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RAYMOND CARVER

68 contos

Tradução
Rubens Figueiredo

Introdução
Rodrigo Lacerda

-~-
COMPANHIA DAS LETRAS
Gordo

stou tomando café e fumando na casa da minha amiga Rita e contando a


E ela como foi.
Contei o seguinte.
É o final de uma quarta-feira arrastada quando Herb traz o gordo para a
minha ala do restaurante.
Esse gordo é a pessoa mais gorda que eu já vi na vida, mas tem uma boa
ência e se veste muito bem. Tudo nele é grande. Mas é dos dedos que eu me
bro mais. Quando paro a uma mesa perto da mesa dele para cuidar do casal
-- velhos, a primeira coisa que noto são os dedos. Parecem ter três vezes o tama-
- ao dos dedos de uma pessoa normal- compridos, grossos, gordurosos.
Vou cuidar das minhas outras mesas: quatro executivos, todos muito exi-
_ tes; um outro grupo de quatro pessoas, três homens e uma mulher; e aquele
- - de velhos. Leander serviu água para o gordo e eu dou ao gordo bastante
po para ele pensar bem antes de ir em frente.
Boa noite, digo. Posso ajudar?, digo.
Rita, ele era grande, sabe, grande mesmo.
Boa noite, diz ele. Oi. Sim, diz ele. Acho que agora já estamos prontos para
--- diz.
Tem esse jeito de falar - estranho, sabe? E fica bufando de vez em quando.

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Acho que vamos começar com uma salada Caesar, diz ele. Depois uma ti-
gela de sopa com uma porção extra de pão e manteiga, por favor. Costeletas de
carneiro, eu creio, diz. E também batata assada com creme de leite. A sobremesa
resolvemos depois. Muito obrigado, diz ele, e me traga o cardápio.
Caramba, Rita, eram uns dedos que nem te conto.
Vou correndo para a cozinha e entrego o pedido ao Rudy, que recebe o pape,
de cara feia. Você conhece o Rudy. O Rudy é assim quando está trabalhando.
Quando saio da cozinha, Margo - já falei pra você da Margo? A tal que dá
em cima do Rudy -, Margo me diz: Quem é o seu amigo gordo? Puxa, ele é
gordo mesmo.

Bem, isso faz parte do trabalho. Acho que faz mesmo.


Preparo a salada Caesar na mesa dele, enquanto ele observa todos os meus
movimentos, passa manteiga nas fatias de pão e vai arrumando do lado, sem
parar de bufar o tempo todo. Pois é, eu estava tão perturbada, ou sei lá, que der-
rubei o copo de água dele.
Mil desculpas, falei. Sempre acontece quando a gente se afoba. Mil desculpas,
digo. O senhor está bem? Vou chamar o menino para limpar num instante, digo.
Não é nada, diz ele. Está tudo bem, diz, e bufa. Não se preocupe, não liga-
mos para isso, diz. Sorri e acena quando me afasto para chamar Leander, e quan-
do volto para servir a salada vejo que o gordo comeu todo o pão com manteiga.
Um pouco depois, quando trago mais pão, ele já terminou a salada. Você já
viu o tamanho daquelas saladas Caesar?
Você é muito gentil, diz ele. O pão está maravilhoso, diz.
Obrigada, respondo.
Pois é, está muito bom, diz ele, e não estamos falando por falar. Não é todo
dia que podemos comer um pão assim, diz.
De onde o senhor é?, pergunto. Acho que nunca vi o senhor, digo.
Ele não é o tipo de pessoa que a gente esquece, intervém Rita com uma
risadinha.
Denver, responde ele.
Não falo mais nada, mas estou curiosa.
A sopa do senhor vai ficar pronta num instante, digo, e vou dar os últimos
retoques no pedido do meu grupo de quatro executivos, muito exigentes.

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Quando sirvo a sopa do gordo, vejo que o pão desapareceu outra vez. Ele
está pondo o último pedaço na boca.
Acredite, diz ele, não é toda hora que comemos assim. E bufa. Você vai ter
que nos desculpar, diz.
Por favor, nem pense nisso, digo. Gosto de ver um homem comendo com
prazer, digo.
Não sei, diz ele. Acho que você pode usar essas palavras. E bufa. Ajeita o
guardanapo. Depois pega a colher.
Puxa vida, como ele é gordo!, diz Leander.
Não é culpa dele, digo, portanto trate de ficar de boca fechada.
Trago mais uma cesta de pão e mais manteiga. Que tal a sopa?, pergunto.
Obrigado. Boa, diz ele. Muito boa. Enxuga os lábios e esfrega de leve o
queixo. Você não acha que está quente aqui dentro? Ou sou só eu que estou
sentindo>, diz ele.
Não, está quente aqui dentro, sim, respondo.
Talvez possamos tirar nosso paletó, diz ele.
Fique à vontade, digo. A gente precisa se sentir confortável, digo.
É verdade, diz ele, essa é a pura, pura verdade, diz.
Mas pouco depois vejo que ele continua de paletó.
Agora os meus grupos grandes foram embora, bem como o casal de velhos.
O restaurante está ficando vazio. Na hora em que sirvo para o gordo suas coste-
etas e a batata assada, com mais pão e manteiga, só sobrou ele no restaurante.
Derramo uma porção de creme de leite em cima da batata assada. Salpico
- acon e cebolinha em cima do creme de leite. Trago mais pão e manteiga.
Está tudo em ordem?, pergunto
Tudo certo, responde, e bufa. Excelente, obrigado, diz, e bufa outra vez.
Bom apetite, digo. Levanto a tampa do seu açucareiro e olho lá dentro. Ele
.;2z que sim com a cabeça e continua olhando para mim até eu me afastar.
Agora sei que eu estava atrás de alguma coisa. Mas não sei o que era.
Como é que vai o nosso saco sem fundo? Ele vai acabar com suas pernas,
.::z Harriet. Você sabe como é a Harriet.
De sobremesa, digo para o gordo, tem o Lanterna Verde Especial, que é
pudim com calda, ou bolo de queijo, ou sorvete de baunilha, ou sorvete de
caxi.
Não estamos atrasando você, não é?, diz ele, bufando e com ar preocupado.

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Nem um pouco, respondo. Claro que não, digo. Fique à vontade, digo. Vou
buscar mais café enquanto o senhor escolhe.
Vamos ser honestos com você, diz ele. E se mexe na cadeira. Gostaríamos
do Especial, mas podemos também ter um prato de sorvete de baunilha. Só
com um pingo de calda de chocolate, por favor. Nós dissemos que estávamos com
fome, diz ele.
Saio para a cozinha a fim de cuidar eu mesma da sobremesa, e o Rudy diz:
Harriet está dizendo que você está com um gordo que veio do circo. É verdade?
Agora Rudy já está sem avental e chapéu, entende o que estou dizendo?
Rudy, ele é gordo, sim, digo, mas isso não é tudo.
Rudy só dá uma risada.
Estou sentindo que ela está meio a fim do gordo, diz ele.
É melhor se ligar, Rudy, diz Joanne, que entra na cozinha naquele instante.
Estou ficando com ciúmes, diz Rudy para Joanne.
Ponho o Especial na frente do gordo e, ao lado, uma grande tigela de sorve-
te de baunilha com calda de chocolate.
Obrigado, diz ele.
Não tem do quê, digo - e aí me bate um sentimento.
Acredite ou não, diz ele, nem sempre comemos desse jeito.
No meu caso, eu como, como, como e não engordo, digo. Bem que eu gos-
taria de engordar, digo.
Não, diz ele. Se pudéssemos escolher, melhor não. Mas não temos escolha.
Então ele pega a colher e come.
O quê mais?, diz Rita, enquanto acende um dos meus cigarros e puxa sua
cadeira para mais perto da mesa. Agora essa história está começando a ficar in-
teressante, diz Rita.
Só isso. Mais nada. Ele come a sobremesa, depois vai embora e depois va-
mos para casa, eu e o Rudy.
Mas que cara gordão, diz Rudy, e se espreguiça como faz quando está can-
sado. Depois apenas ri e volta a ver televisão.
Ponho água para ferver para fazer chá e vou tomar um banho. Coloco a
mão na cintura e imagino o que aconteceria se eu tivesse filhos e um deles aca-
basse ficando igual a ele, gordo daquele jeito.
Ponho a água no bule, arrumo as xícaras, o açucareiro, a caixa de leite lon-
ga vida misturado com creme de leite, e levo a bandeja para o Rudy. Como se

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estivesse pensando nisto, ele diz: Uma vez, quando eu era criança, conheci um
cara gordo, dois caras gordos, mas gordos, gordos mesmo. Meu Deus, os caras
eram umas baleias. Não lembro o nome deles. Gordo, era esse o único nome
que o garoto tinha. A gente chamava ele de Gordo, o garoto que morava na casa
izinha. Era meu vizinho. O outro garoto chegou um tempo depois. O nome
dele era Bolão, Todo mundo chamava ele de Bolão, menos os professores. Bolão
e Gordo. Pena que eu não tenho nenhuma foto deles, diz Rudy.
Não consigo pensar em nada para falar, por isso a gente só fica bebendo nos-
so chá, e dali a pouco me levanto e vou para a cama. Rudy também se levanta,
esliga a tevê, tranca a porta da frente e começa a desabotoar a roupa.
Vou para a cama e me deito bem na beirada, de bruços. Mas assim que apa-
za a luz e vem para a cama o Rudy começa. Viro de costas e relaxo um pouco,
embora seja contra a minha vontade. Mas ele está com tesão. Quando vem para
cima de mim, de repente me vem a sensação de que sou gorda. Tenho a sensação
de que sou tremendamente gorda, tão gorda que o Rudy é uma coisinha de nada,
em dá para sentir que ele está ali.
É uma história engraçada, diz Rita, mas vejo que ela não sabe o que pensar
::aquilo.
Me sinto deprimida. Mas não vou falar sobre isso com ela. Já contei coisas
.::emais para ela.
Rita fica parada, esperando, seus dedos delicados remexem o cabelo.
Esperando o quê? Bem que eu gostaria de saber.
É agosto.
Minha vida vai mudar. Sinto isso.

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