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l€onorbpesFá,eío
Marh LrúciaG.V.O.Andrade
Zlda(ìO.Aquino

DadosIntèrnacionaisde Catalogaçãona Publicação(ClP)


(CâmaraBrãsilelÍado Livro,SB BÍasil)

Fávero,konor Lop€s
paÌao ensinode língua
OÉlidadee esçrita: perspectiva
matema/ konor l,opesFávero,MariaLúciadaCunhaV de
OliveiÍaAndrade,Zilda CasparOliveiradeAquino.-2. ed.- t,raildade
^trtr

SãoPaulo: CoÍtez,2000.

Bibliognfia-
lsBN 85-249-0715-0
e escrita
perspectivas
parao
e
oral. 2. Escrita 3.Fala 4. Linguagem
l. Comunicação
línguas- Estudoe €nsino5. OralidadeI. Andrade'MaÌia Lúcia ensinodelínguamatema
daCunhaV de Oliveira.ll. Aquino,Zilda GasparOliveirade
lII. Tïtulo.

índices para catálogo sistemático:


l. Línguamatema:Oralidade e escÍita: Ensino: Lingüística410.7
P edição
2. Oralidadee escrita:Línguamatema:Ensino: Lingúística410.7

I
{
@EfiflÉã
ORÂLIDADE E ESCRITA: penp€ctivas para o etr3itrode língua matema
lÉonor Lopes FáveÍo, MaÌia Lúcia da CuDhaV de Oüveira Aodrade,
Zilda CasparOliveira dc Aquino

Capa: DAC
Prcparaçilode o Bìnaís:A9íÂldo A. OliveiÌa
R?utôo. MaÍia d€ Loudes de Almeida
Composiçiio: Dany Bditorâ Lrda.
Cood"nação editoiaL. Dânilo A. Q. Morâles

Suueruo
Apresentação 7
Introdução o

Fala e escrita 9
A ouestãodo ensinoda fala ll

Capítulo I - A organizaçãoda fala e da escrita... 15


Fatoresconstitutivosda atividãdeconversacional 15
Níveisde estruturação do textofalado.......... 22
A estrutura do texto escrito: o parágrafo 25

Capítulo II - Coesãoe coerênciano texto falado.. 3l


Tumo . . 35
NenhumapaÍle destôobrs pode ser reprcduzida ou dÌrplicadasem Tópico discursivo 37
autorizaçãoexpressadas auioras e do ediior. Marcadores conversacionais .... 44
@ 1999by Autoras Par adjacente . .. .. ... 49
DiÍcitos pa.a estâ ediÉo CapítuloIII - Atividades de formulação....... ... 55
CORTEZ EDITORA
Rua BaÌtira, 3l? - Perdizes O q u eé f o r m u l au
r m texto? ......... . 55
05009-000 - São Paulo - SP
Tel.: (ll) 3864-0111 Far: (ll) 3864-4290
Hesitação 56
E-mail: cortez@cortezeditoÍa.coh.br Paráfrase. 59
Impressono BÍasil - julho de 2000

;*dt9%,
Repetição 60
Correção 62
Capítulo IV - As relaçõesentre fala e escrita . . .. 69
Condições de produção 74
Operaçõesde transformação 83
Sugestõesde atividades 9l
Conclusão l1 5
Anexo - Normaspara transcriçãodos textos orais.. 117 ApnpsplvtaçÃo
Referênciasbibliográficas t2l
O objetivodestaobra é apresentarao leitor a questão
do tratamentoda oralidadeno ensino de língua matema,
pois há consensoentreos responsáveis por esseensinoque
"o texto escritonão é mais o soberano"e que, taÍìto quanto
a escrita,a fala tem "sua própria maneirade se organizar,
desenvolvere transmitirinformação,o que permite qu@
G )ome como fenômenoespecífico" (Marcuschi,1993:4).
O livro compõe-se de quatrocapítulos, alémda intro-
dução e da conclusão.Na introdução e no Capítulo I, são
apresentadas a organizaçãoda fala - níveis constitutivos
- e da escrita- o parágrafo.No
e níveis de estruturação
Capítulo II, discute-sea coesãoe a coerênciano texto
falado, mostrandoque a análisedessesdois fatoresconsti
tutivos do texto deve ser feita de forma diferenteda dos
textos escritos,já que são de naturezadiversa, pois a
conversação seproduzdialogicamente, comocriaçãocoletiva.
Sãoexaminados o turno conversacional, o tópico discursivo,
os marcadores conversacionais e o par adjacente.
No CapítuloIII, sãoanalisadasatividadesde formulação
como a hesitação,a repetição,a paráfrasee a correção.No
Capítulo IV, observam-se as relaçõesentre fala e escrita,
trabalham-seas operaçõesde transfomaçãoe são sugcridas
atividadespara apÌicaçãoem sala de aula.
O corpus utilizado compõe-sede textos do I'rojeto
NURC/SPdo tipo D2 ídiálogoentredois inforrnanrcs). ajcim
de conversaçòes esponlâners e de entrevistas lrlnscr.itirs em
Andrade (1995) e Aquino (1997). Os inquéritosdo l)roicto
NURC/SP do tipo D2 podem ser considerados, cln rletrns
momentos. nìo simplesmentecliálogos no senrido cstr-ito,
mas trílogos,de acordocom Kerbrat-Orecchioni (Ì995), uma
vez que apresentamuma estruturamais abertae mais irn_
previsível que a do diálogo, e a troca se dá entre trôs e
não doìs participantes(Documentador,Locutor I c l,ocrrtoÍ
IwrnonuçÃo
2). Já as entrevistasde televisãoaqui expostaslônì scrììpre
uma estruturamais aberta e mais imprcvisívcl trtrc a tlo
Fala e escrita
diálogoem que L2 só pode interv;rupí,:,rr t.rl:r,1. l.t.
onde a interrupçào e a "única fanrlsiailrre()\ ilterl()cut()rcs "
Muitas pesquisas têm sido realizadas ultimamente
se podem permitir no que se reÍcrc iì altelniìrrcirr rlc turnos".
(Kerbrat-Orecchioni, sobre a língua falada, quer nas ciências humanas, quer
op. cit.) Assirn, invalirlrrst. rr Íìir.rrlrla
ab nb ab aplicada somentc ao cliÍlogo,.jri 11rrr. nas sociais,e, ainda que um número crescentede trabalhos
rro /r./o,go
ots,no polílogo essesesqucmasnão possucnìr.ctr.l lirlr. compare-acom a modalidadeescrita,pouco sabemossobre
elas.
A obra,.destina-sc precipuamcntea proÍcssolcs.r.strr_
dantesde graduaçãoe pessoasinteressaclas cnt irrlìrrrr;rrsc Embora nas durs o sistemalingüísticoseja o mesmo
sobrequestõesconcernentes ao tratamentogcr.ultllr olrrlitllrtlc para a construçãodas frases,"as regras de sua efetivação,
e suas relações com a escrita, e ptocuriÌ rÌìoslfir. (lu(, o bem como os meios empregados,são diversos e específicos,
es tudodaquela.emborase v:rlhudls teorirrsrl;r An;rlisr.tlrr o que acaba por evidenciar produtos diferenciados" (Mar-
Conversação, Sociolingüística Intcraciolal,Arlilisr. rlo l)is- cuschi, 1986:62).
curso e de outras ciências,não podc ocol.('r i\olir(llnt(.ltcl
poismantémcom a escritarclaçõcsrrrritrr;rs Sociólogos, antropólogos,educâdores,psicólogos e
t. irrtr.rr
rrrrrlriiivcis.
lingtiistas têm se debrgç{do sobre o assuÌÌtoe, diante de
Espera-seter atingido os ohjctivos rlcscjrrrlos
tanto interesse,era de [se)esperarque as característicasda
fala e da escritajá tivesíem sido analisadasexaustivamente,
porém, se há muitos trabal@ entre eles-
é pequena. A escrita tem sido vista como de estrutura
complexa, formal e abstrata,enquantoa fala, de estrutura
simples ou desestruturada, informal, concretae dependente
do contexto.
Teixeira de Castilho,e os trabalhosde Estudosda Norma Nessaperspectiva, o ensinoda oralidadenão pode ser
UrbanaCulta do Brasil (ProjetoNURC), especialmente do visto isoladamente, isto é, sem relaçãocom a escrita,pois
grupo de São Paulo, coordenadopor Dino Preti. elas mantêmentresi relações mútuase intercambiáveis.E
o que pretendefazer este livro que ora passamosas suas
Quantoà escola,não se trata obviamentede "ensinar mãos, caro leitor, lembrandoque ele se coloca como um
a fala", mas de mostraraos alunos a grandevariedadede
caminhopara a consecução da propostaapresentada.
usosda fala, dandolhesa consciênciade que a línguanão
é homogênea, monolítica,trabalhando com elesos diferentes
níveis (do mais coloquialao mais formal) das duas moda-
lidades- escritae falada-, isto é, procurandotorná-los
"poliglotasdentro de sua própria língua" (Bechara,1985).
Reafirmando,com Castilho(1998: 13),

"(...) não se acredita mais que a função da cscola deve


concentÍar-seapenasno ensino da língua escrila, a pretexto
de que o aluno já aprendeu a língua falada em casa, Ora,
se essa disciplina se concenÍasse mais na reflcxão sobre a
4. língua que falamos,@!Ig!4o_!g_.bdg*u_,Igpry!qç{,1d"
esquemasclassificatóÍios, logo se descobriria a importância
da língua falada, mesmo para a aquisição da língua cscrita".

Na veiâade,vem-secriando a consciênciade quc a


oralidadetem um papelno ensinode línguae, nessescniido,
os ParâmetrosCurricularesNacionaisafirmam quc:

"a questão não é falar certo ou €rÍado c sim sabcr que


forma de fala utilizar, considerandous c r ctcríslicitsdo
contexto de comunicação, ot se1a,saber aderlu(r e rcgisto
às diferentes situações comunicativas. É subcr crxrrdcnar
sâtisfatoriamente o que falar e como Íuzê.1o,cOnsidcrtndo
a quem e poÍ que se diz dclcrmin$du coisl" (grilìrs
nossos).

Como já apontouMarcuschi( 1997),r qucstiloda


oralidadeé colocadacomo um prohlemtrlc ,lrdcquuçloàs
diferentes
situações
comunicativas".
ti l3
que se altemam sem uma disposiçãofixa, o rluc crrrctcriza variáveis:tópico ou assunto,tipo de situação,papéis dos
o encontro em reÌativamentesimótrico Ou rcli|tivarììcnte participantes,modo e meio do discurso.
assimétrico.
Para ela, o tópico ox assunlo é um meio de estabele-
Por relativamentesimétrico,entendc-sca convcrsaÇio cimento e manutençãodos relacionamentos sociais,já que
em que ambos os interlocutores têm o mcslrro,liIL'itrr rrÌo abre e mantém o canal de comunicação,propiciando o
só de tomar a palavra,mas também de escolhcr.o ttipico
contato entre os participantes.
discursivo{"aquiloacercrdo que se eslj frlunJri r. dirtlcitr-
ná-lo, estabelecero tempo de participação.Qu lìto lo Ícla- Em relação à situttção, observa que se trata de um
tivamenteassimétrico,ocoffe um privilegian.ìcnto
rto r;uc dìz encontro face a face e, embora o assuntopareça ser comum
respeitoao uso da palavra,cabendoa um dos jnlerlocrrlorcs e em algunscasosaté supeÍficial,os participantesprecisam
começaro diálogor,conduzi-loe, ainda, ÌnudrÌ o l(il)ico. estar atentosàs atividadesverbais e não-verbais,pois não
somenteo que está sendo faÌado, mas a situaçãoem que
Observa-sea ocorrênciade um evento dc Íìrlr num
se fala pode lfelar a conversaçâo.
determinadotempo e situaçãosocial, seja facc a Ílcc, por
telefone,via intemet entre outras. Além disso. ó nossível Quanto aos papéis dos participanles, salientaque, como
deteclar-se um crráter interativoem todu u;rtivir.l;rit.r.on- participantesde situaçõessociais,somos requisitadosa nos
versacional,visto que ocorre um envolvintcnt()ctìlrc os comportarmosde um modo particular numa determinada
prrticipiìnlesnuma dada situaçâo. situaçãoe de modo diferente em outÍa. Assim, podemos
Schegloff(1981: 73) caracteriza desempenharsimultaneamente vários papéis;entretanto,um
a corìvcÍslçã().iìnon-
tando três elementosÍundamenllis:reaìizuçiorPn,.ltrf;1,,1. dos papéis sociaisnormalmentedestaca-see determinaque
interaçãoe.-organização(ordem). O discursoconversacional tipo de fala devemosusar em uma situaçãosocial particular.
deve ser, então, consideÍadoum processoquc sc realiza Observa.ainda.que o modo do discursoé determinado
c,ontinuamentedurantea interaçãoe só assimó identilicÍvel. pelo propósito da ìnteraçãoe dele decorre, por exemplo,
E na interaçãoe por causa dela que se cria urrr proccsso um grau maior ou menor de formalidade. Assim, tende a
de geraçãode sentidos,constituindoum fluxo (tìtovirÌìcnto ser formal um contextoem que se tem uma solicitâçãode
de avanço e recuo) de produçãotextuiìl organizldr). emprego e informal uma conversaentre dois adolescentes
Dentre os estudossobrea oralidade.podcrrrosclcstacar no pátio da escoìa.
o de Ventola (1979) sobre a estrutuÍarJa corrvcr.sirçio.
A Já em relação ao meio, explica que este correspoÌ'Ìde
autora propõe um modelo de organizaçãocorrvcr.saciollrl a ao canalde comunicaçãopelo qual a mensagemé transmitida
partir de conversações
espontâneas,
valrtrizarrdo
its scguitìtcs oralmente, seja face a face, via telefone, internet etc.
Esse modeìo proposto por Ventola justifica o fato de
l . g s t a m o s c m p r e g a n d oo tctm o d ìú tÒr o n o \r d ir t,, Lrr(,,t(. (.i ìrìve,\i rçao, não se trabalhaÍapenascom elementoslingüísticosque se
qua n d o d e l â p â n i c i p â m m a is d c d o is in lcr lxu l( ) r ( st
s c n l r d o c s t r i l o d c c o nvcr sa çÌoco n r d o is
lÌ!j( ìi .Irx,\ r,||l x(l fi i l (, Ìro apresentam no texto falado,visto que,por exempÌo,o aspecto
l) ilr ti( ilìI tr s. ü \,Irt,,,,\ trl tr\ /,r?,/!,
ou p o l í l o y p r r a q u an d o h o u vfssc ( r is 1 ) ü n Ìir i\ n r r .r t,\.It,,rf\..,ì l t) interacional pode determinar a estrutura da conversação
In(ìxj c
K c r b r a l O Í e c c h i o n i( 1 9 9 5 ) . (cf. Andrade& Aquino. 1994ì.

l6 t7
Em síntese,podemosdizer que um cvcrìtoconrunicativo Trata-sede uma situaçãodiscursiva formal, já esperada
constitu!sedos seguintesaspectossignificalivos: num evento de fala profissional, cujo tema é preestabelecido
por dizer respeitoa uma consultamédicaem que se combinara
a) situaçãodiscursiva:formal, inforrnal;
a colocaçãode lentesde contato;assim,o objetivodo evento
b) eventode faÌa: casual,espontâneo,
proÍìssional,ins- é prévio e seu grau de preparaçãonecessáriopara efetivação
titucional; do encontro é relativo, ou seja, há certa prepaÍação,já que
c) tema do evento: casual,prévio; o médico mantém um diáÌogo de rotina com sua paciente;
d) objetivo do evento: nenhum,prévio; entretanto, algumas falas podem ser específicas para essa
pacientedevido às necessidades do andamentoda consulta.
e) graude preparonecessário
paraefetivaçiodo cvento:
nenhum,pouco. muito. Quanto aos paÍicipantes, Ll conduz a interação (o
diálogo é, então, assimétrico) e caracteriza-sepor ser um
0 participantes;idade,sexo, posiçãosocial, formação, homem da segunda faixa etária (36 a 55 anos), mestre em
profissão,crençasetc.;
Oftalmologia,mantendouma relação profissionalcom sua
g) relaçãoentre os participantes:amigos, conhecidos, paciente,mulher,pertencente tambémà segundafaixa etária,
inimigos, desconhecidos, pârentes; mestre em Educação, e o canal utilizado é face a face.
h) canal utilizado para a realizaçãodo evento: Íìce a A identifìcaçãodos componentesda estruturado trecho
face, telefone, rádio, televisão, internct. apresentadopermite afirmar que a produção do texto falado
A seleçãode um ou outro item dentre os elcncados resultada conjugaçãode vários fatorese, além disso, essa
interfere nas condições de produção do texto falado, deter_ conjugação possibilita também detectar o tipo de relação de
mlnando a especificidadedo evento discursivo. para que poder que se instauraentre os participantes.
possamose*pÌicitar melhor essa questão,observemosos
Numa situaçãodiscursivainfôrmal, em que há paren-
exemplos:
tesco entre os interlocutores,a relação poderá ser distinta,
(Ì) Contextualização:
momentosde interaçãoentre um como se observano segmentoa seguir:
- _
oftalmologisra(Ll) e sua paciente(L2). (2)
Ll donaM... como vai a senhora? L2... achoque meu conhecimento de São Pauloé muito
L2 bem...obrigada... restÍito se compararcom papai por exemplo....
Ll entãohoje vamostestaras lentes... Ll eu fui:: quinta-feira...
não foi terça-feira
à noite fui Ìá
não é? bem...eu já no ( ) né? lá na Celso Furtado
disse para a senhoraque poucaspessoasconseguem
adaptar-se
às ÌentesVarilux...especialmente
às de con- L2 éh:.
{ato... Ll passeiali em ftente à:: Faculdade de Direito...então
L2 ceno... mas vamos lental estavalembrando...queeu ia muito lá quantotinhasete
Ll por favor...entãome acompanheató a salinhuao lado... nove onze...(com) e:: estámuito pior a
a titia sabe?...
minha auxiliar irá ajudá-Ia... cidade
(Convcrslçioespontânea) (NIJRC-SPD2 343, linhas 15 a 23, p. 17)

18 l9
No exemplo(2) tem-seuma situaçãodiscLrrsivainlìrr-mal, d) execução num determinado tempo;
em que Ll é um rapaz de 26 anos, solteiro c cnfcnhciro.
e L2 é uma jovem de 25 anos. solreiru c psictil,rr;r..., u e) envoÌvimentonuma interaçãocentrada.
relaçãoentre os participanlesé de parenrcs.:,r.
jrí irre sjo Observa-se,assim, que a produção de um texto falado
irmãos, têm um conhecimentopartilhadobasttntc gr.iìndee correspondea uma atividadesocialque requera coordenação
manlêm. nesse segmento.o mesmo nívcl rlc I.cirçlìo rJe de esforçosde pelo menos dois indivíduosque têm algum
pooer. .objetivo em comum.

Por tratar-sede um inquérìto do projcro NUIÌ(', o Paraparticiparde atividadesdessanatureza,sãoprecisos


tema do encontrofoi sugeridopelo documentdrrr..irrclie;rdo conhecimentose habilidadesque vão além da competência
que os participantesdeveriamconversarsobrc a cidrdc c o gramatical,necessáriapara decodificarmensagensisoladas,
comércio.O canal utiÌizadopara a realizaçãotkr cvurto foi pois que as atividadcs conversacionaistêm propriedades
face a face. dialógicasque diferem das propriedadesdos enunciadosou
(3) Contextualização: dos textosescritos.Na verdade-parl tomar parte- interagir
Mãe (Ll) e filho (1.2) rÌìanrôm
um diálogo a propósitode o jovem nÍo tcr rtt'lizirdoseu - numa conversação, é necessário que os participantes
celular para notificá-la de que não iria dor.rrrir.ctÌì casa consigam inferir do que se trata e o que se espera de cada
naquelanoite. Nessa interação,o filho tcnr rroçrìodc que um.
não há espaçopara negociaçãoe. assim.r..cirrr.r inr;r,rsiç:ào As característicasapresentadaspermitem saÌientar que
da mãe nessarelaçãode poder, como sc vcr.ilicarÌo tÍcclìo o texto conversacionalé criação coletiva e se produz não
a sesuir: só interacionalmente,mas também de forma organizada.
Dado o caráter de imprevisibilidade em relação aos
Ll que,n não sabe usar celular dev e dc ir i i l o c r l e l s u . . .
elementosestruturais, o textofaladodeixaentreverplenamente
aliás:: você não vai usá-lo dur lnlc t r n l t \ e t ì l ì n i Ì . . . l í
resolvido
seu processo de organização,tornando-sepossível perceber
sua estrutura,bem como suas estratégiasorganizacionais.
L2 t á bo: : m ...tá b o ::m ...
Dessa forma, observam-senessamodalidade de texto muitos
((ìonvcr srrçrrr
r csporrtinca) cortes, interrupções,retomadas,sobreposiçõesetc., de onde
se deduz que, se o sistemada língua é o mesmo, tanto
Paramelhor entendere analisaro texto lilldo, para a fala quanto para a escrita,as relaçõessintáticassão
;xrtlctrros
examiná-loa partir da propostade Dittrnurrrr( l()7r))-r,11nc de outra ordem.
consideraas seguintescaractcrísticas
biisicas:
A veracidade de tal afirmação pode ser comprovada
a) interaçãoentre pelo mcnos doìs Írrlrrrrtt.s: por meio de inúmerasocorrênciasde textos falados,dentre
b) ocorrênciade pelo ntcnosulÌll lr(x.irrk. lrrlrrrrlcs; as quais se destacaa seguinte,em que a Locutora I fala
de suasfilhas mais velhasque estãoentrandona adolescência:
c) presençade uma sct;iìôrrciu
tk. lrçot.s((xl(l(.lit(llls.
(4)
Ll ...estão na as maisvelhasestãoentÍandoagora
entrando
2. Apud Mrrcus(hi(t98í) tS t6)
na adolescência
e ...
20 2I
t No segmento(5), o texto se constrói a partir da
L? ( ) colaboraçãoentre os três participantes.Observam-semo-
Ll mas são muito acomodadas... ainda não comcçaramas_ mentosde sobreposição entre os tumos de L2 e L3, bem
sim... aquelafase...chamadade... mais difícil de crítica
como um momento de reformulaçãono turno de L3:
t eu/você.
L2 chamadamais difícil
Ll nél Os tumos, por suâ vez, estabelecemuma relaçãoem
L2 ahn ahn pares(paresadjacentes),
em queo primeirosempreé condição
Ll ainda não...felizmente(aindanão) começarrm para que o outro se realize,como por exemplo:pergunta-
resposta,convite-aceitação, saudação-sauda-
convite-recusa,
(NURC-SP
D2 360:4(149,p. 137) ção. Veja o trecho a seguir:
O desenvolvimento do texto falado estÍ dirctamente (6)
ligado ao modo como â atividade interacional sc organiza
L2 a sla família é grande?
entre os paÍicipantes. Essa organizaçãoresulta dc dctisões
interpretativas,inferidas a partir de pressupostoscognitivos Ll nós somos::seisfilhos
e culturais, tomadas durante o curso da convcrsaçio.
(NIJRC-SPD2 360: Ìinhas20-21,p. 136)

Níveis de estruturação do texto falado Temos aqui um par adjacentedo tipo pergunta-resposta
em que a pergunta de L2 estabelece a condição para a
A estruturada conversaçãose organizacrrr clilcrentes formulação da respostapor Ll. Além disso, pode-seobservar
, . que a perguntaé do tipo fechada,isto é, requer uma resposta
nlvels: ..
sim,/não: entretanto. Ll deixa-a súbentendidaao indicar o
a) local - a conversaçãose estabelccc por rneio de
número elevado de membros da família.
tumos (produçãode um falantc cnr;rrantoclc está
com a palavra)em que os interloculorcssc allcrnam b) global - ao mesmo tempo em que a organização
e desenvolvemsuas falas um após o oÌtlr.o,podendo local ocorre, a formulação textual obedece a certas
haver momentosde hesitação,sobrcposiçio c assalto normas de organizaçãoglobal, sobretudono que diz
ao tumo. Veja-se o segmento a scguir: respeito à condução do tópico discursivo. Observe
(5) o trecho a seguir:
(7)
Ll eu fui yer um filme ó::timo...Vcsrígiosckr l)il Ll e DonaMana ficoupreocupada e insisliuVÁriasVEzes
L2 aht: me falaramque é murtobo::nr se queriaque ela lhe desse
paraa Cris comer...perguntei
t comidaMAS a Cris NÃO quis srber...ELA parecia
L3 neste fim de semana?... eu / vrrcô viu lrilutlé[ìa? esTAR zangada...então eu falei... Olha Dona Marta
Ll v i s im . . , v i s e m a n ap a s s a d a ...
c s :tl c l i rrr c l c scnrl ::navi ... depoisque EU sair para dar aula...a seNHOraten::ta
VER se ela aceitacomer...NEM que seja um POU::co
(( ì|nvctslçrì(|csp()nliìnea) L2 vocêcomeçouo::... curso de PÓS ON::tem?
22 ZJ
Ll é coneceí...
A estrutura do texto escrito: o parágrafo
L2 e gostou?
Ll gostei/gostei si,x:: A eìaboraçãodo texto escrito - assim como do oral
L2 QUANtos alunos? - envolve um objetivo ou intençãodo locutor. Contudo,
Ll QUAtro... havia apEn.ts elJAtro... .ttht,t... r,u lìtttiteí o entendimento desse texto não diz respeito apenas ao
o
Número de alunos especiais e a secril.Áritt nrc disse conteúdo semântico,mas à percepçãodas marcas de seu
que havia QUIN::zealunosqueren:;do.fìt:.cr ,, tttctr(,utso
processode produção. Essas marcas orientam o interlocutor
É PEna MAS eu NÃO sqbia dísso(...) nÌrs vollan::do no momento da leitura, na medida em que são pistas
a falar da Cris acho que ELA pENsa t;uc scu/sou
a lingüísticaspâra a busca do efeito de sentido pretendido
culpada(...) pelo produtor.
Um texto escrito tem no parágrafouma de suasunidades
(ConvcrsrrçÌo
cspontânea) de construção.Essa unidade é compostade um ou mais
Nesse trecho, os locutores estão convct.siul(losobre períodosreunidosem torno de idéias estritamenterelacio-
o nadas.Nos textos bem-formados,em geral, a cada pârágrafo
incidente com a babí conÍatada por Ll. O lìrlo
dc essa deve relacionar-seuma idéia importante,não havendonormas
locutora mencionar que quando saísse
,/rí1,rrtlur trrtltt, clona rígidas para a paragrafação.De fato, o produtor pode fazer
Marta deveria oferecer novamente a reÍeiçio
l)lÌl.il u garota, uso da paragrafaçãopara marcar a sua intencionalidade.
faz com que I2 pergunte a respeito ,Jo nuuo .r,rr,.l
,i,c Ll
começou a ministrar na última semana. OcorÍc.
clrtio, um Em termos práticos, os parágrafos podem ser identifi-
d e s v io do t ópic o d i s c u rs i v o q u e s e c l rl c tr,fr,/i r (.()rìr.ì cadospor recursosvisuais:espaçode entradajunto à margem
uma
d i gr es s àor .O f ato d e L l d i z e r q u e v a i ..s rri rp.rr.;r esquerdaou linha em branco na passagemde um parágrafo
tl :rr uul r..
sugere a L2 perguntar sobre uma particullr.icladc para outro. Embora a extensão do parágrafo seja variável,
clcsse
enuncjado: "como foi a primeira aula áo cur.s,rclc pírs,, a observaçãomostra que a tendênciamodema é não usar
que
teve início naquela semana. Esse tipo tlc rcl,rçlì,, parágrafos muito longos. Quanto à estrutura, o parágrafo
,lccxre
porque L2 e Ll têm um conhecimento par.tilhlckr: padrão organiza-se como um pequeno texto (microtexto),
srìo arrrigas
há alguns anos, estão inteiradas dos problcrrrrs apresentando introdução,desenvolvimento e conclusão.
larrriliais,
trabalham na mesma universidade etc. A diversidadede textos implica a diversidadede cons-
A anáÌise desse segmento permile obselvlrl ir rnovi- trução de parágrafos (cf. Andrade, 1994). Temos, então, a
mentação do tópico discursivo que se iniciu. tr irrlcrrornpido estrutura do parágrafo narrativo, a do descritivo e a do
pela. digressão ("você começou o curso dc dissertativo.Enquantoo núcÌeo do parágrafodissertativoé
ptis onÌcrn,,),
sendo depois retomado (,,mas voltando a lirlrl: uma determinada idéia (idéia-n(tcleo ou idéia principal), o
tlrr (,r.is,,).
do narrativo é tm incidente (episódio curto ou fragmento
de episódio) e o do descritivo é tm quadro (fragmento de
3 . A d i g r e s s ã opo d e se r d e fin ìd a co n ì( , L r r Ìr jr paisagem,ambienteou ser num determinadoinstante,ob-
| ( r \.:r ( , it,r r,,rì\.r\r l tIc ni o
s c ac h a d i r e t a m e n l er e l a cio n a d aco m o scg r ììe r l( )
r ììiÌtr ir l,r r(.rt. g,r..",l ,.ri r,:ncrn servadoa partir de determinadaperspectiva).
c om o q u e l h e s c g u c . O lr e ch o cn ì iliili( ( ,.
n l) sr itlì( . d (/r rrt.r. \r unìr
drgressão.
Vejam-seexemplos:
24
25
(8) Atlantasão E. Rouse,G. Hines,J. Portmanou D. Trump
Foram só 73 segundosde vôo.0 ônibus espocialChallcnger - e os desamparados- Restapouco espaçopara o Estado
havia arrancado,apaÍentemente com sucesso,dl base do e paraos uÍbanistas
e projetistas
querepresentam a vanguaÍda
cabo Canaveral,na Flórida, e já estava a 16 quilômetros do saberprofissional.(RobertoSEGRE,"Havana:o resgate
de aÌtitude,quando sobreveiouma tragédia:a nave trans- social da memória".ln|. O direíto ò ntetúría: patríntônio
formou-seabruptamente em uma bola de fogo. Hora exata: histórico e cídadatia. São Paulo: DPH - Secretaria.Mu-
I lh39m de 28 de feverciÍo.(lsto é, dez. 1986,apudI.-ARACO, nicipalde Cultura,1992,p. 102.).
Carlos.Trabalhandocom narraÍíra,2. ed., São Paulo,Ática,
1992,p. 7.) No texto (8), o parágrafo é narrativo, já que se tem
uma notíciasobreum fato reall desenvolve-sesob a influência
(e) do tempo cronoÌógico (nos contos e romancesnarram-se
A Catedral de Brasília é um dos prédios que mais me acontecimentosreais que se desenvolvem a partir do tempo
agradamna arquiteturada nova capital.E difcÍentede todas cronológico ou do psicológico)e inclui um procedimento:
as catedrais já construídas. Com a galeria dc acesso em seqüênciade açõesque se encaminhampara um desfecho
sombra e a nave colorida, elâ estabeleceum jogo, um ou epílogo. O núcleo do parágrafo nanativo é, como já
contrastede luz que a todos surpÍeende;cria com a nave dissemos,um incidente.Nele não há frase núcleo explícita,
transparenteuma ligação visual inovadora entrc cla e os vlsto que:
espaços infinitos; tem na sua concepçÍo arquitetural um
movimento de ascensãoque a caracteriz{e não apfesenta "o seu conteúdoé lm rta\ um devenir, um instanteno
frchrdas diferentescomo us velhascatcdr.lis.E pur:r.(('mo tempo,e, portanto,teoricamenteimprevisível,tecnicamente
obra de arte. (Oscar NIEMEYER, A catedrale as cadeiras, impossívelde antcncipar.Lembraum instantâneo de película
in: FoLhade S. Paulo,20 maio de 1992,Caderno l, p. 3.).
cinematográficacom a mdquinaposta em repousopara
permitir a análisedos detalhes'daação".(Garcia,1973:
(10)
229).
A sociedadeindustrialmodernadestruiua imagcm de coe-
rênciâ estéticada cidade.A persistência do discursocultural No texto (9), tem-se um parágrafo descritivo, pois nele
identificado com a qualidade do entorno construído que
o l.cutor pretende apresentarcaracterísticase qualificações
permitiaa progressivaaniculaçãode diferentesmaniÍestações
aÍtísticas- a praça da Annunziatano centro nrcdicvll de
de çerta reaÌidade.Nota-se que a sua estrutura é espacial e
Florenza ou a coexistênciade estilos sucessivosna praça atemporal: a intenção é fixar, "fotografar", tornar perceptível
São Marcos de Veneza *, se desintegraantc I cxlensÍo um detcrminado objeto: a catedral.
da agressivavolumetriadas edificaçÕes e a nítidr scgrcgação A idéia principal deste parágrafoé a diferença existente
tenitoÍial dos grupos sociais que nela habiturn.Ao tccido entre a catedralde Brasília e as demaisjá construídas.A
consolidadodo "centro urbano", denso dc síntbo|rrsc sig- qualidade do texto repousa na Dercepçãodo observadorque
nificados,contrapõe-se o anonimatoiÌldiviclulldc "suhulbia"... busca apresentaro objeto por meio de seus traços particula-
nos EstadosUnidos atualmentea pcrilcri:r ú oc.rrPada por nzantes.
50 milhões de habitaçõesisoladls. Qucnr pllne.ja c rcaliza
I c idadeat u a l ?S i ,' o 5 q .t..r1 ..,,' rc ì. c n ìl ìr' r.\.i ti r'i\,nc,ìrpo- Em (10), o parágrafodissertativose inicia por uma
tadores,engenheiros, proptictiiÍios(lc lrffit clr I)irllasou (tambémdesignada
frase-núcleo idéia-núcleoou tópicofrasal),

26 27
oferece maior Ìegibilidade, visto que tal frase funciona como
- Desenvolvimento:desde"A persistênciado discurso
elemento desencadeadordas idéias subseqüentes.Essa fra-
cultural..." até "e os desamparados".
se-núcleocontém uma declaraçàoinicial iccrca da estética
da cidade modema. A partir do segundo períoclo, o autor - Conclusão: último período do parágrafo.
passa a fazer consideraçõessobre o que ocorÍe, cm termos A construção de um parágrafo bem estruturado exige
de urbanização,em algumas cidades do mundo e quais são que este apresenteunidade, coerência, concisão e clareza,
as causasdessasituação.Lançaaindauma qucsljo .'euem
visto tratar-se de uma interação à distância, em que não há
planeja e realiza a cidade atual?,, - para poder elencar possibilidadede paÍicipação direta e imediata do interlocutor,
quais são os principâis responsáveise podcr encaminhar o
como ocoÍe no texto oral.
leitor para a conclusão.Esta é feita de mancira direta, sem
ajuda de operadores discursivos, tais corÌo: destc modo, . Unidade. Cada parágrafo pode conter somente uma
portanto etc. Revela, na verdade, a conseqüônciado que foi idéia principal. As idéias secundáriasdevem estarrelacionadas
abordado em todo o trecho: ,.Resta pouco à principal, sem acréscimosou digressõesque possamquebrar
iuru o
Estado e para os urbanistase projetistas qu" ".prço
|."pr"."nturn u a unidade pretendida.
vanguarda do saber profissional". . Coerência-A organizaçãodo parágrafo deve ser feita
Ainda no texto (10), podemos observar o plresso de de tal forma que fique evidente o que é principal. E
estruturaçãodo parágnfo dissertativo, dcstacandoa delimi_ indispensável que haja relacionamento de sentido entre a
tação do assunto, a formulação do objetivo, bcnr como as idéia principal e as secundáriasdesenvolvidas no texto.
partes do texto: (introdução: apresentadapor nrcio da fra_
. Concisão. O parágrafo deve conter a quantidade de
se-núcleo;desenvolvimentoda idéia principal: através de
informação adequada ao objetivo do texto. A concisão,
ordenaçãoçor tempo e espaço,enumeraçio, c(nltÍastc, causa
porém, não deve ser alcançadaeÍi detrimento da clarcza.
e conseqüência,explicitação,entre outros): linalmcnte, é
preciso concluir o assunto:pode-sefazcr ulnt sínlcsedos . Clareza.A escolhadas palavrasadequadasao contexto
aspectos abordados no desenvoÌvimento ou ilDrcscntar o concoÌÌe, em grande parte, para que o parágrafo se torne
resultadoou conseqüência das idéiasexpostüs.Nu vcrdade, claro e a sua leitura possa ser feita de maneira eficiente,
a conclusão ratifica a frase-núcleo.Assinr, lcnlts nesse atingindo a compreensão.
exemplo:
A transição de um parágrafo parâ outro não deve ser
- Assunto: arquitetura e urbanismo. brusca; impõe-se um encadeâmentológico e natural entre
- Delimitação do assunto(tema): csrólicatla cidade eles. Em alguns casos,toma-se indispensávelacrescentarâo
modema. texto um parágrafo de transição para que o encadeamento
das idéias se faça de maneira coesa e harmoniosa. Entre-
- Objetivo: mostrarque, na socicdadcindustrialmo-
dema, os profissionaisda Írca dc urbanisrnoDouco tanto, é aconselhável que o texto não apresenteparágrafos
podemfazerem relaçÌolo plrrrc, repetitivos sem necessidade,pois a repetição pode inter-
jarnerrtotlasciàades.
romper o fluxo informacional, tornando o materiâl redun-
- Frase-núcleo:o prinrciro pcrítxh tkr parígrafo.
dante e cansativo.
28
29
Nestecapítulo,procuramosexaminara organização do
texto nâs modalidadesfalada e escrita.Dentre o que nos
propusemos,e conformejá dissemosna introduçãì. este
livro privilegia a fala. Examinaremos,
no próximo capítulo,
como se dão os fatoresde coesãoe coerêncianessamoda_
lidade.

CapíhtLo II
CopsÃo E CoBnBNcIe
NO TBXTO Fru,ENO

A coesãoe a coerênciaconstituemfatoresbásicosde
textualidade.Muitos autoresnão fazemdistinçãoentreelas,
utilizando um termo ou outro para os dois fenômenos.
Alguns usamexpressões como coeiênciamicroestruturalou
coerêncialocal, quandose referemà coesão,e expressões
como coerênciamacroestÍuturalou coerênciaglobal,quando
tratam da coerência propriamente dita.
Na visão de Tannen (1984), por exemplo, a co€são
contribui para o estabelecimentoda coerência'mas não
garantesua obtenção.Essaidéia é compartilhadapor Giora
(1985),que mostranão ser a coesãoum fator independente,
mas "um subprodutoda coerência".
r A coesãorevela-se,às vezes,por meio de marcas
na oÍgani
formais na estÍuturalingüística,manifestando-se
zação seqüencialdo texto e sendo percebidana superfície
textualem seusaspectosléxico,sintáticoe semântico;outras
. vezes,vem subentendida, não marcadalingüisticamente.
30 31
Tendo em vista a naturezado texto conversacional, a Para a coesão recorrencial, Fávero destaca a presença
análise dos elementosde coesão deve ser fcita de modo da paráfrasecomo elemento coesivo, o que se pode exem-
específico.Estudos de Fávero (1992, l99g) sâlienramos plificar com o segmento:
recursosempregadoscom maior freqüência no quc se refere
(13)
à coesãoreferencial,recorrencialou seqüencial.
L2 mesmoporqueaí que vai procurarajuda né2
Dentre as possibilidades de ocorrência clc coesão re_
l
ferencial, a autora destaca a reiteraçãodo mesmo item
Ll aí... vai procurarterapia né?
lexical. De faro. a alta incidênciade repcriçòcsno texto
faÌado é perceptível com facilidade e fiworóce a coesão. (NIJRC-SPD2 343 2O6-2O7,
P. 22)
além de contribuir para a organizaçàorópica.
Um exemplo de como se manifestaa cocsãono texto em que Ll reÍoma ajuda - formulada porL2e que permite
conversacional pode ser observado no trecho a seÊuir. em uma pluralidade de acepções- por meio da utilização de
que o locutor repete os mesmos itens lexic;ris,rãvelando terapia - acepção específica.
falta de agilidade na busca de melhor expressão ou um A coesão seqtiencial pode ser observada a partir dos
recurso para continuar com o tumo: conectores.No exemplo a seguir, tem-se uma ocorrência do
flt) e intra e interturnos, exercendo variadas funções - promo-
vendo continuidade, ou funcionando como marcador para
L2 elejí ia à escolada manhãque eu comeceiquandoeu
continuar o tumo ou para assaìtá-lo:
comeceitabalhar...coneccia trabulharhi dois Lrnos... só
anteseu não trabaÌhava... e quer dizer então...ele iá ia à (14)
escolade manhâpoÍqueelesdormemselee meil e aeordam Ll e::
sels.iemeia...é o horário normal deles L2 e daí o entusiasmopara Nove filhos...
Ll exatamente noveou dez...
(NURC_SPD2 360 374_379,p. t45)
l
Além disso, a repetiçãopode-se constituir em meio L2 ()
para se ter acessoao tumo, como no exemplo a seguir, Ll é e:: mas...depoisdiantedas dificuldades de conseguir
em
que L2 repete a faÌa do Documentador e toma o túmo, quemme ajudasse... nó::spâramosno sextofilho...
ao
conversarem sobre a dificuldade que tinha seu marido em L2 ahn ahn
ìocalizar bons executivos pura us fir-as, Ll não é?...e... estamosmuito contentese...
(12) L2 e dáo muito trabalhotem essesproblemasde juventude
essesnegócios0
Doc. de BAIxa procura e ao mesmo tempo que se necessita
d,essa:: ela é difícil
D2 360:30-38,p. 137)
(NURC-SP
L2 é é clificil de encontrar...uhn uhn normalmenteé difícil...
A coerência, por sua vez, pode ser definida como um
(NURC-SPD2. 360: 971-973,p. 160) princípio de interpretabilidadedo texto, envolvendo fatores
)z
de ordemcognitiva,lingüísticae interacional.
Estárelacionada possibilitando
maisênfase, análises queenvolvem
discursivas
à boa formação do texto e se estabelecea partir cJeuma um maior númerode fatores".
unidade de senr;do(arualizaçâoseletivr tJoi sigr:ificados
vinuais das expressòeslingüísticasl.o que r claructeriza Conforme se pôde observar, a análise da coesão e da
c omo algo global.isto é. relerenleao lext(ìcorÌt()um todo. coerênciano texto falado deve ser feita de modo distinto
Além disso, a coerênciaé tomadacomo urnl oossibi_ da análise feita em textos escritos, porque - como bem
rra
lidade de emergênciade sentìdoe de comprccrrsìoque se diz Fávero (1999: 93) - conversaçãoé de natureza
concretizano âmbitodas relrçòesinterativr,ànlr" o. ,rrd.io, diferente:ela se produzdialogicamente,como criaçãocoìetiva
na construçãoda textuaÌidade.pode ser caracterizada dos interlocutores".
como
um fenômenocomplexoe de pouca evidênciaempírica;sua No texto conversacionaÌ, constata-se a presença de
instauraçãono texto se dá a panir de perspectivas de quatro elementosbásicos que são responsáveispela sua
produçãoda atividadeconversacional em funcionamento.,,A organização- o tumo, o tópico dìscursivo,os marcadores
coerêncianão é uma unidade de senticlo,mas uma oossi_ conversacionaise o par adjacente,e serádeles que trataremos
bilidade interpretativaÍesultantelocalmcnte..tMarcuschi. a segulr.
1988:2).
Embora na coerêncianão exista tÍansitividade,isto é.
cadasegmentode lexto nâo precisaestarIigadodiretumente Turno
ao anterior.observa-seque ela é propriedaãenâo do lexto,
mas daqueìesque interagemnessetexto. Então, a coerênciâ Estruturalmente,o tumo define-secomo a produção de
apresenta-se como "algo que se articuÌapeÌa interação,num um falante enquantoele está com a palavra, incluindo a
processo"de conslruçãomútua.pelrs relaçòesestrúelecidus possibilidadede silêncio.Na conversação, ocorrea altemância
e percebidas pelos frhnres" (Aquino. lgtl: g5_gó). dos participantes,isto é, os interlocutoresrevezam-senos
papéis de falante e ouvinte. Nessa perspectiva,pode-se
Assim, paraque haja entendimentoentreos interlocuto_
caracterizar a conversaçãocomo uma sucessãode tumos,
res, é preciso que eles sejam coerentesno que dizem e.
entendendo-sepor tumo qualquer intervenção dos paltici-
principalmente.saibamsobreo que dizem(tóptcòdiscursivo).
pantes (tanto as intervençõesde caráter informativo, quanto
Na visão de Fávero (1992: 116-117): breves sinais de monitoramento, como: ahn ahn: sei: certo)
durante a interação.
"O textoconversacional é coerente:o problemaé quecomo
ele obedeceJ pÍocessos Sacks,Schegloff & Jefferson(1974: 7Ol-702) montaram
de ordemcognitivit.muita, uezes.
se torna ditícil detectarmarcaslingüísticas um modelo elementarpara a conversação,baseadono sistema
e discursivas
dessacoerência, pois ela geralmente de tomada de tumos. Esses autores sugeriram um sistema
não se dí com base
nessasmarcas,mas na relaçãoentreos refèrentcs; válido para conversaçõesespontâneas,informais, casuais,
daí a
lmportânciada noçãode controlereferencialestabelecida sem hierarquiade falantes.Para essesestudiosos,qualquer
com basena organização conversaçãodeve apresentaras seguintes propriedades:
tópica,e é por issoque o estudo
do desenrolvrmento dos tcjpicosvem rdquirinãocrdu vez a) a troca de falantes recoÍïe ou pelo menos ocoÍïe;

-J-)

*.
b) em qualquertumo, fala um de cada vcz; t
c) ocorrênciascom mais tle um falantc poÍ vez eúvocê viu Filadélfia?
L3 nestefim de semana?...
são
comuns,mas breves; vi...
es::tefim de sema::na
passada...
Ll vi sim...vi semana
d) transiçõesde um tumo a outro sem intervaloe
sem
sobreposiçãosão comuns; pausase sobrepo_ Cadaparticipantedessaconversação tem direito a formular
.longas
siçõesextensassão mrnona; seu tumo e, se o princípio é "faìa um de cada vez", o exemplo
e) a ordem de tumos não é fixa, mas variável; evidencia que nem sempre é isso o que ocorre, já que se
detecta a fala, ao mesmo tempo, de dois interlocutoresL2 e
f) o tamanhodo turno não é fixo, mas variável;
L3 em sobreposição,marcadapelo sinal de colchete.
g) a extensãoda conversaçãonão é fixa nem previa_
mente especificada;
h) o que cadafalantedirá não é fixo nem previamente Tópico discursivo
especificado;
i) a distribuiçãodos turnos não é fixa; Tomadono sentidogeralde assunto,o tópico discursivo
pode ser definido, conforme já dissemos,como "aquilo sobre
j) o número de paÍicipantes é variável;
o que se está falando" (Brown & Yule, 1983: 73). Pode-se
k) a fala pode ser contínuaou descontínua; dizer que o tópico é um elementoestruturadorda conversação,
l) são usadastécnicasde atribuiçãode turnos; pois os interlocutoressabemquando estão interagindo dentro
de um mesmo tópico, quando mudam, cortam, retomam ou
m) são empregadasdiversas unidades para construir
o fazem digressões.
tumo: lexema (palavra),sintagma,sentençaetc.;
TÍata-se,conformeobservaAquino (1991:65-66)' "do
n)'.èertos mecanismosde reparaçãoresolvem falhas
ou sentido construído enquanto se falâ e gerado, também, por
violações nas tomadasde turno, como por exempÌo:
atividadesas quais o mobilizam e marcamos seussegmentos".
"desculpe...mas você estavadizendo que,,.
O tópico discursivose estabelecenum dado contexto
propriedadesapontadaspermitem afirmar que engajados numaatividade,
. Pr:u. a em que dois ou maisinterlocutores,
tomadade turnoaé uma operaçãofunàamentalda
conversação negociam o assunto de sua conversação. Tal afirmação
e o tumo toma-seum dos componentescentrais
do modéÌo. poderia sugerir que o tópico se estabelececlaramente, in-
Para exemplificara distribuiçãode rumos em um
r;h; J; clusive por meio de marcas lingüísticas;entretanto,ainda
conversação,observeo exemplo (5), já discutido
anterior_ segundoAquino, muitas vezesa identificaçãode um tópico
mente e que retomamos aqui:
discursivo não se dá de modo explícito, já que ele pode
apenas ser pressuposto.
Ll eu fui ver um filme ó::timo...Vcsrígiosdo Dia
L2 ah..:me falaramque é muilo bo::m Quando isso ocorre, verifica-se que o Íeferencial não
se encontra no texto, mas no contexto situacional e, neste
câso, as unidades lingüísticas referem-sesistematicamentea
4 . P a r a u m e s l u d o so b r c i
Scstiì{ )( tiÍxìlo g iil ( t( .r r rìr)\ LrrÌvcrsÍci onai s, traços do mundo extralingüístico. Esses traços incluem não
^
ver Galembeck, Silva & tìosl i),X))
só a situaçãoimediata onde as unidadessão utilizadas, como
--)o 37
também o conhecimento por parte dos interlocutores sobre a\ Centração. O tópico é basicamente uma questão de
o que foi dito anteriormente e sobre quaisquer crenças conteúdo, é o falar acerca de algo, o que implica a
externas relevantes. utilização de referentesexplícitos ou inferidos que con-
Exemplifica muito bem essaquestão o trecho a seguir. vergem para o desenvoÌvimento textual. Cabe lembrar
Num contexto em que um casal combinara ir à praia
iara que o tópico está sempre na dependênciade um processo
passar o fim de semana, o marido (Ll), que eiperava colaborativo que envolve os participantes da atividade
à
porta do elevador, impacientou-se com a demorã _ tão inteÍacional.
costumeira- da esposa(L2) e, indignado, porém cuidadoso
para não.criar indisposiçãoentre eles, dirigiu_lhea palavra b) Organicidade. O tópico se estabelecea partir de uma
nos seguintestermos: relãção de interdependênciaem dois planos: seqúencial
- distribuiçãolinear ou horizontal- e hierárquica-
(15) distribuiçãovertical.As camadasdessahierarquiapodem
Ll perdeualgumacoisa? ser ilustradaspelo quadro tópico a seguir:
L2 não...poÍ quê? tí com muita pressa?
Ll eu só:: queriale ajudar...
L2 só se eu não o conhecesse....

(Conversação
espontânea)

Ao explicitar "perdeu alguma coisa?", na verdadeLl


estava querendo referir-se à demora da esposa e foi assim SbT SbT sbT sbT SbT
que ela inÍeriu, certamentepelo que já se cónheciam.Assim,
em vez'de responder-lhe,L2 organizou outra pergunta. ST = supertópico
mudando o tópico e mostrandoa Ll o que inferiu. óomo T = tópico
SbT = subtóPico
ele insistisseem nào criar indisposição,organizouseu enun_
ciado alertando-a de que não dìsseia (diretamente) nadâ no
sentido de pressa ("eu só queria te ajudar'.).Novamente, c) Delimitação local. O tópico é marcado, potencialmente,
Ll p_osicionou-se, agora por meio de uma avaliação(,.só se por início, desenvolvimenloe fecho' embora isto nem
eu não o conhecesse"), indicandoo que detectoú,não pelo sempre se evidencie. vale acrescentar que as marcas
que L2 explicitou, mas pelo pressuposto.
dessadelimitaçàopodem ser marcadoresconversacionais.
Pesquisasrealizadaspelo grupo de estudiososdo texto elementosprosódicos(pausas,hesitações),perguntas,re-
que integram o Projeto da Gramática do português Falado petições, paráfrasesetc.
no Brasil permitemindicarque o tópico discursiõ5 apresenta
Vejamos, agora, a distribuição dos segmentostópicos
as seguintespropriedades:
na linearidade discursiva. O trecho escolhido faz parte do
diálogo D2 343. A interferência mínima da documentadora
_
5. Veja-se Koch et al. (1992) e FáveÍo (1993) paÍì um csrudo ÍÍüris e a conseqiiente predominância das falas dos informantes
completoa respeitode tópico discursivo.
permitem afirmar que o texto apresentatraços bastante
38 39
próximosaos da conversação
espontânea,
com um grau de o subúrbio...e o:: centrobom:: em washingtonpor exemplo
planejamento
prévio bem reduzido. é gueto... né? em Nova Iorque também...
(16) t
Ll eu fui:: quinta-feira... não foi terça_feiÍaà noite fui lá LI
no 0 né? Lá na Celso Furtado uhn::
L2 éh: L2 então a Tatá estava contando outro dia né? que:: depois
Ll passeiaÌi em frenteà Faculdadede Direito...entãoestava das seis horas da noite você andar na cidade e o jeito
Iembrando...que eu ia muito lá quando tinha sete nove dela "só tem preto... só tem preto e bicha"né? e:::..e
onze...(com) a titia sabe?...e:: realmente acho que ne/muito pouca gente ainda mora
está muito pior a cidade
está...oaspectodos prédios assim é bern mais sujo... lá assim de nível sócio-econômicomais alto né?...
tudo acinzentadoné? Ll é porquede noite...estávâziabem vazia não tem trânsito
L2 uhn:: poluição né? (mas)...Lins por exemplonão é assimné? você tem...tem
um aspectode::... de acho que parece bairro a cidade
Ll ruas mais ou menos sujas.,.ali perto da praça da Sé
né? não tem nenhum movimento...éh:: chega seis sete
da Praça da Sé tudo esburacado por causa áo metrô horas
né?...achei honível... feio feio feio... e toda segundâà
noite eu passo ali do lado da faculdade certo? t
L2 masque
L2 quândo você vai pra:: para Aliança né?
Ll todo mundona rua...ah não sei..,deveter uns::...
t
Ll é quando eu p€go o caÍro...e:: também é
t
horrível o aspecto... (parece) assim montoeira de con_ L2 tamanhoquantoshabitantestem lá?
'.creto... sem nenhum aspecto humano
certo? os prédios Ll cinqüenta cem mil...
sem:: estilo arquitetônico...ou de estilo arquitetônico L2 eh SãoPauloachoassimuma vez o Francksabeaquele
tudo desencontradonão têm não têm integração... que...que é arquiteto?
L2 mas isso eu acho que não tem né? em::...lugarnenhum L1 uhn...
da cidade a nào ser talvez...assim L2 ele estayâfalando que a topografiada cidadeé muito
t bonita...
Ll me paroceque... (NIJRC-SP
D2 343: l7-69,P. l7-18)
L2 bairro em termos de de visão::
Ll me pareceque estáahn::envelhecidaa cidadené?...ahn:: O tema sugerido pela documentadora é "Cidade e
muita construção...antiga não tem muita constÍução comércio", mas o texto não Íevela que os interlocutores
nova... deveriam seguir um determinado plano para expor suas
L2 oh eu acho que em termos de::... centro por exemplo opiniões, tanto é que eles se colocam à vontade para mudar
está começando a acontecer um negócio que... você vê de assunto ou, até mesmo, retomar pontos desenvolvidos na
normalmente em cidade americana grande Washington parte inicial do diálogo. No que se refere à organização
Nova lorque...que é::... pessoalmais classealta ir tópica, o texto gravado apresentadois grandes tópicos
iara
40 4l
no horário adequado.A mãe entende e responde explicita- em que estabelecem,mantêm e regulam o contato entre os
mente, fazendo uma avaliação participantes: um olhâr incisivo pode significar o enceÍrâ-
Ao se focalizar o aspectorelativo à compreensãotextual, mento do tópico discursivo ou um novo encaminhamento
observa-se que, implicitamente, os tópicos I e 2 estão da conversação.
relacionadosao supertópico "Obrigações em família" e que Os recursos pros&icos ou supra-segmentaissão de
esse mesmo supertópico se mantém, ou seja, não muda natureza lingüística, mas não apresentâm caráter verbal.
nessesegmentoconversacional.No texto, detecta-semudança Dentre essesrecursos,interessam-nosas pausas,os alonga-
de referente (de "bola" para "almoço"), sem que esses mentos e o tom de voz. As pausaspodem ser curtas, médias
eìementoslingüísticosestejamcoesivamente interligados;en- ou longas e constituem fator decisivo na organização do
tretanto, essa questão não interfere em temos de coerência, texto conversacional. São freqüentes em final de unidade
pois os referentes apontados inter-relacionam-senum outro discursiva (enunciadosconversacionaisque refletem a expe-
nível, o das relações cognitivas, possível graças ao conhe- riência do falante a respeito do que seja um bloco textual,
cimento partilhado entre os paÍicipantes. ou seja, transmitem porções informacionais) e, geralmente,
A partir da observaçãodos exemplos de números (16) concoÍTemcom outros marcadores.Também podem ocorrer
e (17), é possívelafirmar que a conduçãodo tópico discursivo no início de unidades,sobretudocomo hesitações(ou pausas
e, conseqüentemente,a organização do texto falado, não preenchidas).Há situações,como se verifica nas conversações
pode ser prevista. informais, em que as pausas propiciam mudança de tumo.
Já nos monólogos, as pausas mais longas têm uma função
cognitiva, pois operam como momentos de planejamento
Marcadores conversacionais verbal.
Por sua vez, os marcadores'verbais apresentamuma
A expressão marcador conversacional serve para de- variada gama de partículas, palavrâs, sintagmas,expressões
signar não só elementos verbais, mas também prosódicos e estereotipadase oraçõesde diversos tipos. Uma possibiÌidade
nãoìingüísticos que desempenhamuma função interacional de sistematização dos marcadores verbais elaborada por
qualquer na fala. Podem ser produzidos tanto pelo falante Marcuschi(1987)apresenta uma suMivisãoem quatrogrupos:
como pelo ouvinte. São exempÌos de marcadoreselementos
1) marcador simples: realiza-se com uma só palavra:
como: claro, certo, uhn, ahn, viu, sabe?,né?, quer dizer, eu
interjeição,advérbio, verbo, adjetivo, conjunção,pro-
acho, então, daí, aí etc. Os marcadoresprosódicos, por sua
nome etc. Exj agora, então, aí, entende, clúro.
vez, abrangem os contornos entonacionais(ascendente[t],
descendentehl, constante[+]); as pausas(silenciosasou 2) marcador composío: apresentaum caráter sintagmá-
preenchidas); o tom de voz, o ritmo, a velocidade, os tico com tendência à cristalização. Ex.i então daí,
alongamentÕsde vogais etc. aí depois, quer dizer, digamos assim.
Os marcadores nãoJingüísticos ou paralingüísticos 3) marcador oracianal: correspondea pequenasorações
como, por exemplo, o riso, o olhar, a gesticulação,exercem que se apresentamnos diversos tempos e formas
urna função fundamentalna interaçãoface a face, na medida verbais ou modos oracionais (assertivo, indagativo,

44 45
..

&
f
exclamativo). Ex.: eu acho qLte, quer dizer, entã.o tópicos e subtópicosÕu porçõesmenoresque vão sendo
eu acln. adicionadasao discursono decorrerde sua progressão.
4) marcador prosódico: associa_sea algum marcador í18)
verbal. mas realiza-sepor meio de rãcursosprosó_ nas
L2 houve uma série de irre/éh:: de irregularidades...
dicos.Fazempartedestegrupo a entonação,u puuru, list/na apresentaçãoda lista de classificação irregularidade
a hesitação,o tom de voz, enrre outros. foi engano...no no no fazer...na confeccçãoda lista...de
É importante observar que os marcadores constituem de aprovadoshoúhouv/ começaÍama haveralgunsenganos...
um elemento na articulaçãode textos, encadeando-os erÍão o pessoal que mand/entrava com mandado de segu-
de rança... dizendo que foi contado pontos errados.., encAnos
modo coeso. Eles asseguramnão só o desenvolvimento
simples comuns eh aÍitmética (às vezes) de somar o número
continuadodo discurso(seqüêncialinear),mas tambémooe_ de pontos...ertão elesentraramcom mandadode segurança...
ram na organizaçãohierárquica do texto na medida em áue anulandoaquela lista de classificação... e enlão havia pu-
funcionam para garantira coesividadeentre os tópicos que blicação de outras...e assim foi indo e::e a::... de acordo
vão-se apresentandoverticalmentedurantea elabòração com o edital a validade é de dois anos DA publicação...
do
texto falado6. dos resultados... ealao com a:: com
da lista de aprovados...
esta... com este recurso da mandado de segurança...não foi
Os marcadoresverbais exercem funções estruturadoras propriamente o recurso foram coisas que realmente aconte-
relevantes, coincidindode modo disrribuiionale funcional ceram...
com operaçõesde organizaçãosintátìca. Constituem um Ll certo
elementoimportantena articulaçãode textos,porqueevitam
L2 mas então foi se prorrogando a validade do concurso
que a conversação se tome uma sucessãode monólosos
paralelo;. Porém, na medida em que encadeiam LL e deí você só ter sido chamada...
m t.-*to
de modo coeso, os marcadorestambém o segmentam.per_ L2 daí
cebe-seque eles agem como elementosde sJgmentaçioao t
mesmo tempo em que suprem! em certa medida, o papel Ll {há) queslãode dois anose meio
da pontuação na fala.
(NURC-SP p. l5l)
D2 360:589-607,
Observeo exempÌo(18). Nessesegmento,os marcadores
entdo, e então, mas então, e daí são utilizados pelo locutor
Considerandoas funções textuais e argumentativasdos
quando este desejaprogredirsuas idéiaspo, *.ìo de
séries marcadoresconversacionais,verifi camos que esseselementos
cumulativasde unidadesdiscursivasÌigadas a um tópico. desempenhampapel de especificadores,coordenadores,su-
Esse tipo de uso se efetiva particularmente atravéi bordinadores, entre outros. Por meio desses marcadores,
de
encadeamento de ações,explicações,conclusões,avaliacões podem-se explicar os deslocamentosreferenciais locais ou
elc.. nas quais se identificaum quadro tópico. formudo por globais com a função de conduzir e orientar as atividades
do locutor e do seu interlocutor.
ó, Paraum estudomais aprofundaclo
s{JDre
os marcrdorcsconvcrsâcionais, Nesse sentido,podem-serestringira articular relações
ver AndÍade(1990)e Rosa(1992).
e sustentara interação.Pode-se,assim,justificar a existência
46 47

&
dos marcadoresa partir das funções interacionais,já que L2 eu acho que tem rm sentidosim por trás
estascomandamestratégiasadotadaspelos interlocutoresna
construçãoe rnanifestação de suas identidadcssociais. (NIjRC-SPD2 343 259-264,P. 23)
Desse modo, quando os interlocutoresinvestem em
uma conversação. As duas ocorrênciasdo marcador conversacionaleu
agem de acordo com suas intenções(dis_
ponibilidade paranegociar,abrandamentode posição,proposta acho que introduzemas discordânciasde L2, apontandoao
de oferta de um tema para consideração eta.), ;u seja, interlocutorLl que estasdevem ser entendidasde um modo
buscam construir um evento comunicativo específico,já que se trata de uma opinião. Do ponto de
qr" u aoo_
"Ìn para que o
peração está implícita, pois ela é necessária vista filosófico, toda a opinião inclui a incertezasobre o
evento se constituade fato. Os marcadoresconversacionais que se diz; já do ponto de vista pragmático-interacional,a
são, portanto,elementosque auxiliam no desenvolvimento opinião é vista como uma cÍença ou saberpré-configurado,
interacionalda atividadeem pauta. que contrasta com a expressãode uma dúvida. Entretanto,
na conversaçãoespontâneaessa distinção sutil toma-se,
Observem-seos exemplosa seguir: muitas vezes,impraticável,principaÌmenteno caso das ex-
(1e) pressõesde opinião.
L2 tudo isso é reflexo...uhn::...de uma situaçãomais ampla Em síntese,podemos afirmar que os marcadorescon-
né? assimcomunicaçãoem cil em cidadegrandeo meirô
versacionaispromovema conduçãoe manutençãodo tópico
é uma forma... de comunicaçãoné? de levar e tmzer...
discursivo.instaurandoa solidariedadeconversacionaìentre
Ll transportené?
os interlocutores,na medida em que propiciam dinamismo
t e continuidadeà interação.São elementosque definem as
L2 pessoas e... atividadeslingüísticasdominantese secundárias,
assegurando
f-t 'nao g áeil comunicação a unidadetópica e, no desenvolviúento.marcando os tipos
é trünsportc
de articulação.
(NURC-SPD2 343 420_427,
p.21)

Nessetrecho,o locutorLl conige L2 (ato que constitui Par adjacente


ameça à face positiva ou imagem pública de L2); como
houve sobreposiçãode vozes, Ll retoma a correção intro_ de se estudaro par adjacente(pergun-
A necessidade
duzindo um procedimentoatenuador,por meio dò uso <ìo ou recusa,pedido-concordância
convite-aceitação
ta-resposta,
marcador bem. deve-seao fato de serelemento
ou recusa,saudação-saudação)
(20) básico da interação. Na verdade, é difícil encontrar uma
Ll cidade não é isso você eliminou a poluiçio acabou... conversaçãosem nenhum tipo de par, de tal modo que se
nãlnãlnãJnão:.tem um análogo assim du cidadc grande pode indicar ser o par diaÌógico uma das unidadespara
trpo... vontadedos... habitantesde poluir... não... estudo do texto conversacional
L2 eu acho que tem Estamos admitindo, assim, que ele concorre para or-
Ll nao ganizar localmentea conveÍsação,controlandoo encadea-
48 49
mento de açõese, inclusive,podendoconstituir-seem eÌe_ para a formulação dessas Ps fatores como papel social e
mento inlrodutor do tópico discursivo. grau de intimidade entre os interlocutores.?
Dentre os pares indicados, trataremosdo par adjacente Dessemodo, podemosafirmar que P e R não funcionam
pergunta-resposta(P-R), em razão de sua freqüência nas aleatoriamente,correspondema estrâtégiasusadas pelos fa-
atividadesdiscursivas.No que se refere à seqüËnciação de lantes,na atividadeconversacionale podem ser utilizadas,
P-R, observa-sea possibilidadevariadade organizaçãodesse como já se disse,para:
par, visto que na conversaçãonão há necessariamente uma a) Introdução de tópìco. Ao iniciarem a conversação, é
única R possívela uma dada P, ou seja, as possibilidades
comum que os falantes o façam utilizando-se de uma P.
de preenchimentode P-R são várias.
Além disso, ocorrem Ps quando se introduzem novos
A análise de textos falados permite observar também supertópicos,como se pode verificar no trecho a seguir:
que par adjacente e tópico discursivo, conforme Fávero,
(22)
Andrade e Aquino (1996a),estãointimamenterelacionados,
na medida em que a conversaçãose organizapor meio de L2 a sua família é grande?
tópicos e estes podem-se estabeleceratravés de pares adia- Ll nós somos::seisfilhos
centes.
(NURC-SPD2 36O:20-2t,P. 136)
De fato, entre os eÌementosque concorrem para a
introdução,o estabelecimento e/ou a mudança de tópico Nesse segmento,L2 introduz o supeÍópico "Família"
discursivo,a P é o mais frcqúente,já que cla é multifuncional.
por meio de uma pergunta.Essa estratégiaé bastantecomum
Veja-seo exemplo a seguir em quc Ll, aproveitando-se de na conversação diária, principalmente para estabelecer a
uma pausa de 4 a 5 scgundosdc sua interlocutoraque
entrada do primeiro tópico a ser desenvolvido entre os
falavl sobre o problclna dr-' lcr lÌlhos pcquenos.muda o
falantes.
tópico para "vida profissionaldc L2" por meio de uma p:
b) Continuidade de tóptco. As Ps e as Rs também são
(2t)
utilizadas.No exempÌo (23), em que se desenvolviao
I-2 e dão menostrnbaÌho tópico "Reação dos irmãos à supervisora", Ll vale-se de
Ll ah::poisé uma P para saber mais sobre a atitude dos garotos em
L2 é... cria menosproblema...
((pausade 5")) reÌação à irmã:
Ll vocêentrounesseúltimo concurso...
paraprocuradora? (23)
Ll porque...ela está assumindo... tarefas...MUIto preco-
(NURC-SP,
D2 3ó0:450-453,p. 147) passeessa fase
cemente...não é?... e... Dossivelmente

As Ps podem ser estudadasno que se refere às ne_


cessidadesdo falante(perguntador) em àeterminrdasituaçào ?. Este assunto foi bastanteestudadopor Fávcro. Andrade, AquiÍo (1996â)
e apontapara a participaçãoativa do ouvinte,à medida que In: CASTILHO, A. T. de & BASÍLIO, M. Grcnáim do pottuguês falado. Vol.
IV. htud,'t dt." rìlivut. Ncne tídbrlho. rs aulorrs abordrm o I'cÍ .ob 3 per.pectiva
sugereuma tomadade posiçãoquantoà aceitaçÌo.mrnulenção da ÍegÍa de coer€nciâ, bcm como estabelecem umâ tipologia a partir do lópico
ou recusado tópico discursivo.Cabe lembrarque concoÍÌem discuÍsivo.

50 5t
(25)
L2 os outros mesmosnão se incumbemde colocála no L2 você...chegoua trabalhare depoisdeixarde trâbalhar
lugar dela? por causadiVde::
Ll bom,..com unsTApas...às vezesela se coloca Ll eu trabalheis::ó no início...
L2 ún
(NIJRC-SPD2 36O:417-419,P. 146)
Ll mascom palawasela não se colocaporqueela

(NIIRC-SPD2 36O 225_232, O diálogo em questão apresentadois supeÍópicos:


p. t4t-t42)
'Farnília" e "Profissão". A mudança do primeiro para o
Lnporta salientarque o desenvolvimento segundoocoÌÌe com a P formulada por L2, observando-se
,. . do tópico se assim uma mudançaglobal.
dá de acordo com a naturezada p formulada q,ì"
"
P pode ocorrer,por exemplo,para pedir informaçào, "..u (26)
con_
tiÌmação,esclaÍecimento. L2 quemfoi se acusa(maso)...quandoa::aa arteé muito
grandeou elesestãobrincando acusam
então.,. o pai ou
c) Redirecionamento do tópico, euando percebeque hou_ a mãe aqueleque não estiverpresentefoi aqueleque
ve um desvio do tópico, o interlocútor pode redire_ fez...
cioná-lo poÍ meio de uma p, reintroduzindoo tópico Lté
oÍiginal:
Doc. seusÍilhos estãocom que idadeH.?
dr|) L2 com tr"ese cinco anos
L2 mas o que você ia falar de compra? noçãode:: horário?
Ll elestêm noçãode ho::ras...
Ll gozadonós não costumamos fazer rnuitacompÍanão...
nãü soudo tipo de... (NURC-SPD2 360 279-285,P. r43)
LZ er até que compÍobastantecoisaeu acho
Nesseexemplo,L2 estrádesenvolvendoo tópico "Cum-
(NLIRC_SP plicidade entre os filhos de L2", quando o documentador
D2 343: 635-638,p. 33)
formula uma P a respeito da idade dos filhos dessainter-
Nesse segmento,os falantes desenvolviamo tópico locutora. Essa P correspondea uma mudançade subtópico
_._ ou mudança local e prepara ou condiciona a P principal,
"Compras".Ao perceberum desviodo tópico,para..ConÍole
de preço do café", L2 o redireciona por meirode uma p. formuladapor Ll, para introduzir o tópico "Noção de horário
com os filhos de L2".
d) Mudançade tópíco.Por esgotamento do assuntoou Dor
não querer mais falar sobre aquele tópico, observa_se Neste capítulo buscamosexaminaros fatoresde coesão
a possibilidadede ocorrênciade uma p, funcionando e coerênciano textofalado,evidenciando elementospróprios
como elementode mudançade tópico. Essa mudança dessamodalidade. Passaremos,no próximo capítulo,a tratar
pode.ser local (mudançano nívei do subtópico) óu das atividadesde formulação textual.
global (mudançano superrópico).Vejam-seos ôxemplos
a seguir:
52 )J
Capíhtlo III
Arruraops DE
FonuumÇÃo
O que é formular um tcxto?

As atividadesde formulaçãotanto ocoÍrem na produção


do texto falado quanto do escrito.Fntretanto, essaatividade
é distinta em cada uma das modalidadesda língua.
SegundoAntos (1982: 92), ao prcduzir um enunciado,
o locutor realiza uma atividade intencional: 'Tormular um
texto não é só planejáJo, mas também realiá-Io", isto é,
formular é efetivar atividades que estruturam e organizam
os enunciadosde um texto, e o esforço que o locutor faz
para produzi-los se manifestapoÍ traços que deixa em seu
discurso,Assim, formular não significa simplesmentedeixar
ao interlocutor a "tarefa" da compreensão,mas, sim, deixar,
atÍavés dessestraços, marcas para que o texto possa ser
compreendido,o que faz com que a produçãodo texto seja,
ao mesmo tfj'rlpo, açõo e interação. Desse modo, podemos
aÍirmar que as atividades de formulação visam sempre à
intercompre€nsão.
Entendidasdessamaneira,as atividadesde formulação filhos", faz uso do marcadordssim, alonga as palavras,faz
do texto oral podemser subdivididasem: pausa,hesita âté encontraro termo desejado"um objetivo".
a) de formulaçãostricto sensu,quandoo locutor não SegundoChafe(1985:78), os casosde hesitaçãoconstituem
encontÍaproblemasde processamento e lineariza- uma "evidência de que a fala não é uma matéria de
regurgitaçãode materiaisjá estocadosna mente em forma
ção;
lingüística,mas é um ato criativo,relacionandodois meios,
b) de formulaçãolato sensu,quandoo locutorencontra
pensamentoe linguagem,que não são isomórficos,mas
problemasde formulaçãoe deve resolvê-los.
requeÍemajustese reajustesmútuos".
As situaçõesque desencadeiam problemase que serão Para Marcuschi(1995), a hesitaçãoé um indício de
aqui examinadassão: hesitações,paráfrases,repetiçõese
correções. 'dificuldade cognitivor/verbal
localizadona estruturasintag-
mática". Existe em todas as línguas,significandoque elas
têm meiosde introduzirno discursoo processode formulação,
quandoexistemdificuldades:há uma intemrpçãono fluxo
Hesitação
informacional devido a uma m.á seleçãofutura, resultando
As hesitaçõessão tidas como um tipo de "problema" um enunciadoainda não concluído. "Ela constitui uma
que é captadodurantesua formulação/linearização, evidênciade que a fala é uma atividadeadministradapasso
isto é,
on line, caracterizando-se a passoe que planejamento e verbalizaçãosimultâneostêm
por seu aspectoprospectivo,já
que tem como escopoalgo que vem depois.Observe-seo conseqüência no controledo fluxo informacional;a fala vai
trecho a seguir: mostrandoseusprópriosprocessosde criação" (Fávero,1997:
120).
(ã)
Ll agora a outra gêmea...ela corno vai va::i o que:: está
tudo muito bom::
hobleÍna de fomutação
L2 desdeque não:: ((risos))
J
Ll desdeque não:: ((risos))muito esforço
hesibÉo ì procp€ctiv.
12 ( ) muito esforço
Ll é são ambasestudiosasmas...elas ah essadaí não::...
não tem aindaassimmuüa::...éh uma...um objetivo a
Observem-se
os fragmentos:
atingir sabe?agorao menino gostamuito de mecânica
o:: de heze anos ne'? (26)
(NIJRC-SPDZ 360: 1284-92,p. 168-169) L2 olha o tl/o li/ ah especifrcomente o tipo de carreira ah
eu acho que isso seria quaUqualquer uma ( )
Nesse segmento,podemos verificar que a locutora, ao
desenvolver o tópico relativo a "Tendências vocacionais dos (NÍJRC-SPD2 360: ó50-ó51,p. 152)

56 )l
(27) Paráfrase
Ll eu trabaÌhava no serviço social do Estado...
L2 uhn A paráfrase é uma atividade de reformulação pela qual
se restaura"bem ou mal, na totalidadeou em partes,fielmente
Ll fazendo parte da:; campanha de:: repressãoà mendicân-
cia... do governo Caryalho Pinto
ou não, o conteúdo de um texto-fonte, num texto-derivado"
(Fuchs, 1983).
L2 ahn ahn
Ll mas::... trabalhava aUno:: albergue noturno... Observe.leitor, o exemplo a seguir:
L2 ahn (29)
Ll me pareceque está ahn... envelhecidaa cidade né?...
(NURC-SP D2 360: 426-432,p. 147) ahï.i... muìtq construçõo... antíga não lem muila cons-
truçdo nova
(28)
L2 houveuma sériede irre/éh:: de irregularidades.-.naslis/na (N{JRC-SPD2 36O:41-43,p. t8)
apresentaçãoda lísta de classificaçãoinegularidadefoi
engano...no no no fazer...na confecçtioda lista de Nesse exemplo, Ll ao dizer envelhecidaexplica o que
aprovadoshouv/ltouv/
começaram a haveralgunsenganos.... o termo significa: haver muitas construçõesantigas e poucas
novas; executa, assim, uma paráfraseexplicativa.
(NIJRC-SP
D2 360:589-593,
p. t5l)
A paráfrase é, portanto, um enunciado que refoÍnula
Nesses exemplos, o locutor, seguindo o curso norÍnal um anterior e com o qual mantémuma relaçãode equivalência
de sua formulação,depara-secom um problemade formulação semântica.
(acharo4ermo adequado). hesitr,às vezesgaguejae encontra Veja esta relação no trecho a seguir:
esse terïno: í30)
Em (26) Ll e eu tereitempodisponívelnãoq\e etrdeseje:::líberdade
tí/o ti./ ah especificamente
o típo de correíra; d.esejeeh eh estar assímsem obrígaçõespara com os
crianças...masé que daí eu terei tempodisponívelpara
(27\ fazer as coisasextrasnão é?
trabalhavq aUno:: albergue;
(NURC-SP p. 167)
D2 3@: 1230-1233,
(28)
O enunciado "deseje::: liberdade" foi reformulado pela
írre/éh:: de irregularidades...nas lis/na apresentaçõoda paráfrase "deseje eh eh eslar assim sem obrigações para
Iista de classifcação; no no no fazer... na confecção;
com as crianças", já que o termo liberdade reúne traços
houv/houv/começarama haver.
semânticospossíveisde serem atualizadosem distintos con-
Trata-sede hesitaçãoque tem sempre,como já dissemos, textos; entretanto, o locutor tecoÍta "estar assim sem obri-
um caráter prospectivo e não de coÍïeção, como o fazem gações para com as crianças", especificando o sentido de
alguns lingüistas. " liberdatle " .

58 J9
Outros casos em que ocoÍre a paráfrase é quando o Nesse segmento, Ll faz uso da repetição do termo
locutor pretendegenerdizar, isto é, o enunciado reformulado "processo"patradar continuidadeao tópicoem desenvolvimento.
apresenta uma abrangênciamaiordo que o enunciadooriginal. Na visão de Marcuschi(1996), a repetiçãoé uma das atividades
Observe o exemplo a seguir: de formulação mais pÍesentesna oralidade,podendo assumir
(3t) um variado conjuntode funções.Dentre elas,podemosdeslacar
Ll ele estudaentão::quasenão sai com a gente...elejogd a sua contribuiçãopÍra a organizaçãodo discurso e a lÌìíìnu-
futeboLcon as criançasbrinca con as nteninase tudo... tenção da coerênciatextual, bem como a organizaçãotópica
tetn os tnotnentos
cornas criançascairoscoma::s::...fins e a geraçãode seqüências mâis compreensíveis.
de semanaele estudanão é? Ela confirma o que já dissemos:o texto oral é produzido
passoa passo,criaçãocoletiva dos interlocutores.Enquanto
(NIJRC-SP
D2 360:1357-1360,
p. 170) atividade de formulação textual, as repetições conduzem à
produçãode segmentosinteiros duasou mais vezes,motivados
Nessecaso, nota-seque o enunciado "tetn os momenlos por fatores de ordem interacional, cognitiva, textual.
com as crianças conosco" é formulado, de certa maneira,
por uma expressãoabrangente.Verifica-se, assim,a passagem Vejamos mais um exempÌo:
de uma informação expÌícita ou exernpliÍìcada parA uma (33)
geral, de caÍáter resumidof . Ll você acha que...desenvolvintento
é BOM ou é ruim?
A paráfraseexerce inúmeras funções, como a de con- L2 desenvolvimentaem que sentido?
tribuir para a coesão do texto, enquanto articuladora de Ll crescimento...
o Brasildiz-sebasicamenlesubdesenvolvido
informações novas e antigas, mas sua função principal é â e diz-se tambémque ele estácrescendo...se desettrrtl-
de garantir a intercompreensão,e difere das demais atividades vendo pareceque está sÂindode uma... condição de
de formulação como, por exemplo, a repetição pela criati- subdesenvolvinentopara chegarsei lá num condiçãode
vidade em contrastecom o automatismodesta última. okay?uma::umcaminho
desenvolvido...
L2 ahn ahn
Ll agoraPE::gue...os indivíduos...dessepaís...é melhor
Repetição
ou pior paraeles isso?
Considereo exemplo: L2 não sei poÍqueachoque aí quandose fala em desenvol-
vimentogeralmenteestáse falandonum plano materialné?
(32)
Ll e se eu (saio)dali ou não basicamente eu possonão (NURC-SP p.29-30)
D2 343 497-509,
interferir no processoglobal...mas eu queria entender
esseprocessoné? No exemplo dado, L2 pede uma informação sobre o
sentido do termo desenvolvimenro(pedido de esclarecimento),
(NURC-SP
D2 343:585-587.
p.3 pois é provável que não o tenha compreendido totalmente,
evidenciando que o contexto de conhecimento de mundo
8. Fogeao objetivodestelivro o tÍatamentomaisrprofundadoda pâráfrâse. não é plenamente partilhado pelos dois participantes. Para
PâÌa um estudopormenorizÂdo, veja Hilgeí (1996). poder sanar a dúvida da interlocutorae garantir a inteligi-

60 ol

It
bilidade do discurso, Ll relaciona o termo que causou toda L2 poetisa
a dificuldadea or,tÍo(crescime,nÍo). Nessecàso, a repetição Ll poetisa
se estabeleceentre a pergunta feita por Ll e o pedido de
esclarecimentode L2- A resposta de Ll se faz através de (NIIRC-SPD2 333:622-625,p.249)
construçõesparafrásticascom o intuito de expandir a noção
de desenvolvimento: ação ou ato de sair da condição de Nesse segmento,L2 conige Ll - jomalista x poeti-
subdesenvolvido.Após essa explicação, L2 tem condições sa -, que no terceiro tumo acata a fala de L2, instaurando
de responder à questão proposta e faz uso da repetição do uma correção.
termo desenvolvimentopaÍa voltar a dar continuidade ao A coneção desempenhapapel considerável entre os
tópico discursivo. processosde construçãodo texto e corresponde(ci Fávero
Veja agora este outro exemplo em que o então ministro et al. 1996b) à produção de um enunciado lingüístico (enun-
Ciro Gomes, em entrevista realizad.ano Prozrama Roda ciado reformulador - ER) que reforÌnula um anterior (enun-
yiva. repete inúmeras vezes. mesmo em sobieposição,a
ciado fonte - EF), considerado "errado" aos olhos de um
oração "não é verdade", corrigindo o entrevistador e rea- dos interlocutores; a coÌïeção é, assim, um claro processo
firmando, pela intensificação, sua não concordância. A in- de formulacão retrosDectiva:
tensificaçãose relacionaao princípio da iconicidade:.quanto
maior a quantidadede linguagem igual - em posição igual
- maior volume de informação.
PÍoblema de íormulação --t EF -+ ÍefoÍmulação
(34)
A não é verdade... não,.. não é verdade... J

Íetrosp€ctivâ e corÍeção e ER
L6 enganadas porque de repente queriam compÍar e não
comPraram
t
L2 n^o é verdade...não ... não é verdade...não... não é O enunciadoX é reformuladopor um enunciadoY
verdade
com a finalidadede garantira intercompreensão,
principal
(Roda Vìva, linhas 304-309)
objetivo da correção.
Um outro exemplo significativopode ser observado
nas entrevistascom políticos;muitas vezes,o entrevistâdor
Correção buscacombinarenunciados oue desestruturem o entrevistado.
É assimque o jom alïstade O Estadode S. Paulo (identificado
Considere o exemplo: como L7) elencaas expressões que teriam sido empregadas
(3s) por Ciro Gomes(L2) a respeitodosespeculadores, parodiando
Ll a irmã dela eu conheço que é jornalista né? é uma moça a fala do ministro.Este interrompeem sobreposição, corri-
jornalista... gindo a fala do entrevistadore indicandoa açãopretendida
6l 63
por L7, que seria a de desqualificar a auto-imagem pública que
admitir isso por implicar a fixaçãode idéiasenganosas
do ministro. poderiamderrubaro Plano Real.
Dessa forma, Ciro Gomes mostra-seem desacordocom (37)
as afirmações feitas por L7 e redireciona, por meio da L2 olha é muito difícil a gentepaÍticiparde uma discussão
correção, a atividade interacional, desautorizandoo interlo- dessanatuÍeza...porque as pessoasque tão nos assistindo
cutor a proceder de tal forma, revelando o papel que ele tão aí fora e podem ser consultadas como EU faço siste-
espera que o entrevistador represente,mostrando-se atento maticamente
à construção do texto do qual são paÍicipantes ativos e,
(RodaViva,linhas314-6)
portanto, responsáveis:
(36)
Em outro segmento em que interagem L7 e L2, ol:-
L7 ministro...nesteprogramaaté agorao senhorusou..,as serva-seque, após um pedido de informação do entrevistador,
seguintesexpressões alGUmasdas que eu anoteiaqui... L2 não atende ao pedido. antcs emprega uma coneção
a respeitodos especuladores...((mudandoo tom de voz metacomunicativa,em que ao mesmo tempo altera os papéis
e o ritmo))nojentos...canalhas... ( )
safados... de participação, assumindo nesse instante a posição de
t entrevistador-mediador,já que solicita a participaçãode outro
1,2 espera um pouqui- entrevistador,anulando, assim, a ação de L7, que acaba por
nho eu não falei nem nojento nem canalha...isso foi o rir-se da situação, como se verifica a seguir:
senhor que falou
(38)
L7 ((rindo)) o senhor falou canalha ((rindo))... mas tudo
bem,,, de quaÌquermaneira... L7 mas eu gostaria... de aproveitar a oportunidade... e lhe
pedir...os nomes dessaspessoas... quais são...que seg-
L| não é possívelpois... na verdade.,.o senhor está querendo
desqualificarminha opinião mentos da

t t
L7 não não pera aí não é nada disso... L2 ah:: companheiro

t t
LZ o senhor não está preocupadocom as minhas palavras L7 sociedade... quais são essas
está preocupado em desqualificar minha opinião pessoas...
L7 não não... MUIto ao contrário... eu queria-/ L2 eu acho isso uma provocâçãoe passoà perguntaseguinte...
quem é?
(RodaViva,linhas15t 7-1533) ((risos de Casado))

A preocupação com a auto-imagem perante a audiência (RodaViva,linhas1583-1589)


conduz o ministro a revelar sua dificuldade em participar
de uma discussãoem que precisacorrigir a todo instante No que concerne à ocorrência de correções nas entre-
os entrevistadores
e reconduziro dito, porque,casocontrário, vistas, observamos uma forte tendência a que os falantes
se instauraa mentira,a distorçãodos fatos,e ele não pode procedam a esse tipo de atividade, revelando uma reorga-

64 65
$,
ry
nização das ações e/ou infrações dos participantes, tendo permanece na modalidade escrita, embora possa ser vista
em vista, especialmente,
a presençada audiência. de forma um pouco diversa da modalidade oral.
Pode-se dizer também que há uma ordem de reelabo_ A par'áfrasesemprese remetea um texto anteriorpara
ração textual e eÌa não é ocasional ou aleatória. Isto anonta reafirmá-lo ou esclarecê-lo,criando, portanto, uma relação
parao possívellocal relevantepara a ocorrênciade correçào. de intertextualidade.Há casos em que a paráfraseultrapassa
o que leva a reafirmar que as ocorrências de composição os limites do texto original, expandindo-oem novos signi-
do texto conversacional são produto de uma organização ficados.
local, específica da oralidade, já que o falante tem a pos_ Exemplo notável de paráfrase são as fábulas de La
sibilidadede usar umu palavra ou estruturaque acaboude Fontaine, a partir dos textos de Esopo. Vejamos os textos
produzir ou, ainda. procurar uma nova e/ou mais satisfatória a seguir:
que permlta a preservaçãoda sua auto-imagem. (3e)
As coffeções correspondem a um processo altamente Texto Fonte - A raposa e QS ltvas
interativo e colaborativo e, quando usadasapropriadamente, Uma raposa faminta entÍou num terreno onde havia uma
colocam-secomo um dispositivodinâmico em potencialda parreira cheia de uvas maduras,cujos cachos se penduÍavam'
língua falada.Entretanto,é possíveldeìxarpassarum evento muito alto, em cima de sua cabeça.A raposa não podia
sem que se corrija o interlocutor, e a razão disso oode ser resistir à tentaçãode chupar aquelasuvas mas' por mais
que pulasse,não conseguiaabocanhá-las. Cansadade pular,
explicadapela tentativade preservrçìo da face do outro.
olhou mais uma vez os apetitososcachos e disse:
Como se pode verificar, as atividades de formulação - Estão verdes...
(hesitaçào.paráfrase.repetiçìo e coneção) desempenham "É fácil desdenhardaquilo que,não se alcança."
papeìconsiderávelentrc os processosde construçãodo texto
falado, já que o locutor recorre a essas atividades nara (Fábulas de Esopo.Rio de Janeiro:Ediouro.
formularetrpasdo desenvolvimenro Trad. de Guilherme de Figueiredo)
de suaprópriaconstrução
e/ou da construçãode seu interlocutor.
(40)
As atividadesde formuhçào.comojá dissemos.ocorrem Texto Parofnistico - A roposa e as uvas
na construçãodo texto falado e do escrito.Entretanto,essa Contam que certa Íaposa
atividade se efetiva distintamente em cada uma das moda-
andando muito esfaimada,
lidades da língua. No que se refere ao texto escrito, sua
viu roxos, maduros cachos
formulação exige uma edição final do trabaÌho, visando a
pendentesd'alta latada.
possíveisalteraçõesdessaprimeira formuÌação. Isso faz com
que o produto textual não permita um resgatede seu processo De bom grado os trincaria,

de produção.Assim, as hesitações,as repetiçõese as correções mas sem lhes poder chegar


não ocorrem no texto escrito, já que são apagadas e/ou disse: "Estão veÍdes, não prestam,
substituídas.Quanto à paráfrase, temos uma atividade que só cães os podem tragar".

D/
66


Eis cai uma parra, quando
prosseguiaseu camiúo,
e, crendo que era algum bago,
volta depressao fociúo.

(Fóbulasde Ia Fontaine.São paulo: E<tigraf.


Trad. De Bocage)

Na litêÍatura brasileira, temos vários casos de lextos


constrúdos a paÍir de Íelações paÍafÍásticas. É o caso, por
exemplo, do poema "Europa, França e Búia', de Carlos
Drummond de Andrade, que mantém relações intertextuais
Capítttlo M
com outro poema: "Canção de Exílio" de Gonçalves Dias.
As RoleçÕes ENTRE
Fer.e E Escrure
Ao trataÍ da fala e da escrita, é preciso lembrar que
estamostrabalhandocom duas modalidadeslteÍtencentesao
mesmo sistemalingüístico: o sistemada Língua Portuguesa'
com ênfasediferenciadaem deterririnadoscomponentesdesse
sistema. Assim, aquilo que se poderia considerardistinção
corrcspondemeramentea diferençasestrutuÌais.
Os pesquisadorestêm encontÍado várias razões para
justificar tais diferenças enEe a língua falada e a escrita.
De modo geral, discute-seque ambasaPÍesentamdistinções
porque diierem nos seus modos de aqüisição; nas suas
condições de produção, transmissãoe recepção;nos meios
atravésdos quais os elementosde estrutuÍa são organizados.
Não é outÍo o pensamentode Akinnaso(1982: ll3)'
ao afirmar que: 2

"A es'itâ r6*tììò o-"oro 6ãnìòr"ndo


". um instÍumìììõ-líísicoe a
necessárias ìã;O-n4í0"
"
68 69
coordenação consciente de habilidadcsespecíficas
motoras Outros pesquisadoreschegaram às mesmas evidências
e cognitivâs.Assin, a escritaé completa
e irremediavelmente e concluíram que o estilo falado tende a ser caracterizado
aÍtificial,enquantoa Íala é um processonatural,fazendo por menospalavras,palavrascom menossílabas'frasesmais
use dos meiosassimchamados órgãosda fala". curtas e mais palavraspessoaisdo que o estilo escrito.
Em pesquisas realizadasem 1967' Grunnere um grupo
Na opinìão de Givón (1979), a língua escrita é uma
de estudiososcomprovaramque os sujeitosanaÌisadospro-
transposiçãoda oral. e é indiscutívelque ela tem relações duziram mais pronomespessoaisna Íala do que na escnta,
genéticascom a faÌa. Por sua vez. Benuto (19g5) salienta confirmândo que a língua falada contém mais palavras de
que os princípiosfundamentaisde funcionamentoda língua referência(expressòesque apontam para o contexlo situr-
faìada intervêm de forma conjunta e são os seguintes: cional),mais termosindicativosde "consciênciade projeção"
egocentrismo,simpÌificação,falta de faculdadede planeja_ (eu acho, na minha opinião) do que a escrita.
mento, possibilidadede perceber dispositivoscapazesde Ao mesmo tempo em que esses primeiros estudos
meÌhorar a articuÌaçãodiscursivae sua decodificaçãoem representâramgrandesdescobertassobre as diferençasléxicas
reÌaçãoao ouvintee às exigênciasdo processode informação. entre a língua falada e a escrita. eles não descartaram a
Verifica-sequea línguafuladanàopossuiumugramiricr possibiìidadede similaridades.A escolha léxica pode ser
própria; suas regras de efetivaçãoé que são distintas em afetada, ainda, peÌos seguintes fatores:
relaçãoà escrita.O que existeé maior liberdacìe
de iniciativa - contextoe propósitodo evento discursivo;
por parte de quem fala.
- naturezada atividade comunicativaapropriadaao
Além disso,segundoMarcuschi(1993:4-5),.,as dife- eventodiscursivol
renças entre fala e escrita não se esgotam nem têm seu conhecimento partilhado entre os participantes e
-
aspecto ÍÌais relevante no problema da representaçãofísica nível de conhecimentolingüístico.
(graJìa x sont), jí que entre a fala e a escrita medeiam
Passemos,agora, a observar mais de perto como se
processosde construçãodiversos".
efetivauma atividadecleproduçãotextual(frla-escrita). quris
Muitos pesquisadores dedicaram-se a observara escÕlha os elemenlosque a compoeme como se articulrm
do vocabulário e da estrutura léxica como método para Para analisar adequadamenteum texto (falado ou es-
distinguir a linguagemfalada da escrita.Dentre es.es eìtu_ crito). é precisoidentificrr os componentesque fazem prne
diososestá Drieman, que em 1962, atravésde um trabalho da situaçãocomunicativa,suascaracterísticas pessoais(per-
quantitativo, encontrouas seguintescaracterísticaspara serem sonalidade,interesses, crenças,modos e emoções)e de seu
o diagnósticoda línguaescrita: grupo social (classesocial,grupo étnico, sexo,idade,ocupa-
- palavrasmais longas (polissilábicas); ção, educação,entre outros), pois eles favorecema inter-
pretaçãodos papéis dos inteÍlocutores(falante-oulinte-au-
- mais adjetivosatributivr.rs; num evento particuÌâr,
diência (facultativa)/escritor-leitor)
determinado,dados os componentes lingüísticosdessetexto.
- um vocabuláriomais variado;
São também relevantespara a análise as reÌaçõesentre
- um texto mais curto. os paÍicipantes, a observaçãodo papel social (poder, slatrrs),
70 7l
das relações pessoais (preferências,respeito) e a extensão II - Relaçõesentre os participantes
do conhecimento partilhado. A - No pa6l social:poder,Jtarirsetc
Quanto à situação discursiva, importa observar os as_ B - Pessoais: respeúoetc.
preferências,
pectos físico. temporal e a extensãoéspaço-temporal C- Extensãodo codhecimento de mundo
partilhado:conhecimento
com-
partilhada pelos participantes da interação. Devè-se notar. e específico
ainda. o propósitodo evento (convencíonaÌou pessoal)e
dele dependerádiretamenrea escolhado tópico discursivo III - Contexto
a ser desenvolvido. A - Físico
No que diz respeitoà avaliaçãosocial, podemosobservar B - TempoÍal
pelos participantes
compartilhada
C - Extensãocspaço-temporal
o evento em relação aos valores partilhados por toda a
cultura ou por subculturasou indivíduos.euantoàs atitudes
dos participantesem relação ao tópico em desenvolvimento, IV - Propósi(o (frnalidcdcdo evcnlo)
deve-se olhar os sentimentos,julgamentos, bem como o tom A - Convencional
ou modo de fala e o grau de comprometimento em relação B - PessoaÌ
ao assunto.
V - Tópico discursivo(assuntoou tema do texto)
Outros pontos passíveis de análise são: o nível de
envolvimento dos participantes com o texto, bem como os
aspectoslingüísticos(léxico-sintático), VI - Avaliação social
prosódicos(variações
de altura, tempo e ritmo) e paralingüísticos (entonaçãb e A - Avaliação do evento comunicativo
acento). I - valores partilhados por toda a cullura
2 - valores retidos por subculturas ou indivíduos
Esquematizandoos componentes que fazem parte de
uma sítúàção cornttnicativa (falada ou escrita). temos: B - Atitudes do locutor em relação aô conteúdo
1- sentimentos,julgamentos, atitudes
Quadro I 2 - tom ou modo
3 - grau de compromctimento em relação ao conteúdo
I - Papéise característicasdos participantes
A - Papeiscomunicativosdos pa icipantes
VII - Relaçãodos participantescom o texto: nível de envoÌvimento
I - falante/escritor
2 - ouvinte/leitor
VIII - Aspectoslingüísticose paralingüísticos
3- audiência(facultativa) A - Fala:
I - léxico-sintático
B - Caracteísticaspessoais
2 - prosódico
I - estáveis:çrersonalidade,
interesses,
crençasetc. 3 - paralingüístico
2 - temporiárias:
modos,emoçõesetc.
B - Escrita:
C - CaÌacterísticas
do grupo:cÌassesocial,grupoétnico,sexo,idade, I - léxico-sintático
ocupação,educaçãoetc.

72 73
Condições de produção Essascondiçõesde produçãoirão determinarformuÌa-
ções lingüísticas que apresentamaspectosespecíficos, con-
Para o estabelecimentodas reÌaçõesentre fala e escrita, forme o tipo de texto produzido.
sem que haja distorção do que de fato ocorre, é preciso
considerar, portanto, as condições de produção. Estãs pos- Examinando-seainda a literaturalingüísticaa respeito
sibilitam a efetivação de um evento comunicativo e são das distinções entre fala e escrita, verifica-se que ela
distintas em cada modalidade, como se pode constatar no revela aspectosespecíficosde um tipo de texto em com-
esquemaa seguir: paração a outro e não propriamente diferenças entre as
modalidades (fala e escrita). Na visão de Biber (1988:
l8), isso significa dizer que essasdifetençasse acentuam
Quadro II dentro de tm continunnt tipológico. Na verdade, tanto a
Fala fala como a escrita abarcam um continuum que vai do
Escrita
nível mais informaÌ aos mais formal, passandopor graus
Interação face a face - Interação à distância (espaço- intermediários.Assim, a informalidadeconsisteem apenas
temporal) uma das possibilidadesde realizaçãonão só da fala, como
- Planejamentosimultâneo
ou qua- - Planejamentoanterior à produção também da escrita.
se simultâneoà produção
Vejam-se,a seguir,os segmentos(41) e (42) em que
Criação coletiva: administrada - Criação individual temos condiçõesde produçãodistintasem cada caso:
passo a passo
(41)
- Impossibilidadc de apagamcnto - Possibilidade
de revisão vai pintarum showcom Chitãozinho
Ll escuta... e Xororó
Sem condiçõesde consultaa ou-
amanhãna PRAia cara...vãmos?((animado))
Livre consulta
tros textos L2 onde?((semmuito interesse))
Ll lá no Boqueirão...
- A reformulação podescr promo-- A retormulação é promovidaape-
vida tantopelofalantecomopelo nas pelo escritor L2 amanhã? ((á com ar de impossibilidade))
lnterlocutor Ll é: vamosemboralogo cedo?
Acessoimediato às reaçõesdo Sem possibilidadede acessoimc- L2 não dá cara...tô cheiode serviçoaté a cabe::çâ...
interlocutor diato Ll ah:::faz o possívelpra dar contapelo menosaté a hora
((meioindignado))
do almo::ço...
O falantepodeprocessar o texto, - O cscritoÍpodeprocessau o texto
redirecionando-o
a partirdasrea- a partir das possíveisreaçõesdo L2 mas tá choven:;do...((elesiriam de moto))
çõesdo interlocutor leitor
Ll qual é cara?No Ano Novo eu descina maiorCHUva
- O texto mostratodo o seu pro- - e lá fez um sol legal...deu pra aproveitara praia..
O texto tendea escondero seu
cessode cnação processode criação,mostrando e:: chuva faz bem...chuva dá SO::Rtecara...vamos
apcnaso resultado Ìá...
L2 vou pensar...

74 75
Ll tá bom mas ó... dá um je::ito... vamos lá:: pô você só pô você só íraba::lha") que ao mesmo tempo constituem
traba::lha...qual é::?... avaliação à atitude do colega e argumento para que o
outro aceite o convite. A marca prosódicade alongamento
(Conversaçãoespontânea)
se registra nas lexias que interessamdestacar:- ie::Ìto
(42) - traba::lha.
Todo o processo da criação desse texto evidencia-se
Convideium amigo para ir à praia do Boqueirão,de moto, nos alongamentos,nas pausas,na ênfase, e a construção se
assistirao showde Chitãozinhoe Xororóque iria acontecer dá a partir das inferências feitas passo a passo, levando-se
duranteas comemorações do aniversáriode São Paulo.Ele em consideração as reações do interlocutor. Desse modo,
não aceitouo convitede imediato,alegandoque estavacom não se pode pensarem planejamentoantecipadopara o texto
muito serviço.Fiquei indignadoe pedi que ele fizesseo falado.
possívelpara dâr conta até a hora do almoço, mas ele
Em (42), o texto foi elaborado a partir do ponto de
arumou outradesculpa:a de que gstavachovendo.Comentei
vista de um dos interlocutores,no caso, Ll. Teria sido
com ele que no Ano Novo eu tinha ido com chuvae que
possível também a produção de texto do ponto de vista
Ìá estavaum sol tão bom que até deu para aproveitara
de L2.
praia;alémdisso,disse-lhequechuvafaziabcm e quedava
sorte,masele aindaassimdisseque iria pensar.Tem gente Observa-se o resultado da produção escrita sem que
que é complicada! se detectem marcas de reformulação, hesitação etc, não
ficando à mostra o processo de criação. A organização
No primeirocaso(41). temosuma conversação espon- sintática desse texto também é específica para essa moda-
tânea produzida entre dois interlocutoresque são amigos. lidade, que deve primar pela organização do parágrafo de
No segundo,(42), observa-seum texto escrito,resultadode modo que as idéias sejam apresentadascom clarezâ.
uma atividadede produçãotextuaÌ,sugeridaa um aluno do Ochs (1979) apresentauma escalaem que se localizam
l" ano de Letras, a paltir da transcriçãodo segmento(41). quatro possibilidadesem relação ao planejamentotextual,
Em (41), o texto vai se constituindoa partir da al- indo do não planejadoao planejado.Os quatro tipos apontados
ternância de turnos que se complementam,efetivando-se por ela são: falado não planeiado - que prescinde de
uma construçãocoletìva, uma sintaxe a dois. As respostas reflexões prévias e preparaçãoorganizacionaÌanterior a sua
às perguntassão imediatas em Íazão da situação face a expressão,como ocolTe com o segmento (41\ Íalado pla-
face e da concomitânciatemporal na elaboraçãodos enun- nejado - em que existe um preparo, como ocoÌre' por
ciados. exempìo, com uma conferência; escrito rtão planejado -
formulado sem preocupaçãocom a formalidade, como pode
As reaçõesde L2 ao formular, por exempÌo,pergunta ocoÌrer, por exemplo, quando se redige um biÌhete; escrilo
sem muito interesse("onde?") seguida de pergunta com planejado - o texto é projetado antes de sua expressão,e
ar de impossibiÌidadeem relaçãoà data do convite ("a'ra- para ilustrar este grau máximo de planejamentopoderíamos'
nhc1"2),além da não aceitação,criam condiçõespara que indicar toda ocorrência em que o produtor se preocupasse
Ll enuncie ("qual é cara... dá unt je::íto..- vttrnos lá:: em eÌaborar previamente um esquema ou um rascunho de

to 77

,{m
seu texto, antes de apresentaruma versão final; poderíamos Quadro III
{ambem incluir como exemplo os fac-símilesáe diversas Traços lingüísticos
obras Ìiterárias a que já tivemos acesso. Mostra também
muitas nominaÌizações
que há na língua falada uma tendênciapara o não planejado, e passrvas
ou meÌhor. ela é planejadalocalmente.
O fato de a fala ser planejada localmente confere-lhe
uma característica
que Chafe (1982)denominafragmentação,
Íexto cientifico discussàoacadémicl
que contrasta com a integração, mais acentuadana escrita,
em decorrência do tempo de que se dispõe para sua elabo- poücos pronomes muitospronomes
e contÍações e conlraçòes
ração.
A rapidez com que os interlocutores constroem seu
texto vai resultarem descontinuidades no fluxo informacional,
mostradaspor fenômenosjá aqui apontadoscomo paráfrases,
repetições e outros, isto é, ela vai revelando seus próprios poucas nominalizações
processosde feitura,enquantoa escritasó mostrao produto, e passlvas
escondendoo processode sua criaçìo.
As marcas do envolvimento/distanciamentoparecem
Outra característicada língua falada, apontada por ocorrer de forma variada, também de acordo com o gênero
Chafe, é o envolvimento,que contrastacom o afastamento do texto focalizado. O gráfico, proposto por Marcuschi
da escrita,reveladopor ocorrênciascomo o uso do Dronome (1993: 53), a partir do quadro de Biber e aqui reproduzido,
de primeira pessor. de esrratégiasde moniroraçào(pausas. mostra essasevidências:
entonaçãoe outras),de partículasenfáticas(realmente,cer-
tamente),do discursodìreto e ourras. Quadro IV
O envolvimento pode ocorrcr entre o falante consigo Grau de enyolyimento/distanciamento
mesmo,com o ouvinteou com o tópico em desenvolvimento.
Distanciamento
No texto escrito,porque â interaçãoocorre à distância,há
um envolvimento do autor com o texto, com um Ìeitor
imaginárioe com o tópico em questão.
Biber (1988: 18), partindo talvez dessesparâmerros
Íuncionaisde Chafe.distribui quarrogênerostexturis denrro lntegÍação FÍagmentaçao
de um contínuo (note-se que em alguns casos há uma
proximidade grande entre fala e escrita) e com base em
quatro traçosIingüísticos:muitas nominalizações
e passivas,
poucasnominalizaçõese passivas,muitos pronomese con_
trações, poucos pronomes e contrações. Veja o quadro a
Envolvimenlo
seguir:
?o
78
Segundo Marcuschi, os feromôniostêm um papel importantedurante o vôo
nupcial,quandoa rainha atrai o zangãoatravésde odores
"o texto científico e o ficcional têm semelhançase diferenças liberadospor ela.(Galileu- a novaGloboCiência,março
que os aproxima e afasta de modo diferenciado da discussão de 1999,n" 92, p. l1).
acadêmicae da conversaçãoespontânea. Isto significa que
a fala e a escritânão formam dois extremosmas um contínuo No segmento (43), temos uma interação face a face
distribuídonuma escalade parâmetrosempiricamentedetec- com maior grau de envolvimento entre os participantes,já
táveis" (id. ibid.). que são amigos e têm um conhecimento partilhado L2
explica por que não gostou do filme "Titanic" e depois faz
Como ilustração, observemos os exemplos: um comentário sobre outro filme, revelandoum fato ocolTido
(43) quando cursava o 2o grau. Trata-se do envolvimento dos
Ll gostou dos filmes? interÌocutorescom o tema da conversação,o que expìica o
processode elaboraçãodo texto conversacional, que é -
L2 não... sonhei com água a noite toda... que estava me
afogando...um horror...acordei com uma SE::de...não como já dissemos- um trabalhocooperativo.Há ainda o
sei como ganhou tantos Oscars... envolvimentodo falante consigo mesmo e do faÌante com
Ll e o outro? o ouvinte: pronome de l' pessoado singular (rne, eu) e
L2 ah:: essesim... sabe?quandoeu estavano segundograu marcadores como sabe? né?.
me peguei numa discussãoterrível com o professorde Por sua vez, o trecho (44) é parte de um artigo de
filosofia que dizia que o filósofo Abclardo não rinha
uma revista sobre ciência e apresentaalto grau de integração
nada a ver com o do par amoro::soAbelardo e Heloisa
e aí:: sabe... né? isso foi um pretexto para eu mostrar entre autor e leitor que, entretanto, não ocupam o mesmo
que conhecia Abelardo e sua filosofia melhor que ele tempo e espaço no momento em que desempenhamsuas
que era o professor...um baRAto... a classe inTEIra tarefas de elaborar e de decodificar a mensagem escrita;
vibrou... por isso, o autor se mostra menos preocupaooconslgo
mesmo, ou com qualquertipo de interaçãodireta com scu
(Conversaçãoespontânea)
leitor virtual. De fato, o produtor de um artigo apresentado
em uma revista sobre ciência para o público em geral
A4\
preocupa-se com a elaboração de um texto consistente e
Feromônios são substânciasquímicas específicasproduzi-
das por organismosque, mesmo em pequenasquantidades, defensável segundo padrões estabelecidos pelo editor da
têm ação sobre outros indivíduos de uma mesma espécie. publicação. O autor usa alguns recursos para a obtenção
Essas substânciassão produzidaspor glândulas especiais desseefeito de distanciamento, dos quais podemosdestacar:
e atingem enormes distâncias após serem liberadas no a voz passiva para definir qULe feronúnios "são substâncias
ambiente. Os feromônios são os mensageirosquímicos químicas específicas produzidas por organismos".
entre indivíduos de uma mesma espéciee assumemfunção
determinantena comunicaçãosocial entre vários animais, A situaçãodeterminanão só estratégiasde construção
principalmente,insetos.As abelhas,por exemplo, têm uma do texto na conduçãodos tópicosou na seleçãodestes,mas
linguagem de dança altamente desenvolvida.Entre elas, também as que dizem respeito às táticas a serem adotadas

80 8l
em cada caso (complexidadeléxico-sintática,grau de pro_ semque façaminterferir
dadelingúísticade modo consciente,
fundidade das informações, natureza da negociação com o
uma formulação de língua falada em outra de língua escrita
parcetro).
se assim não o desejarem.
Muitas pesquisasabordaramo texto falado e o escrito
- comojá dissemos-, masnão descreveram adequadamente
as relaçõesenlre as duas modalidades.ou porquese fixaram Operações de transformação
em extremos (do texto mais formal ao mais informaÌ). ou
porque deram primazia a uma das modalidades(escrita) O aprendizadodas operaçõesde transformaçãodo
em
detrimentoda outra (fala). Normalmente.a fala é observrda texto falado para o escrito coloca-secomo imprescindível
a partir da escritae não por meio de um grau desejávelde para o meìhor domínio da produção escÍita que se tem
autonomia. evidenciadomuito problcmáticaenlÍe nossosjovens estu-
De acordocom algunspesquisadores, pode haver muito dantes.
mais semelhançaslingüísticasdo que diferençasentre fala A aplicaçãode atividadesde observaçãoque envolvem
e escnta;mesmo Biber indica, em seu cstudo,que,,não foi a organizaçãode textos falados e escritospermite que os
identificada nenhumadistinçâoabsolurrenrrefaia e escrìtr.' alunos cheguemà percepçãode como eíetivamentese rea-
(p. 24); dessemodo, a ocorrênciade diferençasdecore lizam, se constÍoeme se formulam essestextos.
do
processamento provenientedas condiçõesde produção.Em
Apresentamos,agora, a aplicaçãodessasoperaçõesde
outraspalavras,podemosdizer que o problemaé resultante
prrr o escrito.para que possaservir u vocé.
transformação.
de critério(s)de pesquisa,não se podendo,assim,generalizar,
professor,como atividâdcem sala de aula.
afirmando que uma seja maìs complexa, mais bem elaborada.
mais explícita ou mais autônornaque a outra. Quando da realizaçãodo exercício,buscou-sea não-
interferênciado interlocutor(no casoo analista,o professor)
Alguns estudiosostêm Ìevantadoa questãode que a
e, por isso, há um grau menor de dialogismo, já que a
aquisiçìo da escritl nìo se pocie vrler dr observacãoda
intenção era promover o desenvolvimentodo tópico so-
fala. As teoriasde aquisiçàode lingurgem indicam a ne_
mente por um dos interÌocutoÍes,visando ao desenvolvi-
cessidadede se proceder de modo especial a partir do
mento do texto por essefalante,em duas situaçõesdistintas.
contexto do aluno, o que não implica, necessariamente,a Assim, nos dois casos cxaminados,localiza-seapenas o
utilização da fala para esse fim.
turno do locutor, registradosem interferônciasdo interlo-
Nesse sentido, devemos destacarque esta obra não se cutor.
coloca como um manual do alfabetizador, já que não é esta Partimosde uma atividadeem que sugerimosa alunos
a proposta.Interessaque, no desenvolvimento da habiÌidade de 7" série do 1" grau que elaborassem,num primeiro
de produção textual, criem-se condições para que os aÌunos produzissema
momento,naÍTativasorais e, imediatamente,
observem as especificidadesde cada construção,saibam
mesma naÍïativa, ou seja, utilizassemo mesmo tópico ao
como procedercom conhecimentopara organizarsua
ativi_ narrar. sob a forma de texto escrito. Essa atividade tinha
82 83
por objetivo observar a condução do tópico no mesmo templosmais luxuosose tinhamtécnicasmais aperfeiçoadas.
gênero de texto - narrativa - tanto na modalidade faÌada Os últimos foram os toltecas,povo que deu origem à atual
(espontaneamente) quanto na modalidadeescrita. civilizaçãomexicana.
Todaessacivilizaçãomilenarfoi destruída pelosespanhóis
(45) Textos produzidospor G. G. A., 13 anos, aluno que invadiramsuas terras e acabaramcom muito do que
da 7" série do primeiro grau de uma escola particular da encontraram.
cidade de São Paulo.
O aluno elaborouum texto falado em que se evidencia
a conduçãodo mesmo tópico. mas com uma organização
A - Texto falado: A Civilização Mexicana sintática específicapara a fala e outrâ para a escrita. Assim'
com facilidade, detectam-se as repetições ("começarum",
Inf. primeiro eram os olmecasné? daí:: eles...corneçaram "começaram aÍazei', "começaramtudo"). Já no texto escrito,
onde que é a Cidadedo México hoje...começaram a não se repetem esses sintagmas, embora outros elementos
fazer os templos aí depois veio os astecasné? que lingüísticos os substituam e apresentem-serepetitivamente
começaramtudo fizerammais templosfizeramtemplos ("faziam,fizeram"). Além disso, enquantoo texto A apresenta
mais luxuososassim fizeram tinham mais crenças... marcas interacionais(né?) ô o encadeamentoseqúencial
religiõesessascoisaassim...depoisvieramos toltecas faz-se a paÍir dos marcadores"primeiro", "dai', "aí depoís",
que deu origem à civilizaçãomexicanae toda essa
o texto B os substitui por "os primeiros", "depois", "os
civilizaçãomilenarfoi destruídapelosespanhóis que
quandochegaramao México assim é:: de::struíram úhimos". Observa-se, também, a elaboração "que rluantlo
tudo as pirâmidesos templosaí foi o fim da...da chegarant" - no texto falado - que se altera paÍa "que
c-ivilizaÇão. invadiram" - no momento em que o aluno elabora seu
texto escnto.
Uma outra possibilidadede exercício - que realizamos
B - Texto escrito: A Civitização Mexicanae no ensinomédio - consisteem solicitarque o aluno eÌabore
uma narrativa oral; o professor â transcreve,apresenta-aao
aluno que, a seguir,a transformaem texto escrito. Observemos
Os primeirosforamos olmecas,que fizeramsuaspirâmides,
seustempÌosonde fica hoje a Cidadedo México;tinham a atividadeproposta.
técnicasmuito atrasadas.
Depois os astecas,que faziam (46) Textos produzidospor R. 8., 17 anos, aìuno da
3'série do segundograu de uma escolaparticularda cidade
de São Paulo.
9. O texlo oÍrl (A) produzido pelo aluno apresenliì impropÍiedades de
conteúdo, já que â civilização asteca é herdeira da tolreca no que se refcre à
arte. Os astecas viveram no México aú a conqu;stâ cspanhoh de 1519. Na
passagempara o t€xto escrito (B), o aluno não percebe csses problemas
e apenas A - Texto falado: Viagem a Cancun
úansfoÍma a narrativâ no que diz respeilo à modalidacte(de orâl para a ôscrira).
Essir lexlo pode seÍ útil ao professor que quiser fazeÍ um trabâlho interdisciplinar.
pois poderí solicitâr uma pesquisa mais aprofu.dada sobrc o rema e promover Inf. oh: eu tenhouma primacaraque ela foi pra Cancun...
um debate. cntre outrâs atividades. aí ela foi ela e uma amigadelaque é mergulhadora..

84 85

rffi.
aí:: elas tavam./foramnum rio que é tipo
uma coÍrenteza alugou máscara e pé-de-pato, porque sem pé de pato ela
assim...né? aquelelá que é cheio de coRAL
no fundo.-. podia cortar os pés. O único problema é que minha prima
cheio de peixeslegal pra ver sabe?aí:: alugou
MÁScara não sabia nadar e, quando entrou no rio, se desesperoue
alugou pE_de,patomeu? que sem pé_de_pato
elc ir começou a se agarÍar em sua amiga que teve que pajeá-la
cortar os pés lá tudo..,aí:: aí:: ela foi lá
no rio... e foi para ela não se afogar, impedindo sua amiga de mergulhar.
mergulharIá com a mulher só que ela não
sabe nem
nadar... aí chegou lá entrou no rio e se DESESpEROU Elas foram andandoem direção à outra margem do rio onde
né meu? e aí ela começou a agaÍïar na o ônibus as esperava, mas chegaram a uma pane que era
outra mulher
lá... e aí a mulher não podia MERGLLHAR porque a mais interessantee sua amiga, não resistindo, mandou
eta tava segurandonela... foi a maior minha prima segurar-senas pedrasenquantoela mergulhava.
CONFU!Ãó...
aí:: pra elas pra elas saírem...aí chegou Minha prima concordou e lá foi a mulher para um demorado
uma hora lá
que.. lá que era tipo assim...aru o mergulho; minutos se passarame minha prima ficou impa-
úgu, mais fundo
que tinha pra mergulhar né? aí:: a cientee, ao passarum casalde veìhosque pelo visto também
muther não podia
mergulhar por causa da minha prima... não sabiamusar os apetrechosde mergulho, ela se agarrou
daí ela ìalou
'th:: vou mergulhar né?... ,.cês que
.egur"m uí neles e quase todos se afogaÍam. Ao chegarem à tão
algum lugar" tinha um monte de pedra assim... ..cês "rn desejada"tena fÍrme", depois de muito sufoco, eles co-
que segurem aí eu vou Iá mergulhar,, ,.ah
ela falou meçaram a rir.
então vai que eu Íìco aqui seguro/eu me
seguro aqui
na,/nocoral aqui na pedrané?,,...aí ela foi lá..."a
multier Produzida a lâ versão, solicitou-se uma 2', paÌa que
mergulhou e daí não voltava né?... ela ficou
IMpA_
CIENTE aí:: tava passandooutra mulher... o aluno pudesseaprimorar seu texto escrito. Observeo
acho oue
também não sabia nadar...só tinha VELHO resultado.
ninguém
sebia nadar com o ... com o snorkel né meu?
aí.- ela
se agarrou no cara quase se afogou todo
mundo ((rin_
do))... e pra ela pra ela... chegar no lugar
onde ela C - Texto escrito
tlnha que sair ela tinha que atravessaro
rio inteiro...
porqueo ônibus ficava esperandodo / versão:
outro lado...maior
CONFUSÃO cara...
Eu tenho uma prima que foi pra Cancun com uma amiga
que é mergulhadora.Lá elas foram mergulhaÍ num rio cheio
B - Texto escrito: Viagem a Cancun de corais no fundo, repleto de peixes bonitos pra ver. Ela
alugou máscara e pé-de-pato porque sem pé-de-pato ela
l" versão: achava que podia cortar os pés. O único problema é que
minha prima não sabia nadar e, quando entrou no Íio, se
Eu tenho uma prìma que foi pra Cancun desesperoue começou a se agarïaÍ em sua amiga que teve
com uma amiga que pajeá-la para ela não se afogar, ficando sua amiga
que é mergulhadora.Lá elas foram
mergulhar num rio chei"o impedida de mergulhar. Elas foram nadândo em direção à
de corais no fundo, repleto de peixes
bonitos pra ver. Ela outra margem do rio onde o ônibus as esperava, mas
86
87
chegaramde repentea uma partequeera a mais interessante ram"), o encadeamento coesivo na seqüenciação do texto
e suaamiga,nãoresistindo, mandouminhaprimasegurar-sc (aí, daí, daí então") a inclusão da pontuaçãotípica da
naspedrasenquanto ela mergulhava.Minhaprimaconcordou escrita (vírgula, ponto final, dois-pontos,aspas).
e lá foi a amigaparaum demorado mergulho;minhaprima Verifica-se, durante essas atividades,que os alunos
foi fic:ìndoimpaciente
e. üo aparecerum casalde ielhos
que pelo visto tambémnão sabiamusaros apetrechos apagam repetições, redundâncias e autocorreções,e com
de facilidade procedem à substituiçãodessasocorrênciaspor
mergulho,agaÍTou-sea eles e quasetodosse afogaram.Ao
pró-formas ("aí ela foi ela e uma amìga dela" - texto
chegaremà tão desejada,.terra1ìrme',,depoisde muito
falado " I/i elas foram" - texto escrito B) elipses ou,
suloco.elescomeçaram a rir.
ainda, por expressõessinônimas ou quase sinônimas que
buscam resgatar o mesmo referente ("cheio de peixes" -
A atividadepemite acompanharas operaçõesde trans_
_ texto falado; "repleto de peixes" - texto escrito B).
formação - aqui já indicadas- realizaàaspelos alunos.
alémde possibiliturquc o prolessordetectecomo se enconlrJ Há diferençasna seqüenciação tópica de uma modali-
eÍe. ol aÌuno no que se refereà organìzaçãotextual, dade para outra, que se revelam nas distintas formas de
lqueÌe
quais húilidades seu aluno já apresentaou preciia aprendcr encadeamentosintático.Na fala, essa seqüenciaçãose dá
para elaboraradequadamente seu texto. atravésde marcaslingüísticasde continuidade("daí, então,
aí, depois"etc.),possibilitandoa produçãode um texto mais
AÌiás, outra possibilidadea ser realizada pode ser
extenso e pormenorizado.Na escrita, tal seqüenciaçãose
exatamenteessa- solicitara observaçãoe o levantamento
estabelecevisandoa uma concisão,marcadapor construções
das operaçõesefetuadasdurante o proc;sso de transformação
do texto falado plra o escrito. sintáticasem que o período é produzido para resgataras
idéias sucintamente.
Os rezultadosdesseencaminhamento foram visivelmente O tratamentoestilísticotambéhr é distinto. No texto
produtivos, em especial no que se refere à pÍodução
do falado,a seleçãolexicale a estruturaçãosintáticase efetivam
texto escrito,consideradamais trabalhosapor nossosalunos.
por meio de construçõesmais informais, já que se trata de
A reulizaçìodos difcrenresripos de exeriícìopossibilìtra
um texto produzido espontaneamenteentre falantes com
observaçãoe a melhor compreensãodo funcioìamento da
ceÍo grau de intimidade.Por outro lado, no texto escrito
língua tanto na modalidadcfalada quanto na escrita.
os interÌocutoresfazem escoÌhasmais sutis, uma vez que
A análise dos textos (falacloe escrito) revela que os dispõem de tempo para planejamento,e há ainda a possi-
-
falantes bilidade de editoraro seu texto. Há também casosem que
têm noção de que estãodiante de duas modalidades
distintaspara a realizaçãodo mesmogênerode texto. Assim, o interlocutor,alémde poderreelaboraro seutexto,acrescenta
na atividadepropostaao aluno do ensinomédio.observam_sc reflexões que não lhe ocoÍreram no momento da produção
eÌiminaçõesde marcasestritamente do texto falado.
interacionais:
marcadores
conversacionais ("oh, meu, cora, né?, scóe?"), bem como Nessa direção verifica-se a ocorrência de, no texto A,
marcas prosódicas: alongamentos(,,aí::, r/aí...."),pausas "a mulher não podia MERGULHAR" e, no texto B, "im-
("Cancun..."),enronaçãoenfárica (,,CONFUSÁO,,j, pediwlo sua amiga de mergulhar"; no texto A, "nhguém
marcas
de estruturação sintática, como o truncamento (,,t(tvanÌ/fo_ sabia nadar com o snorkel" e no B "não sabiam usar os

88 89
apetrechos de mergulho"; e ainda "ela se agarrou no cara no gênero de texto dentro da mesma modalidade (no falado:
quase se afogou totlo yyn/6" - A - por "ela se agarcou encontrocasual,entrevista,aula, conferência,discussãoaca-
neles e quase todos se afogaram" - B e "agarrou-se a dêmica etc.; no escrito: reportagem, relato, ficção, texto
eles e rluase íodos se afogaram" - C. científico etc.). Na tessitura do texto falado, por exemplo,
Embora não tenhamos apresentadoaqui uma análise detectam-seaspectosparticulares,ocorrendo a possibilidade
exaustiva dos segmentos,consideramosser a exemplificação de um grau maior ou menor de continuidade ou mudança
suficiente para que o professor possa observar a produção de tópico, de acordo com o gênero do texto em questão.
faladaou escritade seusalunos,inclusivedo ponto de vista
É precisoressaltarque há dificuìdadesem se estabelecer
das operaçõespor eles realizadasduranre a atividade de
parâmetrospara reÌacionar a fala com a escrita, já que não
produção textual. Sintetizando, temos o sequinte quadro:
se dispõe de uma tipologia de textÕs, e sim de tentativas
de elaboraçãode tipologias,em que se misturamgênerose
Quadro V tipos textuais.
Operaçõesde produção do texto escrito
a partir do texto falado Desse modo, não se pÕde simpìesmentefazer genera-
lizações entre as modalidadesfalada e escrita, sem que antes
l' operação:elìminação de marcasestritamente
se estabeleçamanálises exaustivasentre os gêneros corres-
intcracionais
e inclusão
da pontuação; pondentes. O que aqui se apontou refere-se tão-somente à
2' operação:apagamento de rcpetições, redundâncias,autoconeções e observação de um dos recortes possíveis no estudo das
introduçào de substitutçòes: relações entre texto falado e escrito.
3'operação: substituiçãodo tumo por parágrafos;
4'operatão: difercnciaçãono encadeamento sintáticodos tópicos;
5' op€ração:tratamento estilísticocom seleçãodo léxicoe da estrutura Sugestõesde atiüdades
sintática.num percursodo menospara o mais formal.
Para uma abordagem do texto oral visando a sua
aplicação em sala de aula, é preciso fornecer aos professores
Após estabeleceros tipos de operação efetuada pelos do ensino fundamental e médio subsídios em relação às
informantes ao elaborarem o mesmo gênero de texto, nas especificidadesdessetexto, como se instaura o seu processo
modalidades falada e escrita, podemos afirmar que as dife- de produção e de qual (ou quais) unidade(s) de análise se
renças ou integrações entÍe as duas modalidades ocorrem pode fazer uso paÍa um estudo efetivo. Nessa linha de
num contìnuum (e não num grau de oposição) que vai do trabalho, destacamosdois elementosestruturadoresdo texto:
menos para o mais formal, como já salientamos. o tópico discursivo (no texto oral) e o parágrafo (no texto
escrito).
Na produçãode textos falados ou escritos,outro aspecto
passível de ser estudado refere-se ao desenvolvimento do No trabalho efetivo com textos, o professorpode iniciar
tópico discursivo. Suas especificidadesparecem ocorrer não a atividade com textos orais produzidospelos próprios alunos,
só na modalidade de texto (falado ou escrito), como também mostrar como esses textos se estruturam. ouais as suas

90 9l
especificidades,qual a sua unidade de construção,como já (:47)
indicadosno capítulo anterior.A seguir, deve desenvolver L2 éh São Paulo acho assim uma vez o Franck sabe aquele
atividadesescritas,podendoutilizar os mesmostemastratados que... que é arquiteto?
no exercício oral. buscando evidenciar como se estrutura o Ll uhn...
texto escrito,qual a sua unidadeconstitutiva,como ela deve L2 ele estava falando que a topografia da cidade é muito
ser tecida. bonita...e eu inclusive gosto né? cheìo de... montes e::
Trata-se,conforme destacaMarcuschi (Ì993: 16): né? colinas tal mas que é muito mal aproveitado bom
(aí você vai entraÍ na na) área verde... que quase não
"de trabalharintegradamente tem e tal
as váriasatividadesno uso da
Iíngua,ou seja,a produçãooral, a produçãoescrita,a leitura t
e a compreensão. Este aspectotem a ver com o tratamento LI isso é bem de cidade grande né?
dado à língua,principalmentenos exercíciospropostosaos t
alunosem sala de aula". L2 oi?
L I cidadeque não dá para ter planejamentoela estácrescendo
Para o autor, não se deve considerar os exercícios
desordenadamente
escolarescomo um simples complementodo ensino, "mas
a verdadeiraforma de exercer o ensino". Conseqüentemente, t
a Universidade deve oferecer subsídios para que a escola L2 dar daria né? é que não::
secundária trabalhe com propostas inovadoras, mas cuida- Ll e:ì sempre . .quem
. m andaé: : . . .os. . . a: : - com o e que
dosas. se diz-... especulaçãoimobiliríria né? ... certo local fica
bom para constuir todo mundo pa cone para lá né?
Talveí conhecendoum pouco mais como se processa então constrói-se muitos prédioó ali e aí depois muda..
a elaboração do texto oral, o professor possa não só com- L2 esse negócio de lei de zoneamentonão está funcionando?
preender melhor as produçõesescritas de seus alunos, como
Ll não que eu saiba não::...não é tão... tão forte essa lei
também aprimorá-las sem que percam a sua expressividade, não não consegue....moldar a cidade...
fazendo do trabalho com textos uma atividade dinâmica e
produtiva.
t
L2 não porque eu ouvi depois que::... depois que
Utilizando-se do estudo do tópico discursivo e do estabeleceramaí::
parágrafo realizadÕs nos capítulos I e II deste livro, Ll (tem isso) porque envolve interesseseconômicos muito...
deixamos aqui alguns exercíciospara que você faça com FORtes muito grandes...que dobram essa lei... certo?
seus alunos. dum,.. dum... dum governo para o outro... muda a lei
de zoneamento... eu nào vejo funcionar...e mesmoassim
I - Leia o texto do NURC-SP D2 343 transcritoa seria uma restrição de... desenvolvimento...errado mas
seguir. Indique os tópicos e subtópicos formulados e depois já estáum montãode coisaerradacerto?.,.muito bairro::...
faça a transposição para o texto escrito, observando a residencial com muita indústria dentro... principalmente
construção dos parágrafos. bairro pobre né?... para consertar isso;:: não dá... a lei

ot 93
w
teria que ser... éh:: retroativasei lá atuar sobre o que já 2 - Outra possibilidade de atividade é a análise de
exlste
textos escritos em que se detectem traços de oralidade, como
L2 uhn uhn... ÕcoÍre no texto jomalístico: uso de formas populares, citações
Ll (né? então) eu Acho que ela não está conseguindonem de fala, emprego de termos estrangeiros, frases de efeito,
atuar sobre o que vai existir... em termos ela existe entÍe outros. Veja os exempÌos (48) e (49) e procure levantar
t esses traços presentes nos referidos textos:
L2 EH::: (48)
Ll ela está Iá mas:: não funciona...porque "O ministro Clóvis Carvalho, paulista de 60 anos, é um
t mouro para trabalhar, um sargento paÍa obedeceÍ e um
geneÍal para mandar - e agora, nestes últimos dias, deu
LZ eu vejo para andar rindo pelos corredores.Não é à toa. Ele continua
L1 acho que a economiaé mais forte do que a lei... ainda... ca egando uma agenda de mouro, cumprindo ordens do
L2 é meio incontrolávelné? e acho que:;...acho que esse presidentecom a mesma disciplina de sempre, mas sua
negócio se repete ou acaba se repetindo em qualquer alegria explica-sepelo poder de general. Mantido como
cidade que...atingeum certo tarnanhose bem que em ministro da Casa Civil, cargo que ocupa desdeo início do
São Paulo acho que tem um problemaespecíficode::... governo, Clóvis Carvalho foi o único ministro a ficar no
ter-se tornado um centro industri/industrial...grande essas segundo mandato com mais poder do que tinha no primeiro.
coisastem um professormeu que vai agorapra:: Belém... (...) A exceção que chama a atençãoé Clóvis Carvalho,
que já foi apeÌidado de "gerentão do palácio" e "bedeì de
ele estava falando que... quando ele veio para São Paulo
- eÌe é argentino tal - em cinqüenta e quatro era ministro", e é malvisto por políticos de todos os partidos,
inclusive do próprio, o PSDB, devido a sua vocação, exer-
menor que o Rio...
citada com rigor cotidiano, de praticgmentesó abrir a boca
Ll uhn uhn... eìe é pólo de atraçãoe o pessoalnão consegue para dizer "não"{...) "O Clóvis recebeuum prato tào frÍlo
t que o único risco hoje é que fique intoxicado", diz um
LZ pouco mai/pouco mais de dez anos né? rninistro, referindo-se ao prestígio crescente do chefe da
Casa Civil. Além dos encargos velhos e novos, Clóvis
Ll podarisso né?...porquequem::tem::...companhiagrande Carvalho tomou-se o senhor do Palácio do Planalto, abaixo
digamos...precisade mão-de-obra... então ele tem que apenas do própÍio presidente da República". (O número 2:
trazer de outra cidade porque a nossa mão-de-obra...vai com seu podeÍ turbinado na Casa Civil, Clóvis Carvalho
progressivamente se tornando mais cara... então teria vira o senhor do palácio - Veja, 6 de janeiro de 1999,
como que importar dos outros estados para São Paulo p.36).
mão-de-obra barata... então isso CHAma,., um fluxo de
gente para São Paulo... que muita gente quer poDAR... (49)
para não crescermais... ((tossiu)) que a gente não importa "Quanto mais o tempo passa, mais o papa João Paulo II
ricaço essas coisas né? ricaço vai para o Rio sei Iá caprichano visuaÌ.Em visita aosEstadosUnidos em janeiro,
qualquer outro lugar certo?... chamou a atenção sua estola vermelha de seda, enfeitada
com imagensde santos.Poucassemanasdepois, na missa
(NIJRC-SPD2 343:65 a 124,p. 18-20) de Quarta-Feira de Cinzas, uma profusão de bordados bri-

94 95
lhantes€mprestouaÍ fashion ao roxo (ior reromendâdapara - É quase do tamanhode uma graúna.
o dia) da estolâ. Nada que cause muito espanto em quem - Deixa coçar a cabeça?
já ariscou até roupa de gnfe" @apa no griio da moda -
- Claro. Come na mão ...
Veja,3 de março de 1999,p. 67).
- E o curió?
3 - Além disso, podemos encontrar marcas de oÍalidade
- É muito bom curió.
em crônicas. Observemos agora o texto de Rubem Braga:
- PoÍ quanto o senhor vende?
(50)
- Dez contos,
Negócio de menlno
Pausa.
Tem dez anos, é filho de um amigo, e nos encontramosna - Deixa mais barato...
praia:
- Para você, seis contos.
- Papai me disse que o senhor tem muito passarinho...
- Com a gaiola?
- Só tenho iaes.
- Sem a gaiola.
- Tem coleira?
Pausa.
- Tenho um coleirinha.
- Virado? - E o melro?

- Yirado. - O melro eu não vendo.


- Múto velho? - Como se chama?
- Vilâdo há un ano. - Brigitte.
- Canta? - Uai, é fêmea?
- Uma beleza. - Não. Foi a cmpregadaque botou o nome. Quando ela
- Manso? fala com ele, ele se aÍÍepia todo, fica todo despenteado,
então ela diz que é Brigitte.
- Canta no dedo.
Pâusa,
- O seúor vende?
Vendo. - O coleira o seúor tambémdeixa por seis contos?
-
- Quanto? - Deixo poÍ oito contos.
- Dez contos. - Com a gaiola?
Pausa.Depois volta: - Sem a gaiola.
- Só tem coleira? Longa pausa. Hesitação. A irmiiziúa o chama de dentro
Tenho um melro e um curió. d'água. E, antes de saiÍ correndo,propõe, sem me encaraÍ:
-
- É melro mesmo ou é vira? - O senhor úo me dá um passariúo de presente,não?

96 97
Para que você, leitor, possafazer uma análise com (sl)
mais segurançae âproveitamento, discutiremoscomo a ora- Hora de dormir
lidade esú presentenessetexto de RubemBraga. - Por que não possoficar vendotelevisão?
Inicialmente,importa destacarque se trata de unÌa - Porque você tem de dormir.
crônica, gênero de texto que busca relatar ou discutir fatos - PoÍ quê?
do cotidiano, em uma linguagemcoloquial. No caso do - Porqueestá na hora, ora essa.
texto sob análise, veriÍicamos que o autor o elaborou com
- Hora essa?
baseno par adjacentepergunta-resposta, já que temosdois
(o cronistae um garotode dezanos,apresentâdo - Além do mais, isso não é programapara meninos
inierlocutoÍes
como o filho de um amigo), estabelecendo um diálogo - Por quê?
durantetoda a crônica. - Porqueé assuntode gentegrande,que você não entende.
Por meio dos diálogos,o autor pretendepassaÍpara - Estou entendendotudo.
os leitoresa rapideze a espontaneidade da linguagemfalada, - Mas não serve para você. É impróprio
com intervençõescurtase precisas.Em alguns momentos, - Vai ter mulher pelada?
vale-sede reticênciasparaassinalarum momentode silêncio - Que bobagemé essa?Ande, vá dormir que tem colégio
ou pausade um dos interlocutores. Já em outros, escreve amanhãcedo,
as expressões:'pausa, longa pausa,hesitação",revelando
- Todo dia eu tenho.
como o lexto escrito sofre certasrestriçõespara representaÍ
a oralidade. - Estábem,todo dia vocêtem. AgoÍa desliguee vá dormir.
- Esperaum pouquinho.
Outro,pontointeressante a destacaré que se emprega
um léxico bastantecoloquial,usandotermoscomo: "Dolou", - Não espero não.
"uai", - Você vai ficar aí vendo e eu não vou.
- Fico vendo não, pode desligar.Tenho horror de televisão.
4- Outraspossibilidades
de trabalhosãoas seguintes: Vamos,obedeçaa seu pai.
- Observarcomo cadaautor registraas hesitações, os - Os outÍos meninostodos dormem ta.rde,só eu que durmo
gritos e os momentos em que há silêncio. Seria cedo.
interessanteconfÍontar com uma transcriçãode um - Não tenho nadaque ver com os outÍos m€ninos:tenho
texto oral. que ver com meu Íilho. Já para a cama.

- Verificar as prováveisoperaçõesque os escritores - Tambémeu vou paÍa a camae não durmo,pronto.Fico


executaramao construircada uma das crônicas. acordadoa noite toda.
- Não comececom coisa não, que eu perco â paciência.
Vejamos outras duas crônicas.Do mesmomodo que
no exemplo(50), tambémnestestextos há marcasde ora- - Pode peÍdeÍ.
lidade,e vamosdeixálos aqui como sugestão paÍa que você - Deixe de ser malcriado.
os analise. - Você mesmooue me criou.

98 99
- O quê? Isso é maneira de falar com seu pai? - Baú poÍquc você mereceu.Já acabou, pare de chorar.
- Falo como quiser, pronto. Foi de leve, não docu nem nada. Peça perdão â seu pai e
vá dormir.
- Não fique respondendonão: cale essa boca.
- Por que você é Âssim,meu filho? Só para me abonecer.
- Não calo. A boca é minha.
Sou tão bom para você, você não reconhccc.Faço tudo que
- Olha que eu ponho de castigo, você me pede, os maiores sacriÍícios, Todo dia, trago paÍa
- Pode pôr. você uma coisa da rua. Trabalho o di todo por sua causa
mesmo,e quandochego em casa paÍa descansarum pouco,
- Veúa cá! Se der mais um pio, vai levar umas palmadas.
você vem com essascoisas. Então é assim que se faz?
- Entiío você não tem pena de seu pai? Vamos
- Quem é que anda lhe ensinandoessesmodos?Você está
ïome a bênção e vá dormir.
ficando é muito insolente.
- Papai.
- Ficando o quê?
- AtÍ€vido, malcriado.Eu com sua idadejá sabiaobedecer. - Que é?
Quando é que eu teria coragem de responder a mcu pai - Me desculpe.
como você faz. Ele me desciao braço, não tinha conversa. - Está desculpado.Deus o abençoe.Agora vai.
Eu porquesou muito mole, você fica abusando...Quando
- Por que não posso ficar vendo televisão?
ele falava está na hora de dormir, estâvana hora de dormir.
- Naqueletempo não tinha televisão. FemandoSabino
- Mas tinha outras coisas.
(s2)
- QÌrc outÍas coisas?
O dia da caçs
- Ora, deixe de conversa. Vamos desligar esse negócio.
honto, acabou-se.AgoÍa é tratar de dormir. A caçada estava marcada para as 7 horas, Desde as ó,
porém, Paulo e eu jó estávamosde pé, aguardandoa chegada
- Chato.
de seu Chico Caçador.
- Como? Repete,para você ver o que acontece.
- Seu Chico vai tazer as espingaÍdas?
- Chato.
- Vai. E cachorÍotambém.
- Tome, para você aprender.E amaúã fica de castigo,
está ouvindo? Para aprenderá ter respeito a seu pai. - Cachomr? Para que cachorro?
Olhei com pena meu compaúeiro de avennra:
- E não adiantâ ficar aí chorando feito bobo. Veúa cá. - Onde você já viu caçadasem cachoro, rapâz?
- AmÂnhãeu não vou ao colégio. - Ele disse que hoje vai ser ú passariúo.
- Vai sim senhor.E não adiantaficar fazendoessacarinha, - Passariúo para ele é codornâ. mâcuco, essascoisas...
não p€nse que rne comove. Anda, veúa cá. Em pouco chegavaseu Chico, todo animado:
- Você me bateu ... - Tudo pronto, meninos?

100 l0l
De prontosó tiúamos o corpo.SeuChicotraziaatÍâvessadas Seu Chico suspirou, resignado:
nas costasduas espingardas de caça e usavaum gibão de - Er6 ÌrÍn4 codoma. Não tem importância... Olha, quando
couro, uma cartucheira,vinha todo fantasiadode caçador. atiraÍ outÍa vez, vira o cano pro ar. O chumbo passou
Ao seu redor saracoteavaum cachono: tinindo no meu ouvido.
- O melhor perdigueiro destasredondezas. No ar ficaram apenas duas fumacinhas. Fomos andando, seu
Na varanda da fazenda, seu Chico se pôs a encher os Chico canegou novamente nossas espingardas. Assim que
cartuchos,meticulosamente,
usandoparaissounsaparelhinhos o cachorro se imobilizava, ficávamos quietos, farejando ao
que Íouxera, um saquinhode pólvora,outro de chumbo: ÍedoÍ, canos piìÍa o ar.
- Vai haver codoma no almoço paÍa a famflia toda - - Vira isso pra lá!
dizia entusiasmado. - Agora! Fogo!
Despedimo-nos comovidosda família e partimosatravésdo Mal tíúamos tempo de ver uma coisa escura desâpareceÍ
pasto.Seu Chico, compenetrado,ia dando instruções,pÌo- no céu, como um disco-voador.
curandoimpressionar:
- Assim também não vai, seu Chico. Não dá tempo...
- Parou,esticouo corpo,endureceuo rabo?Tá amanado. - Me dá aqui essa espingarda.Deixa eu mataÍ a primeira
E só esperaro bichinhoyoar e tacar fogo! pârâ mostrar como é que,
- Seu Chico, nós não vamospassarperto daqueletouro, Andamos o dia todo pelo pasto. Nada de caça.
vamos?
- Nem ao menos uma codominha - suspirava seu Chico,
- Aquele touro é uma vaca. quando o sol começou a dobrâÍ o céu. - Tem dia que eu
A vacalevantoua cabeçae ficou a olhar-nos,na expectativa. mato mais de quinze macucos.
Por vi4.das dúvidas, me diá aí essa espingarda.Fomos Andando, subindo morro, saltando ç:erca, atravessando valas,
passandocom jeito perto da vaca. pisando em barro, escorregando no capim. O estômago
- Bom-dia - disseeu. começou a doer.

- Buu - respondeuela. - Seu Chico, o melhoÍ é a gente desistir. Estamos com


fome.
Ao sope do morro o cachorrose imobilizou.
- Hoje no jantar vocês comem perdiz. Ou eu desisto de
- É agora!Me dá aqui a espingarda! ser caçador.
- Fiquem quietos- comandouseu Chico, num sussurÍo Sua honra estava em jogo. A taÍde avançava e seu Chico
- Que foi, seu Chico?Não estou vendo nada... perscrutando o pasto, açulando o cachono. Paulo, sentado
Alguma coisa deslizoucomo um rato poÍ entre o capim num toco, desistira de andar: tirara o sapato e coçava o
rasteiro, leyantou vôo espadanandoas asas. dedão do pé. Resolvi também fazer uma parada para caçar
carrapatos. Seu Chico desapareceu numa dobra do terreno.
- Fogo! Fogo!
De Íepente, puml pum! - era o caçador solitário. Teria
Paulo atirou na codoma, eu atirei em seu Chico. acertado desta vez? A vaca de novo. Vinha vindo pachor-
- Cuidado! rentamente pela picada aberta poÍ ela própria.
- Que bicho é esse? - Cuidado, Paulo! - Dreveni. - Olha a vaca.

lo2 103
Pâulo se voltou para a veca, que já ia passandoao largo: Deu um salto e abriu fuga com suaspemocaslongas,morÍo
- Buuu! - fcz com desprezo. acima.Ah, se seu Chico nos visse agora!

A vaca se deteve,voltou-senos flancos e de súbito dispaÍou - Pum!


num pesado galope €m sua direção. Paulo deu um salto, - Socono!
abriu a coner, passoupoÍ mim como um raio:
E a ave pemalta fugia espavorida,escondendo-sena vege-
- Foge! Foge! tâção.Iamos no seu encalço,implacáveis.
Atrás de nós â terÍa estÍemeciae a vaca bufava, escavando - Pum! - trovejavaa espingarda.
o chão com as patas.
- Não! Não! - implorava a Âvestruzna sua fuga, largando
- Seu Chico! Socono! penaspelo camiúo.
Em poucosminutose aossaltos,escorregadelas, trambolhões, A noite veio surpreender-nosdo outro lado do morro, já às
cruzamoso terrenoque leváramostoda a manhãa conquistar, portasda cidade.Voltamosparaa fazcndaesropiados,Íoupas
Já na poÍteiÍa da faznnda, nos voltamos para ver a vaca rasgadas,sapatospesadosde barro. Fomos Íecebidos com
que ficara para tÍás, enhetida com uma touceiÍa de capim, alegre expectaüva:
- Devo ter falado algum palavÍão em língua de vaca. - E então? Caçaramalguma coisa?
Em pouco regrcssavaseu Chico, cabisbaixo,desmoralizado, - Com seu Chico, nem um passariúo. Mas depois que
quasechoÍando: ele foi embora quaseapanhamosuma caça esplêndida,uma
avestruzdeste tamanho...
- Erfei até em anu.
Procuramosconsolá-lo: O dono da fazenda pôs as mãos na cabeça:

- Um üla ê da caça e outÍo do caçadoÍ, seu Chico, - Minha siriema,que eu mandei gir da Argentina! Imagine
o susto da coitâdinha!
Deixou-nos as espingardase folse pelo pasto m€smo, evi-
tando a fazenda e o opróbrio aos olhos dos moradores. Embarafustamo-nospela cozinha derÍotados.
Paulo e eu nos coçávamos,sentadosno travão da cerca, - Quc vamoster hoje no jântaÍ? - peÍguntei à cozinheira.
quando ambos demos um grito:
- Galinhaao molho pardo.
- Epa! Que é aquilo?
- Já matou?
- Você viu?
- Não.
Uma caça,uma câçaenoÍme!Um gigantescogalináceoque
Empunhei a espingardacom decisão e voltei-me para o
ao longe ganhava o moÍÌo em disparada, sumindo ali,
galinheiro,mas Paulo cortou-meos piìssos:
suÍgindo lá - uma cegonha?
- Não faça isso! O crime não compensa.
- iegonha nada! Uma avestruz!
E propôs que na manhã seguinte saíssemospaÍa caçar
Saímoscomo loucosem peÍseguiçãoda avestÍuz.Nas fraldas
borboletas.
do morro disparamoso primeiro tiro.
- Socorm! - benou a avestruz. Femando Sabino

104 105
Outrasatividadesque podemser sugeridasaos alunos B - Texto escrito: produzido por L. F. V., aluno da 8'
são as seguintes: série de um colégio da rede pública
da cidade de São Paulo.
5 - A partir de textos do projeto NURC-SP, como
o segmento(53), colocadoa seguir,propor as tarefasde:
Descriçãode um museu
- Levantaras caÍacterísticas
típicasda fala.
- Discutir as especificidades
da transcrição. Estive em Paris e passeiuma semanapor lá, mas pude
visitaÍ o Louvre umas quaüo vezes,porque realmenteo que
- Transpor o texto oral para a modalidade escrita a gente vê no museu é indescritível.A gente sente uma
(veja as sugestões
apresentadas:texto produzidopor emoçãoinenarÍávelquandotem a oportunidade de olhar de
um aluno da 8' série e o outro produzido por um perto aquelasobrascélebresque a genteacostumoua veÍ
universitário). em livros ou álbuns.Já visitei outros museus.Em Madri,
(53) na capitalda Espanha,eu fui no Pradoalgumasvezese na
Iúlia pude conhecerbonitos museus,principalmenteem
Florença.
A - Texto falado:

Descrição-de um museu C - Texto escrito: pÍoduzido por R. M., aluno do 1'ano


do curso de IJtras da Universidade
Inf. - bom...eu::eu fui a:: a:: a PArise visiteio LouvÍe... de São Paulo.
e estivdÍno
Loulre eu achoque umaseu passeiuma semanâsó em
Parismas eu fui umasquâtrovezesao Louvre..,porque Descrição de urn rnuseu
realmenteo que a genteyê no Louvre é indescritível...é::
é aquilo que a gente está costumadoa yer em livlos e:; Quando fui a Paris, visitei o Louvre poÍ quatro vezes,
álbunssobre::obrascélebres... ( ) ter oportunidadede ver emboraa minha permanência na capitalfrancesatenhasido
lá e:: e:: examinar...dá assim uma sensaçãouma emoção de uma semana.A justificativapaÍâ tantasvisitas está no
até::inenarÍávelporque::...
é completamente é é indescritível... que se tem paraadmirarnaquelemuseu.É algo indescritível.
entendeu?... eu fui tambéma â ao Museu do Prado...fui Sente-seuma emoçãoinenarrávelquandose tem a opôrtu-
algumasvezes no Museu do Prado em:: em::... em:: na nidade de examinarde perto aquelasobras célebrescujo
capital da Espanha...ló em:: Madri... e:: na Itália também contato semprefoi através de livros ou álbuns de História
tive oportunidadede conhecerbonitos museus...principal- da Arte.
menteem Florença.,. ConheçooutÍos museusda Europa.Na Espanha,mais pre-
cisamentena capital Madri, estive no Museu do Prado.Já
(NURC-SP-DID160, linhas 129-141,p.76) na Itália pude apreciarbonitosmuseus,principalmenteem
Florença.

106 107
Para executar as atividades propostas,leia com atenção L3 ah:; mas no México tem que tomar cuiDAdo porque
os três textos e responda: Quais as transformaçõesque o cada corrida... é um preço diferente
texto "Descrição de um museu" apresentana redaçãoproposta Ll eles roubam aí é um preço porque ELES toubam... mas
pelo aluno da 8' série? Quais as diferenças em relação ao se/ se basear no taxlmetro aí... elev
texto do alunÕ universitário? L3 mas NÃO tem taxímetro no México... quan::do a GEN::te/
Para orientâr a sua resposta, é necessário que você o Flávio man-
L2 DEI::xa eu ir EMBORA... tchau...tchau....
observe: dou um abraço pra você faLO...
Ll em casa eu estarei a noite ( ) ah:: obriGAdo... agradeça
- reordenação dos conteúdos (desenvolvimento do
a ele... AGORA se você vir o Paulo... faÌe pra e que
tema ou assunto); eu continüo sain::do as DEZ e meia... mas em geral
- eliminação de elementos próprios da língua falada; estaciono o carro no mesmo lugar/porque eu não vi o
Paulo ainda
- escolhado vocabulário;
LZ tâ:-l
- uso de linguagemmais formal; Ll e eu:: co/
- distribuição do texto em parágrafos. L2 falei com ele por teleFone

6 - Pedir aos alunos para: Ll COMO não tive licença-prêmio NESte seMEstre... as-
sumi as aulas... porque ele pensou que eu fosse ter...
- registrar fala de um colega (por exemplo: contar né? Me vendo aqui... então ele pode pensar
como foi o seu fim de semana ou comentar o L2 tudo BEM... tchau...tchau...
último filme visto no cinema);
L1 tchau...um abraçoheim...
- fazéï a fanscrição dessa fala; L3 tchau.... MAS QUANdo a gente esteve no México...
- transformar esse texto oral em um texto escrito; NÃO tinha taxímetro...

- explicar quais foram as operaçõesfeitas para chegar (Conversaçãoespontânea)


ao texto escnto;
(55)
- sugerir que seja feita a mesma âtividade a paÍir
da fala produzida por urn adulto e depois compará-la A celulose é o maior constituinte orgânico existente na
natureza.Esta é uma macromoléculabiológica composta por
com a fala do jovem.
subunidadesde glicose unidas linearmentea partir de ligações
Observe, agora, leitor, os textos a seguir. beta 1, 4, podendo alcançar uma extensão de 10.000 subu-
nidadescom peso molecularde 1,5 milhoes. Embora apa-
(54) Contextualização:Os locutores estão conversando
rentemente apresente uma estrutura químicâ simples, esta
sobre o tópico "Preço de uma corrida de táxi", mas L2 pode alcançar tal complexidade que partes da molécula são
precisa ir embora e começa a se despedir dos outros dois cristalinas.(Goldamn, G. H. e J. L. de Azevedo (1989)
locutores.Entretanto, após as despedidasLl e L3 continuam "Melhoramento genético de microrganismos produtores de
a discorrer sobre o tópico em questão: celulose". [n Ciência e Culturq, 4I (3), p. 229-240)

108 109
O texto (54) constitui a transcrição parcial de uma né? Porque lá eles ( ) pela parede pelo pelo fbrro pela...
conversaçãoespontâneaface a face e representaa comuni- por todos os lugaresque tinha lá em cima... por dentro e
cação que vivenciamostodos os dias; o número (55) foi o que eles gostavammais de ir... era pe/pela cozinha porque
cxtraído de um artigo científico publicado na revisÍa Ciência lá tinha comida...e eles teve uma::: noite que eles foram
e Cuhura; é especiaÌizado e com certeza será Ìido por até a cozinha e eles comeram muito até se empanturrarem
poucos e poucos escreverãotextos como ele. muito de tanta comida... aí ficaram com sede... e eÌes
Continuando a comparáJos, observamos que (54) é começaram procurar coisas para beber... foÍam por aqui por
elaborado sem um planejamento antecipado,cuidadoso (ele ali... não acharamaí eles viram que tinha em cima dum::
é planejado localmente), enquanto (55) é planejado cuida- da mesa...em cima da mesa uma::: tigela co:: cobertacom
dosamente,havendouma progressãológica; (54) é interativo um pano aí eles foram até a tigela pm ver o que tinha lá
(os interlocutoresdirigem-seum ao outro), (55), não; (54) na ti:: ti::tigela...aí eles foram ver... era coalhada...aí um
é dependentede contexto, (55), não; o locutor em (54) deles esconegou e caiu na tigela... e foi e foi pegar ajudar
expõe seus sentimentosabertamente, o outro... o rabinho no rabinho do outro e caiu os dois...
em (55), procura man-
e os dois começaram a nadar a se debater... mas não dava
ter-se "neutro".
pra eles sair da tigela porque as bordas escorregava... eles
Outra possibilidadede exercício que pode ser feito nadavamnadavamnadavamnadavamnão conseguiamsair...
com os alunos é a observaçãodo grau de formalidade/in- aí um dos ratinhos...um dos camundongosdesistiu e o
formalidade presentenos vários'tipos de texto. A seguir, outro lá continuou nâdando nadando nadando nadando... aí
apresentamosuma sugestãode atividade. no dia seguinte...a cozinheira...foi lá pra ver o leite que
nessa tigela do leite ela ia fazer a coalhada...eela foi na./
7 - Análise do grau de formalidade/informalidade quando ela abÍiu ela teve surpresa porque o ratinho... que
presente nos textos. desistiu de nadar morreu... e o outro de tanto de tanto bater
Como eïèmplificação, analisemos o texto elaborado o leite né que ia virar coalhadaacabouvirando manteiga...
por V. S., 15 anos, aÌuna da l" série do ensino médio de como ficou sólido...ela acabousaindoa:: cozinheiraachou
uma escola municipal da cidade de São Paulo.r0 as patinhasna:: na manteiga... descobriuque o ratinho saiu
dei xando()n am ant eiga

(55)A-Textofalado:
B - Texto escrito:

Os dois ratinhos
Os dois ratinhos

Havia dois camundongos e eles moravam em uma câsa


Inf.: eram dois ratinhos...que eles viviam numa casa
velha e adoravam passear por ela e o lugar que eÌes mais
velha...e eles gostavammuito de passearpela casa
gostavam de ir era na cozinha. Uma noite eles foram até
lá e comeram, comeram tanto até dizeÍem chega. Depois
10.Coletae transcrição
elaboÍadapor RosiléiaA. J. Sanlos,alunado curso de encherem as barriguinhas, sentiram muita sede e foram
dc Lclras, procurar alguma coisa para beber.

I l0 llt
il#
Procuraram, procuraram e nada.Até que um deÌesavistou a) Texto orali "eram dois ratinhos... que eles viviam
uma tigela cobertapor um pano e foram ver o que era, numa casa velha..-e eles Sostüvom muito de passear pela
Era leite que a cozinheirahavia deixadopara fazer coa- casa né2"
lhada,Só que um deles escorregoue câiu na tigela e
acaboupuxando o rabo do outro que também caiu. De- b) Texto escÍito: "Havia doís camundongos e eles
sesperados os dois começarama nadar,mas não conse- moravam em uma casa velha e adoravam passear por ela".
guiram sair pois as bordasda tigela escorregavam. Com Quanto ao tratamentoestilístico, também é distinto. No
o passardo tempoforamse cansando e um delesdesistiu. texto falado, a seleção lexical se efetiva por meio de
Mas o outro, perseverante, continuoua nadare nadara construções mais informais, já que se trata de um texto
noite toda.
produzido espontaneamente. Por outro lado, no texto escrito
No dia seguinte,a cozinheirafoi até a tigela e teve duas
o interlocutor dispõede tempo para planejamentoe construção
surpresas:o ratinho que havia desistidode nadar,morreu.
de seu texto, tendo,portanto,a possibilidadede fazer escolhas
E a coalhadaonde o outro ratinhonadou.virou manteisa
e como ficou sólidoele conseguir mais sutis e também podendo editorálo.
sair da tigela.deixanão
as marquinhasde seuspés na manteiga. Cabe ao professor trabalhar o texto escrito, fazendo
com que o aluno,junto com seuscolegasde classe,reformuÌe
A análise dos dois textos (falado e escrito) produzidos essetexto,conseguindo construiruma narrativamaisadequada
peloestudante de ensinomédiorevelaque ele tem ionsciência ao seu nível de escolaridade.
de que está diante de duas modalidadesdistintas Dara a
realizaçãodo mesmo gênerode texto. Assim. verifiiam-se
eliminaçõesde marcasestritamenteinteracionais:marcadores
conversacionais (né? ai1, bem como marcas prosódicas:
afongamento$( rmc.'.). hesitaçòes ("fazer
(ri tì:: tigela).pausas
a coalhada.-."), truncamentos (o rabinho/no rabinho tlo
outro" etc.), a inclusão da pontuaçãotípica da escrita (vírgula,
ponto final, dois-pontos)e ainda a distribuição em três
parágrafos.
Observa-setambém o apagamentode repetições (rati-
nho), redundânciase coÍÌeções (pela/por), a introdução de
substituiçõespor pró-formas ou elipses (casa velha - ela)
e ainda o uso de expressõessinônimas(ratinho - camun-
dongo) que buscam resgatar o mesmo referente.
E visível na passagemda fala para a escrita a dife-
renciação no encadeamentosintático do texto. em oue a
transposição para o texto escrito foi organizada de modo
contínuo, possibilitandoa obtençãode um texto mais conciso,
ainda que não se coloque como uma produção totalmente
satisfatória. Observe os segmentos:

rt2 ll3
Corcr.usÃo t

Chegamos,caro leitoq ao fim do livrq) podendodizer


que a aplicação de uma prò[õìú- cómo ã aqui apresentada
pede sérias reflexões e uma reformulação do ensino de
língua matema em vários pontos:

l\ Nos livros didáticos.


Se, como apontaMarcuschi(1997),os livríosìrd{ticos
atuaisnão indicamrnais a fala comó o lugaido eno(:ssa
postura revela um descasoem 19,$4{o..f oralidade,pô-rs,
.--..=.--_--
€gundo ó mesmoautor, a.pnas 2ch no cômputogeral de
páginas são dedicadosà oralidadeE por que não tratam da
oralidade?por desprezo?descaso? desconhecimento?
Certament€há de tudo um pouco. Alguns entendem
linguagemoral como encenaçãode textos escritos;outros
não têm uma concepçãoclara do que seja língua falada ou
ignorarncompletamente o que ela seja.

2) Na postura d.oprofessor.
Está claro que o professornão vai ensinaro aluno a
falar; isto o alunojá o faz quandochegaà escola."Trata-se,
isto sim. de identificar a imensariquezae variedadedos

ll5
usos da língua" (Marcuschi, ibid.). É necessáriomostrar
como a fala é variada, que há diferentes níveis de fala e
escrita (diferentes graus de formalismo), isto é, diferentes
níveis de uso da língua, e que a noção de dialeto padrão
uniforme é teórica, já que isto não ocorre na pnítica. O
professor precisa mostrar, também, que fala e escrita não
podemser dissociadase que elas se influenciammutuamente.
hecisa valorizar a linguagem presente nos textos falados
pelos alunos como ponto de partida para a reflexão sobre
sua língua rnatema.

3) Na atiudc do aluno,
Axr.xo
O aluno deve assumir,como já vimos no decorrer do
livro, uma postura ativa; paÍa que isto ocorra, não basta Normas para transcrição dos textos orais
que apenassua competêncialingiiística seja trabalhada,mas
sua competênciacomunicativa. Em decorrência da necessidadede não se trabalhar
Se o professororganizasua aula com basenos textos aleatoriamentecom a transcriçãodos textos orais, sugerimos
produzidos pelos alunos, analisa-ose os discute, a teoÍia que sejam utilizadas,como o fizemos nesle livÍo, as norÍnas
seú divuÍgada a partir da prática, e ele, aluno, será não de transcriçãojá elaboradaspelos pesqúsadoresdo Projeto
um simples espectador,rnas um paÍicipanie das atividades NURC/SP; entÌetanto,é preciso lembraÌ que essasnonnas
lingiiísticasdpsenvolvidas em classe. não são padronizadas, de modo que os pesquisadores são
livres paracriar suaspúprias normasde transcrição.Nesse
Assim, ao abordarmos,nestaobÍa, asprincipais questões
sentido, procedemosà apresentação das referidas norÌnasno
de oralidadee escrita,espeÍamosteÍ oferccidoaosprofessores,
quadro que incluímos neste Anexo.
aos alunos universiL,íriose aos inteÍessadosem linguagem
verbal o coúecimento mais atual sobre o tema e sua
aplicabilidadeem sala de aula, a partir do que o professor
utilizaÍá suashabilidades,suacriatividade,paÍa propor outras
atividades.

l16 lr7
NORMAS PARÁ TRANSCRIçÃO*
OCORRÈNCIAS SINAIS EXEMPLIFICAçÃO'**

OCORRÊNCIAS SINAIS EXEMPLIFICAçÃO** Comcntários que que- ...4 demanda de moeda


bÍam a seqüênciatemá- - vzunosdaÍ essanota-
Incompreensãode pala- (, do nível de renda...( ) tica da exposição;desvio ção - demandade moe-
vras ou segmentos nível de rendanominal... temático da por motivo

Hipótesedo quese ouviu (hipótese) (estou)meio preocupado simultanei- ligandoas


Superposição, A. na casada sua irmã
(com o gravador) dade de vozes t
liúas B. sexta-feira?
Truncamento (havendo e comé/e reinicia A. fizeramlá...
homogràfia, usa-seacento t
indicativoda tônicae/ou B. cozinharam lá?
úmbÍe)
Indicação de que a fala (...)nós vimosque exis-
Entoaçãoenfática maiúsculas porqueaspessoasreTÊM foi tomada ou interrom- tem...
moeda pida em determinado
ponto.Não no seuinício,
Alongamento de vogalou :: podendoaumentarao emprestarcm os...éh::: por exemplo.
consoante(como s, r) para::::ou mais ... o dinheiro
Citaçõeslitemis,reprodu- PedroLima... ah escreve
Silabação por motivo tran-sa-ção çóes & discürso direto na ocasião..."O cinema
ou leiturasde textos,du- faladoem língua estran-
Intenogação '' ,|
e o Banco...Central... rante a gÍavação geira não precisade ne-
nhuma baRREIra entre
certo?
nós"...
Qualquer pausa sãotr€smotivos...ou tÍês
razões...que fazem com Observações:
que se retenhamo€da... l lniciais maiúsculas:n:io se usam em início de períodos,turnos c
existeuma...retenção fïascs.
2. Fáticos:ah, éh, eh, ahn, ehn, uhn, tó (Ítáo poÍ está: t!i? vocè estó
Comentáriosdescritivos ((minúsculas)) ((tossìu)) brava?)
do transcritor 3. Nomesde obrasou nomescomunsestrangeiros sio grifados
4. NúmeÍos:por extenso.
5, Não se indica o ponto de exclamação(fÍaseexclamativa)
|+ïaídls de Castilho& preri (1986).A LinguagemFatada Cuba na 6. Não se anota o cadenciamehtoda frase.
Cidadede São Paülo, vol. lI - Diálogosentre ãois informantes.Sãà
7. Podem-secombinarsinais.ior exemplo: oh:::.,,(alongamentoe pausa).
Paulo.T. A. Queiroz/EDUSp, p. 9-lO. 8. Não se utilizamsinaisde paas". tÍpicosda línguaescritâ.comopon'
]]-Elgmllos reriradosdos inquéritosNURC_SPn 338 EF, 331 D2 e to-e-vírgula.ponto-linal.
dois-pontos, vÍrgula.As reticências marcam
t53 D2.
qualquertipo de Parra.

ll8
119
RpnpnÉwcras
Brlntrcnerrces

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