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Copitulo lll

EducoçÕo Literório
3. Almeido Gonett, Vîogens no Minho Teno
Escolher 5 capítulos: capítulos l, V Vlll, X, Xlll, XX, XLIV XLIX

Apresentoçöo gerol

Conteúdos essenciois
1. Resumo dos capítulos
2. Estruturação da obra: viagem e novela
3. Personagens românticas (narrador, Carlos e Joaninha)
3.1. As outras personagens e o seu simbolismo
4. Deambulação geográfica e sentimento nacional
5. A representação da Natureza
6. A dimensäo reflexiva e crítica
6.1. Sociedade
6.2. Literatura romântica
6.3. Natureza vs. Sociedade
7. Linguagem e estilo
7.1. Coloquialidade e digressão
7.2. Dimensão irónica
7.3. Recursos expressivos: a comparação, a enumeração, a interrogação
retórica, a metáfora, a metonímia, a personificação e a sinédoque

Síntese de conteúdos
Exercícios resolvidos

Nota: Neste Capítulo lll, ponto 3, o Programa indica para estudo três obras em alternativa:
'A Abóbada" de Alexandre Herculano, Viagens na MinhaTerra de Almeida Garrett e Amor
de Perdiçao de Camilo Castelo Branco.
Apresentamos neste capítulo a análise das três obras, embora os alunos apenas tenham
de estudar uma delas.
ApresenloçÕo gerol

ApresentoçÕo gerol
Votado ao esquecimento durante anos, Viagens na Minha Terra regressa ao programa da disciplina
de
Português e está, novamente, à disposição de todos os jovens que pretendam viajar por Lisboa, por
Santa-
rém, pela cultura popular, pela arquitetura, enfim, pelo Portugal do século XlX, no qual possível
é encontrar
uma tragica história de amor, em moldes bem românticos.
Nesta obra de Garrett, é evidente a influência da literatura de viagens, muito popular
naquele tempo,
nomeadamenteViagem Sentimental, de Sternel, eViagem à roda do meu quorto, de Xavier de Maistre2
(1795), sendo que o nosso escritor combina o género de
relato de viagem com a exploração da novela sen-
timental em torno de um triângulo amoroso - Carlos, Joaninha e Georgina com um desfecho trágico.
-
Sendo assim, torna-se difícil catalogar este texto, como aliás o próprio autor refere
-"Neste despropositado
einclassificável livro das minhas V|AGENS" (cap. XXXII).
A obra é, efetivamente, original, já que, para além do relato de uma viagem "Vou
- nada menos que a
Santarém" -, encontramos o tom crítico e pedagógico do discurso narrativo, num
ensaio reflexivo sobre
Portugal. Há, assim, uma dupla perspetiva na construção da obra: uma objetiva, ligada à
observação do real,
e uma subjetiva, ligada à interiorização do real e que resulta em divagaçöes mais
ou menos inesperadas e
que determinam o título pluralViagens.
Assim, ao longo de 49 capítulos, o leitor é convidado a (re)visitar terras nacionais, mas também
a acom-
panhar as reflexoes do narrador, numa tessitura textual claramente transgressora.
Deste modo, visto que a
obra apresenta uma estrutura em mosaico, optou-se pela apresentação do resumo dos capítulos,
embora o
enfoque seja dado aos capítulos selecionados pelo corpus.

ConTeúdos essenciois
1. Resumo dos capítu¡os
:Novela
Viagem
Capítulo (história de Carlos
(deambulação geográfíca)
e Joaninha)
. Embarque no vapor"Vila Nova', . Gosto pela cultura popular
com destino a Santarém - l7
de julho de 'l 843

ll-lv . Paragem em Vila Nova da . Espirltualismo ys. Materialismo


Rainha e Azambuja . Crítica aos clichés da Literatura
Romântica
V . Chegada ao Pinhal da . Crítica à falta de originalidade
Azambuja e à imitação dos modelos
estrangeiros
vl-vilt . Chegada ao Cartaxo . Crítica aos horrores da guerra
. Chegada à charneca
tx . Chegada ao Vale de Santarém

X . Descrição do Vale de Santarém . Língua portuguesa ys. francesa

1 LaurenceSterne(1713-1768),escritorirlandês,tornou-sefamosopelosromancesTheLifeandopinionsofTristramshandy,Gentleman,
publicado em nove volumes, os dois primeiros lançados em 1759, tendo inaugurado o "stream
of consciousness,,(técnica literária em
que se procura transcrever o processo de pensamento de uma personagem, numa
estrutura não-linear e com ruturas a nível da sintaxe
e da pontuação) , e por A Sentimental iourney through France and ltaly (1768), baseado
na sua viagem pela Europa por motivos clínicos.
2 XavierdeMaistre(1763-1852)foiumescritorfrancês,autordevoyageoutourdemachambreedasequela
-Expéditionnocturneautour
g
de ma chambre.

Nota:Toflas as citaçÕes da obra Viogens na MinhaTerro seguem a edição da Coleção Educação Literária,
z da porto
U Editora,2016.
121
Copitulo lll .Educoçoo Lilerório

ô
Novela z
Viagem Viagem: (história de Carlos
Capítulo (reflexão crítica)
(deambulação geográfica)
e Joaninha) a

xl- xxvl . lnício da novela, em 'l 832


. Apresentação das
personagens e das
relaçöes que entre elas se
estabelecem
. Encontro entre Carlos e
Joaninha
. Partida de Carlos para a
guerra

XXVII-XXXIII . Chegada a Santarém . Crítica à arquitetura moderna . Carlos e Georgina


e à degradação dos
monumentos

XXXIV-XXXV . Revelação da verdade:


Carlos é filho de Frei Dinis
. Partida de Carlos

XXXVI-XLII . Passeios por Santarém

XLIII-XLVIII . Partida de Santarém . Carta de Carlos à sua


prima

XL]X . Regresso à capital

Capítulo I

5e Xavier de Maistre viajou no seu quarto, o nosso narrador irá até ao Vale de Santarém, a convlte do seu
amigo Passos Manuel:

[...] Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar
e sentir se há de fazer crónica.
Era uma ideia vaga, mais desejo que tenção, que eu tinha há muito de ir conhecer as ricas vár-
zeas desse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais histórica e monumental das nossas vilas.
Abalam-me instâncias de um amigo, decidem-se as tonterias de um jornal, que por mexeriquice
as
quis encabeçar em desígnio político determinado a minha visita.
Pois por isso mesmo volu- pronunciei-me.

No dia 1 7 de julho," ano de groça de 1843, uma segunda-feira", embarca num moroso vapor, comandado pelo
Conde da Taipa, e que constituirá, desde logo, matéria crítica. Durante a viagem, reflete sobre as idiossincrasias
do seu povo e das suas gentes -"o povo, que tem sempre melhor gosfo"-, revelando a sua ideologia liberal,
Cumprindo a sua promessa de relatar tudo o que vai observando, é narrada a discussão entre dois gru-
pos de viajantes, que importa referir pelo seu valor etnográfico: os navegadores da região de Aveiro, de
ílhavo, os ílhavos, igualmente referidos como "os da calça lorgo"; e os campinos, ou Bordas-dÁgua, homens
de Alhandra, regiäo do Ribatejo, que eram forcados. É evidente o interesse folclórico pelos trajes típitos,
descritos de forma precisa e pormenorizada, num claro apreço pela cultura popular. É de realçar a forma fiel
como é reproduzida esta discussäo, com o recurso a linguagem coloquial, com forte sabor popular, no sen-
tido de produzir o"efeito do real".
Nesta contenda entre Norte e Sul, pretendia-se apurar quem era mais forte: aquele que enfrenta o mar
ou o que enfrenta o touro. Um dos marinheiros poe fim a esta discussão ao mostrar que, se o mar é mais
forte, então mais forte será o homem que o enfrenta "oito e dez dias a fio numa tormenta" e não os que"bri-
122 gam uma tarde com um toiro".
3 ' Almeido Gorretl, Viogens no M¡nho Terro

Capítulo V
Ao chegar ao pinhal da Azambuja, a desilusão abate-se sobre o narrador, visto que a paisagem está
longe de ser a idealizada. Ao nível linguístico, as frases interrogativas e exclamativas, bem como as interjei-
çoes, denunciam a frustração das expectativas acumuladas:

[".] E eu que, em pequeno, nunca ouvia contar história de Pedro de Malas-Artes, que logo, em
imaginação, lhe não pusesse a cena aqui perto!... Eu que esperava topar a cada passo com a cova do
capitão Roldão e da dama Leonarda!... Oh! que ainda me faltava perder mais esta ilusão...

O desencanto face à realidade conduz o narrador a uma análise sobre os desenganos da literatura ro-
mântica, revelando ao leitor, a quem se dirige de forma diretiva, que não há qualquer estudo no momento
da concéção do romance, pois tal implicaria trabalho e dedicação, e não é esse o principio que preside aos
românticos, que seguem uma determinada "receita'i que o narrador vai passar a ironizar:

Todo o drama e todo o romance precisa de:


Uma ou duas damas,
Umpai,
Dois ou três filhos, de dezanove a trinta anos,
Um criado velho,
Um monstro, encarregado defazer as maldades,
Vários tratantes, e algumas pessoas capazes para intermédios.
Ora bem; vai-se aos fìgurinos franceses de Dumas, de Eug. Sue, de Vítor Hugo, e recorta a gente,
de cada um deles, as figuras que precisa, gruda-as sobre uma folha de papel da cor da moda, verde,
pardo, azul - como fazem as raparigas inglesas aos seus álbuns e scrapbooks; forma com elas os
grupos e situações que lhe parece; não importa que sejam mais ou menos disparatados. Depois
vai-se às crónicas, tiram-se uns poucos de nomes e de palawões velhos; com os nomes crismam-se
os figurões, com os palavrões iluminam-se... (estilo de pintor pinta-monos). - E aqui está como nós
fazemos a nossa literatura original.
E dqui está o precioso trabalho que eu agora perdi!

De forma irónica, os aspetos criticados são:

. a falta de originalidade e a imitaçäo dos modelos estrangeiros;

. a falta de verosimilhança:
) na conceção estereotipada das personagens;
) na conceção inusitada da intriga.

Afirma-se, mais uma vez, o primado da fidelidade ao real e à verdade, segundo Boileau (ver capítulo lll).
Após referirque os pinheiros sãotão "reroseenfezados" que nenhum Orfeu3tocaria a sua lira neles, o
narrador levanta hipóteses que expliquem como tería o pinhal desaparecido dali, concluindo que o músico
da mitologia teria trocado este ambiente natural pelo envolvimento nos negócios financeiros; estaria, pois,
"consolidado", num trocadilho com o termo financeiro usado nos orçamentos públicos. Face à deceção,
decide continuar a viagem para o Cartaxo, desta vez numa"enfezada mulinha'í que lhe lembra um Marquês
excêntrico que conheceu em Paris e que o leva a nova divagação sobre o nosso épico Camöes, no capítulo
seguinte, até que chega ao Cartaxo.

z 3 Na mitologia grega, era um talentoso poeta e músico. Quando tocava a sua lira, os pássaros paravam de voar para escutar e os animais
F
a selvagens perdiam o medo. 123
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Capítulo Vlll
Neste capítulo, deparamo-nos com um dos mais belos quadros naturais da viagem física que o narrador
z
encetou, no momento em que este contempla a charneca, uma vegetação típica que ocorre entre Cartaxo
o
e Santarém. Garrett irá, tal como Cesário fará mais tarde, pintar "quodros por letras, por sinais" com pincela- ã
tr
das bem sugestivas, o que sabe ser difícil, pois já Teócrito e Virgílio tiveram dificuldade em traduzir quadros :
tao harmoniosos na poesia, tal como Gessner ou Rodrigues Lobo tiveram na prosa.
Este local é, assim, motivo para o narrador descrever o espaço real que o circunda, classicamente /ocus
amoenu, com a sua claridade serena e vegetação pletórica, num quadro tão harmonioso:

Eram dadas cinco da tarde, a calma declinava; montámos a cavalo, e cortámos por entre os vi-
çosos pâmpanos que são a glória e a beleza do Cartaxo; as mulinhas tinham refrescado e tomado
ânimo; breve, nos achámos em plena charneca.
Bela e vasta planície! Desafogada dos raios do Sol, como ela se deàienha aí no horizonte tão
suavemente! que delicioso aroma selvagem que exalam estas plantas, acres e tenazes de vida, que
a cobrem, e que resistem verdes e viçosas a um sol português de julho!

O espaço real será o ponto de partida para a evocação de uma paisagem romântica, com um bosque
que leva à meditação e ao encontro com Deus; um rochedo onde se assiste ao pôr do sol; uma planície
erma e selvagem; um.,pastio bravo, enfim, um ambiente idealizado e que leva o observador ao encontro
consigo mesmo:

A majestade sombria e solene de um bosque antigo e copado, o silêncio e escuridão de suas


moitas mais fechadas, o abrigo solitário de suas clareiras, tudo é grandioso, sublime, inspirador de
elevados pensamentos. Medita-se ali por força; isola-se a alma dos sentidos pelo suave adormeci-
mento em que eles caem... e Deus, a eternidade - as primitivas e inatas ideias do homem - ficam
únicas no seu pensamento...
É assim. Mas um rochedo em que me eu sente ao pôr do sol na gandra erma e selvagem, vestida
apenas de pastio bravo, baixo e tosquiado rente pela boca do gado - diz-me coisas da terra e do céu
que nenhum outro espetáculo me dizna natureza. Há um vago, um indeciso, um vaporoso naquele
quadro que não tem nenhum outro.

Pese embora esta descrição de pendor romântico, o narrador afirma não ser romanesco, nem romântico,
especialmente no sentido pejorativo que a palavra tinha passado a assumir.
É tempo de voltar ao real e relembrar a visita de D. Pedro ao exército liberal, depois da Batalha de Almos-
ter, ganha pelos liberais aos absolutistas em 1834. A atitude do narrador oscila, então, entre o romântico e o
clássico, no sentido em que se reencontra com a sociedade através do tema da Guerra Civil:

Toda a gueffa civil é triste.


E é difícil dizer para quem mais triste, se para o vencedor ou para o vencido.
Ponham de parte questões individuais, e examinem de boa-fé: verão que, na totalidade de cada
fação em que a Nação se dMdiu, os ganhos, se os houve para quem venceu, não balançam os pa-
decimentos, os sacrifícios do passado, e menos que tudo, a responsabilidade pelo futuro...
Eu não sou filósofo. Aos olhos do fìlósofo, a guerra civil e a guerra estrangeira, tudo são guerras
queelecondena-enãomaisumadoqueaoutra...anãoserHobbes,oditofìlósofo,oqueécoisa
muito diferente.
124
3 . Almeidq Gorretl. Viogens no Minho Terro

Com um "sob er de experiência fe¡to", pois esteve no local de uma das mais sangrentas batalhas, Waterloo,
o narrador termina o capítulo com uma pesada tristeza a abater-se sobre ele, ao reconhecer que, na guerra,
não há vencedores nem vencidos, visto que"lutas fratricidas nao podem inspirar outro sentimento t...1'i Pe-
rante tal estado reflexivo, toda a beleza da charneca se desfez e deu-se a chegada à ponte da Asseca.

Capítulo X
Este capítulo reveste-se de uma importância fulcral, quando, perante a beleza serena e harmoniosa, o
narrador compara oVale de Santarém ao próprío Éden, ao lugar primordial e impoluto.
Qual tela cinematográfica, o narrador apresenta, inicialmente, um plano geral do vale, realçando, através
de recursos linguísticos variados, como nomes, verbos e adjetivos expressivos, a beleza bucólica e simétrica
deste local:

O Vale de Santarém é um destes lugares privilegiados pela natureza, sítios amenos e deleitosos
em que as plantas, o a5 a situação, tudo está numa harmonia suavrssima e perfeita: não há ali nada
grandioso nem sublime, mas há uma como simetria de coles, de sons, de disposição em tudo
quanto se vê e se sente, que não parece senão que apaz, asaúde, o sossego do espírito e o repouso
do coração devem viver ali, reinar ali um reinado de amor e benevolência. As paixões más, os pen-
samentos mesquinhos, os pesares e as vilezas da vida não podem senão fugir para longe. Imagina-
-se por aqui o Éden que o primeiro homem habitou com a sua inocência e com a virgindade do seu
coração.

Um segundo plano espreita, com a enumeração da vegetação viçosa, densa e espontânea - "À esquerda
do vale, e abrigado do Norte pela montanha que ali se corta quase a pique, está um maciço de verdura do
mais belo viço e variedade. A faia, o freixo, o ólamo entrelaçam os ramos amigos; a madressilva, a mosqueta
pendurom de um a outro suas grinaldas e festoes; a congossa, os fetos, a malva-rosa do valado vestem
e alca-
tifam o chão." -, sendo que, num terceiro plano, desponta, no meio das árvores, "a janela meio aberta de
uma habitaçao antiga mas não delapidada",janela essa que suscíta o devaneio do narrador, que começa
uma excursão sobre os possíveís habitantes daquela casa, imaginando já um provável quadro romântico,
com a aparição de uma mulher na janela, junto aos rouxinóis que iniciam um canto:

Interessou-me aquela janela.


Quem terá o bom gosto e a fortuna de morar ali?
Parei e pus-me a namorar a janela.
Encantava-me, tinha-me ali como num feitiço.
Pareceu-me entrever uma cortina branca... e um vulto por detrás Imaginação decerto! Se o
vulto,fosse feminino!... era completo o romance.

A reflexão volta a estar presente quando o narrador avalia os diferentes papéis da mulher apaixonada e
do homem poeta em termos sociais, mas coincidentes em termos emocionais, pois ambos têm o poder de
vivenciar de forma peculiar o sentimento da paixão, o que os coloca num patamar superior aos seres co-
muns. O cantar pungente de um rouxinol relembra-lhe a novela sentimental de Bernardim Ribeiro - Menina
e Moça- e leva-o a sonhar com um vulto feminino, sentado à janela, com os olhos verdes, desviando-se,
assim, do padrão estereot¡pado dos românticos olhos negros. Será esta menina de olhos verdes a"menina
dos rouxinóis'i a mulher-anjo da história que passará a ser narrada e que teve lugar há dez anos, tal como o
c
novo narrador explica ao seu companheiro de viagem, desenlace esse que já se adivinha trágico pelas ex-
z
I pressões "ho uve um anjo, um anjo que deve estar no céu!' 125
i

¡-
Cqpítulo lll . Educoçôo Lìterório

Há alguma hesitação em usar a língua de Camöes para narrar a sua história, visto que "as damas e os z
elegantes" consideram que a francesa confere um"outro não sei quê".Estabelecendo um pacto com o leitor, o
ou melhor, com as"belas e amáveis leitoras", acaba por concluir, assertivamente, que o parâmetro para ava-
liar uma obra literária deve ser a sua qualidade e que a que irá contar não é um romance cheio de aventuras ¡
e desventuras, mas sim "u ma história simples e singela, sinceramente contada e sem pretensõo".
Está despertado o interesse do leitor para esta história, através deste introito, sendo que a mesma se-
guirá no capítulo seguinte, com o primeiro episódio da'bdisseia" do narrador-viajante.

Capítulo Xlll
Depois de terem sido apresentadas as personagens nos capítulos anteriores, o narrador revela agora
todo o seu escárnio pelos frades, como o da história narrada, Frei Dinis, caracterizado no capítulo anterior
em pinceladas soturnas. Porém, se moral e socialmente esta figura é dispensável, não o é em termos literá-
rios, visto que os símbolos da sua prática religiosa (hábitos talares e poéticos rituais litúrgicos) constituem
excêntrica matéria narrativa que os baröes, que os substituíram na hierarquia social, não possuem, de todo,
já que apenas se norteiam pelos valores materiais:

J
Frades... frades... Eu não gosto de frades. Como nós os vimos ainda os deste século, como nós
os entendemos hoje, não gosto deles, não os quero para nada, moral e socialmente falando.
No ponto de vista artístico, porém, o frade faz muita falta. [...]
É muito mais poético o frade que o barão.

Neste duelo entre ldealismo/Materialismo, o Frade é, para o narrador, o D. Quixote da sociedade velha,
sendo Sancho Pança representado pelos baröes na sociedade nova, embora com menos piada.Traça, por
isso, um retrato caricatural do baräo, que é"o mais desgracioso e estúpido animal da criação", revelando que,
na verdade, há um não entendimento entre partes:

O barão é, pois, usurariamente revolucionário, e revolucionariamente usurário.


Por isso, zebrado de riscas monárquico-democráticas por todo o pelo'
é,

Este é o barão verdadeiro e puro-sangue: o que não tem estes caracteres é espécie diferente, de
que aqui se não trata.
Ora, sem sair dos barões e tornando aos frades, eu digo: que nem eles compreenderam o nosso
século, nem nós os compreendemos a eles...
Por isso, brigámos muito tempo, afinal vencemos nós, e mandámos os barões a expulsá-los da
terra. No que fizemos uma sandice como nunca se fez outra. O barão mordeu no frade, devorou-o..1
e escoiceou-nos a nós, depois.
Com que havemos nós agora de matar o barão?

Para compreender a intrincada teia das sucessöes históricas do poder, o narrador acaba por aludir à nar-
rativa do stelo do Chucherumelo'| em que " está o cõo que mordeu no gato, que motou o rlto, que roeu a
"ca

corde, etc,, efcii Fazendo uma alusão a Eugène 5uea, a posição do narrador/autor é clara:
"Ora eLt, que sou ministerial do Progresso, antes queria a oposiçao dos frades que a dos barões. O caso es-
tova em a saber conter e aproveitar.
O Progresso e a Liberdade perdeu, não ganhou."

Näo quer tal dizer que Garrett fosse anticlerical. Pugnava, no entanto, por uma lgreja que não se unisse
ao despotismo régio e que näo insistisse em ver o frade senäo laxista e vicioso:

4 EugèneSue(Paris,l804-Annecy,1857)foiumescritorfrancês,conhecidopelosLesMystèresdeParis,profusamentedifundidospelaEu-
126 ropa romântica.
3 . Almeido Gorretl, Viogens n o M¡nho Terro

Quando me lembra tudo isto, quando vejo os conventos em ruínas, os egressos a pedir esmola e os
ba¡õés deberlind4 tenho saudades dos frades - não dos frades que foram, mas dos frades que podiam ser.
E sei que me não enganam poesias; que eu reajo fortemente com uma lógica infleúvel contra
asilusões þoéticas em se tratando de coisas graves.
E sei que me não namoro de paradoxos, nem sou destes espíritos de contradição desinquieta
que suspiram sempre pelo que foi, e nunca estão contentes com oque é.
Não, senhor: o frade, que é patriota e liberal na Irlanda, na Polónia, no Brasil, podia e devia
sê-lo entre nós; e nós ficávamos muito melhor do que estamos com meia dúzia de clérigos de re-
quiem para nos dizer missa; e com duas grosas de barões, não para a tal oposição salutaS mas para
exerc€r toda a influência moral e intelectual da sociedade - porque não há de outra cá.

lronicamente, revela que, independentemente de quem detém o poder; ele sempre estará alheado da von-
tade popular. Convém relembrar que o tempo da escrita da novela Viagens na MinhaTerra foide grande agitação
politica, com as medidas capitalistas de Costa Cabral, que cercearam a liberdade em proldo progresso material.

E se nãq digam-me: onde estão


universidadds, e o que faz essa que há senão dar o seu grauzito de
as
bacharel em leis e em medicina? O que escreve ela, o que discute, que princípios tem, que doutrinas
profeçs4 quem sabe ou ouve dela senão algum eco tímido e acanhado do que noutra parte se faz ou diz?
Onde estão as academias?
Que palawa poderosa retine nos púlpitos?
Onde esta a força da tribuna?
Que poeta canta tão alto que o ouçam as pedras brutas e os robles duros desta selva materia-
lista a que os utilitários nos reduziram?
Se excetuarmos o débil clamor da imprensa liberal já meio esganada da polícia, não se ouve no
vasto silêncio deste ermo senão a voz dos barões gritando contos de réis.

Recr'iperada a serenidade, o narrador revela que a novela sentimental será retomada com a entrada em
cena de FreiDinis, já anunciado no capítulo Xll.

Capítulo XX
Nos capítulos anteriores, foram narradas as relaçöes entre as diferentes personagens: Frei Dinis visitava
Joaninha e a sua avó todas as sextas-feiras, para trazer notícias de Carlos, que está na guerra, sempre en-
volto em mistérios e falando de forma encoberta sobre acontecimentos do passado ligados à morte dos
pais do jovem. Joaninha, num dos seus passeios pelo vale, acaba por adormecer, e é desta forma que este
capítulo se inicía, com a descrição tipicamente romântica da jovem adormecida - a figura angelical, a típica
mulher-anjo da literatura romântica, sendo de realçar a importåncia dos adjetivos e dos nomes na sugestão
de carácter etéreo:

Sobre uma espécie de banco rústico de verdura, tapeçado de gramas e de macela brava, Joani-
nha, meio recostada, meio deitada, dormia profundamente.
A luz baça do crepúsculo, coada ainda pelos ramos das árvores, iluminava tibiamente as ex-
pressivas feições da donzela; e as formas graciosas de seu corpo se desenhavam mole e voluptuo-
samente no fundo vaporoso e vago das exalações da terra, com uma incerteza e indecisão de con-
tornos que redobrava o encanto do quadro, e permitia à imaginação exaltada percorrer toda a
escala de harmonia das graças femininas.
s Era um ideal de demi-jour da coquette parisiense: sem arte nem estudo, lho preparara a natu-
7 Íezaemseuboudoir de folhagem perfumado da brisa recendente dos prados.
127
Copitulo lll .Educoçõo Lilerório

A este quadro romântico não falta sequer o rouxinol, cujo canto é interrompido pela chegada de sol- z
dados. :
Carlos reencontra, assim, a sua prima, dois anos após a separação. O encontro é intenso, o diálogo como- a

ã
vente e o beijo tranquilizador. ts

Capítulo XLIV
Após a apresentaçäo dos reais laços que unem Frei Dinis a Carlos e este a Georgina, e depois da morte de
Joaninha, é-nos dada a conhecer a carta de Carlos à sua prima. Tal missiva foi entregue por Frei Dinis ao
narrador, no capítulo anterior, quando, movido pela curiosidade, voltou a passar pela casa da "menina dos
rouxinóis'i Nesta carta, em que reconhece Joaninha como sua única familiar, Carlos revela-se e tece duras
críticas ao seu coração excessivo, que o levou à perdição -"Tenho energia de mais, tenho poderes de mais no
coroção. Estes excessos dele me mataram... e me motam!"
Apesar de se confessar à sua amada, Carlos está ciente do desconhecimento feminino sobre tais assun-
tos täo inflamados, o que não deixa de ser'ùma visäo pejorativa da capacidade de compreensão do sexo
feminino:"4 mulher não pode nem deve compreender o homem.Triste da que chega o sabê-lo!...". No entanto,
não quer deixar de contar a sua verdad e à "menina dos olhos verdes", porque é uma forma de olhar para o
seu interior, do qual, curiosamente, sai desculpado, senão justificado a seus olhos:
"Q,Jero contar-te a minha história: verós nela o que vale um homem.
Sabe que os não hó melhores que eu; e tão bons, poucos' OIha o que será o resto!"
No fundo, Carlos faz.,meo culpa por ter agido como agiu, ou seja, ter fugido de casa por não reconhecer
Frei Dinis como seu progenitor e considerar a sua avó cúmplice do crime cometido. Sente-se incapaz de
perdoar, já que sua mãe também morreu sem o ter feito, e deixa a justiça em mãos divinas. O herói român-
tico revela-se a Joaninha e narra-lhe todo o caminho percorrido desde que saiu de Portugal, mesclando
essa história com reflexöes sobre o amor, esse sentimento tão contraditório.
Em lnglaterra, Carlos conheceu uma abastada família, com três filhas, com as quais travou amizade, o
que deu origem a um complexo quadro amoroso, apesar de Laura o cativar de forma especial:

E assim é que os adorava os três anjos, todos três, e não podia adorar um sem os outros.

Que me queriam elas, é certo; que insensivelmente se habituaram à minha companhia e não
podiam viver sem ela... ai! era preciso ser um monstro para o não confessar com lágrimas de grati-
dão e de remorso.

Écurioso observar como, em toda esta exposição da sua alma, Carlos se autodesculpa constantemente,
tentando mostrar que o que fazia com aquelas três meninas obedecia aos códigos sociais britânicos -
flirtation -, distintos dos nossos, com a pesada palavra namorar.

O tom perfeito da sociedade inglesa inventou uma palawa que não há nem pode haver noutras
línguas enquanto a civilização as não apuraÍ. To flirt é um verbo inocente que se conjuga ali entre
os dois sexos, e não significanatnoral - palawa grossa e absurda que eu detesto -, não significq
"fazeÍ a coÍte"; é mais do que estar amável, é menos do que galanteaç não obriga a nada, não tem
consequências, começa-se, acaba-se, interrompe-se, adia-se, continua-se ou descontinua-se à
vontade e sem comprometimento.
Ett flartaua, nós flartâuamos, eles flartøuanx'.,
E não há mais doce nem mais suave entretenimento de espírito do que oflartar com uma ele-
gante e graciosa menina inglesa; com duas éprazet angélico, e com três é divino'
Para quem nasceu naquilo, não é perigoso; para mim degenerou, breve, aquela plácida sensa-
ção em mais profundo sentimento.
128
3 . Almeido corrett, Viogens no M¡nhoTerro

Laura,pintadaemtraçosverdadeiramenteclássicos ("maisgtentil,maisnobre,maiseleganteeradiosafigura
demulher que creio que Deus moldasse numa hora de verdadeiro amor de artista que se dignou tomar por esse
pouco de greda que tinha nas mãos ao formó]o? será, pois, o objeto de afeição do primo de Joaninha. Nos
capítulosseguintet continua a narraçåo dos amores e desamores de Carlos em lnglaterra, com a caracteriza-
çãodeJúlia, "amoisvelha,amaissensíveleamaiscarinhosadastrêsirmãs",quelhedizqueLaurachorouapós
terem estado juntos porgue está comprometida com outro homem e em breve partirá para a fndia. Depois
do corte definitivo com Laura, Carlos começa a visita a outra irmä, Júlia, e, nesse período, apaixona-se pela
terceira irmã, Georgina, relação que é interrompida devido à partida de Carlos para os Açores, onde conhece
soledade, uma freira, que se apaixonou por ele, mas cujo sentimento näo foi recíproco.

Capítulo XLIX
Depois de ter lido a carta e de a entregar a Frei Dinis, o narrador revela ter sido colega de Carlos, que já
não vê þá alguns anos, sendo que o seu pai lhe diz que este está irreconhecível em termos físicos, tendo
engordado bastante, e que se tornou barão. O destino de Joaninha e de Georgina é o das típicas heroínas
românticas: a primeira enlouqueceu e morreu nos braços da avó e da mulher do seu amado, a segunda
criou uma comunidade religiosa católica onde é abadpssa.
chegado o momento de abandonar Santarém, deixando Frei Dinis a rezar e a velha a penar. porém,
É

naquela noite, sonha com estas duas personagens e barões, e com notas a caírem do céu. No dia seguinte,
ao ver pobres à sua porta a pedirem esmola, apenas encontra notas de papel nos seus bolsos.
altura de retornar a Lisboa e de fazer uma reflexão crítica final - a viagem na sua terra foi superior em rela-
É

ção a todas as outras que realizou e não irá andar nos caminhos de ferro dos baröes, símbolo do materialismo:

Assim terminou a nossa viagem a santarém: e assim termina este livro.


Tenho visto alSuma coisa do mundq e apontado alguma coisa do que vi. De todas quantas via-
gens porém fi2, as que mais me interessaram sempre foram as viagens na minha terra.
Se assim o pensares, leitor benévolo, quem sabe? pode ,", qrr" eu tome outra vez o bordão de
romeiro, e vá peregrinando por esse Portugal fora, em busca de histórias para te contar.
Nos caminhos de ferro dos barões é que eu juro não andar.

2. Estiuturaçäo da obra: viagem e novela


I
9
A dificuldade em classificar Viagens na MinhaTerra é inegável devido à ligação entre dois planos
{.
- o da via-
gem (física, reflexiva, crítica) e o da novela sentimental apesar da mestria do autor em urdir os diferentes nÍveis.
Ê
c -,
Assim, tal como acontece em A llustre Casa de Ramires,também na obra garrettiana em análise é possí-
2
t vel identificar diferentes níveis narrativos, como se passa a mostrar:

129
CPEN.PI I-9
Cop¡tulo lll . Educoçõo Lilerório

Assim, o primeiro nível diegético é o da viagem física, que tem início no dia" 17 deste mës deiulho, ano daQ
graça de 1843, uma segunda-feira, dio sem nota e de boa estreia", e da qual o narrador-viajante-autor dará as I
suas impressões, tendo a duração aproximada de uma semana (de segunda a sábado), com outros compa- i
nheiros de jornada. ã

Nessa viagem real pelo país real, o capítulo X deve ser analisado com cuidado especial, já que a casa
avistada no Vale de Santarém desperta a curiosidade do viajante, que deixará de ser o narrador para passar
a ouvir a história narrada por um desses companheiros de viagem.
É desta forma que se dá início à trágica novela sentimental da "menina dos rouxinóis".

3. Personagens românt¡cas (narrador, Carlos e Joaninha)


A conceção das personagens é fundamental no Romantismo, sendo estas regidas por tensóes constan-
tes: ora aspiram ao absoluto, mas são submetidas às convençöes; ora aspiram ao ideal, mas encontram o
desencanto; ora aspiram à felicidade amorosa, mas encontram a frustraçäo.
Pese embora a sua individualidade, as personagens Carlos e Joaninha deverão ser analisadas com base
na sua relaçäo interpessoal, já que os seus trajetos são marcados pela presença dos valores românticos e o
desfecho trágico deriva da dimensäo psicológica de ambas. Mas comecemos pelo narrador-viajante da
viagem e narratário da novela.

Narrador
O narrador-viajante não só faz a reportagem da viagem física, como denuncia os males sociais, reve-
lando o seu cunho pedagógico. Apesar da tentação, convém não confundir este narrador com o próprio
autor, não obstante todos os indicadores que apontam para tal, como o facto de o próprio Garrett ter feito,
realmente, a viagem até Santarém, porque tal seria redutor e levaria a uma leitura da narrativa como relato
verídico.
No entanto, não é menos verdade que este mesmo narrador gosta de, nos seus apartes, estabelecer liga-
çöes com a vida do autor, como acontece no capítulo Xl, no qual se alude à crise afetiva e moral por que
Garrett passava, após a morte, em 1841, de Adelaide Pastor Deville, vítima de tuberculose. Aos 22 anos, näo
só deixa órfã como ilegítima uma bebé com poucos meses de vida, o que leva Garrett a um sofrimento
atroz, hiperbolizado pelo conflito interior que vivia por ter conhecido a sensualidade na forma da Viscon-
dessa da Luz, Rosa de Montufar, que o colocava num dilema por sentir estar a trair o amor puro que o unira
a Adelaide. A esta paixão parece aludir-se na seguinte passagem:
posto que hoje, faz hoje um mê1 em tal dia como hoje, dia paro sempre assinalado na minha vida, me
"E

aparecesse umo visão, uma visão celeste que me surpreendeu a almo por um modo novo e estranho':
Este narrador do nível diegético principal, culto e cosmopolita, estabelece uma estrutura dialogal com o
leitor, num registo coloquial, familiar até, antecipando gostos e reaçöes, nomeadamente quando se refere
às leituras em voga na época, em 1843, comoVictor Hugo e o seu Nofre-Dame de Parls, Goethe e o seu Dou-
tor Fausto, ou Eugène Sue e os seus Mistérios de Paris. Mas este narrador tem como objetivo fazer da obra
um instrumento de ação sobre as mentalidades do seu tempo, como se pode ver na descrição do pinhal da
Azambuja.
O escritor, viajante e crítico, visitou Santarém, origem da Pátria e símbolo do Portugal primordial, compa-
deceu-se com a morte de um anjo da Pátria (Joaninha), mas regressou feliz da sua viagem, assim como nas
epopeias. Tal como Ulisses teve a sua viagem, esta foi a sua 'bdisseia".

Carlos
O protagonista, como personagem complexa que é, deve ser entendido de forma simbólica, pois o seu
130 percurso existencial é, igualmente, o percurso político da revolução liberal, desde o seu início idealista, em
3 .Almeido Gorretl. Viogens no M¡nho Terro

1820, até ao progresso capitalista e burguês


do regime cabralista. Até em termos físicos tal percurso é evi-
dente, porque Carlos engordou, enriqueceu, e tornou-se barão, deixando bem para trás os ideais liberais
que o tinham movido na juventude. Convém relembrar a analepse na novela, na qual somos levados até
i820, altura em que o primo de Joaninha, recém-formado em Direito por Coimbra, rompe com a família e
emigra para lnglaterra e para aTerceíra, para se juntar aos liberais.
Atentemos, então, no retrato que de Carlos é desenhado e que valoriza o aspeto físico, apesar de este
indiciar, igualmente, o aspeto psicológico.

Retrato Físico Retrato Psicológico


. Tem 30 anos, aproximadamente "moço, talvez nao tinha . Franco e leal;
tr¡nta anos", apesar das marcas do esforço gravadas no . Generoso e fácil no perdão, mas também na ira;
rosto;
. Temperamental;
. Apresenta uma estatura mediana num:
. Duvidoso; incerto;
- "corpo delgado, mas o peito largo e forte",
. Vaidoso;
- "porte gentil e decidido de homem de guerra";
. Mentiroso;
- "rosto, mais pólido que trigueiro, parecia comprido pela
. Sentimental; poeta;
barba preta e longa que traz¡a ao uso do tempo";
. Descrente;
- "cobelq [. ..) preto; a testa alta e desafogada";
. Acomodado; barão;
- "fisionomia 1...1 dura", embora amenizada em
momentos de animação; . Carácter introvertido e difícil de entender.

- "busto clóssico e verdadeiramente moldado pelos tipos


da arte ontiga'

. Apresenta "olhos pardos e nao muito grondes" . Sagacidade e intrepidez de espírito reveladas nos
olhos, "de uma luz e viveza imensa", que denunclavam o
talento, a mobilidade do espírito - talvez a irreflexâo.

. 'A boca, pequena.. ." . ".. . e desdenhosa, nao indicava contudo soberba, e muito
menos vaidade, mas sorria na consciência de uma
superioridade inquestionável e nao disputada."

. "Quando calado e sério, aquela fisionomia podia-se dizer dura; o mais pequena animação, o mais leve sorriso a fozio
alegre e prazenteira, porque a mobìlidade e a gravidade eram os dois polos desse carácter pouco vulgar e dificilmente
bem entendido."

Após a análise do quadro acima exposto, näo será difícil de perceber a dificuldade que existe em distin-
guir rigidamente os traços físicos dos psicológicos, pois os primeiros såo indiciadores, não raras vezes, dos
segundos, como convém na apresentaçäo do retrato do típico herói romântico.
De realçaç igualmente, a importância conferida aos olhos (evidente, também, no retrato de Joaninha),
enquanto lugar de manifestação das emoções, que em Carlos projetam a vivacidade da sua inteligência e a
inconstância do seu espírito. Também a boca e o rosto são pontos referenciais do carácter tip¡camente ro-
mântico do herói, com as suas contradiçöes viscerais, o que explica, em parte, o seu trajeto existencial, mar-
cado pelo mobilismo constante, pela instabilidade em se fixar num local e que é, no fundo, a expressão de
uma instabilidade psicológica. Carlos parte do Vale de Santarém para o exílio, regressando, posteriormente,
a este mesmo Vale para partir definitivamente.
A instabilidade verifica-se, também, a outros níveis, nomeadamente na divisão entre a causa social e a
causa amorosa, marcadas ambas pelo falhanço: depoís de um amor proibido com Laura, do afeto sentido
pela sua irmã Júlia e do despertar para a beleza da terceira irmã, Georgina, que resulta numa relação fa-
-
e

f lhada, na llha Terceira, encanta a freira Soledade. Por isso, após o seu derradei ro desaire com Joaninha, Car-
; los acaba o seu percurso narrativo devidamente instalado na sociedade como barão, numa posição que já
4 tinha sido amplamente satirizada pelo narrador (cf. Cap. Xlll). Carlos é o protótipo do homem natural conta-
ö minado pela doença social, depois de ter abandonado o Éden. 131
CopÍtulo lll ' Educoçõo Lilerório

Narrador intradiegético ao nível do relato da novela (cap. XXIV), isto é, uma personagem que narra uma v
história da qual faz parte, Carlos é o típico herói romântico, feito de contradiçöes, incapaz de fazer uma es- o
F
colha, o que irá determinar o trajeto existencial de duas outras personagens femininas. No entanto, o narra-
*
dor-viajante revela uma certa compreensäo por esta personagem' õ

Existe, em Carlos, a tensão querer/fazer, como se um abismo se interpusesse entre aquilo que sabe que
tem de fazer e aquilo que realmente é feito, como se a realidade fosse sempre uma mentira face às ambi-
çöes, às expectativas. A descrença de Carlos tem ramificações díversas, porque tanto descrê de um amor
verdadeiro como descrê da revolução, enquanto ele próprio se prepara para abraçar um cargo honorável
no novo mundo liberal.
A carta final que o heróí romântico redige é bem exemplificativa da sua descrença moral:
"Eu do feticidade doméstica l. ..1 Mas nao o quis a m¡nha
sim tinha nosc¡do paro gozor as doçuras da paz e

estrela. Embriagou-se de poesia a minha imaginaçao e perdeu-se".


A morte por uma bala que deseja e não chegou acaba por dar lugar ao ceticismo, que passa a nortear a
sua existência, numa morte ainda em vida.
Em suma, Carlos é fonte de contradições: deixa-se amar sem amar verdadeiramente aquelas por quem
se vai apaixonando, como é o caso da freira, e acaba por renunciar ao amor porque o seu fado é este, daí
abraçar a política. Neste sentido, acaba por permitir estebelecer uma conexão com a própria vida de Garrett
- um defensor do Liberalismo que acaba por se tornar visconde.

Joaninha
Retratada de forma harmoniosa, Joaninha é a menina pura, despojada de qualquer artifício social e que
vive em comunhão com a Natureza. Ao contrário de Carlos, tem uma existência pautada pela estabilidade,
que advém, em parte, do facto de permanecer fiel à pureza original do Vale de Santarém. Aliás, é impossível
analisar o carácter desta personagem sem a ligarmos ao simbolismo do espaço físico, ou seja, em Joaninha,
criança órfã, encontramos a simplicidade, a pureza, a harmonia de um espaço edénico ainda não mitigado
pelos males sociais.
A elaboração do seu retrato segue as mesmas linhas do de Carlos, já que também se parte do elemento
físico para o psicológico, apesar de ser difícil destrinçá-los.

Retrato Fís¡co Retrato Psicológico


. Jovem menina de 16 anos; . Serena;
. Não era bela, "mas ero o tipo de gentileza, o ideal da espiritualidade l. ' .) uma admiróvel . Pura;
simetria de proporções"- ideia de harmonia; . Espiritual;
. Pele branca; . Feliz;
. Rosto sereno, no qual pontuam um nariz aquilino e uma boca pequena e delgada; . Mulher-anjo.
. Cabelos e sobrancelhas quase pretos ("Em perfeita harmonia de cor, de forma e de tom
com a fina singeleza destas feições');
. Olhos verdes-verdes;
. Uma perna admirável, na qual sobressai um pé breve e estreito;

. Beleza tipicamente portuguesa: "nõo era o garbo teso e aprumodo da perpendicular miss
inglesa".

Notamos o mesmo carácter excecional reconhecído a Carlos, ainda que esta excecionalidade esteja li-
gada à comunhão com a Natureza, da qual o rouxinol é o prolongamento metonímico, com o seu canto
pressagiador de morte - tal como acontece com Joaninha, cujo destino será trágico.
É curioso que o narrador, no processo de caracterizaçäo, desenhe o retrato de Joaninha através da
estrutura negativa, a fim de mostrar que toda ela é harmoniosa precisamente porque livre das conven-
personagem assenta no sentimento e näo na
çöes sociais que estereotipam a mulher. Aliás, o retrato da
132 razão, como se comprova pela forma espontânea como profere a palavra "Qmo-te"; na pureza e na
3 . Almeido Gorrell, V¡ogens no Minho Terrc

originalidade até dos seus olhos verdes. E é precisamente no "lustro baço e morto" dos olhos de Joaninha
que pressentimos o seu fim.

3.1. As outras personagens e o seu s¡mbolismo

Georgina

' Sendo uma bela mulher, de cabelos louros e de rosto oval, perfeito e clássico, a mulher de Carlos é a
típica mulher inglesa, de olhos azuis.

. Pa¡a além de culta, é franca e abnegada, na forma como liberta Carlos, apesar de ainda o amar.

' Sendo o protótipo da mulher civilizada, bondosa e moralmente superior, decide enfrentar o destino
abraçando a vida religiosa, abrindo um convento católíco e tornando-se madre superiora.

D. Francisca

' Protót¡po da vítima do Destino, a avó de Carlos e de Joaninha é uma velhinha cega e martirizada por
um segredo que esconde, vivendo de forma mecanizada enquanto aguarda pacientemente pelo re-
gresso do neto.

FreiDinis

' Enquanto Dinis de Ataíde, é um magistrado influente, representante da vida mundana e de tudo aquilo
que Garrett menospreza. Ao encarnar o papel do destino atroz, acaba por ser o destruidor da família
do Vale, sendo, pois, o protótipo do mal.

' Enquanto Frei Dinis, há uma mudança acentuada até em termos físicos, visto que é caracterizado como
pálido, com uma cor desmaiada, austero, rígido e inflexível, sendo, por isso, o protótipo do espiritua-
lísta.

4. Deambulaçäo geográfica e sent¡mento nacional

Ler Viagens é ler uma obra fortemente enraizada num sentimento nacionalista típico do movimento
romântico, uma história marcada por um tempo e por um espaço da nossa História. As abundantes
referências espaciais marcam o ritmo da escrita e justificam a promessa inicial: "de quanto vir e ouvir, de
quanto eu pensar e sentir se há defazercrónica".De facto, a constante errância do narradore a movimentação
por diferentes espaços nunca é apenas uma mera visita, mas sim o início de uma reflexão mais ou menos
alargada, como podemos comprovar logo no capítulo inicial, em que a observação da Lisboa oriental vista
doTejo conduz à reflexão sobre um tema caro aos românticos, isto é, o da superioridade estética do gosto
popular face ao gosto burguês.
O sentímento patriótico e a vontade de reavivar a chama adormecida são traços bem evidentes nos
autores da primeira geração romântica, por isso, Garrett, no decurso das suas viagens, não perde a
oportun,idade para, a partir da observação de um monumento, agora decrépito, fazer uma crítica mordaz à
descaracterização arquitetónica, como se pode ler no capítulo XXV|ll, quando o viajante observa a igreja de
iSanta Maria de Alcáçova reduzida a "mesquinha e ridícula massa de alvenaria, sem nenhuma orqu¡teturo,
Ssem nenhum gosto!".
i O binómio Passado grandioso vs. Presente disfórico é, igualmente, outra marca do forte sentimento
É nacionalista. 133
Copitulo lll . Educoçôo Lilerório

5. A representação da Natureza
ô
A Natureza ocupa um lugar de destaque no Romantismo enquanto projeção do mundo interior do "eu" z
enunciador.Tal como vimos anteriormente, os cenários bucólicos e aprazíveis do Classicismo são substituÊ o
dos pelos cenários soturnos e violentos do Romantismo. No entanto, é importante perceber que, em Vlo- :
F

gens, o autor advoga uma libertação das normas rígidas das escolas literárias, pelo que é possível encontrar ã
descriçöes quer românticas, quer clássicas. Ora vejamos:

. no capítuloVlll, a descrição da charneca constitui um dos exemplos mais paradigmáticos da paisagem


romântica, enquanto reflexo do estado de alma. Para além deste, outros tópicos estão presentes, como
o amor pela pátria; a atração pelo agreste, pelo selvagem, pelo puro e o gosto pela solidão.

. no capítulo X, a descrição do Vale de Santarém retoma o tópico da paisagem romântica, ru.


".boru
cada pelo toque clássico do /ocus amoenLts, enquanto espaço da narrativa que se inicia.

. no capítulo XLIV dá-se a descrição de natureza romântica de lnglaterra.

Numa outra perspetiva, não é possível analisar o espaço físico sem entendermos a profunda conexão
que entre este e as personagens existe, nomeadamente a descrição do Vale de Santarém, que serve de car-
tão de apresentação de Joaninha, enquanto menina pura e impoluta, tal como o espaço no qual se insere:

O Vale de Santarém é um destes lugares privilegiados pela natureza, sítios amenos e deleitosos
em que as plantas,.,o ar, a situação, tudo está numa harmonia suavíssima e perfeita: não há ali nada
grandioso nem sublime, mas há uma como simetria de cores, de sons, de disposição em tudo quanto
se vê e se sente, que não parece senão que a paz, a saúde, o sossego do espírito e o repouso do cora-

ção devemviver ali, reinar ali um reinado de amor e benevolência. As paixões más, os pensamentos
mesquinhos, os pesares e as vilezas da vida não podem senão fugir para longe. Imagina-se por aqui
o Éden que o primeiro homem habitou com a sua inocência e com a virgindade do seu coração.

Tal como encontramos na obra de grandes autores posteriores, como Cesário Verde ou Miguel Torga, o
espaço telúrico é fonte privilegiada de energia e de renovação, numa clara referência ao Mito de Anteu. -
"Cheguei por fim ao nosso vele, todo o passado me esqueceu assim que te vil...l que em t¡ habita:

6. A dimensäo reflexiva e crítica

Garrett aprecia a ideia de Maistre de viajar em torno do seu quarto, contudo, o seu espírito inquieto e
crítico levá-lo-á numa viagem física, por caminhos sinuosos, provando, curiosamente, que, afinal, tanto Gar-
rett como Maistre, embora por métodos diferentes, chegam à mesma conclusão - o mais importante numa
viagem não é o destino, mas sim o viajante. E este narrador-viajante dá muita atenção ao ambiente que o
rodeia e não deixa de tornar visível o seu lado morigerador.
Assim, o teor crítico da obra, ao qual Carlos Reis chama de digressivos, dissemina-se por vários capítulos,
sendo que se opta por apresentar este aspeto em termos temáticos. Nestes, será compreensível a clara in-
tenção pedagógica desta obra, daíque o contínuo narrativo seja interrompido para veicular uma determi-
nada ideologia que vai muito para além da mera representação dos factos.

6.1. Sociedade
Qualquer um dos temas abordados nasViagens acaba por ser uma crítica a uma sociedade contaminada
pelo que é estrangeiro, a uma sociedade que perdeu o seu fulgor, que está entristecida e que lembra a

134 5 REIS, Carlos e LOPES, Ana Cristina, Dicionário de Nonatologia, T." ed., Coimbra: Almedina, 2002.
3 . Almeido Gonell, V¡ogens no M¡nho Terra

célebre frase queirosiana da "estótua triste de Camões". Aliás, o panegírico ao "príncipe dos poetas,,é bem
evidqnte na obra garrettiana - já em Frei Luís de sousa é enaltecido esse cantor da pátria -, sendo que este
narrador-viajante, que lê o Canto lV d'os Lusíadas e que se entristece por não ver
o seu sonho de que ?or-
tugol era outra vez Portugal" e que reflete sobre o seu país, pretende, igualmente, que
o leitor das suas Via-
gens seja também alguém reflexivo, alguém que vá para
além das linhas da excursão física.
Nestas reflexöes, é difícil distinguir a preocupação do narrador da
do autor, daí que se deva entender a
posição de Garrett enquanto figura política. Desta forma,
as críticas incidem sobre:

' a oposição povo/sociedade (cap. l), em que o prímeiro


é claramente valorizado pela sua autenticidade,
genuinidade e vitalidade, enquanto o segundo elemento é visto como
"escLtma descorada,, numa
clara alusão à artificialidade citadina. Este confronto simbólíco tem lugar partir
a de um episódio de
valor etnográfico, em que os de flhavo e os Bordas-d Agua são submetidos ao olhar
atento do narrador,
sempre em busca do pitoresco e do genuíno.

'a degradação do património arquitetónico (cap. XXVlll), no momento em que encontra


a igreja de
Santa Maria de Alcáçova reduzida a "mesquinha e ridícula massa de alvenario,
sem nenhuma orqu¡te-
tura, sem nenhum gosto". Esta tr¡ste visão exaspera o narrador, que critica a descaracte
rizaçãoarquite-
tónica, metáfora da perda da identidade nacional e prova viva da degradação da autenticidade
de que
a ldade Média se revestia para os românticos.

' a,oposição Passado eufórico vs. Presente dísfórico, num local visto como sagrado
- 5antarém -, asso-
ciado não só à política, como também ao espaço de reconciliação do 'eu" com
a sociedade. Santarém
é, afinal, o espaço físico onde se espelha a doença portuguesa
- à grandeza do passado opöe-se a
ruína do presente.

' a perda da memória nacional, sendo de relembrar a grande epopeia


lusitana, para que seja possível a re-
cuperação dessa vontade de ir mais além (cap. XXVI). o texto camoniano deve
ser entendido enquanto
metáfora antitét¡ca de um presente vil e negro, em que a ânsia por part¡r para
mares "nunca dantes nave-
gados" foi substituída pelo imobilismo, pela inércia, pela simples
salva ao ministro da Marinha.

' a reação do público a uma peça de teatro (cap.xxxvlll), em que há um desinteresse perante grande
parte do drama, surgindo os aplausos apenas num momento
de grande tensão;

' a oposição ldealismo/Materialismo (cap. ll e Xlll), decorrente da


crise política nacional. Neste ponto,
será feita uma abordagem mais incisiva, visto que esta dialética percorre
várias páginas da obra.

o movimento romântico claramente defendeu o ideal, enquanto absoluto e infínito, em detrimento


do
material, ligado ao concreto e às convençöes sociais. Em Viagens,Garrett,
aludindo ao filósofo Hegel, projeta
alegoricamente essa dialética nas personagens de D. Quixote e Sancho Pança,
sendo o primeiro a projeção do
sonho, da evasão, e o segundo a projeção da realidade prosaíca. ora portugal
o pós-guerra civil é um país que
se debate entre frades e baröes, como podemos ver no capítulo Xlll,
no qual o narrador mostra todo o seu
anticler¡cal¡sm o ("Frades... frades... Eu nao gosto de frades'), revelando, paradoxalmente,
que lhe agradavd a
dimensão artística que lhes reconhecia, no sent¡do de serem inspiradores na
criação literária, e de se oporem
aos hábitos burgueses, no fundo, fazendo uma conexão 'hté certo ponto"
como idealismo quixotesco.
Nessa oposição frade vs. barão é o segundo que é criticado, sendo
comparável a Sancho pança, ,,menos
no graça", pois minou todos os ideais de lgualdade, Fraternidade
e Liberdade. Desta forma, ao enfrentar Frei
Dinis, carlos está claramente a confrontar-se com o Antigo Regime, impondo
as normas liberais, apesar de,
mais tarde, ser esse mesmo Carlos que, rendido aos prazeres mundanos,
representa o materialismo, quando
se tornå barão, como bem observou Hélder Macedo: "Cada um deles Frei Dinis e Carlos
- - representa
D' Quixote e Sancho Pança em fases diferentes das suos vidas, Frei Dinis, que
começou por ser,materialista,
porque presa das paixões, espiritualizou-se através do remorso no frade
I austero em que veio a tornar-se; Car-
2 los, após ter lutado pelos ideais do liberalismo,
corrompeu-se e cedeu ò matéria ao tornar-se barão.,Ã
z
6 MAcEDo,Hélder,?sViagensnaMinhaTerraeaMeninadosRouxinóis'i inColóquio/Letras,Lisboa,n..51,i979,p.
18. 135
Copitulo lll 'Educoçöo L¡lerór¡o

Mais uma vez, é possível entender esta crítica analisando a biografia de Garrett, que, desde tenra idade, S
lutou pela causa liberal, tendo conhecido o exílio inglês e francês. Näo obstante a vitória liberal, em 1834, o I
país ressentiu-se profundamente da guerra civil que agravara os ódios partidários e permitira a ascensäo da $
burguesia, sob o falso liberalismo do regime de Costa Cabral. Esta promoçäo dos oportunistas , os "barões",f,
"usuroriamente revolucionórios, e revolucionariamente usurórios",leva Garrett a tomar uma atitude crítica e
interventiva.

6.2. Literatura românt¡ca


Como entender a crítica a esta literatura numa obra que se insere no período do Romantismo? A expli-
cação é dada pelo próprio narrador, quando afirma:
"Eu amo a charneca.
E não sou romanesco. Romântico, Deus me livre de o ser - ao menos, o que na algaravia de hoie se entende
por essa palavra." (cap. Vlll).
Ou seja, o narrador critica veementemente esse Romantismo feito de estereótipos, que vulgariza temas
e sentimentos, e que parece anunciar o Ultrarromantismo. Ao fazer isto, não só confirma a ligação do seu
relato a um Romantismo näo contaminado pelas normas, como também manifesta outra característica
deste movimento - a liberdade criativa:"1...1eu nem em princípios nem em fins tenho escola a que esteia
sujeito".
Assim, as principais críticas à literatura são:

. as descriçöes resultantes da imaginação sensível e não da observação do real, como acontece no capí-
tulo lll, quando o narrador tenta descrever a estalagem da Azambuja sem cair nos clichés da época7;

. a denúncia de enredos e personagens importadas, ao invés da observação da realidade circundante, o


que redunda numa literatura vazia, sem qualquer originalidade, para um público acomodado (cap. V);

. a imitação servil e rude, a que o narrador ironicamente se refere como "colagem", näo só dos modelos
estrangeiros, mas também de um certo tom medieval, com a importância dada à cor local, o que tqm
um resultado artificial (cap.V);
. a rejeição pessoal de qualquer identificação com um Romantismo deturpado (cap.Vlll).

6.3. Natureza vs. Sociedade


A representação da Natureza ocupa lugar de destaque no Romantismo, sendo que Viagens näo é exce-
projeção de um certo estado de
çäo. No entanto, para além dessa visão da Natureza enquanto espaço de
alma, importa ver nesta obra de Garrett a dimensão simbólica da mesma, na medida em que, ao represen-
tar a Natureza no seu estado mais puro e ao ligá-la a certas personagens, também elas puras e impolutas, o
autor está, de forma clara, a privilegiar este espaço em detrimento do espaço agrilhoante que é a sociedade'
Assim, e ainda na linha do que foi dito sobre a dualidade ldealismo/Materialismo, a Natureza é associada
ao espaço original e espontâneo, distinguindo-se, por isso, da Sociedade, ligada aos interesses materiais e
às convençöes que impedem a liberdade individual:

. no capítulo lll, refere-se a primazia do progresso que destrói qualquer hipótese de o homem ser
visto como algo mais do que um número:"[...] cada homem rico, abastado, cLtsto centos de infelizes,
de miseráveis";

. no capítulo XXIV a crítica assume contornos mordazes, quando se aborda a problemática ideológica
da reconversão do Homem pela sociedade -"Formou Deus o homem, e o pôs num paraíso de delícias;
tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs num inferno de tolices". A sociedade corrompe o homem primi-
tivo e torna-o num ser perverso, enfim, num homem social.

136 7 AobradeE.Sue,MystèresdeParis,faziaasdelíciasdopoucoexigenteleitordaépoca,repetindofórmulasepersonagens.
3 . Almeìdo Gorreil,Vìogens no M¡nhoTe'fa

7. Linguagem e estilo

7.1. Coloquialidade e digressão


Pode dizer-se, grosso modo, que se escreve de outra forma depois de Garrett. De facto, o autor por-
tuense desfaz o tom literário e faz ascender à literatura a linguagem coloquial, até aí arredada dos textos
consagrados' Jacinto do Prado Coelho afírmou mesmo que "o moderno, na prosa literória, foi, sem dúvida,
uma criaçao de Garret( e que "essd espécie de milagre" se produziu em Viagens na Minha Terra.
Garrett, embora educado sob os princípios da cultura clássica pelo seu tio e grande admirador de Horá-
cio e de Camões, afasta-se, contudo, da sintaxe latinizantg mais rígida, e busca exprimir harmoniosamente
o fluir dq pensamento através de uma linguagem mais coloquial, mais espontânea, sem deixar de ser lírica.
5e a influência arcádia é inegável na sua formação, näo é possível desconsiderar, no entanto, um marcado
gosto teatral e a influência das histórias populares da sua infância, pois, desde cedo, ganhou o gosto pelo
popular, reconhecendo no povo a poesia da autenticidade.
A linguagem coloquial está bem evidente em momentos-chave do texto, nomeadamente na narração da
contenda dos dois grupos, no Prólogo; na referência ao desencanto da Literatura ou no recurso a provérbios.
Garrett faz questão de que o leitor se aproxime das personagens, se aperceba dos seus dilemas interio-
compadeça dos seus dramas sentimentais irrefletidos, como no capítulo Vlll. Aliás, o próprio assume
res, se
não conseguir escrever de outro modo que não este, próximo do"stream of consciousness'ijá referido:"/sfo
pensova,'isto escrevo; isto t¡nha na alma, isto vai no papel: que doutro modo não sei escrever." (cap. XXIX). Ci-
tando Jacinto do Prado Coelho.(in A Letra e o Leitor),é possível falar da"musicalidade expressiva duma prosa
que¡ em certos casos, bem merece o nome de lírico", a propósito do trecho no capítulo XXX|l. O já analisado
capítulo ljustifica o estilo digressivo da obra e a aparente desorganização, dando ao leitor a impressão de
assistir ao fluir do pensamento do narrador: "Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e
ouvir, de quanto eu pensar e sentir se hó de fazer crónica.".
Há, pois, em Viagens, uma dellberada coloquialidade trabalhada, que surgira, ainda que de forma inci-
píente, em trabalhos anteriores, como é o caso do Prefócio a João Mínimo (1828). Aqui, assiste-se a um notá-
vel trabalho estilístico-linguístico de um autor que faz dos seus devaneios matéria-prima de primeira ordem:
"Sou suieito a estas distrações, a este sonhar acordado. Que lhe hei de eu fazer? Andondo, escrevendo, sonho e
ondo, sonho e falo, sonho e escrevo." (cap. lV).

7.2. Dimensão irónica


No capítulo V, a ironia está em destaque quando o narrador dá a receita de como fazer literatura român-
tica. Quer os empréstimos, quer a adjetivação são recursos linguísticos ao serviço da veia irónica do autor e
que proporcionam uma atmosfera humorística:

' Agora talvez nem repetidosavances lhe façam obter um namorante de profissão e ofício"(cap. lV) ou
"Eu que os traz¡a pronfos e recortados para os colocar oquitodos os amóveis salteadores de Schiller, e os
elegantes facinorosos do Auberge-des-Adrets, eu hei de perder os meus chefes de obro!".

' "o vinho era otro/' (cap.lll);"o pescoço entalado na inflexível gravota, os pés pegando-se-lhe" (cap.lX); "É
o desapontamento mais chapado e solene que nunca t¡ve na minha vida" (cap,V);"tom magoado e me-
lancolicamente chocho" (cap. lX); "uma leal goela britânica" (cap.Vll);"uma substancial e bem-apes-
soada traquitana de cortinas" (cap.ll);"o autor dos Lusíada sviu-se entalado" (cap,vl).

É, ainda, de realçar o valor dos diminutivos, também eles produtores de fina ironia textua l:"eue caro que

fez o marquês a um finadinho que lhe foi meter o nariz nes cartas!" (cap. Vl); "Qu e se inspirasse Shakespeare
com Laffitte, [. . .] e veríamos os acídulos versinhos, os destemperados racìocininhos que foziam." (cap.Vll);" Há
0
umas certos boquinhas gravezinhas e espremidinhas pela doutorice, que sao o mais aborrecidinha coisa e a
2
o mais pequinha que Deus permite fazer às suos criaturas fêmeas." (cap.Xll). 137
CopÍlulo lll ' Educoçõo L¡terório

7.3. Recursos express¡vos: a comparaçäo, a enumeração, a interrogação retórica,


a metáfora, a metonímia, a personificaçåo e a sinédoque
Vejam-se, agora, alguns dos aspetos linguístico-poéticos em que se manifesta essa modernidade da
prosa garrett¡ana.

. A comporoçõo

EmViagens, a originalidade das comparaçöes é evidente, como podemos ver no capítulo l:"Da Fundição ô
z
para baixo tudo prosaico e burguês, chato, vulgar e sensabor como um período do Dedução Cronológic4
é
o
oqui e ali ossoprado numa tentativa ao grandioso do mau gosto, como alguma oitava menos rasteiro do F
Oriente. [...] Assim o povo, que tem sempre melhor gosto e mais puro do que esso escuma descorado que
¡
anda ao de cima das populações...". A crítica torna-se evidente com o recurso à comparação do cenário com
o documento governativo da época pombalina que estipula o poder da monarquia.

Também na descrição de Joaninha -"E não era o garbo teso e aprumado 1...1 mas flexível e ondulante
como a hástia jovem da árvore [...]"(cap.Xll) - se pode observar a expressividade da comparação ao serviço
da descrição tlpicamente portuguesa da jovem.

. A enumeroçöo
. Este recurso está presente em:

- séries de adjetivos que contribuem para a visão unificadora do retrato das personagens:'A franca e
ingénua dign¡dadà de Joaninha, o er grave, a melancolio serene e bondosa da velha" (cap.XlX);"aquela
suave e angélica figura" (cap. XIX); "a inocente e graciosa criança" (cap. XXll).

-séries anafóricas e paralelismos frásicos na observaçäo romântica da janela em Santarém:"Eouvir


cantor os rouxinóis!... Ever raiar uma alvorada de maio!... (cap. X).

. A intenogoçöo retórico

As excursões do narrador levam, não raras vezes, a que seja necessário retomar o
fio lógico entretanto
perdido, surgindo, pois, a indagação "Onde ia eu|", uma forma igualmente inovadora de convocar o leitor
para o processo narrativo.
No capítulo Xlll, está presente quando capta a atenção do leitor e incita à reflexão a propósito da crítica
aos interesses económicos do governo cabralista.

. A metóforo

"O frade era, até certo ponto, o D. Quixote da sociedade velha", Através desta metáfora; Garrett refere-se
ao espiritualismo desta ordem, estabelecendo uma analogia entre os frades e a figura idealista da obra de
Cervantes, a combater moinhos de ventos. Na sociedade atual, o frade tinha sido substituído pelo materia-
lismo do barão.

. A metonímio

Este recurso expressivo consiste na designação de uma entidade através de um termo referente a outra
entidade que com ela estabelece uma relação de contiguidade semântica (e não de semelhança como
acontece com a metáfora) resultando em relaçöes de substituição entre a causa pelo efeitq o concreto pelo
abstrato, o autor pela obra, o conteúdo pelo continente.
Em "e o Vouga tiunfou doTejo",a metonímia está presente no sentido em que os flhavos
são tomados
peloVouga e os Campinos peloTejo, acentuando, igualmente, o gosto pelo nacional, pelos seus usos e cos-
tumes, evidente na referência a espaços físicos objetivos.Também a destruição do Þ¡nhal da Azambuja fun-
ciona como metonímia da destruição do país.
138 No capítulo X, o espaço é coincidente com a figura de Joaninha - simples, harmoniosa, pura e original.
Sintese de conleúdos

'. A personificoçöo
Este recurso está presente, por exemplo, na referência à morosidade do barco em que o narrador vai
viajar até santarém - "É um barco sérioe sisudo que se não mete nessas andanças'!

. A sinédoque

Baseando-se numa relação de compreensão em que se designa o todo pela parte ou a parte pelo todo,
este recurso está evidente em diferentes momentos da obra, nomeadamente na caracterização das perso-
nagens, já que Carlos é uma personagem individual que representa toda uma classe de idealistas que se
acomodaram e que se tornaram nos baröes que tanto criticavam.
Também a viagem pela sua terra é uma viagem pelo passado conservado na memória dos monumen-
tos, sendo que a reflexão acerca das realidades do mundo concreto regional é alargada, por sinédoque, às
realidades na sua dimensão geral.

Para além dos recursos enumerados, podemos ainda elencar:

. neolog¡smos: palavras novas, que criam uma atmosfera moderna e cosmopolita, como esquissa, re-
gata, macadame, anglizada, gritante, leìgarraz,'anacronizar, flartar;

. empréstimos: palavras que caracterizam ambientes cosmopolitas, quer franceses, quer ingleses, con-
ferindo cor local e servindo a intenção irónica do autor, como despontar, fashionóvel, tapessado,
élancé, boudoir, parlour, étagère, demi-jour, boulevard;

. termos pitorescos e populares: que conferem um tom coloquial, um registo espontâneq criando,
assim, um efeito de forte verosimilhança e de grande realismo -"que estalagem deve ser esta, hoje, no
ano de 1843, às barbas deVítor Hugo, com o Doutor Fausto a trotar na cobeça da gente, com os Mistérios
de Paris nas mãos de todo o mundo?";

. adjetivaçåo sugestiva: que acentua a subjetividade da descrição em"a jacobina zurrapa de Bordéus"
(caþ. Vll); "o g arbo teso e aprumado da perpendicular miss inglesa" (cap.Xll);

. repetiçåo hiperbólica: que enfatiza a visão pessoal do narrador em "Os olhos de Joaninho 1...1 eram
c
verdes-verdes" (cap. Xll);"Mas ainda espero melhor todovia, porque o povo, o povo povo está são."
2
(cap. XLll).

Síntese de conleúdos

Viagens na
MinhaTerra

139
Copílulo lll . Educoçõo L¡terór¡o

ô
z
o
Pinhal da . ldealização vs. Realidade
ã
AzambuJa . Representação ideológica e metonímica da destruiçåo do país E
T

Vale de . Espaço natural vs. Espaço social


Santarém . Representação romântica da paisagem - tónica colocada na vegetação pletórica, nos aspetos vagos,
no domínio da fantasia
. Representação metonímica da figura de Joaninha - harmonia, simplicidade, originalidadq pureza

Cap. I . Crftica política


. Elogio do popular
Cap.V . Crítica à falta de originalidade da literatura romåntica:
- imitação dos modelos estrangeiros
- falta de verosimilhança
- conceção estereotipada das personagens
- conceção inusitada da intriga
. Reflexão sobre a arte e a história
. Crítica ao governo devido à destruição do Pinhal da Azambuja - metonímia da destruição do pals

Cap. X . Reflexão sobre o espaço físico natural, virgem aos efeitos nocivos do espaço social
. Lfngua portuguesa vs, francesa

Cap. Xlll . ldealismo vs. Materialismo


Ou
Frade vs. Barão
Ou
D. Quixote vs. Sancho Pança

Cap. XLIV . Espaço natural vs. Espaço social


Ou
Ser natural vs. Ser social

Cap. XLIX . Reflexão sobre o contexto histórico-político e crltica à sociedade materialista


. Crftica à importação das matérias-primas estrangeiras, como o ferro (símbolo do capitalismo), e 5

valorização do que é nacional, como a pedra (símbolo da identidade perene de um pals)


. Valorização do sentimento nacional

Narrador . Observador e crítico


. Reflexivo e digressivo
. Coloquial
. Patriótico

Carlos . Dominado pelo sentimento amoroso


. Excecional
. lnconstante e regido por dualidades: verdade/mentira; amor puro/amor carnal
. Volúvel: torna-se barão (morte psicológica)

Joaninha . Dominada pela espontaneidade


. Excecionalmente pura
. Simples, humilde e em consonância com a natureza
. Apaixonada por Carlos, é incapaz de superar a sua indecisão (morte ffsica)
140
ercicios resolvidos

Exercícios-tipo
rcício I
atentamente o excerto retirado do capítulo X,

,O Vale de Santarém é um destes lugares privilegiados pela natureza, sítios amenos e deleitosos em
que as plantas, o ar, a situação, rudo está numa harmonia suavíssima e perfeita: não há ali nada gran-
dioso nem sublime, mas há uma como simetria de cores, de sons, de disposição em tudo quanto se vê
e se sente, que não parece senão que apaz, a saúde, o sossego do espírito e o repouso do coração
s devem viver ali, reinar ali um reinado de amor e benevolência. As paixões más, os pensamentos mes-
quinhos, os pesares e as vilezas da vida não podem senão fugir para longe. Imagina-se por aqui o Éden
que o primeiro homem habitou com a sua inocência e com a virgindade do seu coração. [...]
Para mais realçar abeleza do quadro, vê-se por entre um claro das árvores a janela meio aberta de
uma habitação antiga mas não dilapidada - com certo ar de conforto grosseiro, e carregada na cor
r0 pelo tempo e pelos vendavais do sul a que está exposta. A janela é larga e baixa; parece mais ornada e
também mais antiga que o resto do edifício que todavia mal se vê,..
Interessou-me aquela janela. [..,]
Oarvoredq ajanela, osrotxinóis... àquelahor4 ofimdatarde... quefaltavapara completaro romance?
Um vulto feminino que viesse sentar-se àquele balcão - vestido de branco - oh! branco por força...
rs a frente descaída sobre a mão esquerda, o braço direito pendente, os olhos alçados ao céu... De que

cor os olhos? Não sei, que importa! é amiudar muito de mais a pintura, que deve ser a grandes e largos
traços para ser romântica, vaporosa, desenhar-se no vago da idealidade poética...
- "Os olhos, os olhos..j'- disse eu pensando já alto, e todo no meu êxtase, "os olhos... pretos'i
- "Pois etam verdes!"
20 : "Verdes os olhos... dela, do vulto na janela?"
- "Verdes como duas esmeraldas orientais, transparentes, brilhantes, sem preçoJ'
- "Quê! pois realmente?..,É,gracejo isso, ou realmente há ali uma mulher, bonita, e?..."
- "Ali não há ninguém - ninguém que se nomeie hoje, mas houve... oh! houve um anjo, um anjo
que deve estar no céui'
2s -"Bem dizia eu que aquela janela..."
- "É a janela dos rouxinóis."
- "Que lá estão a cantarj'
- "Estão, esses lá estão ainda como há dez anos - os lnesmos ou outros, mas a menina dos rouxi-
nóisfoi-se e não voltoul'
30 - 'A menina dos rouxinóis! que história é essa? Pois deveras tem uma história aquela janela?"
- "É um romance todo inteiro, todofeito como dizem os Franceses, e conta-se em duas palawas."
- "Vamos a ele. A menina dos rouxinóis, menina com olhos verdes! Deve ser interessantíssimo.
Vamos à história jáJ'
- "Poisvamos. Apeemo-nos e descansemos um bocado."
* Iáse vê que este dirilogo passava entre mim e outro dos nossos companheiros de viagem.
Apeiímo-nos comefeito; sentámo-nos; e eisaqui ahistônadamenirndnsrotninríiscomo ela se contou.
É o primeiro episódio da minha Odisseia: estou com medo de enûar nele porque dizem as damas e os
elegantes da nossa terra que o porn¡guês não é bom para isto, que em francês que "há outro não sei quê..J'
Eu creio que as damas que estão mal informadas, e sei que os elegantes que são uns tolos; mas
æ sernpre tenho meu receio, porque enfim, enfim, deles me rio eu, mas poesia ou romance, música ou
drama de que as mulheres não gostem, é porque não presta.
Ainda assim, belas e amáveis leitoras, entendamo-nost o que eu vou contar não é um romance,
não tem aventuras enredadas,,peripécias, situações e incidentes raros; é uma história simples e sin-
gela, sinceramente contada e sem pretensão.
0
¿s Acabemos aqui o capítulo em forma de prólogo, e a matéria do meu conto para o seguinte.
z GARRETT, Alm eid,a, Viageru na Minhø Terra,Porto: Porto Editora, 2016 (com supressões) 141
I
Responda, de forma clara e bem estruturada, às perguntas que se seguem

1. Este capítulo é crucial no que diz respeito à estruturação da obra.

1.1. Explique esta afirmação à luz do conhecimento global da obra.

Sugestõo de resposto Percurso de resposlo z

Há dois níveis narrativos, ou dois planos, em Viagens: o da viagem física do . ldentifìcação dos dois planos o
a
autor-narrador, realizada em 1843, de Lisboa a Santarém, durante uma semana, e narrativos da obra.
o da novela sentimental da "menino dos rouxinóis". Neste sentido, este capítulo é . Explicação sobre a importância
importante porque nele ocorre o encaixe da novela romântica, isto é, do segundo deste capítulo: início da novela
nível narrativo, na viagem real, primeiro nível narrativo. O narrador irá reproduzir a sentimental.
história trágica que envolve Joaninha e Carlos, e que lhe foi contada por um
companheiro, assumindo este o papel de narrador a partir daqui.

2. À Natureza é dado um papel de destaque neste excerto.

2.1. Mostre de que forma ela é representada pelo narrador,

Sugestöo de resposto Percurso de resposto

A Natureza ocupa um lugar preponderante na literatura romântica, não sendo . Confirmação da importåncia da
esta obra exceção. É neste espaço primordial, puro e inviolável que ainda estão Natureza.
intactos os valores basilares do Homem, o que contrasta com o espaço social, . Explicitaçäo do valor simbólico
corrupto e corruptor. Assim, só a Natureza é capaz de devolver ao ser humano a dado a este espaço: espaço de
sua inocência perdida, o que justifica a descrição valorativa do Vale de Santarém, equilíbrio e de bem-estar.
espaço idílico de harmonia perfeita que acalma os sent¡dos - "nao parece senão
. Referência à influência romântica
que a poz, a saúde, o sossego do espírito e o repouso do coração devem viver
alÌ, reinar ali um reÌnado de amor e benevolência." lll.4-51. Este espaço natural é
visto em moldes românticos, através da simetria, da serenidade, do crepúsculo e
do rouxinol.

3. O excerto é revelador do tom coloquial do narrador.

3.1. Comprove esta afirmação recorrendo a dois exemplos.

Sugestõo de resposto Percurso de resposto

0 modo familiar como o narrador convoca o leitor, concretamente as senhoras . Comprovaçäo do tom coloquial
- "Ainda assÌm, belas e omóveß leitoras, entendamo-nos" - ll.42]l, ou o uso de do narrador (proximidade com o
um tom coloquial - "e sei que os elegantes que são uns tolos" - (i.39) são marcas leitor) através de segmentos
evidentes do estilo garrettiano, que pretende quebrar as regras rígidas do discurso pertinentes.
clássico e instituir um discurso próximo do leitor.

4. ldentifique o recurso expressivo dominante no penúltimo parágrafo, analisando a sua expressividade.

Sugestöo de resposto Percurso de resposto

A enumeração domina este parágrafo, sendo essencial para reforçar a intenção . ldentifìcaçåo da enumeraçåo e
do narrador de não relatar "aventuras enredadas, peripécias, situações e justificação da sua expressividade.
incidentes rqros" (1. 43), mas sim "uma histórÌa simples e singela, sinceramente
contada e sem pretensão"(11.43-441. Há, pois, um afastamento intencional das
importadas fórmulas artificiais e gastas da literatura romântica, e que o narrador já
condenou num outro capítulo,
142
Exercício 2

t. À luz do estudo de Viagens na Minha Terro, prove, num texto expositivo bem estruturado,
entre cento e
trinta e cento e setenta palavras, de que forma se concretiza o sentimento nacional nesta obra garrettiana,
fundamentando-se num exemplo significativo.

Sugestöo de resposto
Percurso de resposto
0 pätriotismo e o gosto pelo nacional são características distintivas do . Confirmação da importância deste
romantismo nacional eViagens não é exceção, já que, ao longo da viagem
tópico nesta obra.
empreendida, várias são os episódios reveladores dessa observação particular do
real.
É possível afirmar, com toda a certeza, que o deambular do narrador pelos . ldentificação de um episódio
diferentes espaços conduziu à reflexão final, no capítulo XLIX, em que se observa sig nificativo (crítica aos caminhos
uma crítica contundente ao materialismo da sociedade burguesa o¡tocentista, de ferros, símbolo do capitalismo)
mais interessada na importação do que na promoção do seu país, através da e análise do mesmo.
referência aos caminhos de ferro.
Neste sentido, há, por parte do narrador, uma tentativa de promover o
progresso nacional a partir da exploração das potencialidades quer
da terra, quer
do povo português, condenando o capitalismo feroz que que devora a sociedade.
5íntese.
Em conclusão, o narrador, ao fazer a apologia da pedra em detrimento do
ferro, permíte ler viagens sob uma perspetiva ideológica de evidente orgulho
nacional.

(149 palavras)

Exercicio 3
l. Segundo Carlos Reis, h novela funciona, de facto, como demonstração de teses enunciadas ao longo das di-
gressões e l' . .l essa demonstraçõo passa sobretudo pela anólise das relaçoes entre as personagens
[. . .] (REIS,
Carlos, lntroduçao ò Leitura de Viagens na Minha Terra, Coimbra: Livraria Almedina, p. 99)

Partindo desta afirmação, analise as relaçöes que Carlos estabelece com Frei Dinis e com Joaninha, num
texto expositivo bem estruturado, entre cento e trinta e cento e setenta palavras.

Sugestöo de resposto Percurso de resposto


carlss, o herói romântico da novela sentimental de viagens no Minha Terra, . Confirmação da afirmação
estabelece, efetivamente, relaçöes dialéticas quer com o representante do Antigo apresentada, e referência aos
Regime, quer com a encarnação da pureza original. traços caracterizadores das
Assim, quanto à primeira relação, é inegável que há um confronto ideológico, personagens.
pois carlos representa o ideal liberal, oposto, evidentemente, ao ideal absolutista,
. Fundamentação das relações
protagonizado numa fase inicial por Frei Dinis. Contudo, convém não esquecer o
antagónicas estabelecidas com
percurso de Carlos, que abandona o idealismo e abraça o materialismo,
Frei Dinis e com Joaninha.
tornando-se barão.
Também na relação amorosa com Joaninha há uma clara incompatibilidade de
valores, o que coloca em questão a dialética Homem social ys, Homem natural.
Enquanto carlos abandonou o vale e ficou permeável à influência da sociedade, a
sua prima manteve-se fiel a este espaço primordial e, portanto, fiel aos valores da
Natureza,
Em suma, é inegável que Carlos estabelece relações antagónicas com estas . Reiteração da informaçäo
duas personagens, o que acaba por evidenciar o seu carácter incerto, que o levou apresentada e síntese.
a repudiar o espaço natural, primeiramente, e a tornar-se permeável ao
c materialismo social, em segundo.
ã (1 70 palavras)

143