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Departamento de Matemática - MTM

Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC

Notas de aula MTM 510002:


Teoria de semigrupos e aplicações a EDP’s

Prof. Matheus Cheque Bortolan

Florianópolis - SC
2015 - 1
ii
Sumário

1 Análise espectral de operadores lineares 5


1.1 O operador resolvente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6
1.2 Operadores lineares limitados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
1.2.1 Raio espectral . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12
1.3 Operadores duais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
1.4 Operadores compactos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16
1.5 Operadores adjuntos, simétricos e auto-adjuntos . . . . . . . . . . . . . . . 21

2 Teoria de semigrupos 29
2.1 Exponencial de um operador linear limitado . . . . . . . . . . . . . . . . . 33
2.2 Semigrupos de classe C 0 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36
2.2.1 Iterações de operadores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
2.2.2 Unicidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40
2.2.3 Exemplos de semigrupos e geradores infinitesimais . . . . . . . . . . 41

3 Geração de semigrupos 43
3.1 Teorema de Hille-Yosida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43
3.2 Operadores dissipativos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48
3.3 Teorema de Lumer-Phillips . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53

4 Grupos de operadores lineares 55


4.1 Teorema de Hille-Yosida para grupos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
4.2 Teorema de Stone . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60

5 Regularidade 63
5.1 Semigrupos diferenciáveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63
2 SUMÁRIO

5.2 Semigrupos compactos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 66


5.3 Semigrupos analíticos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 71
5.3.1 Transformada inversa de Laplace . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 71
5.3.2 Geração de semigrupos analíticos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 76

6 Teoremas de perturbação de geradores 79


6.1 Perturbação por operadores lineares limitados . . . . . . . . . . . . . . . . 79
6.2 Soma de geradores infinitesimais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82
6.3 Perturbação de geradores infinitesimais de semigrupos analíticos . . . . . . 84
6.4 Perturbação de geradores infinitesimais de semigrupos de contração . . . . 85

7 Problema de Cauchy abstrato 89


7.1 O problema de valor inicial homogêneo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89
7.2 Aplicações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 90
7.2.1 Equação da onda unidimensional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 90
7.2.2 Equação da onda dissipativa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 94
7.2.3 Equação de placas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 96
7.2.4 Equação de Schrödinger (parte 1) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97
7.2.5 Equação de Schrödinger (parte 2) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98
7.3 O problema de Cauchy não-homogêneo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 99
7.4 O problema de Cauchy semilinear - caso hiperbólico . . . . . . . . . . . . . 102
7.5 Exemplo: a equação do calor não-linear . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 110

A Cálculo de funções vetoriais 115


A.1 Funções analíticas vetoriais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 115
A.2 Curvas retificáveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117
A.3 Integral de Riemann-Stieltjes de funções contínuas . . . . . . . . . . . . . . 119
A.4 Teoremas de Cauchy e expansão em séries . . . . . . . . . . . . . . . . . . 122
A.5 Teorema do máximo módulo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 124
Introdução

O objetivo destas notas é apresentar a teoria de semigrupos e a sua importância para


a teoria de equações diferenciais parciais semilineares.

Estas notas podem ser usadas como um guia para a disciplina MTM 510002 - Teoria
de semigrupos e aplicações em EDP’s, mas isto não dispensa de maneira nenhuma
o estudo por meio dos livros sugeridos na ementa da disciplina.

Estas notas são baseadas em [5, 7] e também notas de aula da disciplina de Análise
Funcional II do ICMC-USP, do professor Alexandre Nolasco de Carvalho.
4 SUMÁRIO
Capítulo

1
Análise espectral de operadores lineares

Este capítulo visa oferecer uma revisão sobre operadores lineares limitados e não-
limitados em espaços de Banach, para melhor entendimento da teoria de semigrupos e seus
geradores infinitesimais. Vamos estudar algumas propriedades básicas destes operadores
e veremos alguns importante resultados, que serão utilizados nos capítulos a seguir.
Denotaremos por R o corpo dos números reais, C o corpo dos números complexos;
.
além disso, R+ = [0, ∞) é o conjunto dos números reais não-negativos, K denota ambos
R ou C e X denota um espaço de Banach sobre K com norma k · kX .
Para Y um espaço vetorial normado com norma k·kY , dizemos que um operador linear
A : X → Y é limitado se existe uma constante C > 0 tal que

kAxkY 6 CkxkX , para todo x ∈ X. (1.0.1)

Consideramos o conjunto

.
L(X, Y ) = {A : X → Y tal que A é um operador linear limitado},

e quando Y = X, denotamos L(X, Y ) simplesmente por L(X).


Em L(X, Y ) definimos a norma1

. kAxkY
kAkL(X,Y ) = sup kAxkY = sup kAxkY = sup .
kxkX =1 kxkX 61 x6=0 kxkX

Sabemos que L(X) com a norma k · kL(X) é um espaço de Banach; e além disso, com
1
Verifique que k · kL(X,Y ) define de fato uma norma em L(X, Y ) e verifique as igualdades.
6 Análise espectral de operadores lineares

a operação de composição de operadores, o espaço L(X) é uma álgebra de Banach; isto


é, se A, B ∈ L(X), então

kABkL(X) 6 kAkL(X) kBkL(X) .

1.1 O operador resolvente


Agora, vamos começar o estudo de operadores lineares, tanto limitados quanto não-
limitados; isto é, operadores que não estão definidos em todo o espaço X, mas sim num
subconjunto D(A) de X (chamado de domínio de A). Além disso, A não satisfaz uma
limitação do tipo (1.0.1).
Para começar o estudo, o conjunto mais importante a ser estudado é o conjunto resol-
vente de um operador, que é definido da seguinte maneira:

Definição 1.1.1. Sejam X um espaço de Banach sobre C e A : D(A) ⊂ X → X um


operador linear. O conjunto resolvente de A, denotado por ρ(A), é o conjunto formado
por todos os λ em C tais que

(i) λ − A é injetor;

(ii) Im(λ − A) = X e

(iii) (λ − A)−1 : Im(λ − A) ⊂ X → X é limitado.


.
Para λ ∈ ρ(A), o operador R(λ, A) = (λ − A)−1 é chamado operador resolvente.
O espectro do operador A é definido por σ(A) = C \ ρ(A).

Antes de iniciarmos o estudo do conjunto resolvente e dos operadores resolventes de A


demonstramos dois lemas auxiliares que nos motivam a restringir este estudo a operadores
fechados.
Para um operador A : D(A) ⊂ X → X, definimos o gráfico de A em X × X por

.
G(A) = {(x, Ax) : x ∈ D(A)}.

Definição 1.1.2. Um operador A : D(A) ⊂ X → X é dito fechado se G(A) é um


subconjunto fechado de X × X.

Definição 1.1.3. Um operador A0 : D(A0 ) ⊂ X → X é dito fechável se G(A0 ) é o


gráfico de um operador A : D(A) ⊂ X → X fechado. O operador A é chamado de fecho
de A0 . Em geral, denotamos o fecho de A0 por A0 .
1.1 O operador resolvente 7

Exercício 1.1.4. Seja X um espaço de Banach sobre K .

1. Sejam A0 : D(A0 ) ⊂ X → X um operador fechável e A : D(A) ⊂ X → X o seu


fecho. Mostre que D(A0 ) ⊂ D(A) e que se x ∈ A0 então Ax = A0 x.

2. Mostre que um operador A : D(A) ⊂ X → X é fechável (fechado) se, e somente se,


n→∞ n→∞ n→∞
para cada sequência xn −→ 0 (xn −→ x) com Axn −→ y, então y = 0 (x ∈ D(A)
e Ax = y).

3. Mostre que, se A : D(A) ⊂ X → X é um operador linear injetor, então A é fechado


se, e somente se, A−1 fechado.

4. Mostre que, se A : D(A) ⊂ X → X é um operador linear injetor tal que A−1 é


fechável e tem fecho injetivo, então A é fechável.

5. Mostre que se A : D(A) ⊂ X → X é um operador linear fechado, injetor e A−1 : Im(A)


⊂ X → X é limitado, então Im(A) é fechado.

O primeiro lema mostra que se um operador é fechável, então o seu conjunto resolvente
e o de seu fecho coincidem.

Lema 1.1.5. Se A0 : D(A0 ) ⊂ X → X é um operador fechável e A : D(A) ⊂ X → X é


o seu fecho, então ρ(A0 ) = ρ(A).

Demonstração: Suponha inicialmente que λ ∈ ρ(A), então (λ − A)−1 ∈ L(X) e con-


sequentemente (λ − A0 )−1 : Im(λ − A0 ) → X é um operador limitado. Se y ∈ X e
n→∞ n→∞
x = (λ − A)−1 y, existe uma sequência xn −→ x com (λ − A0 )xn −→ y. Logo y é
limite de pontos yn = (λ − A0 )xn ∈ Im(λ − A0 ). Isto mostra que Im(λ − A0 ) = X e,
consequentemente λ ∈ ρ(A0 ).
Por outro lado, se λ ∈ ρ(A0 ), então (λ − A0 )−1 : Im(λ − A0 ) → X é um operador
limitado e Im(λ − A0 ) = X. Mostremos que (λ−A) é injetor. Se x ∈ D(A) e (λ−A)x = 0,
n→∞
existe uma sequência {xn }n∈N em D(A0 ) tal que xn −→ x e (λ − A0 )xn → 0. Como
(λ − A0 )−1 é limitado segue que x = 0 e (λ − A) é injetor. Se y ∈ Im(λ − A), existe
n→∞ n→∞
sequência {yn } em Im(λ − A0 ) tal que yn −→ y e (λ − A0 )−1 yn −→ (λ − A)−1 y, logo
k(λ − A)−1 ykX 6 ckykX . Segue do item 5 do Exercício 1.1.4, que a imagem Im(λ − A)
de λ − A é fechada e do fato que Im(λ − A) ⊃ Im(λ − A0 ) temos que Im(λ − A) = X.

O segundo lema da condições sob as quais um operador que tem conjunto resolvente
não-vazio é fechável.
8 Análise espectral de operadores lineares

Lema 1.1.6. Suponha que um operador A0 : D(A0 ) ⊂ X → X tenha conjunto resolvente


ρ(A0 ) não vazio.

1. Se para algum λ0 ∈ ρ(A0 ), (λ0 − A0 )−1 é injetivo, então A0 é fechável.

2. Se A0 é fechável, então (λ − A0 )−1 é injetivo para todo λ ∈ ρ(A0 ).

n→∞
Demonstração: 1. Como λ0 ∈ ρ(A0 ), xn ∈ D(A0 ), xn −→ 0 e (λ0 − A0 )xn → y, segue
que (λ0 − A0 )−1 y = 0 e y = 0. Logo (λ0 − A0 ) é fechável.
2. Segue diretamente do Lema 1.1.5 pois, para todo λ ∈ ρ(A0 ) = ρ(A), (λ − A)−1 é
uma extensão fechada de (λ − A0 )−1 (mostre que (λ − A0 )−1 = (λ − A)−1 ).

Observação 1.1.7. Existem operadores com resolvente não-vazio que não são fecháveis.
Considere ( )
X
X = `1 (C) = {xn } ∈ CN : |xn | < ∞ ,
n∈N
P
com a norma k{xn }k`1 (C) = n∈N |xn |. Seja T : D(T ) ⊂ X → X definido por

D(T ) = {{xn } ∈ CN : xn = 0 exceto para um número finito de índices}


(∞ )
X j2
T {xn } = xj .
j=n
n2

É fácil ver que T é injetivo, ilimitado e que ImT = D(T ). Além disso T −1 : D(T ) ⊂
X → X é dado por

(n + 1)2
 
−1
T {xn } = xn − xn+1 , para todo {xn } ∈ D(T ).
n2

e portanto claramente limitado; e logo 0 ∈ ρ(T ). O operador extensão A de T −1 a X é


definido pela mesma regra acima e não é injetivo, pois A{ n12 } = 0. Segue do item 2 do
Lema 1.1.6 que T não é fechável.

Em vista desses resultados restringiremos o nosso estudo aos operadores A : D(A) ⊂


X → X que são fechados e apenas em alguns casos específicos a operadores fecháveis.

Note que se A : D(A) ⊂ X → X é fechado e λ ∈ ρ(A), então Im(λ−A) = X. Ainda, se


λ−A : D(A) → X é bijetor, segue do Teorema do Gráfico Fechado que (λ−A)−1 ∈ L(X).
Com isto, a definição de conjunto resolvente pode ser reformulada da seguinte maneira.
1.1 O operador resolvente 9

Definição 1.1.8. Seja X um espaço de Banach sobre C e A : D(A) ⊂ X → X um


operador linear fechado. O conjunto resolvente de A é o subconjunto ρ(A) de todos os
λ em C tais que λ − A é bijetor.

O espectro σ(A) de um operador fechado A : D(A) ⊂ X → X pode ser decomposto


em três partes disjuntas

(i) O conjunto dos autovalores de A é chamado de espectro pontual σp (A) de A; isto


é,
σp (A) = {λ ∈ σ(A) : (λ − A) não é injetor }.

(ii) O espectro residual σr (A) de A é definido por

σr (A) = {λ ∈ σ(A) : (λ − A) é injetor e Im(λ − A) ( X}.

(iii) O espectro contínuo σc (A) de A é definido por

σc (A) = {λ ∈ σ(A) : (λ − A) é injetor, Im(λ − A) ( X e Im(λ − A) = X}

Claramente σ(A) = σp (A)∪σr (A)∪σc (A) com união disjunta. Em espaços de dimensão
finita, segue do Teorema do Núcleo e Imagem que σ(A) = σp (A); isto é, σr (A) = σc (A) =
∅. Mas, em espaços de dimensão infinita, isto pode não ser verdadeiro.

Exemplo 1.1.9. Seja


( )
X
X = `2 (C) = {xn } ∈ CN : |xn |2 < ∞ ,
n∈N

P 2
 21
com a norma k{xn }k`2 (C) = n∈N |xn | . Defina A : X → X por
 
xn
A{xn } = .
n+1

Note que A é limitado, injetor, sua imagem é densa mas não existe sequência {xn }
1
em `2 (C) tal que se A{xn } = { n+1 }. Logo 0 ∈ σc (A).

Exemplo 1.1.10. Seja X como no exemplo anterior e A : X → X definido por A{xn } =


{0, x1 , x2 , x2 , · · · }. Note que A é injetor mas sua imagem não é densa. Logo 0 ∈ σr (A).
10 Análise espectral de operadores lineares

Teorema 1.1.11. Seja X um espaço de Banach sobre C e A : D(A) ⊂ X → X um


operador linear fechado. Então ρ(A) é um subconjunto aberto de C e consequentemente
σ(A) é um subconjunto fechado de C. De fato, se µ ∈ ρ(A) e λ ∈ C é tal que |µ − λ|k(µ −
A)−1 kL(X) < 1, então λ ∈ ρ(A) e


X
(λ − A)−1 = (µ − λ)n (µ − A)−n−1 (1.1.1)
n=0

Demonstração: Se µ ∈ ρ(A), então (µ − A)−1 ∈ L(X). Se λ ∈ C, escrevemos

(λ − A) = (µ − A)[I − (µ − λ)(µ − A)−1 ]

e se |µ − λ| k(µ − A)−1 kL(X) < 1, segue que λ ∈ ρ(A) e (1.1.1) está demonstrada.

Teorema 1.1.12. Seja X um espaço de Banach sobre C e A : D(A) ⊂ X → X um


operador linear. Se λ, µ ∈ ρ(A), então

(λ − A)−1 − (µ − A)−1 = (µ − λ)(µ − A)−1 (λ − A)−1 (1.1.2)

e
(λ − A)−1 (µ − A)−1 = (µ − A)−1 (λ − A)−1 (1.1.3)

Demonstração: Note que

(µ − A)−1 = (µ − A)−1 (λ − A)(λ − A)−1


= (µ − A)−1 [(µ − A) + (λ − µ)I](λ − A)−1
= (λ − A)−1 + (λ − µ)(µ − A)−1 (λ − A)−1 ,

o que prova (1.1.2). A prova de (1.1.3) é imediata de (1.1.2).

A equação (1.1.2) é chamada de identidade do resolvente, e é de fundamental


importância para a teoria espectral de operadores lineares.

Corolário 1.1.13. Seja X um espaço de Banach complexo e A : D(A) ⊂ X → X um


operador fechado. Então, a função ρ(A) 3 λ 7→ (λ − A)−1 ∈ L(X) é analítica e

dn
(λ − A)−1 = (−1)n n!(λ − A)−n−1 .
dλn
1.2 Operadores lineares limitados 11

Demonstração: Fixe λ0 ∈ ρ(A) e observe que, de (1.1.2) e do fato que (1.1.1) converge
uniformemente para
1
|λ − λ0 | 6 ,
2k(λ0 − A)−1 kL(X)
ρ(A) 3 λ 7→ (λ − A)−1 ∈ L(X) é contínua em λ0 . Novamente utilizando (1.1.2) temos
que ρ(A) 3 λ 7→ (λ − A)−1 ∈ L(X) é derivável em λ0 e

d
(λ − A)−1 = −(λ − A)−2 .

O caso geral segue da identidade

(λ−A)−n −(µ−A)−n =
((λ−A)−1 −(µ−A)−1 )[(µ−A)−n+1 +(µ−A)−n+2 (λ−A)−1 +· · · + (λ−A)−n+1 ]

e de um simples argumento de indução.

1.2 Operadores lineares limitados


Seja X um espaço de Banach sobre C. Nesta seção estudamos algumas particularidades
no estudo do espectro de operadores limitados.

Teorema 1.2.1. Se A ∈ L(X) e |λ| > kAkL(X) , então λ ∈ ρ(A) e


X
(λ − A)−1 = λ−n−1 An . (1.2.1)
n=0

Consequentemente σ(A) é compacto e, se R > kAkL(X) , a série acima converge unifor-


memente em {λ ∈ C : |λ| > R}.

Demonstração: O resultado segue simplesmente notando-se que (λ − A) = λ(I − λ−1 A).

Teorema 1.2.2. Se A ∈ L(X), então σ(A) 6= ∅.

Demonstração: Suponha que ρ(A) = C. Então C 3 λ 7→ (λ − A)−1 ∈ L(X) é inteira e,


para |λ| > kAkL(X) ,
1
k(λ − A)−1 kL(X) 6 .
|λ| − kAkL(X)
Segue do Teorema de Liouville que (λ−A)−1 = 0 para todo λ ∈ C o que é um absurdo.
12 Análise espectral de operadores lineares

1.2.1 Raio espectral

Se A ∈ L(X), vimos que σ(A) é não-vazio e compacto. O raio espectral rσ (A) de A


é definido por
rσ (A) = sup{|λ| : λ ∈ σ(A)}

Teorema 1.2.3. Se A ∈ L(X), então a série (1.2.1) é convergente para todo λ ∈ C com
|λ| > rσ (A) e divergente se |λ| < rσ (A). Consequentemente

1/n
rσ (A) = lim sup kAn kL(X) .
n→∞

Demonstração: Como (λ − A)−1 é analítica em ρ(A), ela tem uma série de Laurent
convergente para |λ| > rσ (A). Do Teorema 1.2.1, a série de Laurent de (λ − A)−1 em
{λ ∈ C : |λ| > kAkL(X) } é dada por (1.2.1) e segue da unicidade da série de Laurent que
(1.2.1) vale para |λ| > rσ (A).
Se a série ∞
X
λ−n−1 An
n=0

é convergente em L(X), é fácil ver que sua soma é (λ − A)−1 , λ ∈ ρ(A) e a série
P∞ −n n−1
n=1 µ A é convergente sempre que |µ| > |λ|. Logo, o raio de convergência desta
série é rσ (A) e a série é divergente para |λ| < rσ (A).

Teorema 1.2.4. Seja X um espaço de Banach sobre K e A ∈ L(X). Então a seqüência


1/n
{kAn kL(X) }n∈N é convergente e

1/n 1/n
lim kAn kL(X) = inf kAn kL(X) .
n→∞ n>1

Se X é um espaço de Banach complexo então

1/n 1/n
rσ (A) = lim kAn kL(X) = inf kAn kL(X) .
n→∞ n>1

Demonstração: Se an = log kAn kL(X) , devemos provar que

an an
→ b = inf .
n n>1 n

É fácil ver que am+n 6 an + am . Logo, se m é um inteiro positivo fixo, seja n = mq + r,


1.3 Operadores duais 13

onde q, r são inteiros não-negativos com 0 6 r < m, temos que an 6 q · am + ar e

an q 1
6 am + ar .
n n n
q 1
Se n → ∞ e m está fixo, n
→ m
pois a variação de r está restrita aos núme-
an am
ros 0, 1, 2, · · · , m − 1. Logo, lim supn→∞ n
6 m
. Como m é arbitrário temos que
an an an
lim supn→∞ n
6 b. Por outro lado, n
> b e lim inf n→∞ n
> b. Isto prova o resultado.

Note que, de (1.1.1), se |ξ − ξ0 | < k(ξ0 − A)−1 k−1


L(X) temos que ξ ∈ ρ(A) e


X
−1
(ξ − A) = (ξ0 − ξ)n (ξ0 − A)−n−1 (1.2.2)
n=0

e se |ξ − ξ0 | > k(ξ0 − A)kL(X) temos que ξ ∈ ρ(A) e


X
−1
(ξ − A) =− (ξ0 − ξ)−n−1 (ξ0 − A)n (1.2.3)
n=0

Assim, o raio de convergência da série de Taylor em (1.2.2) é o recíproco do raio


espectral do operador (ξ0 − A)−1 enquanto que o raio de convergência da série de Laurent
em (1.2.2) é o raio espectral de (ξ0 − A). Portanto, nos círculos {λ ∈ C : |λ − ξ0 | =
(rσ (ξ0 − A)−1 )−1 } e {λ ∈ C : |λ − ξ0 | = rσ (ξ0 − A)} existem pontos de σ(A).

1.3 Operadores duais


A seguir recordamos a definição de operadores duais. Sejam X e Y espaços de Banach
sobre um corpo K com duais X ∗ e Y ∗ . Se x∗ ∈ X ∗ (y ∗ ∈ Y ∗ ) denotaremos o seu valor em
um vetor x ∈ X (y ∈ Y ) por hx, x∗ i (hy, y ∗ i). Seja A : D(A) ⊂ X → Y um operador linear
densamente definido. O operador dual A∗ : D(A∗ ) ⊂ Y ∗ → X ∗ de A é o operador linear
definido por: D(A∗ ) é o conjunto dos y ∗ ∈ Y ∗ para os quais existe z ∗ ∈ Y ∗ satisfazendo

hAx, y ∗ i = hx, z ∗ i, ∀ x ∈ D(A). (1.3.1)

.
Se y ∗ ∈ D(A∗ ) definimos A∗ y ∗ = z ∗ onde z ∗ é o (único, verifique) elemento de X ∗
satisfazendo (1.3.1).

Exercício 1.3.1. Se X é um espaço de Banach e A : D(A) ⊂ X → Y é um operador


linear densamente definido, mostre que A∗ : D(A∗ ) ⊂ Y ∗ → X ∗ é um operador linear
14 Análise espectral de operadores lineares

fechado.

Começamos com alguns resultados básicos sobre operadores duais.

Lema 1.3.2. Sejam X e Y espaços de Banach sobre K e A ∈ L(X, Y ); então A∗ ∈


L(Y ∗ , X ∗ ) e kAkL(X,Y ) = kA∗ kL(Y ∗ ,X ∗ ) .

Demonstração: Para todo y ∗ ∈ Y ∗ , y ∗ ◦ A é um funcional linear contínuo e portanto


determina um único elemento x∗ ∈ X ∗ para o qual hx, x∗ i = hAx, y ∗ i, para todo x ∈ X.
Segue que D(A∗ ) = Y ∗ . Além disso,

kA∗ kL(Y ∗ ,X ∗ ) = sup kA∗ y ∗ kX ∗ = sup sup |hx, A∗ y ∗ i|


ky ∗ kY ∗ 61 ky ∗ kY ∗ 61 kxkX 61

= sup sup |hAx, y ∗ i| = sup kAxkY


kxkX 61 ky ∗ k X ∗ 61 kxkX 61

= kAkL(X,Y ) .

Lema 1.3.3. Seja X um espaço de Banach reflexivo sobre K. Se A : D(A) ⊂ X → X é


fechado e densamente definido então D(A∗ ) é denso em X ∗ .

Demonstração: Se D(A∗ ) não é denso em X ∗ então existe um elemento x0 ∈ X tal que


x0 6= 0 e hx0 , x∗ i = 0 para todo x∗ ∈ D(A∗ ). Como A é fechado, seu gráfico é fechado
e não contém (0, x0 ). Do Teorema de Hahn-Banach existem x∗1 e x∗2 em X ∗ tais que
hx, x∗1 i − hAx, x∗2 i = 0 para todo x ∈ D(A) e h0, x∗1 i − hx0 , x∗2 i =
6 0.
Assim temos que hx0 , x∗2 i 6= 0, também x∗2 6= 0, x∗2 ∈ D(A∗ ) e A∗ x∗2 = x∗1 . Isto implica
que hx0 , x∗2 i = 0 o que é uma contradição. Portanto D(A∗ ) é denso em X ∗ .

Exercício 1.3.4. O anulador de um subconjunto M ⊂ X é o conjunto M ⊥ = {x∗ ∈


X ∗ : hx, x∗ i = 0, ∀x ∈ M } e o anulador de M ∗ ⊂ X ∗ é o conjunto (M ∗ )⊥ = {x ∈ X :
hx, x∗ i = 0, ∀x∗ ∈ M ∗ }. Sabemos que se M ⊂ X é um espaço vetorial então (M ⊥ )⊥ = M̄
(veja [3]).
Um subconjunto M ∗ ⊂ X ∗ é dito total se (M ∗ )⊥ = {0}. Mostre que, se A : D(A) ⊂
X → X é fechado e densamente definido então, D(A∗ ) é total.

Teorema 1.3.5. Seja A : D(A) ⊂ X → X um operador linear densamente definido.


Então
ρ(A) = ρ(A∗ ) e ((λ − A)−1 )∗ = (λ − A∗ )−1 , ∀ λ ∈ ρ(A)
1.3 Operadores duais 15

Demonstração: Da definição de dual temos (λI − A)∗ = λI ∗ − A∗ . Se λ − A é injetor e


tem imagem densa, mostremos que

(1) ((λI − A)−1 )∗ (λI ∗ − A∗ )x∗ = x∗ , ∀x∗ ∈ D(A∗ ) e

(2) (λI ∗ − A∗ )((λI − A)−1 )∗ x∗ = x∗ , ∀x∗ ∈ D(((λI − A)−1 )∗ ).

Prova de (1): Se x ∈ Im(λ − A), x∗ ∈ D(A∗ ), então

hx, x∗ i = h(λI − A)(λI − A)−1 x, x∗ i = h(λI − A)−1 x, (λI ∗ − A∗ )x∗ i.

Segue que (λI ∗ − A∗ )x∗ ∈ D(((λI − A)−1 )∗ ) (Im(λI ∗ − A∗ ) ⊂ D(((λI − A)−1 )∗ )) e, do


fato que R(λI − A) = X, temos que

((λI − A)−1 )∗ (λI ∗ − A∗ )x∗ = x∗ , ∀x∗ ∈ D(A∗ ).

Prova de (2): Se x∗ ∈ D(((λI − A)−1 )∗ ) e x ∈ D(A), então

hx, x∗ i = h(λI − A)−1 (λI − A)x, x∗ i = h(λI − A)x, ((λI − A)−1 )∗ x∗ i.

Logo ((λI − A)−1 )∗ x∗ ∈ D(λI ∗ − A∗ ) e, do fato que D(A) = X, temos que

(λI ∗ − A∗ )((λI − A)−1 )∗ x∗ = x∗ , ∀x∗ ∈ D(((λI − A)−1 )∗ ).

Agora podemos completar a prova do teorema. Se λ ∈ ρ(A), (λI − A)−1 é limitado e


temos que ((λI − A)−1 )∗ ∈ L(X ∗ ). De (1) e (2) segue que (λI ∗ − A∗ )−1 = ((λI − A)−1 )∗
e λ ∈ ρ(A∗ ).
Se λ ∈ ρ(A∗ ), note que A∗ é fechado e consequentemente (λI ∗ − A∗ )−1 ∈ L(X ∗ ). Já
sabemos que λI − A tem domínio denso. Mostremos que λI − A é injetivo e tem imagem
densa.
Para ver que λI − A é injetivo note que, se x ∈ D(A) é tal que (λ − A)x = 0 e
x ∈ D(A∗ ), então

0 = h(λI − A)x, x∗ i = hx, (λI ∗ − A)∗ x∗ i.

Como Im(λI ∗ − A∗ ) = X ∗ temos que x = 0 e portanto λI − A é injetivo.


Agora, para ver que λI − A tem imagem densa note que, se x∗ ∈ X ∗ é tal que
0 = h(λI − A)x, x∗ i para todo x ∈ D(A), então x∗ ∈ D(A∗ ) e 0 = hx, (λI − A)∗ x∗ i para
16 Análise espectral de operadores lineares

todo x ∈ D(A). Como D(A) é denso em X segue que (λI − A)∗ x∗ = 0 e, como λ ∈ ρ(A∗ ),
obtemos que x∗ = 0. Isto prova que Im(λI − A) é denso em X.
Para concluir que λ ∈ ρ(A), resta provar que (λI − A)−1 é limitado. Se x∗ ∈ X ∗ =
Im(λI ∗ − A∗ ) ⊂ D(((λI − A)−1 )∗ ) e x ∈ R(λI − A), de (1) e (2), temos

|h(λI − A)−1 x, x∗ i| = |hx, ((λI − A)−1 )∗ x∗ i| = |hx, (λI ∗ − A∗ )−1 x∗ i|


≤ k(λI ∗ − A∗ )−1 k kx∗ k kxk

Disto segue que (λ − A)−1 é limitado e prova que λ ∈ ρ(A), completando a demons-
tração.

1.4 Operadores compactos


Sejam X, Y espaços de Banach sobre K. Denotamos por

X
B 1 (0) = {x ∈ X : kxkX 6 1}.

X
Diremos que um operador linear K : X → Y é compacto se K(B 1 (0)) é um sub-
conjunto relativamente compacto de Y . Denotamos por K(X, Y ) o espaço dos operadores
lineares compactos K : X → Y . É simples verificar que K(X, Y ) ⊂ L(X, Y ).

Exercício 1.4.1. Sejam X = C([a, b], C) e k ∈ C([a, b] × [a, b], C). Defina K por
Z b
(Kx)(t) = k(t, s)x(s)ds.
a

Mostre que K ∈ L(X) e, usando o Teorema de Arzelá Ascoli, mostre que K ∈ K(X).

Teorema 1.4.2. Sejam X, Y espaços de Banach sobre K. Então K(X, Y ) é um supespaço


fechado de L(X, Y ).
n→∞
Demonstração: Se K(X, Y ) 3 Kn −→ K ∈ L(X, Y ) na topologia de L(X, Y ), dado
 > 0 existe n ∈ N tal que

X
K(B1X (0)) ⊂ Kn (B 1 (0)) + BY (0).

Disto segue facilmente que K(B1X (0)) é totalmente limitado (logo relativamente com-
pacto) em Y .
1.4 Operadores compactos 17

Exercício 1.4.3. Seja X = `2 (C) e A : X → X como no Exemplo 1.1.9. Já sabemos que


A é limitado e 0 ∈ σc (A). Mostre que A é compacto.

Teorema 1.4.4. Sejam X, Y, Z espaços de Banach sobre um corpo K, A ∈ L(X, Y ) e


B ∈ L(Y, Z),

(a) se A ∈ K(X, Y ) ou B ∈ K(Y, Z), então B ◦ A ∈ K(X, Z),

(b) se A ∈ K(X, Y ), então A∗ ∈ K(Y ∗ , X ∗ ) e

(c) se A ∈ K(X, Y ) e Im(A) é um subespaço fechado de Y , então Im(A) tem dimensão


finita.

Demonstração: As provas de (a) e (c) são deixadas como exercício para o leitor. Para

provar (b) mostraremos que se {x∗n } é uma sequência em A∗ (B1Y (0)), então ela possui
uma subsequência convergente.
X ∗
Considere o espaço C(A(B 1 (0)), K). Note que, para y ∗ ∈ B1Y (0) e z ∈ A(B1X (0))
existe x ∈ B1X (0) tal que z = Ax e, consequentemente,

|y ∗ (z)| = |y ∗ (Ax)| 6 kAkL(X,Y ) .

X
Além disso, se z1 , z2 ∈ A(B 1 (0))

|y ∗ (z1 ) − y ∗ (z2 )| 6 kz1 − z2 kY .

Desta forma  

F = y∗| X (0))

:y ∈ B1Y (0)
A(B1

X
é uma família uniformemente limitada e equicontínua de C(A(B 1 (0)), K). Segue do

Teorema de Arzelá Ascoli que, se x∗n = yn∗ ◦ A com yn∗ ∈ B1Y (0), existe uma subsequência
yn∗ k de {yn∗ } tal que

sup |x∗nk (x) − x∗nl (x)| = sup |yn∗ k ◦ A(x) − yn∗ l ◦ A(x)|
x∈B1X (0) x∈B1X (0)
k,l→∞
= sup |yn∗ k (z) − yn∗ l (z)| −→ 0.
z∈A(B1X (0))

Logo {x∗n } tem uma subsequência convergente para algum x∗ ∈ X ∗ e a prova de (b)
está concluída.
18 Análise espectral de operadores lineares

Se X é um espaço de Banach, uma projeção P : X → X é uma transformação linear


contínua tal que P 2 = P então P ∈ K(X) se, e somente se, Z = Im(P ) tem dimensão
finita.
De fato, se Z tem dimensão finita, então qualquer subconjunto limitado de Z é rela-
X
tivamente compacto e consequentemente P (B 1 (0)) é relativamente compacto. Por outro
X Z
lado, se P (B 1 (0)) ⊃ B 1 (0) é relativamente compacto, segue do Teorema 6.5 em [3] que
Z tem dimensão finita.
Claramente o operador identidade I : X → X é compacto se, e somente se, X tem
dimensão finita e, consequentemente, se A ∈ K(X) e X tem dimensão infinita então
0 ∈ σ(A) (se não, I = A ◦ A−1 é compacto e dim(X) < ∞).

Teorema 1.4.5. Seja X um espaço de Banach sobre K e A ∈ K(X). Se λ ∈ K\{0},


então N ((λ − A)n ) tem dimensão finita, n = 1, 2, 3, · · · .

Demonstração: Consideremos primeiramente o caso n = 1. Claramente N (λ − A) é


fechado e se x ∈ N (λ − A), x = λ−1 Ax. Logo o operador identidade em N (λ − A) é
compacto e N (λ − A) tem dimensão finita.
O caso geral segue do caso anterior observando-se que

n
!
X n
(λ − A)n = λn−k (−1)k Ak = λn I + Aλ ,
k=0 k
!
Pn n
onde Aλ = k=1 λn−k (−1)k Ak ∈ K(X).
k
Exercício 1.4.6. Seja X um espaço de Banach sobre K e T ∈ L(X). Mostre que se
N (T n0 ) = N (T n0 +1 ) então N (T n ) = N (T n+1 ) para todo n > n0 .
Sugestão: Mostre que N (T n+1 ) = {x ∈ X : T x ∈ N (T n )}.

Teorema 1.4.7. Seja X um espaço de Banach sobre K, A ∈ K(X) e λ ∈ K\{0}. Existe


n0 ∈ N tal que N ((λ − A)n+1 ) = N ((λ − A)n ) para todo n > n0 .

Demonstração: Basta provar que existe n0 ∈ N tal que N ((λ − A)n0 +1 ) = N ((λ − A)n0 ).
Claramente N ((λ − A)n ) é fechado e N ((λ − A)n ) ⊂ N ((λ − A)n+1 ) para todo n ∈ N.
Suponha que N ((λ − A)n ) ( N ((λ − A)n+1 ) para todo n ∈ N. Do do Lema 6.1 em [3],
para cada n ∈ N, existe xn ∈ N ((λ − A)n+1 ) tal que kxn kX = 1 e kxn − xkX > 12 , para
todo x ∈ N ((λ − A)n ). Logo, se 1 6 m < n,

Axn − Axm = λxn + (−λxm + (λ − A)xm − (λ − A)xn ) = λxn − z,


1.4 Operadores compactos 19

onde z = −λxm + (λ − A)xm − (λ − A)xn ∈ N ((λ − A)n ). Logo

|λ|
kAxn − Axm kX = |λ|kxn − λ−1 zkX >
2

e {Axn } não possui uma subseqüência convergente e A não é compacto. Esta contradição
prova o teorema.

Se N (λ − A) 6= {0} temos que λ é um autovalor de A; isto é, λ ∈ σp (A). Neste caso,


a multiplicidade geométrica de λ é a dimensão de N (λ − A) e, existe um menor inteiro
positivo n0 tal que N ((λ − A)n0 ) = N ((λ − A)n0 +1 ), diremos que N ((λ − A)n0 ) é o auto-
espaço generalizado associado ao autovalor λ e que dim(N ((λ − A)n0 )) é a multiplicidade
algébrica de λ.
Observe que, se X é um espaço de Banach sobre K, λ ∈ K\{0} e A ∈ K(X), do
Teorema 6.6 (c) em [3], Im(λ − A) = X se, e somente se, N (λ − A) = {0}. Logo
λ ∈ ρ(A) se, e somente se, N (λ − A) = {0}. Segue que, todos os pontos em σ(A)\{0} são
auto-valores.

Lema 1.4.8. Seja X um espaço de Banach com dimensão infinita sobre um corpo K e
A ∈ K(X). Se {λn } é uma seqüência de números distintos tais que

λn → λ
λn ∈ σ(A)\{0}, ∀n ∈ N.

Então λ = 0; isto é, todo ponto de σ(A)\{0} é isolado.

Demonstração: Como λn ∈ σp (A), seja xn 6= 0 tal que (λn − A)xn = 0 e Xn =


[x1 , . . . , xn ]. Mostremos que Xn ( Xn+1 , ∀n ∈ N. Basta mostrar que {x1 , . . . , xn } é um
conjunto linearmente independente de vetores, para todo n ∈ N. Suponha, por indução,
que {x1 , . . . , xn } é um conjunto linearmente independente de vetores e mostremos que
Xn
{x1 , · · · , xn+1 } também o é. Se xn+1 = αi xi , então
i=1

n
X n
X
λn+1 αi xi = λn+1 xn+1 = Axn+1 = αi λi xi .
i=1 i=1

Disto segue que


n
X
αi (λn+1 − λi )xi = 0 e portanto α1 = · · · = αn = 0.
i=1
20 Análise espectral de operadores lineares

Com isto xn+1 = 0, o que é uma contradição. Portanto {x1 , · · · , xn+1 } é um conjunto
linearmente independente de vetores. Como x1 6= 0 obtemos que {x1 , · · · , xn } é um
conjunto linearmente de independente de vetores para todo n ∈ N e Xn ( Xn+1 , para
todo n ∈ N.
Note ainda que (λn −A)Xn ⊂ Xn−1 (pois (λn −A)xn = 0). Aplicando o Lema de Riesz
1
(Lema 6.1 em [3]), construímos {yn } tal que yn ∈ Xn , kyn k = 1 e dist(yn , Xn−1 ) > para
2
n > 2. Se 2 6 m < n, então Xm−1 ⊂ Xm ⊂ Xn−1 ⊂ Xn e,

∈Xn−1
z }| {
Ayn Aym (λm − A)ym (λn − A)yn
λn − λm = − − ym + yn

λm λn
1
> dist(yn , Xn−1 ) > .
2
 
yn
Se λn → λ 6= 0, então a seqüência é limitada e, do fato que A é compacta,
  λ n
Ayn
tem uma subsequência convergente, e temos uma contradição. Logo λ = 0.
λn

O teorema a seguir sintetiza os resultados obtidos acima a cerca do espectro de um


operador compacto.

Teorema 1.4.9. Seja X um espaço de Banach sobre um corpo K e A ∈ K(X). Então


todo ponto de σ(A)\{0} é um autovalor, σ(A) contém no máximo um número contável de
pontos e o conjunto dos pontos de acumulação de σ(A) é vazio ou {0}.

Frequentemente os operadores compactos surgem como inversa de operadores ilimita-


dos. Estes operadores são os chamados operadores com resolvente compacto que definimos
a seguir.

Definição 1.4.10. Seja X um espaço de Banach sobre K e A : D(A) ⊂ X → X um


operador fechado e com resolvente não-vazio. Diremos que A tem resolvente compacto
se para algum λ0 ∈ ρ(A) temos que (λ0 − A)−1 ∈ K(X).

É uma consequência simples da identidade do resolvente (1.1.2) que se A tem resolvente


compacto, então (λ − A)−1 é compacto para todo λ ∈ ρ(A).

Exemplo 1.4.11. Seja X = {f ∈ C([0, 1], K) : f (0) = 0} e A : D(A) ⊂ X → X o


operador linear definido por D(A) = {f ∈ C 1 ([0, 1], K) : f (0) = f 0 (0) = 0} e Af = f 0
para f ∈ D(A). É fácil ver que A é um operador fechado, densamente definido e que
0 ∈ ρ(A). Para ver que A−1 é compacto, basta aplicar o Teorema de Arzelá-Ascoli.
1.5 Operadores adjuntos, simétricos e auto-adjuntos 21

Exercício 1.4.12. Seja A : D(A) ⊂ X → X um operador fechado com 0 ∈ ρ(A). Em


D(A) defina a norma do gráfico kxkG(A) = kxk + kAxk e denote por Y o espaço D(A)
munido da norma k · kG(A) . Mostre que Y é um espaço de Banach e que se Y está
compactamente imerso em X, então A tem resolvente compacto.

1.5 Operadores adjuntos, simétricos e auto-adjuntos


Seja H um espaço de Hilbert com produto interno h·, ·i : H × H → K e A : D(A) ⊂
H → H é um operador densamente definido. O adjunto A• de A é definido por

D(A• ) = {u ∈ H : v 7→ hAv, ui : D(A) → K é limitado}

e, se u ∈ D(A• ), A• u é o único elemento de H tal que

hv, A• ui = hAv, ui, ∀v ∈ D(A).

Observação 1.5.1. Se H é um espaço de Hilbert sobre C, E : H → H ∗ definido por


Eu(v) = hv, ui, é uma isometria linear-conjugada entre H e H ∗ . A identificação entre
H e H ∗ consiste em identificar u com Eu. Se A∗ : D(A∗ ) ⊂ X ∗ → X ∗ é o dual de A,
então A• = E −1 ◦ A∗ ◦ E. Note ainda que, embora E e E −1 sejam operadores lineares-
conjugados, E −1 ◦ A∗ ◦ E é um operador linear por dupla conjugação. Chamaremos ambos
A• e A∗ de adjunto de A e denotaremos ambos por A∗ mas é importante observar que, se
A = αB então A• = ᾱB 0 enquanto que A∗ = αB ∗ . Desta forma, (λI − A)• = λ̄I − A•
enquanto que (λI − A)∗ = λI ∗ − A∗ .

Daqui em diante usaremos a notação A∗ para denotar os operadores dual e adjunto,


indistintamente. Nos referiremos a ambos como operador adjunto.

Definição 1.5.2. Seja H um espaço de Hilbert sobre K com produto interno h·, ·i. Dire-
mos que um operador A : D(A) ⊂ H → H é simétrico (também chamado Hermitiano
quando K = C) se D(A) = H e A ⊂ A∗ ; isto é, D(A) ⊂ D(A∗ ) e hAx, yi = hx, Ayi para
todo x, y ∈ D(A). Diremos que A é auto-adjunto se D(A) = D(A∗ ) e A = A∗ .

Exercício 1.5.3. Seja H um espaço de Hilbert. Se A : D(A) ⊂ H → H é um operador


densamente definido, então A• : D(A• ) ⊂ H → H é fechado. Além disso, se A é fechado,
então A• é densamente definido.
22 Análise espectral de operadores lineares

Exercício 1.5.4. Seja H um espaço de Hilbert sobre K. Mostre que, se A : D(A) ⊂ H →


H é simétrico e λ ∈ K é um auto-valor de A, então λ ∈ R. Além disso,

inf hAx, xi 6 λ 6 sup hAx, xi.


kxkH =1 kxkH =1

Exercício 1.5.5. Seja H = Cn com o produto interno usual. Se A = (ai,j )ni,j=1 é uma
matriz com coeficientes complexos que representa um operador linear em A ∈ L(H),
encontre A• e A∗ .

Exercício 1.5.6. Seja H um espaço de Hilbert sobre K com produto interno h·, ·i e A :
D(A) ⊂ H → H um operador densamente definido. Mostre que G(A∗ ) = {(−Ax, x) : x ∈
D(A)}⊥ (aqui M ⊥ representa o ortogonal de M ).

Proposição 1.5.7. Seja H um espaço de Hilbert sobre K com produto interno h·, ·i. Se
A : D(A) ⊂ H → H é um operador auto-adjunto, injetor e com imagem densa, então
A−1 é auto-adjunto.

Demonstração: Como A é auto-adjunto, é fácil ver que

{(x, −Ax) : x ∈ D(A)}⊥ = {(Ax, x) : x ∈ D(A)} = G(A−1 ).

Como A é injetor e tem imagem densa, segue facilmente do Exercício 1.5.6,

G((A−1 )∗ ) = {(−A−1 x, x) : x ∈ Im(A)}⊥ = G(A−1 ).

Logo A−1 = (A−1 )∗ .

Teorema 1.5.8. Seja H um espaço de Hilbert sobre K com produto interno h·, ·i. Se
A : D(A) ⊂ H → H é um operador simétrico e sobrejetor, então A é auto-adjunto.

Demonstração: Primeiramente mostremos que A e A∗ são injetores. Se x ∈ D(A) e


Ax = 0, temos que hAx, yi = hx, Ayi para todo y ∈ D(A) e consequentemente, do fato
que Im(A) = X temos que x = 0. Para ver que A∗ é injetor procedemos da mesma forma.
Agora mostremos que A é fechado. De fato, se D(A)∗ ⊃ D(A) 3 xn → x ∈ X e
Axn = A∗ xn → y, então x ∈ D(A∗ ) e A∗ x = y. Como A é sobrejetor, existe w ∈ D(A)
tal que Aw = A∗ w = A∗ x e da injetividade de A∗ temos que w = x. Com isto x ∈ D(A)
e Ax = y, mostrando que A é fechado.
1.5 Operadores adjuntos, simétricos e auto-adjuntos 23

Segue que do Teorema do Gráfico Fechado que a A tem inversa A−1 ∈ L(X). Clara-
mente A−1 é auto-adjunto e da Proposição 1.5.7 segue que A é auto-adjunto.

Corolário 1.5.9. Seja H um espaço de Hilbert sobre K com produto interno h·, ·i. Se
A : D(A) ⊂ H → H é um operador simétrico e existe λ0 > 0 tal que Im(λ0 − A) = H,
λ0 ∈ ρ(A), então A é auto-adjunto.

Demonstração: Exercício.

Proposição 1.5.10. Sejam H um espaço de Hilbert sobre K com produto interno h·, ·i e
A ∈ L(H) um operador auto-adjunto. Se

m = inf hAu, ui, M = sup hAu, ui,


u∈H u∈H
kuk=1 kuk=1

então {m, M } ⊂ σ(A) ⊂ [m, M ].

Demonstração: Da definição de M temos que hAu, ui ≤ M kuk2H para todo u ∈ H.


Disto segue que, se λ > M , então

hλu − Au, ui > (λ − M ) kuk2H . (1.5.1)


| {z }
>0

Com isto, é fácil ver que a(v, u) = hv, λu − Aui é uma forma bilinear, simétrica
(a(u, v) = a(v, u) para todo u, v ∈ H), contínua e coerciva. Segue do Teorema de Lax-
Milgram que
hv, λu − Aui = hv, f i, para todo v ∈ H,

tem uma única solução uf para cada f ∈ H. É fácil ver que esta solução satisfaz

(λ − A)uf = f,

e assim (λ − A) é bijetora. Logo (M, ∞) ⊂ ρ(A).


Mostremos que M ∈ σ(A). A forma bilinear a(u, v) = (M u − Au, v) é linear na
primeira variável, linear-conjugada na segunda variável, contínua, simétrica e a(u, u) > 0,
para todo u ∈ H. Logo, vale a desigualdade de Cauchy-Schwarz

|a(u, v)| 6 a(u, u)1/2 a(v, v)1/2 .


24 Análise espectral de operadores lineares

Segue que

|(M u − Au, v)| 6 (M u − Au, u)1/2 (M v − Av, v)1/2 , para todo u, v ∈ H


6 C(M u − Au, u)1/2 kvkH

e que
kM u − AukH 6 C(M u − Au, u)1/2 , para todo u ∈ H.

Seja {un } uma seqüência de vetores tais que kun kH = 1, hAun , un i → M . Segue que
kM un − Aun kH → 0. Se M ∈ ρ(A)

un = (M I − A)−1 (M un − Aun ) → 0

o que está em contradição com kun kH = 1, ∀n ∈ N. Segue que M ∈ σ(A).


Do resultado acima aplicado a −A obtemos que (−∞, m) ⊂ ρ(A) e m ∈ σ(A). A
prova que σ(A) ⊂ R foi dada no Exemplo 3.2.10
Lema 1.5.11. Seja H um espaço de Hilbert sobre K e A ∈ L(H) um operador auto-
adjunto, então
kAkL(H) = sup |hAu, vi| = sup |hAu, ui|.
kuk=1 kuk=1
kvk=1

Demonstração: Basta mostrar que

kAkL(H) = sup |hAu, vi| 6 sup |hAu, ui| := a.


kuk=1 kuk=1
kvk=1

Se u, v 0 ∈ H, kukH = kv 0 kH = 1, |hAu, v 0 i| eiα = hAu, v 0 i e v = eiα v 0 , temos que

1
|hAu, v 0 i| = hAu, vi = [hA(u + v), u + vi − hA(u − v), u − vi]
4
a
6 [ku + vk2 + ku − vk2 ] = a,
4

o que completa a prova.

Segue diretamente da Proposição 1.5.10 e do Lema 1.5.11 que


Corolário 1.5.12. Sejam H um espaço de Hilbert com produto interno h·, ·i e A ∈ L(H)
um operador auto-adjunto com σ(A) = {0}, então A = 0.
O teorema a seguir e o Teorema 1.5.8 constituem as principais ferramentas para a
obtenção de operadores auto-adjuntos.
1.5 Operadores adjuntos, simétricos e auto-adjuntos 25

Teorema 1.5.13 (Friedrichs). Seja X um espaço de Hilbert sobre K e A : D(A) ⊂ X →


X um operador simétrico para o qual existe um α ∈ R tal que

hAx, xi 6 αkxk2 ou hAx, xi > αkxk2 (1.5.2)

para todo x ∈ D(A). Então A admite uma extensão auto-adjunta que preserva a limitação
(1.5.2).

Demonstração: Vamos fazer a prova apenas no caso em que hAx, xi > αkxk2 para todo
x ∈ D(A) e para algum α ∈ R. O outro caso pode ser deduzido deste considerando o
operador −A. Também consideraremos apenas o caso α = 1 pois o caso geral pode ser
deduzido deste considerando o operador A + (1 − α)I.

Em D(A) considere o produto interno D(A) × D(A) 3 (x, y) 7→ hAx, yi ∈ K. Cla-


1
ramente, a norma D(A) 3 x 7→ kxk 1 = hAx, xi 2 ∈ R+ resultante deste produto interno
2
1
satisfaz kxk 1 > kxk. Denote por X o completamento de D(A) relativamente à norma
2
2

k · k1 .
2
1
Mostremos que X 2 , como conjunto, está em correspondência biunívoca com um sub-
conjunto do completamento de D(A) relativamente à norma k · k. É claro que toda
sequência {xn } em D(A) que é de Cauchy relativamente à norma k · k 1 é também de
2

Cauchy relativamente à norma k · k.

Para concluir a injetividade mostraremos, por redução ao absurdo que, se {xn } é uma
sequência de Cauchy relativamente à norma k · k 1 para a qual limn→∞ kxn k 1 = a > 0,
2 2

não podemos ter que limn→∞ kxn k = 0. Se a tese é falsa, temos que

2RehAxn , xm i = hAxn , xn i + hAxm , xm i − hA(xn − xm ), (xn − xm )i


m,n→∞
−→ 2a2

m→∞
o que é um absurdo pois hAxn , xm i −→ 0.
1
Como X é completo, X 2 pode ser identificado com um subconjunto de X.
1
Seja D̃ = D(A∗ ) ∩ X 2 . Como D(A) ⊂ D(A∗ ), devemos ter que D(A) ⊂ D̃ ⊂ D(A∗ ).
Definimos à tomando a restrição de A∗ a D̃ e mostraremos que à é auto-adjunto.

Primeiramente mostremos que à é simétrico. Se x, y ∈ D̃ existem seqüências {xn } e


n→∞ n→∞
{yn } em D(A) que kxn −xk 1 −→ 0 kyn −yk 1 −→ 0. Segue que limm→∞ limn→∞ hAxn , ym i =
2 2
26 Análise espectral de operadores lineares

limn→∞ limm→∞ hAxn , ym i = hx, yi 1 existe e coincide com


2

lim lim hAxn , ym i = lim hAxn , yi = lim hxn , Ãyi = hx, Ãyi e com
n→∞ m→∞ n→∞ n→∞

lim lim hAxn , ym i = lim hx, Aym i = lim hÃx, ym i = hÃx, yi,
m→∞ n→∞ m→∞ m→∞

e assim à é simétrico.
Para concluir a demonstração é suficiente mostrar que à é sobrejetor e isto segue da
seguinte forma. Seja y ∈ X e considere o funcional f : D(A) → K dado por f (x) = hx, yi.
Então f é um funcional linear contínuo relativamente à norma k · k 1 e pode ser estendido
2
1
a um funcional linear contínuo de X 2 e sendo assim, do Teorema de Representação de
1
Riesz, existe y 0 ∈ X 2 tal que

f (x) = hx, yi = hx, y 0 i 1 = hAx, y 0 i, ∀x ∈ D(A).


2

1
Logo y 0 ∈ D(A∗ ) ∩ X 2 e A∗ y 0 = Ãy 0 = y mostrando que à é sobrejetor.

Exemplo 1.5.14. Seja X = L2 (0, π) e D(A0 ) = C02 (0, π) o conjunto das funções duas
vezes continuamente diferenciáveis e que tem suporte compacto em (0, π). Defina A0 :
D(A0 ) ⊂ X → X por
(A0 φ)(x) = −φ00 (x), x ∈ (0, π).
2
É fácil ver que A0 é simétrico e que hA0 φ, φi > π2
kφk2X para todo φ ∈ D(A0 ). Do
2
Teorema 1.5.13, A0 possui uma extensão auto adjunta A que satisfaz hAφ, φi > π2
kφk2X
1
para todo φ ∈ D(A). Observe que o espaço X 2 do Teorema de Friedrichs é, neste exemplo
1
o fecho de D(A) na norma H 1 (0, π) e portanto X 2 = H01 (0, π). Por outro lado D(A∗ ) é
characterizado por

D(A∗0 ) = {φ ∈ X : ∃ φ∗ ∈ X tal que h−u00 , φi = hu, φ∗ i, ∀u ∈ D(A0 )}

e A∗0 u = −u00 para todo u ∈ D(A∗0 ). Assim, D(A) = H 2 (0, π) ∩ H01 (0, π) e Au = −u00 para
todo u ∈ D(A).

2
Também do Teorema 1.5.13 sabemos que (−∞, π
) ⊂ ρ(A). Em particular 0 ∈ ρ(A) e
1 1 1
0
se φ ∈ D(A), temos que |φ(x) − φ(y)| 6 |x − y| kφ kL2 (0,π) = |x − y| 2 hAφ, φi 2 . Assim, se
2

B é um conjunto limitado de D(A) com a norma do gráfico, então supφ∈B kφ0 kL2 (0,π) < ∞
e a família B de funções é equicontínua e limitada em C([0, π], R) com a topologia da con-
vergência uniforme. Segue do teorema de Arzelá-Ascoli que B é relativamente compacto
1.5 Operadores adjuntos, simétricos e auto-adjuntos 27

em C([0, π], R) e consequentemente B é relativamente compacto em L2 (0, π). Do Exer-


cício 1.4.12 temos que A−1 é um operador compacto. Segue que σ(A) = {λ1 , λ2 , λ3 , · · · }
1
onde λn = n2 ∈ σp (A) com auto-funções φn (x) = π2 2 sen(nx), n ∈ N.
28 Análise espectral de operadores lineares
Capítulo

2
Teoria de semigrupos

Neste capítulo apresentamos os fatos básicos da teoria de semigrupos de operadores


lineares e contínuos indispensáveis ao entendimento das técnicas de solução de problemas
parabólicos e hiperbólicos semilineares. Começamos com uma revisão da teoria básica
mas com o objetivo principal de apresentar a teoria de semigrupos fortemente contínuos
e semigrupos analíticos. A exposição apresentada neste capítulo segue [2, 6, 7]. Grande
parte da exposição estará concentrada na caracterização dos geradores de semigrupos
lineares já que nas aplicações da teoria, em geral, conhecemos a equação diferencial e não
o operador solução.
Consideremos inicialmente a seguinte equação diferencial ordinária em R dada por

 d x(t) = ax(t),

dt (2.0.1)
x(0) = x0 ,

onde a ∈ R. Sabemos que a solução do problema (única, como veremos a seguir) é dada
.
por x(t) = x0 eat , para t ∈ R. As propriedades da função T (t) = eat que fazem com que
x(t) seja solução do problema são:

d
(i) T (0) = 1. (ii) dt
T (t) = aT (t).

Usando a definição de derivada, encontremos propriedades de T (t) para que se verifique


(ii). Temos

d T (t + h) − T (t) ea(t+h) − eat at eah − 1


T (t) = lim = lim = e lim .
dt h→0 h h→0 h h→0 h
30 Teoria de semigrupos

Assim, para que valha (ii), usamos as propriedades

eah −1
• ec+d = ec ed ; • limh→0 h
= a.

E o limite acima é equivalente a limh→0 eah − 1 = 0. Logo, utilizamos as propriedades

(a) T (0) = 1.

(b) T (t + s) = T (t)T (s).

(c) limh→0 T (h) − 1 = 0.

Isto nos motiva fazer a seguinte definição:

Definição 2.0.15. Um semigrupo de operadores lineares em X é uma família

{T (t) : t > 0} ⊂ L(X)

tal que

(i) T (0) = I, onde I é o operador identidade em X;

(ii) T (t + s) = T (t)T (s), para todo t, s > 0.

Se, além disso,


t→0+
(iii’) kT (t) − IkL(X) −→ 0, diremos que o semigrupo é uniformemente contínuo;
t→0+
(iii”) kT (t)x − xkX −→ 0, para cada x ∈ X, diremos que o semigrupo é fortemente
contínuo, ou um C 0 -semigrupo.

Além da função exponencial real, o estudo dos semigrupos de operadores lineares está
associado ao estudo de problemas de Cauchy lineares da forma

 d x(t) = Ax(t),

dt (2.0.2)
x(0) = x0 ,

onde A : D(A) ⊂ X → X é um operador linear (em geral ilimitado). O semigrupo


{T (t) : t > 0} é o operador solução de (2.0.2); isto é, para cada x0 ∈ X, t 7→ T (t)x0 é a
solução (em algum sentido) de (2.0.2). Para explicar melhor esta observação consideremos
primeiramente o caso em que A é um operador linear contínuo.
31

Neste caso, o semigrupo t 7→ T (t) é o operador solução (no sentido usual) do problema

 d T (t) = AT (t)

dt (2.0.3)
T (0) = B ∈ L(X).

.
com B = I. Esta solução será denotada por T (t) = eAt . Vamos mostrar que existe uma
única solução para (2.0.3) e que as propriedades de semigrupo estão satisfeitas. Isto segue
do princípio da contração de Banach que enunciamos a seguir.

Lema 2.0.16. Seja X um espaço métrico completo com métrica dX : X ×X → R+ e uma


função F : X → X tal que dX (F n (x), F n (y)) 6 k dX (x, y) para algum inteiro positivo n
e 0 < k < 1 (F n é uma contração). Então, existe um único x̄ ∈ X tal que F (x̄) = x̄. O
ponto x̄ é chamado ponto fixo de F .

Agora vamos procurar soluções para (2.0.3) que sejam funções em {U (·) ∈ C([0, τ ],
L(X)) ∩ C 1 ((0, τ ], L(X)) : U (0) = B} que verifiquem (2.0.3). Seja

K = {U (·) ∈ C([0, τ ], L(X)) : U (0) = B}

e defina a transformação F : K → K por


Z t
F (U )(t) = B + AU (s)ds
0

e observe que uma solução de (2.0.3) é um ponto fixo de F em K e que um ponto fixo de
F é uma solução de (2.0.3). Note que K é um espaço métrico completo com a métrica
induzida pela norma de C([0, τ ], L(X)). Queremos mostrar que existe um inteiro positivo
n tal que F n é uma contração. De fato:
Z t

kF (U )(t) − F (V )(t)kL(X) 6 kAU (s) − AV (s)kL(X) ds
0

6 tkAkL(X) sup kU (t) − V (t)kL(X)


t∈[0,τ ]

6 τ kAkL(X) sup kU (t) − V (t)kL(X)


t∈[0,τ ]

Suponha que, para t ∈ [0, τ ],

n−1
tn−1 kAkL(X)
kF n−1 U (t) − F n−1 V (t)kL(X) 6 sup kU (t) − V (t)kL(X) ,
(n − 1)! t∈[0,τ ]
32 Teoria de semigrupos

então
Z t
n n
n−1 n−1

kF (U )(t) − F (V )(t)kL(X) 6 kAF
U (s) − AF V (s)kL(X) ds
0
tn kAknL(X)
6 sup kU (t) − V (t)kL(X)
n! t∈[0,τ ]

τ n kAknL(X)
6 sup kU (t) − V (t)kL(X) .
n! t∈[0,τ ]

τ n kAkn
L(X)
Notando que n!
→ 0 quando n → ∞, temos que existe um inteiro positivo n0
tal que F n0 é uma contração e segue do Princípio da Contração de Banach que existe
um único ponto fixo para F . É fácil ver que este ponto fixo é uma função contínuamente
diferenciável e que satisfaz (2.0.3).
Como a argumentação acima vale para todo τ ∈ R obtemos que toda solução de
(2.0.3) está globalmente definida. Vamos agora verificar que a propriedade de semigrupo
está satisfeita para a solução T (t) de (2.0.3) com B = I. Note que U (t) = T (t + s) e
V (t) = T (t)T (s) são soluções de (2.0.3) satisfazendo U (0) = V (0) = T (s). Segue da
unicidade de soluções que T (t + s) = T (t)T (s). Portanto, {T (t) : t ∈ R} é um grupo
uniformemente contínuo de operadores lineares limitados (vide Capítulo 4).

É claro que estaremos interessados em situações mais gerais, já que em muitas apli-
cações o operador A não é limitado. Reciprocamente, dado um semigrupo de operadores
lineares qualquer podemos associá-lo a uma equação differencial através da seguinte defi-
nição

Definição 2.0.17. Se {T (t) : t > 0} ⊂ L(X) é um semigrupo fortemente contínuo de


operadores lineares, seu gerador infinitesimal é o operador definido por A : D(A) ⊂
X → X, onde
 
T (t)x − x
D(A) = x ∈ X : lim+ existe ,
t→0 t
T (t)x − x
Ax = lim+ , ∀ x ∈ D(A).
t→0 t

Observação 2.0.18. É claro que quando lidamos com equações diferenciais, em geral
trabalhamos com operadores A que não são limitados. De fato, considere X o espaço
C ∞ (R); isto é, o conjunto das funções infinitamente diferenciáveis de R em R. Mostremos
2.1 Exponencial de um operador linear limitado 33

que não é possível definir uma norma neste espaço de modo que o operador dado por

df
(Af )(t) = (t) (a derivada),
dt

seja um operador linear limitado.


Assuma que k · k é uma norma qualquer em X. Considere a função f (t) = eλt , para
λ ∈ R, onde λ > 0 é fixado. Claramente f ∈ X e das propriedades de norma, temos

df
kAf k =
dt = kλf k = λkf k.

Como λ > 0 pode ser tomado arbitrário, é fácil ver que não pode existir C > 0 tal que

kAgk 6 Ckgk, para toda g ∈ X,

o que mostra que A não é limitado, em nenhuma norma.

2.1 Exponencial de um operador linear limitado



At . X An t n
Exemplo 2.1.1. Seja A ∈ L(X) e defina e = n!
. Então {eAt : t ∈ R} define um
n=0
grupo uniformemente contínuo com gerador A e satisfazendo keA t kL(X) 6 e|t|kAkL(X) .


X
An tn
A série n!
converge absolutamente, uniformemente em subconjuntos compactos
n=0
de R, visto que kAn kL(X) 6 kAknL(X) , portanto

∞ n n ∞
X A t X (|t| kAkL(X) )n
At
ke kL(X) 6
n! 6 = e|t| kAkL(X) , t ∈ R.
n=0 L(X) n=0
n!

e
∞ ∞
An tn−1 (|t| kAkL(X) )n
X X

(n − 1)! 6 kAkL(X) = kAkL(X) e|t| kAkL(X) , t ∈ R.
n=1 L(X) n=0
n!

Portanto
d At
e = AeAt , t ∈ R.
dt
34 Teoria de semigrupos

Também
keAt − IkL(X) 6 |t|kAkL(X) e|t|kAkL(X) → 0

quando t → 0. Segue que {eAt : t ∈ R} é a única solução de (2.0.3) com B = I. O


resultado agora segue das considerações anteriores.

O resultado a seguir é extremamente útil na obtenção de propriedades de regularidade


de semigrupos.

Lema 2.1.2. Seja φ uma função contínua e diferenciável a direita no intervalo [a, b). Se
D+ φ é contínua em [a, b), então φ é continuamente diferenciável em [a, b).

Prova: Exercício.
Todo semigrupo fortemente contínuo possui uma limitação exponencial que é dada no
teorema a seguir.

Teorema 2.1.3. Suponha que {T (t) : t > 0} ⊂ L(X) é um semigrupo fortemente contí-
nuo. Então, existe M > 1 e β tais que

kT (t)kL(X) 6 M eβ t , para todo t > 0.

Além disso, para qualquer ` > 0 podemos escolher β > 1` logkT (`)kL(X) e então escolher
M.

Prova: Primeiramente note que existe η > 0 tal que supt∈[0,η] kT (t)kL(X) < ∞. Isto é con-
n→∞
sequência do fato que, para cada sequência {tn }n∈N em (0, ∞) com tn −→ 0+ , {T (tn )x}n∈N
é limitada para todo x ∈ X e, do Princípio da Limitação Uniforme, {kT (tn )kL(X) }n∈N é
limitada.
1
Escolha ` > 0 tal que sup06t6` kT (t)kL(X) = M < ∞ e seja β > `
log kT (`)kL(X) isto é
kT (`)kL(X) 6 eβ` e então

kT (n` + t)kL(X) = kT (`)n T (t)kL(X) 6 kT (`)knL(X) kT (t)kL(X) 6 M eβn`


6 M e|β|` eβ(n`+t) ,

para todo 0 6 t 6 ` e n ∈ N, e a afirmativa segue.

O teorema a seguir caracteriza completamente os semigrupos uniformemente contínuos


de operadores através de seus geradores.
2.1 Exponencial de um operador linear limitado 35

Teorema 2.1.4. Dado um semigrupo fortemente contínuo {T (t) : t > 0} ⊂ L(X), as


seguintes afirmativas são equivalentes:

(a) o semigrupo é uniformemente contínuo;

(b) o seu gerador infinitesimal está definido em todo X;

(c) para algum A em L(X), T (t) = eAt .

Demonstração: Se T (t) = eAt para algum A ∈ L(X) as demais afirmativas foram


provadas no Exemplo 2.1.1. n o
T (t)x−x
Se o gerador infinitesimal de {T (t) : t > 0} está globalmente definido, então t
  X 06t61
T (t)−I
é limitado para cada x e pelo Princípio da Limitação Uniforme temos que t
L(X) 06t61
+ t→0+
é limitado e portanto T (t) → I quando t → 0 . É suficiente provar que, se T (t) −→ I
em L(X), existe A ∈ L(X) com T (t) = eAt .
Assumindo que T (t) → I quando t → 0+ , existe δ > 0 tal que kT (t) − IkL(X) 6 1/2,
0 6 t 6 δ. Ainda

kT (t + h) − T (t)kL(X) = k(T (h) − I)T (t)kL(X) → 0,


kT (t) − T (t − h)kL(X) = k(T (h) − I)T (t − h)kL(X) → 0

quando h → 0+ , já que kT (t)kL(X) é limitada em [0, δ]. Portanto t → T (t) : R+ → L(X)


Z t
é contínuo e a integral T (s)ds está bem definida. Além disso,
0

Z δ
1

δ T (s)ds − I
6 1/2
0 L(X)

Z δ −1
e portanto T (s)ds ∈ L(X). Defina
0
Z δ −1
A = (T (δ) − I) T (s)ds .
0

Para cada h > 0,


Z δ Z δ+h Z δ 
−1 −1
h (T (h) − I) T (s)ds = h T (s)ds − T (s)ds
0 h 0
Z δ+h Z h
−1 −1 h→0+
=h T (s)ds − h T (s)ds −→ T (δ) − I.
δ 0
36 Teoria de semigrupos

h→0+ h→0+
Logo h−1 (T (h) − I) −→ A e h−1 (T (t + h) − T (t)) = T (t) T (h)−I
h
= T (h)−I
h
T (t) −→
T (t)A = AT (t). Portanto t → T (t) tem uma derivada a direita

d+
T (t) = T (t)A = AT (t)
dt

que é contínua para t > 0. Segue do Lema 2.1.2 que t 7→ T (t) é continuamente diferenciá-
vel e, da unicidade de soluções para o problema (2.0.3) com B = I segue que T (t) = eAt ,
t > 0.

Em vista desse teorema a teoria de semigrupos concentra-se no estudo dos semigrupos


fortemente contínuos e seus geradores.

2.2 Semigrupos de classe C 0


O resultado a seguir coleta alguns fatos importantes sobre semigrupos fortemente con-
tínuos que serão utilizados com freqüência no restante do capítulo.

Teorema 2.2.1. Suponha que {T (t) : t > 0} ⊂ L(X) seja um C 0 -semigrupo.

1. Para qualquer x ∈ X, a aplicação t → T (t)x ∈ X é contínua para t > 0.

2. R+ 3 t 7→ kT (t)kL(X) ∈ R+ é semicontínua inferiormente e portanto mensurável.

3. Seja A o gerador infinitesimal de {T (t) : t > 0}; então, A é densamente definido e


fechado. Para x ∈ D(A), R+ 3 t 7→ T (t)x ∈ D(A) é continuamente diferenciável e

d
T (t)x = AT (t)x = T (t)Ax, t > 0.
dt

4. Para β dado no Teorema 2.1.3, se Reλ > β então λ ∈ ρ(A) e


Z ∞
−1
(λ − A) x = e−λt T (t)xdt, ∀x ∈ X
0

Demonstração: De 1: A continuidade de t 7→ T (t)x é uma consequência do Teorema


2.1.3 e do fato que, se t > 0 e x ∈ X,

h→0+
kT (t + h)x − T (t)xkX = k(T (h) − I)T (t)xkX −→ 0,
h→0+
kT (t)x − T (t − h)xkX 6 kT (t − h)kL(X) kT (h)x − xkX −→ 0.
2.2 Semigrupos de classe C 0 37

De 2: Mostramos que {t > 0 : kT (t)kL(X) > b} é aberto em [0, ∞) para cada b o que
implica a afirmativa. Mas kT (t0 )kL(X) > b implica que existe x ∈ X com kxkX = 1 tal
que kT (t0 )xk > b. Segue do item 1 que kT (t)xk > b para todo t suficientemente próximo
de t0 , logo kT (t)kL(X) > b para t em uma vizinhança de t0 e o resultado segue.
Z 
1
De 3: Sejam x ∈ X e para  > 0, x =  T (t)x dt; então x → x quando  → 0+ e,
0
para h > 0,
Z +h Z h 
−1 1 h→0+ 1
h (T (h)x − x ) = T (t)x dt − T (t)x dt −→ (T ()x − x).
h  0 

Logo x ∈ D(A). Será uma consequência imediata do item 4 que A é fechado pois
(λ − A)−1 ∈ L(X). Se x ∈ D(A) é claro que

d+ 1
T (t)x = lim+ {T (t + h)x − T (t)x} = AT (t)x = T (t)Ax
dt h→0 h

é contínuo e toda função com derivada a direita contínua é continuamente diferenciável.

De 4: Defina R(λ) ∈ L(X) por


Z ∞
R(λ)x = e−λt T (t)xdt
0

M
e note que kR(λ)kL(X) 6 Reλ−β
, se Reλ > β e kT (t)kL(X) 6 M eβt . Seja x ∈ X e h > 0

T (h)x − x
h−1 (T (h) − I)R(λ)x = R(λ)
Z ∞ h Z ∞ 
−1 −λt+λh −λt
=h e T (t)xdt − e T (t)xdt
h 0 (2.2.1)
 Z h Z ∞ 
−1 λ(h−t) λh −λt
=h − e T (t)xdt + (e − 1)e T (t)xdt
0 0
h→0+
−→ −x + λR(λ)x.

Portanto R(λ)x ∈ D(A) e (λ − A)R(λ)x = x, e λ − A é sobrejetivo. Também, se


x ∈ D(A) então, integrando por partes, R(λ)Ax = λR(λ)x − x = AR(λ)x. Segue que
(λ − A)R(λ)x = x = R(λ)(λ − A)x para todo x ∈ D(A) e λ − A é também injetora.
Logo (λ − A) é uma bijeção de D(A) sobre X com inversa limitada R(λ) e a prova está
completa.
38 Teoria de semigrupos

2.2.1 Iterações de operadores

Definição 2.2.2. Sejam {T (t) : t > 0} um C 0 -semigrupo e A seu gerador infinitesimal.


. .
Defina A0 = I, A1 = A e estando definido Am−1 , definimos

D(Am ) = {x ∈ X : x ∈ D(Am−1 ) e Am−1 x ∈ D(A)},

.
e assim Am x = A(Am−1 x), para todo x ∈ D(Am ).

Proposição 2.2.3. Sejam {T (t) : t > 0} um C 0 -semigrupo e A seu gerador infinitesimal.


Então

1. D(Am ) é um subespaço vetorial de X e Am : D(Am ) ⊂ X → X é um operador


linear.

2. Se x ∈ D(Am ) então T (t)x ∈ D(Am ) para todo t > 0 e

dm
m
T (t)x = Am T (t)x = T (t)Am x.
dt

3. Fórmula de Taylor: se x ∈ D(Am ) e t0 > 0 temos

m−1 t
(t − t0 )k k
Z
X 1
T (t)x = A T (t0 )x + (t − s)m−1 Am T (t0 )xds.
k=0
k! (m − 1)! t0

4. Para cada x ∈ D(Am ) temos


Z t Z t
m
(T (t) − I) x = ··· T (s1 + · · · sm )ds1 · · · dsm .
0 0

5. ∩m>1 D(Am ) é denso em X.

Demonstração: De 1 fica como exercício ao leitor.


De 2: o caso m = 1 é o item 3 do Teorema 2.2.1. Agora suponha por indução que o
resultado seja válido para m e o provemos para m + 1. Para isto, seja x ∈ D(Am+1 ), logo
x ∈ D(Am ) e da hipótese de indução temos T (t)x ∈ D(Am ). Além disso, Am x ∈ D(A) e
assim
Am T (t)x = T (t)Am x ∈ D(A),
2.2 Semigrupos de classe C 0 39

e portanto T (t)x ∈ D(Am+1 ). Finalmente

dm+1 d dm d
m+1
T (t)x = m
T (t)x = T (t)Am x = AT (t)Am x = T (t)Am+1 x.
dt dt dt dt

De 3: Para m = 1, temos
Z t Z t
d
T (t)x − T (t0 )x = T (s)xds = AT (s)xds.
t0 ds t0

O restante da demonstração deste item é feito por indução, e deixado a cargo do leitor.
De 4: Para m = 1, o resultado segue do caso m = 1 do item 3 deste teorema, com
t0 = 0.
Novamente, este item segue por indução e deixamos a demonstração a cargo do leitor.
De 5: Seja φ : R → R uma função em C ∞ (R) com φ(t) = 0 Zem uma vizinhança de

t = 0 e também para t suficientemente grande, seja x ∈ X e f = φ(t)T (t)x dt. Segue
Z ∞ 0

facilmente de h−1 (T (h)f − f ) = h−1 (φ(t − h) − φ(t))T (t)x dt que f ∈ D(A) e que
Z ∞ h

Af = − φ0 (t)T (t)x dt. Como −φ0 satisfaz as mesmas condições que φ,


0

Z ∞
m m
A f = (−1) φ(m) (t)T (t)x dt
0

para todo m ≥ 1 e f ∈ ∩m>1 D(Am ). Para mostrar que tal conjunto de pontos é denso em
R∞ R∞
X, escolha φ acima satisfazendo também 0 φ(t)dt = 1; então se fn = 0 nφ(nt)T (t)xdt =
R∞
0
φ(s)T (s/n)xds, n ∈ N e temos que fn ∈ ∩m>1 D(Am ) e fn → x quando n → ∞.

Exercício 2.2.4. Seja A : D(A) ⊂ X → X um operador fechado, densamente definido e


com 1 ∈ ρ(A).
X
1. D(A2 ) = X

.
2. Ym = (D(Am ), k · km ) é um espaço de Banach, para cada m ∈ N, onde

m
X
kxkm = kAk xkX .
k=0

Y1
3. D(A2 ) = Y1 (Sugestão: tome D(A) 3 fn → Ax ∈ X, xn = (I − A)−1 (x − fn ) e
mostre que xn → x e Axn → Ax).
40 Teoria de semigrupos

Observação 2.2.5. Segue imediatamente do Exercício 2.2.4 que se u : R+ → X é uma


função tal que

(i) u(t) ∈ D(Am ) para cada t ∈ I ⊂ R+ aberto;

(ii) u possui n derivadas e

dk u
∈ D(Am ), para todo t ∈ I e k = 1, · · · , n;
dtk

k
(iii) as funções Aj ddtku , para j = 0, · · · , m e k = 0, · · · , n são contínuas em I;

então u ∈ C n (I, Ym ).

Proposição 2.2.6. Se A é o gerador infinitesimal de um C 0 -semigrupo {T (t) : t > 0}


então para cada x ∈ D(Am ) temos que a aplicação R+ 3 t 7→ T (t)x está em C m−k (R+ , Yk ),
para cada k = 0, · · · , m.

Demonstração: Se x ∈ D(Am ) então x ∈ D(Ak ) e Ak x ∈ D(Am−k ), para cada k =


0, · · · , m. Da Proposição 2.2.3, segue que para 0 6 j 6 m − k

dj
T (t)x = Aj T (t)x = T (t)Aj x,
dtj
dj
e como Aj x ∈ D(Am−j ) segue que dtj
T (t)x ∈ D(Am−j ) ⊂ D(Ak ). Ainda, se i = 0, · · · , k,
temos 0 6 i + j 6 m e assim

dj
Ai T (t)x = Ai+j T (t)x = T (t)Ai+j x,
dtj

que é contínua na variável t. O resultado segue agora da Observação 2.2.5.

2.2.2 Unicidade
Teorema 2.2.7. Sejam {T (t) : t > 0} e {S(t) : t > 0} semigrupos fortemente contínuos
com geradores infinitesimais A e B repectivamente. Se A = B então T (t) = S(t), t > 0.

Demonstração: Seja x ∈ D(A) = D(B). Do Teorema 2.2.1 segue facilmente que a


função s 7→ T (t − s)S(s)x é diferenciável e que

d
T (t − s)S(s)x = −AT (t − s)S(s)x + T (t − s)BS(s)x
ds
= −T (t − s)AS(s)x + T (t − s)BS(s)x = 0.
2.2 Semigrupos de classe C 0 41

Portanto s 7→ T (t − s)S(s)x é constante e em particular seus valores em s = 0 e s = t


são os mesmos, isto é T (t)x = S(t)x. Isto vale para todo x ∈ D(A) e como D(A) é denso
em X e S(t), T (t) são limitados, T (t)x = S(t)x para todo x ∈ X.

2.2.3 Exemplos de semigrupos e geradores infinitesimais


1. O semigrupo das translações

Considere Cu (R) o espaço das funções uniformemente contínuas e limitadas de R em


R. Em Cu (R) defina, para cada t > 0 a seguinte aplicação:

T (t) : Cu (R) → Cu (R)


.
u 7→ T (t)u = u(t + ·)

Considere em Cu (R) a norma uniforme, dada por

.
kuk = sup |u(t)|.
t∈R

É simples verificar que com esta norma, o espaço Cu (R) é um espaço de Banach, e que
para cada t > 0, a aplicação T (t) é um operador linear limitado (unitário) de Cu (R).
Verifiquemos agora que {T (t) : t > 0} é um C 0 -semigrupo em Cu (R).

(i) T (0)u = u(0 + ·) = u, logo T (0) = I em Cu (R).

(ii) T (t)T (s)u = T (t)u(s + ·) = u(t + s + ·) = T (t + s)u, para todo t, s > 0 e u ∈ Cu (R).

(iii) Sejam u ∈ Cu (R) e  > 0. Da continuidade uniforme de u, existe δ > 0 tal que se
0 < t < δ, então sups∈R |u(t + s) − u(s)| < ; isto é, kT (t)u − uk <  para 0 < t < δ
e portanto, para cada u ∈ Cu (R), temos

t→0+
kT (t)u − uk −−−→ 0.

Para completar a análise deste semigrupo, encontremos seu gerador infinitesimal; e


para isto, o denotemos por A : D(A) ⊂ Cu (R) → Cu (R). Se u ∈ D(A) então temos que
T (h)u−u
Au = limh→0+ h
, e tal limite existe (na norma uniforme). Mas

u(h + s) − u(s) d+ u
(Au)(s) = lim+ = (s),
h→0 h dt
42 Teoria de semigrupos

d+ u
onde o limite existe na norma uniforme, portanto dt
existe e é uniformemente contínua.
du
Do Lema 2.1.2, dt
existe e é uniformemente contínua.
du
Reciprocamente, se u ∈ Cu (R) e dt
existe e é uniformemente contínua, do Teorema
do Valor Médio, dado h > 0 existe ξt,h ∈ (t, t + h) tal que

T (h)u(t) − u(t) du du du
− (t) = (ξt,h ) − (t),
h dt dt dt
h→0 du T (h)u−u
e como ξt,h −−→ t, a continuidade uniforme de dt
garante que limh→0+ h
existe
uniformemente; logo u ∈ D(A) e
du
Au = .
dt
du
Portanto D(A) = {u ∈ Cu (R) : dt
existe e é uniformemente contínua} e para u ∈
du
D(A) temos Au = dt
. 

2. Translações de geradores

Sejam {T (t) : t > 0} um C 0 -semigrupo em um espaço de Banach X, A seu gerador


infinitesimal e β ∈ R. Então a família {S(t) : t > 0} dada por

S(t) = eβt T (t), para cada t > 0,

define um C 0 -semigrupo em X e A + βI é o seu gerador infinitesimal.


A demonstração destes fatos é deixada a cargo do leitor. 
Capítulo

3
Geração de semigrupos

3.1 Teorema de Hille-Yosida


Teorema 3.1.1 (Hille-Yosida). Suponha que A : D(A) ⊂ X → X é um operador linear.
Então os fatos seguintes são equivalentes:

(i) A é o gerador infinitesimal de um semigrupo fortemente contínuo {T (t) : t > 0} ⊂


L(X) tal que
kT (t)kL(X) 6 eωt , para todo t > 0;

(ii) A é um operador linear fechado, densamente definido com ρ(A) ⊃ (ω, ∞) e

1
k(λ − A)−1 kL(X) 6 , ∀λ > ω.
λ−ω

Demonstração: Que (i) implica (ii) segue do Teorema 2.2.1, parte 3, em particular:
Z ∞
−1 1
k(λ − A) xkX 6 e−λt kT (t)xkX dt 6 kxkX , se λ > ω.
0 λ−ω
.
Note que T1 (t) = T (t)e−ωt é um semigrupo com kT1 (t)kL(X) 6 1 (chamado semigrupo
de contrações) e o gerador de {T1 (t) : t > 0} é A−ω logo é suficiente tratar o caso ω = 0.
Suponha que (ii) vale com ω = 0. Para λ > 0 temos

kλ(λ − A)−1 kL(X) 6 1, λ(λ − A)−1 = I + A(λ − A)−1 ,


44 Geração de semigrupos

então x ∈ D(A) implica

kλ(λ − A)−1 x − xkX = k(λ − A)−1 AxkX 6 λ−1 kAxkX → 0,

quando λ → ∞ e, como A é densamente definido,

λ(λ − A)−1 x → x, para cada x ∈ X. (3.1.1)

Para cada λ > 0, defina Aλ = λA(λ − A)−1 ∈ L(X). Então,

kAλ kL(X) = λkA(λ − A)−1 kL(X) 6 2λ

e se x ∈ D(A), Aλ x → Ax quando λ → ∞. Aλ é chamada de aproximação de Yosida


do operador A. Obtemos T (t) como o limite de etAλ quando λ → ∞. Primeiro note que
Aλ = λ2 (λ − A)−1 − λI, logo

2 (λ−A)−1 2 k(λ−A)−1 k
ketAλ kL(X) = ke−λt etλ kL(X) 6 e−λt etλ L(X)
61

e para qualquer λ, µ > 0 (e t > 0), uma vez que Aλ Aµ = Aµ Aλ ,


Z 1
tAλ tAµ
d tsA t(1−s)A

ke x−e ds (e
xkX = λ
e µ
x)ds

0 X
Z 1
tsA t(1−s)A
6 t e λ e µ
(Aλ x − Aµ x) X ds
0

6 tkAλ x − Aµ xkX .

.
Portanto para x ∈ D(A), T (t)x = limλ→∞ etAλ x existe uniformemente para 0 6 t 6 t0 ,
qualquer que seja t0 > 0. Assim, [0, ∞) 3 t → T (t)x ∈ X é contínuo para t > 0 e
limt→0+ kT (t)x − xkX = 0 e kT (t)xkX 6 kxkX . Podemos definir de forma única T (t) ∈
L(X) para cada t > 0.
Se x ∈ X, dado  > 0 existem x1 ∈ D(A) e δ > 0 tais que, kx1 − xkX < /3 e
kT (t)x1 − x1 kX < /3, t ∈ [0, δ]. Assim, para todo t ∈ [0, δ],

kT (t)x − xkX 6 kT (t)(x − x1 )kX + kT (t)x1 − x1 kX + kx1 − xkX < .

Isto mostra que limt→0+ kT (t)x − xkX = 0 para todo x ∈ X.


Se x ∈ D(A2 ), então limλ→∞ etAλ x = T (t)x e limλ→∞ etAλ Ax = T (t)Ax. Do fato que A
3.1 Teorema de Hille-Yosida 45

é fechado obtemos que T (t)x ∈ D(A) e AT (t)x = T (t)Ax. Segue da parte 3. do Exercício
2.2.4 que T (t)x ∈ D(A) sempre que t ≥ 0 e x ∈ D(A). Disto obtemos facilmente que
T (t)(T (s)x) = T (t + s)x para todo x ∈ D(A) e t, s > 0. Da densidade de D(A) em X,
obtemos que T (t)(T (s)x) = T (t + s)x, para todo x ∈ X e t, s > 0.
Portanto {T (t) : t > 0} ⊂ L(X) é um semigrupo fortemente contínuo. Só resta provar
que A é o seu gerador.
Seja x ∈ D(A2 ), então
Z t
tAλ
T (t)x − x = lim (e x − x) = lim esAλ Aλ xds
λ→∞ λ→∞ 0
Z t
= T (s)Axds.
0

Tomando limites, a igualdade acima também vale para x ∈ D(A) (isto é feito usando
a parte 3. do Exercício 2.2.4).
Z t
1 1
Agora t (T (t)x − x) = t T (s)Axds → Ax quando t → 0+ , para qualquer x ∈ D(A).
0
Portanto o gerador B de T (t) deve ser uma extensão de A (isto é D(B) ⊃ D(A) e Bx = Ax
quando x ∈ D(A)). Mas, por hipótese, 1 ∈ ρ(A) e, do fato que B é o gerador de um
semigrupo fortemente contínuo de contrações, 1 ∈ ρ(B). Logo

X = (I − A)D(A) = (I − B)D(A),

então (I − B)D(A) = X = (I − B)D(B), D(A) = R((I − B)−1 ) = D(B), e segue que


A = B e a prova está completa.

Ambas as condições (i) e (ii) dependem da escolha da norma em X. Daremos uma


formulação independente da norma, mas na prática devemos usualmente procurar normas
especiais para a qual o Teorema 3.1.1 se aplica.

Lema 3.1.2. Suponha que A é um operador linear fechado cujo conjunto resolvente con-
tém (0, ∞) e que satisfaz

k(λ − A)−n kL(X) 6 M λ−n , n > 1, λ > 0.

Então existe uma norma | · |X em X tal que

kxkX 6 |x|X 6 M kxkX , ∀x ∈ X


46 Geração de semigrupos

e
|(λ − A)−1 x|X 6 λ−1 |x|X , ∀x ∈ X, λ > 0.

Demonstração: Se µ > 0 e |µ − λ| < µ então


X
(λ − A)−1 = (λ − µ + (µ − A))−1 = (µ − λ)k (µ − A)−k−1
k=0

|µ − λ|
A série converge pois <1e
µ

|µ − λ|k
k(µ − λ)k (µ − A)−k−1 kL(X) 6 M .
µk+1

Isto vale, em particular, para 0 < λ < µ e como esta é uma série de potências
 p
1 d
(λ − A)−1 = (−1)p (λ − A)−p−1
p! dλ

X k!(µ − λ)k−p
= (−1)p (µ − A)−k−1 ,
k=p
p!(k − p)!

então

!
X k
(λ − A)−p−1 = (µ − λ)k−p (µ − A)−k−1 (3.1.2)
k=p p

e0<λ<µ


! k−p  p+1
−p−1
X k µ−λ λ
p+1
kλ (λ − A) xkX 6 kµk+1 (µ − A)−k−1 xkX .
k=p p µ µ

Defina kxkµ = supn>0 kµn (µ − A)−n xkX para µ > 0, então kxkX 6 kxkµ 6 M kxkX e
para 0 < λ < µ, kxkλ 6 kxkµ pois, para todo p ∈ N,


! k−p  p+1
p+1 −p−1
X k µ−λ λ
kλ (λ − A) xkX 6 kxkµ = kxkµ
k=p p µ µ

onde, na última igualdade, utilizamos (3.1.2) com A = 0. Como λ 7→ kxkλ é crescente e


limitada superiormente, seja

|x|X = lim kxkλ = sup kxkλ ,


λ→∞ λ>0
3.1 Teorema de Hille-Yosida 47

que é é uma norma em X.


Então kxkX 6 |x|X 6 M kxkX e para 0 < λ < µ

kµp (µ − A)−p λ(λ − A)−1 xkX = kλ(λ − A)−1 µp (µ − A)−p xkX


6 kµp (µ − A)−p xkλ
6 kµp (µ − A)−p xkµ 6 kxkµ 6 |x|X

então kλ(λ − A)−1 xkµ 6 |x|X e |λ(λ − A)−1 x|X 6 |x|X .

Teorema 3.1.3 (Forma Geral do Teorema de Hille-Yosida). Seja A : D(A) ⊂ X → X


um operador linear. As seguintes afirmativas são equivalentes

(i) A é o gerador infinitesimal de um semigrupo fortemente contínuo {T (t) : t > 0} ⊂


L(X) tal que
kT (t)kL(X) 6 M eωt , ∀t > 0;

(ii) A é fechado, densamente definido, o conjunto resolvente de A contém (ω, ∞) e

k(λ − A)−n kL(X) 6 M (λ − ω)−n , ∀λ > ω, n = 1, 2, · · · .

Demonstração: Considerando e−ωt T (t) e A − ω podemos supor sem perda de genera-


lidade que ω = 0. Suponha (i), da parte 5. do Teorema 2.2.1, qualquer λ > 0 está no
conjunto resolvente de A e
Z ∞
−1
(λ − A) x = e−λt T (t)xdt
0

e derivando, temos Z ∞
−p−1 1
(λ − A) x= e−λt tp T (t)xdt
p! 0
Z ∞
logo k(λ − A)−p−1 xkX 6 1
p!
e−λt tp dt M kxkX = λ−p−1 M kxkX para p = 0, 1, 2, · · · .
0
Agora suponha que (ii) vale (com ω = 0). Pelo Lema 3.1.2, podemos escolher uma
norma equivalente |·|X para X, tal que kxkX 6 |x|X 6 M kxkX e |(λ−A)−1 x|X 6 λ−1 |x|X
para λ > 0. Portanto o Teorema 3.1.1 (Teorema de Hille-Yosida) se aplica e A gera um
semigrupo fortemente contínuo {T (t) : t > 0} com |T (t)x|X 6 |x|X donde conluímos que

kT (t)xkX 6 |T (t)x|X 6 |x|X 6 M kxkX .


48 Geração de semigrupos

Teorema 3.1.4. Seja X um espaço de Banach reflexivo e {T (t) : t > 0} um C 0 -semigrupo


com gerador infinitesimal A. Então, definindo {T ∗ (t) : t > 0} por T ∗ (t) = T (t)∗ , para
t > 0, em L(X ∗ ), então {T ∗ (t) : t > 0} é um C 0 -semigrupo e A∗ seu gerador infinitesimal.

Demonstração: Como, por hipótese, X é um espaço de Banach reflexivo e A é fechado


e densamente definido, A∗ é também fechado e densamente definido. Além disso, se
λ ∈ ρ(A) então λ ∈ ρ(A∗ ) e ((λ − A)−1 )∗ = (λ − A∗ )−1 .
Como A é o gerador infinitesimal de um C 0 -semigrupo, existem constantes ω ∈ R e
M > 1 tais que se (ω, ∞) ⊂ ρ(A) e

M
k(λ − A)−n kL(X) 6 , para todo λ > ω e n ∈ N.
(λ − ω)n

Assim, (ω, ∞) ⊂ ρ(A∗ ) e

M
k(λ − A∗ )−n kL(X ∗ ) = k(λ − A)−n kL(X) 6 , para todo λ > ω e n ∈ N,
(λ − ω)n

e portanto A∗ é o gerador infinitesimal de um C 0 -semigrupo {T ∗ (t) : t > 0} em X ∗ . Mas,


para cada x∗ ∈ X ∗ , temos

∗ ∗
T ∗ (t)x∗ = lim eAλ t x∗ = lim eAλ t x∗ = T (t)∗ x∗ .
λ→∞ λ→∞

Corolário 3.1.5. Um C 0 -semigrupo {T (t) : t > 0} é auto-adjunto; isto é T (t)∗ = T (t)


para todo t > 0, se, e somente se, A é um operador auto-adjunto.

3.2 Operadores dissipativos


Definição 3.2.1. Seja X um espaço de Banach sobre K. A aplicação dualidade J : X →

2X é uma função multívoca definida por

J(x) = {x∗ ∈ X ∗ : Rehx, x∗ i = kxk2X , kx∗ kX ∗ = kxkX }.

Sabemos que J(x) 6= ∅ pelo Teorema de Hahn-Banach.

Definição 3.2.2. Um operador linear A : D(A) ⊂ X → X é dissipativo se para cada


x ∈ D(A) existe x∗ ∈ J(x) tal que Re hAx, x∗ i 6 0.
3.2 Operadores dissipativos 49

Exercício 3.2.3. Mostre que se X ∗ é uniformemente convexo e x ∈ X, então J(x) é


unitário.

Lema 3.2.4. O operador linear A é dissipativo se, e somente se,

k(λ − A)xkX > λkxkX , para todo x ∈ D(A) e λ > 0. (3.2.1)

Demonstração: Se A é dissipativo, λ > 0, x ∈ D(A), x∗ ∈ J(x) e RehAx, x∗ i 6 0,

kλx − AxkX kxkX > |hλx − Ax, x∗ i| > Rehλx − Ax, x∗ i > λkxk2X

e (3.2.1) segue. Reciprocamente, dado x ∈ D(A) suponha que (3.2.1) vale para todo
λ > 0. Se yλ∗ ∈ J((λ − A)x) e gλ∗ = yλ∗ /kyλ∗ kX ∗ temos

λkxkX 6 kλx − AxkX = hλx − Ax, gλ∗ i = λRehx, gλ∗ i − RehAx, gλ∗ i
(3.2.2)
6 λkxkX − RehAx, gλ∗ i

Como a bola unitária de X ∗ é compacta na topologia fraca∗ temos que existe g ∗ ∈ X ∗


com kg ∗ kX ∗ 6 1 tal que g ∗ é um ponto limite da sequência {gn∗ }. De (3.2.2) segue
que RehAx, g ∗ i 6 0 e Rehx, g ∗ i > kxkX . Mas Rehx, g ∗ i 6 |hx, g ∗ i| 6 kxkX e portanto
Rehx, g ∗ i = kxkX . Tomando x∗ = kxkX g ∗ temos x∗ ∈ J(x) e RehAx, x∗ i 6 0. Portanto,
para todo x ∈ D(A) existe x∗ ∈ J(x) tal que RehAx, x∗ i 6 0 e A é dissipativo.

Teorema 3.2.5 (Lumer). Suponha que A é um operador linear em um espaço de Banach


X. Se A é dissipativo e Im(λ0 − A) = X para algum λ0 > 0, então A é fechado,
ρ(A) ⊃ (0, ∞) e
kλ(λ − A)−1 kL(X) 6 1, para todo λ > 0.

Demonstração: Se λ > 0 e x ∈ D(A), do Lema 3.2.4 temos que

k(λ − A)xkX > λkxkX .

Agora Im(λ0 − A) = X, k(λ0 − A)xkX > λ0 kxkX para x ∈ D(A), logo λ0 está no
conjunto resolvente de A e A é fechado.
Seja Λ = ρ(A) ∩ (0, ∞). Λ é um conjunto aberto em (0, ∞) já que ρ(A) é aberto,
provaremos que Λ é também fechado em (0, ∞) para concluir que Λ = (0, ∞). Suponha
que {λn }∞
n=1 ⊂ Λ, λn → λ > 0, se n é suficientemente grande temos que |λn − λ| 6 λ/3
então, para n grande, k(λ−λn )(λn −A)−1 kL(X) 6 |λn −λ|λ−1
n 6 1/2 e I +(λ−λn )(λn −A)
−1
50 Geração de semigrupos

é um isomorfismo de X. Então

λ − A = I + (λ − λn )(λn − A)−1 (λn − A)



(3.2.3)

leva D(A) sobre X e λ ∈ ρ(A), como queríamos.

Corolário 3.2.6. Seja A um operador linear fechado e densamente definido. Se ambos


A e A∗ são dissipativos, então ρ(A) ⊃ (0, ∞) e

kλ(λ − A)−1 kL(X) 6 1, para todo λ > 0.

Demonstração: Pelo Teorema 3.2.5 é suficiente provar que Im(I − A) = X. Como A


é dissipativo e fechado, Im(I − A) é um subespaço fechado de X. Seja x∗ ∈ X ∗ , tal que
h(I − A)x, x∗ i = 0 para todo x ∈ D(A). Isto implica que x∗ ∈ D(A∗ ) e (I ∗ − A∗ )x∗ = 0.
Como A∗ é também dissipativo segue do Lema 3.2.4 que x∗ = 0. Segue que Im(I − A) é
densa em X e, como Im(I − A) é fechada, Im(I − A) = X.
Faremos agora alguma propriedades de operadores dissipativos.

Teorema 3.2.7. Seja A um operador dissipativo em X.

(a) Se para algum λ0 > 0, Im(λ0 − A) = X então Im(λ − A) = X para todo λ > 0.

(b) Se A é fechável então seu fecho A é também dissipativo.

(c) Se D(A) = X então A é fechável.

Demonstração: A parte (a) segue do Teorema de Lumer. Para provar (b), seja x ∈
D(A), y = Ax. Então existe uma sequência {xn }n∈N ⊂ D(A) tal que xn → x e Axn →
y = Ax. Do Teorema 3.2.4 segue que kλxn − Axn kX > λkxn kX para λ > 0 e fazendo
n → ∞ temos
kλx − AxkX > λkxkX , para todo λ > 0.

Como a desigualdade acima para todo x ∈ D(A), A é dissipativo pelo Teorema 3.2.4.
Para provar (c) assuma que A não é fechável. Então existe uma sequência {xn }n∈N tal
que xn ∈ D(A), xn → 0 and Axn → y com kykX = 1. Do Teorema 3.2.4, segue que para
todo t > 0 e x ∈ D(A)

1 1 1
(x + xn ) − tA(x + xn ) > x + xn .
t t
X
t X
3.2 Operadores dissipativos 51

Fazendo n → ∞ e então fazendo t → 0 temos kx − ykX > kxkX para todo x ∈ D(A).
Mas isto é impossível de acontecer se D(A) é denso em X e portanto A é fechável.

Teorema 3.2.8. Seja A dissipativo com Im(I − A) = X. Se X é reflexivo então D(A) =


X.

Demonstração: Seja x∗ ∈ X ∗ tal que hx, x∗ i = 0 para todo x ∈ D(A). Mostraremos


que x∗ = 0. Como Im(I − A) = X é suficiente mostrar que hx − Ax, x∗ i = 0 para todo
x ∈ D(A) o que é equivalente a hAx, x∗ i = 0 para todo x ∈ D(A). Seja x ∈ D(A)
então, pelo Teorema 3.2.7, parte (a), existe um xn tal que x = xn − (1/n)Axn . Como
Axn = n(xn −x) ∈ D(A), xn ∈ D(A2 ) e Ax = Axn −(1/n)A2 xn ou (I −(1/n)A)Axn = Ax.
Do Lema 3.2.4 segue que kAxn kX 6 kAxkX . Assim, kxn − xkX 6 (1/n)kAxn kX 6
n→∞
(1/n)kAxkX e xn −→ x. Como X é reflexivo, existe uma subsequência Axnk de Axn tal
w
que Axnk −→ f quando k → ∞. Segue do fato que A é fechado que f = Ax. Finalmente,
como hy, x∗ i = 0 para todo y ∈ D(A), temos

hAxnk , x∗ i = nk hxnk − x, x∗ i = 0. (3.2.4)

Fazendo nk → ∞ em (3.2.4) temos hAx, x∗ i = 0. Isto vale para x ∈ D(A) e portanto


x∗ = 0 e D(A) = X.

Em muitos exemplos, a técnica utilizada para obter estimativas para o operador re-
solvente de um operador dado, bem como localizar o seu espectro, é a determinação de
sua imagem numérica (definida a seguir).
Se A é um operador linear em um espaço de Banach complexo X a sua imagem
numérica W (A) é o conjunto

W (A) := {hAx, x∗ i: x ∈ D(A), x∗ ∈ X ∗ , kxkX = kx∗ kX ∗ = hx, x∗ i = 1}. (3.2.5)

No caso em que X é um espaço de Hilbert

W (A) = {hAx, xi : x ∈ D(A), kxk = 1}.

Teorema 3.2.9. Seja A : D(A) ⊂ X → X um operador fechado densamente definido.


Seja W (A) a imagem numérica de A.
52 Geração de semigrupos

1. Se λ ∈
/ W (A) então λ − A é injetora e tem imagem fechada e satisfaz

k(λ − A)xkX > d(λ, W (A))kxkX . (3.2.6)

onde d(λ, W (A)) é a distância de λ a W (A). Além disso, se λ ∈ ρ(A),

1
k(λ − A)−1 kL(X) 6 . (3.2.7)
d(λ, W (A))

2. Se Σ é um subconjunto aberto e conexo em C\W (A) e ρ(A)∩Σ 6= ∅, então ρ(A) ⊃ Σ


e (3.2.7) está satisfeita para todo λ ∈ Σ.

/ W (A). Se x ∈ D(A), kxkX = 1, x∗ ∈ X ∗ , kx∗ kX ∗ = 1 e


Demonstração: Seja λ ∈
hx, x∗ i = 1 então

0 < d(λ, W (A)) ≤ |λ − hAx, x∗ i| = |hλx − Ax, x∗ i| 6 kλx − AxkX (3.2.8)

e portanto λ−A é injetora, tem imagem fechada e satisfaz (3.2.6). Se além disso λ ∈ ρ(A)
então (3.2.8) implica (3.2.7).
Resta mostrar que se Σ intercepta ρ(A) então ρ(A) ⊃ Σ. Para este fim considere o
conjunto ρ(A) ∩ Σ. Este conjunto é obviamente aberto em Σ. Mas também é fechado já
que λn ∈ ρ(A) ∩ Σ e λn → λ ∈ Σ implica que para n suficientemente grande |λ − λn | <
d(λn , W (A)). Disto e de (3.2.7) segue que para n grande, |λ − λn | k(λn − A)−1 kL(X) < 1
e, como na prova do Teorema 1.1.11, temos que λ ∈ ρ(A) e portanto ρ(A) ∩ Σ é fechado
em Σ. Segue que ρ(A) ∩ Σ = Σ ou seja ρ(A) ⊃ Σ, como queríamos.

Exemplo 3.2.10. Seja H um espaço de Hilbert sobre K e A : D(A) ⊂ H → H um


operador auto-adjunto. Segue que A é fechado e densamente definido. Se A é limitado
superiormente; isto é, hAu, ui 6 ahu, ui para algum a ∈ R, então C\(−∞, a] ⊂ ρ(A), e

M
k(A − λ)−1 kL(X) 6 ,
|λ − a|

para alguma constante M > 1 dependendo somente de ϕ e para todo λ ∈ Σa,ϕ = {λ ∈ C :


|arg(λ − a)| < ϕ}, ϕ < π.
Demonstração: Vamos começar localizando a imagem numérica de A. Primeiramente
note que
W (A) = {hAx, xi : x ∈ D(A), kxk = 1} ⊂ (−∞, a].
3.3 Teorema de Lumer-Phillips 53

Note que A − a = A∗ − a são dissipativos e portanto, do Corolário 3.2.6, ρ(A − a) ⊃


(0, ∞). Do Teorema 3.2.9 temos que C\(−∞, a] ⊂ ρ(A) e que

1 1
k(λ − A)−1 kL(X) 6 6 .
d(λ, W (A)) d(λ, (−∞, a])

Além disso, se λ ∈ Σa,ϕ temos que

1 1 1

d(λ, (−∞, a]) sin ϕ |λ − a|

e o resultado segue.

Exercício 3.2.11. Seja X um espaço de Banach tal que X ∗ é estritamente convexo


e A : D(A) ⊂ X → X um operador fechado, densamente definido e dissipativo. Se
Im(I − A) = X, mostre que ρ(A) ⊃ {λ ∈ C : Reλ > 0} e que

1
k(λ − A)−1 kL(X) 6 , para todo λ ∈ Σ0, π2 .
Reλ

3.3 Teorema de Lumer-Phillips


Teorema 3.3.1 (Lumer-Phillips). Suponha que A : D(A) ⊂ X → X é um operador
linear em um espaço de Banach X.

(i) Se A é o gerador infinitesimal de um C 0 -semigrupo de contrações, então A é fechado,


densamente definido, dissipativo (veja Definição 3.2.1) e Im(λ − A) = X para todo
λ > 0. De fato, Re hAx, x∗ i 6 0 para todo x∗ ∈ J(x).

(ii) Se A é dissipativo, D(A) = X e Im(λ0 − A) = X para algum λ0 > 0, então A é o


gerador de um C 0 -semigrupo de contrações.

Demonstração: (i) Do Teorema de Hille-Yosida, se A gera um semigrupo fortemente


contínuo {T (t) : t > 0} com kT (t)kL(X) 6 1 para todo t > 0, então Im(λ − A) = X para
todo λ > 0 e para qualquer x ∈ X, x∗ ∈ J(x), t > 0,

|hT (t)x, x∗ i| 6 kx∗ kX ∗ kT (t)xkX 6 kxk2X

então,  
T (t)x − x ∗ 1
Re hT (t)x, x∗ i − kxk2X 6 0.

Re ,x =
t t
54 Geração de semigrupos

Portanto se x ∈ D(A), Re hAx, x∗ i 6 0.


(ii) Do Teorema 3.2.5, todas as hipóteses do Teorema 3.1.1 (Teorema de Hille-Yosida)
(ii) estão verificadas e a prova está completa.

O seguinte resultado é uma conseqüência imediata do Corolário 3.2.6 e do Teorema


3.3.1 (Teorema de Lumer-Phillips).

Corolário 3.3.2. Seja A um operador linear fechado e densamente definido. Se ambos


A e A∗ são dissipativos, então A é o gerador infinitesimal de um semigrupo fortemente
contínuo de contrações em X.

Exemplo 3.3.3. Seja H um espaço de Hilbert e A : D(A) ⊂ H → H um operador auto-


adjunto (consequentemente, A é fechado e densamente definido). Suponha que A seja
limitado superiormente; isto é, que exista uma constante a ∈ R tal que hAu, ui 6 ahu, ui.
Então C\(−∞, a] ⊂ ρ(A), e existe uma constante M > 1 dependendo somente de ϕ tal
que
M
k(λ − A)−1 kL(H) 6 ,
|λ − a|
para todo λ ∈ Σa = {λ ∈ C : |arg(λ − a)| ≤ ϕ}, ϕ < π. Segue que A é o gerador de um
semigrupo fortemente contínuo {T (t) : t > 0} satisfazendo

kT (t)kL(H) 6 ea t .

Na verdade {T (t) : t > 0} é um semigrupo analítico como mostraremos posteriormente.

Demonstração: Note que A − aI = A∗ − aI são dissipativos e portanto, do Corolário


3.3.2, A − aI gera um semigrupo fortemente contínuo de contrações. Do Exemplo 3.2.10,
segue que

1 1 1
k(λ − A)−1 kL(X) 6 6 , para todo λ ∈ Σa ,
d(λ, (−∞, a]) sin ϕ |λ − a|

e o resultado segue.
Capítulo

4
Grupos de operadores lineares

Além de semigrupos de operadores lineares, algumas equações nos fornecem grupos de


operadores lineares. Um exemplo simples é quando o gerador infinitesimal do semigrupo é
um operador A limitados, e vimos que neste caso temos de fato um grupo de operadores.
Vamos estudar mais profundamente este conceito, e encontrar condições para que um
operador linear não-limitado A : D(A) ⊂ X → X gere um grupo de operadores lineares.

Definição 4.0.4. Seja X um espaço de Banach. Diremos que {T (t) : t ∈ R} ⊂ L(X) é


um grupo de operadores lineares limitados se

(i) T (0) = I

(ii) T (t + s) = T (t)T (s), para todo t, s ∈ R


Se, além disso,
→0
(iii) kT (t)x − xkX −→ 0, para todo x ∈ X,
diremos que {T (t) : t ∈ R} ⊂ L(X) é um grupo fortemente contínuo, ou um
C 0 -grupo, de operadores lineares limitados.

É claro que, se {T (t) : t ∈ R} ⊂ L(X) é um grupo de operadores lineares limitados,


então para cada t ∈ R, 0 ∈ ρ(T (t)) e T (−t) = T (t)−1 .

Exercício 4.0.5. Seja

X = {u ∈ C(R, K) : u é limitada e uniformemente contínua }

com a norma kukX = sup |u(x)|. Defina (T (t)u)(x) = u(t+x) para t > 0, x ∈ R e u ∈ X.
x∈R
56 Grupos de operadores lineares

1. Mostre que {T (t) : t > 0} ⊂ L(X) é um semigrupo fortemente contínuo de contra-


ções,

2. Mostre que podemos definir um grupo fortemente contínuo {T (t) : t ∈ R} ⊂ L(X)


com T (−t) = T (t)−1 para todo t ∈ R.

3. Mostre que {T (t) : t > 0} ⊂ L(X) não é um semigrupo uniformemente contínuo,

4.. Calcule o gerador infinitesimal de {T (t) : t > 0} ⊂ L(X),

Para o caso de grupos de operadores lineares também podemos definir o seu gerador
infinitesimal, da seguinte maneira:

Definição 4.0.6. O gerador infinitesimal de um grupo {T (t) : t ∈ R} de operadores


lineares é definido por
 
T (h)x − x
D(A) = x ∈ X : lim existe ,
h→0 h

T (h)x − x
Ax = lim , para todo x ∈ D(A).
h→0 h
Proposição 4.0.7. Temos que A é o gerador infinitesimal de um C 0 -grupo de operadores
lineares limitados se, e somente se, A e −A são geradores infinitesimais de C 0 -semigrupos.

Demonstração: Seja A o gerador infinitesimal de um C 0 -grupo {T (t) : t ∈ R}.


A restrição de {T (t) : t ∈ R} ao conjunto R+ , {T (t) : t > 0}, é claramente um C 0 -
semigrupo, e o mesmo ocorre com o a família {T− (t) : t > 0}, dada por T− (t) = T (−t),
para cada t > 0.

Afirmação 1: O gerador infinitesimal de {T (t) : t > 0} é A.


De fato, denote por A+ o gerador infinitesimal de {T (t) : t > 0}. Se x ∈ D(A) então
T (h)x−x
existe limh→0 h
e assim

T (h)x − x T (h)x − x
Ax = lim = lim+ ,
h→0 h h→0 h
T (h)x−x
portanto limh→0+ h
existe, logo x ∈ D(A+ ) e

T (h)x − x
A+ x = lim+ = Ax.
h→0 h
57

T (h)x−x
Agora, se x ∈ D(A+ ) então A+ x = limh→0+ h
existe. Mas

T (−h)x − x T (h)x − x
lim+ = lim+ T− (h) = A+ x,
h→0 −h h→0 h

pois {T− (t) : t > 0} é um C 0 -semigrupo. Deste modo, concluímos que

T (h)x − x
lim = A+ x.
h→0 h

Portanto x ∈ D(A) e Ax = A+ x. Desta maneira, provamos que A = A+ , como afirmamos.


Analogamente se mostra que o gerador infinitesimal de {T− (t) : t > 0} é −A.
Reciprocamente, vamos assumir que A e −A sejam geradores de C 0 -semigrupos {T (t) : t >
0} e {T− (t) : t > 0}, respectivamente.
Da demonstração do Teorema 3.1.1, temos para cada t > 0 que

T (t)x = lim eAλ t x,


λ→∞

T− (t)x = lim e(−A)λ t x.


λ→∞

o que nos mostra que T (t) comuta com T− (t) e definindo S(t) = T (t)T− (t), temos que
{S(t) : t > 0} é um semigrupo.

Afirmação 2: {S(t) : t ∈ R} é um C 0 -semigrupo. Como {T (t) : t > 0} é um C 0 -semigrupo,


kT (t)kL(X) é limitado uniformemente para t em intervalos limitados de R+ . Assim,

kS(t)x − xkX 6 kT (t)T− (t)x − T (t)xkX + kT (t)x − xkX


kT (t)kL(X) kT− (t)x − xkX + kT (t)x − xkX → 0, quando t → 0+ ,

o que prova a nossa afirmação.


Além disso, segue que se x ∈ D(A) = D(−A), temos

S(t)x − x T− (h)x − x T (h)x − x


lim+ = lim+ T (h) + lim+ = −Ax + Ax = 0.
h→0 h h→0 h h→0 h

Isto implica que se B é o gerador infinitesimal de {S(t) : t > 0}, então D(A) ⊂ D(B) e
Bx = 0 para todo x ∈ D(A). Como D(A) é denso em X, D(A) é denso em D(B) e como
B é fechado, segue que D(B) = X e Bx = 0 para todo x ∈ X. Portanto S(t) = I para
todo t > 0 e desta maneira T− (t) = T (t)−1 , para todo t > 0, o que nos permite definir
.
T (−t) = T− (t) para cada t > 0.
58 Grupos de operadores lineares

Afirmação 2: {T (t) : t ∈ R} é um C 0 -grupo.


Claramente T (0) = I, por definição. Agora, temos:

(a) se t, s > 0:
T (t + s) = T (t)T (s);

(b) se t, s < 0:
T (t + s) = T− (−t − s) = T− (−t)T− (−s) = T (t)T (s);

(c) se t > 0, s < 0 e t + s > 0:

T (t + s) = T (t + s)T (−s)T− (−s) = T (t)T− (−s) = T (t)T (s);

(d) se t > 0, s < 0 e t + s < 0:

T (t + s) = T− (−t − s) = T (t)T− (t)T− (−t − s) = T (t)T− (−s) = T (t)T (s).

Assim, a propriedade (ii) da Definição 4.0.4 está satisfeita. Além disso

lim kT (t)x − xkX = 0


t→0+

e
lim kT (h)x − xkX − lim + kT− (−h)x − xkx = 0,
t→0− −h→0

o que prova a afirmação.


A demonstração que A é o gerador infinitesimal de {T (t) : t ∈ R} é deixada a cargo
do leitor, e com todas estas considerações, o resultado está provado.

Proposição 4.0.8. Seja {T (t) : t > 0} um C 0 -semigrupo. Se, para algum t0 > 0, T (t0 )−1
existe e T (t0 )−1 ∈ L(X), então T (t)−1 existe e está em L(X) para todo t > 0.

Demonstração: Como T (t0 )−1 ∈ L(X), segue que T (t0 ) é injetiva e sobrejetiva. Da
injetividade de T (t0 ) segue a injetividade de T (nt0 ) = T (t0 )n . Dado t > 0 seja n ∈ N tal
que nt0 > t. Assim se T (t)x = 0 temos

T (nt0 )x = T (nt0 − t)T (t)x = 0,

o que implica que x = 0 e logo T (t)x é injetiva, para cada t > 0.


4.1 Teorema de Hille-Yosida para grupos 59

Da sobrejetividade de T (t0 ), segue que T (nt0 ) = T (t0 )n e portanto T (nt0 ) é sobrejetiva.


Se t > 0, escolha n ∈ N tal que nt0 > t e temos

T (nt0 ) = T (t)T (nt0 − t),

o que mostra que ImT (t) ⊃ ImT (nt0 ) = X e portanto T (t) é sobrejetiva para todo t > 0.
Portanto, do Teorema do Gráfico Fechado, segue que T (t)−1 ∈ L(X), para cada t > 0.
Proposição 4.0.9. Seja {T (t) : t > 0} um C 0 -semigrupo com A seu gerador infinitesimal.
Se, para algum t0 > 0, T (t0 )−1 existe e está em L(X) então A é o gerador infinitesimal
de um C 0 -grupo.
Demonstração: Pela proposição anterior, T (t) tem inversa em L(X) para todo t > 0.
.
Definindo S(t) = T (t)−1 para cada t > 0, não é difícil mostrar que {S(t) : t > 0} define
um C 0 -semigrupo. Agora, seja x ∈ D(A) e temos
 
S(h)x − x T (h)x − x T (h)x − x
+ Ax = −S(h) + Ax = −S(h) − T (h)Ax → 0,
h h h

as h → 0+ . Assim, se B é o gerador infinitesimal de {S(t) : t > 0}, temos que D(A) ⊂


D(B) e Bx = −Ax. Analogamente, mostramos que D(B) ⊂ D(A) e Ax = −Bx e
portanto segue que B = −A, e assim −A é o gerador infinitesimal de um C 0 -semigrupo,
o que implica que A é o gerador de um C 0 -grupo, pela Proposição 4.0.7.
Claramente vemos na demonstração acima que o grupo {R(t) : t ∈ R} gerado por A é
dado por 
 T (t), para t > 0,
R(t) =
 T (−t)−1 para t < 0.

4.1 Teorema de Hille-Yosida para grupos


Teorema 4.1.1. O operador A é o gerador infinitesimal de um C 0 -grupo se, e somente
se, A é fechado, densamente definido e existam constantes reais M e ω tais que se λ é
real e |λ| > ω, então λ ∈ ρ(A) e

M
k(λ − A)−n kL(X) 6 , para todo n ∈ N. (4.1.1)
(|λ| − ω)n

Demonstração: Seja A o gerador infinitesimal de um C 0 -grupo {T (t) : t ∈ R}. Da Pro-


posição 4.0.7, sabemos que A e −A são geradores infinitesimais de C 0 -semigrupos. Conse-
60 Grupos de operadores lineares

quentemente, A é fechado, densamente definido e existem constantes reais M1 , M2 , ω1 , ω2


tais que se λ > w1 então λ ∈ ρ(A) e

M1
k(λ − A)−1 kL(X) 6
(|λ| − w1 )n

e se λ > w2 então λ ∈ ρ(−A) e

M2
k(λ + A)−1 kL(X) 6 .
(|λ| − w2 )n

Sejam ω = max{ω1 , ω2 }, M = max{M1 , M2 } e |λ| > ω. Então, se λ > ω então


λ ∈ ρ(A) e
M
k(λ − A)−n kL(X) 6 , (4.1.2)
(λ − ω)n
e se −λ > ω então −λ ∈ ρ(−A) e portanto λ ∈ ρ(A) e assim

M
k(λ − A)−n kL(X) = k(−λ + A)−n kL(X) 6 ,
(|λ| − ω)n

o que mostra a limitação desejada.


Reciprocamente, se A é fechado e densamente definido, com (4.1.1) satisfeita. Para
λ > |ω| temos |λ| > ω e assim λ ∈ ρ(A) e

M M
k(λ − A)−n kL(X) 6 6 ,
(λ − ω)n (λ − |ω|)n

e portanto A é o gerador infinitesimal de um C 0 -semigrupo, pelo Teorema de Hille-Yosida.


Agora, se λ > |ω| então | − λ| > ω e assim −λ ∈ ρ(A), o que implica que λ ∈ ρ(−A) e

M M
k(λ − A)−n kL(X) = k(−λ + A)−n kL(X) 6 6 ,
(λ − ω)n (λ − |ω|)n

e assim, −A é o gerador infinitesimal de um C 0 -semigrupo, pelo Teorema de Hille-Yosida.

4.2 Teorema de Stone


Nesta seção, consideraremos H um espaço de Hilbert, com norma k · kH , induzida pelo
produto interno (·, ·)H .
4.2 Teorema de Stone 61

Definição 4.2.1. Um grupo {T (t) : t ∈ R} de operadores lineares num espaço de Hilbert


H é dito unitário se T ∗ (t) = T (t)−1 , para todo t > 0.

Se {T (t) : t ∈ R} é um semigrupo unitário, vemos que kT (t)vkH = kvkH , já que

kT (t)vk2H = (T (t)v, T (t)v)H = (v, T ∗ (t)T (t)v)X = (v, v)H = kvk2H .

Teorema 4.2.2 (Teorema de Stone). Um operador linear A em um espaço de Hilbert H


é o gerador infinitesimal de um C 0 -grupo unitário se, e somente se, A∗ = −A.

Demonstração: Seja A o gerador infinitesimal de um C 0 -grupo unitário {T (t) : t ∈ R}.


Da Proposição 4.0.7, A é o gerador de um C 0 -semigrupo {T (t) : t > 0} e −A é o gerador do
C 0 -semigrupo {T− (t) : t > 0}. Pelo Teorema 3.1.4 é o gerador infinitesimal de {T (t)∗ : t >
0}. Assim segue que
T (t)∗ = T (t)−1 = T (−t) = T− (t),

e assim
T (t)∗ v − v T− (t)v − v
= ,
h h
o que implica que D(A∗ ) = D(A) e A∗ v = −Av, para todo v ∈ D(A). Portanto A∗ = −A.
Reciprocamente, assuma que A∗ = −A. Da existência de A∗ segue que D(A) é denso
em X. Para todo v ∈ D(A) temos

(Av, v)H = (v, A∗ v)H = −(v, Av)H = −(Av, v)H ,

logo Re(Av, v) = 0. Portanto A e −A = A∗ são dissipativos e do Corolário 3.3.2 segue que


A e −A geram C 0 -semigrupos, e portanto A gera um C 0 -grupo {T (t) : t > 0}. Resta-nos
apenas mostrar que este grupo é unitário. Mas se {T ∗ (t) : t > 0} é o semigrupo gerado
por A∗ = −A então T (t)∗ = T ∗ (t) = T (−t) = T (t)−1 . Logo (T (t)−1 )∗ = T (t)∗∗ = T (t), o
que implica que T (t)∗ = T (t)−1 .

Observação 4.2.3. Verifique que −A = A∗ se, e somente se, iA é auto-adjunto. Logo,


A gera um C 0 -grupo unitário se, e somente se, iA é auto-adjunto.
62 Grupos de operadores lineares
Capítulo

5
Regularidade

5.1 Semigrupos diferenciáveis


Sabemos que se A : D(A) ⊂ X → X é o gerador infinitesimal de um C 0 -semigrupo
{T (t) : t > 0} e x ∈ D(A), então T (t)x ∈ D(A), para cada t > 0.
Claramente vemos que, em geral, esta propriedade não é válida para todo x ∈ X. De
fato, assuma que T (t)X ⊂ D(A), para cada t > 0. Em particular, X = T (0)X ⊂ D(A),
o que implica que D(A) = X e portanto, A ∈ L(X). Logo, esta propriedade é válida
somente para o caso de operadores lineares limitados.
Note que o problema surgiu quando assumimos que T (t)X ⊂ D(A) para todo t > 0.
Este raciocínio não pode ser repetido se pedirmos que T (t)X ⊂ D(A) para t > 0, (ou
mais geralmente que t > t0 > 0). Estes são os semigrupos que estaremos interessados
agora.

Definição 5.1.1. Dizemos que um C 0 -semigrupo {T (t) : t > 0}, com gerador infinitesimal
A : D(A) ⊂ X → X, é diferenciável para t > t0 > 0 se T (t)X ⊂ D(A) para cada
t > t0 > 0. Quando t0 = 0, dizemos apenas que o semigrupo é diferenciável.

Vejamos quais as propriedades destes semigrupos.

Teorema 5.1.2. Seja {T (t) : t > 0} um semigrupo diferenciável para t > t0 > 0. Então

1. se t − t0 > s > nt0 temos An T (t)x = T (t − s)An T (s)x, para todo x ∈ X e n ∈ N;

2. se t > nt0 temos An T (t) ∈ L(X), para todo n ∈ N;


64 Regularidade

n
3. se t > nt0 temos An T (t) = AT ( nt ) , para todo n ∈ N \ {0}.


4. para cada x ∈ X, a função t 7→ T (t)x ∈ X é n-vezes continuamente diferenciável


para todo t > nt0 e
dn
n
T (t)x = An T (t)x,
dt
para todo n ∈ N \ {0}.

5. a função t 7→ An T (t) ∈ L(X) é uma função contínua na topologia uniforme, para


todo t > (n + 1)t0 e n ∈ N.

6. a função t 7→ T (t) ∈ L(X) é n-vezes diferenciável na topologia uniforme para todo


t > (n + 1)t0 e
dn
T (t) = An T (t),
dtn
para todo n ∈ N \ {0}.

Demonstração: De 1: o caso n = 0 é trivialmente satisfeito. Suponhamos que o


resultado seja válido pra n ∈ N \ {0} e seja t − t0 > s > (n + 1)t0 . Para τ − t0 > r > nt0 ,
da hipótese de indução, temos An T (τ )x = T (τ − r)An T (r)x, para todo x ∈ X.
Como τ −r > t0 , da definição de diferenciabilidade do semigrupo, segue que An T (τ )x ∈
D(A), e em particular, segue que An T (s)x ∈ D(A). Assim T (t − s)An T (s)x ∈ D(A) e
portanto temos

An+1 T (t)x = AT (t − s)An T (s)x = T (t − s)An+1 T (s)x,

o que prova o item 1.


De 2: novamente o caso n = 0 é trivial. Suponhamos que o resultado seja válido
para n ∈ N e seja t > (n + 1)t0 , assim t > nt0 e An T (t) ∈ L(X). Portanto, como A é
fechado, An+1 T (t) = A(An T (t)) é também fechado. Pelo Teorema do Gráfico Fechado,
An+1 T (t) ∈ L(X).
De 3: o caso n = 1 é trivial. Suponha que o resultado é válido para n e assuma que
t > (n + 1)t0 . Se t − t0 > s > nt0 , temos do item 1 que
h  s in
An+1 T (t) = AAn T (t) = AT (t − s)An T (s) = AT (t − s) AT (5.1.1)
n
nt t
Tome s = n+1
e claramente temos t − t0 > s > nt0 e t − s = n+1
, e usando estes
5.1 Semigrupos diferenciáveis 65

valores em (5.1.1), obtemos


  n+1
n+1 t
A T (t) = AT .
n+1

De 4: o caso n = 1 é consequência do Teorema 2.2.1 (item 3). Suponha que o resultado


vale para n e seja t − t0 > s > nt0 . Do item 1 temos An T (t)x = T (t − s)An T (s)x, para
todo x ∈ X. Como t − s > t0 temos pelo caso n = 1 que

d n
A T (t)x = AT (t − s)An T (s)x = An+1 T (t)x.
dt

Da indução segue que t 7→ T (t)x é n + 1 vezes continuamente diferenciável e

dn+1 d dn
 
d
n+1
T (t)x = n
T (t)x = An T (t)x = An+1 T (t)x.
dt dt dt dt

De 5: faremos primeiramente o caso n = 0. Sejam t > s > t0 e |h| < t − s. Temos

t+h t+h
Z Z

kT (t + h)x − T (t)xkX 6 kAT (τ )xkX dτ = kAT (s)T (τ − s)xkX dτ
t t
Z t+h

6 kAT (s)kL(X) kT (t − s)kL(X) kxkX dτ 6 M |h|kxkX ,
t

onde M é uma constante, já que AT (s) ∈ L(X) e T (τ − s) é uniformemente limitado para


τ num intervalo limitado, e portanto

kT (t + h) − T (t)kL(X) 6 M |h|,

e prova o caso n = 0.
Se t − t0 > s > nt0 e |h| < t − s − t0 , temos

kAn T (t + h)x − An T (t)kL(X) = kT (t + h − s)An T (s)x − T (t − s)An T (s)kL(X)


6 kT (t + h − s) − T (t − s)kL(X) kAn T (s)kL(X) → 0,

quando h → 0, pois t − s > t0 .


De 6: Sejam t > (n + 1)t0 e |h| < t − (n + 1)t0 . Temos, para todo x ∈ X, que
Z t+h
n−1 n−1
A T (t + h)x − A T (t)x = An T (τ )xdτ.
t
66 Regularidade

Assim,

t+h t+h
An−1 T (t + h)x − An−1 T (t)x
Z Z
1 n 1
= A T (τ )xdτ = An T (τ )dτ · x,
h h t h t

e portanto, fazendo h → 0, temos

d n−1
A T (t) = An T (t).
dt

Desta maneira, facilmente vemos que o caso n = 1 é válido. Suponhamos que o


resultado é valido para n. Assim, como An T (t) é diferenciável, segue que t 7→ T (t) ∈ L(X)
é (n + 1)-vezes diferenciável e

dn+1 d dn
 
d
n+1
T (t) = n
T (t) = An T (t) = An+1 T (t),
dt dt dt dt

o que conclui o item 6 e também a demonstração.

Corolário 5.1.3. Se {T (t) : t > 0} é um semigrupo diferenciável, então {T (t) : t > 0} é


n vezes continuamente diferenciável na topologia uniforme de operadores para todo t > 0
e temos  n
dn

n t
n
T (t) = A T (t) = AT .
dt n

5.2 Semigrupos compactos


Definição 5.2.1. Dizemos que um C 0 -semigrupo {T (t) : t > 0} é compacto para t >
t0 > 0 se T (t) é um operador compacto para cada t > t0 . Se t0 = 0, dizemos simplesmente
que {T (t) : t > 0} é compacto.

Note que se T (t) é compacto para todo t > 0, então T (0) = I é compacta, o que
implica que X é um espaço finito dimensional. Note também que se T (t1 ) é compacto,
então T (t) é compacto para todo t > t1 , já que T (t) = T (t − t1 )T (t1 ).

Teorema 5.2.2. Seja {T (t) : t > 0} um semigrupo compacto para t > t0 > 0. Então a
aplicação t 7→ T (t) ∈ L(X) é contínua para t > t0 .

Demonstração: Sejam  > 0, t > t0 dados e M > 0 tal que sup06s61 kT (s)kL(X) 6 M .
X
Da compacidade do semigrupo, segue que o conjunto U = T (t)B 1 (0) é precompacto, e
5.2 Semigrupos compactos 67

portanto existem x1 , · · · , xk ∈ X tais que

k
[
U⊂ BX  (T (t)xi ).
2(M +1)
i=1

Da continuidade forte do semigrupo, existe 0 < h0 < 1 tal que


sup kT (t + h)xi − T (t)xi kX 6 , para 0 6 h 6 h0 .
16i6k 2

X
Seja agora x ∈ B 1 (0). Então, existe 1 6 i 6 k tal que T (t)x ∈ B X  (T (t)xi ), e
2(M +1)

portanto para 0 6 h 6 h0 temos

kT (t + h)x − T (t)xkX 6 kT (h)kL(X) kT (t)x − T (t)xi kX + kT (t + h)xi − T (t)xi kX


 
+ kT (t)xi − T (t)xkX 6 M + < ,
2(M + 1) 2

o que prova a continuidade de t 7→ T (t) ∈ L(X) para t > t0 .

Teorema 5.2.3. Sejam {T (t) : t > 0} um C 0 -semigrupo e A seu gerador infinitesimal.


Então {T (t) : t > 0} é compacto se, e somente se, a aplicação t 7→ T (t) ∈ L(X) é contínua
para t > 0 e o operador resolvente (λ − A)−1 é compacto para todo λ ∈ ρ(A).

Demonstração: Seja M, ω constantes tais que kT (t)kL(X) 6 M eωt , para todo t > 0. Do
Teorema 5.2.2, segue que a aplicação t 7→ T (t) ∈ L(X) é contínua para t > 0. Portanto,
Z ∞
−1
(λ − A) = e−λt T (t)dt, para Reλ > ω, (5.2.1)
0

e a integral existe na topologia uniforme de operadores. Agora, sejam  > 0, Reλ > ω e
defina Z ∞
R (λ) = e−λt T (t)dt.


Como T (t) é um operador compacto para todo t > 0, segue que R (λ) é compacto.
Além disso
Z 
−1 −λt

k(λ − A) − R (λ)kL(X) 6 e T (t)ds

6 M eω → 0,
0 L(X)

quando  → 0+ . Logo (λ − A)−1 é o limite uniforme de operadores compactos, e portanto


é compacto. Segue diretamente da identidade do resolvente que (λ − A)−1 é compacto
para todo λ ∈ ρ(A).
68 Regularidade

Reciprocamente, assuma que a aplicação t 7→ T (t) ∈ L(X) é contínua para t > 0 e


que (λ − A)−1 é compacto para todo λ ∈ ρ(A). Segue de (5.2.1) que
Z ∞
−1
λ(λ − A) T (t) − T (t) = λ e−λs [T (t + s) − T (t)]ds.
0

Se λ é real, λ > max{ω, 0}, e δ > 0 temos


Z δ
−1
kλ(λ − A) T (t) − T (t)kL(X) 6 λe−λs kT (t + s) − T (t)kL(X) ds
0
Z ∞
+ λe−λs kT (t + s) − T (t)kL(X) ds
δ
λ ω(t+δ) −λδ
6 sup kT (t + s) − T (t)kL(X) + 2M e e ,
06s6δ λ−ω

o que implica que

lim kλ(λ − A)−1 T (t) − T (t)kL(X) 6 sup kT (t + s) − T (t)kL(X) ,


λ→∞ 06s6δ

o como δ > 0 é arbitrário e t 7→ T (t) ∈ L(X) é contínua para t > 0, temos

lim kλ(λ − A)−1 T (t) − T (t)kL(X) = 0,


λ→∞

e como λ(λ − A)−1 T (t) é um operador compacto para cada λ, segue que T (t) é compacto.

Corolário 5.2.4. Sejam {T (t) : t > 0} um C 0 -semigrupo e A seu gerador infinitesimal.


Se (λ − A)−1 é compacto para algum λ ∈ ρ(A) e a aplicação t 7→ T (t) ∈ L(X) é contínua
para t > t0 > 0, então o semigrupo {T (t) : t > 0} é compacto para t > t0 .

Corolário 5.2.5. Sejam {T (t) : t > 0} um semigrupo uniformemente contínuo e A ∈


L(X) seu gerador infinitesimal. Então {T (t) : t > 0} é compacto se, e somente se, (λ −
A)−1 é compacto para algum λ ∈ ρ(A).

A caracterização de semigrupos compactos dada no Teorema 5.2.3 não é totalmente


satisfatória, uma vez que não caracteriza o semigupo compacto {T (t) : t > 0} somente
em termos de propriedades do seu gerador infinitesimal A, mas precisamos assumir a
continuidade da aplicação t 7→ T (t) ∈ L(X). A razão é que, até agora, não existem
condições necessárias e suficientes, nem em termos de A nem do seu resolvente (λ − A)−1 ,
5.2 Semigrupos compactos 69

nas quais a aplicação t 7→ T (t) ∈ L(X) seja contínua. Para uma condição necessária,
veremos um resultado logo abaixo, mas para isto, precisamos do seguinte lema:

Lema 5.2.6. Sejam {T (t) : t > 0} um C 0 -semigrupo e A seu gerador infinitesimal. Se


Z t
Bλ (t)x = eλ(t−s) T (s)xds
0

então
(λ − A)Bλ (t)x = eλt x − T (t)x, para todo x ∈ X, (5.2.2)

Bλ (t)(λ − A)x = eλt x − T (t)x, para todo x ∈ D(A). (5.2.3)

Demonstração: Para cada λ e t > 0 fixos, Bλ (t) é um operador linear limitado em X.


Mais ainda, para cada x ∈ X, temos

t t+h
T (h) − I eλh−1 eλh
Z Z
λ(t−s)
Bλ (t)x = e T (s)xds + eλ(t−s) T (s)xds
h h h h t
1 h λ(t−s)
Z
− e T (s)xds.
h 0

Quando h → 0+ , o lado direito da igualdade acima converge para λBλ (t)x+T (t)x−eλt x
e consequentemente Bλ (t)x ∈ D(A) e

ABλ (t)x = λBλ (t)x + T (t)x − eλt x,

o que mostra (5.2.2). Da definição de Bλ (t), é claro que se x ∈ D(A) temos ABλ (t)x =
Bλ (t)Ax, o que mostra (5.2.3).

Este resultado agora nos dá uma condição necessária para que a aplicação t 7→ T (t) ∈
L(X) seja contínua:

Teorema 5.2.7. Sejam {T (t) : t > 0} um C 0 -semigrupo e A seu gerador infinitesimal. Se


a aplicação t 7→ T (t) ∈ L(X) é contínua para t > 0, então existe uma função ψ : R+ → R+
tal que
ρ(A) ⊃ {λ ∈ C : λ = σ + iτ, |τ | > ψ(|σ|)}, (5.2.4)

e também
lim k(σ + iτ − A)−1 kL(X) = 0, para todo real σ. (5.2.5)
|τ |→∞
70 Regularidade

Demonstração: Podemos assumir, sem perda de generalidade, que ρ(A) ⊃ {Reλ > 0} e
que kT (t)kL(X) 6 M (se este não é o caso, basta considerar o semigrupo S(t) = e−ωt T (t)).
Se σ > 0, então λ = σ + iτ ∈ ρ(A) para todo τ ∈ R e usando (λ − A)−1 x no lugar de
x em (5.2.3), temos que para x ∈ X:
Z t
λt −1 −1
e (λ − A) x − T (t)(λ − A) x = eλ(t−s) T (s)xds,
0

o que implica que


Z t
−1 −iτ s −σs
σt
σt

(e − M )k(λ − A) kL(X) 6e e
e T (s)ds
,
0

1
e escolhendo t > σ
ln M , temos
Z t
−1 −iτ s −σs

k(σ + iτ − A) kL(X) 6C e
e T (s)ds
,
0

para alguma constante C > 0 independente de τ . Segue do Lema de Riemann-Lebesgue1


que o lado direito da inequação acima tende a zero quando |τ | → ∞.
Se σ 6 0, escrevemos

X
−1
(λ − A) = (1 + iτ − λ)k (1 + iτ − A)−k−1 ,
k=0

e definimos
ϕ(|τ |) = max k(1 + ir − A)−1 kL(X) ,
|r|>|τ |

e já mostramos no caso anterior (σ = 1 > 0) que ϕ(|τ |) → 0 quando |τ | → ∞. A série


1
acima é claramente convergente (em L(X)) para |1 − σ| 6 2ϕ(|τ |)
, o que implica (5.2.4).
1
Mais ainda, fixado σ satisfazendo |1 − σ| 6 2ϕ(|τ |)
, temos para |τ | suficientemente grande
que
k(σ + iτ − A)−1 kL(X) 6 2k(1 + iτ − A)−1 kL(X) 6 2ϕ(|τ |),

e portanto vale (5.2.5) e a demonstração está completa.

Corolário 5.2.8. Sejam {T (t) : t > 0} um C 0 -semigrupo compacto e A seu gerador


infinitesimal. Para cada −∞ < α 6 β < ∞, a intersecção da faixa α 6 Reλ 6 β com
σ(A) contém no máximo um número finito de autovalores de A.
1
Veja o Exercício 5.2.9
5.3 Semigrupos analíticos 71

Demonstração: Sabemos que σ(A) pode ser: vazio, ou um conjunto finito, ou um


conjunto infinito com ∞ sendo seu único possível ponto de acumulação. Portanto, do
Teorema 5.2.7, o resultado segue.

Exercício 5.2.9. Se a, b são números reais estendidos com a < b e f : (a, b) → C é


absolutamente integrável, mostre o Lema de Riemann-Lebesgue; isto é,
Z b Z b
lim f (t) senµt dt = lim f (t) cosµt dt = 0.
µ→∞ a µ→∞ a

Sugestão: No caso em que f é continuamente diferenciável e tem suporte compacto em (a, b), integre
por partes para provar o resultado.

5.3 Semigrupos analíticos


Definição 5.3.1. Sejam φ1 < 0 < φ2 e defina o setor Λ = {z ∈ C : φ1 < argz < φ2 }.
Para z ∈ Λ, seja T (z) um operador linear limitado. A família {T (z) : z ∈ Λ} é dita um
semigrupo analítico em Λ se

(i) a aplicação Λ 3 z 7→ T (z) ∈ L(X) é analítica;

(ii) T (0) = I e lim z→0 T (z)x = x, para cada x ∈ X;


z∈Λ

(iii) T (z1 + z2 ) = T (z1 )T (z2 ), para todos z1 , z2 ∈ Λ.

Um semigrupo {T (t) : t > 0} é dito analítico se ele possui uma extensão a um semi-
grupo analítico em algum setor Λ, contendo o eixo real positivo.

Claramente, a restrição de um semigrupo analítico ao eixo real é um C 0 -semigrupo.


Estaremos interessados então no problema oposto; isto é, dado um C 0 -semigrupo, encon-
trar condições sob as quais possamos garantir que este semigrupo pode ser estendido a
um semigrupo analítico em algum setor Λ em torno do eixo real não-negativo. Para isto,
precisamos primeiro encontrar uma maneira de expressar o semigrupo em termos do seu
gerador infinitesimal, e tal relação é dada pela transformada inversa de Laplace.

5.3.1 Transformada inversa de Laplace


Vimos no Teorema 2.2.1, item 4, que
Z ∞
−1
(λ − A) = e−λt T (t)dt,
0
72 Regularidade

se Reλ é grande. Isto sugere que usando a transformada inversa de Laplace poderemos
encontrar T (t), conhecido A. No que se segue perseguiremos este objetivo.

Lema 5.3.2. Temos o seguinte:


Z ∞
sin t
(a) dt = π
−∞ t

Z 1
f (t) f (t) − f (0)
(b) Se f : R → C é tal que é integrável em R e dt < ∞,
(1 + |t|) −1
t
então Z ∞
sin mt
f (t) dt → f (0) quando m → +∞.
−∞ πt

Demonstração: De (a): Note que, se σ é a curva no plano complexo dada pela figura
abaixo

-
- - -
−R −r r R

Figura 1

integrando a função analítica C\{0} 3 z 7→ eiz ∈ C ao longo de σ, temos

−r R 0 π
eit eit
Z Z Z Z
ireiθ iθ
0= dt + dt + i e dθ + i eiRe dθ.
−R t r t π 0

sent
O resultado agora segue notando que é par, fazendo r → 0, R → ∞ e conside-
t
rando que (do Teorema da Convergência Dominada de Lebesgue) temos
π π
Z Z
iReiθ R→∞
e−R sin θ dθ −→ 0.


e dθ 6
0 0
5.3 Semigrupos analíticos 73

Z 1 Z m
sin mt sin t
De (b): πt
dt = πt
dt → 1 quando m → ∞ e
−1 −m

∞ Z 1
f (t) − f (0)
Z Z
sin mt sin mt
f (t) dt − f (0) dt = sin mt dt
−∞ πt −1 πt |t|61 πt
Z
f (t)
+ sin mt dt,
|t|>1 πt

ambos os termos a direita tendem a zero quando m → ∞ pelo Lema de Riemann-Lebesgue.

Teorema 5.3.3. Suponha que A seja o gerador infinitesimal de um C 0 -semigrupo {T (t) : t >
0} tal que kT (t)kL(X) 6 M eβt . Se γ > max{0, β}, x ∈ D(A2 ) e t > 0
Z γ+im
1
T (t)x = lim eλt (λ − A)−1 x dλ.
m→∞ 2πi γ−im

Além disso, para cada 0 <  < 1, o limite acima é uniforme no intervalo [, −1 ].

Demonstração: Como Reλ = γ > ω, (λ − A)−1 existe e é uniformemente limitada. De


fato, como x ∈ D(A2 ) temos

(λ − A)−1 x = λ−1 x + λ−2 Ax + λ−2 (λ − A)−1 A2 x

e também
Z γ+im Z γ+im λt  
1 λt 1
−1 e
e (λ − A) x dλ = dλ x
2πi γ−ik 2πi γ−ik λ
Z γ+im λt
1 e
+ [Ax + (λ − A)−1 A2 x]dλ
2πi γ−ik λ2

e ambos os termos convergem, uniformemente para t em [, −1 ], quando k, m → ∞, o


primeiro por integração por partes e o segundo porque o integrando tem norma menor ou
igual a C/|λ|2 , para alguma constante positiva C, e portanto converge absolutamente. Só
resta mostrar que o limite é T (t)x.
Agora para Reλ = γ
Z ∞
−1
(λ − A) x = e−λs T (s)x ds,
0
74 Regularidade

então
Z γ+im Z γ+imZ ∞  
1 λt −1 1 λ(t−s)
e (λ − A) x dλ = e dλ T (s)x ds
2πi γ−im 0 2πi γ−im
Z ∞
sin m(t − s) γ(t−s)
= e T (s)x ds
0 π(t − s)
Z ∞
sin mτ −γτ
= e T (t + τ )x dτ.
−t πτ

A função (
he−γτ T (t + τ )x, x∗ i, τ > −t
f (τ ) =
0, τ < −t
satisfaz as condições do Lema 5.3.2 para qualquer x∗ ∈ X ∗ e t > 0 pois f é diferenciável
em τ = 0 com f 0 (0) = hT (t)(A − γ)x, x∗ i e

|f (τ )|
6 C e−(γ−ω)|τ | , τ ∈ R,
1 + |τ |

para alguma constante positiva C. Assim,


 Z γ+im 
1 −1 ∗ m→∞
λt
e (λ − A) x dλ, x −−−→ f (0) = hT (t) x, x∗ i.
2πi γ−im

Como isto é válido para todo x∗ ∈ X ∗ , a prova está completa.

π
Teorema 5.3.4. Assuma que existem 0 < δ < 2
e M > 0 tal que
n π o
ρ(A) ⊃ Σ = λ ∈ C : |argλ| < + δ ∪ {0}
2

e
M
k(λ − A)−1 kL(X) 6 , para todo λ ∈ Σ, λ 6= 0.
|λ|

Então Z
1
T (t) = eλt (λ − A)−1 dλ,
2πi Γ

onde Γ é a curva que consiste de dois raios {λ : | arg λ| = φ, |λ| > r}, do arco {λ : |λ| =
r, | arg λ| 6 φ} para r pequeno e φ ∈ ( π2 , π2 + δ), e orientada no sentindo da parte imagi-
nária crescente (veja Figura 2).
5.3 Semigrupos analíticos 75

Demonstração: Se x ∈ D(A2 ) e t > 0 então, para algum γ > 0, do Teorema 5.3.3 temos
Z γ+i∞
1
T (t)x = eλt (λ − A)−1 xdλ.
2πi γ−i∞

O integrando é analítico para λ ∈ Σ e portanto podemos deformar o contorno de


integração para a curva Γ.
De fato, quando |Imλ| = m, −km 6 Reλ 6 γ (k = |cotan φ| > 0),

etReλ CkxkX
keλt (λ − A)−1 xkX ≤ p
(Reλ)2 + m2

1 1
e, dividindo o intervalo de integração [−km, γ] em [−km, −m 2 ] e [−m 2 , γ], vemos que as
integrais correspondentes tendem a zero quando m → ∞.
Portanto Z
1
T (t)x = eλt (λ − A)−1 x dλ,
2πi Γ

e esta expressão vale para todo x ∈ X porque converge em norma. De fato, para t > 0,
| arg λ| = φ
e−t|λ|k1
keλt (λ − A)−1 kL(X) 6 C , k1 = | cos φ| > 0
|λ|
então Z
1
T (t) = eλt (λ − A)−1 dλ,
2πi Γ

com convergência na norma de L(X) qualquer t > 0. A convergência é uniforme para


 6 t, qualquer  > 0.

Figura
argλ
argλ=
Imλ
Imλ Γ=
= −φ
2
=−m

76 Regularidade

5.3.2 Geração de semigrupos analíticos


Como a multiplicação de um C 0 -semigrupo T (t) por eβt não afeta a possibilidade ou
impossibilidade de estendê-lo a um semigrupo analítico, podemos nos restringir ao caso
de C 0 -semigrupos uniformemente limitados; isto é, C 0 -semigrupos {T (t) : t > 0} para os
quais existe uma constante M tal que kT (t)kL(X) 6 M para todo t > 0.
Ainda, é sempre possível assumir que 0 ∈ ρ(A), onde A é o gerador infinitesimal de
{T (t) : t > 0} (basta multiplicar o semigrupo uniformemente limitado por e−t , para  > 0.
Começamos com o seguinte teorema:

Teorema 5.3.5. Sejam {T (t) : t > 0} um C 0 -semigrupo uniformemente limitado, A seu


gerador infinitesimal e assuma que 0 ∈ ρ(A). As seguintes afirmações são equivalentes:

(a) {T (t) : t > 0} pode ser estendido para um semigrupo analítico em um setor Λδ =
{z ∈ C : |argz| < δ} e kT (t)kL(X) é uniformemente limitada em cada subsetor fe-
chado Λδ0 , δ 0 < δ, de Λδ .

(b) Existe uma constante C tal que para cada σ > 0 e τ 6= 0 temos

C
k(σ + iτ − A)−1 kL(X) 6 .
|τ |

π
(c) Existem 0 < δ < 2
e M > 0 tal que
n π o
ρ(A) ⊃ Σ = λ ∈ C : |argλ| < + δ ∪ {0}
2

e
M
k(λ − A)−1 kL(X) 6 , para todo λ ∈ Σ, λ 6= 0.
|λ|

(d) {T (t) : t > 0} é diferenciável e existe uma constante C tal que

C
kAT (t)kL(X) 6 , para todo t > 0.
t

Demonstração: Mostremos que (a) implica (b). Seja 0 < δ 0 < δ tal que kT (t)kL(X) 6
C1 para todo z ∈ Λδ0 . Para x ∈ X e σ > 0 temos
Z ∞
−1
(σ + iτ − A) = e−(σ+iτ )t T (t)xdt.
0
5.3 Semigrupos analíticos 77

Da analiticidade e limitação uniforme de T (z) em Λδ0 , podemos trocar o caminho de


integração na equação acima do eixo real positivo para qualquer raio ρeiθ , com 0 < ρ < ∞
0
e |θ| 6 δ 0 . Para τ < 0, mudando o caminho de integração para o raio ρeiδ e estimando a
integral resultante, obtemos
Z ∞
−1 0 0 C1 C
k(σ + iτ − A) kL(X) 6 e−ρσ cos δ +ρτ sin δ ) Ckxkdρ 6 6 .
0 σ cos δ 0 − τ sin δ 0 |τ |

0
Analogamente, para τ > 0 mudamos o caminho de integração para o raio ρe−iδ e
obtemos k(σ + iτ − A)−1 kL(X) 6 C
τ
o que prova (b).
Mostremos agora que (b) implica (c). Como A é por hipótese o gerador infinitesimal
de um C 0 -semigrupo temos k(λ − A)−1 kL(X) 6 M
Reλ
, para Reλ > 0. De (b) segue que para
Reλ > 0
C
k(λ − A)−1 kL(X) 6
|Imλ|
e portanto
C1
k(λ − A)−1 kL(X) 6 , para Reλ > 0.
|λ|

Seja σ > 0 e escrevamos a expansão em série de Taylor de (λ − A)−1 em torno de


λ0 = σ + iτ , dada por

X
−1
(λ − A) = (λ0 − λ)n (λ0 − A)−n−1 .
n=0

Sabemos que esta série é convergente em L(X) para k(λ0 −λ)(λ0 −A)−1 kL(X) 6 α < 1.
Assim, usando Reλ + iτ no lugar de λ e a hipótese do item (b) temos que esta série é
α|τ |
convergente em L(X) para |σ − Reλ| |τC| 6 α < 1; isto é, se |σ − Reλ| 6 C
. Como ambos
σ > 0 e α < 1 são arbitrários, segue que ρ(A) contém o conjunto dos λ tais que Reλ 6 0
|Reλ| 1
e |Imλ|
< C
e em particular
n π o
ρ(A) ⊃ λ : |argλ| 6 + δ ,
2

onde δ = α arctan C1 , 0 < α < 1. Mais ainda, nesta região



−1 C 1 C2 + 1 1 M
k(λ − A) kL(X) 6 6 = .
1 − α |τ | 1 − α |λ| |λ|

Como 0 ∈ ρ(A) por hipótese, A satisfaz o item (c).


78 Regularidade

Mostremos que (c) implica (d). Se A satisfaz (c) então segue do Teorema 5.3.4 que
Z
1
T (t) = eλt (λ − A)−1 .
2πi Γ

Derivando formalmente esta expressão com respeito a t, obtemos


Z
0 1
T (t) = λeλt (λ − A)−1 dλ.
2πi Γ

Mas esta integral é convergente em L(X) para todo t > 0, já que



Z Z
1 −1 1 M 1
M e−ρt cos φ dρ =
λt


2πi λe (λ − A) dλ 6 ,
Γ

L(X) π 0 π cos φ t

e portanto a derivação formal está justificada, o que mostra que T (t) é diferenciável para
t>0e
C
kAT (t)kL(X) = kT 0 (t)kL(X) 6 , para t > 0.
t
Finalmente, mostremos que (d) implica (a). Como T (t) é diferenciável para t > 0,
segue do Corolário 5.1.3 que T (n) (t) = [T 0 (t/n)]n , para n > 1. Logo

kT (n) (t)kL(X) 6 kT 0 (t/n)knL(X) .

Assim, usando que nn 6 n!en , temos


 n
1 (n) Ce
kT (t)kL(X) 6 .
n! t

Consideremos agora a série de potências



X T (n) (t)
T (z) = T (t) + (z − t)n .
n=1
n!

t
Esta série é uniformemente convergente em L(X) para |z − t| 6 α( Ce ) para α < 1.
1
Portanto T (z) é analítica em Λ = {z : |argz| < arctan Ce }. Claramente T (z) estende T (t)
ao setor Λ. Pela analiticidade de T (z) segue que T (z) satisfaz a propriedade de semigrupo
e é simples verificar que T (z)x → x quando z → 0 em Λ. Finalmente, reduzindo o setor
1
Λ para o setor Λ = {z : |argz| 6 arctan( Ce ) − } vemos que kT (z)kL(X) é uniformemente
limitada em Λ e a demonstração está completa.
Capítulo

6
Teoremas de perturbação de geradores

6.1 Perturbação por operadores lineares limitados

Nesta seção estudamos que tipos de operadores podem ser adicionados a geradores de
C 0 -semigrupos de forma que o resultado ainda seja o gerador de um C 0 -semigrupo.

Teorema 6.1.1. Se X é um espaço de Banach, {eAt : t > 0} é um C 0 -semigrupo em X


com gerador infinitesimal A : D(A) ⊂ X → X e B ∈ L(X), então A+B : D(A) ⊂ X → X
é o gerador infinitesimal de um C 0 -semigrupo {e(A+B)t : t > 0}. Se keAt kL(X) 6 M eωt para
todo t > 0, então
ke(A+B)t kL(X) 6 M e(ω+M kBkL(X) )t , t > 0.

Demonstração: De acordo com o Lema 3.1.2, podemos escolher uma norma | · |X em X


tal que
1
k · kX 6 | · |X 6 M k · kX e |(λ − A)−1 |L(X) 6 ,
λ−ω
para λ > ω. Se λ > ω + |B|L(X) então

|B|L(X)
|B(λ − A)−1 |L(X) 6 <1
λ−ω

e I − B(λ − A)−1 é um isomorfismo em L(X). Logo

λ − A − B = [I − B(λ − A)−1 ](λ − A) : D(A) → X


80 Teoremas de perturbação de geradores

e
1 1 1
|(λ − A − B)−1 |L(X) 6 = .
λ − ω 1 − |B|L(X) /(λ − ω) λ − (ω + |B|L(X) )

Do Teorema de Hille-Yosida, A + B gera um C 0 -semigrupo |e(A+B)t |L(X) 6 e(ω+|B|)t


para t > 0. Retornando à norma original temos a estimativa desejada.

Agora estudaremos as relações entre o semigrupo {eAt : t > 0} e o semigrupo {e(A+B)t :


t > 0} quando B ∈ L(X). Para este fim consideramos o operador H(s) = eA(t−s) e(A+B)s .
Para x ∈ D(A) = D(A + B), s 7→ H(s)x é diferenciável e H 0 (s)x = eA(t−s) Be(A+B)s x.
Integrando H 0 (s)x de 0 até t obtemos
Z t
(A+B)t At
e x=e x+ eA(t−s) Be(A+B)s xds, x ∈ D(A).
0

Como os operadores em ambos os lados da expressão acima são limitados, ela vale
para todo x ∈ X. O semigrupo {e(A+B)t : t > 0} é portanto a solução da equação integral
acima. Para tal equação integral temos:

Proposição 6.1.2. Seja {eAt : t > 0} um C 0 -semigrupo satisfazendo keAt kL(X) 6 M eωt
e B ∈ L(X). Então existe uma única família {V (t) : t > 0} ⊂ L(X) tal que t 7→ V (t)x é
contínua em [0, ∞) para todo x ∈ X e
Z t
At
V (t)x = e x + eA(t−s) BV (s)xds, x ∈ X. (6.1.1)
0

.
Demonstração: Defina V0 (t) = eAt e Vn (t), indutivamente, por
Z t
Vn+1 (t)x = eA(t−s) BVn (s)xds, para x ∈ X, n ∈ N.
0

É claro da definição acima que t 7→ Vn (t)x é contínua para x ∈ X, t > 0 e n ∈ N.


Provemos por indução que,

ωt
M n kBknL(X) tn
kVn (t)kL(X) 6 M e .
n!
6.1 Perturbação por operadores lineares limitados 81

Claramente isto é valido para n = 0, e suponhamos que vale para n. Então temos que

t M n kBknL(X) sn
Z
ω(t−s)
kVn+1 (t)xkX 6 Me kBkL(X) kxkX ds
0 n!
ωt
M n+1 kBkn+1
L(X) t
n+1
= Me kxkX
(n + 1)!

e portanto a desigualdade vale para qualquer n ∈ N. Definindo



X
V (t) = Vn (t),
n=0

segue que a série converge uniformemente em intervalos limitados na topologia uniforme


de operadores. Portanto t 7→ V (t)x é contínua para cada x ∈ X e além disso (6.1.1) está
satisfeita. Isto conclui a prova da existência. Para provar a unicidade seja {U (t) : t >
0} ⊂ L(X) tal que t 7→ U (t)x é contínua para todo x ∈ X e
Z t
At
U (t)x = e x + eA(t−s) BU (s)xds, x ∈ X. (6.1.2)
0

Subtraindo as expressões (6.1.1) e (6.1.2) e estimando as diferenças obtemos


Z t
kV (t)x − U (t)xkX 6 M eω(t−s) kBkL(X) kV (s)x − U (s)xkX ds, x ∈ X.
0

o que pela desigualdade de Gronwall implica que kV (t)x − U (t)xkX = 0, t > 0 e portanto
V (t) = U (t).

Segue imediatamente do teorema anterior que



X
e(A+B)t = Vn (t),
n=0

e a convergência da série é na topologia de operadores uniformemente para t em intervalos


limitados de R+ .

Para a diferença entre eAt e e(A+B)t temos:

Corolário 6.1.3. Se A é o gerador infinitesimal de um C 0 -semigrupo que satisfaz keAt kL(X) 6


82 Teoremas de perturbação de geradores

M eωt e B ∈ L(X), então

ke(A+B)t − eAt kL(X) 6 M eωt (eM kBkL(X) t − 1).

6.2 Soma de geradores infinitesimais


O teorema a seguir mostra que sob certas condições, a soma A + B de dois geradores
A e B de C 0 -semigrupos que comutam, resulta em um gerador de um C 0 -semigrupo
{e(A+B)t : t > 0} que satisfaz e(A+B)t = eAt eBt .

Teorema 6.2.1. Suponha que A e B são geradores de semigrupos fortemente contínuos


de operadores {eAt : t > 0} e {eBt : t > 0} tais que, para algum M > 0, keAt kL(X) 6 M e
keBt kL(X) 6 M . Suponha também que A e B comutam, que o operador A + B : D(A) ∩
D(B) ⊂ X → X é fechado, densamente definido e que λ ∈ ρ(A + B) para algum λ >
0. Então A + B gera um C 0 -semigrupo {e(A+B)t : t > 0} tal que e(A+B)t = eAt eBt e
ke(A+B)t kL(X) 6 M 2 .

Demonstração: Por um momento vamos mudar a norma do espaço de Banach X de


forma que A gera um C 0 -semigrupo de contrações. Sejam Aλ = λA(λ − A)−1 e Bλ =
λB(λ − B)−1 , como na demonstração do Teorema de Hille-Yosida. Então keAλ t k 6 1 para
todo λ > 0 e como eAλ t x → eAt x e eBλ s e → eBs x para todo x ∈ D(A) ∩ D(B) = D(A + B)
e s, t > 0 temos que

lim eAλ t+Bλ s x = lim eAλ t eBλ s x = eAt eBs x.


λ→∞ λ→∞

É claro que isto continua verdadeiro se mudamos a norma do espaço para a norma
original. Ainda, por um argumento similar, temos que

lim eBλ t+Aλ s x = lim eBλ s eAλ s x = eBs eAt x,


λ→∞ λ→∞

mostrando que eAt eBs x = eBs eAt x, para todo x ∈ D(A + B). Como D(A + B) é denso em
X e ambos os lados desta expressão são operadores limitados, segue que eAt eBs x = eBs eAt
em X.
Em seguida vamos motrar que T (t) = eAt eBt é um semigrupo fortemente contínuo com
gerador A + B. Primeiro observe que a continuidade forte em t = 0 e a limitação são
6.2 Soma de geradores infinitesimais 83

óbvias e de

T (t + s) = eA(t+s) eB(t+s) = eAt eAs eBt eBs = eAt eBt eAs eBs = T (t)T (s)

temos que T (t) é um semigrupo. Resta mostrar que A + B é o gerador de T (t).

Se x ∈ D(A) ∩ D(B) = D(A + B), então

T (t)x − x = lim (etAλ etBλ x − x) = lim (eAλ t eBλ t x − eBλ t x + eBλ t x − x)


λ→∞ λ→∞
Z t Z t
Aλ s Bλ t
= lim e e (Aλ x) + lim eBλ s (Bλ x)ds
λ→∞ 0 λ→∞ 0
Z t Z t
As Bt
= e e Axds + T (s)Bxds.
0 0

Agora
Z t Z t
1 1 As Bt 1 t→0+
(T (t)x − x) = e e Axds + T (s)Bxds −→ −(A + B)x,
t t 0 t 0

para todo x ∈ D(A) ∩ D(B) = D(A + B). Portanto o gerador C de T (t) deve ser uma
extensão de A + B. Seja λ um número real no resolvente de A + B e no resolvente do
gerador de T (t). Então

(λ − C)D(C) = X = (λ − (A + B))D(A + B) = (λ − C)D(A + B),

e A + B = C completando a demonstração.

Corolário 6.2.2. Suponha que A e B são geradores de C 0 -semigrupos {eAt : t > 0} e


{eBt : t > 0}, respectivamente, tais que, para algum M > 0, α, β ∈ R, keAt kL(X) 6 M eαt
e keBt kL(X) 6 M eβt . Suponha também que A e B comutam, que o operador A + B é
fechado, densamente definido com domínio D(A) ∩ D(B) e que λ ∈ ρ(A + B) para algum
λ > 0. Então A + B gera um C 0 -semigrupo {e(A+B)t : t > 0} tal que e(A+B)t = eAt eBt e
que ke(A+B)t kL(X) 6 M 2 e(α+β)t .

Demonstração: Basta aplicar o Teorema 6.2.1 aos operadores A − αI e B − βI.


84 Teoremas de perturbação de geradores

6.3 Perturbação de geradores infinitesimais de semigru-


pos analíticos

Teorema 6.3.1. Seja A : D(A) ⊂ X → X e constantes 0 < δ < π2 , ω ∈ R e M > 0 tais


que
π
ρ(A) ⊂ Σ = {λ ∈ C : |arg(λ − ω)| < + δ} ∪ {ω},
2
e
M
k(λ − A)−1 kL(X) 6 , para todo λ ∈ Σ, λ 6= ω.
|λ − ω|

Então sabemos que A é o gerador infinitesimal de um semigrupo analítico. Seja tam-


bém B : D(B) ⊂ X → X, D(B) ⊃ D(A), um operador linear tal que

kBxkX 6 kAxkX + KkxkX , para todo x ∈ D(A),

para algum  > 0 e alguma constante K. Então, existe δ > 0 tal que, se 0 6  6
δ, D(A + B) = D(A), e A + B é o gerador infinitesimal de um semigrupo analítico
{e(A+B)t : t > 0}.

Demonstração: Escolha  > 0 tal que 0 < (M + 1) < 1 e θ tal que (M + 1) < θ < 1.
Para tal λ, B(λ − A)−1 ∈ L(X) e

kB(λ − A)−1 kL(X) 6 kA(λ − A)−1 kL(X) + Kk(λ − A)−1 kL(X)


 
M |λ| KM
6 1+ +
|λ − ω| |λ − ω|

que é menor ou igual a θ para |λ − ω| > R, para algum R suficientemente grande. Segue
que | arg (λ − ω)| < ϕ, |λ − a| > R implica λ ∈ ρ(A + B) e

M
k(λ − (A + B))−1 kL(X) 6 .
(1 − θ)|λ − ω|

Disto, é facil obter que (A + B) é o gerador de um semigrupo analítico, usando o Teorema


5.3.5.
6.4 Perturbação de geradores infinitesimais de semigrupos de contração 85

6.4 Perturbação de geradores infinitesimais de semigru-


pos de contração
Definição 6.4.1. Um operador dissipativo A : D(A) ⊂ X → X é chamado de m-
dissipativo se Im(I − A) = X.

Claramente, se A é m-dissipativo, então µA também é, para qualquer µ > 0 e portanto


se A é m-dissipatvo temos Im(λ − A) = X para todo λ > 0. Em termos de operadores
m-dissipativos, o Teorema de Lumer-Philips pode ser rescrito da forma: Um operador
densamente definido A é o gerador infinitesimal de um C 0 -semigrupo de contrações se, e
somente se, A é m-dissipativo.
O resultado principal dessa seção é o seguinte teorema de perturbação para operadores
m-dissipativos.

Teorema 6.4.2. Sejam A e B operadores lineares em X tais que D(A) ⊂ D(B) e A + tB


é dissipativo para t ∈ [0, 1]. Se

kBxkX 6 αkAxkX + βkxkX , para x ∈ D(A),

onde 0 6 α < 1, β > 0 e para algum t0 ∈ [0, 1], A + t0 B é m-dissipativo então A + tB é


m-dissipativo para todo t ∈ [0, 1].

Demonstração: Mostremos que existe δ > 0 tal que se A + t0 B é m−dissipativo, A + tB


é m−dissipativo para todo t ∈ [0, 1] satisfazendo |t − t0 | 6 δ. Como qualquer ponto
em [0, 1] pode ser alcançado de qualquer outro ponto por um número finito de passos de
tamanho δ, isso implica o resultado.
Assuma que para algum t0 ∈ [0, 1], A + t0 B é m−dissipativo, o que implica que
I − (A + t0 B) é inversível. Denotemos R(t0 ) = (I − (A + t0 B))−1 e temos kR(t0 )kL(X) 6 1.
Mostremos que o operador BR(t0 ) é um operador linear limitado.
Da nossa hipótese e da desigualdade triangular, temos para x ∈ D(A) que

kBxkX 6 αk(A + t0 B)xkX + αt0 kBxkX + βkxkX


6 αk(A + t0 B)xkX + αkBxkX + βkxkX ,

e portanto
α β
kBxkX 6 k(A + t0 B)xkX + kxkx .
1−α 1−α
86 Teoremas de perturbação de geradores

Como R(t0 ) : X → D(A) e (A + t0 B)R(t0 ) = R(t0 ) − I, segue da desigualdade acima


que

α β 2α + β
kBR(t0 )xkX 6 k(R(t0 ) − I)xkX + kR(t0 )xkX 6 kxkX ,
1−α 1−α 1−α

para todo x ∈ X, e portanto BR(t0 ) é limitado. Para mostrar que A+tB é m−dissipativo,
mostremos que I − (A + tB) é inversível e portanto sua imagem é todo X. Temos

I − (A + tB) = I − (A + t0 B) + (t0 − t)B


= (I + (t0 − t)BR(t0 ))(I − (A + t0 B)).

Portanto I − (A + t0 B) é inversível se, e somente se, I + (t0 − t)BR(t0 ) é inversível.


Mas I + (t0 − t)BR(t0 ) para todo t satisfazendo |t − t0 |kBR(t0 )kL(X) 6 |t − t0 | 2α+β
1−α
<1e
1−α
portanto podemos escolher δ = 4α+2β
para concluir a demonstração.

O Teorema 6.4.2 é usualmente usado através do seguinte simples corolário.

Corolário 6.4.3. Seja A o gerador infinitesimal de um C 0 -semigrupo de contrações. Seja


B um operador dissipativo, satisfazendo D(A) ⊂ D(B) e

kBxkX 6 αkAxkX + βkxkX , para x ∈ D(A),

onde 0 6 α < 1 e β > 0. Então A + B é o gerador infinitesimal de um C 0 -semigrupo de


contrações.

Demonstração: Pelo Teorema de Lumer-Philips, D(A) = X e A é m−dissipativo. Por-


tanto A + tB é dissipativo para todo t ∈ [0, 1], pois RehAx, x∗ i 6 0, para todo x∗ ∈ J(x).
De fato, se B é dissipativo com D(A) ⊂ D(B), então para cara x ∈ D(A) existe um
x∗ ∈ J(x) tal que RehBx, x∗ i 6 0 e para este mesmo x∗ , RehAx + tBx, x∗ i 6 0. Pelo
Teorema 6.4.2 segue que A+tB é m−dissipativo para todo t ∈ [0, 1] e em particular A+B
é m−dissipativo. Como D(A + B) = D(A) é denso em X, A + B é o gerador infinitesimal
de um C 0 −semigrupo de contrações pelo Teorema de Lumer-Philips.

O Teorema 6.4.2 e o Corolário 6.4.3 são falsos, em geral, se α = 1. Uma das razões
para isto é que neste caso, o operador A + B não é necessariamente fechado. Se A + B não
é fechado, então ele não por ser o gerador infinitesimal de um C 0 -semigrupo. Um simples
exemplo desta situação é quando iA um operador auto-adjunto em um espaço de Hilbert.
6.4 Perturbação de geradores infinitesimais de semigrupos de contração 87

Se iA é auto-adjunto, então A e −A são geradores infinitesimais de um C 0 −semigrupo


de contrações. Tomando B = −A em Teorema 6.4.2 temos a estimativa com α = 1 e
β = 0, mas A + B restrito a D(A) não é fechado. Neste exemplo simples, entretanto o
fecho de A + B; isto é, o operador nulo no espaço todo, é o gerador infinitesimal de um
C 0 −semigrupos de contrações. Nosso próximo teorema mostra sobre certas hipóteses, que
esse é sempre o caso.

Teorema 6.4.4. Seja A o gerador infinitesimal de um C 0 −semigrupo de contrações. Seja


B um operador dissipativo tal que D(A) ⊂ D(B) e

kBxkX 6 kAxkX + βkxkX , para todo x ∈ D(A),

onde β > 0 é uma constante. Se B ∗ , é o adjunto de B, está densamente definido então o


fecho A + B = A + B é o gerador infinitesimal de um C 0 −semigrupos de contrações.

Demonstração: A+B é dissipativo e densamente definido já que A é m−dissipativo e B


é dissipativo com D(A) ⊂ D(B). Portanto, do Teorema 3.2.7, o operador A+B é fechável
e seu fecho A + B é dissipativo. Para provar que A + B é o gerador infitesimal de um
C 0 −semigrupo de contrações é suficiente mostrar que Im(I − A + B) = X. Como A + B
é dissipativo e fechado segue do Lema 3.2.4 que Im(I − A + B) é fechada e portanto é
suficiente mostrar que Im(I − A + B) é densa em X.

Seja y ∗ ∈ X ∗ tal que hy ∗ , zi = 0 para todo z ∈ Im(I − A + B). Seja y ∈ X tal que
ky ∗ kX ∗ 6 hy ∗ , yi. Do Corolário 6.4.3 segue que A + tB é m−dissipativo para 0 6 t < 1 e
portanto a equação
x − Ax − tBx = y

tem uma única solução xt para todo 0 6 t < 1. Mais ainda, como A + tB é dissipativo
kxt kX 6 kykX . Da nossa hipótese, temos

kBxt kX 6 kAxt kX + βkxt kX 6 k(A + tB)xt kX + tkBxt kX + βkxt kX


6 ky − xt kX + tkBxt kX + βkxt kX

e portanto
(1 − t)kBxt kX 6 ky − xt kX + βkxt kX 6 (2 + β)kykX . (6.4.1)
88 Teoremas de perturbação de geradores

Seja z ∗ ∈ D(B ∗ ) então

|hz ∗ , (1 − t)Bxt i| = (1 − t)|hB ∗ z ∗ , xt i|


6 (1 − t)kB ∗ z ∗ kX kykX → 0,

quando t → 1. Como D(B ∗ ) é denso em X e por (6.4.1), (1 − t)Bxt é uniformemente


limitada, segue que (1 − t)Bxt tende fracamente a zero quando t → 1. A nossa escolha
particular de y ∗ temos

ky ∗ kX ∗ 6 hy ∗ , yi = hy ∗ , xt − Axt − tBxt i
hy ∗ , (1 − t)Bxt i → 0, quando t → 1,

o que implica y ∗ = 0 e portanto a imagem de I − A + B é denso em X.


Sejam X um espaço de Banach reflexivo e A um operador fechável densamente definido
em X. Sabemos então que A∗ está densamente definido e D(A∗ ) é denso em X ∗ . Assim,
para espaço de Banach reflexivos, temos:

Corolário 6.4.5. Sejam X um espaço de Banach reflexivo e A o gerador infinitesimal de


um C 0 −semigrupo de contrações em X. Seja B um operador dissipativo tal que D(A) ⊂
D(B) e
kBxkX 6 kAxkX + βkxkX , para todo x ∈ D(A),

onde β > 0. Então A + B, o fecho de A+B, é o gerador infinitesimal de um C 0 −semigrupo


de contrações em X.
Capítulo

7
Problema de Cauchy abstrato

7.1 O problema de valor inicial homogêneo


Nesta seção estudaremos o problema linear de valor inicial, ou problema de Cauchy
homogêneo (ou linear), dado por

 du = Au, para t > 0



dt (CH)
u(0) = u0 ∈ X,

onde A : D(A) ⊂ X → X é um operador linear num espaço de Banach X.

Definição 7.1.1. Dizemos que uma função u : R+ → X é uma solução clássica ou


solução forte de (CH) se

u ∈ C(R+ , D(A)) ∩ C 1 ([0, ∞), X)

e u satisfaz (CH).

Teorema 7.1.2. Assuma que A é o gerador infinitesimal do um C 0 -semigrupo {eAt : t >


0} em X. Então as seguintes condições são satisfeitas:

(i) para cada u0 ∈ D(A), o problema (CH) possui uma única solução clássica u;

(ii) as soluções dependem continuamente do dado inicial; isto é, considere uma sequência
n→∞
{un0 }n∈R ⊂ D(A) e assuma que un0 −−−→ u0 ∈ D(A). Se un é a solução clássica de
90 Problema de Cauchy abstrato

(CH) com ponto inicial un0 e u é a solução clássica de (CH) com ponto inicial u0 ,
temos
n→∞
un (t) −−−→ u(t), para cada t > 0.

Demonstração: Provemos primeiramente (i). Se u0 ∈ D(A) então sabemos que

.
u(t) = eAt (t)u0 ∈ C(R+ , D(A)) ∩ C 1 ([0, ∞), X),

pelo Teorema 2.2.1. Além disso, u satisfaz (CH) e portanto u é uma solução clássica.
Assuma agora que u1 é uma outra solução clássica de (CH). Fixe t > 0 e defina a
função ψ : [0, t] → X por
ψ(s) = eAt (t − s)u1 (s).

Temos

d
ψ(s) = −AeAt (t − s)u1 (s) + eAt (t − s)Au1 (s) = 0, para todo s ∈ (0, t),
ds

assim ψ é constante, e da continuidade de ψ segue que

u(t) = eAt (t)u0 = ψ(0) = ψ(t) = u1 (t),

o que mostra a unicidade e conclui o item (i).


O item (ii) é uma simples consequência do fato de que, para cada t > 0, a aplicação eAt
é um operador linear limitado de X, e portanto, contínuo. Isto conclui a demonstração.

7.2 Aplicações

Nesta seção resolveremos algumas EDP’s lineares, usando as técnicas desenvolvidas


nos capítulos anteriores.

7.2.1 Equação da onda unidimensional

Nesta subseção estudaremos a equação da onda unidimensional com condições iniciais,


e com condições de fronteira de Dirichlet nulas, dada por
7.2 Aplicações 91




 utt = uxx , t > 0, 0 < x < 1


 u(t, 0) = u(t, 1) = 0, t > 0



 u(0, x) = u0 (x), 0 < x < 1


 ut (0, x) = u1 (x), 0 < x < 1.

Formulação abstrata do problema: Defina v = ut . Assim, temos vt = utt = uxx e podemos


escrever " # " # " #" #
d u v 0 1 u
= = .
dt v uxx ∂xx 0 v
. .
Assim, usando a notação z = [ uv ], z0 = [ uu01 ] e A = ∂xx
 0 1
0 temos

 dz = Az,

dt (7.2.1)
z(0) = z0 ,

onde nos falta escolher o espaço de Banach X e o domínio D(A) do operador A adequados
para trabalharmos, e garantir que A gere um C 0 -semigrupo em X. Uma das maneiras de
escolhermos estes espaços adequadamente é olhar para a energia do sistema; e para isto,
multiplicando a equação acima por v = ut e integrando no intervalo [0, 1] (isto é, tomando
o produto interno da equação com ut em L2 (0, 1)) temos
Z 1 Z 1
utt ut dx = uxx ut dx,
0 0

o que nos dá (assumindo as diferenciabilidades adequadas) que

=0
Z 1 1
z }| { Z
1d 1d 1
kvk2L2 (0,1) = 2
|v| dx = vux 0 −
ux vx dx
2 dt 2 dt 0 0 (7.2.2)
1d 1
Z
1d
= |ux |2 dx = k∂x uk2L2 (0,1) .
2 dt 0 2 dt

.
Definindo assim E(t) = 12 (k∂x uk2L2 (0,1) + kvk2L2 (0,1) ) temos d
dt
E(t) = 0, o que nos dá que
E(t) = E(0) para todo t > 0 (desde que a solução esteja definida até t) que

1 1
E(t) = (k∂x u(0)k2L2 (0,1) + kv(0)k2L2 (0,1) ) = (k∂x u0 k2L2 (0,1) + ku1 k2L2 (0,1) ),
2 2

e isto nos indica que o espaço X adequado para trabalharmos é X = H01 (0, 1) × L2 (0, 1),
92 Problema de Cauchy abstrato

com norma
k[ uv ]kX = k∂x uk2L2 (0,1) + kvk2L2 (0,1) ,

que é um espaço de Hilbert (verifique).


Agora, para escolher D(A), lembre-se que devemos escolhê-lo de forma que A seja um
operador fechado, densamente definido. Olhando para (7.2.2), vemos que as diferenciabi-
lidades (fracas) que usamos para realizar adequadamente todas os passos foram: v deve
ter vx bem definida, isto é v ∈ H 1 (0, 1); e além disso, devemos ser capazes de integrar
uxx ut , e como ut = v ∈ L2 (0, 1), é suficiente que uxx ∈ L2 (0, 1). Assim devemos ter

A [ uv ] = [ uvxx ] ∈ X,

e portanto escolhemos
D(A) = {[ uv ] ∈ X : A [ uv ] ∈ X}.

Vamos agora dar uma caracterização explícita de D(A). Para isto, seja [ uv ] ∈ D(A).
Como ux x existe e está em L2 (0, 1), segue que u ∈ H 2 (0, 1) ∩ H01 (0, 1). Além disso,
v ∈ H01 (0, 1) e portanto

D(A) ⊂ [H 2 (0, 1) ∩ H01 (0, 1)] × H01 (0, 1).

Reciprocamente, é simples ver que D(A) ⊃ [H 2 (0, 1) ∩ H01 (0, 1)] × H01 (0, 1), e portanto

D(A) = [H 2 (0, 1) ∩ H01 (0, 1)] × H01 (0, 1).

H01 (0,1)
Ainda, como C0∞ (0, 1) ⊂ H 2 (0, 1) ∩ H01 (0, 1) e C0∞ (0, 1) = H01 (0, 1), segue que

H01 (0,1)
H 2 (0, 1) ∩ H01 (0, 1) = H01 (0, 1).

L2 (0,1)
Analogamente, C0∞ (0, 1) ⊂ ∩H01 (0, 1) e C0∞ (0, 1) = L2 (0, 1), logo

L2 (0,1)
H01 (0, 1) = H01 (0, 1).

X
Consequentemente, mostramos que D(A) = X; isto é, A é densamente definido.

Exercício 7.2.1. Mostre que A : D(A) ⊂ X → X é um operador fechado.

Geração de semigrupo: Mostremos primeiramente que A é um operador dissipativo. Se


7.2 Aplicações 93

[ uv ] ∈ D(A) temos
Z 1 Z 1
hA [ uv ] , [ uv ]iX = h[ uvxx ] , [ uv ]iX = vx ux dx + uxx vdx = 0.
0 0

f 
Mostremos ainda que A é m-dissipativo; isto é, Im(I − A) = X; isto é, dado g ∈ X,
 
existe [ uv ] ∈ D(A) tal que (I − A) [ uv ] = fg .
u−v
f 
Tal [ uv ] ∈ D(A) existe se, e somente se, existe [ uv ] ∈ D(A) tal que [ v−uxx
]= g .

A formulação variacional para a equação u − uxx = f + g é dada por


Z 1 Z 1 Z 1
uφdx + ux φx dx = (f + g)φdx, para toda φ ∈ H01 (0, 1).
0 0 0

Em H = H01 (0, 1) definimos a forma bilinear a : H × H → R, dada por


Z 1 Z 1
a(u, φ) = uφdx + ux φx dx = hu, φiL2 (0,1) + hu, φiH01 (0,1) ,
0 0

e mostremos que a é contínua e coerciva.


De fato, temos

|a(u, φ)| 6 kukL2 (0,1) kφkL2 (0,1) + kukH01 (0,1) kφkH01 (0,1)
6 2kukH01 (0,1) kφkH01 (0,1) ,

onde para a última desigualdade utilizamos a desigualdade de Poincaré em (0, 1)1 . Por-
tanto a é contínua. Além disso

|a(u, u)| = hu, uiL2 (0,1) + hu, uiH01 (0,1) > hu, uiH01 (0,1) ,

portanto a é coerciva. Defina o funcional linear contínuo (verifique) ξ ∈ H ∗ por


Z 1
ξ(φ) = (f + g)φdx.
0

Assim, do Teorema de Lax-Milgram, existe um único u ∈ H tal que

a(u, φ) = ξ(φ), para todo φ ∈ H,

1
kukL2 (0,1) 6 kukH01 (0,1) , para toda u ∈ H01 (0, 1). Verifique este fato.
94 Problema de Cauchy abstrato

ou seja, existe um único u ∈ H tal que


Z 1 Z 1 Z 1
uφdx + ux φx dx = (f + g)φdx, para toda φ ∈ H01 (0, 1),
0 0 0

o que implica que uxx está bem definida e u − uxx = f + g em L2 (0, 1). Portanto
u ∈ H 2 (0, 1) ∩ H01 (0, 1). Definindo v = u − f ∈ H01 (0, 1) concluímos a prova de que
Im(I − A) = X.
Segue então do Teorema de Lumer-Philips que A é o gerador infinitesimal de um
C 0 -semigrupo de contrações {eAt : t > 0}.
Do Teorema 7.1.2 seque que para cada z0 ∈ D(A), existe uma única solução

z ∈ C([0, ∞), D(A)) ∩ C 1 ([0, ∞), X)

de (7.2.1). Podemos ainda facilmente ver que, se z = [ uv ] então

u ∈ C([0, ∞), H 2 (0, 1) ∩ H01 (0, 1)) ∩ C 1 ((0, ∞), H01 (0, 1)) ∩ C 2 ([0, ∞), L2 (0, 1)),

onde usamos que (verifique) Az ∈ C([0, ∞), X) e

k [ uv ] k2H 2 (0,1)×H 1 (0,1) 6 2(k [ uv ] k2X + kA [ uv ] kX ) = 2k [ uv ] kY1 .


0

7.2.2 Equação da onda dissipativa


Agora estudaremos a seguinte equação de ondas



 utt − ∆u + a(x)ut = 0, x ∈ Ω, t > 0


 u = 0, x ∈ ∂Ω



 u(0, x) = u0 (x), x∈Ω


 ut (0, x) = u1 (x), x ∈ Ω,

onde Ω ⊂ Rn é um subconjunto aberto, limitado e com ∂Ω suave, e a ∈ L∞ (Ω) com


a(x) > 0 para x ∈ Ω.
Formulação abstrata: Novamente, façamos v = ut , z = [ uv ], z0 = [ uu01 ], e a equação acima
se torna
 dz = Az,

dt (7.2.3)
z(0) = z0 ,

7.2 Aplicações 95

0 I

onde A = ∆ −a(x) .

Exercício 7.2.2. Como na equação da onda unidimensional, multiplique a equação por


ut , assumindo as regularidades necessárias (diga quais são), e integrando o resultado em
Ω, mostre que se
Z Z 
. 1 1 1
E(t) = k∇uk2L2 (Ω) + kvk2L2 (Ω) = 2
|∇u| dx + 2
|v| dx ,
2 2 2 Ω Ω

então Z
d
E(t) = − a(x)|v|2 dx,
dt Ω

e portanto Z tZ
E(t) + a(x)|v|2 dx = E(0).
0 Ω
Com o exercício acima, podemos definir novamente X = H01 (Ω) × L2 (Ω) com produto
interno
h[ w
 w̃1 
w2 ] , w̃2 iX = hw1 , w̃1 iH01 (Ω) + hw2 , w̃2 iL2 (Ω) ,
1

e além disso definimos, como anteriormente

D(A) = {[ uv ] ∈ X : A [ uv ] ∈ X}.

Geração de semigrupo:

Exercício 7.2.3. Mostre que:

1. D(A) = (H 2 (Ω) ∩ H01 (Ω)) × H01 (Ω).

2. A é densamente definido e fechado.

3. A é dissipativo.

4. Im(I − A) = X.

Pelo Teorema de Lumer-Philips, A é o gerador de um C 0 -semigrupo de contrações, e


pelo Teorema 7.1.2, dado z0 ∈ D(A), existe uma única solução clássica z de (7.2.3) a e

z ∈ C([0, ∞), D(A)) ∩ C 1 ([0, ∞), X),

e se z = [ uv ] então

u ∈ C([0, ∞), H 2 (Ω) ∩ H01 (Ω)) ∩ C 1 ([0, ∞), H01 (Ω)) ∩ C 2 ([0, ∞), L2 (Ω)).
96 Problema de Cauchy abstrato

Observação 7.2.4. Para obtermos soluções mais regulares, p.e. u ∈ C 3 ([0, ∞), L2 (Ω)),
basta considerarmos dados iniciais em D(A2 ).

7.2.3 Equação de placas


Considere e equação

u + ∆2 u + u = 0, x ∈ Rn , t > 0
 tt


u(0, x) = u0 (x)


ut (0, x) = u1 (x).

Formulação abstrata: Como anteriormente, para v = ut , z = [ uv ], z0 = [ uu01 ] e A =


 0 I
−∆2 −I 0 o problema se torna
 dz = Az,

dt (7.2.4)
z(0) = z0 .

Encontremos uma energia adequada para esta equação, de modo a encontrar o espaço
X e o domínio D(A) do operador. Multiplicando a equação por ut e integrando em Rn ,
obtemos
Z Z Z
2
0= utt ut dx + ∆ uut dx + uut dx
n n n
ZR ZR ZR
= utt ut dx + ∆u∆ut dx + uut dx
Rn Rn Rn
Z
1d
= (|v|2 + |∆u|2 + |u|2 )dx
2 dt Rn
1d
= (kuk2L2 + k∆uk2L2 + kvk2L2 )
2 dt
1d
= (kuk2H 2 + kvk2L2 ),
2 dt

o que nos leva a escolher X = H 2 × L2 com a o produto interno adequado à norma que
aparece na última igualdade da expressão acima. Ainda, para o cálculo desta integral,
precisamos que ∆2 u ∈ L2 ; isto é, u ∈ H 4 e além disso necessitamos que v = ut ∈ H 2 .
Assim, escolhemos

D(A) = H 4 × H 2 (= {[ uv ] ∈ X : A [ uv ] ∈ X}).

Exercício 7.2.5. Mostre que:


7.2 Aplicações 97

2. A é densamente definido e fechado.

3. A é dissipativo.

4. Im(I − A) = X (Dica: use o seguinte fato de regularidade de soluções elípticas: se ∆2 φ ∈ L2 ,


então φ ∈ H 4 ).

Pelo Teorema de Lumer-Philips, A é o gerador infinitesimal de um C 0 -semigrupo de


contrações. Ainda, do Teorema eqrefeq:Linear, concluímos que para cada z0 ∈ D(A)
existe uma única solução clássica z de (7.2.4) e

z ∈ C([0, ∞, D(A)) ∩ C 1 ([0, ∞), X)).

Se z = [ uv ], então

u ∈ C([0, ∞), H 4 ) ∩ C 1 ([0, ∞), H 2 ) ∩ C 2 ([0, ∞), L2 ).

7.2.4 Equação de Schrödinger (parte 1)


Vamos estudar nesta subseção e seguinte equação

 ut − i∆u = 0, x ∈ Rn , t > 0
 u(0, x) = u0 (x).

Para o espaço de energia, multiplicamos a equação por u e integramos em Rn , para


encontrar
1d
kuk2L2 + ik∇uk2H 1 = 0,
2 dt 0

e tomando a parte real e integrando em (0, t), obtemos

kuk2L2 = ku0 kL2 .

Assim, escolhemos X = L2 , e como precisamos de u ∈ H 2 para calcular esta integral,


tomamos D(A) = H 2 , onde A = i∆. Mostremos que −iA = ∆ é auto-adjunto, donde
seguirá que iA é auto-adjunto.
De fato, ∆ é simétrico por para u, v ∈ H 2 , temos
Z Z
h∆u, viL2 = ∆uvdx = u∆vdx = hu, ∆viL2 .
Ω Ω
98 Problema de Cauchy abstrato

Agora, mostremos que 1 ∈ ρ(∆) e que Im(I − ∆) = L2 , o que mostra que ∆ é


auto-adjunto, pelo Corolário 1.5.9. Notemos que ∆ é dissipativo, pois
Z
h∆u, uiL2 = − |∇u|2 dx 6 0,
Rn

para todo u ∈ H 2 . Assim kukL2 6 k(I − ∆u)kL2 , para todo u ∈ H 2 , e mostra que (I − ∆)
é injetivo. Assim (I − ∆)−1 : Im(I − ∆) → L2 está bem definido e

k(I − ∆)−1 vkL2 6 kvkL2 ,

logo 1 ∈ ρ(∆). Resta-nos mostrar que Im(I − ∆) = L2 ; e para isto, defina a forma bilinear
a : H 1 × H 1 → R por
a(u, φ) = hu, φiL2 + hu, φiH 1 .

Como antes, a é contínua e coerciva, e para o funcional linear contínuo ξ(φ) = hf, φiL2
em (H 1 )∗ , o Teorema de Lax-Milgram nos dá a existência de um único u ∈ H 1 tal que
a(u, φ) = ξ(φ) para todo φ ∈ H 1 , o que nos dá que (I − ∆)u = f em L2 . Usando a
regularidade elíptica, vemos que u ∈ H 2 , o que mostra o desejado.
Segue do Teorema de Stone que A gera um C 0 -grupo unitário em L2 . Ainda, para
cada u0 ∈ D(A), existe uma única solução clássica u da equação de Schödinger, que está
definida para todo t ∈ R e além disso

ku(t)kL2 = ku0 kL2 , para todo t ∈ R.

7.2.5 Equação de Schrödinger (parte 2)


Nesta subseção estudaremos uma perturbação limitada da equação de Shrödinger que
estudamos na parte 1, dada por

 ut − i∆u = iαu, x ∈ Rn , t > 0
 u(0, x) = u0 (x),

onde α ∈ R está fixado. Sabemos da Parte 1 acima que A = i∆ é o gerador infinitesimal de


um C 0 -grupo unitário. Além disso, se definirmos o operador linear limitado B : L2 → L2
dado por Bu = iαu, temos

RehBu, uiL2 = Re(iαkuk2L2 ) = 0,


7.3 O problema de Cauchy não-homogêneo 99

e portanto B é dissipativo. Segue então do Teorema 6.4.4 que A + B é o gerador infini-


tesimal de um C 0 -semigrupo de contrações.

7.3 O problema de Cauchy não-homogêneo


A seguir estudamos problemas de Cauchy não-homogêneos da forma

 du = Au + f (t), para t0 < t < t1



dt (CnH)
u(t0 ) = u0 ∈ X

onde A : D(A) ⊂ X → X é o gerador de um C 0 -semigrupo {eAt : t > 0} em X e


f : [t0 , t1 ) → X é contínua por partes e contínua à direita.

Definição 7.3.1.

(a) Uma solução forte de (CnH), é uma função contínua u : [t0 , t1 ) → X tal que
u(t0 ) = u0 e para t0 < t < t1 , u(t) ∈ D(A),

d+ u(t + h) − u(t)
u(t) = lim+ existe e
dt h→0 h

d d+ d+
(CnH) vale com dt
u(t) substituída por dt
u(t) e t 7→ dt
u(t) é contínua onde f é
contínua.
Note que se t 7→ f (t) é uma função contínua e t 7→ u(t) é uma solução forte de
(CnH) então t 7→ u(t) é contínuamente diferenciável e (CnH) se verifica para cada
t ∈ (t0 , t1 ).

(b) Uma solução fraca de (CnH) em [t0 , t1 ) é uma função contínua u : [t0 , t1 ) → X
tal que u(t0 ) = u0 e para todo u∗ ∈ D(A∗ ), t 7→ hu∗ , u(t)i tem derivada à direita e

d+ ∗
hu , u(t)i = hA∗ u∗ , u(t)i + hu∗ , f (t)i, t 0 < t < t1 . (7.3.1)
dt

Note que se t 7→ hu∗ , f (t)i é uma função contínua e t 7→ u(t) é uma solução fraca
de (CnH) então t 7→ hu∗ , u(t)i é contínuamente diferenciável e (7.3.1) se verifica
d+ d
com dt
substituída por dt
.

Definição 7.3.2. Um subconjunto S ∗ ⊂ X ∗ é dito total se dado x ∈ X tal que hx∗ , xi = 0,


para todo x∗ ∈ S ∗ , então x = 0.
100 Problema de Cauchy abstrato

O anulador S ⊥ ⊂ X ∗ de um subconjunto S ⊂ X é o conjunto de todos os elementos


x∗ ∈ X ∗ tais que hx∗ , xi = 0, para todo x ∈ S. Sabemos que se S ⊂ X é um subespaço
vetorial então (S ⊥ )⊥ = S̄ (veja [3]).

Lema 7.3.3. Se A : D(A) ⊂ X → X é fechado e densamente definido então D(A∗ ) é


total.

Demonstração Seja x ∈ X tal que hx∗ , xi = 0 para todo x∗ ∈ D(A∗ ). Queremos mostrar
que x = 0.
Temos que o gráfico de A∗ , G(A∗ ) = {(x∗ , A∗ x∗ ) : , x∗ ∈ D(A∗ )}, é o anulador em
X ∗ × X ∗ de S = {(−Ax, x) : x ∈ D(A)}; isto é, G(A∗ ) = S ⊥ . Note que G(A∗ ) também
anula (x, 0), segue que (x, 0) ∈ G(A∗ )⊥ = S e portanto x = 0.

O teorema a seguir nos dá formas de manuseio mais simples para as soluções fracas e
estabelece algumas relações importantes entre soluções fracas e fortes.

Teorema 7.3.4. São válidas as seguintes afirmações:

1. se u : [t0 , t1 ) → X é uma solução forte de (CnH) então é também uma solução fraca
de (CnH).

2. Se u : [t0 , t1 ) → X é uma solução fraca de (CnH), então


Z t
A(t−t0 )
u(t) = e u0 + eA(t−s) f (s)ds, t0 6 t < t1 . (7.3.2)
t0

Em particular, existe uma única solução fraca de (CnH).

3. Se u : [t0 , t1 ) → X é definida por (7.3.2), então u : [t0 , t1 ) → E0 é uma solução fraca


de (CnH).

4. Se u : [t0 , t1 ) → X é uma solução fraca e para algum t ∈ (t0 , t1 ) ou u(t) ∈ D(A) ou


d+
dt
u(t) existe, então ambos são verdadeiros e para este instante

d+
u(t) = Au(t) + f (t).
dt

Demonstração: A afirmativa 1 é trivial. Provaremos 3 e a unicidade de soluções fracas,


o que implicará 2.
7.3 O problema de Cauchy não-homogêneo 101

Prova de 3. Defina u : [t0 , t1 ) → X por (7.3.2) e seja x∗ ∈ D(A∗ ). Para qualquer


x ∈ X t 7→ hx∗ , eAt xi é diferenciável com derivada hA∗ x∗ , eAt xi pois
Z t
∗ ∗
At
hx , e xi − hx , xi = hA∗ x∗ , eAs xids,
0

d+
para x ∈ D(A) e por continuidade para todo x ∈ X. Usando isto calculamos dt
hx∗ , u(t)i
e vemos que u : [t0 , t1 ) → X é uma solução fraca; de fato,
Z t+h Z t
∗ A(t+h−s) ∗
hx , e f (s)dsi − hx , eA(t−s) f (s)dsi
t0 t0
t+h
Z Z t
∗ A(t+h−s) ∗
= hx , e f (s)dsi − hx , (e − I) eA(t−s) f (s)dsi
Ah
t Z t t0
∗ ∗ ∗ A(t−s)
= h[hx , f (t)i + hA x , e f (s)dsi] + o(h),
t0

onde na última passagem utilizamos que A∗ é o gerador infinitesimal do semigrupo forte-


∗ X∗
mente contínuo {eA t = (eAt )∗ : t > 0} em Y = D(A∗ ) (veja Teorema 3.1.4).

Prova da unicidade em 2. Se existem duas soluções de (CnH), a diferença entre elas


d+
v : [t0 , t1 ) → X é uma função contínua com v(t0 ) = 0 e dt
hx∗ , v(t)i = hA∗ x∗ , v(t)i,
t0 6 t Z< t1 e x∗ ∈ D(A∗ ). É conveniente trabalhar com uma função C 1 , logo seja
t
V (t) = v(s)ds; então
t0 Z t

hx , v(t)i = hA∗ x∗ , v(s)ids
t0

e hx∗ , dtd V (t)i = hA∗ x∗ , V (t)i.

Agora observe que (eAt )∗ D(A∗ ) ⊂ D(A∗ ) para t > 0, já que h(eAt )∗ x∗ , Axi = hA∗ x∗ , eAt xi
para x∗ ∈ D(A∗ ), x ∈ D(A). Logo, para qualquer t∗ ∈ (t0 , t1 )

∗ −t) d ∗
hx∗ , eA(t V (t)i = hA∗ x∗ , eA(t −t) V (t)i
dt

e d
dt
hx∗ , eA(t −t) V (t)i = 0 para t0 6 t 6 t∗ .

Como V (t0 ) = 0, hx∗ , V (t∗ )i = 0 para todo x∗ ∈ D(A∗ ), portanto V (t∗ ) = 0 e v(s) = 0
para t0 6 s 6 t1 .

Prova de 4. Se u(·) é uma solução fraca, dada por (7.3.2), então para t0 6 t < t+h < t1

t+h
u(t + h) − u(t)
Z
1 1
= eA(t+h−s) f (s)ds + (eAh − I)u(t).
h h t h
102 Problema de Cauchy abstrato

O termo do meio converge para f (t+ ) = f (t) quando h → 0+ , logo se um dos outros
termos converge, ambos devem convergir.

A seguir damos condições simples que asseguram a diferenciabilidade de uma solução


fraca.
Teorema 7.3.5. Assuma que A e f são como antes e u : [t0 , t1 ) → E0 é uma solução
fraca de (CnH). Se u0 ∈ D(A) e/ou
1. f (t) ∈ D(A) com t 7→ Af (t) ∈ X contínua à direita em [t0 , t1 ) ou
d+
2. dt
f (t) existe e é contínua à direita em [t0 , t1 ),
d+
então existe, u(t) ∈ D(A) e u : [t0 , t1 ) → E0 é uma solução forte de (CnH).
dt
u(t)
Z t
Demonstração: Seja v(t) = eA(t−s) f (s)ds, logo u(t) = eA(t−t0 ) u0 + v(t); como u0 ∈
t0
D(A), t 7→ eA(t−t0 ) e0 é continuamente diferenciável. Se t0 6 t < t + h < t1 , temos
Z t+h Z t
v(t + h) − v(t) Ah
− I f (s)ds
= 1 e A(t+h−s)
f (s)ds + eA(t−s) e
h h h
Zt t0 +h Zt0 t (7.3.3)
f (s + h) − f (s)
= 1 eA(t+h−s) f (s)ds + eA(t−s) ds
h t0 t0
h

e usando as primeira e segunda expressões nos casos 1 e 2 respectivamente, vemos que


Z t
d+ v(t) = f (t) + eA(t−s) Af (s)ds, no caso (1),
dt t0 Z t
+
=eA(t−t0 )
f (t0 ) + eA(t−s) ddt f (s)ds, no caso (2).
t0

Pelo Teorema 7.3.4, item 4, v(t) ∈ D(A) e a prova está completa.

7.4 O problema de Cauchy semilinear - caso hiperbólico


Nesta seção consideramos o problema de valor inicial

 d u = Au + f (t, u), para t0 < t < t1



dt (CsL)
u(t0 ) = u0 ∈ X,

onde A é o gerador de um C 0 -semigrupo, f é uma função contínua que está definida em


um subconjunto U de R × E0 e toma valores em X e (t0 , u0 ) ∈ U .
7.4 O problema de Cauchy semilinear - caso hiperbólico 103

Definição 7.4.1.

(a) Uma solução forte de (CsL) em [t0 , t1 ) é uma função contínua u : [t0 , t1 ) → X
tal que u : (t0 , t1 ) → u0 é continuamente diferenciável, u(t0 ) = u0 , (t, u(t)) ∈ U ,
u(t) ∈ D(A) e (CsL) vale para t0 < t < t1 .

(b) Uma solução fraca de (CsL) em [t0 , t1 ) é uma função contínua u : [t0 , t1 ) → X tal
que u(t0 ) = u0 (t, u(t)) ∈ U , para todo x∗ ∈ D(A∗ ), t 7→ hx∗ , u(t)i é diferenciável e

d ∗
hx , u(t)i = hA∗ x∗ , u(t)i + hx∗ , f (t, u(t))i, t 0 < t < t1 . (7.4.1)
dt

Com isto temos o seguinte teorema

Teorema 7.4.2. São válidas as seguintes afirmações:

1. se u : [t0 , t1 ) → X é uma solução forte de (CsL) então é também uma solução fraca
de (CsL).

2. Uma solução fraca u : [t0 , t1 ) → X de (CsL) é também uma solução forte se, e
somente se, é continuamente diferenciável em (t0 , t1 ). Isto é válido se, e somente
se, u(t) ∈ D(A) com t 7→ Au(t) contínua em (t0 , t1 ).

3. Se u : [t0 , t1 ) → X é uma solução fraca de (CsL), então


Z t
A(t−t0 )
u(t) = e u0 + eA(t−s) f (s, u(s))ds, t0 6 t < t 1 . (7.4.2)
t0

4. Se u : [t0 , t1 ) → X é contínua com (t, u(t)) ∈ U , t0 6 t < t1 e satisfaz (7.4.2), então


u : [t0 , t1 ) → X é uma solução fraca de (CsL).

Demonstração: As afirmativas do teorema seguem imediatamente do Teorema 7.3.4


uma vez que [t0 , t1 ) 3 t 7→ f (t, u(t)) ∈ X é uma função contínua.

Teorema 7.4.3. Assuma que A é o gerador de um C 0 -semigrupo {eAt : t > 0}, U ⊂ R×E0
um aberto e f : U → X é contínua, e localmente Lipschitz contínua em sua segunda
variável; isto é, dado (t0 , u0 ) ∈ U existe δ > 0 e L tal que

kf (t, u1 ) − f (t, u2 )kX 6 Lku1 − u2 kX , (7.4.3)

quando |t − t0 | 6 δ e kui − u0 kX 6 δ, i = 1, 2. Então, dado qualquer (t0 , u0 ) ∈ U existe


t1 > t0 e uma solução fraca u : [t0 , t1 ) → X de (CsL).
104 Problema de Cauchy abstrato

Adicionalmente, qualquer solução fraca ũ : [t0 , t̃1 ) → X é tal que ũ(t) = u(t) para
t0 6 t < min{t1 , t̃1 }.

Demonstração: Existem δ > 0 e constantes L, M tais que se t0 6 t 6 t0 +δ, kui −u0 kX 6


δ, i = 1, 2, então
kf (t, u1 ) − f (t, u2 )kX 6 Lku1 − u2 kX
kf (t, u1 )kX 6 M.

Escolha t1 > t0 tal que


 
δ 1
0 < t1 − t0 6 min , , δ,  ,
2M M0 2M0 L

onde keAτ kL(X) 6 M0 , 0 6 τ 6 , keAτ u0 − u0 kX 6 2δ , quando 0 6 τ 6 .


Seja S o conjunto das funções contínuas u : [t0 , t1 ] → X tal que ku(t) − u0 kX 6 δ, para
t0 6 t 6 t1 . Se u, ũ ∈ S, defina d(u, ũ) = supt0 6t6t1 ku(t) − ũ(t)kX ; então (S, d) é um
espaço métrico completo. Para u ∈ S defina G(u) : [t0 , t1 ] → X por
Z t
A(t−t0 )
G(u)(t) = e u0 + eA(t−s) f (s, u(s))ds, para t0 6 t 6 t1 .
t0

Então G(S) ⊂ S, d(G(u), G(ũ)) 6 21 d(u, ũ) para u, ũ ∈ S e, do Princípio da Contração


de Banach, G tem um único ponto fixo em S. Isto prova a afirmativa, usando os itens 3
e 4 do Teorema 7.4.2.

A seguir obtemos resultados sobre extensões de soluções de (CsL) e a existência de


intervalos maximais de definição para soluções de (CsL). Estes resultados são essenciais
no estudo do comportamento assintótico de soluções de (CsL) permitindo, em muitos
casos, obter a existência global de soluções através de alguma estimativa a priori.

Teorema 7.4.4. Assuma que A, U e f são como no Teorema 7.4.3. Para (t0 , u0 ) ∈ U
existe uma única solução fraca maximal u : [t0 , τmax ) → X de (CsL). Para esta solução
suponha que τmax < ∞. Então ou existe u1 ∈ X tal que (τmax , u1 ) ∈ ∂U e u(t) → u1

quando t → τmax ou
kf (t, u(t))kX
lim sup = ∞.

t→τmax 1 + ku(t)kX

Se U = R × E0 e f leva subconjunto limitados de R × E0 em subconjuntos limitados


de X o segundo caso só ocorre se lim supt→τmax
− ku(t)kX = ∞.
7.4 O problema de Cauchy semilinear - caso hiperbólico 105

Demonstração: Seja

τmax = sup{t1 : existe uma solução de (CsL) definida em [t0 , t1 )}.

Para qualquer t ∈ [t0 , τmax ) defina u(t) = {o valor em t de uma solução fraca ũ : [t0 , t1 ) →
X de (CsL), t1 > t}. Toda solução fraca dá o mesmo valor para u(t), pelo Teorema 7.4.3,
e u : [t0 , τmax ) → X é claramente maximal.
Suponha que τmax < ∞ e o limite u1 = limt→τmax
− u(t) exista. Se (τmax , u1 ) ∈ U
existe uma solução fraca ũ : [τmax , τmax + δ] → X para algum δ > 0 com ũ(τmax ) = u1 .
Então se û : [t0 , τmax + δ] → X é dada por û(t) = u(t), t0 6 t < τmax e û(t) = ũ(t),
τmax 6 t 6 τmax + δ, então û é uma solução fraca de (CsL) o que contradiz a definição
de τmax . Portanto, se o limite existe devemos ter (τmax , u1 ) ∈ ∂U .
Mostremos que
kf (t, u(t))kX
6 B < ∞, t0 6 t < τmax ,
1 + ku(t)kX
− u(t) existe e isto completará a prova.
implica que limt→τmax
Primeiramente note que pela desigualdade de Gronwall, ku(t)kX é limitada, logo

kf (t, u(t))kX 6 B1 , t0 6 t < τmax . Provamos que ku(s)−u(r)kX → 0 quando s, t → τmax .
Podemos assumir que keAt kL(X) 6 M , para 0 6 t 6 τmax − t0 . Dado  > 0, esco-
lha 0 < 1 < τmax − t0 com 1 6 
4M B1
. Seja t∗ = τmax − 1 e 0 < δ 6 1 tal que
∗ ∗
k(eA(s−t ) − eA(r−t ) )u(t∗ )kX 6 
4
se |s − r| 6 δ. Então para t∗ 6 τmax − δ 6 s, r < τmax ,
Z s
A(s−t∗ ) ∗
u(s) = e u(t ) + eA(s−θ) f (θ, e(θ))dθ,
t∗

Z s Z r

logo, se s 6 r, ku(s) − u(r)kX 6 4
+2 M B1 dθ + M B1 dθ 6 .
t∗ s

Teorema 7.4.5. Assuma que A, U e f são como no Teorema 7.4.3 e suponha que
u : [t0 , t1 ) → X é uma solução fraca de (CsL). Se u(t0 ) = u0 ∈ D(A) e f : U → X
é continuamente diferenciável, então u : [t0 , t1 ) → X é continuamente diferenciável e por-
tanto uma solução forte. Adicionalmente

d+
u(t0 ) = Au(t0 ) + f (t0 , u(t0 )).
dt

Observação 7.4.6. É suficiente que (t, u) 7→ ft (t, u) ∈ X seja contínua e que (t, u) 7→
fu (t, u) ∈ L(X) seja fortemente contínua; isto é, (t, u) 7→ fu (t, u)x ∈ X é contínua para
cada x ∈ X.
106 Problema de Cauchy abstrato

Demonstração: Escolha qualquer t2 ∈ (t0 , t1 ); provamos que u é continuamente diferen-


ciável em [t0 , t2 ]. Defina v : [t0 , t1 ) → X a solução fraca de

 v̇ = Av + ft (t, u(t)) + fu (t, u(t))v,
 v(t0 ) = Au0 + f (t0 , u0 ).

Para 0 < h < t1 − t2 , defina ∆h (t) = u(t + h) − u(t) − hv(t), t0 6 t 6 t2 , é suficiente


provar que ∆h (t) = o(h) quando h → 0+ , uniformemente em [t0 , t2 ]. Agora

∆h (t) = (eAh − I − hA)eA(t−t0 ) u0


Z t0 +h
+ (eA(t+h−s) f (s, u(s)) − eA(t−t0 ) f (t0 , u0 ))
Zt0t
+ eA(t−s) [f (s + h, u(s + h)) − f (s, u(s + h)) − hft (s, u(s))]ds
Zt0t
+ eA(t−s) [f (s, u(s + h)) − f (s, u(s)) − hfu (s, u(s))v(s)]ds,
t0

¯
Z 1 somente a expressão da última linha apresenta dificuldades. Denotando fu (s, h) =
onde
fu (s, θu(s + h) + (1 − θ)u(s))dθ, a expressão da última linha se torna
0

Z t
eA(t−s) [f¯u (s, h)∆h (s) + h(f¯u (s, h) − fu (s, u(s)))v(s)]ds.
t0

Como fu é limitada em uma vizinhança do conjunto compacto {(s, u(s)) : t0 6 s 6 t2 },


obtemos Z t
k∆h (t)kX 6 C k∆h (s)kX ds + o(h),
t0

quando h → 0+ uniformemente para t0 6 t 6 t2 , para alguma constante C. Logo


k∆h (t)kX 6 o(h), da desigualdade de Gronwall.

Teorema 7.4.7. Assuma que A, U e f são como no Teorema 7.4.3 e suponha que X é
reflexivo. Se Y1 é D(A) com a norma do gráfico kxkY1 = kxkX +kAxkX , f leva U ∩(R×Y1 )
continuamente em Y1 e
kAf (t, x)kX 6 C(t, x)kxkY1 ,

em U ∩ (R × EA ) onde C : U → R é localmente limitada. Então, qualquer solução fraca


u : [t0 , t1 ) → X de (CsL) com u(t0 ) ∈ D(A) é uma solução forte e kAu(t)−Au(t0 )kX → 0
quando t → t+
0.
7.4 O problema de Cauchy semilinear - caso hiperbólico 107

Demonstração: Seja t0 < t2 < t1 . O método de iteração


Z t
A(t−t0 )
un+1 (t) = e u(t0 ) + eA(t−s) f (s, un (s))ds, para n ∈ N,
t0

convergirá uniformemente em [t0 , t2 ], se a aproximação inicial u0 (t) é escolhida uniforme-


mente próxima a u(t) em [t0 , t2 ]; e podemos ainda assumir que u0 : [t0 , t2 ] → Y1 é contínua
(basta tomar, por exemplo e = u0 (t) = (I − A)−1 u(t) para algum  > 0). Portanto
n→∞
kAu0 (t)kX é limitado e un (t) −−−→ u(t), uniformemente em [t0 , t2 ].

w
Provaremos que kAun (t)kX é uniformemente limitada, u(t) ∈ D(A) com Aun (t) −→
Au(t) e t 7→ Au(t) é contínua.

Primeiro note que {(t, un (t)) : t0 6 t 6 t2 , n ∈ N} está em um subconjunto compacto


de U . Logo
kAf (t, un (t))kX 6 C1 (1 + kAun (t)kX ),

para alguma constante C1 independente de n, t. Portanto


Z t
A(t−t0 )
kAun+1 (t)kX 6 ke Au(t0 )kX + keA(t−s) C1 (1 + kAun (s)kX )ds
Z t t0

6 C2 + C3 kAun (s)kX ds, t0 6 t 6 t2 .


t0

Podemos assumir que C2 > kAu0 (t)kX para t0 6 t 6 t2 , e então se kAun (s)kX 6
C2 eC3 (s−t0 ) em [t0 , t2 ], segue que kAun+1 (t)kX 6 C2 eC3 (t−t0 ) e portanto Aun (t) e Af (t, un (t))
são uniformemente limitadas. Note que o gráfico de A é fechado e portanto fracamente
w
fechado e un (t) → u(t); se uma subsequência é tal que Aun (t) −→ y(t), então u(t) ∈
w w
D(A), Au(t) = y(t). Portanto, Aun (t) −→ Au(t). Semelhantemente Af (t, un (t)) −→
Af (t, u(t)). Ainda t 7→ Au(t), Af (t, u(t)) são fracamente contínuas; por exemplo, dado
x∗ ∈ X ∗ e  > 0, primeiro escolha x∗1 ∈ D(A∗ ) próximo a x∗ e então

|hx∗ , Au(t) − Au(s)i| 6 |hx∗ − x∗1 , Au(t) − Au(s)i| + |hA∗ x∗1 , u(t) − u(s)i|
6 Ckx∗ − x∗1 kX ∗ + kA∗ x∗1 kX ∗ ku(t) − u(s)kX
< ,

se |t − s| é suficientemente pequeno dependendo de x∗1 , . Note que D(A∗ ) é denso em X ∗ ,


já que X é reflexivo (veja Lemma 1.3.3).
108 Problema de Cauchy abstrato

Agora mostramos que t 7→ Au(t) é contínua, ou especificamente,


Z t
t 7→ z(t) ≡ eA(t−s) Af (s, u(s))ds
t0

é contínua. O integrando aqui é pelo menos fracamente contínuo, logo a integral faz
(fraco) sentido. Primeiro observe que
Z t+h
Ah
z(t + h) − z(t) = (e − I)z(t) + eA(t+h−s) Af (s, u(s))ds
t

e kAf (s, u(s))kX é limitado, logo kz(t + h) − z(t)kX → 0 quando h → 0+ para cada t > 0;
isto é, z(t) é contínua à direita. Segue que Au(t) é contínua à direita, logo s 7→ Af (s, u(s))
é também contínua a direita. Agora para cada t0 < t 6 t2
R t0 +h
z(t) − z(t − h) = eA(t−s) Af (s, u(s))ds
R tt−h
0

+ t0
eA(t−h−s) [Af (s + h, u(s + h)) − Af (s, u(s))]ds → 0

quando h → 0+ . Logo z é também contínuo à esquerda, Au(·) é contínua e u é uma


solução forte. O argumento aqui utiliza o Teorema da Convergência Dominada.

Teorema 7.4.8. Assuma que A, U e f são como no Teorema 7.4.3 e suponha que
fn : U → X, n ∈ N também satisfaz as condições do Teorema 7.4.3. Suponha que
u : [t0 , t1 ) → X é uma solução fraca de (CsL) e que fn (t, u) → f (t, u) quando n → ∞
uniformemente para (t, u) em uma vizinhança de cada ponto (τ, u(τ )), t0 6 τ < t1 . Seja
{un,0 } uma sequência em X convergente para u0 ∈ X e un uma solução fraca de

 d un = Aun + fn (t, un (t))



dt (7.4.4)
un (t0 ) = un,0 ,

em um intervalo maximal [t0 , tn ). Dado t0 < t∗ < t1 , para n grande, un está definido em
[t0 , t∗ ]; isto é, tn > t∗ e
lim sup kun (t) − u(t)kX = 0.
n→∞ t0 6t6t∗

Demonstração: Pela compacidade de {(τ, u(τ )) : t0 6 τ 6 t∗ } ⊂ U , podemos escolher


r > 0, L e n > 0 tal que, para y, z na bola fechada de raio r em torno de u(τ ),

kf (τ, y) − f (τ, z)kX 6 Lky − zkX


7.4 O problema de Cauchy semilinear - caso hiperbólico 109

e kfn (τ, y)−f (τ, y)kX 6 n , t0 6 τ 6 t∗ , n → 0 quando n → ∞. Também keAt kL(X) 6 M


em 0 6 t 6 t∗ − t0 .

Escolha n0 tal que n > n0 implica

∗ −t )
M [kun (t0 ) − u(t0 )kX + n (t∗ − t0 )]eM L(t 0
< r.

Então keA(t−t0 ) (un (t0 ) − u(t0 ))kX < r e kun (t) − u(t)kX < r para t próximo a t0 . De
fato, digamos que n > n0 e kun (s) − u(s)kX 6 r para t0 6 s < t 6 t∗ ; então

kun (t) − u(t)kX 6 keA(t−t0 ) (un (t0 ) − u(t0 ))kX


Z t
+k eA(t−s) (fn (s, un (s)) − f (s, un (s)))dskX
Zt0t
+k eA(t−s) (f (s, un (s)) − f (s, u(s)))dskX
t0
6 M kun (t0 ) − u(t0 )kX + M n (t − t0 )
Z t
+ M Lkun (s) − u(s)kX ds.
t0

A desigualdade de Gronwall mostra que kun (t) − u(t)kX < r (se n > n0 ), logo a
desigualdade vale para todo t0 6 t 6 t∗ e

kun (t) − u(t)kE0 6 M [kun (t0 ) − u(t0 )kE0 + n (t − t0 )]eM L(t−t0 ) → 0,

quando n → ∞.

Corolário 7.4.9. Assuma que A, U e f são como no Teorema 7.4.3 e que f é também
continuamente diferenciável. Dado qualquer solução fraca u : [t0 , t1 ) → X e t0 < t∗ <
t1 , existem soluções fortes un : [t0 , t∗ ] → X, n ∈ N, tais que limn→∞ supt0 6t6t∗ kun (t) −
u(t)kX = 0.

Demonstração: Sejam fn = f , un (t0 ) ∈ D(A) com kun (t0 ) − u(t0 )kX → 0 quando
n → ∞. Cada solução fraca un é uma solução forte pelo Teorema 7.4.5.
110 Problema de Cauchy abstrato

7.5 Exemplo: a equação do calor não-linear

Considere o seguinte problema de valor inicial e de fronteira



u = uxx + f (u), 0 < x < 1, t > 0
 t


u(t, 0) = u(t, 1), ux (t, 0) = ux (t, 1), t > 0 (7.5.1)


u(0, x) = u0 (x).

Este problema representa a condução de calor em um anel de comprimento um com


uma fonte que depende da temperatura. Nesta seção provaremos, sob certas condições,
a existência de soluções locais e globais deste problema de valor inicial e de fronteira e
estudaremos o comportamento assintótico das soluções globais.
Começamos introduzindo uma estrutura abstrata conveniente. Seja X = Cp ([0, 1], R)
o espaço de todas as funções contínuas um-periódicas a valores reais com a norma do
supremo; isto é, kukX = supx∈[0,1] |u(x)|. Assim X é portanto o espaço das funções
contínuas em [0, 1] satisfazendo u(0) = u(1). Seja A o operador linear definido em X por
D(A) = {u ∈ X : u, u0 , u00 ∈ X} onde u0 e u00 são a primeira e segunda derivadas de u,
respectivamente. Para u ∈ D(A), Au = u00 .

Lema 7.5.1. O operador A definido acima é o gerador infinitesimal de um semigrupo


analítico compacto {eAt : t > 0} ⊂ L(X).

Demonstração: Como o domínio de A contém todos os polinômios trigonométricos (com


o período um) ele é denso em X pelo teorema de aproximação de Weierstrass. Seja g ∈ X
e λ = ρeiν com ρ > 0 e −π/2 < ν < π/2. Considere o problema de valor de fronteira

 λ2 u − u00 = g, x ∈ (0, 1)
(7.5.2)
 u(0) = u(1), u0 (0) = u0 (1).

Um cálculo direto mostra que este problema tem uma solução u dada por
Z x Z 1 
1 1 1
u(x) = cosh λ(x − y − )g(y)dy + cosh λ(x − y + )g(y)dy
2λ sinh λ
2
0 2 x 2

e que esta solução é única. Denotando por Reλ = µ = ρ cos ν > 0 e usando as desigual-
7.5 Exemplo: a equação do calor não-linear 111

dades elementares

sinh λ > sinh µ , cosh λ(x − y ± 1 ) 6 cosh µ(x − y ± 1 )

2 2 2 2

encontramos
Z x Z 1 
kgkX
|u(x)| 6 cosh µ(x − y − 12 )dy + cosh µ(x − y + 12 )dy
2|λ| sinh µ2 0 x

kgkX
= .
|λ|2 cos ν

Fixando qualquer π/4 < ν0 < π/2 encontramos que

ρ(A) ⊃ Σ(ν0 ) = {λ : | arg λ| < 2ν0 }

e também
k(λ − A)−1 kL(X) 6 (cos ν0 )−1 , para λ ∈ Σ(ν0 ).

Segue então que A é o gerador infinitesimal de um semigrupo analítico {eAt : t > 0}.
Como {eAt : t > 0} é um semigrupo analítico ele é contínuo na topologia uniforme de
operadores para t > 0. Isto é uma consequência imediata da desigualdade
Z h
A(t+h) At
A(t+s)

ke x − e xkX = Ae
xds

0 X

≤ h sup kAe(t+s) kL(X) kxkX 6 Ct hkxkX


s∈[0,h]

para h > 0 e t > 0. Adicionalmente, pelo Teorema de Arzelá-Ascoli, D(A) dotado da


norma do gráfico (Y1 ) está compactamente imerso em X. Segue que para todo λ ∈ Σ(ν0 ),
(λ − A)−1 é um operador compacto e que {eAt : t > 0} é um semigrupo compacto. A
prova está completa.

Segue do Lema 7.5.1 e dos resultados deste capítulo, o seguinte resultado:

Teorema 7.5.2. Para toda função localmente Lipschitz f : R → R e para todo u0 ∈ X


existe um t0 > 0 tal que o problema de valor inicial e de fronteira (7.5.1) tem uma única
solução u(t, x) em [0, t0 ) e ou t0 = ∞ ou se t0 < ∞ então lim supt→t−0 ku(t, ·)kX = ∞.

Agora nos voltamos para o estudo das soluções globais do problema de valor inicial e
112 Problema de Cauchy abstrato

de fronteira (7.5.1) e começamos notando que as condições do Teorema 7.5.2 não implicam
a existência global de soluções de (7.5.1). De fato, escolhendo por exemplo f (s) = s2 e
u0 ≡ 1 é fácil ver que a única solução de (7.5.1) neste caso é u(t, x) = (1−t)−1 que explode
quando t → 1.

Lema 7.5.3. Seja f uma função contínua e u uma solução de (7.5.1) em [0, ∞) então o
conjunto {u(t) : t > 0} é precompacto em X.

Demonstração: Seja ku(t)kX 6 K para t > 0. A continuidade de f implica que


kf (u(t))kX 6 N para alguma constante N . Seja {eAt : t > 0} o semigrupo gerado por A
e recorde que pelo Lema 7.5.1, eAt é compacto para t > 0. Sejam 0 <  < 1, t >  e faça

.
u(t) = eA u(t − ) + [u(t) − eA u(t − )] = u (t) + v (t).

O conjunto {u (t) : t > 1} é precompacto em X pois {u(t − ) : t > 1} é limitado e eA
é compacto. Também,
t
Z
A(t−s)

kv (t)kX =
e f (u(s))ds

t− X

Z t
6 keA(t−s) kL(X) kf (u(s))kX 6 M N
t−

onde M = sup{keAt kL(X) : 0 6 t 6 1}. Portanto {u(t) : t > 1} é totalmente limitado e


portanto pré-compacto. Como {u(t) : 0 6 t 6 1} é compacto o resultado segue.

Lema 7.5.4. Seja f localmente Lipschitz contínua. Se para algum u0 ∈ X o problema


(7.5.1) tem uma solução global limitada u(t, x) então existe uma sequência tk → ∞ tal
que
lim u(tk , x) = φ(x),
tk →∞

onde φ(x) é uma solução do problema de valor de fronteira



 φ00 + f (φ) = 0, x ∈ (0, 1)
 φ(0) = φ(1), φ0 (0) = φ0 (1).
7.5 Exemplo: a equação do calor não-linear 113

Demonstração: Multiplicando a equação (7.5.1) por ut e integrando em x e t temos


Z TZ 1 Z 1 Z 1
|ut | dx dt + 12
2
|ux (T, x)| dx − 2
F (u(T, x))dx
1 0 0Z 0Z (7.5.3)
1 1
6 21 |ux (1, x)|2 dx − F (u(1, x))dx
0 0

Z x
onde F (s) = f (r)dr. Como |u(t, x)| 6 K para alguma constante K, deduzimos de
0
(7.5.3) que Z ∞ Z 1
|ut |2 dx dt < ∞.
1 0

Portanto existe uma sequência tj → ∞ para a qual limtj →∞ ut (tj , x) = 0 quase sempre
em [0, 1], ou limtj →∞ ut (tj ) = 0 em L2 (0, 1). Do Lema 7.5.3 segue que para uma subsequên-
cia de {tj } que denotaremos por {tk } temos limtk →∞ u(tk , x) = φ(x) uniformemente para
0 6 x 6 1. Portanto
lim f (u(tk , x)) = f (φ(x)),
tk →∞

uniformemente para 0 6 x 6 1. Passando o limite quando t → ∞ através da sequência


tk , na equação (7.5.1) no sentido de L2 (0, 1) e usando o fato que Au = u00 é fechado
como um operador em L2 (0, 1) encontramos que φ00 (x) + f (φ(x)) = 0 em L2 (0, 1). Como
f (φ(x)) é contínua a equação vale no sentido clássico. Adicionalmente, as condições de
periodicidade estão satisfeitas para φ(x) já que elas estão satisfeitas para u(t, x).

Corolário 7.5.5. Se f é localmente Lipschitz contínua e f (s) 6= 0 para todo s ∈ R, então


o problema de valor inicial (7.5.1) não tem soluções limitadas.

Demonstração: Se f (s) 6= 0 o problema de valor de fronteira (7.5.4) não tem solução.


De fato, integrando a equação φ00 + f (φ) = 0 em [0, 1] resulta
Z 1
0 0
φ (1) − φ (0) = − f (φ(s))ds 6= 0
0

e portanto as condições de fronteira não podem estar satisfeitas. Portanto pelo Lema
7.5.4 não pode haver solução limitada de (7.5.1).

Teorema 7.5.6. Se f é localmente Lipschitz contínua e sf (s) < 0 para todo s 6= 0


então todas as soluções do problema de valor inicial e de fronteira (7.5.1) são limitadas.
Adicionalmente, toda solução de (7.5.1) tende a zero quando t → ∞.
114 Problema de Cauchy abstrato

Demonstração: A limitação das soluções e ainda mais a estimativa:

max |u(t, x)| 6 max |u(s, x)|, t > s, (7.5.4)


06x61 06x61

são consequências imediatas do princípio do máximo. Portanto todas as soluções do


problema de valor inicial (7.5.1) são limitadas. Adicionalmente do Lema 7.5.4 sabemos
que para alguma sequência tk → ∞, u(tk , x) → φ(x) onde φ é uma solução do problema
de valor de fronteira (7.5.4). Mas a única solução deste problema de valor de fronteira é
φ ≡ 0. Isto pode ser visto multiplicando φ00 + f (φ) = 0 por φ e integrando em [0, 1] para
obter Z 1
|φ0 (x)|2 dx 6 0
0

o que implica φ0 ≡ 0 e φ = const. Contudo a única solução f (s) = 0 é s = 0 e portanto


φ ≡ 0. Portanto temos que
lim u(tk , x) = 0. (7.5.5)
tk →∞

Combinando (7.5.4) com (7.5.5) obtemos que u(t, x) → 0 quando t → ∞.


Apêndice

A
Cálculo de funções vetoriais

A.1 Funções analíticas vetoriais


Se X é um espaço de Banach, r > 0 e x ∈ X, a bola aberta (fechada) de centro em x e
X
raio r em X é denotada por BrX (x) (B r (x)) ou simplesmente por Br (x) (B r (x)) quando
estiver claro qual é o espaço de Banach envolvido.

Se Ω ⊂ C é um conjunto aberto e X é um espaço de Banach sobre C, diremos que


uma função f : Ω → X é analítica em Ω se, para cada λ0 ∈ Ω existe f 0 (λ0 ) ∈ X tal que

f (λ) − f (λ0 )
lim = f 0 (λ0 ).
λ→λ0 λ − λ0

O vetor f 0 (λ0 ) é chamado derivada de f em λ0 . Observe que, se f : Ω → X é analítica


.
e x∗ ∈ X ∗ , então h = x∗ ◦f : Ω → C é analítica e h0 (λ0 ) = x∗ (f 0 (λ0 )). Surpreendentemente
(já que, em geral, convergência fraca não implica convergência forte), a recíproca também
é verdadeira.

Teorema A.1.1. Sejam X um espaço de Banach sobre C, Ω um subconjunto aberto de


C e f : Ω → X uma função tal que x∗ ◦ f : Ω → C é analítica para todo x∗ ∈ X ∗ . Então
f : Ω → X é analítica.

Demonstração: Seja λ0 ∈ Ω. Como X é completo, é suficiente provar que para cada


λ0 ∈ Ω, a expressão
f (λ) − f (λ0 ) f (µ) − f (λ0 )

λ − λ0 µ − λ0
116 Cálculo de funções vetoriais

tende a zero quando λ e µ tendem a λ0 .


Escolha r > 0 tal que o B̄r (λ0 ) ⊂ Ω e denote por γ fronteira de B̄r (λ0 ) orientada
no sentido anti-horário. Para cada x∗ ∈ X ∗ a função x∗ ◦ f : B̄r (λ0 ) → C é contínua e
portanto limitada. Do Princípio da Limitação Uniforme, existe uma constante M > 0 tal
que
kf (ξ)kX 6 M, para todo ξ ∈ B̄r (λ0 ). (A.1.1)

Pela fórmula integral de Cauchy, se ζ ∈ B̄ r2 , temos

x∗ (f (ξ))
Z
∗ 1
x (f (ζ)) = dξ. (A.1.2)
2πi γ ξ−ζ

Agora, se x∗ ∈ X ∗ e λ, µ ∈ B̄ r2 (λ0 ), utilizando (A.1.2) para ζ igual a λ, µ e λ0 , obtemos

(λ−µ) x∗ (f (ξ))
  Z
∗ f (λ)−f (λ0 ) f (µ)−f (λ0 ) 1
x − = dξ. (A.1.3)
λ−λ0 µ−λ0 2πi γ (ξ −λ)(ξ −µ)(ξ −λ0 )

r
Nossa escolha de λ e µ assegura que |λ − ξ| > 2
e |µ − ξ| > 2r . Disto e de (A.1.1),
segue de (A.1.3) que
 
∗ f (λ) − f (λ0 ) f (µ) − f (λ0 )
x − 6 4r−2 M kx∗ kX ∗ |λ − µ|.
λ − λ0 µ − λ0

Logo,
 
f (λ)−f (λ0 ) f (µ)−f (λ0 ) ∗ f (λ)−f (λ0 ) f (µ)−f (λ0 )

λ−λ0 − = sup x −
µ−λ0 X x∗ ∈X ∗
λ−λ0 µ−λ0
kx∗ kX ∗ =1

6 4r−2 M |λ − µ|,

o que conclui a demonstração.

A seguir, consideramos funções definidas em subconjuntos abertos de C com valores


no espaço dos operadores lineares e contínuos entre dois espaços de Banach.

Teorema A.1.2. Sejam X, Y , espaços de Banach sobre C e Ω um subconjunto aberto


de C. Se T : Ω → L(X, Y ), as seguintes afirmativas são equivalentes:

(a) Para cada x ∈ X e y ∗ ∈ Y ∗ , a função Ω 3 λ 7→ y ∗ (T (λ)x) ∈ C é analítica.

(b) Para cada x ∈ X, a função Ω 3 λ 7→ T (λ)x ∈ Y é analítica.


A.2 Curvas retificáveis 117

(c) A função Ω 3 λ 7→ T (λ) ∈ L(X, Y ) é analítica.

Demonstração: A prova de (a) ⇒ (b) segue diretamente do Teorema A.1.1, a prova de


(b) ⇒ (c) é análoga à prova do Teorema A.1.1 e a prova de (c) ⇒ (a) é imediata.

Estes teoremas permitem que uma parte significativa da teoria de funções de variáveis
complexas possa ser transferida para funções com valores vetoriais sem muito esforço
adicional.

A.2 Curvas retificáveis


Dados a, b ∈ R com a < b, uma partição P do intervalo [a, b] é uma coleção de pontos
.
{t0 , t1 , · · · , tnP }, nP ∈ N∗ = N\{0}, tal que a = t0 < t1 < · · · < tnP = b. A malha kP k de
uma partição P : a = t0 < t1 < · · · < tnP = b é o comprimento do maior dos sub-intervalos
determinados por ela; isto é, kP k = max{ti − ti−1 : 1 6 i 6 nP }.

Definição A.2.1.

(i) Uma curva é uma função contínua γ : [a, b] → C.

(ii) Se γ : [a, b] → C é diferenciável e γ 0 : [a, b] → C é contínua, diremos que γ é uma


curva suave.

(iii) Uma curva γ : a, b] → C é dita suave por partes se existe uma partição P : a =
t0 < t1 < · · · < tnP = b do intervalo [a, b] tal que γi : [ti−1 , ti ] → C dada por
γi (t) = γ(t), t ∈ [ti−1 , ti ], é suave i = 1, · · · , nP .

(iv) Uma curva γ : [a, b] → C é uma poligonal se existe uma partição P : a = t0 <
t1 < · · · < tnP = b do intervalo [a, b] tal que

γ(ti−1 )(ti − t) + γ(ti )(t − ti−1 )


γ(t) = , t ∈ [ti−1 , ti ], 1 6 i 6 nP .
ti − ti−1

(v) Uma curva γ : [a, b] → C é de variação limitada se existe uma constante M > 0
tal que, para toda partição P : a = t0 < t1 < · · · < tnP = b do intervalo [a, b]

nP
. X
v(γ, P ) = |γ(ti ) − γ(ti−1 )| 6 M.
i=1
118 Cálculo de funções vetoriais

Se γ : [a, b] → C é de variação limitada, a variação de γ é definita por

.
V (γ)] = sup{v(γ, P ) : P é uma partição de [a, b]}.

Quando for importante especificar o intervalo de definição da curva γ escreveremos


V (γ, [a, b]) para denotar a variação da curva γ : [a, b] → C.

Exercício A.2.2. Se γ : [a, b] → C for de variação limitada V (γ, [a, b]) então |γ| : [a, b] →
C definida por |γ|(t) = V (γ, [a, t]) será de variação limitada e V (γ, [a, b]) = V (|γ|, [a, b]).

Proposição A.2.3. Sejam γ, σ : [a, b] → C curvas de variação limitada.

(a) Se P, Q são partições de [a, b] com P ⊂ Q, então

v(γ, P ) 6 v(γ, Q).

(b) Se α, β ∈ C, então αγ + βσ : [a, b] → C definida por (αγ + βσ)(t) = αγ(t) + βσ(t),


t ∈ [a, b] é de variação limitada e V (αγ + βσ) 6 |α|V (γ) + |β|V (σ).

Demonstração: Exercício.

Proposição A.2.4. Se γ : [a, b] → C é suave por partes, então γ é de variação limitada


e Z b
V (γ) = |γ 0 (t)|dt.
a

Demonstração: Faremos apenas a prova para o caso em que γ é suave. O caso geral é
deixado como exercício para o leitor.
Note que, para toda partição P : a = t0 < t1 < · · · < tnP = b do intervalo [a, b], temos
que
nP
X nP Z
X ti nP Z
X ti
0
v(γ, P ) = |γ(ti ) − γ(ti−1 )| = | γ (t)dt| 6 |γ 0 (t)|dt
i=1 i=1 ti−1 i=1 ti−1
Z b
= |γ 0 (t)|dt.
a

Consequentemente Z b
V (γ) 6 |γ 0 (t)|dt.
a
A.3 Integral de Riemann-Stieltjes de funções contínuas 119

Como γ 0 : [a, b] → C é uniformemente contínua, dado  > 0, existe δ1 > 0 tal


que, para todo t, s ∈ [a, b] com |t − s| < δ1 , temos que |γ 0 (t) − γ 0 (s)| < 
2(b−a)
. Seja
δ2 > 0 tal que, para toda partição P : a = t0 < t1 < · · · < tnP = b com malha
kP k = max{ti − ti−1 : 1 6 i 6 nP } < δ2 , temos que
Z nP

b X 
0 0
|γ (t)|dt − |γ (τ )|(t − ti−1 < , ∀ τi ∈ [ti−1 , ti ].
)

i i
2

a
i=1

Logo, se kP k < min{δ1 , δ2 },


Z b nP nP Z ti
0  X 0  X 0

|γ (t)|dt 6 + |γ (τi )|(ti − ti−1 ) = + γ (τ i )dt
a 2 i=1 2 i=1 ti−1
nP Z ti
nP ti 0
X Z
 X 0 0

6 + γ (t)dt +
[γ (τi ) − γ (t)]dt
2 i=1 ti−1

i=1

ti−1
nP
X
6+ |γ(ti ) − γ(ti−1 )| 6  + V (γ).
i=1

Como  > 0 é arbitrário, segue que


Z b
|γ 0 (t)|dt 6 V (γ)
a

e a prova está completa.


Observação A.2.5. O conjunto {γ} = {γ(t) : t ∈ [a, b]} é chamado traço da curva
γ : [a, b] → C. Se γ : [a, b] → C é uma curva de variação limitada, a sua variação V (γ)
é comprimento de {γ}. O resultado anterior nos diz que, a noção usual de comprimento
para o traço de uma curva suave por partes é estendida pela noção de variação às curvas
de variação limitada.
Definição A.2.6. Seja γ : [a, b] → C uma curva. Diremos que γ é retificável se γ for
de variação limitada.
Diremos que γ é fechada se γ(a) = γ(b) e diremos γ é simples se γ : [a, b) → C for
injetiva.

A.3 Integral de Riemann-Stieltjes de funções contínuas


Teorema A.3.1. Seja X um espaço de Banach sobre K, γ : [a, b] → K uma curva
retificável e f : [a, b] → X uma função contínua. Então, existe um vetor I em X com a
120 Cálculo de funções vetoriais

seguinte propriedade: Dado  > 0, existe δ > 0 tal que, se P : a = t0 < t1 < · · · < tnP = b
é uma partição de [a, b] com kP k < δ, então
nP

X
I − f (τi )[γ(ti ) − γ(ti−1 )] < , (A.3.1)


i=1 X

Z b
para qualquer escolha de τi ∈ [ti−1 , ti ], 1 6 i 6 np . Este vetor I é denotado por f dγ.
a

Demonstração: Seja {δm } uma seqüência estritamente decrescente em (0, ∞) com a


seguinte propriedade: se t, s ∈ [a, b] e |t − s| < δm , então kf (t) − f (s)kX < 1
m
, m ∈ N∗ .
Para m ∈ N∗ defina

Pm = {partições de [a, b] com malha kP k < δm }.

Defina ainda
(n )
XP

Fm = f (τi )(γ(ti ) − γ(ti−1 ) : P ∈ Pm e τi ∈ [ti−1 , ti ] .


i=1

Claramente P1 ⊃ P2 ⊃ P3 ⊃ · · · e F1 ⊃ F2 ⊃ F2 ⊃ · · · . Suponha que diam(Fm ) 6


2
m
V (γ) e seja I o único vetor em ∩m≥1 Fm . Dado  > 0 escolha m > 2 V (γ). Como I ∈ Fm ,
se tomamos P ∈ Pm , temos que
nP

X 2
I − f (τi )(γ(ti ) − γ(ti−1 )) 6 diam(Fm ) 6 V (γ) < ,


i=1
m
X

para cada escolha de τi ∈ [ti−1 , ti ], 1 6 i 6 nP .


Assim, dado  > 0, escolhendo m > 2 V (γ) e δ = δm temos que, se P : a = t0 < t1 <
· · · < tnP = b é uma partição de [a, b] com kP k < δ, então (A.3.1) vale.
2
Para concluir a prova, basta mostrar que diam(Fm ) 6 m
V (γ). Primeiramente mos-
tremos que, se P ∈ Pm e P ⊂ Q, então

1
kS(P ) − S(Q)kX < V (γ) (A.3.2)
m

onde nP
X
S(P ) = f (τi )(γ(ti ) − γ(ti−1 )), τi ∈ [ti−1 , ti ]
i=1
A.3 Integral de Riemann-Stieltjes de funções contínuas 121

e nQ
X
S(Q) = f (σi )(γ(si ) − γ(si−1 )), σi ∈ [si−1 , si ].
i=1

O vetor S(P ) é chamado uma soma de Riemann-Stieltjes associada à partição P .


Se P : a = t0 < t1 < · · · < tnP = b e Q : a = t0 < t1 < · · · < tp−1 < t∗ < tp < · · · <
tnP = b, temos que

nQ
. X
S(Q) = f (σi )(γ(si ) − γ(si−1 ))
i=1
nP
X
= f (σi )(γ(ti ) − γ(ti−1 )) + f (σ)[γ(t∗ ) − γ(tp−1 )] + f (σ 0 )[γ(tp ) − γ(t∗ )]
i=1
i6=p

nP
. X
S(P ) = f (τi )(γ(ti ) − γ(ti−1 ))
i=1
nP
X
= f (τi )(γ(ti ) − γ(ti−1 )) + f (τp )[γ(t∗ ) − γ(tp−1 )] + f (τp )[γ(tp ) − γ(t∗ )]
i=1
i6=p

e nQ
X 1 1 1
kS(Q) − S(P )kX 6 |γ(si ) − γ(si−1 )| = v(γ, Q) 6 V (γ).
i=1
m m m

Isto prova (A.3.2) para P ∈ Pm e Q = P ∪ {t∗ }. O caso geral em que P ⊂ Q é deixado


como exercício.
Se P e Q são duas partições quaisquer em Pm , então

2
kS(Q) − S(P )kX 6 kS(Q) − S(P ∪ Q)kX + kS(P ∪ Q) − S(P )kX 6 V (γ).
m
2
Isto conclui a prova da estimativa diam(Fm ) 6 m
V (γ) e completa a prova do teorema.

Exercício A.3.2. Se f, g : [a, b] → X são funções contínuas e γ, σ : [a, b] → K são curvas


retificáveis, mostre que:
Z b Z b Z b
(i) (αf + βg) dγ = α f dγ + β g dγ,
a a a
Z b Z b Z b
(ii) f d(αγ + βσ) = α f dγ + β f dσ,
a a a

Z b k Z
X ti
(iii) f dγ = f dγ, a = t0 < t1 < · · · < tk = b.
a i=1 ti −1
122 Cálculo de funções vetoriais

Z b Z b
(iv) f dγ 6 kf kX d|γ|
a a

Definição A.3.3. Seja X um espaço de Banach sobre C, γ : [a, b] → C uma curva


retificável, e f : {γ} ⊂ C → X uma função contínua. A integral de linha de f ao longo
de γ é definida por Z b
f ◦γ dγ
a

e denotada por Z Z
f (z)dz ou simplesmente f.
γ γ

Teorema A.3.4. Se X, Y são espaços de Banach sobre C, T ∈ L(X, Y ), γ : [a, b] → C é


uma curva retificável e f : {γ} → X é contínua, então
Z  Z
T f (z)dz = T (f (z))dz (A.3.3)
γ γ

Demonstração: Basta lembrar que ambas as integrais em (A.3.3) são limites de somas
de Riemann-Stieltjes, que T é contínua e linear.

Teorema A.3.5. Se Xé um espaço de Banach sobre C, γ : [a, b] → C é uma curva suave


por partes e f : {γ} → X é contínua, então
Z Z b
f (z)dz = f (γ(t))γ 0 (t) dt
γ a

Demonstração: Sabemos que o resultado é verdadeiro se X = C. Consequentemente,


usando o Teorema A.3.4, temos que
Z  Z Z b
∗ ∗
y f (z) dz = y ◦f (z) dz = y ∗ (f (γ(t))γ 0 (t))dt
γ γ a
Z b 
∗ 0
=y f (γ(t))γ (t)dt ,
a

para todo y ∗ ∈ Y ∗ . O resultado agora segue do Teorema de Hahn-Banach.

A.4 Teoremas de Cauchy e expansão em séries


Definição A.4.1. Um subconjunto Ω de C é chamado um domínio de Cauchy se é aberto,
possui um número finito de componentes conexas e a fronteira de Ω é composta por um
A.4 Teoremas de Cauchy e expansão em séries 123

número finito de curvas fechadas, retificáveis e simples. A fronteira de Ω orientada posi-


tivamente é denotada por +∂Ω.

Teorema A.4.2. Seja X um espaço de Banach sobre C, Ω um domínio de Cauchy limi-


tado e f : Ω̄ → X uma função contínua que é analítica em Ω. Então
Z
f (z)dz = 0.
+∂Ω

Para n = 0, 1, 2, · · · , a n−ésima derivada f (n) de f é analítica em Ω e


Z
(n) n! f (z)
f (λ) = dz
2πi +∂Ω (z − λ)n+1

Demonstração: Primeiramente note que, z 7→ x∗ (f (z)) é analítica e que sua derivada


é z 7→ x∗ ◦ f 0 (z) = d
dz
(x∗ ◦ f )(z). Como z 7→ d
dz
(x∗ ◦ f )(z) é analítica, segue do Teorema
A.1.1 que z 7→ f 0 (z) é analítica. Segue por indução que z 7→ f (n) (z) é analítica para todo
n ∈ N.
Com isto, a prova do resultado é feita utilizando o resultado correspondente para
funções a valores complexos; isto é, para todo x∗ ∈ X ∗ temos que
Z Z 
∗ ∗
x ◦f (z) dz = x f (z)dz =0
+∂Ω +∂Ω

e para n = 0, 1, 2, · · · , a n−ésima derivada (x∗ ◦f )(n) de x∗ ◦f é analítica em Ω e

(x∗ ◦f )(z)
Z
∗ (n) ∗ (n) n!
x (f (λ)) = (x ◦f ) (λ) = dz
2πi +∂Ω (z − λ)n+1
 Z 
∗ n! f (z)
=x dz .
2πi +∂Ω (z − λ)n+1

O resultado agora segue como antes.

Corolário A.4.3. Seja X um espaço de Banach sobre C, Ω um subconjunto aberto de


C, f : Ω → X uma função analítica, λ0 ∈ Ω e r0 > 0 tal que Br0 (λ0 ) ⊂ Ω. Se
Mr0 = max{kf (z)kX : z ∈ Br0 (λ0 )}, então

Mr0
kf (n) (λ0 )kX 6 n! , n = 0, 1, 2, · · ·
r0n
124 Cálculo de funções vetoriais

e consequentemente, se r < r0 , a série



X f (n) (λ0 )
(λ − λ0 )n
n=0
n!

converge uniformemente para λ em Br (λ0 ) e


X f (n) (λ0 )
f (λ) = (λ − λ0 )n .
n=0
n!

Para 0 6 a < b e ζ ∈ C, denote por A(ζ, a, b) o anel {λ ∈ C : 0 6 a < |λ − ζ| < b}.

Corolário A.4.4. Seja X um espaço de Banach sobre C, Ω um subconjunto aberto de


C, f uma função analítica em um anel A = {λ ∈ C : 0 6 R1 < |λ − λ0 | < R2 }. Sejam
r, r1 , r2 números reais positivos tais que 0 6 R1 < r1 < r < r2 < R2 e γ(t) = λ0 + re2πit ,
t ∈ [0, 1]. Defina Z
1 f (ξ)
an = dξ, n ∈ Z.
2πi γ (ξ − λ0 )n+1

Se Mr1 ,r2 = max{kf (z)kX : z ∈ A(λ0 , r1 , r2 )}, então

Mr1 ,r2
kan kX 6 ,n ∈ Z
rn

e consequentemente, se r1 < ρ1 < ρ2 < r2 , a série



X
(λ − λ0 )n an
n=−∞

converge uniformemente para λ em A(λ0 , ρ1 , ρ2 ) e


X
f (λ) = (λ − λ0 )n an .
n=−∞

A.5 Teorema do máximo módulo


Teorema A.5.1. Seja X um espaço de Banach complexo e Ω um sub-conjunto aberto e
conexo de C. Seja f : Ω → X uma função analítica em Ω e suponha que kf (λ)kX não é
constante em Ω. Então kf (λ)kX não pode atingir um máximo absoluto em nenhum ponto
de Ω.
A.5 Teorema do máximo módulo 125

Prova: Suponha que existe λ0 ∈ Ω tal que kf (λ0 )kX > kf (λ)kX para todo λ ∈ Ω. Do
Teorema de Hanh-Banach, existe x∗ ∈ X ∗ com kx∗ kX ∗ = 1 tal que x∗ (f (λ0 )) = kf (λ0 )kX .
Segue que g = x∗ ◦f é uma função analítica em Ω com |g(λ)| 6 |g(λ0 )| para todo λ ∈ Ω.
Do Teorema do Máximo Módulo para funções com valores em C, g é constante em Ω e
x∗ (f (λ)) = kf (λ0 )kX para todo λ ∈ Ω. Por outro lado, kf (λ0 )kX = x∗ (f (λ)) 6 kf (λ)kX
para todo λ ∈ Ω e chegamos a uma contradição com o fato que kf (λ)kX não é constante.
126 Cálculo de funções vetoriais
Referências Bibliográficas

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