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Introdução

ao
Antigo Testamento

Stefan Kürle
Agosto/ 2014
Coordenação editorial: Depto. Desenvolvimento Institucional
Professor autor: Dr. Stefan Kürle
Coordenadoria de Ensino a Distância: Gedeon J. Lidório Jr
Projeto Gráfico:Mauro S. R. Teixeira
Capa: Mauro S. R. Teixeira
Revisão: Éder Wilton Gustavo Felix Calado
Designer Instrucional: Wilhan José Gomes
Impressão: ARTGRAF - Ind. Gráfica e Editora

Todos os direitos em língua portuguesa reservados por:

Rua: Martinho Lutero, 277 - Gleba Palhano - Londrina - PR


86055-670 Tel.: (43) 3371.0200
SUMÁRIO

Unid. - 01 O Antigo testamento como Cânon...............................05


Unid. - 02 A história do texto do Antigo Testamento.........15
Unid. - 03 O Antigo Oriente Próximo..................................................21
Unid. - 04 Religião no Antigo Oriente Próximo........................29
Unid. - 05 A Torá: formas da literatura e teologia..............39
Unid. - 06 Levítico e o tema da Torá...................................................53
Unid. - 07 Os livros históricos...............................................................59
A natureza da narrativa bíblica e a ética do
Unid. - 08
textos históricos...............................................................................................65
Unid. - 09 A literatura sapiencial.......................................................71
Unid. - 10 O otimismo quebrado.............................................................79
Unid. - 11 Os livros poéticos I: Os salmos......................................87
Unid. - 12 Os livros poéticos II: Teologia de Salmos e
Cântico dos Cânticos...................................................................................101
Unid. - 13 Os livros proféticos I: O profeta e seu livro...107
Os livros poéticos II: Aspectos teológicos e um
Unid. - 14
panorama dos profetas...............................................................................115
Unid. - 15 Épocas: A pré-monarquia..................................................123
Unid. - 16 Épocas: Monarquia (parte I)..........................................133
Unid. - 17 Épocas: Monarquia (parte II)........................................139
Unid. - 18 Exílio e Pós-Exílio..................................................................147

03
04 Introdução ao Antigo Testamento
Introdução ao Antigo Testamento
Unidade - 01
O Antigo Testamento como Cânon

Introdução

Nessa unidade e na próxima, descobriremos alguns


fatos básicos sobre o papel do AT na teologia cristã e do
texto em si dessa grande obra da literatura do mundo. O
AT era a Bíblia dos primeiros cristãos e também a Bíblia de
Jesus. Tanto Jesus como os primeiros cristãos costumavam
ler o AT em uma tradução grega (a Septuaginta [LXX]).
A imagem seguinte mostra uma página desse texto (um
manuscrito do meio do séc. IV – sem ir a uma biblioteca
você pode ver esse livro maravilhoso: http://www.
codexsinaiticus.org).
Antes de continuarmos, faremos uma breve pausa
para refletir sobre os teus sentimentos com relação ao AT.
Que parte do AT você levaria para uma ilha deserta? De
que livro do AT você tem medo para preparar um sermão?
O que você precisa, sobretudo, para estabelecer um melhor
relacionamento com o AT?

Duas páginas do Codex Sinaiticus - o AT em grego. É um texto que os primeiros cristãos liam.
Observe: O texto é sem divisões entre as palavras e usa só maiúsculas.

05
Objetivos

Ao final da unidade, o aluno:


1. Refletirá sobre o papel do AT na sua comunidade;
2. Conhecerá as várias maneiras de denominar o AT;
3. Descobrirá o conteúdo e a ordem de várias tradições
do cânon.
Plano da unidade
• Por que estudamos o AT?
• Precisamos do Antigo Testamento?
• O nome “Antigo Testamento”
• Estrutura e origem do cânon do AT
• A teologia do cânon

Por que estudamos o AT?


O Antigo Testamento é a primeira e a maior parte da Bíblia
cristã. A Bíblia cristã é uma unidade inseparável entre o Antigo e o
Novo Testamento.

Para pensar...
Que papel desempenha o AT na sua comunidade? Em
quantos domingos há uma leitura desta parte da Bíblia? Qual
porcentagem dos sermões foi baseada no AT durante os últimos
12 meses? Por que isso acontece? – qual é sua interpretação?
Coloque as suas ideias no nosso fórum!
A Bíblia tem um papel decisivo para a fé cristã. Ela é testemunha
de Deus em suas ações no mundo. A pergunta com que muitas religiões
se ocupam é: “Como conhecer a deus?” Algumas filosofias e religiões
acham que o seu deus pode ser reconhecido pelo pensamento humano,
pela nossa interpretação do mundo, ou experiências paranormais.
Outra máxima vale para a religião cristã: o Deus cristão quer ser
reconhecido como aquele que já se revelou para os homens. Isso

06 Introdução ao Antigo Testamento


significa que a Bíblia é testemunha de Deus na caminhada do povo
Israel e ao enviar de Jesus.
O AT era a Bíblia de Jesus: Jesus era judeu, conhecia as escrituras
sagradas do judaísmo e testemunhou de que não havia nenhum outro
deus além do Deus dos patriarcas de Israel: o Deus de Abraão, Isaque
e Jacó. A Bíblia não só testemunha da experiência de Jesus, mas da
totalidade dos procedimentos de Deus “Pai”, como Jesus disse no
primeiro pedido do Pai Nosso. Isto também nos amarra, como cristãos,
ao AT.
Sem dúvida, Deus está continuamente agindo na história e está
presente também nos dias de hoje, mas na Bíblia o testemunho nos
foi interpretado mais claramente. Consequentemente: na fé cristã
podemos refletir sobre Deus somente na interação com a Bíblia. Sem a
Bíblia não há nenhum conhecimento de Deus que seja confiável.
A Bíblia nos traz experiências das primeiras testemunhas de
nossa fé. Pois a Bíblia preserva o testemunho da fé desde gerações
distantes, sendo assim, nossa obrigação em torno dos textos bíblicos
é dupla:
• Precisamos de uma compreensão histórica – o que o texto
significava;
• Precisamos buscar o significado atual dos textos bíblicos – o
que o texto significa.

Precisamos do Antigo Testamento?


Na história cristã houve e ainda há a tentativa de desvalorizar o
AT como um documento obsoleto ou eliminá-lo do cânon cristão.
Já em meados do séc. II o teólogo cristão Marcião de Sinope
elaborou a tese de que o Deus proclamado por Jesus e Paulo estava em
contradição ao deus vingativo e feroz do AT. Em discussões calorosas,
a Igreja Antiga insistiu na primeira parte do cânon e descartou Marcião
como herege da igreja junto com seus numerosos seguidores. Mas
as perguntas que Marcião propusera foram levantadas muitas vezes
durante a história da igreja.
No século IXX o famoso historiador da igreja, Adolf von
Harnack, exigiu que finalmente estava na hora da igreja cristã lançar

07
o AT (como símbolo da grande paralisação eclesiástica) no monte de
escória da história (HARNACK, 1924, p. 217).
A desvalorização do AT frequentemente andava e anda junto com
a desvalorização do povo judaico. O antijudaísmo cristão contribuiu
com o antissemitismo moderno. A igreja entendeu como um novo
Israel herdando o status do antigo povo de Deus que consequentemente
deserdou. O AT, por consequência,
era a escritura sagrada de uma religião
estranha e sem graça.
Por isso, não podemos esquecer
o seguinte: Jesus era judeu, Paulo
também. O que é chamado no
cristianismo de “Antigo Testamento”
era a Bíblia que ambos possuíam. As
escrituras judaicas determinavam
seus pensamentos e conversas. Além
disso, os textos do Novo Testamento não podem ser entendidos sem
o AT. Eles frequentemente reiteram os conceitos, imagens, metáforas,
fundamentos, histórias e teologia do AT. Só pense sobre esse nome
“Jesus Cristo” ou “Messias”!
Podemos chamar a Bíblia cristã de uma “edição ampliada” do
AT. Queremos dizer que nessa “nova edição” há novas escrituras
(biografias, livros históricos, cartas...) que foram tomando o título
de sagradas escrituras. Isso tem algumas implicações para a nossa
concepção e para o nome do AT.

O nome “Antigo Testamento”


O AT não conta com nenhuma designação própria para sua
coleção de livros. Como já vimos, a escritura sagrada dos judeus foi
a Bíblia de Jesus e de seus discípulos. Por isso o NT refere-se ao AT
como “a escritura” ou “as escrituras”.
No NT percebemos uma diferenciação entre esse corpus das
escrituras:
• “a lei (de Moisés) e os profetas”- Mt 5,17; 7,12; 11,13; 22,40; Lc
16,16; Jo 1,45; At 24,14; 28,23; Rm 3,21;

08 Introdução ao Antigo Testamento


• “Moisés e os profetas”- Lc 16,29.31;
• “Moisés, os profetas e as escrituras”- Lc 24,27;
• “a lei de Moisés, os profetas e os Salmos”- Lc 24,44;
Essa divisão em três partes também conhecemos no prólogo à
tradução grega do livro apócrifo Eclesiástico ("Sirácida”, 132 a.C.):
“Muitas e grandes coisas são nos dados através da lei, dos profetas e
das outras escrituras, que lhe seguem...”.
A terminologia “testamento” sugere a ideia de “aliança” como
podemos observar no NT:
• Lc 22,20; 1Co 11,25: “Este cálice é o novo testamento/aliança
no meu sangue...”;
• 2Co 3,6: “O qual nos fez também capazes de ser ministros de
um novo testamento/aliança ...”;
• Hb 9,15; 12,24: Jesus como Mediador do novo testamento/
aliança.

Para pensar...
Que nome você usaria para o AT – se você fosse decidir?
Coloque as suas ideias no nosso fórum!
Então, podemos deduzir que as ações de Deus anteriormente
são da “velha aliança/antigo testamento”? Especialmente 2Co 3,6
(evidentemente) põe uma relação desigual entre a velha e nova aliança.
Mas isso não é correto no que tange a relação entre AT e NT. E com o
anuncio do novo testamento já no AT, em Jr 31, precisamos distinguir
bem esses conceitos de aliança. Entretanto, em 2Co 3,14 lemos: “Mas
os seus sentidos se endureceram; porque até hoje, quando fazem a
leitura da antiga aliança, o mesmo véu permanece, não lhes sendo
revelado que, em Cristo, é removido”. Aqui, onde se lê “antiga aliança,”
refere-se, obviamente, a um livro. O que nos leva a concluir, por um
lado, em um comentário sobre o AT no NT que o AT é antiquado. Por
outro lado, isso obviamente não é verdade para todo o AT. Contudo,
aqui encontramos essa tensão entre a continuidade e descontinuidade
ao descrever a relação entre os dois testamentos (livros).
Por causa disso, Erich Zenger sugere descrever o AT como

09
“Primeiro Testamento” (ZENGER, 2003). Alguns teólogos também
usam o termo “Bíblia Hebraica” ou “Tanach”, uma palavra artificial
que vem das letras iniciais das palavras hebraicas, que descrevem
o conteúdo tripartido do AT: Torá, Neviim e Ketuvim (Instrução-
Lei, Profetas e Escrituras). Essas possibilidades evitam termos que
sugerem uma depreciação do AT. Todavia, chamar essa primeira parte
da Bíblia cristã “Antigo Testamento” é uma designação tradicional que
está sempre nos lembrando de que precisamos do Novo Testamento
como continuação. Contudo, devemos estar alertas aos perigos de
uma desvalorização dos livros incluídos e também da probabilidade
de barreiras na conversação com os judeus.
Pelo menos hoje precisamos de uma forte valorização do AT.
Especialmente em nossa sociedade, na qual a fé cristã está cada vez
menos conhecida, devemos enfatizar mais a leitura do AT. Sem o AT
toda a salvação de Jesus fica “no ar”. Além disso, o AT esclarece as
perguntas fundamentais do ser humano em relação a Deus.
Uma questão: Por que as pessoas precisam da redenção por meio
de Jesus Cristo, se não sabem que Deus as criou para pertencerem
a ele, porém estão separadas Dele pelo pecado? Exatamente isso é
testemunhado pelo AT!

Estrutura e origem do cânon do AT


O conteúdo do AT
Diferente do NT, o cânon do AT possui diferenças de tamanho
para várias igrejas cristãs. As dúvidas giram, acima de tudo, em
torno dos livros apócrifos (literalmente “livros escondidos”). A Igreja
Antiga os incluiu em torno de 400 d.C. Eram livros que o judaísmo
e os primeiros cristãos não incluíam nas escrituras sagradas. Foram
os reformadores no séc. XV que decidiram que todos os livros sem
fundamento hebraico não deviam ser utilizados nos cultos públicos,
sendo que, dessa forma, eles também não pertenciam ao cânon.
A Igreja Católica ficou com os apócrifos (Judite, Tobias, Baruque,
Eclesiástico, Sabedoria de Salomão, I e II Macabeus, além de adições
aos livros de Ester e Daniel). Ela aceitou esses livros como “livros
deuterocanônicos” (= livros de um segundo cânon). Entretanto, a

10 Introdução ao Antigo Testamento


Igreja Ocidental (Igreja Ortodoxa) decidiu, apenas em 1672, incluir os
livros Judite, Tobias, Eclesiástico e Sabedoria de Salomão.
A tradição judaica desde o início se limitou para as escrituras
hebraicas (ou aramaicas; partes de Esdras e Daniel). Esta delimitação
do conteúdo do cânon (judaico) pode ser datada no tempo de Jesus.
O cânon judaico reflete os tempos de origem e canonização dos
vários livros da coleção. Também podemos perceber uma hierarquia
entre os livros – nenhum dos livros tem a mesma autoridade que a
Torá. Por isso a tradição rabínica colocou um alto valor na “Torá Oral”
que traz a maior parte da Torá do Sinai. Essa tradição oral foi escrita
na Mishná e outros livros. Esses textos nunca foram continuados pela
igreja cristã. A hierarquia é também visível nas leituras na sinagoga.
A Torá é lida inteiramente todos os anos. Vários textos dos profetas
são lidos como comentários da Torá. Entre as Escrituras, os Salmos e
os Megilloth (“cinco rolos”: Cântico; Rute; Lamentações; Eclesiastes;
Ester) fazem parte da liturgia - mas com uma função menos importante
que a Torá. Os últimos são lidos nas grandes festas do judaísmo:

Os 5 Megilloth
• Festa das semanas (Schavuot) - Rute;
• Festa da páscoa (Pessach) - Cântico;
• Festa dos Tabernáculos (Sucot) - Eclesiastes;
• Festa de comemoração da destruição do templo (Tishá BeAv)
- Lamentações;
• Festa de Purim - Ester

11
A teologia do cânon
A palavra grega “cânon” significa “regra” ou “instrumento de
medir”. Com o termo “cânon do AT” determina-se a coleção encerrada
de escritos inspirados pelo Espírito Santo. Abrange aqueles escritos que
têm autoridade normativa para a igreja, isto é, que servem como regra
para a nossa fé e vida como crentes.
Podemos resumir uma interpretação teológica do cânon
(seguinte Erich Zenger):
Torá como promessa e
I Gn – Dt Revelação originária no Sinai
interpelação
II Js - 2Mc História de Israel na terra Passado
III Jó – Sr Sabedoria para a vida Presente
IV Is – Ml Profetismo Futuro

Zenger está explicando: “Cabe ler assim o que vimos acima:


Os livros Gn-Dt preservam que a Torá revelada no Sinai,
contendo os dois focos “mandamento do amor a Deus” - “mandamento
do amor ao próximo” (cf. Mc 12,28-34par.), constitui a revelação
originária de Deus, fundamentada na Criação e quem vem a todos os
povos por meio de Israel. O fato de os Dez Mandamentos terem sido
outorgados como proclamação de direito divino e de direito humano
conforme a “história” no deserto do Sinai e anterior à tomada da terra,
descrita em Gn-Dt, é interpretado pela própria tradição judaica como
mandamentos que não devem ser lei de vida apenas para Israel, mas
para todos os povos. Isso vale justamente para os cristãos, que devem
“cumprir“ a Torá no discipulado de Jesus (cf. Mt 22,34-39 com base
em Mt 5,17-20). Os blocos subsequentes II-IV visam conduzir para
essa vida com a Torá do Sinai:
O bloco II (Js-2Mc) demonstra a partir do exemplo de Israel o
que acontece numa comunidade que vive com essa Torá, mostra sua
concretização e como isso ocorre, mas também que pode fracassar.
Os leitores cristãos da Bíblia devem sentir e experimentá-lo com esse

12 Introdução ao Antigo Testamento


povo, envolvendo-se intimamente – como história de suas irmãs e
seus irmãos judeus (não como história deles próprios) e como história
do seu Deus comum.
O bloco III (Jó-Sr) convida cada pessoa a buscar, com ajuda
desses escritos sapienciais, a verdadeira sabedoria salvadora da vida.
A maneira de fazê-lo é ouvir a Torá, orando-a e meditando nela, pois
ela se comunica, a todos os que se abrem a ela, por meio da Criação e
das instruções a Israel.
O bloco IV (Is-Ml) projeta a visão de que o mundo e a história
chegam à plenitude quando os povos peregrinam até Sião, para lá
aprender a grande Torá da paz de Javé (Is 2,1-5: texto programático
canônico no início do bloco IV) e para participar desse modo da
renovação ou restauração fundamental de tudo, prometida pelos
livros dos profetas a toda a terra – e que acontecerá, naturalmente não
deixando Israel de fora, mas por meio desse povo e com ele. A partir de
profetismo, que por diversas correntes foi lido no tempo de Jesus como
promessa escatológica, isto é, como projeto de um drama consistente
do fim dos tempos, até mesmo a Torá (bloco I) adquire um dinamismo
profético-escatológico na perspectiva da expectativa imediata do fim.
Por outro lado, o agir de Javé em e por meio de Jesus (singularmente
no evento da Páscoa), testemunhado no Novo Testamento, pode ser
entendido como ato decisivo no contexto desse drama escatológico
anunciado pelos profetas. Dessa maneira, na Bíblia cristã, o profetismo
abre-se em direção do Novo Testamento que o segue” (ZENGER, 2003,
p. 40s)

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Neste sentido podemos também ler o NT:

Fundamentação: Torá Evangelhos

Passado: Livros históricos Atos dos Apóstolos


Presente: Livros sapienciais Epístolas Apostólicas
Futuro: Livros proféticos Apocalipse de João

Referências Bibliográficas

HARNACK, A. VON. Marcion. Das Evangelium vom fremden Gott. 2. ed.


Leipzig: [s.n.], 1924.
ZENGER, E. Introdução ao Antigo Testamento. [S.l.]: Edições Loyola,
2003.

14 Introdução ao Antigo Testamento


Introdução ao Antigo Testamento
Unidade - 02
A história do texto do Antigo Testamento

Introdução
Livros não caem do céu, normalmente. Textos escritos
(em vez de textos orais) têm autores, usam letras, uma certa
língua (ou mais de uma) e utilizam algum meio material para
serem preservados no tempo. Nessa unidade, refletiremos sobre
o texto do AT e a sua história.
Até que Você pudesse acessar os textos do AT através de um
belo volume impresso de papel,
com capa de couro e em uma
língua inteligível para você,
contudo, até isso ser possível
houve uma longa história de
produção, tradição e tradução.
Vamos descobrir umas das
suas etapas nessa unidade.

Você se lembra do Codex Sinaiticus (unidada 1). Essa tradução marca um passo importantíssimo
na história do texto do AT.

Objetivos
Ao final da unidade, o aluno:
1. Conhecerá parte da história da tradição do texto do AT;
2. Terá uma noção das complicações durante o processo
de tradução.

Plano da unidade
Alguns fatos interessantes da caminhada do texto do AT
• Os rolos de Qumran (os papiros do Mar Morto)
• A Septuaginta (LXX)
• Os Massoretas
• A Bíblia Hebraica

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Alguns fatos interessantes da caminhada do
texto do AT
As palavras do Antigo Testamento (tanto como as do NT) foram
escritas por homens (Jo 1,14), mas
sob o controle do Espírito Santo
(chamamos isso de a “inspiração” da
palavra de Deus). Isso significa que
o AT tem uma origem humana que
devemos conhecer a fim de poder
perceber melhor a sua mensagem.
Os passos da formação da Bíblia que
conhecemos hoje foram os seguintes:
Tabuletas de argila - Fonte: Wikimidia Commons Homens de Deus...

• …contaram e transmitiram as palavras de Deus oralmente. (Dt


6,6-7; 1Co 15,3);
• …escreveram textos em tabuletas de argila e em folhas de
papiro (Éx 17,14; Jr 36,2; Lc 1,1-3);
• …copiaram as tabuletas e as folhas e juntaram-nas em rolos e
em códices (compilações de folhas de papiro ou pergaminho);

Depois dos rolos e códices vêm os livros escritos e mais tarde os


livros impressos.
Os textos originais do AT (isto é, os textos escritos pelo próprio
autor) não existem mais. A
única coisa que temos hoje
em dia são cópias e cópias
das cópias. Arqueólogos
conseguiram achar pedaços e
partes de cópias bastante velhas
dos textos do AT, mas nunca
acharam um texto original
escrito por um autor bíblico.
Bíblia de Gutenberg (início de Gêneses) Uma das
primeiras Bíblias impressas.
Fonte: Wikimidia Commons

16 Introdução ao Antigo Testamento


Os rolos de Qumran (os papiros do Mar Morto)
No ano de 1947, um jovem pastor de ovelhas achou em uma cova
nas montanhas perto do mar morto uns rolos de escritura depositadas
em cântaros de barro. Levou alguns deles e os vendeu na feira da sua
aldeia. Por acaso um arqueólogo passou por aquela feira e achou os
rolos. Logo reconheceu o grande valor deles e comprou-os. Depois
pediu ao jovem que lhe mostrasse o lugar onde é que tinha achado
os rolos. Assim foram descobertos as cavernas de Qumran, que
contêm uma antiga biblioteca de um monastério judaico (os monges
de Qumran), situado perto do Mar Morto, onde foram guardados
um grande número de textos sagrados do AT originários do ano 200
a.C. isto é, quase mil anos mais velhos de que os códices de Aleppo e
Leningrado. A investigação dos rolos de Qumran mostrou que não
existe uma diferença significativa entre os textos do ano 200 a.C. e as
cópias do ano 930 d.C. Uma prova maravilhosa da fidelidade e exatidão
do processo da tradição dos textos sagrados do AT.

A Septuaginta (LXX)
A primeira coleção completa dos livros do AT foi a tradução
dos livros do AT na língua grega chamada Septuaginta, comumente
conhecida pela sigla LXX. A palavra “Septuaginta“ é latina e
significa “Setenta”, que se escreve em letras romanas: “LXX”. O nome
“Septuaginta“ vem de uma tradição antiga que diz que esta tradução
foi feita por setenta e dois homens em setenta e dois dias. Mas na
verdade este trabalho levou muito mais tempo, mais ou menos de 300
até 100 a.C.
A razão porque esta tradução foi feita é a seguinte: Houve muitos
judeus no império Romano, que viveram fora da terra de Israel e que
não aprendera a língua hebraica dos seus antepassados. Eles precisaram

17
de uma tradução de suas
Sagradas Escrituras na
língua oficial do Império
Romano que era o Grego.
A qualidade e o estilo da
tradução são bem variados
de livro para livro – do
literal à paráfrase.
A LXX teve a
seguinte ordem: Torá -
Livros Históricos - Livros
Poéticos - Apócrifos
fragmento de um pergaminho da LXX
Fonte: Wikimidia Commons
- Livros Proféticos. A
LXX era a Bíblia que os
apóstolos e a igreja primitiva liam e citavam. Por isso, algumas citações
no NT do AT parecem um pouco livres e diferentes do nosso AT, que
foi traduzido do hebraico.

Os Massoretas
As cópias mais importantes dos textos do AT que temos são as
cópias na língua hebraica, feitos por uma escola israelita de escribas
chamados Massoretas. Os Massoretas
foram homens com uma grande
tradição na arte de escrever e copiar.
Produziram cópias dos livros do AT
e ao mesmo tempo tiveram o alvo de
manter o texto original inalterado
e ileso. Durante muitos séculos, os
Massoretas mantiveram uma tradição
irrepreensível e imaculada dos textos
do AT. Porém, as cópias mais velhas
dos Massoretas que temos hoje em dia
são originárias do ano 930 d.C. São
os códices chamados Codex Aleppo e
Página dos Targumim (traduções, paráfrases e comentários em aramaico da Bíblia hebraica
Fonte: Wikimidia Commons

18 Introdução ao Antigo Testamento


Codex Leningradensis (têm estes nomes porque se encontram hoje em
dia nos arquivos das cidades de Alepo e Leninegrado (St. Petersburgo).
Isso significa que entre o tempo em que o último livro do AT foi escrito
(400 a.C.) e o tempo em que a cópia mais velha do AT inteiro que
temos foi escrita, existe um espaço de mais de que 1000 anos!

A Bíblia Hebraica
Ao ver o uso da LXX na igreja cristã, i.e. como os crentes
provaram com a LXX que Jesus Cristo é o Messias, os judeus decidiram
abandonar esta tradução grega e voltaram para a sua Bíblia Hebraica,
isto é, a coleção dos livros do AT na língua hebraica. Esta coleção já
tinha existido antes de Cristo (Jesus mesmo a usou, Lc 24,27 e Mt
23,34), mas foi estabelecida como Cânon Hebraico fixo somente no
ano 90 d.C. (sínodo de Jabne ou Jâmnia) em rejeição da LXX que os
Cristãos usaram. A ordem dos livros da Bíblia Hebraica foi diferente
da ordem da LXX: Lei - profetas anteriores (Livros Históricos) -
profetas posteriores - escrituras. Enquanto os Cristãos seguindo a
LXX mantiveram a ordem antiga com os profetas posteriores no fim
(os quais apontam para Cristo!), os Judeus colocaram os 5 rolos das
festas (Rute, Cant., Ecl., Lam., Ester) e os livros do tempo do cativeiro
(Daniel, Esdras, Neemias, Crônicas) no fim do seu cânon.

Referências Bibliográficas

Harnack, Adolf von. Marcion. Das Evangelium vom fremden Gott. Leipzig,
2a ed., 1924.
Zenger, Erich. Introdução ao Antigo Testamento. Petrópolis: Edições
Loyola, 2003.

19
Anotações
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20 Introdução ao Antigo Testamento


Introdução ao Antigo Testamento
Unidade - 03
O antigo Oriente Próximo

Introdução

Antes de continuarmos, quero que você reflita sobre os seus


conhecimentos do contexto histórico do AT. Quais são as fontes do
seu conhecimento (livros, filmes, viagens, escola...)? Vamos tentar
interpretar um artefato
arqueológico agora:
Essa imagem faz
parte de um relevo do
palácio de Senaqueribe,
em Nínive. O rei assírio
Senaqueribe conquistou
Laquis (uma cidade perto de
Jerusalém) com um terrível
derramamento de sangue
– arqueólogos descobriram
uma vala comum com
1.500 esqueletos humanos,
principalmente de mulheres
e crianças. Os afrescos
(pinturas) mostram a batalha de Laquis em uma série de cenas, quase
como uma história em quadrinhos. No meio do afresco, a cidade é
invadida. Depois podemos ver os cativos de Judá marcharem para
fora da cidade, enquanto outros são despidos e empilhados em lanças
assírias. Os prisioneiros são torturados e assassinados. Em seguida,
no último painel, o rei Senaqueribe se senta no trono, recebendo a
rendição de um oficial em a seu acampamento. É este acampamento
que vemos em nosso painel acima. Esta imagem serve como exemplo
para estudar o estilo da arte dessa época. Observe a falta de perspectiva
– este estilo é chamado aspectivo. Isso significa que as coisas mais
importantes são as maiores (falta de perspectiva).
21
Outros detalhes, como cronologia ou rostos
individuais, tão importante para nossa convenção de arte
(por isso gostamos muito de emoções etc.), não recebem
nenhuma atenção. Algo que você pode confirmar apenas no
museu (ou em uma imagem completa) é que os retratos de
Laquis são do mesmo tamanho que as do acampamento do
rei, que está desenhado com detalhes com as mesas cheias
de comida e coisas preciosas. Lembre-se que a história
normalmente foi escrita (ou desenhada) pelos vencedores.
Poderíamos falar muito mais sobre essa cena – talvez sobre
os símbolos religiosos ou as inscrições no afresco. Mas
para mim é suficiente mostrar as grandes diferenças entre
o mundo antigo e nosso tempo através da arte que espelha
muito a cultura geral.

Objetivos

Ao final da unidade, o aluno:


1. Identificará aspetos gerais das culturas do Antigo
Oriente Próximo;

2. Refletirá sobre os aspectos geográficos e físicos do


Antigo Oriente Próximo.

Plano da unidade
• O mundo do Antigo Oriente Próximo
• Por que estudamos essa cultura e história?
• Como sabemos sobre o mundo do Antigo Oriente Próximo?
• Cronologia
• Geografia

22 Introdução ao Antigo Testamento


Por que estudamos essa cultura e história?
Os textos bíblicos não são textos sagrados descolados do tempo
e da realidade, que podem ser entendidos diretamente, sejam por
iniciantes ou através de uma miraculosa inspiração do Espírito Santo.
Não é a tarefa do Espírito Santo explicar
esses textos diretamente sem um
estudo mais aprofundado... Que pena!
– infelizmente isso significa muito
trabalho para nós.
Os textos da Bíblia foram escritos
para destinatários específicos. Estes
beneficiários viviam em um mundo
muito diferente do nosso. Viviam
em condições políticas específicas,
contextos sociais e econômicos
concretos e tinham sua própria cultura
Você pode imaginar a diferença na cultura e visão do mundo. Os autores da Bíblia,
essa obra mostra um texto litúrgico hebraico. cujos textos são inspirados por Deus,
Fonte: Wikimidia Commons
só tinham em mente essas pessoas. A
tentativa era comunicar com eficácia e transmitir suas mensagens.
Portanto, agora, temos o problema de que esses textos não são escritos
para nós especificamente. A nossa tarefa é nos colocar na situação dos
primeiros destinatários da Bíblia, e para fazermos isso, precisamos, ao
máximo, estudar o contexto histórico e cultural.
Para este projeto não podemos limitar-nos só à cultura e à
história da Palestina. Durante o tempo do AT, Israel não foi a cultura
dominante, era apenas uma pequena tribo que dependia fortemente
de outros povos vizinhos. Os israelitas adotaram as ideias, os costumes
e a cultura das grandes potências em torno deles. Fazemos isso não
muito diferente hoje em dia, quando somos orientados pela cultura
da América do Norte ou da Europa. Muitas vezes, emprestamos
nossa própria consciência para lidar com os poderosos. Assim,
Israel sempre esteve estabelecida muito firmemente em seu contexto
cultural. Estudando as outras grandes culturas, melhoraremos nossa
compreensão da Bíblia.

23
Como sabemos sobre o mundo do Antigo Oriente
Próximo?
Ao começarmos a estudar sobre as culturas antigas, encontraremos
o termo “Arqueologia Bíblica”, definida como o estudo arqueológico
de Israel e da Palestina. Ela é
uma disciplina independente
e trabalha estreitamente ligada
com o Próximo Oriente.
Outros estudos se relacionam
com os da Suméria, Babilônia,
Assíria ou Egito. Para definir
arqueologia, vou citar o
seguinte: “A arqueologia é a
investigação das sociedades
Hazor (norte de Israel) - Fonte: Wikimidia Commons
humanas através do estudo de
vestígios materiais por elas deixados (artefatos). Embora a imagem do
profissional em arqueologia mais difundida seja a de seu trabalho nas
escavações, seu trabalho é muito mais complexo e extenso. Ele necessita
interpretar os vestígios materiais que encontrou, contextualizá-los e
cruzar informações com uma grande variedade de áreas, utilizando
uma abordagem interdisciplinar, de modo que encontre respostas
que possa construir conhecimento a respeito das sociedades que
estuda. Sendo que a arqueologia é imprescindível para investigar os
agrupamentos humanos ágrafos (sem escrita), ou qualquer outra
sociedade extinta, sua importância para a antropologia é imensa.
Através do estudo arqueológico, a antropologia conseguiu
informações acerca dessas sociedades, uma vez que a maioria não
pode ser observada e estudada através de técnicas etnográficas
normais, pelo fato dessas sociedades não existirem mais, nem terem
deixado vestígios escritos. Sendo que, mesmo muitos vestígios escritos
de sociedades extintas que temos hoje para estudo foram descobertos
através de escavações arqueológicas, como tábuas de argila com escrita
cuneiforme da Mesopotâmia.1
Então, o que aprendemos através dessa descrição? A arqueologia
1
Da página web http://gpveritas.org/portal/index.php?option=com_
content&view=article&id=59&Itemid=68, 14/08/09

24 Introdução ao Antigo Testamento


é uma ciência interpretativa e por isso interdisciplinar. Muitas decisões
dependem fortemente da antropologia, da filosofia, da história e da
sociologia adotada pelo interpretador. Sabendo disso, precisamos ler
os resultados dos arqueólogos e fazer a relação entre tais resultados e
a Bíblia.
Uma coisa muito importante sobre o assunto “Bíblia e arqueologia”
é: a Bíblia deve ser vista como fonte. Não faz sentido provar ou refutar
a Bíblia com a arqueologia. Um artefato interpreta outro artefato – um
texto interpreta o outro texto. A Bíblia é um destes textos – ela é um
documento mais contemporâneo do que nós. Faz parte da humildade
científica (e cristã), lermos a Bíblia com muita bem-querência e como
uma fonte que está dando luz para nosso entendimento a respeito da
antiguidade.

Cronologia

Cena no Obelisco Negro de Salmanasar III (Museu Britãnico), encontrado em Nimrud menciona o nome de Jeú, rei
de Israel: “O tributo de Jeú, filho de Omri: eu recebi dele prata, ouro, uma tigela de ouro, um vaso de ouro com fundo
aguçado, copos de ouro, baldes de ouro, estanho, um bastão de um rei [e] lanças”. - Fonte: Wikimidia Commons

Para uma cronologia do Antigo Oriente Próximo, referimo-


nos a uma página da web2, com bastantes detalhes. Isso pode ser
interessante, mas se você fosse como eu, essas listas me dariam uma
certa medida de aborrecimento. Eu gosto muito mais de saber sobre
costumes, religiões e outras coisas culturais do passado. Por outro
lado… totalmente sem dados, nosso entendimento do passado é sem
estrutura e é fácil fazer confusão dos períodos. Então, vou apresentar
uma tabela3 que pode nos ajudar um pouco a não nos perdermos da
história do antigo oriente próximo.
2
Extrato da página web: http://www.assis.unesp.br/ierocha/cronoriente.htm, 07/08/09.
3
Traduzido de T. C. Mitchell und British Museum, The Bible in the British Museum (Paulist Press,
2004), 17.

25
26 Introdução ao Antigo Testamento
Observe que em diferentes regiões as épocas com o mesmo
nome começam em um outro tempo. Por que é isso? Vem da
história da arqueologia. Os artefatos que os arqueologistas acharam e
interpretaram foram de épocas diferentes, mas de materiais e formas
iguais. Isso significa que as diferentes culturas se desenvolveram em
velocidades diferentes. Essas épocas veem da observação de artefatos,
isto é, de cerâmicas, muros, objetos cúlticos, objetos artesanais – coisas
que são feitas por homens.
Podemos construir outros esquemas para a divisão de épocas, ou
seja, quando temos vestígios arqueológicos que incluem textos. Com
essas informações podemos reconstruir o mundo político, social,
religioso ou cultural. Podemos observar isso em nossa tabela também:
com os dados mais recentes, quando são incluídos nomes de vários
povos que dominaram essa respectiva região. Nossa compreensão
dessas épocas aumentou bastante nos dois últimos séculos. Você pode
perceber isso no estudo dessa lista cronológica na internet, conforme
já falei acima.
Uma das coisas mais interessantes para nós, como leitores da
Bíblia, referente ao assunto da cronologia, são as sincronias entre os
eventos e os personagens bíblicos e do mundo de outros povos nessa
região. E aqui entramos em um terreno muito perigoso e com muitas
brigas científicas. É bom lembrar que todas essas discussões vêm da
interpretação dos fatos arqueológicos. O fato puro não vale nada.
Apenas um fato interpretado tem valor para nós e pode ajudar na
nossa leitura da Bíblia. Achar um vestígio arqueológico é uma coisa,
mas interpretá-lo é outra coisa – e muito mais difícil.

Geografia
“Se partirmos do Golfo Pérsico e traçarmos uma meia-lua,
passando pelas nascentes dos rios Tigre e Eufrates, colocando a outra
ponta na foz do Nilo, no Egito, teremos uma região bastante fértil, onde
se desenrolaram os acontecimentos narrados na Bíblia. É a chamada
“meia-lua fértil” ou “Crescente Fértil”, dentro do qual está também a
Palestina.
Esta faixa de terra é regada por importantes rios, que
condicionavam a vida do Antigo Oriente. Foram os rios que
determinaram o estabelecimento da agricultura, da sedentarização e

27
das rotas comerciais por onde passavam as caravanas que iam desde a
Mesopotâmia até o Egito ou a Arábia”.4
“Os mesopotâmicos não se caracterizavam pela construção de
uma unidade política. Entre eles, sempre predominaram os pequenos
Estados, que tinham nas cidades seu centro político, formando as
chamadas cidades-Estados. Cada uma delas controlava seu próprio
território rural e pastoril e a própria rede de irrigação”.5
O clima deste crescente dependia muito da chuva regular. No
Egito, o Nilo inundou regularmente a planície do rio. Na Mesopotâmia
os grandes rios carregam a água que foi usada para a irrigação dos
campos para habilitar a agricultura. A falta de chuva ocasionou
consequências sérias para a população. Por isso, cresceu em todas as
partes dessa região uma preocupação com cultos da fertilidade para
assegurar o ciclo dos tempos e a chuva regular. Descobrimos muitos
textos míticos que refletem a situação geográfica e climática. Como
podemos perceber no AT, o povo de Israel sempre teve tendências
para adotar esses cultos pagãos. É sempre mais fácil para o ser humano
“fazer” alguma coisa para assegurar a sua própria vida do que confiar
em um Deus que tem tudo na sua mão.
Outro aspecto muito importante para Israel foi a sua localização.
No nordeste, ficava a Babilônia e Assíria; no sudoeste, o Egito. Esses povos
eram os grandes poderes políticos da época. Como país relativamente
fraco, Israel ficou a mercê dos caprichos dos reis da Babilônia, Assíria
e do Egito. Estes impérios também tiveram um grande interesse na
madeira que crescia na
Palestina dessa época.
Como o AT é uma
coleção profundamente
teológica faz muito
sentido olhar um pouco
o contexto religioso das
várias culturas da época
da sua formação. Assim
faremos na unidade
seguinte.

http://www.airtonjo.com/historia04.htm, 07/08/09.
4

http://pt.wikipedia.org/wiki/Mesopotamia, 07/08/09.
5

28 Introdução ao Antigo Testamento


Introdução ao Antigo Testamento
Unidade - 04
Religião no Antigo Oriente Próximo

Introdução

A história do Antigo Oriente Próximo abraça mais de


dois milênios, desde a Idade do Bronze à Idade do Ferro
(cf. “Cronologia” na unidade anterior), na região hoje
conhecida como o Médio Oriente. Houve muitos contatos
culturais, o que justifica resumir toda a região sob um
único termo, mas isso não significa, evidentemente, que
cada período histórico e cada região não deva ser analisada
individualmente para uma descrição detalhada. Queremos
tentar delinear os traços comuns das religiões do Antigo
Oriente Próximo.

Objetivos

Ao final da unidade, o aluno:


1. Terá conhecido os elementos básicos da religião do
Antigo Oriente Próximo;
2. Terá estudado um exemplo de leitura bíblica
informada do contexto cultural de Israel.

Plano da unidade
• Religião no Antigo Oriente Próximo – Tendências
gerais
• Um exemplo da interação dos autores do AT com
o seu contexto – Gênesis 1

29
Religião no Antigo Oriente Próximo – Tendências
gerais1
O Antigo Oriente Próximo inclui as seguintes sub-regiões – aqui
juntos com as respectivas religiões (vale a pena descobrir um pouco
sobre cada uma região ou cultura na wikipédia):
• Mesopotâmia (Sumer, Assíria, Akkad): religião assyro-
babilônica, mitologia mesopotâmia;
• Elam;
• Antigo Egito: religião egípcia antiga;
• O Levante (Canaã, Ugarit, Ebla, Mitanni): religião Cananeia;
• Anatólia (o império hitita, Assuwa, Arzawa): mitologia hitita,
mitologia hurrita;
• Do Cáucaso e da Armênia (Urartu);
• Chipre, Creta (civilização minóica): religião minoica.
Nossas primeiras fontes (2000 a.C.) permitem-nos ver a
mitologia mesopotâmia e egípcia. A religião grega antiga foi fortemente
influenciada pela mitologia do Antigo Oriente Próximo. Os cultos de
mistério do helenismo foram novamente influenciados pela mitologia
egípcia.
Existem amplas práticas que essas religiões muitas vezes têm em
comum:
• Rituais de purificação e santificação;
• Sacrifícios (sacrifício animal, libação, raramente – mas em
muito dos textos mitológicos – sacrifício humano);
• Politeísmo;
• Estado (e cidades-estados): religiões patrocinadas (teocracia);
• Adivinhação;
• Magia (invocações, amuletos).

Modelo de argila de um fígado usado para advinhação


da Babilônia Antiga, por volta de 1900-1600 aC; Sippar -
provávelmente no sul do Iraque moderno. Bristsh Museum,
London, Western Asia Collection - Fonte: Wikimidia Commons

Um resumo e tradução de http://en.wikipedia.org/wiki/Mesopotamian_religion; 15/08/09.


1

30 Introdução ao Antigo Testamento


Normalmente, as religiões do Antigo Oriente Próximo foram
centradas em torno de teocracias, dominando regiões com um culto
da divindade principal de uma cidade-estado. Houve também vários
motivos mitológicos e divindades super-regionais, tais como “Tammuz
e a descida ao submundo”.
Essas religiões centravam-se ao redor da adivinhação.
Observamos as formas seguintes:
• Apantomancia: vendo animais (e.g. o famoso “gato preto”);
• Cleromancia: sorteio;
• Hepatoscopia: observando o fígado de um animal;
• Nefelomancia: observando o formato das nuvens;
• Ornitomancia: observando aves em voo;
• Capnomancia: observando fumo;
• Oniromancia: adivinhação através de sonhos.
Em outras palavras: Não existe quase nada que não pode ser
usado para acalmar a sede do ser humano para saber do seu futuro.
Em volta desse sistema de adivinhação, construiu-se um mundo
de profissionais e ritos que sustentaram grandes áreas econômicas.
As religiões do Antigo Oriente Próximo são formas de animismo.
Immanuel Kant: “O Iluminismo representa a saída dos seres humanos de uma
tutelagem que estes mesmos se impuseram a si. Tutelados são aqueles que se
encontram incapazes de fazer uso da própria razão independentemente da
direção de outrem. É-se culpado da própria tutelagem quando esta resulta
não de uma deficiência do entendimento, mas da falta de resolução e coragem
para se fazer uso do entendimento independentemente da direção de outrem.
Sapere aude! Tem coragem para fazer uso da tua própria razão! – esse é o
lema do Iluminismo”.

Hoje em dia, ainda podemos encontrar


muitas formas de animismo. Animismo tem
muito a ver com religião, mas não se limita
a essa área. A diferenciação entre uma parte
Immanuel Kant
Fonte: Wikimidia Commons
religiosa e outras partes da vida e da realidade
é um pensamento muito recente, da época
do iluminismo (séc. XVII-XVIII). Mas isso é uma distinção fora do
pensamento de muitas culturas de hoje (inclusive uma grande parte
dos brasileiros e vários povos pós-modernos na Europa e América do

31
Norte) e de todas as culturas antigas. O animismo pode ser definido
como uma “visão geral do mundo” – que existe em muitas variações
e intensidades. Vou listar alguns aspetos gerais do animismo abaixo:
• A atividade está relacionada com o invisível. Animistas
supõem que o mundo visível relaciona-se com o invisível. Uma
interação existe entre o divino e o humano, o sagrado e o profano,
o sagrado e o secular. As influências de Deus, deuses, espíritos e
antepassados afetam a vida. Os seres humanos são pensados para
ser controlados por forças espirituais, sejam eles pais ou fantasmas,
deuses ou espíritos, feitiçaria ou magia, maldições ou o mau-olhado.
Os humanos, por sua vez, pediam para apaziguar os poderes através
de sacrifícios e libações, para alcançar o poder de lidar com o mal
através do ritual e para proteger-se através de encantos e amuletos. Em
contextos animistas nenhuma distinção pode ser feita entre o natural
e o sobrenatural. “Aconteça o que acontecer no mundo físico tem no
seu espiritual as coordenadas... Tudo o que o homem fez, usa e projeta
é interpenetrado com a interação com o mundo espiritual” (Steyne,
Powerful Spirits, 1989, 39).
• A vida é interligada. Animistas acreditam que tudo na vida
está interligado. Os indivíduos estão intimamente ligados às suas
famílias, algumas das quais vivem e alguns que já passaram para o
reino espiritual (i.e. morreram). Eles também estão ligados ao mundo
espiritual: Os anseios ambivalentes de deuses e espíritos impactam
a vida. Animistas sentiam uma conexão com a natureza (as estrelas,
planetas e a lua), cujos elementos afetavam os acontecimentos
terrenos. O reino natural está tão relacionado com o reino humano
que profissionais podem augurar eventos atuais e futuros, usando as
várias técnicas mencionadas acima.
• O poder é procurado para controlar a vida. Animistas
buscam o poder de controlar os assuntos da vida cotidiana. A essência
do animismo é poder – poder do ancestral de controlar os de sua
linhagem, o poder de mau-olhado para matar um recém-nascido ou
arruinar uma safra, a energia de planetas para afetar o destino da terra,
o poder do demônio para possuir um espírito, a força da magia de
controlar os acontecimentos humanos, o poder das forças impessoais

32 Introdução ao Antigo Testamento


para curar um filho ou tornar uma pessoa rica. A fundação do
animismo “é baseada no poder e no poder de personalidades” (Kamps,
The biblical forms and elements of power encounter, 1986, 5).
• A adivinhação tenta determinar o controle. Animistas
buscam determinar ou adivinhar quais são os poderes e as forças que
influenciam suas vidas. Adivinhação é o processo decisório, através do
qual os animistas determinam o impacto das competências pessoais
e impessoais sobre si mesmo. É um método de trazer à tona o que
está oculto ou desconhecido para tomar decisões cotidianas da vida.
A grande preocupação nessa área são os poderes que causam mal.
Animistas, consequentemente, vivem com medo. Eles acreditam que
somente com o uso dos poderes a vida pode ser bem sucedida. Por
isso, buscam desesperadamente informações para afastar o mal e
manipular os poderes para fazer a sua licitação. Eles podem apaziguar
os espíritos, antes e após a colheita, procurar o mundo espiritual para
segurar sucesso antes do casamento de sua filha, determinar como os
planetas e as estrelas organizam o dia de uma eleição importante, ou
o filho homem é vestido como uma menina de modo que não possam
ser lesado pelo mau olhado de uma vizinha com ciúmes.

Para pensar...
O animismo, como descrito aqui, é uma forca ou filosofia em
baixo de muitas formas de religiões (incluindo o Cristianismo!).
Observe alguns pensamentos e tradições em sua história como
cristão. Tem alguns pontos de contato com estruturas do
animismo? Eu, por minha parte, posso nomear muitas formas
do cristianismo tradicional e também moderno na Alemanha,
minha cultura maternal.
Coloque as suas ideias no nosso fórum!
De forma muito generalizada, podemos resumir o animista
como uma pessoa que quer influenciar os poderes do mundo inteiro
para aumentar o seu bem em todos os aspectos. Ele tem a convicção
de pode mudar o seu destino, inclusive paga para outras pessoas que
têm um acesso melhor a esses poderes. O animista nunca se torna um
fatalista! Ele sempre busca e acha um jeito.

33
É óbvio que o AT foi escrito em um contexto animista. O animismo
da antiguidade veio em várias formas e expressões. Sua expressão
religiosa são os vários cultos que podemos estudar como as religiões
de Sumer, Babilônia, Assíria, Hitita, Ebla, Ugarit, Fenícia, Canaã, Egito,
etc. Sabendo deste contexto, podemos observar muitos textos bíblicos
que criticam certas formas de espiritualidade e pensamentos religiosos
ligados a uma estrutura mental do animismo que adentraram ao povo
de Israel. Os israelitas ofereceram nas alturas, pagaram adivinhadores,
adoraram deuses canaanitas (e.g. Baal, Astarte), fizeram um boi para
representar Deus, porque o animismo é uma forma de pensamento
sobre o mundo. Obviamente, o animismo está ligado com a nossa
mesma humanidade, ou seja, estes textos ainda são muito atuais hoje.
Só precisamos nos lembrar que não devemos ler o AT com os óculos
do iluminismo. O mundo do AT não conhece uma separação entre
espiritual e material e muitas das outras distinções que fazemos tão
facilmente com nossa mente bem imersa na filosofia do iluminismo.
Foi a minha intenção escrever mais sobre a história e cultura de
vários países – como Assíria, Babilônia ou Egito, mas falta espaço e
talvez paciência de sua parte para ler. Talvez você possa usar a Wikipédia
para descobrir alguns fatos interessantes sobre essas culturas. Também
seria bom você ler alguns textos desses tempos, só para se imergir mais
no contexto do antigo Israel.

Um exemplo da interação dos autores do AT com


o seu contexto – Gênesis 12
A interação entre o AT com seu contexto ocorre quando
comparamos o conteúdo de Gênesis 1-11 com as histórias contadas
por outros povos daquela época e região. Em 1872, George Smith
descobriu no Museu Britânico o primeiro texto paralelo bem próximo
ao Gênesis 1-11. Traduzindo uma tábua cuneiforme da biblioteca
assíria de Assurbanipal (séc. VII a.C.) em Nínive, ele percebeu que
tinha encontrado um relato de um dilúvio global que em muitos
aspectos se assemelhava à história contada em Gênesis. Mais tarde foi
descoberto que o texto de Smith fazia parte da Epopeia de Gilgamesh.
Cf. Gordon J. Wenham, The Pentateuch, vol. 1, Exploring the Old Testament (SPCK, 2003), 9ff.
2

34 Introdução ao Antigo Testamento


Essa obra conta a respeito de um grande rei que saiu do seu papel
real para viajar pelo mundo em busca da imortalidade. A epopeia
de Gilgamesh foi composta provavelmente por volta de 1700 a.C. e
posteriormente revisada em 1200 a.C. para produzir a mais conhecida
versão dessa epopeia. Os estudiosos acharam que a história do dilúvio
provavelmente foi emprestada pelo autor da epopeia de Gilgamesh de
uma outra fonte, a qual utilizou para realçar seu próprio texto.
Uma possível fonte para a história do
dilúvio é um épico Atrahasis, um poema épico
da antiga Babilônia (1600 aC), que abrange a
história do mundo desde a criação do homem
até a nova ordem depois do dilúvio. Tudo
começa quando os deuses menores viviam na
terra escavando os rios e canais, e cultivavam os
alimentos para os grandes deuses. Mas, depois
de 3.600 anos os deuses menores se cansaram do
seu trabalho e entraram em greve.
Eles cercaram o grande deus Enlil em seu
palácio, que finalmente cedeu. Um outro deus
maior, Ea, e a deusa-mãe Nintu, então, criaram
sete casais, sete homens e sete mulheres, para
fazer o trabalho no lugar dos deuses menores.
Figura de Gilgamesh
Fonte: Wikimidia Commons Mas a criação da humanidade gerou problemas
para os grandes deuses.
Depois de 600 anos a população tinha crescido tanto que o
barulho humano perturbou o descanso dos grandes deuses! Enlil, por
conseguinte, determinou que uma praga devesse apagá-los. Mas um
sacrifício oportuno ao deus da praga por Atrahasis (significa “extra-
sábio”) parou a praga. Então, a população cresceu de novo, e Enlil
tentou controlar o crescimento da humanidade mais duas vezes – pela
seca e pela fome. E novamente sacrifícios aos deuses certos resolveram
a situação.
Eventualmente, Enlil persuadiu todos os seus colegas divinos a
apoiar o seu plano para destruir a humanidade, enviando um dilúvio
universal. No entanto, o deus Ea não concordou com esta proposta e,
secretamente, abriu o jogo e recomendou que Atrahasis construísse

35
um navio para a sua família, amigos
e animais para escapar. A inundação
foi realmente catastrófica, acabando
com todas as criaturas e assustando
até os deuses por sua ferocidade. Mas
Atrahasis e sua equipe sobreviveram.
O barco finalmente desembarcou
em uma montanha e os de dentro
desembarcaram. Piedoso, Atrahasis
ofereceu um sacrifício tão logo que
desembarcou. Imediatamente os
deuses rodearam o sacrifício ansiosos
por experimentarem a oferenda. Eles estavam com muita fome!
Destruir a humanidade em uma enchente significou que os sacrifícios
pararam, logo os deuses também não tinham nada para comer.
Chegando ao sacrifício um pouco tarde, Enlil, o deus mais
poderoso, ficou chocado e com raiva ao encontrar alguns seres humanos.
Ele se acalmou quando os outros deuses explicavam que a culpa foi de
Ea. Enlil concedeu vida eterna a Atrahasis, o único homem a alcançar
este objetivo. No entanto, para impedir que a explosão demográfica
ficasse novamente fora de controle, Enlil e Nintu redesenharam
a humanidade um pouco. A partir de agora, algumas mulheres
sofreriam de infertilidade, os bebês muitas vezes seriam natimortos
ou morreriam muito jovens, e ainda outras mulheres entrariam em
ordens religiosas e nunca mais teriam filhos. Finalmente, parece que a
partir de então, a morte passou a vir a todos em idade avançada: Até
agora as pessoas morriam apenas de doenças ou se fossem mortas por
alguém.
Existe mais um texto do mesmo período da epopeia de Atrahasis,
é a história suméria da inundação. Este texto também relata sobre
a criação do homem e culmina com a história do grande dilúvio.
Infelizmente, muitas partes da história suméria estão perdidas, mas
a versão reconstruída mostra paralelos com Gênesis 1-9 bastantes
surpreendentes.
Paralelos entre a história da inundação suméria e a de Gênesis
1-9:

36 Introdução ao Antigo Testamento


História da
inundação Conteúdo Gênesis
suméria

Criação do homem e dos animais; triste


Gn 1
condição do homem, não há canais de
Linhas 1-36
irrigação, sem roupas, sem medo de
Gn 2-3
animais, incluindo cobras.

Deusa Nintur planeja acabar com o


37-50 Gn. 4,1-16
nomadismo humano.

51-85 Falta de plano de Nintur.


Estabelecimento da realeza (reis, corte,
palácios...);
Gn 4,17-18
86-100 A construção das primeiras cidades,
Gn 4,26
incluindo Eridu;
Estabelecimento de culto.
101-134 Lista de reis antediluvianos. Gn 5
Ruído humano. Gn 6,1-8
135-260 O dilúvio. Gn 6,9-9,29

Há semelhanças suficientes para conjecturar que ambos,


Gênesis e a história da inundação suméria, são dependentes de um
entendimento comum do que ocorreu no início da história humana.
Mas podemos observar que as interpretações desses acontecimentos
são muito diferentes – embora o gênero dos vários textos seja muito
semelhante.
Esses textos do Antigo Oriente Próximo abrem uma porta para
entender o mundo em que o AT se formou. É importante conhecer
este mundo para fazer uma contextualização desses textos antigos
para nossa situação hoje.
A modernidade também tem os seus mitos da origem do

37
homem – a evolução biológica, a evolução sociológica e econômica.
Estes “textos” falam bastante sobre valores e visões da humanidade em
geral e bem específico quando pensamos sobre assuntos da ética ou da
moralidade.
O Deus da Bíblia quer que alinhemos nossa interpretação da
humanidade ao texto bíblico e vivamos um sonho, que ele tem sobre
nossa comunidade e sociedade. Como Gênesis 1-11 foi um texto
muito contra-cultural em seu contexto, precisamos ter uma visão da
humanidade contrária a que está propagada hoje em nossa cultura
pós-cristã.

Referências Bibliográficas

Mitchell, T. C., and British Museum. The Bible in the British Museum.
Paulist Press, 2004.
Wenham, Gordon J. The Pentateuch. Vol. 1. Exploring the Old Testament.
SPCK, 2003.

38 Introdução ao Antigo Testamento


Introdução ao Antigo Testamento
Unidade - 05
A Torá: formas da literatura e teologia

Introdução

Iniciamos nosso trabalho com a Bíblia. O plano para


as próximas unidade é o seguinte: Primeiro falaremos
e pensaremos sobre as grandes partes do AT e os vários
gêneros maiores desses textos. Começando com a Torá
(ou Pentateuco), descobriremos aspetos selecionados dos
textos para aumentar o nosso conhecimento e diminuir o
nosso medo ao abordá-los.

Objetivos

Ao final da unidade, o aluno:


1. Conhecerá melhor a estrutura geral da Torá;
2. Lerá sobre o papel fundamental dessa parte do AT
para a leitura da Bíblia inteira;
3. Refletirá sobre um exemplo de uma leitura teológica
contextual.

Plano da unidade
• Uma vista geral da Torá
• A Torá como Fundamento da Bíblia
• A Teologia de Gn 1-11 no contexto do Antigo
Oriente Próximo
• Formas literárias na Torá

39
A Torá: formas da literatura e teologia

Observe bem essa tabela1. Os nomes dos cinco livros nas diversas
línguas (hebraico, grego e latim) são programáticos. Qual é a ligação
entre o nome e o conteúdo para cada livro? Você está convidado a
colocar suas ideias no nosso fórum.
Como primeira parte do AT, esses livros (também chamados
de “pentateuco” – que significa “cinco livros”) são fundamentais para
entender o restante do AT e até mesmo a Bíblia inteira. Todos os outros
livros bíblicos têm o Pentateuco como base e desdobram os temas lá
mencionados. Como tal, grande parte da Bíblia pressupõe a Torá e
toma como certo que a conhecemos. Sem saber bem a literatura da
Torá, perdemos muitas das alusões sutis para os seus temas, o que nos
ajudará a entender muitas passagens do AT, bem como do NT.

Uma vista geral da Torá


Gênesis Êxodo Levítico Números Deuteronômio
Do Egito Do Sinai pelo
Criação e Instruções para
pelo deserto a Moab
promessa NO SINAI a vida na terra
deserto ao (à divisa da terra
da terra da promessa
Sinai prometida)
__________________Israel a caminho__________________________

Mais uma tabela do Zenger2. Em um nível narrativo podemos


interpretar a Torá como biografia dramática do povo Israel. É um
caminho que começa com o chamado de Abraão dentre as nações e
termina com um final aberto na fronteira da terra prometida. É um
caminho cheio de sofrimento e conflito.
Cf. Erich Zenger. Introdução ao Antigo Testamento (Edições Loyola, 2003) 46.
1
2
Cf. Ibid. 48.

40 Introdução ao Antigo Testamento


Copiei um bloco inteiro do texto de Zenger, porque não posso
explicar melhor:
c) Os cinco livros estão agrupados, em forma de quiasmo
espelhado, em torno do livro do Levítico como centro teológico.
O Gênesis e o Deuteronômio formam a moldura externa:

Êxodo e Números perfazem a moldura interna. Eles se estruturam


paralelamente por meio de numerosas histórias iguais. O Sinai constitui
quase que um tipo de divisor de águas (antes do Sinai era “legítimo”
clamar por pão e água, depois do Sinai isso ao pecado):

Êxodo e Números perfazem a moldura interna. Eles se estruturam


paralelamente por meio de numerosas histórias iguais. O Sinai constitui
quase que um tipo de divisor de águas (antes do Sinai era “legítimo”
clamar por pão e água, depois do Sinai isso ao pecado):

41
A Torá como Fundamento da Bíblia

Podemos fazer tudo - só faça!

A Torá nos dá a narrativa fundamental que forma a cosmovisão


bíblica. O que quero dizer com isso? Bem, todas as culturas e
sociedades têm suas narrativas fundamentais. Estes explicam o que
o mundo é, como funciona, o que deu errado com o mundo, onde
nós podemos achar a esperança para colocá-lo certo de novo. Para
dar um exemplo de uma cultura estrangeira para todos nós: o “sonho
americano” (American Dream) – este afirma que “você só precisa
tomar seu destino em suas próprias mãos e você terá sucesso. Ajude
a si mesmo e Deus vai te ajudar.” Esta é uma espécie moderna (no
sentido filosófico da palavra) da visão da vida – cheia de positivismo
(e calvinismo!). Ainda muitos norte-americanos são levados por ela a
uma atitude imperialista referente outros povos e culturas que contam
outras histórias sobre o mundo.
Eu ainda não estou muito bem familiarizado com a cultura
brasileira, a fim de observar algumas das narrativas profundas que são
fundamentais para a sua visão de mundo. Talvez eu precisasse estudar
mais de Darcy Ribeiro “O Povo Brasileiro” e outros interpretes da sua
cultura… Talvez alguns de vocês possam apontar-me os livros certos
para que eu possa aprender sobre as fundações de sua bela cultura.
Mas você pegou o ponto – a Torá molda a cosmovisão bíblica de uma
forma muito profunda. Então é melhor conhecer estes livros para
entender corretamente a Bíblia – e até mesmo o nosso próprio mundo.
Cada seção da Bíblia desenvolve mais o tema do Pentateuco. Se

42 Introdução ao Antigo Testamento


estivermos certos em interpretar Gn 12:1-3 (“chamado de Abraão”)
como sendo a exposição original desse tema, ele é reafirmado com
variações em Gênesis e desenvolvido nos livros seguintes. O AT
inteiro gira em torno da relação entre os descendentes de Abraão e a
terra, o seu crescimento como uma nação, e sua relação singular com
Deus. Os progressos realizados no cumprimento das promessas feitas
a Abraão não andam em uma só direção. Recuos são frequentes, tanto
no Pentateuco como posteriormente. O livro de Números narra o
adiamento de 40 anos da chegada à terra santa como um resultado da
falta da fé dos espiões. O livro dos Reis narra a queda de Jerusalém e o
exílio do povo para a Babilônia por causa de sua infidelidade a Deus.
No entanto, ambos os episódios foram seguidos por perdão e um novo
começo que acabou levando a um maior cumprimento das promessas.
Mas nem dentro do período bíblico nem nos dois milênios
seguintes, o cumprimento integral tem sido alcançado. Se os
judeus modernos interpretam o seu regresso à terra de Israel como
cumprimento da promessa a Abraão e como resposta às suas orações,
eles não desfrutam da paz e da segurança prevista pelo Pentateuco. Os
cristãos afirmam que a vinda de Jesus trouxe mais próximo o dia em
que em Abraão “todas as famílias serão abençoadas”. Mas eles também
oram para que o Reino de Deus seja vindo e sua vontade seja feita na
terra como no céu. Desta forma, o Pentateuco ainda fala tanto para o
presente como falou ao passado.3

Para pensar...
Olhando pra as questões fundamentais da humanidade, como
você reescreveria ou usaria o Gênesis para responder aos
questionamentos de sua própria cultura e comunidade?
Coloque as suas ideias no nosso fórum!

Gordon J. Wenham, The Pentateuch. Vol. 1. Exploring the Old Testament. SPCK, 2003, 197.
3

43
A Teologia de Gn 1-11 no contexto do Antigo
Oriente Próximo
Dando continuidade à última unidade, gostaria de destacar
algumas perspectivas sobre a teologia dos primeiros capítulos da Torá,
a fim de nos deixar entusiasmados sobre esta parte fundamental da
Bíblia. Na unidade 2, conclui com um parágrafo sobre o contexto
literário de Gn 1-11.
A teologia nunca “acontece” no meio do nada. Ela é sempre, e
em qualquer tempo, incorporada a um contexto muito concreto. Toda
a nossa vida influencia a nossa teologia, nossos pensamentos sobre
Deus, sobre a humanidade e sobre o mundo maior. Cultura, tendências
sociais, filosofia, literatura, artes, economia, amigos, natureza, origem
social, educação e qualquer outro aspecto da vida molda a nossa
teologia. Isso significa que nossa teologia é feita em reação ao nosso
contexto.
O que isso tem a ver com a leitura de Gênesis a Deuteronômio?
Bem, esses livros representam a “teologia”, eles falam sobre Deus,
sobre os seres humanos em frente a Deus. Eles tentam moldar a nossa
percepção do mundo, querem que comecemos a ver por um nova
perspectiva a nossa realidade presente.
Ao pegar alguns dos temas mais fundamentais da nossa
humanidade, a Torá aborda questões como a nossa origem, nosso
destino, nossa razão de ser, porque há mal neste mundo, como lidar
com ele, e o que esperamos. Cada cultura fornece respostas para
estas perguntas. Não há surpresas quando o AT quer dar respostas a
esses assuntos. O objetivo é avaliar, remoldar e corrigir as respostas
prevalecentes entre os povos vizinhos de Israel.
Nós não precisamos propor que o autor de Gênesis literalmente
leu ou copiou de textos paralelos do Antigo Oriente Próximo. Essas
histórias circularam no mundo antigo, em diferentes versões, sejam
elas escritas ou orais. A maioria das pessoas, então conhecia a história
do dilúvio, embora não tivessem ouvido ou lido os épicos de Atrahasis
ou de Gilgamesh, assim como hoje as pessoas sabem sobre a evolução
sem ter lido Darwin (veja Gertz, 2009, que propõe uma tradição
“científica” comum a muitos povos do antigo oriente).

44 Introdução ao Antigo Testamento


Mapa mostrando canais de irrigação perto do Eufrates. Homem foi criado para construí-los e produzir alimentos
pelos deuses. Fonte: Wikimedia Commons

O que temos em Gênesis 1-11 é uma reinterpretação teológica


de grandes histórias de origem tradicional. Vamos resumir alguns
aspectos das histórias paralelas sobre a criação e o dilúvio que ouvimos
na última unidade. Os deuses da mesopotâmia são bastante ativos e se
relacionam entre si de uma forma muito “humana”: Traição e brigas
são comuns e as reações parecem começar a mão às vezes. Mas estas
interações na esfera divina certamente não são o ponto principal
dessas narrativas ou poemas. No centro estão os seres humanos, que
vivem, mais ou menos, sob a condição de sofrimento causado pelos
deuses. Gênesis 1-11 é semelhante: Embora Deus seja naturalmente
ativo, todas as suas ações estão relacionadas ao homem. Nada é dito
sobre suas interações com outros seres espirituais. Este silêncio fala
alto no contexto literário e cultural antigo. Para os autores bíblicos é
claro desde o início, que o homem tem de se relacionar com apenas
um Deus, seu criador e mantenedor. Contudo, a religião babilônica
era politeísta em seu coração. Além disso, nós, como seres humanos,
não somos o resultado dos caprichos e fantasias, das modas e manias

45
dos deuses. Em Gênesis existe apenas um Deus, que cria e controla
tudo. Considerando que os deuses da Babilônia não podem controlar a
inundação, o Deus de Gênesis pode – e ele pode muito soberanamente.
Gênesis 1 narra como Deus criou o mundo passo a passo.
Na Mesopotâmia, pensaram que o sol e a lua eram deuses muito
importantes, enquanto em Gênesis eles são meramente criados no
quarto dia – a luz podia existir sem eles.
Outra reinterpretação surpreendente do relato de Gênesis é
sobre a questão da finalidade da criação do homem. No pensamento
mesopotâmico o homem não é mais do que um escravo para fazer o
trabalho para as divindades menores. Em Gn 1-2 tudo é criado com
referência ao bem-estar da humanidade. A humanidade é a clímax, o
ponto de referência de toda a criação. Deus faz tudo para ela, criou-lhe
um ambiente ideal para viver e deu-lhe a tarefa régia de cuidar do resto
da criação. Considerando que os deuses da Babilônia deverão receber
alimentos, o próprio Deus está dando alimentos ao homem. Segundo
a visão do mundo mesopotâmico, um dos grandes problemas com a
humanidade é a fertilidade: a explosão populacional perturbou o sono
dos deuses. Apenas algumas alterações no processo de reprodução
poderiam resolver o problema (algumas mulheres são inférteis e muitos
bebês morrem cedo na vida). Gênesis tem uma perspectiva diferente.
A fertilidade é uma benção divina e Deus encoraja explicitamente a
procriação (“Sede fecundos e multiplicai-vos” Gn 1:28). O mesmo
é verdade, depois do dilúvio (lemos três vezes: “Sede fecundos e
multiplicai-vos” – 8:17; 9:1; 9:7)!

Para pensar...
Pense sobre as qualidades éticas dos deuses da Babilônia e
compare-as com a atitude de Deus, vista em suas reações sobre
o pecado humano (Gn 3 e 6-9). O que você conclui? Tente
pensar sobre as grandes histórias, líderes e ídolos da sua própria
cultura – o que os brasileiros aprendem com eles hoje? Que
histórias, como cristãos, devemos contar?
Coloque as suas ideias no nosso fórum!

46 Introdução ao Antigo Testamento


Esta lista poderia continuar por um bom tempo e encorajo-lhes
vivamente a retornar a Gn 1-11 e reler as histórias com essa perspectiva.
Você certamente vai descobrir muitas ironias e notas marginais com
alto significado teológico. A propósito: Nunca assuma que a Bíblia não
contém humor! Já nos primeiros capítulos, ironia, jogos engraçados
com palavras e uma distorção deliberada de ideias estrangeiras
dominam o texto. Nós só temos que ler com os olhos certos.
Eu deliberadamente não discuti todas as questões das ciências
naturais e a teoria da evolução em relação ao texto de Gênesis
1-11. Tenho medo que, hoje em dia, muitos cristãos fiquem presos
nesses debates e às vezes sintam a necessidade de oferecer sacrifícios
intelectuais (“A Bíblia diz isso, então eu acredito dessa forma, aconteça
o que acontecer...”) ou sucumbir à rejeição da conta bíblica da criação
por completo. Gênesis 1-11 foi escrito para aumentar nossa fé em um
Deus amoroso e com propósito, o qual cuida de nós e deseja a nossa
presença com ele. Se estes textos acabam por aumentar suas dúvidas e
ameaçar a sua fé, você pode considerar a releitura na luz da perspectiva
interpretativa acima. Você pode ter observado – com um olho treinado
na interpretação de textos – que esta perspectiva diferente tem muito
a ver com a forma como nós percebemos o gênero de Gn 1-11. O que
quero dizer com isso? Vou tentar dar uma resposta na próxima seção
desta unidade.

Formas literárias na Torá


Quando lemos a Bíblia, precisamos estar conscientes de que é
literatura. A Bíblia não é um livro mágico, descolado e isolado, mas –
como já vimos – é parte de um contexto histórico, cultural e literário. É
um dos desafios para nós, leitores da Bíblia – e especialmente para nós
que estamos ensinando os outros a ler a Bíblia – uma vez que o nosso
tempo, a nossa cultura e a nossa literatura são muito diferentes da
maneira antiga de fazer textos, de escrever. Logo, estamos propensos
a erros de interpretação, se não atentarmos para este fato e utilizar os
conceitos formados pela literatura contemporânea ao ler a Bíblia. É
uma tarefa difícil deixar as nossas próprias convenções literárias para
trás e ler a Bíblia sobre o fundo de suas próprias convenções literárias.

47
Muitos especialistas estão tentando isto e, nos últimos 30 anos, estamos
muito mais perto de fazer justiça à Bíblia como literatura antiga. É a
palavra de Deus, e só por isso vale a pena todo esse esforço!
Aqui, nós não podemos ainda tentar resolver questões desta área
de pesquisa bíblica, mas podemos fazer um começo. O truque é estar
alerta para o gênero de um determinado texto bíblico. Um gênero
é uma forma literária, é a forma exterior para além do conteúdo do
texto. Você vai imediatamente reconhecer a seguinte forma literária:
Não quero fazer comentário sobre o
conteúdo deste “texto”. Isso é para outras
pessoas – sou teólogo, e nada mais.
Obviamente, temos a forma de um
obituário. A cor, o layout, as imagens falam-
nos de imediato. “Sabemos” este texto.
Todos nós procuramos, nos primeiros
segundos de ver isso, o nome do falecido e
talvez alguns detalhes sobre o funeral. Só
no segundo relance, percebemos que este
é um texto irônico. Este é um exemplo
extremo de como o gênero funciona para
um leitor que está habituado a certa convenção literária.
Na Bíblia encontramos o mesmo fenômeno. Como já vimos,
qualquer pessoa crescendo no segundo milênio a.C. e lesse Gn 1-11,
imediatamente compararia esse texto em sua mente com textos
semelhantes sobre a origem do mundo e da criação da humanidade.
Qualquer leitor de Êxodo 20-24 irá instantaneamente reconhecer
a semelhança na forma (e conteúdo) desta passagem com outras
coleções de lei do Antigo Oriente Próximo.
Sabendo disso, precisamos pensar sobre o lugar vivencial do texto
que estamos lendo. Assim como no nosso exemplo do obituário, o uso
“normal” de um gênero literário em que a Bíblia é bastante limitada.
No Antigo Oriente Próximo, histórias sobre a origem do mundo e da
humanidade não foram em nenhuma forma concebidas para serem
lidas como tratados científicos sobre aspectos físicos, geológicos ou
biológicos deste evento. Temos outros tratados como esses escritos
na mesma época – sobre a matemática, a engenharia civil, a magia

48 Introdução ao Antigo Testamento


e a economia –, mas estes também não têm uma forma semelhante
a das revistas científicas de hoje. Portanto, histórias sobre a origem
da humanidade são literárias, textos poéticos que tentam moldar a
visão dos leitores, para estabelecer uma ordem e para interpretar as
dificuldades da vida.
Outro exemplo são as coleções de lei na Bíblia. Seria fatal lê-
los como um advogado lê, por exemplo, um decreto legislativo.
Arqueólogos encontraram muitas coleções de lei do
Antigo Oriente Próximo e as semelhanças na forma e
no conteúdo com as leis bíblicas são impressionantes.
Sabemos quando essas leis foram publicadas pelos
seus respectivos reis. Normalmente, isso acontecia
no final do seu reinado, quando o velho rei tentou
estabelecer um monumento (literário) da sua
sabedoria e capacidade jurídica. Sugerindo essa
função para essas coleções faz sentido, já que quase
não foram encontrados qualquer processo judicial
(… e foram encontrados muitos destes documentos)
que citem essas grandes coleções de lei de alguma
maneira. A lei realmente praticada nos tribunais
das cidades era bem diferente das encontradas nas
coleções de lei. O que isso significa para a nossa
leitura das coleções de lei na bíblia? Eu sugiro que as
lêssemos como uma tentativa de definir Deus como
rei no contexto do antigo oriente. Eles pensaram
sobre o rei como o pastor do povo, um líder com
a responsabilidade de cuidar de seu povo, para
Stela do rei Hamurábi da estabelecer a paz interna e externa e as condições
Babilônia (1972-1950).
Acima o deus Marduque
adequadas para o povo prosperar. Neste pano de
está dando ao rei o reinado. fundo, as leis bíblicas nos dizem muito sobre o
Fonte: Wikimedia Commons
caráter de Deus, seus valores e suas atitudes sobre
a sociedade e a humanidade em geral. E tudo de uma forma muito
prática e contextualizada, relevante para a vida cotidiana de Israel.
Finalmente quero escrever um pouco sobre a velha antítese
“lei e evangelho”. Muitos teólogos, especialmente a partir da tradição
reformada, fizeram uma distinção muito drástica e nítida entre os

49
partes “legalistas” da Torá e a mensagem do evangelho do NT. Isso
representa uma leitura completamente deficiente das coleções de lei na
Torá. Podemos encontrar uma melhor compreensão e interpretação
do direito bíblico quando prestamos atenção aos vários gêneros da
Torá.

Para pensar...
O Novo Testamento afirma a validade permanente dos dez
mandamentos para a igreja primitiva (por exemplo, Mt 19,16-
19; Mc 10,17-20; Rm 13,9-10).
Mas eles são praticáveis hoje no Brasil moderno? Se você
fosse o presidente, quais mandamentos tentaria implantar e
quais deixaria de lado? Liste-os em ordem de importância – a
violação de quais você mais duramente penalizaria? Quais são
as diferenças presentes em sua lista e o que isso fala sobre os
valores da sociedade moderna e os valores bíblicos?
Coloque as suas ideias no nosso fórum!

Esses podem ser reduzidos, a grosso modo, a duas formas


básicas: textos narrativos e informativo e textos de ordens,
regulamentos e apelos. Estes dois gêneros não podem ser separados
– eles formam um “tecido” de textos legislativos e narrativos. “... o
Pentateuco possui uma estrutura dialética de história e lei. A “lei”
brota sempre a partir da “história”. De forma paradigmática podemos
depreender essa imbricação dinamizadora de “história” e “lei” (i. é,
do agir e da vontade de Deus) da estrutura dos Dez Mandamentos
bíblicos (Ex 20,2-17 || Dt 5,6-21). Fundamental é a libertação de
Israel do Egito (“história”), citada no começo (Ex 20,2 = Dt 5,6) como
“sentença basilar”. A intenção dos mandamentos e das proibições
(“lei”) que seguem é preservar e comprovar essa liberdade trazida e
desejada por Deus, para que a história da libertação prossiga. De modo
semelhantemente fundamental, o entrelaçamento da revelação de Javé
(o nome próprio de Deus no AT, SK) na história e na sua vontade é
explicado na chamada catequese de crianças em Dt 6,20-25”.4
Com isso, precisamos ter muito cuidado ao falar do judaísmo
ZENGER, Introdução ao Antigo Testamento, 50-51.
4

50 Introdução ao Antigo Testamento


como uma religião legalista: “A obediência à lei, exigida por Israel,
não constitui a fundamentação, mas a comprovação de sua existência
como povo de Deus, bem como a resposta ao amor com que Deus
o amou primeiro. A obediência tampouco produz a salvação, porém
move Deus a redimir Israel com a sua misericórdia.” (Otto Kaiser, Der
Gott des Alten Testaments, 351)
Assim, podemos esboçar a estrutura macro da Torá como
resultado da tensão entre a história (Deus agindo para o seu povo)
e a lei (mostrando a forma como Israel pode realmente viver como é
chamado, como povo de Deus).

A “Torá”, nesse sentido, é mais bem entendida como instrução por


qual o autor pretende ensinar seus leitores a viver realmente o que
eles já são – parte do povo escolhido de Deus. Lendo os evangelhos
do Novo Testamento, chegamos a um propósito muito semelhante
comunicativamente: os evangelhos são projetados para serem “cursos
de discipulado” – para ensinar os seguidores de Jesus como ser parte
desta nova família de Jesus, a igreja.

Referências Bibliográficas

CARDOSO, CIRO FLAMARION SANTANA. Sociedades do antigo


oriente próximo. Serie Principios 47. São Paulo: Editora Atica, 1986.
GERTZ, J.-C. Altbabylonische Polemik im priesterlichen
Schöpfungsbericht? ZThK, v. 106, n. 2, p. 137–155, 2009.
WENHAM, GORDON J. The Pentateuch. Vol. 1. Exploring the Old
Testament. SPCK, 2003.
ZENGER, ERICH. Introdução ao Antigo Testamento. Edições Loyola,
2003.

51
Anotações
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52 Introdução ao Antigo Testamento


Introdução ao Antigo Testamento
Unidade - 06
Levítico e o tema da Torá

Introdução

Vou tentar incluir algumas dicas sobre Levítico,


porque esse certamente é um dos livros com o qual muitos
de vocês têm alguns problemas. Nele podemos ver muito
bem a cosmovisão fundamental por trás da espiritualidade
israelita.
Para finalizar as duas unidades sobre a Torá, veremos
se há um tema principal que reúne esses cinco livros.

Objetivos

Ao final da unidade, o aluno:


1. Pensará sobre os aspetos teológicos no fundo do
culto israelita;
2. Discutirá algumas possibilidades sobre o tema
geral da Torá.

Plano da unidade
• Lutando com Levítico
• O Tema da Torá

53
Para pensar...
O que você acha sobre o cumprimento parcial das promessas
divinas aos patriarcas? Clines está correto ao dizer que na
Torá só se observa um cumprimento parcial das promessas?
Ou podemos encontrar também um cumprimento total ou
áreas onde não há qualquer cumprimento? Observe as quatro
partes das promessas: a terra, os descendentes, a relação entre
o homem e Deus e a benção para as nações. Você seria capaz
de atribuir um “grau do cumprimento” destas quatro áreas da
promessa?

Lutando com Levítico


Mesmo que as crianças judaicas aprendessem a ler usando o livro
de Levítico, nós, modernos, tendemos a ter dificuldades em apreciar
este livro. Isto é muito triste, porque Levítico nos proporciona uma
visão mais profunda da reflexão teológica judaica. Mas ler estas seções
repetitivas sobre sacrifícios bem revoltantes, sobre definições de puro
e impuro e sobre rituais estranhos nos dias especiais não é o favorito
de todos.
Muitos de nós, que crescemos em um contexto completamente
moderno, temos uma aversão inerente a qualquer tipo de ritual. Nós
tendemos a perceber os rituais como irrelevantes, chatos e obsoletos.
Mas – tendo dito isso – é preciso pensar duas vezes: Por que é que você
levanta os braços em louvor? Por que é que algumas pessoas começam
a gritar quando oram ou pregam? Por que é que se põe um rosto
triste quando as pessoas vão a um funeral? Por que é que são pontuais
na escola, mas ao visitar os amigos não? Por que nós perguntamos
“Como está?”, mesmo se não estamos interessados em uma verdadeira
resposta? Por que algumas pessoas se abraçam e outros só recebem um
balanço de cabeça fraco? Esses exemplos são suficientes para perceber
a onipresença do ritual em toda a nossa cultura.
Os antropólogos dizem que os rituais revelam os valores nos
seus níveis mais profundos. E ainda: os rituais são coisas do grupo.
São convenções e, portanto, revelam os valores do grupo. Imaginem
as diferenças entre uma missa católica e um culto pentecostal. Aqui as

54 Introdução ao Antigo Testamento


denominações estão expressando os seus valores fundamentais.
Levítico define os rituais mais importantes do antigo Israel.
Ele fala de sacrifícios, de cerimônias de purificação, do calendário
religioso, dos ritos referente ao nascimento e às práticas funerárias.
Aqui só poderei comentar sobre o sacrifício e alguns aspectos de
pureza e impureza de uma maneira muito geral.
Para leitores modernos, o
sacrifício parece uma forma bizarra
de adoração. Como podemos
entender o que está acontecendo
lá e porque significou tanto para
um piedoso israelita de 3000 anos
atrás? A maioria das pessoas no
antigo Israel tentaram sobreviver da
agricultura de subsistência. A carne
era um luxo raro que só era comido
em grandes festivais ou quando se
Um altar achado em Beersheba, Israel
(I séc. aC). Fonte: Wikimidia Commons
recebia convidados. Oferecer um
sacrifício animal era como servir
uma refeição excelente para um hóspede importante – o próprio
Deus. A presença de Deus foi simbolizada pelo altar e o fogo sobre ele.
Portanto, o sacrifício era um ato de hospitalidade generosa embora
compreenda que Deus realmente não dependa dele para sobreviver
(cf. Sl 50:12-13).
Para uma sociedade camponesa pobre, animais eram sua
poupança de longo prazo. Oferecer o melhor de seus animais
(geralmente necessários para a criação do rebanho) era um ato de
grande generosidade e dedicação. Assim, Levítico muitas vezes define
o sacrifício como “um cheiro suave ao Senhor” (Lv 1:9.13.17 ...).
Em todos os sacrifícios o sangue simboliza a fonte da vida. Esta
vida é simbolicamente devolvida a Deus ao derramar o sangue sobre
ou contra o altar. O sangue – porque é a vida – é puro e, portanto, capaz
de limpar o altar, o santuário, o acampamento e o pecador. Sem essa
limpeza, Deus não seria capaz de morar com o povo. O sangue funciona
como limpador, tornando possível a comunhão contínua entre Deus
e Israel. O altar pode ser entendido como um mediador entre Deus

55
e o homem. Assim, os sacerdotes (ou Moisés) representam Deus ao
homem e o homem a Deus. Limpar o altar com o sangue sacrificial
significa que, ao mesmo tempo, a pessoa, que oferece o sacrifício é
representada diante de Deus junto ao altar, e também é lavada no altar.
Assim, neste mundo conceitual, a limpeza é intimamente ligada ao
perdão e, portanto, à restituição da comunhão com Deus.
Isso nos leva à questão da pureza e impureza. Esses conceitos têm
muito pouco a ver com a higiene, e muito mais com uma expressão
metafórica da religião. Para o israelita todo o cosmos é estruturado
por princípios de pureza e impureza. Isso é muito difícil de entender
a partir de uma perspectiva moderna. Para Israel o mundo inteiro
é estruturado através das linhas de pureza: tempo, espaço, pessoas
e coisas. Há coisas, pessoas, tempos e espaços (por exemplo, as
ferramentas no templo) que são muito intimamente relacionados com
Deus, o sumo-sagrado, assim eles são “muito santos”. O resto do mundo
e do tempo é menos santo. Então, os sacerdotes têm de atingir padrões
mais elevados de santidade que os levitas e os israelitas comuns. Um
passo mais à frente (em termos de distância a Deus) estão os pagãos. A
mesma hierarquia existe com respeito a lugares: o templo de Jerusalém
em si mesmo tem vários níveis de santidade (o santo dos santos – as
várias praças), mas também a terra de Israel é percebida como “terra
santa”. Agora, nos tempos depois da Páscoa, as coisas são diferentes:
Todo o mundo é a terra de Deus – isso já é uma antecipação da nova
criação, que um dia Deus vai estabelecer.
Qual é a lógica por trás da
diferenciação do mundo em santo
e profano, puro e impuro? Muitas
ideias têm sido propostas, algumas
delas mais sensatas do que outras.
Com certeza não cabe definir a pureza
através de ideias nutricionistas modernas. Um bom lugar para começar
seria a consciência da natureza de linguagem metafórica e simbólica.
Para Israel, tudo o que simbolicamente reflete Deus como o doador
da vida perfeita é puro. Assim, qualquer deficiência, como doenças
de pele ou ferimentos, tornarão uma pessoa impura. Certos animais
são “normais” (como os peixes com escamas ou animais com unhas

56 Introdução ao Antigo Testamento


fendidas) –, enquanto outros são “menos normais” e, portanto, são
impuros por definição (como os peixes sem escamas ou répteis, que
não vivem na água, mas têm escamas). A pior forma de impureza é
a morte. Assim, os sacerdotes não devem tocar os cadáveres. Aves de
rapina são associadas com a morte. Quanto aos porcos, basta olhar para
o que eles comem! Observe que estas definições são muito subjetivas
e dependem fortemente do horizonte israelita da agricultura e da sua
localização geográfica. Deus é o Deus da vida e, portanto, as únicas
coisas que refletem perfeitamente essa abundância de vida podem ser
intimamente relacionadas a Ele. Pensando em Jesus – Ele é a vida em
pessoa. Sua santidade é tão perfeita, que “contamina” a impureza de
todos nós e assim nos torna aptos para estar na presença de Deus. O
que isso significa para a sua própria santidade, vou deixar para você
decidir.
O Tema da Torá
Lendo os cinco livros da Torá – qual é seu tema unificador? Esta
é uma questão relativamente recente em estudos bíblicos. Em 1978,
David Clines escreveu seu livro influente “O Tema do Pentateuco”. Ele
afirmou que na perspectiva do processo histórico referente à origem
literária desses livros (uma coisa que quase todos os estudiosos da
Bíblia acharam de suma importância à interpretação bíblica) não
ajudou muito. Temos que ler o resultado final deste processo – o
texto como veio a nós. E ao ler isto, podemos começar a entender o
ponto principal que o autor ou os autores quiseram transmitir aos seus
leitores através do contar a sua história. Esta não é uma tarefa fácil,
mas ajudará em nossa discussão sobre o gênero do Pentateuco. Acima
falávamos sobre a dialética “lei e narrativa”. Ambas caminham juntas
como fios em um tecido e, assim, criou uma nova coisa que os judeus
chamavam “Torá”. Torá é muito mais do que “lei”. Podemos traduzir
melhor: Torá é ensino. Este é o objetivo comunicativo do Pentateuco:
ensinar através de história e através de instruções sobre… Mas qual é
o conteúdo do ensino? Isto irá definir o tema dos livros.
Podemos tomar nosso início com a sugestão de Clines: O tema
do Pentateuco é o cumprimento parcial – o que implica também a não-
realização – da promessa ou da bênção dos patriarcas (Gn 12:1-3). A

57
promessa ou a bênção é tanto a iniciativa divina em um mundo onde as
iniciativas humanas provocam sempre o desastre como uma reafirmação
das intenções divinas primordiais para o homem.1
Não podemos só observar como este tema é verdadeiro referente
a Torá em sua totalidade, mas também como esse tema é desenvolvido
nas partes constituintes – basta olhar para as histórias de Abraão, ou
a história do bezerro de ouro. Note-se também como Clines inclui
Gênesis 1-11 em seu tema! Este tema pode ajudar bastante na nossa
leitura dos primeiros cinco livros da Bíblia.
A Torá abre o caminho à literatura bíblica e estabelece a base da
cosmovisão bíblica. Mas ela continua a ser um livro sem conclusão.
Assim, nós, como leitores, estamos ansiosos para aprender mais sobre
como tudo se desenrola e como veio até o lugar onde estamos hoje.

Referências Bibliográficas

BECKWITH, ROGER T., MARTIN J. SELMAN, eds. Sacrifice in the Bible.


Wipf & Stock Publishers, 1995.
CARDOSO, CIRO FLAMARION SANTANA. Sociedades do antigo
oriente próximo. Serie Principios 47. São Paulo: Editora Atica, 1986.
CLINES, DAVID J. A. The Theme of the Pentateuch. Sheffield: JSOT Press,
1978.
DOUGLAS, MARY. Implicit meanings: Selected Essays in Anthropology.
Routledge, 1975.
———. Pureza e Perigo. Translated by Sónia Pereira da Silva. Perspectivas
do homem 39. Lisboa: Edições 70, 1991.
———. Purity and Danger: An Analysis of Concepts of Pollution and
Taboo. Routledge, 1966.
JENSON, PHILIP PETER. Graded holiness: A Key to the Priestly Conception
of the World. JSOT Press, 1992.
WENHAM, GORDON J. The Pentateuch. Vol. 1. Exploring the Old
Testament. SPCK, 2003.
ZENGER, ERICH. Introdução ao Antigo Testamento. Edições Loyola,
2003.
DAVID J. A. CLINES, The Theme of the Pentateuch (Sheffield: JSOT Press, 1978), 29.
1

58 Introdução ao Antigo Testamento


Introdução ao Antigo Testamento
Unidade - 07
Os livros históricos

Introdução

Como observamos em nossa primeira unidade, o


cânon do AT tem várias partes. Já falamos sobre a Torá
e descobrimos que essa parte é o fundamento do AT.
Nessa unidade quero introduzir mais uma das seções do
AT, os livros históricos. Eles apresentam, naturalmente,
principalmente narrativas. Eu vou usar o termo “histórias”
para significar “livros históricos do AT” – será mais breve.
Devido aos muitos capítulos abrangidos por estes
livros, não posso ir a qualquer detalhe sobre o conteúdo
real dos mesmos. Em vez disso, vou me concentrar nos
grandes temas e assuntos gerais, porque nós vamos cobrir
alguns aspectos dos livros históricos mais tarde no curso,
quando falarmos sobre a história de Israel.
Uma perspectiva interessante vem do A. Ceresko. Ele
introduz duas dimensões libertadoras na Bíblia:
“As tradições históricas de Israel falam da luta pela
criação de uma comunidade humana livre do domínio e da
exploração, uma sociedade em que os homens e mulheres
viviam juntos como irmãos e irmãs sob o regime justo e
amoroso de Deus. Essas tradições históricas destacam
uma libertação política e socioeconômica. De outro lado,
os escritos sapienciais constituem um esforço em favor da
libertação pessoal, uma libertação que livra os indivíduos
das fontes psíquicas da servidão pessoal ou social – a
ambição, a luxúria ou um orgulho e uma agressividade
desmesurados, por exemplo”.1
Sobre estes livros sapienciais vamos estudar mais na
próxima unidade.
1
Anthony R. Ceresko, A Sabedoria no Antigo Testamento. Espiritualidade Libertadora (São Paulo:
Paulus, 2004), 11-12.

59
Objetivos
Ao final da unidade, o aluno:
1. Refletirá sobre a diferença entre história e
historiografia;
2. Descobrirá os vários níveis de leitura das histórias.

Plano da unidade
• O Gênero das Histórias
• Visão panorâmica das histórias

O Gênero das Histórias


Gostaria de salientar que, nesta unidade, vou apenas concentrar-
me nos livros históricos do AT como literatura. Vamos rever os
acontecimentos históricos que foram gravados nesses livros nas
unidades 9 e 10.
Nós precisamos fazer uma distinção importante entre história e
historiografia. História são fatos reais lembrados por uma comunidade
ou indivíduos. Algumas coisas são omitidas a partir desta memória e
outras sobrevivem séculos sem serem esquecidas. História é passado e
não reproduzível. Nós só podemos falar sobre história.
Por outro lado, podemos escrever sobre história. O resultado
de escrever sobre a história é então chamado historiografia - uma
narração de eventos passados a partir de uma perspectiva específica.
Esta última frase é muito, muito importante. Precisamos manter isso
em mente ao ler os livros históricos da Bíblia, assim como durante a
leitura de qualquer outra historiografia, antiga ou moderna.
Em seguida estão algumas implicações importantes deste gênero:
• Historiografia é necessariamente seletiva, não podemos gravar
tudo o que aconteceu.
• Historiografia está necessariamente vinculada a certo ponto de
vista, não podemos registrar a história de forma objetiva.

60 Introdução ao Antigo Testamento


• Todo o registro da nossa história é movido por determinados
interesses e uma série de pressupostos que poderiam ser conscientes,
mas muitas vezes não são.
• Historiografia é escrita intencionalmente: os autores querem
influenciar o pensamento e a conduta de seus contemporâneos.

“Omri foi rei de Judá”, Mesha Stele (ca. 852-841 aC) - Fonte: Wikimidia Commons

• Historiografia bíblica está amplamente tomando notas de


muitas coisas comuns, tais como projetos de construção ou conflitos
tribais, mas também coisas como conversas particulares e até mesmo
relatos de sentimentos (a sua qualidade literária).
• Além disso, a historiografia bíblica reflete opiniões teológicas.
Isto pode ser visto muito bem no entendimento das histórias sobre
causalidade: Os atos de Yhwh de graça ou de juízo geral, determinam
a sequência dos acontecimentos.
• Por fim, a historiografia bíblica é praticamente anônima. Isto
é particularmente estranho para nós. Como nós gostamos de receber
todo o crédito por aquilo que produzimos. Mas temos que aceitar o
fato da anonímia e, portanto, sermos cuidadosos ao criar qualquer
especulação ou adivinhação nesta área.
Muitas coisas mais poderiam ser ditas sobre o assunto, mas você
já entendeu a ideia geral: historiografia é literatura em seu sentido
mais amplo.1
Em seguida, vou apresentar uma visão geral das histórias. Depois
quero dar a minha resposta para a nossa pergunta introdutória (sobre
Sansão). Finalmente vou acrescentar alguns aspectos sobre a ética
refletida nas histórias.
1
Assim, todos os livros do AT são literatura e, como tal, querem comunicar certas coisas para os seus
leitores propostos. Há um trabalho brilhante na crítica literária da Bíblia por Meir Sternberg (The
Poetics of Biblical Narrative. Bloomington: Indiana University Press, 1985), que tenta descobrir a
forma como trabalha a narrativa bíblica. Se for possível, sugiro que leia este volume. Você vai ficar
fascinado novamente pelas narrativas bíblicas e pela leitura com “outros olhos” em sintonia com a
Bíblia e apreciará a sua qualidade literária.

61
Visão panorâmica das histórias2
Como estão na Bíblia hoje, as histórias formam a continuação
da narrativa iniciada no Pentateuco. O Pentateuco descreve a criação
do mundo e os primórdios da história humana e, em seguida, em
sua maior parte, enfoca as relações do criador com o povo de Israel.
Deus compromete-se com Israel por aliança e lhes dá um chamado,
de trazer a bênção para as nações do mundo. Deuteronômio, o último
livro do Pentateuco, termina com Israel prestes a entrar em Canaã,
a terra que Deus prometeu dar-lhes como território nacional. Neste
ponto, as histórias começam.
Josué descreve a conquista de Israel sobre Canaã sob a liderança
de Josué, e a divisão de Canaã e partes da Cisjordânia (a terra ao leste
do rio Jordão) entre as 12 tribos de Israel. Os próximos capítulos de
Josué demonstram que até o final da vida de Josué os israelitas ainda
não tomaram posse completa de Canaã.
Em Juízes, a geração posterior a de Josué não completou a
conquista de Canaã. Segue-se um longo período de infidelidade
religiosa e de instabilidade política. Líderes (juízes) surgem, mas
apenas trazem alívio temporário. O livro termina com Israel ainda
sem a plena posse das terras.
Rute é situada no período dos juízes. Rute, uma mulher moabita,
adentrou a uma família israelita, trazendo bênção para si mesma e aos
outros. Ela é uma ancestral de Davi, futuro rei de Israel.
Samuel é o último dos juízes de Israel, mas os livros de Samuel, em
homenagem a ele, descrevem os primórdios da monarquia em Israel.
O reinado de Saul, primeiro rei de Israel, termina em desastre. Mas
Davi emerge como o sucessor de Saul e conclui a conquista de Canaã
ao tomar Jerusalém. Ele derrota ou faz alianças com nações vizinhas,
trazendo estabilidade. Durante os últimos anos do seu reinado, ele
tem de superar uma rebelião liderada por seu filho Absalão.
Os livros dos Reis descrevem o reinado de Salomão, filho de Davi,
que constrói um templo para YHWH, em Jerusalém. Após sua morte,
seu único reino se divide nos reinos do norte, Israel e o do sul, Judá. O
2
Este sumário foi traduzido de Philip E. Satterthwaite and J. Gordon McConville, A Guide to the
Historical Books, vol. 2, Exploring the Old Testament (InterVarsity Press, 2007), 1-3.

62 Introdução ao Antigo Testamento


restante de Reis descreve o declínio gradual dos dois reinos. O autor
atribui este declínio à infidelidade religiosa. Os assírios destroem o
reino do norte e levam os sobreviventes ao exílio. Algumas gerações
depois, os babilônios fazem o mesmo com o reino do sul. Jerusalém e
o templo são destruídos.
Os livros das Crônicas seletivamente recontam a narrativa que
atravessa todos os livros já mencionados. As genealogias em I Crônicas
1-9 remontam a Adão, ou seja, até o início do Pentateuco, mas a maior
parte das Crônicas corre paralela a Samuel e Reis. Há, no entanto,
muitas omissões e acréscimos em relação a Samuel e Reis, e muitas
diferenças de ênfase. Os últimos versos de II Crônicas descrevem
como o rei persa Ciro, que tinha conquistado a Babilônia, promulgou
um decreto que permitiu a sobrevivência do reino do sul e o retorno
de seus descendentes do exílio.
Os livros de Esdras e Neemias, em homenagem a dois líderes
no período pós-exílico, tomam o decreto de Ciro como seu ponto
de partida. Eles descrevem
o regresso de grupos
sucessivos da Babilônia para
o antigo território de Judá,
a reconstrução do templo e
dos muros de Jerusalém, e o
regulamento da comunidade
restaurada em Judá, com base
na lei de Moisés.
O livro de Ester tem sua
narrativa localizada na Pérsia,
no período pós-exílico. Este
livro também descreve o que
aconteceu aos descendentes
Boaz e Rute (Welser Bibel, sec. XIV) dos antigos cidadãos de Judá,
Fonte: Wikimidia Commons
mas centra-se sobre os judeus (o
termo começa a ser usado em Neemias e Ester), que não retornaram.
Ester e Mordecai, dois judeus que se envolveram com as obras da corte
persa, conseguiram evitar uma ameaça de todo o império persa para
os judeus.

63
Referências Bibliográficas

BARTON, JOHN. Understanding Old Testament Ethics: Approaches and


Explorations. Louisville: Westminster John Knox Press, 2003.
CERESKO, ANTHONY R. A Sabedoria no Antigo Testamento.
Espiritualidade Libertadora. São Paulo: Paulus, 2004.
SATTERTHWAITE, PHILIP E., and J. GORDON MCCONVILLE. A Guide
to the Historical Books. Vol. 2. Exploring the Old Testament. InterVarsity
Press, 2007.
WENHAM, GORDON J. Story as Torah: Reading Old Testament Narrative
Ethically. Grand Rapids: Baker Academic, 2000.
WRIGHT, CHRISTOPHER J. H. Old Testament Ethics for the People of
God. Downers Grove: Inter-Varsity Press, 2004.

64 Introdução ao Antigo Testamento


Introdução ao Antigo Testamento
Unidade - 08
A natureza da narrativa bíblica e a ética dos
textos históricos

Introdução

Antes de continuamos, quero que vocês reflitam sobre


a seguinte questão: Como você explicaria o fato de Sansão
perder sua força quando seu cabelo foi cortado (Jz 16:16-
21; cf. 13:5) e recuperá-la quando seu cabelo cresce de volta
(16:22, 28-31)? Esta questão é uma questão real – não quero
deixar vocês chocados ou semear dúvidas em vocês sobre
a Bíblia. Este texto é, evidentemente, extremista, mas gera
questões que fazem parte da nossa luta com as narrativas
do Antigo Testamento.
Outra área interessante é a visão ética das narrativas
do AT. Será que tudo o que Abraão, Davi e Elias fizeram
em suas vidas foi exemplar, só porque eles são os heróis da
bíblia?

Objetivos

Ao final da unidade, o aluno:


1. Terá lido sobre a interpretação de uma narrativa
exemplar;

2. Ficará atento para as dificuldades de descobrir a


ética das histórias.

65
Plano da unidade
• Sansão – uma narrativa simbólica
• A Ética das Histórias

Sansão – uma narrativa simbólica1


Sempre tive minhas dificuldades com essa narrativa. Quando
era criança achei legal – um homem, quase um super-homem, que
estava fazendo coisas grandes para o povo de Deus. Mas já parecia
um pouco estranho que a força dele dependesse do comprimento dos
seus cabelos. Parece muito estranho, especialmente porque a Bíblia
normalmente não utiliza tais conceitos, quase mágicos, para explicar
eventos. Ao ler essa passagem com um pouco mais de atenção, ainda
mais coisas acabam sendo bastante estranhas. Na tragicomédia Sansão
é uma figura bastante alarmante. Juízes 13 suscita grandes esperanças
quanto ao seu papel como libertador (13:5), mas logo podemos
observar como Sansão fez tudo terrivelmente errado – praticamente
o tempo todo. Ele era um nazireu (uma pessoa separada para ser mais
santa, cf. Nm 6:18-20), mas contaminou-se grosseiramente comendo
mel silvestre da carcaça de um leão, tocando os ossos de burro morto,
casando com uma mulher filisteia (estrangeira – Dt 7:3-4), uma vez que
os filisteus eram a principal ameaça principal a Israel neste momento,
não sendo motivado por uma preocupação com o seu povo, mas por
um desejo sexual e conduzido por uma dívida pessoal a sua própria
honra e, finalmente, terminando sua vida com um ato de vingança
pessoal. Por conseguinte, o autor de Juízes não termina sua narrativa
com a fórmula habitual de paz, com a qual ele termina quase todos os
outros ciclos do seu livro.
Assim como as outras narrativas, você pode lê-la em vários níveis.
Não é muito difícil interpretar a história de Sansão no nível biográfico:
Você observa um líder escolhido por Deus que se comporta mal e colhe
o que plantou. Pode-se aprender muito sobre santidade e integridade
pessoal, mas existem algumas dificuldades, alguns aspectos da história
1
Se refere a Gordon J. Wenham, Story as Torah: reading Old Testament narrative ethically (Grand
Rapids: Baker Academic, 2000), 52; Se refere a Satterthwaite and McConville, A Guide to the
Historical Books, 2:87-88.

66 Introdução ao Antigo Testamento


permanecem quase irreais: Sansão brincando com os líderes dos
filisteus deliberadamente, colocando-se em risco para demonstrar a
sua força (Jz 16). Também encontramos alguns elementos dos contos
folclóricos: uma mulher estéril dando à luz (13); charadas (14) e, como
já observamos, a força mágica (16). Esta é uma narrativa que, pela sua
estranheza, sugere que não se pode ler simplesmente pelo seu valor
literal, mas sim como uma espécie de parábola da posição de Israel em
frente de Yhwh: Israel compromete a sua vocação divina, comete erros,
encontra-se em situações difíceis, é resgatado por Deus e, em seguida, é
aparentemente negligenciado, mas por fim não é abandonado. Assim,
Sansão pode ser visto como simbólico para Israel.
Aqui nós observamos como uma narrativa sobre um personagem
histórico pode ser usado para obter uma mensagem que vai muito
além de informar sobre os acontecimentos passados. A técnica de
composição para apontar o leitor a este nível de leitura é, neste caso,
colocar algumas situações fora do comum. E lembre-se sempre:
os israelitas antigos não eram tão bobos assim: Normalmente força
não é relacionada a cabelos; e normalmente colunas não podem ser
destruídas com a força de um homem.
Juízes destaca a loucura de Israel estar propenso a negar a Deus
durante todo o tempo. Assim, a insistência do autor na história de
Sansão e no controle de Deus sobre o destino de Israel reforça a
mensagem central teológica e ética dos juízes: fidelidade total a
Deus é indispensável. Se as pessoas apenas reconhecessem que Deus
controlava os assuntos humanos, eles não dariam a sua fidelidade a
qualquer outro.
A Ética das Histórias
Lendo a história, por vezes, admiramo-nos sobre a ética das
pessoas envolvidas ou sobre o que Deus, aparentemente, aceita como
um comportamento ético. Basta pensar sobre as atitudes dos patriarcas
em Gênesis e as histórias revoltantes em Juízes, ou as guerras em Josué.
Ou os métodos questionáveis de David. Você certamente será capaz
de acrescentar coisas novas a essa lista. Parece não ser totalmente
estranho que muitas pessoas hoje em dia tendem a rejeitar o AT por
estes motivos. Como eles podem aceitar um livro como normativo que

67
aprova um comportamento aparentemente muito questionável – e, às
vezes, até exige isso?
O processo de deduzir a ética dos autores das histórias é bastante
difícil. É realmente bom tudo o que Abraão fez? Será que o fato de
ser o rei escolhido por Deus permitia a Davi agir da forma que agiu?
Será que o autor de Josué realmente aprovou o genocídio que Israel
realizou no processo de conquista de Canaã? Precisamos ter cuidado,
uma série de estudos têm surgido para nos guiar nesse caminho:2
• Precisamos ter uma perspectiva histórica: textos de épocas
diferentes podem ter pontos de vista diferentes e, sendo assim, podem
diferir de nossos tempos.
• Temos que tentar discernir o relatório das ações e os ideais
subjacentes.
• Precisamos estar atentos à avaliação literária de eventos e
até mesmo à falta dela. Muitas vezes os autores bíblicos dão o seu
veredicto nas entrelinhas, por exemplo, a maneira que um personagem
se desenvolveu, ou o fato de um autor simplesmente ficar em silêncio
sobre determinados resultados ou reações.
• Nós também precisamos estar cientes do fato de que, por vezes,
nós, como seres humanos, tendemos a fazer outras coisas que Deus
tem nos destinado inicialmente.
A questão da ética no AT nunca será fácil e difícil ao mesmo
tempo, especialmente nas histórias. Mas, ao mesmo tempo em que
estamos tendo bastante cuidado para não lermos esses textos de forma
muito plana, começamos a descobrir muitas informações valiosas
sobre o comportamento humano e como lidar com ele de uma forma
fiel à complexidade do mundo. Em nossa vida real raramente há um
preto e um branco. Muitas vezes tentamos nos orientar em uma névoa
cinzenta. Isso não era diferente nos tempos antigos. Precisamos ter os
olhos fixados em Deus e em seguida, tentar explorar a vida a partir do
ponto de vista do amor e da justiça.
2
Por exemplo John Barton, Understanding Old Testament Ethics: Approaches and Explorations
(Louisville: Westminster John Knox Press, 2003); Wenham, Story as Torah: reading Old Testament
narrative ethically; Christopher J. H. Wright, Old Testament Ethics for the People of God (Downers
Grove: Inter-Varsity Press, 2004).

68 Introdução ao Antigo Testamento


Referências Bibliográficas

BARTON, JOHN. Understanding Old Testament Ethics: Approaches and


Explorations. Louisville: Westminster John Knox Press, 2003.
CERESKO, ANTHONY R. A Sabedoria no Antigo Testamento.
Espiritualidade Libertadora. São Paulo: Paulus, 2004.
SATTERTHWAITE, PHILIP E., and J. GORDON MCCONVILLE. A Guide
to the Historical Books. Vol. 2. Exploring the Old Testament. InterVarsity
Press, 2007.
WENHAM, GORDON J. Story as Torah: Reading Old Testament Narrative
Ethically. Grand Rapids: Baker Academic, 2000.
WRIGHT, CHRISTOPHER J. H. Old Testament Ethics for the People of
God. Downers Grove: Inter-Varsity Press, 2004.

69
Anotações
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70 Introdução ao Antigo Testamento


Introdução ao Antigo Testamento
Unidade - 09
A literatura sapiencial

Introdução

Os livros sapienciais são um grupo de livros que são


principalmente diferenciados em razão dos seus gêneros
literários: eles usam uma linguagem mais poética e são
unificados por uma perspectiva da vida mais filosófica.
De novo, vou me concentrar nos grandes temas e
assuntos gerais. Quero te lembrar da citação de A. Ceresko
na apresentação da unidade 4. Você se lembra das duas
dimensões libertadoras na Bíblia: “As tradições históricas
de Israel falam da luta pela criação de uma comunidade
humana livre do domínio e da exploração, uma sociedade
em que os homens e mulheres viviam juntos como irmãos
e irmãs sob o regime justo e amoroso de Deus. Essas
tradições históricas destacam uma libertação política e
socioeconômica. De outro lado, os escritos sapienciais
constituem um esforço em favor da libertação pessoal, uma
libertação que livra os indivíduos das fontes psíquicas da
servidão pessoal ou social – a ambição, a luxúria ou um
orgulho e uma agressividade desmesurados, por exemplo”.1
O projeto dos livros sapienciais consiste em levar o
indivíduo a se tornar ser humano maduro, capaz de amar
e ser amado.

Para pensar...
O que significa o termo “sabedoria” hoje? Como é que o
relacionamos a conhecimento, compreensão, inteligência,
experiência?

1
Anthony R. Ceresko, A Sabedoria no Antigo Testamento. Espiritualidade Libertadora (São Paulo:
Paulus, 2004), 11-12.

71
Dentro da Bíblia hebraica há três livros (Jó, Provérbios
e Eclesiastes) que, apesar das suas diferenças, têm muito em
comum. Portanto, os acadêmicos passaram a considerá-los
como representantes de um tipo distinto de literatura. O que
estes três livros têm em comum é que eles estão preocupados
com a sabedoria. Se você usar uma concordância e pesquisar
a palavra, você encontrará que a “sabedoria” (ou os seus
cognatos) aparecem com relativa frequência. Abaixo quero
escrever um pouco sobre o fenômeno “sabedoria” e depois
vou introduzir o livro de Provérbios. Os outros dois livros
sapienciais têm uma perspectiva diferente e muito mais
pessimista. Vou comparar essas duas perspectivas no final
dessa unidade.2

Objetivos

Ao final da unidade, o aluno:


1. Poderá relacionar os vários livros sapienciais entre
eles;
2. Poderá apontar as diferenças teológicas entre os
livros sapienciais.

Plano da unidade
• Sabedoria – a experiência humana
• Provérbios – “O mundo funciona assim...”

2
Talvez você esteja à espera de algumas anotações sobre Cantares. Este livro é ainda mais ligado com
poesia – então vou tratá-lo na unidade sobre Salmos.

72 Introdução ao Antigo Testamento


Sabedoria – a experiência humana3
A sabedoria é uma abordagem à realidade que pode ser descrita
nos seguintes pontos de vista:
• Humanista: ela se preocupa com o que é bom para o homem e
a mulher;
• Experiencial: ela está enraizada em uma observação cuidadosa
da vida, do comportamento humano e da natureza;
• Prático: ela usa a teoria para dar conselhos em situações da vida
real
• Menos ligada a muitas coisas que normalmente são vistas
como peculiarmente israelitas: Não há nenhuma menção dos grandes
momentos da história de Israel, da aliança do Sinai ou da aliança com
Davi. O templo, o seu sistema de sacrifícios
e o calendário das festas quase não são
mencionados. Nem o sacerdote nem o
profeta recebem menção ao lado do “sábio”
e do tolo.
Uma árvore com raízes fortes, um símbolo judaico da sabedoria.
Fonte: Wikimidia Commons

Sidelight..
Em outras partes do Antigo Testamento, a palavra hebraica
para sabedoria “hokmah” significa algo como “habilidade”: o
conhecimento prático em qualquer esfera, desde o artesão até
o político. Mas em P hokmah é sempre habilidade de viver: a
capacidade do indivíduo conduzir sua vida da melhor forma
possível (Cf. Whybray, Proverbs, NCB, London: 1994, 4).

3
Usei muito o livro de Ernest C. Lucas, A Guide to the Psalms & Wisdom Literature, Exploring the
Old Testament, Volume 3 (InterVarsity Press, 2003), 79-115.

73
Sugestão...
Use uma concordância para estudar os temas abaixo no livro de
Provérbios. “Desenhe” um retrato dessas diferenças de caráter:
1. o mentiroso
2. o homem perverso
3. o mexeriqueiro
4. o bajulador
5. o escarnecedor
6. o justo e o mal
7. o sábio e o tolo
8. o uso sábio das palavras

Por que não preparar um estudo bíblico sobre estes temas para
sua comunidade?

Ao lermos os livros bíblicos que são bastante diferentes das


nossas convenções literárias, é sempre muito útil olhar para mais
longe e encontrar um texto que nos ajude a entendê-los no seu próprio
contexto. E, de fato, descobrimos que Jó, Provérbios e Eclesiastes
não são únicos dentro do corpus da literatura judaica antiga ou na
literatura de todo o mundo do Antigo Oriente. Há dois livros apócrifos
ou deuterocanônicos que podem ser classificados como literatura
sapiencial: Jesus Ben Sirá (ou Eclesiástico; do sec. II a.C.) e Sabedoria
de Salomão (sec. I a.C.). Estes dois livros nos mostram como as ideias e
os temas encontrados na literatura sapiencial da Bíblia Hebraica foram
recebidos e desenvolvidos entre os judeus da Palestina (Ben Sirá) e
entre os greco-judeus da diáspora de língua grega (Sabedoria).
Uma boa parte da literatura que sobreviveu desde o antigo
Egito e Mesopotâmia chegou a ser chamada de “literatura sapiencial”,
devido a sua comparabilidade com a sabedoria bíblica. Há uma maior
diversidade entre os textos que entre os três livros bíblicos, e eles
claramente ostentam a marca distintiva das suas próprias culturas.
Isso leva alguns estudiosos a hesitar em dar-lhes o rótulo de “literatura
sapiencial”. No entanto, apesar da sua diversidade, para a maioria

74 Introdução ao Antigo Testamento


dos estudiosos estes textos do Egito, Israel e Mesopotâmia ainda
têm bastante em comum, logo, são razoavelmente condizentes a essa
classificação. Enquanto o material egípcio e mesopotâmico for usado
com cuidado, encontraremos nele um contexto mais amplo dentro do
qual poderemos compreender os livros bíblicos. Claro que há debates
acadêmicos sobre quem copiou de quem, ou onde essa literatura tem
a sua Sitz im Leben (lugar vivencial) na sociedade israelita antiga.
Isso não deve nos perturbar. Podemos assumir seguramente que a
sabedoria israelita era decorrente da experiência das pessoas comuns.
Essas experiências foram transmitidas informalmente, provavelmente
em um contexto familiar. No entanto, isso não exclui a possibilidade
de receber influência de fora de Israel. Especialmente no contexto
da educação formal e do contexto régio. É muito provável que
encontremos os resultados de todos esses processos na literatura da
sabedoria bíblica.
Não surpreendentemente, nós realmente podemos encontrar
exemplos de literatura sapiencial em quase todas as sociedades
humanas. Muitas vezes, a sabedoria é transmitida oralmente por
ditos curtos e frases que resumem regras para viver em um mundo
complexo, observando o mundo, comparando eventos e raciocinando
para levar à sabedoria. É teologicamente significativo que a sabedoria
judaica sempre aceite como base o conhecimento de Deus como
criador, que ordenou o seu mundo. Esta ordem deve ser reconhecida:
“O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do
santo a prudência” (Pv 9:10).

Para pensar...
Leia o “prólogo” do livro de Provérbios (Pv 1:2-6) com a
declaração sobre a finalidade do livro. Você pode pensar em
qualquer forma moderna comparável a essa “literatura de
sabedoria”?

Coloque no fórum as suas ideias!

75
Nos livros sapienciais da Bíblia, o conceito “sabedoria” não
significa inteligência ou sabedoria intelectual, mas a capacidade de
gerenciar a vida cotidiana. Essa habilidade é baseada na observação
dos processos sempre repetidos da vida e das relações de reflexão e
transferência dessas experiências.

Provérbios – “O mundo funciona assim...”


Provérbios, na sua perspectiva sapiencial da vida, é bastante
otimista de que o mundo tem uma lógica de bom funcionamento
e que o povo sábio pode descobrir isso. Assume-se que o mundo
está em um equilíbrio de forças, equilíbrio garantido por Deus. O
mundo não é irracional, é reconhecível e confiável. O homem bom
encontra o sucesso e reconhecimento, o homem mau tropeça em sua
própria impiedade e será punido. Cada ato está sendo seguido por um
pronunciamento de reciprocidade. Essa relação é chamada a relação
de ato-consequência e Provérbios tem em grande estima esta relação.
O propósito do livro de Provérbios é fornecer instrução para
um viver bem-sucedido. Sendo assim, é um livro pedagógico que foca
a educação. Nesse contexto educativo, Provérbios lida menos com a
recompensa e punição, e se concentra mais nas consequências naturais
de um ato. Esta é a mensagem de sabedoria: Vale a pena fazer o bem, e
deixar o mal. Em seguida, irá correr bem para você.
Naturalmente, essa relação de ato-consequência
tem seus limites. Já os contribuintes de Provérbios
revelam que eles têm uma visão mais nuançada da
realidade. Assim, a pobreza pode também ser o
resultado de injustiça (13:23) e não de preguiça (10:4).
Injustiça também pode levar à riqueza (16:8). Veja
também essa introspecção bem profunda: Os passos do
homem são dirigidos pelo Senhor; como, pois, entenderá
Homem - sec. VIII a.C o homem o seu caminho? (20:24). Aceitamos nossos
.(Kuntillet ‘Ağrūd)
limites humanos – isso é realismo.
Nem sempre (talvez raramente) a colheita de uma boa semente
é tão boa quanto era de esperar. Os limites deste tipo de sabedoria são
alcançados quando você começa a deduzir a ação da consequência:

76 Introdução ao Antigo Testamento


“Quem é rico é sábio e justo.”, “Quando você é pobre, você deve ter
sido preguiçoso, caso contrário não seria pobre”; “Qualquer pessoa
que está doente ou sofrendo, deve ser
culpado de alguma coisa. A doença é
o resultado de mau comportamento”.
Isso não é sabedoria – é uma filosofia
sem amor da classe média que alcançou
prosperidade. Portanto, tenha cuidado:
a lógica da relação de ato-consequência
funciona em uma direção só! Isto é o
que descobrimos ao ler os livros de Jó e
Eclesiastes.
Mas antes de nos preocupamos
Pedagogia
(imagem de um livro da idade média)
com esses livros mais pessimistas, eu
gostaria de levantar algumas questões
sobre a literatura e teologia de Provérbios.
O que é um provérbio?
Eles não são tão fáceis de definir, mas podemos observar o
seguinte:
• Um provérbio é breve.
• Um provérbio é baseado na experiência.
• Um provérbio muitas vezes surge da observação cuidadosa da
vida e do mundo.
• Um provérbio é expressado de forma memorável.
• Um provérbio pretende apresentar uma visão valiosa.
Assim, podemos dizer: um provérbio bíblico é uma reflexão
sobre a vida cristalizada em uma frase breve e memorável.
Algumas coisas não devem ser esquecidas: Em primeiro lugar,
uma única frase sapiencial carece de contexto. Este contexto deve
ser elaborado pelo leitor. Isso é exatamente o que faz um provérbio
tão atraente por um lado, mas por outro lado, às vezes, de difícil
compreensão. Quando temos consciência disso, os dois provérbios
“opostos” fazem muito sentido:
“Não respondas ao tolo segundo a sua estultícia; para que
também não te faças semelhante a ele. Responde ao tolo segundo
a sua estultícia, para que não seja sábio aos seus próprios olhos”
(Pv 26:4-5).

77
Muitos provérbios bíblicos são simplesmente observações “do
jeito que está” e não contém qualquer avaliação explícita. Não devemos
simplesmente assumir que a declaração de uma realidade significa a
sua aprovação. Compare o seguinte:
“O presente é, aos olhos dos que o recebem, como pedra preciosa;
para onde quer que se volte servirá de proveito” (17:8).
“O ímpio toma presentes em secreto para perverter as veredas da
justiça” (17:23).
Lendo estes dois provérbios juntos, podemos concluir que o
suborno frequentemente funciona, mas que é errado utilizá-lo. Isso
se equilibra ainda mais: “O que age com avareza perturba a sua casa,
mas o que odeia presentes viverá” (15:27). Nem todos os provérbios
oferecem conselhos bons – eles podem ser apenas uma observação da
nossa realidade.
Finalmente, os provérbios não são leis. Eles são observações
permanentes, que descrevem a norma e não expressam o inevitável.
Isso nós já observamos a partir da perspectiva diferente no parágrafo
anterior. A vida e os seres humanos são complexos demais para serem
resumidos em uma breve frase ou para detalhar a verdade sobre uma
determinada situação. Aqueles que são sábios estão cientes de usar os
provérbios com a devida discrição.

Referências Bibliográficas

CERESKO, ANTHONY R. A Sabedoria no Antigo Testamento.


Espiritualidade Libertadora. São Paulo: Paulus, 2004.
CRENSHAW, JAMES L. Ecclesiastes: a Commentary. OTL. Philadelphia:
Westminster Press, 1987.
LUCAS, ERNEST C. A Guide to the Psalms & Wisdom Literature.
Exploring the Old Testament, Volume 3. InterVarsity Press, 2003.
PERDUE, LEO G. Wisdom & Creation: The Theology of Wisdom
Literature. Nashville: Abingdon, 1994.
WHYBRAY, NORMAN. “Qoheleth, Preacher of Joy.” JSOT, no. 23 (1982):
87-98.

78 Introdução ao Antigo Testamento


Introdução ao Antigo Testamento
Unidade - 10
O otimismo quebrado

Introdução

Dentro da Bíblia hebraica há três livros (Jó,


Provérbios e Eclesiastes) que, apesar das suas diferenças,
têm muito em comum. Portanto, os acadêmicos passaram
a considerá-los como representantes de um tipo distinto
de literatura. O que estes três livros têm em comum é que
eles estão preocupados com a sabedoria. Se você usar uma
concordância e pesquisar a palavra, você encontrará que a
“sabedoria” (ou os seus cognatos) aparecem com relativa
frequência. Abaixo quero escrever um pouco sobre o
fenômeno “sabedoria” e depois vou introduzir os livros de
Jó e Eclesiastes.1

Objetivos

Ao final da unidade, o aluno:


1. Poderá relacionar os vários livros sapienciais entre
eles;
2. Poderá apontar as diferenças teológicas entre os
livros sapienciais.

Plano da unidade
• Jó e quando Deus faz o que Ele quer
• Eclesiastes – estabelece-se no insondável da vida

1
Talvez você esteja à espera de algumas anotações sobre Cantares. Este livro é ainda mais ligado com
a poesia – então vou tratá-lo na unidade sobre Salmos.

79
Jó e quando Deus faz o que Ele quer
Se a conexão entre ato e consequência é quebrada pelo pecado e
pela injustiça, o que a sabedoria pode oferecer em uma crise? Por que
o insucesso? Por que é que os opressores são ricos e gordos? Por que
é que alguns sofrem de uma doença ou da pobreza mesmo não tendo
feito nada de errado e sendo tementes a Deus? Muitas vezes, o mundo
parece estar fora de ordem. Parece que Deus não está fazendo o seu
trabalho para manter o sistema. As respostas do padrão tradicional
são bastante insatisfatórias para explicar a causa do sofrimento. Isso
pode ser visto no livro de Jó (e mesmo em nossa própria realidade).
Considerando que você já leu o resumo de Hans Walter Wolff
do livro de Jó, vou tocar em alguns outros pontos interessantes, que
podem nos ensinar algo sobre como lidar com algumas dificuldades
na Bíblia Hebraica. A primeira coisa seria como lidar com as tensões
evidentes no estilo de um determinado livro. Em Jó, o cenário narrativo
que constrói quase uma moldura ao redor do diálogo (Jó 1-2; 42:7-
17) é esteticamente bem diferente dessa parte principal do livro,
que é um diálogo de estilo alto-poético, artisticamente tecido. Além
disso, o cenário narrativo demonstra a localização de Jó e seus amigos
em Edom, sendo então, um contemporâneo de Abraão. As outras
características do livro, no entanto, sugerem fortemente os séculos
IV ou III para a sua forma final. Para complicar ainda mais, muitos
estudiosos sugerem que o capítulo 28, o poema sobre a sabedoria, não
pode fazer parte da primeira composição, por ser tão calmo e tranquilo
em sua entonação. O que podemos dizer sobre estas coisas?
Durante as últimas décadas, várias coisas mudaram
consideravelmente na área de estudos bíblicos e cada vez mais os
teólogos estão preparados para tentar ver os textos bíblicos com
olhos literários. Isso significa que eles tentam entender a Bíblia como
literatura e não como documentos arbitrários que testemunham sobre

80 Introdução ao Antigo Testamento


a fé dos antigos israelitas. Como já falei, muitos suspeitam que o cenário
narrativo de Jó seja secundário, apenas porque difere no estilo e no
vocabulário. Atualmente, um consenso está se desenvolvendo, o de que
a moldura narrativa molda integralmente a compreensão do diálogo.
Com a narrativa, o leitor sabe muito mais do que Jó sabia. Por isso,
para o leitor nunca aparece a questão se Jó merece o seu sofrimento.
Então, se torna muito mais importante para o leitor, assim como os
amigos discutem, como o sofrimento se desenvolve teologicamente e,
finalmente, como Deus resolverá esse enigma para Jó.

Sidelight...
Em hebraico, há uma distinção forte entre o artigo determinado
e o indeterminado. Em Jó encontramos sempre “Satanás” com
artigo determinado (“o Satanás”). Podemos assim supor que
aqui “Satanás” é um título (o acusador / adversário), não um
nome. Só muito mais tarde na literatura judaica - e, claro, nos
escritos cristãos - encontramos a ideia de que “Satanás” denota
um ser especificamente demoníaco.
Lembre-se: este tipo de desenvolvimento do sentido de
vocabulário ocorre muitas vezes na Bíblia. Sabendo disso
podemos evitar uma interpretação ao pé da letra.
O capítulo 28, com seu tom calmo, não combina com a
argumentação calorosa de Jó. O que é falado por Jó parece ser sugerido
pela titulação 27:1. No entanto, há uma nova posição no 29:1, que
introduz um novo argumento. Assim, podemos supor que o cap. 28
nunca foi destinado a ser lido como a fala de Jó, mas sim como um
comentário do autor. Na verdade, Jó 28 vem em um momento muito
apropriado do diálogo. É uma expressão do ponto de vista de que os
humanos têm a capacidade de compreender a sabedoria divina e que a
resposta adequada a esta questão é ter reverência a Deus e evitar o mal.
Isto prepara o caminho para os discursos divinos – e ajuda o leitor a
separar mentalmente o último discurso de Jó do diálogo anterior.
Uma nota breve sobre a questão teológica deve terminar nossa
reflexão sobre Jó. Como já observado, muitos estudiosos veem uma
aparente tensão teológica entre o epílogo e o resto do livro. Os versos
de abertura do prólogo parecem indicar a doutrina convencional de
recompensa e punição. Jó é apresentado tanto como “íntegro e reto,

81
temente a Deus e afastando-se do mal” e como “o maior de todos os
povos do oriente”, o leitor pode supor que existe uma ligação direta
entre a sua grande piedade e sua grande riqueza e posição social.
No entanto, o pressuposto de que sempre deveria haver tal ligação é
quebrado quando Deus aceita o desafio do satanás, para experimentar
Jó. O diálogo, em seguida, explora as implicações do rompimento desse
vínculo. Em Jó 42:7-9, Deus condena os amigos de Jó por defenderem
a posição de que deve haver uma ligação entre a religiosidade e a
prosperidade. No entanto, a restauração de Jó parece restabelecer
essa ligação, contradizendo a essência da mensagem do livro. Houve
numerosas tentativas para resolver essa aparente tensão. Reitero
apenas algumas das mais prováveis.
Em função da quebra da ligação entre a justiça e a prosperidade,
a restauração de Jó não deve ser entendida como justiça, mas como o
fato de que o teste está terminado. Foi argumentado que a arte do livro
exigia isso. É preciso que haja uma conclusão adequada para o teste, e
qualquer coisa além da restauração de Jó seria intolerável para o leitor.
Outros veem no epílogo, não tanto a restauração de Jô, mas
a restauração da reputação de Deus. A aceitação de Deus ao teste
de Satanás e a aflição de Jó, no mínimo, levanta questões sobre a
preocupação de Deus com Jó. Isto precisa ser direcionado. Uma
resposta é dada, pelo menos em certa medida no epílogo, ao tratamento
de Deus para com Jó.
Em ambas as interpretações do epílogo os estudiosos salientam
que Deus age livremente, não sob a restrição de qualquer vinculação
inevitável de piedade e de prosperidade, como fora afirmado pelos
amigos de Jó. As ações de Deus no epílogo devem ser vistas como
decorrentes da liberdade de Deus. Esta liberdade é a lição a ser
aprendida com os diálogos e seu clímax nas intervenções divinas. Deus
não é obrigado a agir de acordo com uma lei rigorosa de recompensa
e punição. Ele pode agir gratuitamente para com os seus servos – e Ele
age!

Para pensar...
A ideia de uma ligação direta entre a piedade e a prosperidade é
bastante comum no Brasil moderno – no pensamento popular,
bem como na religião. Como este fato faz o livro de Jó ser
relevante nos dias de hoje? Coloque no fórum as suas ideias!

82 Introdução ao Antigo Testamento


Eclesiastes – estabelece-se no insondável da vida

Sidelight...

O livro de Eclesiastes apresenta o seu autor como “Qohelet”


(1:1). Aqui eu irei usar essa palavra no hebraico para evitar a
decisão de traduzir como “pregador” ou talvez melhor como
“professor”. Esse homem certamente ensinava mais do que
pregava.

O versículo mais conhecido de Eclesiastes é claramente 1:2:


“Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é
vaidade”. Isto é repetido no final de 12:8. Outro refrão no livro é 1:14:
“... eis que tudo era vaidade e aflição de espírito”. Usando apenas uma
concordância você poderá encontrar todas as referências. Claramente,
uma questão importante na vontade de compreender a teologia
Qohelet é entender o que ele entende por “vaidade”. Infelizmente, a
palavra hebraica que o autor usa (hevel) tem uma gama de significados
possíveis. Os mais comuns que têm sido relacionados à Qohelet são:
• Vaidade, no sentido da insignificância, inutilidade;
• Absurdo, no sentido do que é não é razoável ou é irracional;
• Absurdo, no sentido de que é incompreensível e misterioso;
• Efemeridade, que passa rapidamente.

O “lema” de 1:2 é seguido imediatamente pelo “tema” em 1:3: “O


que as pessoas ganham em toda a labuta em que elas trabalham sob o
sol?” A palavra chave aqui é a palavra hebraica traduzida como ganhar
(hebr. jitron). As duas declarações devem ser interpretadas à luz de
cada uma. Cada uma fica em sua própria maneira “universal” em seu
alcance. A repetição da “vaidade de vaidades” em 1:2 é uma forma
hebraica de expressar um superlativo “completamente/totalmente
inútil”, e este é seguido por dizer “tudo é vaidade”, de modo que nada
é excluído. As frases “toda a labuta” e “sob o sol” dão a 1:3 um sentido
inclusivo também.

83
É impressionante como as interpretações destes versículos podem
ser variadas. Crenshaw1 compreende esses versículos como expressão
de uma visão profundamente pessimista sobre a vida. Ele traduz hevel
como “absurdo” ou “fútil” e, portanto, 1:2 representa uma avaliação
muito negativa da vida. A palavra jitron ele traduz como vantagem
e, portanto, 1:3 expressa que
os seres humanos podem não
ganhar nada, independente de
todos os seus esforços. Perdue2,
por outro lado, interpreta
Qohelet como tendo uma visão
menos pessimista. Ele vê na
raiz hebraica de hevel o sentido
da respiração e aponta para
A grandeza da palavra refere-se ao número de vezes que essa a sua qualidade metafórica
palavra aparece no livro Eclesiastes.
“efemeridade”. A vida é como
um vento, uma sombra, muito instável e breve. Para Perdue, Qohelet
lamenta a brevidade da vida e não a sua insignificância.
Estas duas concepções diferentes de 1:2-3 levam-nos a diferentes
compreensões das várias passagens em Eclesiastes, que defendem o
gozo da vida (por exemplo, 3:12 e 22; 5:18; 11:8-9). Crenshaw vê isso
como algo que incentiva os prazeres em uma tentativa sem fundamento
para salvar alguma coisa além da insignificância da vida. Com base no
entendimento de Perdue, essas passagens podem ser vistas sob uma
luz mais positiva. Whybray3 assinala que essas passagens formam
uma série onde há um aumento constante de ênfase, e que o último
nessa série (11:9-12,7) tem uma posição chave no final do livro. Uma
característica comum dessas passagens é a afirmação de que todo
prazer vem como um dom de Deus. As exortações a aceitar o gozo da
vida como um dom de Deus podem ser vistas como, implicitamente,
afirmações de que, apesar de sua brevidade, a vida tem algumas
qualidades positivas, porque Deus não abandonou suas criaturas a
uma vida de desespero completo.
1
James L. Crenshaw, Ecclesiastes: a Commentary, OTL (Philadelphia: Westminster Press, 1987).
2
Leo G. Perdue, Wisdom & Creation: The Theology of Wisdom Literature (Nashville: Abingdon,
1994).
3
Norman Whybray, “Qoheleth, Preacher of Joy,” JSOT, no. 23 (1982): 87-98.

84 Introdução ao Antigo Testamento


Há muitas outras coisas neste livro filosófico que podem manter
a nós, leitores da Bíblia, ocupados por algum tempo. Por exemplo,
a datação e a autoria estão longe de serem fáceis de resolver. Ou a
questão de saber se Qohelet citava trechos de outros pensadores, a fim
de comentar sobre eles, ou o fato de que ele tem sim uma visão de
mundo muito dualista, em que ele tenta encontrar algum equilíbrio
evitando extremos. Claro que, como este não é um curso somente
sobre o livro de Eclesiastes, não poderemos entrar em mais detalhes.
Mas eu os encorajo a olhar para alguns temas que este livro cobre.
Lê-lo com o foco no que ele tem a dizer sobre alguns grandes temas
teológicos: a grandeza de Deus, a sua incompreensibilidade, a sua
fiabilidade, a brevidade da vida, a segurança do juízo, os dons que
Deus dá, os contrastes entre seres humanos e animais... recolha todos
os versículos relevantes e olhe para as passagens em conjunto.
E no final, ouça os conselhos do “professor”: E, ademais disto,
filho meu, atenta: não há limite para fazer livros, e o muito estudar é
enfado da carne!

Referências Bibliográficas

CERESKO, ANTHONY R. A Sabedoria no Antigo Testamento.


Espiritualidade Libertadora. São Paulo: Paulus, 2004.
CRENSHAW, JAMES L. Ecclesiastes: a Commentary. OTL. Philadelphia:
Westminster Press, 1987.
LUCAS, ERNEST C. A Guide to the Psalms & Wisdom Literature.
Exploring the Old Testament, Volume 3. InterVarsity Press, 2003.
PERDUE, LEO G. Wisdom & Creation: The Theology of Wisdom
Literature. Nashville: Abingdon, 1994.
WHYBRAY, NORMAN. “Qoheleth, Preacher of Joy.” JSOT, no. 23 (1982):
87-98.

85
Anotações
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86 Introdução ao Antigo Testamento


Introdução ao Antigo Testamento
Unidade - 11
Os livros poéticos 1 - Os salmos

As palavras em Salmos - a grandeza é correspondente com a frequência com


que aparece no livro. Criando o mesmo tipo de imagem que as canções usadas
nas igrejas de hoje - será que o “eu” apareceria como a maior palavra?

Introdução

Você gosta de poesia? Ler poemas sempre é um esforço


um pouco maior do que ler outras formas da literatura.
Para você, o que distingue um poema de um texto que não
é um poema? A rima é importante para você quando se
trata de poemas? Qual é a natureza de um poema? Que tipo
de linguagem é utilizada e que é necessária para uma boa
leitura a partir do leitor?
O que fazemos com canções? São canções poemas?
Poderíamos descrever os hinos antigos da igreja como
poemas, ou melhor, as músicas mais recentes das marcas
Hillsong, Vineyard e Cia.?
Nesta unidade, iremos descobrir alguns aspectos
básicos da poesia hebraica. Quando se trata de Salmos,
vamos falar sobre os diferentes tipos de Salmos e aspectos
teológicos (como vingança e retaliação).

87
Objetivos

Ao final da unidade, o aluno:


1. Conhecerá os gêneros literários básicos dos salmos;
2. Poderá distinguir as várias formas do paralelismo
membrorum.

Plano da unidade
• Poesia hebraica
• O Saltério – um livro!
• Os gêneros dos Salmos

Poesia Hebraica
Textos poéticos do antigo Israel não têm a aparência que
normalmente esperamos de poemas. Eles não rimam. Mesmo quando
você lê-los em hebraico, não rimam. Você pode já ter observado isto,
lendo poesia moderna. Alguns poetas modernos escrevem sem rima.
Geralmente, na poética a linguagem é utilizada com fins estéticos. Isso
significa que o poeta normalmente toma grande atenção com a forma
do texto e com a escolha das palavras. Um poeta bom pode comunicar
emoções e sutilezas que um texto de prosa não pode transmitir. “A
poesia é a mínima distância entre o sentimento e o papel” (Levi
Trevisan). Então, quando lemos poesia devemos interrogar menos
“Que é isto?” e mais “Que significa isto?” Poemas querem abrir – ou
até construir – um mundo de significado. Normalmente, neste mundo,
encontramos bastante metáforas, linguagem indireta, repetições e
exageros.
Tudo isso não é diferente com a poesia hebraica. A forma literária
mais utilizada neste grupo de textos é o parallelismus membrorum
(paralelismo das partes). Os poetas do Antigo Israel criaram textos
que vivem de diferencas sutis no significado de palavras ou de
expressões. É um processo semântico onde uma linha expressa uma

88 Introdução ao Antigo Testamento


ideia e a linha seguinte a mesma coisa, mas com palavras diferentes.
A linha A é secundada da linha B. Podemos observar três tipos gerais
de paralelismo:
• Paralelismo sinônimo: a mesma ideia é repetida em ambas as
linhas (Sl 33,10-11):
O SENHOR desfaz o conselho dos gentios, quebranta os
intentos dos povos.
O conselho do SENHOR permanece para sempre; os intentos
do seu coração de geração em geração.
• Paralelismo antitético: a segunda linha contrasta o que é dito na
primeira linha (Sl 30,5):
Porque a sua ira dura só um momento; no seu favor está a vida.
O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.
• Paralelismo sintético: aqui podemos colocar todos os versículos
em que a segunda linha nem repete nem contrasta a primeira. Relações
possíveis seriam explicação ou intensificação. Só quando lidos como
síntese estas linhas fazem bom sentido.
Obviamente, não é possível pressionar cada frase da poesia
bíblica a este sistema. E poesia hebraica também é muito mais do que
“arquétipos de pensamento” (sinonímia, antinomia...). A linguagem é
sempre mais complicada para que nós não possamos apenas estudar
o significado das palavras. Assim adicional, podemos observar os
seguintes aspectos da poesia hebraica:
• Concisão: as frases muitas vezes parecem ser muito
curtas, mesmo faltando palavras que seriam gramaticalmente ou
semanticamente necessárias. (Sl 12,3: O SENHOR cortará todos os
lábios lisonjeiros, a língua que fala soberbamente.);
• Paralelismo gramatical (de palavras individuais ou de unidades
sintáticas);
• Paralelismo fonológico (algumas linhas jogam com o som das
palavras; Sl 32,1 – é claro que você só ouve na leitura em hebraico:
Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada (nesui), e cujo
pecado é coberto (kesui).);

89
• Utilização de pares de palavras: homem/mulher, céu/terra,
fidelidade/verdade, acordar/dormir... (Sl 115,16: Os céus são os céus do
SENHOR; mas a terra a deu aos filhos dos homens.);
• Ritmo, mas esta é uma característica bastante difícil e muito
variável (algo somente visto no original hebraico);
• Linguagem figurada: já temos observado isso quando refletindo
sobre poesia em geral. Frequentemente não podemos entender
literalmente (Is 55,12: Os montes e os outeiros romperão em cântico
diante de vós, e todas as árvores do campo baterão palmas.).
Por que isso é importante para nós? Bem, basicamente você
não pode ler a poesia como outros textos não-poéticos. Muitas vezes,
uma leitura literalmente não faz sentido – e não deve nos assustar.
Como sempre: não é tão importante interpretar a Bíblia literalmente,
mas interpretá-la corretamente! A consciência de suas características
literárias ajuda muito a evitar muitas armadilhas exegéticas.

Saltério – um livro!
Dentro do cânon, os Salmos ocupa uma posição especial. Neste
livro, diferentes linhas do Antigo Testamento são juntadas. Aqui, há
retrospecção da história de Israel (Sl 78, 106 e outras), há elementos
proféticos (Sl 50 e em outros lugares), e textos de sabedoria (Sl 1, 49 e
outras). O saltério combina o que em outras partes do cânon fica para
si.
O saltério guia o leitor na oração, um caminho de lamento a
louvor. No início do livro superam os salmos de lamento, mas no final
todo mundo se junta no louvor a Deus. Este é o caminho por onde cada
salmo de lamento quer levar o orador. Também é a linha principal que
atravessa todo o livro.
Como um “livro de orações da Bíblia”, o saltério é indispensável
para a igreja do Novo Testamento. Ele nos ensina como podemos falar
com Deus e nos mostra Deus como o todo-poderoso é misericordioso,
um Deus que se volta a nós em cada necessidade. Só ele merece toda
honra.

90 Introdução ao Antigo Testamento


O Livro dos Salmos é na verdade uma coleção de diferentes tipos
de poesia, que abrange muitos séculos de história (de 1100 a.C., os Sl
29 e 68, a c. 400 aC, o Sl 119), e atinge – essencialmente – a sua forma
atual em torno de 300 a.C. Esta forma atual é uma unidade ou só uma
coleção arbitrária de textos independentes? Podemos reconhecer
várias características diferentes de formação, mas estes estruturam o
livro apenas em parte, não o livro inteiro. A mais óbvia é a divisão dos

91
150 Salmos em cinco livros. No final de cada livro tem uma doxologia
breve.1
Através destas cinco partes do Saltério é formalmente criada
em paralelo o Pentateuco. No entanto, não podemos determinar uma
correlação mais extensa ou profunda. Para concluir, quero enfatizar
que o saltério é realmente um livro. Podemos descobrir muitos grupos
de Salmos que são compostos deliberadamente juntos. Um exemplo:
Sl 26-32 começa com três salmos de pedido (26-28) que correspondem
aos três salmos de agradecimento (30-32). No centro Sl 29 celebra
Deus como um rei que salva o seu povo.

Os Gêneros dos Salmos2


Após um período de focalizar o contexto histórico do texto
bíblico, no início do século XX, estudiosos da Bíblia concentrarão
sua atenção sobre o próprio texto bíblico. Um dos primeiros e mais
importantes desenvolvimentos que surgiram a partir dessa mudança
foi o reconhecimento de que muitos dos Salmos têm padrões
recorrentes de estrutura, o fluxo do pensamento, e até temas e técnicas
de composição. A partir deste reconhecimento, os acadêmicos
desenvolveram um campo de estudo chamado de “método histórico-
formal” ou “análise das formas”.

Erich Zenger, Introdução ao Antigo Testamento (Edições Loyola, 2003), 314.


1

Aprendi muito de http://www.crivoice.org/psalmgenre.html, 01/10/09


2

92 Introdução ao Antigo Testamento


Este método de estudo começa com o entendimento de que os
aspectos de uma cultura particular que ocorrem em ocasiões repetidas
e regulares, como as práticas religiosas, tendem a assumir uma
estrutura ou formas estáveis. Podemos ver isso em quase todos cultos
de adoração, onde a sequência do culto é relativamente previsível, uma
vez que muitos aspectos do culto são repetidos a cada semana. Em
muitos casos, por exemplo, podemos prever com muita precisão as
palavras exatas que uma certa pessoa vai usar em oração. É por isso
que muitas igrejas desenvolvem uma Ordem de Culto para estruturar
esses elementos recorrentes.
Tendemos a responder aos estímulos que são familiares e
reconhecíveis, e estes sinais comunicam para nós muito mais do
que simplesmente o que as próprias palavras dizem. Eles evocam
uma gama completa de pensamentos, sentimentos ou experiências,
simplesmente porque são conhecidos e repetidos. Podemos até fazer
piadas sobre a familiaridade de algumas dessas formas. Lembro-me
de um comentário, até certo ponto verdadeiro, de um pastor que,
quando chegou ao ponto de seu sermão, em que disse “em conclusão”,
todo mundo sabia que isso significava apenas trinta minutos mais de
pregação!
Um dos usos mais óbvios dessas formas ocorre em orações,
simplesmente porque elas são repetidas tantas vezes. Especialmente
as orações antes das refeições tendem a assumir uma qualidade ritual
com as mesmas palavras ou frases usadas repetidamente. Isso não é
necessariamente negativo, pois essa repetição dá estrutura para a ocasião
e fornece sinais para que as pessoas, em determinadas atividades,
saibam o que está ocorrendo e as respostas que são esperadas.
Desde quando o Saltério é uma coleção de orações da comunidade
de fé, não é surpreendente que encontremos nessas estruturas as
repetições e os métodos convencionais de expressão. Mesmo que
haja uma grande variedade nos salmos – e cada salmo tenha o direito
de ser lido em uma base individual –, há também muitos aspectos
que são partilhados: importantes elementos estruturais, as formas
padronizadas de se referir aos problemas enfrentados pelos indivíduos
ou a comunidade, e como expressar os gritos de ajuda. É esta estrutura
que dá provas de que os Salmos eram parte da vida espiritual pública

93
do antigo Israel, bem como fornecer-nos com algumas ferramentas
para compreender melhor a importância teológica dessas orações.3
A maioria dos estudiosos da Bíblia concordam no seguinte
sistema de classificação dos salmos:
• Hinos
• Louvor geral de Deus
• Salmos celebrando Deus como Rei
• Salmos de Sião (46, 48, 76, 84,87, 122)
• Salmos de Lamentação
• Individuais
• Coletivos
• Salmos de Ações de Graça (Todah)
• Individuais
• Coletivas
• Salmos reais
• Tipos menores: Salmos da Confiança, Salmos Sapienciais...

Hinos - Tendem a seguir uma estrutura tríplice simples:


Tipo: Hino
• Eles abrem com uma chamada para louvar a Deus;
• A parte maior dá os motivos de louvor;
• O salmo encerra com um apelo renovado para adorar;

Salmo 117 é um exemplo:


Louvai ao SENHOR todas as nações,
louvai-o todos os povos.

Porque a sua benignidade é grande para conosco,


e a verdade do SENHOR dura para sempre.

Louvai ao SENHOR.

3
Usei muito de Ernest C. Lucas, A Guide to the Psalms & Wisdom Literature, Exploring the Old
Testament, Volume 3 (InterVarsity Press, 2003), 1-28.

94 Introdução ao Antigo Testamento


Sugestão...
Um outro bom exemplo de Hino, seria Salmo 113 - Leia este
Salmo e descubra onde suas seções começam e terminam!

A função de um Hino ou “Salmo de Louvor descritivo”


(Westermann) é a de louvar a Deus porque ele é Deus, e sabemos
que Ele é porque gritamos por Ele e Ele agiu. Enquanto os Salmos
de Ações de Graça começam com a libertação de Deus na história e
finalizam com louvor, os hinos assumem a libertação e as ações de
Deus na história, e louvam a Deus por ser o tipo de Deus que age de
determinadas maneiras.
Os hinos são um pouco mais distantes das ações de Deus na
história e não são em resposta a
qualquer experiência particular
ou imediata de Deus. Enquanto
eles estão solidamente assentes na
compreensão de que Deus agiu
no passado na vida das pessoas
e da comunidade, os hinos se
desenvolvem além da experiência
imediata para uma estabilidade na
vida que permite a reflexão sobre a
natureza e o caráter de Deus como
aquele que oferece e proporciona.

Um livro teológico em alemão:


“Discurso de resolução de conflitos com Deus”
- Uma perspectiva para ver os Salmos.

Salmos de Lamentação
Consistem no maior grupo no saltério. Mais ou menos uma
terceira parte dos salmos pertence a este tipo. Eles expressam a reação
do autor a Deus quando enfrenta uma situação de necessidade ou
aflição. Sua estrutura é relativamente flexível: nem todos os elementos
aparecem em todos os salmos e nem sempre na mesma sequência.

95
Tipo: Salmo de Lamentação
• Endereço a Deus, Invocação;
• Reclamação a Deus (descrição do problema: uma crise de
qualquer tipo; em salmos penitenciais é o pecado; uma reivindicação
de inocência; uma condenação do “mau” ou do “inimigo”;
• Afirmação de Confiança (“Mas, quanto a mim” ou “Não
obstante”; isto, às vezes, é o ponto de viragem do salmo);
• Petição (para a intervenção de Deus; muitas vezes usa-se a
expressão “salvar” ou “entregar”);
• Aviso de Resposta (voto de louvor, de adoração);
• Exclamação de louvor.

Um bom exemplo deste tipo é Sl 54 (lamentação individual):

1. Salva-me, ó Deus, pelo teu nome, e


Invocação de Deus
faze-me justiça pelo teu poder.

Petição 2. O Deus, ouve a minha oração, inclina


os teus ouvidos às palavras da minha boca.
3. Porque os estranhos se levantam
Reclamação contra mim, e tiranos procuram a minha vida;
não têm posto Deus perante os seus olhos.
4. Eis que Deus é o meu ajudador, o
Afirmação de
Senhor está com aqueles que sustêm a minha
confiança
alma.
Chamada de 5. 5 Ele recompensará com o mal os
Vingança meus inimigos. Destrói-os na tua verdade.
6. Eu te oferecerei voluntariamente
Voto sacrifícios; louvarei o teu nome, ó SENHOR,
porque é bom.
7. Pois me tem livrado de toda a angústia;
Exclamação de
e os meus olhos viram o meu desejo sobre os
Louvor
meus inimigos.

96 Introdução ao Antigo Testamento


A função de um Lamento é fornecer uma estrutura para a crise,
mágoa, tristeza ou desespero, para mover o adorador da dor à alegria,
da escuridão à luz, do desespero à esperança. Esse movimento da dor
à alegria não é só uma experiência psicológica ou litúrgica, ainda que
as inclua. E não é uma libertação física da crise, ainda que muitas
vezes seja a antecipe. O movimento para “fora das profundezas” é
profundamente espiritual.
O significado teológico de um lamento é a expressão da confiança
em Deus, mesmo na ausência de qualquer prova de que ele está ativo no
mundo. Através de uma estrutura sequencial e deliberada, o lamento
se movimenta da articulação da emoção na crise à petição para que
Deus intervenha, a uma afirmação de confiança em Deus mesmo que
não haja a libertação imediata da crise.

Salmos de Ações de Graça - Podem ser chamados também


Salmos de Todah – essa palavra hebraica significa “agradecimento”.
Estes Salmos são ligados às Lamentações que quase sempre incluem
um voto de agradecimento ou de um sacrifício de agradecimento.
Este sacrifício é especial, pois apenas
uma parte do animal é queimada no
altar, o resto é levado para casa pelo
adorador para fazer uma festa – um
churrasco, se quiser – para os amigos
e a família. Assim, todos podem
juntar-se na ação de graças e louvor
a Deus. Todah é um tipo de louvor
oferecido a Deus para testemunhar à
comunidade o que Deus fez. Este fato
coloca a “ação de graças” firmemente
no culto da comunidade como um
sinal visível de louvor a Deus por sua graça.
Este tipo de Salmo tem uma estrutura tríplice:

97
Tipo: ação de graça
• Introdução que envolve o nome de Deus (Javé). Pode
incluir uma declaração da intenção de agradecer Deus e pode ser
expandido por várias adições hínicas;
• A seção principal é basicamente um relato da experiência do
salmista (isto pode incluir uma descrição de seu estado anterior de
angústia; uma oração de libertação, que foi proferida neste estado;
uma conta do ato de Deus da libertação; uma referência para o
cumprimento do seu voto);
• Conclusão, incluindo muitas vezes uma exortação ao louvor
a Deus.

Salmo 116 é um bom exemplo deste tipo:

1-2 Introdução: invocação de Deus


3 - 11 Relato da experiência
12 - 19a Intenção de cumprir a promessa
19b Exortação ao louvor.

Salmos Reais - Formam um grupo de salmos unificados por seus


conteúdos, embora sejam de vários tipos. O tema revolve em torno da
relação entre Deus e o rei. Salmos 2, 18, 20, 21, 45, 72, 89, 101, 110,
132, 144 são geralmente considerados Salmos Reais. Segundo Gunkel,
famoso estudioso dos salmos, a configuração original dos Salmos
Reais foi a coroação do rei de Israel. Contudo, eles foram preservados
e adaptados para outros usos muito tempo depois de a monarquia
chegar ao fim. O restante de seu propósito original é óbvio e nos ajuda
a compreender algumas das características destes salmos.
Tipos menores - No grupo misto de tipos menores, encontramos
tipos especializados de salmos, novamente unificados por tema. Vou
mencionar apenas dois tipos que são relacionados, ambos são reflexivos
e chegam mais perto de serem tratados teológicos do que orações.

98 Introdução ao Antigo Testamento


Salmos Sapienciais - Os Salmos Sapienciais são assim
chamados porque eles compartilham características com as tradições
de sabedoria do Antigo Testamento (Jó, Provérbios, Eclesiastes) em
termos de estrutura literária, vocabulário e conceitos. Eles lidam
frequentemente com temas como as injustiças da vida e a justiça de
Deus, a responsabilidade de escolher o caminho correto ou o modo de
vida, o valor relativo das riquezas e a natureza transitória da existência
humana.
Poemas da Lei - Os Poemas da Lei, que incluem o Salmo 119,
são simplesmente salmos que refletem sobre o valor de viver uma vida
boa pelas instruções de Deus preservada na Torá. Tematicamente, eles
estão perto dos salmos de agradecimento, em que a Torá é celebrada
como um dom gratuito de Deus, pela qual Ele fornece instruções para
viver bem a vida no mundo que Ele criou.

Referências Bibliográficas

Lucas, Ernest C. A Guide to the Psalms & Wisdom Literature.


Exploring the Old Testament, Volume 3. InterVarsity Press, 2003.
Zenger, Erich. Introdução ao Antigo Testamento. Edições Loyola,
2003.

99
Anotações
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100 Introdução ao Antigo Testamento


Introdução ao Antigo Testamento
Unidade - 12
Os livros poéticos - 2
Teologia de Salmos e Cântico dos Cânticos

Para pensar...
O que você acha da “defesa” de Zenger do uso dos salmos
de vingança no culto público hoje? Você tem algumas
ideais práticas de como recuperar estes salmos em nossas
comunidades?

Coloque as suas ideias no nosso fórum!

Introdução

Nessa unidade, daremos continuidade ao livro mais


teológico do Antigo Testamento: o Saltério. Um belo poema
ficará para o final – Cântico dos Cânticos – o qual muitas
vezes confundiu leitores da Bíblia, os quais recorreram a
uma interpretação alegórica.

Objetivos

Ao final da unidade, o aluno:


1. Estará pronto para responder perguntas teológicas
que surgem em Salmos;
2. Refletirá as possibilidades de interpretar Cânticos.

Plano da unidade
• Aspectos Teológicos dos Salmos

101
Para pensar...
Salmos 15-24 podem ter um único tema teológico. No
início e no final, há referências a “a porta”. 15,1 e 24,3
levantam a questão de quem merece estar no monte do
Senhor. O tema aqui poderia ser o de “pertencer” ou
“estar em casa”, na presença de Deus. O movimento de
desejo a repouso - você pode rastrear essa progressão
através desses salmos?
Coloque as suas ideias no nosso fórum!
Prepare um estudo bíblico para a sua igreja!

Aspectos Teológicos dos Salmos1


Na década de 1980, alguns estudiosos tiveram a ideia de estudar
o livro dos Salmos como uma unidade (já falávamos sobre isso bem
no início). Isso significa que eles procuraram uma macro-estrutura,
temas teológicos que atravessam todo o livro e uma intenção principal
do livro.
Alguns têm entendido o Saltério como tendo uma forte
perspectiva escatológica: livros 1-3 descrevem o fracasso da monarquia
davídica, livro 4 responde a isso com a afirmação de que realmente
Deus é rei e termina com um apelo para restaurar a nação (Sl 106) e
o livro 5 mostra que este fundamento será atendido desde que haja
confiança da nação em Deus e que viva de acordo com a lei.
Outros viram Salmos como instrução: ele deve ser lido como
uma fonte de instrução divina para viver justamente. Eles seguem o
exemplo dado pelos Salmos 1, 19 e 119. O principal a ser aprendido
é que “Deus é rei”. Devido a este fato toda a criação é chamada para
adorar a Deus e, portanto, o elogio é o verdadeiro objetivo de toda vida
humana. Mas o elogio não vem sempre com facilidade, muitos salmos
introduzem a ideia de que precisamos continuar a obedecer, servir e
louvar a Deus, mesmo no meio da angústia e do sofrimento (cf. Sl 73
- o salmo no meio do livro!).
1
Usei muito de Ernest C. Lucas, A Guide to the Psalms & Wisdom Literature, Exploring the Old
Testament, Volume 3 (InterVarsity Press, 2003), 28-34.

102 Introdução ao Antigo Testamento


Um tema teológico que muitas vezes surge na igreja é como
compreender os salmos da vingança. Basta ler Salmo 139. Este Salmo
é tão amado – mas só quando se deixa de fora os versos 19-22! Leia
também Sl 58,6-11; 69,22-28; 83,9-18; 109,6-20; 137,7-9; 149,5-9.
Como isso refere à ideia de Jesus amar os nossos inimigos? Qual é a
sua resposta a essas passagens?
John Wesley proibiu que essas passagens fossem cantadas em
suas igrejas. Erich Zenger, um teólogo católico atual, defende que não
podemos desmerecer estas passagens como subcristãs. Precisamos
reintroduzi-los em nossa adoração! Zenger está vendo esses salmos
no paradigma de Deus como criador e juiz supremo do mundo. Em
um mundo cheio de pecado e maldade, a justiça de Deus é um sinal de
esperança, não de medo. “Justiça” é uma palavra boa na Bíblia. Significa
que as pessoas podem esperar que Deus irá trazer-lhes justiça, mesmo
que eles só possam sonhar com isso em sua situação presente. Deus irá,
no final, fazer tudo como deve ser! Assim, encontramos nos Salmos as
expressões de quem está sofrendo de opressão e deseja ardentemente
que a justiça seja feita por Deus. É melhor o salmista esperar Deus agir,
do que ele mesmo recorrer a uma vingança pessoal. Nosso conceito
moderno do pecado como individual tem levado-nos a negligenciar
a realidade da injustiça social (que era uma característica comum das
experiências do antigo Israel). Estes salmos dão as vítimas da injustiça
um meio de expressar seu sofrimento e desafiam aqueles que tentam
ignorar esta realidade brutal. Zenger destaca o fato de que tem a ver
com uma linguagem poética e, portanto,
devemos esperar palavras fortes. Podemos
falar com Deus sobre absolutamente tudo.
E viver não é somente levantar e acenar
com as mãos na igreja e falar sobre o Deus
maravilhoso e lindo que temos. Às vezes,
Deus parece muito distante e escuro – o
deus absconditus famoso de Martinho
Lutero. Esta é a nossa realidade e nós
devemos ser capazes de refletir isto em
nossas igrejas.

103
Cântico dos Cânticos
Cântico dos Cânticos foi “o livro mais frequentemente interpretado
da cristandade medieval” (Ann Matter) e também inspirou um grande
número de comentários judaicos medievais. O Cântico dos Cânticos
tem desempenhado um papel fascinante na cultura ocidental. Foi um
caso de teste e uma oficina para o método alegórico e ainda um esteio
de ascetismo e um ímpeto para o misticismo.
É muito mais difícil estabelecer uma mensagem teológica do livro
comparado com qualquer livro profético, por exemplo – Ct nem sequer
menciona Deus – e ainda lê-lo refresca o coração e a incentiva para
apreciar e para afirmar a vida, especialmente na área de sexualidade.
Formalmente, o livro é poético em alto estilo. Muitas palavras são
difíceis de traduzir, pois só aparecem aqui na Bíblia hebraica. Cântico
dos Cânticos representa um conjunto disperso de 30 canções de amor:
“Discursos” da mulher alternam com respostas por parte do homem.
Não há desenvolvimento evidente da trama. Apesar disso, estruturas
foram encontradas (isso faz parte de ser teólogo, eles sempre podem
descobrir estruturas em qualquer texto). Um dos mais prováveis é
descrito na tabela a seguir:2

Em seguida, algumas tentativas sobre a mensagem teológica


desta recolha poética que já são propostas pela estrutura acima.
Como já foi mencionado, o livro não usa o nome de Deus, nem
está falando de qualquer outra forma de Deus ou questões religiosas
(talvez 8,6 é uma exceção, onde alguns leem a forma abreviada ‘Jah’
Zenger, Introdução ao Antigo Testamento, 343.
2

104 Introdução ao Antigo Testamento


do nome de Deus). Assim, houve muita discussão sobre o manter
ou não este livro no cânon do Antigo Testamento. Parece que só foi
mantido no cânon, porque poderia ser interpretado alegoricamente
falando da relação de Deus com Israel (cf. Os 2; Jr 2; Ez 16,23).
Como a interpretação alegórica do livro ao longo da história foi tão
crucial, pode-se, pelo menos, não simplesmente ignorar esse tipo de
interpretação hoje.
Explicit lib(er) qui vocat Ecclesiastes. Incipit lib(er)
qui appellatur hebraice Syr asyrim, latine Cantica
Canticorum. Vox ecclesi(a)e desiderantis adventum
Chri(sti). - Aqui termina o livro que chamado de
Eclesiastes. Aqui começa o livro que é chamado em
hebraico “Shir hashirim”, em latim “Cântico dos
Cânticos”. A voz da igreja, como ela anseia pela vinda
de Cristo. (Página de um códice medieval - Winchester
Cathedral)

Uma característica muito


interessante do livro é o da igualdade
na parceria dos dois amantes.
Então, ele começa e termina com as
palavras da mulher sobre seu amado. Ct 7,11 menciona o desejo do
homem para com a mulher – lendo Gn 3,16, podemos esperar que este
deva ser o contrário: não era o desejo da mulher para com o homem
uma consequência da queda? Contudo, Cântico dos Cânticos parece
compreender o amor como superação dessa maldição (8,6-7). Alguns
intérpretes compreendem a porta fechada e posteriormente aberta, do
jardim (4,12.16), como uma alusão ao Jardim do Éden.
Muitos intérpretes enfatizam o papel positivo da reciprocidade
do amor erótico e sexual nesses textos. Veja em seguida um bom
resumo da mensagem teológica:
A convocação para usufruir a vida e o amor, no centro do livro,
obtém, pela estrutura composicional dele, uma motivação a partir da
teologia da criação. […] Quando na literatura do AT é lançado o tema
do amor entre homem e mulher, essa abordagem acontece, sobretudo,
para gerar descendência no contexto de uma sociedade estruturada
de modo preponderantemente patriarcal. O Cântico dos Cânticos
representa uma exceção. Nele, o amor erótico-sexual entre homem e
mulher, independentemente das exigências, sem dúvida, legítimas da

105
sociedade, é cantado como um poder que obedece as suas próprias leis.
A consideração de Ct na Sagrada Escritura poderá, assim, preservar,
biblicamente orientadas, uma antropologia e doutrina da sexualidade
humana diante de uma fixação patriarcal, de um direcionamento
unilateral para gerar descendência, e da observância exagerada de
aspectos jurídicos.
Com a valorização e admiração do corpo do homem e da mulher,
Ct se posiciona diametralmente contra toda cultura que hostiliza o
corpo e o amor. Voltando a refletir sobre o significado original de Ct, a
Igreja poderá ser vitoriosa em superar tendências hostis ao corpo e ao
amor de sua própria história.
Contudo, também por respeito à história da interpretação
judaica e cristã, não se deve deixar totalmente de lado a explicação
alegórico-tipológica. Ela percebeu corretamente que no “amor físico”,
como é enaltecido em Ct, reside uma força que transcende a dimensão
meramente corporal humana.3

Para pensar...
O que você acha sobre essa interpretação teológica do Cântico
dos Cânticos? Se não podemos usar cada versículo para basear
um sermão – podemos usar o texto em geral. Essa seria uma
mensagem para sua comunidade? Talvez seja texto para ler só
com os homens ou só com as mulheres.
Coloque as suas ideias no nosso fórum!

Referências Bibliográficas

Lucas, Ernest C. A Guide to the Psalms & Wisdom Literature. Exploring


the Old Testament, Volume 3. InterVarsity Press, 2003.
Zenger, Erich. Introdução ao Antigo Testamento. Edições Loyola, 2003.

Ibid., 348.
3

106 Introdução ao Antigo Testamento


Introdução ao Antigo Testamento
Unidade - 13
Os livros proféticos - 1: O profeta e o seu livro

Introdução

Os livros proféticos do Antigo Testamento contêm


algumas das passagens bíblicas mais conhecidas e, ao
mesmo tempo, alguns textos mais obscuros e difíceis da
Bíblia.
De Isaías a Malaquias, formam-se um bloco unificado
em nossas Bíblias atuais. Nós já descobrimos em nossa
primeira unidade, que a Bíblia Hebraica oferece um esboço
diferente e considera dois dos livros que contamos nos
profetas entre as escrituras (Daniel e Lamentações). Esta
tradição hebraica chama Josué, Juízes, Samuel e Reis os
“Profetas anteriores” e a coleção de “profetas posteriores”
consiste em somente 4 livros: Isaías, Jeremias, Ezequiel e o
Livro dos Doze. Esse último livro é a coleção dos 12 profetas
menores, o que pode ser entendido como uma unidade
fechada e composta. Lamentações foi, desde os primeiros
dias, intimamente associado com Jeremias, embora seja
basicamente uma coleção de dicas e salmos breves – um
texto poético. Mas falando sobre poesia – vamos descobrir
que grandes partes dos livros proféticos estão escritas nesse
alto estilo poético. Assim, o agrupamento de Jeremias e
Lamentações não pode ser considerado estranho.
Nessa primeira parte, consideramos a pessoa do
profeta como também a sua relação com o livro que carrega
o seu nome. Fora disso, olharemos alguns aspectos literários
desses livros. Os livros específicos fazem parte da próxima
unidade – junto com alguns assuntos teológicos comuns
para esses livros.

107
Para pensar...
Na sua igreja tem alguém com o dom de profecia? Qual
é o papel que ele/ela desempenha na sua comunidade?
Quais são os tipos das mensagens transmitidas? Qual é a
relação entre essas mensagens e as mensagens proféticas
do AT?
Coloque as suas ideias no nosso fórum!

Objetivos

Ao final da unidade, o aluno:


1. Descobrirá a relação entre o profeta e o seu livro;
2. Conhecerá alguns aspectos da teologia geral dos
livros proféticos;
3. Refletirá sobre o papel do profeta nos tempos
bíblicos e na igreja hoje.

Plano da unidade
• O profeta e o seu livro
• O profeta – uma pessoa estranha
• O livro
• A arte dos profetas

108 Introdução ao Antigo Testamento


O Profeta e o Seu Livro1
Quando começamos a ler os profetas, logo descobrimos o quanto
é difícil descrever a relação entre profeta real e seu livro. Alguns
profetas nem sequer dão o trabalho de escrever a sua mensagem –
pelo menos não temos nenhum livro existente de pessoas como: Elias
e Eliseu, Natã, ou Bileão. E por isso, nos parágrafos seguintes, gostaria
de oferecer uma breve discussão sobre as questões relacionadas com
os profetas reais e, em seguida, dar alguma orientação para a leitura de
livros reais.
Isaías 6 é uma das passagens clássicas, em que a pessoa do profeta
é retratada de maneira mais vívida. Nosso entendimento comum do
que um profeta deve ser ou o que ele experimenta é frequentemente
baseado nessa narrativa do chamado de Isaías: o profeta tem uma
visão esmagadora; torna-se profundamente consciente de seu pecado
e, consequentemente, anda motivado e inspirado por este evento
durante todo o seu ministério. Na leitura de outro texto, Malaquias 4:4-
6 (quase o último texto da coleção profética do AT), observamos uma
mensagem completamente diferente: Os leitores são encorajados a se
lembrar da lei de Moisés e recebem a promessa da chegada de “Elias”.
Aqui, a lei se tornou um livro e os profetas também são considerados
literatura – aqui podemos perceber um o conceito de “lei e profetas”,
um cânon de escrituras.
O profeta individual e o seu livro formam
duas partes na tradição profética do Antigo
Testamento: a primeira tenta atravessar uma
pessoa com uma mensagem muito urgente e
de interesse imediata a seus contemporâneos,
enquanto que a segunda tenta coletar palavras
proféticas para o benefício das gerações mais
além do seu próprio tempo – até nós, que ainda
somos desafiados por eles.
Elias - profeta desiludido (Sieger Köder)

1
Para esta seção aprendi bastante, e usei bastante, um texto não publicado do meu amigo Prof. Dr. C.
Rösel, Marburg.

109
O Profeta – Uma Pessoa Estranha
Podemos ver os profetas por várias perspectivas. De um ponto de
vista sociológico, podemos distinguir 4 tipos de profetas, dependendo
de sua filiação a um grupo e/ou alguma instituição:
• Irmandades proféticas: Estudantes de escolas proféticas,
“cooperativas proféticas”;
• Profetas do templo (ligados a uma instituição);
• Profetas da corte (ligados a uma instituição);
• Profetas individuais (que são os profetas literários como Isaías
ou Jeremias, mas também Elias, Eliseu, dentre outros).
• Uma outra perspectiva óbvia é a cronologia:

Os livros dos profetas


Os livros dos profetas começam com Amós e Oséias. Estes
profetas literários geralmente falam a todo o povo. Tanto antes do
exílio, falam da queda de Israel e Judá; quanto durante e depois do
exílio, eles prometem também uma nova salvação para o povo. Após
o exílio a comunicação de Deus através dos profetas foi retomada
pelo uso mais óbvio da Torá (Esdras) e pela literatura apocalíptica
(Daniel...).
A pessoa do profeta
A pessoa do profeta desaparece por trás da mensagem, mas não
podemos simplesmente dispensá-la com o nome do profeta, pois Deus
sempre fala por meio de seres humanos concretos; onde normalmente,
o profeta só recebe esta comunicação de Deus sem informação prévia;
contudo a iniciativa é de Deus. Em outras culturas do Antigo Oriente
Próximo, os profetas perguntavam a seus deuses usando certas práticas.
Os profetas, muitas vezes, preocupavam-se com o problema da
sua legitimação. A fórmula usada pelo mensageiro era normalmente
de designá-los como mensageiros de Deus. Mas quem poderia saber
se eles estavam dizendo a verdade? O Antigo Testamento trata este
problema através da perspectiva dos verdadeiros profetas, os quais
tiveram que prevalecer contra os falsos profetas ou o questionamento
direto de sua legitimação. No livro, muitas vezes, a narrativa do

110 Introdução ao Antigo Testamento


chamado tenta resolver a questão. Na esfera pública, o profeta tem que
ser medido em relação ao cumprimento de suas palavras. O verdadeiro
profeta é independente de seus ouvintes – ele apenas depende de Deus
(Mi 3,5). E por essa razão, Deus afirmará as palavras de seu profeta,
por meio do cumprimento dessas (Jr 28,9).
Por causa de sua mensagem, muitas vezes desconfortável e da
falta de uma legitimação imediata, os profetas muitas vezes eram
rejeitados e perseguidos – e às vezes precisavam mesmo de sofrer o
martírio (especialmente de Jeremias, mas leia também o comentário
de Jesus em Lc 11:47ss sobre o sangue dos profetas, desde Abel até
Zacarias).
A mensagem dos Profetas
A mensagem dos Profetas é normalmente falada como a palavra
de Deus em uma situação concreta e especial. A predição de eventos
futuros é apenas uma ferramenta para comunicar e enfatizar a
mensagem contextualizada. Essas previsões nunca foram destinadas
a satisfazer a curiosidade de ninguém (inclusive nossa curiosidade!)
sobre o futuro. Eles visam a mudar a vida de seus ouvintes específicos.
Algumas dessas previsões, porém, são mais abrangentes e, portanto,
podem falar de um futuro mais distante.
Normalmente, os profetas falam uma linguagem forte, chocante,
cheia de ritmo e poesia (vamos refletir sobre este recurso mais
adiante). Mas eles também atuam simbolicamente para reforçar a sua
mensagem (cf. Ezequiel).
Os grandes temas são:

1. Afasta-se de outros deuses (Jr 2);

2. Volta-se para a lei e a justiça (Am 2);

3. Confia em Deus nas decisões políticas (Is 30);

4. A salvação virá (Is 11).

111
O livro
Palavras proféticas orais foram bastante comuns no antigo
Oriente Próximo. Mas os livros proféticos são uma característica
singular de Israel e Judá.
A escrita das palavras começou no momento em que a mensagem
dada por via oral foi recusada (cf. Jr 36). Jörg Jeremias escreveu:
“Paradoxalmente, foi a desobediência e a falta de vontade de ouvir dos
ouvintes em primeiro lugar, que levam as primeiras palavras escritas
dos profetas. O imediatismo das palavras orais ganha, por ser escrito,
uma qualidade paradigmática e comunica aspectos gerais sobre o
relacionamento de Deus com Israel, que seriam transferidas para
novas situações históricas” (J. Jeremias, Hosea und Amos, FAT 13,
Tübingen 1996, 29+31).

A Arte dos Profetas2


Os profetas não podem ter sido muito originais em sua teologia
(muitas vezes eles apenas aplicavam a Torá), mas eles são inigualáveis
no Antigo Testamento, por seu poder de persuadir. É sempre muito
esclarecedor pensar em como os profetas tentaram realizar um grande
impacto sobre seus ouvintes.
A “crítica retórica” é um desenvolvimento recente e importante,
não só focando nos profetas, mas em toda literatura bíblica. Mas talvez
seja importante usá-la para os profetas, pois assim, perceberemos
como o estudo da linguagem é usado para convencer as pessoas a um
ponto de vista.
Por que os profetas tantas vezes falam de formas poéticas? Parte da
resposta, sem dúvida, é que a linguagem sublime da poesia foi pensada
de modo adequado para falar de Deus. Mas, além disso, os profetas
usaram sua poesia para segurar a atenção do ouvinte: ao desafio e à
surpresa. Basta dar uma olhada em Amós 1 e 2 e perceberemos como
ele fala de todos os pecados dos vizinhos de Israel antes que ele – sem
acalmar o tom – gira ao redor de Israel, confrontando-os com sua
culpa.
2
Eu traduzi essa passagem de J. Gordon McConville, A Guide to the Prophets, vol. 4, Exploring the
Old Testament (InterVarsity Press, 2002), xxv-xxvi.

112 Introdução ao Antigo Testamento


A arte dos profetas não é um extra opcional para sua mensagem, mas
essencial para ela. Infelizmente, apenas alguns desses recursos podem
ser representados na tradução. Porém, como essa arte não está apenas
na sua poesia, mas também na sua narrativa; no seu uso de metáforas;
no seu uso retórico de diálogo (e.g. Ageu, Malaquias), e em suas ações
simbólicas (Ez 4,1-7,27) que foram utilizadas para o efeito, porque, às
vezes, eram o extremo e o chocante (casamento de Oséias com uma
prostituta, Os 1; a metáfora de Jeremias do divórcio para proclamar
o fim do relacionamento entre o Senhor e Israel, Jr 3,1-5; Ezequiel
empurrando a imagem da prostituta a extremos escabrosos, Ez. 16:
23). Nos profetas não há limite para os métodos variados de persuasão.
Arte e palavra divina
A arte dos profetas em seus discursos pode ser explicada em um
nível mais profundo, o que revela efetivamente a importância central
da Palavra de Deus nos seus pensamentos. Os profetas usavam poesia,
porque era uma forma adequada
de falar de Deus. Evidentemente, o
testemunho bíblico não sugere que
poesia é o único meio adequado
de falar sobre Deus (já que a Bíblia
inclui também as leis, narrativas,
cartas e outras formas). Mas a poesia
tem a capacidade tanto de falar sobre
coisas que são muito familiares,
quanto de levar a imaginação a novas
formas de pensar e de compreensão.
Os poemas não têm significados
cortados e secos, mas muitas vezes
são abertos a várias interpretações. É
essa abertura que convida o leitor ou
Visão de Isaías - (Sieger Köder) ouvinte a pensar em Deus.
Para dizer que o discurso profético é
retórico, então, devemos destacar um ponto teológico. Profetas falam

113
a Palavra de Deus e eles fazem isso de inúmeras formas para que sejam
adequadas ao seu objeto (Deus e o reino celestial) e a sua intenção (para
chamar as pessoas de volta a Deus). O discurso profético é basicamente
uma fala de um mensageiro. Mas como é que este discurso pode ser
eficaz? A pronúncia de uma sentença pode ter o efeito de transformar
as pessoas de seus pecados, e assim evitar o julgamento que lhe foi
pronunciado. O melhor (talvez o único) exemplo disto no corpus
profético é o livro de Jonas, no qual o povo de Nínive se arrepende.
A intenção retórica de Deus foi presumivelmente cumprida no seu
arrependimento, mesmo que Jonas tenha sido oposto a isso!

Referências Bibliográficas

McConville, J. Gordon. A Guide to the Prophets. Vol. 4. Exploring the Old


Testament. InterVarsity Press, 2002.

114 Introdução ao Antigo Testamento


Introdução ao Antigo Testamento
Unidade - 14
Os livros proféticos - 2
Aspectos teológicos e um panorama dos profetas

Introdução

Já refletimos sobre a pessoa do profeta e os seus livros


de uma forma geral. Agora vem a hora de olhar para cada
um desses livros. Mas antes disso afiemos o nosso olhar
com algumas observações teológicas gerais.

Objetivos

Ao final da unidade, o aluno:


1. Terá conhecimento de alguns caminhos teológicos
comuns para os livros proféticos;
2. Terá uma visão panorâmica dos livros proféticos
do AT.

Plano da unidade
• Temas teológicos
• Isaías
• Jeremias – Ezequiel – Daniel
• Os profetas menores – o Livro dos Doze

115
Temas teológicos
Com a pregação dos profetas, no tempo de crise política (após
760), podemos observar o início de um novo modo de falar e agir de
Deus com seu povo.
Os escritos proféticos são mais conhecidos por sua crítica às
instituições que, inicialmente, foram dadas pelo próprio Deus, mas
que se desenvolveram longe Dele. Assim, eles formam um corretivo
necessário contra o estabelecimento de sacerdotes e reis. O importante
para eles é a crítica a um sentido errado da eleição e da autoafirmação
que acaba por conduzir a um abandono das palavras de Deus. Faz parte
desta mensagem um futuro glorioso para Israel (e do mundo inteiro),
apesar de todos os atos de autoengrandecimento. Os profetas têm uma
mensagem corretiva que acaba abrindo um caminho para mudar e,
finalmente, para evitar a condenação. Mas há também a noção de
julgamento inevitável (esp. Amós, que só fala, muito timidamente,
de uma salvação futura). Esta mensagem mostra como o amor divino
pode ser profundamente violado.
Mesmo como comunidade do Novo Testamento, precisamos
estar atentos a essa forte mensagem (simplesmente não podemos
prever, quando Deus irá “permitir-nos” colher dos frutos do nosso
pecado, ou quando ele vai agir no perdão misericordioso mesmo tendo
as consequências naturais da nossa natureza). Claro que isso precisa
ser equilibrado pela vitória final da sua misericórdia – o julgamento já
foi tomado por Jesus.
Um aspecto importante que merece destaque é o da necessidade
de restabelecer em nossas igrejas: o cultivo da correção crítica das
pessoas da liderança – seja da sociedade (política), da economia ou
da própria igreja. Pentecostes foi o dia em que a visão da profecia
universal de Joel tornou-se realidade. O Espírito de Deus foi derramado
sobre todos os crentes para que eles pudessem conhecer a mensagem
divina com a cruz e a ressurreição de Jesus em seu coração. Portanto,
o trabalho de todos consiste em testemunhar esta mensagem para o
mundo, tal como os profetas fizeram por Israel.
A dupla mensagem dos profetas – a oposição ao culto de outros
deuses do que Javé e a procura de justiça social na comunidade,

116 Introdução ao Antigo Testamento


que afirmava ser o povo escolhido – levaram a uma teologia mais
desenvolvida, nova e progressista de Israel. Foi o ponto alto do
pensamento teológico em Israel – se assim podemos afirmar. Isso serviu
de modelo e influência para Julius Wellhausen nos séculos XIX e XX.
Ele imaginou que os profetas eram os “criadores” do monoteísmo ético
de Israel e que todos os outros pensamentos teológicos – seguintes
– foram atrasos disso. Especialmente a lei, que está ligada aos rituais
e ao legalismo. Antes dos profetas existiram apenas o animismo e
politeísmo em várias formas. Os dias deste sistema já estão muito longe,
e tornou-se um consenso comum de que as relações entre os profetas
e as outras tradições bíblicas são muito mais complexas. Se os profetas
não são distintos no conteúdo de sua teologia, eles são especiais na
forma da sua comunicação – como já vimos. Poderíamos estar indo
para temas como “Profetas e sabedoria”,
“Profetas e Lei” – ou até mesmo “Profetas
e Deuteronômio” –, e “Profetas e Salmos”.
Claro que também, podemos olhar para as
diferenças e semelhanças entre os profetas.
Tudo isso nos ajudará bastante a entender a
sua mensagem de maneira mais clara. Mas
como este não é o curso de teologia bíblica
vou deixar tudo isso para outro dia.
Julius Wellhausen - estudioso bíblico e orientalista, famoso, particularmente,
por sua contribuição para o conhecimento acadêmico sobre a origem do
Pentateuco/Torá. Fonte: Wikimidia Commons

Para pensar...

Claro que a mensagem dos livros proféticos do AT tem muito


a falar conosco hoje – mas o que dizer sobre o fenômeno da
profecia? Que livros do NT você pode associar com o papel
profético para a sua igreja?

Coloque as suas ideias no nosso fórum!

117
Isaías
Ler Isaías é sempre muito edificante – aqui encontramos alguns
dos textos mais amados do Antigo Testamento. É realmente muito
difícil limitar-se ao introduzir este livro – mas é necessário.
Uma coisa que eu deveria mencionar é a divisão de Isaías 1-66
em três “profetas”: Isaías (1-39), Deutero-Isaías (40-55) e Trito-Isaías
(56-66). Cada uma destas partes pertence a uma época muito diferente
de Israel e apenas 1-39 têm qualquer ligação real com o homem Isaías,
filho de Amós, a partir do final do século VIII. Os outros são do
exílio ou pós-exílio. Essa divisão foi consenso
acadêmico por muito tempo, mas está se
dissolvendo cada vez mais, pois a maioria dos
estudiosos hoje está convencida de que não faz
sentido ler um destes três separados dos outros
dois. Os temas e palavras-chaves funcionam
durante o livro inteiro. Apesar de algumas
discussões consideráveis sobre a data do livro
de Isaías, você pode ficar tranquilo que você
está perfeitamente certo de lê-lo como uma
unidade. Como se você não tivesse feito isso
Visão de Isaías - (Sieger Köder)
de qualquer maneira.
Então aqui vem uma proposta de uma estrutura geral (também
vou destacar algumas passagens importantes):1

1-12 Jerusalém julgado e resgatado


5:1-7 é o conhecido “canção da vinha”. O anúncio do julgamento se
tomou a forma de uma parábola.
6 é a visão do conselho do trono de Isaías. Pode ser visto como vocação
de Isaías. A chamada Trishagion (“Santo, santo, santo”) veio desde Ap.
4:8 na liturgia cristã até hoje (muitas canções veem dessas palavras).
9:1-6 anúncio do nascimento e da entronização do rei da salvação (“O
povo que andava em trevas…”), veja também 11:1-9, o rei da salvação e o
seu reino de paz.

1Esta tabela traduzi e adaptei de http://www.bibelwissenschaft.de/bibelkunde/altes-testament/


prophetische-buecher/jesaja/, 19.10.2009.

118 Introdução ao Antigo Testamento


13-27 A justiça de Deus estabelecida entre as nações
13-23 são oráculos sobre as nações estrangeiras p.ex. contra Babel (13-
14+21), Moabe (15+16), Síria (17) ou Egito (18-20). Mas estes oráculos
sempre são implicitamente orientados a Judá: A desgraça destes significa
ao mesmo tempo, salvação ou alívio do povo de Deus.
28-35 Um rei justo em Jerusalém
O ciclo assírico 28-31 vem de 701, quando rei Senaqueribe da Assíria
tentou ocupar Jerusalém.
Cap. 32 formula a expectativa de um reino de paz depois desses eventos.
36-39 Jerusalém é salva, mas a sombra da Babilônia a ameaça
Cap. 36-39 são um relato dos eventos do cerco de Jerusalém por
Senaqueribe. Estes capítulos servem para mostrar a verdade da
mensagem do profeta.
40-55 O retorno do exílio da Babilônia
Cap. 40 começa com a esperança de um novo êxodo: em uma grande
procissão o povo retornará pelo deserto para a Israel.
Cap. 41-44 formulação do monoteísmo
Hinos sobre o servo sofredor
42,1-9 exaltação e miséria do servo
49,1-13 o servo se torna como luz das nações
50,4-9 o servo preparado para servir e sofrer
52,13-53,12 o servo sofrendo
56-66 Novo céu e novo mundo
Os exílios retornarão, as nações vão juntar-se com Israel; esta é a
mensagem principal destes capítulos. Ao lado disso lemos também sobre
as ameaças aos egoístas da comunidade (jejum falso e certo, cap. 58).

Alguns temas emergentes podem ser vistos através desta


estrutura. Em um nível fundamental, a metáfora básica de Javé como o
rei celestial (Is 6,5) atravessa a maior parte da profecia. Outros deuses
não existem e, portanto, não devem ser adorados, e todas as relações
com a comunidade devem ser moldadas pelas normas definidas pelo
rei divino – que refletem a sua justiça e ética.
Outro aspecto do tema do rei desenvolvida em Isaías é o reino
escatológico de Deus. Este tema levanta a questão da relação entre o
reinado divino e humano. O rei humano de Sião ocupa este cargo por
nomeação do rei divino, e também é considerado responsável pelo

119
estabelecimento da justiça ao seu povo. Este pensamento é, então,
desenvolvido no que chamamos de promessas messiânicas, de um rei
que realmente cumpre plenamente o que Deus exige dele (Is 9-11).
Esta figura messiânica domina a primeira parte de Isaías, enquanto no
segundo momento, a metáfora se volta para o servo. Essa transição não
é muito dura, como “servo” era uma designação comum para o rei do
Antigo Oriente Próximo – o rei é o servo de Deus que deve estabelecer
a justiça e a paz ao seu povo. A identidade deste “servo” em Isaías é
difícil de definir. Podendo ser um indivíduo ou um grupo (Israel), ele
tem características divinas e, por outro lado completamente humanas,
parece, às vezes, uma figura real, por vezes, um profeta. O tema de
servo anda de mãos dadas com a mensagem da salvação das nações
(Is 49:6). O retorno do exílio da Babilônia não é um simples retorno à
forma como as coisas eram antes. Deus quer um povo verdadeiramente
justo para habitar sua “cidade” – e este povo será composto de pessoas
de muitas nações.
A data do livro é outro grande problema. Mas lembre-se da nossa
discussão acima sobre a relação do profeta com o seu livro: podemos
ser bastante relaxados sobre isso. O próprio profeta em primeiro lugar,
falou ao seu povo por via oral. Só em uma fase posterior o livro foi
escrito e certamente com a intenção de preservar a mensagem do
profeta para as gerações futuras. De fato, ao tentar ler a mensagem de
Isaías em diversos cenários históricos, a retórica faz sentido em todos
eles – e ainda, o livro continua a falar para nós. Isso aponta para a
qualidade literária dos textos deste livro.

Para pensar...
Pensando no “servo”... se a identidade dessa pessoa continua a
ser tão vaga em Isaías, o que isso lhe diz sobre seu próprio papel
como um “servo”? (É claro que Jesus tem que ser interpretado
como o servo final, mas isto não exclui as outras interpretações!)
O que isso quer dizer sobre ser parte de um novo Israel? Que
tipo de motivação missionária viria com isso?

120 Introdução ao Antigo Testamento


Jeremias – Ezequiel – Daniel

A discussão acima de Isaías deveria servir como guia para a sua


própria leitura desses três profetas fascinantes e muito diferentes entre
si. As perguntas para orientar a sua leitura poderiam ser:
• O que a introspecção (quase psicológica) da personalidade de
Jeremias contribui para a mensagem do seu livro?
• Em Ezequiel, lemos muito sobre as metáforas – metáforas de
ação e metáforas de conceitos. Quais seriam os critérios para estabelecer
o significado de uma metáfora? Como metáforas trabalham na mente
do leitor?
• Lendo Daniel, muitas vezes, somos apanhados em histórias
intrigantes combinadas com visões altamente imaginativas. Como é
que a sequência dos textos em Daniel influencia nossa compreensão do
livro? Quais são as partes de Daniel que você consideraria como tendo
um valor essencialmente simbólico e que partes querem comunicar
fatos históricos? Será que precisamos distinguir esses duas opções?
Por favor, não se ofenda com essas perguntas! Essas coisas
precisam ser feitas para que possamos chegar a uma interpretação
mais profunda e mais
relevante, bem como
para uma aplicação mais
refletida da verdade
divina que eles gostariam
de comunicar.

Visão de Daniel - (Espanha 1109)

121
Os profetas menores – o Livro dos Doze
Os doze profetas menores formam um livro. Essa coleção, logo
no início, acabou sendo considerada um livro; como pode ser visto na
tradição massorética: as somas da Masora final se referem a todas as
palavras destes doze livros e afirmam que a palavra “Sião” em Mi 3:12 é
(matematicamente) a palavra central desta coleção. Nós encontramos
várias referências aos doze (nos rolos de Wadi Murabba’at e Qumran e
em uma referência em Eclesiástico 49,10).2
Essa coleção segue uma sequência cronológica. Primeiramente,
encontramos os profetas que ameaçavam a queda do reino do norte:
Oséias, Amós, Miquéias (1:2-7). Judá era salva deste mesmo destino,
porque eles seguiram o conselho de Joel e pediram a ajuda de Deus,
que por sua vez poupou seu povo (Joel 2:18). Obadias e Jonas
discutem como as nações estão relacionadas com o destino de Israel.
Com Miquéias, Naum, Habacuque e Sofonias, ouvimos os profetas
pregarem o castigo a Judá. Suas advertências passaram despercebidas
e, assim, Judá também desapareceu. Entre Sofonias e Ageu deveríamos
ler sobre o exílio, mas isso não acontece. Ageu, Zacarias e Malaquias,
finalmente, gravam a mensagem que levou à restituição limitada de
Judá, sob o domínio persa. Mas ao mesmo tempo, sublinham a forma
final do desejo de Deus para salvá-los e com eles todo o mundo; ainda
é uma coisa do futuro.
Eu adoraria ir mais fundo na mensagem e nas retóricas de vários
escritos maravilhosos, mas, novamente; não há espaço. No entanto,
comecem a estudar como estes profetas interpretam a realidade atual
na luz do relacionamento especial entre Deus e Israel.

Referências

McConville, J. Gordon. A Guide to the Prophets. Vol. 4. Exploring the Old


Testament. InterVarsity Press, 2002.
2
Quem quer ler mais pode se dirigir a este site: http://www.webartigos.com/articles/13129/1/shenei-
assar-uma-analise-sobre-a-unidade-literaria-dos-doze-profetas-menores/pagina1.html, 19.10.2009.

122 Introdução ao Antigo Testamento


Introdução ao Antigo Testamento
Unidade - 15
Épocas : A pré-monarquia

Introdução

Nessas últimas quatro unidades, gostaria de apresentar


uma visão geral da sequência dos acontecimentos históricos
registrados no Antigo Testamento. De cada época, gostaria
de escolher um ou dois temas de interesse relacionados a
com este tempo. Então, seria errado você esperar que eu
escreva alguma espécie de livro sobre a história de Israel.
Pois, estes livros já existem (veja a bibliografia do Programa
de Curso) e são boas coisas para se ler.
Uma sugestão seria que você criasse sua própria linha
do tempo usando todos os tipos de fontes que lhe ajudarão a
obter uma boa visão geral da sequência e uma classificação
geral na história israelita.
Daremos início a essa visão panorâmica histórica com
todos os anos anteriores do primeiro rei em Israel, Saul.

Objetivos
Ao final da unidade, o aluno:
1. Descobrirá a sequência histórica dos
acontecimentos como eles são registrados no Antigo
Testamento;
2. Conhecerá algumas questões relacionadas com
a história de Israel durante o qual nenhum acordo foi
alcançado;
3. Refletirá sobre algumas questões teológicas
relacionadas a estas épocas.

123
Plano da unidade
• Antes de ser povo
• Religião dos patriarcas
• O Êxodo e a Formação do Povo
• O êxodo do Egito
• Formação do povo de Israel
• Os profetas menores – o Livro dos Doze

Antes de ser povo


Quero começar com uma tabela que eu copiei de Balancin
(BALANCIN, 1989, p. 111).
Livros da Bíblia
I. Antes de ser povo

Época: 1350-1250 a.C.


Regime: Famílias e clãs que vão se reunindo
aos poucos (camponeses, migrantes,
pastores) Sistema de troca Gênesis
Religião: Deus dos pais (de Abraão, Isaac, Jacó)
Culto nas famílias
Conflitos com as cidades

Para cada período vou dar este tipo de tabela. Talvez você
já tenha percebido que os dados colocados por Balancin são um
pouco estranhos. Parece que Balancin adere a uma visão bastante
rigorosa, quando quer limitar o período patriarcal a 1350– 1250
a.C. – normalmente falamos de 1950–1500 a.C. para esse período
(KITCHEN, 2003, p. 423ss).
Lendo a narrativa bíblica que cobre este período, reconhecemos
várias características marcantes. Entre elas, está a expectativa de
vida longa dos patriarcas. Além disso, parece que existem lacunas
consideráveis nas genealogias de Gênesis 5 e 10. Para nós, isso parece
muito estranho. Ao escrever sobre história, tendemos a favorecer

124 Introdução ao Antigo Testamento


datas precisas e sequências sem lacunas. A cultura e as tradições do
Oriente Médio do segundo milênio parecem ter visto a historiografia
diferentemente. Os arqueólogos encontraram um bom número de
listas de reis escritas nessa época. Estas listas registram as datas de
famosos governantes antediluvianos e também apresentam uma
sequência de nomes e datas para os reis pós-diluvianos. Eles dão
períodos incrivelmente longos para os reinados (por exemplo, o rei
sumério de Bat-Tibira, Enmenluanna, reinou “uns” espantosos 43.200
anos!) Depois do dilúvio, esses números se baixam a 1200-600 anos.
Os números bíblicos são muito mais moderados para os períodos
respectivos, mas ainda são longe do que conhecemos por uma
expectativa de vida normal.
De onde vêm esses números? Como podemos explicar isso? Tenho
lido um bom número de sugestões, de estudiosos sobre esse problema,
e cheguei a pensar que a explicação de K.A. Kitchen (KITCHEN, 2003,
p. 444–447) parece ser a mais provável, levando em consideração a
natureza dos textos - das listas de Gênesis e também da Suméria,
Assíria, Babilônia e Egito. Os antigos estavam tentando escrever uma
espécie de pré-história de seu próprio povo. Infelizmente, eles não
estavam cientes de datação por carbono, dendrocronologia ou outros
métodos de datação. Eles estavam cientes de que a inundação foi muito
tempo atrás e eles tinham algum registro dos ancestrais dessas épocas
antigas. Mas, ao que parece, esses dados não foram degraus suficientes
para preencher todas essas eras. Ainda mais, porque era escassa a
memória dos ancestrais antediluvianos. Mas era necessário preencher
estas lacunas conceituais. As figuras tinham de ser produzidas e foram
produzidas. Isso não tem haver com mentira ou prática historiográfica
má – é exatamente como eles cuidaram de fazer sentido da sua história.
O problema que permanece é como se decidiram sobre o
número de anos que encontramos nos textos. Esta é, e provavelmente
continuará a ser, um exercício de adivinhação educada. Os sumérios
usavam um sistema numérico baseado em 10 e 60. Isso pode explicar
,muitas vezes, a relação entre os números altos e essa base. Dividido
pelo fator de 600, estes reinados diminuíam para a faixa de 72-31 anos.
Mas isso, obviamente, não funciona para o relato de Gênesis. Pode ser
viável dividir os anos até os seus filhos nascerem por 5. O resultado

125
seriam valores razoáveis. Mas as suas vidas, após o nascimento dos
seus filhos ainda seriam bastante elevadas (a esperança de vida total
seria, em média, 180/190 anos). Isto pode ser devido à possível prática
de contar os anos do clã, que era conhecido pelo nome do patriarca.
Mas tudo isso permanece na especulação. Por outro lado, não há
necessidade de entrar em qualquer discussão detalhada quando
alguém tenta questionar a confiabilidade do Antigo Testamento só por
causa desses números elevados. Obviamente, para os antigos, esses
textos eram bastante aceitáveis e serviram a sua necessidade de uma
pré-história confiável.

Religião dos patriarcas


Um tema muito interessante, que surge do tratamento dessa época,
é a religião dos patriarcas:
Como sempre surge a questão de saber até que grau e como a
cosmovisão do autor determinou a representação dos eventos relatados.
Se esse for o caso, é óbvio: A religião pré-Moisaica é claramente
demonstrado em Gênesis a partir de uma perspectiva pós-Moisaica. O
autor, aparentemente, escreveu séculos depois dos eventos, e ele escreveu
de modo que o leitor pudesse entender. Como toda historiografia, também
a narrativa Patriarcal, na sua forma atual, não é apenas uma sequência
simples de fatos históricos. É uma composição, bem organizada, para
sugerir uma interpretação dos eventos dessa época do antigo Israel para
um leitor talvez historicamente muito distante. Por isso, podemos alcançar
uma visão da religião dos patriarcas somente por meio dessa história
já interpretada. Precisamos distinguir conceitos da época do autor, que
foram incorporados nos textos, e a fé dos Patriarcas.
Isto é particularmente evidente nos nomes de Deus que são usados
nos textos de Gênesis. De acordo com Êxodo 3,13-15 e 6,3, os patriarcas
conheciam a Deus apenas como El ou El Shaddai. Javé, porém, uma nova
revelação de Deus a Moisés. É claro que o uso desse nome divino em
Gênesis é historicamente fora do lugar (anacronismo) e do tempo vem de
Moisés. O autor, provavelmente, quer mostrar com o uso de “Javé” que há
uma continuidade direta entre o Deus dos pais e o Deus de Israel da época
do Êxodo. Wenham sugeriu que o El dos pais é o mesmo deus que o chefe

126 Introdução ao Antigo Testamento


do panteão cananeu, El. Esse El é o Criador e caraterizado como antigo,
sábio e misericordioso. Ele é o rei acima de todos os deuses, nada pode
acontecer sem a sua aprovação. Além disso, ele tem poder sobre a vida
e a morte, e é o único Deus que pode permitir aos homens ter crianças
(isso é muito relevante para as promessas a respeito da descendência
em Gênesis; (WENHAM, 1987, p. xxxii)). Neste contexto é de interesse
particular que Baal não desempenha nenhum papel para os patriarcas,
porque no contexto Canaanítico, Baal foi muito mais importante do que
El. Isso mostra que a história patriarcal deve ser realmente antiga.
O nome “o Deus de Abraão/o Deus dos pais” significa, no contexto
familiar dos patriarcas, que este Deus é aquele que a família adora, quem
determina o seu destino e quem fala com eles. Paralelamente devemos
entender a frase “Deus de Israel” no contexto do povo. A organização da
comunidade se reflete no nome de Deus.
Quanto à questão do politeísmo, monolatria e
monoteísmo nessa época: Em nenhum caso na religião dos
patriarcas há sinais de politeísmo (por exemplo, eventos que ocorrem
entre vários deuses). A decisão entre monolatria (somente um Deus
é louvado) e monoteísmo (somente um Deus existe) no caso dos
patriarcas não é possível com base dos textos bíblicos.1 Estas categorias
não funcionam muito bem nessa época (WESTERMANN, 1989, p.
120s). Através de uma perspectiva bíblica, todas as religiões devem ter
uma relação à religião de Noé. Isso corresponde à hipótese histórico-
religiosa que o monoteísmo é a base para a divisão posterior de um
deus em vários deuses específicos.

Quanto ao relacionamento pessoal com Deus:


Westermann observa que em Gn 12-36, não aparece o assunto da
relação entre pecado e castigo. Por isso também não existe uma
teologia do perdão de pecado (WESTERMANN, 1989, p. 123).
“Culpa” apenas aparece em relação a outras pessoas, não em relação a
Deus. As promessas assumem um papel dominante, embora eles ainda não
sejam condicionados (por exemplo, por ameaça de juízo ou punição), como
‘Monoteísmo’ é uma categoria difícil, porque essa palavra reúne o que parece somente em uma
1

maneira muito superficial. O que o cristianismo ou judaísmo tem a ver com o Islã ou outras religiões
monoteístas (p.ex. o monoteísmo de Akhenaton na Egípcia ou dos testemunhos de Jehová)?

127
é o caso mais tarde com o povo de Israel. No entanto, não pode esconder
a ênfase no temor de Deus no ciclo de Abraão, que claramente obriga o
beneficiário da promessa a obedecê-lo. Isso também é ilustrado na situação
em que: Abrão recebe o mandato de “ir” (Gn 12) e toda a narrativa do
sacrifício de Isaque é sobre a exposição da obediência de Abraão. Ambos
os contextos enfocam a promessa de Deus a Abraão. Aqui se combina a
promessa e o compromisso.
Quanto ao culto: o culto dos patriarcas não é removido da vida
cotidiana, ao contrário do culto no templo, apresentado mais tarde.
Os lugares santos andam juntos com os Patriarcas. Não existem vasos
sagrados, nem calendário fixo, nem uma ordem de culto (sacrifícios não são
necessários), nem sacerdócios (o sacrifício, a bênção, a mediação da palavra
de Deus são assumidos pelo pai! Instituições não existem). Por isso, “tudo
o que acontece entre Deus e o homem, é feito diretamente, sem qualquer
intermediário” (WESTERMANN, 1989, p. 124). Santuários abaixo de
árvores e de pedra foram, aparentemente, aceitáveis para os patriarcas,
mas, mais tarde em Israel, eles foram absolutamente rejeitados. O dízimo,
no entanto, já era prática comum para Abraão e Jacó. Circuncisão, um ato
motivado pela religião, mostra bem a continuidade dos pais e da religião de
Israel.

O Êxodo e a Formação do Povo

Livros da Bíblia
II. Confederação das Tribos de Israel

Época: 1250-1050 a.C.


Regime: tribal
Sistema: igualitário e participativo
Religião: adoração exclusiva a Javé, que é identificado Êxodo, Números,
como o Deus dos pais e o Deus dos hebreus;
culto nas famílias e tribos; santuários Josué e Juízes
Conflito com o império egípcio, cidades-Estado
e filisteus
Situação do povo: cultura simples e partilha de bens

Mais uma vez uma tabela de (BALANCIN, 1989, p. 112).

128 Introdução ao Antigo Testamento


O Êxodo do Egito
Nessa época na história de Israel podemos localizar o fato que
um clã se torna um povo (uma entidade social maior). Bem ligada com
esse desenvolvimento temos o êxodo do povo de Egito. Esse evento foi
o mais importante para a formação da identidade do povo de Israel.2
O livro do Êxodo não apresenta uma fartura de dados
cronológicos dos quais poderíamos deduzir a data base do êxodo
histórico. Se tomássemos 1Rs 6:1 ao pé da letra, deveríamos concluir
que o êxodo ocorreu 480 anos antes da fundação do templo de Salomão,
em torno de 1440 a.C. Mas temos razão para suspeitar que o número
480 é simbólico. A computação independente dos diversos números
apresentados para o mesmo período resulta em um total com excesso
de 550 anos. A explicação provável é que nem sempre se mantinha
uma distinção clara entre os dados simultâneos e dados consecutivos.
A maioria dos eruditos hoje concorda em que a avaliação de todos os
dados e evidências bíblicas apoia uma data do século XIII para o êxodo.
Sabemos que as cidades-celeiro de Pitom e Ramessés, mencionadas
em Êx 11,1 foram construídas nos reinados dos faraós Seti I (1303-
1290 a.C.) e Ramsés II (1290-1224 a.C.). A Estela de Merneptá (ca.
1220 a.C.) inclui Israel entre os povos da Palestina e, portanto, fornece
um terminus ante quem para a entrada deles em Canaã. Quando se dá
uma tolerância para a peregrinação dos israelitas no deserto, podemos
concluir que o êxodo ocorreu no ano de 1260 a.C.
Na história egípcia não há relatos sobre o povo hebreu. Porém é
possível se ponderar sobre o povo Hebreu no Egito. Não é impossível
pensar que uma grande população hebraica morava no norte do Egito
no período. Grandes números de tribos semitas estavam se fixando
no nordeste egípcio a partir de 1650 a.C. Estes foram tão fortes que
dominaram os próprios egípcios por um período de tempo (Segundo
Período Intermédio). Até que os egípcios expulsaram os estrangeiros
dos seus tronos no Novo Império. A propósito, o conceito de sair da
área de opressão não foi uma ideia nova dos Hebreus. Já os Núbias
fizeram isso alguns séculos antes e vários outros povos também.
2
Os próximos parágrafos foram adaptados de um texto trabalhado por estudantes desse curso da
FTSA em 2009. Eles basearam este trecho no site http://www.wsu.edu:8080/~dee/HEBREWS/
WANDER.HTM, 18.10.2010 e em (BRUCE, 2009, p. 206s).

129
O hino triunfal de Êx 15 representa uma resposta hebraica aos
hinos orgulhosos egípcios do Novo Império que falam das grandes
(re-)conquistas dessa época. De uma maneira semelhante podemos
interpretar as pragas como crítica da cosmovisão egípcia: O faraó
não era capaz de dar estabilidade e segurança para o seu povo. Neste
projeto o rei estava dependente da colaboração dos deuses egípcios.
O rio Nilo, que em vez de trazer vida (a função do deus Hapi), está
trazendo morte – um sinal da fraqueza no meio da soberba de Egito.
Mesma coisa com as profundas trevas: Ra, o deus do sol, se tornou
invisível! Podemos ver que a ênfase do texto bíblico está claramente
na habilidade e soberania de Javé. O super poder daquela época não
podia fazer nada contra o plano de Deus.

Formação do povo de Israel


Temos basicamente três teorias sobre a formação de Israel.3
A teoria da conquista: Israel invade a terra de Canaã, vindo
da terra da Transjordânia, as tribos lutam juntas, e essa ocupação dura
aproximadamente 25 anos. A síntese de Js 10,40-43 diz o seguinte:
Assim Josué conquistou toda a terra, a saber: a montanha, o
Negueb, a planície e as encostas, com todos os seus reis. Não
deixou nenhum sobrevivente e votou todo ser vivo ao anátema,
conforme havia ordenado Iahweh, o Deus de Israel; Josué os
destruiu desde Cades Barne até Gaza, e toda a terra de Gósen
até Gabaon. Todos esses reis com suas terras, Josué os tomou
de uma só vez, porquanto Iahweh, Deus de Israel, combatia
por Israel. Finalmente Josué, com todo Israel, voltou ao
acampamento em Guilgal.

A teoria da instalação pacífica: Essa teoria surgiu


entre 1925 a 1950, defendidos por Albert Alt e Martin Noth dentre
outros. Essa teoria nos fala que Josué não passou de um líder local,
e que as tribos foram ocupando os espaços vazios entre as cidades-
estado cananeias, sem nenhum conflito organizado, e os conflitos que
ocorriam se davam quando um clã invadia o território de uma cidade-
estado Cananeia.
Cf. http://www.airtonjo.com/historia16.htm#2.%20As%20Origens%20de%20Israel; 29.11.2009.
3

130 Introdução ao Antigo Testamento


Essa teoria se dá de uma análise crítica dos textos bíblicos que
são interpretados à luz de dados arqueológicos. Apoia-se também nas
tradições patriarcais do Gênesis: os patriarcas viviam, mais ou menos
pacificamente, nas proximidades das cidades cananeias.
A teoria da revolta: A teoria da revolta foi defendida,
primeiro, por George Mendenhall, com um artigo chamado “The
Hebrew Conquest of Palestine”, publicado em Biblical Archaeologist
25, 1962, pp. 66-87. O artigo já começa com uma constatação, que
hoje tomou lugar comum em congressos ou salas de unidade: “Não
existe problema da história bíblica que seja mais difícil do que a
reconstrução do processo histórico pelo qual as Doze Tribos do antigo
Israel se estabeleceram na Palestina e norte da Transjordânia.” De
fato, a narrativa bíblica enfatiza os poderosos atos de Javé que liberta
o povo do Egito, o conduz pelo deserto e lhe dá a terra, informando-
nos, deste modo, sobre a visão e os objetivos teológicos dos narradores
de séculos depois, mas ocultando-nos as circunstâncias econômicas,
sociais e políticas em que se deu o surgimento de Israel.
Frente a isso, os pesquisadores sempre utilizaram modelos ideais
para descrever as origens de Israel, como fez Martin Noth com a tese
da anfictionia, importada do mundo grego. O que George Mendenhall
propôs com o seu artigo foi apresentar um novo modelo ideal em
substituição aos modelos que não mais se sustentavam, sugerindo
uma linha de pesquisa que levasse em conta elementos que até então
não tinham sido considerados.
Podemos decidir entre essas três opções? Tentamos.
Primeiramente, Canaã não foi conquistada e ocupada totalmente.
Isso já é claro no livro Josué: Os Israelitas entram através do Jordão,
destruiram dois centros menores (Jerico e Ai). Outras cidades no
sul são atacadas e danificadas, mas depois abandonadas. No norte
acontece mesma coisa: Hazor foi destruída, mas nenhuma outra
cidade. Os Israelitas ficam em Guilgal e pegam um pouco de terra em
direção Siquém e Tirça. Estes sucessos preliminares foram celebrados
com uma forte retórica da guerra, mas veja Js 23:5. Segundo, as
informações dos outros poderes são raras – simplesmente porque a

131
Mesopotâmia nunca entrou em Canaã nessa época. O Egito dominou
essa área, mas não teve interesse nenhum na região montanhosa
de Canaã. Eles se preocupavam mais com as ruas importantes e as
planícies férteis perto do mar. Temos apenas uma anotação na estela
de Merenptah: As cidades Ascalon, Gaza e Yenoam. Terceiro, Kitchen
mostrou que o estilo das narrativas em Josué consiste exatamente no
que podemos supor para essa época (KITCHEN, 2003, p. 234–237). A
situação descrita em Juízes reflete exatamente os fatos arqueológicos:
Israel se estabeleceu entre os Canaanitas e não os suplantou; e isso
aconteceu na idade do bronze, no final do segundo milênio.

Referências Bibliográficas

BALANCIN, E. M. História de Povo de Deus. São Paulo: Paulinas, 1989.


BRUCE, F. F. Comentário Bíblico NVI. São Paulo: Editora Vida, 2009.
KITCHEN, K. A. On the Reliability of the Old Testament. Grand Rapids,
Michigan: Eerdmans, 2003.
WENHAM, G. J. Genesis 1-15. Waco: Word, 1987.
WESTERMANN, C. Genesis: 2. Teilband Genesis 12-36. 2. ed. Neukirchen-
Vluyn: Neukirchener, 1989. (BKAT, 1,2).

132 Introdução ao Antigo Testamento


Introdução ao Antigo Testamento
Unidade - 16
Épocas : Monarquia (parte I)

Introdução

Na segunda etapa da nossa caminhada histórica,


continuaremos com a primeira fase da monarquia em
Israel – de Saul a Salomão, o período do reinado unido de
todas as 12 tribos.

Objetivos

Ao final da unidade, o aluno:


1. Descobrirá a sequência histórica dos
acontecimentos como eles são registrados no Antigo
Testamento;
2. Conhecerá algumas questões relacionadas com
a história de Israel durante a qual nenhum acordo foi
alcançado;
3. Refletirá sobre algumas questões teológicas
relacionadas a estas épocas.

Plano da unidade
• O Reino Unido
• A instituição da monarquia
• O reinado de Saul
• O reinado de Davi
• O reinado de Salomão
• Datas mais importantes

133
O Reino Unido
Livros da Bíblia
III. Reino unido
Época: 1040-931 a.C.
Regime: monarquia. Reis: Saul, Davi, Salomão
Sistema: tributário
Religião: adoração a Javé.
Culto cada vez mais sofisticado em
Jerusalém. 1 e 2 Samuel;
Com Salomão: construção do Templo,
introdução de outras divindades 1Reis 1-11
Conflitos mais internos do que com inimigos
externos
Situação do povo: cada vez mais explorado e
empobrecido, ao lado do luxo e cultura
florescente da classe privilegiada

(BALANCIN, 1989, p. 112)

A instituição da monarquia1
Os textos sobre a instituição da monarquia começam em 1Sm 7.
Samuel atuava não somente como profeta e sacerdote, mas também
como juiz. Apesar de todo o poder político conferido a Samuel, ele não
era um rei. Essa condição levou o povo a pedir que Samuel presidisse a
mudança da forma de governo, ou seja, de juízes para reis.
Conforme 1Sm 8:20, a monarquia entre os israelitas, substituindo
o “sistema das doze tribos”, foi introduzida à moda de países
estrangeiros: “e seremos nós também como as outras nações”.
A monarquia no Oriente antigo se define não somente por seu
caráter político (Reino-Estado) e econômico (modo de produção
tributário), como também por sua ideologia: o rei é pai do seu povo,
encarregado por Deus (aspecto sacral) para garantir o suprimento das
necessidades do povo, através de uma organização estatal, com técnica,
cultura e “sabedoria”.
A monarquia israelita, abrindo caminho para um estilo próprio,
seguiu o modelo de outros países: de início mais semítico, para depois
imitar o estilo faraônico com Salomão.
De uma unidade escrita por Ênio Caldeira Pinto, FTSA, 2007, 2008.
1

134 Introdução ao Antigo Testamento


Os motivos da escolha do novo regime se devem tanto a
fatores externos como internos:
• A agressão dos filisteus: Os filisteus chegaram a Canaã quase
na mesma época do grupo hebreu saído do Egito. Sempre viveram
em conflito, e cada vez mais intenso, com a Confederação das Tribos
(período dos juízes). Embora pouco numerosos, eram militarmente
fortes, graças a uma grande disciplina e à posse de armas de ferro e
carros de combate, frente aos quais as tropas tribais tinham poucas
chances. Em 1050 a.C. os filisteus deram um golpe fatal, apoderando-
se inclusive da arca da aliança (cf. 1Sm 4) e de pontos estratégicos.
Sem possibilidades de resistência, a Confederação Tribal necessitava
urgentemente tomar providências para que não fosse totalmente
dominada.
• Degradação do sistema tribal: Provavelmente a história dos
filhos de Eli (1Sm 2:12-17.21-25) revela uma corrupção que aos
poucos entrava na Confederação, gerando crise interna. Diante disso,
surgiram reivindicações para que se criasse um governo centralizado
que pudesse enfrentar e superar o perigo filisteu e a crise interna.
Pensou-se então, em fundar uma monarquia, ter um rei “como as
outras nações”. Essa opção por um novo sistema não foi feita sem sérios
conflitos (1Sm 8; 9:1-10.16; 10:17-27; 11), mas a corrente monárquica
venceu.

O reinado de Saul
• Acesso à realeza: Dentre as narrativas que falam sobre o acesso
de Saul à realeza (1Sm 9-11), a mais antiga parece ser a de 1Sm 11:1-
15. Sua liderança inicial, ao reunir algumas tribos para defender os
habitantes de Jabes de Galaad contra os Amonitas e a vitória sobre
estes, fez com que o povo o escolhesse e fosse proclamado rei no
santuário de Guilgal (1 Sm 11:12-15).
• O âmbito do reinado de Saul é o vale médio do rio Jordão,
abarcando Galaad, a montanha de Efraim e a tribo de Benjamin,
centrada na região de Gabaá, de onde Saul expulsa os filisteus (cf. 1Sm
10:5) e aí estabelece sua capital.

135
• Modelo da realeza de Saul: Saul é, sobretudo, um chefe militar
ao estilo dos mesopotâmicos. Organiza um exército profissional
permanente, com sua guarda pessoal e general-chefe (Abner). Pouco
sabemos acerca da administração central do seu reino. Com certeza,
criou um mínimo de organização. Os relatos bíblicos estão mais
interessados na sua luta contra o inimigo central: os filisteus.
• Oposição a Saul: O reinado de Saul, desde o início, sofreu
contínuas pressões internas devidas, provavelmente, ao atrito entre
os partidários do novo sistema e os remanescentes do sistema tribal
(1Sm 13:7-15; 15). Além disso, a tribo de Judá entra em conflito com
Saul, pretendendo, a todo custo, obter o poder e a hegemonia dentro
do novo sistema. A lenta ascensão de Davi marca, pouco a pouco,
o descrédito sobre o governo de Saul e aponta para uma nova fase
do sistema. Com a morte de Saul, o povo judaíta, através de Davi,
encontrou mais facilidade para chegar ao poder.

O reinado de Davi
• Acesso à realeza: Acossado por Saul, Davi teve que buscar a
proteção de Aquis, rei filisteu de Gat (1Sm 21:11-16). Consegue, então,
reunir em torno de si os descontentes com o governo de Saul (1 Sm
22:1-2), formando um pequeno exército particular. Com esse exército,
Davi dá proteção a muitas cidades, ganhando a simpatia da tribo de
Judá, que o aclama rei em Hebrom, logo após a morte de Saul (2 Sm
2:1-4). Graças a uma política de assimilação, respeitosa das tradições
locais, Davi foi pouco a pouco conquistando também a simpatia das
tribos do norte, que o aclamam rei sobre todo o Israel (2 Sm 5:1-5).
Para preservar a unidade, sem ferir o orgulho tribal, Davi estabelece a
capital do reino em Jerusalém, que era um território jebuseu no meio
das tribos (2 Sm 5:6-10).
• Modelo da realeza de Davi. A administração segue o modelo
de inspiração egípcia, governando com uma espécie de secretário
de estado (Josafá), um secretário particular (Ozai), um conselheiro
(Aquitofel), um chefe do exército (Joabe) e um chefe da guarda
(Banaías). O serviço da justiça não estava organizado e dependia

136 Introdução ao Antigo Testamento


inteiramente do rei. Apesar do modo de produção tributário, a
monarquia de Davi agradou às tribos. Isso se deve a diversos motivos:
Davi não se preocupa em montar uma burocracia de estado para
realizar grandes construções; além disso, ele mantém um exército
pessoal, dispensando a incorporação de membros das tribos. Sua fama
de rei justo se deve provavelmente ao fato de que os tributos recolhidos
se reverteram em serviços que beneficiaram diretamente o povo, seja
em termos de proteção militar, seja de conquistas e administrações.
Isso, provavelmente, fazia parte do contrato que Davi estabeleceu com
os anciãos das tribos antes de iniciar seu governo (2 Sm 5:3).

O reinado de Salomão
• Acesso à realeza: Davi foi um guerreiro e construiu um império.
As lutas pela sucessão dividiram a própria família de Davi e, após uma
série de competições e intrigas familiares Salomão chegou ao poder.
Iniciava-se, assim, a dinastia judaíta de Davi, que mais tarde receberá
cunho teológico e escatológico.
• Administração: Salomão herdou um império já formado. Sua
tarefa não era a de conquistar, mas administrar, criando um aparelho
burocrático estatal que mantivesse a unidade do reino. O contrato
fundamental de Salomão com o povo era a construção do Templo,
sustentada pelos tributos. O rei, contudo, foi muito além, com um
desejo de equiparar Israel às outras grandes nações. Além de montar
uma máquina burocrática complicada, proveu a formação de um
grande exército e a construção de cidades fortificadas; construiu o
palácio real e outros palácios para suas mulheres. Desenvolveu tanto
o comércio interno como o comércio com o exterior, exportando
gêneros de primeira necessidade para importar artigos de luxo.
• Modelo da realeza de Salomão: toda essa grandeza e
desenvolvimentismo eram sustentados com o sacrifício do povo,
que teve de arcar com o pagamento de pesados tributos que não o
beneficiavam. Para agilizar todo o processo tributário, Salomão dividiu
o reino em distritos, cada um era encarregado dos fornecimentos
“in natura” por um mês. Por outro lado, a sustentação de tudo isso

137
exigia a formação de profissionais experientes. Para atender a essa
demanda, Salomão adotou modelos babilônicos e egípcios de uma
escola sapiencial que visava formar os diplomatas e também dar uma
forma orgânica à história e à cultura popular. Graças a isso, as tradições
tribais foram revistas e costuradas, de modo a formar uma ideologia
nacional favorável ao estado.
• Fim do reinado: Tendo iniciado com brilhantismo, o governo de
Salomão foi, pouco a pouco, criando certa ambiguidade que o levou a
uma situação insustentável: Israel se tornou uma “casa de escravidão”,
como outrora tinha sido no Egito. Com a morte de Salomão, o terreno
estava preparado para a desagregação nacional.

Datas mais importantes


Cerca de 1030 a.C. Saul é ungido rei em Guilgal (1Sm 8:1-10:1
Davi, rei de Judá em Hebron (2Sm 2-4).
Cerca de 1010 a.C. Davi, rei de todo o Israel em Jerusalém, até
o ano de 971 a.C. (2Sm 5-1Rs 2).
971-931 a.C. Salomão, rei de todo o Israel (1Rs 3-11)

Referências bibliográficas

BALANCIN, E. M. História de Povo de Deus. São Paulo: Paulinas, 1989.

138 Introdução ao Antigo Testamento


Introdução ao Antigo Testamento
Unidade - 17
Épocas : Monarquia (parte II)

Introdução

De novo, gostaria de apresentar uma visão geral da


sequência dos acontecimentos históricos registrados no
Antigo Testamento. Deste modo, gostaria de escolher um
ou dois temas de interesse relacionados a cada uma dessas
épocas.
Minha sugestão continua a mesma: crie sua própria
linha do tempo usando todos os tipos de fontes, que lhe
ajudarão a obter uma visão geral do conhecimento e uma
classificação geral na história israelita.
Estaremos estudando nessa unidade um período
da história de Israel marcado por experiências tristes em
resultado das más escolhas e do dar ouvidos a pessoas
erradas. Vamos abordar o tempo em que o reino de Israel
sofreu uma separação, o que promoveu o surgimento de
dois reinos; até o final quando ambos foram deportados
para terras estrangeiras.
Qual será a nossa perspectiva, pois, por meio dela, nós
perceberemos estes temas? Estes temas podem ser vistos
nos Livros de 1Reis 12-22, 2Reis, Amós e Oséias.

139
Objetivos

Ao final da unidade, o aluno:

1. Descobrirá a sequência histórica dos


acontecimentos como eles são registrados no Antigo
Testamento;
2. Conhecerá algumas questões relacionadas com
a história de Israel durante a qual nenhum acordo foi
alcançado;
3. Refletirá sobre algumas questões teológicas
relacionadas a estas épocas.

Plano da unidade
• O reino divido
• Reis e Crônicas

140 Introdução ao Antigo Testamento


141
O Reino Divido
Agora já estamos entrando em uma época menos feliz do que as
anteriores. Novamente uma tabela de Balancin (Balancin, E.M. 1989,
p. 112) pode servir como início.

IV. Reino dividido Livros da Bíblia

1. Reino de Israel (Norte)


Época: 931-722 a.C.
Regime: monarquia não dinástica. Contínuos golpes de
Estado
Sistema: tributário
Capital: Samaria
Principais reis: Jeroboão, Amri, Acab, Jeú, Jeroboão II, 1Reis 12-22; 2Reis;
Facéia Amos; Oseias;
Religião: adoração a Javé; culto nos santuários de Betel Deuteronômio
e Dã. Introdução oficial do culto ao deus Baal,
contra o qual lutaram Elias e Eliseu
Conflitos com a Fenícia, Aram, Judá e principalmente
contra a Assíria, que se torna grande potência.
Tentativa de alianças
Situação do povo: cada vez mais empobrecido e confuso
Fim do reino: conquistado pela Assíria, se torna colônia

2. Reino de Judá (Sul)


Época: 931-586 a.C.
Regime: monarquia dinástica (descendentes de Davi)
Sistema: tributário
Capital: Jerusalém
Principais reis: Josafá, Ezequias, Josias 1Reis 12-22;
Religião: adoração a Javé, com frequentes idolatrias. Culto 2Reis; Sofonias,
centralizado em Jerusalém Conflitos com os Naum; Isaías 1-39;
povos vizinhos. Principais inimigos: Assíria e Miqueias; Jeremias;
Babilônia. Tentativas de alianças Habacuque
Situação do povo: fora o período das grandes reformas,
desiludido e cada vez mais empobrecido.
Exploração dos grandes latifundiários Fim do
Reino: conquistado pela Babilônia, se torna
colônia

142 Introdução ao Antigo Testamento


Estaremos iniciando nesta unidade os períodos da história de
Israel referentes aos dois reinos, iniciados após a morte de Salomão
– 931 a.C., quando Roboão, seu filho, apresentou inaptidão em lidar
com a sucessão no reino do Norte, sendo rejeitado pelo povo, assim,
tornando-se apenas rei do Sul – Judá. Essa época turbulenta de Israel,
na qual esses reinados transcorrem paralelos, com o reino do sul
sendo mais durador que o do norte, 345 anos contra 209. Na sequência
histórica segue o período do exílio quando os Babilônios, liderados por
Nabucodonosor, dominam Judá, em 586 a.C. Este tempo termina com
a conquista da Babilônia por Ciro, rei da Pérsia em 538 a.C., assim,
iniciando o período de domínio persa. Vemos partes deste período
nas narrativas em Neemias e Esdras. Por fim, há o período helenista,
quando Alexandre Magno conquistou a Pérsia em 333 a.C.
O reino do norte contou com 19 reis, representando nove
dinastias. O reino do sul teve 19 reis da dinastia de Davi, e uma rainha
usurpadora, Atalia, filha de Acabe e Jezabel, do reino do norte. Portanto,
Judá contou com 20 reis e duas dinastias, se Atalia for incluída na lista.
A historiografia dos livros de Reis e Crônicas faz uma avaliação
e interpretação teológica dos acontecimentos históricos. Ambos
representam uma apresentação muito seletiva. Geralmente os reis que
lideraram Israel nos pontos mais decisivos recebem um tratamento
mais detalhado: Salomão, Acabe e Jeú de Israel; Ezequias, Manassés e
Josias de Judá.
Como surgiu a divisão da unidade das 12 tribos? Em primeiro
lugar devemos notar que o livro de Reis é bastante explícito ao relatar
que não aconteceu nada em Israel de uma forma simplista – não era só
a desobediência a Deus que causou a queda da unidade. Claramente,
Salomão cometeu “erros espirituais” graves (como apostasia) nos
últimos anos de seu reinado. Mas isso foi apenas parte do problema.
Roboão sucedeu a seu pai em uma cerimônia em Siquém: “todo Israel”
se reuniu para fazê-lo rei (1Rs 12:1). Os representantes dos clãs e tribos
quiseram saber sobre o seu programa de governo. Aqui Roboão cometeu
um erro grave – em vez de falar de uma diminuição dos tributos, ele
promete um aumento. Esse programa acabou por ser odiado por um
bom número dos representantes. As coisas se complicaram, e no final
Roboão não teve outra chance de fugir da situação em Siquém. As

143
coisas se tornaram irreversíveis e o candidato oposicionista, Jeroboão,
já presente em Siquém, aproveitou a oportunidade e foi eleito rei. No
início, Roboão tentava reagir pela força, reunindo Judá e Benjamin
para entrar na guerra – mas um profeta conseguiu convencê-lo que
isso realmente não era uma opção, uma vez que os “outros” são os
seus próprios parentes. Jeroboão, por sua vez, previu dificuldades ao
seu povo quando eles descessem a Jerusalém para adorar – Jerusalém
estava sob controle de Roboão. Por isso, ele introduziu um novo centro
de culto em Samaria com peça central de dois bois, um símbolo do
“Deus que nos tirou do Egito” (1Rs 12:28). Além disso, ele ordenou
sacerdotes não levitas e mudou as datas dos festivais.
Reis (o Livro) não critica Jeroboão porque ele se tornou rei
sobre as 10 tribos (cf. 11:29-39), mas sim por não confiar nestas
promessas divinas. Sua maneira de autoajuda, de tentar ficar no
controle e a violação óbvia dos mandamentos divinos centrais, são
interpretados como o início do fim de Israel (ver 1Rs 13:1-3). Para
ele, é mais importante que o seu povo permanecesse fiel a si mesmo,
do que fiel a Deus. Em seguida, o pecado de Jeroboão foi a tendência
dos reis em adotar formas de cultos que se adequam aos seus próprios
interesses.
Observe-se, como multifacetada a situação é: Por um lado a
rebelião das dez tribos se justifica por causa do comportamento
insensato de Roboão. De fato, essa rebelião foi a vontade de Deus
(12:15). Mas o resultado foi que Jeroboão levou as dez tribos para
longe de Deus. Porém, a culpa não é só de Jeroboão, as tribos fizeram
o rei e, portanto, aceitaram a sua adoração idólatra. Tanto o rei, quanto
as pessoas são culpados de infidelidade a Deus (14:15).
O reino do sul, sob Roboão, não se comportou muito melhor:
eles também caíram na idolatria e, rapidamente, a glória e a honra do
reinado de Salomão desapareceram por causa das invasões de vários
povos que viviam redor. De onde, então, vem a avaliação mais favorável
de Judá? Parece que Reis interpreta este curso de eventos em termos de
promessas divinas para a linha davídica de Judá que continuou apesar
de várias tentativas de usurpar o trono.
No reino do norte vemos uma dinastia após outra. Há pouca
continuidade dinástica. Após um período de guerra civil em Israel

144 Introdução ao Antigo Testamento


(em Baasa), Onri torna-se rei e estabelece uma nova residência em
Samaria. Seu reinado traz estabilidade, mas certamente não justiça.
Acabe, filho de Onri, supera até mesmo o seu pai na maldade e tudo o
que se segue no livro dos reis é consequência lógica dos acontecimentos
em cap. 12-16: Israel acaba por ser um projeto sem qualquer esperança
de futuro. Por Judá, pelo menos um pouco de luz brilhante permanece
no horizonte.
Algumas das narrativas em Reis fazem alusões – entre as linhas
– de algumas das diferenças entre os reinos. Assim, encontramos
menção de sábado e da adoração regular no templo, de materiais
antigos relacionados com rei Davi e do livro da lei. Judá parece ter
um número considerável de israelitas fiéis que se alegram quando Joás
suprime o culto de Baal.

Reis e Crônicas
Não é necessário narrar todos os acontecimentos que são
descritos em Reis e Crônicas. Você pode facilmente ler estes livros. No
entanto, algumas observações interessantes podem ser feitas. Quanto
à relação entre Reis e Crônicas, as coisas não são muito claras na
ciência bíblica moderna. Muitas vezes, supõe-se que Crônicas retoma
a discussão de Reis e acrescenta informações e avaliações de Reis, onde
ficou em silêncio. Por exemplo, a ausência de qualquer explicação em
Reis dos eventos negativos nos finais dos reinados de Joás, Amazias
e Azarias de Judá parece estranho. Crônicas preenche os detalhes
sobre a apostasia e os atos de desobediência desses reis. Muitas vezes
os intérpretes pensaram que Crônicas exagerou e inventou alguns
detalhes para relatar tudo de maneira lógica. Mas pode ser também
que o livro de Reis, deliberadamente, tenha omitido essas coisas
por causa das suas próprias razões teológicas. Reis parece ter uma
visão mais ampla do desenvolvimento histórico, enquanto Crônicas
olha para a cadeia imediata de causa e efeito. Este pequeno exemplo
mostra como é difícil diferenciar o fato “puro” e a sua interpretação. A
historiografia tem a tarefa de contar e interpretar. Nós, como leitores
modernos, precisamos estar cientes das diferenças conceituais entre
a nossa compreensão de como escrever sobre história e a maneira

145
hebraica antiga de fazer o mesmo.
Os livros de Reis e Crônicas podem muito bem ser baseados em
anais reais, mas eles são muito distintos dos anais reais encontrados
dos assírios, egípcios e babilônios, que foram escritos sob o comando
dos reis individuais para comemorar seus grandes feitos. Os livros
bíblicos são muito mais críticos: nenhum dos reis de Israel e muito
poucos dos de Judá recebem elogios. É mostrado como um rei pode
liderar o seu povo para a sua destruição quando ele age infiel a Deus.
A monarquia no norte e no sul levaram a um mal de grande escala
que foi intimamente ligado ao estado. Isto não tinha sido possível nos
períodos antes da monarquia (claramente, o pecado estava presente
durante o período patriarcal, a época do êxodo, e os primeiros anos de
Israel em Canaã – mas não em grande escala).
Os reis não são os únicos caráteres importantes nesses livros. A
figura do profeta que fala e aplica a palavra de Deus para a situação
atual desempenha um papel importante na narrativa. Às vezes, o
cumprimento das palavras do profeta está para acontecer e outras
vezes há gerações entre a proclamação e o cumprimento. Isto sugere
uma perspectiva sofisticada, em que a resposta humana relacionada
com a profecia é tão significante quanto a própria profecia. Escolhas
humanas podem reverter o destino da história – o arrependimento
é uma dessas escolhas. Mas também as escolhas erradas levam a um
cumprimento das profecias. Às vezes, os reis tentam reverter o curso
dos eventos silenciando um profeta ou forçando-o a alterar a sua
mensagem – mas isso não funcionou. A palavra de Deus permaneceu,
enquanto a loucura do rei é comprovada.
Haveria muito para escrever sobre referências extra bíblicas,
sobre questões de datas, sobre o ambiente político e as diversas e
rapidamente mutáveis alianças, sobre a prática religiosa das pessoas
ou sobre a arqueologia e a sociologia da época. Simplesmente não
há espaço suficiente para fazê-lo e gostaria de incentivá-lo a olhar
para alguns destes mesmos assuntos. Há muito para descobrir e sua
apreciação da Bíblia certamente irá crescer e se aprofundar.

146 Introdução ao Antigo Testamento


Introdução ao Antigo Testamento
Unidade - 18
Exílio e Pós-exílio

Introdução

Essa unidade apresentará os períodos do exílio e pós-


exílio, a fim de mostrar como Deus trata um povo que lida
de forma irresponsável com aquilo que recebe de Deus, mas
também demonstrará o amor supremo de Deus para com
seu povo ao se manifestar em favor daqueles que são seus.
Veremos também que na libertação do seu povo,
Deus deixou claro os pontos principais aos quais eles
deveriam dar maior atenção, restaurando assim essas bases
importantes.

Objetivos

Ao final da unidade, o aluno:

1. Terá conhecimento de alguns caminhos teológicos


comuns para os livros proféticos;

2. Terá uma visão panorâmica dos livros proféticos


do AT.

Plano da unidade
• Exílio
• Pós-exílio

147
Para pensar...
Tenho tentado mostrar como os livros bíblicos tentam
interpretar os acontecimentos políticos. Eu, pessoalmente,
estou muito hesitante para tentar fazer o mesmo para o meu
próprio tempo e época. O que você acha? Podem estes livros
nos ajuda a ver o nosso próprio tempo, de uma perspectiva
divina? Ou podemos avaliar somente épocas mais distantes?
Quais os perigos e dificuldades de uma interpretação teológica
da história “profana”?

V. Exílio na Babilônia Livros da Bíblia

Época: 586-538 a.C.

1. Situação em Judá
Regime: colônia babilônica
Sistema: tributário
Religião: a adoração a Javé é preservada em círculos
camponeses; não há mais culto centralizado
Situação do povo: vive em condições precárias e
disperso Ezequiel; Lamentações;
Levítico1; Isaías 40-55;
Obadias
2. Situação dos exilados
Vivem em melhores condições dos que ficaram, mas
estão longe da pátria

Religião: adoração a Javé em meio pagão. Preservam


tradições. Esperança de retorno. Sinagogas
Outros escaparam para regiões diferentes,
principalmente para o Egito

(BALANCIN, 1989, p. 113)

148 Introdução ao Antigo Testamento


Exílio
A queda de Judá, a sua perda de soberania política e o exílio
resultante foi um dos momentos mais difíceis em toda a história de
Deus e o seu povo. Mas também acabou por ser um grande estímulo
para mudanças necessárias. O judaísmo, que Jesus conhecia e nós
também conhecemos hoje, tem o seu período fundacional no exílio
(SASSE, 2004, p. 1–2). A perda do templo e do território deixou Israel
apenas com as lembranças do passado e as convicções sobre o futuro.
Lendo os profetas deste tempo, podemos ter uma noção das tensões
e esperanças que formaram o judaísmo em uma fé confessional, que
deixou sua relação direta com o corte real e o templo. Esta crise tornou-
se um momento de profunda reflexão e reforma. A fé reformada
existiria sem fronteiras nacionais, mas certamente com fronteiras
nítidas culturais: a identidade judaica foi moldada em torno de um
determinado comportamento, tradições e cerimônias. Essas partes
da cultura exílica tiveram uma forte continuidade com a cosmovisão
bíblica e com a história antiga de Israel.
O exílio não foi interpretado como fraqueza de JHWH, que não
foi capaz de proteger seu povo eleito dos exércitos Babilônicos, mas
sim como força e determinação de Deus por usar Babilônia como
meio para punir Judá por sua política externa enganada e pela cadeia
longa dos reis, que não resolveram a apostasia religiosa da grande
parte do povo. Podemos ver essa interpretação da história no livro
de Lamentações, que, embora na forma de um luto, é um cântico de
louvor a Deus soberano.
Quando se tornou evidente durante os primeiros anos do exílio
que não havia esperança de um retorno iminente a Judá, os teólogos
e profetas do exílio começaram a formular a sua esperança, sua
visão do futuro da “nova Jerusalém” e da sociedade que voltaria a
Palestina. Especialmente Ezequiel cria esta grande visão de um templo
reformado com um sacerdócio reformado, que levaria todo o povo a
ser um reflexo da glória de Deus. Uma fonte de inspiração para esses
escritos foi, sem dúvida, a última parte de Isaías. Aqui encontramos a
base teológica para a religião reformada do judaísmo pós-exílio.
Mas, durante o exílio, a adoração a Deus não parou

149
completamente. Havia várias possibilidades. Eles puderam criar um
novo templo para o sacrifício contínuo, mas este não era realmente uma
opção, já que países estrangeiros eram considerados impuros. Outra
opção foi escolhida: o culto centrado na palavra. No início, é preciso
assumir que este culto era principalmente um culto de lamentação.
Ao longo do tempo o tipo de culto da sinagoga foi desenvolvido. Isso
foi muito importante para a continuação da identidade nacional. A
assimilação na grande mistura de nações na Mesopotâmia era um
perigo muito real. Essa nova identidade, no entanto, não foi dirigida
por funcionários religiosos ou políticos, mas sim desenvolvida nas
famílias. Especialmente a celebração das festas judaicas estava agora
concentrada no círculo da família (SASSE, 2004, p. 29–32).
De uma perspectiva mais sociológica, podemos observar
que, na verdade, somente a liderança de Judá deixou o país rumo
a Mesopotâmia durante o exílio. Cerca de um terço da população
original havia morrido durante a guerra devastadora antes da queda de
Jerusalém. O outro terço foi levado cativo, especialmente a liderança,
o sacerdócio e os artesãos mais qualificados. Os camponeses, artesãos
de base, pastores e outras pessoas inferiores na hierarquia social
continuaram na terra, e para muitos deles a vida cotidiana não mudou
muito durante o tempo do exílio. Para ordenar a vida dessas pessoas,
Nabucodonosor instalou Godolias em Mispá ao norte de Jerusalém, um
líder judaico experiente. Ele queria garantir a continuidade da colheita
e, assim, redistribuiu os campos entre as pessoas que ficaram no país.
Isto significou praticamente uma desapropriação da alta sociedade de
Jerusalém. Mas ajudou a manter a estabilidade do terreno para o povo
depois do exílio.

150 Introdução ao Antigo Testamento


Pós-Exílio
Livros da Bíblia
VI. Na Judeia

Época: 538-333 a.C. Regime: província persa

Sistema: tributário

Religião: retomada do culto a Javé em Jerusalém.


Esdras; Neemias;
Liderança dos sacerdotes
Ageu; Zacarias; Isaías
56-66
Situação do povo: conflito entre os que retornam
do exílio e os que aí permaneceram. Conflito com
o governo de Samaria. Tentativa de organização
da comunidade a partir de Jerusalém. Luta pela
sobrevivência
(BALANCIN, 1989, p. 113)

No ano 539 a.C., o rei persiano Ciro entrou em Babilôna e


usurpou o trono do segundo império Babilônico. Isso foi o início
do grande império persa que durou até 330 com a morte de Dário
III. O império persa aprendeu um pouco com os erros dos impérios
anteriores (SASSE, 2004, p. 40–46).
Os assírios e babilônios tentaram unir todos os povos vencidos
em seu território através de uma religião oficial. Isto, obviamente,
era uma coisa difícil de fazer, e, ao longo do tempo, causou todos os
tipos de revoltas contra os superiores. Os persas aprenderam a lição
quando se aproveitaram dos conflitos internos da corte babilônica
com os sacerdotes do templo de Marduque na Babilônia. Com a ajuda
desse sacerdócio muito influente, os persas foram capazes de entrar na
cidade e chegar ao trono, sem maior resistência. Este evento pode ter
servido como protótipo de como lidar com estados vassalos tributários.
Normalmente, eles deixavam a sua religião em paz e “compravam” a
cooperação do sacerdócio, dando-lhes considerável poder político e
outros privilégios.

151
Império Pérsico - 490 a.C.

Esta prática pode ter sido a base para permitir que os judeus
voltassem, junto dos seus utensílios do templo, para Jerusalém; e
que pudessem reconstruir o seu templo, como se lê em Esdras. Esta
estratégia estava longe de ser “religiosamente tolerante” em termos
modernos. Foi simplesmente uma estratégia política para controlar os
estados vassalos distantes, e conseguiram: o império persa dominava
todo o território do rio Indo até o rio Danúbio e do Mar Negro até o
Egito.
Aqui vem um resumo dessa época por Issac Agazi, já com
uma visão nos tempos intertestamentários (o tempo entre AT e NT):
“A parte da Palestina onde o povo emigrante se estabeleceu foi
chamada Judéia e seus moradores receberam o nome de judeus.
Povoaram novamente as cidades e obtiveram permissão para
reconstruir o Templo e as muralhas de Jerusalém. A forma de
governo daquele novo Estado foi uma espécie de república
teocrática. O povo vivia tranqüilamente, refazendo-se do
abatimento de que havia sido vítima durante os anos de cativeiro
na Babilônia. No tempo dos selêucidas o povo judeu sofreu

152 Introdução ao Antigo Testamento


muito novamente, pois estes soberanos o sobrecarregavam de
impostos e o perseguiram por sua religião.

Antíoco Epífano mandou erigir uma estátua de Júpiter Olímpico


no meio do Templo e fez morrer muitos judeus que não
quiseram abjurar de suas crenças ante essa divindade. Surgiu
então uma família cujos membros uniam a um grande talento
militar, notórios dotes de governantes. Foram os Macabeus. O
primeiro deles que resistiu aos decretos de Antíoco foi Matatías,
que matou um oficial e por isso viu-se obrigado a fugir para
as montanhas seguido de um punhado de valentes. Seu filho
Judas Macabeu venceu os sírios em diversos encontros; entrou
vencedor em Jerusalém e restabeleceu o culto divino. Após a
morte de Judas, seus irmãos Jonatan e Simão continuaram sua
obra, lutando pela liberdade de sua pátria, até obrigar Antíoco
a aceitar a paz.

O judaísmo saiu vitorioso de seu choque com o helenismo.


Conhecia-se sob este nome a forma de civilização grega que,
estando já a Grécia em decadência, foi difundida pelo mundo
asiático e egípcio por Alexandre Magno e especialmente por
seus sucessores. O helenismo difundiu-se também na Judéia,
onde o sentido grego da vida, mais superficial e cheio da
formosura da natureza, havia entusiasmado muitos judeus que,
possuindo tendências assimilacionistas muito desenvolvidas,
haviam começado a sentir o peso de sua doutrina mãe, demasiad
[amente] séria e de suas normas de vida muito severas.

Na Judéia o helenismo foi combatido com armas pelos


Macabeus e verbalmente pela obra incansável e contínua dos
sábios, os quais, com o correr dos séculos foram substituindo os
profetas. Enquanto os “hassidim”, isto é, os puros, os defensores
dos Hashmoneus, se afastavam da visa política, surgiu um novo
partido, melhor dito uma nova seita: a dos saduceus. Estes,
aferrados com vigor ao sentido literal do código sacerdotal da
Torá, não prestaram atenção e rechaçaram a lei oral que ia se
difundindo entre o povo por obra de outra seita: os fariseus.
Os fariseus representaram na época hashmonéa e mais tarde na
queda de Jerusalém o verdadeiro elemento salvador do judaísmo.
Com efeito, estabeleceram uma doutrina intermediária entre a
dos saduceus, rígidos sacerdotes que, apesar de seu sacerdócio

153
dedicavam demasiado tempo à vida mundana, e a dos essênios,
que com seu ascetismo e sua vida contemplativa se esqueciam da
vida humana, de suas necessidades e suas desditas. Os fariseus,
por seguirem a lei oral, foram os iniciadores do vastíssimo
trabalho que se conhece com o nome de Mishná. Não se deve
esquecer que as mais puras doutrinas evangélicas, que são um
compêndio das judias, surgiram não só dos círculos essênios,
como também dos fariseus; e que Jesus mesmo, assim como os
primeiros judeus conversos que se chamaram cristãos, tiveram
relações amistosas com muitos dos fariseus.

Porém, enquanto os doutos sábios trabalhavam pelo


desenvolvimento da moral do povo, a política palestinense ia
piorando a cada dia. Uma espada mais pesada e mais forte que
a dos gregos, a de Roma, havia chegado ao Oriente. Os judeus,
com suas lutas religioso-filosóficas e com seu Deus, muito
acima dos do Panteão Romano, molestavam os imperadores
que viam neles uma causa perene de tumultos.

E começou a guerra judaica.”1

Para pensar...
Alguns escritores desta época nunca interpretaram o retorno
do povo para Canaã como retorno do exílio. Qual pode ser a
argumentação deles?

Referências Bibliográficas

Balancin, E.M. (1989): História de Povo de Deus, Paulinas.


Sasse, M. (2004): Geschichte Israels in der Zeit des Zweiten Tempels.
Historische Ereignisse - Archäologie - Sozialgeschichte - Religions-
und Geistesgeschichte, Neukirchener.

Issac S. Agazi, http://colecao.judaismo.tryte.com.br/livro2/sintese.htm, acesso 25.10.2010.


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154 Introdução ao Antigo Testamento