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MESTRADO EM ESTUDOS SOBRE A EUROPA

LITERATURA E ARTES EUROPEIAS

Recensão Crítica

Paulo Sousa, Mestrando Nº. 1001020


Abril, 2019

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Gotthold Ephraim Lessing, dados biográficos

Gotthold Ephraim Lessing, (1729-1781), Poeta, Dramaturgo, Filósofo e Crítico de Arte,


é considerado um dos mais eminentes representantes do Iluminismo (Alemão),
conhecido igualmente pela sua censura ao anti-semitismo, à apologia do livre
pensamento e à liberdade religiosa. As suas obras e os seus escritos teóricos
desempenharam uma ascendência insofismável no desenvolvimento da Literatura
Alemã hodierna, da qual é considerado criador. Recebeu formação protestante muito
rígida na sua juventude, chegando a estudar Teologia em Meissen e, depois, em Leipzig
onde também estudou Medicina. Da imensa produção literária produzida (entre Poesia,
Fábulas, Peças, Fragmentos, Escritos Teóricos, Obras Teológicas e Filosóficas),
evidenciam-se as que se encontram traduzidas em Português: “Laocoonte, ou Sobre As
Fronteiras Da Pintura e da Poesia”; “Emilia Galotti”; “Laocoonte; A Aventura de
Hamburgo; A Dramaturgia de Hamburgo; Advertência; O Teatro do Senhor Diderot;
Cartas”, In; “De Teatro e Literatura”.

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Recensão Crítica
Refletindo sobre a sequência de matéria que temos vindo a abordar, poesia, pintura,
escultura, ou melhor, palavra versus imagem. Focado no pensamento de qual o
contributo de Lessing para este diálogo, a primeira imagem que salta na nossa mente é a
de “Laocoon” de Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781) - autor setecentista alemão.
Sendo um trabalho literário, não deixa de ser o ou um dos trabalhos literários essenciais
de referência demonstrativos da existência de evolução do diálogo entre a literatura e as
artes visuais, dialogo este que nasce do romantismo e prolonga-se até à modernidade.
Lessing, contrariando desde logo o costume de ekphrasis, desconstruindo a
interpretação descontextualizada horaciana de “"ut pictura poesis".
Será, talvez, mais fácil esta compreensão se comparando o discurso de Lessing com o
seu contemporâneo o autor de “História da Arte da Antiguidade” - Johann Joachim
Winckeimann (1717-1768). Winckeimann, defendia o ideal estético neoclássico, da
antiga Grécia, que se fundamentava na proeminência da escultura sobre a pintura.
A “luta” de Lessing incide contra a rotina do “ut pictura poesis”, no qual as poesias e as
pinturas eram consideradas artes similares, com base nas mesmas origens e partilhando
os mesmos princípios num infindo voltar a Simónides.
Lessing, é a “pedra no charco” propondo o impensável até aquele momento, o de criar
limites entre ambos os domínios, o da pintura e da poesia, porque a sua visão é a da
existência de diferenças de suas naturezas com os desígnios que lhes serão intrínsecos.
Para ele a pintura é uma arte da imagem apoiando-se na conceção do espaço, enquanto
que a poesia é uma arte da linguagem, esta apoia-se na noção de tempo, ou seja, o que o
poeta pode narrar, o pintor pode talvez apenas mostrar. Assim, a forma de apresentação
origina um tipo específico de reprodução; cada arte é, afinal, cerceada pelo meio que é
intrínseco a ela.
Friedrich W. Schelling, não propõe a negação total do princípio mimético, mas a sua
transformação (Cf.: GONÇALVES in DUARTE (org.), 2001, p. 289-293), este conceito
estava em fase de recusa e abolição pelos jovens românticos alemães que tendiam para
uma liberdade na criação e afirmação artística. Lessing proporciona um desmanchar
metódico do estilo mimético delineado por exemplos expressivos, contrastando a
profunda desigualdade entre o que é a representação literária e pictórica, ou seja, a
palavra e a cor. Novamente a distinção das artes, uma sustentada pelo espaço e a outra
pelo tempo.

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A grande tese do Laocoon (1766) é formulada no início do capítulo 16; mas, de facto,
todo o livro se baseia nela. É esta a frase-chave: "Se é verdade que a pintura utiliza nas
suas imitações meios ou signos diferentes da poesia, a saber, formas e cores estendidas
sobre um espaço, enquanto a poesia se serve de sons articulados que se sucedem no
tempo; se é incontestável que os signos devem ter urna relação natural e simples com o
objecto significado, então, os signos justapostos não podem exprimir senão objectos
justapostos ou compostos de elementos justapostos, do mesmo modo que signos
sucessivos não podem traduzir senão objectos, ou os seus elementos sucessivos”
(Todorov 1979, p 148)
Para Lessing a diferença decisiva entre ambas, através da selecção do referente e esta, a
nível da pintura, deve ser percebida no espaço do seu cunho modelar, o qual sucede de
uma opção face a uma linha diacrónica, a uma conexão com o passado e futuro: o
referente opera como um campo que foi determinado em outro lugar num período
anterior, confinando inevitáveis consequências e trajetos derivados. Por seu turno, a
selecção do referente a nível da poesia deve ser compreendida no campo de acção de
uma aptidão de indução de óptica operante face à economia da narrativa. A fictícia
bifurcação referida por Lessing representa uma ténue interpenetração entre as duas
concepções - espaço e tempo -, nos recursos de descrição das duas formas de expressão
artística. Ao desenvolver diversos espaços de representação, fundamentados em
ligações exclusivas com a noção de espaço e de tempo, descrevendo a imperceptível
interpenetração entre as duas compreensões nestas estratégias de representação e ao
compreendê-las, finalmente, como um microcosmo, Lessing prepara o terreno da
modernidade, do qual irão assomar as vulnerabilidades românticas.

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Bibliografia:

• AVELAR, Mário. “Ekphrasis - O Poeta no Atelier do Artista” (Págs. 85 a 93). Chamusca, Edições
Cosmos ,2006. ISBN: 978-972-762-273-3.
• Avelar, M. Poesia e Artes Visuais – Confessionalismo e écfrase, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa
da Moeda, 2018. ISBN: 978-972-27-2591-0.

• BRANDÃO, Antônio Jackson S. Iconofotologia do Barroco alemão. Tese de doutorado


apresentada à Universidade de São Paulo, 2008.
_________. “O gênero emblemático”. In Travessias 7, Cascavel, 2009.
_________ “A imagem nas imagens”. In Lumen et Virtus, São Paulo, 2010a.
_________ “Da pintura à fotografia: o encetamento iconofotológico”. In Lumen et Virtus, São
Paulo, 2010b.
• GONÇALVES, Márcia C. F. “A recusa da teoria da mímesis pelas teorias estéticas na virada dos
séculos XVII e XIX e suas consequências”. In DUARTE, Rodrigo. Figueiredo, Virgínia (org.)
Mímese e expressão. Belo Horizonte, Ed. UFMG, 2001.
• LESSING, Gotthold E. Laocoonte ou sobre as fronteiras da pintura e da poesia. São Paulo,
Iluminuras, 1998.
• TODOROV, Tzvetan. Teorias do Símbolo. Lisboa, Edições 70, 1979. ISBN: 9789724420424

Webgrafia:
Gotthold Ephraim Lessing in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019.
[consult. 2019-04-23]. Disponível: https://www.infopedia.pt/apoio/artigos/$gotthold-ephraim-lessing