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Spagnol, Antonio Sergio
Sociologia jurídica / Antonio Sergio Spagnol. — São Paulo : Saraiva, 2013. — (Coleção direito
vivo / coordenação José Fabio Rodrigues Maciel)
Bibliografia
1. Sociologia jurídica 2. Sociologia jurídica - História - Brasil
I. Maciel, José Fabio Rodrigues. II. Título. III. Série.
Índice para catálogo sistemático:
1. Brasil : Sociologia do direito 34:301(81)
2. Brasil : Sociologia jurídica 34:301(81)

Diretor editorial Luiz Roberto Curia


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Assistente editorial Bianca Margarita D. Tavolari
Produtora editorial Clarissa Boraschi Maria
Preparação de originais Ana Cristina Garcia | Daniel Pavani Naveira | Eunice Aparecida de
Jesus
Arte e diagramação Cristina Aparecida Agudo de Freitas | Mônica Landi
Revisão de provas Rita de Cássia Queiroz Gorgati | Regina Machado
Serviços editoriais Camila Artioli Loureiro | Maria Cecília Coutinho Martins
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Produção gráfica Marli Rampim

Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a
prévia autorização da Editora Saraiva.
A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei n. 9.610/98 e punido pelo artigo 184
do Código Penal.

Sumário

Introdução
Fundamentos da Sociologia
1.1. O advento da sociologia
1.2. O direito
1.3. O positivismo
1.4. A escola sociológica
1.4.1. Émile Durkheim
1.4.2. Max Weber
1.4.3. Karl Marx
1.5. A sociologia no Brasil
Sociedade e Controle Social
2.1. Espaço público e privado
2.2. Aparelhos ideológicos de Estado
2.3. Direito e controle da sociedade
As Normas Sociais, Jurídicas e a Aplicação das Leis
3.1. Interação, sociabilidade e o direito
3.2. Normas sociais e jurídicas
3.3. A eficácia da aplicação da lei
O Direito e o Estado
4.1. Ideologia e direito
4.2. Participação coletiva
4.3. Direito e comunicação social
4.4. Direito e opinião pública
Direito e Cidadania
5.1. Direitos civis e sociais
5.2. Direitos humanos e sociais
5.3. Justiça social
Desigualdades Sociais
6.1. Estratificação social
6.2. A criminalidade
6.3. Conflitos sociais
6.4. Sistemas não judiciais de composição de litígios
6.5. Globalização
6.6. Democracia
A Pesquisa Social e a Sociologia Jurídica
7.1. Pesquisa jurídica
7.2. Métodos e técnica de pesquisa no direito
Referências
Notas
Apresentação

Esta coleção, denominada Direito Vivo, vem a lume para contemplar uma salutar
necessidade na formação dos graduandos em direito: a formação humanística! Seu foco é
propiciar essa formação a partir de todas as disciplinas que fazem parte da grade curricular, e não
apenas das que trabalham diretamente essa questão. Não se limita ao simples acúmulo de
conhecimento, mas principalmente está pautada na capacidade de interpretar sistematicamente as
relações humanas. Esse tipo de formação busca orientar a compreensão do direito para a
dignificação da pessoa humana, e não considerar apenas a supremacia da forma, da lei, do poder.
A necessidade de ter profissionais do direito com formação humanística ganhou nova
dimensão no Brasil a partir da gradual superação do normativismo. Matérias e temas que antes
eram considerados secundários na formação profissional ganham relevância e começam a
sobrepor-se aos temas puramente dogmáticos. Como fazer prevalecer a moralidade positiva em
sociedade tão individualista? Ainda existem padrões universais como os estabelecidos por Kant?
Pluralidade, diversidade, protagonismo... temos de realizar o valor do bem! Como identificá-lo?
Como decidir questões que surgem em sociedade cada vez mais complexa, em que se evidencia
a interdisciplinaridade e a interculturalidade? Os operadores do direito têm de estar aptos a
responder a essas e a inúmeras questões que não estão explícitas no texto legislativo.
Dentro do normativismo jurídico, sem dúvida alguma, foi a teoria pura do direito de Hans
Kelsen a sua mais importante expressão, principalmente em sua vertente lógico-normativa. A
teoria pura do direito tem por objeto a estrutura formal das normas jurídicas, e não o seu conteúdo,
porquanto este último, seguindo a doutrina de Kant, era inacessível aos conhecimentos científicos
segundo Kelsen. Essa teoria centra as suas atenções para o dever-ser jurídico “puro”, que não é
um valor ético, mas sim uma estrutura lógica. Com isso, distingue a ciência do direito tanto da
filosofia jurídica como da política e da moral, porque quer conhecer o direito como ele é, e não
por uma perspectiva valorativa que se enquadra na filosofia.
Acontece que, a partir da segunda metade do século XX, quando ocorreu grande absorção
dos princípios pelos ordenamentos jurídicos, eles não só passaram a ser considerados normas,
mas também se tornaram, com o tempo, superiores às próprias regras jurídicas. Os princípios,
desde então, incorporados nos ordenamentos constitucionais, norteiam e condicionam o
regramento jurídico. Para interpretar os princípios, que concorrem muitas vezes entre si, passa a
ser fundamental ter ampla compreensão tanto do ordenamento jurídico como – e principalmente
– da sociedade na qual o direito é aplicado.
E as matérias fundamentais para tal compreensão são aquelas denominadas “propedêuticas”,
ou seja, as que discutem os temas introdutórios ao direito e as formas de compreensão do ser
humano e da sociedade, por exemplo, a teoria geral do direito, a antropologia, a sociologia, a
filosofia, os direitos humanos, a psicologia etc. Com isso, ao buscar formação profissional que
priorize a visão científica humanista da justiça e do próprio direito, opta-se por profissionais que
tenham consciência humanizada, que se preocupem em apresentar soluções, e não agravar os
problemas sociais que são trazidos à seara jurídica. Portanto, é fundamental que também nas
matérias ditas “dogmáticas” tenha-se um olhar humanista no seu entendimento, já que é a partir
dessas disciplinas que se dá a efetiva aplicação do direito. É o que fazemos nesta coleção!
Desde 2009, a partir de determinação do Conselho Nacional de Justiça – CNJ, boa parte dos
concursos voltados para a área jurídica passou a exigir formação humanística dos postulantes aos
cargos públicos. O objetivo principal é conseguir selecionar profissionais que tenham condições
de fazer sólida análise da sociedade, com efetiva compreensão das relações humanas tanto no
âmbito global como no âmbito regional. Não são mais desejados os que não conseguem
compreender a dimensão social do direito, que requer em sua aplicação o domínio da
hermenêutica e a utilização dos valores e dos princípios, em ampla superação da mera subsunção
do fato à norma. Fica patente que, com a exigência da formação humanística, espera-se como
resultado da aplicação do direito que a pessoa humana esteja acima das questões patrimoniais,
assim como que o bem comum sobreponha-se aos interesses individuais.
Os problemas a serem enfrentados para que efetivamente tenhamos profissionais com as
características mencionadas anteriormente são vários. Começa pela própria definição do que seria
“formação humanística”, tendo em vista que o CNJ, em 2008, direcionando para a seleção de
magistrados, determinou que fossem cinco as disciplinas com essas características (psicologia,
sociologia, filosofia, ética e teoria geral do direito) e que elas deveriam ser exigidas com ênfase
na segunda fase dos concursos. Melhor teria feito se considerasse que todas as matérias do curso
de direito – e não só as profissionalizantes (dogmáticas) – tivessem o mesmo peso em todas as
fases dos concursos. Com isso, mudaria o grau de atenção de alunos em relação a essas matérias,
normalmente ministradas nos primeiros anos da graduação, o que forçaria as instituições de
ensino a priorizar ensino que focasse na verdadeira apreensão dos temas humanísticos.
É com fulcro na concretização da dignidade da pessoa humana que deverá o profissional do
direito interagir com a sociedade na qual está inserido, para transformá-la quando necessário. Por
exemplo, ao confrontar-se com a sociedade de consumo – aquela composta por indivíduos
incapazes de pensar solidariamente, que não sentem responsabilidade uns pelos outros, sendo
incapazes de exercer a renúncia, os que atuam na seara jurídica têm de ir além da mera repetição
de textos normativos e doutrinários. É que para garantir a função social do direito é imprescindível
conhecer a história humana com consciência dos valores que embasam as relações sociais e que
devem ser a base da interpretação jurídica. Reproduzir no direito o pensamento da sociedade de
consumo seria definitivamente afastá-lo da ética. A exigência de conhecimento em formação
humanística não é mais uma apostila a ser decorada nos cursinhos, mas sim uma responsabilidade
social na formação dos bacharéis em direito. E dessa responsabilidade não fugiram os renomados
autores desta coleção!

José Fabio Rodrigues Maciel

Introdução

O estudo da sociologia jurídica no Brasil desenvolveu-se muito nos últimos anos. Desde a
instalação do primeiro curso de direito no País, a disciplina ficou relegada a um segundo plano.
Contudo, a necessidade de promover uma reflexão crítica sobre o direito e as instituições jurídicas
levou a sociologia jurídica a um lugar de destaque. Na década de 90, a inclusão da disciplina nos
currículos das faculdades de direito elevou ainda mais sua importância. Ainda se produz muito
pouco na área, principalmente no que diz respeito à produção científica, mas nas últimas décadas
a sociologia jurídica vem ganhando espaço. É uma disciplina que permite uma
interdisciplinaridade. A aproximação bem-vinda com outras ciências possibilita uma visão um
pouco mais crítica do social que envolve e é envolvido pelas questões jurídicas. A antropologia,
a política e a sociologia são exemplos dessa aproximação.
Nesta obra procuramos não seguir um manual de definições de conceitos, mas apresentar
uma visão dos temas vistos pela sociologia jurídica de forma mais livre, aberta. Não nos
prendemos a dogmatismos e, assim, muito mais que apresentar os temas, propomos abrir
discussões sobre eles. Dessa forma esperamos colaborar um pouco mais com o desenvolvimento
da sociologia jurídica.
Num primeiro momento fundamentamos o advento da sociologia e seus principais
pensadores, Durkheim, Weber e Marx. A partir desse pano de fundo iniciamos uma discussão
sobre os principais temas envolvendo a sociologia e o direito. No final de cada capítulo há uma
proposta de atividade para aqueles que se interessarem. A visão sociológica permite-nos
compreender as estruturas sociais e a interação dessas estruturas com a visão do direito. Não se
trata de definições, mas de propostas de discussões que servirão tanto para estudantes quanto para
interessados nos temas da sociologia jurídica.

Fundamentos da Sociologia

A sociologia estuda as interações, as relações entre os grupos sociais, os fenômenos sociais,


o comportamento humano, as estruturas e as relações sociais que são produzidas em determinado
momento histórico, ou seja, seu dinamismo. Ela faz parte de um conjunto de ciências que são
conhecidas por ciências humanas, entre as quais estão a antropologia, a economia, a história, a
política, a psicologia, o direito, todas elas intimamente relacionadas, uma vez que estudam
características de uma mesma realidade. Apesar de se preocuparem com o social e manterem uma
interdisciplinaridade, cada uma delas tem seu objeto próprio.
Desde o momento em que os homens passaram a viver em sociedade eles criaram diferentes
formas de relacionamento para sua sobrevivência, que, de certa forma, se submete à sobrevivência
dos outros. Essas relações são intermediadas pelo direito. A sociedade, de maneira geral, pode ser
definida como um grupo de indivíduos que mantêm relações políticas, culturais e econômicas.
Eles se interagem por meio de um idioma e cultura próprios. Essas ações têm o objetivo de fazê-
los compartilhar os mesmos valores, crenças e significados criados por eles. Assim, a sociologia
tem como preocupação estudar os fenômenos que advêm dessas relações sociais.

1.1. O advento da sociologia


A sociologia surge em meio a um complexo momento histórico-social que a Europa
atravessou no final do século XVIII. A consolidação do sistema capitalista foi um ponto
fundamental nesse contexto, assim como foi também a Revolução Francesa. Essas revoluções,
que transformaram significativamente a sociedade europeia, possibilitaram que inúmeros
pensadores se voltassem às diversas questões sociais advindas desse novo sistema econômico que
emergia. As mudanças políticas, econômicas e principalmente sociais que se iniciaram naquela
época não mudaram somente a sociedade europeia, mas influenciaram também todo o mundo
ocidental.
Não foram apenas as transformações que se refletiram nas mudanças tecnológicas, mas,
sobretudo, nas grandes mudanças sociais. Isso tudo se refletiu no processo de urbanização das
cidades, na modernização das indústrias, no movimento de pessoas que saíram das zonas rurais
em direção às cidades, gerando um êxodo rural gigantesco, tanto que mais tarde foi necessário
restituir essa mão de obra através da mecanização do campo.
Além disso, a Revolução Industrial provocou o surgimento de novas classes sociais:
O proletariado, que passou a desempenhar papel fundamental nas novas relações que surgiam; e
a burguesia, que passou a ser a nova classe dominante, detentora dos meios de produção. Ao
mesmo tempo, a consolidação do sistema capitalista como sistema predominante contribuiu
lentamente para a desintegração do sistema anterior. A introdução de maquinaria na produção
industrial destruiu aos poucos não só a produção artesanal, mas afetou profundamente as relações
sociais. A industrialização e a urbanização transformaram as relações sociais de tal forma que as
mudanças advindas dessa transformação resultaram num complexo de problemas que recebeu,
por parte de alguns intelectuais, o nome de Revolução Social. Não se tratava apenas de mudanças
no processo industrial.
A forma de vida do proletariado, principalmente na Inglaterra no início dessa Revolução, era
deveras degradante. As condições de trabalho a que foram submetidos, a falta de regulamentação,
o estado de saúde, a moradia etc. levaram os trabalhadores a uma condição de vida extremamente
revoltante. Não tardou para que os problemas sociais surgissem – como o aumento de homicídios,
suicídios, alcoolismo, prostituição etc. – e se avolumassem dia a dia, acentuando um cenário de
caos que se iniciava. Essa desordem chamou a atenção de pensadores, os quais passaram a se
preocupar com esses fenômenos sociais, com essa desordem social.
A Revolução Francesa de 1789 também contribuiu para o fortalecimento dessas novas
relações sociais que envolviam a Europa. A burguesia, ao tomar o poder com a Revolução, impôs
o novo sistema que lentamente desintegrou as antigas instituições que vigoravam naquele país.
Assim como na Inglaterra, a burguesia francesa tomou seu lugar no sistema e empurrou o
proletariado a uma nova ordem social.
Com esse cenário, os cientistas sociais procuraram lançar uma luz para o entendimento dessa
desordem que tomava conta de parte da Europa. A sociologia como ciência surge nesse cenário
tentando compreender esses problemas como forma de interpretação do social. A intenção era
desenvolver estudos a partir de um olhar sobre os grupos sociais e não necessariamente sobre os
indivíduos isolados e entender as intrincadas relações que surgiam em meio ao caos social que se
apresentava. Assim, essas revoluções se tornaram pontos iniciais e relevantes no estabelecimento
de novas relações sociais que fortaleceram o novo sistema econômico e que, mais tarde, deu à
sociologia o papel de analista das consequências sociais causadas por essas transformações.
A sociologia se fortalece como ciência no final do século XIX através dos grandes
pensadores sociais, como Karl Marx (1818-1883), Émile Durkheim (1858-1917) e Max Weber
(1864-1920), que deram os principais contornos ao que se chama hoje de sociologia – uma ciência
cuja função é estudar, compreender, analisar e questionar os fatos sociais que se apresentam como
resultantes de intrincadas relações sociais.

1.2. O direito
O direito fundamenta-se nas normas que regulam nossas relações sociais. Ele atua no sentido
da manutenção da ordem social. Para tanto lança mão da coerção que é exercida pelas leis – que
surgem com o objetivo limitador nas relações. São as leis que coagem os indivíduos a se manterem
dentro de certa ordem estabelecida pelo próprio social. O direito faz a intermediação dessa ordem
por meio dos aparelhos judiciários. A sociologia do direito procura compreender, explicar os
desdobramentos dessas intermediações.
Voltando um pouco mais no tempo, podemos notar o fundamento do direito em diferentes
fontes e em diferentes sociedades. As sociedades tradicionais baseavam suas leis nos usos e
costumes. Os usos passaram com o tempo a ser os costumes e estes a ser considerados como
ordem social. Nas sociedades patriarcais o poder estava concentrado nas mãos do patriarca e era
entendido como sagrado. O poder estendia-se por toda a sociedade como se fosse um poder
divino.
Nas grandes civilizações antigas esse poder estava nas mãos dos grandes guerreiros, que se
transformavam em líderes devido às suas reconhecidas capacidades. Como guerreiros e líderes
espirituais eram igualmente reconhecidos como autoridades diante da sociedade.
A sociologia do direito é uma ciência relativamente nova; historicamente data também do
século XIX. Não há propriamente um consenso sobre o termo. Alguns especialistas utilizam o
termo “sociologia do direito”, outros, “sociologia jurídica”. O primeiro se refere ao ramo da
sociologia que tem como objetivo estudar o fenômeno jurídico como componente da vida em
sociedade. Para outros, o segundo deve ser empregado para explicar o papel das instituições
jurídicas. Contudo há também especialistas que ignoram essa discussão e não fazem nenhuma
distinção entre os termos. Consideram a pesquisa sociológica sobre o direito tanto como
sociologia do direito quanto como sociologia jurídica. Aqui adotaremos essa postura. Caso
necessite de algo específico que possa ser considerado exclusivamente, de uma ou outra,
esclareceremos.
É bom lembrar também que a sociologia lança mão de outras ciências para suas abordagens
sociais, como a antropologia, a política, a psicologia. Não há propriamente uma rígida delimitação
temática para seus estudos. Mesmo porque não há uma delimitação para o termo “sociedade”,
assim como não há para o termo “direito”.
As ciências humanas, de maneira geral, produzem e reproduzem constantemente conexões
interdisciplinares que são resultantes da quebra de barreiras entre as diversas áreas do
conhecimento. O direito, como uma dessas áreas, faz do mesmo modo diversas conexões com as
outras disciplinas: direito comparado, economia, filosofia do direito etc. A conexão com a
sociologia procura instrumentalizá-lo para uma melhor compreensão não somente da sociedade
como um todo, mas também do próprio direito. A sociologia aplicada ao direito toma o estudo no
campo jurídico como fato social[1] e, a partir desse ponto, fundamentalmente, o que se procura é
dar ao tema uma visão crítica da realidade. Isto é, fornecer um viés especial em que se possam
equacionar os problemas sociais e analisar seus efeitos no campo específico do direito.
Nas últimas décadas do século XX podemos presenciar nesse processo de globalização
profundas transformações nas relações sociais que se refletem em todos os âmbitos da sociedade.
Adentramos no século XXI com uma nova configuração no que diz respeito à realidade social.
Transformações sociais, políticas e econômicas que mostram um novo cenário para a atualidade.
A velocidade das mudanças advindas com a informatização, a modernização dos meios de
comunicação, fez emergir novos modelos de consumo de massa e novas formas de agregação
social. As relações sociais foram afetadas com essas transformações e as relações indivíduo x
Estado também sofreram impacto. O Estado, que antes aparecia como intervencionista através de
planos mirabolantes, sofre agora com a influência de novos agentes políticos, econômicos e
sociais que não levam em consideração nenhum tipo de fronteira e estão presentes em todos os
momentos e lugares. Temos diante de nós um novo cenário que se descortina e que exige uma
nova configuração nas relações humanas. A sociologia busca assim analisar essas mudanças e
instrumentalizar o direito para tentar compreender esse novo cenário.

1.3. O positivismo
O filósofo Auguste Comte (1798-1857) viveu num período em que a França passava por
inúmeras transformações políticas, como a derrota de Napoleão e a Santa Aliança, que geraram
uma onda reacionária não somente na França como também se espalhou pela Europa.
Comte sofreu forte influência de diversos filósofos, entre eles Saint-Simon (1760-1825) (de
quem foi secretário particular e acabou engajando-se intelectualmente), que sustentava que a
sociologia era impulsionada por duas forças opostas, as forças orgânicas e as críticas. As forças
críticas eram as forças que realmente mudavam a história. Para ele, somente a sociedade industrial
salvaria a França da crise pela qual atravessava em seu tempo. Pregava a ação prática imediata
acreditando que somente assim poderia transformar o social. Vários de seus textos iniciais têm
forte influência desse filósofo[2].
A sociologia que Comte desenvolveu surgiu da necessidade que ele sentia de libertar o
homem das crenças religiosas e das digressões metafísicas. Foi um dos primeiros a propor um
estudo rigoroso da sociedade. Sua proposta era de que a sociedade fosse vista como objeto de
observação e não como verdade absoluta ou justa.
Apesar da influência exercida por Saint-Simon, Comte seguiu caminho contrário. Acreditava
que antes disso deveria haver uma mudança no pensamento de acordo com as ciências de seu
tempo. Para o crescimento da classe proletária, que era um dos grandes problemas da época,
Comte propunha solução bastante conservadora, se pensarmos nas propostas marxistas daquele
contexto. Para ele, o proletariado poderia, de certa forma, “diminuir” o egoísmo dos capitalistas
e uma ordem moral acabaria com os conflitos de classes; o espírito do homem passaria por
estágios. Por isso propõe, então, o que ficou conhecido como Lei dos Três Estágios: a teologia,
a metafísica e o positivo. Para Comte, o espírito humano e as ciências desenvolvem-se por meio
destas fases:
A fase teológica é explicada por ele como sendo o primeiro momento em que o homem
consegue explicar o mundo mediante a crença em deuses e outros seres sobrenaturais. Dessa
forma consegue compreender os fenômenos que o cercam. Essa mentalidade teológica, dando
essa explicação, digamos, unificada, consegue assim um papel de coesão social. Essa seria a
primeira etapa que serviria como preparação para outra fase – a metafísica.
Nessa segunda fase, Comte acredita que a metafísica procura também explicar a natureza das
coisas, assim como seu destino. Contudo nessa fase os homens buscam substituir as divindades
pelas forças, como a física, a química, a biologia. Força física, força biológica, força química etc.
A natureza seria, assim, a reunião de todas as forças.
Na terceira fase, a positiva, Comte argumenta que nesse momento os homens abandonam a
ideia de considerar as causas dos fenômenos como sendo resultado de forças, e passam a
considerar que as relações entre os fatos são fenômenos observáveis. A observação e a pesquisa
passam a ser a base do conhecimento. Isso não significa que o positivismo afirma que o
conhecimento somente é possível através do que é empírico, mas sim que o positivismo abandona
a ideia de considerar as causas dos fenômenos como sendo teológicas ou metafísicas. Passamos
então para a prática de pesquisar as leis que regem o mundo. Para ele, essas leis são relações
constantes entre os fenômenos – imutáveis – e isso é observável.
Comte propõe que se adotem critérios históricos e sistemáticos como as outras ciências – até
então a física, a química, a biologia etc. – já haviam adotado. O que ele chamava de física social,
e que passou a ser chamado de sociologia, para ele deveria usar a observação, a experimentação,
a comparação e a classificação como método para a compreensão da realidade social. Um dos
lemas do espírito positivista é “ver para prever”, e assim a ciência de Comte surge como a ciência
do social. O autor deu à sociologia um caráter de ciência necessário a toda nova disciplina que
surge. O positivismo ficou sendo uma filosofia própria, que está dentro da sociologia.
Para Comte, a análise do social tem a finalidade de mostrar como ele é e não de propor uma
análise social para uma futura transformação através da crítica do que é observável. Para ele, as
leis são imutáveis e estabelecem uma ordem das coisas que determinam o presente e o futuro. Os
homens devem aceitar essa ordem sem contestação e cabe à sociologia revelar o que a sociedade
apresenta e como se apresenta. Aos homens cabe contentar-se com o estado de coisas, isto é,
aceitar, subordinar-se a uma ordem social.
A filosofia comteana de certa forma colaborou com a estruturação do Estado moderno, uma
vez que era necessária uma sustentação jurídica para o exercício de poder desse Estado. O direito
positivo nasce dessa necessidade. Era necessário “justificar” o poder de uma classe social sobre
a maioria, e a filosofia positivista caiu como uma luva para essa classe dominante à medida que
se opõe aos direitos naturais defendidos pelos jusnaturalistas. E dessa forma encontrar a base dos
fenômenos sociais na lei – aqui não se leva em conta que as leis são criadas por uma classe
dominante –, que deveria ser aceita pela maioria como essencial para a ordem e o progresso de
toda a sociedade.
A filosofia comteana não influenciou somente pensadores na Europa. Atravessou fronteiras
e chegou ao Brasil por volta de 1850, quando alguns intelectuais brasileiros apresentaram estudos
com influências comteana na Escola Militar do Rio de Janeiro. A partir disso um pequeno grupo
passou a desenvolver no País estudos sobre o filósofo. Inclusive com a fundação da Igreja
Positivista do Brasil, que é ativa até os dias atuais. Também podemos observar a influência desse
pensador na Proclamação da República, em 1889 e na Constituição de 1891, inclusive com o
lema ordem e progresso em nossa bandeira[3].

1.4. A escola sociológica


1.4.1. Émile Durkheim
Um dos principais nomes da sociologia é Émile Durkheim (1858-1917), considerado um
dos pais da sociologia moderna. Foi influenciado pelas ideias de diversos autores, entre elas as
do filósofo francês Auguste Comte. Durkheim nasceu numa região reivindicada tanto pela França
quanto pela Alemanha – Épinal, entre a Alsácia e Lorena – e numa época de grande efervescência
político-social. As inúmeras revoltas sociais nas quais os franceses estavam envolvidos, as
disputas da região entre França e Alemanha e a Primeira Guerra Mundial, evento em que ele
perdeu amigos e um filho, isso tudo orientou suas observações em relação à sociedade.
Para ele, o estudo sociológico deveria seguir regras específicas, o campo social é um campo
distinto, possui características próprias e para ser explorado deve-se lançar mão também de
métodos próprios.
Como seguidor de Comte, Durkheim se preocupou em dar à sociologia o statusde ciência,
criando categoria que pudesse, de certa forma, determinar o objeto de estudo próprio da
sociologia.
Uma categoria desenvolvida por Durkheim é a de fato social. Para o autor, classificando os
comportamentos humanos de fatos sociais, é possível a sociologia entendê-los de maneira mais
objetiva, em que muitas vezes as origens desses comportamentos estão baseadas nas próprias
relações sociais.
Os fatos são “coisas” que ocorrem no cotidiano e que de certa forma nos influencia a pensar,
a nos comportar de acordo com as regras sociais. O que o senso comum determina como
comportamento individual é na verdade um comportamento influenciado pelo social, isto é pelo
grupo. Agimos e reagimos segundo as regras ditadas pelo social.
Para Durkheim, tudo o que ocorre na sociedade é de caráter social, mas nem tudo é fato
social. “O fato social é reconhecível pelo poder de coerção externa que exerce ou é suscetível de
exercer sobre os indivíduos; e a presença deste poder é reconhecível, por sua vez, seja pela
existência de alguma sanção determinada, seja pela resistência que o fato opõe a qualquer
empreendimento individual que tenda a violentá-lo (…) a coerção é fácil de constatar quando ela
se traduz no exterior por qualquer reação direta da sociedade, como é o caso em se tratando do
Direito, da moral, das crenças, dos usos e até das modas”[4].
O fato social possui três particularidades que lhe são inerentes. A primeira delas é que ele
é coercitivo, isto é, exerce sobre nós uma força repressiva que nos obriga a caminhar dentro de
certas regras impostas pelo social. Um exemplo corriqueiro para isso é a moda. Devemos nos
vestir dentro de certos parâmetros reconhecidos por nossa sociedade, caso contrário, seríamos
ridicularizados. A segunda é que o fato social é exterior ao indivíduo. Isso quer dizer que as
normas, os valores, as regras impostas ao indivíduo são preexistentes a ele. O exemplo mais banal
disso é que quando nascemos já encontramos todas as normas, as regras de socialização que
devemos seguir.
Por fim, uma terceira característica do fato social é a sua generalidade. Isso quer dizer que
ele possui uma representatividade na comunidade que abarca o comportamento de praticamente
todos os indivíduos. Todos se sentem envolvidos e se identificam com os mesmos
comportamentos. Portanto, fato social é o comportamento imposto por meio da educação,
segundo valores preexistentes e que determinam o comportamento geral de uma comunidade.
Para entender melhor esse processo de coerção do fato social podemos avançar para outro
conceito durkheimiano, o conceito de consciência coletiva.Para ele, essa consciência “é um
conjunto de crenças e de sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade
que forma um sistema determinado que tem sua vida própria (...)”[5]. Essas ações, portanto, são
orientadas pelo social e introjetadas no indivíduo no processo de socialização, que é realizada por
um processo de educação. Temos aí a socialização primária, que é a educação recebida pela
família, e depois a socialização secundária, que é a cultura representada aqui pela escola, pela
Igreja e por fim pelo Estado. São as chamadas Instituições de Controle Social: família, escola,
Igreja, Estado. Elas têm a responsabilidade de coagir os indivíduos a agirem dentro de uma média
de comportamento que seria o ideal, baseando-se nas normas, regras e valores morais
preexistentes em determinada comunidade. Isso cria em nós uma consciência coletiva, que são os
laços que criamos no social.
Seguindo ainda os estudos de Durkheim, os indivíduos possuem duas consciências. Uma
delas seria representada pela personalidade, atitudes individuais, e a outra seria o tipo coletivo,
isto é, o coletivo que nos influencia e molda nossa personalidade. A consciência individual seria
sobreposta pela coletiva. Aqui, praticamente, o indivíduo “não existe” como ser autônomo; o que
existe seria o ser social, o ser coletivo. Nesse caso, mesmo quando o indivíduo está sozinho, ele
sente a importância e a força da coerção social. Sendo assim, se a sociedade molda nosso
comportamento, podemos entender que o que buscamos são os interesses coletivos. Essas duas
consciências estão ligadas de tal forma que são uma só. São solidárias, segundo Durkheim.
Dependendo da complexidade das sociedades, podemos encontrar duas solidariedades. O direito
é o símbolo visível do tipo de solidariedade que existe na sociedade.
A que pode ser encontrada nas sociedades, em que não há complexas divisões do trabalho,
em que os indivíduos estão envolvidos num sistema de autoprodução – os grupos vivem isolados
–, em que há poucas mudanças, é chamada desolidariedade mecânica. Qualquer alteração no
social, como um crime, por exemplo, é punida, e o indivíduo, no caso, não tem como fugir dessa
punição. Ela é vista como exemplo para o todo social. O direito aqui é visto como repressivo. A
punição é o que dá a força do social, da coesão social.
Outro tipo de solidariedade é a orgânica. Nesse caso, são os laços de solidariedade criados
numa sociedade em que há uma complexa divisão do trabalho, um tipo de sociedade
diferenciada. Os indivíduos vivem numa dependência mútua que os fortalece e ao mesmo tempo
cria laços estreitos entre eles – dependem mais um dos outros. A divisão do trabalho gera entre
os homens uma consciência de direitos e deveres que torna suas ligações mais estreitas e
duradouras. Nesse caso o direito deve ser restitutivo. Isto é, a punição tem caráter restituidor da
ordem social. O direito, portanto, tem um papel regulador da ordem legal. O Estado é quem
intermediaria as ações entre os indivíduos.
Para muitos estudiosos do direito, o fato social é tomado como conceito determinante para o
estudo dessa ciência. A norma jurídica “é um resultado da realidade social. Ela emana da
sociedade, por seus instrumentos e instituições destinados a formular o Direito, refletindo o que
a sociedade tem como objetivos, bem como suas crenças e valorações, o complexo de seus
conceitos éticos e finalísticos”[6].
A aproximação do direito com Durkheim manifesta-se à medida que o direito como
regulador da ordem social o faz de forma positiva, levando em consideração a coerção social à
qual os indivíduos estão submetidos.
Durkheim possui um trabalho clássico intitulado O suicídio, publicado em 1897. Nele o autor
desenvolve uma pesquisa realizada na França e elenca os casos classificados como suicídio. O
objetivo é entender os atos suicidas dos franceses e mostrar que as causas que os levaram a
cometer o ato estão relacionadas com as normas sociais impostas pela sociedade. Na verdade, a
coerção que a sociedade exerce sobre o indivíduo desde seu nascimento deveria coibir os
comportamentos considerados nocivos ao grupo. Portanto, quando ocorre um suicídio, seria uma
espécie de fracasso do social, que não conseguiu frear esses atos – um fracasso do processo de
socialização. Isso demonstra a natureza social do comportamento humano.
1.4.2. Max Weber
Outro autor clássico da sociologia é o alemão Max Weber (1864-1920). Ele traz à sociologia
os ideais da filosofia alemã, que entendia os acontecimentos sociais como não sendo apenas os
vividos pelos indivíduos, mas também os pensados por eles, cabendo à ciência apreendê-los pela
maneira como são interiorizados por esses indivíduos. Para Weber, devia dar-se uma ênfase
especial à forma como se conduz o ato de conhecer. Por exemplo: para Durkheim, que era um
seguidor do positivismo, a história era vista como um processo universal, no que diz respeito à
evolução natural da humanidade. É como se o indivíduo aceitasse as normas sociais, sem que
tivesse autonomia para provocar transformações sociais. Diferentemente de Weber, que introduz
uma ideia de autonomia do indivíduo.
Para ele, que possuía uma vasta formação histórica, a pesquisa histórica é fundamental para
as análises sociais. Os elementos que compõem a formação histórica de cada sociedade devem
ser levados em consideração, pois cada sociedade possui um caráter particular que a identifica.
Assim, para o autor, cada sociedade e cada ordem adquiriam grande importância por possuírem
suas peculiaridades.
Weber focava em suas análises as ações sociais entre os indivíduos. Para ele, ação social é
aquela que tem sentido e é orientada no outro onde encontra reciprocidade. Não é algo que se
impõe ao indivíduo por meio da coerção, como dizia Durkheim, mas a ordem social somente se
concretiza quando as ações sociais dos indivíduos se manifestam através da motivação que as
orienta. O sentido de cada ação se dá a partir do momento em que encontra a reciprocidade no
outro que reage ou responde à ação. O sentido é o que motiva a ação. Essa é a originalidade de
Weber. Parece haver aqui uma autonomia dos indivíduos na medida em que suas ações são
orientadas pelas expectativas do outro. É dessa maneira que os indivíduos “constroem” o social.
E o papel do cientista social é entender esses sentidos e descobrir as relações e as consequências
que envolvem essas ações.
Voltemos à questão da ação social. Quando agimos no social, interagimos com os outros.
Esses “outros”, segundo Weber, “podem ser indivíduos e conhecidos ou uma multiplicidade
indeterminada de pessoas completamente desconhecidas”[7]. Quando o indivíduo orienta sua
ação em relação a outro indivíduo e há reciprocidade, temos uma ação social; se ocorrer com um
ou mais indivíduos, teremos uma relação social. Ao orientar suas ações segundo as de outros,
leva-se em conta a subjetividade. Isso quer dizer que nem sempre as ações de um indivíduo terão
o “mesmo” sentido num relacionamento referenciado a outro indivíduo. Contudo, podemos
orientar as ações segundo expectativas que uns têm em relação aos outros. Na interação, havendo
reciprocidade, teremos a ação social.
Para Weber, podemos classificar as ações sociais em quatro tipos:
a) uma ação pode ser de modo racional referente a fins – aqui podemos ter como exemplo as
ações cujas expectativas dos indivíduos são as condições ou os meios para atingir determinados
fins. O trabalho de um operário pode ser encaixado nesse exemplo;
b) uma ação racional referente a valores – nesse caso temos ações em que os indivíduos
orientam sua crença nos valores sociais, como a ética, a posição religiosa. Os homens que se
mostram honrados, honestos, que perseguem esses valores através de suas ações podem ser
exemplificados aqui;
c) uma ação referente ao modo afetivo – podemos pensar aqui nas ações dos indivíduos que
se movem baseados no emocional em relação aos outros. Aqui não se trata de ação racional, pois
quem age segundo a emoção o faz levando em conta os sentimentos e as experiências pessoais,
culturais arraigadas em sua comunidade;
d) uma ação referente ao modo tradicional – é outro caso em que a ação social não é
considerada racional, uma vez que a tradição leva em conta os costumes e os valores arraigados
num processo de socialização. Dessa forma, as ações são, em sua grande maioria, aceitas pela
comunidade.
Weber faz essa tipologia das ações, mas isso não significa que uma exclui a outra, ou que os
indivíduos não transitam por elas. Muitas vezes elas são de difícil detecção por eles. Também não
é o caso de ficar definindo esse ou aquele tipo de ação social. Podemos perpassar por todas elas
num mesmo dia: por exemplo, trabalhar numa parte do dia, fazer algo que nos toca
emocionalmente, à noite participar de um rito religioso com a família. Assim, estaremos
atravessando todos os tipos de ação social. O que Weber pretende é mostrar a complexidade das
relações sociais e busca compreender através das particularidades das relações como se dão as
interações entre os indivíduos. Não é algo previsível, uma vez que o sentido da ação é subjetivo.
O outro terá de interpretar minha ação e decidir a reciprocidade a ela. Podemos ter comportamento
diferenciado e nem por isso estaremos agindo sozinhos numa ação social.
Na obra de Weber a sociologia jurídica é o estudo do comportamento dos indivíduos em
relação às normas de sua sociedade. Contudo, se atentarmos para o que foi dito sobre as relações
sociais serem vistas por Weber como subjetivas, o direito não pode ser considerado objetivo. Para
o direito positivista a objetividade do direito é fundamental. Como entender essa objetividade se
as ações sociais são permeadas pela subjetividade? Como entender que o direito tem para si a
representatividade dessas ações, quando compreendemos que, diferentemente de Durkheim,
Weber propõe que o indivíduo é um ser autônomo, capaz de expressar-se e orientar suas ações.
Para o autor, o indivíduo não se comporta de determinada forma porque considera a norma
somente como jurídica. Não é apenas porque o indivíduo observa a lei que a norma é essencial,
mas “amplas camadas dos participantes comportam-se de acordo com a ordem jurídica ou porque
o mundo circundante o aprova e desaprova o oposto, ou por habituarem-se inconscientemente às
regularidades da vida que se tornaram costume, mas não por obediência sentida como dever
jurídico. Se esta última atitude fosse universal, então o Direito perderia inteiramente seu caráter
subjetivo de Direito só seria observado subjetivamente como mero costume (…) enquanto existe
a probabilidade do aparato coativo, num dado caso, force o cumprimento daquelas normas, temos
de considerá-las Direito”[8]. Dessa forma, quando alguém viola uma norma estabelecida e há uma
desaprovação coletiva em decorrência disso, temos uma ordem legítima. Quando há uma sanção
provocada pela violação da norma e essa sanção se manifesta por meio de uma coerção física,
temos então uma ordem jurídica. Assim, podemos entender que o direito não é um corpo de
normas que está acima dos indivíduos, ou que paira acima da sociedade. Está sim envolvido com
o social e com o poder que emana de uma camada social dominante. Apesar da aura de
neutralidade, o direito é marcado pela subjetividade e dessa forma podemos questionar essa tal
neutralidade.
1.4.3. Karl Marx
Karl Marx (1818-1883) é considerado um dos maiores pensadores da humanidade. Um
pensador que provoca sempre acaloradas discussões. É ainda idolatrado por muitos tanto quanto
é odiado por outros. Produziu uma obra de categoria universal que influenciou centenas de outros
pensadores e revolucionários por todo o mundo. O marxismo pode ser visto como uma gama tão
grande de ideais que facilmente transita pela filosofia, política, economia, antropologia,
sociologia e por outra infinidade de disciplinas – por onde quer que passe deixa rastros. Em toda
a sua obra Marx lança mão dessas disciplinas de maneira a compor um pano de fundo que
proporciona um sustentáculo de todas as suas teses sobre o sistema capitalista. Marx virou um
mito que provoca tantos debates entre os estudiosos de sua obra, e mesmo até por quem não o
conhece!
Para pensarmos a sociedade moderna sob a égide do capitalismo, suas relações
socioeconômicas, seria necessário passar por Marx e, principalmente, por seus principais
trabalhos, como sua obra máxima O capital. Por se tratar de obra tão complexa para ser discutida
aqui, o que vem adiante é uma forma bastante reducionista do pensamento marxista.
A base do pensamento marxista é o materialismo histórico. Para entendermos do que se trata
o materialismo histórico é necessário entender o processo de produção pelo qual os homens
passaram ao longo da história. Em cada momentohistórico a produção de bens e serviços, que são
vitais para a sobrevivência do homem, determinaram suas relações. Para tanto, Marx inicia com
alguns pressupostos:
O primeiro deles é o de que “toda história humana é naturalmente a existência de indivíduos
humanos (...) mas eles próprios começam a se diferenciar dos animais tão logo começam a
produzir seus meios de vida. (...) produzindo seus meios de vida, os homens produzem,
indiretamente, sua própria vida material”[9]. Em cada momento da história da humanidade os
homens produziram seus modos de vida, a partir das condições materiais a que estavam
submetidos. Assim, o que os indivíduos são depende dessas condições materiais de sua produção.
A cada momento histórico tivemos uma forma de produção. Consequentemente, uma forma
de relacionamento social, e os homens, movidos por uma necessidade de desenvolvimento,
impelidos por suas exigências materiais e intelectuais, desenvolvem-se tentando melhorar suas
condições de acordo com determinantes definidos pelo espaço-tempo em que vivem. “(...)
indivíduos determinados, que como produtores atuam de um modo também determinado,
estabelecem entre si relações sociais e políticas determinadas”[10].
Para Marx a produção de um conjunto de ideias e das representações dessas relações está
ligada diretamente com a atividade material desses indivíduos, assim como as relações materiais.
Dessa forma, os homens são os produtores de suas representações e de suas ideias. E aqui vem a
máxima de Marx: “não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a
consciência”[11]. Como foi esse processo?
O capitalismo provocou uma separação nos meios de produção na medida em que os meios
de produção – as ferramentas, as máquinas etc. – foram tomados por uma classe social e restou
ao trabalhador apenas sua força de trabalho.
Marx mostra através da história como isso ocorreu. A sociedade passou por fases, em que as
diferentes formas de propriedade determinaram as relações dos indivíduos.
A primeira forma de propriedade foi a tribal, que é a fase em que a população se alimentava
da caça e da pesca. A produção não era desenvolvida, e a propriedade era formada por grande
quantidade de terras improdutivas. A estrutura social estava baseada na família e a divisão do
trabalho também se limitava a isso.
A segunda forma de propriedade é a comunal, presente em toda a história antiga e
caracterizada pela reunião de tribos e posterior formação das cidades. A propriedade comunal
surgiu naturalmente e a base da produção é nessa forma de propriedade privada coletiva. A mão
de obra escrava é que sustentava a produção. Nesse momento já há uma divisão de trabalho, e
também uma oposição campo-cidade. A relação entre os cidadãos (os proprietários livres) e os
escravos já se encontra mais desenvolvida.
A terceira forma de propriedade é a feudal. As cidades já não são tão importantes, e o campo
volta a ter a importância dada à posse da terra. A mão de obra escrava também não aparece nesse
sistema. O trabalho estava nas mãos dos servos, pequenos camponeses que trabalhavam em glebas
de terras dos senhores feudais. A produção era irrisória segundo as condições precárias do cultivo
das terras e a indústria artesanal.
Essas três formas antecederam o sistema capitalista, que originou da desintegração do
sistema feudal. Com o capitalismo a divisão do trabalho se tornou cada vez mais complexa e as
relações entre os indivíduos também. A burguesia, com o tempo, tomou os meios de produção e
impôs um sistema de exploração dos que nada tinham. Dessa forma, torna-se a classe dominante,
isto é, a que determina como se dão as relações e o processo de produção.
Uma das características do capitalismo é de que a riqueza se acumula nas mãos de poucos
indivíduos que formam essa classe social dominante. Essa dominação inicia-se com o processo
de alienação do trabalhador. Para isso, o capitalismo separou o trabalhador do produto de sua
força de trabalho. As máquinas, as ferramentas, os meios de produção ficaram nas mãos da
burguesia, isto é, passaram a ser propriedade de uma classe social. O trabalhador – o proletariado
– passou a ser uma mercadoria e como tal vendida no mercado.
Anteriormente, o trabalhador era dono de seu trabalho. Significa que participava de todo o
processo de trabalho. Tomemos como exemplo a produção de uma mesa. O trabalhador pensava
essa mesa, sua estrutura, forma etc. Cortava a madeira na floresta, montava a mesa conforme seu
desenho. Atualmente o processo de produção capitalista separou o trabalhador do todo. Ele
precisa agora fazer apenas uma parte do total da produção. Voltando ao exemplo da mesa: agora
temos uma pessoa para desenhar a mesa, outra para comprar a madeira, outra para cortar a
madeira, outra para montar a mesa etc. até a venda final. O trabalhador participa apenas de um
desses momentos, ou seja, perde a noção do todo. Em seu posto de trabalho ele apenas exerce
uma função específica: aperta um parafuso, pinta uma peça, fecha uma caixa, carimba uma nota,
ou outra coisa qualquer.
Como sua mão de obra foi vendida no mercado ao proprietário dos meios de produção, o
fruto de seu trabalho não lhe pertence. Quer dizer, ele trabalha, mas o produto de seu trabalho não
é seu. E mais, o salário que ele recebe pela venda da mão de obra também não é percebido nesse
processo. O trabalho do operário produz valor ao transformar os recursos naturais e produzir os
bens necessários à sobrevivência da sociedade. No capitalismo esse trabalho é transformado em
mercadoria. Assim, o trabalhador possui somente a mão de obra para vender no mercado. Nessa
venda o capitalista já possui o lucro, que é a propriedade de um bem que tem valor, adicionado
ao trabalho humano. É engano dizer, então, que o lucro vem do preço da mercadoria. O preço é a
composição de certas necessidades com a energia, as taxas, o transporte etc. O que ocorre é que
nesse processo de produção o capitalista paga apenas o mínimo para sobrevivência do trabalhador
e passa assim a produzir muito mais daquilo que realmente recebe. Essa diferença entre o que o
trabalhador produz e o que ele recebe – conhecido como lucro – é chamada por Marx de mais-
valia. Isso é determinante também para outro fenômeno, que é o crescimento das desigualdades
sociais[12].
Essa separação do trabalhador dos meios de produção provocou um processo chamado
de alienação.
Segundo a professora Marilena Chauí, a “alienação é o fenômeno pelo qual os homens criam
e produzem alguma coisa, dão independência a essa criatura como se ela existisse por si mesma,
deixando-se governar por ela como se ela tivesse poder em si e por si mesma, não se reconhecem
na obra que criaram, fazendo-se um ser-outro, separado dos homens, superior a eles e com poder
sobre eles”[13].
Alienado no trabalho, o proletário também passa a ser um alienado politicamente, pois a
criação do Estado, isto é, a ideia de representatividade, é falsa, uma vez que o Estado é criação da
própria burguesia. O domínio do político se dá a partir do momento em que a burguesia é
proprietária não somente dos meios de produção, mas, com o domínio destes, passa a ter também
os instrumentos de dominação social. Toma a frente da educação, dos controles dos postos de
trabalho, dos controles sociais, como a mídia, a religião, a política. O controle estatal é
fundamental para que possa manter sua posição dominante.
Dessa forma, a filosofia cria o que Marx chama de representações tanto do homem quanto
da sociedade e essas representações determinam suas relações. Isso é produto de determinado
grupo social, o que implica uma parcialidade das representações. Essas relações de produção não
estão somente no campo do trabalho; elas extrapolam esse campo e invadem praticamente todas
as relações sociais, formando a base dos valores religiosos, da moral, da ética, isto é, da cultura
de uma forma geral.
Assim, para os homens somente resta restabelecer sua condição humana mediante a crítica
ao sistema. Marx chama isso de práxis, que é uma ação política e consciente tomada pelos homens
que transformaria o social.
Para Marx o direito insere-se num contexto no qual o que prevalece é o conflito de interesses.
A luta entre as classes burguesa e o proletariado produz um fenômeno, que é a relação desigual
entre dominante e dominado. Com os interesses de classes em jogo, o direito passa a ser regra de
conduta coercitiva orientada por uma classe apenas, a dominante. A sociologia jurídica opera
nessa intermediação entre a classe dominante e a classe dominada. Na verdade, o direito se
envolve com os fenômenos sociais e de certa forma contribui para organizar a sociedade de
forma hierárquica. Como o Estado é criação de uma classe apenas, o direito aparece como
representante dessa classe e segue como parcial. O trabalhador alienado não consegue perceber
isso e entende como normal a interferência do direito em suas ações.
No capitalismo moderno, o Estado passa a ter uma existência particular ao lado da sociedade
civil. “Mas este Estado não é mais do que a forma de organização que os burgueses
necessariamente adotam, tanto no exterior como no interior, para a garantia recíproca de seus
interesses. (...) Como o Estado é a forma na qual os indivíduos de uma classe dominante fazem
valer seus interesses comuns e na qual se resume toda a sociedade civil de uma época, segue-se
que todas as instituições comuns são mediadas pelo Estado e adquirem através dele uma forma
política. Daí a ilusão de que a lei se baseia na vontade e, mais ainda, na vontade destacada de sua
vontade real – na vontade livre. Da mesma forma o direito é reduzido novamente à lei”[14]. O
Estado responde também pelos movimentos de diferentes grupos da sociedade e de outras classes
sociais, segundo as determinações das relações capitalistas. Em certos momentos pode ser
totalmente dominado tanto econômica como politicamente pela burguesia; em outros momentos
pode ser capturado politicamente por outra classe social.

1.5. A sociologia no Brasil


No Brasil, a sociologia também se desenvolve mais tarde, mas, semelhantemente ao processo
europeu, constitui-se a partir do desenvolvimento urbano industrial que ocorreu aqui no início do
século XIX. Segundo o professor Antonio Candido, a sociologia no Brasil passa por dois
períodos: de 1880-1930 e depois de 1940.
Para ele, coube aos juristas o papel social dominante, dadas as tarefas fundamentais de definir
o Estado Moderno. Inicialmente, é marcado pela tentativa de alguns intelectuais brasileiros
decifrarem de modo global a sociedade brasileira. Ainda não existia pesquisa empírica ou ensino
sobre a realidade brasileira. Num primeiro momento: “Coube aos juristas o papel social
dominante no Brasil oitocentista, dadas as tarefas fundamentais de definir um Estado moderno e
interpretar as relações entre a vida econômica e a estrutura política. Foi a fase de elaboração das
nossas leis, aquisição das técnicas parlamentares, definição das condutas administrativas. O
jurista foi o intérprete por excelência da sociedade, que queria a cada passo e sobre a qual estendeu
o seu prestígio e a maneira de ver as coisas”[15]. Ainda segundo Antonio Candido, como as
teorias que dominaram eram de cunho científico, como, por exemplo, a biologia, os juristas
também lançaram mão dessa linguagem e se aproximaram dos médicos e engenheiros formando
o que ele chama de tríade dominante da inteligência brasileira.
Alguns marcos da história da sociologia no Brasil são relevantes, como, por exemplo, a partir
de 1933, em São Paulo, a fundação da Escola Livre de Sociologia e Política; em 1934, da
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo; e, em 1935, da Faculdade
de Filosofia do Rio de Janeiro. Por volta dos anos 40 no Brasil é que a sociologia se configura
como disciplina universitária reconhecida.
Os temas estudados pelos sociólogos brasileiros no início da década de 30 eram voltados à
formação da sociedade brasileira, analisando temas referentes à abolição, aos índios e aos negros.
Em seguida podemos apontar outros temas relevantes, como as questões trabalhistas nos anos 40
e 50 e em seguida com a industrialização brasileira que tomou a década de 60, juntamente com
os problemas políticos e sociais que culminaram com a abertura do País na década de 80.
O ensino da sociologia no Brasil também ficou marcado no início com a vinda de grandes
sociólogos estrangeiros, que contribuíram para o desenvolvimento da disciplina no Brasil. Entre
eles podemos citar: Radcliff Brown, Claude Levi-Strauss, Roger Bastide, que transitaram entre
São Paulo e Rio de Janeiro e colaboraram na formação dos sociólogos brasileiros.
No Brasil, grandes sociólogos já estavam trabalhando. Intelectuais como Gilberto Freyre,
Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Junior já formavam a base de uma produção intelectual
significativa. Com os estrangeiros essa produção aumenta e a sociologia se desenvolve.
No caso da sociologia jurídica brasileira, ela surgiu pela necessidade de se realizar alguma
reflexão sobre a questão dos direitos dos cidadãos, principalmente no que diz respeito aos direitos
sociais, que eram previstos em lei, e pela concretização desses direitos na prática. Para tanto
utilizavam-se, como suporte, de outras ciências – caso da sociologia, antropologia e política.
Como preocupação dos intelectuais a sociologia jurídica vem desde o fim do século XIX, mas
como disciplina foi oficializada nos currículos das faculdades de direito em 1994.

QUINTANEIRO, Tânia; BARBOSA, Maria L. O.; OLIVEIRA, Márcia G. M.Um toque de


clássicos. Belo Horizonte: UFMG, 2003.
Faz um estudo sobre os principais tópicos dos autores mais clássicos da sociologia.
Martins, Carlos B. O que é sociologia? São Paulo: Brasiliense, 1999 (Coleção Primeiros
Passos).
Pequeno livro que trata do surgimento da sociologia e suas principais características.

Nós que aqui estamos por vós esperamos. Direção de Marcelo Marsagão. 1998.
O filme faz uma retrospectiva das principais mudanças que marcaram o século XX.
Tempos modernos. Direção de Charles Chaplin. 1936.
Clássico de Charles Chaplin, que faz uma crítica à Revolução Industrial.
Danton: o processo da revolução. Direção de Andrzej Wajda. 1982.
O filme faz uma crítica ao processo da Revolução Francesa.

Leia o texto a seguir e responda às questões.


Em 2008 ocorreu um caso de homicídio na cidade de São Paulo e que repercutiu não somente
na mídia do País, mas também na internacional. Uma garota fora jogada pela janela de um
apartamento em que estava com seu pai. A menina chegou a ser socorrida pelos bombeiros mas
não resistiu e morreu a caminho do hospital. O pai da garota alegou que eles foram assaltados e a
menina teria sido jogada por um dos bandidos. A polícia iniciou uma investigação e constatou
que a tela da janela havia sido cortada para que a menina fosse jogada e que também havia muitas
marcas de sangue pelo quarto.
O fato ganhou o noticiário como caso de homicídio. Virou uma novela com capítulos diários.
Toda a população seguia in loco as atividades policiais, as da polícia técnico-científica e do
translado dos acusados – o pai da menina e a madrasta. A cada saída em público o casal era
hostilizado pela população, que cercava a casa e ou a delegacia para onde eram levados a fim de
prestar depoimentos. Entrevistas com conhecidos e com vizinhos davam conta de que o casal se
envolvia em brigas e gritos praticamente toda a semana. O local do crime virou um ponto de
peregrinação. Centenas de pessoas se aglomeravam em frente ao prédio para fotografar, levar
flores, fazer manifestações etc.
Um mês depois um jornal da cidade publicou que os primeiros laudos do Instituto Médico-
Legal apontavam indícios de asfixia anteriores à queda da menina. Os legistas teriam duvidado
até mesmo de que a menina tivesse caído, por conta do baixo número de fraturas em seu corpo.
Em seguida publicou que o delegado responsável disse que a morte seria investigada como
homicídio, pois a tela de proteção da janela tinha sido cortada. Havia marcas de sangue no quarto
da criança, o que, segundo o delegado, reforçava a tese de que ela foi agredida antes de ser jogada.
A partir daí três pontos da cidade eram focos de manifestações por parte da população: o
prédio onde ocorreu o homicídio, a casa do avô da menina para onde o casal se tinha mudado e a
delegacia. As pessoas faziam vigília até o momento em que alguém aparecia para as
manifestações. Gritavam, insultavam, rabiscavam nos muros próximos frases contra o casal. Até
o advogado de defesa que foi fazer declarações disse ter levado “uma pedrada” atirada por
manifestantes.
No início de 2009, três desembargadores da 4ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça
decidiram que o casal seria levado a júri popular. Dois anos depois do crime ocorreu o primeiro
julgamento. O júri, formado por quatro mulheres e três homens, decidiu depois de cinco dias que
o casal era culpado pela morte da menina. A decisão foi transmitida ao vivo pelas TVs de todo o
País. O júri considerou o casal culpado por homicídio triplamente qualificado (pela menina ter
sido asfixiada, considerado meio cruel, não ter tido chance de defesa, por estar inconsciente ao
cair da janela, e por alteração do local do crime) e fraude processual. O pai foi condenado a 31
anos, 1 mês e 10 dias – pela agravante de ser pai da menina – e a madrasta, a 26 anos e 8 meses,
em regime fechado. Pela fraude processual, devem cumprir 8 meses e 24 dias, em regime
semiaberto. Por decisão do juiz, eles não poderão recorrer da sentença em liberdade, para garantia
da ordem pública.
1) Faça uma análise do caso contado acima segundo o conceito de fato social de Durkheim.
2) Como podemos entender o comportamento das pessoas que se manifestaram em todos os
momentos do episódio?

Sociedade e Controle Social

2.1. Espaço público e privado


A antropologia e mesmo outras ciências já se preocuparam em demonstrar a necessidade de
o homem viver em sociedade como a mais adaptável forma de vida que ele encontrara. Num
primeiro momento, o homem vivia isolado, em pequenos bandos que se enfrentavam
constantemente. Num segundo momento, a união em grandes grupos lhe trouxe estabilidade e
segurança. A vida em sociedade lhe reservou inúmeras vantagens, como a proteção contra ataques
externos, a facilidade para a caça, a especialização de tarefas que visavam a sobrevivência e, por
fim, a perpetuação da espécie com o acasalamento. Agora, podemos pensar também numa
desvantagem que surgiu dessa união: a violência ou a questão do poder. A questão de quem
determina o quê e para quem? Como e quem se impõe ao outro.
Desde esse momento, em que o homem passou a viver em sociedade, foram criados
no âmbito de suas relações sociais dois espaços de relacionamento: o espaço público e o espaço
privado. O conceito do que seja público e privado remonta à civilização grega. O espaço público
para os gregos era o espaço do cidadão, onde ele se expressava por meio de ideias e de seu corpo.
Era o campodos iguais, dos habitantes da cidade, portanto, espaço da cidadania – onde ele exercia
o poder. O espaço privado era o espaço dos não cidadãos: as mulheres, os estrangeiros, os
escravos. Contudo, essa ideia de público e privado mudou muito no mundo contemporâneo.
Com o advento do Estado moderno e o capitalismo estabeleceram-se novas relações sociais.
O espaço público deixou de ser o espaço da expressão do indivíduo e passou a ser o espaço de
relacionamento entre indivíduos desiguais. O Estado se impõe como forma de intermediação
desses indivíduos e essa imposição se dá através das leis que buscam normatizar essas relações.
A presença do Estado indica, assim, uma ideia de que no público as relações são realizadas entre
os iguais.
O espaço público é o espaço da coletividade, e se relaciona ao exercício da cidadania, é de
uso comum e posse coletiva, isto é, pertencer ao Poder Público é pertencer a todos. A rua, por
exemplo, é o espaço público mais representativo. O espaço público é onde se dão todas as relações
sociais. É onde o indivíduo aparece aos olhos dos outros. É nesse espaço que ele se relaciona com
o outro. Para que isso possa ocorrer é que as sociedades legitimam as normas. E essas normas
podem ser tanto sociais quanto legais.
Quando um indivíduo comete um crime qualquer ele infringe pelo menos uma das normas
sociais. Essas normas sociais são basicamente normas de conduta. Ao agir em público, o sujeito
pode ter sua ação entendida dentro dos limites de uma normalidade que o senso comum espera
dele. Ou, então, pode ser entendida como uma ação fora dos parâmetros ditados pela sociedade.
Quando isso ocorre o sujeito sofre uma coerção na tentativa de restabelecer a ordem
primeiramente investida.
Devemos lembrar aqui que a norma depende do tipo de sociedade e do momento em que essa
sociedade atravessa e entende esse ou aquele ato como normal.
As normas legais são as baseadas nas leis criadas pelos homens com o intuito de normatizar
a sociedade. Essas normas legais são vistas como um reflexo do comportamento humano. São as
diversas formas de comportamento, determinadas pela cultura de uma sociedade, que devem ser
refletidas no ordenamento legal desta. Caso isso não ocorra temos o risco de desestruturação da
sociedade. Assim, quando um indivíduo comete um crime ele sofrerá uma punição social, que é
sua imagem ligada àquele crime, àquela transgressão. Essa punição poderá ser o esquecimento,
como o ostracismo, ou a negação de uma ação etc. Sofrerá também uma punição legal, cuja
sanção foi anteriormente determinada pela lei e a punição imposta por ela. A punição serve para
reorganizar o social. Tanto a punição social quanto a punição legal fazem parte da estrutura
normativa da sociedade. Introjetamos isso no processo de socialização. Para Durkheim, “a vida
social, sempre que exista de maneira durável, tende inevitavelmente a assumir uma forma definida
e a se organizar. E o Direito não é outra coisa senão essa própria organização (…) Podemos
portanto estar seguros de ver refletidas no Direito todas as variedades essenciais da solidariedade
social”[16].
Assim, o indivíduo, para viver em sociedade, está constantemente cercado pela coerção, que
é um instrumento que a todo instante o lembra da punição, caso as normas sejam descumpridas.
É nesse ponto que o direito se une como um instrumento do social, com o objetivo de disciplinar
as relações sociais. Tanto como ideologia, como repressão. O espaço do direito é o em que os
homens se relacionam. Não somente as relações entre si, mas também as relações que eles mantêm
com os diferentes grupos sociais e as relações que esses diferentes grupos mantêm entre si. As
normas no espaço social são aplicadas a todas as relações como normas universais relativas a
determinada sociedade.
O direito possui certas regras de conduta que disciplinam essas relações sociais e isso de
certa forma influencia o comportamento dos indivíduos, uma vez que elas têm um caráter
coercitivo. As relações jurídicas têm que ver com essas questões. Os contratos que fazemos em
diferentes ocasiões são do âmbito das relações jurídicas. Consciente ou inconscientemente nossas
relações estão permeadas pelo jurídico.
As relações jurídicas estão presentes em praticamente todos os atos que os indivíduos trocam
com outros. Qualquer operador do direito diz que um contrato é uma manifestação de vontades
entre as partes. Cotidianamente sentimos essa presença das relações jurídicas em nossas vidas.
Tanto no público quanto no privado, mas isso não quer dizer que toda ação humana é jurídica.
Quando indivíduos se relacionam com outros não é somente com fins jurídicos. Há diversos tipos
de relações – religiosas, estéticas, artísticas etc. – que não são necessariamente jurídicas. As
consideradas jurídicas são relações sociais reconhecidas pelo Estado com a finalidade de protegê-
las. Isto é, quando as relações exigem a norma estatal, elas são reconhecidas como relações
jurídicas – de alguma forma são regradas por normas e estabelecem direitos e obrigações para os
envolvidos.
Contudo, podemos pensar que esses direitos e obrigações são ditadas por quem? Quem
determina os direitos e deveres dos cidadãos? Como devemos atuar de forma a estabelecer uma
equidade nas ações para que os indivíduos não mantenham relações em estado de desigualdades
extremas? Podemos imaginar, sem muito esforço, que há alguns grupos que se manifestam mais
fortemente que outros, que se inserem socialmente mais incisivamente que outros, isto é, que
dominam e desse domínio temos a consequência – que é a determinação do que deve ser feito ou
não. E isso inclui todos. Quer dizer, há um grupo dominante socialmente, e essa dominação não
envolve somente o grupo, mas sim todos.
Agora pensemos o direito. Como ele se insere nesse mundo desigual? Como ele
deveria inserir-se. Uma corrente que estuda o direito procura tratá-lo – como dito anteriormente
– como fato social.
Esta seria uma tentativa de “aproximar” o direito de tudo que é social, um pano de fundo
para estudar o direito. Ver o direito como algo acima da sociedade é na verdade escamotear a
realidade? De certa forma, utilizando-se de um contexto predeterminado de desigualdades sociais,
o direito parece requisitar a aura de mantenedor da ordem regulando as forças sociais, mas que na
verdade não passa de mantenedor de uma desigualdade determinada por uma classe social.
Podemos pensar por esse caminho? Se voltarmos ao capítulo anterior, em que falamos do
positivismo, podemos dizer que o positivismo auxilia nessa visão do direito como mantenedor de
uma ordem social, isto é, a necessidade de justificar a ordem social através da força estatal. O
papel do direito aqui fica sendo basicamente um instrumento daqueles que detêm o poder. Se uma
norma social surge das interações sociais que mantemos (e lembrando que essas interações são
também influenciadas por certa ordem jurídica) e essa norma passa a ser entendida como costume,
é o primeiro passo para a norma jurídica. Essa norma é controlada pelo Estado, que por sua vez é
domínio de poucos. Então temos uma norma jurídica como instrumento institucionalizado mais
importante de controle social. É por meio dessa norma que o poder controlador se manifesta.
“O fenômeno jurídico é, assim, reflexo da realidade social subjacente, mas também fator
condicionante dessa realidade. Ele atua sobre a sociedade, como as outras formas pelas quais se
apresenta o complexo sociocultural. A vida política é regulada pelas normas do Direito. Ela se
processa segundo princípios e normas fixados na ordem jurídica, e o Estado, mesmo, é a
institucionalização maior dessa ordem jurídica estabelecida. Em todos os aspectos está presente
a regra do Direito”[17].
A ordem jurídica busca orientar de forma global o comportamento de determinada sociedade.
Assim, “se a interação entre o fenômeno jurídico e os demais fenômenos socioculturais é fato
evidente, ao qual já fizemos referência, segue-se necessariamente que essa interação se estende a
todas as manifestações desses fenômenos, ou melhor, a todas as funções sociais de tais
fenômenos, incluída a de controle social”[18].
Mas como isso opera em nosso cotidiano?

2.2. Aparelhos ideológicos de Estado


Toda vida em comunidade é em grande parte de estranhamento. Relações de enfrentamento
existem desde os primórdios. Uns querendo se sobrepor aos outros, impor suas ideias, sua força.
Nas sociedades contemporâneas esse é um elemento crucial. A dominação de classes é marcante
no sistema capitalista e ela se dá por diversos elementos que ora concorrem, ora se justapõem.
A família, por exemplo, é uma instituição que de certa forma reproduz, a determinada
medida, a ideologia da classe dominante, assim como o fazem a Igreja e a escola. As instituições
acabam reproduzindo e coagindo na medida de sua força de inserção, de representatividade social
essa ideologia da classe dominante.
O filósofo Louis Althusser[19] explica isso através do que ele chama deaparelhos
ideológicos e repressivos de Estado. Os aparelhos ideológicos são representados pelas
instituições, tais como a família, a Igreja, a escola, os sindicatos, a mídia e o sistema judiciário.
São instituições, em sua grande maioria, de domínio privado. Elas participam do social
reproduzindo, de certa forma, a medida de sua influência e especialidade, a ideologia dominante,
contribuindo assim para a manutenção do sistema vigente. Note-se, por exemplo, a influência da
Igreja no Brasil. Seu discurso sempre vem à tona quando afloram debates sobre temas
considerados polêmicos: o tema da união civil entre homossexuais, ou mesmo os mais antigos
como o aborto, a AIDS ou o uso dos preservativos nas relações sexuais. Se buscarmos pela
história do País veremos a Igreja desempenhando um papel importantíssimo, sempre ao lado do
Estado, ora aconselhando, ora determinando. A visão da Igreja no Brasil sempre teve papel de
destaque no que diz respeito ao comportamento social.
Os aparelhos repressivos de Estado são representados pelo governo, exército, polícia,
tribunais, prisões, que são instituições que atuam sobretudo por meio da coerção e violência. São
instituições de domínio público. A grande distinção entre os dois é que os aparelhos ideológicos
funcionam em primeiro lugar por meio da ideologia e em segundo por meio da repressão, seja ela
dissimulada ou simbólica. Os aparelhos repressivos funcionam predominantemente através da
repressão física e secundariamente através da ideologia. “O exército e a polícia funcionam
também através da ideologia, tanto para garantir sua própria coesão e reprodução como para
divulgar ‘valores’ por eles propostos”[20].
Para Althusser, não existe nenhuma instituição que seja exclusivamente voltada à repressão
ou somente à ideologia. Ela pode atuar tendo uma função ora ideológica, ora repressiva. Tomemos
como exemplo a família, ou mesmo a escola. Ambas possuem papéis importantíssimos no
processo de socialização dos indivíduos, mas não são imunes às influências do Estado. Se
considerarmos, como diz o autor, que a classe dominante detém o poder do Estado e este dispõe
do aparelho repressivo, “podemos admitir que a mesma classe dominante seja ativa nos Aparelhos
Ideológicos do Estado”[21]. Na verdade, família e escola tanto atuam na transmissão dos valores
éticos, morais, científicos etc. quanto colaboram na coercitividade para a manutenção do Estado
representado pela classe dominante.

2.3. Direito e controle da sociedade


Para a sociologia a ideia de controle social refere-se a processos de formatação do
comportamento humano em suas relações. O controle aqui é um conjunto de instrumentos sociais
que estão interligados e estabelecem certa ordem que direciona, orienta e preserva determinada
estrutura social. É, assim, um sistema interligado, como os costumes, as leis, as instituições etc.,
e personificado na figura do Estado. Como esse Estado representa uma classe dominante,
podemos concluir que numa sociedade capitalista certo grupo exerce sobre os outros certo
controle.
Como vimos nos itens anteriores, as normas sociais seriam criadas pelo grupo e têm objetivos
de manter a ordem na medida em que são cumpridas por todos. Essa é uma visão positivista (veja
Capítulo 1) em que o argumento é que a lei é a norma que todos devem seguir, uma vez que ela
emerge do interior das relações sociais. Assim, concluímos simplesmente que os indivíduos
devem aceitar as regras que orientam suas ações. É uma visão que privilegia o indivíduo como
ser passivo e não como um ser atuante, produtor de sua história. O relacionamento do indivíduo,
perante a lei, é de que esta seria eminentemente algo criado pelo próprio social e que devemos
seguir simplesmente? Vejamos de outra maneira.
Não é somente uma questão de lei seguir ou não. As leis são oriundas do Estado, mas é
necessário lembrar que elas apresentam contradições, que se por um lado não nos permitem
rejeitá-las, por outro não devemos entendê-las como sendo legítimas e indiscutíveis. “A
identificação entre Direito e Lei pertence, aliás, ao repertório ideológico do Estado, pois na sua
posição privilegiada ele desejaria convencer-nos de que cessaram as contradições, que o poder
atende ao povo em geral e tudo o que vem dali é imaculadamente jurídico, não havendo Direito a
procurar além ou acima das leis”[22].
De certa forma, agimos no social orientando nossas ações pelas ações dos outros. Não
somente pelo que outros fizeram, mas na expectativa do que farão também. A vida em comum
está repleta de mecanismos que estabelecem relações com os indivíduos mesmo que eles não
percebam essas ligações. Os recursos materiais e simbólicos que permeiam o social fazem
inúmeras ligações com os indivíduos sem que estes percebam sua interferência. O Estado, que
interfere em seu comportamento sancionando leis e punindo infratores, ou mesmo os recursos
simbólicos, que através da socialização demonstram que os valores da sociedade são valores que
devem ser seguidos, uma vez que levam à completude do sujeito, isso tudo pode ser entendido
como controle social. O processo de alienação não épercebido pelo indivíduo. É tomado
como normal, natural.
Isso não significa que o direito é meramente legislativo. Ele não pode nem deve desprezar
todos os aspectos do processo histórico, em que o círculo da legitimidade não coincide com a
legalidade[23].
A sociedade estabelece por meio de normas o que deve ser considerado correto ou incorreto
nas relações sociais. Contudo, em se tratando de relações humanas, a linha que demarca o sentido
de um e de outro é tênue pelas próprias características das relações. O que é entendido como
correto para uns é incorreto para outros. O que é certo ou errado passa pelas avaliações individuais
e isso gera atrito. O choque de interesses no social é inevitável. A cultura de determinada
sociedade é que deveria ser o norte para as decisões sobre o que pode ser considerado como
relevante ou não. Contudo, isso também é duvidoso, uma vez que a cultura não é entendida por
todos de forma plena.
Os indivíduos que atuam na sociedade baseiam suas ações no que diz respeito ao social, nos
valores estabelecidos pela própria sociedade. Valores como trabalho, honra, dignidade, educação
etc. – são eles que norteiam as ações dos indivíduos. São valores que foram embutidos nas ações
humanas por um processo de socialização.
Para Max Weber a regularidade dessas ações sociais, isto é, a repetição dessas ações nas
relações sociais leva o nome de “uso”, até “o ponto em que a probabilidade de sua existência
dentro de um grupo de pessoas não se baseie em mais nada a não ser o hábito real. O uso será
chamado de ‘costume’”[24]. Assim, a ação social do indivíduo e sua inserção na sociedade dão-
se de acordo com seus interesses no próprio social, onde ele encontrará reciprocidade. O indivíduo
age, segundo Weber, “de modo simples e inconsciente (…) há sempre a expectativa justificada
por parte dos membros dos grupos de que uma regra costumeira terá a correspondência dos outros,
do mesmo modo e pelas mesmas razões”[25].
No primeiro capítulo, quando tratamos de Max Weber, vimos que a ação social pode ser
determinada por quatro maneiras diferentes: a primeira pode ser classificada em relação a fins,
isto é, os indivíduos agem racionalmente como condições de atingir determinados fins. Para
atingir esses fins comportam-se, usam condições ou meios objetivando o que foi planejado. A
segunda maneira são as ações relacionadas a valores, que são as ações determinadas pela crença
no valor absoluto da ação, independentemente de qualquer outro motivo. A terceira maneira está
relacionada à afetividade, isto é, a ação é determinada pelo modo emocional com que o indivíduo
se manifesta. E, por fim, a quarta maneira é a ação social determinada pela tradição, que é quando
o indivíduo age segundo o costume, a prática de longa data. O objetivo que é dado a cada tipo de
ação permite entender seu sentido, que é social na medida em que encontra o respaldo no outro.
Portanto, é através dos valores sociais e das motivações individuais que advém o sentido da ação
social. Dessa forma, o indivíduo é “obrigado” a agir segundo a ação correspondente ao outro.
Caso isso não ocorra, não haverá ação social e consequentemente um não relacionamento.
Assim, o social mantém um “controle” sobre as ações dos indivíduos. Esse controle ainda
pode ser considerado formal e informal. O controle informal é a punição que o indivíduo sofre
por não se comportar segundo as normas e os valores criados socialmente. O controle formal é a
própria lei. São os instrumentos que se aplicam quando o comportamento do indivíduo ultrapassa
os limites impostos pelo social e fere de alguma forma o que foi estabelecido. Dessa maneira,
torna-se necessário restabelecer as normas. A lei é aplicada, obedecendo a uma graduação,
dependendo da gravidade da ação do indivíduo, fazendo com que se restabeleça a normalidade.
Esse controle imputa ao indivíduo uma obrigatoriedade – a obrigatoriedade de “andar dentro
dos limites”, segundo uma visão durkheimiana. Isso também é entendido como coerção – obriga-
o a agir corretamente. Quando isso não ocorre, quando se transgride qualquer norma, tem de
responder pelas consequências; assim, a obrigatoriedade de segui-la.
Segundo Durkheim o homem deixou de ser apenas um “animal” e se tornou humano porque
foi capaz de se tornar sociável. Esse ser sociável é capaz de aprender hábitos e costumes que são
próprios de sua sociedade. Esse processo de aprendizado – como já foi dito – é a socialização.
Durante esse processo é formado no indivíduo o que ele chamou de consciência coletiva.
A consciência coletiva está presente em toda a sociedade. Ela é, por definição,“difusa em
toda a extensão da sociedade; mas não tem menos caracteres específicos que a tornem uma
realidade distinta (...) É a mesma no norte e no sul, nas grandes e pequenas cidades, nas mais
diferentes profissões (...) Ela forma o tipo psíquico da sociedade”[26].
Seguindo então esse grau de modernidade da sociedade, o que é norma passa a ser uma norma
jurídica, uma vez que a sociedade sente necessidade de definir regras de cooperação entre os que
participam do trabalho coletivo. Disso resulta que existe uma solidariedade social decorrente de
certo número de estados de consciência, comuns a todos os membros de mesma sociedade. É ela
que o direito repressivo representa materialmente, pelo menos naquilo que tem de essencial[27].
Para alguns autores, essa questão tem bastante similaridade com um fenômeno desenvolvido
pelos sociólogos americanos, na década de 40, que eles chamam de fenômeno da interdependência
social. Esse fenômeno seria a percepção dos indivíduos de que são dependentes entre si e assim
suas relações sociais objetivam a integração num mesmo sistema de normas e o reconhecimento
delas, para que o social não se desintegre. Desse modo, os indivíduos agem racionalmente
baseados no que objetivam na vida. Para manter o todo social eles seguem conjuntamente normas,
regras criadas pelo e para o bem comum.
A visão crítica de Marx é de que o controle social é exercido por uma classe social que
controla o Estado. A manipulação do Estado dá-se por meio das leis criadas e que são orientadas
por essa classe dominante. O controle não é somente oriundo das leis, mas ideologicamente as
ideias que vigoram são resultado das relações desiguais impostas também por essa classe. Ela se
transveste pela alienação (ver Capítulo 1). “A alienação social se exprime numa ‘teoria’ do
conhecimento espontânea, formando o senso comum da sociedade. Por seu intermédio, são
imaginadas explicações e justificativas para a realidade tal como é diretamente vivida e
percebida”[28].
O direito não é o único instrumento de controle social; junto com ele podemos elencar a
religião, a moral, mas o direito é percebido como o mais importante, muito mais pela sua
efetividade do que por questionamentos sobre a origem.

Berger, Peter; Luckmann, Thommas. A construção social da realidade. Rio de Janeiro:


Vozes, 1994.
O livro trata do conhecimento que orienta a vida cotidiana.
Arendt, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
A autora trata de dois grandes totalitarismos, o nazista e o soviético, como resultado de
transformações sociais, econômicas e políticas do século XX.

A onda. Direção de Dennis Gansel. 2008.


O filme é a respeito de um professor que, numa aula sobre autocracia, propõe uma experiência
prática para explicar o fascismo e o poder.
1984. Direção de Michael Radford. 1984.
Filme baseado no romance de George Orwell, que retrata um mundo dominado por um partido
que controla a vida de todos os cidadãos.

Leia o texto a seguir e responda às questões.


Em 2007 o governo federal lançou o programa de governo sobre planejamento familiar. Um
conjunto de medidas que visa entre outras coisas o oferecimento de cartelas de pílulas
anticoncepcionais a preço de R$ 0,30 e R$ 0,40 em farmácias e drogarias credenciadas no
programa Farmácia Popular. O preço seria possível porque nesse programa o governo financiará
90% do preço de referência dos anticoncepcionais. No início seriam 3,5 mil pontos de venda, mas
no final do ano o número poderia chegar a 10 mil, segundo o ministro da Saúde.
O programa também pretende envolver os homens nessa campanha educativa de
planejamento familiar. Segundo o ministro a cirurgia de vasectomia será incluída na Política
Nacional de Procedimentos Cirúrgicos Eletivos – programa esse criado em 2004 para reduzir a
fila de pacientes que querem passar por cirurgia de catarata, hérnia e varizes.
Uma das primeiras instituições a criticar o programa de governo foi a Igreja Católica, que,
através da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, repudiou o programa dizendo que: “o
governo deveria privilegiar a educação e não a oferta de métodos contraceptivos”, e “a Igreja
jamais vai se colocar ao lado de um fim bom, que é o planejamento familiar, por um meio mau”.
O ministro rebateu as críticas dizendo que “o Estado laico não pode ser pautado nem pode
responder a uma visão de uma determinada religião. E as outras religiões o que pensam disso?”.
E, ainda para o ministro, a Igreja Católica não deve ser a única orientadora das políticas públicas
no Brasil.
Essa questão ainda parece insolúvel no País. Ora o Estado se manifesta propondo uma
orientação educacional e isso é visto como interferência, ora a Igreja também interfere como
forma de orientação do comportamento dos crentes. Uma contradição que não se resolve.
1) A visão da Igreja sobre a sexualidade e a do governo sobre a questão são absolutamente
antagônicas. Segundo o que foi dito neste capítulo, escreva um texto comentando esse
antagonismo.
2) É possível pensar uma sociedade sem a interferência das instituições, como a Igreja e o
Estado? Escreva um texto a respeito.

As Normas Sociais, Jurídicas e a


Aplicação das Leis

3.1. Interação, sociabilidade e o direito


Anteriormente vimos que numa sociedade capitalista ocorrem ações sociais entre os
indivíduos numa relação de dominação. Pensemos agora não na questão de dominados e
dominantes, mas foquemos nas relações sociais, aquelas que realizamos no público. Às ações e
reações entre os indivíduos, ou entre grupos de uma sociedade, chamamos de interação social.
Elas se caracterizam pela reciprocidade, uma vez que as reações podem tornar-se estímulos para
novas reações, o que não influencia somente um indivíduo, mas pode influenciar outros grupos e
outros indivíduos. A base dessa interação é a comunicação desenvolvida por uma sociedade.
Assim podemos entender que a interação é um processo; em cada sociedade vamos encontrar, em
diferentes momentos históricos, diferentes formas de interação, linguagem, códigos, normas com
algumas diferenças, mas com alguma relação entre si. E quando falamos em sociabilidade estamos
falando ao mesmo tempo na tendência dos homens de viver em sociedade e a maneira de como
se dá essa integração.
Podemos falar em sociabilidade “considerando as relações desenvolvidas por indivíduos ou
por grupos, quando essas relações não se traduzem na formação de um grupo suscetível de
funcionar como uma unidade de atividade. No interior de cada grupo, os indivíduos estabelecem
relações, uma boa parte das quais não tem qualquer relação direta com os fins do grupo”[29].
Interagimos segundo um senso e uma consciência moral. O senso moral é a “maneira como
avaliamos nossa situação e a de nossos semelhantes segundo ideias como as de justiça e
injustiça”[30]. São sentimentos que afloram em determinados momentos nos quais nos
defrontamos com algo ou situações que nos chocam, pela violência, pela fraqueza, pela injustiça;
o que fazer diante dessas situações, ou o que é certo ou errado? Quando nos deparamos com
notícias nos jornais, revistas e TV sobre as ocorrências criminais, ou sobre corrupção, pedofilia
etc. São casos em que nos sentimos incomodados com a situação e esse incômodo requer de nós
uma posição.
No caso da consciência moral se refere à avaliação de condutas “que nos levam a tomar
decisões por nós mesmos, a agir em conformidade com elas e a responder por elas perante os
outros”[31]. São as decisões que tomamos a partir dos sentimentos do senso moral. Ao decidirmos
se é certo ou errado, se justo ou injusto e essas decisões são avaliadas por nós mesmos e pelos
outros, deparamos-nos com sentimentos que nos obrigam a avaliar ou reavaliar nossas ações.
Todas essas ações indicam a referência aos valores que a sociedade elencou comonormas a serem
seguidas. Aqui estamos entrando num outro campo, que é o daética.
Segundo o dicionário Aurélio, ética significa estudo de juízos de apreciação referente à
conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente
a determinada sociedade, seja de modo absoluto. Se pensarmos a sociedade formada por humanos
dotados de vontade livre e de capacidade de interagir com a natureza, podemos dizer, como o
professor Sergio Cortella, que “a ética é aquilo que orienta a sua capacidade de decidir, julgar,
avaliar. Só é possível falar em ética quando falamos em seres humanos, porque ética pressupõe a
capacidade de decidir, julgar, avaliar com autonomia”[32]. Assim, nas interações sociais
pressupõe-se, ou deve-se pressupor que o homem, a pessoa moral, deve ser uma pessoa consciente
de si mesma, ser responsável, e isso só é possível pensar num ser humano se ele for livre. “A
liberdade não é tanto o poder para escolher entre vários possíveis, mas o poder para
autodeterminar-se, dando a si mesmo regras de conduta”[33]. O indivíduo livre é um ser
autônomo, capaz de pensar e agir de forma independente. É um indivíduo ativo que não se deixa
enganar por outros, levar-se pelas ideias de outros, ou por medo de outros.
Assim, o campo da ética é composto pelos valores que orientam as condutas morais, pelo
indivíduo livre e pelos meios para que os indivíduos consigam os fins. “No caso da Ética, nem
todos os meios são justificáveis, mas apenas aqueles que estão de acordo com os fins da própria
ação. Em outras palavras, fins éticos exigem meios éticos”[34].
A atuação do indivíduo em sociedade carece de elementos constitutivos de um campo
específico, que é a moral, e a questão do direito permeia essas relações de forma muito próxima.
O jurídico é um dos elementos que está estreitamente ligado ao campo da moral. “É com base na
profunda vinculação moral/direito que se pode estabelecer o relacionamento ética/direito. Pois
ética não é senão a ciência do comportamento moral do homem em sociedade”[35]. Segundo
Nalini, o direito se aproxima da moral na medida em que o direito e a moral, de certa forma, estão
envolvidos com as condutas obrigatórias impostas aos indivíduos. As normas não são facultativas,
são obrigatórias, e tanto o direito quanto a moral buscam coesão social e são formas históricas de
comportamento humano.
Como vimos acima, a consciência moral se refere a tomar decisões que foram originadas
pelo nosso senso moral. Assim, podemos entender que somos coagidos a seguir determinada
norma social e que não é facultativo segui-la, mas, caso não a seguimos, podemos sofrer uma
dupla coerção: se infringirmos a moral, nossa consciência pesará nesse sentido. Se cometermos
uma infração, seremos punidos não somente pela nossa consciência, mas pela lei.
3.2. Normas sociais e jurídicas
Nas ciências sociais, quando se fala em comportamento segundo as normas, baseadas nas
ideias descritas em capítulos anteriores, há sempre uma preocupação em pensar as ações dos
indivíduos no sentido de que elas produzam um comportamento benéfico a todos os integrantes
da sociedade. Isto é, normas que ocasionem um comportamento semelhante a todos. As normas
devem ser compartilhadas e a sua aprovação é que garante que elas sejam normas sociais. Muitos
sociólogos afirmam que as normas são tão poderosas que os indivíduos nem sequer pensam em
descumpri-las. Outros afirmam que elas fazem parte de uma estratégia social controlada por um
segmento da sociedade, a fim de que a “outra” camada da população as siga. Dessa forma,
mantém-se o poder e determina-se o que deve ou não ser seguido.
As normas produzem efeitos sociais que podem ser percebidos na sociedade por meio das
sanções sociais. Lembramos que obedecer a determinadas normas significa evitar que sanções
recaiam sobre nós, sejam elas legais ou sociais. Assim, quando penso em cometer qualquer ato
contrário ao social, ou considerado ilegal, evito fazê-lo, pois está implícito que se o praticar serei
punido com a lei e consequentemente sofrerei também uma punição social, que poderá ser o
ostracismo, a rejeição etc. Essa é a função social do direito, segundo seus operadores. É a chamada
função preventiva. O direito dita as regras de conduta e condiciona os indivíduos a determinados
comportamentos. Ou, então: “generalizando, pode-se dizer que o comportamento guiado por
normas é garantido pelas ameaças de sanções sociais que tornam racional obedecer”[36].
Ao atuarmos socialmente evitamos qualquer ato “ilegal” ou inadequado, mesmo quando
estamos sozinhos. Mas se estamos sós, de onde vem a punição? Essa é a força da norma! Esse é
o controle exercido mesmo quando estamos “isolados” do social. Lembremos aqui o que disse
Durkheim sobre a consciência coletiva, relatado anteriormente. É o conjunto de crenças e
sentimentos comuns a todos os membros de uma sociedade que forma um sistema que tem vida
própria. Isto é, quanto mais os indivíduos se opõem às normas e aos valores dominantes de sua
sociedade, maior é a pressão da coerção social sobre eles.
O direito se expressa formalmente por meio das normas jurídicas. O conjunto delas – que
disciplinam os modos de conduta, o convívio social – forma o ordenamento jurídico.
São as normas que fazem a ponte entre as ações dos indivíduos e delimitam o que é
considerado ilegal, ou legal, o que é direito e o que não é assim considerado. Segundo Kelsen, a
“justiça é representada como virtude do indivíduo”[37]. Assim, segundo o autor, a conduta social
do indivíduo será considerada injusta se contrariar as normas que prescrevem determinada
conduta. Quando fazemos um simples contrato de aluguel estamos envolvidos com as normas
jurídicas, que delimitam, portanto, o que pode e o que não pode ser contratado entre as partes.
Quando fazemos uma compra em qualquer estabelecimento, estão implícitas as mesmas regras.
São elas que tutelam nossas ações em determinados momentos da vida em sociedade.
Ainda segundo Kelsen, as normas da justiça ou as normas de justiça têm um caráter geral.
“Uma norma é geral quando tem validade não apenas num caso singular – como a norma
individual – mas vale para um número de casos iguais que não pode ser determinado de antemão,
quer dizer, deve ser observada ou aplicada num número indeterminado de casos”[38]. Assim,
conclui o autor que uma norma somente pode ser deduzida de outra norma e não, como diz
erroneamente a jurisprudência, deduzida de uma norma baseada num conceito.
Agimos no social segundo certos limites ditados pelos valores sociais. Esses valores são
ordenados de forma a orientar comportamentos, crenças, ações que formam o campo da ética. A
ética abrange, assim, as normas sociais e as normas jurídicas. No caso das normas sociais, impõe-
se a nós como sanção social e interna. No caso das normas jurídicas, impõe-se a nós por meio das
leis. Assim a norma liga, integra a ação ao valor e preserva essa ligação. Essa ligação dá-se
mediante certa hierarquia dos valores, ordenando sempre os valores supremos e subordinando os
demais.
“Cada civilização tem sua própria hierarquia de valores, discutindo-se se ela surge ou
desaparece de modo espontâneo, se é aceita ou rejeitada convencionalmente, ou se corresponde,
antes, a preferências impostas a toda a sociedade pelos grupos ou classes dominantes. Em
qualquer hipótese, para a introdução de novos valores, ou a defesa dos que já vigoram no meio
social, não basta o recurso à força. É indispensável um mínimo de justificação ética. A consciência
do bem e do mal, com o consequente sentimento de justiça ou injustiça, é inerente à condição
humana, qualquer que seja a concepção que se tenha da sua origem: se se trata de algo inato, ou
totalmente adquirido no curso da vida social”[39].
Os atos dos indivíduos são tidos como morais se se considerar seu aspecto subjetivo, interno,
psíquico. Isso leva o indivíduo a manifestar em suas ações determinados elementos de sua
interioridade, em que mostra sua personalidade, estudada pela psicologia. Assim como a
sociologia, que estuda o comportamento de grupos sociais sob o ponto de vista de determinadas
relações sociais. A antropologia estabelece relações entre as estruturas sociais de
uma comunidade e o código moral que a rege. Os antropólogos conseguem estabelecer o processo
de sucessão de determinadas normas efetivas por outras[40].
Para Norberto Bobbio[41], essa ideia de o direito ser centrado na norma é um pouco
equivocada. Pra ele o estudo do direito deve ser centrado no ordenamento e esse ordenamento
deve ser entendido como o conjunto das normas de determinada ordem jurídica. Para o autor,
qualquer tentativa de caracterizar o direito levando-se em conta as estruturas das normas jurídicas
cai por terra, na medida em que nenhuma delas é suficiente para isso. A norma jurídica é definida
a partir do ordenamento, e não o contrário.
Em relação à estrutura, as normas jurídicas podem ser: positivas, que seriam as que obrigam
o sujeito a alguma ação. E negativas, que são as que proíbem o sujeito de alguma ação. Segundo
ele, ambas não podem ser consideradas exclusivamente do campo do direito, uma vez que já estão
inclusas no sistema normativo. Mesmo as chamadas normas abstratas ou as concretas, o
normatismo considera que elas são normas jurídicas, mas que também não caracterizam o direito.
Ainda mais, Bobbio considera que as normas hipotéticas são específicas de um sistema normativo,
contudo diversos sistemas normativos abrangem as normas hipotéticas. Dessa maneira conclui
que nenhuma delas seja suficientemente capaz de caracterizar o direito.

3.3. A eficácia da aplicação da lei


Em 1990 foi promulgada a Lei n. 8.072 referente aos chamados crimes hediondos. Essa lei,
para muitos especialistas, veio ao encontro dos clamores populares de um maior recrudescimento
em relação aos que deveria punir, condenados por práticas como tráfico de entorpecentes,
homicídio qualificado, estupro, sequestro e atentado violento ao pudor, com o cumprimento de
suas penas integralmente, em regime fechado. Acreditava-se que penas mais rigorosas
provocariam uma inibição da criminalidade. Naquela época a mídia, principalmente a chamada
mídia sensacionalista, creditava o aumento da criminalidade à falta de punição, ou mesmo às
“facilidades” que a lei proporcionava aos criminosos.
A ideia de impunidade, que vigorava na época, estava ligada às leis consideradas brandas
demais, aliadas à ineficiência da justiça e às punições consideradas ineficazes por parte da
população. Dessa forma, era necessário que o Estado se firmasse diante dessa questão e
apresentasse uma resposta. O que foi elaborado ficou conhecido por Lei dos Crimes Hediondos.
Contudo, todas as pesquisas no sentido de averiguar sua eficácia não são conclusivas. A lei não
inibiu os chamados crimes hediondos, haja vista as ocorrências desse tipo de crime não terem
diminuído. Pelo contrário, inúmeros problemas surgiram com essa lei. Um deles é a superlotação
dos presídios, o que provocou mais violência e insatisfação. O aumento do tempo de prisão gerou
um estado de degradação, que já era grave para o sistema prisional brasileiro. A lei é questionada
também pelo fato de elencar os crimes que são considerados hediondos e deixar a cargo dos juízes
a classificação de hediondos ou não. Quer dizer: o que pode ser considerado hediondo? O que
nossa cultura define como hediondo? Ou é apenas a lei? Cabe também questionarmos se a lei foi
elaborada tendo em vista os clamores populares, ou clamores midiáticos? Uma lei elaborada
baseando-se apenas no momento político social em que a sociedade atravessa possui eficácia?
No caso da criminalidade, podemos dizer, de maneira geral, que a mídia age seguindo
interesses próprios. Podemos notar também que o crime mais violentoparece ser sempre o que
está mais próximo de sua classe social. Assim, o maior criminoso é aquele que comete um crime
contra a classe dominante. Esse tipo de crime é o que provoca o que os operadores do direito
chamam de clamor popular.Quando isso acontece, a punição dever ser rigorosa para a satisfação
do público.
Uma das maiores reclamações dos brasileiros em relação ao sistema judiciário é essa falta
de punição. Se o criminoso for de classe média ou alta, cometer um delito qualquer e não for
punido exemplarmente, é porque não houve justiça. Outra ideia é a de que somente os mais pobres
sofrem punição legal em nossa sociedade. As desigualdades sociais que imperam em nosso país
faz com que surja no meio social a ideia de que não há punição para as classes mais abastadas. É
recorrente a repercussão na mídia em geral de algum delito, cometido por um indivíduo
pertencente à classe média alta, que não fora punido de maneira a satisfazer a vontade do povo.
Outra ideia é de que o povo brasileiro não conhece as leis. Não foi educado para isso. Não
conhece a Constituição brasileira, tampouco recebeu educação para conhecê-la. Tudo parece que
esbarra na educação. A ideia é a de que se fôssemos um povo esclarecido, não haveria mais
nenhum problema em relação às leis. Conheceríamos a Constituição, a maioria das leis que regem
nossas relações e tudo funcionaria de forma exemplar. Não é raro vermos pessoas que não
conseguem fazer com que seus direitos sejam respeitados devido à ignorância em relação às leis.
Não sabemos da existência de tal lei para esse ou aquele direito nosso. Ficamos impotentes ante
a nossa ignorância.
Alguns operadores do direito defendem a ideia de que temos leis em demasia e por isso o
povo não consegue acompanhá-las, e isso se dá porque o Legislativo legisla em causa própria ou
então para interesses de poucos, uma vez que constantemente surgem denúncias de todas as partes
da sociedade sobre leis que beneficiam apenas alguns. Para determinados críticos do sistema
legislativo e judiciário, precisaríamos de pouquíssimas leis e melhores. O problema então estaria
no Legislativo. Para outros, temos leis o suficiente. O que precisaria era que elas fossem bem
aplicadas. Portanto, o problema estaria no Judiciário.
No primeiro caso, a quantidade elevada de leis somente acarreta mais perda de tempo na
tramitação dos processos, elevando os custos, e a lentidão da justiça. Leis mal elaboradas pelo
Legislativo provocariam enormes atrasos. Isso porque essas leis motivariam interpretações
diferentes em casos semelhantes e com o auxílio dos recursos esses processos se arrastariam por
anos. Se qualificássemos melhor nossos legisladores poderíamos reduzir esses problemas.
No segundo caso, o volume excessivo de processos nas mãos dos juízes torna impraticável
o pleno funcionamento da justiça. Isso sem levar em conta os interesses envolvidos nos processos
que fazem surgir denúncias envolvendo réus, vítimas e juízes, principalmente nos que provocam
comoção social, ou mesmo repúdio.
Em ambos os casos transparecem aos olhos do senso comum que nossos advogados e outros
operadores do direito trabalham valendo-se desses problemas. Ora buscando alguma brecha na
lei (lei mal elaborada, redação confusa, que provoca várias interpretações), ora lançando mão de
algum subterfúgio para emperrar, dentro dos limites, o trâmite legal dos processos. A imagem que
fica para o cidadão comum é a de que ele está sendo ludibriado por um sistema judiciário que mal
conhece. Não consegue compreender a existência das leis, ou mesmo sua eficácia. Porque
algumas são entendidas no social como necessárias, mas não cumpridas?
A sociologia busca desenvolver estudos sobre o comportamento dos grupos envolvidos com
essas questões. Se pensarmos que toda lei provoca um efeito social, podemos pensar em alguns
desses efeitos, partindo do que foi exposto acima, caso da Lei dos Crimes Hediondos.
Podemos ainda pensar que quando o legislador elabora uma lei ela pode provocar certas
reações no momento da sua não aceitação ou de sua ineficácia. Podemos então “levantar hipóteses
quanto à inoportunidade da lei, a não correspondência à necessidade do grupo total, ao opor-se a
interesses de grupos parciais e dotados de condições de contraposição eficiente”[42]. No caso de
sua aceitação, ou eficácia, “pode sugerir conformidade com interesses e necessidades do grupo
total ou condição de imposição e/ou alienação geradas em subgrupos que disponham de
poder”[43]. Assim, “é eficaz a norma que atinge seus objetivos, que realiza suas finalidades, que
atinge o alvo porque está ajustada ao fato”[44].
Tomemos como exemplo outra lei polêmica – a que permite a união estável homoafetiva. De
um lado é atacada por especialistas que dizem ser uma lei inócua uma vez que bastaria um contrato
entre as partes que daria o mesmo resultado. Por outro lado, é apontada como um grande avanço
na legislação brasileira no que diz respeito aos direitos sociais de uma minoria que sempre foi
violentada em seus direitos. Mesmo com a lei em vigor ainda encontramos seu questionamento
por juristas que negam esses direitos nela previstos, provocando debates por toda a sociedade. E
a sociologia em meio a isso tudo?
Tomemos aqui um rápido exemplo. A questão envolvendo homossexuais no Brasil,
atualmente, é um dos temas mais debatidos no campo das ciências sociais. A produção de pesquisa
envolvendo o tema cresceu assustadoramente nos últimos anos. Temos acesso também à produção
científica internacional. De certa forma, no País, o que podemos presenciar é que houve um
aumento no que diz respeito à tolerância em relação aos homossexuais. Contudo, isso não
significa aceitação. Na medida em que eles continuam sendo violentados em seus direitos e ou,
ainda mais grave, vítimas de homicídios, vemos que a aceitação ainda não é completa. Isso
continua ainda gerando problemas em relação aos direitos desse segmento As pesquisas mostram
que o que se apresenta é a falta.
O passado historicamente relacionado aos homossexuais, a luta dos gruposgays organizados
e toda a pressão que a sociedade exerce sobre esse segmento devem-se à falta de discussão séria,
à falta de conhecimento de causa. O fato é sempre tomado por um pensamento conservador que
busca apontar a causa homossexual como sendo algo novo, fora da realidade social. Isto é, fora
do contexto. Aparece como sendo uma novidade. As necessidades que ora os homossexuais
apresentam são entendidas como busca de privilégios não como necessidades. Assim, as
diferenças sociais são convertidas em desigualdades sociais. E, assim, justifica-se a violência
contra esse segmento. Aqui entramos também numa outra questão, que é a ideologia.

ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.


Destaque para o capítulo 2 do volume 1, em que o autor trata da civilização como transformação
do comportamento humano.
MIRANDA ROSA, Felippe Augusto de. Sociologia do direito. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
Destaque para os capítulos IV e VIII.

Abril despedaçado. Direção de Walter Salles. 2001.


O filme mostra a angústia de um jovem pela morte do irmão. Ele tenta vingar a morte do irmão,
mas é impedido pelo pai.

Leia o texto a seguir e responda à questão.


Em 1997, com a instituição do Código de Trânsito Brasileiro, tornou-se obrigatório o uso do
cinto de segurança nos veículos automotores. Na época, gerou muita discussão a real importância
do uso do tal cinto. Para muitos críticos, o Estado, obrigando as pessoas a usar o cinto de
segurança interferia num âmbito que não lhe diz respeito. Afinal, se houvesse um acidente, o
maior prejudicado seria o passageiro e/ou motorista sem o cinto, portanto isso deveria ser uma
opção e não uma obrigação. Para os defensores, a obrigação do cinto de segurança era justificada
pelas consequências advindas de um acidente, uma vez que o Estado é que arcaria com as
despesas. Para outros, ainda, tudo não passou de pressão dos fabricantes de cintos de segurança
para promover uma lei que apenas os beneficiava.
No final de 2011, especialmente na cidade de São Paulo, foi aprovada a lei que é conhecida
por Lei da Faixa de Pedestre. A lei pune aqueles que desrespeitarem a faixa e estarão sujeitos à
multa de R$ 191,54; a infração é considerada grave e o condutor ainda perderá sete pontos na
carteira de habilitação. Segundo a chefia do setor de Educação de Trânsito da cidade, a lei é
positiva e isso causará uma modificação no comportamento dos motoristas e dos pedestres, que
serão mais respeitados. Para os críticos, trata-se de uma lei inócua. Não é possível educar um
indivíduo por meio de leis punitivas; seria mais conveniente educar a população para que um
respeite o outro.
1) Escreva um texto mostrando o efeito da lei no comportamento dos indivíduos e como esse
fenômeno se processa no sentido de transformação do social.

O Direito e o Estado

4.1. Ideologia e direito


Constantemente o senso comum elabora “explicações” sobre o social. De certa forma,
elabora uma “teoria” própria acerca do social. Um conjunto de ideias que explicam e justificam
as relações sociais que mantém. Esse conjunto de ideias é fruto do que se chama ideologia. Não
há uma única definição para esse conceito. Vemos que para esse termo encontramos diferentes
definições, significados que foram construídos historicamente. Não cabe aqui discutir todas as
diferentes definições, uma vez que estamos preocupados com a ideologia e o direito e para tanto
podemos direcionar nossa proposta para pontos específicos[45].
Podemos, por exemplo, buscar uma definição no dicionário. Assim, ideologia seria: “um
sistema de ideias peculiares a determinado grupo e condicionado, em sua última análise, pelos
interesses desse grupo. A função da ideologia consiste na conquista ou conservação de um
determinado status social do grupo e de seus membros”. Se buscarmos pela história veremos que
o termo “ideologia” foi usado pela primeira vez pelo francês Antoine Louis Claude Destutt de
Tracy (1754-1836). Ele o usou em seu livro Elementos de ideologia, publicado em 1801. Nessa
obra o autor tenta compreender a origem das ideias (como a moral, ou a vontade etc.) a partir da
observação dos indivíduos e suas relações com o meio ambiente. Diversos filósofos utilizaram
esse conceito e também outros significados[46].
O termo é muito utilizado por diversos cientistas em suas pesquisas como recurso
metodológico. Na verdade, esses cientistas buscam com isso descrever as ideias ou mesmo os
valores que orientam determinada comunidade ou mesmo toda a sociedade, como nas orientações
políticas, econômicas e sociais.
Para Marx a ideologia seria as ideias e representações predominantes numa sociedade
capitalista, representações essas que na verdade são fruto da relação de uma classe social
dominante sobre uma classe social dominada. Um exemplo dessa dominação é que as diferenças
entre os proprietários e os não proprietários são entendidas como diferenças “naturais”.
Peguemos um exemplo: pensando em dois jovens que têm a mesma idade, um de classe alta
e outro de uma classe popular, a pergunta que fazemos é quais as chances de os dois jovens
chegarem a uma universidade? Podemos supor que o jovem de classe alta tem grandes chances –
possivelmente estudará nas melhores escolas, acessará instrumentos de qualidade para isso, como
informações privilegiadas, saúde, lazer, ensino mais qualificado. Diante disso, podemos supor
que chegará com mais facilidade à universidade. E o jovem de classe popular? Para muitos será
a mesma coisa, contanto que ele se “esforce”. É comum ouvirmos que se ele der “duro”, se
trabalhar, vai conseguir atingir seus objetivos. Contudo, sabemos que não é assim que acontece.
Que o jovem dessa classe encontrará inúmeros obstáculos sociais que dificultarão sua caminhada
até a universidade. Isso não significa que todos os pobres não chegarão nunca ao ensino de nível
superior. Significa que as chances para essa classe são menores, o que faz com que a grande
maioria fique fora do sistema. Sabemos que todo jovem tem de estudar, mas também que nem
todos o fazem, e a culpa não é exclusivamente dele. Mas de onde vem a ideia de que se o jovem
trabalhar duro ele chegará ao ensino superior? A ideia de que não há diferenças, de que há as
mesmas oportunidades para as diferentes classes sociais? De que os indivíduos que “querem
mesmo” não ficam esperando “ajuda” dessa ou daquela instituição? De onde vêm essas
concepções de que no social as classes e as oportunidades são iguais para todos?
Para a professora Marilena Chaui isso é “uma elaboração intelectual sobre a realidade, feita
pelos pensadores ou intelectuais da sociedade – sacerdotes, filósofos, cientistas, professores,
escritores, jornalistas – que descrevem e explicam o mundo a partir do ponto de vista da classe
dominante de sua sociedade”[47].
O sentido dado à ideologia aqui é da representação. É a chamada ideologia representativa. A
ideologia como algo ilusório, algo que embaça a visão do sujeito diante do real. Para muitos
autores essa representação provoca um paradoxo. Por exemplo, a de que o trabalhador pobre,
se esforçar-se, ele conseguirá tudo o que necessita para sua vida. O problema surge quando, no
final de sua vida, quando já trabalhou tempo suficiente para a aposentadoria, ele se vê com
praticamente nada de conquistas. Qual a explicação para isso? Busquemos respostas no senso
comum: ele não conseguiu nada porque não se esforçou para isso. Não teve sorte ou não soube
aproveitar as oportunidades que a vida lhe ofereceu. Poderíamos seguir com esses argumentos ad
infinitum. A elaboração de ideias acerca do social ocorre continuamente. A ideologia está presente
em todos os setores da sociedade: nas escolas, na família, na Igreja, no exército e, principalmente,
em todos os meios de comunicação – que processam ideias acerca do social que se transformam
em verdades. Essas verdades criadas por uma classe social passam a fazer parte dos sonhos
compartilhados por outras classes. Como dissemos no capítulo sobre alienação: o sujeito passa a
adotar as ideias que não são dele. A dificuldade de o sujeito separar a ideologia de sua
representação não é percebida. Mesmo a condenação a isso leva à aceitação de que a postura
intelectual crítica diante da ideologia possui caráter ideológico – está ligada às ações humanas.
Contudo, como isso se liga ao direito? Podemos dizer que, se as normas são oriundas das
relações sociais, e que as relações sociais são reafirmações das desigualdades sociais elaboradas
por uma classe dominante, tiramos uma conclusão reducionista de que as leis, na verdade, são
instrumentos de manipulação social, e de que o direito é composto desse conjunto de leis? Muitos
autores discordam dessa conclusão simplista. Vejamos de outra forma.
O direito como fenômeno ideológico vem do fato de ser uma criação das ações humanas.
Principalmente se tomarmos a linguagem que está intimamente ligada à ideologia. Falamos
anteriormente que o direito é uma ordem, ou ordenamento de um sistema, contudo, não pode ser
confundido com outras ordens presentes no social, como a moral, a religião, os valores sociais.
Esses possuem seus próprios preceitos e punições internas aos indivíduos.
Mesmo esse sistema, em que o direito é entendido, está relacionado à realidade, isto é, às
experiências dos indivíduos no social. Se os indivíduos de uma classe dominante atuarem no
sentido de fazer valer seus direitos, de forma utilitarista, individualista, e essa é uma das
caraterísticas das sociedades contemporâneas, o direito segue essa estrutura, uma vez que
responde e ou abarca essas exigências. A crise do capitalismo que vivenciamos neste século e que
atinge praticamente todos os países remete a um pensamento conservador do neoliberalismo que
na verdade é uma forma de ideologia que se traduz no discurso das classes dominantes. Essa visão
conservadora supõe que o mundo no qual vivemos é o único possível – é natural “pensar assim”.
É essa a imagem quando se diz a representação do real – isso se propaga nas ações dos indivíduos
em sociedade.

4.2. Participação coletiva


Num mundo onde o que se preserva é o individualismo e que valoriza a concorrência, o social
passa a ser apenas um campo de luta. O senso comum sempre se refere ao trabalho como uma
batalha a ser vencida.
A ideologia nos guia mostrando que a competitividade é o melhor caminho para conquistar
nossos sonhos. Criamos um mundo em que os interesses individuais são exacerbados, em que
cada um busca seu espaço independentemente do outro – inclusive o “outro” passa a ser um
inimigo a ser combatido.
A ideia de que as ações políticas devem ser relegadas à atuação do Estado sem dúvida reduz
a capacidade de todos em agir coletivamente. “Todas as atividades humanas são condicionadas
pelo fato de que os homens vivem juntos; mas a ação é a única que não pode sequer ser imaginada
fora da sociedade dos homens (...). Só a ação é prerrogativa exclusiva do homem; nem um animal
nem Deus é capaz de ação, e só a ação depende inteiramente da constante presença dos
outros”[48].
A participação no coletivo implica que o componente de cada indivíduo não está imune ao
do outro. De alguma forma sofremos influencia dos outros. Há um estímulo do tipo ação reação.
Isto é, sofremos influência e influenciamos os comportamentos coletivos.
A Constituição de 1988, chamada de Constituição Cidadã, trouxe um ponto importante na
questão da participação coletiva. Ela aponta o princípio de participação da sociedade civil. A
necessidade dessa pontuação na Constituição deve-se à luta da sociedade civil pelo
restabelecimento da democracia no País, principalmente na luta contra o regime militar.
A partir dessa Constituição pudemos notar o aumento significativo de nossa sociedade nas
esferas estatais. Isso possibilitou também a diminuição de um confronto que havia entre Estado e
sociedade civil – um ranço ainda da época da ditadura. Essa aproximação tornou possível outras
formas de enxergar o social – buscando o estreitamento das relações Estado e sociedade.
Do ponto de vista político-social, a redemocratização do País também influenciou
sobremaneira o nosso sistema de justiça. “De um lado, a demanda por justiça, em grande parte
represada nos anos de autoritarismo, inundou o Poder Judiciário com o fim dos constrangimentos
impostos pelo regime militar ao seu livre funcionamento. De outro, a democratização e o retorno
ao Estado de direito recolocaram a necessidade de juízes e árbitros legítimos para decidir
eventuais conflitos entre sociedade e governo e entre os poderes do próprio Estado. Este papel foi
atribuído em grande medida ao Poder Judiciário”[49].
Ainda segundo Arantes, após a Constituição de 1988 o Ministério Público deixou de ser
defensor do Estado para ser defensor da sociedade. “A função principal seria ainda a de fiscal da
lei, mas com uma clara inversão de sentido: finalmente independente do Poder Executivo,
colocado criativamente pelo constituinte em um capítulo à parte dos três poderes (intitulado ‘Das
funções essenciais à Justiça’), com a prerrogativa de propor seu próprio orçamento, e com
autonomia funcional e administrativa, o MP passaria a fiscal da aplicação da lei em benefício da
sociedade e não mais do Estado”[50].
A partir desse momento podemos notar que há uma virada nas ações do Ministério Público.
Os interesses do coletivo se sobrepõem aos interesses de alguns, isto é, há a preocupação com a
normatização, uma mobilização em direção ao coletivo e um forte interesse de que realmente se
efetivem. O exemplo mais claro é o direito do consumidor, que já se mostra efetivo em sua
maioridade. Outro é a questão do meio ambiente que ultimamente toma boa parte das
preocupações, inclusive das empresas que transformaram o tema em responsabilidade social.
Ainda notamos que há interesses individuais se manifestando e tentando se sobrepor ao interesse
coletivo. Haja vista que esse tema é encarado como político e o que prevalece ainda, em muitos
casos, são as forças entre as partes.
Contudo, é possível vislumbrar que a participação coletiva busca um respaldo junto ao
Ministério Público, que é e deve ser de interesses sociais – inclusive tratando de conflitos
sociais[51].

4.3. Direito e comunicação social


A revolução na informação pela qual atravessamos nas últimas décadas faz do setor da
comunicação um centro de atenções extremamente importante. O Estado se viu obrigado a
produzir legislação específica para esse setor a partir das mudanças que a comunicação passou a
enfrentar.
A liberdade de comunicação é um dos principais aspectos que compõem uma sociedade
democrática. Todos sabemos da importância do direito fundamental do ser humano de ser livre
para expressar suas ideias e posicionar-se diante do social. É necessário que a comunicação seja
livre e independente e que pertença ao conjunto da sociedade.
Os meios de comunicação não podem concentrar-se nas mãos de poucos. Não pode ser objeto
de troca entre o Estado e alguns outros. É necessário que a sociedade crie instrumentos que
impeçam essa concentração de diferentes mídias nas mãos de conglomerados, para que não afete
o debate no campo democrático. O debate entre os diferentes interesses, os diferentes movimentos
sociais existentes no País, deve chegar intacto à sociedade. Como vimos, a sociedade não é algo
homogêneo, em que todos têm os mesmos interesses, as mesmas vontades, os mesmos objetivos.
Ao contrário, a sociedade é um amálgama de grupos diferentes, com objetivos diversos, que
buscam a todo instante fazer valer seus direitos. Esse é o grande desafio da vida em comum –
conviver com o diferente, aceitando as diferenças, e entender que elas não podem ser justificativas
para a desigualdade e, assim, suprimir direitos desses desiguais.
O cenário brasileiro, no que tange às concessões de rádio e TV, mostra que a concentração
nas mãos de poucos lesa a cidadania e impõe determinado discurso de apenas uma visão do social.
Isso esconde interesses escusos por parte de uma parcela dominante nesse campo. Prevalecem os
interesses de grupos familiares e corporações. A cobrança da sociedade sobre o efetivo papel do
Estado torna-se aqui de fundamental importância. Praticamente todos os ramos do direito
desenvolveram trabalhos específicos nessa área – como o direito de autor, direito da
administração, telecomunicações e publicidade etc.
A comunicação afeta as relações sociais e é afetada por ela. Para Luckmann e Berger[52], o
indivíduo não nasce membro da sociedade, mas nasce com a predisposição para a sociabilidade e
torna-se membro dela. Para tornar-se membro ele passa pelo processo de socialização. Para os
autores, nesse processo os indivíduos passam por um aprendizado cognitivo em meio às
circunstâncias de alto grau de emoção. Ele se identifica com os outros significativos por uma
multiplicidade de modos emocionais e quando há identificação passa a ser interiorizado. ”Todas
as identificações realizam-se em horizontes que implicam um mundo social específico”[53].
Dessa forma, a identidade do indivíduo indica seu lugar específico no mundo.
Quando o indivíduo passa a tomar consciência do outro, isso implica a interiorização da
sociedade enquanto tal e da realidade objetiva nela estabelecida. Assim, “a sociedade, a identidade
e a realidade cristalizam subjetivamente no mesmo processo de interiorização”[54]. Em resumo:
quando nascemos passamos por um processo de aprendizado de normas sociais chamado de
socialização primária. Em seguida entramos num segundo momento do processo, chamado de
socialização secundária, em que apreendemos o cultural segundo um ponto de vista específico
criado pelas percepções dos próprios indivíduos.
É o chamado caráter supraindividual. No mundo real nos aproximamos de grupos e pessoas
que identificamos com nossas ações, ou nos afastamos pelos mesmos motivos. Interagimos com
essas pessoas cujos objetivos produzem os mesmos estímulos que foram provocados em nós. Um
dos elementos da integração social é a comunicação. É a linguagem que “estabelece pontes entre
diferentes zonas dentro da realidade da vida cotidiana e as integra em uma totalidade dotada de
sentido”[55].
Por meio da linguagem nos comunicamos e nessa interação formamos grupos com interesses
próprios, pelos quais nos identificamos e fortalecemos nossos laços sociais. Passamos, assim, a
agir pelo e com o grupo. Dessa forma dizemos que nosso comportamento pode ser influenciado
pelos demais mesmo consciente ou inconscientemente. Quando estamos agindo em grupo o
comportamento individual é sobreposto pelo do grupo, isto é, agimos segundo os objetivos e
expectativas do grupo. Diferentemente de quando estamos sós.
Os grupos sociais mostram que as pessoas se estruturam socialmente de formas diferentes,
manifestam-se no social, desempenhando funções cujos objetivos podem ser também diferentes
dos de pessoas que se encontram em outros grupos. “Pertencer a grupos sociais é ao mesmo tempo
tão decisivo e tão comum que geralmente os indivíduos não se dão conta da importância desse
fato. Só quando segregados é que os indivíduos tendem a perceber a importância fundamental do
grupo para a vida humana”[56].
O grupo é superior e ao mesmo tempo exterior ao indivíduo. Isto é, se o sujeito sair de um
grupo por qualquer motivo, o grupo continuará a existir – com outros membros, com uma
consciência grupal (que é o que dá força ao grupo), com valores e princípios que possuem. Um
dos elementos que é essencial nos grupos sociais é a linguagem, não somente entre os membros
do grupo, mas do grupo com outros grupos e entre os indivíduos com outros fora do grupo. A
linguagem é um dos fatores determinantes para o indivíduo pertencer ao social.
A área do conhecimento que estuda a comunicação humana é a comunicação social. É nesse
campo que são estudadas as questões que envolvem a interação dos indivíduos em sociedade, o
funcionamento e consequências dessas interações, bem como as relações entre a sociedade e os
meios de comunicação de massa. O mundo contemporâneo está repleto de instrumentos que
possibilitam informar, entreter, envolver, subjugar, enganar etc. as pessoas através da
comunicação.
Cotidianamente somos bombardeados por informações via rádio, televisão, revistas, jornais,
internet – pelos mais variados tipos de veículos da informação – que, através da publicidade,
orientam-nos como nos devemos comportar diante desse ou de outro fenômeno, adquirir esse ou
aquele produto, gostar disso ou daquilo. Esse fato está presente em todos os aspectos do mundo
contemporâneo, e em um processo tão acelerado que não nos permite parar e refletir sobre nossas
atitudes diante do social. O indivíduo torna-se mais um dentro da sociedade formando uma massa
homogênea.
No caso brasileiro podemos tomar um exemplo clássico desse aspecto. O Brasil é um dos
países cuja população mais vê televisão. Em um estudo do professor Ciro Marcondes sobre a
televisão ele responde por que isso acontece. Para ele, “as pessoas vivem em dois mundos: um
deles é o das coisas práticas: o trabalho que se tem de fazer, fora ou dentro da casa (...) as coisas
que reúnem o rótulo de obrigações. Além destas, existem as obrigações espirituais, as obrigações
cívicas e as obrigações sociais. Tudo isso é o mundo das normas dos compromissos, que não foi
criado, sempre existiu. O outro mundo é o mundo da fantasia. É puramente mental, interno,
subjetivo. Vivemos suportando nossas vidas, temos sonhos, expectativas, desejos, porque temos
esperança de que coisas melhores aconteçam no futuro”[57].
O professor alerta para o fato de que se imputa à televisão os grandes males do País, ou de
que se a considera um grande monstro que deturpa e transforma o social. A televisão não é o
grande monstro, mas quem se utiliza dela é que faz a monstruosidade.
É aqui que sentimos os problemas de um sistema de comunicação pertencente a poucos,
como dito anteriormente. Para críticos da comunicação, a mensagem que os indivíduos recebem
é previamente orientada por uma classe dominante que cria certos parâmetros de comportamento,
os quais são ditados, via comunicação, principalmente, a uma classe considerada inferior. Esses
parâmetros formatam determinado objetivo que seria único para todos e o coloca como sendo o
ideal para a sociedade. A criação de indivíduos “famosos” é exemplo disso. O consumismo
desenfreado é outro. O ideal que está por trás desse fenômeno é a noção de que, numa sociedade
capitalista, ter é fundamental para a integração social do indivíduo. Assim, o consumo de bens,
supérfluos ou não, passa a ser tão importante quanto a própria vida do indivíduo.
Não é somente no consumo ou no comportamento consumista que se reflete um dos
elementos da comunicação. Mas também nas questões ideológicas. As pessoas, ou mesmo os
grupos, passam a refletir as ideias que são veiculadas por determinado grupo que detém certo
poder de influência através da mídia em geral. Os indivíduos passam não somente a se comportar
de acordo com os objetivos ditados por esse grupo, mas também a se identificar com ele.

4.4. Direito e opinião pública


Segundo o dicionário de sociologia, a opinião pública é “um juízo coletivo e exteriorizado
por um grupo. Em sociedades diferenciadas e estratificadas, diversos grupos ou camadas sociais
inteiras podem emitir opiniões coletivas. Em caso de consenso geral, a sociedade toda se torna
portadora da opinião pública”[58]. O mesmo dicionário aponta para o fato que é “notável o
controle social exercido pela opinião pública”. O senso comum trata como a voz do povo.
Opinião pública, como o próprio nome indica, é a opinião do público. O indivíduo se
sente independente quando diz possuir uma opinião sobre diferentes assuntos e, quando essa
opinião é divergente de outra, ele se sente único e não a massa. As opiniões emitidas passam a ter
basicamente as mesmas origens, os mesmos fundamentos. Mesmo possuindo diversas correntes
de opinião, o fundamento delas é o mesmo. Ocorre que essa opinião de um ser que se sente
independente foi permeada anteriormente pela ideologia que faz esse papel – fazer com que o
sujeito se sinta independente, mesmo se sentindo, fazendo e se comportando como a maioria. E
esse sujeito reage a qualquer discussão que se oponha a esse comportamento. “A questão de como
os homens pensam que pensam é central para a continuidade da civilização como nós a
conhecemos. (…) As pessoas mais vulneráveis e mais iludidas pelos sistemas de doutrinação
serão as mais resistentes a discutir sua própria doutrinação”[59].
A mídia pode ser entendida como um elemento importantíssimo no processo de interação
social – é formadora de opinião pública. Ela é, em muitos casos, determinante nas relações entre
os indivíduos. É um dos instrumentos que podem transformar o comportamento do sujeito,
orientando seu pensamento, sua orientação política a serviço de determinado grupo, ou grupos. O
efeito dessas opiniões modificadas pode ter proporções alarmantes. Quando se consegue
transformar a opinião da maioria, por exemplo, podemos criar leis, transformar o Estado, mudar
governos, fazer revoluções. Assim, o domínio da mídia para a manipulação dessa opinião pública
torna-se estratégico em muitos países, tanto no Ocidente quanto no Oriente. Esse é um
poder simbólico extraordinário na medida em que o uso da força nem é necessário. Como afirma
Bourdieu: “o poder simbólico como poder (…) de enunciação, de fazer ver e fazer crer, de
confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, a ação sobre o mundo,portanto o
mundo; poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força
(física ou econômica) graças ao efeito específico da mobilização (…)”[60].
No capítulo anterior, dissemos que o direito deve se preocupar em intermediar as relações
sociais. Contudo, em que medida se dá essa intermediação? Como o direito se estabelece em
relação à opinião pública, se essa opinião foi anteriormente filtrada por interesses de determinados
grupos? Onde está a equidade do direito? Podemos perfeitamente concordar com a problemática
de que a justiça é um fenômeno inteiramente dependente das condições de classe à qual pertenço?
O direito, assim como a justiça, existe somente para determinado grupo social?
Para a filósofa Marilena Chaui (2003), no centro do discurso político capitalista encontra-se
a defesa da democracia. Tanto no caso do liberalismo quanto no caso do Estado do Bem--Estar
Social a democracia é definida comoregime da lei e da ordem para garantia das liberdades
individuais. Segundo a autora, a democracia identifica a “lei com a potência judiciária para limitar
o poder político (...) pois garante os governos escolhidos pela vontade da maioria”[61]. E
identificam a ordem com a potência do Executivo e do Judiciário para conter e limitar os conflitos
sociais, impedindo o desenvolvimento da luta de classes (repressão) ou atendendo a direitos
sociais (emprego, salário, educação etc.)[62]. Dessa forma, a democracia é “vista pelo critério da
eficácia, baseado na ideia de cidadania organizada em partidos políticos, e se manifesta no
processo eleitoral de escolha de representantes, na rotatividade dos governantes e nas soluções
técnicas (e não políticas) para os problemas sociais”[63].
Na sociedade capitalista, estruturada em classes sociais diferentes, identificamos claramente
as desigualdades e os interesses que estão envolvidos no jogo político. A democracia permite ver
isso, uma vez que entende o conflito como sendo legítimo. Assim, é possível se ordenar em
grupos, partidos políticos, organizações etc. e lutar pelos seus interesses mais claramente,
demarcando uma estratégia no social.
Contudo, para a opinião pública, os interesses que estão em jogo sempre tendem a ir de
encontro aos interesses de uma camada mais abastada da sociedade. Por um lado, podemos
chamar de estratificação da justiça, isto é, “a justiça é aplicada de acordo com as condições de
classe social a que pertençam os envolvidos. Não podemos aceitar simplesmente a penalização
como exclusiva de determinados segmentos estigmatizados”[64].
Por outro lado, podemos chamar de autoritarismo social, pois é uma sociedade hierárquica
que divide as pessoas em inferiores – que devem obedecer – e superiores – que mandam. Não
percebemos a prática da igualdade como um direito. Assim, temos uma sociedade em que alguns
menos privilegiados lutam pelos seus direitos e outros lutam para manter seus privilégios. A
opinião pública é produto dessas relações, ora afetando, ora sendo afetada, e o indivíduo em meio
a isso tudo reage segundo a crença em um ideal de normatização que julga ser o correto em dado
momento.
GOFFMAN, Erving. Comportamento em lugares públicos. Rio de Janeiro: Vozes, 2010.
O livro traz a discussão do comportamento dos indivíduos em lugares considerados públicos.
Destaque para os capítulos II e III.
BERGER, Peter. Perspectivas sociológicas. Rio de Janeiro: Vozes, 1991.
Livro que trata da interação homem-sociedade. Destaque para os capítulos 4, 5 e 6.

Edifício Master. Direção de Eduardo Coutinho. 2002.


Documentário que mostra entrevistas com pessoas que falam do cotidiano e como o público
interfere em suas vidas.
A sociedade do espetáculo. Direção de Guy Debord. 1973.
Documentário sobre livro homônimo de Guy Debord. Trata-se de uma visão da sociedade como
o domínio da ilusão e da falsa consciência do indivíduo.
Opinião pública. Direção de Arnaldo Jabor. 1967.
O diretor mostra um quadro de decadência da sociedade brasileira pós-golpe militar de 64.

Leia o texto a seguir e responda às questões.


Em 2009 o presidente do Senado José Sarney (PMDB-AP) foi acusado de ferir o decoro
parlamentar pela edição de atos secretos e também pela suspeita de ter utilizado o cargo para
favorecer uma fundação que leva seu nome. O PSOL acusava Sarney por quebra de decoro no
caso dos atos secretos e também pedia punição para o líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), que
participara no mesmo episódio.
O indicado para presidente do Conselho de Ética do Senado foi o senador Paulo Duque
(PMDB-RJ). Ocorreram manifestações de todos os lados devido à indicação, uma vez que o
senador é do mesmo partido dos acusados. Questionado sobre a lisura da comissão que avaliaria
a quebra de decoro, o presidente do Conselho disse que não estava preocupado com a repercussão
de suas decisões no comando do colegiado que deve julgar as denúncias contra o presidente da
Casa, José Sarney. “Não estou preocupado com isso. A opinião pública é muito volúvel. Ela
flutua”. Ele também afirmou que não teme uma eventual cobrança da população, caso o Conselho
arquive as denúncias contra Sarney. “Não temo ser cobrado por nada. Quem faz a opinião pública
são os jornais, tanto que eles estão acabando”. Ainda questionado sobre se o Conselho teria
independência para julgar, de maneira isenta, o presidente do Senado, o peemedebista respondeu:
“Não existe independência total na política”.
Um mês mais tarde o presidente do Conselho de Ética do Senado decidiu pelo arquivamento
das ações contrárias ao presidente da Casa, José Sarney. Segundo a mídia, mais ou menos como
se esperava. Também foram arquivados outros pedidos contra o líder do PMDB, Renan Calheiros.
Segundo o presidente do Conselho de Ética, a “representação não foi acatada porque nenhum
documento foi apresentado”. “Todas as informações contidas na representação são notícias de
jornal”, dizia o despacho. “A representação em nenhum momento traça relação lógica entre os
fatos que narra e a eventual responsabilidade do representado por eles.” Outra representação que
envolve a fundação que leva o nome do presidente do Senado foi apresentada pelo PSOL. Assim
como as demais, foi arquivada sob o argumento da falta de provas. A outra denúncia apresentada
pelos dois senadores refere-se ao recebimento de informações privilegiadas da PF (Polícia
Federal) em investigação envolvendo seu filho, Fernando Sarney. Ela foi considerada “nula” pelo
presidente do Conselho de Ética por se basear “em gravações de conversas telefônicas que
constam de processo que tramita em segredo de justiça e cuja divulgação é absolutamente ilícita”.
Algumas manifestações contrárias ao resultado do Conselho de Ética surgiram em várias
partes do País. Anônimos protestaram nas ruas, nos jornais; artistas famosos também se
manifestaram em diferentes momentos. Contudo, nenhum deles foi suficientemente capaz de
alterar o resultado desse episódio.
1) Como podemos entender a opinião pública como poder mobilizador da sociedade diante
de situações como a descrita na notícia acima?
2) Podemos estabelecer alguma relação entre ética e representação do indivíduo no Poder
Público?

Direito e Cidadania

5.1. Direitos civis e sociais


Ao longo dos séculos XVII e XVIII, a Europa passou por diversos movimentos
revolucionários que transformaram a sociedade europeia nos campos social, político e econômico.
Essas revoluções marcaram a decadência do sistema feudal e o fortalecimento do capitalismo
como sistema econômico predominante e, principalmente, a ascensão de uma nova classe social
– a burguesia, que passou a dominar também politicamente. Esse momento ficou conhecido por
Revoluções Burguesas[65].
Essa classificação de burguesa se deve aos seguidores do marxismo, que apontavam, como
componente social mais importante dessas revoluções, o fato de serem dominadas/comandadas
por apenas uma classe social. Outros estudiosos preferem chamá-las de Revoluções Liberais.
Nos séculos que antecederam essas revoltas, a burguesia desenvolveu-se graças a uma
ligação com o absolutismo, o que garantiu um desenvolvimento das práticas mercantilistas e o
aumento da produção de mercadorias, o que gerou um processo de acumulação de capitais.
Contudo, com as interferências do Estado absolutista nos problemas econômicos, a burguesia viu
inúmeros entraves ao desenvolvimento do capitalismo.
Assim, foram rompendo seus laços com a monarquia e passaram a defender a liberdade
comercial em oposição ao absolutismo.
Os filósofos políticos do liberalismo foram pensadores que influenciaram em muito o
momento político que a Europa atravessava, e também outras revoltas que sucederam em diversas
partes do mundo. Os filósofos contratualistas – como John Locke (1632-1704), passando por
Montesquieu (1689-1755), cuja obra O espírito das leis propõe a separação dos poderes em
executivo, legislativo e judiciário, seguido por Voltaire (1694-1778), grande defensor dos direitos
individuais e um duro crítico da Igreja, chegando a Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), com O
contrato social – sustentavam o rompimento da burguesia com o absolutismo como forma de
defesa dos direitos sociais.
Por meio do contrato social eles fundamentaram seus pensamentos no plano ideológico e
pregaram a igualdade nas relações entre os cidadãos. Para isso acreditavam na liberdade e
propriedade como sendo direitos naturais dos homens e dessa forma realizaram um contrato no
qual surgia um governo e a sociedade civil. O contrato seria para a manutenção dos direitos dos
cidadãos. O governo seria o responsável pela segurança e pelo respeito aos direitos naturais. Caso
isso não ocorresse o cidadão tinha o direito de rebelar-se. Esse pensamento serviu muito bem aos
interesses da burguesia, que pretendia distanciar-se dos monarcas absolutistas e se aproximar do
poder.
O pensamento econômico dos iluministas veio, então, ao encontro dos interesses da
burguesia. Ele estava centrado na questão da liberdade econômica. O pensamento dos fisiocratas
era também próximo dos interesses burgueses da época. Criticavam o mercantilismo, a
intolerância religiosa e propunham o fim da intervenção do Estado nos assuntos econômicos.
As ideias iluministas repercutiram em toda a Europa e influenciaram diversas revoluções,
como a Revolução Francesa e as Revoluções Inglesas, inclusive nos EUA, uma vez que podemos
dizer que a Independência Americana sofre as influências do Iluminismo.
Na Europa, alguns monarcas, com receio da perda do trono, promoveram algumas reformas
políticas, cedendo o poder em alguns pontos das ideias liberais – isso provocou também o
surgimento de outro fenômeno político, o Déspota Esclarecido. Esse fenômeno surgiu quando
alguns monarcas, com receio de perda total do poder, aceleraram processos de modernização do
País, incluindo no governo membros da população, a fim de acalmar os movimentos adeptos ao
Iluminismo.
O liberalismo é a marca mais forte no que se refere a um comportamento individualista que
busca aprofundar-se nas ideias de liberdade total no plano econômico, social e político. No início,
o liberalismo aparece como revolucionário, marcando uma luta que uniu tanto a burguesia como
os camponeses menos favorecidos. Contudo, após o controle do poder econômico e político, a
questão social, principalmente a redistribuição de riquezas, foi relegada a um segundo plano e os
menos favorecidos foram excluídos do poder[66].
Por um lado, o liberalismo possui essa característica, pelo menos no início, derevolucionário,
que pregava o fim do antigo regime, a luta contra a monarquia, e de se impor como ideário de
uma camada social. Por outro lado, impede que outros, os menos favorecidos, ascendam
socialmente e possam usufruir do poder político. Impede ainda que grupos que não detêm o poder
econômico tenham acesso aos mínimos direitos sociais. Por isso a crítica dos marxistas de que as
revoluções liberais são revoluções burguesas em sua essência.
No caso brasileiro, o pensamento liberal não provocou ou teve como resultado alguma
revolução burguesa.
Alguns insistem em apontar a influência do Iluminismo na Inconfidência Mineira, ocorrida
em 1789, em Minas Gerais. A Conjuração Mineira foi uma revolta contra a Coroa Portuguesa
devido ao recrudescimento das leis portuguesas sobre a Colônia, taxando os produtos vindos da
metrópole, proibindo as atividades fabris e intensificando o controle sobre a extração de ouro. Um
grupo formado por proprietários rurais, intelectuais e militares reuniu-se para conspirar contra a
Coroa. Pretendia eliminar a dominação portuguesa em Minas Gerais e criar um País livre. Não
havia nenhuma intenção de libertar o País, mesmo porque não havia a ideia de nação – isso não
tinha sido criado. Um ponto relevante pelos críticos é o fato de os conjurados não abrirem mão
de seus escravos. A crítica é: que tipo de liberdade propunham os conjurados se seus escravos não
eram vistos como seres humanos? Antes mesmo de a Conjuração ocorrer, os planos foram
descobertos e seus organizadores presos. Destaque também pela crítica era o fato de todos os
membros da conjuração serem das classes mais abastadas de Minas Gerais. Seus ideais eram
vistos muito mais voltados para as questões políticas e econômicas que lhes incomodavam do que
propriamente para as questões de cidadania e ou humanitárias, relativas aos escravos.
No caso brasileiro, as elites agrárias – que dominaram o País desde o fim do Império até
praticamente a Revolução de 1930 – pregavam uma democracia, mas sem “liberar” o poder
centralizado nas mãos de fazendeiros produtores de café e leite. O objetivo não era combater a
monarquia absolutista, e sim a tomada do poder pelo poder e uma organização do Estado
brasileiro que os beneficiasse, sem a participação dos trabalhadores menos favorecidos nem
respeitando nenhum tipo de vontade popular. Defendiam uma democracia, desde que não
houvesse participação do povo[67].
Mesmo com essas críticas podemos dizer que as revoluções liberais na Europa marcaram o
surgimento das discussões a respeito dos direitos civis. A ideia de direitos civis está ligada às
Revoluções Burguesas, uma vez que essas revoluções provocaram o rompimento de uma
sociedade hierarquizada e dominada por um governo absoluto e propuseram uma nova forma de
política e de relações entre os indivíduos e o poder. Inclusive a ideia de indivíduo surgiu após
essas revoluções. Era importante para os pensadores jusnaturalistas formular um conceito de
indivíduo que ligasse o indivíduo livre e igual e ao mesmo tempo natural e isolado do todo. “Dada
essa premissa, a política passa a ser pensada em dois planos distintos e autônomos, embora
complementares: o da ação dos indivíduos na busca de satisfação dos seus interesses e o da
regulamentação do sistema de ação no qual esses indivíduos estão inseridos. Nesse contexto, o
Estado se torna uma decorrência da vontade racional dos indivíduos de viverem em sociedade, e
o direito (incluído o poder coercitivo que o acompanha) e o aparelho administrativoseus
instrumentos precípuos para o exercício da sua função de regulamentar a vida social”[68].
Até então, o que existia era a ideia de povo e ou sociedade. Cidadão passou a ser o indivíduo
que goza de seus deveres e direitos civis e políticos em relação a um Estado.
Cidadania pode ser entendida como um conjunto de diretos e deveres que dá à pessoa a
possibilidade de participar ativamente do governo de seu povo[69]. A cidadania gira em torno das
esferas: civil, política e social. Basicamente os direitos civis envolvem as prerrogativas de
liberdade individual, de liberdade de pensamento e fé, de liberdade de ir e vir, o direito à
propriedade, o direito de contrair contratos válidos e o direito à justiça. Segundo o professor Jaime
Pinsky, “ser cidadão é ter direito à vida, à liberdade, à propriedade, à igualdade perante a lei: é,
em resumo, ter direitos civis, políticos e sociais”[70]. Ainda segundo o autor: a cidadania não é
conceito pronto e acabado. É muito mais um conceito histórico e assim seu sentido varia em vista
do tempo e do espaço. A ideia que queremos aqui é a de que ser cidadão é atuar no social,
conjuntamente com seus iguais, uma vez que os problemas da cidade se referem aos cidadãos. É
com a organização da população que podemos reivindicar os direitos que nos cabem. Isso é uma
luta que perpassa o tempo. Para o professor Sorj:
“A cidadania refere-se sempre a uma forma particular de pertencer a uma comunidade e de
acesso a uma série de direitos. Esta pode significar, por exemplo, na tradição grega, o direito de
participar ativamente na vida comum da cidade; no mundo romano, o acesso a certos privilégios
jurídicos e políticos; na Idade Média, o governo autônomo das cidades; na tradição anglo-
saxônica, a igualdade diante da lei que protege a propriedade e a liberdade individual; ou a soma
desses componentes a valores substantivos de justiça social, tais como apresentados nos ideários
da revolução francesa ou russa”[71].
Historicamente, o período que se seguiu, após o século XVIII, ficou marcado pelo
surgimento dos direitos civis. No século XIX, com o estabelecimento dos Estados Nacionais,
vieram as discussões sobre os direitos políticos, e no último século o foco das discussões está em
torno dos direitos sociais. “Não se pode, portanto, imaginar uma sequência única, determinista e
necessária para a evolução da cidadania em todos os países (...). Isso não nos permite, contudo,
dizer que inexiste um processo de evolução que marcha da ausência de direitos para sua
ampliação, ao longo da história”[72]. Vejamos no caso brasileiro.
No Brasil a questão da cidadania ainda é um tema que suscita grandes discussões. Para muitas
pessoas, ao presenciar outros exigindo seus direitos que lhes são devidos – e os que são devidos
estão previstos em nossa Constituição – significa algo ilegal, uma luta imprópria, um acinte. Para
outros, a luta pelos direitos se transforma numa espécie de assistencialismo por parte do Estado,
que somente provoca uma acomodação dos reivindicantes. Ou, ainda, entender que as
desigualdades fazem parte do todo social e, portanto, são naturais – um entendimento às avessas.
Sabemos que nossa história foi marcada pelo preconceito e pela violência contra diversos
grupos étnicos que formaram a população brasileira. Nesse processo, a cidadania não existia nas
discussões cotidianas. Uma pequena minoria tinha seus “direitos” e uma grande maioria era
excluída de todo e qualquer direito. No período colonial “o fator mais negativo para a cidadania
foi a escravidão”[73]. Tanto a escravidão dos indígenas quanto a dos negros impediram o avanço
do que hoje chamamos de cidadania. A estrutura político-social baseada na grande propriedade e
a mão de obra escrava, segundo Carvalho, “não constituíram ambiente favorável à formação de
futuros cidadãos: Os escravos não eram cidadãos. Não tinham direitos civis básicos à integridade
física (podiam ser espancados), à liberdade, e, em casos extremos, à própria vida”[74]. Mesmo a
população livre era apenas legalmente livre, uma vez que dependiam dos grandes proprietários
para o exercício dos direitos civis, como a educação.
“Não se pode dizer que os senhores fossem cidadãos. Eram, sem dúvida, livres, votavam e
eram votados nas eleições municipais. Eram os homens bons do período colonial. Faltava-lhes,
no entanto, o próprio sentido da cidadania, a noção de igualdade de todos perante a lei. (...)
Chegou-se ao fim do período colonial com a grande maioria da população excluída dos direitos
civis e políticos e sem a existência de um sentido de nacionalidade”[75].
Com a independência do País esse cenário não mudou. A escravidão continuou até o final do
Império, e mesmo após a abolição os negros continuaram submetidos à vontade dos outros,
brancos. Para os movimentos que hoje defendem os direitos dos negros no País, essa camada da
população ainda continua escrava. Ou, na melhor das hipóteses, uma espécie de cidadão
desegunda categoria. Contudo, a escravidão não deixou sequelas somente para os negros. Se os
escravos não tinham consciência de seus direitos civis, os senhores também não os tinham. “O
senhor não admitia os direitos dos escravos e exigia privilégios para si próprio. Se um estava
abaixo da lei, o outro se considerava acima. A libertação dos escravos não trouxe consigo a
igualdade efetiva. Essa igualdade era afirmada nas leis mas negada na prática”[76]. Para o
professor Sorj:
“Embora essa imagem tenha tido um importante papel crítico, quando ampliada
indiscriminadamente, em particular ao período contemporâneo da história brasileira, ignora a
importância que as instituições da cidadania têm na sociedade brasileira, além de idealizar uma
situação inexistente em outros lugares, de completa adequação entre os princípios jurídicos e as
práticas efetivas”[77].
Nossa história mostra que essa situação perdurou durante o início da República até a
Revolução de 1930. Até esse período a sociedade brasileira era esfacelada no que diz respeito à
cidadania. As poucas revoltas que surgiram estavam limitadas por interesses de determinada
região e em determinado momento. Mesmo assim essas revoltas foram combatidas com violência
tão excessiva que de seus objetivos pouco ou nada restou. Não havia o que conhecemos como
povo organizado politicamente, mas sim uma distância enorme entre o povo e o Estado brasileiro.
Mesmo após a Revolução de 1930 e o período getulista, os “benefícios” dados aos
trabalhadores, bem como a organização de diversos movimentos políticos surgidos nessa época,
não transformaram tanto assim a sociedade brasileira no que diz respeito à cidadania.
Não podemos dizer que a sociedade brasileira se organizou em prol de seus direitos civis,
sociais ou mesmo políticos. Toda a legislação voltada principalmente aos trabalhadores não foi
conquista desses trabalhadores, mas concedida a eles por um Estado paternalista autoritário que,
bem sabemos, se de um lado era concedido um direito, por outro lado era de certa
forma retirado e ou mesmo modificado. O Estado estava fortemente centralizado na figura
autoritária de Getúlio Vargas, que conseguiu aproximar-se dos trabalhadores como grande pai
dos pobres, mas se aproximou das elites como a grande mãe dos ricos, como era chamado pelos
populares da época. Contudo, isso não significou que o povo estava mobilizado em torno de seus
direitos. Mesmo as lutas políticas da época – o tenentismo, a Coluna Prestes, a formação da ANL
(Aliança Nacional Libertadora) ou a AIB (Ação Integralista Brasileira) – não refletiam a
participação da população. As revoltas, por exemplo, eram mais restritas aos militares que
procuravam tomar o poder pelo poder. Não havia participação popular. O povo foi relegado a um
segundo plano e a grande maioria manteve-se alienada aos acontecimentos da época. O Estado se
posicionou como uma espécie de intermediário das relações de trabalho – entre empregado x
empregador. Isso de certa forma, aos olhos da maioria dos operários, era visto como ponto
positivo nas conquistas sociais. O Estado passou a ser um grande “protetor” dos operários. Os
sindicatos inclusive mantinham uma estreita relação com o governo, o que facilitava em muito
esse controle estatal. Dessa relação saiu uma divisão dos trabalhadores e seus sindicatos. Os
operários organizados em sindicatos menores tentavam conseguir os benefícios conseguidos pelos
grandes sindicatos, que se relacionavam com o governo com certa promiscuidade. É desse
momento a criação da figura do peleguismo – os sujeitos que evitavam os grandes conflitos
trabalhistas com o governo em prol de um benefício aos seus sindicatos. Além disso, esse
momento foi também marcado pela Segunda Guerra Mundial, que assombrava a todos pela
incerteza do futuro.
O período pós-guerra modificou o cenário político brasileiro, principalmente com a crise
econômica que se seguiu. Apesar de o eleitorado ter crescido numericamente, isso não significava
maior participação na vida pública. Muitos setores da sociedade ainda permaneciam excluídos,
como, por exemplo, os trabalhadores rurais.
No governo de Juscelino Kubitschek, a maior ênfase foi no desenvolvimento econômico, o
que também não alterou muito a questão da participação política dos cidadãos. E essa situação
segue até o golpe militar de 1964.
Para piorar as coisas relativas ao tema cidadania, a partir do golpe militar houve um
retrocesso no que poderíamos chamar de conquistas políticas e civis. Esses direitos foram
cerceados de maneira violenta, como é a característica de todo governo autoritário. Apesar de
criar novas leis que beneficiaram parte da sociedade, como a dos operários – que perderam suas
representações durante o regime, mas foram criados diversos mecanismos considerados avanços,
como, por exemplo, do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço. Durante esse regime vemos
que, em relação à cidadania, se por um lado houve pequenos avanços, por outro houve grandes
retrocessos em relação aos direitos civis e políticos.
A primeira etapa da ditadura militar foi um governo provisório. Mas nesse período já mostrou
a que veio. Decretou o AI-1 – Ato Institucional n. 1 que cassou diversos mandatos, suspendeu
direitos políticos e colocou no poder o Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco. O AI-2
suspendeu a Constituição de 1946, a democracia e consequentemente as eleições diretas para
presidente no Brasil. Com o AI–3, os militares estabeleceram eleições indiretas para governador
e vice-governador e que os prefeitos das capitais seriam indicados pelos governadores, com
aprovação das assembleias legislativas. Com o AI-4 convocou-se o Congresso Nacional para a
votação e promulgação da Constituição de 1967, projeto de Constituição que revogaria
definitivamente a Constituição de 1946. Mas o mais violento de todos foi o AI-5, que concedia
poderes ao Presidente da República como: fechar o Congresso Nacional; demitir, remover ou
aposentar quaisquer funcionários; cassar mandatos parlamentares; suspender por dez anos os
direitos políticos de qualquer pessoa; decretar estado de sítio; julgar crimes políticos por tribunais
militares, além de proibir manifestações de natureza política e vetar ohabeas corpus para crimes
contra a segurança nacional (ou seja, crimes políticos). Foi o marco do autoritarismo. Ao todo
foram dezessete atos institucionais. Diante disso ficou evidente o desrespeito aos direitos
humanos no ambiente jurídico-social do País.
Com o fim da ditadura militar e o processo de redemocratização do País, a população passou
a ter esperanças por dias melhores. O país do futuro teve de se reorganizar política e socialmente
para o que viria pela frente. Inúmeros partidos políticos se articularam e outros ressurgiram para
tal reorganização. Lentamente alguns direitos civis foram sendo recompostos, mas o que marcou
o País e ainda marca é a profunda desigualdade que se apresenta até hoje, sem grandes mudanças.
É fato que nos últimos anos o Brasil vê uma parcela da população que antes era excluída ser agora
incluída através de programas do governo federal. Poderíamos pensar na questão da cidadania.
Não é uma busca pelos direitos do cidadão, mas é uma criação do Estado. Isto é, os direitos
conquistados pelos brasileiros não vêm de uma luta consciente de seus direitos e deveres, mas
sim de algo que vem de cima. É uma espécie de cidadania às avessas. Enquanto na maioria dos
países dito civilizados a cidadania foi conquistada na base de lutas, no caso brasileiro parece ser
uma concessão estatal. E, mesmo assim, ou por causa disso, a grande maioria dos cidadãos não
tem a menor noção dos seus direitos e deveres como cidadão.
Atualmente, o País terceiriza boa parte de seu papel de Estado. Principalmente no que diz
respeito aos direitos da população. A terceirização dá-se através das organizações não
governamentais, que atualmente recebem essas funções por meio de contratos e convênios e
buscam suprir boa parte do trabalho que seria do Estado. Contudo, como dito anteriormente,
mesmo as leis que regulamentam os direitos e deveres do cidadão não passam pelo seu
conhecimento. Portanto, o que está escrito nem sempre é o que está de fato no cotidiano do
cidadão. Para muitos especialistas em educação, isso ocorre porque um dos instrumentos básicos
da cidadania – ler e escrever – é negado ao cidadão.
A ideia de cidadania é de que a educação deve visar a formação do cidadão. É dessa forma
que ela passa do discurso à ação. Em nosso país, a ideia de cidadania é diretamente ligada à
questão de votar e ter direitos. Isto é, ter direitos é votar. Isso nada mais é do que uma visão
limitada da formação do cidadão. A sociedade aparece como sendo algo externo a ele e que não
há nenhuma ligação com o social. Há um enorme distanciamento do indivíduo e o social[78].
Anteriormente dissemos que a cidadania é uma ação conjunta, isto é, deve abarcar a sociedade
como um todo e não a participação somente de um indivíduo. Ela é um processo coletivo, é criar
um conjunto de valores universais que produza uma integração entre a formação pessoal e social
dos indivíduos. Os indivíduos e a sociedade não são coisas fechadas em si mesmas; apesar de
diferentes, pertencem às mesmas instâncias. Um dos principais passos para que isso ocorra é a
aceitação do outro. A tolerância é um exercício de cidadania. A aceitação do outro é extremamente
importante para o papel de cidadão. Quando um aceita o outro é possível pensar em criar o social
conjuntamente. Caso contrário, seguimos acreditando que cada um isoladamente busca os direitos
que lhe convêm.

5.2. Direitos humanos e sociais


Os direitos humanos são relativos essencialmente aos bens inerentes à vida e aos que
preservam a humanidade no homem – o respeito à igualdade, à liberdade física e de pensamento
e à garantia de justiça.
“São aqueles comuns a todos, a partir da matriz do direito à vida, sem distinção alguma
decorrente de origem geográfica, caracteres do fenótipo (cor de pele, traços do rosto, cabelo etc.),
da etnia, nacionalidade, sexo, faixa etária, presença de incapacidade física ou mental, nível
socioeconômico ou classe social, nível de instrução, religião, opinião política, orientação sexual,
ou de qualquer tipo de julgamento moral. São aqueles que decorrem do reconhecimento da
dignidade intrínseca de todo ser humano”[79].
Os direitos humanos devem estar acima de qualquer resolução política ou crença social, uma
vez que o ser humano vem anteriormente à sociedade.
“Os direitos humanos em sua totalidade – não só os direitos civis e políticos, mas também os
econômicos, sociais e culturais; não apenas os direitos dos povos, mas ainda os de toda a
humanidade, compreendida hoje como novo sujeito de direitos no plano mundial – representam
a cristalização do supremo princípio da dignidade humana”[80].
Para muitos historiadores do direito, não podemos falar de direitos humanos antes da
modernidade no Ocidente. Ou, como falamos anteriormente, antes das revoluções burguesas que
contestaram o antigo regime na Europa. Como dissemos, não havia a concepção de indivíduo até
aquele momento. A ideia de um sujeito singular, com direitos – como a vida, a liberdade de
pensamento –, não era algo discutido em sociedade. Os direitos humanos de que falamos aqui
passam a fazer parte dos discursos sociais a partir dos séculos XVI e XVII, quando, na contestação
do antigo regime, surge a ideia de direitos dos homens.
Para outros filósofos ou historiadores, a questão dos direitos humanos pode ser entendida
desde o cristianismo, principalmente na Idade Média, como a defesa da igualdade entre os
homens; ao mesmo tempo, os filósofos discutiam a ideia de direito natural, como sendo anterior
ao direito divino. Apesar de alguns defenderem esse direito, ele é pressionado pela lei divina, que
prevalece sobre o direito natural.
Assim, “Direitos Humanos são universais, naturais e, ao mesmo tempo, históricos, no sentido
de que mudaram ao longo do tempo, num mesmo país, e o seu reconhecimento é diferente em
países distintos, num mesmo tempo”[81].
Um dos momentos marcantes para o desenvolvimento do que seriam os direitos humanos foi
a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, proclamada na França em 1789, época da
Revolução Francesa, e a partir dessa Declaração houve um impulso nas reivindicações dos
direitos dos cidadãos como um todo. Isto é, a ideia de todo cidadão ter direitos passa a ser
difundida na Europa.
A partir de 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial, vieram à tona todas as atrocidades
e a violação da dignidade humana levada a cabo pelas nações envolvidas no conflito. Com isso,
esses Estados criam a ONU – Organizações das Nações Unidas, com a finalidade de manter a paz
mundial e a dignidade do ser humano e preservar as futuras gerações de guerras. Apesar das
tentativas da ONU, ainda deixa a desejar se olharmos para as inúmeras guerras espalhadas pelo
mundo desde então. Em 10 de dezembro de 1948, a Assembleia Geral das Nações Unidas
proclamou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Diversos países propuseram, depois
dessa Declaração, inúmeros acordos voltados especificamente para os direitos humanos. A
declaração e esses acordos deram também um maior impulso nesse campo. A partir de então,
praticamente todos os países fazem menção a essa declaração em suas constituições nacionais.
Isso não os obriga a respeitá-la, juridicamente falando, mas é pelo menos um parâmetro quando
se discutem direitos humanos. “Hoje fazem parte da consciência moral e política da humanidade.
A defesa, a proteção e a promoção de tais direitos”[82].
No Brasil, a discussão sobre direitos humanos ficou mais evidente no período ditatorial, que
rechaçou praticamente todos os direitos civis, políticos e sociais na sociedade brasileira. Os
direitos humanos quase desapareceram nesse período – poucos resistiram.
Com a redemocratização do País, esses poucos direitos resistentes se uniram a outros que se
formaram na busca de restabelecer uma ordem que até então estava perdida. Instituições como a
CPT – Comissão Pastoral da Terra, a CNBB – Centro de Defesa de Direitos Humanos, a ABI –
Associação Brasileira de Imprensa, a OAB – Ordem dos Advogados do Brasil se uniram às
lideranças estudantis, às lideranças sindicais – instituições que sempre se posicionaram com um
discurso em defesa dos direitos humanos e trouxeram à tona todas as preocupações da sociedade
brasileira. “Uma das influências culturais mais significativas que o movimento social exerceu foi
a de formar, junto à população, o princípio de que o cidadão moderno tem direito a ter direito, ou
seja, o direito a exercitar uma cidadania de participação”[83].
Um grave problema ainda preocupante no Brasil é a questão das desigualdades sociais. Um
País com tamanha desigualdade, que, para muitos especialistas somente se transformará com a
transformação do Estado, já que há o perigo de esfacelamento das relações sociais. O paradoxo
enfrentado pelos direitos humanos “apresenta duas dimensões: a primeira, de ordem social e
econômica, diz respeito ao empobrecimento e à miserabilidade. A segunda, de ordem político-
cultural, na medida em que é possível colocar frente a frente os direitos humanos assumidos ora
como proposta do Estado, ora como bandeira de movimento social”[84].
A questão da desigualdade social provoca inúmeras discussões. As diferenças sociais
expostas na sociedade brasileira não são entendidas pelo social como diferença, mas sim como
desigualdade. Isto é, o outro não é diferente apenas, é desigual, portanto, justificam-se inúmeras
outras atitudes diante desse diferente. Inclusive a violência. Em nossa sociedade a diferença é
convertida em desigualdade. E a desigualdade “pressupõe uma hierarquia em termos de dignidade
ou valor, ou seja, define a condição de inferior e superior; e, portanto, estabelece quem nasceu
para mandar e quem nasceu para obedecer (...) a desigualdade só se instala com a crença na
superioridade intrínseca de uns sobre os outros e a consequente discriminação que pode ir até a
morte”[85]. Ou, então: “Os seres humanos são naturalmente diferentes quanto ao seu fenótipo
étnico ou à sua conformação sexual. Nenhuma dessas diferenças deveria, em boa razão, implicar
uma posição de desigualdade social. No entanto, é com base nelas que, desde sempre, uns se
consideram superiores a outros”[86].
Entre os autores parece haver um consenso sobre a questão dos direitos humanos em países
como o Brasil. O tratamento passa pela educação. Assim como também é a questão da cidadania,
tratada anteriormente.
Sabemos que para garantir seus direitos o povo deve unir-se e a partir daí exigir seus devidos
direitos. Para isso é necessário organizar-se no sentido de, em conjunto, realizar essas exigências.
Não basta esperar que o Estado conceda esse ou aquele direito ao seu bel-prazer. “Sendo educação
uma das políticas públicas mais relevantes para gerar qualidade política na população, temos
nela um dos espaços mais sensíveis, tanto da possível imbecilização quanto da gestação do
confronto. Educação de qualidade propicia o saber pensar, a autonomia, a aprendizagem e o
conhecimento de teor reconstrutivo político”[87].
É necessário discutir a educação e sua função social. Seu papel no sentido de construção de
uma sociedade mais justa e igualitária. A escola seria o locus ideal para esse papel. Contudo,
enfrenta ainda muita resistência para assumir essa tarefa. Os críticos seguem dizendo que a escola
não cumpre seu papel de formar cidadão, uma vez que não dá respostas às necessidades da
sociedade. Outros dizem que a escola nada mais é do que mera reprodução do sistema de
desigualdades, apesar de os discursos seguirem sempre na mesma direção sobre o seu papel
fundamental, que seria o de capacitar o indivíduo na sua função de cidadão, ou seja, educar para
a cidadania. Isso só é viável se envolver toda a comunidade. Não é possível isolar a escola e
esperar dela a produção de cidadão. Principalmente no que tratamos aqui sobre direitos humanos.
“A educação em Direitos Humanos parte de três pontos: primeiro é uma educação permanente,
continuada e global. Segundo, está voltada para a mudança cultural. Terceiro, é educação em
valores, para atingir corações e mentes e não apenas instrução, ou seja, não se trata de mera
transmissão de conhecimentos. Deve abranger, igualmente, educadores e educandos”[88].
Nesse sentido a escola passaria a ser um instrumento de inclusão social na medida em que o
indivíduo receberia uma formação direcionada, o que é fundamental para sua participação na
sociedade. Em relação aos direitos humanos na escola é bom lembrar que é impossível criar noção
de direitos humanos se o ensino não estiver intimamente ligado às práticas democráticas. Isso
torna a educação em direitos humanos algo permanente, algo que deve ser cultivado, cuidado,
para que não se perca.

5.3. Justiça social


Quando falamos antes em cidadania dissemos que se define como sendo a participação do
indivíduo na construção de uma sociedade mais justa e igualitária, mas, sobretudo, que a cidadania
é uma ação do indivíduo. No caso dos direitos humanos, de que também já tratamos, são direitos
relativos essencialmente aos bens inerentes à vida, e aos que preservam a humanidade no homem.
A justiça social é uma união desses dois conceitos. É uma construção política que se baseia na
igualdade de direitos e na vontade coletiva em prol da dignidade do ser humano. A justiça social
é vista como base para o desenvolvimento econômico e social de um país. Essa base está
alicerçada nas ações cotidianas dos indivíduos.
A discussão sobre justiça social surge por volta do século XIX, quando as desigualdades
sociais afloram nas sociedades europeias e passam a preocupar por deixar exposto o que o sistema
capitalista provocava. Por um lado, um crescimento econômico acelerado, mas à custa de
exploração e miséria por outro. Fez-se necessário buscar certo equilíbrio entre essas partes,
principalmente criando sistemas de proteção para aquelas consideradas mais fragilizadas.
Numa sociedade permeada pela desigualdade, a justiça social surge como exigência de uma
comunidade que busca o respeito ao ser humano, bem como sua dignidade. Ou seja, é uma busca
pelo bem-estar de toda a comunidade.
Não se podem confundir direitos dos cidadãos com desejos desses cidadãos. A justiça social
trata dos direitos inerentes ao cidadão como ser humano e pertencente a uma comunidade em que
atua. Ela regula essas relações dos indivíduos e a própria comunidade; o objetivo é o bem comum.
No caso brasileiro, em que enfrentamos ainda uma situação de enormes desigualdades, a
justiça social se faz necessária. A Constituição de 1988 é a constituição que mais contempla a
justiça social. O Estado, pelo menos nos últimos anos, preocupou-se em fomentar políticas
públicas no sentido de diminuir em parte as desigualdades que assolam o País. As políticas
envolvendo os governos federal, estaduais e municipais tentam voltar seus olhares para as áreas
econômicas que visem garantir os direitos mais básicos – caso da saúde e da educação – da
população mais carente desses direitos. Os inúmeros programas do governo federal vêm de
encontro a esses aspectos. São programas que, criticados ou não, conseguiram incluir
como cidadãos milhares de indivíduos antes excluídos socialmente. Incluindo indivíduos no
mercado consumidor, por exemplo, beneficiam não somente o cidadão, mas toda a sociedade,
pela demanda que criam. Isso é justiça social, quando o beneficiário não é um particular, mas sim
o todo.
Há alguns anos o governo federal criou um programa intitulado Fome Zero, que visava
assistir famílias em situação de miséria extrema concedendo vales para alimentação. O objetivo
era inserir socialmente essas famílias mais vulneráveis. Conjuntamente a esse programa foi criado
o Bolsa Família. Um programa que transfere renda no sentido de aliviar, numa primeira instância,
a questão da fome. Em seguida, reforçar o acesso aos direitos sociais mais básicos e promover a
superação do estado de miséria extrema.
Apesar de os grandes institutos de pesquisa brasileiros apontarem essamelhora, o País ainda
carece de um grande desenvolvimento nessa área.
Os liberais sempre criticaram os programas dos governos passados, no sentido de que eles
foram e são espécies de ajuda aos pobres, um assistencialismo demagógico pago pelos
que sustentam o País. Ao mesmo tempo possuem um discurso afirmando o trabalho em favor de
uma igualdade de oportunidades e lutando em favor da cidadania. Não precisamos sequer sair de
nosso continente para vislumbrar que essas afirmações não passam de um exercício de retórica.
Poderíamos pensar numa revolta violenta para que houvesse transformações sociais que
provocassem uma equidade social. Muitos países emergentes tentam diminuir essas
desigualdades utilizando-se de todos os artifícios democráticos. Todas as sociedades capitalistas
produzem desigualdades, umas mais, outras menos; o desafio é fazer com que essas desigualdades
não ultrapassem os limites da dignidade humana.
John Rawls[89] é um filósofo político americano, cultuado por muitos e adepto da
democracia liberal. Trata do que no direito chama-se justiça distributiva[90]. De certa forma, a
política de cotas adotada pelo governo brasileiro para o ingresso nas universidades públicas e no
serviço público no País vem das afirmações desse autor. Resumindo seu pensamento em um curto
espaço, Rawls teorizou sobre a questão de como conciliar os direitos iguais numa sociedade
desigual. Para ele “o principal problema da justiça distributiva é a escolha de um sistema social
(...). O sistema social deve ser estruturado de modo que a distribuição resultante seja justa. (...)
Para se atingir esse objetivo, é necessário situar o processo econômico e social dentro de um
contexto de instituições políticas e jurídicas adequadas (...) sem uma organização apropriada
dessas instituições básicas (...) faltará a equidade do contexto”[91]. Um exemplo de suas ideias
foi a Affirmative Action, a ação positiva. Uma espécie de política de governo que visava uma
compensação social por parte dos menos favorecidos. Política essa que visava integrar e ascender
nos serviços públicos e universidades americanas as minorias excluídas naquele país. Caso dos
negros e de outras etnias rejeitadas pelo social. Na verdade, Rawls pregava que os bem-sucedidos
deveriam “dividir” parte do que conquistaram por mérito, ou receberam, com os de classes
populares. O autor propunha que deveria haver certo altruísmo para que se organizasse uma
sociedade mais justa e igualitária. A aceitação emdistribuir daqueles que têm para aqueles que
não têm. Essa ideia foi adotada em boa parte dos países, mas ainda encontra resistência, uma vez
que o altruísmo não é algo que se encontra em qualquer parte.
O desenvolvimento passa pelo fato de o País ter de encarar essa situação de extrema
desigualdade, à qual está submetida parte significativa da população brasileira. Muitos críticos do
governo desbancam o suporte aos programas governamentais apontando-os como meros
assistencialismos, enquanto outros mostram o crescimento do País a partir do momento em que
se começa a integrar essa parcela da população mais carente. Isto é, começa a inserir esse
contingente como cidadãos que participam, consomem e votam. Quando se trata de aplicação de
direito civil e comercial, por exemplo, esses são aplicados segundo os critérios universais, mas
“quando se trata de direito penal, a desigualdade social é determinante para que as pessoas
econômica ou politicamente poderosas fiquem impunes e a lei seja aplicada de forma rigorosa aos
setores menos favorecidos”[92].
Cidadania, direitos humanos e justiça social encontram--se num mesmo fenômeno, que é a
ação, a participação do indivíduo numa sociedade, o que o torna responsável por seus atos e
também pelo social. É necessária a união desses indivíduos em torno de uma mesma busca no
social. As desigualdades sociais não desaparecem simplesmente, é necessário erradicá-las, ou
pelo menos amenizá-las, para que a justiça social floresça e para que caminhemos numa estrada
menos injusta e violenta.

VALLS, Álvaro M. O que é ética? São Paulo: Brasiliense, 1986 (Coleção Primeiros Passos).
Para o autor, os indivíduos se comportam de acordo com o código de conduta socialmente aceito
dependendo do espaço e tempo em que esse indivíduo está inserido.
Comparato, Fábio Konder. Ética: direito, moral e religião no mundo moderno. São Paulo:
Companhia das Letras, 2006.
Obra completa e densa sobre o tema.
Fora de controle. Direção de Roger Mitchell. 2002.
O filme conta a história de dois homens que têm o dia prejudicado por causa de um acidente de
carro entre eles.
Amistad. Direção de Steven Spielberg. 1997.
O filme conta a história, baseada em fatos reais, de um navio negreiro que é tomado pelos escravos
que obrigam a tripulação sobrevivente a levá-los de volta à África. Eles são enganados e
levados aos Estados Unidos, onde são presos. Começa então o processo para decidir a quem
pertence a tripulação.

Leia o texto a seguir e responda à questão.


Em vinte anos de regime militar no Brasil, questões como justiça e direitos humanos sempre
foram ignoradas. Segundo o projeto Brasil Nunca Mais, o regime militar usou de todos os meios
criminosos para se impor como regime. Alguns instrumentos como:
O “pau de arara” - (...) O pau de arara consiste numa barra de ferro que é atravessada entre
os punhos amarrados e a dobra do joelho, sendo o “conjunto” colocado entre duas mesas,
ficando o corpo do torturado pendurado a cerca de 20 ou 30 cm do solo. Esse método quase
nunca é utilizado isoladamente, seus “complementos” normais são os eletrochoques, a
palmatória e o afogamento. (...)
(...) que o pau de arara era uma estrutura metálica, desmontável, (...) que era constituído de
dois triângulos de tubo galvanizado em que um dos vértices possuía duas meias-luas em que eram
apoiados e que, por sua vez, era introduzida debaixo de seus joelhos e entre as suas mãos, que
eram amarradas e levadas até os joelhos; (…)
O choque elétrico - (...) O eletrochoque era dado por um telefone de campanha do Exército
que possuía dois fios longos que são ligados ao corpo, normalmente nas partes sexuais, além dos
ouvidos, dentes, língua e dedos. (…)
(...) que foi conduzido às dependências do DOI-CODI, onde foi torturado nu, após tomar um
banho pendurado no pau de arara, onde recebeu choques elétricos, através de um magneto, em
seus órgãos genitais e por todo o corpo, (...) foi lhe amarrado um dos terminais do magneto num
dedo de seu pé e no seu pênis, onde recebeu descargas sucessivas, a ponto de cair no chão, (…)
A “pimentinha” e dobradores de tensão - (...) havia uma máquina chamada “pimentinha”,
na linguagem dos torturadores, a qual era constituída de uma caixa de madeira; que no seu
interior tinha um ímã permanente, no campo do qual girava um rotor combinado, de cujos
terminais uma escova recolhia corrente elétrica que era conduzida através de fios que iam dar
nos terminais que já se descreveu; que essa máquina dava uma voltagem em torno de 100 volts
e de grande corrente, ou seja, em torno de 10 ampères; que detalha essa máquina porque sabe
que ela é a base do princípio fundamental: do princípio de geração de eletricidade; que essa
máquina era extremamente perigosa porque a corrente elétrica aumentava em função da
velocidade que se imprimia ao rotor através de uma manivela; que, em seguida, essa máquina
era aplicada com uma velocidade muito rápida a uma parada repentina e com um giro no sentido
contrário, criando assim uma força contra eletromotriz que elevava a voltagem dos terminais em
seu dobro da voltagem inicial da máquina; (…).
O “afogamento” - (...) O afogamento é um dos “complementos” do pau de arara. Um
pequeno tubo de borracha é introduzido na boca do torturado e passa a lançar água. (...), e teve
introduzido em suas narinas, na boca, uma mangueira de água corrente, a qual era obrigado a
respirar cada vez que recebia uma descarga de choques elétricos; (...)
(...) afogamento por meio de uma toalha molhada na boca que constitui: quando já se está
quase sem respirar, recebe um jato d’água nas narinas; (...)”
A “cadeira do dragão”, de São Paulo - (...) sentou-se numa cadeira conhecida como cadeira
do dragão, que é uma cadeira extremamente pesada, cujo assento é de zinco, e que na parte
posterior tem uma proeminência para ser introduzido um dos terminais da máquina de choque
chamado magneto; que, além disso, a cadeira apresentava uma travessa de madeira que
empurrava as suas pernas para trás, de modo que a cada espasmo de descarga as suas pernas
batessem na travessa citada, provocando ferimentos profundos; (…)
1) O regime militar, como toda ditadura, somente se impõe pela força. No caso brasileiro,
mesmo depois da abertura política, o País carrega até hoje esse fantasma de não punição aos que
produziram tamanha monstruosidade. De um lado, os defensores do regime, e de outro, os que
sofreram todo tipo de violência do regime. Não se trata aqui de tomar um partido. A proposta é
de que se pense o direito como instrumento de imposição dos direitos individuais e de justiça
social. Faça um texto sobre isso.

Desigualdades Sociais

6.1. Estratificação social


Quando falamos em estratificação social estamos focando numa característica da sociedade
que é a hierarquia das camadas sociais. A sociedade capitalista é composta de classes sociais
estruturadas verticalmente, em que as classes mais abastadas se encontram no topo, “acima” das
classes média e popular. “Encontra-se tanto nas sociedades primitivas, aparentemente as mais
simples e homogêneas, como nos sistemas sociais mais diferenciados e mais heterogêneos: todos
eles são atravessados por divisões verticais, que têm por base seja o sexo, a idade ou a estrutura
de parentesco, seja a riqueza material, o poder ou o prestígio”[93]. A estratificação configura uma
situação hierárquica e em muitos casos desigual. Um grupo que domina o outro pela força física
e ou por ser culturalmente diferente sobrepõe-se ao derrotado provocando uma estratificação. Ou
mesmo, em determinados grupos, a idade dos indivíduos pode significar uma característica de
estratificação. Nas sociedades modernas podemos encontrar diversos níveis econômicos – o que
estratifica a sociedade. “Todos os setores da atividade humana encontram-se estratificados: as
diferenças de salários, a fonte de rendimento ou o patrimônio, a heterogeneidade religiosa (…) a
distribuição de poder político, os hábitos de consumo, os bens materiais (…) são exemplos desse
fenômeno”[94].
As estruturas sociais mais comuns podem estar relacionadas às castas, aos estamentos e às
classes sociais.
O sistema de castas mais conhecido é o indiano, em que ser membro de uma casta é
hereditário – em muitos casos as atividades de determinadas castas são muito ritualizadas –, não
pode haver mudanças de casta nesse sistema. O sistema de castas utiliza-se de critérios de
natureza religiosa e hereditária para formar seus grupos sociais. O indivíduo que pertence a uma
casta permanece nela até sua morte. É uma camada social fechada; particularmente, não há
comunicação com outros grupos. É muito comum algumas profissões serem somente exercidas
pelos componentes de castas específicas. Não respeitar as regras de comportamento das castas
resulta sempre em punições. Oficialmente, desde 1950, o governo indiano aboliu o sistema de
castas, o qual continua mostrando que a religiosidade e as tradições são fortes resistências às ações
daquele.
No caso dos estamentos, são semelhantes às castas, mas menos fechados. Não há ritualização
das castas. Na Idade Média a sociedade feudal foi o exemplo típico de estamento. O senhor feudal
representava um estamento, assim como os nobres e por fim os servos, que trabalhavam nas terras
e sustentavam a todos. A mobilidade social era rara, mas não impossível. Evitava-
se misturar famílias de nobres com servos, ou com senhores. O mais comum era que quem
nascesse servo morreria servo. Nos estamentos, a validade de uma conduta estava nas
convenções de toda estrutura que os compõe. Há uma desaprovação geral para qualquer
comportamento que esteja em desacordo com as convenções.
No caso das classes sociais, são consideradas mais permeáveis, isto é, permitem os
movimentos de classes verticalmente, há uma dinâmica interna que tende ao desequilíbrio. Os
membros de cada classe se consideram socialmente iguais na medida em que se acham num
mesmo nível econômico, profissional e ou educacional. Inclusive no que diz respeito às atitudes
sociais, morais, políticas, religiosas etc.
Classes sociais devem ser entendidas como categorias históricas. Ou seja, estão atreladas ao
desenvolvimento da sociedade e nesse desenvolvimento elas se envolvem e são envolvidas com
a estrutura social. Elas se modificam de acordo com a evolução do próprio social. Dessa forma,
adquirem um sentido próprio, específico, ligado ao momento e às características dessa evolução.
Não pode ser algo estanque. Elas representam a estrutura social de determinado momento. São
partes integrantes da própria estrutura.
Quando Max Weber trata das diferenças sociais, podemos entender que podem ser dadas
diversas explicações a esse fenômeno. Pensemos numa situação mais relevante de uma sociedade
– que possa ser o poder em determinado momento histórico. No caso da sociedade capitalista o
domínio do poder econômico passou a ser o fundamento da posição social de um indivíduo.
Contudo, Weber concebe a sociedade em esferas separadas, como, por exemplo, a religiosa, a
política, a jurídica, a social etc. Para ele, o indivíduo é fundamental na análise social, e, assim, é
necessário lembrar que em cada esfera esse indivíduo age segundo sua consciência, seus
interesses. Ele pode agir de uma forma em seu campo religioso e de outra forma no trabalho e
ou nas relações familiares. Isto é, o indivíduo participa, ao mesmo tempo, de categorias diferentes;
o que importa é o sentido que ele dá a sua ação social e que esse sentido encontra uma ação
recíproca no outro. Somente a consciência dos indivíduos dá sentido à suas ações sociais.
Para os marxistas, a classe social está ligada às relações dos homens com os meios de
produção. Essas relações determinam a existência de classes sociais, as quais fazem parte do
sistema e não existem isoladamente, mas só em relação umas com as outras. Marx aponta que a
história sempre foi uma representação da luta de classes e as relações entre elas determinam seus
interesses de classe. Essa luta manifesta-se em todos os níveis do social. Os operários assalariados,
os capitalistas e os latifundiários formam as três grandes classes na sociedade moderna, baseada
no regime capitalista de produção. Para o autor, as classes sociais baseiam-se na fonte de
rendimento e não no rendimento. O que determina, portanto, são as relações que se mantêm com
os meios de produção – a fonte do rendimento – e não o valor desse rendimento. No mundo
contemporâneo os marxistas apontam o que há de pior no sistema – a desigualdade entre a
burguesia capitalista e os proletários, as duas classes antagônicas que formam a estrutura social.
As estratificações sociais refletem as relações de classes e de certa forma são causa e
consequência das próprias relações de classe. “As estratificações representam, na maioria das
vezes, o que poderíamos chamar cristalizações ou projeções sociais, frequentemente também
jurídicas e, em todos os casos, psicológicas, de certas relações sociais de produção representadas
pelas relações de classes (…). Consequentemente as estratificações podem ser consideradas
também como justificações ou racionalizações do sistema econômico existente, ou seja, como
ideologias”[95].
Por fim, a estratificação social configura um sistema que estabelece uma hierarquia. Essa
hierarquia é a resultante das relações sociais que os indivíduos estabelecem entre si. A
manipulação dessas relações determina os interesses de classes. No sistema capitalista, uma das
consequências mais preocupante é a violência.

6.2. A criminalidade
A criminalidade passou a ser uma preocupação de praticamente toda a sociedade brasileira.
A mídia nacional anuncia cotidianamente manchetes sobre a violência no País. Todos os dias nos
deparamos com esse tema. Não é raro ouvirmos também de pessoas próximas que já foram, ou
conhecem alguém que foi, vítimas de violência. Apesar dessas discussões, o assunto ainda é um
dos que mais preocupam no meio social.
Pode ser extremamente difícil definir a violência. Isso porque ela envolve critérios objetivos,
da normatização, e subjetivos, que dependem dos valores da comunidade e ou individuais. Assim,
cada sociedade determina no espaço e no tempo seus critérios sobre a violência. Isso não impede
que aqui tracemos algumas observações.
O dicionário descreve como crime, segundo um conceito formal, a violação culpável da lei
penal, e, segundo o conceito substancial, a ofensa de um bem jurídico tutelado pela lei penal. E
também qualquer ato que suscita a reação organizada da sociedade. A criminalidade, portanto,
seria o ato do criminoso.
Para Durkheim, o crime “consiste num ato que ofende certos sentimentos coletivos dotados
de uma energia e de uma clareza particulares”[96] – surge como fenômeno estreitamente ligado
às condições de vida coletiva. “O crime não se produz só na maior parte das sociedades desta ou
daquela espécie, mas em todas as sociedades, qualquer que seja o tipo destas. Não há nenhuma
em que não haja criminalidade”[97]. O crime possui a caraterística de fenômeno normal que
emerge das relações sociais. Não é somente um fenômeno inevitável, mas também um fator de
saúde pública. Seria impossível, segundo Durkheim, uma sociedade sem crimes. Apesar de a
sociedade partilhar sentimentos mais ou menos semelhantes, isso não significa que todos os
membros compartilhem os mesmos sentimentos e com a mesma intensidade. Para que um crime
deixe de existir é necessário que todas as consciências que se chocam no coletivo existam em
todas as consciências individuais, para conter os sentimentos opostos – o que torna uma situação
impossível.
O crime seria uma manifestação do social e assim reconhecido como um fenômeno normal,
que promove mudanças como elemento importante na evolução da sociedade. Segundo o autor,
o crime aparece como promotor de uma nova moral, um encaminhamento para o mundo do futuro.
O exemplo seria de que, em certo momento histórico, no qual haja a proibição de determinada
atitude, gesto ou mesmo pensamento – que hoje proclamamos com facilidade –, a época da
proibição poderia ter sido um crime. “O crime é portanto necessário; está ligado às condições
fundamentais de qualquer vida social e, precisamente por isso, é útil; porque estas condições a
que está ligado são indispensáveis para a evolução normal da moral e do direito”[98]. Ainda,
quando o crime, em determinado momento, decresce abaixo do normal, podemos esperar que algo
de errado está por vir.
Durkheim faz uma crítica ao Estado como instituição determinante para as punições das
ações criminosas. Até que ponto o Estado tem o poder da ingerência nessas relações sociais? O
autor aponta que, se o crime é uma doença, então a pena seria o remédio, mas, se o crime não tem
nada de mórbido, seria necessário curá-lo? Com qual remédio? Qual o papel do Estado ante a
violência? Ainda segundo Durkheim, inexiste sociedade em que a proporcionalidade entre pena
e delito não seja uma regra.
Vamos para o caso brasileiro sobre violência.
Quando nos deparamos com o aumento da violência em nossa sociedade podemos notar que
os discursos seguem sempre nas mesmas direções. Alguns elementos participam desses debates
e são recorrentes. Um deles é de que nossas leis são inócuas diante da criminalidade atual. O
discurso é de que nosso Código Penal ultrapassado, década de 40, não dá conta dos crimes
cometidos atualmente. O Código, portanto, deveria ser atualizado, com novas leis, levando-se em
conta o tipo de crime e a pena a ser aplicada. Para alguns juristas o número de leis que existe já é
o suficiente. O que não ocorre é a punição adequada a elas. Outro discurso é o do recrudescimento
das penas. É a ideia de que, se punirmos com mais rigor, conseguiremos diminuir a criminalidade.
Um juízo antigo de que o criminoso tem medo da punição. Ou então de que a punição severa
serve de “exemplo” para outros. Todos os argumentos seguem pelo mesmo caminho – o da
punição. Não se trata de defender a não punição. Como disse Durkheim, o crime é um mal e como
tal deve ser combatido. Mas qual o remédio para esse fenômeno, se, como vimos, é resultante das
relações sociais? Somente punição resolveria? Numa sociedade de grandes desigualdades sociais
a violência é vista de que maneira? Isto é, como a violência “aparece”? Qual o discurso, se é que
há, por trás dessa aparência?
Segundo Michaud há violência “quando numa situação de interação um ou vários atores
agem de maneira direta ou indireta, maciça ou esparsa, causando danos a uma ou várias pessoas
em graus variáveis, seja em sua integridade física, seja em sua integridade moral, em suas posses,
ou em suas participações simbólicas e culturais”[99].
Para a professora Marilena Chaui, a violência “é um ato de brutalidade, sevícia e abuso físico
ou psíquico contra alguém e caracteriza relações intersubjetivas e sociais definidas pela opressão
e intimidação, pelo medo e pelo terror. A violência se opõe à ética porque trata seres racionais e
sensíveis, dotados de linguagem e de liberdade, como se fossem coisas, isto é, irracionais,
insensíveis, mudos e inertes ou passivos”[100]. Segundo ela, há uma conversão da diferença numa
relação hierárquica de desigualdade, com fins de dominação, exploração e opressão. Dominação
e opressão do outro, ou de outros.
Especialistas no estudo da violência apontam que os meios de comunicação colaboram para
a disseminação da ideia de que há um aumento significativo da violência na medida em que
propagam notícias constantemente sobre o tema. A intenção não seria debater as causas da
violência, mas sim discutir maiores punições aos infratores. O discurso dessa mídia levaria a uma
espécie de pânico que provocaria uma corrida em busca dos artifícios de segurança privada, como
os condomínios, dispositivos de segurança, cercas eletrificadas, câmeras, cães etc.
Para Thompson (1999), que estudou o fenômeno nos EUA em Moral panics[101], o discurso
sobre violência e criminalidade em geral produz o que ele chama de pânicos morais. Para tanto,
a produção de parte da mídia aponta as classes baixas como imorais e desajustadas. Isso se dá
através de uma maior demanda de vídeos, notícias, filmes etc., em que essas classes são assim
retratadas a fim de caber no discurso pré-elaborado. O caráter ideológico dos discursos relativos
às classes baixas, principalmente, define o comportamento das outras classes em relação às classes
estigmatizadas. Thompson dá um exemplo de quando se notaram esses pânicos morais: na década
de 80 uma notícia, seguida de um vídeo obtido de uma câmera escondida, mostrava um garoto
que era espancado por uma babá. A cena foi apresentada de maneira sensacionalista pela TV. A
partir dessas imagens, houve uma corrida desenfreada por parte da população na compra de
câmeras de vídeo e sistemas de segurança, sem precedentes. Com a colaboração da mídia é
possível elaborar todo um discurso, seja ele contra a violência ou mesmo moral, privilegiando
essa ou aquela classe social, esse ou aquele comportamento. Depende apenas dos interesses.
Como diz Benevides: “É preciso ter claro que essa violência noticiada pela ‘grande imprensa’
com destaque aos delitos dos chamados marginais e que passaram a atingir os bairros de classe
média e da burguesia. O interesse em divulgá-la, portanto, contribui para reforçar a estigmatização
das ‘classes perigosas’ (...) Uma advertência parece, portanto, razoável: a propaganda e o medo
teriam crescido muito mais que a própria criminalidade violenta”[102].
Num trabalho de Norbert Elias & Scotson[103], de 1965, os autores mostram, por meio do
estudo de uma comunidade no interior da Inglaterra, um fenômeno bastante semelhante ao que
ocorre na periferia de São Paulo. Naquela comunidade surgiram diversos bairros periféricos,
compostos de imigrantes. Para a comunidade já estabelecida, esses novos bairros chamam a
atenção pelas altas taxas de criminalidade. No entanto, o estudo mostra ainda que, no início da
pesquisa, essas taxas não eram tão elevadas assim, e estavam na média dos outros bairros. Mas o
interessante é que mesmo após a queda das taxas o bairro continuou sendo estigmatizado como
uma área em que a delinquência aumentava. “O grupo estabelecido cerrava fileiras contra eles e
os estigmatizava, de maneira geral, como pessoas de menor valor humano. Considerava-se que
lhes faltava a virtude humana superior – o carisma grupal distintivo – que o grupo dominante
atribuía a si mesmo.”
Essa superioridade sentida pelos moradores mais antigos era, de certa forma, inserida nos
moradores mais novos. “(...) em todos esses casos, os indivíduos ‘superiores’ podem fazer com
que os próprios indivíduos inferiores sintam-se, eles mesmos, carentes de virtudes julgando-se
humanamente inferiores; (...) esses próprios recém-chegados, depois de algum tempo, pareciam
aceitar, como uma espécie de resignação e perplexidade, a ideia de pertencerem a um grupo de
menor virtude e respeitabilidade (...). Assim, a exclusão e a estigmatização dosoutsiders pelo
grupo estabelecido eram armas poderosas para que este último preservasse sua identidade e
afirmasse sua superioridade, mantendo os outros firmemente em seu lugar”[104]. Esse estigma
está presente também em relação à periferia nas grandes cidades.
A sociologia também engendrou no discurso da violência para tentar explicar esse fenômeno.
De maneira geral, a literatura atribui a marginalidade a três fatores que se intercalam:
O primeiro deles é o fator demográfico – a explicação seria o crescimento da população e
com ele a marginalidade como fruto de excedentes. De acordo com esse fator, do crescimento
excepcional de grupos etários de 15 a 24 anos, a chamada onda jovem, os adolescentes estariam
à frente de inúmeros fenômenos, como a entrada antecipada no mercado de trabalho, a
constituição precoce de famílias e provavelmente a entrada na criminalidade. Esse excesso
populacional não encontra um espaço social adequado e assim caminha à margem.
O segundo seria o econômico – o sistema capitalista não estaria completamente desenvolvido
e assim vive com sua força de trabalho parcialmente sublocada, não permitindo a entrada de um
maior número de trabalhadores no sistema.
E por fim o político – estaria ligado ao fato de que as elites controladoras dos meios de vida
econômico, político e cultural do País determinam as políticas de integração entre os diferentes
grupos sociais[105].
Os três fenômenos intercalam-se e provocariam uma espécie de cenário propício para o
desenvolvimento da criminalidade. Os marginais seriam um excedente populacional que não
consegue se integrar ao sistema.
Na maioria dos casos, essa visão de integração é sempre tratada sob a perspectiva do desvio
e da marginalidade. E a violência passa a ser entendida nesses termos e não como resultante das
tensões sociais, isto é, fruto dessa tentativa de integração.
Outro conceito muito utilizado atualmente no debate político social é o deexclusão – ele se
liga ao fator demográfico. Esse conceito surgiu na década de 80 para dar suporte às análises que
procuravam desvendar as desigualdades sociais provocadas pelo sistema capitalista. Contudo,
ainda não há um consenso sobre a própria definição de exclusão. A ênfase maior das propostas
dos estudos sobre esse tema privilegia, quase em sua totalidade, as questões econômicas e sociais.
Podemos dizer que de maneira geral há duas vertentes que explicam esse fenômeno. A
primeira seria uma visão dualista de que de fato há os excluídos e os incluídos. Segundo essa
visão, a exclusão possui dois traços característicos. O primeiro é “que os excluídos, por seu
crescimento numérico e por não possuírem as habilidades requeridas para serem absorvidos pelos
novos processes produtivos – já em si liberadores de mão de obra –, teriam se tornado
desnecessários economicamente. (...) O segundo traço é aquele que mais imprime força e sentido
à própria ideia de exclusão, tem a ver com o fato de que sobre eles se abate um estigma, cuja
consequência mais dramática seria sua expulsão da própria órbita da humanidade, isso na medida
em que os excluídos, levando muitas vezes uma vida considerada subumana em relação aos
padrões normais de sociabilidade...”[106]. Isso é sentido no cotidiano quando deparamos com a
imagem, para muitos até aterradora, de pessoas dormindo embaixo de viadutos, pedintes no
trânsito e conflitos que advêm dessa situação.
Ainda de maneira geral, a exclusão social seria um processo complexo, com uma
configuração de dimensões materiais, políticas, econômicas, sociais e subjetivas, provocado pelo
rápido desordenamento da urbanização das grandes cidades, pelo desenvolvimento tecnológico
dos processos de produção, pela uniformização do sistema escolar, pelas desigualdades de renda
e pela dificuldade no acesso aos serviços para determinadas classes, e que coloca para “fora” do
processo os indivíduos que não se adaptaram à nova ordem.
A noção de exclusão social foi, e ainda continua sendo, intimamente vinculada à noção de
pobreza. Os pobres (como os indigentes, os analfabetos, os sem-teto, os famintos) são os
excluídos clássicos. Aliados aos migrantes, que recebem também uma carga extra de preconceito,
formam uma massa de excluídos e então são denominados indivíduos que possuem um precário
ou nenhum acesso aos serviços públicos, ou vivem submetidos às ínfimas condições de
subsistência. Isso também corrobora com o imaginário popular ao se associar a pobreza à
exclusão, o que se torna um círculo vicioso.
Contudo, a pobreza não significa necessariamente exclusão, ainda que ela possa conduzir a
esse estado[107]. As causas da exclusão estariam relacionadas a um rápido processo de
urbanização das grandes cidades, em determinados períodos. O caos causado por esse crescimento
urbano, carente de planejamento, aliado a uma enorme desigualdade de renda associada às
dificuldades de acesso aos serviços públicos, provoca um processo que atinge cada vez mais todas
as camadas sociais. Excluídos seriam todos aqueles que, nesse processo, são rejeitados do
mercado material ou simbólico de nossos valores. Os excluídos dos anos 90 não são residuais,
nem temporários, mas contingentes populacionais crescentes que não encontram lugar no
mercado. Contudo, não é um fenômeno característico apenas dessa década.
Essa visão de que há incluídos e excluídos é contestada por uma visão antidualista. Para os
que defendem essa visão, os excluídos são na verdade os incluídos. Na verdade, os que se
beneficiam desse sistema utilizam uma gama de mão de obra superexplorada, cuja prestação de
serviços será a preços baixíssimos[108].
No Brasil, nas décadas de 1960 e 1970, as contradições do modo capitalista de produção
provocaram o surgimento de um exército industrial de reserva, composto de indivíduos vindos do
campo em busca de melhores condições de vida nas cidades. Apesar do grande desenvolvimento
da indústria, o desemprego era praticamente certo. E, longe de serem marginais, os migrantes
eram vistos como tais, pois não entravam ou entravam de forma desigual no sistema. Nas décadas
posteriores ao milagre econômico, essa população marginal aparece como consequência da
acumulação capitalista.
Para Martins[109], também não existe exclusão. A exclusão é na sociedade moderna um
momento dinâmico de um processo mais amplo; um momento insuficiente para explicar todos os
problemas que a exclusão efetivamente produz na sociedade atual. A palavra “exclusão” fala
possivelmente da necessidade prática de uma compreensão nova daquilo que chamamos de
pobreza. Essa preocupação surgiu porque atualmente a questão se apresenta a todos de forma mais
violenta.
Ainda segundo Martins, nas décadas anteriores o trabalhador expulso do campo era
reincluído na indústria. Atualmente, o trabalhador é excluído e passa muito tempo antes de ser
reincluído. Essa espera acarreta perdas. Esse tempo de passagem da exclusão para a inclusão se
transformou num modo de vida. Não é mais um período transitório. Dessa forma, o trabalhador
não estaria excluído do processo produtivo capitalista, uma vez que ainda pertence a ele – é um
explorado. Não estão excluídos porque não estão fora do sistema, mas, sim, integrados a ele.
Politicamente também estão integrados e contribuem para a manutenção do sistema, das estruturas
políticas através de um clientelismo arraigado desde a época da Proclamação da República.
Culturalmente também estão integrados, uma vez que seus valores são os mesmos dos não
explorados.
O conceito de exclusão revela a complexidade e a contrariedade que constituem o próprio
processo de exclusão social. “A dialética inclusão/exclusão gesta subjetividades específicas que
vão desde o sentir-se incluído até o sentir-se discriminado ou revoltado. Essas subjetividades não
podem ser explicadas unicamente pela determinação econômica, elas determinam e são
determinadas por formas diferenciadas de legitimação social e individual, e manifestam-se no
cotidiano como identidade, sociabilidade, afetividade, consciência e inconsciência”[110]. Não é
uma falha do sistema, devendo ser combatida como algo que perturba a ordem social; ao contrário,
ela é produto do funcionamento do sistema.
São contingentes populacionais crescentes que não encontram lugar no mercado. Uma massa
de trabalhadores miseráveis que já não possuem qualificações para ingressar num meio capitalista
modernizado pelas máquinas computadorizadas. E o aspecto mais visível desse processo é a
desigualdade, pois, essa é a forma de entender do homem urbano. A exclusão o leva a perceber
sua incapacidade, sua inutilidade diante do social, isto é, ele se reconhece como desigual. E essa
desigualdade está repleta de significados.
Voltemos então à pergunta feita anteriormente. Qual o papel do Estado ante a violência?
Existem diversas teorias para explicar o fenômeno da criminalidade. Podemos aplicar essa ou
aquela para determinado crime, em determinado momento. Não há uma solução que possa ser
entendida como geral, mesmo porque a violência possui diversas características e necessita de
diferentes soluções. Uma questão é possível vislumbrar nesse meio todo. A questão do respeito
aos direitos do ser humano. Não há sociedade que possa caminhar se não passar por essa questão.
O crime seria a violação da lei penal. Mas lembrando Durkheim, essa violação é para
determinada sociedade e em determinado momento. Contudo, nesse momento deverá ser punido.
Para a hermenêutica jurídica a lei tem como objetivo proibir determinadas condutas – coagindo e
reprimindo – que são consideradas fora das normas pela grande parcela do social. Cabe ao direito
interpretar essas ações e aplicar as penas. A criminalidade é muito mais resultado de um problema
social complexo que envolve saúde, educação, trabalho, dignidade, respeito e que as soluções
devem passar por esses itens, caso contrário o direito penal se envolve com questões que passam
longe de sua aplicabilidade.
6.3. Conflitos sociais
Os conflitos estão presentes em todos os tipos de sociedades – desde os mais simples
presentes no cotidiano, na interação com o outro, até os mais complexos, relacionados ao poder,
apropriação indébita envolvendo corporações etc. Os conflitos sociais, no que diz respeito aos
interesses de um indivíduo ou de grupos, independentemente do campo de atuação, sempre estão
latentes.
Segundo o dicionário Houaiss, o conflito é uma profunda falta de entendimento entre duas
ou mais partes, é um choque, um enfrentamento, um ato, um estado ou efeito de divergirem
acentuadamente ou de se oporem duas ou mais coisas. E ainda: é a contestação recíproca entre
autoridades pelo mesmo direito, competência ou atribuição.
Para o Dicionário de sociologia, o conflito é uma competição consciente entre indivíduos ou
grupos que visam a sujeição ou destruição do rival. O seu resultado visível é a organização política
e o status que os indivíduos e grupos ocupam dentro dela. O conflito pode assumir formas várias,
desde a rivalidade, a discussão, até o litígio, o duelo, a sabotagem, a revolução e a guerra,
incluindo, portanto, todas as formas de luta, aberta ou não[111].
Outra definição semelhante de conflito pode ser: “uma luta a respeito de valores ou
pretensões a posições, a poder ou a recursos que não estão ao alcance de todos, em que os
objetivos dos oponentes, ou ‘adversários’, são neutralizar, ferir ou eliminar os rivais. Em verdade,
o conflito é sempre consciente e envolve comunicação direta entre os oponentes. Ele se verifica
entre indivíduos ou grupos ou organizações, ou mesmo entre sociedades, umas com as outras, ou
de indivíduos com grupos e/ou organizações, de grupos com a sociedade global etc.”[112].
(Miranda, 2004:66).
As justificativas para o início dessa luta podemos encontrar em diversas fontes. Sejam elas
ideológicas, psicanalíticas, sociológicas. Seguimos aqui algumas delas.
Notemos que nas definições acima o conflito aparece como forma de manipulação do poder.
O conflito é uma forma de medir forças entre indivíduos que se sentem prejudicados em algo.
Para Max Weber, o poder significa a possibilidade de dominar o outro, impor sua própria vontade;
deve-se superar a oposição encontrada. Para o autor, poder é a capacidade de modificar o
comportamento do outro impondo sua vontade sobre a dele. Mas por que se impor ao outro?
Para Luckmann e Berger[113], o indivíduo não nasce membro da sociedade, e sim com a
predisposição para a sociabilidade e torna-se membro dela. Para tornar-se membro ele passa pelo
processo de socialização. Segundo os autores, nesse processo os indivíduos passam por um
aprendizado cognitivo em meio às circunstâncias de alto grau de emoção. Ele se identifica com
os outros significativos por uma multiplicidade de modos emocionais e, quando há identificação,
isso é interiorizado. “Todas as identificações realizam-se em horizontes que implicam um mundo
social específico”. Dessa forma, a identidade do indivíduo indica seu lugar específico no mundo.
Quando o indivíduo passa a tomar consciência do outro, isso implica a interiorização da
sociedade enquanto tal e da realidade objetiva nela estabelecida. Assim, “a sociedade, a
identidade e a realidade cristalizam subjetivamente no mesmo processo de interiorização”[114].
Em resumo: quando nascemos passamos por um processo de aprendizado de normas sociais
chamado de socialização primária. Em seguida entramos num segundo momento do processo
chamado de socialização secundária, em que apreendemos o cultural segundo um ponto de vista
específico criado pelas percepções dos próprios indivíduos. O conflito, portanto, pode ser pela
busca de um reconhecimento por parte do outro e não necessariamente por questões econômicas.
Estamos aqui no campo daspossibilidades. Seguindo, tento me impor ao outro em busca de
reconhecimento.
O sociólogo alemão, Axel Honneth, segue essa mesma linha de raciocínio. Para ele, parece
que a sociologia esqueceu se de que as ações emotivas presentes no cotidiano interferem
principalmente na busca pelo reconhecimento da identidade do sujeito. Para ele a formação da
identidade passa por um processo, que é a busca pelo reconhecimento nas interações entre os
indivíduos. Não é essencialmente a busca pelo poder, como nas definições acima, mas antes disso
um reconhecimento de sua identidade[115]. O que ocorreu com essa identidade no mundo
moderno?
Para Sennett (1999), o capitalismo provocou um processo de corrosão do caráter, sobretudo
naquelas qualidades de caráter que ligam os seres humanos uns aos outros e dão a cada um deles
um senso de identidade sustentável. As pessoas passaram a agir da maneira como o sistema se
impõe, isto é, não permite que as pessoas desenvolvam experiências ou construam uma imagem
positiva de suas vidas. O caráter, como diz Sennet, concentra-se, sobretudo, no aspecto a longo
prazo de nossa experiência emocional. São traços pessoais a que damos valor em nós mesmos e
pelos quais buscamos que os outros nos valorizem. Isso depende de virtudes estáveis como a
lealdade, a confiança e a ajuda mútua. Contudo, nota o autor, essas características estão
desaparecendo com o capitalismo moderno. As pessoas que não se enquadram nesse novo
processo capitalista são colocadas para fora do sistema, e, o que parece ser um agravante, sentem-
se inferiorizadas e humilhadas diante do fracasso. Estar envolvido numa sociedade na qual a
superabundância é vital e ao mesmo tempo estar excluído disso tudo suscita sentimentos de
humilhação e também de ressentimento[116]para com o outro. A violência é sempre uma resposta
a outra violência; é assim que as coisas são percebidas[117]. A limitação dessas ações está
relacionada às impossibilidades do indivíduo de realizar-se plenamente. Esse vazio da não
realização entra em choque com o modelo de justiça racional e legal. O inimigo é o contrário. Há
um vazio entre os indivíduos.
Durkheim (1973) diz que: “Qualquer ser vivo só pode ser feliz e, inclusive, viver, se as
necessidades que sente estiverem suficientemente de acordo com os meios de que dispõe. De
outra maneira, se os seres vivos exigem mais do que lhes pode ser dado ou, simplesmente, exigem
outra coisa, terão sempre uma sensação de insatisfação e não poderão agir sem sofrimento”[118].
A solução, segundo Durkheim, estaria a cargo do Estado. Seria o Estado o encarregado de limitar
as paixões dos sujeitos, uma vez que ele próprio não conseguiria fixar um limite. “Só a sociedade
pode desempenhar este papel moderador, ou bem direta e globalmente ou bem por intermédio de
um dos seus órgãos; com efeito, é a única autoridade moral superior ao indivíduo e cuja autoridade
este aceita”[119]. Acredito que se seguirmos essas orientações de Durkheim estaremos correndo
certo risco de cair numa armadilha. Uma vez que a própria sociedade, ou em pelo menos algumas
instituições, não permite que alguns sujeitos atinjam seus objetivos na vida, e que, segundo a
afirmação do autor, o indivíduo somente pode ser feliz se suas necessidades estiverem de acordo
com os meios de que dispõe, como sustentar que a repressão aos que não aceitam os limites esteja
correta? Voltamos assim à discussão, seguindo por outro caminho.
O conflito é apenas uma das diferentes formas de interação entre os indivíduos. É fruto das
transformações sociais pelas quais a sociedade passa constantemente. Tanto as formas de luta
individual e coletiva como o embate entre indivíduos. Os Estados se transformaram no decorrer
dos anos. Isso pode ser sentido nos vários momentos políticos pelo quais a sociedade atravessou.
Para o professor Boaventura, o Estado moderno não consegue aplicar o direito, uma vez que
este se mistura com outros direitos, além de ser encoberto pela ideologia. E mesmo o número de
litígios que o Estado enfrenta teve um desvio no que se refere aos mecanismos de resolução.
O Brasil, por exemplo, mostra essas transformações claramente. Tomemos os conflitos
sociais no País e suas consequências no que diz respeito à vida em público.
Os movimentos sociais no Brasil passaram por momentos que refletiam a ordem político-
social da época. Fixando somente a partir da década de 1970[120]aos dias atuais, podemos ver
que os movimentos sociais populares se preocupavam em organizar a comunidade local de
maneira distinta. Na maior parte os movimentos eram orientados pela Igreja Católica,
principalmente pela corrente conhecida como teologia da libertação. Não havia ligação com o
Estado, eram independentes, extrainstitucionais, e assim foi até meados dos anos 1980 quando
começaram a surgir outros interesses e discussões que levantavam outros temas como a
organização de grupos de mulheres, negros, índios, homossexuais etc. – isto é, surgiram novas
demandas relacionadas aos direitos sociais modernos.
Na década de 1990, esses movimentos trouxeram inúmeras conquistas sociais,
principalmente na luta pelos direitos constitucionais, e com as eleições diretas muitos governos
estaduais passaram a ser administrados por grupos considerados populares. O direito como
mediador teve papel fundamental nas novas relações sociais que estavam se definindo. As
mudanças estruturais pelas quais o País atravessava levaram à emergência de outros atores
políticos. As chamadas Organizações Não Governamentais, as ONGs, também chamadas de
Terceiro Setor.
Uma grande parte dos movimentos foi tragada por essas transformações, outros se aliaram
ao Estado na tentativa de manter a luta e as conquistas já determinadas. Surgiram novas políticas
de distribuição de recursos públicos em parcerias com entidades organizadas em focalizar as áreas
sociais como moradia, saúde, educação etc. Essa terceirização de uma parte das funções do
Estado, por um lado, acabou com as formas de organização dos movimentos sociais anteriormente
desenhados e passou a direcionar os projetos sociais a esses novos grupos. O militante, como diz
a professora Maria da Glória Gohn, passou a serativista. Atualmente os movimentos sociais ainda
se mobilizam na busca de uma relação de igualdade e liberdade social. Isso se deve ao fato de
certo desencanto político a partir do ano 2000. Todas as ações de responsabilidade do Estado,
voltadas ao social, de certa forma não ocorreram conforme o esperado pela sociedade. Assim
esses movimentos voltaram à atividade.
Para alguns autores esse modelo de ativismo no atual momento político, econômico e social
é um modelo atrasado, uma vez que vai de encontro ao que o liberalismo chama de liberdade e
igualdade. Dessa maneira, o direito entra na questão mais fortemente para definir seu papel e sua
forma diferente de atuação.
As diferentes soluções que podem ser dadas aos conflitos sociais não ficam somente
relegadas às normas jurídicas. “Os costumes, as normas de natureza moral ou religiosa, e outras
formas normativas da vida social, conduzem também à acomodação dos interesses conflitantes,
de modo que no universo da interação social muitos mecanismos, ou processos,
atuam simultaneamente, compondo, acomodando ou ajustando situações”[121].
Alguns conflitos específicos, por sua própria característica, não são resolvidos pela justiça.
Um exemplo pode ser o conflito socioambiental, muito discutido atualmente. Esse conflito
envolve diversos atores, grupos sociais diferentes, com interesses diversos, políticos,
trabalhadores rurais que enfrentam inúmeras dificuldades quando buscam uma solução no
Judiciário. Não é somente determinando o que a norma estabelece que se resolve a questão. É
necessário o diálogo com os diferentes segmentos envolvidos, a solidariedade de todos, que deve
ser resgatada para que, no fim, um consenso aponte uma solução pacífica. O caminho da mediação
é muito bem-visto por todos como um viés de resolução alternativa para o tipo de questão
envolvida. O problema está na força do capital que se interpõe em meio aos interesses provocando
em grande parte certa desigualdade de forças. Não é determinar uma resolução, mas mediar
também é um processo de educação como ferramenta capaz de alcançar a paz social.
De outro ponto de vista podemos dizer que o Estado contemporâneo já não detém o
monopólio da distribuição da justiça. Os maiores exemplos disso encontramos nas periferias dos
grandes centros urbanos do País. Essas regiões são carentes dos instrumentos mínimos de acesso
à justiça ou qualquer outra forma de presença estatal. Em grandes favelas, por exemplo, é comum
as associações dos moradores da comunidade mediarem os conflitos de moradia, comércio local
e outros litígios menores. Em comunidades rurais dos Estados do Norte e Nordeste as resoluções
dos conflitos locais são geralmente resolvidas na própria comunidade, mesmo porque o acesso à
justiça estatal é impraticável. O Estado continua mantendo o monopólio do Judiciário, mas em
certas localidades o controle está nas mãos da comunidade. Segundo o professor Boaventura, as
diferentes reformas de resolução de conflitos – principalmente onde não há presença estatal –
sempre foram relatadas pela antropologia, por ocasião dos estudos dos povos africanos. Com esses
estudos e a aproximação dessa disciplina com a sociologia foi possível pensar em novas formas
de tratamento dos litígios presentes em todas as comunidades. A resposta deve ser a fuga por parte
da justiça de um modelo positivista, em que a figura legalista e burocrática do Estado se faz
presente como representante cartorial de uma classe dominante. O direito deve colocar-se à
disposição de mudanças, de reformas e de referências sociais.

6.4. Sistemas não judiciais de composição de litígios


Ao longo de milênios, a violência era explicada por meio de dois códigos ligados um ao
outro – eram a honra e a vingança[122]. Nesse período as relações entre os homens eram mais
importantes e mais valorizadas do que as relações entre os homens e as coisas. A honra e a
vingança eram consideradas códigos de honra. Esses códigos eram importantes no sentido de
adestrar os homens para que se firmassem pela força, conquistassem o reconhecimento do outro
e lutassem até a morte para serem respeitados. Tudo isso foi transformado com o advento do
processo de civilização.
Segundo Elias (1990), o processo civilizador adestrou os homens segundo normas, códigos
de condutas e maneiras de se comportar produzidos ao longo de séculos que evoluíram num nível
coletivo e individual. Inicialmente as boas maneiras foram elaboradas pela aristocracia e
transmitidas para outras classes. A tendência era de aumentar o controle sobre tudo que estava
ligado à animalidade do comportamento. Desde como assoar o nariz, urinar, comportar-se à mesa
etc. até as preocupações com o corpo no que deveria ser mostrado, ou não, ou os odores
produzidos por esse corpo. Isto é, as funções naturais passaram também a ser regradas e
modeladas segundo um contexto histórico e social. O gestual no falar, no caminhar foi modulado
e transforma a sensibilidade. Esses sentimentos levaram à formação de inúmeras regras de
conduta que construíram um consenso sobre o que convinha ou não fazer.
A dinâmica desse movimento nasceu com o advento do Estado e graças à imposição
progressiva de um duplo monopólio real – o monopólio fiscal e o monopólio da violência legítima
(Heinich, 1997). O surgimento do Estado formalizou o uso de um instrumento de controle a
serviço de toda a sociedade. A concentração do poder nas mãos do Estado passou a ditar as normas
de comportamento e segurança, pois, “quando não existe qualquer monopólio militar e policial e
quando, por conseguinte, a insegurança é constante, a violência individual, a agressividade é uma
necessidade vital”[123]. Passou a existir certo controle do indivíduo pelo Estado.
Contudo, ainda segundo o autor, não foi apenas “através da lei e da ordem pública que o
Estado conseguiu eliminar o código da vingança, de modo igualmente radical, foi o processo
individualista que, pouco a pouco, minou a sociedade vingadora”[124]. O que surgiu disso tudo
foi uma mudança substancial no comportamento do homem. As ofensas contra a injúria, a moral,
a honra, que antes eram respondidas por meio de duelos sangrentos, passaram a ser entendidas
como algo de pequena importância. “O encontro do homem com outro homem fez-se nesse
momento sob o signo da indiferença”[125]. O processo de civilização não é apenas um efeito
mecânico do poder ou da economia, mas coincide com a emergência de finalidades sociais
inéditas, com a desagregação individualista do corpo social e com a nova significação da relação
inter-humana baseada nessa indiferença. Na realidade, o Estado moderno criou um indivíduo
socialmente desligado de seus semelhantes. Deveras, “o ajuntamento humano nas grandes cidades
modernas é em grande parte o responsável pelo fato de que não somos mais capazes de descobrir
o semblante do próximo”[126].
Disso tudo resulta um Estado governado por um processo de personalização, no qual o
indivíduo renuncia à violência não somente porque apareceram novos bens e fins privados, mas
porque no mesmo movimento o outro se torna desubstancializado, um “figurante” sem
importância. Contudo, apesar dessa desconsideração com o outro, dessa sociedade de
personalização, a paisagem da violência não deixou de se alterar. “A ordem do consumo pulveriza
muito mais radicalmente as estruturas e personalidades tradicionais e o que caracteriza o retrato
atual (...) é menos a inferiorização de uma desorganização sistemática de sua identidade, mas sim
uma desorientação violenta do ego suscitada pela estimulação de modelos individualistas
eufóricos que convidam a viver intensamente”[127]. Quanto mais massificação do homem, mais
nos sentimos acuados pela necessidade de não nos envolvermos, e assim podem atualmente
acontecer, nas grandes cidades e em ruas movimentadas, assassinatos e outros tipos de violência
sem que ninguém intervenha e isso acaba sendo incorporado em nosso cotidiano.
Segundo Oliveira (2000), o que ocorre é que se estabelece “um pacto social na perversão,
onde se dá o aprendizado do cinismo e da indiferença ética como estratégias defensivas, tornando
ainda mais difícil e conflitante a prática coletiva. Perde-se a confiança no outro, pois o próximo é
um competidor, um inimigo, um obstáculo a ser vencido ou uma coisa a ser usada. Deste
descompromisso com o outro é só um passo para o absoluto desprezo, para o desaparecimento da
figura do ideal coletivo e o surgimento do fora da lei e da cultura da delinquência” (2000:89).
Como tratar tudo isso sob o ponto de vista do direito? Como o direito atua ou deveria atuar
nesse novo contexto de personificação e individualização cada vez mais crescente no mundo
contemporâneo. E, ainda mais, repetindo o professor Boaventura. Como resolver isso se o Estado
moderno já não dá conta de aplicar o direito, uma vez que se mistura com outros direitos?
Seguindo mais algumas pistas.
Com uma visão idealista, podemos dizer que basicamente o direito possui duas funções
sociais: a de prevenir conflitos e a de compor conflitos[128]. Previne na medida em que o direito
promove um disciplinamento social, evitando o quanto possível o choque de interesses. Compõe
conflito, pois, uma vez estabelecido, o direito proporciona a discussão dos interesses antagônicos
das partes no conflito. Alguns atores usam acomodação em vez de composição de conflitos.
Podemos encontrar quatro tipos de composição de conflitos:
a) A negociação direta – nesse caso as partes se entendem mutuamente e estabelecem um
acordo; negociam no sentido de que uma das partes se submeta aos interesses da outra, de maneira
que isso cesse o conflito.
b) A mediação ou conciliação – quando a negociação direta fracassa, entra em cena um
mediador, ou conciliador, que busca um entendimento entre as partes a fim de acomodá-las,
dirimindo as divergências para que não seja necessário às partes irem ao litígio.
c) O arbitramento – nesse caso não existe a consensualidade. Um árbitro é escolhido pelas
partes para que decida sobre o conflito. Apesar de ser extrajudicial, a decisão tem o caráter de
título exclusivo judicial.
d) A composição jurídica – quando os casos (a) e (b) fracassam, é necessário apelar ao
aparato estatal para a resolução do litígio. Nesse caso, mediante critérios conhecidos pelas partes,
é resolvido o conflito através do aparelho judicial.
É de salientar que tanto na negociação quanto na mediação o Estado não participa. São ações
que movimentam apenas pessoas envolvidas com o conflito. Somente no caso de não resolução,
o Estado é acionado.
A importância do direito transparece na medida em que essa ciência influencia todos os tipos
de solução de conflitos que podem haver. Sua força de coerção sobre o indivíduo a coloca como
partícipe de uma estrutura social normatizadora, contribuindo para o relacionamento social no
sentido de apaziguamento social. Na composição dos conflitos é o direito que estabelece o pano
de fundo das discussões.
Na composição jurídica o direito que se impõe é o direto positivo – para alguns autores, uma
composição autoritária –, uma vez que as normas não legais não influenciam de maneira decisiva
na composição dos conflitos. Ocorre que o próprio direito entende que as normas sociais de uso
comum na vida em sociedade e que balizam as soluções estão inseridas, ou devem ser entendidas
como inseridas, e acolhidas pelo direito e seus operadores.
Devemos lembrar que uma pluralidade de sistema de resolução de conflitos faz da sociedade
um modelo de justiça mais democrático, em que há mais acessibilidade, mais participativo –
obviamente que o sistema deve compor o sistema judicial mesmo que, ou devendo ser de forma
alternativa, complementar, ou suplementar. Assim podemos vislumbrar um Estado mais
democrático.
No caso brasileiro é comum supor que o Estado, quando interfere na composição dos
conflitos – na composição jurídica –, provoca nas partes enormes traumas relativos ao tempo e
dinheiro gastos para a composição do litígio. Esse pensamento é disseminado pela sociedade, que
busca novos caminhos para resolução de conflitos.
Para alguns autores, a estrutura arcaica do Judiciário, a lentidão e a ineficiência aliadas à
desordem na elaboração dos processos provocam um descrédito na justiça por parte dos
envolvidos que gera uma insatisfação tal que a busca por outros caminhos para resolução dos
conflitos torna-se primordial antes de se chegar à justiça[129].
Como vimos anteriormente, há diferentes formas de composição de conflitos. Assim, é
possível resolver os conflitos sem passar pelos foros estatais, que provocam insatisfação, elevados
custos etc. É possível que o processo possa efetuar-se à margem das atividades estatais.
Ainda citando Boaventura, esse tipo de ação pode ser considerado disfuncional, uma vez que
ela é vista como negativa em relação à democratização da justiça, isto é, o acesso aos instrumentos
da justiça pelas classes consideradas menos favorecidas. Aumenta a distância entre os direitos
dessas classes e a aplicação da justiça.
É interessante salientar que a composição extrajudicial dessa acomodação de conflitos
optando pela negociação ou mediação não envolve uma coerção sobre os indivíduos envolvidos.
Eles devem chegar a uma solução pacífica sobre o conflito e a entenderem como a melhor solução,
mesmo quando há um conciliador. No caso do arbitramento, há certa coação, uma vez que se age
segundo normascontratuais e previstas em lei, mas a força dessa coação não é tanta como no caso
das ações que levam à coação de uma acomodação jurídica. Daí, então, a consideração de
prejudicial às partes com menos força economicamente. E, com isso, o questionamento da
validade desse sistema.
Os sistemas não jurídicos são consequências dos novos direitos e de tipos de conflitos que
não existiam, não eram discutidos em décadas anteriores. Esses conflitos exigem novos
mecanismos procedimentais que possam valer na composição desses conflitos sem interferência
do Estado. Isso força a emergência de mudanças estruturais de tribunais, ou novos tribunais, novos
profissionais, a fim de facilitar uma solução. Solução na qual possam ser utilizados mecanismos
formais ou informais para o litígio. A mediação, o arbitramento, ou mesmo a negociação são
instrumentos que vêm ao encontro dessas questões.

6.5. Globalização
A sociedade sofre constantemente transformações. E essas transformações vão modificando
o comportamento das pessoas em suas relações sociais. O direito, que deve refletir
normativamente essas relações, não pode deixar de acompanhá-las. A grande transformação do
século XX e que ainda perdura é a globalização. Esse fenômeno em andamento provoca inúmeras
discussões em todos os campos por onde transita – seja ele econômico, político, social. Podemos
fazer inúmeras leituras desse fenômeno. Para muitos especialistas a globalização não deveria ser
considerada um fenômeno que teve início no século passado, mas sim algo que sempre existiu.
Desde o momento em que o homem virou um sedentário e deixou de ser coletor é que os
povos se envolvem nesse processo de aproximação da cultura, economia e política e sofrem
transformações. Nos antigos impérios a aproximação e a miscigenação entre povos diferentes
provocaram inúmeras mudanças sociais, culturais e jurídicas.
Para outros, esse é um fenômeno recente, moderno, que provavelmente se iniciou com a
expansão marítima europeia, a consequente evolução do conhecimento científico e o
desenvolvimento do capitalismo. Isso transformou toda a sociedade: estruturou novas classes
sociais, estabeleceu novos relacionamentos políticos entre os Estados, o desenvolvimento urbano
das cidades, a industrialização tomou a frente do desenvolvimento tecnológico e
consequentemente as transformações nas relações sociais.
Por volta dos anos 60, quando a informática começou a dar seus primeiros passos para se
posicionar como um dos aspectos mais importantes da sociedade moderna, ela trouxe consigo
novos elementos para o pensamento social e jurídico.Com a informática, houve um intenso
avanço em outras áreas, provocando inúmeras outras transformações. Nos anos 80, por exemplo,
o comércio deu um grande salto via tecnologia. O chamado infocomércio ou e-commerce formou
uma grande rede cibernética possibilitando inúmeras outras relações comerciais e sociais por todo
o mundo.
O homem contemporâneo consegue viajar pelo espaço cibernético sem sair de casa e entrar
em contato com outras culturas, outras formas de se relacionar tanto econônica quanto
socialmente. Os Estados nacionais também sofrem pelas influências políticas e econômicas que
advêm com esse fenômeno. Ultrapassando fronteiras, essas transformações implicam mudanças
significativas no que diz respeito ao discurso jurídico. Torna-se necessário repensar os conceitos,
os princípios e as novas categorias que entram no jogo social. Os operadores do direito devem
estar cotidianamente atentos às transformações diárias da sociedade para que o direito possa ir ao
encontro dos anseios da sociedade.
No mundo acadêmico ainda não há um consenso do que seria propriamente a globalização.
Alguns autores focalizam os aspectos econômicos e tratam da questão como uma interação global
das economias. Trata-se de um grande comércio mundial, em que os mais fortes economicamente
ditam as regras, e, então, a imposição de forças regradas pelas grandes potências. Outros focam
nos efeitos políticos e culturais. Para esses está a caminho um choque de civilizações.O sistema
capitalista está em processo de expansão sobre os demais modos de vida que levaria a todos a
graves problemas com as culturas diferentes, não ocidentais, por exemplo. Há também os que
focam a questão da descentralização do poder, principalmente ligado à tecnologia. Essa estrutura
criou um novo ambiente de atuação. As entidades que se organizam em redes, como as ONGs, ou
as corporações possuem mais poder e mobilidade que as organizações tradicionais. Dessa forma,
com a globalização ocorre um fenômeno de descentralização do poder – não é somente uma
questão econômica ou a coerção pela força. O que permeia a todos é a aceitação de que a
globalização é um estágio maior da internacionalização.
Segundo o professor Milton Santos, “o estágio atual da globalização está produzindo ainda
mais desigualdades. E, ao contrário do que se esperava, crescem o desemprego, a pobreza, a fome,
a insegurança do cotidiano, num mundo que se fragmenta e onde se ampliam as fraturas
sociais”[130].
Para Baumann[131], a globalização pode ser vista por diferentes pontos de vistas. Pelo lado
da questão econômica, ela ocorreu em um rápido processo de internacionalização das ações
econômicas. O comércio internacional cresceu praticamente acabando com as fronteiras
nacionais. O desenvolvimento das telecomunicações possibilitou a entrada de diversos países
numa comunidade mundial que provocou a emergência de outros países periféricos, os quais antes
eram apenas coadjuvantes na política internacional.
Pelo lado da questão sociológica, segundo Baumann, podemos presenciar uma nova forma
de organização social, um novo modelo social em que a ordem é descentralizada. Isto é, o Estado
como organismo de controle das ações sociais estaria com menos força nesse aspecto.
E pelo lado político estaria ocorrendo uma nova ordem internacional. Os EUA ainda se
mantêm como força mundial, mas surgem novos personagens que possuem, ou parecem possuir,
força no cenário internacional. Os chamados países emergentes como Brasil, Índia, China, os
chamados Brics, aparecem como determinantes na política mundial. A participação desses países
em reuniões da ONU, ou outros organismos internacionais, vem, nos últimos anos, mostrando-se
importante em questões de segurança, de comércio, ambientais etc.
Para os críticos da globalização, esse fenômeno tem sido usado mais fortemente com um
caráter ideológico, uma vez que provoca um processo de integração econômica mundial baseado
em interesses financeiros – orientados pelos neoliberais –, abertura de mercados, aumento de
empresas transnacionais e nova organização dos Estados, que visa basicamente um fortalecimento
político-econômico, deixando de lado as questões sociais. Consequência disso é um acirramento
na competitividade das empresas, em busca de lucro, aumento do número de desempregados e de
trabalho informal intensificando a exclusão social. Assim, com o fortalecimento da economia
mundial, crescem também a miséria e as desigualdades sociais na maioria dos países periféricos.
Os Estados, principalmente os considerados subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, passam a
ser reféns dessas transformações. A população se vê desamparada do Estado regulamentador. O
Estado do Bem-estar Social desaparece e surge um Estado autônomo, interdependente de outros
e distante dos anseios da população. A autoridade estatal passa a ser questionada, uma vez que os
limites demarcatórios do território estão desaparecendo. O Estado começa a ser questionado tanto
pelos problemas ligados à globalização como por ordem interna, dos movimentos sociais.
Cabe então perguntar qual o papel do direito em face dessas transformações sociais
provocadas pela globalização?
Em primeiro lugar, podemos notar uma crescente descentralização por parte dos Estados nas
intervenções judiciais. Ao mesmo tempo ocorre um avanço no número de instrumentos que
possibilitam ao sujeito diferentes formas de conciliação, acordos e outros instrumentos que
mostram que o Estado permite a outros integrantes a participação numa esfera anteriormente
relegada somente ao poder estatal. O Estado, na verdade, deixa de usar o direito para
regulamentação social. Ao mesmo tempo, a descentralização dos serviços também é crescente.
Há um sem-número de agentes elaborando “políticas públicas” no sentido de organizar os
trabalhos desse novo Estado. As organizações não governamentais, por exemplo, é um elemento
bastante forte nesse momento. As ONGs suprem certas falhas onde o Estado deveria estar
normalmente presente. Elas assumem, em muitas vezes, o papel que deveria ser do Estado, no que
diz respeito a voltar ao cidadão seus direitos regidos constitucionalmente.
Essas políticas não são necessariamente regidas pelo direito tradicional. O que ocorre em
síntese é que um serviço que anteriormente era e deveria ser prestado pelo Estado atualmente é
entregue a uma organização que, com financiamento estatal, ou de empresas privadas, supre as
necessidades sociais da população. Isto é, os serviços prestados pelo Estado passaram para
terceiros. A questão da cidadania passa essencialmente por essa via. Ser cidadão é se aproximar
de certos instrumentos que façam valer seus direitos e deveres à frente do Estado. O que podemos
presenciar é que isso envolve agora determinadas organizações que possibilitam essa validade.
Não é necessário o Estado. A organização burocrática estatal por si só controla a todos. Para
Weber, o Estado é como a empresa moderna. Em ambos promovemos relações de autoridade –
no público, o poder se encontra no comando político maior e no privado, encontra-se no
empresário.
Em segundo lugar vemos uma crescente “fala global” por parte dos países desenvolvidos que
se manifestam em todos os campos do conhecimento como se fosse a ordem natural das coisas.
Com a globalização, países que lideram a economia e a política global investem contra os países
em desenvolvimento e impõem determinadas regulamentações que os obrigam a se perfilarem
dentro de determinadas normas, que nada tem que ver com sua realidade. O problema da
economia, da política, da saúde, até do aquecimento global vira tema que é discutido e, impostas
determinadas ações, mostra que o direito do Estado é sobreposto por interesses internacionais. O
que podemos notar é que, no interior dessas sociedades, as relações econômicas e sociais são
autorregulamentadas. Como vimos anteriormente, há um grande número de possibilidade de
resolução de conflitos que não passam pelo crivo do Estado – criando assim uma novacultura
jurídica.
De certa forma, também o cidadão na era da globalização sente-se mais dotado de
informações na reivindicação de seus direitos. Assim, a exigência de normatização onde há
carência de regras por parte do Estado, a participação do cidadão nas ações governamentais e não
governamentais tornaram-se nos últimos anos mais intensas. Apesar de o Estado não conseguir
regulamentar todas as situações advindas com a globalização, será necessária uma normatização
efetivada pelos envolvidos no processo – mesmo a normatização realizada sem a efetiva
participação estatal –, assim, as relações jurídicas lentamente estão sendo criadas e modificadas.
O que pode sinalizar que apesar de as constituições limitarem o avanço da globalização, a
movimentação interna dos cidadãos é no sentido de normatizar o social e fortalecer o mercado
interno para se fortalecer também diante do cenário internacional.

6.6. Democracia
Quando examinamos no capítulo anterior os conflitos sociais, dissemos que esses conflitos
surgem das relações sociais. Numa sociedade democrática, o conflito é legítimo e legal. Os
interesses de grupos podem e devem ser publicizados. Numa sociedade democrática, os conflitos
são elementos fundantes da democracia.
Na mídia, podemos presenciar constantemente inúmeros conflitos pelo País: invasões de
terras por grupos organizados, manifestações contrárias a políticos corruptos, à violência ao
racismo, à homofobia e manifestações relacionadas às eleições. Em todos esses momentos o que
está como painel de fundo é o fato de vivermos numa “democracia”. O termo vem sublinhado
aqui pelo fato de nossa democracia ainda ser uma democracia formal e não concreta. Formal no
sentido de que existe na lei, mas não se realiza no social.
Como vimos na parte em que tratamos da formação de nossa cidadania, notamos que o
discurso vigente em nosso país é o liberal. A ideologia liberal sempre esteve impregnada em nossa
democracia – o que em nosso caso limitou os direitos à cidadania, segundo os conceitos da classe
dominante. Dessa forma, conseguimos uma participação “restrita” ao social. Um exemplo claro
que sempre foi propagado no senso comum é de que a democracia se expressa em sua magnitude
no processo eleitoral. Votar seria democrático. A mídia chama de festa da democracia. Podemos
observar mais uma vez que democracia não é somente a participação do indivíduo no processo
eleitoral, mas acima de tudo “dizemos que uma democracia – e não um simples regime de governo
– é democrática quando, além de eleições, partidos políticos, divisão dos três poderes da
república, respeito à vontade da maioria e das minorias, institui algo mais profundo, que é a
condição do próprio regime político, ou seja, quando institui direitos”[132].
Além disso, a igualdade de direitos não pode ser somente formal. Deve expressar a realidade
dos indivíduos. Sempre que falamos em democracia, lembramos que foi inventada pelos gregos.
Em Atenas, a democracia instituiu três direitos fundamentais que definia o cidadão. Direito à
igualdade – em que todos os cidadãos possuíam os mesmos direitos e deviam ser tratados da
mesma maneira; direito à liberdade – em que todos os cidadãos têm direito de manifestar em
público suas opiniões e participação no poder – todo cidadão tinha o direito de participar das
discussões sobre a cidade[133].
No caso ateniense era uma democracia direta. No caso brasileiro temos uma democracia
representativa. Usamos o método de escolha dos representantes.
Contudo, se pensarmos numa sociedade verdadeiramente democrática, que seria o ideal,
deveria ser ela uma democracia formal e substancial. Formal numa democracia seriam as
expressões dos meios pelos quais ela se manifesta: o voto secreto e universal, os poderes
autônomos, uma ordem jurídica constituída, liberdade de expressão e pensamento. Tudo isso já
se contempla em nossa Constituição, isto é, já existe formalmente. A democracia substancial tem
que ver com os resultados obtidos pelos indivíduos no exercício da cidadania: a igualdade social,
política e também jurídica.
Fiquemos com um aspecto – o da democracia jurídica. O que se espera disso? Pressupõe o
respeito à Constituição, a autonomia do Judiciário e se baseia em leis que vão ao encontro dos
interesses comuns e são resistentes às pressões de grupos.
As lutas sociais fazem com que as escolhas entrem em discussão, como dito anteriormente,
e somente a democracia possibilita isso. Na democracia a liberdade individual é determinante na
base do regime. O Estado, que surgiu após o Antigo Regime na Europa, submeteu todos os
indivíduos ao direito, e sob a influência das ideias liberais chamou-se Estado Liberal de Direito.
No caso brasileiro, com a Constituição de 1988, após o Regime Militar – que cassou todos
os direitos dos cidadãos – há a criação do Estado Democrático de Direito. Mas, como dissemos,
ainda estamos um pouco distantes dessa realidade. No cerne desse Estado deveria estar presente
a questão da soberania, da cidadania, da dignidade da pessoa humana, dos valores sociais e a
pluralidade política. “A verdade é que, no mundo dos fatos jurídicos, no processo da história do
Direito, o Estado Democrático de Direito somente se realizará no Brasil, como em qualquer país,
quando não só os direitos políticos – mas todos os direitos fundamentais, inclusive os políticos –
estiverem convertidos em direitos humanos difusos, integrais, recíprocos, solidários: verdadeiros
direitos de todos que, por serem apoiados nos deveres de todos que lhe sejam correspondentes,
possam assim, quanto à titularidade, sujeitar todos os indivíduos da espécie humana e, quanto ao
objeto, apreender todos os valores da dignidade humana”[134].
Em nossa Constituição há a previsão da iniciativa popular de projetos de leis. Uma
possibilidade de o cidadão propor mudanças por meio de projetos de leis que tragam benefícios
ou outra equidade desejada. Num país de grandes desigualdades sociais a participação do povo
nessas questões é rara. E quando há são altamente questionadas. Por um lado, aponta-se a falta de
educação e de politização da população; por outro, quando apresentado algum projeto que
proponha mudanças substanciais, os grandes grupos dominantes se interpõem na questão.
O primeiro projeto de iniciativa popular aprovado no Congresso foi o que deu origem à Lei
n. 8.930, de 1994. A lei regulamentou como crime hediondo as chacinas realizadas pelo esquadrão
da morte. Em 1999 foi apresentado o projeto de lei que previa a cassação do mandato por crime
de compra de votos. Os dois projetos foram patrocinados pela Ordem dos Advogados do Brasil –
OAB e pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB.
Outros projetos foram apresentados, como o que criou o Fundo Nacional de Habitação –
FNH. Embora tenha sido apresentado em 1992, foi sancionado somente em 2005, dada a falta de
interesse dos parlamentares. O projeto foi apoiado pelo Movimento Popular de Moradia.
Apesar de se apresentarem legalmente, a tramitação desses projetos no Congresso só é
possível quando algum parlamentar, ou grupos de parlamentares, é ligado a eles, ou são
pressionados pelos movimentos para que sejam apreciados pela Casa. Mesmo assim, se for de
interesse de um grupo social, ele será discutido e revisto pelos parlamentares. Os projetos de
iniciativa popular não podem ser rejeitados por questões técnicas. Nesse caso, a Comissão de
Constituição e Justiça é obrigada a adaptar a redação do texto.
Um último exemplo mais conhecido no País e que suscitou inúmeras discussões foi o projeto
conhecido como Lei da Ficha Limpa, que começou com um movimento popular e virou lei, não
sem antes sofrer interferência – na proposta básica – de diferentes grupos em manter os privilégios
políticos. Mesmo assim a lei ainda encontra inúmeros obstáculos para ser aplicada.

LOPES, José Sergio Leite (Coord.). Ambientalização dos conflitos sociais. Rio de Janeiro:
Relume Dumará, 2004.
O livro trata dos conflitos sociais em diversas regiões do País e de como são tratados nessas
diferentes localidades.
CARRIL, Lourdes. Quilombo, favela e periferia. São Paulo: AnnaBlume, 2006.
A autora é geógrafa e faz um estudo sobre a ocupação do espaço urbano, passando por quilombos
e rappers da periferia.

Bróder. Direção de Jéferson De. 2011.


O filme trata do racismo na periferia de São Paulo.
Andiroba: uma luta pela terra. Direção de Jerome Perret. 2009.
Documentário que mostra a luta dos movimentos em defesa do meio ambiente no Baixo Parnaíba,
divisa de Maranhão e Piauí.
Salve geral. Direção de Sérgio Rezende. 2009.
O filme conta a história de uma mãe que tenta tirar o filho da prisão e seu envolvimento com uma
organização criminosa.
O processo. Direção de Orson Welles. 1962.
Filme adaptado do livro homônimo de Franz Kafka, que trata da burocracia do Estado no processo
de um homem que não consegue saber o porquê de estar sendo processado.

Leia o texto a seguir e responda às questões.


Podemos dizer que de certa forma a globalização trouxe inúmeros progressos nos meios de
comunicação, aproximação imediata entre os países; a circulação de mercadorias, pessoas e
capital aumenta cotidianamente. Contudo, nem todos se beneficiam dessa aproximação. A maior
consequência da globalização é a desigualdade social, principalmente nos países chamados em
desenvolvimento.
Uma das vertentes mais temida dessas consequências é a violência. Não é específica de uma
sociedade apenas, mas envolve todas. Existem inúmeros trabalhos que mostram que, quanto
maior é a desigualdade social, maiores são os índices de violência. A mídia mundial de certa
forma colabora para a espetacularidade desse fenômeno. Com o fenômeno da globalização
entramos em contato não somente com os nossos índices de violência, mas, também, com os
índices de violência de outros países, o que, para alguns, pode gerar uma espécie de pânico geral.
Ficamos sempre na expectativa de que o outro é meu inimigo. Segundo o filósofo Slavoj
Zizek[135]:
“O Outro está muito bem, mas só na medida em que a sua presença não seja intrusiva, na
medida em que esse Outro não seja realmente outro (…) O meu dever de ser tolerante para com
o outro significa efetivamente que não deveria aproximar-me demasiado dele, invadir seu espaço.
Por outras palavras, deveria respeitar sua intolerância à minha proximidade excessiva. O que
afirma cada vez mais como direito humano central na sociedade capitalista tardia é o direito a não
ser assediado, que é o direito a permanecer a uma distância segura dos outros”.
Isso nos provoca um afastamento do social. Uma individualidade que cresce a cada momento
que nos leva a uma solidão profunda. Mesmo a globalização que nos permite o contato com o
outro torna-se efêmera. Nossos contatos são virtuais, estamos tão longe, mesmo estando perto.
Há muitas propostas de lutas pela internet. Propostas de levante, de denúncias, de revoltas, mas
todas elas restritas ao campo virtual. O conflito real se dá quando enfrentamos o outro no social,
em público é que mostramos nossas verdades e diferenças.
1) Como podemos analisar esse processo de conflito social na visão de Durkheim?
2) Como o direito poderia intervir nos conflitos, mantendo o que dissemos sobre democracia
e direitos humanos?

A Pesquisa Social e a Sociologia


Jurídica

7.1. Pesquisa jurídica


Na maioria das universidades brasileiras onde há curso de direito a pesquisa jurídica é
relegada a um segundo plano. É uma disciplina dispensável na formação do bacharel em direito
e, assim, grande parte dos alunos não a entende como necessária para o exercício da profissão.
Algumas escolas incluem a pesquisa jurídica numa disciplina chamada de metodologia da
pesquisa. Mesmo assim, muitas vezes essa disciplina é dada como extracurricular, apenas no final
dos cursos como auxílio do aluno, que é obrigado a fazer sua monografia. Acaba resumindo-se
nos aspectos formais na elaboração do trabalho de final de curso. O resultado é que os trabalhos
apresentados são uma espécie coletânea de citações de autores. No Brasil, segundo alguns autores,
a pesquisa no campo jurídico padece de falta de entrosamento com outras disciplinas das ciências
humanas. E também, em geral, há por parte dos graduandos uma confusão do que é pesquisa
acadêmica e prática profissional. Tudo isso acarretou certo atraso nas pesquisas jurídicas, em
relação a outras disciplinas das ciências humanas[136].
Para a compreensão dos fenômenos jurídicos, numa sociedade complexa como a nossa é
preciso entrar em contato com dados, informações, que não estão disponíveis em qualquer lugar.
É necessário um método para chegar a esses dados, olhar de forma crítica e interpretá-los com o
objetivo de elucidar problemas que se apresentam por meio das relações sociais. A pesquisa no
campo jurídico passa a ser de extrema importância para a compreensão da realidade social e
utilização por parte do Estado na composição de políticas públicas. Orientar o Estado nessas
políticas é servir a cidadania no que tange aos seus direitos.
Muitos estudantes e mesmo os operadores do direito questionam a necessidade de pesquisa
na área. Qual seria a utilidade de produzir pesquisa na área jurídica? A pesquisa científica não é
importante somente no direito, ela é necessária em qualquer área. A importância de se produzir
conhecimento é vital em qualquer área. Contudo, sabemos que os cursos de direito não dão a
devida relevância para a pesquisa. Muito se deve aos poucos pesquisadores do direito, que
encontramos esparsos pelo País, os quais se preocupam com a pesquisa acadêmica.
A realidade social é extremamente complexa para ser entendida apenas com a prática
jurídica. A necessidade de unir a teoria e a produção de conhecimento torna-se cada vez mais
urgente. “Embora o pensamento tecnológico no campo do direito venha ganhando terreno – e
talvez por isso mesmo – é preciso refletir sobre essa realidade. As fases do pensamento jurídico
se sucederam no tempo e estamos diante de mais uma etapa do seu desenvolvimento. A tecnologia
jurídica corresponde a algumas, mas não a todas as características da sociedade deste início de
século. (...) Nessas condições, em face das contradições acentuadas dasociedade contemporânea,
mais do que nunca a pesquisa no campo do direito se torna não só importante como
necessária”[137].
Com o desenvolvimento social provocado pela complexidade da globalização surgem novos
campos de conhecimento e outros se transformam e, no caso, exigem do direito certa
modernização. O direito do consumidor, o e-commerce, o direito ambiental, o direito das
telecomunicações etc. são exemplos de expressão e diversidade no campo jurídico que obrigam
conhecer essas áreas.
Voltando para a questão do ensino nas universidades, poucos investimentos são direcionados
para as pesquisas nessa área. Tanto a pesquisa empírica como a teórica praticamente não existem
nas escolas de direito.
O que estamos acostumados a ver, da parte tanto do professor quanto dos alunos, é a pesquisa
bibliográfica. A grande maioria se concentra em reproduzir a tradicional comparação entre
normativas, jurisprudências etc., nada além disso. A única preocupação com a pesquisa resume-
se ao trabalho final de curso. Ainda assim, pelo fato de possuir um caráter obrigatório, fica restrita
a um apanhado bibliográfico de questões jurídicas. Para muitos professores que se deparam com
trabalhos acadêmicos, a maioria desses trabalhos nem pode ser classificada como pesquisa
científica. “As pesquisas empíricas, os estudos de caso, as discussões grupais, as pesquisas
documentais, os trabalhos de levantamento de dados históricos, as análises sociológicas, o
entendimento crítico-reflexivo da dinâmica do ordenamento jurídico, dentre outras questões,
ainda são esteios de pesquisa negligenciados pela cultura jurídica nacional”[138].

7.2. Métodos e técnica de pesquisa no direito


O trabalho de pesquisa exige certa disciplina dos pesquisadores, que antes de qualquer
decisão devem exercitar seus conceitos acerca da realidade. O questionamento começa pelo
interior do pesquisador. Livrar-se de todos os preconceitos parece ser impossível, mas estar fora,
observar o objeto de um lugar privilegiado requer exercício extenso. Buscar ser o mais isento
possível é um dos elementos mais difíceis de serem realizados pelos pesquisadores. Sempre há
uma carga de conceitos preestabelecidos que se coloca erroneamente nos objetos estudados. Há
de se ter disciplina em relação à busca de informações, dos documentos, à sistematização dos
dados e à análise desse material. É necessário a priori estabelecer um método.
O método científico é uma sucessão de passos pelos quais se descobrem novas relações entre
fenômenos que interessam a determinado ramo da ciência. É por meio do método que novas
conclusões são incorporadas ao saber científico[139]. O método é o caminho, é o que liga dois
extremos, é o instrumento que o pesquisador utiliza para aproximar esses dois lados – o que se
quer conhecer e o que é conhecido. A metodologia é o estudo desse caminho quando praticamos
a ciência[140]. Um dos primeiros passos é a definição dos objetos de estudo. É o problema que
se quer estudar, desvendar, especificar em relação a algo problematizado. No caso da pesquisa
jurídica as fontes de dados não são distintas das da pesquisa de outra área. O que se igualam são
as prioridades. Para todas as pesquisas a definição do método e das fontes é de fundamental
importância.
Assim como em outros campos, é possível distinguir dois tipos de pesquisa no campo
jurídico. A pesquisa teórica – que se trata daquela com base na teoria jurídica em que o
pesquisador tenta aprofundar seu conhecimento por meio de textos de diferentes autores de
inúmeros pontos de vista. O objetivo é lançar um olhar crítico sobre esses autores e trazer à luz
novas formas de interpretação. Esse é o tipo de pesquisa mais usado nos trabalhos de conclusões
de curso de direito. A pesquisa empírica – parte dos dados da realidade no que diz respeito às
relações jurídicas e os conflitos que envolvem essas relações, as práticas sociais e de informações
que suscitem uma resposta a determinada realidade social[141].
Tanto a teórica quanto a empírica não se sustentam quando realizadas distintamente. Para se
realizar uma pesquisa teórica não se deve deixar de lado a pesquisa empírica para não correr o
risco de realizar apenas uma discussão sem nenhuma repercussão prática. E no caso de uma
pesquisa empírica, sem o embasamento da teoria, arrisca-se não conseguir trabalhar com os dados
colhidos no campo da pesquisa[142].
As fontes de dados são de extrema importância para qualquer tipo de pesquisa. Podem ser
divididas em fontes primárias e secundárias. As primárias são as fontes que se encontram no
próprio fenômeno, isto é, do fato em loco, do material informativo produzido pelo agente do
fenômeno que se busca esclarecer. As secundárias são materiais que de alguma forma passaram
pelo crivo de terceiros. Análise de autores, reportagens sobre o objeto, trabalhos secundários. As
fontes primárias são mais críveis, mas isso não significa que devemos ignorar as outras. Elas nos
dão a imagem que outros fazem de nosso objeto.
A classificação das fontes pode variar. Por exemplo, alguns autores tratam a mesma questão
apontando que existem fontes mediatas e imediatas de pesquisa. As mediatas são provenientes da
experiência, da vivência, da observação, do engajamento político etc. do pesquisador. As fontes
imediatas podem se dividir em interesse jurídico – filmes, notícias de jornais, internet, fotos,
pinturas etc. – e em jurídico-formais – as leis, as doutrinas, a jurisprudência, os contratos
etc.[143]. As fontes podem ser classificadas das mais variadas formas.
Há ainda a classificação dos tipos de pesquisa que segundo diferentes critérios podem ser:
Exploratória – realizada quando não há dados suficientes para trabalhar o fenômeno. É
necessário “explorar” o objeto. Realizar um estudo preliminar, baseado na pouca bibliografia, e
investigar em loco o que pode ser retirado do objeto. É um tipo mais flexível, pois possibilita
levar em consideração os mais variados aspectos do fato estudado.
Descritiva – é um tipo de pesquisa em que se descreve o objeto. Baseado muito mais na
observação, o pesquisador analisa as características mais visíveis de determinado objeto.
Explicativa – o objetivo principal é dar explicações sobre o fenômeno e procurar dar
respostas aos fatores que o produzem[144].
A classificação das pesquisas é importante, mas não devemos esquecer que para analisar o
ponto de vista da pesquisa empírica é de extrema importância confrontar com a pesquisa teórica.
As classificações acima não significam que as pesquisas as sigam absolutamente de forma rígida.
É possível utilizar uma delas, ou a mistura delas. Depende muito do objeto que se pretende
estudar. Sem esse referencial é praticamente impossível interpretar a realidade de maneira isenta.
“Toda atividade de pesquisa – qualquer que seja a concepção epistemológica adotada e o método
utilizado, por pressupor o questionamento – sempre possui alguma conotação crítica; a pesquisa
jurídica não é exceção a essa regra”[145].
As pesquisas voltadas ao campo jurídico utilizando métodos e os instrumentos de pesquisa
adequados podem levar o conhecimento jurídico a uma melhor reflexão, especialmente no que
tange ao atraso nesse campo. Contudo, esse processo não é de responsabilidade somente dos
pesquisadores. Deve englobar também os institutos responsáveis por fomentar a pesquisa jurídica
no País. Devemos tomar como ponto de partida a responsabilidade de todos os envolvidos na
produção de conhecimento no campo acadêmico.
NOBRE, Marcos et al. O que é pesquisa em direito? São Paulo: Quartier Latin, 2005.
O livro traz uma reflexão sobre o formalismo jurídico e sobre o ensino meramente
profissionalizante.
FONSECA, Maria G. P. Iniciação à pesquisa do direito. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.
O livro traz também uma discussão sobre o ensino da pesquisa no campo jurídico.

Galileu. Direção de Joseph Losey. 1975.


Filme baseado na peça de Bertold Brecht, no qual o personagem Galileu tenta provar por meios
científicos a veracidade das teorias de Copérnico.
Ponto de mutação. Direção de Bernt Capra. 1990.
Filme baseado no livro homônimo de Fritjof Capra, que propõe uma discussão acerca do método
científico numa perspectiva que propõe ver as relações do todo e não somente das partes.

1. A partir de duas citações a seguir sobre a pesquisa no campo do direito no Brasil, elabore
um texto sobre suas perspectivas de fazer pesquisa jurídica no País.
“A inclusão da metodologia da pesquisa dentre as disciplinas curriculares dos cursos de
direito, desde 1996, é o resultado de reiterados debates a respeito das crises do direito e do
respectivo ensino, certamente aspectos de crises maiores, como as crises da ciência e da própria
sociedade, embora nem sempre assim entendidas. Muitas das críticas que tiveram e ainda têm por
alvo desde os mecanismos de operacionalização do ordenamento jurídico até os pressupostos de
validade e legitimação do conhecimento do direito, vêm contribuindo para aguçar a percepção de
alguns dos mais graves problemas da teoria e da prática jurídicas hoje”[146].
“Acredito que o isolamento do direito em relação a outras disciplinas das ciências humanas
nos últimos trinta anos se deve a dois elementos principais. Em primeiro lugar, à primazia do que
poderíamos chamar de ‘princípio da antiguidade’, já que no Brasil o direito é a disciplina
universitária mais antiga, bem como a mais diretamente identificada com o exercício do poder
político, em particular no século XIX. Desse modo, na década de 1930 o direito não apenas não
se encontrava na posição de quase absoluta novidade, como as demais disciplinas de ciências
humanas, mas também parecia se arrogar dentre estas a posição de ‘ciência rainha’, em geral
voltando-se aos demais ramos de conhecimento somente na medida em que importavam para o
exame jurídico dos temas em debate. Em segundo lugar, considero importante destacar que o
modelo de universidade implantado no bojo do projeto nacional-desenvolvimentista, cujo marco
se convencionou situar em 1930, tinha características marcadamente ‘antibacharelescas’. Dito de
outra maneira, tal como praticado até a primeira metade do século XX, o direito era em larga
medida identificado aos obstáculos a serem vencidos: a falta de rigor científico, o ecletismo
teórico e uma inadmissível falta de independência em relação à política e à moral —
independência que era a marca por excelência da ciência moderna defendida pela universidade
nacional-desenvolvimentista”[147].

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Notas

1 O direito toma esporadicamente categorias da sociologia, como o fato social, a anomia, que são
conceitos desenvolvidos por autores da sociologia, na qual nem sempre é utilizado como
proposto pelos autores dessa ciência. Discorreremos mais adiante sobre isso.
2 Ver mais em BENOIT, Lelita Oliveira. Sociologia comteana: gênese e devir. São Paulo: Discurso
Editorial, 1999.
3 COMTE. Os pensadores. São Paulo: Abril, 1983.
4 RODRIGUES, José Alberto (Org.). Durkheim. Col. Grandes Cientistas Sociais. São Paulo: Ática,
1984, p. 49.
5 RODRIGUES, José Alberto (Org.). Op. cit., p. 74.
6 ROSA, F. A. de Miranda. Sociologia do direito: o fenômeno jurídico como fato social. 17. ed. Rio
de Janeiro: Zahar, 2004, p. 44.
7 Weber exemplifica: “dinheiro”, por exemplo, significa um bem destinado à troca, que o agente
aceita no ato desta, porque sua ação está orientada pela expectativa de que muitos outros,
porém desconhecidos e em número determinado, estarão dispostos a aceitá-lo também, por
sua parte, num ato de troca futura (WEBER, Max. Economia e sociedade. Brasília: UnB, 1991,
v. 1, p. 14).
8 WEBER, M. Economia e sociedade, cit., p. 210.
9 MARX, K.; ENGELS, F. A ideologia alemã. São Paulo: Hucitec, 1986, p. 27-28.
10 Idem, p. 35.
11 Idem, p. 37.
12 Trataremos disso mais adiante.
13 CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2003, p. 171.
14 CHAUI, Marilena. Convite à filosofia, cit., p. 98.
15 CANDIDO, Antonio. A sociologia no Brasil. Tempo Social: revista de sociologia da USP, v. 18, n.
1, p. 272, jun. 2006.
16 RODRIGUES, José Alberto (Org.). Durkheim, cit., p. 67.
17 ROSA, F. A. de Miranda. Sociologia do direito: o fenômeno jurídico como fato social, cit., 2004,
p. 56.
18 Idem, p. 58.
19 Aparelhos ideológicos de Estado. Rio de Janeiro: Graal, 1983.
20 ALTHUSSER, Louis. Op. cit., p. 70.
21 Idem, p. 71.
22 LYRA FILHO, Roberto. O que é direito? São Paulo: Brasiliense, 1999, p. 8.
23 LYRA FILHO, Roberto. Op. cit.
24 WEBER, Max. Conceitos básicos de sociologia. São Paulo: Moraes, 1989, p. 51.
25 Idem, p. 52.
26 DURKHEIM. Sociologia. Col. Grandes Cientistas Sociais, 1. São Paulo: Ática. 1984, p. 74.
27 Idem, p. 78.
28 CHAUI, Marilena. Convite à filosofia, cit., p. 174.
29 BAECHLER, Jean. Grupos e sociabilidade. In: BOUDON, J. Tratado de sociologia. Rio de
Janeiro: Zahar, 1992, p. 77.
30 CHAUI, Marilena. Convite à filosofia, cit., p. 305.
31 Idem, p. 306.
32 CORTELLA, Mario Sergio. Qual a tua obra?: inquietações propositivas sobre gestão, liderança
e ética. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 106.
33 CHAUI, Marilena. Convite à filosofia, cit., p. 309.
34 Idem, p. 310.
35 NALINI, José Renato. Ética geral e profissional. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1997, p. 72.
36 ELSTER, Jon. Racionalidade e normas sociais. Revista Brasileira de Ciências Sociais, n.12, p.
6, Anpocs, dez. 2011.
37 KELSEN, Hans. O problema da justiça. São Paulo: Martins Fontes, 2011, p. 3.
38 Idem, p. 12.
39 COMPARATO, Fábio Konder. Ética: direito, moral e religião no mundo moderno. São Paulo: Cia.
das Letras, 2010, p. 25.
40 VASQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.
41 Teoria do ordenamento jurídico. São Paulo: Edipro, 2011. Parte da ideia de Kant de que a norma
jurídica é um juízo hipotético. Kant faz a distinção do categórico e hipotético. O categórico se
impõe como a norma moral, enquanto o hipotético é condicional.
42 CASTRO, Celso A. Pinheiro de. Sociologia do direito. São Paulo: Atlas, 1998, p. 256.
43 Idem, p. 257.
44 CAVALIERI FILHO, Sergio. Programa de sociologia jurídica. Rio de Janeiro: Forense, 2004, p.
83.
45 Ver também Capítulo 1, item 1.4.3 – Karl Marx, onde falamos de alienação.
46 O filósofo Auguste Comte foi um deles. Ver Capítulo 1, item 1.3 – O positivismo.
47 CHAUI, Marilena. Convite a filosofia, cit., p. 174.
48 ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense, 1995, p. 31.
49 ARANTES, Rogerio Bastos. Direito e política: o Ministério Público e a defesa dos direitos
coletivos. RBCS, v. 14 n. 39, p. 83, fev. 1999.
50 Idem, p. 90.
51 Sobre os “Conflitos sociais”, veja o Capítulo 6, item 6.3.
52 A construção social da realidade. Petrópolis: Vozes, 1985.
53 Idem, p. 77.
54 BERGER, Peter I.; LUCKMANN, Thomas. Op. cit., p. 77.
55 Idem, p. 59.
56 PILETTI, Nelson. Sociologia da educação. São Paulo: Ática, 1989, p. 37.
57 MARCONDES FILHO, Ciro. Televisão: a vida pelo vídeo. São Paulo: Moderna, 1988.
58 www.orkut.com/CommMsgs?tid=2534785560174821052&cmm=577401&hl=pt-. BRDicionário
de Sociologia, RS: Globo, 1990, p. 247.
59 KEY, Wilson Bryan. A era da manipulação. 2. ed. São Paulo: Scritta, 1996, p. 109 – grifo do
autor.
60 BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000, p. 14.
61 CHAUI, Marilena. Convite à filosofia, cit., p. 403.
62 Idem.
63 CHAUI, Marilena. Convite à filosofia, cit., p. 404.
64 Idem, p. 188.
65 Foram as Revoluções Inglesas do século XVII (Puritana e Gloriosa), a Independência dos EUA
e a Revolução Francesa.
66 Ver também WOLKMER, Antônio Carlos. Ideologia, Estado e direito. São Paulo: Revista dos
Tribunais,1995.
67 WOLKMER, Antônio Carlos. Op. cit., p. 119.
68 PINHEIRO, Jair. Do indivíduo abstrato ao concreto. Revista Antítese, n. 6, p. 10, 2010.
69 Ver também DALLARI, D. Direitos humanos e cidadania. São Paulo: Moderna, 1998.
70 PINSKY, Jaime; PINSKY, Carla Bassanezi (Orgs.). História da cidadania. São Paulo: Contexto,
2003, p. 9.
71 SORJ, Bernardo. A nova sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p. 25.
72 PINSKY, Jaime; PINSKY, Carla Bassanezi (Orgs.), cit., p. 10.
73 CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2011, p. 19.
74 Idem, p. 21.
75 Idem, p. 21-25.
76 CARVALHO, José Murilo de. Op. cit., p. 53.
77 SORJ, Bernardo. A nova sociedade brasileira, cit., 25.
78 Norbert Elias trata disso em A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Zahar, 1994, p. 34. –
“Uma concepção bastante aceita da relação entre indivíduo e sociedade expressa de maneira
muito particularmente esse estágio (...). Nessa situação, com frequência parece ao indivíduo
que seu verdadeiro eu, sua alma, está trancafiado em algo alheio ou externo, chamado
‘sociedade’ (...) Ele tem a sensação de que (...) outras pessoas, estranhos poderes exercem
sua influência sobre seu verdadeiro eu como espíritos malévolos, ou, às vezes, benignos;
parecem atirar sobre ele bolas leves ou pesadas que deixam no eu impressões mais profundas
ou mais superficiais”.
79 BENEVIDES, Maria Victoria. Direitos humanos: desafios para o século XXI. In: Educação em
direitos humanos: fundamentos teórico-metodológicos. João Pessoa: UFPB, 2007, p. 336-337.
80 COMPARATO, Fábio Konder. Ética: direto, moral e religião no mundo moderno, cit., p. 623.
81 BENEVIDES, Maria Victoria. Direitos humanos: desafios para o século XXI. In: Educação em
direitos humanos: fundamentos teórico-metodológicos, cit., p. 337.
82 BENEVIDES, Maria Victoria. Op. cit.
83 VIOLA, Sólon Eduardo Annes. Direitos humanos no Brasil: abrindo portas sob neblina. In:
Educação em direitos humanos: fundamentos teórico-metodológicos. João Pessoa: UFPB,
2007, p. 130.
84 Idem, p. 131.
85 BENEVIDES, Maria Victoria. Direitos humanos: desafios para o século XXI. In: Educação em
direitos humanos: fundamentos teórico-metodológicos, cit., p. 337.
86 COMPARATO, Fábio Konder. Ética: direto, moral e religião no mundo moderno, cit., p. 571.
87 DEMO, Pedro. Pobreza política: a pobreza mais intensa da pobreza brasileira. São Paulo:
Autores Associados, 2006, p. 93.
88 BENEVIDES, Maria Victoria. Direitos humanos: desafios para o século XXI. In: Educação em
direitos humanos: fundamentos teórico-metodológicos, cit., p. 346.
89 Uma teoria da justiça. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
90 Podemos lembrar que a justiça, para alguns autores pode ser dividida em três partes: a justiça
comutativa, que é a justiça feita entre as partes iguais. A justiça distributiva, que é aquela feita
de parte para o todo social. E, por fim, a justiça social, que é feita pela sociedade para a
sociedade.
91 RAWLS, John. Uma teoria da justiça, cit., p. 303.
92 SORJ, Bernardo. A nova sociedade brasileira, cit., p. 60.
93 CHERKAOUI, Mohamed. Estratificação. In: BOUDON. R. (Org.). Tratado de sociologia. Rio de
Janeiro: Zahar, 1995, p. 107.
94 CHERKAOUI, Mohamed. Op. cit.
95 STAVENHAQGEN, Rodolfo. Classes sociais e estratificação social. In: FORACCHI, M. M. e
MARTINS, J. S. Sociologia e sociedade: leituras de introdução à sociologia. Rio de Janeiro:
LTC, 1995, p. 292.
96 DURKHEIM, Émile. Os pensadores. São Paulo: Abril, 1983, p. 120.
97 Idem, p. 119.
98 DURKHEIM, Émile. Op. cit., p. 121.
99 MICHAUD, Yves. A violência. São Paulo: Ática, 1989, p. 11.
100 CHAUI, Marilena. Contra a violência. Especial Portal do PT. Abril de 2007.
101 Ver, também, GLASSNER, B. The culture of fear. New York: Basic Books, 1999.
102 THOMPSON, Kenneth. Moral panics. London: Routledge, 1998, p. 22-23.
103 Os estabelecidos e os outsiders. Rio de Janeiro: Zahar, 2000, p. 19.
104 ELIAS, N.; SCOTSON, J. Op. cit., p. 22.
105 GONÇALVES, Zuíla de Andrade. Meninos de rua: e a marginalidade urbana em Belém. Belém:
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117 DADOUN, Roger. A violência: ensaio acerca do “homo violens”. Rio de Janeiro: Difel, 1998.
118 DURKHEIM, Émile. O suicídio. Rio de Janeiro: Martins Fontes/ Presença, 1973, p. 283.
119 DURKHEIM, Émile. Op. cit., p. 286.
120 Para uma maior análise, ver GOHN, Maria da Glória. Movimentos sociais no início do século
XXI. Petrópolis: Vozes, 2008, em cujo texto baseio-me aqui.
121 ROSA, F. A. de Miranda. Sociologia do direito: o fenômeno jurídico como fato social, cit., p. 67-
68.
122 LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio. Lisboa: Relógio D’água, 1989.
123 LIPOVETSKY, Gilles. Op. cit., p. 177.
124 Idem, p. 179.
125 Idem, p. 181.
126 LORENZ, Konrad. Oito pecados mortais do homem civilizado. São Paulo: Brasiliense, 1988, p.
21.
127 LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio, cit., p. 192-193.
128 Ver, também, CAVALIERI FILHO, Sergio. Programa de sociologia jurídica, cit.
129 Ver, também, MEDINA, Eduardo Borges de Mattos. Meios alternativos de solução de conflitos.
Porto Alegre: Sérgio A. Fabris, Editor, 2004.
130 SANTOS, Milton. O país distorcido. São Paulo: PubliFolha, 2002, p. 81.
131 Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.
132 CHAUI, M. Convite à filosofia, cit., p. 405.
133 Idem.
134 BARROS, Sérgio Resende de. Noções sobre estado democrático de direito. Disponível em:
<http://www.srbarros.com.br/pt/nocoessobre-estado-democratico-de-direito.cont>.
135 Violência. Lisboa: Relógio D’água, 2009, p. 44.
136 Ver NOBRE, Marcos. Apontamentos sobre a pesquisa em direito no Brasil. Novos Estudos
Cebrap, São Paulo, jul. 2003.
137 FONSECA, Maria G. P. Iniciação à pesquisa do direito. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009, p. 19.
138 BITTAR, Eduardo C. B. Metodologia da pesquisa jurídica. São Paulo: Saraiva, 2003, p. 156.
139 GOODE, W.; HATT, P. Metodologia em pesquisa social. São Paulo: Biblioteca Universitária,
1972.
140 Idem.
141 FONSECA, Maria G. P. Iniciação à pesquisa do direito, cit.
142 Idem.
143 BITTAR, Eduardo C. B. Metodologia da pesquisa jurídica, cit.
144 Ver, também, GIL, Antônio C. Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo: Atlas, 1998, e
VERGARA, Sylvia C. Projetos e relatórios de pesquisa em administração. São Paulo: Atlas,
1998.
145 FONSECA, Maria G. P. Iniciação à pesquisa do direito, cit., p. 31.
146 FONSECA, Maria G. P. Iniciação à pesquisa do direito, cit., p. XVII.
147 NOBRE, Marcos. Apontamentos sobre a pesquisa jurídica no Brasil. Novos Estudos Cebrap,
cit.
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