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Revista Litteris – n.

21 - Julho de 2018

A INICIAÇÃO DA CRIANÇA PELOS SEUS RITUAIS NO TERREIRO1

Elder Ribeiro2
Laise Cavalcante3
Thamires Conceição4

Resumo: Este artigo tem como objetivo apresentar alguns aspectos da vida no Terreiro – Ilê Asé
Ogunté Mariô, focando na narrativa da mãe-de-santo Sônia de Ogum e na iniciação de algumas
crianças, investigando alguns aspectos ritualísticos. Diante das tensões envolvidas nas leituras da
pesquisa, tenciona-se resgatar, documentar e retratar a historicidade da Ialorixá Sônia de Ogum, em
consonância com a sua trajetória social, até a sua iniciação no Candomblé. Neste artigo, é possível
observar as escrevivências da iniciação dos filhos biológicos de Mãe Sônia de Ogum, sobretudo,
também, a iniciação de seus filhos de santo. Trata-se de um estudo de caráter etnográfico que
posiciona a Antropologia Cultural e Educacional dentre os intelectuais mais importantes do país,
como as reflexões levantadas sobre Educação nos Terreiros da pesquisadora e docente da UERJ –
Stela Guedes Caputo. Nesse sentido, a iniciação da criança no Terreiro demonstra a importância da
memória e da educação na definição da cultura religiosa e das reflexões dos rituais levantados no
Terreiro.
Palavras-Chave: Etnografia. Diálogo. Iniciação. Crianças. Terreiro.

Abstract: This article aims at introducing the life inside TheTerreiro - Ilê Asé Ogunté Mariô,
focusing on the narrative of the mother-of-saint Sônia de Ogum and the initiation of some children,
investigating some customs. Faced with the tensions involved in the research readings, it is intended
to rescue, document and portray a historicity of Ialorixá Sônia de Ogum, in keeping with its social
trajectory, to its initiative, not Candomblé. In this article, it is possible to observe some writings of
the initiative of the biological children of Mother Sônia de Ogum, especially, also, an initiative of
their children of saint. It is an ethnographic study that positions Cultural and Educational
Anthropology among the most important intellectuals of the country, as well as reflections raised on
Education in Terreiros of the researcher and teacher of UERJ - Stela Guedes Caputo. In this sense,
an initiative of the child without Terreiro demonstrates an importance of the memory and the
education in the definition of the religious culture and the reflections of the rituals raised in the
Terreiro.
Keywords: Ethnography. Dialogue. Initiation. Children. Terreiro.

Artigo recebido em: 08/04/2018 Aprovado em: 19/09/2018

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Artigo submetido acompanhado de parecer favorável do orientador Profº Ms. Jackson Santos dos Reis.
2
Elder Pereira Ribeiro ─ Acadêmico do Bacharelado Interdisciplinar em Cultura, Linguagens e Tecnologias
Aplicadas ─ UFRB, Campus: Cecult. / E-mail: elderribeiro97@gmail.com / E-mail alternativo:
elderribeiro97@hotmail.com / Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1109544421163427
3
Laise Cavalcante Oliveira ─ Acadêmica de Licenciatura em Computação no Instituto Federal de Educação,
Ciência e Tecnologia da Bahia ─ IFBA, Campus: Santo Amaro. / E-mail: laisecavalcante222@gmail.com
4
Thamires Damasceno Estrela Conceição ─ Acadêmica do Bacharelado Interdisciplinar em Cultura,
Linguagens e Tecnologias Aplicadas ─ UFRB, Campus: CECULT – Santo Amaro. / Currículo Lattes:
http://lattes.cnpq.br/4875553005156615 / E-mail: mireestrela@yahoo.com.br

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Introdução

A equipe, no momento em que fez sua primeira entrada no terreiro, parou para
conversar e conhecer a Ialorixá Sônia de Ogum.
No caminho em direção ao terreiro avistamos os bambuzais, plantas sagradas que
pertencem ao orixá Iansã, muitos atiçais (árvores sagradas) Irokô, Ossayn, Iyami e Dankô5 -
a todas elas a equipe pediu mojubá, isso é, humilde respeito. Avistamos também o igbá asé
(assentamento)6 do orixá Odé como guardião do Ilê Axé Ogunté Mariô.
Ao passarmos pela porta de entrada do terreiro, a ialorixá Sônia de Ogum nos
apresentou os orixás assentados, a Casa dos Exús, a Casa de Oxumaré, a Casa de Ossayn, a
Casa de Omolu, a Casa de Oxalá, a Casa de Balé, a Casa de Ogum Xoroqué e Ogun dos
Astros.7
A equipe, no intuito de perceber os agentes envolvidos, procurou, através da
pesquisa etnográfica, captar esse movimento cultural na religião do candomblé. A pesquisa
surge para entender o que é preciso saber “que a etnografia é o método próprio de trabalho
da antropologia em sentido amplo, não restrito (como técnica) ou excludente (seja como
determinada atitude, experiência, atividade de campo)” (MAGNANI, 2009, p. 336).
Para reforçar o que Magnani fala sobre etnografia e pesquisa de campo, podemos
analisar o exemplo prático experimentado por Goldman (2003), sobre o que é pesquisa de
campo e a etnografia:
Num registro menos acadêmico, sempre imaginei que as técnicas de trabalho de
campo que utilizei em Ilhéus se assemelhavam muito ao que se denomina, no
candomblé, “catar folha”: alguém que deseja aprender os meandros do culto deve
logo perder as esperanças de receber ensinamentos prontos e acabados de algum
mestre; ao contrário, deve ir reunindo (“catando”) pacientemente, ao longo dos
anos, os detalhes que recolhe aqui e ali (as “folhas”) com a esperança de que, em
algum momento, uma síntese plausível se realizará. (GOLDMAN, 2003, p. 455).

5
Todos os termos relacionados ao culto estão inseridos no glossário.
6
Assentamento é onde são colocados apetrechos e fetiches inerentes a cada um deles na feitura de santo.
7
Os termos relacionados à Casa dos Orixás estão inseridos no glossário.

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1. A Mãe de Santo Sônia

Sônia Oliveira Sena nasceu em 22 de junho de 1964 na cidade São Francisco do


Conde – BA. Mais conhecida como Mãe Sônia de Ogum, foi iniciada para o orixá Ogum e
recebeu deká (posto de ialorixá) do ilê axé ogunté mariô, terreiro fundado e inaugurado em
2002. Tendo como Mãe Dionísia de Oxóssi a sua iniciadora na religião, e recebeu o seu
Deká (posto de sacerdote) pelas mãos de Mãe Carlita – Obá Afonjá, todas as suas ialorixás
moradoras da região de São Francisco do Conde.
Mãe Sônia relata que aos 7 anos de idade já manifestava o orixá e os mais velhos da
religião candomblecista comentavam que Sônia teria que cuidar do orixá. Ela morava com
sua tia Lourdes no bairro Ogunjá, na cidade de Salvador, gostava muito de missa nas
igrejas católicas e estudava na Escola Marista Sacramentinas. Aos 13 anos de idade teve
episódios envolvendo problemas de saúde, violência e agressão, devido a sua não aceitação
do seu dono de orí (cabeça). Mãe Sônia comenta que seu pai era sacerdote de orixá e sua
mãe biológica vivia em circunstância de vulnerabilidade social marcada pela perda de uma
filha. Sua mãe, que não era iniciada, resolveu seguir a vida no candomblé na perspectiva de
melhorar as suas condições.
Mãe Sônia relata, também, que voltou para Salvador para trabalhar de doméstica
porque estava desempregada em São Francisco do Conde – Ba. Com o passar dos anos,
Sônia de Ogum conheceu a Mãe Carlita e solicitou imediatamente que fosse ao Jogo de
Búzios ver os caminhos dela. Diante disso, a Mãe Carlita acabou gostando da presença de
Sônia no terreiro.
Perante o Jogo de Búzios, Mãe Carlita teve visão de que o orixá Ogum, dono da
cabeça de Sônia, estava solicitando que ela recebesse o Deká (em obrigação de 7 anos
recebesse uma cabaça com todos os preceitos que confirmará presente ao público que esta
pessoa, a partir do momento, será um pai de santo ou mãe de santo ou, como melhor
chamam, zeladores de orixá) e foi dito certo, a Sônia passou a ser a Mãe Sônia iniciada aos
16 anos de idade – zeladora do Ilê Axé Ogunté Mariô.

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Nesse vai e vem, Sônia pagou, primeiramente, o Odu Ekini (obrigação de 1 ano),
depois o seu Odu Itá (obrigação de 3 anos) e com 14 anos de Idade veio a pagar o seu Odu
Ijê (obrigação de 7 anos). Assim, Mãe Sônia de Ogum foi construindo a sua trajetória no
Axé. Portanto, ficou conhecida como Sônia Mangabeira - o nome ‘’Mangabeira’’ era
devido a ser o apelido de seu pai.
A Mãe Sônia tem 9 filhos de santo iniciados – raspado, catulado e dado o nome na
praça8, nomeação essa que se dá ao novo iniciado na tradição candomblecista. Mãe Sônia
tem também vários filhos de santo Abiãn (pessoa que entra no Candomblé e que ainda não
é iniciado) na religião, mas que foi borizado9 e está conhecendo o terreiro para ser iniciado
totalmente ao orixá.
Mãe Sônia é uma mulher de muita fé, tem garra e dedicação ao culto do candomblé,
em especial, amante das folhas e tem fé nos ventos, no tempo. Entretanto, conta Mãe Sônia
que no Candomblé prevalece humildade e dedicação aos mais velhos. Nessa encruzilhada
de conversas Mãe Sônia comenta “quantidade não é qualidade”, que o pouco com Deus é
muito e o muito sem Deus não é nada.
Mulher de candomblé, mãe de família cujo valor histórico e religioso sofreu muito
na vida para ser o que é hoje, sendo assim, uma das maiores sacerdotisas do candomblé de
São Francisco do Conde. Três orixás que a Mãe Sônia ama muito: Ogum é o senhor da
guerra, da luta, da batalha, grande guerreiro, corajoso e ferreiro, seu dia é terça-feira;
Xangô é o senhor do fogo e dos trovões, seu dia quarta-feira e; Oxum é a senhora das águas
doces, dona da fertilidade e da vaidade, seu dia é sábado.

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No Ritual de Iniciação define a pessoa como iniciado após ter passado pela raspagem, ou seja, toda e
qualquer nação de candomblé se raspa a cabeça do novo iniciado, pois deixasse as coisas negativas para trás e
naquele momento o novo iniciado irá ter em seu orí (cabeça) um orixá. Na Catulagem são simbologias feitas
em tiras e em cruz no braço do novo iniciado, de acordo com as contagens do Orixá, por exemplo, a pessoa
que é iniciada de Iansã tem 9 marcas no braço, pois representa a contagem de Iansã que é o “Odu Ossá Mejí”
(Caminho do Orixá). Diante disso, o nome na praça é o dia em que o Orixá do novo iniciado irá dar o Orunkô
(nome do orixá) em voz alta, para que a partir daquele momento as pessoas saibam que ele é um Vodunci
(iniciado na religião, aquele que passou por todos os processos de iniciação no terreiro).
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Borizado é a pessoa que já tomou o Bori. O Bori é um ritual de alimentar o Orí (cabeça) do indivíduo no
candomblé.

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Mãe Sônia comenta ‘’Não existe riqueza no reino dos orixás, existe axé – tudo de
bom’’. Ela ainda ressalta que os orixás protegem toda a família na hora da dor, da angústia,
e de tudo que eles necessitam, a fé nos orixás move montanhas, portanto, as pessoas da sua
família recebem todas as graças. Como pode se observar abaixo um dos momentos
dolorosos que foi marcante na vida dela:
Foi quando o seu filho Alex teve um acidente que desencadeou uma fratura no pé e
foi direto para o Hospital HGE em Salvador, chegando lá Mãe Sônia pediu melhoras aos
orixás para que o seu filho saísse daquela situação. Relatando sobre os momentos no
Hospital, Mãe Sônia destaca que após tal sua súplica aos orixás, o médico respondeu: seu
filho está bem, Mãe Sônia respondeu com tanta fé no orixá e naquele momento a porta se
abriu e ela pode acompanhar toda a cirurgia de seu filho Alex, dali então ela nunca teve
dúvidas de que o orixá estava presente acompanhando o filho, mas sim em todos os
momentos de sua vida. Sônia também comenta que ela está no Axé por necessidade e pela
salvação de seus filhos, filhos esses não só biológicos, mas que constantemente chegam a
sua casa em busca de amparo espiritual.
Mãe Sônia iniciou em seu terreiro seus dois filhos biológicos e um adotivo, o Alex
que com 6 meses de nascido o orixá deu o ilá, adobá e o jinká10. Foi iniciado para o orixá
Oxóssi com 17 anos, o Júnior de Obaluaiyê iniciado com 14 anos e o Joelson de Ogum
Xoroquê seu filho adotivo foi iniciado com 12 anos.

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Ilá – Grito do Orixá, Adobá – Deitar e Jinká – Salvar o terreiro.

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2. Crianças no terreiro de Mãe Sônia de Ogum


2.1 Emanuela Santos de Oxumaré - 13 anos

Frequenta o Terreiro Ilê Axé Ogunté Mariô da Ialorixá Mãe Sônia de Ogum. A Mãe
biológica Maria do Carmo comenta: ‘’desde que minha filha nasceu que ela convive entre
nós, mas aos 10 anos se aproximou mais daqui do terreiro’’.
Paramos para ouvir o que Maria Emanuela tem a dizer sobre um eventual
preconceito dos alunos em relação a ela como iniciada, a mesma nos respondeu que não,
mas que tem indivíduos com religiões diversas. Porém, pronuncia Emanuela – ‘’A
professora fala mal da religião’’, perguntamos se a mãe foi na escola, a Maria do Carmo
respondeu que ‘’ainda não esteve presente na escola, mas que os colegas sabem da religião
da filha’’.
De acordo com Emanuela na festa do Ogum de Mãe Sônia estava sentada e no
momento em que os orixás estavam tomando rum (dançando) entrou em transe. Mãe Sônia
de Ogum comenta que “o orixá Oxumaré da Emanuela dançou, salvou a casa e a mãe de
santo, e ao acordar do transe a mesma relata que “gostou de saber que tem um orixá’’.
A Mãe de Emanuela - Maria do Carmo tem 45 anos no axé de Mãe Sônia e 6 anos
de iniciada para o orixá Iansã. Maria do Carmo comenta que ‘’tenho duas filhas iniciadas,
uma menina Famotinha de Oxalá e uma Dofonitinha de Oxóssi 11, as duas não estavam
presentes no momento, mas ela quis falar das suas filhas que foram também iniciadas no
terreiro de Mãe Sônia.
A Mãe de Emanuela Maria do Carmo 12 não sabe como chegou até o terreiro de
Mãe Sônia, mas no momento em que fizemos a pergunta ela ficou tão emocionada que a
gente sentiu o amor próximo do terreiro, fizemos a segunda tentativa de perguntar como foi

11
O termo Famotinha é utilizado para designar a 4º pessoa da camarinha (espaço sagrado onde se inicia) e
Dofonitinha é a 2º pessoa da camarinha, estes nomes são geralmente usados para saber as ordens da pessoa
iniciada, tendo em mente a sua idade de santo e quem é mais velho ou mais novo no terreiro.
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As informações de como e porque Maria do Carmo chegou ao Ilê (Terreiro) não foram autorizadas.

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que ela chegou no terreiro. Dessa vez quem respondeu foi o orixá Iansã com o Ilá –
Heeeeeeeeeeeeys!
Posteriormente Mãe Sônia nos explica como foi à trajetória dela ao Terreiro.
Comenta, Maria do Carmo “a casa de ogum é tudo para a minha vida”. Ela comenta
também que “no início tinha 30 anos, daí inventava várias coisas para não ir ao terreiro da
Mãe Sônia, e por ironia do destino, o orixá quis ser iniciado neste terreiro”.
Em outro momento, Maria do Carmo conta “os meus filhos vinham comigo para
todas as obrigações de axé e daí eles foram se acostumando, já minha filha a Fabricia de
Oxum não queria ser iniciada, mas hoje é borizada (bori) aqui no terreiro”.
Assim, como em outros seguimentos religiosos, as crianças iniciadas no candomblé,
geralmente são colocadas na religião a partir da direção familiar dos adultos que se
envolvem na educação religiosa dos filhos levando-os consigo nas atividades do seu grupo
de atribuição. As crianças operam ativamente nos rituais religiosos, seja na solenidade
religiosa de iniciação, conquistando cargos hierárquicos ou como convidados nas festas,
sem impreterivelmente estar vinculado à religião (CAPUTO, 2012; SALES JR, 2013).

2.2 Maria Eduarda Silva de Ogum – 9 anos

Frequenta o Terreiro Ilê Axé Ogunté Mariô da Ialorixá Mãe Sônia de Ogum. A avó
Ana Cristina de Iansã comenta “o pai dela é pastor, mas eu crio desde que ela nasceu”.
Acentua também que é Ekedi confirmada para o orixá Ogum de Mãe Sônia, em segundo
momento se pronuncia “minha neta a Maria Eduarda vem me acompanhando em tudo que
vou fazer no terreiro, então ela aprende tudo com o passar do tempo, mas é eu que sou a
responsável por ela”.

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2.3 Lilian Santos de Ogum – 6 anos

Frequenta o Terreiro Ilê Axé Ogunté Mariô da Ialorixá Mãe Sônia de Ogum. A mãe
biológica Maria Eunice relata ‘’minha filha vem de vez em quando no terreiro, mas eu
estou aqui a 22 anos sendo iniciada pela minha mãe Dionísia a mesma que iniciou a Mãe
Sônia e tenho 22 anos de iniciada para o orixá Iansã, e minha filha vem acompanhando
comigo as festas e obrigações do terreiro de minha mãe Sônia de Ogum’’.

3. Rituais de iniciação da criança no terreiro Ilê Axê Ogunté Mariô e outros


aspectos ritualísticos do Candomblé

Iniciar-se no candomblé significa começar uma nova vida que será inteiramente
dedicada ao orixá. Significa constituir uma nova família, a família - de- santo. Tudo na vida
da pessoa muda, ela ganha, inclusive, um novo nome, como afirma Mãe Sônia de Ogum.
Para ser iniciado no Ilê Axé Ogunté Mariô o tempo de recolhimento na camarinha é o
mesmo tanto para o adulto como para uma criança ou adolescente.
A iniciação representa um renascimento onde tudo será novo. As crianças no
terreiro desempenham funções como os adultos, recebendo um nome que passará a ser
chamado dentro da sua comunidade do candomblé.
Fazer o santo tenciona em um processo ritualístico na pessoa em relação com os
ancestrais divinizados que incorporam no orí (cabeça) do iniciado, como mostrou Goldman
(1985), e o outro corpo (Igbá Orí) destes ancestrais divinizados, os altares (assentamentos)
(SANSI, 2005).
O processo de iniciação não constitui um rompimento na vida das crianças, porque
as crianças muito bem antes de serem iniciadas, já se encontram de alguma forma
familiarizadas com as atividades dos terreiros. Com inúmeras brincadeiras infantis que são
indispensáveis para a construção de um cotidiano religioso. Essas crianças aprendem desde

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a preparação de ebós (limpeza de corpo), ajeum (comida), passando assim a ter certa
familiaridade com o seu próprio terreiro de iniciação.
Na maioria das vezes, as crianças ensinam os adultos no caminho religioso; “se um
adulto chega ao terreiro para começar a aprender a religião, uma criança já iniciada pode
perfeitamente ser responsável por lhe passar os ensinamentos” (CAPUTO, 2012, p. 72).
Este processo subverte a lógica em que a criança está aprendendo e o adulto ensinando,
destacando a capacidade das crianças como sujeitos diligentes no processo de progresso
pessoal e na distribuição cultural com os adultos.
Sobre como acontece a introdução no Candomblé, Mãe Sônia de Ogum relata “antes
das crianças serem iniciadas no terreiro vou ao jogo de búzios para saber exatamente se as
crianças precisam ser iniciadas ou não”. Esse é m dos procedimentos que ela faz para saber
se alguém deve ser iniciado. De outro modo, a Mãe Sônia relata que “na maioria das vezes
quando as pessoas vão às festas dos orixás entram totalmente em transe profundo”.
De acordo com Mãe Sônia esse processo chama-se de ‘’Bolar no Santo’’ e é perante
a festa em público que o orixá quer que o filho seja iniciado, diante disso, os babalorixás e
as ialorixás vão ao jogo de búzios saber qual é o orixá do seu novo filho, principalmente,
olhando as condições do individuo, se o filho pode esperar ou se é caso de urgência.
Beniste (2001) também esclarece que bolonãn (bolar no santo) é a primeira
manifestação de um Orixá num individuo e que ocorre geralmente de forma bruta e sem
qualquer previsão.
Pode ser durante uma festa ao se cantar para um determinado Òrìsà; a pessoa é
vítima de tremores e sobressaltos, caindo no chão inconsciente. Este momento é
visto como um apelo do Òrìsà à iniciação. Bolar vem de embolar, e é uma forma
alterada do yorubá Bólóna(n), Bó, cair + lónan(n), no caminho. Nesses casos, a
dirigente a cobre com um pano branco e ela é carregada para o interior da casa.
Lá é desvirada e comunicada. Se desejar, já permanecerá para a iniciação. Na
maioria das vezes volta para casa, ficando o assunto para ser decidido mais tarde.
(BENISTE, 2001, p.163).

Segundo Mãe Sônia, “a primeira fase da iniciação ou feitura no santo na nação ketu
é de 21 dias onde as crianças ficam em retiro longe da vida profana, da família e dedicam-

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se aos ritos de passagem, na maioria dos casos as pessoas que estão sendo iniciadas são
geralmente filhos de indivíduos que já são iniciados em seu terreiro”. A Mãe Sônia
reafirma que “todo ritual da iniciação não é público”. “O ritual de iniciação só pode ser
realizado por uma pessoa mais velha no santo, isto é, que já foi iniciada na religião e que
tenha recebido o Deká (posto de sacerdote) na obrigação de 7 anos”.
O iniciado desperta o poder, que habita no seu interior para favorecer a
compreensão de si, seguindo as regras dentro da sua comunidade. Gorski (2012, p. 59)
afirma que, após este ritual o iaô está concretamente iniciado, porém continua na
liminaridade, com todas as restrições e agora mantendo a cabeça baixa em todo momento,
não podendo dormir de barriga para cima, pois pode atrair espíritos ruins, já que está com o
corpo aberto pelas curas e com a divindade próxima.
De acordo com Mãe Sônia, “as crianças são recolhidas para ser Iaô, Ogan ou Ekedi,
esse processo só é resolvido no momento interno da iniciação”. Se a criança entrar em
transe será um “Iaô elegun”, se não entrar em transe completamente e a criança for homem
será um “Ogan”, se for uma mulher será uma “Ekedi”.
Iaô é a nomeação que se dá ao novo filho (a) de santo que foi feito para entrar em
transe com o orixá. Segundo Lima (1977/2003, p. 73), “iaô é o primeiro grau, por assim
dizer, de um longo caminho de promoções e de cargos, de responsabilidade, de
conhecimento e de poder”. Dentre as diversas coisas que um yawo necessita aprender,
saber ser possuída pelo santo é sem dubiedade primordial.

A possessão pelo Orixá não ocorre a qualquer instante, mas tende a ser
bastante disciplinada. O momento mais adequado, quase obrigatório, para
que ela se dê, é durante os cânticos específicos de cada Orixá. Os Orixás
são invocados numa ordem, não muito fixa, mas que se inicia sempre com
Exu e Ogum e termina com Oxalá, denominada Xirê. Desse modo,
espera-se que durante os cânticos dedicados a Xangô, por exemplo, os
filhos desse Orixá entrem em transe, pois as toadas ou zuelas, como são
usualmente chamados esses cantos, são um chamamento do Orixá.
(GOLDMAN, 1984, p. 126).

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3.1 Barco de Iaô

A Mãe Sônia esclarece que “a iniciação é feita apenas por um Yawo ou por
diversos”. Ela relata que “no terreiro chama-se de Barco de Iaô”. Quando o individuo entra
para fazer santo sozinho, passando assim a ser chamado de “Dofono quando for homem”, e
“Dofona quando for mulher”.

3.2 Ebós

De acordo com Mãe Sônia de Ogum os Ebós atuam como “limpeza espiritual que
contém vários tipos de comidas ritualísticas”. Relata, também, que é “uma limpeza feita
para a aura do individuo passando toda a negatividade para os alimentos com as ajudas dos
exús e dos orixás”.

3.3 Bori

Segundo Mãe Sônia de Ogum “o ritual de Bori é feito para alimentar a cabeça da
pessoa, melhorando as condições gerais e consagrando a cabeça do individuo, tendo ao seu
redor frutas, bolos, manjá, água de flor, vinho branco, flores, esses alimentos são oferecidos
aos orixás, e no meu terreiro mesmo uma pessoa não sendo iniciada e outras que são
simpatizantes da religião ao chegar na minha casa pode ser consagrado o Bori em seu orí
(cabeça), desde que os orixás de cabeça da pessoa me oriente como fazer e o que fazer no
ritual, de acordo com as necessidades espirituais de cada individuo.”

3.4 Camarinha
Segundo Mãe Sônia de Ogum a camarinha “é o espaço onde as pessoas são
iniciadas, orientadas, desde a hierarquia até os preceitos que são passados a cada dia e só
apenas pessoas iniciadas que podem participar ou visitá-los, mas em segundo plano quando

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a criança é filho de alguém já iniciado no meu terreiro as relações tornam-se mais afetivas
devido as aprendizagens que trocam de pai para filho, mas quando os pais não são iniciados
tem momentos que a criança pode ficar no salão do terreiro e os pais podem ver o seu filho
rapidamente, mas sem tocar neles e antes de entrar tem que tomar os banhos de ervas para
retirar toda a negatividade, pois a criança que está sendo iniciada está com o corpo limpo
porque passou por todos os processos de limpeza e preceitos da religião”.

3.5 Orô

Segundo Mãe Sônia de Ogum o Orô “é um ritual interno da religião onde se


sacraliza e firma o orixá no ori da criança”.

3.6 Sassanha

De acordo com Mãe Sônia de Ogum o termo Sassanha “é o encantamento dos ewés
(folhas) dos orixás, as folhas são o nosso fundamento dentro da religião, é nas folhas que se
cata buscamos todas as energias boas para fluir no corpo do individuo e passamos assim
essa tradição oral aos nossos filhos, por exemplo, uma das folhas que utilizamos em meu
terreiro é a folha da costa – folha de oxalá que nos acalma, nos tranquila, a outra é
favaquinha – nos dá condição de vermos as coisas fazendo certos preceitos ela clareia a
nossa mente e a cabeça – acalma a nossa mente e o nosso coração”.

3.7 Novas reflexões de iniciação “Iaô que não entra em transe no orixá no
momento de iniciação, mas que poderá a vir entrar futuramente’’

De acordo com Mãe Sônia Ogum o termo citado acima demarca uma criança
quando é recolhida no roncô (quarto de iniciação), passando por todos os processos que
define como novo iniciado no candomblé e não entra em transe, podendo entrar em transe

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com o passar do tempo, e geralmente o indivíduo que não entram em transe são
confirmados como Ogãn ou Ekedi, assim o orixá do sacerdote traz o orunkô (nome de
iniciado), apresentando ao público um novo cargo/posto dado à criança que quando crescer
poderá executar em seu terreiro, os cargos mais comuns são de Babá Efun e Iyá Efun
(responsável por pintar o corpo do iniciado antes da sua saída de orixá).

Considerações Finais

Ao fazer a pesquisa de campo vivenciamos o que se passa dentro de um terreiro de


candomblé, fazendo refletir o que acontece na vida de algumas das filhas de santo e das
crianças iniciadas na religião. O terreiro de candomblé é um espaço de fé, de crença e de
responsabilidade. É no espaço de culto que se descobre qual será o caminho traçado de cada
um dos indivíduos, tornando-se iniciados, filhos(as) de orixá e zeladores de orixá.
A nossa visita ao terreiro de candomblé Ilê Axé Ogunté Mariô no dia 06-08-17 foi
bem sucedida. Vale aqui lembrar que Mãe Sonia começou a relatar sua história de vida
através de nossas perguntas, vimos que ali se tratava de uma mãe guerreira, onde nos
encheu de orgulho ao ouvir palavras de luta, dificuldades e muita força de vontade.
A experiência no campo nos levou a refletir todo o método que aprendemos sobre a
etnografia em sala de aula, ao mesmo tempo percebemos como a etnografia e o campo
dialoga com o tema da nossa pesquisa “a iniciação da criança pelos seus rituais no terreiro”.
Durante a pesquisa de campo a Iaô Emanuela foi questionada sobre como ela se
sentia ao saber que tem um orixá e a mesma responde: “Eu fico feliz, me sinto bem”.
Movidos pela curiosidade e inquietação de investigar e descrever como ocorre a
iniciação das crianças no terreiro e todo os seus rituais, observando-se também outras
questões que estão intimamente ligadas à vivência dessas crianças que por sua vez são
inseridas na religião desde muito pequenas acompanhando seus pais ou familiares,
percebemos que neste espaço religioso as crianças são educadas através de um movimento

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informal a respeitar seus mais velhos como a figura da Mãe Sônia, tencionando assim
práticas culturais as crianças, modos de respeitar o próximo, sobretudo, o que há de
encantamento na natureza e ao saber a diversidade de conhecimentos que são adquiridos
cotidianamente no terreiro.

Glossário
Adobá – Deitar-se para dar a benção aos mais velhos.

Balé ou Babá Egun – São espíritos que tiveram vida humana e desencarnaram.

Casa dos Exús – Guardião Mensageiro do Terreiro.

Casa de Oxumaré – Senhor do arco-íris, representação da cobra coral, Saudação:


Arroboboy.

Casa de Ossayn – Orixá das Folhas, Saudação: Ewé Ô.

Casa de Omolu – Senhor da terra, da saúde, da morte e responsável pela translação do


tempo. Saudação: Atôtô.

Casa de Oxalá – O pai do silêncio, da paz e de todos os orixás.

Dankô – Senhor dos grandes bambuzais.

Deká – Posto de Sacerdote ao Zelador de Orixá.

Ekedi – Mãe dos orixás é a que se dedica aos orixás nos momentos de festas e obrigações
do terreiro.

Heeeeeeeeeys – Ilá de Iansã – Espantando os Eguns.

Ilê Axé Ogunté Mariô – Terreiro de Iemanjá e Ogum (Ogunté é uma qualidade de iemanjá e
Mariô é folha do dendezeiro que é do orixá Ogum).

Irokô – Orixá da Árvore Gameleira, Saudação: Eró.

Iyami ou Iyami Oxorongá – É uma grande feiticeira no candomblé, simbolizada em coruja,


cujo valor histórico representa a grande Mãe Ancestral, senhora vinculada ao orixá Oxum.

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Igbá Asé ─ É o assentamento dos orixás.

Ilá – Grito do Orixá.

Iaô ou Iaô Elegun – Novo iniciado no Candomblé.

Iansã ─ É o orixá do fogo, senhora dos ventos, dos raios e tempestades.

Jinká – Salvar o Terreiro.

Jogo de Búzios – É um oráculo que guia o destino do ser humano no candomblé.

Ketú – Nação de Candomblé, terreiros antigos de nação Ketú na Bahia é o Gantois, Opo
Afonjá, Casa Branca etc.

Ogum Xoroqué – É uma qualidade do orixá Ogum na nação Angola.

Ogum dos Astros – Uma das qualidades do orixá Ogum que é responsável pela rotação dos
Astros.

Obá Afonjá – Uma das qualidades do orixá Xangô (Senhor da Justiça).

Ogum – Orixá das ferramentas, guerras e batalhas.

Ogãn – Responsável por tocar os atabaques.

Odé ou Oxóssi ─ É o orixá da caça, das florestas e matas, dono da fartura em nossas mesas.

Ossayn ─ É o orixá senhor das folhas e do remédio.

Referências

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