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COMARCA DA REGIÃO METROPOLITANA DE CURITIBA

FORO CENTRAL
JUÍZO DA 4ª VARA DA FAZENDA PÚBLICA
Estado do Paraná
Poder Judiciário

VISTOS e examinados estes autos de


Ação Condenatória sob nº 0006810-
70.2014.8.16.0004, em que é autor
Juarez Nicolino de Assis e réus
Estado do Paraná e
Paranaprevidência.

Trata-se de ação condenatória proposta por Juarez


Nicolino de Assis em face do Estado do Paraná e da Paranaprevidência. Relata a
petição inicial que o autor é servidor público estadual ocupante do cargo de agente
penitenciário desde a data de 15.08.1989, atividade essa que seria de caráter
perigoso e insalubre. E mais. Pretende a concessão de aposentadoria especial
consoante art. 34 da Lei Estadual nº 13.666/2002, que estabelece direito ao servidor
penitenciário de se aposentar com 25 (vinte e cinco) anos de serviço. Porém, apesar
do decurso do lapso de mais de 30 (trinta) dias, não obteve até o momento resposta
a tal requerimento formulado no âmbito administrativo. Daí a propositura da
presente ação, pois, segundo o autor, além de ter sido reconhecido pela Justiça
Federal o enquadramento especial dos períodos de 11.02.1982 a 01.04.1982 e
15.08.1989 a 19.02.1991, a questão foi objeto da Súmula Vinculante 33 do
Supremo Tribunal Federal. Assim, requer, até o julgamento da demanda, seja-lhe
concedida licença remuneratória e, ao final, declarado o direito à concessão de
aposentadoria especial e condenados os réus à restituição das contribuições
previdenciárias indevidamente pagas. Por fim, pugnou pelos benefícios da
assistência judiciária gratuita. Com a inicial vieram documentos (seq. 1.1 a 1.66).
Este juízo, consoante decisão de seq. 7.1, deferiu os
pedidos de tutela antecipada e de assistência judiciária gratuita.
Ao processo foi imposto o rito ordinário.
O Estado do Paraná noticiou a interposição de agravo de
instrumento em face da decisão que deferiu a tutela antecipada (seq. 31.1), mantida
pelos seus próprios fundamentos (seq. 37.1).
Citada, a Paranaprevidência apresentou contestação (seq.
34.1). Sustentou que o autor não logrou êxito em demonstrar que desempenha
habitualmente atividade em condições especiais. Nesse contexto, ressaltou a
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ausência de Perfil Profissiográfico Previdenciário – PPP e LTCAT, os quais não


poderiam ser supridos por eventual prova pericial. Além disso, asseverou que desde
a vigência da Emenda Constitucional nº 41/03 o benefício previdenciário é
calculado com base nas médias das contribuições previdenciárias, assegurada a
revisão geral anual. Por fim, aduziu a ausência dos requisitos exigidos para
concessão da licença remuneratória.
Citado, o Estado do Paraná apresentou resposta ao
pedido (seq. 42.1). Preliminarmente ao mérito, alegou a inépcia da inicial. No
mérito, arguiu que em razão de vício de origem, a Lei Estadual nº 13.757/02, que
introduziu o art. 34 da Lei Estadual nº 13.666/02, foi declarada inconstitucional.
Ainda, sustentou a impossibilidade de concessão da aposentadoria especial aos
agentes penitenciários com fundamento no art. 40, §4º, II, da Constituição Federal,
tendo em vista a falta de regulamentação do dispositivo. Do mesmo modo, o direito
à análise do pedido de aposentadoria fundado no exercício de atividade de risco não
se encontra abrangido pela decisão proferida no Mandado de Injunção nº 4.647/PR
nem no contido na Súmula Vinculante 33 do Supremo Tribunal Federal. Aduziu a
não comprovação dos fatos constitutivos de direito, porquanto o autor deve
comprovar que efetivamente exerceu atividades especiais de modo permanente.
Ressaltou que o laudo pericial não contribui com o pleito do autor, na medida em
que não demonstra o preenchimento dos requisitos necessários para a concessão do
benefício. Ademais, na hipótese de procedência do pedido, o autor não teria direito
a receber proventos iguais aos pagos enquanto estava na ativa, tampouco à
restituição das contribuições previdenciárias pagas. Por fim, teceu comentários
acerca da atualização monetária, dos juros de mora e das alterações promovidas
pela Lei Estadual nº 17.435/2012. Também juntou documentos (seq. 42.2 a 42.5).
Houve réplica (seq. 52.1).
Instados à especificação de provas, o autor pugnou pela
produção de provas emprestada, pericial e testemunhal (seq. 59.1). O Estado do
Paraná, por sua vez, requereu o julgamento antecipado da lide. Na oportunidade,
apontou a existência de períodos em que o autor permaneceu afastado do trabalho,
bem como a impossibilidade de utilização do período de 14.08.1989 a 19.02.1991.
(seq. 64.1). Já a Paranaprevidência demonstrou desinteresse na dilação probatória.
(seq. 72.1).
Concedida vista ao Ministério Público, o seu Órgão de
Execução manifestou ser desnecessária a respectiva intervenção (seq. 68.1).
A parte autora manifestou-se acerca da documentação
apresentada (seq. 77.1).
O Estado do Paraná, a seu turno, apresentou
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manifestação a respeito dos documentos juntados pelo autor (seq. 82.1).


Na parte essencial, o relatório.

Decido.

O feito encontra-se ordenado.


Ao contrário do alegado pelo Estado do Paraná, da
simples leitura da petição inicial pode-se verificar que o autor postula a concessão
da aposentadoria especial, tanto que citou o tempo laborado em condições especiais
e apontou os requisitos e a legislação pertinente. Assim, considerando que dos
fundamentos pode-se extrair a pretensão do autor, não há que se falar em inépcia da
inicial.
Ressalte-se que o processo comporta julgamento no estado
em que se encontra, sendo despicienda a dilação probatória requerida pelo autor.
“Cabe salientar que a prova tem por destinatário o Juiz da causa, de forma a
propiciar-lhe a formação de sua convicção. É neste aspecto, e na condição de
dirigente do processo, que erige o poder do Juiz de limitar e excluir as provas
consideradas manifestamente excessivas, impertinentes ou protelatórias.”1
Pois bem. A controvérsia gravita em torno da
possibilidade da concessão de aposentadoria especial com base em alegado
desempenho de funções de natureza insalubre, perigosa e penosa, por parte de
servidor público estadual, mediante a aplicação analógica da norma de
aposentadoria especial prevista no art. 57 da Lei Federal nº 8.213/91.
A pretensão do autor merece procedência.
Com efeito, no caso em espécie, não se revela passível de
aplicação o art. 34 da Lei Estadual nº 13.666/02, diploma normativo destinado a
regulamentar o Quadro Próprio do Poder Executivo do Estado do Paraná - QPPE.
Isso porque a Constituição Federal, em seu art. 40, §4º, incisos II e III, dispõe que a
concessão de aposentadoria especial de servidores nos casos de atividades laborais
que se configurem por condições de risco, ou prejudiciais à saúde ou à integridade
física, deve ser regida exclusivamente por meio de lei complementar.
Entende-se, assim, conforme já decidiu recentemente o
Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, em sede de mandado de injunção, que
a competência para editar lei complementar a respeito da aposentadoria especial dos
servidores públicos pertence exclusivamente ao Congresso Nacional, haja vista a

1
COSTA, Hélio Martins. Lei dos Juizados Especiais Cíveis anotada e sua interpretação jurisprudencial. Ed. Del
Rey, 2000, pág. 208
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impossibilidade de adoção de critérios diferenciados para a concessão da


aposentadoria especial (parte inicial do dispositivo), o que impede que os Estados
exerçam a competência concorrente e suplementar nessa matéria (artigo 24, XII e
parágrafos).·.
O Supremo Tribunal Federal também já adotou tal
entendimento, in verbis:

AGRAVO REGIMENTAL NO MANDADO DE INJUNÇÃO. APOSENTADORIA


ESPECIAL DE SERVIDOR PÚBLICO ESTADUAL. ART. 40, § 4º, INC. III, DA
CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA. COMPETÊNCIA CONCORRENTE DA UNIÃO,
ESTADOS E DO DISTRITO FEDERAL PARA LEGISLAR SOBRE PREVIDÊNCIA
SOCIAL. NECESSIDADE DE TRATAMENTO UNIFORME DA MATÉRIA. 1. A
competência concorrente para legislar sobre previdência social não afasta a necessidade
de tratamento uniforme das exceções às regras de aposentadoria dos servidores públicos.
Necessidade de atuação normativa da União para a edição de norma regulamentadora de
caráter nacional. 2. O Presidente da República é parte legítima para figurar no polo
passivo de mandado de injunção em que se discute a aposentadoria especial de servidor
público. Precedente. 3. Agravo regimental ao qual se nega provimento. (STF - Tribunal
Pleno - MI 1620/ DF - Relª. Carmen Lucia – J. 30.05.2011)

Dessa forma, o art. 34 da Lei Estadual nº 13.666/02 não se


apresenta, em tese, adequado para atender ao reclamo constitucional, previsto no
art. 40, §4º, de modo que a lacuna normativa a respeito da aposentadoria especial
continua existindo, até porque ausente específico texto legal decorrente daquele que
possui competência constitucional para tanto.
Diante da nítida incompatibilidade do art. 34 da Lei
Estadual nº 13.666/02 com o Estatuto Jurídico Fundamental, há de se reconhecer,
inclusive, a sua inconstitucionalidade incidenter tantum, afastando, por
consequência, todo e qualquer pedido de concessão de aposentadoria especial com
base na aplicação de tal dispositivo, fruto direto da Lei Estadual nº 13.757/02.
Porém, por outros fundamentos legais, o direito socorre ao
autor. Senão vejamos.
Como dito, a Constituição Federal, nos incisos II e III do §
4º de seu art. 40, dispõe que a concessão de aposentadoria especial de servidores
nos casos de atividades laborais que se configurem por condições de risco,
prejudiciais à saúde ou à integridade física, deve ser regida exclusivamente por
meio de lei complementar. E mais. Uma vez pacificada a omissão inconstitucional,
suplantado pela Súmula Vinculante nº 33 do Supremo Tribunal Federal que, até
a edição de lei complementar específica, aplicam-se ao servidor público, no que
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couber, as regras do regime geral da previdência especial de que trata o artigo 40,
§ 4º, inciso III da Constituição Federal.2 É dizer: atualmente, impedida se encontra
a Administração de indeferir, sob a alegação de ausência de lei específica, pedidos
relativos à aposentadoria especial de servidores públicos que aleguem exercer
atividades sob condições prejudiciais à saúde ou à integridade física3.
O pedido de aposentadoria especial formulado pelo autor
deve, portanto, ser analisado em observância ao art. 57 da Lei nº 8.213/91 e às
circunstâncias do caso concreto.
Dispõe o art. 57 do Regime Geral de Previdência Social:

Art. 57. A aposentadoria especial será devida, uma vez


cumprida a carência exigida nesta Lei, ao segurado que tiver
trabalhado sujeito a condições especiais que prejudiquem a
saúde ou a integridade física, durante 15 (quinze), 20 (vinte)
ou 25 (vinte e cinco) anos, conforme dispuser a lei.

Do histórico funcional trazido aos autos (seq. 1.6 e 77.6),


extrai-se que o autor sempre exerceu suas funções dentro do Departamento
Penitenciário - DEPEN. Além disso, a despeito dos argumentos lançados pelo
Estado do Paraná, os períodos em que o autor esteve afastado de suas funções não
devem ser excluídos da contagem para fins de concessão da aposentadoria especial.
No período em que ficou afastado do seu cargo para
exercício de mandato sindical, ao que tudo indica, o autor permaneceu submetido a
condições prejudiciais à saúde e à integridade física, na medida em que era
responsável pela fiscalização direta das unidades prisionais do Estado e das
condições de trabalho dos agentes penitenciários.
Ressalte-se que, nos termos do art. 3º da Lei Estadual nº
10.981/1994, “ao dirigente sindical liberado será garantido o afastamento do seu
cargo, sem prejuízo dos vencimentos, vantagens de caráter pessoal e ascensão
funcional”. Além do mais, conforme a Resolução nº 133/03 da Secretaria de Estado
da Justiça e da Cidadania, o afastamento do autor se deu sem qualquer prejuízo em
relação aos vencimentos e vantagens (seq. 64.2).

2
“Art. 40 (...) § 4º É vedada a adoção de requisitos e critérios diferenciados para a concessão de aposentadoria
aos abrangidos pelo regime de que trata este artigo, ressalvados, nos termos definidos em leis complementares,
os casos de servidores: I - portadores de deficiência; II - que exerçam atividades de risco; III - cujas atividades
sejam exercidas sob condições especiais que prejudiquem a saúde ou a integridade física.
3
STF - MI: 5848 DF , Relator: Min. Roberto Barroso, Data de Julgamento: 07/05/2014, Data de Publicação: DJe-
088; Divulg 09/05/2014; Public 12/05/2014.
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Do mesmo modo, não há que se falar na exclusão do


período de 05/12/1990 a 01/11/1994, pois o autor foi afastado indevidamente de seu
cargo e com a sua reintegração, determinada por decisão judicial, todos os direitos
inerentes ao cargo foram restaurados. E nem poderia ser diferente. Isso porque “os
efeitos da reintegração consistem no ressarcimento de todas as vantagens das
quais o servidor público ficou privado durante o período de afastamento indevido.
A reintegração opera efeitos ex tunc retroagindo à data do afastamento do servidor
das atribuições de seu cargo. A expressão vantagens constante do art. 28 da Lei
8.112/90 não pode ser vista apenas do ponto de vista remuneratório. Deve se
referir a todos os ônus e bônus que o servidor teria se estivesse em atividade, como
se o servidor teria se estivesse em atividade, como se o servidor não tivesse sido
demitido. Portanto, compete à Administração considerar todo o seu tempo como
efetivo, o tempo no cargo, na carreira e providenciar o recolhimento das
contribuições correspondentes, tão logo seja reintegrado”4.
Com relação à prova pericial emprestada, ainda que a
legislação processual não a inclua, é amplamente aceita pela construção
jurisprudencial e doutrinária, em respeito aos princípios da celeridade e da
economia processual. De tal maneira que “(...) não é óbice o princípio do
contraditório, que deve ser observado no processo subsequente, quando
transportada à prova, como deve ter sido no anterior, ao tempo da realização
desta.” 5
Assim, a perícia cedida aos autos prestou para corroborar
as circunstâncias fáticas anteriormente descritas, ainda que não examine
especificamente o local onde o autor exerce as suas atribuições.
Vê-se, pois, que os agentes penitenciários possuem
contato direto com detentos, por vezes, portadores de doenças infectocontagiosas,
além de serem ameaçados por aqueles que são violentos, ou seja, para exercerem
suas funções, permanecem em constante risco de vida e, por consequência, em
elevado desgaste físico e mental.
Aliás, nesse sentido já decidiu o Tribunal de Justiça do
Estado do Paraná em caso análogo:

APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO PREVIDENCIÁRIA - APOSENTADORIA ESPECIAL -


AGENTE PENITENCIÁRIO - REQUISITOS EXIGIDOS - TEMPO DE CONTRIBUIÇÃO
E PROVA DE EXERCÍCIO DE ATIVIDADES EM CONDIÇÕES NOCIVAS - PROVA

4
CAMPOS, Marcelo Barroso Lima Brito de. Regime Próprio de Previdência Social dos Servidores Públicos. 5ª. ed.
Curitiba: Juruá, 2014, p. 337.
5
DEDA, Artur Oscar de Oliveira. A Prova no Processo Civil. São Paulo: Saraiva, 2006, p.117.
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EMPRESTADA - POSSIBILIDADE - NECESSIDADE DE MANDADO DE INJUNÇÃO -


DESNECESSIDADE - SÚMULA VINCULANTE N. 33/STF - COMPROVAÇÃO DO
CARÁTER PENOSO, PERIGOSO, INSALUBRE E COM RISCO DE VIDA INERENTE,
ACARRETADO PELA FUNÇÃO EXERCIDA - TEMPO DE SERVIÇO DE 25 ANOS -
DEMONSTRADO - CONCESSÃO DE APOSENTADORIA ESPECIAL - POSSIBILIDADE
- SENTENÇA REFORMADA - APELAÇÃO PROVIDA. 1. Tratando-se de prova pericial
produzida por perito isento e sem interesse na causa, é de se admitir tal prova, mesmo
que emprestada, posto produzida em processo judicial. de agente penitenciário
caracteriza-se por seu "caráter penoso, perigoso, insalubre e com risco de vida inerente",
é de se concluir que o apelante exerce e demonstrou que sua função enquadra-se como de
periculosidade, insalubre e de risco à vida, fazendo jus à aposentadoria especial. (TJPR -
7ª C. Cível - AC - 1148355-7 - Foro Central da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba -
Rel.: Luiz Antônio Barry - Unânime - J. 21.10.2014)

Destarte, tendo em vista que o autor exerce função


considerada insalubre e perigosa há mais de 25 (vinte e cinco) anos (seq. 1.6 e
77.6), há de lhe ser reconhecido o direito à concessão da aposentadoria especial.
Note-se, porém, que o autor não faz jus ao benefício com
integralidade e paridade, na medida em que não preenche os requisitos previstos no
parágrafo único do art. 3º da Emenda Constitucional nº 47/05. Ao tratar do tema, o
Supremo Tribunal Federal consolidou entendimento no seguinte sentido:

Prosseguindo, aduziu-se que a EC 41/2003 extinguiu o direito à paridade dos proventos


para os servidores que ingressaram no serviço público após a sua publicação, tendo-o,
entretanto, assegurado aos que estavam na fruição da aposentadoria na data de sua
publicação, estendendo-lhes quaisquer vantagens ou benefícios posteriormente
concedidos aos servidores em atividade, inclusive quando decorrentes da transformação
ou reclassificação do cargo ou função em que se deu a aposentadoria ou que serviu de
referência para a concessão da pensão (EC 41/2003, art. 7º). Observou-se que,
relativamente aos servidores que ingressaram no serviço público antes da EC 41/2003 e
se aposentaram após a sua edição, seria necessário observar a incidência de regras de
transição fixadas pela EC 47/2005, a qual complementou a reforma previdenciária com
efeitos retroativos à data de vigência da EC 41/2003 (EC 47/2005, art. 6º). Explicou-se
que, nesses casos, duas situações ensejariam o direito à paridade e à integralidade de
vencimentos, quais sejam, a dos servidores que ingressaram, de modo geral, no serviço
público antes da EC 41/2003, e a dos servidores que ingressaram antes da EC 20/98. No
ponto, ressaltou-se que, no que tange aos primeiros, o art. 2º da EC 47/2005 teria
garantido a integralidade e a paridade desde que atendidos, de forma cumulativa, estes
requisitos: 1) 60 anos de idade, se homem, e 55 anos de idade, se mulher; 2) 35 anos de
contribuição, se homem; 30, se mulher; 3) 20 anos de efetivo exercício no serviço público,
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e 4) 10 anos de carreira e 5 anos de efetivo exercício no cargo em que se der a


aposentadoria. Acresceu-se, ainda, a redução, em 5 anos, nos limites de idade e de tempo
de contribuição para os professores do ensino infantil, fundamental e médio. Já no que
respeita aos segundos, o direito à paridade e à integralidade teria sido assegurado pelo
art. 3º, parágrafo único, da EC 47/2005, desde que presentes estas condições: 1) 35 anos
de contribuição, se homem, e 30, se mulher; 2) 25 anos de efetivo exercício no serviço
público, 15 anos de carreira e 5 anos no cargo em que se der a aposentadoria e 3) idade
mínima resultante da redução, relativamente aos limites do art. 40, § 1º, III, a, da CF,
de 1 ano de idade para cada ano de contribuição que exceder os limites acima descritos.
Precedentes citados: RE 385016 AgR/PR (DJE de 30.11.2007); RE 465225 AgR/SP (DJU
de 29.9.2006); RE 463022 AgR/SP (DJU de 29.6.2007); AI 518402 AgR/PE (DJU de
23.9.2005). RE 590260/SP, rel. Min. Ricardo Lewandowski, 24.6.2009. (RE-590260) 6

Por derradeiro, como consequência do reconhecimento do


direito à aposentadoria especial, devem ser restituídos ao autor os valores
descontados a título de contribuição previdenciária desde a data do requerimento
administrativo por ele protocolizado (03/06/20147), uma vez que já preenchia os
requisitos necessários para a concessão da aposentadoria especial.

ANTE O EXPOSTO, forte no art. 269, I, do CPC, dou


por resolvido o processo com resolução de mérito. Consequentemente, julgo
parcialmente procedente o pedido para o fim de:
i) declarar o direito do autor à aposentadoria especial nos
termos do art. 57 da Lei nº 8.213/1991, a ser implantado desde a data do
requerimento administrativo (03/06/2014).
ii) condenar o Estado do Paraná a restituir ao autor os
valores das contribuições previdenciárias descontadas desde a data do requerimento
administrativo pleiteando a aposentadoria especial, observada, porém, a vigência da
Lei Estadual 18.370/2014.8 Os valores devem ser corrigidos monetariamente desde
o respectivo recolhimento de cada qual das parcelas pela variação do índice de
atualização monetária aplicado à poupança, isso até 25/03/2015 e a partir daí pelo
índice IPCA-e9, bem como, a partir do trânsito em julgado10, acrescido dos juros de

6
Informativo nº 552.
7
Seq. 1.7.
8
Instituição de contribuição previdenciária para os aposentados e pensionistas do Regime Próprio de Previdência
Social do Estado do Paraná, alteração de dispositivos da Lei nº 17.435, de 21 de dezembro de 2012, que dispõe sobre
a reestruturação do Plano de Custeio e Financiamento do Regime Próprio de Previdência Social do Estado do Paraná
e adoção de outras providências.
9
Supremo Tribunal Federal: PRECATÓRIOS QUESTÃO DE ORDEM NAS ADIS 4.357 E 4.425 1. Modulação de
efeitos que dê sobrevida ao regime especial de pagamento de precatórios, instituído pela Emenda Constitucional nº
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mora na proporção de 1% ao mês11. Deverá ser observada ainda o contido na


Súmula Vinculante nº 17 do Supremo Tribunal Federal.
Com esteio no art. 21 do CPC, por serem as partes vencida
e vencedora, entre ambas serão distribuídas e compensadas as custas processuais na
proporção de 80% (oitenta por cento) para os requeridos, pro rata, e 20% (vinte
por cento) para o autor. Os honorários de sucumbência, diante da inteligência do
art. 20, §4º, do CPC, valorados o zelo profissional dos procuradores das partes, o
trabalho realizado e o tempo exigido para o serviço, são fixados globalmente em R$

62/2009, por 5 (cinco) exercícios financeiros a contar de primeiro de janeiro de 2016. 2. Conferir eficácia
prospectiva à declaração de inconstitucionalidade dos seguintes aspectos da ADI, fixando como marco inicial a data
de conclusão do julgamento da presente questão de ordem (25.03.2015) e mantendo-se válidos os precatórios
expedidos ou pagos até esta data, a saber: 2.1. Fica mantida a aplicação do índice oficial de remuneração básica
da caderneta de poupança (TR), nos termos da Emenda Constitucional nº 62/2009, até 25.03.2015, data após a
qual (i) os créditos em precatórios deverão ser corrigidos pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo Especial
(IPCA-E) e (ii) os precatórios tributários deverão observar os mesmos critérios pelos quais a Fazenda Pública
corrige seus créditos tributários; e 2.2. Ficam resguardados os precatórios expedidos, no âmbito da administração
pública federal, com base nos arts. 27 das Leis nº 12.919/13 e nº 13.080/15, que fixam o IPCA-E como índice de
correção monetária. 3. Quanto às formas alternativas de pagamento previstas no regime especial: 3.1. Consideram-
se válidas as compensações, os leilões e os pagamentos à vista por ordem crescente de crédito previstos na Emenda
Constitucional nº 62/2009, desde que realizados até 25.03.2015, data a partir da qual não será possível a quitação
de precatórios por tais modalidades; 3.2. Fica mantida a possibilidade de realização de acordos diretos, observada
a ordem de preferência dos credores e de acordo com lei própria da entidade devedora, com redução máxima de
40% do valor do crédito atualizado. 4. Durante o período fixado no item 1 acima, ficam mantidas (i) a vinculação de
percentuais mínimos da receita corrente líquida ao pagamento dos precatórios (art. 97, § 10, do ADCT) e (ii) as
sanções para o caso de não liberação tempestiva dos recursos destinados ao pagamento de precatórios (art. 97, §10,
do ADCT). 5. Delegação de competência ao Conselho Nacional de Justiça para que considere a apresentação de
proposta normativa que discipline (i) a utilização compulsória de 50% dos recursos da conta de depósitos judiciais
tributários para o pagamento de precatórios e (ii) a possibilidade de compensação de precatórios vencidos, próprios
ou de terceiros, com o estoque de créditos inscritos em dívida ativa até 25.03.2015, por opção do credor do
precatório. 6. Atribuição de competência ao Conselho Nacional de Justiça para que monitore e supervisione o
pagamento dos precatórios pelos entes públicos na forma da presente decisão.
10
Súmula 188 do Superior Tribunal de Justiça.
11
STF: “Ao julgar, em conjunto, as ADIs 4.357 e 4.425, esta Corte declarou que a atualização monetária dos
débitos fazendários inscritos em precatórios segundo o índice oficial de remuneração da caderneta de poupança
viola o direito fundamental de propriedade (CF, art. 5º, XXII) na medida em que é manifestamente incapaz de
preservar o valor real do crédito de que é titular o cidadão. Outrossim, decidiu que a quantificação dos juros
moratórios relativos a débitos fazendários inscritos em precatórios segundo o índice de remuneração da caderneta
de poupança vulnera o princípio constitucional da isonomia (CF, art. 5º, caput ) ao incidir sobre débitos estatais
de natureza tributária, pela discriminação em detrimento da parte processual privada que, salvo expressa
determinação em contrário, responde pelos juros da mora tributária à taxa de 1% ao mês em favor do Estado (ex
vi do art. 161, §1º, CTN), pelo que foi declarada inconstitucional parcialmente sem redução da expressão
independentemente de sua natureza, contida no art. 100, § 12, da CF, incluído pela EC nº 62/09, para determinar
que, quanto aos precatórios de natureza tributária, sejam aplicados os mesmos juros de mora incidentes sobre todo
e qualquer crédito tributário. O Plenário do STF assentou ainda que o art. 1º-F da Lei nº 9.494/97, com redação
dada pela Lei nº 11.960/09, ao reproduzir as regras da EC nº 62/09 quanto à atualização monetária e à fixação de
juros moratórios de créditos inscritos em precatórios incorre nos mesmos vícios de juridicidade que inquinam o art.
100, § 12, da CF, razão pela qual se revela inconstitucional por arrastamento. STF Reclamação 16705/RS, Min.
Luiz Fux.
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JUÍZO DA 4ª VARA DA FAZENDA PÚBLICA
Estado do Paraná
Poder Judiciário

3.000,00 (três mil reais) 12, montante este a ser rateado em favor de cada um dos
patronos das partes, na proporção inversa das demais despesas.
O valor dos honorários advocatícios deve ser
monetariamente corrigido pelo índice de atualização IPCA-e, bem como, a partir
do trânsito em julgado, acrescido dos juros de mora aplicados à poupança (art. 1º-F
da Lei 9.494/97 com a redação dada pela Lei 11.960/2009, observada a Lei
12.703/12).
Forte no enunciado da Súmula 490 do Superior
Tribunal de Justiça, bem como no art. 475, I, do CPC, determino o reexame
necessário dessa sentença pelo Tribunal de Justiça do Estado do Paraná.
Publique-se. Registre-se. Intimem-se.
Desnecessária a ciência ao Ministério Público, na medida
em que seu Órgão de Execução manifestou ser despicienda a respectiva
intervenção.
Curitiba, 07 de outubro de 2015.

Guilherme de Paula Rezende


Juiz de Direito

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Tem este Juízo que o trabalho do Advogado deve aqui ser valorizado, sob pena de desprestígio institucional. Com
efeito, “o fato de a demanda versar sobre tema conhecido ou aparentemente simples não deve servir de motivo para
o aviltamento da verba honorária; nesses casos, muito mais razão existe para o estabelecimento de honorários em
valor condizente, de forma a desestimular as resistências obstinadas às pretensões sabidamente legítimas, como o
são aquelas em que a jurisprudência está há tempos pacificada.” (STJ – AgRg nos EDcl no Ag 1409571/RS – Rel.
Min. Napoleão Nunes Maia Filho).