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Universidade Federal do Paraná

Programa de Pós-Graduação em Administração


Curso de Doutorado em Administração

Disciplina: Epistemologia, Metodologia e Teoria em Estudos Organizacionais.

Professores: José Henrique de Faria e Natalia Rese

3º Encontro: Hegel e a Ciência da Lógica (1º de abril de 2019)

Bibliografia Básica:
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia do espírito. 9. ed. Petrópolis: Vozes,
2014, pp. 11-79.

Outras Referências:
LIMA VAZ, Henrique Cláudio de. Apresentação. Em: HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich.
Fenomenologia do espírito. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2014, pp. 9-10.

RESENHA

Discente: Guilherme Cavicchioli Uchimura

Na resenha que segue, dados os limites de espaço, concentrarei atenção nas questões
apreendidas em Fenomenologia do Espírito relacionadas à ciência na concepção hegeliana.
Antes, devo começar esta resenha confessando que se trata da primeira leitura direta de um
texto de Hegel que realizo. O texto não poderá ser, portanto, mais do que uma primeira
aproximação, um ato propriamente de estudo voltado ao aprendizado inicial das concepções
epistemológicas de um filósofo desta estatura.
Aliás, a tirinha apresentada em sala ao final do seminário, assinada pelo cartunista
Bruno Maron, sugere que a leitura de Fenomenologia do Espírito seria uma obra difícil de
entender. Nem Hegel, nem Deus teriam entendido “picas” desta “pitomba”. O tom jocoso,
apesar do proposital exagero, não está tão distante da fama adquirida por Hegel na comunidade
acadêmica e do receio que a acompanha.
A obra hegeliana, entretanto, deve ser enfrentada com a seriedade proporcional à sua
participação na história da filosofia. Trata-se, como comentou o professor Faria, de uma
concepção dialética que rompe com a lógica aristotélica da identidade. Inaugura-se, com Hegel,
uma grande virada e um novo tempo histórico ao ato de filosofar, sendo necessário entendê-lo
para alcançar dimensões epistemológicas distintas, como as de Marx, Kosik e Husserl. O
materialismo histórico com Marx e Kosik, como será visto mais adiante no programa do curso,
sustenta a primazia do, e não do pensamento, na produção de conhecimento sobre o ser social;
Husserl propõe, para além da negação dialética, a suspensão fenomenológica do objeto; ambos
se contrapõe a Hegel, mas em formulações realizadas francamente a partir de Hegel.
A apresentação do próprio autor sobre o objeto da obra Fenomenologia do Espírito
encontra-se no prefácio da obra, e está relacionada ao saber científico. O que se apresenta, na
expressão do autor, é “o vir-a-ser da ciência em geral ou do saber” (HEGEL, 2014, p. 35). O
sujeito, ao afrontar o mundo objetivo, delimita o que a nós se apresenta como um problema
epistemológico a ser investigado. No texto de apresentação à edição consultada de
Fenomenologia, Henrique Lima Vaz adverte o leitor sobre algumas das densas categorias
tratadas por Hegel em sua investigação voltada a este problema, entre elas: ciência, lógica,
sujeito, consciência e mundo objetivo. Também podemos indicar, extraindo um pouco mais dos
sabores que formam a riqueza da obra, outras expressões não menos complexas: mediação,
negação, suprassunção, reflexão, produção, reconhecimento, figuração e representação. O livro
foi publicado em 1807, quando Hegel tinha 37 anos, e introduz Hegel no contexto da filosofia
alemã como “o pórtico grandioso desse sistema que se apresenta orgulhosamente como Sistema
da Ciência”. O objetivo de Hegel, para Vaz, seria “articular com o fio de um discurso científico
– ou com a necessidade de uma lógica – as figuras do sujeito ou da consciência que se desenham
no horizonte do seu afrontamento com o mundo objetivo” (VAZ, 2014, p. 9).
Em Fenomenologia, Hegel realiza a crítica ao caráter anistórico da filosofia kantiana.
O sujeito é fenômeno para si mesmo, o que não é alcançado por Kant. Na síntese de Vaz (2014,
p. 11), “Hegel transfere para o próprio coração do sujeito – para o seu saber – a condição de
fenómeno que Kant cingira à esfera do objeto. Essa é a originalidade da Fenomenologia e é
nessa perspectiva que ela pode ser apresentada como processo de ‘formação’ (cultura ou
Bildung) do sujeito para a ciência”. Relaciona-se a isso o fato de que o primeiro título da obra,
antes de Fenomenologia do Espírito, foi “Ciência da experiência da consciência” (VAZ, 2014,
p. 10).
Hegel critica o formalismo kantiano como o “formalismo de uma só cor”. Em sua
formulação: “Se o desenvolvimento não passa da repetição da mesma fórmula, a idéia, embora
para si bem verdadeira, de fato fica sempre em seu começo. A forma, única e imóvel, é adaptada
pelo sujeito sabedor aos dados presentes: o material é mergulhado de fora nesse elemento
tranquilo.” (HEGEL, 2014, p. 28).
A produção filosófica de Hegel, por sua vez, distintamente de Kant, está situada já no
período da consolidação histórica do modo de produção resultante da revolução burguesa,
contexto em que “o sol do Saber absoluto – o imperativo teórico e prático de igualar o racional
e o real – levantava-se implacável no horizonte” (VAZ, 2014, p. 12). Trata-se exatamente disso:
a igualação entre o racional e o real como objetivo da ciência, como expôs o professor Faria, é
um aspecto central da filosofia hegeliana. Nesta primeira leitura, Hegel parece ser a
radicalização moderna de Heráclito. A cidade de Éfeso, porém, torna-se a Alemanha ungida
pela vitória do capital que se autovaloriza. Diz Hegel (2014, p. 33): “a efetividade do conceito
é o automovimento”. É esta a expressão fenomenológica com que o filósofo bem traduz o
sentido histórico de sua época.
A verdade do mundo, na perspectiva hegeliana, revela-se “na imanência perfeita do
movimento em si mesmo, ou seja, na vida”. A vida, portanto, ao menos na interpretação de
Henrique Vaz (2014, p. 14), “é a verdade da natureza”. O sujeito é o ponto de partida. Para
Hegel, afinal, a primazia é do pensamento, e não da coisa. Com isso, a consciência-de-si
apresenta-se, de certo modo, como a figura epistêmica que abre o itinerário dialético que conduz
ao Reino da Verdade. A dialética hegeliana, conforme exposição do professor Faria, é
formulada a partir da coisa apreendida pelo sujeito. O vir-a-ser da coisa é o retorno à coisa
mesma para-si, a partir da elaboração do pensamento: o itinerário abrange desde o sensível
imediato até a coisa pensada pelo sujeito.
Já no Prefácio, Hegel formula uma imagem interessante sobre a contradição e a
unidade orgânica:

O botão desaparece no desabrochar da flor, e poderia dizer-se que a flor o


refuta; do mesmo modo que o fruto faz a flor parecer um falso ser-aí da planta,
pondo-se como sua verdade em lugar da flor: essas formas não só se
distinguem, mas também se repelem como incompatíveis entre si. Porém, ao
mesmo tempo, sua natureza fluida faz delas momentos da unidade orgânica,
na qual, longe de se contradizerem, todos são igualmente necessários. E essa
igual necessidade que constitui unicamente a vida do todo. (HEGEL, 2014, p.
22).

Veja-se que este trecho é bastante elucidativo para afastar a concepção mecânica da
dialética, por vezes atribuída precipitadamente a Hegel. Para o alemão, a dialética realiza-se de
modo orgânico, e não em uma oposição por demais simplificada e linear entre tese, antítese e
síntese. A flor não é apenas o momento em que é flor, tampouco o momento em que é botão,
tampouco o momento em que é desabrochar: “todos são igualmente necessários”.
Esta forma de conceber organicamente os momentos do vir-a-ser da flor, ou seja, do
objeto, constitui o rompimento em direção a uma nova filosofia. Nas palavras de Hegel, o tempo
da publicação de Fenomenologia, datada do início do século dezenove, seria “um tempo de
nascimento e trânsito para uma nova época”. Prossegue o alemão afirmando que “[o] espírito
rompeu com o mundo de seu ser-aí e de seu representar, que até hoje durou; está a ponto de
submergi-lo no passado, e se entrega à tarefa de sua transformação” (HEGEL, 2014, p. 26).
Hegel recorre à combinação de três imagens para expor seu modo de conceber esta
transformação anunciada à sua época: (i) a criança, que ao respirar pela primeira vez, promove
um salto qualitativo, interrompe o “longo período de nutrição tranquila” e, enfim, nasce; (ii) o
edifício do mundo anterior, de modo semelhante, se desmancha lentamente, tijolo por tijolo;
(iii) o sol nascente, por fim, “revela num clarão a imagem do mundo novo”. Resta a nós
interpretarmos se ele próprio, Hegel com sua Fenomenologia, corresponderia a uma das três
imagens. E ainda, neste caso, seria ele a criança, a demolição ou o sol?
De todo modo, a ciência é elevada por Hegel ao tipo de saber apropriado para a
aproximação da verdade. Em suas palavras: “[a] verdadeira figura, em que a verdade existe, só
pode ser o seu sistema científico [...], chegou o tempo de elevar a filosofia à condição de
ciência” (HEGEL, 2014, p. 23). Prossegue o autor da Fenomenologia do Espírito afirmando o
seguinte: “a ciência, que é a coroa de um mundo do espírito, não está completa no seu começo
[...] [e]sse começo é o todo, que retornou a si mesmo de sua sucessão (no tempo) e de sua
extensão (no espaço); é o conceito que-veio-a-ser conceito simples do todo”. Com o
rompimento do mundo, as figuras tornam-se momentos, e estes momentos dão lugar a uma
nova figuração. Falta à consciência, neste momento, o “aprimoramento da forma”. Com isso,
“carece a ciência da inteligibilidade universal”, da possibilidade de “ser ensinado a todos e de
ser propriedade de todos”. O que Hegel parece estar formulando é que a ciência é o caminho
para a inteligibilidade universal do mundo novo: “[a] forma inteligível da ciência é o caminho
para ela, a todos abertos e igual para todos” (HEGEL, 2014, p. 27).
Mais adiante, Hegel reafirma a aproximação entre a ciência e o “saber em sua
universalidade”. O espírito consciente do próprio desenvolvimento como espírito é a ciência. E
mais: “[a] ciência é a efetividade do espírito, o reino que para si mesmo constrói em seu próprio
elemento” (HEGEL, 2014, p. 34). Em aula, o professor Faria comentou que a prática, ainda que
não seja o critério da verdade, é um imperativo para a igualação do racional e do real. “A coisa
em si não é a própria coisa, vai além da aparência”. O retorno à coisa pelo sujeito pelo seu
questionamento não muda a condição de que “a coisa continua sendo a coisa”.
Dentro do quadro desta exposição parcial sobre a leitura realizada, a questão que
permanece a mim, tendo outras sido aproximativamente resolvidas nos debates de sala de aula,
é a seguinte: o que é o Espírito para Hegel e qual a sua relação com o saber científico em sua
formulação epistemológica?

ANOTAÇÕES DA AULA

1) Faria expõe que a primazia está no pensamento, e não na coisa. A dialética é


formulada a partir da coisa apreendida pelo sujeito. O vir-a-ser da coisa é o retorno à coisa
mesma para-si, a partir da elaboração do pensamento. Do sensível imediato à coisa para o
sujeito.

2) Dois pontos destacados por Faria: rompimento com o princípio da identidade


(Aristóteles) e afirmação de que não existe conteúdo sem forma. Husserl, como será visto mais
adiante no programa do curso, propõe a suspensão fenomenológica, contrapondo-se a Hegel.

3) O que é o saber absoluto? Só a ciência leva à verdade. O conhecimento parte


necessariamente da experiência. A verdade está dada no objeto, mas ainda não descoberta.
Portanto, a prática, ainda que não seja o critério da verdade, é um imperativo para a igualação
do racional e do real. O retorno à coisa pelo sujeito pelo seu questionamento não muda a
condição de que “a coisa continua sendo a coisa” (Faria).

4) “A coisa em si não é a própria coisa, vai além da aparência” (Faria).

5) Sobre o vir-a-ser, “a mudança é feita pelo próprio pensamento” (Faria). É este


o ponto que Marx critica. Na lógica filosófica de Hegel, a verdade é construída pela Razão,
independentemente da existência de concepções distintas entre indivíduos.

6) Hegel ensina a se colocar no lugar do objeto. No caso das nossas pesquisas,


significa sair do conforto acadêmico de calçar um marco teórico e se limitar a encontrar o
encaixe entre ele e o objeto. Hegel é um marco na história da filosofia ao desmontar a noção
kantiana da categoria. A categoria é produzida pelo sujeito. “Quem se aventura nesta selva
difícil que é o pensamento [...], criar pressupõe o rompimento de um pensamento” (Faria). Partir
da realidade e buscar na teoria, e não o inverso. Caso contrário, a realidade já existirá como
teoria. Pensar na produção do conhecimento a partir de Hegel implica questionar a cultura
acadêmica em que estamos inseridos: não se trata de formatar um artigo para publicação em
uma revista qualificada, mas de saber efetivamente o que está ali. “O rompimento é muito
dolorido. Mudar dói, e às vezes dói muito. [...] O nascimento, por exemplo, é uma dor. Mas é
uma pulsão de vida necessária. [...] Ser pesquisador é mais do que apenas reproduzir coisas”
(Faria).

7) Sobre a linguagem, Faria aponta não aderir à tese do giro linguístico.


Reconhece que estamos premidos pela nossa capacidade de expressar as coisas, é este é um
limite inultrapassável na produção de conhecimento. “O discurso não é o portador da verdade,
é o portador de uma mediação”. A investigação, neste sentido, é uma sucessão de mediações.
Trata-se de exercer “a capacidade de criticar a realidade e a teoria”, tensionando o objeto. É
melhor falar em conhecimento acumulado do que em referencial teórico.

8) “O limite da coisa é um limite que vai além do sujeito [...]. Absoluto não é
Deus, é aquilo que você absolutiza naquele momento sobre o objeto no pensamento [...]. O
objeto e a experiência se movem [...] Quanto mais puder ser universal: a proposta de
cientificidade em Hegel” (Faria).

9) A lógica de Hegel se refere à “condição do sujeito se colocar no lugar da coisa


para retornar com a coisa” (Faria). Hegel afasta a concepção de que o pesquisador paira sobre
o real, afirmando a relação de implicação/pertencimento entre sujeito e objeto.

10) Das dimensões fenomenológicas, a fenomenologia parece ser a que tem mais
irradiações nas áreas do saber (psicanálise, por exemplo).

11) A dialética é a operação do pensar com a experiência, negando a si mesmo e


negando o objeto. Nem eu, nem o objeto somos o que éramos no início.