai).
Esta obtenção de gratificação implica uma mudança radical, e daqui em diante as tendências
de ordem receptiva substituirão as tendências ativas com sentido reivindicatório que havíamos
examinado previamente. A menina, então, dirige-se ao pai para ganhar a atenção e a admiração dele,
que é o objeto de amor da mãe, ou seja, para seduzi-lo.

Os restos da fixação à mãe

Em decorrência dos itens anteriores compreende-se (sempre dentro da tese freudiana) que o
vínculo primitivo com a mãe não é facilmente superado. Admite-se geralmente que na mulher
adulta existem sinais de fixação pré-edipiana ao objeto materno e que, por esta razão, as mulheres
são mais “ambivalentes a respeito de sua mãe que os homens com relação ao seu pai”. Estas
conclusões são decorrentes do peculiar tipo de vinculação, diferente da do menino, que a menina
precisa desenvolver, partindo dos primeiríssimos estágios de sua vida, com o objeto materno.

7. A FINALIZAÇÃO DO COMPLEXO DE ÉDIPO

Há uma certa especificidade na maneira como é resolvida, em cada sexo, a situação


edipiana.
a) No menino, motivada pelo medo de perder seu pênis (ameaça de castração), há a renúncia
aos desejos genitais pela mãe. Simultaneamente, há um abandono dos sentimentos hostis contra o
pai. É importante salientar que Freud foi vacilante em muitos escritos no que se refere à designação
desse processo de desaparecimento da estrutura edipiana. Em alguns textos, ele denomina de forma
precisa “Destruição do Complexo”,16 em lugar da clássica “Repressão” (ou Recalque). O que se
destrói não pode voltar, mas o que se recalca sim. A saúde mental do sujeito dependerá ou estará
intimamente vinculada à distinção entre estes dois processos.
A rigor, o Complexo só terá sua resolução terminada na época da puberdade e adolescência,
quando o sujeito tem a possibilidade de pôr à prova sua genitalidade, que foi impedida na época de
seus 5 ou 6 anos. Facilmente se compreende que os objetos do adolescente “lembrarão” os pais, mas
não serão eles.
b) Em comparação com o menino, o processo da menina é muito mais gradual e, de certa
forma, menos completo. A complicada e ambivalente vinculação da menina com a mãe, antes
comentada, é o empecilho principal que retarda o processo. Embora a angústia de castração esteja
presente, a força que adquire o medo de perder o amor da mãe é hierarquicamente superior e
contribui para que a renúncia aos desejos pelo pai não seja tão drástica como é no menino. Em
ambos os sexos, tanto para o menino quanto para a menina, finalmente se cumpre um velho ditado:
“Quem não possui, é.” Ou seja, ao estar vedado o acesso aos objetos primários, pai e mãe, há uma
espécie de introversão-regressão da libido sobre o ego, ou seja, o ego, tornado “semelhante”,
identificando-se, com os objetos paternos proibidos, se apresenta ele próprio aos desejos libidinosos
como um novo objeto de amor. Este processo, decorrente de uma perda, culmina com uma
identificação com o objeto perdido (identificação secundária). O resultado é uma libertação
energética, que obviamente irá em busca de novos objetos para investir. Aqui se instala o chamado
período de latência, durante o qual uma parte da energia é colocada a serviço do desenvolvimento
das funções intelectuais.

16
E em outros, “dissolução” (vol. XIX, p. 217)
8. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DO COMPLEXO
DE ÉDIPO

O Complexo de Édipo é complexo. Nesta metáfora estão incluídas diversas categorias de


problemas. Em primeiro lugar, a “complexidade” alude ao polimorfismo tanto de sua constituição
quanto de sua expressão. Em segundo lugar, e seguindo as idéias de Godino Cabas, o único
complexo que habita o ser humano é o de Édipo. Não existem outros tipos de complexos, tais como
“complexo de inferioridade”, de “masculinidade”, de “superioridade”, etc., porque isto suporia que
tais complexos são uma parte do sujeito e Freud insistiu repetidas vezes no caráter estruturante que
representa o Complexo de Édipo para o indivíduo como um todo.
Em terceiro lugar, a palavra complexo alude, como vimos anteriormente (ver p. 63), a uma
estrutura e, como tal, o conflito se dá no seio mesmo desta estrutura, como uma luta e primazia de
funções umas sobre as outras.
Entendido desta maneira, compreende-se agora, seguindo Laplanche e Pontalis, como o
Complexo de Edipo é uma encruzilhada, é um nó em torno do qual se organiza uma outra estrutura,
que é a família humana. Este elemento liga inexoravelmente a estrutura edipiana ao fenômeno
social. A oposição entre o social e o natural é resolvida no seio da estruturação edipiana, através de
uma proibição fundamental, de conseqüências transcendentes, como é a proibição do incesto. (Ver
p. 65 e segs.)
Em outra ordem, mas decorrente da mesma estrutura, o Édipo é a culminação de toda a
organização psicossexual do indivíduo, em três direções diferentes:
1 — A liderança da zona genital que ordena, enfileirando, subordinadas a ela, as outras
anteriores.
2 — A superação do auto-erotismo primitivo, ou seja, a libido, cuja localização se achava
espalhada e fragmentada nos diversos segmentos corporais, tenderá agora a se reunir em torno de
estruturas significativas, através do interjogo da estrutura edipiana.
3 — Como decorrência do anterior, uma decisiva orientação em direção aos objetos
exteriores.
Este último aspecto conduz à construção da realidade do objeto, que agora se consolida
como um objeto inteiro, global e fundamentalmente sexuado, ou seja, com possibilidades de
intercâmbio e criatividade, no mais amplo sentido do termo.
Finalmente, o Complexo de Édipo estrutura todas as instâncias do aparelho psíquico
(Superego, Ego, Ideal do Ego e Id), reordenando-as definitivamente.
CAPITULO III

O Ego
O Superego
O Ideal do Ego

São fundamentalmente três as instâncias psíquicas que compõem o aparelho psíquico: o


Ego, o Superego e o Id. Mas, a rigor, considera-se o Superego subdividido em duas instâncias: o
Superego propriamente dito e o chamado Ideal do Ego.
O Id será, para Freud, a instância psicobiológica por excelência, cuja origem encontra-se no
corpo biológico e de onde nasce a energia dos instintos e das pulsões.
Antes do estudo das instâncias em si mesmas, é necessário focalizar a atenção num ponto
importante, que é o processo de Identificação.

A IDENTIFICAÇÃO

A Identificação é um processo de ordem psicológica mediante o qual o sujeito se constitui.


Se refletirmos sobre a palavra identificação, deduziremos facilmente que ela indica de que modo o
sujeito é psicologicamente constituído. Identificação significa, entre outras coisas, idêntico, igual,
semelhante. Com efeito, o sujeito humano só pode ser psicologicamente construído por outro
humano, ou seja, por um idêntico, um semelhante, um igual (ver p. 35).
Devemos ressalvar que, sob uma ótica evolucionista biológica, o ser humano, comparado
aos outros seres vivos, é o produto filogenético evolutivo mais complexo da sua espécie. Isto
significa que quando o ser humano nasce, seu corpo contém os processos de transformação histórica
de milhões de anos.
De modo muito simples, diremos então que o ser humano nasce com todas as possibilidades
de sê-lo, porém essa possibilidade apenas se concretizará quando esse corpo biológico entrar em
contato e interagir com outro ser humano. Ficará claro, então, que a forma biológica herdada através
de séculos será condição necessária, mas não suficiente, para o processo de aquisição do psiquismo,
ou seja, de um aparelho capaz de produzir pensamentos e até de pensar sobre eles.
Repetindo, o ser humano irá se constituir como tal através de outro ser humano. De outro
igual. Este processo é denominado Identificação e está relacionado com o Narcisismo, termo
complexo que abrange uma teoria da origem do sujeito e uma teoria do objeto.
Toda esta longa introdução serve para mostrar que as instâncias Ego e Superego são
basicamente constituídas por Identificações que, como veremos mais adiante, correspondem aos
restos representacionais do que anteriormente era um relacionamento objetal externo.
Conhecem-se, em psicanálise, dois tipos de Identificação: Identificação Primária e
Identificação Secundária.

A) IDENTIFICAÇÃO PRIMÁRIA

Conhecemos com o nome de Identificação Primária um tipo especial de incorporação do


mundo objetal “exterior” nos primórdios do aparelho psíquico. É muito difícil explicar em que
consiste a Identificação Primária porque, segundo Freud, ela é anterior a toda carga objetal.
Simplificando, podemos dizer que, ou nesta fase não existe objeto, ou ser o objeto e constituí-lo são
a mesma coisa.
O leitor deverá fazer um esforço imaginativo para compreender que os alicerces do aparelho
psíquico estão formados pelas “marcas” que as circunstâncias que rodeiam esse corpo biológico
recém-nascido vão deixando nele.
Alguns parágrafos acima, dissemos que a Identificação Primária é um tipo especial de incorporação
do mundo objetal “exterior”. O leitor terá observado que exterior está entre aspas, porque a rigor
não existe exterior, desde o momento em que, no contato com outros corpos, o sujeito é esses outros
corpos. Isto é o que se quer convencionalmente dizer com expressões tais como: “estágio de
indiferenciação entre o self e o objeto”, ou estágio de indiferenciação narcísica”, ou “estágio de
narcisismo primário” ou “estágio simbiótico”, ou “estágio autístico”, etc. algumas destas
expressões, correntes na linguagem teórico-clínica, enfatizam o objeto e outras o tipo de vínculo
estabelecido. Por flqua11t0, tal terminologia não tem demasiada importância; todas as expressões se
referem ao processo comum de que o ser humano nasce psicologicamente fundido, fusionado,
amalgamado, “confundido” com outro ser humano (Identificação Primária).
Quando descrevemos as etapas orais da evolução psicossexual (ver p. 35), sublinhamos o
fato de que o ser humano é o único ser vivo que nasce no mais absoluto e total desarvoramento e,
portanto, na mais absoluta necessidade de depender do outro. Justamente, a Identificação Primária é
um processo correlativo a essa dependência. Praticamente, dizer dependência e dizer Identificação
Primária é mostrar um ou outro lado de uma mesma moeda.
Se o sujeito nasce já dependendo, ou seja, se psicologicamente ele é outro desde o início,
isto significa que por força das circunstâncias ele é passivo, ele sofre as ações que os outros
determinam. Em outras palavras, ele é identificado. Como podemos observar, reencontramo-nos
nesta expressão com a dependência que exprime o âmago do conceito de Identificação Primária (ver
p. 88).
Não será estranho que a problemática da Identificação Primária tenha profundas evocações
filosóficas, que farão sentido para o leitor na medida da captação do conceito que quisemos expor.
Essas expressões filosóficas são, por exemplo: “ser é ser para outro”, “ser para outro é ser com
outro”, etc.
Avançando um pouco mais nesta compreensão da complexidade da Identificação Primária,
poderíamos dizer que o conceito predomina em etapas muito arcaicas do desenvolvimento, onde
reina o mais puro narcisismo. Isto quer significar, como já vimos, que não existe diferença entre
Ego e Objeto. O único diferencial é que o sujeito sente prazer ou desprazer, e será através deste
parâmetro prazer/desprazer que o Ego e os Objetos começarão a ser construídos.
Acrescentaremos que nesta primeira etapa o Ego primitivo tenderá a ficar com aquilo que
lhe dá prazer e a rejeitar, como num verdadeiro ato reflexo, o que lhe causa desprazer.
B) IDENTIFICAÇÃO SECUNDÁRIA

O nome está indicando que este tipo de Identificação ocorre depois que o “cimento” das
Identificações Primárias formou o “solo” do aparelho psíquico. Admite-se, desde Freud, que a
Identificação Secundária é contemporânea do Complexo de Édipo. Designa, por isso, o ponto final
da incorporação, agora total e definitiva, de ambos os pais. Simplificando, a Identificação
Secundária não será senão uma continuação da Primária. Nesta última, o sujeito enfrenta seu habitat
primário sendo este habitat. Na Identificação Secundária, quatro ou cinco anos depois, ele
enfrentará esse mesmo habitat, só que ele já não será mais o mesmo. Ele terá incorporado dentro de
si os traços, as marcas, as representações daquele mundo primitivo de quando ele e o mundo eram a
mesma coisa, ou seja, ele enfrentará a definitiva Identificação com a Identificação Primária dentro
dele.
Observe o leitor que, embora a etapa da Identificação Primária esteja localizada num período
narcísico, na realidade essas identificações são aspectos muito parciais do que será a realidade
definitiva. Isto quer dizer que este sujeito primitivo sente o mundo e ele mesmo como um absoluto.
De fora, o observador compreende que esse vínculo é parcial, mas de “dentro” o vínculo é total, é
tudo o que o sujeito conhece até esse momento.
Este estado de coisas na Identificação Primária é o que se conhece com o nome de Outro
Especular, facilmente entendido como se o Outro não fosse uma pessoa diferenciada: o Outro é uma
imagem, como num espelho, igual ao sujeito mesmo.
Aos cinco ou seis anos de idade o sujeito chegará a uma fase de acabamento da estrutura do
aparelho psíquico. Colocará as telhas finais do telhado do edifício que começou a ser construído
desde o início narcísico da vida.
A Identificação Secundária é um tipo especial de incorporação do objeto depois de sua
perda. Isto é, após as primeiras fases de constituição narcísica o sujeito se dirige ao mundo objetal,
reconhecendo cada vez mais as amplitudes dos objetos. O que inicialmente era fusional e
fragmentário começa a ser cada vez mais diferenciado e totalizado. Isto significa que se vai
abandonando esse absolutismo da relação primária narcísica para se observar, cada vez com maior
complexidade, que os objetos não são especulares mas sim relativos. Ou seja, que os objetos se
relacionam uns com os outros e nem sempre, sobretudo, com o sujeito. Insistimos, passa-se
progressivamente de uma crença absolutista das relações a uma ruptura dessa crença, ruptura essa
imposta pelo relativismo dos vínculos.
Quer dizer, então, que, metaforicamente, quando o sujeito chegou à idade do Edipo,
considerado definitivo, os pais disseram sim a todos os seus desejos, já que as identificações
primárias e parciais com eles levaram a marca do absolutismo narcísico. Mas quando o desejo
sexual chega a se fazer genital, quer se impor também como absoluto: o menino deseja possuir a sua
mãe e a menina o seu pai. Mas, pela “primeira” vez na história deste aparelho psíquico, tais desejos
lhes são negados. E o que se conhece com o nome de Proibição do Incesto.
Compreenderá agora o leitor o que dizíamos em parágrafos acima: que a Identificação
Secundária se produz por uma perda. Realmente, o modelo descrito por Freud em “Luto e
Melancolia” (S. B. vol. XIV, p. 271) [1917] mostra que o sujeito reestrutura dentro de si o vínculo
perdido com seus pais reais e concretos devido a esse não edípico fundamental e estruturante. A
Identificação Secundária constituirá portanto o Superego e compreender-se-á melhor porque o
Superego é sempre mais “rígido”, ou “sádico”, ou “tirânico”, do que a realidade exterior que lhe
deu origem: é porque o Superego teve origem numa rejeição (de um desejo sexual-genital).
“Abaixo” deste não estruturante enfileiram-se todos os outros nãos (rejeições, proibições,
abandonos, etc.) passados e futuros da vida do aparelho psíquico.

c) FIXAÇÃO, IDENTIFICAÇÃO E ÉDIPO COMPLETO


Não será difícil compreender que o Ego do adulto estará constituído por um traço que
guarda a lembrança do vínculo primitivo com sua mãe, chamado Fixação Objetal à mãe, e outro
constituído pela identificação primitiva com o pai. No caso do menino, entende-se facilmente que
nas etapas narcísicas de seu desenvolvimento ele se ligasse à sua mãe parcial, sendo
simultaneamente o pai.
Esta afirmação complexa só poderá ser entendida tendo-se presente que a rede de
identificações constitui-se como um sistema. Como tal, será suficiente a nomeação de um dos
fatores em jogo — por exemplo, “pai” — para que, por oposição e automaticamente, se remeta a
seu oposto “mãe”. Em tal sentido, e dentro da teoria psicanalítica, não haverá possibilidade
nenhuma de considerar as identificações isoladas em si mesmas. Elas são solidárias e entram em
combinações complexas de oposição.
O Complexo de Édipo será, simultaneamente, a construção de uma alteridade, e da
individualidade. Porém, essa construção reconhece uma historicidade que começa sendo a
identificação primária (narcisismo) e culmina com a identificação secundária (complexo de
castração). Assim, identificar-se com outra pessoa significa assimilar algum atributo determinado
dessa pessoa.
Suponhamos que uma menininha (e, no momento, nos ate- remos a ela) desenvolva o
mesmo penoso sintoma que sua mãe, a mesma tosse atormentadora, por exemplo. Isso pode ocorrer
de diversas maneiras. A identificação pode provir do Complexo de Édipo; nesse caso significa um
desejo hostil, por parte da menina, de tomar o lugar da mãe, e o sintoma expressa seu amor objetal
pelo pai, ocasionando realização sob a influência do sentimento de culpa, de seu desejo de assumir
o lugar da mãe: “Você queria ser sua mãe e agora você é — pelo menos, no que concerne a seus
sofrimentos.” (Freud, S. Psicologia de Grupo e a Análise do Ego, Standard Brasileira, vol. XVIII, p.
134/35, 1921.)
Pode-se observar, neste expressivo parágrafo, como o ato c identificação é a maneira de se
transformar (a menina) à imagem e semelhança, neste caso, da mãe. O efeito obtido é a supressão
da diferença. Ao se converter num igual à mãe, a menininha obtém um efeito ilusório (ver p. 62 e 77
e segs.).
Se repararmos num fragmento da frase expressa por Freud, diríamos também que a
identificação é liberada pelo desejo “de assumir o lugar...” Mas sendo esse lugar variável, pela
possibilidade de atributos oferecidos para a identificação, teremos que concordar que esse lugar é
sinônimo de uma função. Enfatizamos o fato de que, ao incorporar um atributo, o sujeito c
o lugar de uma função, ou seja, tudo aquilo que podemos c de alguém (ou de alguma coisa).17
Elevado conceitualmente o problema poderia se definir dizendo-se: se identificar é ocupar
um lugar e esse lugar se refere a uma outra pessoa que cumpre uma função determinada para o
sujeito identificado. As noções de identificação, rôle (papel) e função são superpostas.
Observe-se que, focalizando o problema da identificação numa função, num lugar,
mostramos a extrema variabilidade de combinatórias possíveis a serem exercitadas por qualquer
pessoa. Com efeito, a pessoa encarregada de executar a função será importante na medida em que
exerça esse mandato exigido pela função mesma. Captando uni atributo (função) de outra pessoa, o
sujeito se transforma no semelhante, isto é, se identifica.
E outra ressalva, referida a “ocupar o lugar”. Como se constata, a frase exprime um conceito
tópico (topos: teoria dos lugares) e, além do mais, a palavra “ocupar” está vinculada à palavra alemã
Bezetzung, conhecida na terminologia psicanalítica como “carga”, “catéxia”, ou “investimento”,
que quer dizer, precisamente, ocupação, no sentido de ocupação de tropas, por exemplo. (Ver p. 132
e segs. e 171.)

17
o conceito de função ultrapassa os limites desta obra. Digamos apenas que o uso do termo corresponde a toda uma
tradição filosófica moderna: Leibniz, Hume, Bercovich e Kant. Função é tomada aqui como uma operação ou conjunto
de operações determinantes de uma realidade, ou que permite compreender esta realidade. O uso do termo em
matemática é altamente significativo: refere-se a uma relação entre quantidades que podem variar, e o que permanece
constante é, precisamente, a relação. Frisa-se, aqui, a interdependência mútua dos elementos intervenientes. (Ferráter
Mora, I. Diccionario de Filosofia, Alianza Ed., Madrid, 1979, vol. 2, p. 1.297 e segs.)
1. GENÉTICA E DIALÉTICA DAS IDENTIFICAÇÕES.
IDENTIFICAÇÃO PRIMÁRIA, NARCÍSICA E EDÍPICA

Na conceituação a seguir, temos presente a trilha fundamental percorrida por Freud em O


Narcisismo: Uma Introdução [1914] (Standard Brasileira, vol. XIV, p. 89 e segs.), Psicologia do
Grupo e Análise do Ego [19211 (Standard Brasileira, vol. XVIII, Cap. VII, p. 133) e O Ego e o Id
[1923] (Standard Brasileira, vol. XIX, Cap. III, p. 42 e segs.), assim como a sistematização de
Godino Cabas (Godino Cabas, A. — Curso y Discurso de la Obra de S. Lacan, Helguero Ed.,
Buenos Aires, 1977, Cap. V, p. 177 e segs.).
“Ao mesmo tempo que essa identificação com o pai, ou pouco depois, o menino começa a
desenvolver uma catéxia de objeto verdadeira em relação à mãe, de acordo com o tipo [anaclítico]
de ligação. Apresenta então, portanto, dois laços psicologicamente distintos, uma catéxia de objeto
sexual e direto com a mãe e uma identificação com o pai que toma como n Ambas subsistem lado a
lado durante certo tempo, sem qualquer influência ou interferência mútua. Em conseqüência do
avanço irresistível no sentido de uma unificação da vida mental, c.. acabam por reunir-se e o
complexo de Édipo normal origina-se de sua influência.” (Standard Brasileira, vol. XVIII, p. 133.)
Eis aqui, exposto muito sinteticamente por Freud, o problema genético e estruturante das
identificações. Infere-se do fundamental parágrafo acima transcrito, o seguinte:
a) No início da vida psíquica, identificação e catéxia coincidem (ocupam “o mesmo lugar”).
b) Numa espécie de segundo tempo, ambas — identificação e catéxia — se separam.
c) O destino da catéxia é denominado “escolha do objeto”.
d) O Complexo de Édipo reconhece uma base nas identificações primárias.
e) O Complexo de Édipo é um complexo de identificações.
Mudando a linguagem, Freud vai reformular isto em c significativo parágrafo:
“É fácil enunciar numa fórmula a distinção entre a identificação com o pai e a escolha deste
como objeto. No primeiro caso, o pai é o que gostaríamos de ser, no segundo, o que gostaríamos de
ter, ou seja, a distinção depende de o laço se ligar sujeito ou ao objeto do Ego. O primeiro tipo de
laço, portanto, é possível antes que qualquer escolha sexual de objeto tenha s feita.” (Standard
Brasileira, vol. XVIII, p. 134.)
Portanto, dizer que no início da vida psíquica, identificação e catéxia coincidem ou
identificação e escolha de objeto coincidem ou ser e ter coincidem, é dizer, equivalentemente, a
mesma coisa. Isto será denominado identificação primária.
O problema da identificação primária (assim como alguns outros conceitos fundamentais) é que não
tem referente clínico.
Um suposto teórico e, em conseqüência, inobservável, encontrando-se na mesma ordem
conceitual que as fantasias primordiais, o mito da horda primitiva, ou o Recalque Primário (ver p.
178).
“... por trás dele [ideal do Ego] jaz oculta a primeira e mais importante identificação de um
indivíduo, a sua identificação com o pai em sua própria pré-história pessoal.” (O Ego e o Id,
Standard Brasileira, vol. XIX, p. 45.)
Acrescenta Freud numa nota de rodapé:
“Talvez fosse mais seguro dizer ‘com os pais’, pois antes de uma criança ter chegado ao
conhecimento definitivo da diferença entre os sexos, a falta de um pênis, ele não faz distinção de
valor entre o pai e a mãe.” (Idem, p. 45.)
Eis aqui, novamente exposta, a coincidência entre identificação e catéxia e, portanto, a
indiferenciação elevada a nível mítico (pré-histórico).
Efetivamente, a identificação primária forma o subsolo fundamental de todo o problema da
identificação e pressupõe que a criança toma, simultaneamente, como objeto da catéxia, o objeto da
identificação. Questionamos, então, se o que aqui se chama de objeto é objeto. No melhor dos
casos, um objeto altamente indiferenciado, que se confunde com isso que convencionaríamos
chamar de Ego primitivo. Este processo culminará no Complexo de Édipo. Ali, objetos, catéxias e
identificações “ocuparão” seus respectivos lugares perfeitamente diferenciados.
Durante esse tempo, vai-se instituir um conceito eficaz de trabalhar como operador
provocando a ruptura da indiferenciação e polarizando identificação e catéxia. Tal conceito é o
narcisismo (fig. 8).
Desta maneira, o narcisismo dá nascimento ao Ego, por um lado, e ao objeto (ambos
narcísicos, é lógico). Este tipo de identificação, sim, é observável na clínica, através de inúmeros
exemplos: megalomania, magia da palavra, escolha de objeto especular, onipotência de pensamento,
etc. Os sucessivos e inevitáveis “abandonos” dos objetos reais (peito da mãe) levam a catéxia a
procurar seu lugar de coincidência e origem com a identificação (fig. 9).

Esse “retorno” catexial, o único que tem de similar com a identificação primária, é seu
movimento centrípeto. A catéxia retorna à própria pessoa, ao corpo, etc., erogeneizando o próprio
sujeito e iniciando assim o caminho bipolar com a identificação, que culminará no Complexo de
Édipo.
Deste movimento, assim descrito, nasce o primeiro e o segundo princípio de Identificação:
Catéxia e Identificação ocupam lugares polares que reconhecem, por sua vez, um segundo
princípio intimamente articulado com o primeiro: “Ali, onde houve uma catéxia, haverá uma
identificação.” (Godino Cabas, op. cit., p. 187/188.)
Assim, o Ego do sujeito constitui-se simultaneamente como uma estrutura própria e alheia,
já que a identidade se estabelece em contato com outras parcialidades que vão deixando sua marca,
sendo o “conjunto de marcas” o Ego do sujeito.
“... pode-se dizer que essa transformação de uma escolha objetal erótica numa alteração do
Ego constitui também um método pelo qual o Ego pode obter controle sobre o Id e aprofundar suas
relações com ele.” (Freud, S. O Ego e o Id, Standard Brasileira, vol. XIX, p. 44 [1928].)
Mas... observe-se que, ficando a identificação instalada e constituindo o Ego, produz-se uma
alteração que fala do ex-objeto (e agora identificação). No caso que estamos considerando, fala- se
da mãe que, no mínimo, encontrava-se vinculada ao pai. Este caminho — o do pai — será o tomado
pela catéxia. Constitui-se, assim, o Complexo de Édipo, instalando-se as identificações e as catéxias
nos lugares definitivos.
Portanto, o Complexo de Edipo está constituído, em sua forma primitiva, pela Fixação
Objetal à mãe e pela Identificação com o pai.

Assim, no Complexo de Édipo, a catéxia em direção ao pai exclui a identificação com ele,
ou seja: quando o sujeito está identificado com a mãe, a catéxia do objeto escolherá o pai e Vice-
versa.
Podemos agora voltar à nossa definição, feita no início deste capítulo, quando nos referimos
à identificação como o ocupar o lugar de uma função. Neste caso, a definição é totalmente correta,
salvo no referente a essa parcialidade que é esta função. Com efeito, esta será a “identificação
histérica”, um tipo especial de identificação de efeito limitado e restrita a determinados aspectos,
mas que serviu a Freud como ponto de partida para estudar a estrutura da identificação, sua
qualidade de estruturante e sua função dentro do aparelho psíquico.

ALGUMAS DEFINIÇÕES E CONCEITOS LIGADOS À IDENTIFICAÇÃO USADOS


EM PSICOPATOLOGIA18

1. IDENTIFICAÇÃO TOTAL
Equiparação ou igualação de um Ego (como mesmeidade) a outro Ego alheio (Identificação
Primária, por exemplo).

2. IDENTIFICAÇÃO PARCIAL
Equiparação ou igualação de um Ego (como mesmeidade) com certos traços, atributos,
funções do Ego alheio (Identificação Histérica, por exemplo).

3. IDENTIFICAÇÃO PERMANENTE
Identificação que altera a estrutura egóica em caráter definitivo (a estruturação do caráter e
do próprio Superego, por exemplo).

18
Como guia para este item, utilizamos: Laplanche e Pontalis: Vocabulário de Psicanálise, Ed. Martins Fontes. Lara-
Belmonte, dcl Valie, E.; Kargieman, A.; Saludjian, D., La ldentijicación en Freud, Ed. Kargieman, Buenos Aires, 1976,
p. 17.
4. IDENTIFICAÇÃO TRANSITÓRIA
Identificação que não altera ou não deixa traços no Ego (a identificação de um ator com seu
personagem, por exemplo). Sob alguns aspectos, é parecida com a Identificação Histérica (ver p. 93
e segs.).

5. IDENTIFICAÇÃO INTROJETIVA
Resultado da introjeção do objeto dentro do Ego com o que passa a se identificar total ou
parcialmente.

6. IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA
Mecanismo descrito originalmente por Melanie Klein e que visa a colocar partes do Ego
dentro do objeto. Ë correlato à identificação narcísica de Freud mas, em Melanie Klein, acompanha-
se de fantasias de controle e intrusão agressiva.

7. IDENTIFICAÇÃO COM OBJETO TOTAL


Identificação com objeto sexual da libido unificada. No sentido freudiano, objeto da fase
fálico-genital por volta dos 5/6 anos de idade, contemporâneo do Complexo de Edipo. No sentido
kleiniano, objeto da fase depressiva, por volta dos 6 meses de idade. Em ambos os sentidos, objeto
completo semelhante ao sujeito.

8. IDENTIFICAÇÃO COM OBJETO PARCIAL


Identificação com objeto de pulsão parcial ou tendência libidinal isolada. Equiparável ao
objeto (a) “pequeno outro” do esquema lacaniano onde e com quem se institui o nível Imaginário.
9. IDENTIFICAÇÃO PROGRESSIVA
A que implica o acesso ao nível superior de desenvolvimento psíquico. Sempre supõe um
ganho. Exemplo típico: as identificações primárias.

10. IDENTIFICAÇÃO REGRESSIVA


A que, desmontado um nível de integração adquirida, vai dar numa identificação de nível
anterior. Exemplo típico: a identificação oral da melancolia quando se perde o objeto e a “sombra”
dele cai sobre o Ego.

11. INCORPORAÇÃO
Atividade pulsional ligada à zona erógena oral. Fisiologicamente, consiste em engolir,
através da boca, alguma substância do mundo exterior. Psiquicamente, expressa a fantasia de
introduzir dentro do corpo alguma coisa do mundo exterior. Ë o protótipo da introjeção.

12. ASSIMILAÇÃO
Resultado ou efeito de uma atividade pulsional ligada à oralidade. Fisiologicamente,
expressa a idéia de digestão de uma substância do mundo exterior. Psiquicamente, exprime a
fantasia de fusão com as propriedades da coisa exterior a assimilar. Protótipo biológico da
identificação.
(Ver, por exemplo, o paralelismo entre assimilação, identificação, canibalismo e costumes
rituais em Freud: O Ego e o Id, Standard Brasileira, vol. XIX, p. 43 [1923]; Totem e Tabu, Standard
Brasileira, vol. XIII, p. 105, 170, 183- 184.)

13. INTROJEÇÃO
Mecanismo psicológico que reconhece uma base no ato biológico da incorporação mediante
a qual o aparelho mental se apropria dos objetos do mundo exterior.
Descrevem-se vários estágios da introjeção. Inicialmente, encontra-se liberada pelo
Princípio do Prazer, quando o Ego está em etapas sumamente arcaicas. Somente depois, quando o
Ego se desenvolve, a introjeção coloca-se a serviço do Princípio de Realidade e pode-se diferenciar
objetos, qualidades dos mesmos e o Ego. Não necessariamente este último tipo de introjeção acaba
em identificação. Pode dar lugar a núcleos ou áreas enquistadas, como magistralmente antecipou o
próprio Freud:
“Embora isto seja um digressão de nosso objetivo, não podemos evitar conceder nossa
atenção, por um momento mais, às identificações objetais do Ego. Se elas levam a melhor e se
tornam numerosas demais, indevidamente poderosas e incompatíveis umas com as outras, um
resultado patológico não estará distante. Pode ocorrer uma ruptura do Ego, em conseqüência de as
diferentes identificações se tornarem separadas umas das outras através de resistências...“ (O Ego e
o Id, Standard Brasileira, vol. XIX, p. 45 [1923]).

14. EJEÇÃO
Expulsão fisiológica de substâncias do interior do corpo para fora dele. Expressa —
psiquicamente — uma fantasia de rejeição de elementos próprios. Protótipo biológico da projeção.

15. PROJEÇÃO
Mecanismo psicológico apoiado no ato biológico da ejeção. Tem como finalidade principal
transformar um perigo, ou um fato não-aprazível interior em exterior, já que do externo podemos
fugir e do interno não. Ë um mecanismo de defesa da série neurótica. Sua diferença com a
identificação projetiva consiste precisamente nisto. Esta é da série psicótica.

16. INTERNALIZAÇÃO
Processo de transformação psíquica consistente em transformar um vínculo externo em
intrapsíquico. A interação se faz, agora, dentro do próprio psiquismo. O protótipo disso é a
finalização do Complexo de dipo numa estrutura intrapsíquica, o Superego.

17. IMITAÇÃO
Ato mediante o qual se copia ou se reproduz um modelo externo ou alguma característica
dele. Pareceria estar na base das identificações e, às vezes, se confunde com elas.
Em psicologia, o termo tem sido usado por Piaget para descrever o fenômeno ao qual está
submetido o psiquismo. Existirá a possibilidade de imitar sem identificação e ainda sem introjeção
(sem representação mental).

18. IDENTIDADE
É um sentimento ou vivência de mesmeidade alcançado pelo sujeito através do tempo e das
experiências pessoais, familiares e culturais que lhe permitem manter um certo grau de coesão e de
equilíbrio mais ou menos constante.
O conceito de identidade tem vínculos com o mesmo conceito em filosofia (ontologia) e
lógica, mas não se confunde com ele. Porém, em psicologia, o conceito de identidade remete
permanentemente ao outro ou outros, na medida em que — segundo Hegel — a identidade não é
um princípio simples e abstrato, podendo-se observar nela o puro movimento da reflexão que deixa
o outro numa mera aparência.
Em resumo: a forma completa da estrutura edipiana mostrará a coexistência de quatro
tendências pulsionais e de duas identificações:
— Tendência-pulsão positiva ou amorosa em relação ao pai, e à mãe; e à mãe;
— Tendência-pulsão negativa ou hostil em relação ao pai,
— Identificação com esse mesmo pai, e com essa mesma mãe.

AS INSTÂNCIAS DO IDEAL DO EGO E DO SUPEREGO

Como estrutura pulsional o Complexo de Édipo é “superado”, “resolvido”, dando lugar a


duas instâncias representativas de s.... estrutura:
— O Ideal do Ego, como herdeiro do narcisismo primitivo. Com efeito, esta instância será o
monumento que lembrará t união primitiva entre o sujeito (ainda não constituído) e seus pais. Para
dizê-lo em outras palavras, uma lembrança da relação simbiótica primitiva formada pelas
Identificações Narcísicas. — Ideal do Ego leva o sujeito a se igualar, a se modelar como pais: “Faça
isto! Faça aquilo! Pense como seu pai! Seja como’ ele!”, etc.
— O Superego, herdeiro do Complexo Edípico. Se foi entendido o que dissemos em páginas
anteriores sobre a Identificação Secundária, compreender-se-á que o Superego é uma instância
tardia. Com efeito, é a representação, conseqüência deumperd1 de uma recusa dos objetos paterno e
materno em satisfazer à desejo (incestuoso) do sujeito. Observemos, de passagem, que a clássica
afirmação kleiniana da existência prematura do Super — é correta, se entendemos por ela a
inscrição parcial das pequenas perdas, com suas respectivas fantasias, que vão se produzindo ao
longo do desenvolvimento do aparelho psíquico.
Deveremos contudo sublinhar que a função do Superego é solidária com o que ele realmente
é: uma Identificação. Não será demais lembrar que esta Identificação é a que fecha o “telhado” do
edifício psíquico, desencadeada pela proibição edípica.
Esta Identificação (produto de uma interiorização), agora denominada Superego, está carregada
(ocupada) de pulsão. Na realidade o objeto apenas mudou de lugar, já que anteriormente a pulsão
procurava objetos exteriores que eram os pais reais e concretos e agora esses pais se introjetaram,
transformando-se num “monumento”: a Identificação, o Superego.
Quando falamos de perda dos pais, para a criança os pais reais continuam a existir dentro de
seu campo perceptivo, O que se perde, realmente, é um traço, um atributo desses objetos. A perda a
que nos referimos não é uma perda real, é uma perda imaginária. Concordando com o que já vimos
ao falar de Castração (ver p. 61 e segs.), tanto meninos quanto meninas sofrem uma ameaça de
perda do genital ou a convicção de que se consumou esta perda, como no caso da menina. No
entanto, e segundo Freud, as únicas perdas reais e concretas foram: o útero, no ato do nascimento; o
peito, no desmame; e as fezes, em cada ato defecatório.
Nunca ninguém viu perder-se o genital. Esta perda é uma perda imaginária, sustentada,
suportada pela materialidade real- concreta das perdas anteriores. (A organização genital infantil
[Uma interpelação na teoria da Sexualidade], St. Br., vol. XIX, p. 182 [1923]. A Dissolução do
Complexo de Edipo. St. Br., vol. XIX, p. 219-20 [1924]).
Seguindo uma metáfora de Godino Cabas (Uno Helguero Ed., 1979, p. 53), o Superego
como instância e como identificação é uma cicatriz da ilusão quebrada.
Entender-se-á por isto que o fator desencadeante da instância superegóica é a perda de uma grande
ilusão: a fusão narcísica e total com os pais.
O Superego se manifesta em forma de impedimentos, obstáculos, empecilhos, proibições:
“Não faça isto! Não faça aquilo! Não seja como seu pai!” (Esta última expressão exprime a
proibição do incesto: Eu posso ter relacionamento sexual em “sua” mãe, você não!!!).

FUNÇÕES DO EGO, DO SUPEREGO E DO IDEAL DO EGO

a) As funções do Ego vinculam-se a duas frentes diferentes: a da realidade exterior por um


lado e, por outro, a da realidade interior com a complicada vinculação intrapsíquica entre o
Superego e o Id. O Ego é um campo cênico, o lugar do compromisso entre as instâncias permissivas
que requerem satisfação e as instâncias restritivas que a impedem. Comporta-se como instância
mediadora entre as pulsões prementes do Id, que requerem sempre satisfação ilimitada, e as
condições da realidade externa, que impedem as exigências instintivas. Tal mediação requer Ego
uma atividade que consiste em permitir o que um quer dentro dos limites que o outro permite ou
possibilita.
b) As funções superegóicas estão alinhadas nas exigências de ordem moral. Exercem uma
função crítica que produz efeito de dominação sobre o Ego. Esta crítica é quase totalmente
inconsciente e, forçando uma expressão, Freud denominou-a “sentimento inconsciente de culpa”.
Mas é preciso ressalvar que, clínica, esse sentimento inconsciente de culpa só se observa como uma
necessidade de punição, de castigo.
c) O Ideal do Ego terá suas funções reconhecidas como uma recaptura do narcisismo
primitivo, sendo a instância leva o sujeito a se conduzir segundo os padrões aprendidos convivência
primitiva com os pais. Daí ser um modelo ao qual o sujeito aspira imitar.
A auto-estima e a confiança do sujeito dependerão de permanente balanço e ajuste entre
estas duas últimas instâncias, da aprovação ou da rejeição que o sujeito sinta perante os pais
interiorizados, sejam estes normas ou modelos ideais a imitar, ou proibições ou limitações a
transgredir.

CAPITULO IV

Latência
Puberdade
Adolescência

PERÍODO DE LATÊNCIA

Foi assim denominado o peculiar período que se estende desde os cinco ou seis anos de
idade até as fases puberais do desenvolvimento.
O nome reconhece uma certa calma, em comparação com o período precedente, a plena fase
de eclosão do Complexo Edipiano. Com efeito, tão-logo se reflita sobre o particular, a latência é
produto direto do não que institui a finalização do Complexo Edípico e a lei da exogamia. Ou seja,
o sujeito renuncia à satisfação com seus pais das pulsões sexuais e é obrigado a se deslocar para
fora da estrutura familiar primária (exogamia).
Não se trata absolutamente de uma parada no desenvolvimento sexual, já que é evidente
para qualquer observador que as crianças têm manifestações sexuais nesse período.
Alguns autores, entre os quais nos encontramos, preferem falar de período de latência e não
de estágio, porque nesta época carecemos de elementos para descrever uma nova organização.
Metapsicologicamente, o que acontece é que, logo após a violenta eclosão das pulsões
sexuais durante o período edipiano, estas tiveram que se deslocar para objetos não reais-concretos.
Eis aqui o porquê de ser este período de latência o período da escolaridade, do aprendizado de
operações matemáticas e gramaticais e, simultaneamente, o de um intenso contato múltiplo com
objetos reais-concretos que funcionam como substitutivos dos objetos primários mãe, pai, irmãos,
etc. Daí que este seja um período de socialização, com mestres, amigos, etc. Produziu-se não apenas
um deslocamento mas também uma mudança de fins nas pulsões sexuais, dando lugar a
sublimações parciais e a formações reativas. Insistimos: a energia de origem é a energia sexual, mas
ela se encontra agora deslocada e transformada em novos interesses.

1. DESENVOLVIMENTO PSICOSSEXUAL DO PERÍODO DE LATÊNCIA

Recapitulando, este período se instala pela impossibilidade de tornar efetiva a satisfação das
pulsões sexuais.
Tal como vimos anteriormente (ver p. 75 e segs.), esta impossibilidade é decorrente de uma
proibição que possui dupla face: há proibições externas e há proibições internas, que são inerentes à
imaturidade do sujeito. Realmente, a pulsão sexual emerge, fazendo com que o sujeito deseje
quando ainda não tem capacidade orgânica suficiente ou adequada para tanto. Mas são as proibições
externas as que mais irão contribuir para o amortecimento dos desejos sexuais dessa idade e a
subseqüente acalmia que caracteriza o período.
O sujeito que entra no período de latência fá-lo com um Superego já totalmente constituído,
hierarquicamente responsável pelo deslocamento e modificação das finalidades das pulsões.
Esta transformação pulsional vai garantir duas coisas: por um lado a satisfação das pulsões
através da sublimação e, por outro, a manutenção da proibição edipiana. Daí que esta transformação
consistirá em investir em outros objetos diferentes daqueles cujo acesso lhes é vedado, mas que se
constituem em seus representantes. Isto quer dizer que o que se observa no período de latência é
uma dessexualização dos relacionamentos de objeto, trocados por uma predominância do
sentimento de ternura, que vai substituir os sentimentos eróticos.
Metapsicologicamente, as tendências libidinais encontram- se inibidas no que diz respeito à
sua finalidade, existindo porém uma redistribuição econômica da energia pulsional. Dever-se-á
então considerar este período como um período de repouso aparente e de grandes transformações.
As tendências edípicas continuam presentes mas encontram-se deslocadas, mudadas, transformadas
— porém jamais desaparecidas.

2. O RELACIONAMENTO DE OBJETO

Os vínculos objetais estabelecidos durante este período são liderados pela sublimação das
pulsões edípicas e por este motivo vemos o aparecimento de manifestações sublimes e de certa
forma idealizadas, de afeto: devoção, ternura, respeito, etc.
A curiosidade das crianças desta idade não será apenas exclusivamente sexual, como no
período edípico, mas orientada para diversos fins, tendendo a incorporar conhecimentos que se
encontram a serviço da utilidade social.
Esta será também a idade do ludismo. Este ludismo tem forte sentido social, revelando o tipo
de jogo, a estrutura do mesmo e as diversas temáticas existentes em seu interior — a mudança de
objeto efetuada pelo aparelho psíquico.
As crianças, nos primeiros tempos deste período, guardam ainda “restos” do período
edípico, procurando se aproximar dos objetos amorosos primários. Mas à medida que crescem,
emerge uma certa ambivalência entre obediência e oposição, a qual, devido à existência do
Superego, é seguida pelo remorso. Nas fases iniciais do período de latência, as reações de
hostilidade tendem a se apagar sem serem totalmente eliminadas. A aproximação com crianças,
particularmente do mesmo sexo, é relativamente fácil e a crescente idealização dos vínculos, tanto
de pares quanto de adultos, torna facilmente influenciável a criança nesta fase.

A PUBERDADE

É muito difícil definir-se a puberdade, O termo que lhe corresponde não se deixa reduzir
nem ao sentido de “período” nem ao de “estágio”. Aceita-se, por convenção, que se trata de uma
crise, cujo início é mais preciso ou delimitado que seu término,
Essa crise começa sendo uma “crise da natureza”, já que o aluvião pulsional que em curto lapso de
tempo inunda o aparelho psíquico surpreende-o adaptado às exigências instintuais do período
anterior, ou seja, a relativa diminuição de interesse pelas questões sexuais. Essa luta desigual,
inicialmente a favor das pulsões, produz um marcado desequilíbrio, responsável por toda uma série
de sintomas conhecidos pelo nome de Crise Normal da Adolescência.

1. DESENVOLVIMENTO PSICOSSEXUAL DA PUBERDADE

Toda a singularidade deste período consistirá no afluir pulsional, que ressurge agora com
redobrado vigor em conseqüência da eclosão endócrino-somática, a qual atua como substrato
fisiológico da puberdade.

A) A PUBESCÊNCIA

É um período intermediário, curto, instalado entre a puberdade propriamente dita.


Caracteriza-se pela ação dos investimentos pulsionais presentes.
Embora as condições do aparelho psíquico que vai enfrentar a puberdade sejam
completamente diferentes de cinco ou seis anos atrás, o desenvolvimento sexual guarda
semelhanças com o do período genital-edípico devido justamente à inundação pulsional do
aparelho. Ocorre precisamente uma revivescência de todas as situações edipianas que estavam em
silêncio durante o período de latência.
Este reemergir das pulsões edipianas está contextuado numa verdadeira tormenta de
identificação e de narcisismo. Apresentam-se comumente sentimentos de angústia e dúvida — em
alguns casos, com características compulsivas — sobre o corpo (tamanho, aparência, estética), o
sexo (autenticidade, capacidade), o “si-mesmo” (despersonalização, estranheza). Por tudo isto, esta
idade é conhecida com o nome de “idade do tonto” ou “idade ingrata”.
Juntamente com essas ansiedades, o sujeito pode apresentar fortes ansiedades paranóides, que às
vezes se manifestam como verdadeiras hipocondrias circunstanciais. Todo esse cortejo de angústias,
preocupações e dúvidas, acompanhado de diversos tipos de defesas, segue-se às primeiras poluções
(aparecimento do sêmen nos garotos) e à menarca (primeira menstruação).
Tanto o garoto quanto a garota demonstrarão uma atitude diferente em relação ao seu
próprio esquema corporal. O garoto continuará atribuindo uma supervaloração narcísica a seu pênis,
enquanto a menina investirá todo o seu corpo desse mesmo interesse narcísico. Efetivamente, a
menina começará a se preocupar intensamente com a silhueta, a aparência do rosto, os cuidados e a
limpeza no vestir, etc.
As estruturas psíquicas, em seu circunstancial desequilíbrio, correm o risco de se
desestruturar total ou parcialmente. Mas, simultaneamente, apresenta-se ao sujeito a possibilidade
de rearticulá-las agora perante esta investida pulsional. Rearticulação que será praticamente a última
constitutiva do sujeito.
A ADOLESCÊNCIA

O amadurecimento físico produz, tanto em meninos quanto em meninas, profundas


alterações críticas no aparelho psíquico e suas vinculações econômico-dinâmicas.
Em primeiro lugar, esse amadurecimento físico proporciona ao sujeito a possibilidade
efetiva de concretizar sua sexualidade genital.
Com efeito, a grande massa de energia pulsional, que foi justamente pré-genital durante todo o
período infantil, devido sobretudo à insuficiência dos aparelhos orgânicos genitais, tem agora, na
adolescência, ocasião de se satisfazer. A libido, dinamicamente falando, tende a se concentrar e a se
especificar predominantemente, no aparelho genital. Esse processo, determinado pela biologia, terá
inevitáveis conseqüências nas áreas afetivas, cognitivas e pragmáticas do comportamento do
adolescente.
Assim como a latência impunha um “apagar” transitório de todas as áreas da sexualidade,
durante a adolescência acontecerá o contrário. Este reemergir quase definitivo da sexualidade pré-
genital e genital reconhecerá, nesta última, uma liderança, até então desconhecida, sobre todo o
resto pré-genital.
Esse processo deverá inevitavelmente se defrontar com o grupo social onde vive o
adolescente, grupo este que tenderá a formar, canalizar e impor um conjunto normativo de regras,
sob a forma de modelos de comportamento, costumes, leis, práticas e rituais diversos que, sem
dúvida, moldarão a personalidade definitiva do futuro adulto. Mas essa modelagem é sumamente
complexa, já que o jovem se vê obrigado a conciliar suas necessidades pulsionais com as normas
sociais, tanto as que aprendeu na infância como as que encontra agora no contexto social em que
atua. Não resta a menor dúvida de que este conflito se apresenta, por vezes, de forma tormentosa e
não raro violenta. Daí a quase constante instabilidade do aparelho psíquico, em estruturação e
desestruturação contínuas durante toda a adolescência.

1. A MASTURBAÇÃO (ver p. 50)


E tão freqüente na adolescência que, embora não se reduza a essa época, é
convencionalmente considerada como uma atividade sexual típica desse período evolutivo humano.
Tivemos oportunidade, ao longo de alguns capítulos anteriores, de mostrar as diversas
atividades de tipo auto-erótico com que, inicialmente o neném, e depois o menino amadurecido, se
satisfazem. A atividade masturbatória na adolescência pode aparentar ser uma atividade própria do
período, sem qualquer antecedente na história do sujeito. Porém, este tipo de prática foi precedido,
tanto em meninos quanto em meninas, por análogas ou similares experiências infantis. Acontece
que, durante a adolescência, todas as outras manifestações auto-eróticas pré-genitais (orais, anais,
fálicas) vão sendo progressivamente associadas à genitalidade, adquirindo o ato masturbatório uma
satisfação com fantasias cada vez mais genitais. Daí que a masturbação durante a adolescência seja
considerada como uma espécie de passo intermediário, um ensaio sensório-motor anterior ou
contemporâneo ao exercício da atividade genital adulta.
Entretanto, como toda atividade do adolescente, a masturbação será continuamente
redefinida pelo grupo social onde ele atua. Isto porque a masturbação será geralmente sentida pelo
jovem como uma atividade necessária e imperiosa, mas muito reprovada, gerando assim fortes
sentimentos de culpa. A maior parte das vezes serão estes sentimentos de culpa os responsáveis por
alguns transtornos psicopatológicOS, mas nunca a masturbação em si mesma.
A reação mais comum é que a atividade masturbatória seja usada como uma atividade
defensiva perante a ansiedade do adolescente. Com efeito, o adolescente, em constante conflito
entre suas tendências pulsionais e o mundo social, alterna períodos de intensa luta com outros de
crises de solidão e fastio. Estes últimos, que às vezes se organizam como verdadeiros estados
esquizo-depressivos levam-no a procurar no prazer auto-erótico masturbatório uma quota de
compensação gratificante que o ajude a suportar momentaneamente a dor e que lhe ofereça, sempre
na fantasia, uma deleitável vingança diante do frustrante mundo adulto.
Acrescente-se a tudo isso, particularmente em determinadas camadas sociais, a falta de
informações precisas sobre as questões sexuais, substituídas por crenças sumamente deformadas,
que contribuem ainda mais para a perturbação do mundo psíquico do adolescente. Será justamente
através da masturbação e das fantasias que proporciona, que o adolescente conseguirá fugir do
“insuportável e humilhante” mundo adulto, adquirindo através dela certa autonomia, auto-estima e
reafirmação de si mesmo.
Realçamos particularmente o componente fantástico-imaginativo que acompanha o processo
masturbatório, componente imaginativo que ocorre de forma exaltada durante todo o período
evolutivo da adolescência. Com muita freqüência, a sensação de participação grupal, em diálogos
com companheiros da mesma idade, contribui preponderantemente para que o ato masturbatório se
instrumente, nesses casos, como um articulador a mais do engajamento social do adolescente.
A masturbação tende a ser, em ambos os sexos, culpabilizada e angustiante por:

A) FATORES EXTERNOS DE PRESSÃO

Muito freqüente a associação estabelecida entre situações traumáticas diversas e a prática


masturbatória. Pais e educadores, durante muito tempo, empreenderam verdadeira luta contra a
masturbação, aludindo conseqüências nocivas à sua prática: impotência, tuberculose, loucura,
esterilidade, etc. Hoje sabemos que a veiculação deste tipo de fantasia, num contexto de ameaça,
leva a um resultado totalmente oposto ao que aparentemente se procura.

B) FATORES INTERNOS DE PRESSÃO

Talvez sejam os mais importantes, porque tais fatores, não resolvidos no aparelho psíquico
dos adultos, são os que motivam o exercício intimjdatório das fantasias mencionadas. Os fatores
internos referem-se, sem dúvida, a toda a conflitiva edípica não resolvida, em que predominam as
fantasias de castração. O adolescente, por sua vez, por esta motivação profunda, é levado a se
masturbar para comprovar a integridade dos órgãos genitais.
A esta altura do desenvolvimento psíquico, o Superego está completamente constituído e é o
agente proibidor de todas as gratificações genitais em relação aos pais. Daí que na atividade
masturbatória, que na adolescência se faz com fantasias predominantemente edípicas, o Superego
adquira relevante papel, vigiando e proibindo tais fantasias. Será lógico então que o instrumento que
permite tais expressões imaginativas seja também punido (pelo Superego).
Esta é a origem do sentimento de culpa, derivado da transgressão de uma regra ou proibição
imposta pelo Superego. Como a necessidade pulsional é constantemente renovada, o sujeito entra
num círculo vicioso de se proporcionar o prazer auto-erótico não apenas em busca da gratificação
pulsional mas também para gratificar a necessidade de punição que é, por outro lado, a única
maneira que ele’ encontra de redimir a culpa.
Finalmente, queremos deixar bem claro que não existem dúvidas sobre os achados de
masturbação em neuróticos e psicóticos, tal como qualquer clínico constata cotidianamente. Mas
atribuir a um elemento que faz parte de uma totalidade complexa, nosográfica e situacional, a
responsabilidade da patologia, é confundir efeitos com causas. Dito de outra forma: são as
conseqüências de ordem psicológica da culpa e ansiedade os motores psicopatológicos, e não os
efeitos da masturbação em si mesma.

2. O RELACIONAMENTO DE OBJETO E A ESCOLHA OBJETAL NA ADOLESCÊNCIA

Será necessário considerar que o aparelho psíquico que enfrentará o recrudescimento


pulsional próprio desta fase da vida encontra-se mais adaptado às exigências do período anterior: a
latência.
Durante todo o período de latência, a libido deslocou-se fundamentalmente dos objetos
primários, mãe e pai, trocando as metas e convertendo as finalidades genitais em produtos altamente
sublimados como pensamentos, fantasias, objetos formais- abstratos, dramatizações veiculadas
através de jogos sociais, etc.
No começo da puberdade há um reinvestimento da libido nos objetos de amor da sua
primeira infância, só que o aparelho psíquico não é o mesmo de cinco ou seis anos atrás.
Agora, toda a luta do aparelho psíquico será entre uma tendência à escolha objetal primária
carregada de libido genital com possibilidades fisiológicos reais de efetivação, e uma outra
tendência antitética cujo sentido é o de fazer desaparecer, deslocar e transformar esta escolha
parental numa escolha que esteja em conformidade com as normas de exogamia impostas no
período edípico.
Em termos objetais, o dilema se apresenta entre um retorno a escolhas primárias narcísicas
com características pré-genitais e tendentes a serem duais, e outra mais amadurecida que tende a
“triangular” os vínculos e a genitalizá-los.
De modo geral, podemos dizer que existe uma multiplicidade de defesas que se põem em
movimento nesta luta. O jovem passa por verdadeiros períodos esquizóides de introversão, que são
geralmente circunstanciais mas que, em alguns casos, podem desembocar no autismo
esquizofrênico.
Outra característica distinta neste período do desenvolvimento é a revolta juvenil contra a
autoridade, e em primeiro lugar a dos pais.
Não há dúvida de que a criança também se revolta, com freqüência, e às vezes com muita
intensidade. Mas a criança não sabe se está ou não em discordância com a ordem imperante e,
portanto, não questiona o princípio geral da obediência.
O adolescente, ao contrário, não aceita obedecer e questiona ativamente a autoridade,
fundamentação da ordem estabelecida. Este repúdio é correlato à autolegitimação de si mesmo
como autoridade e, portanto, somente ele é quem pode decidir o que é bom e o que é mau. Só ele
tem o direito de determinar o que é liberdade ou falta da mesma. (Porot e Seux: Les Adolescents
Parmi Nous, Ed. Flammarjon, Paris, 1964, p. 55.)
A revolta não se localiza apenas no âmbito familiar, já que é uma revolta de princípios, sem
especificação topológica, situacional. Tanto é assim que tudo aquilo que se apresente como uma
“conserva” cultural fixa e imutável é questionado e agredido: escola, sociedade, religião, etc.
Mas um dos elementos mais notáveis, e que mais chama a atenção no relacionamento de objeto dos
adolescentes, é que o comportamento acima descrito coexiste com uma forte nostalgia da infância.
A revolta juvenil possui, entre outras características, a qualidade de ser uma negativa a toda
dependência, porém é justamente a segurança e o conforto proporcionados pela infância que são
sentidos como falta.
Essa falta aparece em diversos níveis do desenvolvimento, levando o sujeito a elaborar
verdadeiros lutos: em primeiro lugar, luto pela infância que vai embora; em segundo lugar, luto
pelos pais que já não proporcionarão mais a segurança e o aconchego, pelo menos da maneira como
o faziam; e, ainda, luto pelo corpo que, modificando-se dia a dia, deixa para trás formas que não
serão jamais recuperadas. (Knobel, M.: “El Sindrome de la Adolescencia Normal”. In: Adolescencia
Normal. Paidós, 5. ed., 1977.)
No meio dessa tormenta emocional, o adolescente amiúde deixa de distinguir aquilo que se
conhece como espírito crítico e espírito de crítica. Qualquer pai de adolescente sabe que esta
confusão é instrumentada com a finalidade de irritar um adulto cuja autoridade ele contesta. Essa
necessidade de contestação é quase uma formação reativa perante a desvalorização e inferioridade
em que se encontra o adolescente.
A contestação pode atingir níveis-limite e até patológicos, como verdadeiras fugas para se
subtrair às imposições que são sentidas como intoleráveis. Essas fugas podem ser motoras e/ou
perceptuais, sendo estas últimas ativadas, por exemplo, pelo consumo de drogas. Em algumas
ocasiões, esse afastamento é muito mais complexo, manifestando uma carência de interesse por
certos valores sociais admitidos por consenso, como trabalho e estudo, podendo desembocar em
qualquer tipo de delinqüência. (Kusnetzoff, Juan C. Psicanálise e Psicoterapia Breve na
Adolescência. Zahar Ed., Rio, 1980.) A reivindicação ativa e por vezes violenta, com escassíssima
discriminação e carregada afetivamente, pode encontrar vazão tanto nos contextos políticos quanto
nas companhias sexuais, ou ainda com o patrão, num nível trabalhista.
Qualquer que seja o caso, o resultado final da conflitiva adolescente será a escolha de
objetos diferentes dos de sua infância. Freqüentemente, os afetos são intensos mas passageiros por
pessoas da mesma idade. Assim, o relacionamento pode ser visto como amizades profundas ou
amores violentamente apaixonados. Outro tipo de adolescente apresenta esse mesmo gênero de
afeto, mas por pessoas mais velhas, às vezes bem mais velhas, representando substitutos paternos,
na maioria das vezes usados como intermediários no processo de amadurecimento.
Muito raramente são definitivos estes objetos dos adolescentes. São na realidade fixações
identificatórias, obviamente do passado, mas que servem como modelo narcísico de aproximação e
transformação do mundo exterior.
Essa tendência geral à reprodução narcísica do passado sobre objetos do presente articula a
passagem de uma psicologia predominantemente individual para uma psicologia social. Explica,
também, uma característica geral do adolescente de se “agrupar”, reunir-se com outros.
Ë uma necessidade de apreensão do mundo numa dimensão diferente do marco familiar ou
escolar, O grupo oferece ao adolescente uma possibilidade de identificação múltipla, assim como
uma descentralização do interesse voltado para si próprio. Outro efeito importante da participação
grupal é constatar e testar a infinita gama de possibilidades de observar e de agir. Ligado a isto, o
grupo oferece ao adolescente um lugar no qual ele terá que se adaptar a uma determinada disciplina
dentro de um consenso de aceitação mútua.
Algumas vezes, os grupos são homossexuados, com a ostensiva finalidade de fugir ao
“perigoso” contato com o sexo oposto. Dentro desse contexto, a primeira escolha do adolescente
como relacionamento amoroso ou de amizade é, freqüentemente, homossexual, sendo
comuníssimas as experiências homossexuais ocasionais entre os adolescentes. Será necessário
compreender que, tanto dinâmica quanto fenomenicamente, a homossexualidade adolescente não é
necessariamente patológica, já que representa, como vimos, uma fixação identificatórias infantil
expressa por uma conduta. Na imensa maioria dos casos, esta conduta é temporária, representando
um esforço adaptativo do aparelho psíquico, enquadrando-se na situação geral da timidez em
relação ao sexo oposto, característica desta idade.

CAPITULO V
Noções de metapsicologia freudiana

Entende-se por metapsicologia o estudo dos aspectos teóricos psicanalíticos. — no dizer de


Laplanche e Pontalis — uma dimensão onde se elaboram diversos modelos conceituais que
explicarão os dados empíricos transmitidos pela experiência.
Pode parecer um tanto estranho que devamos fornecer elementos de metapsicologia para
quem estuda o fenômeno psicopatológico psicanalítico; porém hoje se sabe que o próprio Freud não
se mostrou muito interessado nos estudos clínicos em si mesmos, mas sim na construção de uma
teoria global do psiquismo.
Mas estudar metapsicologia é importante porque nela são estabelecidos os alicerces
necessários que permitirão compreender-se determinados quadros da nosografia psicopatológica
psicanalítica. Ao mesmo tempo, os modelos metapsicológicos permitem ampliar o horizonte muito
restrito pela psicopatologia clássica, entre o que é “são” e o que é “doente”.
Os modelos da metapsicologia freudiana são fundamentalmente três:
— dinâmico, onde se fala de pulsões, instintos, forças, moção impulsora, etc.;
— tópico, que é o ponto de vista que supõe o aparelho psíquico dividido em sistemas com
características e funções diferentes e então, classicamente, fala-se de Consciente, Pré-Consciente e
Inconsciente, ou de Ego, Superego e Id;
— e finalmente, o modelo econômico, que é o ponto de vista que observa o aparelho psíquico como
uma circulação, distribuição e administração de uma energia quantificável; falamos então de
catéxias, ou cargas, que aumentam, diminuem, sobrecarregam, etc.
O QUE Ë UM “MODELO”?

Sem querer obviamente esgotar, nesta pequena introdução, estudo tão complicado para a
ciência moderna, não podemos deixar de dar algumas explicações sobre o uso que tem esta palavra
em psicopatologia e que iremos instrumentar em seu estudo. E já estamos oferecendo uma pequena
distinção com outros ramos do saber, já que em todos os setores da ciência é habitual o uso e o
estudo de modelos.
Essencialmente, um modelo é uma simplificação. Ë um estudo simplificado dos caracteres
genéricos de uma realidade qualquer. Esta simplificação é sempre instrumental. É uma ferramenta
que o cientista utiliza para ordenar suas descobertas e poder formalizar a correspondência e a
articulação existente entre o real-empírico e o que se pensa sobre ele.
Em certo sentido, falar de modelo é como falar de uma metáfora. Assim, por exemplo, um
sentido que exprimiria mais literalmente o termo modelo diria que é uma maquete, ou um protótipo
reduzido.
Como quem diz: observei e tive uma idéia da casa, porque me ofereceram um modelo em
escala, feito em madeira e cartolina.
Outro sentido muito comum da palavra modelo é o que designa um tipo especial de desenho
(modelo de vestido) ou, ainda, alguma coisa ou alguém a imitar, que serve como exemplo
(determinada pessoa como modelo de honestidade).
Explicitamos estes últimos sentidos de modelo porque a metapsicologia tem algo a ver com eles,
embora não se reduza exatamente a eles.
O sentido de modelo que melhor se adapta aos esquemas freudianos metapsicológicos é o de
analogia. Entendemos como tal qualquer tipo de construção destinada a reproduzir, o mais fielmente
possível, a trama de relações, a estrutura proveniente do original, porém de forma comparativa,
através do estabelecimento de relações de igualdade ou correspondência entre o que estamos
querendo dar a conhecer e outras estruturas já conhecidas, tomadas como parâmetro.
Aos modelos analógicos não interessa a imitação ponto por ponto, respeitando, em sua
reprodução, a proporção da medida. Pelo contrário, o que interessa ao modelo analógico é uma
finalidade muito mais abstrata: a reprodução de um sistema interligado de funções, ou seja, de uma
estrutura.
O modelo analógico compartilha com seu original a mesma configuração de relações,
desinteressando-Se da proporcionalidade (se grande, se pequeno, se fino, se grosso, etc.). Os
matemáticos modernos, particularmente Carnap, chamam de “isomórfico” ao modelo analógico
(Carnap, R.: Introduction to Symbolíc Logic and its Applications, New York, 1958, p. 75).
O leitor deverá observar que, ao conceber tão abstratamente um modelo, este adquire
possibilidades infinitas, o que torna seu estudo fascinante. A abstração também lhe concede grande
poder explicativo, como ocorre com os modelos metapsicológicos freudianos. Mas será também
necessário ressalvar que o modelo, por mais aperfeiçoado que seja, é uma hipótese (literalmente,
uma sub-positio, uma suposição) e, portanto, proporciona uma plausibilidade em relação aos fatos,
nunca suas demonstrações.
Os cientistas sempre trabalharam com modelos, com um conjunto de conceitos
esquemáticos, e Freud não escapou disto.
O modelo não pertence aos domínios da experiência ordinária (nunca ninguém viu ou tocou
um modelo!) e pode ser tão simples ou tão complicado quanto o desejemos, contanto que saibamos
usá-lo.
Em ciência, a riqueza de um modelo, tal como aconteceu com os que Freud esboçou desde
1913, época da sua criação metapsicológica, consiste na quantidade de sugestões e especulações
novas para operar de forma eficaz no campo empírico. Veja-se como Freud, com um modelo
simples com reminiscências ópticas do Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente, operava,
interpretava e tratava seus doentes, já em 1900. Quando esses modelos se tornaram pouco eficazes,
porque mudou o campo do real-empírico, não existiu então para ele a correspondência suficiente
entre seus pacientes e as hipóteses com as quais ele pensava sobre eles. Assim, para os quadros
psicóticos e narcísicos, Freud foi reformulando sua modelística inicial até desembocar na segunda
teoria dos instintos, no Segundo Tópico, etc.

O PONTO DE VISTA TÓPICO OU TOPOGRÁFICO

Este ponto de vista ou modelo metapsicológico supõe o aparelho psíquico como uma
organização dividida em sistemas ou instâncias. Literalmente, tópico vem do grego topos, que
significa lugar, portanto o modelo tópico é um modelo dos lugares.
Esses lugares, ou sistemas, estão dispostos numa determinada ordem, formando um conjunto
que funciona como tal. Este último conceito é importante porque, embora estudemos separadamente
cada um desses sistemas, isto se dá por exigências descritivo-pedagógicas, mas a realidade nunca se
comporta da mesma forma. Por isso, ressalvamos que o termo tópico faz cair a acentuação sobre
uma certa disposição espacial das instâncias, podendo dar uma significação errônea de seu
funcionamento. Provavelmente por essa razão Freud usou a palavra “aparelho”, que sublinha a
funcionalidade interligada das instâncias entre si, como também a capacidade de produzir um
trabalho.
A noção de aparelho psíquico como um conjunto articula- dor de lugares virtuais aparece
desde A Interpretação dos Sonhos, em 1900, onde, em seu famoso Capítulo VII, Freud desenha o
aparelho como um aparelho óptico, capaz de condensar, distribuir, focalizar ou dispersar o feixe
luminoso. Temos aqui o modelo óptico mostrando, por analogia, uma das funções principais do
aparelho psíquico: as transformações da energia (dos instintos).
Como se pode observar, é muito difícil separar o Modelo Tópico do Modelo Dinâmico,
porque neste último a origem, o processamento, a distribuição e o destino final da energia estão
articulados às distintas funções que correspondem a cada lugar, a cada instância do Modelo Tópico.

1. O PRIMEIRO TÓPICO
O contexto epistemológico em que Freud trabalhou, particular- mente na segunda metade do
século XIX, era um contexto impregnado de trabalhos neurofisiológicos relativos às localizações
cerebrais de funções.
Freud foi um brilhante expoente dos laboratórios experimentais da época e, além de dúzias
de trabalhos sobre neurofisiologia, escreveu em 1891 um livro sobre as afasias. O tema, de grande
importância, critica as teorias que hierarquizavam a localização anatômica-concreta, de renomados
cientistas da época. A semente da construção de um aparelho teórico, ou seja, descritivo de lugares
não detectáveis histologicamente, já se encontra aí. Sua associação com Breuer desemboca numa
espécie de axioma: “o espelho de um telescópio não pode ser, simultaneamente, uma chapa
fotográfica”. Isto significa uma antecipação da formulação teórica de 1900, onde a função
perceptiva e a função mnésica requerirão dois sistemas diferentes.
Será interessante observar que, dentro de todo esse contexto, Freud escolhe o sonho como
cena para sua primeira modelização. Ou seja, uma produção mental que aparece tanto em pessoas
normais como em doentes, e que é independente do controle consciente.
O leitor concluirá facilmente que por todas estas razões Freud viu-se obrigado a conceber
um aparelho psíquico que explicasse o fenômeno da inconsciência e que, ao mesmo tempo, tivesse
funções de recepção, processamento e arquivo dos estímulos.
O aparelho psíquico do primeiro tópico compõe-se de três sistemas: o Inconsciente (abrev.
Ics), o Pré-Consciente (PCs) e o Consciente (Cs). Este último sistema é às vezes denominado
Sistema Percepção-Consciência (abrev. Cc-Cs) [fig. 11].

A) O SISTEMA PERCEPÇÃO-CONSCIENTE OU CONSCIÊNCIA

Do ponto de vista tópico, este subsistema está localizado na periferia do aparelho psíquico.
Embora Freud manifestasse a intenção de evitar localizações precisas, não há dúvidas de que
existem “infiltrações”, como as que estamos vendo, que denunciam a origem anatomofisiológica do
modelo.
Fiel ao postulado axiomático de que um espelho de um telescópio não pode ser
simultaneamente uma chapa fotográfica, Freud outorga a este sistema Consciente a função de
recepcionar as informações provenientes do exterior e do interior, mas sem conservar nenhum traço,
nenhuma marca duradoura dessas informações. A Consciência será um fato fugaz, e nunca um
arquivo. Estas informações excitarão, no sistema Consciente, uma espécie de registro qualitativo
sensível ao prazer e ao desprazer.
O sistema Consciente funciona em conjunção com o sistema Inconsciente, mas se opõe a
ele, desde que o sistema Inconsciente é o lugar de registro e de conservação das excitações.
O sistema Consciente cuida dos processos do pensamento, do juízo, assim como da parte
consciente da evocação.
E) O PRÉ-CONSCIENTE

Designa um sistema, dentro do aparelho psíquico, claramente diverso do sistema


Inconsciente, mas que, de modo funcional, está articulado ao sistema Consciente.
Do ponto de vista tópico, o Pré-Consciente está separado do Inconsciente pela Censura, a
responsável pela interdição, à maneira de crivo, sofrida pelos conteúdos e processos inconscientes
em sua intenção de entrar no campo da consciência.
Mas será importante destacar que sua localização, próxima do campo Consciente, faz do
Pré-Consciente um pequeno arquivo, sem que por isto se assemelhe ao Inconsciente. A
característica do sistema Pré-Consciente é que seus conteúdos podem ser recuperados por um ato da
vontade, o que não ocorre com os do Inconsciente Por essa razão, do ponto de vista descritivo, um
conteúdo mental qualquer pode ser consciente ou inconsciente. Mas bastará um ato da vontade para
fazê-lo entrar ou não na Consciência. Se isto foi possível é porque o conteúdo estava no Pré-
Consciente (diz-se então que o conteúdo estava reprimido); se não foi possível, a sua localização era
no Inconsciente (diz-se então, que o conteúdo estava recalcado).
Insistimos: o que caracteriza o Pré-Consciente é a capacidade voluntária de se chegar a ele. Como é
expresso por Laplanche e Pontalis, o Pré-Consciente de modo geral designa o implícito na atividade
mental, embora não seja objeto de consciência.
Sob o ponto de vista do conteúdo, o Pré-Consciente contém “representações de palavra”, uma
marca mnésica da palavra ouvida. Insistimos: é uma representação, não uma palavra. Ou seja, é um
elemento sensível que deixou marcas de sua passagem pelo aparelho psíquico.
A “representação de palavra” é uma marca acústica, que se opõe à chamada “representação
de coisa”, que se encontra no Inconsciente e é predominantemente visual. A “representação de
coisa” nunca pode ser consciente se não estiver associada a alguma representação verbal,
encontrada no Pré-Consciente.

C) O INCONSCIENTE

Já dissemos que o ato da consciência é temporalmente circunstancial, momentâneo. Isso


significa que há elementos que nesse momento se encontram fora da Consciência. Deduz-se daí que
aquilo que está fora da Consciência, fenomenologicamente, é chamado Inconsciente. Dissemos
também que esses determinados conteúdos inconscientes, sob o ponto de vista tópico, poderão ser
pré-conscientes ou se localizarem no inconsciente propriamente dito, conforme possam ou não ser
recuperados por um ato da vontade.
Ocupar-nos-emos aqui do Inconsciente no sentido tópico.
Trata-se da parte mais arcaica do aparelho psíquico, estudando-se nela as representações
chamadas “representações de coisa”. Devemos também lembrar que “representação ideativa”,
“traço mnêmico” e “representações de coisa” são sinônimos.
O Inconsciente contém “representações de coisa”, que são fragmentos de reproduções de
antigas percepções. Essas representações estão dispostas como uma sucessão de inscrições, que são
como uma espécie de arquivo sensorial. O leitor deverá fazer um esforço imaginativo para conceber
esta espécie de registro sensorial como um conjunto de elementos despidos de palavras. São as
coisas, reduzidas a seus traços constitutivos essenciais, tal como se inscreveram, numa época em
que não existiam palavras para designá-las: de zero a dez ou doze meses, aproximadamente.
Embora essas representações se refiram a todos os sentidos, auditivo, gustativo, olfativo, tátil e
visual, é este último quem exerce uma clara predominância hegemônica sobre o resto. Daí que o
conjunto de representações inconscientes forma verdadeiros fantasmas, carregados de energia
proporcionada pelas pulsões.
Assinalamos mais acima que o Inconsciente é o subsistema mais arcaico do aparelho
psíquico. Mas devemos ressalvar que é arcaico num sentido duplo: ontogenética e
filogeneticamente.
De fato, Freud nunca deixou de admitir, particularmente depois de 1923, a existência de uma
parte do Inconsciente como herança genética, a que chama de “Núcleo do Inconsciente”. Esta
experiência filogenética se articularia a um outro conceito de Freud, que são as “protofantasias”, ou
“fantasias primitivas ou originárias”. Freud denomina “protofantasias” a estruturas fantasmáticas
transmitidas filogeneticamente, e que têm consistência e organização não correspondentes à
experiência real infantil vivida pelo sujeito. (Ver p. 178.)
Devemos reconhecer que esse conceito de “Núcleo do Inconsciente” é um conceito
polêmico, controvertido, que deu e dá margem a acaloradas discussões, particularmente
epistemológicas. Transcrevemos, porém, literalmente, a frase final da autorizada opinião de
Laplanche e Pontalis: “No nosso modo de ver, as reservas suscitadas pela teoria de uma transmissão
genética hereditária não devem nos fazer considerar igualmente caduca a idéia de que existem, na
vida fantasiosa, estruturas irredutíveis às contingências do vivido individual”.
Além das “representações de coisa”, o Inconsciente é constituído por energia proveniente
das pulsões. Funcionalmente, representação de coisa e energia pulsional operam em conjunto.
As representações, juntamente com sua energia correspondente, caracterizam-se pelo fácil
deslocamento e descarga. Isto é o que se conhece com o nome de “Processo Primário”,
caracterizado por dois tipos de mecanismos que afetam as representações: deslocamento e
condensação.
Este último é o somatório das várias cadeias de representações; é um produto do
deslocamento. Para facilitar a compreensão, diríamos que a condensação é o sintoma, enquanto o
deslocamento é o mecanismo que conduz a ele. A condensação não deverá ser confundida com um
resumo; é um produto da interseção circunstancial de deslocamentos em vários níveis do
Inconsciente. Assim como a energia circula praticamente livre no Inconsciente, assim
permanentemente ocorrem deslocamentos que produzem condensações, as quais, por sua vez,
originam novos deslocamentos, e assim sucessivamente. (Ver p. 165.)

D) CENSURA

Com o termo Censura denominamos uma importante região fronteiriça que une e separa o
Pré-Consciente/Consciente do Inconsciente. Esta ação fronteiriça é permanente e sua origem
confunde-se com a da repressão (recalque).
A título prático, podemos dizer que Censura e Repressão (recalque) são sinônimos.19
Deveremos também assinalar que esta Censura é chamada “Censura Verdadeira” ou
“propriamente dita”, já que existe outra Censura, muito mais fraca, entre o Pré-Consciente e o
Consciente.
A Censura Verdadeira, ou Censura do Recalque (ver p. 165 e segs. e p. 188), é uma força
intensa, rígida, responsável pelos impedimentos à passagem dos conteúdos inconscientes à
Consciência. Nesse impedimento a Censura opera transformando as representações, por meio dos
dois mecanismos anteriormente descritos:
deslocamento e condensação. Mas a Censura tem no Primeiro Tópico um caráter ainda passivo, de
barreira inerte que apenas separa com rigidez os conteúdos inconscientes do sistema Cs-PCs. Esta
Censura, descrita originalmente em 1900, na “Interpretação dos Sonhos”, é um adiantamento do que
Freud depois descreveu como Superego. Realmente, em 1923, ele incluiu entre as funções do
Superego, a da Censura, mas conferindo_lhe agora um sentido de coisa vigilante e dinâmica, com
caracteres de psíquica diferenciada.

2. O SEGUNDO TÓPICO

A partir de 1920, especificamente após seu polêmico artigo “Além do Princípio do Prazer”,
Freud elabora sua segunda
19
Na moderna terminologia, o termo Censura é aplicado de forma mais restrita: apenas para caracterizar a ação do
recalque na elaboração dos sonhos.
definitiva grande concepção do aparelho psíquico, chamada Segundo Tópico [fig. 12].

Seria muito simples dizer-se que o nascimento desse Segundo e importante modelo ocorreu
em 1920, mas ele vinha sendo elaborado, por exigências teóricas e fundamentalmente práticas, há
pelo menos dez anos. Com efeito, aponta-se sempre como razão principal de tal mudança a
crescente e destacada importância do subsistema defensivo que Freud vai encontrando na clínica.
Como a maior parte das defesas eram inconscientes, e sendo o Ego a residência natural
dessas defesas, os limites da poderosa instância egóica deviam ser alongados, obrigando-o então a
remodelar o Primeiro Tópico, já que neste aquilo que Freud chamava de Ego era o Pré-
Consciente/Consciente [fig. 13]. No Segundo Tópico, então, o Ego passa a ter partes também
jnconscientes, o que muda totalmente o caráter mais estático e passivo da Censura do Primeiro
Tópico, evidenciando-a agora como algo dinâmico, ativo, e que não necessita obrigatoriamente de
um sítio fixo de focalização. Contrastando, até, com aquelas características do Primeiro Tópico, esta
Censura assim “diferenciada” vai justamente se destacar como uma instância psíquica bem
caracterizada, que passa a receber o nome de Superego. Mas, ligadas a esta importante razão
encontram-se as Identificações, verdadeiros “tijolos” carregados de catéxia, decisivos na formação
da personalidade.
Como vimos noutro capítulo, a importância do papel desempenhado pelas identificações foi-
se tornando cada vez maior, devido à maior experiência clínica de Freud e à complexidade
nosográfica dos pacientes que a ele se apresentaram no período que vai de 1905 a 1918. Além disso,
temos que considerar também, nesse período, uma formulação decisiva para toda esta reestruturação
teórica: o conceito de Narcisismo. Esse conceito se apóia no problema das Identificações e conduz à
reelaboração do modelo dinâmico e econômico. (Ver p. 93.)
Devemos fazer uma importantíssima ressalva: o Segundo Tópico não elimina o Primeiro.
Haverá uma integração num nível mais desenvolvido, já que as instâncias Consciente, Pré-
Consciente e Inconsciente passam a fazer parte do novo sistema, mas sob a forma de atributos ou
qualidades. Assim, por exemplo,
o Ego é Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente; o Superego é uma ínfima parte Pré-Consciente,
e o resto “afunda suas raízes” no Inconsciente; e o Id é totalmente Inconsciente.
O novo Tópico inaugura uma nova linguagem prática. No Primeiro Tópico, a linguagem é
predominantemente fisicalista: catéxias, representações, forças, recalques, etc. No Segundo Tópico,
o modelo é antropomórfico, e parece então que as instâncias “falam”. O Superego, por exemplo,
será “sádico”, uma parte do Ego “luta” contra outra parte, e assim por diante. Desta forma, existe
uma aproximação analógica entre a teoria do aparelho psíquiCO e a vida fantasmática que “habita”
dentro do sujeito.
A) O ID

Começamos por esta instância porque é a única, dentro do Segundo Tópico, que tem seu
exato equivalente no Primeiro Tópico. Com efeito, o Inconsciente como instância no Primeiro
Tópico coincide quase totalmente com o Id, embora uma parte do Inconsciente constitua agora a
parte inconsciente do Ego.
Classicamente, o Id é o pólo psicobiológico da personalidade, constituído fundamentalmente
por pulsões. Os conteúdos fantasmáticos do Id são, em sua maior parte, hereditários e o restante
adquirido.
Do ponto de vista econômico e dinâmico, o Id é reservatório e fonte da energia psíquica,
sendo que as outras duas instâncias são originárias dele. Freud assinala que essa é a parte mais
escura e impenetrável de nossa personalidade. Numa formulação definitiva, o Id é ocupado pelos
instintos de vida e de morte, o primeiro dos quais contém em si as pulsões sexuais e de
autoconservação.
Sob o ponto de vista funcional, o Id se assemelha ao Inconsciente: reina nele o princípio de
prazer e, portanto, o processo primário.
O aspecto genético do Id, como foi assinalado, é motivo de controvérsias entre partidários
que salientam ora o ponto de vista filogenético, ora o ontogenético. a metáfora freudiana que
permite tal controvérsia: “No princípio tudo era Id. O Ego tem se desenvolvido a partir do ld,
através da persistente influência do mundo exterior”

B) O EGO

O Ego é a instância central da personalidade, e constitui o pólo psicológico por excelência.


Metaforicamente falando, é uma instância-palco, onde se montam os argumentos fantasmáticos
procedentes, inevitavelmente, do Id e do Superego. Está implícito na frase anterior que o caráter de
inevitabilidade atinge o no qual temos já montadas as três instâncias que dão origem conflito
intrapsíquico humano.
Tal metáfora foi elaborada com finalidade unicamente pedagógica, porque de fato a
autonomia do palco egóico é sempre relativa, ou seja, sempre condicionada às relações de
dependência estabelecidas com as outras duas instâncias.
A gênese do Ego é um problema importantíssimo, que tem preocupado os teóricos e clínicos
de todas as épocas. Na realidade, conforme vimos anteriormente, a origem do Ego é o Id em contato
com o mundo exterior.
A diferenciação progressiva das camadas superficiais do Id produz-se em torno de uma
espécie de núcleo original organiza- dor, que é o sistema perceptual.
Mas existem outros pontos de vista, que uma leitura mais “objetalista” de Freud nos permite.
Por exemplo, o Ego se formaria, se moldaria, sim, em contato com o mundo exterior, mas como
resultado de identificações que, sucessivamente interiorizadas, introjetadas, formariam sua
estrutura.
Há pontos de concordância em quase todos os autores: que se constitui progressivamente,
que seu aparecimento nunca é brusco. E também, que é uma organização que sempre aparece como
tendendo a uma unidade, que funciona proporcionando à pessoa estabilidade e identidade.
Como foi antecipado, o Ego, no Segundo Tópico, acumula as funções da Consciência e do
Pré-Consciente. Está a serviço da autoconservação na medida em que concilia, em seu “palco”,
exigências procedentes do Id, do Superego e do mundo exterior.
O Ego atua então como amortecedor das exigências instintivas procedentes do Id,
adaptando-as à realidade externa.
Mas a grande revolução freudiana, e que até hoje causa surpresa, foi que, neste Segundo
Tópico, a maior parte do Ego é Inconsciente. Um exemplo clássico, para facilitar a compreensão
desta noção, é a série de rituais de que padece um neurótico-obsessivo.
Ele “assiste” a essa maneira de se comportar, mas não consegue interferir no sentido de
modificá-la ou controlá-la, embora o lugar desse padecimento seja o Ego. E não há dúvidas de que
este Ego é totalmente inconsciente.
Incluem-se, então, dentro da noção de Ego, as funções inibitórias e retardatárias dos
processos primários, que vão constituindo verdadeiras camadas de barragens defensivas que o
diferenciam claramente do Id. Por isto, diz-se que o Ego, em contato direto com o mundo exterior,
tem funções adaptativas, capazes de fazer uma espécie de “triagem”, selecionando e avaliando a
estimulação advinda do meio exterior.
Por tudo o que foi dito acima, o Ego, além de ser o pólo psicológico por excelência, é o pólo
defensivo da personalidade, cuja representação máxima é a ação repressiva que se manifesta
clinicamente como resistência. Resistência esta que se apresenta como uma ação defensiva do Ego
contra a emergência de conteúdos inconscientes que ameaçam a estabilidade psíquica.

C) O SUPEREGO

É uma das três instâncias descritas por Freud no Segundo Tópico. Segundo uma frase
clássica, “o Superego é o herdeiro do Complexo de Édipo”, o que vem significar que é subseqüente
a esse período, e está constituído pelo precipitado das identificações com as exigências e proibições
dos pais.
Observe-se que o Superego não é a interiorização dos pais, como às vezes se compreende
literalmente. O Superego está construído por aspectos dos pais, e muito mais ainda: o Superego está
identificado com o Superego dos próprios Pais. Por tal motivo, encontram-se no Superego os
valores ditados pela cultura em que viveu o sujeito.
Além dos valores, encontra-se também o que nomeamos ideologia ou ideologias, conjunto
de crenças e preconceitos carregados afetivamente e que se impõem, à maneira de imperativo
categórico kantiano, como mandamentos éticos.
O Superego, instância fundamental para o entendimento da conduta do indivíduo, e
sobretudo de sua psicopatologia, se expressa em dois tipos de linguagem: a linguagem prescritiva e
a linguagem valorativa. Ou seja, indica, assinala, determina e estabelece, a partir da história infantil
do sujeito, o que ele deve fazer. E, simultaneamente, também partindo da história infantil, o que ele
deve preferir, desejar, escolher, etc. Veja-se, então, como Freud se inscreve dentro de toda uma linha
filosófica representada por Nietzsche, Spinoza, Hegel, onde o valor está ligado ao desejo, sendo
este, por sua vez, um produto histórico: o desejo dos Pais. Desta forma, o Superego outorga uma
espécie de cosmovisão, uma ótica mediante a qual se observa o mundo e os objetos.
A formação do Superego tem dado origem a acirradas polêmicas no seio da teoria
psicanalítica. Enquanto uma leitura de Freud permite supor que o Superego se estrutura
tardiamente, aos 5 ou 6 anos de idade, segundo Melaine Klein e autores que se dedicaram ao
trabalho com psicóticos, a formação do Superego tem início nos primeiros meses de vida. De fato,
pareceria que as incorporações das perdas e, sobretudo, a multiplicidade de maneiras como essas
perdas são incorporadas, têm início muito precocemente.
Essas perdas — de “seios”, de “contatos corporais próprio e exteroceptivos”, de “fezes”, etc.
— vão se enfileirando com o conjunto de diversas proibições e regulações da conduta que, desde
muito cedo, indicam à criança o caminho social. (Ver p. 81.)
Quando o aparelho psíquico chega à época da descoberta sexual anatômica, aos 5 ou 6 anos
de idade, é evidente que ele entra nessa descoberta carregado do conjunto de desejos e proibições
historicamente incorporados desde o nascimento. O último grande desejo, ter um coito com os pais,
está fadado a não ser realizado. A proibição do incesto será a interdição que liderará todas as outras
anteriores, e será uma interdição sobre um objeto (ou objetos) real-abstrato (ver “Castração”, p. 59),
ao passo que as proibições anteriores se efetuaram sobre objetos reais-concretos.
Freud denominou Ideal do Ego à instância resultante da articulação entre narcisismo e identificação
com os pais. Como tal, é a instância-modelo, ou seja, as maneiras que o sujeito aspira imitar,
tratando-se também por isso de uma exigência. O antecedente do Superego, na obra de Freud, é o
Ideal do Ego. Em 1923, em O Ego e o Id (S. B., vol. XIX, p. 42), ele concebe o Superego como a
fusão da proibição e do ideal. Realmente, o Superego parece reunir, funcionalmente, estas duas
operações, em termos de subestruturas: a função proibitiva — a “voz da consciência”, e uma função
idealizadora, como uma exigência a imitar. Em resumo, o Ideal do Ego está constituído por imagens
de objetos amados, e o Superego por objetos temidos.
O Superego se constitui assim no pólo psicossocial por excelência. Sendo o herdeiro do
Complexo de Edipo, o Superego é a representação, o monumento identificatório levantado para
lembrar que antigamente, em vez desse monumento, existia uma relação com um objeto real-
concreto. Na verdade, o Superego nasce por ação da última grande proibição exercida pelos pais e
pela cultura sobre os desejos da criança: seus desejos incestuosos. Assim, o Ego e o Id, que antes se
dirigiam aos objetos exteriores reais e concretos, depois da constituição do Superego tomarão a este
como objeto. Isto quer dizer que aos objetos exteriores, de agora em diante, chegará, sim, a energia
pulsional intermediada pelo Ego, mas “fiscalizada”, permitida ou proibida, pelas prescrições e
valores inscritos no Superego.
Logo, qualquer conduta humana é o produto complexo de um arranjo biopsicossocial. Em
outras palavras, de um Id que só quer desejar, de um Superego que também manda desejar, mas
segundo os valores culturais incorporados desde a vida infantil, e de um Ego que tenta conciliar
essas duas instâncias mediante transações e acordos (defesas).

O PONTO DE VISTA ECONÔMICO

Dentro deste ponto de vista, estudamos diversos conceitos intimamente ligados entre si.
Alguns deles são: Carga Psíquica, Energia, Investimento, Descarga. Existem alguns outros
conceitos decorrentes dos anteriores, que correspondem a este item, tais como: Processo Primário,
Processo Secundário, Princípio de Prazer, de Realidade e de Constância.
O Ponto de Vista Econômico é, de todos os modelos desenhados por Freud, o mais
controvertido, e isso porque à luz da ciência moderna, particularmente das ciências físicas, não
existe nenhuma precisão quanto aos componentes essenciais das energias. Todas as ciências físicas
tratam das energias pelos seus efeitos — fazendo o mesmo que Freud muitos anos mais tarde, em
seu trabalho “Os Instintos e Suas Vicissitudes”, de 1915 — reconhecendo ignorar tudo o que se
refere à natureza do processo excitatório. Entretanto, Freud apela para a hipótese energética quase
que continuamente quando fala da energia libidinal, das pulsões em geral e, sobretudo, da
necessidade explicativa dos diversos processos transformacionais produzidos no aparelho psíquico.
Em alguns fragmentos de sua obra, Freud aponta a esperança de quantificar no futuro essa energia.
A Energia é conhecida, na teoria psicanalítica, como catéxia ou catexis, palavra que tenta
traduzir o vocábulo alemão Besetzung. De fato, como as representações encontram-se carregadas de
certa quantidade de energia psíquica, esta ação de “ocupação” pelas cargas é o que exprime a
palavra original alemã. A palavra em português “investimento” é, terminologicamente, muito mais
adequada que catéxia, pois até sob o ângulo da ciência econômica permite uma solidariedade entre a
coisa investida o “capitalista investidor”20. Numa metáfora freudiana clássica energia, ou catéxia,
será definida como aquilo que sofrerá aumento, diminuição, descarga, deslocamento, etc., assim
como uma carga elétrica.
Ainda hoje é muito difícil abandonar-se a hipótese econômico-energética, embora
importantes objeções tenham sido feitas ao uso ambíguo que Freud lhes dá. Quase sempre essa
ambigüidade é contornada utilizando-se os conceitos energéticos no sentido metafórico: “aparelho
psíquico carregado de tensão”, “hipercatéxia da representação”, etc.
A ambigüidade mais importante provém dos esquemas neurofisiológicos empregados por
Freud, de forma predominante antes de 1900. Assim, por exemplo, um “traço mnésico”, uma
“representação psíquica”, um “objeto interno” podem estar carregados de catéxia. E difícil, porém,
conceber-se em que consiste esse investimento de cargo sobre um objeto exterior. Como assinalam
Laplanche e Pontalis (Vocabulário da Psicanálise), outra grande dificuldade surge quando Freud
vincula o modelo econômico ao modelo tópico, sobretudo quando concebe catéxias que denomina
inconscientes.
Porém, tal como antecipamos, é difícil prescindir da noção econômico-energética, já que
alguns quadros psicopatológicos evidenciam uma carência de energia em certas áreas, como
acontece nos quadros de esquizoidia, depressões ou histerias conversivas.
Finalizando, voltamos a repetir que os conceitos energéticos são simples metáforas que
ocultam nossa ignorância a esse respeito.

1. ENERGIA LIVRE E ENERGIA LIGADA

Deveremos lembrar que as noções de energia, em biologia, faziam parte do contexto


epistemológico e, por conseguinte, da linguagem assimilada nos primeiros trabalhos de Freud e
Breuer. Este último, particularmente, teve destacada participação nos conceitos físicomecânicos
elaborados por Helmholtz, Meynert, Brücke, herdeiros da clássica filosofia alemã leibnitziana. De
fato, quase todos estes autores haviam falado de duas maneiras ou formas sob as quais circulava a
energia nervosa. Breuer, em 1893, chama estas duas formas de energia de “Energia Livre” e
“Energia Ligada”.
Em 1895, em seu famoso “Projeto para uma Psicologia Científica” (5. B., vol. 1, p. 395),
Freud descreve um funcionamento primário do aparelho neurônico, onde a energia circula
livremente e, como tal, tende a se descarregar de forma quase explosiva, imediata e completa. Um
pouco mais adiante, falaremos do Princípio de Prazer-Desprazer, intimamente vinculado a este tipo
de Energia.
Freud descreve ainda um modo de funcionamento do aparelho psíquico chamado
Secundário, onde a energia está presa e circula de forma compacta, chamando-a de Energia Ligada.
A ação das barreiras e do controle que certos neurônios exercem sobre a energia vão inibindo-a e
provocando uma forte elevação tônica de sua carga, com um mínimo de deslocamento. Este será o
modelo do pensamento e da atenção.

20
Como assinalamos noutro capítulo (ver p. 92-3) o modelo energético-econômico se articula com o modelo tópico. A
matéria “ocupa” lugar.
Essa linguagem biológico-neurológica, anterior a 1900, dará origem aos conceitos de
Processo Primário, onde circula a Energia Livre característica do Inconsciente, e de Processo
Secundário, característico do Pré-Consciente e do Consciente.

2. PROCESSO PRIMÁRIO E PROCESSO SECUNDÁRIO

São duas as maneiras de comportamento do aparelho psíquico, que dizem respeito à


circulação da energia psíquica:
O Processo Primário é caracterizado pelo livre fluir da energia, como acontece topicamente
no Inconsciente. Esta hipótese de livre circulação é condição necessária para explicar o
deslocamento da energia sobre as representações e portanto o diferente valor, em intensidade e
significação, adquirido por uma representação em relação a outra. Este processo de deslocamento
culmina com a condensação, que é uma confluência de diferentes representações e que, como seu
nome indica, oferece uma superdeterminação de representações.
O Processo Secundário é a outra maneira de operação da energia dentro do aparelho
psíquico. Aqui, topicamente, nos encontramos com o Pré-Consciente/Consciente. A energia é ligada
e, assim, altamente concentrada. Essa hipótese é a condição necessária para explicar os processos de
atenção, raciocínio, juízo, etc. Na metáfora clássica, aqui a energia está inibida, não flui livremente,
e sua principal função é a de regular os processos-de descarga.
O Processo Primário está dominado pelo Princípio do Prazer e o Processo Secundário pelo
Princípio da Realidade.

3. PRINCÍPIO DO PRAZER E PRINCIPIO DA REALIDADE

Originalmente, o Princípio do Prazer se denominava Princípio do Prazer-Desprazer,


querendo significar que o aparelho psíquico tendia a fugir de tudo aquilo que provocasse desprazer.
Esta fuga, seria uma forma de não aumentar a quantidade de excitação dentro do aparelho psíquico,
finalidade que podia ser atingida descarregando-se o excesso de carga. De forma resumida, o Prazer
era produzido pela redução ao mínimo da tensão energética.
Porém, 20 anos mais tarde, Freud descreve aumentos de tensão que eram agradáveis,
prazerosos (como por exemplo a própria tensão sexual, cujo acúmulo progressivo não é
acompanhado por nenhuma sensação de desprazer, ainda mais quando se conta com a possibilidade
da satisfação futura), e também, nos últimos anos de vida, considerou variações na estrutura da
energia, como por exemplo o ritmo, responsável pela percepção qualitativa do prazer. O fato
continua sendo, ainda hoje, motivo de polêmica.
Sendo o Princípio do Prazer um elemento regulador dos Processos Primários, está
necessariamente articulado ao Princípio da Realidade. Com efeito, essa descarga explosiva, brusca,
reflexa, provocada pelo Princípio do Prazer vai, à medida que o aparelho entra em contato com a
realidade, se protelando, se inibindo, aceitando alcançar sua finalidade e seu objetivo num período
de tempo mais longo. Como se observará, o Princípio da Realidade é um desenvolvimento e um
aperfeiçoamento do Princípio do Prazer.
Com o nome de Princípio da Constância, Freud se refere a uma certa faixa de ótimo
funcionamento que o aparelho tende a manter. O Princípio da Constância é um correlato do
Princípio da Homeostase Biológica.
O Princípio da Constância é vinculado (às vezes oposto) ao Princípio do Nirvana, 21 que é
aquele Princípio, nomeado por Freud, que tende a reduzir ao zero absoluto toda a excitação. O
Princípio do Nirvana é o Princípio que governa o conceito de Instinto da Morte, que veremos mais
21
Tanto em “O Problema Econômico do Masoquismo” (S. B., vol. XIX, p. 199) quanto em “Os Instintos e suas
Vicissitudes” (vol. XIV, p. 141), Freud se refere a estes dois princípios (do Nirvana e da Constância) como idênticos,
opondo-se, sim, ao princípio do prazer: “O princípio do Nirvana [e também o da Constância] expressa a tendência do
Instinto da Morte; o princípio do prazer representa as exigências da libido, e a modificação desta última; o princípio da
realidade representa a influência do mundo externo” (vol. XIX, p. 201), consultar “Princípio da Constância”.
(Vocabulário da Psicanálise).
adiante. (Ver p. 148 e segs.) Resumindo, o aparelho psíquico, sob o ponto de vista de sua
administração de Energia, movimenta-se numa faixa de tensão a mais baixa possível. A manutenção
do nível dessa faixa é chamada Princípio da Constância. Um excesso de excitação faz ativar o
Princípio do Prazer, provocando ou um afastamento do estímulo ou uma descarga niveladora.
Se essa descarga, teoricamente, continuasse além do nível da Constância em direção a um
hipotético Zero, teríamos o Princípio do Nirvana. Tal efeito não ocorre porque o contato com a
realidade exterior, denominada significativamente por Freud de “as ineludíveis condições de vida”,
recarrega o aparelho, impedindo sua descarga total e modificando o curso da excitação.
Tentaremos, muito brevemente, articular alguns conceitos que geralmente são estudados
isoladamente.
Os assim chamados Princípios são aceitos comumente nas Ciências e, de modo geral,
procedem de Aristóteles. Admite-se que um Princípio é um ponto de partida, podendo logicamente
existir vários princípios, que regulam determinado Sistema lógico ou cognitivo.
O Princípio do Prazer expressa essencialmente a idéia de que a catéxia pulsional tende a se
satisfazer de modo imediato. Por isto, Freud o comparava a um processo “plano”, querendo assim
dizer que o rolar de um pequeno objeto sobre uma superfície lisa se faz rápida e bruscamente, sem
obstáculos à sua passagem. Estas são as características da “realização alucinatória de desejos”,
modelo sobre o qual estão constituídos os sonhos, as fantasias, o nível ilusório e os delírios. Mas
essa realização de desejos é uma realização decepcionante, desapontadora, porque se satisfaz com
um objeto “representacional” ou psíquico. Não existe situação duradoura quando se persiste na
ignorância ou no afastamento da realidade. Por isto, o Princípio da Realidade é o conceito que
exprime a modificação da realização alucinatória dos desejos em realização na realidade concreta e
objetiva. Em conseqüência, o Princípio da Realidade é uma modificação do Princípio do Prazer,
imposta pelas condições reais do mundo externo.
Como o leitor poderá observar, o conceito de Prazer está perfeitamente articulado com o de
Processo Primário, con o de Energia Livre e com o de Identidade de Percepção. Por outro lado,
Realidade está articulada com o Processo Secundário, com Energia Ligada e com Identidade de
Pensamento. Em termos do Primeiro Tópico, o Princípio do Prazer, com todas as suas séries
articuladas, corresponde ao Inconsciente e o Princípio da Realidade ao Consciente. Em termos do
Segundo Tópico, esta primeira série (Princípio do Prazer, Energia Livre e Processo Primário)
corresponde ao Id e à parte inconsciente do Ego. A segunda série (Princípio da Realidade, Energia
Ligada e Processo Secundário) corresponde ao Ego consciente.

O PONTO DE VISTA DINÂMICO


(ver p. 171 e segs.)

O ponto de vista dinâmico é aquele que fala das pulsões, dos instintos, dos objetos e da
sexualidade de modo geral.
Para poder entender melhor uma certa topologia do aparelho psíquico, deveremos tomar um
modelo sumamente útil sob o ângulo psicopatológico, desenhado por Freud tanto em 1895, no
“Projeto para uma Psicologia Científica”, quanto em seus “Artigos Metapsicológicos” de 1915 (S.
B., vol. XIV, p. 123). Em ambos, é estabelecido que o aparelho psíquico está impactado por dois
tipos diferentes de estímulos. Os estímulos externos ou exteriores e os estímulos interiores ou
internos. Ambos exercem pressão sobre o aparelho, mas sua diferença consiste na possibilidade de
fugir deles ou não.
Os estímulos exteriores são passíveis de serem afastados, mediante a atividade muscular. Ao
contrário, os estímulos internos exercem pressão mais ou menos contínua, não havendo nenhuma
possibilidade de se afastar deles, sendo aí inútil a ação muscular. A este último tipo de excitação
chamamos de pulsão, e também de instinto.
Segundo a revisão da epistemologia francesa contemporânea, parece preferível o termo
pulsão (usado por Freud, em alemão, com a palavra Trieb), que exprime uma idéia de urgência em
se descarregar, parecendo específica do nível psicológico, O termo instinto (poucas vezes usado por
Freud, com o nome de Instinkt) fica restrito a comportamentos hereditários sobretudo fixos,
característicos da espécie.
Nos “Artigos Metapsicológicos”, particularmente em “Os Instintos e Suas Vicissitudes”, de
1915 (Standard Brasileira, vol. XIV, p. 137), Freud nos legou uma definição já clássica de pulsão:
que é “um ‘instinto’ que nos aparece como sendo um conceito situado na fronteira entre o mental e
o somático, como o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e
alcançam a mente; como uma medida da exigência feita à mente no sentido de trabalhar em
conseqüência de sua ligação com o corpo” (id., ib, p. 142). Entre aspectos interessantes a salientar
nesta definição, está a expressão “medida da exigência”, que é coerente com o conceito de pressão
ou “empurrão”, que examinaremos a seguir.
“Por pressão (Drang) de um instinto, compreendemos seu fator motor, a quantidade de força
ou a medida da exigência de trabalho que ela representa.” (Id., ib, p. 142.) Esta é uma característica
essencial de toda pulsão e até quando se fala de “pulsão passiva” está-se assinalando uma
brevíssima maneira de exprimir a idéia de uma exigência ativa em procurar situações de
passividade, Este ponto é de capital importância, já que Freud não quis atribuir a atividade a uma
pulsão específica (como Adler, por exemplo), pois que toda pulsão, por definição, tem capacidade
de desencadear a atividade motora.
“A finalidade (Ziel) de um instinto é sempre a satisfação, que só pode ser obtida eliminando-
se o estado de estimulação na fonte do instinto.” (Id., ib, p. 142/143.) A finalidade de uma pulsão
também é conhecida com o nome de meta ou objetivo. Observe-se a íntima ligação existente
entre esta característica da pulsão e o ponto de vista econômico. Realmente, o desaparecimento da
tensão, que traz uma satisfação, se efetua mediante uma descarga, ou seja, mediante a transposição
da energia ao exterior do sistema. Esta maneira de se conceber a satisfação é ampla, mas às vezes se
entende também por descarga os instrumentos, os meios e os mecanismos que permitem alcançar tal
finalidade.
Uma outra importante característica da pulsão é a fonte “... o processo somático que ocorre
num órgão ou parte do corpo, e cujo estímulo é representado na vida mental por um instinto.” (Id.,
ib, p. 143.) Veja-se o grifo freudiano na origem material da pulsão. Sem matéria-corpo — é óbvio
— não existe psiquismo. Com o conceito de fonte pulsional entendemos não apenas uma noção
causal, de origem. Entendemos também uma noção topográfica, mais explicitada por Freud em Três
Ensaios Sobre Sexualidade (Standard Brasileira, vol. VIl). Assim, fonte pulsional parece designar
não só o que conhecemos com o nome de zonas erógenas, mas também causas químicas, mecânicas,
e a atividade muscular ou intelectual.
“O objeto (Objekt) de um instinto é a coisa em relação à qual ou através da qual o instinto é
capaz de atingir sua finalidade.” (Id., ib, p. 143.) Este aspecto é importantíssimo sob o ponto de
vista clínico e, examinando os parágrafos nos quais Freud a ele se refere, chegamos às seguintes
conclusões:
a) Um objeto é o elemento mais variável de uma pulsão. A ligação a um objeto é feita com a
exclusiva finalidade de procurar a sua descarga (da pulsão). Muitos fenômenos de ordem
psicopatológica, especialmente os mais primitivos, são explicados por essa característica, onde o
aparelho psíquico parece atuar às cegas na procura de sua descarga, tendo o objeto em si mesmo
valor secundário.
b) O conceito de objeto não se refere a uma coisa alheia ao sujeito. Pode ser uma parte de
seu próprio corpo. Compreende-se facilmente como o corpo pode, simultaneamente, servir como
fonte e como objeto, elemento fundamental para se entender, entre outras coisas, o narcisismo.
c) Um mesmo objeto pode servir simultaneamente a vários instintos, característica destacada
no desenvolvimento sexual normal, onde a mão, por exemplo, pode desempenhar ftnção de objeto
de satisfação da pulsão oral e, muito mais tarde, servir de continente adequado para a satisfação
auto-erótica genital.
d) Os itens precedentes estão enfileirados na característica de “variável” do objeto. Mas
pode haver uma estreita relação entre o objeto e seu instinto, ligação esta que se conhece com o
nome de fixação.
e) O objeto é classicanlente relacionado ao sujeito e portanto pode ser uma pessoa total, mas
também pode ser um “objeto parcial” ou seja, uma parte de uma totalidade; o “seio materno”, por
exemplo.
f) O objeto pode pertencer ao mundo real externo ou ao mundo real interno (fantasia).
Alguma coisa a mais, no que se refere ao objeto: conhecemos em teoria psicanalítica o que é
a Relação de Objeto. Com este nome entende-se, na literatura pós-freudiana, a consideração da vida
psíquica de um determinado sujeito em situação, ou seja, junto ou inscrito em seu mais amplo
contexto. -Permite- nos observar uma complicada rede de elementos diversos, tais como pulsões,
ansiedades e defesas, que dizem respeito não apenas ao sujeito mas também ao objeto. Este último
conceito tenta exprimir que o objeto em si mesmo, “escolhido” pelo sujeito, tem uma vida própria e
uma historicidade que explica o seu aparecimento nesse lugar e nesse tempo. Como pode ser
observado, a Relação de Objeto coloca a categoria “objeto” dentro do campo social.

1. TEORIA DAS PULSÕES

Para um estudo mais adequado, deveremos dividir o desenvolvimento progressivo da teoria


pulsional em três etapas:
— a primeira etapa é caracterizada por um antagonismo entre a pulsão sexual e a pulsão de
autoconservação;
— na segunda etapa temos o aparecimento do narcisismo, introduzindo-se como elemento clínico e
teórico, e provocando a
— terceira e definitiva etapa, constituída pela oposição entre pulsões de vida e de morte.

Primeira etapa

A primeira etapa da dualidade pulsional está descrita num trabalho de 1910 intitulado “A
Concepção Psicanalítica da Perturbação Psicogênica da Visão” (Standard Brasileira, vol. XI, p.
193), onde Freud mostra a inegável oposição entre esses dois grupos de pulsões, as sexuais e as de
autoconservação ou auto- preservação. Ressalvemos, ainda, que neste, como em outros trabalhos,
Freud se refere a esses últimos instintos com o nome de Instintos do Ego.
Citando o poeta alemão Schiller, Freud diz: “. . . todos os instintos orgânicos que atuam em
nossa mente podem ser classificados como ‘fome’ ou ‘amor’” (id. ib., p. 200).
Essa oposição permite compreender uma referência maior:
a conservação do indivíduo — pulsões de autoconservação — versus a conservação da espécie —
pulsões sexuais.
Constituindo as pulsões sexuais a energia fundamental do aparelho psíquico, a novidade
apresentada por Freud em 1910 foi a existência de uma outra energia que, em determinadas
situações, se opunha àquela fundamental e inconsciente. O leitor deverá entender isto sob a ótica do
Primeiro Tópico, onde o conflito ocorre entre as instâncias até esse momento delineadas:
Pré-Consciente/Consciente versus Inconsciente. Mas não é possível entender-se esta
dualidade pulsional primeira sem o conceito de apoio ou anaclisia (Anlehung). Esta elaboração, que
procede do trabalho de 1905, Três Ensaios Sobre a Sexualidade, mostra que inicialmente as pulsões
sexuais e as de autoconservação não só não se opõem mas colaboram entre si. Significa que as
pulsões .sexuais se apóiam nas funções de autoconservação para sua descarga e extravasamento.
Isto ficará claro ao se compreender que Freud observara que, uma vez satisfeita em uma
criança sua necessidade de fome, existe um “excedente”, um “resto” de energia que não se satisfaz
agora com o objeto específico (peito/leite). Esta sobra de energia é o que Freud denominou
sexualidade e que se esvazia pedindo “emprestados” os canais corporais de autoconservação.
Esta união, que inicialmente caracteriza a vida pulsional, tende a se independentizar no
decurso do desenvolvimento. Porém, todo o caminho posterior, adulto, da sexualidade ficará de
algum modo marcado por esta origem traçada nos trilhos da autoconservação. Daí, por exemplo,
que no clássico quadro de um melancólico, ou de uma depressão simples, uma perda qualquer é
sentida como uma falta concreta corporal, como próxima do desaparecimento físico, etc. As pulsões
sexuais falam ainda com o “sotaque” das pulsões de autoconservação.
Numa terminologia mais rigorosa e moderna, as pulsões de autoconservação se denominam
“necessidades”, com o intuito de diferenciá-las claramente da pulsão sexual.
Dever-se-á reconhecer que, em tal sentido, a pulsão de autoconservação é a única que está
ligada a um objeto específico, porque dele depende, obviamente, a autoconservação.
O protótipo da pulsão de autoconservação é a fome, e nunca Freud se preocupou em
descrever outro tipo. Mas, em sentido geral, admite-se que qualquer função orgânica seja fonte
deste tipo de pulsão.
A conseqüência mais decisiva ç destacada desta origem pulsional é o conceito de Pulsão
Parcial. Com efeito, inicialmente, as múltiplas funções orgânica possuíam fragmentos de pulsões
onde se misturavam as pulsões de autoconservação correspondente a essa função e o fragmento de
sexualidade nela apoiado.
O conceito de .Pulsão Parcial exprime sua atuação original- mente independente,
fragmentária, e que progressivamente tende a se unir, a se juntar numa unidade estrutural de nível
superior.
Sob o ponto de vista psicopatológico, o conceito de apoio e de Pulsão Parcial serve para
explicar transtornos de ordem funcional que têm dado lugar a importantes contribuições na
literatura psicanalítica. Ao contaminar ou ocupar o espaço da pulsão de autoconservação, a pulsão
sexual “sexualiza” ou “erotiza” a função a ela ligada, perturbando desse modo, em maior ou menor
intensidade, aquela atividade.
Assim, por exemplo, o comer muito (bulimia) ou o comer pouco (anorexia) podem ser
explicados pela hiperativação, no primeiro caso, ou pela inibição, no segundo, da função do apetite
pelos efeitos produzidos pela pulsão sexual, apoiada nas de autoconservação.
Outra conseqüência de suma importância para o desenvolvimento psíquico é que, se no
início as duas pulsões “trabalhavam” juntas, descarregando-se ou satisfazendo-se num mesmo
objeto, pouco a pouco tendem a se separar. Realmente, deduz-se do que foi dito até aqui que a
necessidade, a pulsão de auto- conservação, é a que requer um objeto exterior concreto. Podemos
afirmar que a necessidade é a que marca o caminho para o encontro com outra pessoa, ressalvando-
se que no início essa outra pessoa é apenas parcialmente visualizada. Mas a pulsão sexual não
precisa de um objeto exterior para se satisfazer. Ela vai se descarregando nos fragmentos
funcionais-fisiológicos do próprio corpo, ou seja, satisfaz-se auto-eroticamente.
É por tudo isto, e por requererem objetos concretos, que as pulsões de autoconservação estão
regidas pelo Princípio da Realidade. Ao contrário, as pulsões sexuais, ao se “demorarem” nas
satisfações corporais, prescindem de objetos exteriores, sendo regidas pelo Princípio do Prazer.
Veja-se aqui o modelo da fantasia. A fantasia, como expressão das pulsões sexuais, e portanto do
corpo, constitui-se num refúgio, num espaço diferente do mundo exterior.

Segunda etapa

A importância decisiva desta etapa na elaboração da teoria pulsional provoca ainda hoje
comentários e desenvolvimentos especulativos. Em 1914, Freud “introduz” o narcisismo (5. B., vol.
XIV, p. 89).
Como sempre, alguns fatos clínicos não eram facilmente explicados pela dualidade pulsional
que na época servia de marco teórico. Esses quadros psicopatológicos se referiam quase sempre a
casos particularmente graves, que incluíam um afastamento total ou parcial do mundo exterior.
Entre estes quadros, Freud interessou-se pela esquizofrenia (em especial pelo autismo), pela
hipocondria, pelo desinteresse do paciente por qualquer outra coisa que não a preocupação com o
estado de algum órgão ou função do corpo, etc. E mesmo outros estados, não necessariamente
patológicos, mas que reproduzem esse “recolhimento”, essa “invaginação” da energia psíquica: uma
dor de dentes, por exemplo, ou até os sonhos normais, que expressam uma atividade psíquica
intensa, com total afastamento do mundo exterior.
Todas essas considerações levaram Freud a substituir a dualidade pulsões de
autoconservaÇão versus pulsões sexuais, pela dualidade libido do objeto versus libido do Ego.
Com efeito, tentamos mostrar que agora o modelo seguido por Freud é mais “objetalista”,
valorizando mais o lugar para onde se dirige a libido e determinando se este “lugar” está fora ou
dentro (do corpo, do sujeito, do Ego).
Isto nos leva também a reformular a gênese do investimento psicossexual, admitindo que
não é só um fragmento do corpo que é investido de energia (zonas erógenas), mas sim a pessoa
inteira (Ego-corpo).
Freud usa uma metáfora hoje famosa: “o corpo seria como uma ameba, que se liga aos
objetos através dos seus pseudópodes”. Desta maneira, estabelece-se uma balança entre o objeto e o
Ego: quanto mais se esvazia o Ego, mais se carrega o objeto, e vice-versa.
Aqui, o Ego se constitui como um grande reservatório de energia libidinal e implica um
certo estágio teórico de narcisismo primário ou original, onde os objetos exteriores ainda não
existiam; esta seria uma etapa na evolução libidinal. Por outro lado, sempre existe um “núcleo”
estrutural narcísico, espécie de representação daquele período do desenvolvimento em que se podia
prescindir das satisfações proporcionadas pelos objetos exteriores. Ë a este núcleo narcísico que o
sujeito, já adulto, tende a retornar em determinadas circunstâncias, o que constitui o narcisismo
secundário. Este tipo de narcisismo, como seu nome indica, é o refluxo energético pulsional que
depois de ter investido os objetos exteriores volta a seu lugar original, o Ego.
Esta última descrição tem evidentes correlatos observáveis clínicos, como, por exemplo, a
perda de um objeto altamente investido, e portanto valorizado, e esse mesmo investimento voltando
para o Ego e “tentando” reconstruir nele o objeto perdido (modelo da melancolia).
Devemos salientar que não existe correlato clínico semelhante ao narcisismo primário.
Insistimos que é um conceito teórico e entre os psicanalistas existe um acordo quase unânime de
que seu protótipo mais aproximado seja a vida intra-uterina. Neste narcisismo primário há uma total
indiferenciação entre o Ego e o Id, e entre essas duas instâncias e o mundo exterior.
Toda essa concepção terá enorme importância, não só sob o ponto de vista psicopatológico e
clínico, mas também para o tratamento dos pacientes graves, psicóticos.
Destes desenvolvimentos partem as hoje clássicas teorizações de Melanie Klein sobre as
primeiras relações de objetos. Estes “objetos” não são objetos exteriores e sim pedaços do Ego
corporal primitivo, ou seja, são objetos narcísicos e em seu relacionamento posterior o Ego
primitivo tenta recuperar o estado indiferenciado fetal.
Por outro lado, Jacques Lacan descreveu em 1936 a fase do espelho, apoiando-se fielmente nos
primeiros desenvolvimentos freudianos. O narcisismo primário, na teorização lacaniana, provém de
um momento de unificação, unificação esta que é proporcionada pela alegria que um bebê sente ao
se reconhecer num espelho. Essa unificação refere-se à percepção, pela criança, da imagem do
semelhante. Ela identificar-se-á com essa imagem.
Observe-se que, para Lacan, a base constitutiva do que nós denominamos Ego é imaginária,
e será a matriz onde posterior- mente se precipitarão as Identificações Secundárias.
Num sucinto resumo do que foi dito até agora, distinguiremos quatro elementos
imprescindíveis para se pensar psicopatologicamente:
— Um primeiro estágio, que poderíamos denominar indiferenciado: Id-Ego e Id/Ego
(sujeito) -mundo exterior;
— A satisfação “anárquica” auto-erótica das pulsões, segundo sua funcionalidade
fisiológica. Assim, haveria tantas parcialidades de corpo quantas funções fisiológicas existissem
(fantasia do “corpo despedaçado”, de Lacan);
— A constituição de uma unidade, de uma primeira identidade que se efetua por
interiorização da imagem de outra pessoa (embora a imagem do espelho seja a sua própria, o
menino não sabe disso, pensa que é Outro);
— O Ego narcísico primitivo, assim constituído, dirige-se aos objetos exteriores. O leitor
deverá compreender, por esta descrição, que o Ego tinha contatos com os objetos, mas ele não se
apercebia de que esses objetos eram externos a ele. Por isto, a descoberta da exterioridade do objeto
é contemporânea à constituição de um Ego nomeável em primeira pessoa.
Uma vez desinvestidos os objetos exteriores, a libido neles investida retorna ritmicamente a
seu “centro” natural: o Ego.

Terceira etapa

A última etapa da teorização pulsional tem como contexto mais abrangente toda uma
revolução intrateórica do texto freudiano. Somente com essa visão podemos nos aproximar de uma
inteligibilidade mais ou menos operativa mas que, por ser muito complexa, não se esgota nem
admite uma explicação simples. Esta revolução intrateórica tem um ponto de referência
fundamental, que é o trabalho de 1920, Além do Princípio do Prazer (Standard Brasileira, vol.
XVIII). Mas devemos reconhecer que esta revolução vinha se gestando desde os Escritos
Metapsicológicos de 1915. Ali, a dualidade pulsional, expressa nos pares antitéticos sadismo e
amor, colocava problemas que durante alguns anos fizeram vacilar os textos freudianos, até seu
reordenamento definitivo depois de 1920.
Em Além do Princípio do Prazer, faz-se a proposta de duas pulsões fundamentais que se
contrapõem entre si: pulsões de vida e pulsões de morte.
Até hoje, no plano teórico e clínico, as polêmicas dividem os cientistas das ciências psicológicas.
Mas, tentando seguir estritamente o raciocínio de Freud em Além do Princípio do Prazer, faremos
constar que a nova conceituação não emerge do nada, embora reconheçamos que alguns recortes na
leitura do texto podem levar a pensar numa espécie de origem mitológico- explicativa para a
justificativa de seu aparecimento.
Seguindo Laplanche, diremos que o texto de 1920 se apresenta como “... o mais fascinante e
mais desconcertante de toda a obra freudiana. Jamais Freud se mostrou tão livre, tão audacioso,
como neste grande afresco metapsicológico, metafísico e metabiológico. Apatecem nele termos
absolutamente novos:
Eros, pulsão de morte, compulsão à repetição.. .“ (Laplanche, J. — Vie et Mort en Psychanalyse,
Flamarion, Paris, 1970 — Cap. VI).
Como já mencionamos, este novo esquema pulsional apresenta alguns obstáculos de ordem
empírica que se constituem em antecedentes diretos desta revolução intrateórica:

A) A COMPULSÃO À REPETIÇÃO

O problema da repetição é antigo em Freud. Com efeito, antes de 1900 viu-se ele
confrontado, no plano fenomenológico, com a repetição. Por exemplo, o próprio sistema que
reproduz alguns elementos de um conflito passado; repetição que se manifesta nos sonhos
angustiosos e na neurose pós-traumática, etc.
Num contexto um pouco mais dramático, Freud constata certo “destino” de alguns quadros
psicopatológicos, sujeitos à “condenação de repetir situações dolorosas”. Observando jogos
infantis, genialmente Freud observa que a estrutura geral do jogo é quase sempre a mesma, ou seja,
a criança repete, tentando elaborar ativamente o que ela sofreu passivamente: por exemplo, a perda
de um ser querido.
Esta compulsão (Zwang), que designa uma força interior premente, fascina Freud, fazendo-o
conceituar a existência de um princípio que estaria além do Princípio do Prazer, já que este último
se mostra incapaz, em determinadas circunstâncias, de “domar” situações penosas. Ele chega a
conclusões controvertidas mas, sob todos os aspectos, importantes. Esta tendência à repetição não
só se apresenta em algumas circunstâncias penosas, como faz parte de uma propriedade geral das
pulsões, cuja conseqüência é transportar o organismo, na sua idêntica reprodução, a um estado
anterior. Esse estado anterior é um estado de inércia, do qual o organismo saiu por exigências das
“ineludíveis condições da vida”. Ou seja, a ação de fatores externos causou a perturbação do estado
inicial de quietude.
Daqui resta apenas um passo para a conclusão de que a força pulsional tende a fazer voltar o
organismo vivo ao estado inorgânico. E uma conclusão nos limites do filosófico: a finalidade de
toda vida é a morte.
É desta maneira — fundamentalmente introduzida pela evidência clínica da Compulsão à
Repetição — que a Pulsão da Morte faz seu aparecimento. A Pulsão da Vida será inteiramente
oposta, é uma força construtiva que tende a organizar o organismo em conjuntos cada vez mais
complexos.
“Sedutora, traumatizante, a forçada introdução da Pulsão da Morte não podia deixar de
suscitar, entre os herdeiros de Freud, todas as variações possíveis de defesas: rejeição motivada em
uns, aceitação puramente escolástica em outros da noção e do dualismo Eros-Tanatos, aceitação
numa forma modificada e separada de seus fundamentos filosóficos numa autora como Melanie
Klein e, ainda mais amiúde, a preterição ou o esquecimento total da noção” (Laplanche, J. op. cit.
22
).
Para justificar a inclusão deste novo dualismo, Freud recorre aos desenvolvimentos de
ordem biológica, inteiramente especulativas. As conclusões, muito resumidas, destas justificativas
são de que os organismos unicelulares seriam virtualmente imortais. Nestas especulações, para
avalizar o esquema teórico pulsional, Freud recorre aos mitos platônicos. Não sendo totalmente
satisfatório o marco puramente especulativo, volta ele a apelar para alguns argumentos empíricos.

B) A PROBLEMÁTICA DO SADISMO, O MASOQUISMO E A AGRESSÃO

Antes de 1920, a agressividade não aparece como uma pulsão que lhe corresponda. Salvo
quando critica Adler, Freud não faz praticamente menção a ela, mas isso não significa que
desconhecesse todo o conjunto problemático envolvendo o ódio, a agressividade e o
sadomasoquismo.
O sadismo, até 1920, fazia parte do instinto sexual, apenas como uma espécie de pulsão de
domínio (Bemüchtigungstrieb), cuja finalidade é a dominação do objeto pela força.
Os casos clínicos perversos e melancólicos mostram, de modo evidente, que existe algo
como uma tendência agressiva voltada contra o sujeito e permanecendo dentro dele com toda a sua
força destruidora.
O problema do masoquismo, neste momento, vem justamente se constituir num paradoxo: a
obtenção de prazer no desprazer.
Com a introdução, em 1920, da Pulsão da Morte, Freud descreve esta última como sendo
dirigida contra o próprio sujeito (numa tentativa de levá-lo a seus estados inorgânicos primitivos).
Mas, por efeito da energia libidinal contida na Pulsão da Vida, que possui uma direção totalmente
oposta, é conduzida— a Pulsão da Morte — em direção ao mundo exterior. Daí que uma parte da
Pulsão da Morte fica neutralizada pela Pulsão Sexual, permanecendo porém estreitamente ligada a
ela. Isto será, definitivamente, o sadismo.
A parte restante, também unida à Pulsão da Vida, mas que está dentro do aparelho psíquico,
constituirá o masoquismo primário.
O leitor perceberá que é função da Pulsão da Vida essa tendência de juntar, unir, amalgamar-
se e se fusionar com o Instinto da Morte.
Nesta formulação admitem-se as variações sumamente ricas e infinitas que constituem essa
mistura instintiva. Um aspecto grandemente controvertido desta teoria pulsional é a existência de
energia dessexualizada ou neutra, que, entre outras coisas, serviria para converter um instinto em
outro.
A primitiva noção de “apoio” ou análise dentro dos marcos da Primeira Teoria Pulsional foi
substituída, num nível de maior abstração, pela noção de fusão-desfusão. (O Ego e o Id. St. Br., vol.
XIX, p. 56; 1923.)

RECAPITULAÇÃO E REVISÃO DAS TEORIAS PULSIONAIS


22
Grifado no original.
Tendo observado que, na Primeira Teoria Pulsional, havia uma coincidência entre o conflito
pulsional e o conflito das instâncias, aqui, depois de 1920, desaparece essa concordância. A origem
“mitológica” das pulsões está no Id, sendo o Superego uma pura concentração de pulsões de morte.
Portanto, será preciso reter que, clinicamente, qualquer problema de ordem masoquista tem a ver
com uma submissão do Ego aos mandamentos agressivos e destruidores do Superego. Deste modo
muito particular, o Ego satisfaz a energia pulsional superegóica.
A Segunda Teoria Pulsional abalou quase todo o edifício teórico freudiano. Observado na
sua totalidade, o Princípio do Prazer perde, depois de 1920, a hierarquia, enquanto os problemas
relativos à agressão são colocados em primeiro plano.
Seguindo certo raciocínio cuja origem se encontra no marco filosófico alemão dos séculos
XVIII e XIX, a partir da r.. conceituação Freud concebe o organismo vivente suportado por um
conjunto pulsional. Esse conjunto é dividido em dois punhados energéticos, um que induz a
reproduzir, a somar, a crescer, e outro que leva a restabelecer um estado anterior.
Enquanto na Primeira Teoria Pulsional a origem da vida surge no interior do organismo, na
Segunda Teoria a vida 6, concebida por uma modificação acidental exterior ao organismo, que tende
naturalmente a lutar contra esse acidente, querer impor a inércia e a quietude. Vê-se aqui o âmago
da filosofia de Schopenhauer, que afirmava que a morte era o destino vida.
Uma parte da teoria libidinal, porém, permaneceu inabalada: a que se refere ao
desenvolvimento psicossexual e, particularmente, aos estágios pré-genitais.

TEORIA DA ANGÚSTIA23

Dividiremos, para maior compreensão, a Teoria da Angústia e duas subteorias cronológicas:


a Primeira Teoria da Angústia, que se estende desde 1905 até 1926, com ligeiras variações nesse
tempo intermediário, e a Segunda Teoria, elaborada a partir fundamental trabalho “Inibições,
Sintomas e Angústia”.

1. PRIMEIRA TEORIA DA ANGÚSTIA

Esta teoria, cuja descrição mais importante está em Três Ensaios Sobre a Sexualidade
(1905), reconhece antecedentes a partir de 1892.
Com efeito, no “Rascunho E” (Standard Brasileira, vol. 1, p. 261), intitulado “Como se
Origina a Ansiedade”, Freud é taxativo: a angústia reconhece uma etiologia sexual. Através da
observação de infindáveis casos clínicos, ele reúne uma série de circunstâncias da vida sexual de
seus pacientes, em especial circunstâncias recentes.
Ali constata que, na imensa maioria dos casos, a angústia consistirá numa descarga aberrante,
desviada, da excitação sexual insatisfeita. A tendência “mecanicista-hidráulica” de se liberar a
energia bloqueada em sua satisfação leva à procura da descarga. Porém, se estiver fechado o acesso
às vias específicas, a tensão procura viabilidade em caminhos não específicos, o que resulta em
angústia, ou qualquer um de seus equivalentes.
Como se pode observar, a concepção econômica está no âmago desta teoria. Em Três
Ensaios Sobre a Sexualidade, Freud oferece uma definição já elevada ao nível de postulado: a
angústia é a conversão da libido não satisfeita. Numa nota de rodapé de 1920, acrescenta ele que
23
Quanto ao uso dos termos “angústia” e “ansiedade”, em nota do 1 tradutor brasileiro no início da Conferência n.°
XXV de 1916-17, (vol. XVI, p. 457-458) há um comentário elucidativo que dá à “ansiedade” uma conotação de referir-
se “. vivência de sofrimento.. . determinado... por um conflito interno.., designando, pois, o aspecto mental do
fenômeno...”, e o termo “angústia” designaria “... o aspecto global, abrangendo o componente psíquico, a ansiedade,
mais as manifestações somáticas decorrentes do estado de tensão e sofrimento internos.” Embora aceitando tal
distinção, mantivemos a expressão “angústia” não só porque a assimilação das citadas manifestações somáticas em nada
viria a prejudicar o sentido da palavra, como também para uma tentativa uniformizante de aproximá-la dos conceitos de
“neurose de angústia” e “histeria de angústia”, expressões já tornadas definitivas pelo uso.
essa ansiedade neurótica é um produto da libido, da mesma forma que o vinagre é um produto do
vinho.
Em 1917, nas “Conferências Introdutórias à Psicanálise”, Freud nos dá uma síntese muito
precisa de sua visão da angústia até esse momento. No Capítulo 25, que trata da ansiedade
(angústia) esta é descrita como um fenômeno corrente, não exclusivo da psicopatologia, ocorrendo,
por exemplo, diante da percepção de um perigo real. Essa reação ansiosa corresponde ao reflexo de
fuga e se enquadra, logicamente, dentro das pulsões de autoconservação.
A expressão Realangst-Neurotische Angst merece uma análise um pouco mais detalhada.
“Real” está como substantivo, não como adjetivo. Isto significa que o termo poderia também ser
traduzido como “angústia do real” ou “angústia perante o real”. Formulações um pouco mais
precisas fazem aparecer o termo como “angústia perante um perigo real”, opondo-o à “angústia
neurótica”, que é a angústia perante um perigo fantasiado ou interno, O que se quer dizer com
angústia substantivada é que ambas, a “real-real” e a neurótica, são reais.
A angústia real, como foi consignada, importantíssima para a posterior conceituação de
1926, é uma reação perante um perigo e, simultaneamente, uma preparação para o perigo, na
medida em que esse reflexo é uma adaptação evolutiva.

A) CONSIDERAÇÕES SOBRE A ANGÚSTIA REAL OU A REALIDADE DA ANGÚSTIA

Pelos parágrafos anteriores pode-se deduzir a objetividade oferecida pelo real, que
desencadeia esse reflexo de fuga perante um perigo.
Deveremos, porém, especificar melhor essa realidade da angústia. Existem estreitas
correlações entre o saber e o poder. Saber pouco sobre um determinado fato e, em conseqüência, ter
explicações sumamente fantasiosas com escassa correspondência à realidade do fenômeno, é fato
capaz de desencadear angústia. Daí a importância outorgada a instruir, preparar e informar o mais
adequadamente possível uma pessoa que esteja em vias de enfrentar um fato real externo, por
exemplo, uma intervenção cirúrgica, uma excursão à África, ou de percorrer lugares sabidamente
perigosos em determinados momentos. Paradoxalmente, o contrário também pode ser verdadeiro.
Saber demasiado sobre determinadas coisas e poder compará-las com os dados recolhidos na
realidade pode desencadear até pânico. Lembremos, por exemplo, a reação de Robinson Crusoé ao
encontrar na praia uma pegada humana. Ele acreditava estar sozinho e, por conhecer o sinal que
observava, inferiu rapidamente que na ilha existia pelo menos mais uma pessoa. Se ele não tivesse
sabido nada sobre pegadas ou coisas parecidas, é óbvio que nada lhe aconteceria.
São de capital importância as considerações que ligam o real aos afetos causadores de
desprazer desencadeados por efeito desse real. Na verdade, para poder fugir, o sujeito desenvolve
uma série de processos energéticos, que são efetivados pelos aparelhos musculares e
neurovegetativos, e que chamamos afeto24. E aqui temos duas situações polares. Freud considera
que a angústia real possui dois aspectos: um, de preparo para o perigo, desde que será suficiente um
desencadeamento mínimo de angústia para provocar as reações neurovegetativas necessárias à luta
ou à fuga. A isto se denominará sinal de angústia.
Por outro lado, um outro aspecto é irracional, e se constitui no que se chama
desenvolvimento da angústia. Como seu nome indica, esse é um processo que acaba
descontroladamente, difícil de dominar, e que também se conhece com o nome de ataque de
angústia, e que não é absolutamente adequado às situações de luta ou fuga.
O que desejamos sublinhar, acompanhando Laplanche (Laplanche, Jean — Problemática
Psicanalítica, Ed. Nueva Visión, Buenos Aires, 1979, p. 53), é um dado nem sempre bem
compreendido e de capital importância psicopatológica: que a angústia real tem um
desencadeamento objetivo, concreto e exterior, mas também tem um desenvolvimento patológico
incontrolado, irracional, podendo culminar num ataque ou numa reação de pânico. Isto leva-nos a

24
A palavra “afeto” não é aqui usada com o sentido que comumente lhe damos, de sentimento, afeição, mas sim o
sentido que Mac Lean em 1952 atribuiu às emoções, ou seja, todo o séquito de manifestações neuroendócrinas que
acompanham as reações emocionais dos organismos, como taquicardia, vasoconstrição, hiperpnéia, etc.
procurar motivações inconscientes que atuem como desencadeantes destes afetos: portanto,
subjacente a uma angústia real, na imensa maioria dos casos, encontra-se uma angústia neurótica.

B) SUSTO, ANGÚSTIA, ANSIEDADE E MEDO

Achamos oportuno explicitar, da melhor maneira possível, algumas distinções que têm valor
não só lingüístico mas também psicodinâmico.
Particularmente em 1920, em Além do Princípio do Prazer, Freud emprega três termos:
— Schreck: susto. E um termo simples, às vezes traduzido como terror ou pânico, sem
muitas “penumbras” de associações refere-se à aparição súbita de um estímulo inesperado, e a
qualidade de seu efeito é a surpresa.
— Angst: angústia. Em alemão, porém, significa também medo. Considera-se que é uma
vivência que causa desprazer, semelhante ao medo, mas que se diferencia dele porque este reclama
a presença de alguma coisa real para seu desencadeamento. É possível, por essas considerações,
que, sendo Angst tanto angústia quanto medo em alemão, a dificuldade para traduzi-lo em nossa
língua tenha provocado deslizamentos confusionais compreensíveis.
De acordo com um exemplo clássico, não é o mesmo ter medo de um terremoto que se
fantasia ou com que se tem sonhado do que sentir medo quando a terra está tremendo e as casas
desabando. No primeiro caso, dizemos que se trata de angústia, no segundo, de medo perante um
fato concreto. Mas estes estados se interpenetram, o medo podendo acabar em angústia, terror, ou
pânico.
Enquanto a angústia é um estado de expectativa, portanto, de preparo, o susto é um estado
inesperado e os acontecimentos adquirem qualidades traumáticas e dramáticas.
Para o medo, Freud reserva o termo Furcht.
Observar-se-á que a angústia serve sutilmente de preparo para o susto e portanto nos protege
dele, sendo que, em tal sentido, a angústia é imprescindível como mecanismo de defesa do aparelho
psíquico.
Sendo complementares as noções de susto e trauma, o desenvolvimento da angústia é um
preparo mínimo contra os fatores traumáticos.
O estado de não-preparação (susto) que vai permitir a irrupção violenta de reações dentro do
aparelho psíquico (trauma) desempenha importante papel. Em seus estudos com Breuer, Freud
explica o valioso conceito de que o próprio susto pode provocar um estado de dissociação ou
deslocamento de um grupo de representações que o sujeito terá dificuldade em reintegrar
posteriormente.
Reservamos o termo ansiedade, que é quase sempre usado como sinônimo de angústia, para
descrever um estado de expectativa consciente de um perigo, embora este não seja conhecido.
Observe-se que sublinhamos estado de expectativa perante uni???? perigo, e não perante um objeto,
ao passo que a angústia é uma sensação quando nada de concreto permite supor a existência do
perigo. Ansiedade é uma espécie de preparação mental para esse perigo, existindo alguns elementos
que o tornam uma possibilidade.
Finalmente, devemos deixar claro que a palavra angústia tem sua origem no grego Anxius
ou Angor, significando aperto, estrangulamento, impossibilidade de respirar. A etimologia exprime
os habituais acompanhamentos neurovegetativos do sentimento desagradável que é a angústia.
2. SEGUNDA TEORIA DA ANGÚSTIA

Tal como antecipáramos, em 1926 Freud publicou seu trabalho inibições, Sintomas e
Ansiedade, que servirá como apresentação de uma reformulação da Primeira Teoria.
É preciso dizer que o Complexo de Castração é uma noção elaborada entre 1908 e 1924, e
imprescindível para a compreensão da Segunda Teoria da Angústia (ver p. 61 e segs.).
Lembremos muito brevemente que o Complexo de Castração e as ansiedades a ele ligadas
aparecem contemporaneamente a uma resposta à curiosidade sexual infantil. É uma teoria
explicativa da diferença sexual anatômica. Trata-se, na feliz expressão de Laplanche, de um
“problema de origem. E como os problemas de origem só encontram sua resposta em mitos, a
castração é tanto uma teoria como um mito”. (Laplanche, J. — op. cit., p. 153.)
O Complexo de Castração fala das diferenças, tanto de mais como de menos, ou seja, de
presença e ausência. O sujeito, então, pelo resto de sua vida, fantasiará mitologicamente, a partir de
sua realidade anatômica, que se aconteceu um “cerceamento”, haverá a possibilidade de que ele
volte a se produzir. Será sempre uma ameaça que salienta a diferença sexual anatômica e, portanto,
o comércio do intercâmbio, uma dialética de trocas, numa desesperada tentativa de recapturar a
fusão inicial.
Este último conceito remete necessariamente ao narcisismo, já que para Freud a criança
acredita na existência de um único sexo: a primazia do falo. (Freud, S. — A Organização Genital
infantil: lima interpolação na Teoria da Sexualidade, Standard Brasileira, vol. XIX, p. 179.)
Lembremos aqui que no menino, ao contrário da menina, o Complexo de Castração coroa o
final do Complexo de Edipo..
O Complexo de Castração é a expressão fantasiada da proibição de se ligar sexualmente à
mãe. Por isso, é o veículo do que se chama A Lei do Pai. Porém, esta lei ou regulamento
fundamental proíbe a mãe, mas não proíbe todas as outras mulheres, pelo contrário, possibilita-as.
Como isto é uma fantasia, as possibilidades de combinação são muitas e variadas, podendo se
estender a proibição desde a mãe até qualquer mulher, sendo transposta a esta o mesmo modelo de
vinculação à mãe.
No caso da menina, ao contrário do menino, o Complexo de Castração vem antes,
inaugurando o Complexo de Édipo. Com efeito, a menina comprova, por comparação com o
menino, que carece de pênis e, portanto, reclama-o de sua mãe, reclamação esta que se apóia sobre
a trilha de perdas anteriores:
útero, peito, fezes. Como a decepção em relação à mãe é inevitável, em meio a um agudo conflito
com ela a menina se dirige ao pai para obter deste o pênis almejado. A menina reclama
simbolicamente uma criança (deseja ter um filho com o pai, obtido como um presente que lhe
corresponde).

A) A IMPORTÂNCIA DO COMPLEXO DE CASTRAÇÃO NA SEGUNDA TEORIA DA


ANGÚSTIA

Como deve ter-se observado, em decorrência de complicações clínicas o problema da


angústia havia se tornado um problema teórico. Realmente, o desenvolvimento da estrutura do
Complexo de Édipo leva Freud a estudá-la profundamente, encontrando nele um conjunto de
subestruturas composto de funções e afetos.
Como antecipamos (ver p. 157), antes da perda fantasiada do pênis o sujeito teve outras
perdas, no registro real-concreto. A primeira delas, motivo de acirrada polêmica com Otto Rank, é a
perda do útero no ato do nascimento. O chamado trauma do nascimento é uma experiência
dolorosa, que marca a passagem de um estado aquoso a outro aéreo e, sob o ponto de vista
psicofisiológico, manifesta-se por uma profunda inundação excitatória dos aparelhos
neurovegetativos e musculares.
A experiência do desmame é a segunda grande perda que o sujeito deverá enfrentar,
acompanhada dos afetos-angústias correspondentes (ver p. 37). Será preciso lembrar que o
desmame é um processo rítmico que consiste numa série de perdas sucessivas, não só do peito em
si, mas também de todo um conjunto de experiências córporo-afetivas que são componentes
necessárias do ato de mamar.
Na fase seguinte, anal, a perda de fezes (ver p. 45) será codificada pela criança como uma
angústia de separação ou renúncia, ao mesmo tempo que se exercitam muscularmente os controles
desta ansiedade. Freud expõe que um dos elementos possíveis da angústia de separação do pênis
(castração) é o julgamento de que ele é “separável” do próprio corpo, experiência que a criança
teve, cotidianamente, na fase anal.
O leitor terá percebido que todos os objetos precursores da castração são parciais em
relação, é claro, ao resto do corpo. Estes elementos parciais, juntamente com as fantasias e perigos
conseqüentes, Freud tentará articular em inibições, Sintomas e Ansiedade (S. B., vol. XX, p. 107;
1926).

B) INIBIÇÃO, SINTOMA E ANGÚSTIA

Angústia Automática

Com este termo, Freud designa a reação do indivíduo ao se encontrar perante um afluxo de
excitações que não consegue dominar. Evidentemente, este modelo é tirado do estado de
desarvoramento em que se encontra o recém-nascido. Portanto, a angústia automática reconhece
como modelo o trauma do nascimento.
Os conteúdos desta angústia são da ordem das pulsões de autoconservação, onde “a
realidade está em seu ponto máximo e o perigo é hiper-real (é, sem dúvida, o mais real que pode
existir, já que, em verdade, se trata de sobreviver ou não)”. (Laplanche, J. — Problemática
Psicoanalítica. Ed. Nueva Visión, Buenos Aires, 1979, p. 164, grifado no original.)
O leitor deverá fazer um esforço imaginativo: o perigo não é percebido como tal, a rigor o
Ego é sumamente primitivo, se é que existe Ego (nesta idade) e não há aparelho para perceber um
perigo. Tudo o que o observador, de fora, vê, e portanto considera, são movimentos corporais
desordenados (espernear, gritos, choros, descarga de secreções, etc.).
Tem-se especulado muito sobre se o bebê “sente” ou não a angústia, o perigo e a separação.
Segundo Freud, em seu famoso texto de 1926, diremos que o único fato que o recém-nascido pode
talvez reconhecer é alguma coisa que o violenta em seu equilíbrio, até esse momento, estável. Mas
isso não é suficiente para catalogá-lo como situação perigosa, é uma reação, o neném ainda não tem
condições de poder nomeá-lo, carece do elemento fônico fundamental e significante que, por
comparação com outros, lhe outorgará capacidade para distinguir o que é uma e o que não é uma
situação de perigo.
“O nascimento será um protótipo, isso sim, (um modelo) de todas as posteriores situações de
perigo.” (Standard Brasileira, vol. XX, p. 186.) Os afetos ligados a essa situação iniciai se
reproduzem automaticamente em situações análogas. Mas, sendo automática, essa reprodução vem
a ser uma forma inadequada de reação.
Desejamos salientar que a estrutura de separação e tudo
que é angústia estão presentes (como consciência) nos adultos que rodeiam a criança que,
posteriormente, aprenderá que “aquilo” (o espernear, os gritos) tem o nome de angústia.
Os afetos ligados à fase oral e os perigos aos quais a criança está exposta encontram-se já
vinculados a fantasias que em parte lembram os problemas de vida ou morte, decorrentes da
presença ou ausência do elemento líquido material que possibilita a vida: o leite. Ë, porém, um
abuso falar de castração ao se referir à perda do peito em cada ato de amamentação. No máximo, a
criança sente abandono do peito e suas fantasias e ansiedades estão, necessariamente, codificadas
pelo ato: a criança se sente “comida”, “chupada”, “sugada”, assim como, simultaneamente,
“comendo”, “chupando” ou “sugando”. O objeto é parcial, mas a criança não sabe disso, ela o sente
como total.
Durante a fase anal (e lembremos uma vez mais que só se entra nessa etapa depois de se ter
percorrido a etapa precedente) acontece também uma separação de uma parte do corpo. Desta vez,
não do peito e sim de fezes. Observe-se a diferença: na fase oral, o objeto que se perde está “fora”, é
alheio, não pertence ao corpo real-concreto do sujeito e a criança está (radicalizando a situação) à
mercê dele. Já na fase anal, o objeto pertence ao próprio corpo real e a retenção, domínio e
oportunidade de expulsão serão dados de acordo com as significações que o meio social irá lhes
outorgando. E estas significações, dependentes de uma complicada série de atos sociais, vão
adquirindo cada vez mais importância.
Finalmente, ao nível fálico-genital, a ansiedade tem como tema também a perda, porém —
observe-se a diferença — não haverá nada real-concreto que se perca, como nas fases anteriores, e
aqui a significação é tudo. Eis aqui o que se chama o nível simbólico. O sujeito teme perder uma
coisa que nunca sentiu, nem viu perder, e esse medo se apóia necessariamente nas perdas que sentiu
perder corporalmente antes.

“Angústia-Sinal” ou o Sinal de Angústia

Freud tomará um processo de desenvolvimento teórico a partir da angústia automática como


protótipo de reações a perigos ulteriores, para desenvolver um elemento essencial em sua teoria da
angústia: angústia-sinal.
Reconhecemos, então, que o afeto angústia é uma reação geral a um perigo e que essa
angústia está localizada no Ego, já que só ele pode experimentar esse afeto desagradável.25
Mas a raiz da importância crescente que o Complexo de Castração adquire para Freud é a
constatação de que a angústia é desencadeada por uma ameaça. E, conforme vimos no final do item
anterior, esta ameaça não é real-concreta: é principalmente uma significação.
O pulo teórico de Freud e sua conseqüência se fazem sentir: a angústia não é provocada pelo
acúmulo de energia pulsional. Muito pelo contrário, são as séries de significações desencadeadas da
angústia (angústia de castração) que provocam a repressão (recalque).
Aparece, desse modo, o conceito de sinal de desprazer, ou seja, uma espécie de dispositivo sediado
no Ego e posto em ação por ele perante uma situação de perigo, cuja finalidade é evitar que
aconteça o que sucede com a angústia-automática: o transbordamento e a inutilização do aparelho
psíquico por uma “avalancha” de angústia, com todas as suas conseqüências neurovegetativas e
paralisantes.
Veja-se que a noção de sinal de angústia tem todas as características de uma atividade
significativa ou, se preferirmos, simbólica. Inclusive, é preferível a nomeação atividade simbólica,
porque não existe relação entre o desprazer desencadeado e o perigo que leva a ele.
Mais ainda: há uma espécie de polissemia da situação perigosa, já que os perigos temidos se
remetem uns aos outros, formando uma rede onde o sujeito fica preso. (Green, A. — La Concepción
Psicoanalítica dei Afecto, Siglo Veintiuno Ed., Buenos Aires, 1975.)
Observe-se, então, em toda a sua dimensão, a importância do medo da perda do objeto pênis
(Complexo de Castração), medo da perda que se inscreve num plano não-real-concreto. Como
agora é o universo de significações quem vai “dizer” o que é perda e o que não é, que parte do
corpo se perde e que importância com sua respectiva fantasia tem essa. perda, todas as fases pré-
genitais ficarão ressignificadas por essa angústia específica.
Uma outra conseqüência desta reformulação teórica, e de relevante importância clínica, é
que há perigos diferentes para diferentes fases da evolução libidinal, como deixamos entrever
anteriormente. No fundo de todas elas existe o perigo de abandono total, mas, nas fases adultas,
qualquer elemento ameaçador está sempre ligado à perda de alguma coisa hipercarregada
narcisicamente e cujo modelo ou protótipo é o pênis (Complexo de Castração).
Seguindo o esquema de Green, no caso da angústia automática, ela parece responder a uma
manifestação do Id, que invade e alarga as possibilidades de contenção do Ego e cuja conseqüência
clínica é o pânico, o desespero, a impotência, o abandono.
No caso da angústia-sinal, esta funciona como um alarme e a instância posta em jogo é o
Ego, que, aqui sim, pode controlar a situação.
A angústia-sinal é responsável pelo início de todas as operações defensivas contra a invasão
pulsional do Id. Neste caso, os mecanismos de defesa, quaisquer que sejam, cumprem uma
atividade simbólica operativa, a serviço da adaptação ao meio, com a finalidade de modificá-lo.
O leitor não se deverá deixar enganar pelas metáforas; não existe uma angústia do Ego e
uma angústia do Id. Toda angústia se dá no Ego, mas, como é lógico, provém do Id. O que a
25
Tal como vimos no capítulo correspondente (ver p. 87), o Ego, no Segundo Tópico, adquire relevante importância,
obrigando a reformular quase todos os aspectos da teoria, incluindo logicamente a angústia.
angústia-automática faz é apagar, violentamente, as diferenças entre as instâncias e, também, entre o
interno e o externo. O Ego, aí, desaparece (no sentido de perda de autonomia) e o aparelho volta a
seu primitivo mecanismo: ser um aparelho de reflexos.
No caso da angústia-sinal, é como se o Ego usasse pequenas quantidades de energia
pulsional para se “vacinar” e mobilizar as defesas.
Essas pequenas quantidades de energia são o que possibilitará o aparecimento das funções
judicativas superiores: o pensamento.

CAPITULO VI
Sonhos, fantasias e função imaginária26

SONHOS

A rigor, a ciência psicanalítica começou sendo uma ciência onírica. É o estudo dos sonhos
que marca o que se conhece com o nome de ruptura epistemológica freudiana e, embora muito se
tenha escrito e teorizado a esse respeito, quem deseja aprender alguma coisa sobre o que se
denomina “registro imaginário” terá que mergulhar na clássica obra de 1900.
O sonho é, em primeiro lugar, uma necessidade fisiológica e, fenomenologicamente,
constata-se com facilidade que é uma que se produz quando o sujeito está completamente afastado
do mundo exterior.
Vamos conhecer o conteúdo do sonho pela comunicação que aquele que sonha fará para seu
circunstancial interlocutor. Observando minuciosamente os parágrafos acima, veremos que o estudo
dos sonhos foi e é importante como estudo do narcisismo (afastamento do mundo exterior), como
conhecimento “puro” da produção mental, como modelo da estrutura de um sintoma e, portanto,
como abordagem válida ao estudo das neuroses. Sendo uma atividade normal, nos proporciona uma
oportunidade de estudo da ritmicidade com que o Ego se aproxima e se afasta do mundo exterior. O
sonho é uma produção inconsciente (o sujeito dorme), porém, temos também sonhos acordados: são
os devaneios e os delírios, cuja correspondência estrutural com a atividade onírica é quase total.
“Interpretar significa achar um sentido oculto em algo.” (Freud, S. — Standard Brasileira,
vol. XV, 1916, p. 109.)
É esta será a intenção que levará Freud a encontrar esse “algo” depois de interpretar os
sonhos. Esse “algo” será a Teoria do Inconsciente.
Fenomenologicamente, há sonhos muito curtos, com uma só imagem, e outros muito
compridos, que abrangem enormes experiências internas. Alguns são nítidos e reproduzem quase
fielmente a experiência diurna, como acontece com os sonhos das crianças. E outros — a maioria
— são obscuros e incompreensíveis. Há sonhos em que nos vemos como frios espectadores, e
outros em que se expressam profundos sentimentos de ansiedade que são capazes de nos fazer
acordar (pesadelos). Normalmente, um ser humano sonha todas as noites, e sua produção é
variável nas diferentes horas em que se estende seu sono. Porém, uma destacada característica é o
esquecimento fácil da produção onírica. Há pessoas que só excepcionalmente se lembram de algum
fragmento e outras que são capazes de lembrar até pequenos detalhes.
Abandonando a fenomenologia, diremos que uma das importantes descobertas de Freud é
mostrar que o sonho é o guarditio do dormir. Realmente, graças a esse “sintoma natural”, o sujeito
consegue continuar dormindo. E esta é uma experiência subjetiva do sonhador que, no momento em
que é comunicada, se torna intersubjetiva.
Freud constata um conflito entre desejos: o desejo de dormir e o desejo proveniente do inconsciente,
que luta por emergir. De fato, a que se referem os conteúdos de desejo de um sonho? A dois níveis

26
Foram utilizados, na elaboração deste capítulo, a Interpretação dos Sonhos, partes 1 e 2, 1900, vol. IV e V da Ed.
Standard Brasileira; Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise, 1916, vol. XV, parte II Laplanche, J. & Pontalis, 1.
B., Fantasme Originaire, Fanrasmes des Origines, Origine du Fantasme, Les Temps Modernes n.° 25, Paris, 1964;
Pontalis, J. B., Entre le Rêve er la Douleur, Gallimard, Paris, 1977; Godino Cabas, A., Curso y Discurso de la Obra de
1. Lacan, Ed. Helguero, Buenos Aires, 1977.
de experiências: a primeira delas, às circunstâncias externas do mesmo dia ou dos dias anteriores, e
a segunda, às circunstâncias profundas infantis.
Explicado de forma simples, um sonho é formado pela confluência destas duas direções: a atual,
que se chama “o resto diurno”, e a inconsciente infantil. Na ilustrativa metáfora freudiana, o desejo
inconsciente é como o capitalista do sonho, é quem proporciona a energia principal para construí-lo
(pulsão) e o “resto diurno” é o sócio industrial, só tem importância na medida em que oferece ao
desejo inconsciente um transporte para sua veiculação.
O sonho é uma realização alucinatória de desejos. Esta fórmula geral é sumamente
importante porque mostra duas coisas de alta significação: primeiro, que um desejo não se satisfaz
nunca, só se realiza alucinatoriamente; segundo, que a natureza onírica nos faz entrar em outros
produtos mentais intimamente vinculados a ela, as fantasias, os devaneios, o imaginário.
E se um sonho, como Freud exaustivamente demonstrou, tem um sentido oculto, também o
tem uma fantasia, um devaneio, um delírio. “Os devaneios são fantasias (produtos da imaginação);
são fenômenos muito generalizados, observáveis mais uma vez tanto nas pessoas sadias quanto nas
doentes, e são facilmente acessíveis ao estudo em nossa própria mente (.. .). Nelas não
experimentamos nem alucinamos algo, mas imaginamos alguma coisa, sabemos que estamos tendo
uma fantasia, não vemos mas pensamos.” (Freud, S. — Op. cit., vol. XV, p. 122.)
Assim, tanto sonhos quanto devaneios e fantasias serão uma solução de compromisso entre
os desejos infantis, que durante a noite encontram a censura mais relaxada, e os restos desta, que
não deixam de existir, mesmo se relaxada.
Desta maneira se efetua o trabalho onírico, que é toda uma produção psíquica que
transformará a matéria-prima desejante no produto final que será o sonho relatado a outro. O
trabalho onírico consistirá, então, na transformação das representações inconscientes, inaceitáveis
para a parte consciente do Ego, em outras representações que servirão de disfarces ocultadores das
representações originai. Isto é o que se chama a codificação do sonho. Interpretar um sonho será
decodificá-lo, voltar a encontrar aquele conjunto representacional oculto, descobrindo assim a rede
de sua organização interna.27
Como se vê, o sonho, como um sintoma, é uma deformação, e essa deformação é a que
interfere em nossa possibilidade de compreendê-lo, pelo menos diretamente. Todo sonho (a rigor,
toda produção mental), “. . . resulta de uma atividade censora dirigida contra inaceitáveis impulsos
plenos de desejo inconsciente” (Freud, S. — Op. cit., vol. XV, p. 179).
O sonho se produz por ação fundamental de dois mecanismos, o deslocamento e a
condensação.
O deslocamento (Verschiebung) consiste em transferir o acento, o interesse, em última
instância a energia de uma representação muito carregada, a outra ou outras. Ver-se-á que é o
fenômeno fundamental da substituição e também faz parte da estrutura de qualquer sintoma.
Uma característica importante é que o deslocamento ou substituição não anula o substituído,
e sim o integra numa cadeia associativa. Freud se refere ao deslocamento como uma alusão e,
portanto, este é o principal efeito pelo qual um determinado conteúdo parece descentrado e
estranho.
O segundo mecanismo é a condensação (Verdichtung), que seria o corolário do
deslocamento. Uma representação única concentra em si várias cadeias associativas produzidas por
deslocamento. Para sermos mais gráficos, a condensação é o resultado, e o deslocamento, a “causa”.
A condensação é responsável pelo sintético, pelo pouco expressivo que resulta o conteúdo
manifesto de um sonho ou a expressão consciente de um sintoma, em comparação com o que ele
oculta. É como se fosse uma tradução abreviada; entretanto, a condensação não é um simples
resumo, já que cada elemento que o compõe é produto final de outras complexas redes associativas.
Um sonho é uma articulação de várias estruturas condensadas, embora em seu relato possa parecer
simples.

27
Há uma certa diferença terminológica entre “decifrar” e “decodificar”. Decifra-se, por exemplo, um hieróglifo,
porque se constrói simultaneamente no código no ato de decifrar. Já decodificar supõe a pré-existência de um código.
Modernamente, e através da lingüística, o deslocamento se conhece com o nome de
metonímia, e a condensação como metáfora.
O próximo mecanismo a ser examinado é a representação verbal plástica, ou seja, a
transformação das idéias em imagens visuais. Este é o terceiro mecanismo, que consiste em
transformar o pensamento em imagens. Em outras palavras, um sonho é um pensamento que se vê.
E de fato, qualquer fantasia, qualquer devaneio e, de modo geral, todo o nível do imaginário,
terá ligação com a hierarquia do visual, situando-se a imagem como o âmago do problema.
Essa transformação do pensamento em uma produção visual lembra, segundo Freud, o
aspecto arcaico da linguagem, já que, no início, ontogenética e talvez filogeneticamente, as palavras
não eram palavras e sim a “coisa” concreta. A abstração é uma aquisição sempre posterior. Por isso
deveremos encarar esse imaginário comércio onírico também como uma linguagem, onde, de forma
similar às origens das línguas, uma mesma palavra ou uma mesma imagem pode ter significados
muito diversos e até antitéticos.
Freud ilustra essa transformação regressiva entre o pensamento e a imagem como uma
substituição semelhante à troca de um editorial político num jornal qualquer por uma série de
ilustrações (Freud, S. — Standard Brasileira, vol. XV, p. 209).
Poder-se-á observar aí um retrocesso da escrita alfabética para a escrita pictográfica. Não
haverá maior dificuldade na transformação de pessoas ou objetos concretos, mas os obstáculos mais
importantes serão a “pictografia” das palavras abstratas e de todos aqueles componentes do discurso
indicando relações entre pensamentos.
Assim, por exemplo, aparecerão pintados enunciados diferentes do original, com fortes
componentes concretos, e aí então nos lembraríamos que a maioria das palavras abstratas “são
palavras concretas ‘diluídas’ e, por essa razão, teríamos que retroceder, sempre que possível, à
significação concreta original de tais palavras”.
Por exemplo, para expressar oniricamente a idéia de posse o trabalho onírico pode nos
mostrar uma pessoa sentada numa cadeira. Um outro exemplo: para traduzir em imagens o adultério
(literalmente, quebra do vínculo matrimonial), o sonho o substitui pela visão de uma outra quebra,
talvez de uma perna.
Como se pode observar — com finalidade exclusivamente pedagógica — a substituição é
quase um trabalho de sinonímia. E essa sinonímia faz-se sobre o trilho da similitude ou da analogia,
ou pela contigüidade espacial em que a representação se apresenta. A representação onírica não
deixa de ser uma imitação.
Chega-se à conclusão de que a elaboração onírica é a transformação da palavra em imagem.
Ao mesmo tempo, refletimos em sentido inverso: na origem de nossa vida, não tínhamos
pensamentos, só possuíamos imagens sensoriais, matéria-prima oferecida pelas impressões dos
sentidos, ou, para sermos mais precisos, pelas representações ou traços mnêmicos dessas
impressões. Foi mais tarde que a palavra ouvida veio se soldar a essa representação sensorial.
Sonhar é portanto regredir, implicando isso uma eliminação parcial do que foi acrescido
“como aquisição nova no decorrer da evolução das imagens mnêmicas para pensamentos”
(Standard Brasileira, vol. XV, p. 216).
O quarto e importante mecanismo do trabalho onírico é a chamada elaboração secundária,
também denominada “tomada em consideração da inteligibilidade”.
É fácil inferir que, uma vez desmontados os mecanismos do pensamento em vigília, através
de deslocamentos e condensações, e feitas a “arrumação” e as montagens de tradução em imagens
plásticas, o sonho terá agora que se apresentar como um todo coerente e compreensível.
Deste modo, a censura (que, lembramos, não foi totalmente abolida) e os elementos
conscientes, assim como o Superego, serão os responsáveis por esta condição de apresentabilidade.
A elaboração secundária abrange também as modificações e transformações sofridas pelo produto
onírico quando este é relatado, e até quando parcial ou totalmente esquecido.
“A elaboração onírica é um processo de tipo muito singular, do qual ainda não se tem conhecido
similar na vida mental. Condensações, deslocamentos, transformações regressivas de pensamentos
em imagens. . . (. . .) .. . a partir das comparações com a elaboração onírica, as conexões que se
revelaram entre os estudos psicanalíticos e outros campos do conhecimento especialmente os
referentes à evolução da linguagem e do pensamento. Somente poderemos formar uma idéia da
transcendente importância destas descobertas quando aprendermos que o mecanismo da construção
onírica é o modelo segundo o qual se formam os sintomas neuróticos.” (Standard Brasileira, vol.
XV, p. 218.)

FANTASIAS, DEVANEIOS, NÍVEL IMAGINÁRIO

O parágrafo anterior exprime exatamente a grande semelhança existente entre o sonho e o


sonho diurno (fantasias e devaneios). A função principal de um sonho é a de ser lembramos — o
guardião do dormir. Guardião de quê, é um sonho diurno?
O que sabemos até agora é que ele procura fornecer ao sujeito uma satisfação independente da
realidade exterior.
Da mesma maneira que um sonho, a fantasia tira seus conteúdos da história infantil do
sujeito e seus mecanismos são exatamente iguais aos de um sonho: deslocamento, condensação e
representação visual. Porém, fenomenologicamente, a elaboração secundária, o conjunto de
disfarces com que ela se apresenta, é bem maior. Não resta a menor dúvida de que muitos sonhos
diurnos (fantasias) são uma mera continuação do sonho noturno, e vice-versa.
A essa altura, deveremos lembrar ao leitor que, assim como um sonho é formado por uma
parte consciente (o sócio industrial) e uma parte inconsciente (o sócio capitalista), a fantasia tem o
mesmo modelo, sendo que aqui o capital adquire uma importância extrema.
Com efeito, a fantasia, às vezes também chamada de fantasma, é uma cenarização
imaginária que representa, deformada, a realização de um desejo. E esse desejo é inconsciente. Fica
claro, então, que o desejo é o motor dessa atividade.
Quem diz fantasia, diz também uma série de conceitos a ela ligados, que sobrecarregam sua
denominação, transformando-a num elemento de inigualável riqueza teórica e clínica. Assim, por
exemplo, fantasia designa imaginação e imaginação leva à imagem, ao visual, à ilusão, à
alucinação, ao sonho, ao delírio, à representação (imaginária), à percepção, à realidade, à ficção, à
verdade e ao mito.
O leitor, nessa necessária e breve síntese, toma contato com uma série bastante abrangente
de problemas, que ocupou e ocupa a psicanálise contemporânea, assim como a lingüística, a
semiótica e a antropologia.
Para explicar metapsicologicamente o conceito de fantasia, recorreremos ao modelo do
desejo, ao qual está intimamente vinculado.
No capítulo referente ao Modelo Dinâmico (ver p. 139), dizíamos que uma pulsão tem uma
fonte, uma meta ou finalidade, uma pressão e um objeto. O tema da fantasia começa a partir daqui.
A pulsão é um conceito predominantemente psicológico (Trieb) e, antes de estar a serviço do
nível psicológico, era instinto (Instinkt), ou seja, uma força que se encontra no nível biológico. A
problemática será: como transformar a matéria instintual biológica em psicológica?
Aqui se introduz o conceito de “necessidade”. A “necessidade” é um estado de tensão
interna que requer uma ação específica para a obtenção de um objeto específico. Por exemplo,
necessidade de água, ou necessidade de leite (e só de leite) para o recém-nascido. Dirige-se este
instinto a um objeto e só com ele se satisfaz. Ver-se-á então que o objeto desse instinto, que é
necessitado, está inscrito na história filogenética e se encontra — repetimos — no nível biológico
(sendo difícil estudar-se seu domínio, que é matéria dos biólogos, dos etólogos, dos físico-químicos
e, até certo ponto, de alguns ramos da ciência médica). Teoricamente, o neném, ao nascer, uma
única vez tem necessidade “pura”: a primeira vez. Depois de haver mamado, e tendo se acalmado
como resultado da ação específica (o ato de mamar) e da incorporação do objeto específico (o leite),
na segunda vez em que sentir renovadas as tensões biológicas (fome) já possuirá dentro de si uma
marca, uma representação da satisfação da necessidade. Agora, portanto, ele se dirige ao mundo
exterior demandando a reaparição do objeto primeiro.
Como facilmente se compreenderá, esse objeto primeiro nãO reaparecerá, não só porque não
é o mesmo em si, mas principalmente pela transformação que lhe foi imposta pela experiência
organizada dentro do neném.
Mas quem é o encarregado de fornecer a matéria-prima, o leite? Um outro ser humano,
adulto. Isto significa que o sujeito psicológico se organiza por um encontro entre a biologia e a
cultura. O desejo — precisamente — será essa tensão, apoiado na necessidade, que deseja igualar
uma ou mais experiências anteriores mas que, por ser desejo, está fadada a nunca ser alcançada.
Como se pode observar, o conceito de desejo implica o conceito de pulsão. Dirigindo-se a
pulsão a um objeto, a pergunta que cabe é: este objeto, o que é?
Sabíamos que, no caso da necessidade, o objeto era específico. Já no desejo, não o é, há uma
modificação do objeto, requer leite e alguma coisa a mais. Essa coisa a mais é uma representação,
uma imagem daquilo que foi e que se deseja possuir agora.
Vejam-se então articulados dois conceitos fundamentais que correspondem à biologia
(instinto/necessidade) e à psicologia (pulsão/desejo). Mas, na descrição anterior, vimos também o
conceito de objeto. Esse objeto, para o instinto, será aquele elemento específico que satisfará essa
tensão. Já para a pulsão, o objeto não é específico, será uma qualidade ou um conjunto delas que,
como imagens, acompanharão o objeto concreto. Por isso, Lacan introduz a especificidade do
desejo humano na procura de um Outro semelhante.
Sob o ponto de vista do instinto, o sujeito está à espera do objeto (peito, leite, por exemplo),
ou seja, o instinto busca, procura objetos para satisfazer sua necessidade. Em troca disso, e sob a
perspectiva do desejo, o objeto, o Outro semelhante a ele, espera o sujeito. Desta maneira, existirá
uma importante acentuação na psicanálise contemporânea quanto à relação estabelecida entre um
aparelho psíquico, com necessidade e desejos, e outro aparelho psíquico, também com necessidade
e desejos.
Vemos, assim, que o conceito de pulsão é um conceito-limite. Limite entre o biológico (que
se constitui como fonte) e o psíquico (que se constitui como seu destino ou meta).
Como o destino psicológico de uma pulsão será encontrar sua satisfação num semelhante,
num igual, num outro ser humano deveremos observar que o destino de uma pulsão é construir uma
ou mais séries de identificações, e estas identificações serão os “tijolos” constituintes do Ego.

A esta altura, deveremos lembrar que, para que a pulsão se constitua em identificação,
deverá se “apoiar” (anáclise) no objeto concreto procurado pelo instinto.
Assim, a identificação constitui-se num elemento articulador que une a pulsão ao objeto
concreto. A catéxia será a energia que sustentará essa articulação e que, em definitivo, “vem a ser a
peculiar ligação que a identificação estabelece com o “objeto” (concreto).

Finalmente, a fantasia é, na feliz definição de Godino Cabas (op. Cit., p. 14), “a expressão
ou superestrutura da peculiar relação estabelecida entre identificação e objeto.” (fig. 16)

Ou seja, a fantasia, compreende-se agora, é aquele famoso corolário mental de um instinto,


como aparece nas clássicas descrições de Melanie Klein e Paula Heiman.
Assim, por exemplo, aplicando o esquema anteriormente citado, diremos que o sujeito sente
uma certa tensão interior que reconhece como fome, cuja origem é totalmente biológica. No nível
psicológico, esta energia pulsional começa a circular num mundo de identificações (de velhas
tensões com pedaços de sua mãe ou de seu pai, infinitas maneiras de lhe serem satisfeitas tensões
análogas, etc.). A partir dessa(s) identificação(ões), o sujeito se dirige ao mundo para satisfazer
concreta- mente sua tensão de fome.
Porém, a maneira singular, distinta, como vai satisfazer essa tensão, expressará as fantasias
que nele habitam e que determinarão o encontro com o objeto. Observe-se que no encontro com
esse objeto o sujeito descarregará o instinto — ou seja, a fome pura, o necessário para a vida das
células — mas a maneira pela qual ele se aproxima ou se afasta, ou as diversas modalidades de
conduta que organiza em volta desse objeto concreto, serão de responsabilidade da fantasia.
Em outro exemplo, podemos dizer que a pulsão genital, originada em fonte biológica, irá
requerer um objeto genital para sua satisfação (descarga). Existe, porém, a possibilidade eventual de
que essa pulsão carregue, dentro do aparelho psíquico, identificações de diferentes níveis, inclusive
do nível oral. A conseqüência será que o sujeito, fortemente carregado de fantasias orais, se dirigirá
a um objeto concreto para satisfazer originaria- mente necessidades biológicas genitais.
Este simples fragmento pode ser extrapolado a qualquer exemplo clínico. Será necessário
definir, para cada situação, as pulsões, as identificações e os objetos que entram em jogo. A fantasia
será o elemento que reúne a dialética entre estes três elementos.
Por isto, uma fantasia é uma cenarização onde sempre se encontra o sujeito aparecendo em
diversas formas de identificação, procurando sempre um Outro semelhante, Outro que vai satisfazer
o concreto que pode dar, e a imagem, essa série de qualidades que farão com que esse Outro seja
um id-êntico, um semelhante a ele.
Veja-se, então, a estreita união existente entre a fantasia que nos vincula aos Outros, que são
semelhantes a nós, e a imagem.
Porque, quando falamos de imagem, falamos do efeito dessa imagem que, necessariamente,
é ilusório.
Voltemos ao ponto de partida: vinculamo-nos aos outros mediante fantasias, que são
imagens, que são relativas a nós mesmos e que produzem uma ilusão. Aqui está contida toda a
conceituação e terminologia da psicanálise contemporânea, fortemente influenciada por Lacan.
Falando de fantasias, fala-se da ilusão e, pela ilusão, conhecemos os semelhantes a nós. E, se
são semelhantes, são idênticos (problema da identificação). E, se são idênticos, os Outros não são
diferentes. Portanto, nós nos reencontramos com e nos Outros.
Apenas duas palavras para esboçar o tema do chamado “Registro do Imaginário” e “Registro
Simbólico”.
Como foi dito, a fantasia é uma cena imaginária onde o sujeito, a própria pessoa, aparece
disfarçado sob diversas formas (como se fosse um sonho). Chama-se Registro Imaginário quando a
fantasia e a imagem nela contida se relacionam com a imagem de um semelhante. Ou seja, é uma
função exercida pela imagem em relação à imagem do Outro.
Este é, como facilmente se deduz, um simples processo de igualação, em que se tenta definir
um Outro mediante a incorporação (identificação) de determinado atributo ou predicado
característico.
Essa é a essência do desejo humano: constituir-se à imagem e semelhança do Outro. Por este
simples processo, resulta indistinto, especialmente durante um tratamento psicanalítico, falar de si
próprio ou falar dos outros.
Resta esclarecer, de forma muito sintética, que quando se diz Registro Imaginário não há
nisto nada de concreto. Referimo-nos somente a uma função. E aqui deveremos dizer que qualquer
fantasia opera com duas funções simultâneas: uma, a que acabamos de examinar, a função
imaginária, isto é, sua capacidade de produzir efeitos de ilusão (de semelhança) e outra, a função
simbólica, ou seja, função de revelação ou denúncia, de divulgação (de que não é semelhante). Este
nível simbólico é o que nos mostra para que serve a fantasia. Por oposição ao nível imaginário, o
nível simbólico mostra que o sujeito não é igual a um semelhante, e que está incluído numa história
antiqüíssima, e que a circunstância particular só faz isso, particularizá-la.
Enquanto a função imaginária diz ao sujeito que o Outro é uma ilusão, a função simbólica
subverte isto, denuncia que tanto esse sujeito quanto Outro estão incluídos em leis universais que
nos governam: o desenvolvimento psicossexual, o Complexo de Édipo, etc. E estas leis universais,
que falam do Registro Simbólico, não só não pertencem ao indivíduo, como também são de
domínio social. Assim, o Registro Imaginário, se refere à ilusão, imagem, Outro. O Registro
Simbólico refere-se, em primeiríssimo lugar, à noção de cultura e ao ordenamento social. Registro
Imaginário é o registro do sempre igual, do narcisismo. Registro Simbólico é o registro do sempre
diferente, do não-narcisismo.

1. FANTASIAS ORIGINÁRIAS OU PRIMITIVAS

Como se infere do que foi dito até agora, a importância da fantasia chega a ser tal que se
constitui no ponto máximo de atenção e estudo cada vez mais específico da psicanálise. A fantasia
constituirá a “realidade psíquica”, mas, se é apresentada como um campo autônomo e específico,
resta indagar sobre suas origens, tanto em morfologia quanto em conteúdo.
Laplanche e Pontalis, num já clássico estudo (Laplanche, J. Pontalis, 1. B.: “Fantasme
originaire, fantasmes des origines, origine du fantasme”, Les Temps Modernes, Paris, ASAREL,
1964), resgatam a palavra de Freud, que diz ter descoberto uma cena que remonta aos tempos
originários e que resolve enigmas ainda não solucionados por ele. Essas cenas dos tempos
originários (Urszenen) passam a ser estruturas fantasmáticas típicas, funcionando como
organizadores da vida fantasmática do sujeito. Conhecem-se com o nome de fantasias primitivas, ou
originárias, ou protofantasias. O termo provém do alemão Urphantasien — Ur significa “primeiro”,
“regente”, “principal”. Por isso, modernamente, tenta-se impor a palavra “primordial” (fantasias
primordiais). Procura-se deste modo exprimir, similarmente à antropologia, que se trata de uma
fantasia das origens, a qual, simultaneamente, lidera a conduta atual (Etcheverry, J. L. — Sigmund
Freud, Obras Completas, Sobre la Versión Casteilana, Amorrortu Ed., Buenos Aires, 1978, p. 20).
Três são as fantasias primordiais descritas por Freud, embora ele reconheça que podem
existir outras:

A) CENA PRIMÁRIA OU ORIGINÁRIA (ver p. 54)

O conteúdo desta fantasia, talvez a mais conhecida, é o coito que papai e mamãe praticam
diante do menino que os contempla. Aqui o sujeito tem uma participação apenas visual e,
obviamente, está excluído.
Esta fantasia responde ao enigma da origem das crianças, já que os dois personagens que o
sujeito contempla têm alguma relação com o tema que o preocupa, uma vez que o neném sabe que é
filho de ambos.
A fantasia primária é a maneira peculiar de se explicar como ele vem a ser o filho de seus
pais.
Observe-se que o eixo principal da origem do sujeito está na sua exclusão. Ser é ser
excluído.

B) FANTASIA PRIMORDIAL DE SEDUÇÃO POR UM ADULTO

Esta fantasia — a primeira cronologicamente descoberta e investigada por Freud em seus


primeiros casos clínicos —, encontra-se tanto em mulheres como em homens, que relatam ter tido
este tipo de experiência em sua infância. Mas, qualquer que seja o conteúdo manifesto dessa
fantasia, ela, no nível simbólico, expressa a jdéja de que mamãe foi a pessoa que “transfundiu” isto
que, desde então, habita em mim. E o que é isto? Isto é a sexualidade.
A fantasia de sedução responde ao enigma da origem dessa força misteriosa e desconhecida
que é a sexualidade. Nossa mãe, ou quem quer que tenha ocupado seu lugar, foi a “sedutora”
primordial, ela nos acariciou, nos deu de mamar, nos fez tomar banho, nos trocou as fraldas, nos
atraiu e nos afastou. Fundamentalmente — insistimos — nos “transfundiu” o hálito da vida, que é a
vida erótica.
C) FANTASIA PRIMORDIAL DE CASTRAÇÃO

Esta fantasia é chamada por Freud de “Teoria Sexual Infantil”; sob os mais diversos
disfarces, toda menina e todo menino a têm em algum momento de sua vida infantil. O conteúdo da
mesma não é outro senão a castração em si mesma, havendo um progenitor simbólico (pai)
amputado os órgãos genitais das mulheres. Por esta “razão”, as mulheres são mulheres e os homens
temem sê-lo.
O enigma revelado por esta fantasia é a diferença sexual anatômica, diferença fundamental
do ser humano, já que em tudo o mais um sujeito é semelhante a outro (sujeito).
Reproduzimos, parcialmente, o esquema de Antonio Godino Cabas, op. cit., p. 50):

Finalmente, fechamos este capítulo mostrando a estreita, a íntima vinculação surpreendente


de parentesco, entre as fantasias inconscientes profundas, o trabalho onírico e o devaneio.
O “grande capitalista” continua a ser as fantasias primitivas ou primordiais que, por lógica,
são inconscientes. Mas os restos diurnos, as fantasias topicamente pré-conscientes, não deixam de
ser fantasias, ou seja, o “sócio industrial” é composto da mesma matéria-prima que o “sócio
capitalista”. Entretanto, na elaboração secundária, aí onde o sujeito “arruma”, em vigília, seus
pensamentos, para poderem ser apresentados de forma coerente e inteligível, aí também se encontra
a fantasia, na forma de arri? mar, ajeitar e dispor as representações.
Esta “fachada”, mediante a qual o sujeito fala e se apresenta, é uma cenarização. E nestas
cenarizações conscientes são reveladas as repetições e transformações de cenas infantis, em cujo
núcleo, inexoravelmente, encontramos os temas de Édipo, exclusão (cena primária), mamãe
(sedução) e papai (castração).

CAPITULO VII
Defesas, mecanismos de defesa

O aparelho psíquico está construído como um conjunto organizado de barreiras contra as


estimulações internas (instintos, pulsões) e externas que o invadem. As defesas serão, então, um
conjunto de operações28 que, reduzindo ou suprimindo tais estímulos, tentarão manter o aparelho no
Princípio da Constância (ver p. 133 e segs.).
O grande cenário onde se “montam” as diversas operações defensivas é o Ego, e lembremos
que a maior parte das defesas opera inconscientemente; portanto, o Ego inconsciente é o
responsável por elas.
Não apenas os estímulos são afetados pelo ato defensivo, também os efeitos de desprazer e
as motivações diversas que levam ao processo defensivo podem ser objeto deste.
Assim, a base fundamental do processo defensivo é o conflito psíquico. Uma vez que a
teoria psicanalítica reconhece o conflito como constitutivo do ser humano, esta definição pode ser
extensiva às defesas. Assim como não existe vida sem conflito, assim também não existe vida do
aparelho psíquico sem defesas.

28
Que produz efeitos.
De modo geral, o conflito se desenvolve entre uma tendência que procura uma descarga e
uma outra tendência, que tenta evitá-la.
Reconhecer-se-á, nessa definição, que a instância que tende permanentemente a se
descarregar, num verdadeiro “processo primário”, (ver p. 136), é o Id. E as instâncias que se opõem
a ela são o Ego e o Superego. Lembramos que o Ego é uma instância formada pelas camadas
superficiais do Id, em contato com a realidade exterior.
Veja-se, então, que o próprio Ego é em si mesmo uma defesa, uma forma adaptativa da
matéria instintual e pulsional, encontrada para lidar com os fortes estímulos anteriores, O próprio
Ego, uma vez constituído, funcionará como uma espécie de retícula, ou filtro, reduzindo a
velocidade de descarga do Id. O Superego, sendo constituído pela soma de identificações dos pais, e
portanto da cultura, é uma modificação do Ego, alimentada permanentemente pela energia do Id. Ë
a instância responsável, na maioria das vezes, pela oposição à descarga instintual.

A) O PAPEL DO MUNDO EXTERIOR NA DEFESA

O papel desempenhado pelo mundo exterior, tanto na formação do Ego quanto contribuindo
para motivar defesas, é relevante, particularmente no Segundo Tópico, onde adquire praticamente as
características de uma instância. Mas o mundo exterior somente se expressa através do Ego. Assim,
por exemplo, qualquer percepção exterior pode ser rejeitada, como acontece regularmente nas
neuroses traumáticas. Mas essa função “rejeitadora” é exercida pelo Ego, que desta forma evita o
acréscimo de estímulo* que desequilibrariam o aparelho. Em algumas ocasiões, esta rejeição
exterior produz-se para evitar uma reativação de sensações dolorosas.
Mas é relativa a rejeição do estímulo exterior “puro” e atualmente muita controvérsia entre
as diferenças que podem existir entre uma neurose e uma psicose. Na época de Freud dizia-se que a
neurose consistia numa rejeição do instinto e, simultaneamente, em ficar-se à mercê do mundo
exterior. Na psicose, rejeitar-se-ia o mundo exterior, obedecendo automaticamente ao Id.
Estas afirmações, como foi dito, são hoje relativas, que as rejeições do mundo exterior
“arrastam” igualmente “pedaços” do Ego e do Id. Além disso, como veremos mais adiante, o Ego
costuma se defender, tanto nas neuroses como nas psicoses, com mecanismos mistos, e sobretudo,
com cisões (spliting) (ver p. 190).

B) O PAPEL DO SUPEREGO E DO SENTIMENTO DE CULPA

Literalmente, o sentimento de culpa expressa a tensão existente entre o Superego e o Ego.


Ou seja, enquanto o Ego, como executor de seu mandante, o ld, deseja uma determinada coisa, o
Superego, onde estão alojados os valores dos pais e da cultura incorporados durante a infância,
opõe-se ao cumprimento de tais desejos. Mas este conflito estrutural, que chamamos de culpa, é
totalmente inconsciente.
E é preciso sublinhar que falar de sentimentos inconscientes de culpa é uma redundância, é
apenas uma metáfora explicativa. O único que se observa na clínica, e de considerável valor em
psicopatologia, é a necessidade de punição ou de castigo.
Assim, qualquer tipo de conflito reconhecerá de forma implícita a participação do Superego
em sua gênese. Portanto, de modo variável, haverá, na sintomatologia psicopatológica, sentimentos
de culpa inconscientes. Isto quer dizer que qualquer sintoma psicopatológico é em si mesmo uma
forma de punição. O sujeito vive o conjunto sintomatológico como merecendo-o. Desta forma, todo
conflito que desemboque num quadro psicopatológico qualquer reconhece, em sua estrutura, a
participação de um desejo (Id), de um contradesejo (Superego) e de uma sede ou lugar onde esta
luta se desenrola (Ego).
Normalmente, o papel do Superego e do sentimento de culpa é estudado em dois quadros
psicopatológicos clássicos: a neurose obsessiva e a melancolia, o que não quer dizer que haja uma
exclusividade de ocorrência destes sintomas nestes quadros:
todos os quadros psicopatológicos contêm, em maior ou menor grau, uma necessidade de punição,
ou seja, o sentimento de culpa.

C) O PAPEL DA ANGÚSTIA NA MOTIVAÇÃO DEFENSIVA

O aparelho psíquico, como aparelho defensivo, estende-se como num “continuum” desde a
fuga dos estímulos dolorosos até as formas mais sofisticadas de controle das estimulações que vêm
desembocar nas estruturas do pensamento.
O Ego, no início da vida, constitui-se apenas como um aparelho que rejeita, de forma
reflexa, os estímulos que lhe são inadequados ou que lhe trazem desconforto ou dor. O fato de que
esse Ego primitivo, sumamente rudimentar, precise de ajuda exterior para satisfazer as exigências
instintivas, dará como resultado o perigo constante de situações traumáticas. Estas consistem, além
dos fatos manifestamente traumáticos (golpes, quedas, etc.), em desaparecimentos temporários dos
objetos primários que acodem em auxílio do Ego para satisfação do Id.
Estes traços dolorosos primários constituir-se-ão em lembranças associativas de que a
satisfação pulsional pode acarretar um perigo (sobretudo de abandono e não-satisfação).
Dever-se-á então compreender, acompanhando o que já foi abordado no capítulo sobre a
fantasia, que as ameaças e proibições originadas no mundo exterior associam-se, desencadeando
temor às pulsões e suas conseqüências. Lembramos que “temor às pulsões” é uma metáfora com
fins pedagógicos, já que esse temor entra numa interação dialética entre a pulsão propriamente dita,
a identificação e a catéxia, que ligará a pulsão ao objeto real-concreto.
A inserção do sujeito na cultura em que vive faz com que o Ego infantil sofra a ação de
medidas educacionais, normativas, destinadas a dominar a conduta natural-instintiva, ficando
gravadas impressões e traços mnêmicos no aparelho psíquico de que a conduta instintiva deverá ser
refreada, suprimida e, no melhor dos casos, adiada. Estas impressões primeiras, desenvolvidas a
longo das diversas fases da evolução psicossexual, são atuantes no aparelho psíquico do adulto,
capazes de provocar variados mecanismos de defesa.
Por volta dos 5 ou 6 anos de idade, algumas dessas impressões inscritas no desenvolvimento
pré-genital acabam se organizando, completando sua estrutura definitiva na instância chamada
Superego.
Daí em diante, os traços mnêmicos pré-genitais provocadores de ansiedades, com fantasias
dessa mesma ordem (pré-genitais), serão substituídos pelo sentimento de ansiedade, produto’ da
tensão existente entre o Superego e o Ego. Assim, a culpa é uma forma particular de ansiedade.

OS MECANISMOS DE DEFESA DO EGO

Os mecanismos de defesa do Ego nunca desfrutaram de “boa reputação” (Bergeret, J. —


Abrégé de Psychologle Pathologique, Masson & Cia. Ed., Paris, 1972). O problema é que,
ideologicamente, os mecanismos de defesa sempre foram associados ao aspecto patológico,
obscurecendo as funções adaptativas sobre as quais qualquer aparelho psíquico se estrutura. Este
problema, importante e complicado, atinge tanto o conceito de normalidade quanto de patologia, já
que uma pessoa não adoece por possuir defesas e sim pela sua ineficácia ou pelo mau uso que faz
delas. Nesse sentido, cabe-nos expressar uma série de atributos tais como flexibilidade versus
rigidez, ou estereotipia defensiva em relação a esse uso defensivo, etc.
Quem se inicia em psicopatologia, acredita que um determinado paciente está “curado”
quando se conseguem “abater as defesas”. Erro grave, porque podem passar inadvertidas ao
profissional mudanças nas apresentações de conduta pertencentes às defesas articuladas pelo sujeito
para lidar com os estímulos internos e externos.
Existe uma íntima vinculação entre estilo e defesa. Realmente, a maneira especial, tanto
gestual quanto no discurso falado, com que o paciente se apresenta ao profissional, é característica
das operações defensivas. Diante de estímulos de qualquer tipo, que possam resultar num perigo
ameaçador do equilíbrio do aparelho psíquico, entram em funcionamento, de acordo com uma certa
constância de estilo, as diversas operações defensivas características desse mesmo estilo, tendentes
a reduzir a tensão.
Estudando-se atentamente o parágrafo anterior, chega-se a duas conclusões:
a) A operação defensiva é automática, inconsciente; o sujeito consciente sofre a ação tanto
do perigo quanto dos afetos desencadeados que causam desprazer (angústia), bem como do
conjunto de operações defensivas mobilizadas pela parte inconsciente do Ego.
b) Os mecanismos de defesa funcionam como “relés” autoestabilizantes e com nítida função
homeostática.

1. DOIS MECANISMOS FUNDAMENTAIS: A REPRESSÃO (RECALQUE) E A DIVISÃO


(CISÃO)

A) REPRESSÃO, RECALQUE

Desde o início de sua obra, Freud preocupou-se em encontrar um mecanismo de defesa


específico para os processos neuróticos e psicóticos. Admitimos de modo geral que a Verdrüngung
(repressão, recalque) é o mecanismo específico e básico das neuroses, enquanto que a Verwerfung
(rejeição, repúdio, desmentido) constitui a base das estruturas psicóticas. (Ver p. 61 e segs.)
A repressão (recalque) foi o primeiro grande mecanismo investigado por Freud e consiste
num ato de despejo do nível consciente da representação ligada à pulsão. A partir daqui, Freud
investigou o mecanismo interveniente nos esquecimentos e na “belie indifférence” dos neuróticos
histéricos. Esse despejo do nível consciente é um verdadeiro esforço, um trabalho feito pelo
aparelho psíquico para manter no inconsciente essa representação, porque a entrada da mesma na
consciência poderia provocar desprazer.
A importância do estudo da repressão excede os limites da psicopatologia, por ser o
mecanismo constitutivo do inconsciente. Isto quer dizer que, se um sujeito está estruturado com um
nível consciente e outro inconsciente, a fundação e a manutenção dessa estrutura é de
responsabilidade da Verdrdngung.
Durante muito tempo a Verdrdngung foi utilizada por Freud quase como sinônimo de defesa.
E foi este o modelo por ele instrumentado para a elaboração de mecanismos defensivos mais
complexos.
Deve chamar a atenção o problema terminológico. Realmente, usamos a palavra repressão
por ter sido consagrada pelo uso de várias gerações de estudiosos, mas a tradução de Verdrãngung
por repressão não tem sido muito afortunada e pode dar origem a mal-entendidos.
Modernamente, chama-se “repressão” àquela operação psíquica que ocorre no espaço
consciente, mas cujo destino é alojar a representação no espaço pré-consciente (Unterdrückung).
Em espanhol, costuma-se traduzi-la por “supresión”.
Reservamos o nome de “recalque” (em francês refouiement) para a mesma operação de
despejo do plano consciente, mas cujo destino é o inconsciente.
A função principal do recalque é rejeitar e manter afastadas do plano consciente determinadas
representações, o que requer um esforço permanente e contínuo. Daí o consumo energético na sua
manutenção. Numa feliz analogia, Tallaferro (Tallaferro,
A. — Curso Básico de Psicoanalisis, Paidós Ed., Buenos Aires, 1962) diz que o recalque “é o
trabalho que precisa fazer um homem que deseja manter afundado na água um barril vazio; deverá
usar uma força constante e a interrupção da mesma permitiria que o barril voltasse bruscamente à
superfície”.
De fato, o ato repressivo do recalque em si mesmo, o que se chama de “recalque
propriamente dito”, recai sobre os derivados ou ramificações da representação que sofreu o despejo
primeiro, assim chamado de primeiro momento do recalque. Efetivamente, os sintomas de ordem
neurótica são derivados, são deslocamentos das representações originais recalcadas, que “furam” a
barreira repressiva e “fazem subir bruscamente o barril”.
O âmago do processo do recalque consiste em manter afastados, desvinculados, o sistema
consciente e, por conseqüência, o mundo exterior, do inconsciente.
Ou seja, o que efetivamente aparece na consciência são derivados que deixaram de ser
perigosos precisamente por isso, por serem apenas derivados daquelas representações perigosas
originais. Numa analogia matemática, poder-se-ia dizer que a força da repressão é inversamente
proporcional à distância entre a representação da consciência e a representação recalcada original.
Daqui se deduz com facilidade o conceito de resistência. Este será um conceito clínico. É o
que sente o profissional quando, deixando transcorrerem as livres associações (representações
conscientes) dos pacientes, “tropeça” em recusas, silêncios, negativas, hesitações, etc., sinais
indiretos de que o trabalho associativo se aproxima “perigosamente” da representação original.
Sendo o recalque sumamente variável e individual, não existem normas fixas a indicar. Cada
quadro psicopatológico, cada fragmento de conduta, cada situação, põe em jogo particulares formas
de exercício desse mecanismo. Fazendo parte dos mecanismos normais, o recalque, como todo
mecanismo de defesa, tomar-se-á patológico por um defeito ou um excesso quantitativo.
Como se compreenderá, o mecanismo complexo do recalque quebra os vínculos do sujeito
consciente com a pulsão (o que se chama o sujeito desejante), inaugurando uma relação
heterônoma. Referimo-nos à concepção de Max Schiller, de que a pessoa tem a autonomia como
suporte mas, encontrando-se dentro de uma comunidade, sobretudo uma comunidade de valores, é
heterônoma.
Isto significa que o plano da consciência é o lugar das vicissitudes da representação e dos
sentidos múltiplos outorgados pelo permanente deslocamento e distorção da representação original.
Mas o que se deseja destacar é que estas representações conscientes não são o sujeito. Remetem a
uma alteridade diferente, heterônoma, instituída pelo recalque.

B) DIVISÃO, CISÃO. RECUSA, REJEIÇÃO, RENEGAÇÃO

A partir de um trabalho tardio de Freud, de 1937, a Divisão do Ego no Processo de Defesa


(Standard Brasileira, vol. XXIII, p. 305 [1938]), este mecanismo adquire uma importância
fundamental, tanto teórica quanto clínica. Terminologicamente, tem recebido numerosas acepções;
com o mesmo significado se conhecem os termos Spaltung, splitting, “clivagem”, “cisão”,
“divisão”, “dissociação”. Porém, depois da teorização de Melanie Klein, deveríamos ressaltar que o
termo splitting, por ela utilizado, aceita uma adequada tradução em português na palavra
“clivagem”. Com efeito, clivagem alude à concepção mineralógica de separação de pedaços,
seguindo certos planos já previamente traçados. Já Breuer, no início do século, distinguira Spaltung
de Zerspaltung, reservando este último termo para a fragmentação de algumas partes da
personalidade em direções não-comuns ou habituais.
Como se pode notar nesta breve exposição, o termo “divisão”, splitting ou Spaltung convoca um
fato fundamental na estrutura do sujeito humano, e não outra coisa exprime a palavra “in-divíduo”
que, como se perceberá, implica a interiorização de uma divisão.
De fato, desde o nascimento a vida psíquica não é uma unidade, O psiquismo vai se
constituindo como uma espécie de colcha de retalhos, de somatório de múltiplas unidades que
abrange em sua constituição a divisão da personalidade psíquica.
É assim que a psicanálise, desde que se reconhece como uma teoria de um sujeito que não
governa seus instintos, pelo contrário, é governado por eles, constitui-se numa teoria do sujeito
dividido, ou cindido. E esta cisão é desde muito cedo apontada por Freud, em seus Estudos Sobre a
Psicoterapia da Histeria (Standard Brasileira, vol. II, p. 311 [1893/95]). Aí ele já reconhece a
existência de núcleos psíquicos independentes, autônomos, que não entram no circuito associativo
do resto do psiquismo.
Mas a cisão, o Spaltung, que nos interessa, data dos artigos de após 1927 (“Fetichismo”,
Standard Brasileira, vol. XXI, p. 179, 1927; “Sexualidade Feminina”, Standard Brasileira, vol. XXI,
p. 259, 1931; e o já mencionado “A Divisão do Ego no Processo de Defesa”). Ali, o que se expõe é
uma divisão no âmago mesmo do Ego. O Ego é dividido. E Freud salienta dois núcleos do Ego com
existência autônoma e que coexistem, ambos mantendo certo grau de independência. Estes dois
núcleos serão ligados, um predominantemente com a realidade exterior, e o outro com a realidade
instintiva, com o desejo (Resnicoff, B. — “Escisión dei Yo”, “Mesa Redonda”, Revista de
Psicoanalisis, Buenos Aires, tomo XXXVII, N.° 2, 1980, p. 385).
Porém, o aspecto mais interessante que transparece na divisão egóica proposta é que esses
dois núcleos funcionam com uma lógica diferente. Realmente, um deles é escravo do Princípio da
Realidade e, portanto, admite a diferença sexual anatômica, tendo por isso saído do narcisismo,
aceitando a castração e a ausência do pênis na mulher. O outro núcleo permanece submisso ao
Princípio do Prazer, rejeita, rechaça, repudia, conduzindo-se como se negasse o conhecimento da
diferença sexual anatômica e, em conseqüência, não saiu do narcisismo e o órgão feminino não
existe ou, no melhor dos casos, a mulher também tem pênis.
Facilmente se deduz a diversidade e importância dos problemas que deixa em aberto esta
cisão do Ego. O principal deles tem relação direta com os vínculos do Ego com a realidade. Poder-
se-á observar que existem duas maneiras fundamentais de funcionamento do Ego com relação ao
conhecimento da realidade. Apresenta-se assim a existência de duas atitudes psíquicas diferentes,
opostas, e esta divisão entre esses aspectos do Ego marca uma barreira intransponível, coexistindo
ambos, lado a lado, sem se confrontarem.
O parâmetro central que vai determinar a diferença entre estes dois aspectos separados do
psiquismo é o problema da castração. Com efeito, um aspecto que, poderíamos dizer, produzirá
sintomas de ordem neurótica, aceita a castração, tendo por isto acesso ao nível simbólico, e usa
como mecanismo fundamental de operação o recalque (Verdrüngung). Nesta ordem, e a título de
exemplo, temos fobias, ansiedades, medos de modo geral. Para poder comparar com o que
explicaremos a seguir, citamos um clássico exemplo de Freud, do medo de uma paciente sua de que
lhe tocassem os pés. Poder-se-á ler aqui o medo à castração que se encontra reprimido e que “re-
emerge” deslocado, condensado e simbolizado numa parte de seu corpo.
O outro aspecto do Ego se comporta de modo diverso, rejeita, recusa, repudia, exclui o
conhecimento da não-existência do pênis na mulher e, em conseqüência, não tem acesso ao
conhecimento de uma parte da realidade, ficando submisso do Princípio do Prazer. O típico sintoma
“fabricado” por isto é o objeto fetiche. Aqui, o sujeito, operando com este aspecto arcaico do Ego,
tem uma impossibilidade de aceitar a ausência, a carência, a vulnerabilidade a que fica exposto
quando “observa” e olha o que “não se tem” (o pênis, no órgão genital feminino).29
O mecanismo da cisão egóica faz ressaltar a heterogeneidade estrutural do Ego e, sobretudo,
os dois “amos”, “senhores” aos quais deve obediência: o reconhecimento das exigências da
realidade e as exigências de satisfação dos desejos pulsionais. Dito de outro modo — e válido
psicopatologicamente para qualquer quadro clínico — uma porção do Ego aceita a realidade tal qual
ela é constituída, podendo simbolizá-la, e outra porção, a rejeita, criando uma outra “realidade” que
pode ir desde o objeto fetiche até um franco delírio alucinatório.

Metaforicamente, diremos que um neurótico esquece, sofre de reminiscências, tem


recalcados os fatos originais dos sintomas pelos quais ele agora padece. Ele diz: “eu sofro, mas não
sei por quê”. Um psicótico, entretanto, e, em certa medida, um perverso, credita numa realidade
(delírio) que implica a rejeição de uma qutra realidade cuja existência teve previamente que admitir.
É como se o psicótico dissesse: “eu não sofro, isto é o que sinto e penso”.
Modernamente, o mecanismo básico das psicoses e perversões recebeu denominações
diversas, como repúdio, rejeição, exclusão, desmentido, para traduzir a palavra alemã Verwerjung.

29
O leitor entenderá estes dois modos diversos de operar do aparelho psíquico como dois modelos que produzirão
patologias diferentes: um, a patologia neurótica, e outro, a patologia perversa e psicótica, da qual, por sua vez, o objeto
fetiche se constitui no exemplo mais significativo. O objeto fetiche é tratado pelo sujeito como se fosse um pênis, mas
sabendo que não o é. A diferença entre um sintoma neurótico e um fetiche é que o primeiro é um símbolo no sentido
estrito do termo, por aparecer em lugar do objeto ausente. Ë uma representação e, como tal, reconhece a ausência do
representado. O fetiche é também uma representação, mas que tenta obstruir a ausência, substituí-la, negando seu
reconhecimento.
Em francês a tradução proposta por Lacan é forclusion. Trata-se de uma rejeição, ou afastamento,
próximo do recalque, mas não se confundindo com ele.
Antes de 1900, em As Neuropsicoses de Defesa (Standard Brasileira, vol. III, p. 71), Freud
refere-se ao mecanismo que depois seria conhecido com o nome de recalque e que consistia na
separação entre a idéia e o afeto ligado a ela. Mas já adianta que o mecanismo específico que
estamos considerando é diferente do recalque: “Em ambos os casos até aqui considerados, a defesa
contra a idéia incompatível era efetuada separando-a de seu afeto; a idéia permanece na
consciência, ainda que enfraquecida e isolada. Há, entretanto, uma espécie de defesa, muito mais
poderosa e bem-sucedida. Aqui o Ego rejeita (verwirft) a idéia incompatível (ou intolerável)
juntamente com seu afeto, e comporta-se como se a idéia jamais lhe tivesse ocorrido.”
Mas o texto onde fica mais patente este mecanismo de defesa (repúdio, exclusão, forclusion)
é no caso do “Homem dos Lobos” (Standard Brasileira, vol. XVII, p. 13, 1918). Aí, referindo-se ao
problema da castração de que padecia este paciente, Freud diz o seguinte:
“... fizeram-no perceber a diferença entre os sexos e o papel sexual desempenhado pela
mulher. Nessa contingência, ele comportou-se como em geral as crianças se comportam quando
lhes é fornecido um detalhe de informação não desejado — quer seja sexual ou de qualquer outra
espécie. Rejeitou [verworfeng] o que era novo (no nosso caso, de motivos ligados com o seu medo
de castração) e agarrou-se rapidamente ao que era velho. . .“ [...] “. . . repudiou a nova informação e
apegou-se à velha teoria”. [...] “Não é que sua nova compreensão ficasse sem efeito; muito pelo
contrário. Desenvolveu um efeito extraordinariamente poderoso..”
[...] “Pode ter havido a possibilidade de que, a partir dessa época, o medo da castração tenha
existido lado a lado com uma identificação com as mulheres, por meio do intestino, embora se deva
admitir que isso envolve uma contradição.” [. ..] “Uma repressão é algo muito diferente de uma
rejeição.” [Eine Verdrdngung ist etwas anderes ais eine Verwerjung.] (Standard Brasileira, vol.
XVII, p. 101.)
Veja-se contida, implícita, na teoria freudiana do fato psicótico e perverso, a divisão eficaz
do aparelho psíquico com as duas maneiras diferentes de operatividade anteriormente referidas,
assim como a justificativa moderna, feita por Lacan, para resgatar o termo Verwerfung como
diferente de Verdrdngung. Desta maneira, a exclusão (forclusion) da castração implica
necessariamente em ausência da existência desse fato. O recalque (Verdriingung), ao contrário,
exige o reconhecimento da existência do elemento a reprimir.
“Já tomamos conhecimento da atitude que o nosso paciente adotou, de início, em relação ao
problema da castração. Rejeitava a castração e apegava-se à sua teoria de relação sexual pelo ânus.
Quando digo que ele a havia rejeitado, o primeiro significado da frase é o de que ele não teria nada
a ver com a castração, no sentido de havê-la reprimido. Isso não implicava, na verdade, em
julgamento sobre a questão da sua existência, pois era como se não existisse.” [. . .1 “Afinal, seriam
encontradas nele, lado a lado, duas correntes contrárias, das quais uma abominava a idéia da
castração, ao passo que a outra estava preparada para aceitá-la e consolar-se com a feminilidade,
como uma compensação.” (Freud, S., op. cit., p. 107.)
Mas o fato mais importante que a psicanálise contemporânea hierarquiza como a base do
mecanismo de defesa usado na produção dos sintomas psicóticos está na seguinte frase:
“Para além de qualquer dúvida, porém, uma terceira corrente, a mais antiga e profunda, que
nem sequer levantara ainda a questão da realidade da castração, era ainda capaz de entrar em
atividade.” (Op. cit., p. 107.)
A seguir, Freud expõe a alucinação do “Homem dos Lobos”. Metaforicamente, e para
esclarecer este complicado e fundamental mecanismo de defesa, transcreveremos uma expressiva e
notável explicação de Leclaire:
“Se imaginamos a experiência como um tecido, ou seja, ao pé da letra, como um pedaço de
fazenda constituída por fios entrecruzados, poderíamos dizer que o recalque estaria representado
por alguma ruptura ou por algum rasgão, importante e sempre passível de ser cerzido ou reparado,
enquanto que a exclusão (forclusion) estaria representada por alguma abertura devida ao tecido
mesmo, isto é, por um buraco original que jamais seria suscetível de encontrar sua própria
substância, já que esta nunca teria sido outra coisa senão substância de buraco, e que nunca poderia
ser preenchido senão de modo imperfeito por um ‘remendo’, para retomar o termo freudiano.”
(Leclaire, S. “A Propos de I’Episode que Présenta l’Homme aux Loups”, La Psychanalyse, vol. IV,
p. 97.)
Deste modo, a alucinação, o delírio, será a “realidade” que “tampará” o buraco a que se
refere Leclaire.

Algumas Considerações Sobre a Importância da Cisão (Spaltung) em Psicopatologia Psicanalítica

Há um fio condutor em toda a obra psicanalítica, a partir de Freud, de que o Sujeito e,


portanto, os quadros psicopatológicos por ele sofridos não desfrutam de algo parecido com
Unidade. Esta ilusão de um Sujeito ou um quadro psicopatológico apresentar-se como um todo
compacto, maciço, é permanentemente dividida em partes e subpartes, fazendo desta operação o
âmago da técnica: a análise. (Freud, S., O Moisés de Michelangelo [19141, Standard Brasileira, vol.
XIII, p. 253.)
Até toda sua teoria estrutural, Freud nos apresenta como que uma articulada série de funções
que entram em conflito entre si. Porém, no texto de 1938, insinua concepções polêmicas. Assim, a
cisão (Spaltung) egóica por ele proposta é uma cisão intra-sistêmica, sendo um prolongamento das
cisões intersistêmicas (Superego versus Ego, ou Ego versus Id, etc.). Mas quando se diz que a cisão
egóica deixa o Ego dividido em duas correntes contraditórias, alguns autores sublinham que essas
correntes são autônomas entre si, mas não se opõem conflitivamente. O argumento principal
levantado é de que o Ego se divide não como fonte de conflito e sim como uma forma de superar o
conflito. (Abadi, M. — “Mesa Redonda — Escisión dei Yo”, Revista de Psicoanalisis., Buenos
Aires, vol. XXXVII, N.° 2, p. 393.)
Observar-se-á deste modo a enorme importância adquirida pelo conceito defensivo de
divisão como uma importante maneira de lutar contra o conflito. Como já aludimos, o Ego não se
fratura e sim se desarticula como duas partes previamente soldadas. Esta desarticulação, então,
respeita certas linhas de clivagem, cujo desenho, forma e profundidade dependem da herança e
constituição egóica. Lembramos também que esta constituição entra em conjunção serial com as
experiências infantis (ver p. 21), proporcionando estas identificações múltiplas, sucessivas, dando
como resultado uma disposição quase caleidoscópica do Ego.
Como tentamos mostrar anteriormente, o problema da cisão é um problema defensivo
extremo para evitar o conflito, já que normalmente — neuroticamente, digamos — o Ego teria um
trabalho mais sintético, representado pela construção de uma transação que vai dar num sintoma.
Este sintoma é um compromisso, um arranjo, entre os interesses da realidade exterior, as exigências
superegóicas e os desejos prementes do Id.
Observe-se a diferença. A transação consiste, fundamentalmente, em ceder alguma coisa à
outra parte. Em troca, a divisão do Ego é uma não-transação, é uma separação ou divórcio de duas
partes.
Deveremos advertir que esta divisão ou desunião, conservando a autonomia das partes,
desarticuladas sim, mas não fragmentadas, será a base dos quadros perversos, borderlines e psicoses
leves. Já uma fragmentação, ou seja, uma divisão em múltiplos pedaços, é a base de uma anarquia
funcional egóica, sem um centro organizador, dando a impressão, ao observador externo, de caos e
de dificuldades na reintegração (psicoses mais graves).
Conseqüências não somente de ordem teórico-clínica, mas também de ordem técnica, coloca
o problema da divisão. Enquanto para resgatar aspectos reprimidos, recalcados, o terapeuta
interpreta, ou seja, mostra o sentido oculto daquilo que se apresenta, essa operação interpretativa se
mostra insuficiente com as apresentações de conduta onde predomina a defesa dissociativa, a
Spaltung. De fato, o trabalho psíquico com um perverso ou com um psicótico exige verdadeiros
esforços reconstrutivos (daquela substância de buraco aludida por Leclaire). A patologia grave, na
maioria dos casos de significativos abandonos precoces e de múltiplas situações traumáticas de um
psicótico, levam-no a divisões desarticuladoras de seu aparelho psíquico, produzindo objetos
bizarros e condutas extravagantes. Nesses casos, a ação interpretativa deverá ser apoiada pela ação
direta com objetos reais-concretos, através de confrontações com o núcleo familiar ou em terapias
comunitárias. (García Badaracco, J. — “Mesa-Redonda”, op. cit., p. 141.)
Assim, a interpretação constitui-se na arma terapêutica de eleição quando no quadro clínico
predomina o recalque (Verdrangung) como a base da estrutura defensiva em jogo (neurose). O
método será o deciframento, porque a experiência traumática permitiu que o aparelho psíquico
alcançasse alguma forma de simbolizar e os sucessivos deslocamentos, condensações e distorções
fizeram perder o sentido original, que se recupera com o trabalho interpretativo.
Já no problema da psicose, a estrutura desarticulada não é passível de ser representada
simbolicamente, daí resultando que a interpretação, como recurso terapêutico, é inadequada — o
psicótico sofre não de conteúdos inconscientes ocultos e reprimidos, mas sim da invasão do Ego por
esses conteúdos primitivos e profundos, o que torna sua realidade difícil de ser aceita, obrigando-o
defensivamente a regressões para níveis bem mais arcaicos de seu desenvolvimento, para épocas em
que a existência de tais conteúdos não acarretava tantos conflitos. As situações traumáticas são
arcaicas e muito profundas, na maioria das vezes repetições de situações patogênicas no âmbito
familiar- histórico. Isto supõe uma força eficaz, potente e dissociadora, que se repete e se reforça de
geração em geração. Cabe aqui uma verdadeira ação reconstrutora e, às vezes, construtiva, para
“tampar” as fendas que mantêm o sujeito alienado.
Para que o sujeito possa se reconhecer numa história real- concreta e, a partir daí, estabelecer-se o
recalque. (Pantolini, J. M. — “Mesa-Redonda”, op. cit., p. 414/415.)

CAPITULO VIII
Os critérios de diagnóstico e as operações defensivas

Seguiremos neste capítulo a trilha estabelecida por Enrique Pichon-Rivière (Dei


Psicoanalisis a ia Psicología Social, 2 vol., Ed. Galerna, Buenos Aires, 1970) e José Bieger
(Psicología de ia Conduta, Eudeba, Buenos Aires, 1963 e “Critérios de Diagnóstico”, Rev.
Psicoanalisis., Buenos Aires, tomo XXX, n.° 2, 1973, p. 305 e segs.).
O problema do diagnóstico tem sido sempre, para qualquer escola de psicologia e
psicoterapia, sumamente complexo. Em primeiro lugar, porque não existe um diagnóstico “em si”,
abstraído do sujeito que faz o diagnóstico e sobretudo das finalidades para os quais ele será
instrumentalizado. Em segundo lugar, e decorrente do anterior, o profissional que vai estudar e usar
o diagnóstico terá em mente todo um conjunto de conceitos que funcionarão como parâmetros
fundamentais de referência para as diversas categorias patológicas que encontrará e classificará em
seus pacientes. Estes conceitos estarão formados pelo conjunto de idéias científicas e não-
científicas que aprendeu no percurso de sua vida pessoal, de sua experiência, dos livros lidos, das
aulas assistidas, etc.
Será, portanto, preciso saber diagnosticar mas, sobretudo, saber para que, com que
finalidade. Em alguns casos, o diagnóstico é praticamente desprezível, acontece assim com alguns
psicanalistas. Em troca, alguns profissionais interessados em “filtrar” determinados quadros
clínicos, como por exemplo a psicose, estarão motivados a tomar as precauções necessárias para
chegar a um diagnóstico o mais preciso possível.
Um outro objetivo de se fazer diagnóstico será com a finalidade de determinar o tipo de
terapia a ser administrada.
Mas o diagnóstico pode não ter relação direta com o tipo de terapia, mas terá por exemplo
com a seleção de pessoal de uma fábrica ou de uma empresa, triagem de estudantes para ingresso
em determinada escola, etc.
No meio hospitalar, os critérios de diagnóstico se tornam por vezes imperiosos, quer por
exigências administrativo-estatísticas, quer pelas necessidades de atingir, com o mínimo possível de
fracasso, clientes para psicoterapia focal ou de tempo limitado.
Tal como frisou Bleger (op. cit., p. 306), além do diagnóstico e dos critérios que conduzem a
ele, dever-se-á ter em conta a teoria de cura que possui o profissional e a teoria geral que lhe serve
de enquadramento referencial. Assim, por exemplo, um paciente pode se apresentar com uma
sintomatologia evidente de angústia e sofrer, por isto, de uma inibição em determinadas áreas de sua
conduta. Se o profissional, visando ao critério pragmático, se encaminha para solucionar o sintoma
angústia, evidenciará uma teoria do adoecer e do curar que se torna, nesse momento, efetiva. Mas
pode acontecer que o profissional observe esse conjunto sintomático como um sintoma de alarme
por ruptura de uma estrutura caracterológica narcísica. Nesse caso, o profissional tenderá a
preservar o valor significativo do sintoma, focalizando sua ação nas áreas e nas causas produtoras
da dita ruptura.
O que desejamos encarecer é que fazer diagnóstico não é nenhum “hobby”, nem passatempo
classificatório em vão, O diagnóstico é sempre operativo, no sentido de que, à medida em que é
feito, se está intervindo no campo de interação entre o diagnosticador e o diagnosticado.
Simultaneamente, o diagnóstico nos proporciona uma preparação logística para trabalhar de modo
eficaz em qualquer terapia que apliquemos.
Teremos o cuidado de evitar fazer diagnósticos de entidades clínicas totalmente isoladas: por
exemplo, “neurose fóbica” ou “psicose paranóica”, etc. Tais diagnósticos não só serão de escassa
validade clínica como também correm o risco de se constituírem num obstáculo, ao “condenar” o
sujeito que padece de uma doença mental qualquer a ser fixamente enquadrado num rótulo por toda
a vida.
O diagnóstico será funcional, abrangendo vários itens ou parâmetros que incluam o
diagnóstico “clássico” de personalidade mas que também falem da inscrição desses itens nos
âmbitos psicossociais mediatos e imediatos onde o doente se movimenta:
família, instituições, etc.

1. PARÂMETROS PARA O DIAGNÓSTICO FUNCIONAL EM PSICOPATOLOGIA

A) DIAGNÓSTICO ESTRUTURAL

Uma estrutura de conduta, estudada a nível psicológico, é uma totalidade organizada,


funcionando como unidade de experiência e unidade de significado (Bleger, J. — op. cit., p. 151).
Inclui-se nesta denominação de estrutura o tipo particular e específico de relação de conduta,
em suas diversas modalidades. Ou seja, uma entidade clínica qualquer, esquizofrenia por exemplo,
colocada em determinado contexto e vinculada a determinados objetos, pode apresentar
determinadas estruturas funcionais de conduta que não coincidam, necessariamente, com a
organização patográfica. Por exemplo, em determinadas circunstâncias poderá apresentar uma
estrutura histérica, em outras uma estrutura hipocondríaca, e assim por diante.
Fazer diagnóstico de estrutura de conduta é estudar o paciente em situação, incluindo,
necessariamente, todas as variáveis presentes num campo dado e o profissional diagnosticador
como, talvez, a variável mais importante.
Partimos do princípio que, em condições habituais, uma pessoa não movimenta a totalidade
de estruturas possíveis, organizando sua personalidade sob o predomínio de uma ou algumas delas.
Dessa forma, a quantidade de combinatórias de estruturas e subestruturas que se apresentarão
interagindo com o profissional pode ser das mais variadas e complexas. Uma personalidade
histérica pode se apresentar com uma estrutura fóbica e, em outros momentos, com estrutura
conversiva, estruturas que, por sua vez, são organizações defensivas de estruturas esquizóides ou
melancólicas subjacentes.
Examinar em detalhe as estruturas em jogo proporciona interessantes visões da estruturação
dos quadros psicopatológicos.
“Geralmente, quando se fazem diagnósticos diferenciais, quando se procura ver, em
discussões intermináveis, se se trata de uma neurose, de uma fobia, de uma histeria de conversão,
ou de traços caracterológicos, acaba-se dizendo que o sujeito tem tudo isso.” (Bieger, J. — op. cit.,
p. 308.)
Como se pode observar, a finalidade principal de se fazer diagnóstico de estrutura é não
rotular, não encaixar o paciente num rótulo e, sobretudo, tentar evitar um fato sumamente freqüente
que é confundir a categorização clínica com o ser humano que a padece. Uma doença qualquer não
e uma coisa. “ uma estrutura muito mais complicada, e temos que tentar ver, funcionalmente, essa
complicação.” (Bieger, 3. — op. cit., p. 309.)

B) DIAGNÓSTICO DE NÍVEIS DE INTEGRAÇÃO NEURÓTICA OU PSICÓTICA

Entende-se por integração um determinado desenvolvimento progressivo e crescente de


aperfeiçoamento na organização psicológica. Este desenvolvimento implica uma maior
complexidade na estrutura e funcionamento do aparelho psíquico, assim como uma crescente
diferenciação do mesmo.
Os elementos fundamentais que intervêm nestes diferentes níveis São os mesmos, mas as
inter-relações organizadoras e de funcionamento de cada nível são diversas.
A partir dos desenvolvimentos e trabalhos sobre organizações Psicóticas e perversas,
iniciados por Freud e continuados por Melanie Klein, Enrique Pichon-Rivière, Bion, Bieger, e
outros autores, assim como o grande desenvolvimento da escola francesa, tem-se acentuado a
estrutura dividida da personalidade.
Com efeito, tentamos detectar, neste segundo item, qual O lugar, na conduta do indivíduo,
onde se localiza o fundamento psicótico. Ambos os tipos de funcionamento diferenciar-se-ão pelo
tipo de relacionamento objetal e, sobretudo, pelo tipo de estrutura defensiva posta em jogo.
Partimos do pressuposto de que todo paciente, e até mesmo O profissional, possui os dois
níveis de organização. Muito mais importante do que detectá-los é saber onde se localizam, a
serviço de que áreas estão, e como se encontram organizados.
202

C) DIAGNÓSTICO DE CLIVAGEM E ESTEREOTIPIA DOS NÍVEIS ORGANIZATIVOS

Toda estrutura, colocada num dado campo, possui certo movimento característico.
Movimentando-se certas condições desse campo, teoricamente as condutas tendem a se modificar,
seja em intensidade ou duração, ambas muito variáveis. Daí que todo ser humano tem certo grau de
liberdade para poder exercitar as diversas estruturas com as quais pode responder e atuar perante as
exigências externas e internas.
Neste item, interessa-nos estudar o grau de estereotipia ou rigidez das estruturas em jogo,
assim como a facilidade, a permeabilidade para um intercâmbio entre os níveis neuróticos e
psicóticos.
Interessa pesquisar não só a fluidez da divisão destes níveis no plano sincrônico
(diagnosticador/diagnosticado), mas também no plano diacrônico (em que época da vida se
quebrou, se se manteve da mesma maneira, etc.).
O problema da clivagem ou Spaltung interessa sobremaneira quando se trata de fazer
diagnósticos operativos para pacientes aptos para terapia focal ou de curta duração. O paciente pode
ser psicótico, ou ser possuidor de uma grave perversão, e este diagnóstico será condição necessária,
embora não suficiente, para excluí-lo de uma psicoterapia breve. Muito dependerá do grau e força
da diferença entre o nível organizativo neurótico e perverso da personalidade, o grau da estereotipia
e as circunstâncias em que esta aparece, etc.

D) DIAGNÓSTICO DE NÍVEIS E GRAUS DE DEPENDÊNCIA-INDEPENDÊNCIA

Fortemente influenciados pelos estudos do primeiro ano de vida, autores como Margaret
Mahler e o próprio Bleger observam detidamente o grau em que, na atualidade, é mantida a
simbiose infantil. (Mahler, M., O Nascimento Psicológico da Criança, Zahar Ed., Rio, 1977 e
Bleger, J. — Simbiose e Ambigüidade, Francisco Alves Ed., Rio, 1979.) Estudar a simbiose é —
predominantemente — estudar a variabilidade ou rigidez em relação ao objeto depositário, assim
como os diversos problemas que se enfileiram sob o item narcisismo. Acredita-se, erroneamente,
que a simbiose é uma palavra restrita apenas à patologia, ignorando-se que todo ser humano vive
em algum grau de dependência simbiótica, consistindo a patologia ou num grau excessivo de
rigidez e estereotipia e, portanto, dependência de um objeto, ou na ausência declarada de objetos
depositários com os quais estabelecer uma relação simbiótica.
O problema da dependência simbiótica atinge não só o problema do objeto depositário mas
também o problema temporal. De fato, é possível que uma dependência simbiótica se prolongue por
diversas causas além do necessário, como, por exemplo, nos casos de adolescência prolongada.

E) DIAGNÓSTICOS DE ÍNDICES DO NEUROTISMO E DO PSICOTISMO

Os quatro itens anteriores são parâmetros que balizam referencialmente o enquadramento


diagnóstico. Os índices são elementos que estão muito mais perto do nível empírico. Estes índices
agrupam-se em dois grandes conjuntos ou séries, seguindo a divisória do neurotismo e do
psicotismo. Dentro deles, poder-se-ão seguir bem de perto os parâmetros, vendo-se assim as
estruturas em jogo, as entidades clínicas, a clivagem, o grau de estereotipia, etc.
A título de referência, transcreveremos a listagem estudada por Bieger (Criterios de
Diagnostico, p. 313 e “Criterios de Curación y Objetivos dei Psicoanalisis”, Rev. Psicoanal., tomo
XXX, n.° 2, 1973, p. 338):

NEUROTISMO PSICOTISMO
1. Sintomas neuróticos, presença de conflitos Enfermidade orgânica atual. Tensão.
neuróticos, presença de conflitos neuróticos e
ansiedade.
2. Transferência neurótica. Transferência psicótica. Narcisismo.
3. Contratransferência neurótica. Contratransferência de caráter psicótico.
4. Manutenção da clivagem. Clivagem: não conservada ou em risco de
perder-se.
5. Defesas: fóbicas, histéricas, obsessivas, Defesas: caracteropáticas, hipocondríacas,
paranoides. Predominância de projeção- melancólicas, maníacas, perversas.
introjeção. Predominância de identificações projetivas-
introjetivas.
6. Insight. Carência de insight.
7. Independência. Dependência.
8. Comunicação simbólica. Comunicação pré-verbal.
9. Identidade, personificação. Identidade: dispersão, ambiguidade, confusão,
onirismo. Sonhos.
10. Amplitude do Ego. Restrição do Ego.
11. Ciúmes, rivalidade. Inveja.
12. Sublimação.

Não nos deteremos aqui nos diversos índices, alguns dos quais estão distribuídos ao longo
desta obra, e outros virão a seguir. Deter-nos-emos apenas, na segunda parte deste Capítulo, nas
operações defensivas, com o intuito de tentar diferenciá-las nos dois níveis do desenvolvimento.
O esquema apresentado possui forte influência jacksoniana. Com efeito, este neurologista
inglês, herdeiro da doutrina “evolucionista spenceriana”, formulou, no final do século passado, sua
célebre Teoria da Dissolução, que encontrou importante repercussão nos meios neurológicos e
psiquiátricos.
Efetivamente, voltamos a ressaltar que o diagnóstico multivariado permite detectar que, por
trás da sintomatologia com a qual o paciente se nos apresenta, (e nisso consiste a dissolução
jadesmiana) existem bases constantes que formam os fundamentos do aparelho mental. De tal
maneira, possuímos um instrumento para avaliar, dentro de certos limites, a importância e a
hierarquia dos sinais presentes e suas possíveis implicações, tanto na gênese como no prognóstico
da doença.
A atual escola estruturalista costuma definir as relações estruturais em função do papel
desempenhado por cada elemento dentro de uma dada organização. Claude Lévi-Strauss, o pai do
estruturalismo, escreveu expressivamente: “. . . que uma disciplina, cujo primeiro objetivo é analisar
e interpretar as diferenças, poupa-se muitos problemas ao considerar somente as diferenças, (Lévi-
Strauss, C. — Race et Histoire, Ed. Gonthier, Paris, 1901.)
Observe-se então que, sob esse ponto de vista, a análise diagnóstica refere-se a uma
interação dialética constante entre a globalidade organizacional e as parcialidades funcionais que a
compõem. Trata-se, também, de observar como se articulam as distintas partes e níveis entre si. Ou
seja, fazer diagnóstico é também fazer uma análise sintática.

2. AS OPERAÇÕES DEFENSIVAS

A) CONSIDERAÇÕES GERAIS

Como foi anteriormente consignado, o termo “defesa” foi usado por Freud antes de 1900
(As Neuropsicoses de Defesa [1894], Standard Brasileira, vol. III, p. 57 e 59), mas adquire seu
verdadeiro nível de importância somente em 1926 (Inibições, Sintomas e Ansiedade [1926],
Standard Brasileira, vol. XX, p. 199).
A palavra “defesa”, no sentido que hoje lhe é atribuído pela comunidade psicanalítica,
exprime o conjunto de operações efetuadas pelo Ego perante os perigos que procedem do Id, do
Superego e da realidade exterior. Simplificando, o Ego em si mesmo é uma defesa que se constitui
perante os perigos internos e externos.
Mas as defesas se traduzem ou se manifestam como condutas, embora nos tratados clássicos
e na linguagem corrente estudemos “mecanismos” (de defesa). Os “mecanismos” derivam de um
processo de abstração e generalização das condutas defensivas, que exprime a idéia de um sujeito
numa situação determinada.
As condutas defensivas não são necessariamente de exclusividade da patologia. Elas
intervêm, normalmente, no ajustamento, adaptação e equilíbrio da personalidade. Embora se
estudem estruturas defensivas típicas de determinados estilos ou estruturas psicopatológicos, isto
fala de certa constância e regularidade que se tem constatado entre o aparecimento desses quadros e
as ditas estruturas defensivas. Deveremos, porém, ressalvar que a diferença entre o normal e o
patológico é uma questão de grau e que, ao mesmo tempo, há uma certa correspondência entre a
conduta defensiva apresentada e o contexto situacional em que ela se inscreve.
Seguindo estas considerações, poderíamos dizer que cada sujeito apresenta uma evolução,
uma historicidade, nas suas estruturas defensivas e aquilo que, num contexto infantil ou
adolescente, foi adequado, poderá não sê-lo dez ou quinze anos mais tarde. De tal modo,
exprimimos a idéia de rigidez ou plasticidade no “repertório” defensivo de um sujeito.
Teoricamente, portanto, um sujeito seria capaz de apresentar todas as condutas possíveis se a
situação, o contexto onde ele se inscreve, assim lho exigisse. Porém, todo sujeito tem
“selecionado”, inconscientemente, um certo número, bastante restrito, de estruturas defensivas, que
utiliza para lidar contra os perigos internos e externos em quase todos os contextos e meios sociais
em que lhe cabe viver. Esta seleção apresenta-se como um estilo muito particular e característico do
sujeito.
Deduz-se daí que qualquer estrutura defensiva, ao se constituir como uma escolha
inconsciente de operar, afasta outras possibilidades defensivas a serem empregadas. Ê por esta razão
que toda conduta defensiva produz uma certa limitação funcional do Ego, sendo esta limitação
sumamente variável dentro de um espectro de possibilidades.
Tal como assinala Bleger (Psicologia de la Conducta, p. 144), a conduta defensiva ou os
mecanismos defensivos não são um acréscimo. a conduta mesma, aberta na multiplicidade de
alternativas, oferecidas ao sujeito pela interação entre mundo interno e mundo externo.

B) DEFESA E CONTRACATÉXIA

A contracatéxia, também chamada de contra-investimento, é um processo econômico,


descrito por Freud, que funciona como suporte da atividade defensiva. Normalmente, entende-se
por contracatéxia uma espécie de barreira levantada perante outras catéxias transportadas pelas
pulsões e desejos inconscientes.
O processo contracatéxico é correlativo do processo de recalque (repressão). Como tal,
consiste numa retirada das cargas ligadas a uma representação provinda do inconsciente e que
ameaça irromper no espaço pré-consciente e consciente, produzindo desprazer.
Esta “retirada” é conhecida com o nome de descatéxia ou descatexização.
Essa energia, ou conjunto de cargas que foram liberadas pela retirada da representação
original, é reutilizada imediatamente em forma de contracatéxia. Ver-se-á aqui que o processo
contracatéxico conserva a representação original em seu lugar (o inconsciente).
Em segundo lugar, a representação, ou conjunto de representações que “herdarão” as cargas
retiradas, pode ser de diversas naturezas: pode ser uma representação ligada, por contigüidade ou
analogia, à representação original (caso das fobias, por exemplo), ou pode ser uma representação
oposta àquela (formação reativa, representações de limpeza exagerada para lutar contra
representações de sujeira).
Segundo Freud, a contracatéxia, ou seja, a energia retirada da representação original, é a
responsável pelas condutas defensivas e por sua estabilidade. Facilmente se deduz que a luta
estabelecida entre os desejos originais e as defesas levantadas contra eles exige um permanente
gasto psíquico.
Talvez a melhor demarcação operacional de contracatéxia tenha sido dada por Fenichel. Para
este autor, a contracatéxia é o sinal de angústia, já que o sinal de angústia é uma antecipação ativa
de certa possibilidade de perigo. Acrescenta ele que, sendo um fenômeno automático, é uma reação
do Ego, não criada por ele e sim utilizada por ele. De tal maneira, toda conduta defensiva tem a
finalidade de manter um equilíbrio homeostático (Princípio da Constância — ver p. 137), sendo que
toda defesa é defesa contra a ansiedade, contra a angústia. (Fenichel, O. — Teoria Psicoanalítica de
las Neurosis, Paidós, 2. ed., Buenos Aires, 1964, p. 159.)

C) CLASSIFICAÇÃO DOS MECANISMOS DE DEFESA

Existem várias maneiras de dispor, para o estudo, os diversos mecanismos de defesa. Assim,
classicamente, Fenichel os dividiu em “bem-sucedidos” e “malsucedidos”, entendendo que os
primeiros, representados pela sublimação, conseguiam o objetivo de fazer cessar por completo
aquilo que, originalmente, causava desprazer. Já Anna Freud ordena a classificação conforme os
perigos sejam internos ou externos (Freud, A. — O Ego e os Mecanismos de Defesa, Civilização
Brasileira, Rio, 1968).
Preferimos — sem descartar as classificações clássicas — seguir um ordenamento serial. Ou
seja, segundo o nível do “neurotismo” ou do “psicotismo” (ver p. 204). Tal ordenamento tem a
vantagem de permitir uma localização relativamente rápida do nível das estruturas psicopatológicas
envolvidas, com o intuito de servir de instrumento para a abordagem clínica direta.
Deveremos frisar, insistentemente, que “neurotismo” e “psicotismo” são simplesmente duas
séries ordenadas, numa escala complementar, e não podem ser tomadas como padrões rígidos ou
como um guia dogmático. Existem estruturas defensivas do nível neurótico tanto nas neuroses
quanto nos quadros borderlines ou francamente psicóticos e, mutatis mutandis, existem estruturas
defensivas psicóticas tanto nos quadros psicóticos ou borderlines quanto na mais simples das
neuroses.
Como foi anteriormente apontado, o problema a detectar será não só a descoberta dos
diferentes mecanismos defensivos postos em jogo pelo paciente, mas também a identificação das
diferentes articulações feitas entre si por esses mecanismos, assim como o diverso grau de rigidez
ou plasticidade com que são usados.

NEUROTISMO PSICOTISMO
Projeção Identificação Projetiva
Repressão (Recalque) Divisão
Deslocamento Renegação (Forciusion)
Regressão Parcial Regressão Total
Introjeção Identificação Introjetiva.
Isolamento
Inibição
Formação Reativa
Sublimação
Negação (Denegação)

Projeção

Denomina-se projeção a atribuição a objetos externos de propriedades ou características que,


simultaneamente, o sujeito desconhece em si mesmo. Sob o ponto de vista fenomenológico, a
projeção pode se efetuar tanto sobre objetos animados quanto inanimados.
O estudo do fenômeno projetivo excede os limites de um simples mecanismo de defesa, já
que se constitui num mecanismo primitivo do aparelho psíquico.
Freud emprega pela primeira vez o termo “projeção” no “Rascunho H” (Standard Brasileira,
vol. 1, p. 283, 1895), em carta endereçada a seu amigo Fliess. Analisando o caso de uma doente
paranóica, mostra que a estrutura desta estava constituída pelo mecanismo de expulsão de uma idéia
intolerável. “Portanto, o propósito da paranóia é rechaçar uma idéia que é incompatível com o Ego,
projetando seu conteúdo no mundo externo”.
Neste mesmo artigo, Freud afirma que a transposição do interno para o externo consiste num
“abuso” (Missbrauch) de um mecanismo psíquico comum, habitual, e que é utilizado na vida
normal. “Sempre que ocorre uma modificação interna, temos a escolha de supor a existência de uma
causa interna ou de uma causa externa. Se algo nos impede a derivação interna, naturalmente
haveremos de recorrer à externa” (op. cit., p.287).
Anos mais tarde, Freud retoma tanto o problema da paranóia quanto o mecanismo projetivo,
ao tratar de seu famoso caso do Presidente Schroeber: “A característica mais notável da formação
de sintomas na paranóia é o processo que merece o nome de projeção. Uma percepção interna é
suprimida e, ao invés, seu conteúdo, após sofrer certo tipo de deformação, ingressa na consciência
sob a forma de percepção externa.” (“Notas Psicanalíticas sobre um Relato Autobiográfico de um
Caso de Paranóia (Dementia Paranoides)”, Standard Brasileira, vol. XII, p. 89, 1911.)
Esta seria a visão clássica, argumentada geralmente quando nos referimos ao conceito
freudiano de projeção.
Neste mesmo artigo, porém, Freud descreve três operações, ao se referir à defesa paranóide:
repressão de um sentimento de amor, retorno do amor em seu contrário (o ódio) e responsabilização
do ódio ao objeto que havia originalmente suscitado amor. “Eu não o amo — eu o odeio, porque
ELE ME PERSEGUE” (op. cit., p. 86). Observe-se que nesta defesa paranóica somente esta última
é possuidora do mecanismo projetivo.
Freud refere-se a mecanismos projetivos na neurose fóbica em seu famoso Caso do Pequeno
Hans (“Análise de uma Fobia em um Menino de Cinco Anos”, Standard Brasileira, vol. X, p. 15,
1909), mecanismos estes aplicados também em relação a idéias de milagres acontecidos, idéias
mágicas e crenças de pressentimentos e premonições, que ocorriam com o menino. Explicitamente,
Freud fala da ruptura de conexões causais, por retirada de afeto, que “parecem persistir em algum
tipo de configuração muito vaga [...] sendo, por um processo de projeção, assim transferidas para o
mundo externo, onde são testemunho daquilo que foi apagado da consciência” (op. cit., p. 232/233).
Mas num artigo pouco citado para o estudo da projeção como é Totem e Tabu (Standard
Brasileira, vol. XIII,. p. 20, 1913), Freud expõe algumas facetas interessantes em relação a este
mecanismo, com importantes conseqüências clínicas. Referindo-se a um mecanismo explicativo por
meio do qual, nos povos primitivos, as almas dos que morreram “são transformadas em demônios e
há necessidade, sentida pelos sobreviventes, de proteger-se de sua hostilidade através de tabus” (op.
cit., p. 82), vincula pela primeira vez a ambivalência afetiva à projeção. “A defesa contra ela [a
hostilidade] assume a forma de deslocá-la para o objeto da hostilidade, ou seja, para os próprios
mortos. Esse procedimento defensivo, comum tanto na vida mental normal quanto na patológica, é
conhecido como projeção” (op. cit., p. 82).
Numa notável passagem de enorme valor psicopatológico, Freud refere-se às vantagens
oferecidas por este mecanismo:
“A hostilidade, da qual os sobreviventes nada sabem e, além disso, nada desejam saber, é
expelida da percepção interna para o mundo externo, sendo assim desligada deles e empurrada para
outrem. Não se pode dizer que estejam alegres por se haverem livrado do morto; pelo contrário,
estão de luto por ele, mas, é estranho dizê-lo, ele transformou-se num demônio perverso, pronto a
tripudiar sobre os seus infortúnios e ansioso por matá-los. Torna-se-lhes, então, necessário aos
sobreviventes defender-se contra o inimigo malvado; aliviaram-se da pressão provinda de dentro,
mas apenas a trocaram pela pressão vinda de fora.” (Op. cit., p. 84.)
Além de sublinhar as vantagens do alívio da tensão psíquica e a transformação de interno em
externo que o mecanismo projetivo oferece, Freud mostra, num pequeno parágrafo, uma
característica nem sempre lembrada do mecanismo projetivo:
“Está fora de discussão que esse processo de projeção que transforma um morto num
inimigo maligno, pode encontrar apoio em quaisquer atos reais de hostilidade de sua parte 30, os
quais podem ser relembrados e sentidos como rancor contra ele: sua severidade, seu amor ao poder,
sua injustiça, ou qualquer outra coisa que possa estar por trás até mesmo das relações humanas mais
ternas” (op. cit., p. 84/85).
Observe-se que, aqui, as características reais do objeto servem de apoio e desculpa válida
para a atribuição a ele do que é esquecido ou suprimido no sujeito.
Tal como se deu com muitos outros temas, Freud não construiu uma teoria geral da projeção,
embora reconhecesse que fazia parte da normalidade do sujeito. No texto de Totem e Tabu, e ao
articulá-lo com estudos da magia e do animismo, ele parece sugerir que a projeção está na base do
psiquismo e, como tal, teria relação com a gênese do aparelho psíquico, mas que depois o
mecanismo projetivo não mais se apresentaria.
Laplanche e Pontalis, ao percorrerem os diversos sentidos adquiridos para Freud pelo termo
“projeção”, concluem que o termo aparece sempre como uma defesa.
Mas não resta a menor dúvida de que há toda uma complicada gênese do Ego (e, em conseqüência e
simultaneamente, do não-Ego), onde o mecanismo projetivo intervém fundamentalmente (Ver:
Laplanche e Pontalis: “Projeção”, e Freud: “Os Instintos e Suas Vicissitudes” e “O Narcisismo:
Uma Introdução”).
De qualquer modo, o psicopatologista não deverá perder de vista estes dois aspectos
fundamentais do mecanismo projetivo:
como alívio de tensão interna (defesa) e como uma tendência original primitiva de estruturar o
mundo que nos rodeia à imagem e semelhança de nosso mundo interior. Ou seja, projetando- nos.
Seguindo as idéias de Freud sobre projeção e animismo, observemos que à medida que o
aparelho psíquico evolui — e que, portanto, os vínculos se relativizam, saindo da especularidade
narcísica — a tendência ao uso da projeção, sem desaparecer totalmente, é substituída e de certa
forma compensada pela experiência ativa, objetiva, do sujeito no mundo exterior.

30
Grifo do Autor.
Por esta razão, o mecanismo projetivo tem sido estudado preferentemente nas neuroses,
onde uma parte do psiquismo trabalha com o Princípio do Prazer e o mundo exterior tende a ser
observado sob a coloração afetiva do mundo interior.
Como fazendo parte de um amplo espectro de possibilidades, o mecanismo projetivo
também aparece em estados “normais”: irritação por frustração, cansaço, alcoolismo leve, etc.
Passado esse estado transitório passa também a tendência projetiva.

Repressão, Recalque
Ver capítulo referente (ver p. 188).

Deslocamento
Trata-se de um mecanismo de defesa relativamente simples e que se vincula aos Processos
Primários (ver p. 136), assim como foi intensamente estudado na formação dos sonhos (ver p. 165).
Consiste em que as características ou atributos de um determinado objeto são transladadas (também
se diz, significativamente transferidas) a outros objetos que se encontram articulados ao primeiro
por um elemento, comum. Este elemento comum — seguindo regras do associacionismo clássico
—, é deslocado por analogia ou simultaneidade, também chamada, às vezes, de contiguidade.
Assim, por exemplo, a fobia clássica do pequeno Hans é manifestada pelo temor que o
menino tem de cavalos. O estudo de Freud demonstra que o objeto-cavalo possuía atributos para
deslocar sobre si mesmo atributos temidos do pai do menino: tamanho, força, incontrolabilidade
muscular, possibilidade de ataque, etc.
As fobias são o campo de estudo mais importante, psicologicamente falando, do mecanismo de
deslocamento, já que, esquematicamente mostra o pequeno Hans, evita-se um objeto perigoso, e por
isso temido (o Pai), e passa-se a sentir medo de um outro, que pode facilmente ser evitado. Existe
uma vantagem adicional, que é o fato de que o mecanismo de deslocamento permite manter os
vínculos com o objeto primitivo.
Deveremos ressalvar que nunca o deslocamento atua isoladamente, já que, para poder
deslocar, primeiro ou simultaneamente, deve-se projetar, intervindo, em ambos os casos, o recalque
como articulador.
Por vezes, o mecanismo de introjeção também é instrumentalizado pelo Ego e — como no
pequeno Hans — a regressão parcial também intervém, já que ele tinha medo que “os cavalos o
mordessem”.
Uma característica importante do mecanismo de deslocamento é sua extrema facilidade em
“se deslocar”. Com efeito, um fóbico pode ter uma monofobia, mas o mais freqüente é que possua
várias e que, em certas ocasiões, tudo lhe produza medo (pantofobia).

Regressão parcial

Denominamos assim condutas que, evolutivamente, têm sido superadas pelo sujeito.
É um mecanismo sumamente freqüente que é ativado cada vez que o sujeito apresenta um
conflito que não consegue resolver. Produz-se, então, uma atualização de velhas organizações de
conduta, geralmente aquelas onde o conflito poderia ter sido resolvido. Mas estas reativações
trazem à tona as organizações primitivas infantis do sujeito.
A reatualização de condutas infantis nunca é especular e idêntica ao que era na sua infância,
já que estas condutas estão combinadas e entremeadas de aquisições atuais; sempre existe, porém,
um certo estilo organizativo que permite reconhecer um modo não adulto e distônico com o resto da
personalidade.
Nas crianças e nos adolescentes, os mecanismos de regressão são muito mais dramáticos,
reemergindo sintomas perante, às vezes, banais circunstâncias traumáticas (criança que volta a
urinar na cama, após o controle dos esfíncteres, quando precisa enfrentar a entrada na escolaridade).
A regressão, como muitos outros mecanismos, faz parte da vida normal do sujeito. Assim,
por exemplo, o ato de dormir, cotidiano, explica-se por este mecanismo. Mas o que nos interessa é a
regressão a diversos pontos do desenvolvimento, pontos que chamamos de fixação, em redor do
qual se organizam determinadas estruturas psicopatológicas, relativamente estereotipadas,
outorgando um estilo peculiar à conduta do paciente.
A regressão pode ser parcial ou total, correspondendo a primeira às que entram na categoria
dos níveis neuróticos. A regressão total é, em certo sentido, uma metáfora, já que nunca existe como
um absoluto, nem no mais profundo estado psicótico. Sempre haverá nele estruturas de diversos
níveis de regressão, alternando-se.

Introjeção

Mecanismo originalmente descrito por Ferenczi, que faz parte importantíssima, juntamente
com a projeção, do desenvolvimento normal do aparelho psíquico.
Consiste na assimilação, por parte do sujeito, de atributos ou qualidades de um determinado
objeto exterior.
Enquanto para uma criança em desenvolvimento este mecanismo enriquece o Ego, no adulto
é geralmente usado como defesa, criando verdadeiros espaços interiores onde o sujeito se relaciona
vinculando-se com sua fantasia, em prejuízo de um contato mais intenso com a realidade exterior.
O campo onde tem sido mais intensamente estudado o processo introjetivo é o de todos os
processos de luto e, sobretudo, daqueles que conduzem à melancolia. Tomando como modelo os
processos de luto, observa-se que a perda do contato com o objeto amado pelo sujeito, aquele — o
objeto — é “incorporado” ao espaço intrapsíquico, passando o sujeito a ter algumas características
do objeto perdido.
Se as características totais ou parciais do objeto perdido tomam conta, invasoramente, do
sujeito, e este se comporta “como se” fosse realmente o objeto perdido, dir-se-á que ocorreu um
fenômeno de identificação introjetiva, fazendo parte então dos processos psicóticos.
Fazendo parte dos processos psicossexuais evolutivos, a introjeção tem especial relevância
na formação do Superego. Com efeito, entre os 3 e 5 anos de idade, tanto meninos quanto meninas
“perdem” o objeto exterior — pais, devido à proibição do incesto, e incorporam-nos
intrapsiquicamente. (Ver p. 74 e segs.)

Isolamento

O isolamento é um mecanismo que consiste em evitar-se a contaminação com um objeto


perigoso.
Visto sob o plano motor, dissocia a possibilidade de tocar a representação mental ligada ao
afeto desagradável que traria o toque do objeto.
Geralmente, o isolamento faz parte da já que aqui os processos de recalque não são
suficientes para manter inconscientes as representações causadoras de desprazer que retomam
permanentemente.
Desta forma, e mediante o mecanismo de isolamento, reprojeta-se a situação temida,
ritualizando-se o contato com o objeto representativo do recalcado.

Inibição
Trata-se de um déficit parcial ou total de uma determinada função egóica.
Fenomenologicamente, corresponde às funções ligadas às representações recalcadas ou
isoladas.
Classicamente, faz-se uma diferença entre uma conversão somática e uma inibição.
Enquanto nesta existe uma ausência da função normal, na conversão existe um transtorno, por
transformação da função somática afetada.
Formação reativa
É o mecanismo de defesa que leva o sujeito a efetuar o que é totalmente oposto àquilo
inconsciente que se quer rejeitar. Assim, por exemplo, tendências agressivas contra determinado
objeto provocam, reativamente, uma extrema solicitude para com o mesmo.
Pertence também às organizações obsessivas, e, como tal, é dependente das fixações anais
do sujeito, sendo observada preferencialmente durante o período de latência. Neste período, todo o
sistema ético de valores familiares e culturais atua como formações reativas das pulsões eróticas
que o menino reprimiu por efeito da proibição edípica.

Sublimação
Como já verificamos, a sublimação é considerada por alguns autores — como Fenichel —
como um mecanismo de defesa “bem-sucedido”.
Mas, tal como expressa Bergeret, pode-se considerar a sublimação como um mecanismo de
defesa não verdadeiro. (Bergeret, 3. — Abrégé de Psychologie Pathologique, Masson et Cie. El.,
Paris, 1975.) A polêmica continua ainda hoje e não é facilmente solucionável.
Consider-ase a sublimação como adaptação lógica e ativa das pulsões do id, que,
harmonizadas com o Superego, se satisfazem tanto em proveito do aparelho psíquico quanto das
normas que regem o contexto social.
O processo de sublimação implica um grau de abandono do objetivo original da pulsão e,
portanto, abandonam-se as relações estreitas que a pulsão tinha com a sexualidade. A pulsão, por
um processo complicado de transformações, escolhe uma nova finalidade, conciliando, sob o
comando do Princípio da Realidade, as exigências do Superego com as do Id.
Originalmente, Freud descreveu como atividades sublimadas a atividade artística e a
investigação intelectual. Existiriam tantos tipos de sublimação quantos níveis ou etapas de evolução
psicossexual.
Nem sempre são claras as diferenças entre uma formação reativa e uma sublimação. Mas,
enquanto nesta última as atividades proporcionam imenso prazer, benéfico tanto para o sujeito
quanto para seu meio ambiente, na formação reativa existe um caráter forçado e por vezes
compulsivo que desperta angústia ao ser deixado de lado. O exemplo típico é qualquer espécie de
trabalho. Se o sujeito pode deixá-lo, desfrutando periodicamente de seu tempo livre, o trabalho
tenderá a ser visto como uma atividade sublimada.
Deveremos reconhecer, com Laplanche e Pontalis, que a teoria psicanalítica apresenta
lacunas importantes no que se refere ao mecanismo de sublimação.

Negação (Negativa)
Em alguns textos, este típico mecanismo de defesa é conhecido com o nome de
“Denegação”.
A negativa consiste no uso, na linguagem falada, da partícula NÃO.
Deste modo, um determinado conteúdo recalcado é admitido na consciência,, mas com a
condição de negá-lo. Implica uma função de rejeição daquilo que, simultaneamente, se admite.
A negação é o mecanismo herdeiro do recalque, já que, quando o aparelho psíquico permite
a entrada parcial no espaço consciente daquilo que foi previamente reprimido, o sujeito ativa este
mecanismo de ordem lógica, conciliando a tendência que leva a aceitar o conteúdo e a outra, oposta,
que tende a rejeitá-lo.
O mecanismo de negação é estudado tanto pelos lógicos quanto pelos psicanalistas, já que
geralmente a tomada de consciência de um determinado aspecto da realidade psíquica manifesta-se
pela rejeição (negação) deste conteúdo. Justamente, durante o percurso da cura típica, uma das
melhores provas da queda parcial das barreiras do recalque consiste no estudo da fala dos pacientes,
que expressam: “Não, jamais pensei isso”.
O famoso artigo de Freud de 1925 (“A Negativa” — Standard Brasileira, vol. XIX, p. 291)
mostra que a capacidade do sujeito de dizer “não” é a base dos processos intelectuais de
pensamento. Com efeito, negar uma coisa leva a julgá-la.
Identificação Projetiva
Mecanismo de defesa descrito por Melanie Klein (Developments in Psycho-Analisis),
consiste em que o sujeito se introduz, parcial ou totalmente, no interior do objeto, com a finalidade
de controlá-lo, possuí-lo e feri-lo.
Algumas características da identificação projetiva descritas por Melanie Klein têm sido de
particular importância para a compreensão dos processos arcaicos do desenvolvimento psíquico e,
em especial, das organizações psicóticas.
Por sua importância, frisaremos que algumas dessas características, sistematizadas por
Marialzira Perestreilo e outros (Evolução do Conceito de identificação Projetiva, Sociedade
Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, 1979, p. 14):
1. A IP é o protótipo de uma relação objetal agressiva em que existe um desvio desde partes
do sei! à Mãe. O bebê por tal razão, sente a Mãe como uma perseguidora.
2. A IP consiste num processo de cisão de partes do seu e sua projeção dentro dos objetos
que passam a se identificar com essas partes.
3. Uma excessiva cisão e expulsão destas partes do seu enfraquecem-no, já que os
componentes agressivos estão intima- mente vinculados a qualidades desejadas.
4. O que se expulsa não são somente partes frustradas, más, do self. Também partes boas,
gratificadas, são projetadas.
Este último aspecto foi retomado por diversos autores neokleinianos, para elevar o
mecanismo de identificação projetiva ao nível do mecanismo essencial no desenvolvimento do
aparelho mental.
O mecanismo de identificação projetiva é típico das organizações psicóticas da
personalidade, encontrando-se presente, em forma prototípica, na despersonalização, na
claustrofobia grave, e em todos aqueles estados que impliquem certa desorganização das estruturas
mais adaptativas ou neuróticas.
Porém, como frisamos anteriormente, alguns autores, como por exemplo Grimberg e
Liberman, consideram a identificação projetiva como parte dos processos emocionais normais do
sujeito: “O sujeito produz, sempre, alguma ressonância emocional no objeto, pela atitude com que
se apresenta diante dele, pela forma com que o olha e lhe fala, pelo conteúdo do que diz ou de seus
gestos, etc.” (Grimberg, L. & Liberman, D. — “Identificación Projectiva y Comunicación en la
Situación Transferencial”, em: Psicoanalisis de la Mania y la Psicopatia, Ed. Paidós, 1•a ed.,
Buenos Aires, 1966, p. 109.)
Mas o conceito de identificação projetiva foi mais estudado e se revela mais útil —
operativamente falando — dentro dos quadros das psicoses, assim como nas perversões ou nos
quadros borderline.
Em todos esses quadros, têm-se descrito identificações projetivas que, por sua qualidade,
foram denominadas identificações projetivas “violentas”. Entende-se por este termo uma reativação
descoordenada de excitações de diversas zonas eróticas que exigem veementemente gratificação
imediata. Isto faz com que as identificações projetivas violentas tenham fortes efeitos sádicos,
provocando, entre outras coisas, confusão em vários níveis, tanto de zonas quanto de fantasias.
A identificação projetiva, assim observada, permite seu estudo como um mecanismo
evacuatório fisiológico anal. Desta maneira, o aparelho psíquico “evacua” objetos altamente
persegui- dores e tensões altamente constrangedoras.
Donald Meltzer tem insistido que, nos casos de psicoses, a identificação projetiva é tão
violenta que pode “fabricar” orifícios para penetrar no objeto. (Meltzer, D., The Psycho-Analytical
Process, William Heineman Medical Books, Londres, 1966.)

Divisão
Ver capítulo referente (p. 190).

Renegação (Forciusion)
Ver capítulo referente (p. 61, 79, 188-190 e 202 e segs.).
Regressão Total
Ver “Regressão Parcial” (p. 214).

Identificação Introjetiva
Ver “Introjeção” (p. 215).