Você está na página 1de 467

?

*0 Z&
Instituto de Estudos Socioambientais

UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS


INSTITUTO DE ESTUDOS SOCIOAMBIENTAIS - IESA

Disciplina:

APOSTILA 1

+«&?* y

Profs: Dra. ANA CRISTINA DA SILVA


DR. GUILHERME TAITSON BUENO
CH.64HS

Aluno(a): QiwLiuk ch U

Io SEMESTRE OPIADORA
GOIÂNIA/2018 atEGEOGRARAEC&OASAJyeBirAS
h 4
I

f
f

dâ%k

I E S A

UFG
SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL
r UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOlAS
INSTITUTO DE ESTUDOS SOCIOAMBIENTAIS
p
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA
r PROGRAMA DE CURSO

r
Disciplina: Teoria e Método em Geografia - 1°. Sem. Ano 2018 - 64 horas/aula

Professoras responsáveis: Dra. Ana Cristina da Silva e Dr. Guilherme Taitson Bueno
r
Ementa: Estudo dos fundamentos teórico-metodológicos da Geografia Humana e da Geografia
p I-isica. moderna e contemporânea. A questão da linguagem geográfica: conceituai e
representacional (cartográfica). Reflexão sobre conceitos e categorias tradicionais da ciência
r geográfica. Problemas e temasatuais em discussão na geografia brasileirae internacional.

Compreende-se que a disciplina Teoria e Método cm Geografia, no curso de pós-graduação,


têm por objetivos:
* Fornecer referenciais teóricos e metodológicos para a formação continua de
profissionais (professores e pesquisadores) cm Geografia e áreas afins;
S Propiciar a atualização de temas e debates na pesquisa geográfica;
r
/ Desenvolver o espírito crítico quanto aos atuais referenciais epistemológicos no
campo do conhecimento científico.

Sessões
r
Dia 27/03/2018 —Apresentação: dos professores, dos pós-graduandos, do Programa da
Disciplina, distribuição dos textos.

1. Introdução à teoria c ao método na Geografia.

r O Dia 03/04/2018 - Exposição c debate com a profa. Ana Cristina sobre o tema: "A pluralidade
teórica e metodológica na geografia humana: dilemas e perspectivas epistemológicas".
p Textos básicos:
r | TEXTO 1_1- GOMES, P. C. da C. Um lugar para a Geografia: contra o simples, o banal e o
doutrinário. In: MENDONÇA, F. ei ali. Espaço c Tempo: complexidade e desafios do
p
pensar e do fazer geográfico. Curitiba: Associação de Defesa do Meio Ambiente c
Desenvolvimento de Antonina (ADEMADAN), 2009. p. 13-30.
r TEXTO 2 CLAVAL, P. A revolução pós-funcionalisla e as concepções atuais da geografia. In:
MENDONÇA, F.; KOZEL, S. (Orgs.). Elementos de cpistemologia da geografia
contemporânea. Curitiba: UFPR, 2002. p. 11-43. (pós-graduandos)
r TEXTO 3 I SOUZA, M. L. de. Os conceitos fundamentais da pesquisa sóeio-espacial. Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 2013. p. 9-18. (pós-graduandos)
Leituras complementares:
r CORRÊA. R. L. Análise critica de textos geográficos: breves notas. GcoUERJ. n.4, p. 7-18,
2003.
FERNANDEZ. E. C. Notas sobre Ia evolución dei pensamiento geográfico. In: Anales de
geografia de Ia Universidad Complutense. n. 7, p. 43-52, 1987.
r GOMES, P. C. da C. Quadros geográficos: uma forma de ver, uma forma de pensar. Rio de
f Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.
UFG
SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL
UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS
INSTITUTO DE ESTUDOS SOCIOAMBIENTAIS
PROGRAMA DEPÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA
PROGRAMA DE CURSO

OLIVEIRA. P. de S. Caminhos de construção da pesquisa em ciências humanas. In:


OLIVEIRA, P. de S. (Org.). Metodologia das ciências humanas. São Paulo: UNESP. 1998. p.
17-26.

Dia 10/04/2018- Prof. Guilherme: O debate teórico-metodológico na Geografia Física


JíXÍQS básicos:
:EXTO 4 J JOLY F. La géographie n'est-elle qu'une science humainc? Hcrodote, 12, 1978, p. 129-
159.
TEX O 5 GRIGORYEV, A. A. Os fundamentos da Geografia Física Moderna: o estrato
Geográfico da Terra. In: The interaction of scicnccs in thc study of the Earth. Trad.
Míriam Ramos Ciutyahr. Moscou, 1968.
TEXTO 6 SANJAUME. M. S. Un panorama Ibero-americano de Ia Geografia Física. In:
SEVERO, A.: FOLETO, E. (Orgs.). Diálogos em Geografia Física. Santa Maria: Ed.
daUFSM.2011.p.77-107.
Leituras coniplcnientarcs:
GREGORY, K. J. A natureza da geografia física. São Paulo: Bertrand Brasil. 1992,367 p.
VITTE. A. C. Da caixa de pandora à teia do cosmos: uma tradição ao debate sobre a
reestruturação da geografia física. In: FIGUEIRÓ, A. S.; FOLETO, E. (Orgs.). Diálogos em
Geografia Física. Santa Maria: Ed. da UFSM. p. 45-58.
MARCHAND J-P. Les conlraintes physiques et Ia géographie contemporaine. L'Espace
gcographique. tome 9, a 3, 1980. p. 231-240.

2. A constituição moderna da Geografia Clássica.

Dia 17/04/2018- Profa. Ana Cristina: A Geografia Humana na Geografia Clássica


Textos básicos:
TEXTO 7 RITTER, K. La organización dcl espacio cn Ia superfície dcl globo y su función cn ei
desarollo histórico. In. MENDONÇA, J. G.; J1MENEZ, J. M.; CANTERO, N. O.
(Orgs.). El pensamiento geográfico. Madrid: Alianza Editorial, 1982. p. 168-178.
TEXTO 8 RATZEL, F. Geografia do homem (Antropogeografia). In: MORAES, A. C. R.
(Org.). São Paulo: Ática. 1990. p. 83-107.
TEXTOJ). RIBEIRO, G. Geografia humana: fundamentos epistemológicos de uma ciência. In:
HAESBAERT, R.; PEREIRA, S. N.; RIBEIRO, G. (Orgs.). Vidal, vidais: textos de
geografia humana, regional e política. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012. p. 23-65.
Leituras complcmentarcs:
BF.RDOULAY, V. A escola francesa de geografia: uma abordagem contcxtual. São Paulo:
Perspectiva. 2017. x
BLACHE, V. de La. As características próprias da geografia. In: CHRISTOFOLEITI, A.
(Org). Perspectivas da geografia. 2. ed. São Paulo: Difel. 1985. p. 37-48.
BLACHE, V. de La. Princípios de geografia humana. 2. ed. Portugal: Edições Cosmos. 1928.
[l.ed. francesa 1921].
CARVALHO. M. B. de. Da antropogeografia do final do século XIX aos desafios

4
f

p
'>•.•/;<

*tiS£
I E S A

UFG
SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL
UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS
INSTITUTO DE ESTUDOS SOCIOAMBIENTAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA
t PROGRAMA DE CURSO

transdisciplinares do final do século XX: o debate sobre as abordagens integradas da natureza


e da cultura nas ciências sociais. 350 f. 'lese (Doutorado em Ciências Sociais) Universidade
Católica de São Paulo. São Paulo, 1998.
. Geografia e complexidade. In: SILVA, A. A. D; GALENO, A. (Orgs.). Geografia:
r ciência do complexas. Porto Alegre: Sulina, 2004. p. 67-131.
r
Dia 24/04/2018- Guilherme: A Geografia Física na Geografia Clássica I
r Textos básicos:
TEXTO 10. HUMBOLDT A. Cosmos. Tomo I. Introducción. Bruxelas: Eduardo Pcrié Editor, 1975,
T~ 294 p.
TEXTO 11. CAPEL, H. Filosofia y ciência cn Ia Geografia contemporânea. Una introducción a Ia
# Geografia. Barcelona: Barcanova, 1981. (Capítulos I e II).
f TEXTO 12 RECLUS, E. 1885. A ação do homem modificando as condições naturais. In:
" ANDRADE, M.C. Elisée Reclus - Geografia. São Paulo: Ática. p. 37-55.
r Leituras coniplcmentares:
r GREGORY, K. J. Um século para uma implantação 1851-1950. A natureza da geografia
t física. São Paulo: Bertrand Brasil. 1992, p. 33-69.
r
2.1. Desdobramentos da Geografia Clássica.
r
Dia 08/05/2018-Profa. Ana
Textos básicos:
-XÊi£FOL3 BRUNHES, J. Geografia humana. 3. ed. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1956. p.
_ 25-78.
I TEXTO 14 DEMANGEON, A. Problemas de geografia humana. Barcelona: Ediciones Omega S.
r
A., 1956. p. 9-18.
r i TEXTO 15 SORRE, M. Fundamentos da geografia humana. In: MEGALE, .1. F. (Org.). São Paulo:
Ática, 1984. p. 87-98.
TEXTO 16 • SILVA, A. C. da. Território e significações imaginárias no pensamento geográfico
* brasileiro. Goiânia: Editora UFG, 2013. p. 35-78.
f Leituras complementarcs:
r GEORGE. P. Os métodos da geografia. Rio de Janeiro: Difel, 1978. p. 7-46.
. A geografia ativa. 5. ed. São Paulo: Difel, 1980. p. 9-40.
MARCUSE, H. O advento da teoria social, p. 231-294; Os fundamentos do positivismo e o
advento da sociologia, p. 295-349. In: Razão e revolução: Hegel e o advento da teoria social.
4. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
-.

2.2. Crise da Geografia Clássica e o advento da Nova Geografia.


r
Dia 15/05/2018 (manhã/tarde)-Guilherme- Geografia Física na Geografia Clássica II
Textos básicos:
* 1TEXTO 17 DAVIS W.M. O ciclo geográfico. Boletim Campineiro de Geografia, v. 3, n. I, 2013,
p. 139-266. (Original: Í899).
r

r
«5
UFG

SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL


UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS
INSTITUTO DE ESTUDOS SOCIOAMBIENTAIS •
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA
PROGRAMA DE CURSO

TEXTO__L!t GOULD S.J. Seta do tempo, ciclo do tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991,
224 p.
TEXTO 19 • WEGENER A. L. EI origen de los continentes y oceanos. Barcelona: Critica. 2018. p.
78-96. (Original: 1915).
Leituras complementares:
UYEDA S. Nueva conception de Ia Tierra. Madrid: BlumeNaturart, 1980. 270 p.
DAVIS, W. M. Complicacioncs dei ciclo geográfico. In: MENDOZA, J. G.. J1MÉNEZ. J. M.
eCANTERO, N. O. Madrid, Alianza Editorial, 1988, p. 183-187.

Prof. Guilherme
A abordagem sistêmica e seus desdobramentos I
| TEXTO 20 BERTALANFFY L. O.significado da Teoria Geral dos Sistemas. IN: BERTALANFFY,
L. A teoria geral dos sistemas. Petrópolis: Vozes, 1973. p. 52-S1.
LTEXTO 2*1 LOVELOCK J. O reconhecimento de Gaia. In: LOVELOCK J. Gaia - um novo olhar
~~| sobre avida na Terra. Lisboa: Edições 70, 1979, pp. 51-64.
TEXTO 22 • AB'SABER, A. N. Um conceito de Geomorfologia a serviço das pesquisas sobre o
Quaternário. Geomorfologia, São Paulo, n. 18, 1969. p.l-23.
Leituras complementares:
CHRISTOFOLETTI, A. Análise de sistemas em Geografia. São Paulo: Hucitec, 1979, 106 p.
SANTOS, M. Estrutura, Processo. Função e Forma como Categorias do Método Geográfico.
In: SANTOS, M. Espaço e Método. São Paulo, Nobel, 1985.

Dia 22/05/2018 (manhã/tarde) - Profa. Ana


Textos básicos:
_TEXTO 23* • DOSSE, p. a convidada de última hora: a geografia despeita para a epistcmologia. In:
História do estruturalisino. O canto do cisne, de 1967 a nossos dias. Campinas, SP:
Unicamp, 1993. 2 v. p. 347-160.
TEX'Í'0 24 FOUCAULT, M. Sobre a geografia. In: Microfisica do poder. 18. ed. São Paulo:
Graal, 1979. p. 153-165.
TEXTO 25 . HARTSHORNE, R. Propósitos e natureza da geografia. 2. ed. São Paulo: Hucitec.
""] 1 1978. p. 1-69.
TEXTO 26 . SCHAEFER, F. K. O excepcionalismo na geografia: um estudo metodológico. Boletim
de Geografia Teorética, Rio Claro, v. 13,p.5-37, 1977.

Leituras complementares:
CAMARGO, J.C.G.: REIS JÚNIOR, D.F.C. A filosofia (neo) positivista e a geografia
quantitativa. In: VITTE, A. C. (Org.) Contribuição à história e à epistcmologia da geografia.
Rio deJaneiro: Bertrand Brasil, 2007. p. 83-99.
POI'1'ER, Kari. O problema da teoria do método científico. Cap. II. In: A lógica da pesquisa
cientifica. 9. ed. São Paulo: Cullrix, 1999. p. 51-58.
p
r
P
P
9

UFG
SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL
UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS
INSTITUTO DE ESTUDOS SOCIOAMBIENTAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA
t PROGRAMA DE CURSO

P
0 Dia 05/06/2018 - Prof. Guilherme - A abordagem sistêmica e seus desdobramentos II
Textos básicos:
TEXTO 27 INKPEN R.; WILSON G. Systems - the framework for physical geography? In:
INKPEN R.; WILSON G. Science, philosophy and physical geography. London:
Roulledge, 2013, p. 135-147.
TEXTÒJL GONDOLO, G.C.F. Trabalhando com a complexidade. IN: GONDOLO, C.F.G.
Desafios de um sistema complexo à gestão ambiental. São Paulo: Annablume, 1999,
r p. 57-92.
TEXTO 29 . MONTEIRO, C.A.F. Clima c excepcionalismo. Florianópolis: UFSC. 1991. p. 69-115.
Leituras complementares:
LORENZ, E. The essence of chãos. Washington: UCL Press. 1993, 221 p.
PRIGOGINE, I.; STENGERS, I. A nova aliança. Brasília: UNB, 1991. 247 p.
CHRISTOFOLETTI, A. Modelagem de sistemas ambientais. São Paulo: Edgar Blucher.
1999, 230 p.
f
r 3. O debate tcórico-metodológico na Geografia contemporânea
f
Dia 12/06/2018- Prola. Ana - A geografia humanista.
|Textos básicos:
r TEXTO 30 . RELPH, E. C. As bases fenomenológicas da geografia. Revista Geografia: Associação
de Geografia Teorética. Rio Claro, SP, v. 4, n. 7, p. I-25, abril. 1979.
TEXTO 31 . TUAN, Yi-Fu. Geografia humanista. In: CHRISTOFOLETTI, A. (Org.). Perspectivas
| ~_ da geografia. 2. ed. São Paulo: Difel, 1985. p. 143-164.

TEXTO 32 . MARANDOLA JÚNIOR, E. Fenomenologia e pós-fcnomcnologia: alternâncias e


projeções do fazer geográfico humanista na geografia contemporânea. Geograficidade,
r
v. 3, n.2,p. 49-64,2013.
Leituras complementares:
DARDEL, E. O homem c a Terra: natureza da realidade geográfica. São Paulo: Perspectiva,
201 l.p. 1-45.
MERLEAU-PONTY. Maurice. Ciências do homem e fenomenologia. São Paulo: Saraiva.
r 1973.
. O primado da percepção e suas conseqüências filosóficas. Campinas: Papirus, 1990.
GOMES, Paulo C. da C. O horizonte humanista. In: Geografia e modernidade. Rio de
r
Janeiro: Bertrand Brasil, 1996. p. 304- 338.
r
Dia 19/06/2018 - Prof. Guilherme - Análises integradas em Geografia Fisica
Textos básicos x
r lT-EXTO 33 ZONNEVELD I. S. The land unit - A fundamental concept in landscape ecology, and
1 its applications. Landscape Ecology. vol. 3n. 2, 1989, p67-86.
TEXTO 34 . BERTRAND G. Paisagem e geografia fisica global, esboço metodológico. RATüGA,
| Curitiba, n. 8, 2004, p. 141-152.
r TEXTO 35 • TRICART J. Classificação ecodinâmica dos meios ambientes. In: TRICART J.
| Ecodinâmica. Rio de Janeiro: IBGE, 1977, p. 35-64.
*

o p

UFG
SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL
UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS
INSTITUTO DE ESTUDOS SOCIOAMBIENTAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA
PROGRAMA DE CURSO

Leituras complementares:
ROSS, J.L.S. Ecogeografia do Brasil: subsídios para planejamento ambiental. São Paulo:
Oficina de Textos, 2006, 208p.
TRICART J.; KILLIAN J. L'éco-géographie et raméiiagement du milicu naturel. Paris:
Prançois Maspéro, 1979. 326 p.

Dia 26/06/2018 - Profa. Ana -As "novas geografias"


Textos básicos:
~TÊX' Õ 36 GREGORY, Derek. Teoria social e geografia humana. In: Geografia humana -
sociedade, espaço e ciência social. GREGORY. D.: MARTIN, R.; SMITII. G. (Orgs.).
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. p. 90-122.
TEXTO 37. SANTOS, Milton.; SILVEIRA, Maria L. O Brasil: território e sociedade no início do
século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2001. p. 19-53.
TEXTO 38 PIMENTA, .I.R.: SARMENTO, J.; .AZEVEDO. A. F.(Coords.). Geografias pós-
coloniais. Porto: Figueirinhas, 2007. p. 11-30.
Leituras complementares:
ALMEIDA. Maria Geralda. Geografia cultural: contemporaneidade e um Jlashback na sua
ascensão no Brasil. In: MENDONÇA. Francisco e outros. Espaço e Tempo: complexidade e
desafios do pensar e do fazer geográfico. Curitiba: Associação de Defesa do Meio Ambiente e
Desenvolvimento de Antonina (ADEMADAN), 2009. pp. 243-259.
QUAINI, Máximo. Marxismo e geografia. [1. ed. brasileira 1979] 2. cd. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1991.
. A construção da geografia humana. [1. ed. brasileira 1983]. 2. cd. Rio de Janeiro: Paz
e Terra, 1992.
SOJA, Edward. Geografias pós-modernas: a reafirmação do espaço na teoria social crítica.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. p. 17- 116.

Dia 03/07/2018 - Prof. Guilherme - O trabalho de campo em Geografia


Textos básicos:
TEXTO 39 • WINKIN Y. Descer ao campo. In: WINKIN Y. A nova comunicação - da teoria ao
1 trabalho de campo. São Paulo: Papirus. 1998, p. 129-155.
TEXTO 40 PIRES DO RIO, G. A. Trabalho de Campo na (Re) construção da pesquisa geográfica:
reflexões sobre um tradicional instrumento de investigação. Espaço Aberto, PPGG -
UFRJ.v. l.n.l. 201 l,p. 07-19.
-ITiXT041_ OSTUNI, J. The irreplaceable experience of fieldwork. In: GERBER R.; CHUAN G.K.
Fieldwork in Geography: refiections, perspectives and actions. Dordrechl: Springer,
2000, p. 79-98. %
Leituras complementares
INKPEN R.; WILSON G. The field. In: LNKPEN R.; WILSON G. Science, philosophy and
physical geography. London: Routledge, 2013, p. 120-134.
SERPA. A. O trabalho de campo em geografia - uma abordagem teórico-metodológica.
Boletim Paulista de Geografia, n. 84. 2006, p. 7-24.
p

p
p
I E S A

p UFG
SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL
p UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS
p INSTITUTO DE ESTUDOS SOCIOAMBIENTAIS
PROGRAMA DE PÔS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA
PROGRAMA DE CURSO
p
f Dia 10/07/2018 - Avaliação, Encerramento e Seminário Temático

Metodologia:
p - Cada aula terá acadêmicos, em dupla ou individualmente, encarregadas de fazer a
apresentação e a problematização dos textos básicos da aula;
r - Haverá exposição de textos pelos professores, coordenação dos debates e síntese das
discussões dos textos básicos:
P - Será realizado um seminário temático com professores convidados.

p Avaliação:

r
J Participação ativa nas aulas e atividades propostas na disciplina (85% de presença);
•S Apresentação de sínteses das leituras e coordenação de debates;
» Participação nos debates;
/ Produção de um artigo ou verbete comotrabalho de conclusão da disciplina.
r
Bibliografia (complementar):
f> AB"SABER. Aziz Nacib. Os domínios da natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas.
r São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.
BALLESTEROS, Aurora G. Geografia e marxismo. Madrid: Editorial de La Universidad
<-\ Complutense, 1986.
r BERTRAND, Georgcs; BERTRAND, Claude. Uma geografia transversal e de travessias: o
meio ambiente através dos territórios e das temporalidades. PASSO, Messias M. dos. (Org.).
Maringá: Massoni, 2007.
r CARLOS. Ana Fani A. A Geografia Brasileira, hoje: algumas reflexões. Terra Livre. São
Paulo. v. 1. ano18, p. 161-178, jan./jun. 2002.
CLAVAL. Paul. Evolución de Ia geografia humana. Barcelona: Oikos-Tau, 1974.
. História da Geografia. Lisboa: Edições 70, 2006.
. Epistcmologia da geografia. Florianópolis: Editora da UFSC, 20
COLANGELO. Antônio C. Geografia fisica. pesquisa e ciência geográfica. In: GEOUSP,
Espaço e Tempo. Revista de Pós-Graduação do Departamento de Geografia. Universidade de
São Paulo, n. 16. São Paulo: FFLCH/USP, 2004. p. 9-16.
f CRHISTOFOLETTI. Antônio. (Org.). Perspectivas da geografia. 2. ed. São Paulo: Difel.
1985.
DARTIGUES. André. O que é fenomenologia? 7. ed. São Paulo: Centauro, (s/d).
r ESCOLAR, Marcelo. Critica do discurso geográfico. São Paulo: Hucitec, 1996.
p GEORGE, P. Sociologia e geografia. Rio de Janeiro; São Paulo: Forense, 1969.
IIUMBOLDT, A. de. Cuadros de Ia naturaleza. Madrid: Catarata, 2003.
r
MASSEY, Doreen. Pelo espaço: uma nova política da espacialidade. Rio de Janeiro: Bertrand
p- Brasil, 2008. p. 29-62.
MORAES, Antônio C. R. Território c história no Brasil. São Paulo: Hucitec, 2002.
P1NCHEMEL, P. Histoire et épistémologic de Ia géographie. Bullctin de Ia Section de
r Géographie. Tome LXXXIV, Paris: Bibliothéque Nalionale, 1981.
QUELBAN1, M. O Círculo de Viena. São Paulo: Parábola Editorial, 2009.

p
9
oO
UFG
SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL
UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS
INSTITUTO DE ESTUDOS SOCIOAMBIENTAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA %
PROGRAMA DE CURSO

+
SAEZ, C. H. Geografia humana y ciências socialcs: una perspectiva histórica. Barcelona:
Montesinos, 1984.
SANTOS. Milton. O espaço geográfico como categoria filosófica. Terra Livre, São Paulo, n. •
5, p. 9-20, 1988.
. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.
SILVEIRA, M. L. Uma situação geográfica: do método à metodologia. Território, Rio de •
Janeiro, n. 6, p. 21-28, jan./jun. 1999.
ZILLES, U. Teoria do conhecimento. 4. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS. 2003.
DICIONÁRIOS:
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes. 1998.
BOBBIO. Norberto; MATTEUCl, Nicola; PASQUINO, Gianfrancesco. (Orgs.). Dicionário de
política. 8. cd. Brasília, DF: Edunb. 1995.
BOTTOMORE. Tom. (Org.). Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro: Zahar,
1988. *

GUERRA, Antônio. T. Dicionário geológico-geomorfológico. 7. ed. Rio de Janeiro: IBGE,


1987.
*
OLIVEIRA. Cêurio. Dicionário cartográfico. 4. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 1993.

4
10
p
p
p
p
p

I E S A

p UFG
SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL
* UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS
INSTITUTO DE ESTUDOS SOCIOAMBIENTAIS
p
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA
p PROGRAMA DE CURSO

p
p Disciplina: Teoria e Método em Geografia- Io. Sem. Ano 201S - 64 horas/aula
r
Professoras responsáveis: Dra. Ana Cristina da Silva e Dr. GuilhenncTaitson Bucno

p Ementa: Estudo dos fundamentos teórico-metodológicos da Geografia Humana e da Geografia


Fisica. moderna e contemporânea. A questão da linguagem geográfica: conceituai e
p
rcpresentacional (cartográfica). Reflexão sobre conceito^ e categorias tradicionais da ciência
p geográfica. Problemas e temas atuais em discussão na geografia brasileira e internacional.
p
Compreende-se que a disciplina Teoria e Método em Geografia, no curso de pós-graduação,
têm por objetivos:
p S Fornecer referenciais teóricos e metodológicos para a fomiação contínua de
r profissionais (professores c pesquisadores) em Geografia e áreasafins:
•/ Propiciar a atualização de temas e debates na pesquisa geográfica:
r
•/ Desenvolver o espírito critico quanto aos atuais referenciais epistemológicos no
f campo do conhecimento científico.
r
Sessões

r Dia 27/03/2018 - Apresentação: dos professores, dos pós-graduandos. do Programa da


Disciplina, distribuição dos textos.

p 1. Introdução à teoria c ao método na Geografia.


0
p Dia 03/04/2018 - Exposição c debate com a profa. Ana Cristina sobre o tema: "A pluralidade
teórica c metodológica na geografia humana: dilemas c perspectivas epistemológicas".
p Textos básicos:
r 1TEXTO l _'• GOMES, P. C. da C. Um lugar para a Geografia: contra o simples, o banal e o
doutrinário. In: MENDONÇA, F. et ali. Espnço e Tempo: complexidade e desafios do
r
pensar e do fazer geográfico. Curitiba: Associação de Defesa do Meio Ambiente e
Desenvolvimento de Antonina (ADEMADAN), 2009. p. 13-30.
TEXTO 2 !. CLAVAL, P. A revolução pós-funcionalista e as concepções atuais da geografia. In:
MENDONÇA. F.; KOZEL. S. (Orgs.). Elementos de epistemologia da geografia
contemporânea. Curitiba: UFPR, 2002. p. 11-43. (pós-graduandos)
[TEXTO SOUZA. M. L. de. Os conceitos fundamentais da pesquisa sócio-espacial. Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 2013. p. 9-18.(pós-graduandos)
Leituras complementares:
r CORRÊA. R. L. Análise critica de textos geográficos: breves notas. GcoUER.I. n.4, p. 7-18,
r 2003.
FERNANDEZ, E. C. Notas sobre Ia evolución dei pensamieiito geográfico. In: Analcs de
r
geografia de Ia Universidad Coniphitense. n. 7, p. 43-52. 1987.
r GOMES, P. C. dn C. Quadros geográficos: uma fonna de ver, uma forma de pensar. Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil. 1996.

r
Ú I E S A
m

SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL


UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS
INSTITUTO DE ESTUDOS SOCIOAMBIENTAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA
PROGRAMA DE CURSO 4

OLIVEIRA, P. de S. Caminhos de construção da pesquisa em ciências humanas. In: *


OLIVEIRA. P. de S. (Org.). Metodologia das ciências humanas. São Paulo: ÜNESP, 1998. p.
m
17-26.

Dia 10/04/2018 - Prof. Guilherme: O debate teórico-metodológico na Geografia Fisica


^Xfisins básicos:
TEXTO4 JQ1.Y F. La géographie n'est-elle qu'une science humaine? Herodotc, 12. 1978. p. 129-
159.
TEXTO 5 GRIGORYEV, A. A. Os fundamentos da Geografia Fisica Moderna: o estrato
Geográfico da Terra. In: The interaction of seiences in the study of the Earth. Trad.
Míriam Ramos Gutyahr. Moscou, 1968.
EXTOó '• SANJAUME. M. S. Un panorama Ibero-americano de Ia Geografia Física, In:
SEVERO, A.; FOLETO, E. (Orgs.). Diálogos em Geografia Fisica. Santa Maria: Ed.
daUFSM.201l.p.77-107.
Leituras complementares:
GREGORY, K. J. A natureza da geografia fisica. São Paulo: Bertrand Brasil. 1992, 367 p.
V1TTE, A. C. Da caixa de pandora à teia do cosmos: uma tradição ao debute sobre a
reestruturação da geografia física. In: FIGUEIRÕ, A. S.; FOLETO, E. (Orgs.). Diálogos em
Geografia Fisica. Santa Maria: Ed. da UFSM. p. 45-58.
MARCHAND J-P. Lcs contraintes physiques et Ia géographie contemporaine. L'Espace
gcographiquc. tome 9, n. 3, 1980. p. 231-240.

2. Aconstituição moderna da Geografia Clássica.

Dia 17/04/2018 - Profa. Ana Cristina: A Geografia Humana na Geografia Clássica


Textos básicos:
TEXTO 7 RrTTER. K. La organización dei espado en Ia .superfície dei globo y su función cn cl
" desarollo histórico. In. MENDONÇA. J. G.; JIMENEZ, J. M.; CANTERO, N. O.
(Orgs.). El pensamiento geográfico. Madrid: Alianza Editorial, 1982. p. 168-178.
TEXTO 8 RATZEL. F. Geografia do homem (Antropogeografia). In: MORAES, A. C. R.
(Org.). São Paulo: Ática. 1990. p. 83-107.
TEXTO9 1. RIBEIRO, G. Geografia humana: fundamentos epistemológicos de uma ciência. In:
HAESBAERT, R.; PEREIRA, S. N.; RIBEIRO, G. (Orgs.). Vidal, vidais: textos de
geografia humana, regional e política. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 2012. p. 23-65.
Leituras coinplenicntares:
BERDOULAY, V. A escola francesa de geografia: uma abordagem contcxtual. São Paulo:
Perspectiva, 2017.
BLACHE, V. de La. As características próprias da geografia. In: CHRISTOFOLETTI, A.
(Org.). Perspectivas da geografia. 2. ed. São Paulo: Difel. 1985. p. 37-48.
BLACHE, V. de La. Princípiosde geografia humana. 2. ed. Portugal: Edições Cosmos. 1928.
[Ltd. francesa 1921].
CARVALHO. M. B. de. Da antropogeografia do final do século XIX aos desafios
p
p
r
P
0
I E S A

0 UFG
SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL
P UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS
0 INSTITUTO DE ESTUDOS SOCIOAMBIENTAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA
PROGRAMA DE CURSO

r
0 traiisdisciplinares do final do século XX: o debate sobre as abordagens integradas da natureza
r e da cultura nas ciências sociais. 350 f. Tese (Doutorado cm Ciências Sociais) Universidade
Católica de São Paulo. São Paulo. 1998.
P . Geografia c complexidade. In: SILVA, A. A. D; GALENO, A. (Orgs.). Geografia:
0 ciência do complexas. Porto Alegre: Sulina, 2004. p. 67-131.
0
Dia 24/04/2018-Guilherme: A Geografia Fisica na Geografia Clássica I
0 Textos básicos:
0 EXTO 10. HUMBOLDT A. Cosmos. Tomo I. Introducción. Bnixelas: Eduardo Pcrié Editor, 1975,
p 294 p.
TEXTO 11 CAPEL, H. Filosofia y ciência cn Ia Geografia contemporânea. Una introducción a Ia
Geografia. Barcelona: Barcanova, 1981. (Capítulos 1e II).
P TEX"Q 12 RECLUS, E. 1885. A ação do homem modificando as condições naturais. In:
0
" ANDRADE. M.C. Elisée Reclus-Geografia. São Paulo: Ática. p. 37-55.
Leituras complementares:
f GREGORY. K. J. Um século para uma implantação 1851-1950. A natureza da geografia
0 física. São Paulo: Bertrand Brasil. 1992, p. 33-69.
0
2.1. Desdobramentos da Geografia Clássica.
0
0 Dia 08/05/2018 -Profa. Ana
Textos básicos:
0 JÍXTOJ3 BRUNHES, .1. Geografia humana. 3. ed. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1956. p.
0 25-78.

0 I TEXTO 14 DEMANGEON, A. Problemas de geografia humana. Barcelona: Ediciones Omega S.


A, 1956. p. 9-18.
0 i TEXTO 15 SORRE, M. Fundamentos da geografia humana. In: MEGALE, .1. F. (Org.). São Paulo:
r Ática, 1984. p. 87-98.
0 TEXTO 16 • SILVA, A. O da. Território e significações imaginárias no pensamento geográfico
brasileiro. Goiânia: Editora UFG, 2013. p. 35-78.
0 Leituras complementares:
0 GEORGE, P. Os métodos da geografia. Riode Janeiro: Difel, 1978. p. 7-46.
. A geografia aüva. 5. cd. São Paulo: Difel, 1980. p. 9-40.
r
MARCUSE, H. O advento da teoria social, p. 231-294; Os fundamentos do positivismo e o
0 advento da sociologia, p. 295-349. In: Razão c revolução: Hegel e o advento da teoria social.
4. cd. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 19S8.

0 2.2. Crise da Geografia Clássica e o advento da Nova Geografia.


0
Dia 15/05/2018 (manhã/tarde) - Guilherme - Geografia Física na Geografia Clássica II
0 Textos básicos:
0 "TEXTO 17 DAVIS W.M. Ociclo geográfico. Boletim Campineiro de Geografia, v. 3, n. 1, 2013,
p. 139-266. (Original: 1899).
r
0
0
5

& s-^es*

SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL


UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS *
INSTITUTO DE ESTUDOS SOCIOAMBIENTAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA %
PROGRAMA DE CURSO
*
+
TEXTOjj. GOULD S.J. Seta do tempo, ciclo do tempo. São Paulo: Companhia das Letras. 1991.
~224p.
(TEXTO 19 • WEGENER A. L. El origcn de los continentes y oceanos. Barcelona: Critica. 2018, p.
78-96. (Original: 1915).
Leituras complementares:
UYEDA S. Nucva conception de Ia Tierra. Madrid: Blume Naturart, 1980,270 p.
DAVIS, W. M. Complicacioncs dei ciclo geográfico. In: MENDOZA. J. G.. J1MÉNEZ. J. M.
eCANTERO, N. O. Madrid, Alianza Editorial, 1988, p. 183-187.

Prof. Guilherme
A abordagem sistêmica e seus desdobramentos I
"TEXTO 20 BERTALANFFY L. O significado da TeoriaGeral dos Sistemas. IN: BERTALANFFY,
L. A teoria geral dos sistemas. Petrópolis: Vozes, 1973, p. 52-81.
LlEXTO 2 LOVELOCK J. O reconhecimento de Gaia. In: LOVELOCK J. Gaia - um novo olhar
sobre a vida na Terra. Lisboa: Edições 70. 1979, pp. 51-64.
I
'TEXTO 22 AB'SABER, A. N. Um conceito de Geomorfologia a serviço das pesquisas sobre o
Quaternário. Geomorfologia. São Paulo, n. 18, 1969. p. 1-23.
Leituras complementares:
CHRISTOFOLETTI, A. Análise de sistemas em Geografia. São Paulo: Hucitec, 1979. 106 p.
SANTOS, M. Estrutura, Processo. Função e Forma como Categorias do Método Geográfico.
In: SANTOS, M. Espaço e Método. São Paulo, Nobel. 1985.

Dia 22/05/2018 (manhã/tarde)- Profa. Ana


Textos básicos:
TEXTO 23*- DOSSE, F. A convidada de última hora: a geografia desperta para a epistemologia. In:
História do estruturalismo. O canto do cisne, de 1967 a nossos dias. Campinas. SP:
Unicamp. 1993. 2 v. p. 347-160.
TEXTO 24 FOUCAULT, M. Sobre a geografia. In: Microfisica do poder. 18. ed. São Paulo:
1 \~__ Graal, 1979. p. 153-165.
TEXTO 25 . HARTSHORNE. R. Propósitos e natureza da geografia. 2. ed. São Patdo: Hucitec.
"^] _ 1978. p. 1-69.
TEXTO 26 . SCHAEFER, F. K. O excepcionalismo na geografia: um estudo metodológico. Boletim
de Geografia Teorcticn, Rio Claro, v. 13, p.5-37, 1977.

Leituras complementares:
CAMARGO, J.C.G.; REIS JÚNIOR, D.F.C. A filosofia (neo) positivista e a geografia
quantitativa. In: VITTE, A. C. (Org.) Contribuição à história e à epistemologia da geografia.
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007. p. 83-99.
POI'1'ER, Karl. O problema da teoria do método científico. Cap. II. In: A lógica da pesquisa
cientifica. 9. ed. São Paulo: Cultrix, 1999.p. 51-58.

6
p

0
0
a
SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL
P UNIVERSIDADE FEDERALDE GOIÁS
P INSTITUTO DE ESTUDOS SOCIOAMBIENTAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA
P PROGRAMA DE CURSO

Dia 05/06/2018 - Prof. Guilherme - A abordagem sistêmica c seus desdobramentos II


0 Textos básicos:
TEXTO 27 INKPEN R.; WILSON G. Systems - the framework for physical geography? In:
INKPEN R.; WILSON G. Science, philosophy and physical geography. London:
Routledge, 2013.p. 135-147.
0 TEXTOji GONDOLO, G.C.F. Trabalhando com a complexidade. IN: GONDOLO, C.F.G.
Desafios de um sistema complexo à gestão ambiental. São Paulo: Annablume. 1999,
0
p. 57-92.
0 TEXTO 29 . MONTEIRO, C.A.F. Clima e exccpcionalisnío. Florianópolis: UFSC. 1991. p. 69-115.
Leituras complementares:
LORENZ, E. The essence of chãos. Washington: UCL Press. 1993. 221 p.
0 PRIGOG1NE, L; STENGERS, I. A nova aliança. Brasília: UNB. 1991. 247 p.
CHRISTOFOLETTI. A. Modelagem de sistemas ambientais. São Paulo: Edgar Blucher.
1999,230 p.
r
0 3. O debate teórico-nielndológico na Geografia contemporânea
0
Dia 12/06/2018 - Profii. Ana - A geografia humanista.
r
Textos básicos:
p TEXTO 30 . RELPH, E. O As bases fenomenológicas da geografia. Revista Geografia: Associação
0 de Geografia Teorélica. Rio (Taro. SP. v. 4. n. 7,p. 1-25, abril. 1979.
TEXTO 31 . TUAN, Yi-Fu. Geografia humanista. In: CHRISTOFOLETTI. A. (Org.). Perspectivas
0 dageogralia. 2. ed. São Paulo: Difel. 1985. p. 143-164.
r- TEXTO 32 . MARANDOLA JÚNIOR. E. Fenomenologia e pós-fenomenologia: alternâncias e
projeções do fazer geográfico humanista na geografia contemporânea. Geograficidade.
v.3,n.2,p. 49-64.2013.
r*
Leituras complementares:
DARDEL, E. O homem e a Terra: natureza da realidade geográfica. São Paulo: Perspectiva.
2011.p. 1-45.
r
MHRLEAU-PONTY, Maurice. Ciências do homem e fenomenologia. São Paulo: Saraiva.
1973.
. O primado da percepção e suas conseqüências filosóficas. Campinas: Papirus, 1990.
GOMES, Paulo C. da C. O horizonte humanista. In: Geografia e modernidade. Rio de
r
Janeiro: Bertrand Brasil, 1996. p. 304- 338.
r
Dia 19/06/2018- Prof. Guilherme - Análises integradas em Geografia Física
Textos básicos
r
l_T_EXTO 33 ZONNEVELD I. S. The land unit - A fundamental concept in landscape ecology, and
| its appücations. Landscape Ecology. vol. 3n. 2, 1989, p67-86.
1TEXTO 34 . BERTRAND G. Paisagem e geografia fisica global, esboço metodológico. RA'EGA,
| Curitiba, n. 8, 2004, p. 141 -152.
TEXTO 35- TRICART .1. Classificação ecodinâmica dos meios ambientes. In: TRICART J.
r~ Ecodinâmica. Rio de Janeiro: IBGE, 1977, p.35-64.
$ E S A

SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL


UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS
INSTITUTO DE ESTUDOS SOCIOAMBIENTAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA
PROGRAMA DE CURSO

Leituras complementares:
ROSS. J.L.S. Ecogcografia do Brasil: subsídios para planejamento ambiental. São Paulo:
Oficina de Textos. 2006,208p.
TRICART J.: KILLIAN J. L'éeo-géographie et Tainéuagement du milieu naturel. Paris:
François Maspéro. 1979.326 p.

Dia 26/06/2018 - Profa. Ana - As "novas geografias"


Textos básicos:
F.X'^0J6_ GREGORY. Derek. Teoria social e geografia humana. In: Geografia humana -
sociedade, espaço c ciência social. GREGORY. D.: MAR !TN, R.; SMITH. G. (Orgs.).
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. p. 90-122.
TEXTO 37. SANTOS. Milton.; SILVEIRA, Maria L. O Brasil: território e sociedade no início do
século XXI. Rio de Janeiro: Rccord. 2001. p. 19-53.
TEX 0 38 PIMENTA, J.R.: SARMENTO, J.; AZEVEDO. A. F.(Coords.). Geografias pós-
coloniais. Porto: Figucirinhas, 2007. p. 11-30.
Leituras complementares:
ALMEIDA. Maria Gcralda. Geografia cultural: eontemporaneidade e um Jhishback na sua
ascensão no Brasil. In: MENDONÇA, Francisco e outros. líspaço c Tempo: complexidade e
desafios do pensar e do fazer geográfico. Curitiba: Associação de Defesa do Meio Ambiente e
Desenvolvimento de Antonina (ADEMADAN), 2009. pp. 243-259.
QUAINI. Máximo. Marxismo e geografia. [1. ed. brasileira 1979] 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1991.
. A construção tia geografia humana. [I. cd. brasileira 1983]. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz
e Terra, 1992.
SOJA, Edward, Geografias pós-modernas: a reafirmação do espaço na teoria social critica.
Riode Janeiro: Jorge Zahar, 1993. p. 17- 116.

Dia 03/07/2018 - Prof. Guilherme - O trabalho de campo em Geografia


Textos básicos:
TEXTO39 • WINKIN Y. Descer ao campo. In: WINKIN Y. A nova comunicação - da teoria ao
trabalho de campo. São Paulo: Papiros, 1998. p. 129-155.
: EXTO 40 PIRES DO RIO, G. A. Trabalho de Campo na (Re) construção da pesquisa geográfica:
reflexões -sobre um tradicional instrumento de investigação. Espaço Aberto, PPGG -
UFRJ, v. l,n.l,2011.p. 07-19.
TEXT04J_ OSTUNI, .1. The irreplaccable experience of fieldwork. In: GERBER R.; CHUAN G.K.
Fieldwork in Geography: roflections, perspectives and aclions. Dordrecht: Springcr.
2000, p. 79-98.
Leituras complementares
INKPEN R.; WILSON G. The field. In: INKPEN R.; WILSON G. Science, philosophy and
physical geography. London: Routledge, 2013, p. 120-134.
SERPA, A. O trabalho de campo cm geografia - uma abordagem teórico-metodológica.
Boletim Paulista de Geografia, n. 84, 2006, p. 7-24.
p
p
p

p
p •••>• -.

•r
p -OJI

SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL


0 UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS
0 INSTITUTO DE ESTUDOS SOCIOAMBIENTAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA
P PROGRAMA DE CURSO

P
-
Dia 10/07/2018 - Avaliação, Encerramento c Seminário Temático
P
Metodologia:
P - Cada aula terá acadêmicos, cm dupla ou individualmente, encarregadas de fazer a
p apresentação e a problcmalização dos textos básicos da aula;
r - Haverá exposição de textos pelos professores, coordenação dos debates e síntese das
discussões dos ícxtos básicos:
- Será realizado um seminário temático com professores convidados.
P
0 Avaliação:
•S Participação ativa nas aulas c atividades propostas na disciplina (85% de presença);
p •S Apresentação de sínteses das leituras e coordenação de debates;
0 S Participação nos debates;
0 / Produção de um artigo ou verbete como trabalho de conclusão da disciplina.
0
Bibliografia (complementar):
0 AB'SABF.R. Aziz Nacib. Os domínios da natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas.
São Paulo: Ateliê Editorial. 2003.
r
BALLESTEROS, Aurora G. Geografia e marxismo. Madrid: Editorial de La Universidad
P Complutense, 1986.
r BERTRAND, Georges; BERTRAND. Claude. Uma geografia transversal e de travessias: o
meio ambiente através dos territórios e das temporalidades. PASSO, Messias M. dos. (Org.).
P Maringá: Massoni, 2007.
r CARLOS. Ana Fani A. A Geografia Brasileira, hoje: algumas reflexões. Terra Livre. São
Paulo, v. I. ano 18, p. 161-178, jan./jun. 2002.
CLAVAL, Paul. Evolnciôn de Ia geografia humana. Barcelona: Oikos-Tau, 1974.
. História da Geografia. Lisboa: Edições 70,2006.
p . Epistemologia da geografia. Florianópolis: Editora da UFSC, 2011.
p COLANGELO. Antônio C. Geografia fisica. pesquisa e ciência geográfica. In: GEOUSP,
Espaço c Tempo. Revista de Pós-Graduação do Departamento de Geografia. Universidade de
p São Paulo, n. 16. São Paulo: FFLCH/USP. 2004. p. 9-16.
0 CRHISTOFOI.ETTI. Antônio. (Org.). Perspectivas da geografia. 2. ed. São Paulo: Difel.
1985.
p
DARTIGUES. André. O que é fenomenologia? 7. ed. São Paulo: Centauro, (s/d).
0 ESCOLAR. Marcelo. Crítica do discurso geográfico. São Paulo; Hucitec, 1996.
GEORGE, P. Sociologia e geografia. Rio de Janeiro; São Paulo: Forense, 1969.
HUMBOLDT, A. de. Cuadros de Ia naturalcza. Madrid: Catarata. 2003.
p
MASSEY, Dorecn. Pelo espaço: uma nova política da especialidade. Rio de Janeiro: Bertrand
p Brasil, 2008. p. 29-62.
MORAES, Antônio C. R. 'Território c história no Brasil. São Paulo: Hucitec, 2002.
PINCIIEMEL, P. Histoire et épistémologie de Ia géographie. Bullctin de Ia Scction de
t Géographie. Tome l.XXXIV, Paris: BibliothéqueNationale, 1981.
p QUELBAN1, M. O Círculo de Viena. São Paulo: Parábola Editorial. 2009.
P
r
p
*
í& n
m
FG
SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL
UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS
INSTITUTO DE ESTUDOS SOCIOAMBIENTAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA
PROGRAMA DE CURSO *

SAEZ, C. H. Geografia humana y ciências sociales: una perspectiva histórica. Barcelona: ^


Montesinos, 1984.
SANTOS, Milton. O espaço geográfico como categoria filosófica. Terra Livre. São Paulo. n.
5, p. 9-20, 1988. •
. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.
SILVEIRA, M. L. Uma situação geográfica: do método à metodologia. Território, Rio de
Janeiro, n. 6, p. 21-28, jan./jun. 1999. •
ZILLES, U. Teoria do conhecimento. 4. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.
DICIONÁRIOS:
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
BOBBIO,Norberto; MATTEUCl, Nicola; PASOUINO, Gianfrancesco. (Orgs.). Dicionário de •
política. 8. ed. Brasília, DF: Edunb. 1995.
BOTTOMORE. Tom. (Org.). Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro: Zahar,
198S.
GUERRA, Antônio. T. Dicionário geológico-geomorfológico. 7. ed. Rio de Janeiro: IBGE.
1987. •
OLIVEIRA. Cèurio. Dicionário cartográfico. 4. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 1993.

10

0 6V>£-^
0 c iW** •**$
P
0
P
Associação Nacional
0
0
~
a
ANPEGE
de Pós-Graduação e
Pesquisa em Geografia

P
P

P
0
UM LUGAR PARA A GEOGRAFIA:
CONTRA O SIMPLES, O BANAL E O DOUTRINÁRIO

GOMES, Paulo César da Costa


0

ESPAÇO E TEMPO:
COMPLEXIDADE E DESAFIOS DO
PENSAR E DO FAZER GEOGRÁFICO
0
P
0
0
0
0
r
P E77 Espaço e tempo : complexidade e desafios do pensar e do
fazer geográfico / Francisco de Assis Mendonça. Cicilian
0 Luiza Lowen-Sahr, Márcia da Silva (organizadores). -
Curitiba: Associação de Defesa do Meio Ambiente e
Desenvolvimento de Antonina (ADEMADAN), 2009.
740p. :il. ;18cm

Traz alguns textos apresentados no Vil Encontro Nacional de


Pós-graduação e Pesquisa em Geografia, pela Associação Nacional
de Pós-graduação o Pesquisa em Geografia (ANPEGE).
Inclui bibliografias.
P ISBN 978-85-60764-03-7

0-
1. Geografia - Congressos. 2. Geografia ambiental. 3.
0 Geografia urbana. 4. Geografia cultural. 5. Geografia rural. 6.
0 Epistemologia. I. Universidade Federal do Paraná. II.
Encontro Nacional da ANPEGE (8.: 2009 : Curitiba. PR).
r III. Título.
CDD: 906

r Bibliotecário:
Arthur Leitis Júnior- CRB9/1548
p

p li

0

Í U M LUGAR PARA A GEOGRAFIA:


CONTRA O SIMPLES, O BANAL E O DOUTRINÁRIO

GOMES, Paulo César da Costa

INTRODUÇÃO
Já há alguns anos a palavra "epistemologia" freqüenta nosso vocabu
lário mais corriqueiro e cotidiano. Uma rápida pesquisa na Internet a partir
dos principais motores de busca nos mostraria a infinidade de referências
geradas e a quase impossibilidade de percorrê-las todas. No ambiente aca
dêmico, muitos são aqueles que apelam para expressões do tipo: "do ponto
de vista epistemológico", ou "considerando a epistemologia", ou ainda, su
blinham algo como "epistemologicamente importante" - para pontuar suas
afirmativas e demonstrar, talvez, rigor em seus discursos. Na bibliografia é
também cada vez mais usual a utilização dessa palavra com o mesmo intuito
e os títulos de artigos, livros, comunicações e palestras não deixam dúvidas
sobre a intenção desses autores de se associarem imediatamente aos valo

res aparentemente positivos trazidos pela expressão. Na geografia, como em
várias outras áreas do conhecimento, essa dinâmica é perfeitamente paralela
e claramente identificada, sobretudo nos anos mais recentes. a
Assim apresentada, essa noção - epistemologia - corre o risco de ironi
camente se transformar naquilo que um dos pioneiros e grandes pensadores
dessa área, já no começo do século passado, denominou como "obstáculo
epistemológico". Bachelard chamava então a atenção para o uso de pala
vras, metáforas ou analogias que se generalizavam a partir de um supos
to consenso em seu emprego, mas que, de fato, não teriam um conteúdo
verdadeiramente claro e estávell. Para Lecourt, essas expressões se situam
entre o senso comum e o conhecimento científico2. Visivelmente, se no início
essas expressões podem funcionar como uma ponte, seu uso indiscriminado
ou fora do apropriado contexto cria uma ruptura no sentido original e elas
perdem a capacidade de operar de forma eficiente e com o devido rigor da
ciência. Conseqüência direta disso é que, ao não conferirmos a devida im-
m

1 Bachelard, Gaston. La formation de 1'esprít scientilique. Contríbution à unepsychanalyse de Ia


connaissance objective, Vrin, Paris, 1983. t
2 Lecourt, Dominique. Pour une critique de 1'épistémologie:Bachelard, Canguilhem, Foucault.
Maspero, Paris, 5' ed. 1980.

12
-

1
0
ESPAÇO E TEMPO 14
P
P
portância à definição e ao teor das expressões e quanto mais consensual
e mais disseminado for o seu uso, menor será a precisão do seu conteúdo.
Inúmeras vezes inclusive, sua utilização se resume a uma mera posição de
0 princípio, bastante geral e imprecisa. Assim, muito ampla para criar qualquer
0 oposição, a expressão é também muita restrita para ter qualquer uso opera
r
cional. Em outros termos, serviria para dizer muita coisa, mas não sabemos
exatamente o que ela quer dizer.
0 TorJa^jronia dessa situação é a constatação de que em sua origem essa
0 palavra queria justamentepreyenir e alertar para os perigos de adotarmos tal
0
atitude dentro do discurso científico, Ela foi criada no começo do Século XX
r
para concorrer com a idéia de Filosofia da Ciência, fortemente identificada à
p
então dominante corrente positivista3. Quando sabemos que essa idéia de
P
Filosofia da Ciência se transformou, nos últimos anos do Século XIX e co
P
meço do XX, em uma verdadeira doutrina, um protocolo que visava julgar a
P
conformidade do conhecimento produzido em relação às regras da ciência
positiva, compreende-se melhor o contexto dentro do qual a idéia de episte
mologia surgiu4.
r
Ela nasceu sob o signo do conflito e do desacordo com essa visão au
f
toritária e unívoca da ciência positivista. A.principal vocação da epistemolo-
0
0
gJa_^rjojs, desde o início, constituir um_campo de discussão, de questões
0
sobre métodos e limites de validade, sua inclinação não é normalizar nem
r
restringir as iniciatiyas^Podemos, de forma muito geral, dizer assim que a
epistemologia é um campo crítico de discussões sobre as formas de pensa
0
mento científico. Isto quer dizer que essas discussões epistemológicas dizem
•~
respeito antes de mais nada aos métodos, aos objetos e as finalidades de
um conhecimento científico5. Discutir criticamente as formas de construir um
pensamento científico não quer absolutamente dizer se transformar em um
tribunal para julgar da sua conformidade ou não em relação a um modelo
único e ideal, ao contrário.
A epistemologia pretende ser justamente um domínio aberto ao reco
nhecimento da pluralidade de recursos e orientações nas diferentes discipli-
r
r-
3 Parece ter sido pela primeira vez utilizada pelo químico e filósofo francês, de origem polone
sa, Émile Meyerson em 1908. Há, aliás, uma importante querela entre o ponto de vista delee o
de Bachelard, sobre as possíveis continuidades ou rupturas do discurso científico. Infelizmente,
essa discussão ultrapassa os estritos objetivos desta comunicação.

4 Meyerson, Émile. Identitè et réalitéA\car\, Paris, 1908, reeditada ("conclusions") em Laugier et


Wagner (org.) Philosophie dessciences : Théories, expériences et méthodes, Vrin, Paris, 2004.

5 Norris, Christopher. Epistemologia : conceitos-chave em filosolia. Artmed editora, Porto Ale


gre. 2007.

P
13
15 UM LUGAR PARA AGEOGRAFIA

nas científicas. Ser um domínio de discussões significa exatamente não estar


orientado de forma exclusiva e não agir como se detivéssemos algum tipo de
certeza que legitimasse a priori esse ou aquele caminho, em detrimento de
outros possíveis6. O objetivo de uma discussão epistemológica não é, por :
tanto, estabelecer, ao final, uma orientação que deve ser seguida por todos
ou quase todos. Trata-se, sobretudo, de demonstrar que a maneira de fazer
ciência é também um produto histórico e contextual, mais importante ainda,
trata-se de demonstrar que a cada momento as respostas são múltiplas e
que essa pluralidade crítica é a razão mesmo da existência da ciência7.
Por isso, podemos, já nesse ponto, justificar a necessidade de melhor
exprimir o sentido da expressão epistemologia, sem que isso, no entanto,
nos seja imputado como uma demanda pelo estabelecimento de um sentido
singular e específico. Em outras palavras, queremos que fiquem claros os li
mites da discussão que o uso dessa expressão nos conduz e não justamente *

decretar, seja pelo consenso, seja pela soberba da autoridade, o fim dessas
necessárias discussões.
O segundo ponto importante desse campo de discussões é a geografia. 0
Ao associarmos geografia e epistemologia queremos indicar que a discussão
pretendida aqui não almeja estabelecer a forma ideal e absoluta pela qual a
geografia deve ser pensada ou tampouco apontar a boa direção para traba
lharmos geograficamente. Queremos sim, demonstrar que há discussões no •
corpo da geografia que não devem ser evitadas, sobre sua natureza, seus
métodos e suas finalidades, que elas podem ser organizadas em torno de
algumas grandes questões, que esses debates fazem parte do percurso de
uma ciência moderna. Finalmente, gostaríamos que ao final ficasse a cons
tatação de que essas dúvidas não nos enfraquecem, ao contrário, elas são
o testemunho e os elementos pelos quais a geografia pode ser reconhecida
como uma ciência, viva e dinâmica, aberta e plural.
Corroborando justamente a importância do contexto, podemos perceber
que desde os anos 70 apareceram as primeiras manifestações em prol de

uma discussão verdadeiramente epistemológica na geografia. Isso coincide
justamente com o fim de um longo período durante o qual imaginávamos que
• *
6 Japiassu, Hilton. "Origem e alcance da opinião". In Hühne, Leda Maria (org.) Filosofia e Ciên
cia, Uape, SEAF, Rio de Janeiro, 2008.

7 Essa posição é diametralmente oposta àquela tida como "a ciência da ciência de base po
sitivista como nos adverte D. Lecourt op. cit. Porém, essa posição critica ao positivismo não
necessariamente deve conduzir à abertura do discurso científico à irracionalidade como pre
tendem alguns, como por exemplo, Pierre Thuillier, La revanche des sorcières. Llrrationnel et Ia
pensée scientifique, Belin, Paris, 1997 ou Paul Feyerabend. Contra o método, Francisco Alves,
Rio de Janeiro, 1996.
f

II
P

p
ESPAÇO ETEMPO 16
0
0
um caminho, e somente um, nos levaria à construção'de uma boa geografia.
Correntes e contra-correntes competiam pela supremacia, competiam tam
bém pela possibilidade de anular as outras tendências em concorrência. Só
mesmo depois dos anos 80 começaríamos a ver despontar uma nova com
preensão da geografia, muíto mais aberta à pluralidade, ao diálogo e, muitas
vezes, ao conflito, pois nem sempre as posições são de fato conciliáveis.
Assim, o grande elemento diferenciador nessas discussões é que aban
donamos cada vez mais a pretensão de que uma corrente terá a primazia e o
r
privilégio de ser a verdadeira intérprete ou a porta-voz da boa geografia. Acei
r
tamos, exatamente por isso, a persistência dessas discussões sobre sua natu
r
reza, seus métodos e suas finalidades como parte do incessante processo de
construção do conhecimento. Em outras palavras, ao assim agirmos estamos
0 verdadeiramente desenvolvendo um campo epistemológico na geografia.
r
Esse campo envolve uma infinidade de questões, discussões, tratamen
tos, escalas etc. Nessa oportunidade, queremos apenas nos deter breve
r
mente sobre três aspectos da discussão epistemológica na Geografia: o que
r
funda um discurso geográfico, suas condições de validade e sua possível
r
relevância.

IDENTIDADE DISCIPLINAR: OS SINTOMAS DE UMA CRISE


0
r
O primeiro ponto é, sem dúvida, o mais importante. Diz respeito à onto
0
logia do saber geográfico e pode ser traduzido em termos mais simples pela
r
questão - Sob que condições e sob que aspectos seria lícito conferir o quali
r
ficativo de "geográfico" a um fenômeno?
r
Responder a essa questão corresponde a ser capaz de indicar um cam
r
po de atributos e características que são próprios e exclusivos ao que de
r
nominamos como geografia. Significa, portanto, que essas características
r
e atributos atuam como constituintes essenciais da Geografia, aqueles que
r
fazem parte da sua natureza, que são os traços que a distinguem, ou em uma
r
só palavra, respondem por sua identidade3.
r
Se assim for, esses traços têm que estar presentes sempre que utilizar
r
mos esse qualificativo de geográfico, e isso a despeito de toda variedade das
c
aplicações e a despeito inclusive dos usos que foram dados em outros mo
r
mentos a essa mesma palavra9. Isso quer dizer que a identidade disciplinar,
r
8 Identidade está sendo tomada aqui independentemente das diferenciações feitas por Hall
no processo de "descentraçáo" que, segundo ele essa idéia sofreu no curso da modernidade.
Hall, Stuart.Aidentidade cultural napós-modernidade, DP&A, Rio de Janeiro. 2006.
9 Esse raciocínio corresponde ao que Locke denominou como "sameness". ou seja, a capa-
"1

r"

como qualquer outra, alias, deve ser suficientemente restritiva para assinalar
a singularidade daquilo que estamos distinguindo das demais, porém deve
ser larga o suficiente para abranger as mudanças que ocorreram durante a
trajetória evolutiva desse objeto'0.
Por isso mesmo, constatamos que a cada momento em que correntes
ou orientações novas procuraram se impor na geografia, trazendo uma rea
valiação do que comporia o conteúdo desta disciplina, elas também se viram
forçadas a retraçar a trajetória desse conteúdo na história disciplinar, redes-
cobrindo antigos autores pouco valorizados ou ressaltando aspectos que te-
-J _:-i i__ I! ;„_I 11
riam sido antes negligenciados".
De forma global, podemos dizer que a partir dos anos 50 uma grande
parte dos geógrafos passa a reconhecer a insuficiência e fraqueza das bases :
teóricas que pretendiam sustentar o projeto científico da geografia naquele
momento. Essa insuficiência provinha em grande parte da resistente idéia
de que a ciência geográfica se identificava inteiramente com o conhecimen
to empírico dos lugares e não precisava necessariamente ultrapassar esse
estágio, ou seja, não precisava criar teorias ou explicações abstratas gerais.
Ela seria, portanto, uma ciência diferente das demais pois, não só privilegia
va o conhecimento concreto como se limitava a ele. As poucas concepções
teóricas que circulavam eram vistas com desconfiança ou como algo acessó
rio, quando não empobrecedor, o fundamental era a descrição da realidade.
Quando o problema do estatuto científico era levantado, devido a esse desin
teresse em trabalhar com modelos teóricos, costumava-se apelar para quatro
principais idéias como resposta :

• A geografia é uma ciência de síntese - a diferença da geografia das


outras ciências é que ela integra todos os conhecimentos na apre
ciação de um lugar (espaço, região, etc). Em outras palavras, para
conhecermos a forma de ser de um espaço é necessário conhecer
mos todos os elementos que estão presentes e contribuem na fisio
nomia daquele espaço. A geografia é assim definida como a ciência
dos lugares. Era comum também apresentar a geologia, a pedologia,
a climatologia, mas também a demografia, a sociologia, a economia,

cidade de mudar existencialmente (materialmente), mas permanecendo o mesmo como idéia,


ou como identidade. Locke, John. Segundo Tratado Sobre o Governo Civil. Nova Cultural, São
Paulo, 1978. (Coleção Os Pensadores).

10 Williams, Raymond. Key.vords, Fontana, Londres, 1976.

11 Esse recurso foi examinado com detalhes em Gomes, Paulo C. da Costa. Geografia e Mo
dernidade, Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 1996.

16
p
p

f> ESPAÇO ETEMPO 18

P
entre outras, como ciências subsidiárias à geografia? Estas disciplinas
seriam analíticas, tratariam de um campo fenomênico, ou seja, parti
P riam do questionamento sobre um problema ou de um domínio. A ge
P
ografia não responde a um problema específico, nem por um tipo de
fenômeno, ela trata dos lugares e, portanto, integra todos os conhe
0
cimentos que operam naquele espaço. De certa forma, nesse caso a
ciência geográfica não tem como papel explicar, mas simplesmente
0
relacionar os campos analíticos advindos de outras disciplinas. Por
isso se difundiu a idéia de que a geografia faria uma grande síntese.
0
0
• Ageografia é uma ciência indutiva - a geografia, como outras ciências
físicas e naturais, partiria dos fatos para só depois construir explica
0
ções, ao contrário das ciências dedutivas, como a matemática, que
avançaria por raciocínios lógicos dedutivos. Assim, o mais importante
0
seria o conhecimento empírico, ou pelo menos, qualquer teoria deve
ria partir do conhecimento profundo dos lugares (ou regiões, paisa
gens etc). Se o que concentra e define a substância do conhecimento
científico da geografia é a maneira como se apresentam os lugares,
então o primeiro e mais importante passo na formação do conheci
mento é a descrição minuciosa e total de todos os aspectos que ca
racterizam um lugar. A permissão ao uso e a legitimidade de qualquer
modelo de análise teórico ficam submetidas ao conhecimento empíri
co, quase exaustivo, do conjunto dos lugares, ou seja, só pode haver
teoria depois que a massa de conhecimento empírico for estabeleci
da e sistematizada. Como se pode perceber trata-se de uma missão
quase impossível superar essa primeirafase na maneira como ela era
apresentada por alguns geógrafos.
r
• A geografia é uma ciência "chameira" - A diferença da geografia pro
vém de sua posição, entre as ciências sociais e naturais. O campo
das questões geográficas se situa nessa relação, ou melhor, a geo
grafia nessa versão deve responder sobre as múltiplas influências ou
condicionamentos gerados entre o mundo natural e a organização
social. Essa posição singularíssima em relação às outras ciências é
responsável pelas dificuldades em desenvolver grandes painéis expli
cativos, uma vez que o determinismo geográfico foi condenado desde
o começo do Século XX, ou seja, exatamente no momento em que a
geografia começa a ser difundida através de um ensino sistemático.

17
19 UM LUGAR PARA AGEOGRAFIA
"

L
A geografia e uma ciência do empírico - Alguns poucos geógrafos
procuraram de forma mais aprofundada e movidos por um genuíno
desejo de esclarecimento uma forma de definir a geografia na ma
neira como ela era praticada nessa primeira metade do Século XX.
Um dos trabalhos mais conhecidos apresentava a "excepcionalidade"
do método geográfico como uma derivação da natureza do próprio s
objeto de estudo da geografia: o espaço. Essa excepcionalidade teria
sido pela primeira vez identificada por Kant, já no Século XVIII, em sua i
classificação das ciências quando ele descreve o caráter a priorí das
categorias de espaço e tempo. De fato, Kant assinalou o fato de que
para percebemos qualquer fenômeno e criarmos categorias de aná
lise, é necessário que esse fenômeno esteja contido no tempo e no
:
espaço, senão ele não seria identificável, uma vez que se misturaria a
outros. Então, disse ele, as categorias tempo e espaço são categorias
a priorí, são como condições para a nossa percepção. Certos geógra
fos interpretaram isso como um estatuto científico diferente para a ge
ografia (e também para a História que estuda o tempo, outra categoria
a priorí, segundo Kant) uma vez que essa ciência estuda o espaço e
este é uma categoria apriorística, não há necessidade de encontrar
justificativas lógicas, ele é um dado concreto e fundamental. Daí a
geografia ter dificuldade em operar no campo da abstração já que sua
base é uma categoria que não necessita de definição. L

Nessas quatro situações percebemos que o que se pretendia afirmar b


era a singularidade da geografia em relação às outras ciências. Ainda que se
constatassem problemas de integração da geografia aos métodos das outras
disciplinas, de forma alguma se estava renunciando ao prestigioso estatuto
de ciência. Essas explicações apresentadas acima procuravam assim uma
justificativa para dificuldade da geografia de produzir modelos de explicação,
ou para a sua incapacidade de criar um verdadeiro campo analítico de inves
tigação. Essas explicações operavam também como justificativas para que
os geógrafos não freqüentassem as discussões mais gerais sobre as teorias
do conhecimento que atravessavam as demais disciplinas. A natureza singu
lar da geografia em face das outras disciplinas os pouparia desses debates.
Esse traço, todavia, não deve ser interpretado simplesmente como in
dolência ou puro conservadorismo dos geógrafos. A geografia tal como a
história é filha dos modelos de erudição que caracterizavam o saber antes da
revolução científica do final do Século XVIII. O enciclopedisrno e o princípio
das coleções são sempre fortes tentações que, embora hoje mais fracas,

18
P
f
ESPAÇO ETEMPO 20

i
exercem seu poder sobre os interessados nesses campos.
O fato de que a geografia tenha se constituído como disciplina a partir da
herança deixada pelos viajantes e suas descrições e pelos naturalistas e suas
coleções variadas, certamente foi decisivo. Por um lado, foi a partir do ma
terial deixado por esses pioneiros que os geógrafos começaram a trabalhar.
Por outro lado, essa proximidade com viajantes e naturalistas e suas aventu-
rosas e curiosas estórias devem, sem dúvida, ter contribuído no tipo de públi
co atraído para o campo da geografia. Isso quer dizer que muitos geógrafos
inicialmente tinham como horizonte e interesse essa agenda descritiva de
p lugares, por vezes bastante anedótica, e talvez tivessem pouca sensibilidade
0 para esquemas explicativos abstratos12. Podemos mesmo nos perguntar se
ainda hoje, a tentação de definir, ou de pelo menos manter uma forte cono
0 tação naturalista dentro de certos domínios da disciplina não provenha ainda
e
dessa mesma origem.
p O fato mais significativo que queremos assinalar aqui, no entanto, é que
a partir de meados do século passado essas quatro linhas de raciocínio apre
p
sentadas pelos geógrafos e citadas anteriormente começam a mostrar claros
sinais de insuficiência. Para termos uma idéia da importância dessa discus
0
são basta que consideremos que é a partir delas, de sua aceitação, que a
0
geografia pode ou não justificar a legitimidade de seu estatuto como ciência
frente às demais disciplinas. Examinemos, ainda que brevemente, alguns dos
P pontos críticos que atingiram essas linhas de raciocínio.
r
p
° Em relação à ciência de síntese - todo domínio científico precisa pro
p
duzir conhecimento, não há como imaginar que uma ciência pode
existir sem definir um campo de investigação próprio e, além disso,
pretenda ser a síntese de todos os demais. A idéia de que a geografia
era uma ciência caracterizada pela inter-relação de diversos campos
0
não pode se sustentar pois todas as ciências se nutrem elas mesmas
de inter-relações entre variados campos. Ademais, no estado atual do
r
conhecimento científico, profundo, especializado e sofisticado, como
poderia o geógrafo ser capaz de produzir uma síntese global desses
p conhecimentos?

» Em relação à ciência indutiva - Todas as outras ciências, físicas e


naturais, que também podem ser classificadas como indutivas, proce-
P
12 No começo do Século XX, sobretudo na França, muitos geógrafos tinham seguido estudos
de História, mas, também nesse caso e durante muito tempo, essa disciplina sofreu da mesma
doença enciclopedista e empirista descrita aqui para a geografia.

19
r
21 UM LUGAn PARA A GEOGRAFIA

dem e têm como finalidade produzir explicações. Aliás, as descrições


só têm sentido dentro de um quadro científico quando referenciadas
a um ponto de vista que é ele mesmo dado pelo quadro de uma te
oria ou de um esquema interpretativo. Desde Kant e das doutrinas i
modernas do conhecimento sabemos da impossibilidade de conhe
cer as coisas em sua totalidade, as coisas-em-si (a diferença entre o
noumêno e o fenômeno). Assim, não se consegue jamais descrever
todos os aspectos de uma coisa ou fato, por maior que seja o esfor
ço, a profundidade e os detalhes da descrição. Além disso, ao entrar
em contato com o empírico o observador já está municiado de cate
gorias abstratas imprescindíveis à própria observação e descrição.
Da mesma forma, o interesse que guia e legitima a descrição é tam
bém muito mais o produto de um quadro de referências abstratas do
que simplesmente o resultado de uma observação gratuita nascida
de forma espontânea e fortuita. É assim que a relação entre nossas
categorias abstratas de análise e a observação empírica, segundo a
í
teoria clássica da ciência, constitui o método recomendável para a
produção do conhecimento. Por fim, essa classificação de ciências
indutivas e dedutivas foi muito fortemente criticada desde o come
ço do Século XX por inúmeras correntes que denunciam a falácia da
separação entre categorias mentais e percepção (Convencionalismo,
Neo-Kantismo, etc). Sem precisarmos ir até essa discussão, parece
que dentro dessa linha de raciocínio de uma ciência exclusivamen
te indutiva tampouco poderia se encontrar justificativa para manter a
geografia como uma mera coleção de observações empíricas, sem
discussões teóricas explicativas.

Em relação à ciência « charneira » - Como já foi dito anteriormente é


difícil imaginar que uma ciência defina seu campo de estudos como
uma relação, sobretudo de uma amplitude tão grande como essa en
tre o mundo natural e a organização social. De qualquer forma, ainda
que isso fosse aceito, seria necessário produzir modelos abstratos
generalizantes - O que é regular nessa relação? Quais os graus de
dependência entre os diversos aspectos ambientais e socioculturais
descritos? Que elementos gerais resultam da análise? Em outras pa
i
lavras, dizer que a geografia estuda a relação homem-meio e pro
duzir uma série de descrições de casos singulares que apenas de
monstram os condicionamentos e as limitações particulares de cada
parcela analisada não corresponde aos resultados que se espera de

20 1
0 •

^. ESPAÇO ETEMPO 22

um campo disciplinar verdadeiramente científico.

• Em relação à ciência do empírico fundada no raciocínio de Kant do


espaço como uma categoria a priorí da percepção e do conhecimento
- não quer dizer para ele, e nem poderia, que a geografia, que estuda
o espaço, fica dispensada de produzir outras categorias de análise.
Toda ciência para Kant deve desenvolver e trabalhar a partir de cate
gorias gerais que, aliás, são elas que conformam nossa percepção e
nosso entendimento. O modelo fundamental de ciência para Kant é a
: física newtoniana, ou seja, a instrumentalização de nossa percepção
através de categorias, a observação formal do comportamento em

t pírico e construção de um sistema de explicação abstrato, lógico e


generalizante. Nada é mais distante do sistema kantiano do que essa
idéia de que pode haver uma ciência eminentemente empírica que se
nutre de uma observação direta, sem construção teórica.

A esses argumentos críticos somam-se muitos outros. Alguns de pe


queno alcance, como por exemplo, os que diziam que: "os geógrafos não
gostam de matemática" por isso não têm boa capacidade de análise e de
0
abstração; ou ainda, "o recrutamento dos geógrafos é feito sobre a base de
uma geografia do ensino médio, caracterizada pela memorização, nada há
nesse ensino que deixe perceber que existe na geografia um esforço de com
preensão teórica do funcionamento dos fenômenos que ela diz estudar, por
isso são atraídos para a carreira aqueles elementos que não possuem qual
quer vocação para o pensamento abstrato"; finalmente, chegava-se mesmo a
diagnósticos bastante severos como aqueles que definiam o geógrafo como
um apreciador do anedótico ou um especialista em generalidades13.
Ao lado dessas críticas apareciam outras de ordem bem mais geral como
aquelas que demandavam que o estatuto de ciência fosse acordado à geo
grafia somente na medida em que ela se mostrasse capaz de construir mo
delos gerais de análise e de formular teorias explicativas como todas as de
mais ciências, inclusive as sociais. Muito se falou também da dificuldade em
aplicar um conhecimento que não era fundado em modelos abstratos e por
isso a dificuldade em operacionalizar esse conhecimento como o faziam as
outras áreas que participavam da esfera da ação, inclusive em domínios onde
a geografia parecia poder trazer alguma contribuição como no planejamento
territorial, na discussão de políticas públicas, no desenvolvimento regional etc.

13 Allemand, Sylvain. Dagorn. René-Eric e Vilaça, Olivier. La Géographie contemporaine, col.


Idées recues, Le cavalier Bleu Editions, Paris, 2006.

I
*

23 UM LUGAR PARA AGEOGRAFIA

Nessa discussão muito se tem confundido ciência e engenharia e, mui


tas vezes, a decantada integração dos campos físico e humano da geografia
responde não mais do que pela simples aplicação de um conhecimento na
tentativa de solução de um problema prático. Esse colossal equívoco en
tre produção do conhecimento, relativo à esfera da ciência e, portanto, ne
cessariamente atravessado por questões epistemológicas e a aplicação do
conhecimento, relativo à esfera das engenharias, da solução de problemas
práticos, tecnicidade e operacionalização dos conhecimentos, tem sido fruto
de imensos problemas na definição do papel do geógrafo e de suas compe
tências. Esse equívoco não afeta somente à identidade do saber geográfico,
ele se transforma em grave problema na formação dos geógrafos e na inser
ção deles no mercado de trabalho.
O diagnóstico dos problemas parecia, portanto, convergir no sentido de
que as principais falhas eram atribuídas à ausência ou ao pequeno desenvol
vimento de uma discussão teórica dentro do campo da geografia. Podemos
pois chegar a conclusão de que o que caracteriza a geografia no pós-guerra
é essa consciência aguda de que seu futuro como ciência dependeria da
capacidade de gerar instrumentos de análise abstratos, ou seja, superar a
descrição dos casos e encontrar regularidades capazes de fundar um campo
de discussões teóricas. Talvez pudéssemos ousar dizer, de forma bem exem
plar - passar da geografia dos elementos à construção de uma verdadeira
è
ciência geográfica. ^

ABUSCA POR UM OBJETO: LIMITES EFRUSTRAÇÃO ^


Ainda que o diagnóstico fosse quase unânime, o mesmo não ocorria
com as recomendações a seguir e isso foi imensamente positivo para a ge
:
ografia. De fato, a crise iniciada pelas insuficiências desses argumentos que
alicerçavam a chamada "geografia clássica" conduziu os geógrafos a se lan
çarem em um verdadeiro debate epistemológico. Esses debates tomaram
diversas direções. Uma das mais centrais seria aquela que discute sobre o
objeto de estudos da geografia.
Para alguns, a busca desse objeto tomou a forma de uma verdadeira
epopéia mítica. Encontrar um objeto para a Geografia corresponderia a salvar z
a disciplina de sua deriva, haveria a definição de novos rumos, a geografia
se libertaria do classicismo e serviria à libertação social. 0 objeto da geo
grafia, tal qual o Santo Graal, era procurado por grupos de pessoas unidas
pelas promessas redentoras em torno de sua posse. Esse objeto "sacraliza-
do" seria encontrado pelos bravos e somente os puros de espírito teriam sua
t
22
ESPAÇO E TEMPO 24

guarda e, finalmente, sua descoberta anunciava muita paz e prosperidade e


reconhecimento à ciência geográfica.
O nome desse mágico objeto era "espaço" e como nos abundantes mi
tos, muitos foram aqueles que reclamaram sua descoberta e posse. Parte do
problema parecia, portanto, estar resolvido. Sabíamos qual era o objeto de
estudo da geografia, possuir esse objeto daria distinção e prestígio.
Dois grandes problemas surgiriam imediatamente depois desse consen
sual concerto em torno da idéia de que era o estudo do espaço que daria
identidade e relevância à Geografia. O primeiro era o de sua posse exclusiva,
seu monopólio. Outros domínios disciplinares ao trabalharem com o espaço
estariam indevidamente explorando os recursos nos terrenos da geografia?
Como fazer com a física e sua já tão antiga reflexão sobre a categoria espaço,
ou com a matemática, para citar apenas esses exemplos entre muitos outros?
Uma das tentativas de solução apresentadas para esse problema era
afirmar a diferença do espaço geográfico em relação aos outros tipos de
espaço trabalhados por outras disciplinas. Esse recurso, todavia, é apenas
parcial pois transfere as imprecisões contidas na definição da geografia ao
espaço e tudo aquilo que foi dito em relação às marcas distintivas e exclusi
vas que devem ser apresentadas quando da definição de um campo identitá-
rio. Daí, aliás, deriva justamente o segundo grande problema - definir o tipo
de espaço que deve ser estudado pela geografia.
Rapidamente, os geógrafos compreenderam que a detenção, ainda que
apenas nominativa, de um suposto objeto único não garantia nem definia as
direções que os estudos geográficos deveriam tomar. Ainda que estivésse
mos de acordo sobre a denominação de um objeto, as questões relativas à
0
natureza desse objeto, a como abordá-lo, a como justificar sua pertinência e
0
sua relevância restavam sem resposta.
0 Espaço matemático, geométrico, sistêmico, polarizado, socialmente de
P finido, polarizado, homogêneo, vivido, físico, concreto, foram algumas das
r
classes criadas para definir o substrato essencial para uma nova ciência ge
0 ográfica do espaço. Até mesmo a denominação "geografia" foi colocada sob
suspeita e propostas de ciência do espaço ou espaciologia foram sugeridas
como alternativas no processo de apropriação desse objeto.
Uma questão fundamental permanecia, todavia, em silêncio. É aquela
r
que indagava sobre a necessária associação de uma disciplina ao domínio
de um objeto específico. Todas as disciplinas possuem um objeto que lhes
0 pertence? Os recortes disciplinares correspondem à transformação e frag
mentação do real em uma coleção de objetos, depois selecionados de acor
do com os limites impostos por cada uma das disciplinas? A quem pertence

23

f
-*

25 UM LUGAR PARA A GEOGRAFIA

determinados objetos complexos, como, por exemplo, o estudo das cidades?


De certa forma, a definição do espaço como objeto de estudos da ge
ografia, ou daquilo que iria conferir identidade e marca geográfica a um fe-
f n ô m e n o , não significou uma verdadeira ruptura com o projeto clássico da
disciplina. Em outras palavras, a escolha de um objeto, largo e sem muitas
delimitações, significou a possibilidade de continuar a manter as idéias da
geografia como ciência de síntese, da relação entre o natural e o cultural, ou
ainda, do espaço como um reflexo da sociedade, mantendo assim, em todas
essas formas, a economia de uma reflexão teórica própria ou o desenvolvi
mento do debate epistemológico dentro da geografia.
A engenharia retórica, por mais bem elaborada que ela fosse, não con
seguiu ser suficiente para soldar as lacunas de um raciocínio verdadeiramen
te epistemológico necessário ao desenvolvimento de uma ciência moderna.
Esse entendimento não se impõe pela simples posse de um objeto. É ne
cessário ser claro quanto à contribuição relevante trazida pela disciplina na
investigação de um fenômeno e não apenas dizer que aqueles tipos de fenô
meno fazem parte do seu domínio.

CAMINHOS QUE NOS LEVAM, NÃO


AO PARAÍSO, MAS AALGUM LUGAR

Nesse ponto chegamos talvez ao momento mais importante do raciocí


nio desenvolvido aqui - que característica marca a reflexão e a contribuição
da geografia no estudo de certos fenômenos? Ao que responderemos - A
ordem espacial.
Foi assim que denominamos a idéia de que há um arranjo físico das

.
coisas, pessoas e fenômenos que é orientado seguindo um plano de dis
persão sobre o espaço14. Há coerência, lógicas, razões, que presidem essa
i
distribuição. Há uma trama locacional que é parte essencial de alguns fenô
menos. A análise dessa trama locacional é a especificidade da ciência geo
gráfica. Ela é relevante pois o ordenamento espacial de alguns fenômenos
lhes é essencial.
Na distribuição das espécies vegetais que caracteriza tipos de bioma,
no processo de sedimentação que forma uma praia ou na densidade de po
pulação dentro de uma aglomeração urbana, em qualquer um desses fenô
menos, há um arranjo espacial coerente e explicativo que é parte da própria

14 Gomes, Paulo C. da Costa. "Geografia fin-de-siècle: o discurso sobre a ordem espacial do


mundo e o fim das ilusões". In Castro, Iná E. de; Gomes, Paulo C. C; Corrêa, Roberto L. (orgs.).
Explorações geográficas. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, 1997.

24
P
P

ESPAÇO ETEMPO 26
m
p
natureza do fenômeno. De fato, o que explica cada um desses arranjos não é
derivado de uma mesma conexão: o jogo das interações dentro de um bioma
gera um plano de distribuição que não tem rigorosamente a mesma causa
lidade lógica dos modelos físicos que explicam a diferente granulometria ao
longo do perfil de uma praia, ainda menos, esses fatores poderiam servir
0 para explicar a densidade de população de uma aglomeração urbana. Assim,
0 embora o problema na base seja o mesmo, para a compreensão dos planos
0 de dispersão de determinados elementos ou fenômenos, os instrumentos
r mobilizados para explicá-los são necessariamente muito diversos e variados.
0 Imaginar que esses elementos serão federados e uma ordem total apa
P recerá, corresponde a trabalhar com a hipótese de um demiurgo plano, uma
0
teleologia global que fere frontalmente as laicas concepções da ciência mo
0
derna. Fere também frontalmente a idéia que se impõe cada vez mais for
r
temente em nossos dias, por vezes associada ao pós-moderno, de que há
p
sempre uma multiplicidade de sistemas explicativos e de completo rechaço
de uma mono-causalidade ou das assim chamadas "grandes narrativas". A
r
simplicidade desse holístico desenho é contestada sempre pela complexida
P
de que se impõe e que aparece a partir das infinitas interações que caracteri
0
za os fenômenos, de"seus limites críticos, de suas diversas escalas, de suas
P
transitórias e mutáveis estruturas. ;
0
A conclusão mais importante desse raciocínio aqui não é, no entanto,
aquela que simplesmente sublinha a complexidade dos sistemas espaciais. A
constatação da complexidade não pode ser um bloqueio ou um álibi. A cons
0
tatação da complexidade não pode ser um consentimento para a confusão. A
P
constatação da complexidade não pode ser uma senha de autorização para
P
P sistemas de entendimento totais ou totalitários. A constatação da complexi
dade é tão somente o reconhecimento de que o percurso para a construção
de um conhecimento demanda esforço, dedicação e muito trabalho de re
flexão. A constatação da complexidade é tão somente o reconhecimento de
que nosso entendimento, apesar de todo esse esforço, é sempre parcial e
representacional. Nunca chegaremos a envolver todos os aspectos da miría-
de de elementos inter-relacionados na composição dos sistemas espaciais.
Seus desenhos, embora possam ser traduzidos em esquemas simplificados
para fins de apresentação são o produto de sofisticados processos15.
Assim, o mais importante, embora possa parecer bem simples, é que
o terreno da ciência geográfica não se define pela posse de um objeto, o
espaço. Esse terreno se delineia pelo tipo de questão que é dirigida a um
r
15 Essa mesma constatação é feita para a física por Prigogine. Prigogine, llya. O fim das cer-
tezas: tempo, caos e as leis da natureza. Ed. da UNESR São Paulo, 1996.

r
27 UM LUGAR PARA AGEOGRAFIA

fenômeno. Otipo de questão construído pela ciência geográfica é aquele


que se interroga sobre a ordem espacial deles. Outros domínios disciplinares
trabalharão os mesmos fenômenos, mas construirão outras perguntas, terão
outras curiosidades, desenvolverão outras análises e chegarão a outros re
sultados. Cada disciplina cria suas representações e trabalha a partir delas,
o que demonstra bem a impossibilidade de um saber totalizante e absoluto.
Dentro dessa perspectiva, não há uma geografia física e uma geogra
fia humana, unificadas em seus respectivos campos. Menos ainda haveria a
.
possibilidade de federá-las em um campo totalizador, que seria a "verdadeira
geografia". Há, contudo, sempre uma análise geográfica quando o centro de
nossa questão é a ordem espacial, pouco importando o tipo do fenômeno,
inorgânico, orgânico ou social, até porque essas fronteiras são de difícil deli
mitação em muitos casos, quando falamos de natureza e de sociedade, por
exemplo.
Haverá, contudo, sempre uma geografia quando o fenômeno da disper
são espacial construir a questão central do problema. A geografia existe em
qualquer fenômeno em que haja uma ordem de dispersão espacial16. A uni
dade não provém do tipo de fenômeno, mas do tipo de pergunta.

REPENSANDO O DISCURSO GEOGRÁFICO E SUA IMPORTÂNCIA

Depois dessas considerações, somos agora talvez mais capazes de exa


minar, ainda que rapidamente, com outros olhos o problema da relevância do
campo de trabalho da geografia.
Se a composição espacial colabora de forma essencial nos fenômenos,
a análise das posições, das implicações relacionais delas no sistema loca
cional constitui uma dimensão fundamental para a compreensão dos fenô
menos. Em outras palavras, isso funda um plano de análise autônomo, um
verdadeiro campo de questões, um domínio epistemológico. Isso significa
que ao ignorar ou negligenciar esse plano perdemos a oportunidade de des
vendar toda uma ordem de sentidos e significações fundamentais que consti
tuem os fenômenos. Essa negligência faz com que outras ordens explicativas
sejam sempre reforçadas e, paralelamente, significa um empobrecimento da
compreensão das múltiplas possibilidades analíticas, das representações
possíveis de um fenômeno, resumindo, gera uma equivocada simplificação


16 Como na idéia de Cosgrove, Denis. "Geography is everywhere: Culture and Symbolism
In Human Geography". In David Gregory & R. VValdorf (orgs.) Horizons in Human Geography,
MacMillan, Londres, 1989.
p

p ESPAÇO ETEMPO 28

P na interpretação dos eventos17.


P A importância da ordem espacial não ficou confinada à geografia. Muitos
autores de diversas outras áreas foram, por diversas razões, levados, muitas
P vezes, a tratar desse plano do ordenamento espacial que se impôs como uma
dimensão fundamental na compreensão de certas dinâmicas. Há numerosos
è
exemplos, alguns já célebres como os de Anthony Giddens, de Henri Lefèb-
0
vre, de Fernand Braudel, de Michel Foucault, entre muitos outros, que, sem
serem geógrafos, chamaram a atenção para a centralidade e para a impor
tância da espacialidade na compreensão de certos processos e dinâmicas.
0
Perceber que há uma ordem espacial da vida social, por exemplo, é per
ceber que nossas práticas são modificadas pela modulação da localização,
0
que essa modulação modifica também nossa compreensão dos conteúdos,
que essa modulação classifica, hierarquiza, regula, qualifica nossas atitudes,
tanto as mais claramente expressivas quanto aquelas mais cotidianas.
A relevância dessa dimensão espacial dos fenômenos é, portanto, extra
0
ordinária. Ela pode nos ajudar a entender melhor inúmeros fenômenos, que
atuam em diferentes escalas e trazer inéditos recortes e condicionantes que
escapam das dominantes causalidades comumente apontadas. Cabe ao ge
ógrafo fazê-lo, mas se ele não o fizer, outros justificadamente o farão e é isso
que já vem, de certo modo, acontecendo no movimento que ficou conhecido
como a "virada espacial" (the spatial turn).
Essa dimensão espacial e suas repercussões não são simples de serem
percebidas pois justamente escapam dos elementos que normalmente são
analisados e sobre os quais se atribui o peso da causalidade na constituição
dos fenômenos. O desafio que se coloca à Geografia é, por esse ângulo, por
tanto, formidável - iluminar um novo campo de questões e demonstrar sua
pertinência e importância.
A sedução do discurso fácil e do consenso imediato tem sido muitas ve
zes um entrave de peso na produção do conhecimento relevante na Geogra-

Í 1 7 Foi exatamente por isso que ignorei a sugestão de contemplar a categoria do tempo nessa
oportunidade. Aordem cronológica é uma daquelas que sempre é argüida como fundamental
na compreensão dos fenômenos. Mesmos nós geógrafos estamos acostumados a fazer apelo
a essa ordem para encontrar explicações. Isso não é em si condenável, mas a obliteração
da ordem espacial sim. Assim, se reafirma o velho hábito de que as explicações diacrônicas
se Imponham sempre como aquelas que aparentemente sáo mais válidas do que porventura
aquelas trazidas por uma análise sincrônica.
Foi. por essa mesma razão que ignorei todos aqueles autores, numerosos, que confundem
história da geografia com epistemologia. como se essas duas áreas se recobrissem perfeita
mente. Ao fazerem negam a independência desse campo de questões epistemológicas e o
traduzem como simples etapas da evolução da disciplina, o que no ponto de vista defendido
J^ aqui não é aceitável.

27
29 UM LUGAR PARA AGEOGRAFIA

fia. O lugar comum que agradade imediato, masque de fato nada acrescenta
aquilo que já é comumente pensado, o reforço do pensamento e da explica
ção banais, a confusão entre o papel de produtor do conhecimento com o
de mero reprodutor, o encanto da denuncia e a posição de suposta superio
ridade daquele que denuncia, a atração pelo discurso moralista, todos esses
ingredientes, embora facilmente compreensíveis pela sociologia da ciência,
têm sido muito nocivos à geografia, sobretudo pela grande generalização do
seu uso entre nós18. :
Parece que precisamos renunciar, pelo menos em parte, ao discurso
simples que gera com facilidade uma sensação de glória pessoal e pensar
mos nos benefícios possíveis do prestígio trazido pela colaboração na produ
ção do saber, na efetiva contribuição ao desenvolvimento do conhecimento,
mesmo que isso não cause uma adesão imediata e desestabilize as confor
táveis certezas do lugar comum. Renunciemos à banalidade para ganharmos
em importância.

A epistemologia não é uma forma de estabelecer o modelo, ideal, único


e infalível para produzir conhecimento. É um campo de tensões e discussões.
Por isso, debates e discordâncias são inexoráveis. A aceitação de que isso é
a regra do jogo nos flexibiliza, nos faz abdicar mais rapidamente das palavras
doutrinárias, das certezas, nos coloca face a face com a multiplicidade de
pontos de vista, com a complexidade.
Ao final da 2° Grande Guerra, desiludidos com os esquemas explicativos
e com as orientações do Partido Comunista Francês, dois grandes intelec
tuais escreveram livros com títulos evocadores: Para entrar no Século XX,
de Jean Duvignaud e Para sair do Século XX de Edgar Morin'0. O primeiro
acreditava que as velhas doutrinas do Século XIX teriam se prolongado e
se popularizado no XX e o quadro analítico, simplificado e esquemático que
fundava a ciência não tinha mais como sobreviver no contexto complicado
do mundo pós 23 Guerra. O segundo se perguntava - como explicar o mundo
depois da barbárie desse evento e após a desilusão dos esquemas explicati-

18 Não somente entre nós. Todas as ciências sociais padecem desse mesmo mal. Muitas ve
zes a reprodução da banalidade se faz sob um manto elaborado e todo o talento dos autores é
utilizado para revestir, com uma linguagem aparentemente sofisticada, uma afirmativa bastante
simples que tem livre curso bem estabelecido no senso comum.

19 Duvignaud, Jean. Pour entrer dans le XXème Siècle, Grasset, Paris, 1960 e Morin, Edgar,
Pour sortir du vingtième siècle, Nathan. Paris. 1981.

28
ESPAÇO ETEMPO 30

vos unificados e doutrinários que serviram de matrizes às ciências até então,


o positivismo e o marxismo? A conclusão essencial era a mesma: é preciso
reaprender a pensar.
A estrita consideração da economia, da técnica e dos processos de pro
dução jamais seriam sozinhos capazes de fornecer a chave para interpre
tar esse complexo mundo moderno. Da mesma forma, a atribuição de uma
causalidade simples não pode mais ser aceita como absoluta e formatadora
da totalidade dos fenômenos. Sabemos que esses ingredientes somados às
grandes tensões geradas por outras disciplinas, como a física e toda a dis
cussão sobre a possibilidade de unificação das forças de interações físicas
(gravitacional, eletromagnética, fraca e forte), a conectividade entre os fenô
menos, as flutuações, a não-linearidade, entre outras noções, deram origem
ao que Edgar Morin chama do novo paradigma da complexidade.
Seja como for, parece que cabe à geografia tomar a si a tarefa de discutir
o complexo sistema de posições e de localização, tentar desvendar o papel
e a importância desse sistema na estrutura dos fenômenos e demonstrar o
valor dessa análise para a compreensão deles. Tudo isso não pode ser feito
sem um profundo mergulho no horizonte epistemológico. Mesmo os entre
nós mais pessimistas devem admitir que os principais elementos para isso
já estão reunidos e as condições para tal empreitada já estão dadas. Então,
mãos à obra.

è
è

29
M\}°
: •ji O

••.
x

E L E"iVl E N T O S DE

Stl " •

li

UiJ UCUiJ •

CONTEMPORÂNEA
•:

;
•;
I
• •

FRANCISCO MENDONÇA \ «N>

S^ SALETE KOZEL ;i 5
I

AREVOLUÇÃO PÓS-FUNCIONALISTA
EAS CONCEPÇÕES ATUAIS DA GEOGRAFIA 1
i
ü
•••

Paul Claval
(Tradução: Nathalic Dcssarrrc-Mencionça) ,

Coordenação de Processos Técnicos. Sistema de Bibliotecas, UFPR


Elementos de epistemologia da geografia contemporânea/
E38 Francisco Mendonça, Salete Kozcl, organizadores;[revisão
de texto Maria José Maio Fernandes Nairnc].-[Curitiba] :Ed.
da UFPR, 2002.
270p. : il. (Pesquisa; n.69)

Inclui bibliografia e notas bibliográficas

1. Geografia humana. 2. Geografia. 3. Epistemologia social.


4. Sociologia do conhecimento. I. Mendonça, Francisco. II. KozeI,
. Salete. III. Naimc, Maria José Maio Fernandes.

CDD 20.cd. 910.01


_^____ CPU 1976 910.1
Samira Elias Simões CRB-9/755

31
k
AREVOLUÇÃO PÓS-FUNCIONALISTA *
E AS CONCEPÇÕES ATUAIS DA GEOGRAFIA

. Paul Claval
(Tradução: Nathalie Dessartrc-Mcndonça) ;
m

Gostaríamos aqui de defender o seguinteponto de vista: duas


grandes concepções da geografia foram imaginadas entre o final do
século XVIII e os anos 70. A primeira insistia nas relações entre natu
reza e sociedade. A segunda se preocupava com o papel do espaço no
funcionamento dos grupos humanos. Elas diferiam em muitos pon
tos, porém baseavam-se em um pressuposto comum: o da existência
de realidades globais, fossem elas a natureza, a sociedade ou socieda
des. As suas ambições consistiam em desenvolver propostas aceitáveis
nestas escalas e em participar, desta maneira, dos conhecimentos úteis
aos homens. 'm,
Os resultados que essas duas concepções obtiveram foram
consideráveis. Ninguém os nega. Não se trata de questioná-los: a geo
grafia deve prosseguir beneficiando-se daquilo que os enfoques1 natu
ralista e funcionalista lhe proporcionaram. O que se critica hoje são os
procedimentos utilizados para adquirir esses conhecimentos: os pres
supostos nos quais se baseavam estão sendo contestados por um mo
vimento de desconstrução das bases tradicionais da ciência, em geral,
-

e das ciências humanas, em particular. Para uma minoria, a revolução


epistemológica pós-funcionalista vem acompanhada de um ceticismo
generalizado: rejeita-se a idéia de que o conhecimento desinteressado
e a ciência sejam possíveis. Tendia-se, então, a ver nas disciplinas que
tratavam do mundo social, e que tinham se desenvolvido desde o
final do século XVIII, somente discursos cujo objetivo era estabelecer
o predomínio dos adultos ocidentais brancos e de sexo masculino so
bre as mulheres, as crianças e as minorias étnicas dos seus próprios
países e no resto do mundo. A moda dás epistemologias pós-

11
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)
s
colonialistas for tanta que ela conhecerá com certeza um refluxo rápi-
tdo.
Uma orientação mais moderada também é explorada. Ela
leva em consideração as críticas formuladas a respeito dos grandes
relatos, das metanarrações, que os geógrafos de cunho naturalista ou
funcionalista propunham. Uma concepção mais modesta da ciência
se impõe: não se tem mais certeza de que as "rupturas epistemológicas"
que garantiam o estatuto dos conhecimentos de ontem tenham real
mente dado à luz a modos de pensar e a práticas narrativas distintas
daquelas que sempre atuaram nas sociedades humanas. Os geógrafos
que pensam em reconstruir a geografia devem continuar tendo em
mente que o que estão fazendo não difere muito das geografias
vernacularcs praticadas pelos povos sem escrita, dos relatos, das
recensões c dos guias produzidos pelas civilizações históricas.
Para acompanhar o movimento contemporâneo da reflexão
epistemológica, é bom mostrar como surgiu, relembrar as concepções
que critica, e ressaltar a sua lógica.
r
p
0
As concepções naturalistas da geografia
P

A superfície da Terra como objeto de estudo

A geografia tal qual a conhecemos nasceu de uma crise que


transforma, na segunda metade do século XVIII, o que era a discipli
na desde o final da Antigüidade: Eratóstenes e sobretudo Ptolomeu
tinham-lhe atribuído como objetivo determinar as coordenadas dos
lugares na superfície da Terra e elaborar representações cartográficas.
0 Havia também uma preocupação descritiva, como o mostra a obra de
Estrabão, mas essa nunca tinha se tornado predominante. A partir do
século XVI, os Estados ocidentais, cientes do que podiam ganhar com
um melhor conhecimento da Terra, das rotas marítimas e das grandes
possibilidades que viriam com as trocas, contribuíram com a aventura

12,
1

•• 33
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

cartográfica. Infelizmente, esta era precária por causa da impossibili


dade, na época, de medir as longitudes. O trabalho dos geógrafos
associava então levantamentos astronômicos para estabelecer as lati
tudes com pesquisas em arquivos para avaliar as distâncias geográfi
cas e as longitudes a partir de uma leitura crítica dos documentos de
viagem.
Nos meados do século XVIII, os avanços dos procedimentos
de determinação astronômica das longitudes e a invenção do cronô
metro marítimo questionam essa primeira profissionalização da geo
grafia (GODLEWSKA, 1999). A formação dos geógrafos não precisa
mais conciliar os conhecimentos cosmográficos com o trabalho em
biblioteca. O levantamento dos mapas torna-se assunto de engenhei
ros. Os geógrafos perdem a metade da sua área tradicional. Devem
reciclar-se. Muitos tiram proveito de suas competências eruditas para
lançarem-se na reconstituição das geografias do passado. A corrente
mais dinâmica opta por outra orientação: dedica-se à descrição do
mundo de acordo com a perspectiva das ciências naturais. Alexandre
de Humboldt é um bom exemplo dessa reorientação.
Os geógrafos não se preocupam com o espaço, no sentido
geométrico da palavra. A partir de então deixam este campo para os
engenheiros cartógrafos e para os engenheiros geógrafos. Eles se inte
ressam pela natureza e pela diversidade da superfície terrestre. A sua
ciência se dedica à descrição da face da Terra, ou seja, da superfície de
contato entre a litosfera, a hidrosfera e a atmosfera, assim como o
mostra SUESS (1908-1918). A orientação se faz em direção à análise
das paisagens, porém mais percebidas na sua verticalidade, de balões
ou aviões, do que na perspectiva rasante ou oblíqua do viajante.
Na época, os geógrafos não se preocupam muito com refle
xão epistemológica, conformam-se com a mentalidade compartilha
da pelos especialistas em ciências físicas ou naturais.

13

• JA
t
p
0
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

P
P A inserção das sociedades na natureza
0"
0
P
Os geógrafos, é claro, não são indiferentes à presença dos
grupos humanos, nem às transformações que estes impuseram às paisa
r
gens. A pergunta dos pesquisadores a este respeito é simples: a nature
za preexistia aos grupos humanos, estes estão inseridos em um meio;
0
como fazer para extrair do meio ambiente no qual se estabeleceram,
p
os produtos destinados a assegurar a sua subsistência c a permitir,
p
geração após geração, a reprodução dos seus membros? O enfoque é
global, pois leva em consideração o conjunto dos meios constituintes
r
da natureza, por um lado, e da sociedade, por outro.
r-
Os meios utilizados pelos homens com o fim de conseguirem
r
inserir-se na natureza são variados: alguns se limitam a colher uma
p
parte da produção da flora e da fauna naturais dos espaços onde es
r
tão instalados; o tipo de vida que levam é baseado na colheita, na
r
caça e na pesca. Outros substituem às pirâmides ecológicas naturais as
r
associações mais produtivas do ponto de vista humano: inventam a
r
criação e a agricultura.
fi
A geografia humana enfoca em primeiro lugar e fundamen
f talmente a análise das relações que se estabelecem entre os grupos hu
p
manos e os ecossistemas dos espaços onde vivem. Vários procedimen
P tos contribuem para isso. Todos dedicam amplo espaço à descrição
p dos tipos de vida e às dimensões técnicas da relação com a natureza.
r Os homens se deslocam, realizam trocas, vendem o que pro
r duzem em excesso para adquirir o que não podem colher no próprio
p espaço. As relações entre o homem e a natureza não são somente lo
r cais: às vezes, os sustentos ecológicos dos quais depende a vida dos
p grupos ficam distantes. É a outro capítulo da geografia humana que
p cabe este estudo: a análise de situação ou de posição, que, de Ritter a
p Vidal de Ia Blache, constitui a contribuição mais original da discipli
p~ na (CLAVAL, 2001).

p
p
r
0
0
0
14
0
0
- • •

3r
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

#
A diferenciação regional da Terra

A ação humana transforma a superfície da Terra. As.combi-


nações de aspectos naturais e de artefatos que vão surgindo; muitas
vezes são notavelmente estáveis: osgeógrafos traçam a gênese das pai
sagens agrárias; descrevem as estruturas regionais que se instalam.-Trata-
se de regiões geográficas quando as atividades humanas se inscrevem
nos quadros desenhados pelas regiões naturais, as regiões agrícolas,
industriais, turísticas, históricas ou, caso contrário, de regiões polari
zadas.
A diferenciação regional da Terra aparece, de certa maneira,
: %
como um produto da evolução: resulta da ação conjugada das forças ,-.
naturais e da ação humana. » ! b
Todos estamos conscientes da contribuição insubstituível desta ;
$
parte da disciplina e do seu conteúdo bastante moderno, pelo espaço
que dedica à relação com a natureza e anuncia as reflexões ecológicas .
contemporâneas. Lamentamos, entretanto, o fato de que as descri 5
ções e as interpretações que ela propõe não dêem um papel mais ativo
aos homens, às suas opções, aos seus sonhos é às suas aspirações.
Tal geografia convinha mais aos espaços ainda profunda
mente rurais do final do século XIX do que ao mundo já extrema è
mente urbanizado e industrializado do meio do século XX.-As contin
gências ambientais locais, que desempenhavam uma função tão im
portante na perspectiva naturalista, desfazem-se então devido áo pro
gresso dos transportes e à nova possibilidade de implantarem-se em
qualquer lugar fontes concentradas de energia.

A*

i
1

» * t
l
-•-••- r---~ •
36
í Francisco Mendonça e Salete Ko/el (Orgs.) f
As concepções funcionalistas da geografia

t Uma mudança de enfoque


r
r
A pergunta fundamental a qual os geógrafos procuram res
ponder agora é outra. Parece totalmente natural aos naturalistas
enfocar o estudo da distribuição dos homens, de suas atividades e de
suas obras na ótica da inserção dos grupos no meio ambiente: os
ecossistemas naturais haviam se instalado há mais de cem milhões de
anos; os grupos humanos, posteriores a eles, tiveram que aprender a
P dominá-los para se desenvolverem.
Para quem não é naturalista no fundo da alma, esta aborda
r
gem do estudo dos homens resulta um tanto curiosa. Para que adotar
r uma ótica evolucionista? As perguntas que interessam aos grupos atu
f ais são aquelas com as quais eles se deparam. Não se situam na escala
r dos tempos geológicos, ou naquela das durações pré-históricas e his
0 tóricas. Pertencem ao presente, um presente suficientemente amplo
P para poder observar processos em andamento e resgatar tendências.
As concepções epistemológicas adotadas pelos geógrafos per
tencem à família neopositivista que predomina, na época, nas ciênci
as sociais (BUNGE, 1962; HARVEY, 1969; AMADEO c COLLEDGE,
1975; GALE e OLSSON, 1979).
r

p
Em vez do meio, o espaço geográfico; em vez das influências naturais,
a função do distanciamento
P

íi Os grupos humanos passam a ocupar o centro da análise,


i Vivem aqui, na Terra, mas a vastidão que os sustem deixa de ser con
to cebida em termos naturalistas, como se fosse feita de um mosaico de
meios. Trata-se de um espaço cujaspropriedades geométricas contam,
'
mesmo sabendo que o fator Terra está presente em todas as combina-

0
p. •37 ' •' .- • •- •
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

ções produtivas, que morar implica consumir espaço, e que alguns


lugares se diferenciam pela presença de fatores.
As variáveis principais se modificam também. A influência
do meio estava no centro dos questionamentos da geografia natura
lista do final do século XIX e do começo do século XX, mesmo se
tínhamos passado do determinismo a visões mais matizadas - o
possibilismo explicava como o peso das condições locais desfazia-se
com a elaboração de inovações técnicas ou pelo recurso ao transporte.
Para a geografia que se implanta nos anos 50, a variável
principal é a distância: o funcionamento dos grupos sociais é gerado
pela dispersão do seus membros. Uma parte das disponibilidades
energéticas e monetárias fica mobilizada pelo deslocamento das pes
soas e pelo transporte dos bens. As notícias circulam mal, o que torna
aleatório o ajuste nas decisões econômicas e o controle que as institui
ções políticas tentam impor com o fim de manter o equilíbrio social.
Isso também freia a divulgação das opiniões, das crenças ou das técni
cas.

O espaço geográfico não ignora as dificuldades naturais, que


não permitem que se produza qualquer coisa em qualquer lugar. É
um mundo de troca, tanto que os atores econômicos devem ficar de
olho no mercado, ou nos preços. O estudo do espaço geográfico abor
da amplamente o estudo das localizações (estenda-se por localizações
os pontos onde as empresas obtêm os seus maiores lucros aproveitan
do-se da distância dos recursos) e o dos mercados.

Um espaço organizado

Nada melhor para mostrar que o espaço geográfico não se


confunde com aquele da geometria que o fato dele ser "organizado".
Para acabar com o problema que traz a dispersão, os homens organi
zam redes, as pessoas que têm afinidades entre si, que trabalham no
mesmo setor ou que são ligadas por costumes comerciais formam re
des sociais. Para o geômetra, são relações topológicas que indicam as
ligações existentes entre as pontas de um grafo ou rede.

17


38
Francisco Mendonça c Salete Kozel (Orgs.)

Essas redes sociais e econômicas só fazem sentido porque


permitem estabelecer contatos, realizar transações, fazer negócios: o
que supõe a existência de infra-estrutura material, vias de transporte e
sistemas de comunicação.
Os lugares para onde estas vias convergem levam vantagem
em relação aos outros: nesses lugares fica mais fácil organizar encon
tros, estabelecer relações e fechar negócios. Nesses lugares, passa-se
num tempo mínimo de um parceiro comercial a outro. As cidades são
comutadores sociais, formas de organizações do espaço destinadas a
facilitar ao máximo todas as formas de interação. Quem nelas está
instalado acessa mais rápido e por um preço menor à informação -
basta que prestem atenção para aprender aquilo que lhes é útil. Diz-se
que desta maneira beneficiam-se de economias externas.
O espaço está organizado porque está estruturado em redes
de relações sociais e econômicas, em redes de vias de transporte e de
comunicação, e em redes urbanas, que concretizam os efeitos da com
binação dessas redes.
Falar em organização, significa também ressaltar a
hierarquização dos lugares e dos espaços.

Uma visão dinâmica do espaço

O espaço analisado na perspectiva funcional não se limita a


ser organizado e hierarquizado. Ele não pára de se transformar. Com
efeito, as cidades que se encontram no topo das redes urbanas e as
regiões que ficam no centro das zonas econômicas levam muitas van
tagens: as empresas que aí se instalam se beneficiam, pelo menos no
caso das aglomerações, de economias externas particularmente fortes.
A todas aquelas para as quais o transporte dós produtos industrializa
dos e a divulgação das informações constituem encargos importantes,
a acessibilidade à clientela é maior: é nesses pólos urbanos, ou nessas
zonas centrais, que os potenciais populacionais e de renda atingem
seu nível mais elevado. Todas as atividades que não dependem obriga
toriamente, na escolha da sua localização, das matérias-primas nem

18

30
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

da energia da qual precisam, vão, portanto, se instalar nas cidades e


nas zonas mais centrais.

Dentro de um espaço econômico, e enquanto deseconomias


externas associadas ao fenômeno de convergência, concentração e con
gestionamento não neutralizam os efeitos das economias externas des
informação, a tendência ao acúmulo de atividades em zonas reduzi •
das se mantém. Em regiões e cidades centrais, encontram-se simulta>;
neamente empresas que se aproveitam dos recursos locais e outras, queS
estão sendo atraídas pela acessibilidade ao mercado. Nas regiões peri
féricas, somente os setores primário e secundário (primeira transfor
mação) estão presentes. Nas regiões centrais, o setor.primário está sem- . _
pre presente. O secundário tornou-se mais completo com as fases ulte-
riores de transformação. O terciário vem se tornando cada vez mais
importante. A economia das regiões ou das cidades centrais não pára
de se diversificar. As chances de beneficiarem-se de um acesso gratuito
ou barato às informações pertinentes aumentam na medida em que se ;
diversifica o leque das fabricações e dos serviços.
As regiões periféricas, ao contrário, encontram dificuldades
em conservar as atividades que não dependem de recursos locais. Elas |
adquirem o perfil de regiões especializadas. Sem um bom acesso ao
mercado, e criando pouca economia externa, elas assistem à fuga das
empresas mais inovadoras, aquelas cujos valores agregados são os
maiores. -• • *?
O binômio centro-periferia está no centro das análises::funci^
onais do espaço. Ele mostra a existência de regiões deprimidas, inclu
sive nos países industrializados, e de países em via de desenvolvimento
na escala mundial.
A centralidade que estas pesquisas ressaltam não é uma pro
priedade geométrica dos espaços levados em consideração: ela varia
em função da distribuição da população; as distâncias consideradas
são medidas ao longo das redes de transporte e de comunicação. Quan
do o progresso técnico reduz os custos e a duração dos deslocamentos
e permite substituir os comutadores sociais e econômicos tradicionais,
inscritos no espaço por aqueles que a tecnologia eletrônica criou, a
dinâmica espacial como um todo se vê alterada. A tendência em cen
tralizar as atividades encontra-se parcialmente compensada pela
metropolização, já que todos os centros situados no nível superior das
* .
l
19

40 •• • '"• • ' " ~ "* " ••••••-••


0
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)
!
redes urbanas beneficiam-se doravante de uma boa acessibilidade à
área da informação. A contra-urbanização também progride, já que a
existência de boas ligações eletrônicas basta para garantir boas chances
para certas atividades mesmo que instaladas em zonas periféricas.
Diferentemente das concepções naturalistas da geografia, o
enfoque funcionalista não se inscreve numa perspectiva evolucionista.
O espaço que essa apreende não é o produto da dinâmica da socieda
de submetida às forças da natureza. E o produto de uma história.
r

Uma geografia humana que fala pouco dos homens

O entusiasmo pela nova geografia não dura muito. Ninguém


fica indiferente aos resultados que ela permite acumular em poucos
anos - uns vinte anos aproximadamente. Mas um sentimento de insa
tisfação também surge. O mundo descrito pelo enfoque funcionalista
é cinzento: não trata do esplendor luminoso das folhas de bordo, no
outono, em Quebec ou na Nova Inglaterra, nem do perfume da
garrigue1, na primavera, no ar impregnado de umidade que antecede a
tormenta. Nesse enfoque, o espaço se limita a considerações de cus
tos: custos de abastecimento, de expedição, de informações a serem
centralizadas ou divulgadas.
Essa geografia é uma ciência social, porém fala muito pouco
dos homens. Salienta, é claro, a função das decisões de localização na
formação das paisagens econômicas, porém as supõe racionais: para
sabero que vão escolher, não é preciso conhecer aqueles que escolhem,
sua história, sua idade, a formação que receberam, seus planos de
carreira ou seus problemas pessoais ou familiares.
P

1 NT Ganiguc referc-se a uma vegetação típica do sul da trança, constituída as vezes de


,. alecrim.

£ ^ 20.
t
i

-II - -. . " "


*
*
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea «*

Primeiro balanço

Limitações similares

O enfoque naturalista e o enfoque funcionalista são, igual


mente, incapazes de fazer sentir e de explicar a diversidade dos ho •
mens. Isso explica as críticas que ocorrem, a partir dos anos 70, em
relação às duas correntes que até então prevaleceram na geografia
humana, e a vontade de levar em conta dimensões até então negligen
ciadas. Pensando a respeito da região, Armand Frémont escreve cm
1976:

Do homem à região e da região ao homem, as transparências da racionalidade


são perturbadas pelasinércias dos costumes, as pulsões da afetividade, os con
dicionamentos dacultura, os fantasmas do inconsciente (FRÉMONT, 1976; •
citado de acordo com reedição 1999, p. 58).2
m
Os dois enfoques até então dominantes compartilham outro
.#
defeito: explicam aquilo que a observação revela da distribuição dos
homens, de suas atividades e de suas obras como se envolvesse fenô *
menos naturais que não podem ser questionados. Armand Frémont o
destaca:

A região, se é que existe, é um espaçovivido. Vista, percebida,sentida, amada


ou rejeitada, modelada pelos homens e projetando neles imagens que os mode
lam. Éumreflexo. Redescobrir aregião significa, então, procurar captá-la onde
ela existe, vista pelos homens (FRÉMONT, p.58).3

*
*•

2 De1'hommc à Iarégion et de Iarégion à Phommc, les transparences de Ia rationalité sont t


troublées parles inenics des habitudes, lespulsions de1'affectivité, les conditionncmcnts de Iaculmre, les
fantasmes de Pinconsricnt. (FRÉMONT, 1976; citado de acordo com reedição 1999, p. 58).
3 Larégion, si cllc existe, est un espace vécu. Vue, perçuc,ressentic, aimée ou rejetéc, modelée
par les hommes et projetant surcux des images qui les modèlent. Cest un réfléchi. Redécouvrir Ia région,
c'estdonc chercher à Iasaisir là ouelle existe,vuedes hommes. (FRÉMONT, p. 58).

21

42 .
JP
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

Epistemologias paralelas
S

Diante das desilusões que surgem dos dois paradigmas que


compartilham a disciplina, os geógrafos exploram outras vias. Mui
tos não procuram questionar os pressupostos nos quais se baseiam as
problemáticas naturalista e funcionalista. O escopo deles é outro: an
tes analisar os encadeamentos causais em ação em uma ou outra des
sas perspectivas.
É uma boa hora para essa nova avaliação. As relações de
causalidade geralmente invocadas pelo enfoque naturalista e o enfoque
funcional são de tipo linear: é porque os solos são pobres e ácidos que
a cultura do trigo não rende muito, razão pela qual agricultores o
substituíram pelo centeio; é porque dentro dos Estados Unidos, a aces
sibilidade é máxima na zona compreendida entre a costa atlântica e o
vale superior do Mississipi que o Industrial Belt aí se fixou.
Os pesquisadores sabem muito bem que os processos são
freqüentemente mais complexos. A característica dos solos é um indi
cador problemático para o agricultor, mas as plantas que escolhe, a
cultura rotativa que pratica, as técnicas a que sempre recorre, os adu
bos que espalha, modificam as condições pedológicas. Num mercado,
os compradores propõem um preço em vista das quantidades e das
qualidades oferecidas. Em função desse preço, os vendedores modifi
cam suas propostas. Os compradores reagem propondo outra cota
ção. É ao final desse jogo de respostas alternadas que o preço vem a
ser estabelecido: estamos diante de um mecanismo de dupla retroação.
É à análise desse aspecto negligenciado da epistemologia da
geografia que se dedicam todos aqueles que, nos anos 70, se apaixo
naram pela análise sistêmica (AURIAS, 1979; GUERMOND, 1984).
O interesse surgiu, nesse campo, graças ao entusiasmo que se tinha
pela cibernética concebida como estudo dos mecanismos de feed-back,
de retroação, nos anos 50. Nos anos 60, o objetivo se amplia. Em vez
de se limitar a apenas uma cadeia causai em particular, é pelo conjun
to de cadeias causais ativas, num meio, ou numa sociedade, que há
interesse: nascem os enfoques sistêmicos.
Eles atraem ainda mais os pesquisadores pelo fato de serem
válidos tanto no campo natural quanto no campo social (BERTRAND,

22

- -- • - -

•13
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

1969, ROUGERIE; BEROUVACHICHLI, 1991). Quando o sucesso


dos enfoques funcionalistas distancia os geógrafos humanos da geo
grafia física, e a geografia física se restringe a especialidades precisas, o
enfoque sistêmico aparece como a salvação. Evidencia utilmente a
complexidade dos problemas que a geografia costuma analisar. Pro
longa, em uma atmosfera intelectual diferente, as reflexões dc-André
Cholley sobre as combinações em geografia (CHOLLEY, 1951).
,-. •.&•••.• Ê .

Repensando o tema da produção do espaço

O sentimento de insatisfação que os geógrafos sentem em


relação aos dois paradigmas a que aprenderam a recorrer também é
compartilhado por outros especialistas das ciências sociais: quando se
voltam para a geografia à procura de respostas às perguntas colocadas
pelas distribuições que estão estudando, suas perguntas ficam sem res
postas. Mergulham, então, numa reflexão paralela sobre o espaço. É
verdade entre os historiadores - Braudel inventa assim a geohistória
(BRAUDEL, 1995). Também o é entre os economistas. François Perroux
propõe, em 1950, uma reflexão sobre o espaço econômico
(PERROUX, 1950). Ele lhe atribui uma estrutura folheada: o primei
ro nível é constituído pelas realidades físicas, que compõem; segundo
ele, o próprio campo do geógrafo; o segundo trata da sociedade e da
economia, fala das empresas, destaca a existência de redes; o terceiro
é psicológico: os homens se projetam mentalmente no futuro; as em
presas elaboram projetos; a região não é somente uma realidade pre
sente; também existe em estado de região-plano, esse conjunto de vi
sões sobre o futuro que contribuem para moldá-la.
Aidéia de que o espaço tem uma estrutura folheada não tem
nada de original na época. É um dos temas prediletos da perspectiva
funcionalista: para ela, o mundo é estruturado ao mesmo tempo pe
las redes físicas das infra-estruturas, pelas redes das relações econômi
cas e sociais, e pelas redes complexas dos lugares habitados. A inova
ção de Perroux está em introduzir uma dimensão psicológica.

23

• 44 '- •••• ----- ' "-•rc


Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

p A idéia de região-plano torna-se, então, um dos lugares co


muns da economia e do "planejamento"; Henri Lefebvre a adota
(LEFEBVRE, 1974). Para ele, o espaço é uma realidade com três ní
veis: o das realidades materiais (ou naturais), o das realidades sociais
(o espaço ocupado pelos fenômenos sensoriais, inclusive aqueles que
resultam da imaginação constituída por projetos, símbolos e utopias)
/» e o das realidades mentais.
p Henri Lefebvre é marxista. Está acostumado a diferenciar
níveis nos dados da experiência: o da economia, o do social e do
político e da ideologia. Para os defensores da linha ortodoxa que pre
valecia então entre os comunistas franceses, é o econômico que, em
última instância, vence, c "superdetermina" os outros níveis. Estes
apenas merecem ser estudados graças ao lugar que ocupam nos dis-
r- cursos e nas discussões políticas.
Henri Lefebvre rompe simultaneamente com a ortodoxia
marxista e com os pressupostos compartilhados pelas perspectivas
naturalista c funcionalista, concedendo uma função essencial às ins
r tâncias conceptuais: é pelo fato das camadas populares recusarem as
0 condições que lhes são impostas, aspirarem a outras maneiras de viver
0
e lutarem para consegui-las que a realidade acaba se transformado. É
-
nessa ocasião que Lefebvre introduz a idéia do espaço produzido.
De certo modo, essa idéia não é nova. Na perspectiva
0
ambientalista, os meios humanizados apareciam como produtos da
0
evolução; na perspectiva funcionalista, o espaço organizado resultava
0
da história econômica e social. O que Henri Lefebvre diz, é que resulta
0
das representações mentais compartilhadas pelos atores sociais: estes
0
procuram a todo custo transformar seus sonhos em realidade. A op
r
ção de Lefebvre justificaa atenção que dedica aos movimentos sociais.
r
Ela lhe permite romper com a idéia de que o mundo onde vivem os
0
homens é o produto das forças que se impõem a eles como vidas de
0
fora. Sua interpretação é revolucionária, pois abre um espaço, na cons
trução do mundo, aos movimentos de revolta e à força do futuro. Sua
orientação é de esquerda, já que questiona as categorias propostas
• r
pelos defensores da ortodoxia, seja ela marxista, naturalista ou
neoposivista. • ,
í r
A fórmula de Henri Lefebvre é sujeita a contra-sensos. Para
muitos dos seus leitores, não há dúvida quanto ao fato da sociedade
.

p
p
'. r

v* . V •:-...- -••••.- . >;


45 ••• .. 5 ü ". .•-*.? . . ••- •
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

constituir a realidade primordial. A pesquisa deve se desenvolver, em


primeiro lugar, neste nível, evidenciar o jogo das contradições que
nela existem, as tendências que estas produzem e os modos de organi
zação que resultam de tudo isso. As formas sociais anteriormente de
finidas no espaço abstrato dos modos de produção projetam-se no
solo; neste caso, o espaço é, de fato, "produzido" pela sociedade; não
se quer dizer com isso que ele resulta de uma evolução ou de uma
história ao longo da qual a sociedade se transforma e reveste formas
renovadas; afirma-se que o social é anterior ao natural e o gera. A
proposição é absurda. Ela se opõe radicalmente aos pressupostos na
turalistas, porém não é possível para defendê-la. Seu sucesso é tanto
mais paradoxal quanto se deve a pesquisadores que conclamam em
alto som as suas convicções materialistas.
Muitos jovens geógrafos franceses flertam com as teses de
Henri Lefebvre, porém sem conseguir construir, a partir delas, uma
concepção nova do fazer geográfico. As orientações propostas por
Lefebvre têm mais repercussão nos Estados Unidos, onde inspiram em
parte Fredric Jameson e os que lançam a idéia de pós-modernidade
(JAMESON, 1991). Éno contexto mais amplo desses questionamentos
que é preciso se situar para compreender a especificidade do enfoque
cultural na geografia atual.

O enfoque cultural: as condições de emergência

A gênese do novo enfoque cultural se estende por uns vinte


anos, ligada ao aumento da insatisfação dos pesquisadores à procura
de novas perspectivas, à influência de uma corrente filosófica, a
fenomenologia, e ao reforço de atitudes cada vez mais críticas em
relação à ciência em geral e às ciências sociais em particular.

21.

•••••- ;;-.•' •
46
•.-•-• •••• •" ;;* •
p
0
P
Francisco Mendonça e Salete KozeI (Orgs.)
P

0 A redescoberta da experiência e da vivência


0
f
Os geógrafos estão fartos do caráter convencional e sem bri
lho das análises propostas tanto por parte da tradição naturalista
quanto pela corrente funcionalista. Os lugares não são vistos, não são
0 sentidos. As pessoas que os ocupam não têm mais consistência do que
P a das sombras (FRÉMONT, 1976). Estamos prontos a desdenhar os
conselhos de prudência metodológica aos quais nos conduzia a preo
f cupação com a objetividade. O geógrafo é uma testemunha do mun
0 do: quando é convocado a depor, tem o direito e o dever de dizer o
que viu e como o viveu. Isso não prejulga em nada a seriedade e a
P imparcialidade das posições que assumirá depois, mas enaltece o que
P apresenta e garante a autenticidade.
r A geografia restabelece, portanto, as ligações com o indiví
p duo e com uma certa especificidade que é proporcionada por um cer
f to espaço. No mundo anglo-saxão, a curiosidade com os sentidos dos
lugares se afirma no começo dos anos 70. Na França, e após Armand
p Frémond, valoriza-se mais a experiência vivida (FREMOND, 1976).
A fenomenologia então na moda justifica essas visões (DARDEL, 1952;
p RELPH, 1970).
Bastaram alguns anos para que as atitudes mudassem. Os
r
geógrafos redescobrem a preocupação da forma literária e dos meios
p necessários para dividir o que sentem, ou o que os grupos, que obser
r
vam e ouvem, sentiram. Não hesitam mais em falar dos indivíduos,
em contar a vidas deles, em acreditar em seus depoimentos.
A disciplina se libera do peso que a oprimia. Ela fala do
frescor do orvalho, da pureza de certos céus, do cheiro das fogueiras
com lenha ou de estéreo do qual é impossível escapar quando se per
corre a planície do Ganges em dias ensolarados, no inverno. Ela faz
descobrir o encantamento das paisagens da estação fria nos vales do
norte de Hondo, onde as nevascas acontecem em um ambiente tão
r
-
calmo que cada objeto, o selim de uma bicicleta, uma pedra no leito
de uma torrente ficam cobertos de um chapéu branco totalmente re
r
dondo e de aparência surrealista.
t
Os depoimentos relatados são plurifônicos: doravante, as
r
vozes das mulheres, dos jovens, dos idosos, contam tanto quanto as
r ii

26

• •

47
%

Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea


h
dos homens em idade de ganhar o próprio pão. Cada grupo dispõe de
grades específicas para ler o real. Cada um interpreta o mundo segun
do perspectivas que tanto quanto as demais merecem serem conside
radas. As certezas de um mundo que, acreditava-se, se impunha a to
dos da mesma maneira, opõem-se às dúvidas de uma percepção
doravante dividida, impressionista, evanescente às vezes. A complexi
dade à qual os geógrafos são confrontados, surge logo no início, quando
descrevem fatos elementares.
Essa geografia é encantadora, porém é um pouco sentimen
tal. É bom que os que a praticam descubram o mundo com um olhar è
ingênuo e que sejam capazes desurpreenderem-se e de ficarem maravi
lhados; porém será que não devem, a um certo momento, ter atitudes
m
menos ingênuas, mais críticas? É a reação de muitos: temem que a
m
moda do espaço vivido desacredite a geografia.
'm

Os questionamentos da ciência .-'

As atitudes em relação à ciência evoluem rapidamente a par i


tir dos anos 70. As certezas sobre as quais os procedimentos científicos
^
e epistemológicos positivistas repousavam no século XIX ficam aba-
ladas ao começar o século XX, com a elaboração das geometriás nao-
euclidianas, com as teses de Einstein sobre a relatividade e com o prin
cípio de incerteza de Heisenberg. A esse questionamento oriundo da

própria pesquisa, acrescentam-se as dúvidas que nascem do uso que se
faz das descobertas; o progresso científico pode ser a pior coisa se
serve para aperfeiçoar as armas e para tornar os conflitos mais destrui
dores: gases asfixiantes durante a Primeira Guerra mundial, armas
nucleares durante a Segunda.
Nos anos pós-guerra surgem novas preocupações: trata-se
das ameaças que pesam sobre o meio ambiente cuja gravidade até en
tão não tinha sido descoberta. Entretanto, os fundamentos
epistemológicos da ciência não são questionados. No máximo são
*
historiados: a Razão que orienta a pesquisa não é dada definitiva

mente; ela é construída passo a passo, ela se adapra às asperidadcs do

27

48
J
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

real, aos desvios impostos pelas experiências (BACHELARD, 1938).


A passagem dos saberes de todos os dias para o conhecimento científi
co sempre vem marcada por uma ruptura fundamental da qual a re
volução galileana nos fornece o modelo (KOYRE, 1962).
'
As concepções mudam a partir da publicação da obra de
Tomas Kuhn sobre a estrutura das revoluções científicas, em 1962
(KUHN, 1962). Aparentemente, segue os trilhos traçados pelos estu
dos que Koyré tinha dedicado ao nascimento da física moderna siste
matizando a idéiade revolução científica (KOYRE, 1962). Porém não
é uma instância superior, metafísica, se é que podemos dizer assim,
que decide das mudanças de paradigmas: quando os procedimentos
usados normalmente pelos pesquisadores perdem a sua fecundidade,
esses procuram novos modelos. Éa sua virtude prática que decide do
seu sucesso e da recepção que vai receber por parte da comunidade
científica: são instâncias sociais que decidem da verdade. Essa deixa
de depender de uma razão abstrata. Será que não aconteceu a mesma
coisa com os saberes elaborados e utilizados pelas civilizações tradici
onais? A generalização da idéia de revolução científica desvaloriza a
idéia de ciência. A respeito, Feyerabend concluiu: a pesquisa é uma
empreitada que só pode florescer em um ambiente de anarquia e de
questionamento permanente da autoridade (FEYERABEND, 1978).

P
Considerações críticas sobre as ciências sociais

As ciências sociais são atingidas por esses questionamentos


gerais. Também por críticas mais específicas. Algumas retomam temas
já antigos: suponha-se que leis regessem os fatos sociais; não eqüivale
ria a deixar de se importar com a liberdade humana? Será que não
estamos cometendo um grave contra-senso contra a natureza humana
ao pretender estudá-la cientificamente? Esse era um dos temas predi
letos de Nietzsche. Esse tema guia Foucault, que procede a uma crítica
sistemática de todos os saberes construídos pelas ciências sociais nos
três últimos séculos (FOUCAULT, 1966).. Analisa-os mais como dis
cursos sobre a sociedade do que como ciências. De um período a ou-

P
28

"
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

rro, os pontos de vista que elas adotam, a epistemê à qual obedecem,


mudam.
A história das ciências sociais revela uma surpresa: os traba
lhos que os fundamentam não são, a bem dizer, científicos. Propõem,
nas suas primeiras páginas, relatos bastante curtos, que contam como
a sociedade nasceu. Apresentam-se como histórias, porém nada possi
bilita inventá-los. São muito parecidos com os mitos que as socieda
des primitivas utilizavam para dar um sentido ao Cosmos, à natureza
e ao destino dos indivíduos e dos grupos. Encontram-se na origem
das ideologias do mundo moderno: idéia de progresso, fascínio pela
utopia, filosofias da história (CLAVAL, 1980).
Se os textos relativos às ciências sociais são mais regidos pela
lógica dos discursos que pela da pesquisa das provas e da demonstra
ção rigorosa, é preciso tratá-los como tal: os trabalhos de Roland
Barthes ou de Jacques Derrida ensinam a "desconstruí-los", ou seja, a
ler por trás daquilo que dizem, seu conteúdo oculto (BARTHES, 1955;
DERRIDA, 1967).
O desenvolvimento das ciências sociais é contemporâneo da
moda da modernidade. Esta se impõe na literatura e nas artes ao lon
go do século XIX. Ela tem, como se apressa em lembrá-lo a história
da filosofia, raízes mais antigas, que são localizadas muitas vezes pró
ximas a Descartes. Entramos em um mundo "pós-moderno". As pers
pectivas abertas por ele possibilitam a crítica da modernidade. Elas
revelam as colusões que aconteceram entre pesquisadores e interesses
políticos e econômicos: para os críticos mais extremos, as ciências
sociais não tinham outra missão a não ser a de fornecer às instâncias
dominantes das sociedades ocidentais discursos para justificar o do
mínio que os homens exerciam sobre as mulheres, as crianças, as mi
norias, e a que os países industrializados impunham ao resto do mun ;í.i

do. Reclama-se, portanto, o nascimento de epistemologias "pós-colo-


niais" (GREGORY, 1994).
s

ISJ

i
29

50
P
0
0
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)
0
P
p
O enfoque cultural: sua formação sistêmica
P
P
*

P
Há uma geração que a reflexão epistemológica se desenvol
P
ve em um turbilhão de contestações, de questionamentos e de "revo
P
luções", que criam o sentimento de que se trata de um setor em plena
deliqüescência. Os discursos e as práticas tradicionais foram profun
P
p damente afetados pelas ondas de contestação. Um novo modo de con
ceber a geografia aflora então.
p

p
p
No começo: dadosfragmentários e não hierarquizados
p

ir O que autorizavam os autores do passado em falar da "na


tureza", da "economia", da "cultura" ou do "espaço"? O que lhes
permitia afirmar que a natureza era anterior à sociedade, quando a
percepção que temos das mesmas as entende na sua simultaneidade?
A ruptura com as perspectivas antigas se torna fato consumado quan
do James Duncan denuncia, em 1980, a concepção "super-orgânica"
da cultura que era a de Carl Sauer e a da escola de Berkeley (DUNCAN,
1980): não, a cultura não é uma realidade que sedia em um empíreo
inacessível, e que se imporia aos homens por não se sabe qual meca
nismo misterioso. O questionamento da noção central da geografia
cultural valeria também para os que apresentam a "natureza", a "so
ciedade", o "Estado" como entidades superiores que os pesquisadores
r | devem aceitar como dados.
'. Richardson aprende uma primeira lição da crítica de Duncan
(RICHARDSON, 1981): os geógrafos devem trabalhar sobre realida-
p '• íí des mais acessíveis, mais próximas. Entenderão assim a passagem das
f informações de um a outro (MONDANA e SÒDERSTRÕM, 1994).
0 Tomarão consciência da reinterpretação das normas as quais as pesso
0
as se entregam permanentemente. A cultura perderá nisso a sua unida
0 de: doravante, ela aparecerá como uma bagagem própria a cada indi
0
víduo, que aprende a combinar e a interpretar o que lhe foi transmiti-
0
111 do e o que lhe traz a experiência.
r
0
0 . 30
r
... ,....._._-- . . ,. ,^

r
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

'm
A crítica de Duncan e os comentários propostos por
Richardson iluminam o caminho: indicam como substituir reflexões
sobre noções que nada permitem realmente apreender por estudos mais
pontuais, mais modestos, e centralizados nos processos que dão a luz
-i
à cultura (CLAVAL, 1995) - podendo aplicar o procedimento tnutatis
mutandis a outros conceitos e a outras áreas da geografia: sociedade,
natureza, espaço etc.
• -•£•:" &

Itinerários, "timegeography" e "locais'


m
*

É Hâgerstrand quem abre a perspectiva a partir da qual é


possível encarar a reconstrução da geografia como ciência. Ele foi for
temente marcado pelas pesquisas do demógrafo Lotka e entendeu que
não se podia explicar a vida social pretendendo eliminar a sua dimen
são temporal. A pesquisa social trata de conjuntos renovados de indi
víduos. Convém partir deles, de suas trajetórias de vida e de como elas
se inscrevem no espaço (HÂGERSTRAND, 1970).
Anthony Giggens entende quanto o enfoque da time
geography modifica as perspectivas sobre a realidade social (GIGGENS,
1984): a observação se interessa por indivíduos específicos,, acompa-
nha-os nas etapas de suas vidas, toma nota dos seus domicílios;, dos
lugares onde trabalham, daqueles onde fazem as compras e quèfre-
qüentam nas horas de lazer e de descanso; reconstitui os seus desloca
mentos. A vida social se organiza em volta de lugares de encontros, de
ateliês ou de escritórios onde as pessoas colaboram, de bares onde se
observam e se encontram. A freqüência das relações que assim nascem
faz com que os que participam de um mesmo círculo de
intersubjetividade usem as mesmas palavras, com os mesmos matizes e
as mesmas conotações. Eles se entendem por meia palavra. Formam
aquilo que Giddens chama de locale, quer dizer, uma unidade elemen
tar de relações sociais, de cultura, de sentidqs..e fie .lugares comparti
lhados. Entretanto, o locale tem limites mutárítes é hão se confunde
nem com um ponto nem com uma área específica: por isso Giddens
evita falar em lugares e forja o termo de locale.

31

52 • '•*'." •-''- '•"'" """-" • '• •' '


iA Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

j1 A realidade que os geógrafos, como os sociólogos ou os an-


I tropólogos, estudam, é percebida na escala dessas realidades elemen-
i tares. É falada, descrita e vivida ao mesmo tempo por aqueles que a
i animam. As ciências sociais se interessam simultaneamente pelas ati-
i rudes, pelos costumes e pelas práticas das populações pelas quais se
interessam, e como elas são percebidas e alimentam discursos.
A perspectiva cultural implica que se renuncie aos pontos de

t
P
vista totalizadores e às generalizações sem fundamentos sólidos que
proporcionavam. Ela parte do indivíduo e de suas experiências por
que é através delas que os homens descobrem o mundo, a natureza, a
P sociedade, a cultura e o espaço. Indaga também a respeito do real, da
P maneira como é percebido, das palavras que dizem e das imagens que
o traduzem (BERDOULAY, 1988).
f
r,
r!
Uma nova maneira de apreender o social

0
P
A história e a sociologia nos tinham ensinado a fazer das
r
classes e dos sistemas de relações institucionalizados os fundamentos
p
de toda análise social. Nesta perspectiva, os processos que davam a
p coesão ao corpo social eram econômicos - a riqueza está nas mãos de
p grupos que a utilizam para manter o seu domínio - ou políticos - o
exercício do poder, se necessário de forma violenta, completava o jogo
r da economia. Será que não estamos nos arriscando, se colocamos o
r-
indivíduo no centro da análise, a esquecer o jogo das forças sociais,
, econômicas ou políticas? Não, mesmo se não as apreendemos mais da
mesma forma. Com efeito, é a um nível mais elementar que apreende-
P* mos a constituição do social: este se implanta através do jogo das
r"; representações que as pessoas recebem do mundo que as cerca, e que
constituem as grades através das quais percebem o real (BAILLY, 1995;
r*' DEBARDIEUX, 1998). É pela imitação dos gestos e das atitudes e
pelas palavras que aprendemos a utilizar para falar do mundo, que a
sociedade se constrói e que as mais poderosas''formas de influência e :

de condicionamento se introduzem.

*
r 32

P
P - - - -•-,.-••

53
.. :

P
*

#
*
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea
*
*
*
O espaço como teatro: a paisagem, o lugar e o território
*
*

O espaço que os novos enfoques apreendem não é mais con •
cebido como um mosaico de meios naturais ou humanizados; ele não

aparece mais como o suporte folheado e organizado das atividades «*
humanas. Constitui um teatro onde as pessoas se oferecem um espetá <•>

culo. E necessário aí um palco, ou palcos, onde os atores possam atu ^


ar, uma platéia e camarotes para aqueles a quem o drama, a comédia, *
ou a tragédia interessam, bastidores para proteção dos olhares indis
*
cretos, e corredores que levem aos assentos, ou que vão do palco aos
«
bastidores, e vice versa.
*
Dizer que o espaço dos novos enfoques constitui um palco é
+
dizer que existe uma relação estreita entre a intriga apresentada e o
+
cenário onde acontece. O geógrafo se interessa pela paisagem
+
-

(BERQUE, 1996; ROGER, 1995). Não a explora mais em uma pers


*
pectiva funcional ou histórica, como o fazia antes. Ele a vê como um
*
elemento essencial da vida dos indivíduos e dos grupos. É sensível às
#
conivências que se estabelecem entre as formas materiais, ou vivas, os
*
conjuntos construídos e os que freqüentam os lugares (SAUTTER,

1979).
O palco deve o seu caráter aos atores que nele se encontram, *

à peça que interpretam e ao cenário em que acontece. O conjunto t


possui uma certa unidade: é o que faz dele um lugar (ENTRICKIN, *

1991). Quando um lugar toma a forma de um tecido de lugares car *


regados de sentido para todo uma população, ele se torna território +
(BONNEMAISON, 1997 e 1998). +
O espaço transformado em território oferece aos grupos uma *
1
base e uma estabilidade que eles não teriam sem isso. Faz nascer um *
sentimento de segurança. As paisagens que o caracterizam, os monu p *
mentos que nele se encontram tornam sensível a história coletiva e *

reforçam a sua força. O território constitui um dos componentes es •

+
senciais das identidades. •

+
m>

^

;
%
I ~!
'

33
1 •%

H
1

i
f Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

Lugares, encontros e horizontes de expectativas

O espaço onde se movimentam os indivíduos lhes oferece


ocasiões de encontros e de experiências renovadas. Em vez de ficarem
trancados em ambientes cujas instituições sociais garantem a conti
nuidade, descobrem novos horizontes. Eis que estamos ao lado de
estrangeiros que têm uma formação similar à nossa, exercem uma
profissão que pouco difere da que praticamos aqui, mas que têm salá
rios mais elevados, férias mais longas, um acesso mais fácil a todos os
níveis de educação para seus filhos, e uma melhor qualidade do aten
dimento médico do que daqueles que usufruímos. Ninguém se atrevia
a sonhar com tais possibilidades. Agora que os encontros acontece
ram, cada um diz para si mesmo: "porque não eu?"
Os lugares freqüentados abrem, portanto, perspectivas no
vas para novos futuros para todos. Nas situações multiculturais, ima
gina-se muitas vezes as pessoas apegadas às suas convicções, agarradas
às normas que lhes foram ensinadas e, sobretudo, preocupadas em
proteger suas identidades. Essas reações existem e explicam o aumen
to das tensões em muitas situações em que os grupos são levados a
coabitar. Porém, o que esquecemos é a transformação dos horizontes
de expectativas que resulta do contato com os demais: as trajetórias
seguidas pelos membros do grupo a qual pertencemos não são sempre
aquelas que permitem viver melhor, tirar o melhor proveito de suas
aptidões e dar todas as suas chances para seus filhos. Os sinais exteri
T
ores de pertença a tal ou tal etnia subsistem - eles são até mesmo
muitas vezes reforçados. Ao mesmo tempo, e segundo as informações
-

1
recebidas de fora e os contatos diretos, as atitudes mudam; o que
esperamos da existência se modifica.
Os fluxos de notícias que nos chegam de outras partes e os
:í;
encontros com o exterior, entretanto, modificam profundamente os
/•

^
comportamentos. É assim que a modernização das sociedades aconte
* • • ce, a despeito das normas impostas pelas suas culturas, e graças às
perspectivas descobertas pelas massas, rienri Lefebvre estava certo ao
-

» 1 '

T •

«•
salientar o quanto o jogo dessas projeções multiplicadas numa escala
de sociedades inteiras podia pesar sobre o futuro das mesmas.
- '

«» 1
'•» ':
**•

"•"
Ml1

*•
t
í •

34

c
^,...
55

*
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Conclusão

Existem várias maneiras de conceber a geografia. A


epistemologia se interessa simultaneamente pelas grandes questões que
os pesquisadores tentam resolver, e pelos meios que os mesmos usam
para consegui-lo. Aqui tratamos do primeiro aspecto.
Pareceu-nos possível resgatar três problemáticas maiores: a
perspectiva naturalista estuda a inserção dos grupos humanos no meio"
ambiente; o ponto de vista funcionalista estuda como os mesmos con
seguem se estruturar organizando o espaço para vencer o obstáculo da
distância. O enfoque cultural se recusa a considerar a natureza, a soci
edade, a cultura, o espaço como realidades prontas, dados que se im
poriam aos homens como do exterior. Julga que o mundo é mais
complexo. Para mostrá-lo, parte dos indivíduos e se debruça nas suas
experiências. O que lhe importa é compreender o sentido que as pes
soas dão à sua existência.
Tamanha mudança de perspectiva sacudiu o todo o arcabouço
científico tradicional. A moda da desconstrução e das epistemologias
pós-colonialistas tende a reduzir o conhecimento científico a um dis
curso às ordens dos interesses dominantes. Nem todo mundo compar
tilha o ceticismo e o pessimismo que traduzem essas concepções. A
construção de um novo modo de conceber a geografia está no cami
nho certo - esperamos tê-lo demonstrado.
Geralmente costuma-se, sob a influência de Thomas Kuhn,
conceber a história das ciências como uma sucessão de fases normais e
de revoluções. Essas propõem paradigmas que substituem os que pre
valeciam até então, mostravam-se incapazes de dar conta de um nú
mero crescente de fatos.
O que a evolução do pensamento geográfico propõe é dife
rente: a constituição de uma série de pontos de vista diferentes, mas
que não se excluem totalmente. Não é porque nos interessamos pelas
reações individuais das pessoas que a inserção dos grupos humanos
no meio ambiente deixou de ser um problema pertinente, ou que os
efeitos do congestionamento, nas áreas de alta densidade que analisa
vam os enfoques funcionais, desapareceram.

XL

.•-'•'." "SP' •"-"


58 •
:

56
Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

Nota complementar

Introdução
Que epistemologia para enfrentar um inundo globalizado?

Aglobalização: novos desafios para ageografia

A situação da geografia no mundo atual é paradoxal. As


evoluções atuais explicam a atenção redobrada que damos aos pro
blemas tratados por nossa disciplina: 1. o papel do espaço é mais
evidente que no passado devido à globalização; 2. todas as ciências
sociais se concientizaram do sentido do espaço na vida dos grupos
humanos - o que corresponde a um fenômeno novo/novidade.
Ao mesmo tempo, os geógrafos se questionam quanto à iden
tidade e às finalidades de sua disciplina. Sentem que esta não é conce
bida de modo satisfatório; esta é a razão pela qual eles se interessam .
pelos problemas epistemológicos.
No passado, os homens se viam confrontados a dois proble
mas geográficos essenciais: 1. o meio ambiente parecia geralmente
(como) avaro demais para satisfazer as necessidades dos grupos hu
manos - o que explicava a importância dada às relações entre os ho
mens e o meio ambiente; 2. o espaço aparecia como um obstáculo às
relações entre os indivíduos e entre os grupos humanos. A distância
era sempre um fator essencial da explicação geográfica.
O progresso técnico modificou muito profundamente essas
condições nos últimos cinqüenta anos. 1. Graças à diminuição dos
custos de transporte, tornou-se possível mobilizar formas de energia
concentradas em qualquer parte do globo, o que provocou um cresci
mento fenomenal da produtividade da natureza. Localmente, essa
deixa de parecer tão avara quanto antes. Se os recursos locais não
bastam para satisfazer a demanda, sempre é possível importar o que
falta de outros lugares. 2. O progresso técnico tem outras conseqüên
cias. A distancia não aparece mais como um obstáculo tão grande

38
t

Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

quanto no passado devido às revoluções do transporte veloz e das


telecomunicações. 1%
Desse modo, os dois problemas maiores dos geógrafos do
passado, a avareza da natureza local e a distancia como obstáculo
maior à mobilidade, desapareceram. Para muitos pesquisadores em
outras ciências, a compressão contemporânea do espaço significa que
a geografia perdeu uma parte importante do seu papel". Para os
geógrafos, a evolução técnica contemporânea tem um significado di
ferente: 1. A avareza da natureza aparece cada vez menos como um
problema local, porém os limites impostos pelos meios à ação huma
na não deixaram de existir; mudaram de caráter, manifestam-se mais
pela multiplicação das poluições do que pela impossibilidade de pro
duzir aquilo que precisamos; mudaram também de dimensão, o equi
líbrio global do planeta está ameaçado pelo efeito estufa, o buraco de ,-!•
ozônio etc; 2. a maior facilidade da vida de relações não leva a uma ^
uniformização geral da Terra; a função dos lugares e a dos sentimen- :&
tos de enraizamento é maior que no passado. •'.
Para explicar essas evoluções, é indispensável desenvolver uma
reflexão sobre a epistemologia de nossa disciplina.

As grandes famílias epistemológicas da geografia -í ÇH


.- .-:'?
•ti
:-
-r?

Amodernização dos enfoques tradicionais e os problemas oriundos 'da


globalização

I
Os enfoques naturalistas efuncionalistas conheceram durante
os últimos trinta anos uma modernização inegável, o que os tornou
mais aptos a tratar das realidades do mundo atual. Graças às perspec
tivas sistêmicas, pode-se compreender as evoluções complexas que
conduziram à extensão das áreas vítimas de poluições, do
desregulamento dos mecanismos que regiam os equilíbrios naturais
no planeta - efeito estufa, buraco do ozônio etc.

39
!
. . .... ... .~-"~rr". » —*• 6Q. ........... . • ---..-•:«.,-;« ..v-
P
Francisco Mendonça c Salete Kozel (Orgs.)
P

No que diz respeito aos humanos, considerar as novas


tecnologias de transporte veloz e de telecomunicação ajuda a entender
as transformações das redes urbanas e a função crescente das cidades
muitos grandes - a teoria da metropolização, que se baseia nosenfoques
funcionalistas dos anos 60 e é suficiente para explicar a emergência
das cidades globais e a manutenção da concentração de algumas fun
ções em alguns grandes centros (urbanos).
O que as epistemologias naturalistas e funcionalistas não esr
clarecem, mesmo na sua versão modernizada, é o aumento dos senti
mentos de identidade, dos fundamentalismos, o progresso das seitas
ou a nova preocupação com a preservação do patrimônio que pode
mos observar no mundo atual. Os novos caminhos tomados pela re
flexão epistemológica fornecem ferramentas para tratar desses proble
mas.

m
p
Conclusão
f
P
P O aprofundamento contemporâneo das reflexões sobre a
epistemologia da geografia e a aparição de um paradigma cultural se
P explicam pela dinâmica recente do pensamento crítico. Não refletem
P diretamente os processos e os problemas da globalização. Os
P paradigmas mais antigos, e agora modernizados, permitem entender
boa parte dos problemas do mundo atual.
p O enfoque cultural parece, em compensação, fundamental
ÍP para entender a ressurreição dos lugares, as transformações dos terri-
\ tórios e os problemas de identidades nas sociedades multiculturais de
um mundo globalizado.
f

P
P
0 /

40 «'-
0

Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

Referências

AMADEO, D.; GOLLEDGE, R. Introduction to scietitific reasoning in geography. New


York: John Wilcy, 1975.
1
i
AURIAC, F. Système économiqtte et espace: un exemple cn Langucdoc. Montpellier:
Thèse-MontpcIlier-III, 1979.
BACHELARD, G. La formation de Vcsprit scientifique. Paris: PUF, 1938.
BAILLY, A. Les représentations cn géographie. In: BAILLY, A.; FERRAS, R.; PUMAIN, D.
(Dir.). Encyclopêdic de Ia Géographie. 1995.
BAILLY, A. (Dir.). Les concepts de Ia géographie. Paris: A. Colin, 1998.
BAILLY, A.; FERRAS, R. Eléments d'épistémoiogie de Ia géographie. Paris: A. Colin, 1997. *
BAILLY, A.; FERRAS, R.; PUMAIN, D. (Dir.). Encyclopêdic de Ia géographie. Paris:
Econômica, 1995. p. 369-381.
BARTHES, R. Mythologies. Paris: Seuil, 1955.
BERDOULAY, V. Des mots et des lieux: Ia dynamiquc du discours géographique. Paris:
CNRS, 1988. «I

BERQUE, A. Les raisons du paysage: de Ia Chine antique aux environnemcnts de synthesc. 0


Paris: Hazan, 1996.

, Ecoumène. Paris: Belin, 2000.


BERTALLANFFY, L. General systems theory. New York: Brazillcr, 1968.
BERTRAND, G. Paysagc et géographie physiquc giobalc. Revue Géographique des Pyrénées
et du Sud-Ouest, p. 249-272. 1968.
BONNEMAISON, J. Les fondements culturels d'une identité: 1'archipel du Vanuatu. Pa
ris: Orstom, 1996-1997. 2 v.
BRAUDEL, F. Géohistoire: Ia société, 1'espacc et le tcmps. In: Les ecrits de Fernand
Braudel. Paris: Plon, 1995.
BUNGE, W. Theoretical geography. Lund: Glcerup, 1962.
CHOLLEY, A- La géographie (guide de 1'étudiant). Paris: PUF, 1951. ;•>
, •.
.-i
, •.
..i

CLAVAL, P. Géographie génêrale des marches. Paris: Les Bellcs Lcrtres, 1964. • •i

. Les mythes fondateurs des sciences sociales. Paris: PUF, 1980.


. Géographie humahie et économique contemporaine. Paris: PUF, 1984.
_. Uépistémologie deIa géographie. In: DESPLANQUES, P. (Dir.). Profession enseignant:
Ia géographie cn collcgc et au lycée. Paris: Hachettc, 1994. p. 24-57.
. La géographie culturelle. Paris: Nathan, 1995.

41

. •
" - 62
p

p Francisco Mendonça e Salete Kozel (Orgs.)

CLAVAL, P. Epistêmologie de Ia géographie. Paris: Nathan, 2001.


p
r
DARDEL, E. Uhomme et Ia terre. Paris: PUF, 1952.
r DEBARBIEU1X, B. Les problématiqucs de 1'image et de Ia représentation en géographie.
p In: BAILLY, A. (Dir.). Les concepts de Ia géographie. Paris: A. Colin, 1998. p. 199-211.
r DERRIDA, J. üecriture et Ia différance. Paris: Scuil, 1967.
r DUNCAN, J. The supcrorganic in American cultural geography. Annals ofthe Association
r of American Geographers, 1980, v. 70, p. 181-198.
p ELIADE, M. Le sacré et le profane. Paris: Gallimard, 1965.
p ENTRIKIN, N. The betwecmiess of place. Londres: Macmillan, 1991.
r
FEYERABEND, P. Science in a free society. Londres: NLB, 1978.
p
FOUCAULT, M. Les tnots et les choses. Paris: Gallimard, 1966.

r . Uarchéologie du savoir. Paris: Gallimard, 1969.


r FRÉMONT, A. La région, espace vécu. Paris: PUF; rééd. Champs-Flammarion, 1999.
r GALE, S.; OLSSON, G. (Dir.). Philosophy in geography. Dordrecht: Reidel, 1979.
<~
GIDDENS, A- La constitution de Ia société, Paris: PUF, 1987.
GODLEWSKA, A. Geography unbound: French géographie science from Cassini to
r
Humboldt. Chicago: Chicago University Press, 1999.
GOTTiMANN, J. La politique des etats et leur géographie. Paris: A. Colin, 1952.
GREGORY, D. Geographica! imagination. Londres: Blaclcwell, 1994.
GUERMOND, Y. (Dir.). Analyse de système en géographie. Lyon: Presses Universitaires de
Lyon, 1984.
p HÀGERSTRAND, T. What about people in regional science. Papers ofthe Regional Science
Association, 1970, v. 24. p. 7-21.
p
p HARVEY, D. Explanation in geography. Londres: Arnold, 1969.
r JAMESON, F. Posttnodernism, or the cultural logic of late capitalism. Londres: Verso,
1991.

r "KOYRE, A. Du monde closà 1'univérsinfini. ParísVPUF, 1962.


KUHN, T.The strueture ofscientific revolutions. Chicago: Chicago University Press, 1962.
p
LEFEBVRE, H. La produetion de Vespace. Paris: Anthropos, 1974.
p
MONDADA, L.; SODERSTOM, O. Lorsque les objets sont instables: des espaces urbains
p
en composition. Géographie et Cultures, v. 3, n. l^p. 87-108. 1994.
PERROUX, F. Les espaces économiques. Economie appliquée, v. 3, p. 225-233. 1950.
0
P RELPH, E. An enquiry into therelations betwecn phenomenology andgeography. Canadian
Geographer, v. 14, p. 193-201. 1970.
P

r 42

, .--
êã
Elementos de Epistemologia da Geografia Contemporânea

RICHARDSON, M. On the supcrorganic in American cultural geography: commentary on


Duncan*s paper. Annals of the Association of American Geographers, v. 71, p. 284-287.
1981.

ROGER, A. La théorie du paysage en France (1974-1994). Seyssel: Champ Vallon, 1995.


ROUGERIE, G.; BEROUTCHAVCHICHLI, N. Géosystèmes et paysage: Bilan et
métbodes. Paris: A. Colin, 1991. ••.-
y . -4
SAUTTER, G. Le paysage commc connivence. Hérodote, n. 16, p. 40-67. 1979. /
•%'.
STASZAK, J. F. La géographie. In: BERTHELOT, J. M. (Dir.). Epistémologie des sciences
sociales. Paris: PUF, 2000.
SUESS, E. La face de Ia Terre. Paris: A. Colin, 1908-1918. 4 v.

!*
^

4

. . •

r
43


p TEXTO 3

p
Marcelo Lopes de Souza
r

Os conceitos fundamentais
da pesquisa sócio-espacia!
r

*
r Apresentação
r
Socioespacial, sócio-espacial...
r
(Ou: sobre os propósitos e o espírito deste livro)

r
p
P
Cip-Brasil. Catalogação na fonte
p Sindicato Nacional dos Editores de Livros - RJ

S713c Souza, Marcelo Lopes de, 1963-


p
Os conceitos Fundamentais, da pesquisa sócio-espacial/
Marcelo Lopes de Souza. —2013. 1 ed. —Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 2013.
0" 320 p.: 23 cm.
0
Inclui bibliografia
P
ISBN 978-85-286-1732-0
P
1.Geografia urbana.2.Geografia humana. 3.Urbanização.
P
I. Título.
P
~
CDD: 307.76
P 13-03240 CDU: 316.334 .

P
P
r

0
* 65
Apresentação
Socioespaeial, sócio-espacial...
(Ou: sobre os propósitos e o espírito deste livro)

Oque são os nossos conceitos, e para que eles servem? Tentarei res
ponder a essa pergunta com a ajuda de duas metáforas. Se pen
sarmos que, para elucidar a realidade, precisamos erguer "edifícios" que
nos permitam enxergar mais e melhor, podemos entender os conceitos
como os "tijolos"; a teoria como sendo os "tijolos" com "argamassa",
já assentados, formando um todo coerente; e o método como sendo a
maneira de "assentar os tijolos", "levantar as paredes" etc, sem agredir
a realidade (sem ignorar a "topografia", sem enfeiar a "paisagem'', sem
deixar de aproveitar os "materiais" disponíveis mais apropriados...). á
É claro que não nos valemos de tantos conceitos, em uma pesquisa
empírica (mas teoricamente lastreada...) ou reflexão essencialmente teó
rica (mas devidamente informada pela pesquisa empírica...), quantos são
os tijolos deum edifício. Apesar disso, talvez ametáfora ajude a perceber o
papel dos conceitos como unidades explicativas fundamentais, ao mesmo tempo
constitutivas de qualquer construção teórica (e üriprescindíveis a toda
pesquisa empírica que vá além do empirismo mais chão e descarnado)
e nutridas pelas abordagens teóricas, as quais lhes garantem coerência.

OS CONCEITOS FUNDAMENTAIS DA PESQUISA SÓCIO-ESPACIAL

66
P"
p
0
p
p
É importante, adicionalmente, ressaltar que os nossos "tijolos"
podem ter, cada um deles, um nome, mas eles e seus nomes são duas
coisas diferentes. Uma coisa é o termo técnico que, por assim dizer, reveste
o conceito; outra é o conceito em si mesmo, ou seja, o núcleo de signi
ficado que constitui a unidade explicativa fundamental em questão. Não
P*
é ocioso lembrar isso, pois tem sido comum, em nossa época, a proli-
'•

feração de palavras, mais do que, propriamente, de conceitos. Por um


lado, isso reflete, sem dúvida, as angústias e as perplexidades de nosso
tempo; por outro lado, contudo, reflete, igualmente, a sua superficia-
lidade. Ou seja: a forma "avança" para além do conteúdo, com prati
camente cada autor querendo deixar uma marca pessoal. O ideal seria
.deixar essa marca (projeto inteiramente legítimo, é óbvio) por meio de
novas e profundas (re)interpretações, renovados esforços de elucidação,

P novas sínteses de fôlego, e assim sucessivamente. Porém, na falta disso,


muitos se contentam, na nossa época de inflação terminológica, com
r
acrescentar uma ou outra palavrinha ou expressão vistosa, redefinir um
pouco o significado de algum termo preexistente ou inventar algo "sur
P
preendente" (quanto mais inusitado, melhor). O resultado, para os estu-
dantes e mesmo para os pesquisadores já experimentados, é um cipoal
P de palavras (e, em parte, também de conceitos ou embriões conceituais)
r
0
cada vez mais emaranhado. Não são poucos os que se confundem, inclu
sive imaginando, ou sendo induzidos a imaginar, que o conceito "x"
é mais importante que todos os outros, ou que o conceito "y" saiu de
P
^ moda, e coisas que tais.
t:•
Vou mudar a metáfora (aprecio muito as metáforas, pelo menos
em livros de divulgação científica ou para estudantes de graduação, por
0> '•
mais perigosas que sejam as analogias: o seu valor didático pesa mais
r
p
10 l MARCELO LOPES DE SOUZA

p
r
p 67
p
r

que o risco de comparações que, se não formos cuidadosos, podem soar


esdrúxulas ou induzir a associações indevidas). Imaginemos, agora, os
conceitos como "ferramentas". Uma ferramenta, obviamente, só nos
será útil se soubermos usá-la, se tivermos um mínimo de treinamento
e familiaridade com ela. A melhor ferramenta de carpintaria será inútil
nas mãos de alguém que nada entenda do ofício. Da mesma maneira que
unia ferramenta precisa ser testada ou, pelo menos, se tornar familiar
a quem vai utilizá-la, uma idéia vaga e ainda não refletida consciente e
sistematicamente deveria ser antes considerada uma noção que um conceito.
O limite entre noções e conceitos pode ser, na prática, muitas vezes difícil
de estabelecer com total segurança e sem arrogância, mas nem por isso a
distinção, em si, é desimportante.
Se os conceitos são as nossas "ferramentas", precisamos, para o
complexo trabalho da pesquisa sócio-espacial, nos valer de toda a nossa
"caixa de ferramentas" (e, não raro, criar ferramentas novas, de tempos *
*
em tempos, mas com sobriedade e de acordo còfn reais necessidades);
^
não faz sentido se fixar em uma única. Exagerar o papel de uma "fer
ramenta" conceituai seria como ignorar o martelo e o serrote e achar
que, com uma chave inglesa, posso martelar pregos (coisa que, desajei ^

~
tadamente, ainda vai) ou serrar madeira (o que, efetivamente, não dá).
^
Privilegiar um determinado conceito, aprioristicamente e à revelia das
circunstâncias concretas, em detrimento dos demais, me parece algo tão
A
bizarro quanto um artesão que, independentemente do trabalho alme V

jado e do material, insiste em só trabalhar com uma única ferramenta.


Deve ficar claro que, na pesquisa, isso tende a produzir interpretações
que são autênticos aleijões analíticos. Por certo que dominar os prin
cípios de cada "ferramenta" conceituai e saber combinar inteligen-
temente as várias "ferramentas" não será, ainda, garantia de sucesso
na pesquisa. Mas, sem isso, o fracasso estará pré-programado.

OS CONCEITOS FUNDAMENTAIS DA PESQUISA SÒCIO-ESPACIAL | 1 1

' "

... _ .....6*.. „ - *
r

O presente livro é dedicado, em primeiro lugar, aos geógrafos de


formação (estudantes de graduação, principalmente), mas não só a eles.
A pesquisa sócio-espacial tem se beneficiado, há muitas décadas (em
parte, até há muito mais tempo do que isso), dos aportes de sociólogos
(especialmente urbanos), economistas regionais (e especialistas em
teorias locacionais), e assim segue ~rr sem esquecer dos insights e da ins
piração direta ou indireta fornecida por vários filósofos e, também, por
Sarquitetos (-urbanistas). Desejo, por isso, que os estudantes e estudiosos
j de Sociologia, Arquitetura etc. também possam ver alguma utilidade nas
1páginas que seguem. Do meu ponto de vista, a pesquisa sócio-espacial
r i engloba os esforços de investigação científica, filosoficamente embasada
r
e informada, em que as relações sociais e o espaço são, ambos, devida-
p
mente valorizados e articulados entre si com densidade no decorrer da
r construção do objeto e da própria pesquisa. E é uma questão de bom
P
senso, mais até do que um dever de justiça, reconhecer que vários pro-
fissionais, com formações as mais diversas, além dos geógrafos, têm
colaborado decisivamente para esse tipo de pesquisa há gerações. Em se
tratando da pesquisa sócio-espacial em sentido forte, que poderíamos
assim definir como um campo interdisáplinar — se bem que, indo além
disso, alguns se esforçam para conferir à matéria os contornos ousados
de um empreendimento transdiscipliiiür ou adisciplinar... —, a divisão do tra
balho acadêmico, com seus "muros" e suas "cercas", se faz, infelizmente,
também presente; porém, felizmente, tais "muros" e "cercas" são mais
costumeiramente ultrapassados e transgredidos que em outros casos.
P
Há uma dose de arbitrariedade e subjetividade neste livro; não apenas
r
no tratamento dado aos conceitos, mas na própria escolha deles. Outro
autor selecionaria, talvez, ao menos em parte, outros conceitos. Creio,
no entanto, abarcar a maior parte daqueles atualmente mais relevantes,
P

1 2 | MARCELO LOPES DE SOUZA

6,
#
*
*
*

no sentido de mais usados e debatidos ou, no meu entendimento pessoal, •


no sentido de mais úteis. A bem da verdade, há aqui três grandes tipos
de conceitos: há aqueles que, talvez indiscutivelmente para a maioria dos
pesquisadores, são imprescindíveis, ainda que a maneira de lidar com eles
possa variar (caso da maioria dos conceitos apresentados nos capítulos
1 a 8); há, também, aqueles conceitos que, embora já estabelecidos e con
sideradosimprescindíveis por muitos pesquisadores, nãosão correntes ou
aceitos por outros tantos (caso da idéia de "produção do espaço"), ou, então,
não são conhecidos pelo termo técnico aqui empregado (como ocorre
com o substrato espacial material), ou estão sendo resgatados do esquecimento
ou quase esquecimento (setor geográfico), ou, em certos casos, ainda não se
consolidaram suficientemente, pelo menos no Brasil ("construção social àa
escala" e "política de escalas"); por fim, há aqueles conceitos que, sem dúvida,
não são de modo algum usuais': os "termos nativos", por se referirem, no
fundo, a noções extraídas do senso comum, e cujo tratamento con
ceituai ainda é, via de regra, embrionário e pouco conhecido, e o con
ceito de desenvolvimento sócio-espacial, por consistir em uma. contribuição
pessoal minha e ainda pouco disseminada. No fundo, está claro que a
qualificação dos conceitos aqui contidos como "fundamentais" tem a ver,
em parte, com certas tradições de uso pelos pesquisadores, mas, acima
de tudo e em ultima análise, com aquilo que eu mesmo considero como
básico.

O presente livro pretende ser uma simples introdução. Entretanto,


por incrível que possa parecer, mesmo conceitos básicos não estão isentos
de controvérsias. (Bem, quem porventura .tiver uma razoável familiari-
dade com as ciências sociais não achará assim tão incrível...) Muitos,
praticamente todos, são objeto de interpretações concorrentes. Seria,
portanto, desonesto apresentar este livro como se fosse uma expressão

OS CONCEITOS FUNDAMENTAIS DA PESQUISA SÓCIO-ESPACIAL | 13


r
r •

#
íl
de conhecimentos já consensuais. Conforme se viu no parágrafo anterior,
alguns conceitos podem ser vistos como muito mais básicos do que
P
outros, de acordo com o leitor, e alguns leitores podem veementemente
discordar da inclusão desse ou daquele conceito ha lista dos "funda
mentais". Por dever de honestidade, busquei, por outro lado e de todo
modo, oferecer mais de uma visão sobre um mesmo conceito, sempre
que isso me pareceu imprescindível; e procurei, também, alertar sobre
os aspectos particularmente polêmicos envolvendo tal ou qual conceito. •• •

Seja lá como for, é importante deixar claro que, por trás da concepção

*
do livro, da seleção dos conceitos e do tratamento conferido a cada um
deles, há muito, muito mesmo de minha visão pessoal. Isso, que é um s\
fato do primeiro ao último capítulo, ê particularmente evidente no caso
r
do último, por se tratar de um conceito de minha própria lavra.
Os nossos conceitos são, em todo caso, carregados de historici-
dade. Do "meio (telúrico)", um dos conceitos centrais na obra do geógrafo
anarquista Élisée Reclus (1830-1905), ao "espaço social" dos nossos dias,
bastante influenciado pelo pensamento do filósofo neomarxista Henri
Lefebvre. (1901-1991), não se pode esquecer que os conceitos que
empregamos são fruto de uma época e das condições internas e externas
i
ao debate científico e intelectual próprias de cada época, mesmo quando
•' !
as pahvias (termos técnicos), em vários casos, sobrevivem às redefi
nições e mudanças de conteúdo. Não é lícito ou justo projetar no passado
P i !

0
as expectativas e as convicções (ou ilusões...) do presente. No presente . i

livro, procurei ter em mente, o tempo todo, esse preceito. Daqui a meio
e século, não somente o conteúdo de muitos (ou todos os) conceitos aqui
' i
expostos poderá ter mudado um pouco (ou bastante), mas um ou outro
deles poderá até mesmo ter sido desprestigiado ou desbancado por novos
conceitos, expressos por novos termos técnicos.
P

14 | MARCELO LOPES DE SOUZA

P
A diferença entre socioespacial e sócio-espacial, distinção sobre a qual
tenho insistido há muitos anos (cf, p. ex., SOUZA, 2006a: 111), é um
caso particularmente interessante de historicidade conceituai, .e convém
esclarecer desde já essa diferença de grafia. •
Como se verá logo no Capítulo 1., o conceito de "espaço social' , con
cernente áo espaço produzido pela sociedade, afirmou-se como um dos
. mais relevantes, para os geógrafos da atualidade. Muito embora o "espaço *
*
social" não deva ser simplesmente reduzido à materialidade (como mos
trarei paulatinamente e com a ajuda de exemplos), ele também é, obvia
mente, e de partida, materialidade: um campo de cultivo e um estádio
de futebol são realidades que exemplificam o espaço social, inclusive em
seu sentido material. Se eu quero me referir ao espaço de um estádio de
futebol, com as marcações do campo, com as suas arquibancadas etc, eu
posso falar da sua estrutura socioespacial, sem hífen: aqui, o "social" mera
mente qualifica o espacial. Eu não estou fazendo referência direta às re-
lações sociaisque produziram o estádio, ou àquelas que o animam durante > ,%
uma partida (as tensões e os confrontos entre torcidas, o jogo em si e os
interesses econômicos e políticos eventualmente por trás dele...).
*
Entretanto, limites disciplinares são, cada vez mais, transgredidos.
Felizmente. Imaginem se aos geógrafos de formação só coubesse a aná
lise das estruturas socioespaciais, para descrevê-las e, quando muito, para
^
refletir sobre como, uma vez criadas, elas balizam as clinâmicas que irão
*
ali ter lugar: seria, para dizer o mínimo, frustrante, ao menos com os
^
olhos de hoje. Houve época em que definições estreitas e preocupações
corporativistas com a "geograficidade" (ou seja, com o conteúdo e o
sentido geográfico ou espacial de um fenômeno ou objeto de estudo)

OS CONCEITOS FUNDAMENTAIS DA PESQUISA SÓCIO-ESPACIAL l 1 5

72

p

p
p
levavam a que se interditasse o estudo das relações sociais (em suas
várias dimensões; econômica, política e cultural) para além de um certo
"limite", mais ou menos arbitrário. Ou seja: o estudo das dinâmicas que
criam os espaços, as fronteiras etc. era relegado à seara de outros "espe:
cialistas" (sociólogos, economistas etc). O curioso é que, nas últimas
décadas, muitos desses "especialistas" passaram a se interessar, cada vez
mais, pelas questões espaciais. Os geógrafos de formação, outrora tão
vorazes em matéria de interesse, e tão megalomaníacos com suas pre
tensões exclusivistas de síntese, corriam o risco de se apequenar, de se
tornar irrelevantes. Mas souberam, muitas vezes, não se deixar controlar
r por vises disciplinares. (Às vezes, aprenderam tão bem que, ironica
p
mente, quase que negligenciaram õ próprio raciocínio espacial, ou a
"imaginação geográfica", para usar uma expressão que David Harvey
cunhou, inspirado na "imaginação sociológica" à qual se referira Wright
Mills...)
Para se compreender e elucidar o espaço, não basta compreender e
elucidar o espaço. Épreciso interessar-se, profundamente, e hão somente
epidermicamente, também pelas relações sociais. É necessário interes
sar-se pela sociedade concreta, em que relações sociais e espaço são inse
paráveis, mesmo que não se confundam. E é aqui que entra em cena o
sócio-espacial, no qual o "sócio", longe de apenas qualificar o "espacial", é,
P
0
para além de uma redução do adjetivo "social", um indicativo de que se
está falando, direta e plenamente, também das relações sociais. Uma aná
r
lise sócio-espacial de uma partida de futebol considerará, portanto, não
apenas a estrutura socioespacial, mas examinará, como processos vivos, e
sem "timidez epistemológica", as interações que se desenrolam durante
a partida, nos marcos de uma espacialidade determinada e referenciadas
(e relativamente condicionadas) por ela.-

t 16 | MARCELO LOPES DE SOUZA


r
P
0
73

P
Sócio-cspaciaí não consta dós dicionários. A rigor, socioespacial também
não: são, ambos, termos técnicos que não foram, ainda, incorporados
em um vocabulário mais amplo. Porém, em analogia com termos já
dicionarizadqs, como "socioeconômico" e "sodopolítico", revisores de
português têm insistido em que somente a versão sem hífen seria "cor
reta". Teimam em desprezar, com .isso, aquilo que o grande gramático
Celso Luft qualificou, em seu famoso Grande manual de Gramática Globo, de
"hifenização subjetiva, estilística, alheia a meras prescrições ortográ
ficas", recurso usado, e com boas razões, por muitos escritores. Os pes
quisadores anglo-saxônicos e alemães não sofrem com esse problema
nas mãos de seus revisores: em inglês, socio-spatial é sempre com hífen,
e, em alemão, sozialrâumüch não tem como levar hífen algum. Mas aí é
que reside a riqueza e a flexibilidade de que, neste caso (e em outros),
dispomos em português. Éinteressante notar que, sempre que se deseja
t
manter a noção de composição, em que os dois adjetivos preservam a
sua individualidade semântica, o hífen continua a ser usado, mesmo após
a última reforma ortográfica: dólico-louro, austro-húngaro.'.. Assim, seja *
*
por analogia gramatical, seja, em última análise, por conveniência con-
*
ceitual, sócio-espacial não é menos "certo" que socioespacial —>e vice-
»

versa. Ambas as expressões, como tenho sugerido, são válidas e úteis. São,
na realidade, complementares.
No livro que o leitor ou a leitora tem em mãos, os conceitos selecio
nados são. todos, diretamente espaciais. E, como o título indica, trata-se
de um elenco reduzido de conceitos básicos. Se eu fosse tentar dar conta
de todos os conceitos espaciais interessantes ou úteis, teria de escrever
um imenso léxico, que comportasse (de modo necessariamente super
ficial) uma plêiade de verbetes, de fronteira (e derivados como fronteira
morta e fronteira viva) até renda da terra, de limiar (no sentido da Teoria das

OS CONCEITOS FUNDAMENTAIS DA PESQUISA SÓCIO-ESPACIAL | 17

§
:•!
' i
(0

Localidades Centrais, de Walter ChristaUer) até zoneomento, de ecumeno até


r
segregação residencial, de conurbação até megolópole... Não é essa, evidentemente, a • '

M
finalidade deste livro. O seu propósito é apresentar e discutir alguns con
ceitos fundamentais, interligando-os entre si à medida que a exposição
avança, e sempre com a preocupação de inscrevê-los em uma dinâmica
de construção do objeto que distingue (até onde é possível), mas não separa
r
o espaço das relações sociais. O espírito é o de iluminar o espaço recor
rendo às relações sociais, e estas recorrendo-se ao espaço, em uma dialé
tica sem fim. Trata-se, por isso, fortemente de trabalhar conceitos com a
r
mente voltada para a pesquisa sócio-espacial, e não apenas para a radiografia
de formas ou estruturas socioespaciais (por mais relevantes que estas,
indiscutivelmente, sejam).
- .

r "••'•
p
r
• . . • ' • • -
r

P
r
r
r

0"
P

r
r
1 8 | MARCELO LOPES DE SOUZA
foxxax
anbisXxjd bs |a
w
ST ou 8Z,6T w;souiu; afr
*
Hérodote

Ces géographes, mais aussi ces Directeur : Yves Lacoste.


philosophes, ces hisioriens, urba-
nisles, ethnologues, psychana- Secrétariat de rédaction : Michel Abhervé,
lystes, journallstes, ingênieurs, Daniel Béhar, Michel Foucher, Béatrice Giblin,
syndicalistes, politologues, écono- Michel Pichol, Maurice Ronai.
mistes, malltémaliciens, sur bien
des questions n'ont pas Ia meme Les caries à'Hérodote sont de Raymond Ghi-
opinion, mais ils ont accepté de rardi.
donner leur avis sur les textes
qui seront régulièremcnt mis en Groupe de discussion : Claude Bataillon,
discussion par Hérodote. Leur Mareei Bélanger (Quebec). Olivier Bernard,
responsabilité n'est pas engagée Jcan-Michel Brabant, Jean Cabot, François
par les textes signés Hérodote. Châtelet, Pasquale Coppola (Naples), Michel
Coquery, André Decouflé, Jean Dresch, Chris-
II ne s'agit donc pas. pour le tian Descamps, Lúcio Gambi (Milan). Jean-
moment, d'un comitê de rédaction
constitué une fois pour toutes,
Claude Giblin, Raymond Guglielmo, Georges
mais de Vamorce d'un groupe de Jalabcrt. Alain Joxe, Bernard Kayser, Rodol-
discussion, qui continuem de phe de Koninck (Quebec), Jan Kleinpen-
s'élargir et s'enrichira de spécia- ning (Nimègue), Camille Lacoste-Dujardin,
listes, de militants. Dominique Lecourt. Albert-Paul Lentin, Gérard
Mairet, Alain Mamou-Mani, Alain Manier,
Pour aider au dévcloppemcnt Mohamed Naciri, Christian Palloix, Jean Piei,
de Ia discussion, Hérodote publie Alejandro Piqueras, Jean-Bernard Racine,
des textes des provenances les plus
diverses, en respectant, si besoln Alain Reynaud, Michel Rochcfort, Milton
est, Vanonymat de leurs auteurs. Santos, Jean Tricart, Jean-Pierre Vigier.

Prix du numero : 25 F N° 12 octobre-décembre 1978


Librairic François Maspero, 1, place Paul-Painlevé 75005 PARIS

78
p
r
p

p
r
p

La géographie n'est-elle qu'une science


í humaine ?

Fernand Joly *

0
P

II y avait ces derniers temps, dans les couloirs de 1'Inslitut de géographie


de Paris, une affiche apposée par Ia toute jcune Association française de
géographie physique et sur laquellc on lisait : « Etudiants I... Si vous êtes
attirés par raménagement, tout ce qui concerne les milieux naturels vous
interesse et, consciemment ou non, Ia géographie physique ne vous est pas
indiflerente. » En marge, d'une plume violette et péremptoire, quelqu'un
avait écrit ce seul mot sans replique: « Si! »
Dans 1'évolution générale de Ia discipline géographique, c'est sürement
r
Ia géographie physique qui a le plus perdu. Non pas en profondeur ni en
efficacité, mais en noloriété et en audience chez les géographes eux-mêmes :
Ia géographie physique est évacuée par les géographes.
Une telle situation se comprend en partie quand on considere rhistoire
même de Ia géoeraphie physique.
P
P

P
* Professcur à 1'Université de Paris Vil.
s .
129

r
79
0
r
r

p
p
p
La géographie physique classiquc

A Ia fin du xrx" siècle, Ia tradition « naturaliste » et encyclopédique de


Ia géographie, illustrée par Humboldt (1769-1859) et continuée par les
explorateurs, était encore três vive. Elle inspirait notamment toute Ia géo
graphie allemande, essentiellement tournée vers Ia géographie générale.
Abandonnant aux sciences non géographiques 1'analyse spécifique des
divers composants du milieu, cette géographie se consacra fondamentale-
ment à 1'étude de leurs rapports mutueis et de leur répartition mondiale.
Par contraste, 1'école française de Vidal de Ia Blache, issue de 1'hisloire,
insistait davantage sur Ia « physiononüe» des combinaisons régionales.
Mais, pour mieux les expliqucr, elle cherchait à en reconnaítre d'abord
toutes les parties. Sans doute faut-il voir là 1'influence persistante de 1'esprit
cartésien. Dans cette optique, le travail géographique commence donc par
une collecte des données qui privilegie 1'enquête directe sur lc terrain. Les
données inventoriées sont décrites et classées, puis confrontées, comparées
et corrélées en une typologie qui pour certains tiendra malheureusement
lieu de seule finalité scientifique. Le milieu naturel n'étant qu'un des
éléments des combinaisons régionales, on peut penser que cette attitude
analytique a favorisé le développement d'une géographie physique indé-
pendante, laquelle s'est à son tour subdivisée.
L'éclatement de Ia géographie physique a commence par l'individuali-
sation de Ia géomorphologie. Ce fut d'abord une géomorphologic slructu-
rale. L'avancement de Ia carte topographique de Ia France au 1/80 000°,
dite « de PEtat-Major », suivie de près par Ia carte géologique à Ia même
échelle, permettait en effet une comparaison des formes du relief avec Ia
tectonique et Ia lithologie. Ainsi sortit de Ia collaboration d'un topographe,
le general de La Noe (1836-1902), et d'un gcologue, Emm. de Margerie
(1862-1953), 1'ouvrage intitule Les Formes du terrain (1888), lequel rnarqua
en France 1'essor de Ia géomorphologie. En fait, les premiers géomorpho-
logues furent tous des géologues : Ch. Lyell (1797-1875) en Angleterre,
130

80
0
r
r
p
P

t
LA GÉOGRAPHIE N'EST-ELLE QU'UNE SCIENCE HUMAINE ?

A. de Lapparent (1839-1908), Emm. de Margerie, E. Haug (1861-1927)


en France, C. E. Dutton (1841-1912), G. K. Gilbert (1843-1918),
W. M. Davis (1850-1934) en Amérique. Mais ce furent surtout des géo-
graphes, Emm. de Martonne (1873-1955), H. Baulig (1877-1962) en France,
A. Penck (1858-1945) et son fils Walther (1888-1923) en Allemagne qui
poursuivirent 1'effort. W. M. Davis, qui passe parfois pour être le fondateur
de Ia géomorphologie, fut plutôt le créateur d'un corps de doctrine
apparemment logique et simple auquel sa forte personnalité devait assurer
un suecos durable quoique tres conteste. Du moins eut-il le mérite de dega-
ger Ia géomorphologie de Ia géologie classique, de 1'ériger en discipline
P
indépendante et d'en mettre en valeur les aspects transformistes.
P
Parallèlement, les météorologucs, traitant une documentation statistique
de plus en plus volumineuse, ouvrirent Ia voie à une climatologie moderne,
dégagée des dictons et du folklore. Ils précisèrent peu à peu les caractéris-
tiques des diíTérents climats zonaux et régionaux. Ils élaborèrcnt des cli-
malologies nationales, comme celle de A. Angot (1848-1924) pour Ia
France, ou mondiales comme celle de J. Hann (1839-1921). Les grandes
expéditions maritimes seientifiques comme celle du Challenger (1872-1876)
et les explorations polaires comme celle de A. E. Nordenskjõld (1878-1879)
attirèrent 1'atteniion sur 1'océanographie qu'avaient ébauchée, dès le début
du siècle, les travaux des ingénieurs hydrograpb.es de Ia marine comme
r
Beautemps-Beaupré (1766-1854). Sur terre, depuis longtemps déjà les ingé
nieurs civils, les agronomes, les forestiers, les hydrauliciens, confrontes
avec les rcalités naturelles, avaient accumulé observations et expériences
sur 1'érosion des sois et 1'écoulement des eaux. Des synthèses partielles
avaient même éte élaborées, comme le fameux mémoire d'A. Surell sur
les torrents (1841, réédité en 1870-1872). Elles furent à 1'origine de l'hydro-
logie continentale et de Ia géomorphologie dynamique. Enfin les botanistes
tel Ch. Flahaut (1832-1935) et les zoologistes comme L. Cuénot (1866-
1951) jetèrent les bases d'une biogéographie.
II revenait aux géographes d'assurer entre tous ces axes de recherche Ia
coordination nécessaire, et d'en souligner 1'unité. Ce fut le role du Tjaité

131

P
r
r

P
í/e géographie. physique d'Emm. de Martonne, dont Ia première édition
parut en 1909 \\ o
Par sa vaste culture, à Ia fois littéraire et scientifique, et par ses fonctions «*
universitaires, Emm. de Martonne sut rassembler, codifier et répandre
toutes les idées de son temps en les enrichissant de son expérience person-
->
nelle. Profitant du developpement de Ia géographie dans 1'enseignement
supérieur et d'une réputation de rigueur propre à séduire un public d'ori- *
gine littéraire, sa géographie physique peut être considérée comme 1'expres-
sion classique d'une école qui devait dominer toute Ia première moitié du
xx° siècle. Cest une géographie générale, qui tente de definir ce qu'il y a
de permanent, de « normal » ou d' « accidentel » dans Ia physionomie de
^
Ia Terre, et qui s'efforce d'en découvrir les lois. Chaque phénomène est
étudié d'abord dans son contexto regional, mais il est ensuite replacé dans *

sa répartition mondiale. Cette géographie comporte :


— une climatologie statistique, de moyennes et de cycles saisonniers,
appuyée sur une dynamique atmosphérique élémentaire (masses d'air et
typcs de temps) et débouchant sur une classiíication des climats ;
— une hydrographie, marine et continentale, axée sur les données spéci-
fiques des masses d'eaux et sur les différents regimes hydrologiques;
— une géomorphologie2, qui est le morceau principal, davisienne pour
1'essentiel mais avec des nuances non négligeables : confrontation des
formes du relief avec Ia structure et avec les agents principaux d' « éro-
sion » et d' « accumulaudn », évolution dans le cadre du « cycle d'érosion »
et de Ia « pénéplaine » ;
— une biogéographie, surtout physionomique et phytogéographique,
*
abandonnant pratiquement les associations végétales aux botanistes et les
associations animales aux zoologistes ; +

1. Emm. de Martonne, Traité de géographie physique, lro éd., 1 vol., A. Colin, Paris,
1909. La 9" et dernière édition, en 3 volumes separes, parut chez le même éditeur cn
1951.
2. Emm. de Martonne intitule cette partie de son ouvrage «Le relief du sol ». II
pense en cfret que géomorphologie est <tun mot bien forgé, mais trop complique pour <%
avoir une chance de devenir d'un usage courant» ! (Traité, 5* édition, 1935, t. II, p. 500.) ^
*
132

82
0
P
P
P
r

P
P
LA GÉOGRAPHIE N'EST-ELLE QU*UNE SCIENCE IIUMA1NB ?
P
— une tradition méthodologique centrée sur 1'exploitation du terrain,
de Ia carte, des coupes, des blocs-diagrammes, des croquis, des photogra-
P
phies au sol et, plus tard, des photographies aériennes.
p
Une telle géographie physique ne pouvait être qu'une géographie à petite |
ou, au plus, à moyenne échelle. De 1'influence de Davis elle garde une
position nettement déterministe, une coloration plutôt théorique et une
P insuffisance d'analyse des processus. Malgré Ia primauté des études de
terrain, elle frappe par 1'indigence des releves cartographiques de recherche.
Elle oriente ses mventaires vers une typologie minutieuse des unités de
moyennes dimensiòns : formes du relief, types de temps, regimes méso-
climatiques ou hydrologiques, formations végétales... pour lesquelles elle
elabore un vocabulaire spécifique, mais trop souvent fermé, abstrait ou
r
déroutant pour les non-spécialistes. Sa préoccupation dynamique est plus
r d'ordre historique que cinématique : elle retrace les étapes et le sens des
évolutions et elle lient compte des héritages, mais elle ne s'attache guère
aux mécanismes et aux moyens d'action des divers processus. Enfin, elle
attache plus dMmportance aux répartitions qu'aux interrelations \ et le
lien n'est~pãs toujours évident entrêTés différentes parties du Traité.
Au fond, il y avait là bien plus une incitation centrifuge à un develop
pement séparé de chacune des branches de Ia géographie physique qu'un
fonds utilisable par Ia géographie humaine. Hormis Ia climatologie et Ia
biogéographie (notamment en raison des efforts de M. Sorre), Ia géogra
phie physique, et parliculièrement Ia géomorphologie, ne pouvait guère
offrir aux géographes de Ia vie et de Phomme que des indications sito-
logiques d'òrdre três general, reléguées dans un chapitre de convention
au début des études et des rapports. Sa portée scientifique n'en fut pas
moins considérable, mais son impact pratique resta à peu près nul.
+

0
3. Sauf peut-ctre H. Batjlig qui a toujours défendu avec conviction les notions de
«systèmes de forces et de résistances » et d' s equilibres mobiles». Cf. notamment ses
a Essais de géomorphologie, publ. Fac. des Lettres, Strasbourg, 1950.

133

P
83
r

P
r
P
r

P
Les voies nouvelles

Les choses allèrent ainsi jusque vers 1950, époque ou apparurent au


grand jour des préoccupations nouvelles qui se manifestaient sourdement
dans chaque spécialité depuis Iongtemps déjà. II s'agit essentiellement
d'un approfondissement de Ia démarche analytique, d'une meilleure prise.
de conscience de 1'interdépendance des phénomènes biophysiques, et d'un
désir croissant d'intervention dans les actions volontaires de 1'homme sur
*
le milieu.
*
En climatologie, après avoir tire le maximum de 1'étude des types de
*
temps (P. Pédelabordc), les géographes se lancent à fond dans Ia dyna-
mique de 1'atmosphère, renouveléc par les progrès de Ia météorologie au *
cours de Ia Deuxième Guerre mondiale. D'autres inventent Ia cartographie ^
climatologique à moyenne échelle (Ch. P. Péguy). Mais Ia plupart conti-
nuent à négliger dangereusement Ia climatologie au sol et Ia bioclimato-
logie qu'ils laissent aux agronomes et aux biogéographes.
L'hydrologie continentale enregistre peu de changements par rapport
à Ia « potamologie » de M. Pardé \ Elle poursuit patiemment 1'étude des
regimes et des crues. Mais des catastrophes comme celle du Guil (1957)
lui donnent 1'occasion de se confronter à Ia géomorphologie et à 1'occupa-
tion humaine. Pourtant, ce sont les ingénieurs qui apportent le plus de
connaissances nouvelles sur les transports solides et sur Ia pollution des
rivières. Les géographes ne prennent guère en compte que 1'étude des
systèmes d'utilisation de l'eau, et ils partagent avec les hydrogéologues
les investigations sur les karsts profonds.
Comme pour Ia climatologie, 1'essor de 1'océanographie est davantage
le fait des géophysiciens et des biologistes que des géographes. Cependant
ces derniers, avec les géologues et les pétroliers, contribuent efficacement
à 1'étude du domaine sous-marin précontinental (J. Bourcart, L. Dangeard,

4. Résuméc dans M. Parije, Flcuvcs et Rivières, A. Colin, coll. U1, Paris, 5« édit., 1968.

134

84
p
p
e
0'
P
p
r
LA GÉOGRAPHIE N'EST-ELLE Qü'UNE SCIENCE HUMAINE ?
P
A. Guilcher et ses élèves) et du domaine littoral (A. Guilcher, F. Verger,
J.-P. Pinot).
En biogéographie, Ia cartographie du tapis vegetal prend un tour décisif
sous 1'impulsion des botanistes. H. Gaussen entreprend Ia carte de Ia vege
P
ta tion de Ia France au 1/200 000", tandis que L. Emberger puis le Centre
r
d'études phytosociologiques et écologiques (C.E.P.E.) de Montpellier
conduisent des recherches quantitatives sur les associations. Parallèlement,
les géographes se lancent dans 1'étude physionomique détaillée des paysages
végétaux (G. Rougerie).
Mais c'est peut-être Ia géomorphologie qui, à partir de sa position domi
nante, a connu les mutations les plus profondes et les plus spectaculaires.
p
Après 1930, Fextension mondiale du champ des recherches géomorpho-
logiques fit apparaitre avec éclat les insuffisances de Ia doctrine de Davis.
Déjà S. Passarge (1904), Emm. de Martonne (1913) et bien d'autres avaient
montré 1'importance des facteurs climatiques dans 1'évolution du relief.
Les « accidents climatiques » (C. A. Cotton), reconnus par Davis lui-même,
résultent en fait de combinaisons différentes des processus élémentaires
en fonction des données structurales, chmatiques et biogéographiques
locales. Pour designer ces combinaisons, A. Cholley proposa Ia notion
três féconde_des «systèmes d'érosion». Ainsi apparut une «géomorpho
p logie climatique» parallèlement aux traditionnelles «géomorphologie
stnicturale» et « géomorphologie historique ». Par sa connaissance plané-
taire des problèmes géomorphologiques ef par son rayonnement scienti-
fique personnel, J. Dresch contribua pour beaucoup a développer cette
nouvelle orientation. De même, pour préciser Ia notion assez vague d' « éro-
sion », les géomorphologues prirent peu à peu souci de 1'existence et de
p
Ia nature des processus de base et de leurs lois physiques. L'exemple des
pédologuess fut à cet égard stimulant. Ils porterent ainsi attention à Ia |
pédogénèse, à Ia morphogénèse ainsi qu'aux «formations superficielles », í
négligées par les géologues mais témoins corrélatifs et significatifs de
P
5. Cf. notamment H. Erhart, La Gênese des sois en tant que phénomène géologique,
Masson. coll. Evol. des sciences, Paris, 1956.

135

r
r

P
P
P
Faction desdits processus. P. Birot fut l'un des tout premiers à introduire
en France cette notion et, tout en continuant à diriger ses élèves vers les
problèmes structuraux du monde méditerranéen, à encourager les
recherches de terrain et expérimentales sur le role géomorphologique des
roches et de leurs altérations. Dans Pinterprétation des formes du terrain,
Ia prise en considération des relations mutuelles et des interactions entre
les phénomènes introduisit une «géomorphologie dynamique», plus
concrète, plus rigoureuse, plus approfondie èt plus interdisciplihaire.
Pour progresser, les géographes durent faire un retour décisif vers les
sciences non géographiques de base qu'ils avaient un peu trop délaissées
jusque-là. Au moment ou les géographes humains découvraient les vertus
des mathématiques pour sciences humaines, les géographes physicicns
resserrèrent les liens avec les sciences physiques et naturelles. Ils se firent
géophysiciens, météorologucs, hydrauliciens, géologues, pétrographes, tec-
toniciens, géochimistes, pédologues, botanistes... Du moins adoptèrent-ils
les méthodes et les résultats de ces spécialistes. Souvent ils apportèrent
eux-mêmes une contribution non négligeable à ces recherches et, en tout
cas, de nouveaux éléments de réflexion. Ces transformations méthodo-
logiques, 1'introduction de Ia cartographie d'inventaire, de Ia télédétection
et du laboratoire furent 1'occasion d'un changement capital de Ia problé-
matique, parfaitement exprime dans les ouvrages de J. Tricart' et dans
1'orientation des nouvelles recherches.
Contrairement aux géographes humains, qui tendent au même moment
à le restreindre à «une création des hommes organisés en sociétés7»,
les géographes physiciens continuent de penser que Fespace géographique
comprend également les domaines peu ou pas modifiés, les mers, les déserts,
les pays englacés des hautes altitudes et des hautes latitudes. Cet espace
occupe en outre une certaine épaisseur puisqu'il empiète à Ia fois sur Ia
lithosphère, sur Ia basse atmosphère, sur 1'hydrosphère et sur Ia biosphère\
Les objets de Ia géographie physique ne sont en aucun cas inertes ou

6. J. Tricart, UEpidermc de Ia Terre, Masson, coll. Evolution des sciences, Paris, 1962.
7. H. Isnard, UEspace géographique, P.U.F., coll. Le Géographc, Paris, 1978.
8. J. Tricart, La Terre. planète vivante, P.U.F., coll. SUP, Paris, 1972.

136

86
LA géographie n'est-elle qu'une science humaine ?

immuables, et bien moins encore isoles. Ils ont une origine et une his-
toire, et ils s'insèrent dans un système complexe d'interactions bio-physico-
chimiques tel que tout ce qui touche à í'un des composants réagit sur
1'ensemble de Ia combinaison. Ils doivent donc être consideres non seule-
ment sous un angle individuel et génétique, mais encore d'un point de vue
collectif et spatial, ce qui les replace dans le concept synthétique trop
souvent oublié de « milieu nalurel » ou de « paysage » (Landschaft). Par
ailleurs, ces objets se présentent à Ia fois sous une forme empirique et
subjective qui ressort du discours descriptif, et aussi sous une forme mesu-
rable et objective qui releve de 1'analyse détaillée et de Ia quantification.
Ils doivent ainsi être sans cesse confrontes avec Ia dimension et Ia durée,
concrétisées dans Ia notion d'échelle temporo-spatiale9. On retiendra seule-
ment qu'une synthese opérée à une échelle donnée ne peut valablement se
fonder que sur une analyse effectuée à Péchelle supérieure10. Cette étude
necessite un décloisonnement des disciplines et une collaboration salutaire
entre les chercheurs. Elle conduit également à généraliser 1'idée de mobi-
lisme, si redoutée des davisiens.
Ainsi s'affirment les deux caracteres fondamentaux de Ia géographie
physique : 1'importance des phénomènes dynamiques (énergie, forces, pro
cessus) et Ia complexité des situations (combinaisons spatiales et combi
naisons tcmporellcs). 11 serait toutefois vain d'introduire une hiérarchie
de valeur entre ces différents points de vue, qui sont autant d'échelons de
Ia recherche. Chacune des voies conduit à une part de vérité, et c'est à
I'ensemble des géographes physiciens qu'il revient de les coordonner.
Du coup, Ia recherche en géographie physique change de bases par
rapport à Ia recherche classique, et il devient possible d'en tirer des conclu-

9. J. Tricart et A. Cailleux. « Le Problème de Ia classification des fails géomorpho-


logiques », Ann. de géo., 1956, p. 162-186. Cf. aussi G. Bertrand, «Paysage et Géographie
physique giobalc; esquisse méthodologique», Rcvue géographique des Pyrénées et du
S.O., 1968, p. 249-272.
10. D'oíi 1'intérfit d'une cartographie détaillée à grande échelle comme celle miso
au point par J. Tricart et F. Joly pour Ia R.C.P., n° 77. Cf. Legende pour Ia carte
géomorphologiquc de Ia France au I : 500 000, C.N.R.S., 1970, et « Cartographie géomor-
phologique », Mém. et Doe. C.N.R.S., Paris, 1972.

137
P
P
87

P
P
P
P
sions pratiques directement utilisables par Ia géographie humaine et par
1'aménagement. Ce qui ne signifie pas que Ia géographie physique doive .
se limiter à Ia seule satisfaction des besoins de Ia géographie humaine. Les
priorités de cette recherche passent du general ou même du regional au
local, et de 1'observation discontinue au releve exhaustif. En même temps.
Ia description littéraire et qualitative le cede autant que possible à l'ana-
lyse quantitative et au traitement numérique et experimental des données.
Sur une face de Ia Terre considérée comme soumise à des forces interdépen-
dantes et multivariées, Ia géographie physique dépasse Ia purê spéculation
intellectuelle pour se constituer en une science, à Ia fois jondamentale et
appliquée, des equilibres et des desequilibres mobiles de Ia surface ter
restre, y compris dans leurs relations avec 1'occupation humaine.

Géographie physique et géographie humaine

U n'est pas sur que les géographes humains (et même un certain nombre
de géographes physiciens) aient bien saisi le sens et 1'intérêt des mutations
profondes de Ia géographie physique à partir de 1950. Ils y ont plutôt vu
Ia marque d'une super-spécialisation, un inéluctable facteur de divergence
et, finalement, une raison de rupture. Aussi bien est-ce paradoxalement
avec Ia géographie humaine que Ia géographie physique a peut-être
aujourd'hui le moins de relations, spécialement au niveau de Ia recherche. Í
%
Les liens entre géographie physique et géographie humaine sont pour-
tant de tradition dans Ia géographie française. Ils dominent toute Ia géo
graphie vidalienne qui est une « science des lieux » plus encore que des
hommes, même si ces lieux ne valent que par ce que l'homme en a fait.
Par contre, dans Ia géographie allemande, géographie humaine et géogra
phie physique ont toujours évolué plus ou moins séparément. Dans Ia
géographie américaine, après Ia création tout au début du siècle de quelques
chaires de géographie devant servir de pont entre sciences naturelles et
sciences sociales. Ia géographie physique et surtout Ia géomorphologie, ou
«physiographie», s'est vite différenciée. En U.R.S.S., oü il existe des

138

88
0
p
p
LA géographie n'est-elle qu'une science humaine ?

facultes de géographie, les deux branches restent quand même parfaitement


distinctes. En France même, des chaires de géographie physique furent
créées dans certaines facultes des sciences. Le problème s'est donc pose
r
três tôt de savoir quelle attention les géographes humains devaient accor-
der au « cadre » ou au « milieu » dans lequel vivent les hommes.
r Pour en rester à Ia géographie française, quand Ia géographie « scienti-
r
fique » de Vidal de Ia Blache succéda aux descriptions globales des « géo-
graphies universelles » de K. Malte-Brun (1775-1826) et d'E. Reclus (1830-
1905), on demanda surtout à Ia géographie physique de planter les décors
et de metlre en évidence certaines influences ou certaines contraintes locales
de climat, de structure, de topographie ou de circulation. II n'y avait donc
P
pas trop d'inconvénients à 1'enfermer dans quclques chapitres à tiroirs, qui
0
pouvaient prendre d'ailleurs de sérieuses dimensions, mais dont on ne
P tirait plus rien dans Ia suite du texte. Rares étaient ceux qui, comme
A. Demangeon, R. Dion ou R. Blanchard, avaient l'art de mêler tout au
long d'un ouvrage les données naturelles aux finesses de 1'occupation
humaine ". Au demeurant, Ia géographie physique servait en même temps
de refuge à un vieux fonds de déterminisme, ébranlé par 1'indépendance
P
des actions volontaires, et elle prenait figure, aux yeux de ces historiens
r
qu'étaient les géographes, d'une caution de rigueur scientifique jugée de
bon aloi.
Pourtant, même dans ce role modeste, Ia géographie physique perdait peu
à peu le contact avec Ia géographie humaine. Et cela d'autant plus qu'elle
approfondissait ses propres objectifs. S'exprimant trop souvent pour clle-
même, elle ne fit pas d'efforts, à quelques exceptions près dont M. Sorre
est sans doute le plus illustre exemple, pour répondre aux besoins des géo
graphes humains. La géomorphologie, notamment, se plaçant à 1'échelle
des temps géologiques, celle de Ia tectonique et des cycles d'érosion, dépas-
sait aussi bien les préoccupations des ruralistes que celles des urbanistes

11. Entre 1930 et 1950, une collection de géographie humainc dans Ia tradition de
J. Brunhcs, dirigée par P. Deftontaines chcz Gallimard et aujourd'hui disparue, a popularisé
un moment une géographie des rapports entre l'hommc et son environncment sous le
titre VHomme et... Ia forct, Ia montagne, Ia cote, les volcans, etc.

r 139
p
r

8')

r
P
r
f
et, à plus forte raison, celles des économistes et des sociologues. L'évolution
de Ia géographie régionale, passant des régions naturelles aux régions
humaines puis aux espaces economiques et aux « espaces vécus », accrut
les divergcnces ,=. L'essor de Ia «nouvelle géographie» finit par effacer
toute solidarité.
Le developpement récent de Ia géographie physique aurait dü changer
; bien des choses. II replaçait en effet 1'étude de Ia surface terrestre dans un
contexte naturel et à une échelle de temps plus compatibles avec Factivité
*
, humaine. La cartographie détaillée des formes, des processus et des for-
mations superlicielles, celle du tapis vegetal et des mésoclimats auraient dü *
agir dans le même sens, ainsi que le retour à une géographie globale stimulé •*
par 1'essor de Ia télédétection. Comment interpréter, en effet, les milieux
biologiques et saisir Ia mobilité des « paysages » sans inclure les données
héritées et actives de Ia microclimatologie, de Ia morphogénèse et de Ia
pédogénèse ? Comment comprendre le milieu niral au niveau de 1'exploita-
tion ou de Ia commune sans connaítre ses réponses aux interventions
anthropiques ? Comment, malgré Ia puissance des moyens techniques et
financiers, aménager des villes et des provinccs au mépris des equilibres
et des desequilibres écologiques à prévoir ? Toute une recherche commune
et approfondie avec les spécialistes de géographie humaine aurait été néces-
saire pour établir les liens qui, aux diverses échelles, unissent les structures
et Ia dynamique des milieux naturels à 1'occupation humaine. Pourtant
rien n'a été fait au-delà de tentatives individuellcs et rarissimes.
On pourrait cependant esquisser un tableau schématique et hiérarchisé
de ces relations.
Toute société humaine, même Ia plus complexe, se crée et se développe
dans un milieu « naturel » qu'elle occupe, utilise, organise, aménage ou
transforme selon ses possibilites. Même si ce milieu « naturel » est lui-

12. Dès les annécs quarante, terminant Ia collection de Ia Géographie uiiiversclle publiée
par A. Colin, monument de Ia géographie régionale de conception vidaliennc, A. Deman-
geon et Emm. de Martonne, ne pouvant se mettrc d'accord, écrivircnt séparément une
France physique (1 vol., 1942) et une France économique et humaine (2 vol., 1946 et
1948), rompant ainsi avec 1'csprit même du reste de 1'ouvrage.

140

90
LA géographie n'est-elle qu'unb sctence humaine ?

même hérité de transformations humaines antérieures. Tantôt ce milieu


parait dominer Ia vie de Ia société, lui imposer un certain nombre de
contraintes. Ccst le cas lorsque les conditions physiques sont sévères, ou
lorsque 1'organisation sociale, technique et économique est rudimentaire.
Tantôt, au contraire, le milieu apparait comme domine, effacé, sans impor-
tance. Cest le cas lorsque l'environnement physique est malléable, ou
lorsque l'organisation socio-économique est três élaborée. En fait, toutes
les nuances possibles existent entre ces deux extremes : leur étude est au
cceur de Ia géographie humaine, et même de Ia géographie tout court.
L'homme, dans sa vie et dans ses activités, individuelles ou sociales,
est ainsi confronte sans cesse aux données du milieu physique qui est,
jusqu'à nouvel ordre, le support biologique de son existence et de son
developpement. Seulement ces conditions physiques n'intervienncnt pas
f* toutes avec Ia même pesanteur, ni à Ia même échelle.
Certaines comptent surtout à pctile échelle. De valeur três générale, elles
constiluent le cadre qui circonscrit 1'installation de Fhomme-habitant, défi-
nit 1'espace qu'il occupe et limite ses activités. On pourrait parler de fac-
r teurs limitatifs,
LVUIÍ I II I I I LI I I I..- . qui
U|U sont des facteurs
ÍUIll UUJ Mil II II.' O d'occupation,
t« 1/l.l.ttf/LfIflSri, ou
\JU d'établissement
Kl WIUU1I.10VIIIVIII :
.

climat, surtout, et configuration de 1'espace disponible. Sans être absolu-


raent determinantes, ces conditions sont parmi celles sur Iesquelles 1'homme
a le moins de prise, sauf à des coüts élevés; il doit s'en accommoder plus
r
ou moins et, finalement, il les subit plus qu'il ne les maítrise.
D'autres interviennent principalement à moycnne et à grande échelle.
De valeur plus locale, elles facilitent ou entravent 1'action de 1'homme-
exploitant sur son environnement. Ce sont des facteurs d'utilisation, ou
d'exploitation, qui ont permis au cours des ages 1'établissement d'équilibres
plus ou moins précaires mais toujours suffisants pour assurer à 1'homme
sa subsistance et sa survie. Sans être jamais des obstacles insurmontables,
ils demandent à être consideres avec précaution. Tels sont Ia lopographie,
le tapis vegetal, le sol cultivable, 1'eau. Les plus graves ruptures de ces
p
equilibres sont parfois de nature physique : accidents climatiques, séismes, '•
r
éruptions, éboulements, crues, tempêtes. Mais le plus souvent elles sont
le fait de 1'homme Jui-rnême : surcharge démographique ou agro-pastorale,

141

0
r
91

p
déboisement, pollution, érosion accélérée des sois par surexploitation, etc.
Cest à ce niveau que Ia collaboration entre spécialistes de géographie
physique et de géographie humaine pourrait être Ia plus indispensable
et Ia plus fructueuse.
Enfin, d'autres conditions naturelles se placent au niveau de potentia-
lités contingentes dont 1'homme ne pourra tirer parti que si certaines cir-
constances socio-cconomiques ou techniques se trouvent réalisées. Elles
constituent en quelque sorte des reserves, volontaires ou non, qui serviront
le moment venu de facteurs de dépassement par rapport à 1'organisation
existante. Ainsi les terres bonnes à défricher ou à irrigucr, les sources
d'énergie à équiper, les gisements à exploiter ou à découvrir.
La manière d'aborder les choses n'est pas nécessairement Ia même dans
les trois cas; mais à chaque fois 1'intervention de Ia géographie physique
pourrait se juslifier. Malheureusement, Ia plupart des géographes humains
ont depuis longtemps perdu le contact avec Ia géographie physique mar
chante et ne savent plus três bien à quoi elle peut servir. Beaucoup vivent
encore du souvenir d'une géographie physique formelle, abstraite, fermée
sur elle-même et sur ses propres spécialités, déroutante et, de leur point
de vue, stérile. Beaucoup sont aussi trop convaincus que Ia société est reine
et que 1'espace géographique s'arrête aux limites de 1'cekoumène. Sans
doute est-ce pour cela que 1'évacuation sans nuances de Ia géographie phy
*
sique est surtout le fait des géographes les plus lies aux sciences humaines.
Probablement ne sentent-ils pas que Ia géographie physique será d'autant
plus opérationnelle en géographie humaine qu'elle será davantage appro-
fondie elle-même et qu'elle aura su former des chercheurs aussi compétents
qu'expérimentés. <£
Cest pourtant à ce prix qu'une collaboration réelle entre géographie
humaine et géographie physique, dont les modalités restent à préciser,
pourrait rendre à Ia vieille discipline « géographie » à Ia fois son identité
perdue et sa véritable «unité».

142
m

92
la géographie n'est-eli.e qu'unb science humaine ?

Géographie physique ei applications

Dans sa propre démarche, la géographie physique rencontre chemin


faisant de nombreux cas réels dont la compréhension et la maitrise sont
nécessaires à 1'intervention de 1'homme sur la nature ou à la protection
de son environnement. Dès lors, le géographe physicien peut-il se désinté-
resser du sort qui será fait aux résultats de ses recherches, et peut-il refuser
d'en assumer l'application ? Y. Lacoste a trop bien montré que le savoir
p
géographique est une arme redoutable qu'il est dangereux de laisser sans
controle entre les mains d'une caste dominante et suspecte de technocrates
et de financiers. Pourtant, contrairement à leurs collègues économistes ou
sociologues, les géographes univcrsitaires ont longtemps reculé devant
1'engagement. Tantôt, hautains, ils estimaicnt que la géographie, se suf-
lisant à elle-même, portait en elle sa propre juslification (M. Sorre). Tantôt,
prudents, ils redoutaient de se laisser entrainer dans une voie ou risquaient
de se perdre leur objectivité et leur « neutralité » scientiiiques (A. Gibert).
Tantôt, réticents, ils ne se considéraient ni assez compétents ni assez
assurés pour exercer directement des rcsponsabilités qu'ils ne reconnais-
saient pas comme de leur ressort (P. George).
H en est resulte toute une suite duccasions perdues ou la géographie
s'est laissée distancer par d'autres disciplines, pas plus qualifiées qu'elle
au départ, mais plus entreprenantes ou moins scrupuleuses, ou jouissant
dans le public d'un prestige plus grand : économie et sociologie en sciences
^
humaines, botanique et géologie en sciences naturelles. Pourtant, qui peut
se vanter d'être seul spécialiste du « milieu » ou, comme on dit aujourd'hui
en outrepassant le sens primitif du terme, de 1'« écologie» ? Chacun
tire à soi la couverture ou brandit 1'étiquette, surtout depuis qu'il y a
0
de 1'argent à gagner, sans vouloir admettrc qu'il n'y a d'approche de la
vérité, en ce domaine, qu'à travers une étroite coopération pluridiscipli-
naire.
P
Quoi qu'il en soit, la géographie appliquée a commence par 1'applica-
r tion de la géographie humaine. Voilée, mais três orientée politiquement
r
^ 143

r
93
r

P
r

P
ou idéologiquement dans un but de propagaude ou de justification, dans
ce qu'on a appelé ici ou là la « géographie politique » (sans parler de la
« géopolitique »), la « géographie commerciale », la « géographie colo-
niale», etc.". Plus sereine, bien que non neutre, dans les premières tenta-
tives d'aménagement des territoires, surtout depuis la guerre. Presque insti-
tutionnalisée dans certains pays étrangers, notamment ceux de l'Est euro-
péen. En France, elle a eu ses critiques (P. George) et ses défenseurs
(M. Phlipponeau). Malgré ses défauts, elle aurait pu souvent, étant plus
répandue, éviter des erreurs cofiteuses et parfois desastreuses. Elle est
aujourd'hui pratique assez courante dans les bureaux d'études ou elle fait
peu à peu sa place.
La géographie physique appliquée a pris beaucoup de retard, du moins
dans les limites de 1'Hexagone. Le fait que la technique moderne, à tort
plus qu'à raison, ne considere plus 1'environnement physique comme un
obstacle insurmontable Pa rendue apparemmcnt négligeable sinon même
inutile. II est vrai, on l'a vu, que la géographie physique classique n'était
guère de nature à opérer dans ce domaine, sauf à 1'échelle du monde ou
d'un continent, celle de 1'U.N.E.S.C.O., F.A.O. ou autres organismes inter- -,

nationaux. II a faliu attendre les progrês de la géographie physique nou-


*
velle pour que, timidement et sporadiquement, il y soit fait appel. Une
fois de plus, J. Tricart a joué là le role de précurseur et d'animateur, non
seulement par la formation de géographes qualifiés mais encore par son
exemple en Afrique, en Amérique du Sud et en France, ainsi que par
ses ouvrages". *-.
Les circonstances ne manquent pas, cependant, ou un géographe physi-
cien exerce peut intervenir d'une manière efíicace. Son sens géographique
de la répartition et des interactions entre les phénomènes est un précieux
atout que ne possèdent pas toujours ses détracteurs les plus arrogants. Ses
traditions naturalistes d'observation et d'analyse, sa pratique de la carto-

13. Appcllations que l'on retrouvc dans des titres d'ouvrages ou des labels de sociétés
• • savantes ». «*
14. Cf. notamment J. Tricart, VEpidermc de la Terre; esquisse d'une géomorphologie
appliquée, op. cit., Masson, coll. Evolution des sciences, Paris, 1962.

144

94
p

»
p
p
LA GÉOGRAPHIE N*EST-ELLE QU'UNE SCIENCE HUMAINE ?
r
graphie et de la télédétection lui fournissent un outil parfaitement adapte
aux finalités géotechniques. La dimension écologique de ses connaissances,
son souci permanent d'intégrer 1'homme et ses activités dans la compré-
r
hension du milieu naturel suflisent à justifier sa participation à des equipes
r mixtes chargées des plans d'occupation et de mise en valeur.
r Seulement voilà : la géographie physique n'a aucune réputation dans
les milieux techniques.
Jusqu'à présent, 1'enseignement de la géographie, dans le secondaire
comme dans le supérieur, est reste souverainement coupé de tout contact
avec la réalité des actions qui seraicnt à conduire par des géographes enga-
gés. Les quclques tentatives qui ont été faites ici ou là ne sont que des
exceptions qui confirment Ia règle. Et les recentes habilitations ministé-
rielles, tatillonnes et rigides, ne sont guère de nature à encourager les
r
elTorts. Ajoutons à cela que, quand formation il y a, elle se contente trop
r souvent de créer des généralistes, aux bases insuffisantes et aux connais
sances trop superficielles, ou trop abstraites. Je ne suis pas certain, par
exemple, que la géographie « globale », quelle que soit sa valeur théorique,
soit la plus adéquate à la formation de bons praticiens. Et, en ce qui
concerne Ia France, il faut encore compter avec la précarité des débouchés.
p
Contrairement à ce qui se passe dans des pays comme 1'U.R.S.S., la
Pologne, le Canada ou 1'Australie, les géographes français ne trouvent
guère à s'employer que sur des contrats aléatoires et provisoires, ou par
1'intermédiaire d'associations sans responsabilités. Enfin, pour les physi-
ciens, ils trainent avec eux le péché originei d'être des « littéraires » qu'en
cas de concurrence on écarle toujours au proíit de « scientiíiques » même
moins directement qualifi.es.
P
De leur côté, les ingénieurs et les techniciens ignorent jusqu'au nom
0
même de la géographie physique. II n'est même pas certain que ce vocable
soit le meilleur pour populariser dans la profession tout ce qu'elle a de
possibilites techniques. Ce qu'elle apporte, on le demande volontiers, par
tradition ou par habitude, au géologue, à 1'hydraulicien, à 1'agronome, au
pédologue ou à 1'« écologiste», voire à 1'architecte, mais non au géo-
graphe. Rien ne se fera, à vrai dire, dans la promotion de la géographie
145
P

r
95
r

r
P
P
P
physique appliquée tant qu'elle ne bénéficiera pas, dans 1'enseignement
supérieur, de dénominations professionnelles comme le D.E.S.S. (diplome
d'études supérieures spécialisées) ou le titre d'ingénieur-docteur, et surtout
tant qu'elle será négligée dans la formation propre des techniciens, c'est-à-
dire tant qu'elle ne pénétrera pas d'une manière ou d'une autre dans les
programmes des écoles d'ingénieurs ou de la formation continue ".
Est-il trop tard ? Ce n'est pas absolument certain; et il n'est pas défendu
d'être optimiste. Encore faudrait-il que les géographes physiciens respon-
sables soient eux-mêmes convaincus, et qu'ils donnent davantage de preuves
de leurs capacites. Inconfortablement située entre les sciences humaines
auxquelles la rattachent ses liens institutionnels et les sciences de la Terre
dont elle fait partie mais qui la considèrent comme marginale, la géo
graphie physique est plus souvent critiquée dans son savoir et dans ses
méthodes que comprise dans ses objectifs et dans ses orientations, quand
^
elle n'est pas purement et simplement oubliée. Elle n'en receie pas moins
^
une potentialité d'intervention non négligeable, qu'augmentent encore ses
tendances modernes à 1'exhaustivité des inventaires cartographiques à
moyenne et à grande échelle, ses interprétations de télédétection et la
tournure géodynamique de ses préoccupations.
Pour ces raisons, le géographe physicien ne peut plus, comme naguère,
s'enfermer uniquement dans la quête solitaire de la vérité scientifique.
II est de plus en plus conduit à donner suite, de près ou de loin, aux consé-
quences pratiques de ses recherches et de ses résultats.

9
*
15. J'ai personnellement 1'expériencc d'un cours de géomorphologie à 1'Ecole nationale
des sciences géographiques. De même, les laboratoires des Ponts et Chaussées, ayant
récemment découvert 1'intérêt de la géomorphologie dynamique et de la cartographie
géomorphologique, envoient de tcmps en temps des ingénieurs aux stages de Paris VII.
Mais 1'essentiel de la formation acquisc est ensuite transmise par promotion interne
(conférences ou articlcs de revues par les ingénieurs eux-mêmes) sans qu'il soit pour
autant fait appel à des géomorphologues pour exercer dans les établisscments d*ensei-
gnement officiels.

146

96
r
p
p

p
p
0-
LA GÉOGRAPHIE N'EST-ELLE QU'UNE SCIENCE HUMAINE ?
P
P
Pour une nouvelle géographie physique
r '
Les conditions existent donc, en príncipe, pour une promotion nouvelle
de la géographie physique. Cette promotion peut s'exercer dans plusieurs
<*, directions et elle se heurte à plusieurs obstacles.
P
Débat théorique

On a souvent parle d'un défaut de débat épistémologique. Les dis-


cussions de mai 1968 avaient bien mis 1'accent sur cet aspect des choses.
On a reproché aux géographes en general, et aux physiciens en particulier,
p
une insuffisance de réflexion sur la nature et les buts de leur discipline.
p II est vrai que la plupart ont préféré faire de la géographie active plutôt
que de songer à se placer correctement dans 1'éventail des connaissances.
Cette attitude a ses avantages et ses inconvénients. A trop privilégier le
débat philosophique, on risque grandement de stériliser la recherche propre-
ment dite. A ne pas le provoquer, on risque de perpétuer une situation
héritée du positivisme d'A. Comte et de 1'organisation napoléonienne de
1'Université. Mais il est vrai aussi que, si la personnalité de la géographie
physique s'est sans doute mieux affirmée (du moins en ce qui concerne
la géomorphologie) dans les sciences de Ia Terre que celle de la géographie
humaine dans les sciences de rhomme, sa problématique et ses techniques
ont été souvent mal perçues par les autres chercheurs, y compris les autres
géographes. Ceux mêmes qui la pratiquent ne sont pas toujours d'accord
p
sur la place réelle dans 1'ensemble des sciences. Elle est revendiquée à la
P fois par les géographes et par d'autres : géologues, météorologues, hydro-
logues, pédologues, botanistes... Isolée peu à peu de la géographie domi
nante ou noyée par morceaux dans des ensembles plus vastes, la géogra
phie physique a besoin, c'est sür, de faire de temps à autre un retour
sur elle-même. Mais ce ne peut être au prix de 1'exclusivité.
On a parle aussi d'une incapacite notoire à l'abstraction et à la modéli-
r 147

97

r
r
sation mathématique. D'abord ce n'est pas exact, du moins en ce qui
concerne la climatologie, rhydrologie et même certaines parties de la
géomorphologie et de la biogéographie. Ensuite, science naturelle, la géo
graphie physique a beaucoup plus de bases physiques et chimiques que
purement mathématiques. Enfin il ne faut pas ceder exagérément à Ia
double illusion quantitative : celle des chiffres obtenus sur un nombre
réduit de paramètres accessibles et avec des erreurs instrumentales et opé- m
ratoires inévitables; et celle des machines qui, après tout, ne ressortent
que ce qu'on y a mis. Notons d'ailleurs que le calcul ne penetre encore
que lentement et partiellement les sciences de la Terre et de la vie. II est
donc normal que la géographie physique rencontre les mêmes difhcultés
et les mêmes limites que ses voisines quant aux constructions théoriques
et à la validité des résultats. Jusqu'ici les théories de géographie physique
ont toujours été plus verbales que numériques. Mais ce n'est pas cela qui
suffit à les condamner, car 1'expression qualitative offre déjà un support
acceptable aux possibilites d'explication. Plus grave est que, trop souvent,
elles se sont fondées sur des bases trop générales, ou à trop petite échelle,
et qu'on se soit contente de prendre pour des démonstrations ce qui n'était
en vérité que des hypolhèses. Ce qui risque de discréditer les théories, en
géographie physique, ce n'est pas tant leur caractère qualitatif que la déíi-
cience de leurs analyses et 1'imprécision de leurs schémas. Cest bien pour-
*
quoi il convient de ne négliger aucun critère qui puisse être clairement
observe et explicite. Cela necessite souvent Ia prospection de domaines *
qui ne sont pas d'évidence géographiques. Par contre, cela permet d'avan- ^

cer de plus en plus loin dans la construction de modeles dynamiques, au


moins partiels, de la cinématique observée.
D'autre part, il est vrai qu'unc science n'atteint sa plenitude qu'à partir
du moment oü, s'étant donné un modele théorique, elle devient réflexion
sur ce modele dans le but de prévoir. II est vrai aussi que toute théorie
est transitoire et qu'au surplus, en sciences naturelles, la preuve est le
plus souvent relative, et fragile. Du moins peut-on considérer comme acquis
les faits bien établis et vérifiables, et comme recevables les propositions
qui rendent compte de tous les faits connus sans être contredites par aucun.
148 +>

98
r

r
P
r
p
LA GÉOGRAPHIE N'EST-ELLE QU'UNB SCIENCE HUMA1NB ?

Certes, pendant longtemps la géographie physique s'est contentée d'expli-


p cations purement descriptives, formelles et taxonomiques, et elle s'est trop
souvent satisfaite d'explications purement déterministes, lesquelles
déduisent la succession des évónements à partir de facteurs préalablement
établis. Pourtant, bien des situations échappent à un déterminisme élémen-
taire, et révèlent au contraire un jeu d'actions et de réactions non néces-
sairement linéaires et parfois même contradictoires. Les ordoimer en sys
tèmes, du genre des systèmes morphogéniques, ne suffit pas toujours à aller
au fond des choses. D'oü 1'incitation à une analyse fonctionnelle approfon-
die, basée sur la recherche des processus et des échanges d'énergie, qui
devrait débouchcr sur une explication dynamique et quantitative et donc
rendre possible la modélisation mathématique tant souhaitée.
Jusqu'à présent, cependant, 1'approche quantitative est moins avancée
en France que dans certains pays comme les Etats-Unis ou 1'U.R.S.S.,
p
qui disposent de moyens matériels plus importants et surtout d'une conti-
nuité dans le soutien à la recherche plus affirmée que dans les instances
scientifiques françaises. De toutes manières, cette approche reste encore
limitée aux domaincs oü le recueil de données chiffrées est relativement
facile, comme en climatologie, en hydrodynamique ou en topométrie, ou
à des cas précis tels que 1'étude de parcelles expérimentales, 1'organisation
des reseaux hydrographiques, 1'analyse factorielle d'unités biogéogra-
phiques et autres circonstances encore voisines de phénomènes ou de pro
0
cessus élémentaires. En fait, chaque voie de recherche a sa convenance, sa
valeur, ses avantages et ses limites. Une synthese générale de la géographie
physique devrait les conjuguer toutes.

P
Débat méthodologique
f

Le débat méthodologique concemant la géographie physique tourne


P dcpuis longtemps autour d'une double necessite : celle d'un approfondis-
r sement de 1'analyse et celle d'une explication synthétique de la physionomie
*%

r 149

p
99

P


de Ia face de la Terre. Chacun, selon ses goüts et selon ses moyens, privi
legie 1'une ou 1'autre de ces approches.
Science de la nature, la géographie physique utilise normalement, dans
les domaines qui lui sont propres, les méthodes qui sont celles des sciences
^
naturelles : observation, description, classiücation, releve cartographique,
expérimentation, comparaisons et corrélations. Sa logique est celle des ^

sciences de la Terre et de la vie, et non celle des sciences humaines ou des


sciences sociales. En cela elle s'oppose incontestablement à Ia géographie
humaine, même quand elle conjugue ses efforts avec elle, même quand elle
prend en compte 1'activité de 1'homme sur le milieu physique. *,
Ces considérations permettent de comprendre pourquoi certaines
méthodes de la géographie physique ont dú être empruntées à des sciences
*
voisines ou sont communes avec elles. On l'a parfois reproché aux géo
graphes physiciens, surtout à ceux qui s'occupent des structures et des
mécanismes élémentaires : «Les scientifiques de laboratoire, écrit
P. George !\ ne méritent plus le beau nom de géographes. » II y a là pour
tant une fâcheuse confusion entre le moyen et 1'objet, entre la méthode
utilisée et le but recherche. Le laboratoire comme la cartographie, la télé-
détection ou le calcul ne sont que des outils. Et ce n'est pas parce que
quelques-uns ont le tort de les prendre pour une fin qu'il faut les négliger.
Beaucoup pensent en effet, même parmi les géographes physiciens, qu'il
suffit de partir des connaissances acquises en amont par les non-géographes
sans s'aventurer dans des domaines mal connus oü l'on risque de s'enliser.
Et qu'après tout le role du geographe consiste à collecter les analyses des
autres pour les ordonner en une synthese globale et rationnelle. A vrai

dire, c'est faire preuve d'une certame suffisance à 1'égard des sciences
« annexes » qui agace ou, au mieux, fait sourire les chercheurs non géo *
graphes. Cest oublier en outre que ces chercheurs n'ont pas nécessaire- *
ment explore leur domaine avec des préoccupations géographiques, et que
le geographe physicien doit bien tenter de découvrir par lui-même ce qu'il
ne trouve pas ailleurs. Ce sont pourtant de telles positions restrictives qui,

16. P. George, Les Méthodes de la géographie, coll. Que sais-je ?, P.U.F., Paris, 1966.

150

n
100

t
p

LA géographie n'est-elle qu'une science humaine ?

en isolant plus ou moins la géographie physique de ses racines, Pont trop


souvent enfermée dans sa Iogique interne et privée des indispensables
recherches en profondeur.
Bien sür la spécialisation a ses exigences. D'abord une formation appro-
priée des chercheurs, laquelle serait plus accessible si ceux-ci, comme dans
d'autres pays, provenaient des études scientifiques et non des études «lit-
r
téraires ». Sinon, le geographe perdra vite pied dans le courant accéléré
du progrès des autres sciences; et il végétera dans une incompétence sans
r
efficacité. Ensuite d'importants moyens matériels qui sont ceux des labora-
íoires scientifiques. Le malheur, ici encore, est qu'il faut acquérir ces
moyens et les faire fonctionner avec des crédits qui sont ceux des sciences
humaines. Pourtant, s'il ne veut pas se cantonner dans un discours super-
ficiel et vain, ni fournir simplement une « compensation intellectuelle pour
littéraires » se résumant à « quelques longues gammes sur des flexures ou
des surfaces d'érosion " », ni dépendre de la seule initiative scientifique des
r autres, le geographe devra pouvoir étendre lui-même ses investigations,
participer au besoin à la recherche non géographique et s'adapter, en
conséquence, aux connaissances et aux méthodes nécessaires.
D'autres géographes physiciens estiment qu'il convient d'aborder Fobjec-
tif de la géographie physique par une géographie « globale », sous la forme
d'une géographie des « paysages » ou des « géosystèmes » ". Cette tendance
met au premier plan de ses préoccupations les interrelations entre les
composants des systèmes naturels appartenant aux quatre grands domaines
en contact à la surface du globe (aéromasse, hydromasse, lithomasse et bio-
masse) et la détermination de leurs combinaisons significatives ou « unités
de paysage ». On peut d'ailleurs y parvenir par deux voies différentes. La
science du paysage en Union soviétique, par exemple, est en fait três
analytique. Elle consiste en études stationnelles intégrées de plusieurs
cenlaines de composantes, suivies d'une exploitation à la fois géographique

17. A. Frémont, UEspace vécu, P.U.F., coll. SUP, Paris, 1976.


18. G. Bertrand, a Paysage et Géographie physique globale », Rev. géogr. Pyr. et S.O.,
1968, p. 249-272.
f
151

0
101

r
0
^
^

(répartition), structurale (géohorizons) et évolutive (éthologie)". En


France, on prend plutôt le problème par 1'autre bout, en cherchant à defi
nir d'abord les unités physionomiques de paysage que 1'analyse explique
en second lieu. Le tout est de savoir jusqu'oü pousser cette analyse. Faut-il •
considérer que le géosystème, intégrateur du milieu biophysique, est le
concept de base et que le geographe a fini son travail quand il a découpé
1'espace en un certain nombre de géosystèmes ? Ce serait rester dans le
discours superficiel dont on s'efforce de sortir. Faut-il se contenter d'une
description explicative avec 1'aide d'un langage plus ou moins sophistiqué
comme celui que propose J.-F. Richard " et au moyen d'une analyse facto-
rielle limitée ? Cest avancer bien peu dans 1'intimité des problômes. Faut-il,
en allant plus à fond, rejoindre 1'écologie de synthese par le biais, par
exemple, du calcul des bilans énergétiques ? N'est-ce pas alors orienter la
géographie physique vers une sorte de prolongement de la biologie en
laissant de côté tout un pan de Fétude ?
En fait, géographie globale et analyses sectorieiles ne se contredisent
nullement. II est indispensable, enseignait Emm. de Martonne, de pros-
^
pecter à fond le détail à condition de ne pas perdre Fidée directrice. II y a là
comme les deux faces d'un même sujet, et c'est ie sort de toute science *
d'être ainsi partagée entre une analyse de plus en plus fine et une synthese
de plus en plus intégrée. Ce qui se pose, par contre, c'est le problème de
la place de 1'homme dans le système et, par là, des relations avec la géo
graphie humaine. Pour la géographie physique, 1'homme est un des fac
teurs parmi d'autres, et de plus en plus infiuent, de la transformation du
^
milieu «naturel». Pour la géographie humaine, il est le point central
d'une étude dans laquelle les phénomènes physiques ne sont qu'accessoires *
et parfois même négligeables. Et les méthodes de Fune et de 1'autre n'ont
plus de points communs. Alors faut-il couper tous les ponts ? Sur le plan
de la recherche, incontestablement oui. Est-ce pour autant la mort de la
géographie ? Je ne le pense pas. Rien n'empêche que la géographie phy-

19. N. BEROUTcnACHvru et J.-L. Mathieu, t UEthologie des géosystèmes >, UEspace


géographique, a" 2, 1977.
20. J.-F. Richard, Problèmes de géographie du paysage. O.R.S.T.O.M., 1972.

152

102


r

P
r
P LA GÉOGRAPHIE N'EST-ELLE QU'UNE SCIENCE HUMAINE ?

sique dialogue autour de thèmes avec la géographie humaine comme elle


dialogue avec d'autres sciences. Cest la géographie tout entière, pluri-
disciplinaire et collective, qui pourra au contraire en bénéficier.
r
Forcer les mentalitês

Une telle transformation de la géographie physique, pour avoir quelque


chance de succès, devra s'accompagner d'un changement radical de cer
taines mentalitês.
Et tout d'abord parmi les géographes eux-mêmes, les physiciens comme
les autres. Les géographes universitaires (mais il n'y en a encore que três
peu d'autres) manquent souvent d'audace devant les nouveautés de leur
propre discipline, comme s'ils avaient perdu le goüt de la découverte.
Peut-ctre est-ce la raison pour laquelle ils s'enflamment plus volonticrs sur
r les outils que sur Fouvrage. Ils ne savent pas, ou ils savent mal, s'ouvrir
sur Fextérieur. Ils tournent trop facilement en rond dans leurs propôs et
dans leurs assises. Ils ont trop tendance à ne traiter qu'entre eux de leurs
problèmes, et parfois même de ceux des autres. II n'est qu'à comparer,
par exemple, les Réunions annuelles des sciences de la Terre, ouvertes à
f
un vaste public, bouillonnantes d'idées neuves et hardies souvent âprement
r discutées, aux Jouraées géographiques, familiales et sympathiques certes,
mais oü des gens connus dissertcnt paisiblement sur des problèmes impos-
sibles, plus académiques que scientifiques, comme Ia définition du « milieu
naturel» ou la sempiternelle « unilé de la géographie ».
Tant que les géographes, et je pense surtout aux plus jeunes, ne sauront
pas sortir de leur cercle, confronter leurs idées à celles de leurs voisins,
dépasser le discours sur le discours, répandre dans les revues de grande
vulgarisation des textes de qualité mais attrayants et accessibles aux non-
spécialistes, tant qu'ils ne sauront pas s'exprimer par le film ou la télévision
comme ont su le faire les historiens, ils ne devront pas s'étonner de Findif-
férence ou de Foubli dans lesquels se trouve la géographie. N'est-ce pas
un symbole que les divers épisodes d'une recente série télévisée sur les
f 153

r
p
103
r

p
p
grands fleuves, dont les géographes ont été à peu près absents, aient été
fmalement presque toujours détournés vers Fethnologie, le folklore ou
Fhistoire et rarement centres sur la vraie géographie ? Assumer une science
devant le grand public, c'est évidemment toute une mentalité. Mais, si la
géographie continue à bouder les media et la littérature, si elle ne descend
pas aussi dans la rue comme elle Fa fait d'ailleurs dans tout le xrx° siècle,
elle restera discours de mandarin prêchant dans le désert. <*
Cela pourrait aussi contribuer à modifier Fattitude de ceux des autres
chercheurs qui, méconnaissant ou méprisant la géographie, la considèrent
comme un genre mineur et d'intérêt restreint. Certains font preuve vis-à-vis
d'elle d'un complexe de supériorité qui impressionne beaucoup de géo
graphes parmi ceux qui sont le moins assurés dans leur spécialité. De fait,
les relations entre les géographes et les autres ^cientifiques sont moins
dans les rapports de discipline à discipline que d'ordre persormel, et presque
à sens unique. Alors que bon nombre de géographes physiciens publient
dans les revues de sciences de la Terre et fréquentent des associations ~
comme la Société géologique de France, peu de géologues éprouvent le
besoin d'assister, par exemple, aux séances de FAssociation de géographes
français, peu lisent ou citent les travaux publiés dans les revues de géo
graphie et pratiquement plus aucun n'y écrit.
Un gros effort pluridisciplinaire reste à faire, qui briserait Fisolement
et Pindividualisme dans lesquels se complaisent la plupart des chercheurs.
II est encouragé en partie par des revues internationales multilingues comme
Catena ou comme la Zeitschrijt jür Géomorphologie. Malheureusement
^
les articles d'auteurs français y sont encore três rares. II est encouragé
aussi par Padministration de la recherche, mais souvent plus formellement ^
qu'efficacement31. L'expérience montre pourtant que, quand de tels contacts
sont établis, les géographes ne sont pas nécessairement de simples deman-
deurs. Ils savent aussi fournir une contribution appréciable à la recherche
non géographique et lui apporter de nouveaux sujeis de méditation.
21. Le découpage des sections du C.N.R.S., par exemple, gene fréquemmcnt certaines
initiatives, et beaucoup de recherches coopératives sur programme 0*-C.P.), qui sont
proposées à plusieurs sections, se retrouvent fmalement soutenues par une scule.

154

104

%
P

P
0
P
0

LA GÉOGRAPHIE N*EST-ELLE QU'UNE SCIENCE HUMAINE ?


r

Mais le plus dur obstacle à surmonter reste sans aucun doute cerni des
mentalitês des utilisateurs potentiels de la géographie et des employeurs
éventuels de géographes. Les convaincre n'est pas une mince affaire, et
il est des pesanteurs qui s'attachent aux noms mêmes des choses. Les géo
graphes physiciens, par exemple, souffrcnt à cet égard de la réputation
intellectuelle et humaniste des études de géographie comparée au positi-
visme recherche dans les écoles d'ingénieurs. En outre, la plupart se pré-
r
sentent, de par leur scolarité, à un niveau d'empIoi considere comme trop
élevé au regard des besoins les plus courants : trop de docteurs ou d'ingé-
nieurs par rapport aux techniciens, supérieurs ou non. Même si de gros
efforts sont faits ici ou là pour briser ces contraintes, le problème est
encore loin d'être réglé. Une amélioration sensible de la formation des
géographes et de la production géographique technique ainsi qu'une
patiente information des milieux professionnels sont nécessaires. Mais elles
0 ne seront pas pour autant suffisantes, car les forces d'inertie sont considé-
rables. Une réussite, même partielle, dépendra moins de la valeur
d'exemplcs isoles que d'un changement profond dans les institutions.

0
Changer les institutions
P
0 Un premier pas serait de sauvegarder la place de la géographie dans
Fenseignemcnt secondaire. On n'en prend pas le chemin dans la mesure
0
oü les plus hautes instances ministériellès non seulement ne Font pas en
P vue, mais encore y semblent hostiles. De toutes façons, cet enseignement
0 devrait être profondément rénové. Le problème est de savoir s'il faut le
conserver sous le nom de géographie ou le diluer d'une part dans un
enseignement de sciences naturelles (ou d'« écologie» ?), d'autre part
dans un enseignement de sciences sociales. Encore une fois, je pense qu'ó
ce niveau une certaine unité de la discipline géographie devrait être pré-
servée. Au moins pour deux raisons : la première parce qu'il reste fonda-
mental que quelqu'un montre aux élèves les interréactions entre le milieu
biophysique et Foccupation humaine; la seconde parce qu'il est nécessaire
•^
155
r
0

f 105
0
r
r
p
r
de former à cet effet des maitres compétents, donc instruits dans cette
manière de voir. Or ce maítre ne peut être ni Fhistorien (comme actuel-
Iement dans les trois quarts des cas), ni Féconomiste, ni le sociologue, ni
le naturaliste : il n'y a pas d'impudence à dire que c'est la vocation et
même la raison d'être du geographe que d'exercer cette fonction. Quant à
1'enseignement même, il devrait abandonner le système des tiroirs separes
et se regrouper autour de thèmes mixtes comme ceux préconisés par FAs-
sociation française de géographie physique pour la classe de seconde.
Ce point de vue unitaire de Ia géographie pourrait se continuer encore
dans le premier cycle de 1'enseignement supérieur et, pour les futurs ensei-
gnants, jusqu'à Fagrégation. A condition bien sür d'aménagements origi-
naux qui briseraient les carcans administratifs qui enferment les disciplines
dans un « ordre littéraire » et un « ordre scientifique ». Les débats de 1968
et même Ia loi d'orientation de 1'enseignement supérieur avaient préconisé
Finterdisciplinarité. On sait ce qu'il en est advenu dans la pratique. II faut
faire notamment sauter Fassociation privilégiée sinon obligatoire de la
géographie avec Fhistoire et autres sciences humaines. Cette association,
qui est une possibilite, ne doit plus être la seule. L'accès des bacheliers
scientifiques dans les cursus de géographie pourrait en être encouragé.
L'étudiant doit pouvoir largement, pour un tiers au moins de son temps,
s'adonner à d'autres disciplines, par exemple la physique, la chimie ou
la biologie, susceptibles d'enrichir son outillage intellectuel et technique,
et de compléter sa formation. II est inique, à Finverse, que la géographie
ne figure même pas, au même titre que la sociologie ou Féconomie, comme
matière à option dans le D.E.U.G. des sciences de la Terre et de la vie !
II y aurait aussi beaucoup à dire sur Ia conception de Fagrégation; mais
cela est un autre problème.
Par contre, au niveau de la formation des chercheurs et des profession-
nels, Funité d'enseignement ne se justifie plus. Mon opinion personnelle
est qu'elle est même néfaste en ce qu'elle ne permet pas la qualification
nécessaire. Une licence et une maitrise de géographie physique, ainsi qu'un
troisième cycle avec un D.E.A. et un D.E.S.S., sont indispensables. Cela
existe, il est vrai, mais en trop peu d'endroits et au prix de quelles dif-
156 ^

106
0
P
P
P
P

P
LA GÉOGRAPHIE N'EST-ELLE QU'UNE SCIENCE HUMAINE ?

ficiles et hasardeuses démarches. De toutes manières cette orientation


devrait pouvoir bénéficier des moyens qui sont ceux des autres disciplines
f
scientifiques, aussi bien en ce qui concerne le recrutement des étudiants,
Péquipement et le fonctionnement des écoles de terrain et des laboratoires
P
qu'en ce qui concerne le label scientifique des diplomes délivrés ". L'iné-
0 galité actuelle ne joue pas seulement au sein de FUniversité : elle rend
plus difficiles et plus aléatoires les demandes d'aide matérielle au Plan,
au C.N.R.S. ou à la D.G.R.S.T.; elle pese même sur la conception et sur
f- la réalisation des publications et des thèses".
Cest à cette défense et promotion d'un secteur important et original de
p la géographie que répond la création recente de FAssociation française de
géographie physique:|. Elle s'adresse à tous ceux qui se sentent concernes
P
par la géographie physique. Elle ne doit pas être recue comme une marque
cFhostilité ou comme un instrument de scission. Chacun doit avoir
conscience que quiconque parle pour la géographie physique parle aussi
pour la géographie tout entière.
0

Conclusion

r
L'effacement relatif de la géographie ne peut pas être impute aux seuls
non-géographes. Les géographes aussi ont leur part de responsabilité. La
rclégation de la géographie physique, Fancrage de plus cn plus exclusif
de la géographie aux sciences humaines en font partie. Est-il encore pos-
0
P
22. Actuellcmcnt 1'inégalité est la règle, et pas seulement sur le plan financicr. J'ai,
dans un même cursus de Paris VII, des étudiants géographes et d'autres provcnant des
départements d'cnvironncmcnt et de sciences de la Terre. Les premiers n'ont pas droit,
par exemple, aux sursis du service national dont bénéficient les seconds. De mCmc, s'ils
se présentent pour un emploi. leur label a littéraire » est un séricux handicap par rapport
à leurs camarades. II y a de quoi décourager pas mal de vocations.
23. Une partie des géographes physiciens ont pour toutes ces raisons, scientifiques et
matériellcs, rejoint au C.N.R.S. les sections des sciences de la Terre et de la vie.
r> 24. A.F.G.P., 191, rue Saint-Jacqucs, 75005 - Paris.

157

P
P
0
107
0

0
sible de parler d'« unité de la géographie » ? Sans doute si on se place
au niveau collectif d'un point de vue géographique. Sans doute aussi si
on considere la necessite d'un enseignement et d'un discours géographiques.
Certainement pas au niveau de la recherche ou d'un métier.
La géographie physique s'inscrit três bien dans ce schéma comme science
de la répartition, à la surface du globe, des phênomènes physiques et bio-
logiques et de leurs combinaisons, ainsi que des causes et conséquences de
cette répartition. Je ne suis pas sür que les discussions épistémologiques
n'ont pas introduit une certaine confusion dans un domaine qu'elles pré-
tendaient clarifier, et qui n'a rien d'obscur. La géographie physique a un -1
objet, des méthodes et un role qui sont faciles à definir. Encore faut-il en
convaincre les autres. •

L'objet de la géographie physique c'est, à la surface (F « épiderme ») de


la Terre et dans le temps présent (en y comprenant les héritages et les poten-
! tialités), 1'étude des combinaisons (equilibres) de phênomènes d'ordre
physico-chimique et biologique, dans leur extension spatiale (ce qui est le
point de vue spécifiquement géographique quelle que soit Fétiquette de
Fopératcur), leur gênêralisation (par comparaison) et dans la recherche
de leurs lois (qualitatives et quantitatives).
Comme dans toute science, la recherche en géographie physique neces
site à la fois une analyse approfondie et un retour périodique à une vue
plus globale des choses. D'oü Foscillation, selon les moments et les per-
m
sonnes, entre deux pôles apparemment contradictoires : Fémiettement des
spécialités ou Fencyclopédisme. La première attitude implique des connais-
sances théoriques et pratiques três poussées et la pénétration dans des
domaines non géographiques, soit par Fintermédiaire des autres chercheurs,
soit directement si ces autres chercheurs se dérobent faute de temps ou
d'intérêt. La deuxième attitude, dans les conditions actuelles, necessite le
travail en equipe. Dans les deux cas, Favancement de la recherche justifie
Futilisation de méthodes appropriées qui peuvent être três diverses :
méthodes générales d'inventaire (leves sur le terrain, télédétection),
méthodes géographiques proprement dites (cartographie), méthodes natu-

m
.-V

#
108
P
0
P
r
e LA GÉOGRAPHIE N'EST-ELLE QU'UNE SCIENCE HUMAINE ?
p
ralistes (observation, comparaison, classification), méthodes expérimentales
(laboratoire), méthodes mathématiques (statistique, informatique), etc.
Quant au role scientifique de la géographie physique, il est double :
1. élaborer des resultats propres, dégagés de tout anthropocentrisme, se
rapportant exclusivement aux objectifs ci-dessus mentionnes, mais avec
Faide des sciences voisines alors considérées comme « auxiliaires » ; 2. four-
p
nir aux autres disciplines, y compris la géographie humaine et le génie
p
civil, des informations élaborées qui puissent être incorporées dans les
recherches voisines et, au besoin, en collaboration avec elles.
La géographie en general, et la géographie physique en particulier, ont
trop souvent été définies négativcment, par les limites qu'on a voulu leur
assigner. Mais il faut se méfier des limites. Un chercheur qui s'interdit un
axe d'exploration stérilise sa recherche. Par ailleurs, le geographe est
Fhomme de la dimension spatiale. Fait donc de la géographie quiconque,
même non geographe, prend en compte cette dimension : nul ne s'offusque
d'être phytogéographe ou paléogéographe. Donc la géographie ne peut pas
p
être exclusivement humaine, ni se contenter de décrire des « paysages »
visibles sans les analyser à fond.
Ainsi, géographie physique et géographie humaine sont deux volets
d'une même discipline, desservis par un même esprit, mais avec chacune
leurs objectifs propres, leurs méthodes spécifiques, leurs perspectives
modernes (expérimentation, quantiíication, traitement numérique ou modé-
lisation, télédétection) et leur champ d'application.
0
0 En raison du cloisonnement administratif et universitairc des différentes

0
sciences, la géographie physique est mal à sa placc dans les « sciences
humaines». Cela ne Fempêche pas d'être de Ia géographie. II suffirait de
la décloisonner d'une strueture qui Fentrave au niveau du recrutement,
des moyens et des liaisons scientifiques. Après tout, il y a eu et il y a encore
des chaires et des laboratoires de géographie physique dans les facultes
des sciences : ça devrait être plus facile dans les universités « pluridisci-
plinaires ». L'« unité de la géographie» n'y perdrait rien sur le plan
scientifique, bien au contraire.
Fernand Joly

f
r
109
r

0 .
9
p
TEXTO 5

OS FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA MODERNA


GEOGRAFIA FÍSICA*
é
.. A. GRIGORIEV
P

p
Nota do Tradutor A A Grigoriev, um dos mais importantes geógrafos da ex-URSS
p
(atual CEI) e membro da Academia de Ciências daquele país, é responsável por uma
p vasta e significativa produção científica na área da Geografia Física. Ele e outros
expoentes cientistas rassos, como Gerasimov, Afanasiev, Sotchava, Kalesnik e Snytko,
formam o que chamamos de "escola russa", que trouxe uma enorme contribuição à
r* sistematização, metodologia e técnicas à moderna Geografia Fisica. Para estes autores, a
Geografia Fisica se constitui em ciência autônoma que apresenta métodos, linguagem e
leis próprias, o que não significa que deixe de integrar o rol das "ciências geográficas".
Este artigo de Grigoriev foi originalmente publicado em Moscou, em msso, e
em inglês na edição do "The Interaction of Sciences in the Study of the Earth", em
1968, numa coletânea de contribuições metodológicas em Geociências. Mesmo
passados 25 anos de sua publicação original, permanece um artigo atual e relevante.

1 - O Estrato Geográfico da Terra

O estrato geográfico da Terra compreende a crosta, a baixa atmosfera


(troposfera c parte da estratosfera), hidrosfera, regolito (manto do solo),
cobertura vegetal ereino animal. É uma das camadas básicas da Terra que difere
daquelas que se situam abaixo e acima da superfície e na qual se incluem
r
materiais nos três estados agregados. Seu processamento advém de fontes
energéticas cósmicas e terrestres (nas outras camadas o processamento é
produzido, principalmente, por uma ou por outra); é o único estrato que
sustenta a vida, habitat da sociedade humana Os anos recentes têm sido
marcados pela penetração do homem nos limites superiores do estrato
geográfico, rumo ao espaço exterior. Atualmente, o homem cava poços
profundos com o propósito de penetrarnos limites interiores.
f
Estudos sobre as partes componentes do estrato geográfico têm
revelado que a sua estrutura e evolução são tão profundamente interconectadas
e inter-relacionadas que formam um todo inseparável, um peculiar fenômeno
r

"Traduzido do inglSa por João Lima SanfAnna Neto, Professor do Departamento de


Ciôncius Ambientai . R T/UNESP/PP
r

;
P
P
natural, com leis próprias de estrutura e evolução.
Tendo se originado e evoluído na superfície do planeta, o estrato
geográfico tem ligações geneticamente inseparáveis com a superfície da Terra,
aberta à radiação solar. Devido à prevalecência das condições hidrotérmicas e
geoquímicas, o estrato geográfico, que no princípio
era desprovido de vida, tomou-se, com o tempo, uma arena para a origem e
evolução da vida, que adicionou às suas partes componentes o regolito, a
cobertura vegetal e o reino animal. Isso alterou radicalmente sua composição
geoquímica, enriquecendo-a com oxigênio (o que é especialmente importante) e
muitas outras substâncias.
Os limites do estrato geográfico não são definidos e representam zonas
de transição. Assumimos que o limite superior atravessa a estratosfera, até algo
próximo à camada de concentração máxima do ozônio, a mais ou menos entre
20 e 25 km acima da superfície. Abaixo, a atmosfera se apresenta num contínuo
movimento turbulento devido à sua interação com os continentes e oceanos:
acima do limite, estes movimentos desaparecem rapidamente. A radiação solar,
de sua parte, perde os excessos letais dos raios ultravioletas ao atravessar a
camada de ozônio, e sua composição se aproxima daquela observada na
Iroposlera.
O limite inferior do estrato geográfico não fica muito abaixo da crosta
terrestre, em uma camada subcrostal, onde as altas temperaturas e as grandes
pressões que agem sobre estas massas tomam-nas mais plásticas do que a
crosta, embora ainda exibindo as propriedades de um sólido.
As interações entre os processos tectônicos de fonrtação do relevo na
crosta e os processos verificados nas regiões suberostais, diminuem
rapidamente na camada superior destas últimas, por onde passa o limite inferior
do estrato geográfico. Ela se situa, aparentemente, um pouco abaixo da camada
sísmica de "Mohorovici", onde as ondas sísmicas longitudinais alteram
abruptamente sua velocidade, indicando uma mudança aguda nas propriedades
físicas das rochas.
O estrato geográfico apresenta uma estrutura semelhante a uma série de
camadas empilhadas, cujos componentes se interpenetram consideravelmente e
; é caracterizada pelo complexo natural das diferenciações regionais.
Do ponto de vista da energia, ele pode ser dividido em duas camadas: a
exterior, onde a energia solar é a principal fonte de calor, e a interior, onde o
calor é gerado por decomposição radioativa e processos análogos. O limite entre
elas ultrapassa algumas dezenas de metros abaixo da superfície (15 a 30 metros
nas zonas moderadas). A parte litosférica do estrato geográfico também pode ser
dividida em várias camadas.

306 72
112
produz ciências limítrofes que gravitam no sistema físico-geográfico do
ciências^)

4 - Os Fundamentos Teóricos das Ciências Físico-Geográficas

A Geografia Física, como se apresenta hoje, começou a tomar forma nu


• virada do século, quando V.V. DOKUCHAYEV enunciou duas leis OaiCO
I geográficas fundamentais: 1 - a lei de um ambiente geográfico integral c
continuo, isto é, a mútua interdependência de todas as suas partes componente
• (litosfera, baLxa atmosfera, hidrosfera, regolito e biosfera); 2 - a lei das áreafl
geográficas.
Ao postular a integridade e a indivisibilidade do ambiente geográli' i
DOKUCHAYEV deixou de definir os processos naturais específicos que
* formam as bases do desenvolvimento integrado de seus componentes. Mflifl
4 tarde, o mesmo autor demonstrou que as interconexões, interações c min
% relações entre os componentes do estrato geográfico da Terra são todoa
baseadas em um intercâmbio de matéria e energia entre si, e entre o estrato
« geográfico e os elementos do universo, especialmente a radiação solar, de um
lado, c as massas sub-crostais com suas fontes de energia, de outro.
Para chegar a estas conclusões, o autor se baseou, em muitos aspectos,
: nas pesquisas de V.I. VERNADSKY, que demonstiou, principalmente nu

(1) Nota do Tradutor: Tanto GRIGORIEV quanto AFANASIEV, entendem poi


"sistemas de ciências", uma combinação de ciências estreitamente relacionadas, qUfl
estudam leis similares. Por outro lado, os mesmos autores, distinguem estes "mi ma
de ciências" de "complexo de ciências" que significaria uma estreita combinava" <ln
ciências afins, que estudam diferentes categorias de leis.
Dela surgiram novas disciplinas, como a geografia química (ou geoquiim. a
topográfica), a escola geofísica da Geografia Física,etc.
A Geografia Fisica está mtimamente relacionada com a Geografia EconAmi< i
seus ramos, à medida que: a) a economia tem que desenvolver condições ruituniii
específicas que a afetam de uma maneira ou de outra; b) a exploração de recui
naturais é parte essencial da produção; ec)a produção social está relacionada com "
tiansfonnação da natureza espontânea ou planejada, para assegurar, na medida (Io
possível, a reprodução de recursos.
Porestas razões, o estrato geográfico só pode ser estudado com êxito, quailt \i •
<>•; eleitos do modo de produção da sociedade humana na natureza são plenami IMi
levados em conta. Cadn iimii das ciência*, geográficas (a geografia fisica, u econômíi a)
recorre o métodos especifico* dl btVâltigQÇfto «<>murn a todas elas, é que rins devem
i>miii du noçflo do estralo gtogrifli o i u ntidede otlmtundinentfl complexa

radiação na superfície e no total anual de precipitação Os cinturões climáticos


verticais nas montanhas variam, dependendo das mudanças verticais das
condições hidrotérmicas análogas às que servem de base á regionalização
honzontal. Os sistemas de regionalização vertical nas montanhas combinam
naturalmente com as áreas horizontais ao pé das montanhas
As áreas geográficas são geralmente bastante extensas As mais típicas
delas são alongadas, e suas características externas usualmente determinadas
pela natureza da vegetação, da qual deriva comumente seu nome. Áreas
geográficas encerram paisagens geográficas que se agrupam de diferentes
modos. Estes grupos são os mais diversificados e de estrutura mais complexa do %
estrato geográfico de uma dada área.
Paisagens geográficas, que em última análise constituem o sistema
integrado de regiões naturais de planícies e montanhas, são manifestações *
locais das leis gerais físico-geográficas associadas às características locais do
relevo, da litologia, meso e microclima, do regolito e outros fatores
semelhantes. As paisagens se desenvolveram como resultado de interações das
dinâmicas da camada externa do estrato geográfico e sua camada subterrânea.
Um estudo comparativo das áreas geográficas da Terra revela que elas
constituem um sistema natural, baseado em alterações no índice anual de
radiação na superfície em territórios imtimamente interligados (que pouco
diferem, apenas no índice de radiação no período vegetativo), no total anual das
precipitações e nas proporções entre o nível de radiação e as precipitações
anuais, expressas em termos de unidades de calor, isto é, calonas necessárias
para a evaporação da pluviosidade anual
Essa razão R/Lr, onde R é o total anual de radiação superficial, L é o
calor latente de evaporação e r as precipitações totais anuais, tem sido chamada
de "índice de aridez de radiação"
As investigações revelam que as fronteiras das áreas geográficas
possuem íntimas relações com o índice de aridez da radiaçào e com o total de
radiação superficial. As relações desses parâmetros com as características do
regime hidrológico, da cobertura vegetal e do regolito para toda a superfície
terrestre do globo foram estabelecidas e estudadas
Uma comparação de dados da distribuição geográfica da radiação total e
das precipitações com a geobotánica mundial e mapas do solo. confirma que.
para cada zona latitudinaL observou-se uma correspondência definida entre as
fronteiras de áreas naturais e as faixas de índice de aridez da radiação Ao
mesmo tempo descobriu-se que idênticos índices de aridez da radiação em
diferentes zonas latitudinais correspondem a áreas naturais que mostram
marcante similaridade no que diz respeito a certos aspectos importantes Em

•i

118

J
31 o"'
116
p
p
p

p conseqüência, indo de uma zona latitudinal para outra (o que corresponde ti


p mudanças no balanço de radiação, isto é, nas bases da energia térmica de
0> processos naturais) através de áreas naturais correspondentes a mudanças raia
condições de umidade, semelhantes aspectos ocorrem periodicamente ao ledo
de diferenças devidas a mudanças nas condições de energia térmica.
P Uma representação esquemática generalizada da lei periódica de
regionalização é apresentada no Quadro I Dele podem-se tirar certas
conclusões teóricas; notadamente, todas as graduações da umidade silo
0 caracterizadas por mudanças nãc apenas no tipo, mas também na produtivtchdr
0 da cobertuta vegetal e produção de material biológico Além do mais. cadfl
P coluna do Quadro corresponde a uma seqüência definida de mudanças nos ti]
P de solos, os quais possuem aspectos apreciavelmente semelhantes em umu
P mesma coluna
P Dados disponíveis dão base suficiente para encarar (de acordo com o
esquema acima) a seqüência periódica de áreas como uma lei geral abarcando
r ambientes geográficos como um todo e a maioria expreissiva dos proec.v.
físico-geográficos fundamentais (ver Quadro I).
P O Quadro de áreas geográficas indica que o grau de intensidade dos
r processos flsicos-geográficos c a produtividade correspondente doa
p componentes bióticos, é o de mais alto valor para o balanço anual da radiação
superficial e de melhor avaliação para a unidade do índice de aridez du
p radiação, quando a umidade do solo é óptima para o desenvolvimento dn
p cobertura vegetal Assim, para um índice de aridez de 0,8 a 1 na sub-área «!>•
p florestas deciduas da zona temperada, o incremento anual da cobertura vegetal
p natural acima do solo é de aproximadamente 5.6 toneladas métricas de matél itl
vegetal seca por hectare, enquanto na floresta tropical de áreas alagadas, é de dn
p a 50 toneladas por hectare
0 Com uma redução no índice de aridez, por um aumento excessivo da
umidade no solo (para 0,45 e menos), assim como um fator que eleva a árido?
pela maior deficiência de umidade (3 ou mais), o rendimento da cobeiiuu
0 vegetal natural cai para 0,4 toneladas por hectare na região semi-desértica do
Ártico ou nos desertos semi-arbustivos da zona temperada, ou ainda menor 11
desertos tropicais e subtropicais.
0
Todos os dados apresentados confirmam que existe uma unidade
r
interna da estrutura e desenvolvimento da camada exterior do estrato geográfico,
P
que se estende por todas as áreas; ao mesmo tempo, confirmam a unidade de
todas as regiões naturais que as constituem, por maior que sejam fUfifl
p diferenças superfk

p
P

P
p
t

Descobriu-se, recentemente, que a produtividade da cobertura vegetal


natural é maior onde os solos recebem um supnmento óptuno de água, isto é.
onde o regime de água assegura ao solo uma quantidade suficiente de umidade
na maior parte do ano, para que a transpiração da cobertura vegetal se processe
contmuamente, enquanto que, ao mesmo tempo, a quantidade de água não seja
tão grande a ponto de impedir o curso normal do processo de aeração do solo
As investigações revelam que tal regime de umidade do solo contnbue
para a fotossíntese e assegura a remoção rápida e completa de assimiladores
oriundos das folhas, acumulação que retarda o funcionamento da clorofila
Tudo isto é de grande valor tanto pratico quanto teórico, na medida em que
revela a essência do mecanismo natural que opera na cobertura vegetal e pode
ser usado para incrementar a produtividade da vida tanto da planta natural f
quanto da cultivada. -i
Duas importantes conclusões podem ser tiradas das leis de estruturas
diárias e da diferenciação territorial da geosfera l dando mais ou menos
valores similares de calor da radiação, o grau de saturação do estrato geográfico, 9
devido à umidade e aos componentes biológicos, a diversidade de sua dinâmica
e composição é tanto maior quanto mais próximo da unidade, o índice de aridez #
(tendo-se em conta o passado geológico da região). 2. dando mais ou menos
valores similares ao índice de radiação das regiões andas (com raras exceções),
o grau de saturação é maior quanto maior o balanço anual de radiação da
superfície tenestre, também levando-se em conta o passado geológico
9
9

7 - As Ciências Físico-geográfícas e os Requisitos Práticos 9


9

O tema e as tarefas das ciências fisico-geográficas. acima mencionados.


revela que. como regra, elas investigam os fenômenos naturais de considerável
importância para a expanção da produção Elas estudam leis. conhecimentos e
Utilizações para a solução correta de muitos problemas práticos Esta 9
aplicabilidade prática tem sido sempre de especial unportância para o
desenvolvimento das ciências geográficas
Ao mesmo tempo, seu valor prático cresce à medida que elas se
desenvolvem. Seu papel, em particular, é especialmente grande nos paises
socialistas em condições de economia piamficada e exploração e
desenvolvimento planejado dos recursos naturais, na utilização de terras
ornvcis. técnicas agronômicas diferenciadas, no combate á erosão c solos ándoa,
no desenvolvimento da irrigação e supnmento de água em regiões secas, etc, na I
120

m
produz ciências limítrofes que gravitam no sistema físico-geográfico dti
ciências^')

4 - Os Fundamentos Teóricos das Ciências Físico-Geográficas

A Geografia Física, como se apresenta hoje, começou a tomar forma nu


virada do século, quando V.V. DOKUCHAYEV enunciou duas leis Qai<
geográficas fundamentais. 1 - a lei de um ambiente geográfico intc$
continuo, isto é, a mútua interdependência de todas as suas partes componcnl
(litosfera, baixa atmosfera, hidrosfera, regolito e biosfera); 2 - a lei das érettl
geográficas.
Ao postular a integridade e a indivisibilidade do ambiente geográfíi i
DOKUCHAYEV deixou de definir os processos naturais específico:» que
formam as bases do desenvolvimento integrado de seus componentes. Moiü
tarde, o mesmo autor demonstrou que as interconexões, interações c intei
relações entre os componentes do estrato geográfico da Terra são todo
baseadas em um intercâmbio de matéria e energia entre si, e entre o estrato
geográfico e os elementos do universo, especialmente a radiação solar, de um
lado, e as massas sub-crostais com suas fontes de energia, de outro.
Para chegar a estas conclusões, o autor se baseou, em muitos aspectos,
nas pesquisas de V.I. VERNADSKY, que demonstrou, principalmente, no
(l) Nota do Tradutor: Tanto GRIGORIEV quanto AFANASIEV, entendem poi
"sistemas de ciências", uma combinação de ciências estreitamente relacionadas, ÇUfl
estudam leis similares Por outro lado, os mesmos autores, distinguem este-, "sisl ma
de ciências" de "complexo de ciências" que significaria uma estreita combinarão i\o
ciências afins, que estudam diferentes categorias de leis.
Dela surgiram novas disciplinas, como a geografia química (ou geoquln
topográfica), a escola geofísica da Geografia Física, etc.
A Geografia Fisica estáintimamente relacionada com a Geografia Econôml i
seus ramos, à medida que: a) a economia tem que desenvolver condições naturaii
específicas que a afetam de uma maneira ou de outra; b) a exploração de reeiu
»
naturais c parte essencial da produção; cch produção social está relacionada c n
tiansfomiaçao da natureza espontânea ou planejada, para assegurar, na niedidn do
possível, a reprodução de recursos.
Por estas razões, o estrato geográfico só pode ser estudado com êxito, guando
os efeitos do modo de produção da sociedade: humana na natureza são plenamente
Icvwlos em conta Cada uma dai ciências geográficas (a geografia física, a ceou.Mim ..•
recorre a métodos específicos dn InVOStigaçAo <'omum a todas cias. è que elnn devem
pailu dn nocftodo estralo gOOgrifi ••»• •entidade estruturalmente complexa.

Descobriu-se, recentemente, que a produtividade da cobertura vegetal


natural é maior onde os solos recebem um supnmento ópümo de água, isto é.
onde o regime de água assegura ao solo uma quantidade suficiente de umidade
na maior parte do ano, para que a rranspiração da cobertura vegetal se processe
contmuamente, enquanto que, ao mesmo tempo, a quantidade de água não seja
tão grande a ponto de impedir o curso normal do processo de aeração do solo •

As investigações revelam que tal regime de umidade do solo contnbue


para a fotossíntese e assegura a remoção rápida e completa de assimiladores
oriundos das folhas, acumulação que retarda o funcionamento da clorofila
Tudo isto é de grande valor tanto pratico quanto teónco. na medida em que
revela a essência do mecanismo natural que opera na cobertura vegetal e pode
ser usado para incrementar a produtividade da vida tanto da planta natural
quanto da cultivada.
Duas importantes conclusões podem ser tiradas das leis de estruturas
diárias e da diferenciação territonal da geosfera 1 dando mais ou menos
valores similares de calor da radiação, o grau de saturação do estrato geográfico,
devido à umidade e aos componentes biológicos, a diversidade de sua dinâmica
c composição é tanto maior quanto mais próximo da unidade, o índice de andez
(tendo-se em conta o passado geológico da região). 2. dando mais ou menos
valores similares ao índice de radiação das regiões andas (com raras exceções),
o grau de saturação é maior quanto maior o balanço anual de radiação da
superfície terrestre, também levando-se em conta o passado geológico

7 - As Ciências Físico-geográficas e os Requisitos Práticos

O tema e as tarefas das ciências físico-geográficas. acima mencionados,


icvcla que, como regra, elas invesügam os fenômenos naturais de considerável
importância para a expanção da produção Rias estudam leis. conhecimentos e
mili/ações para a solução correta de muitos problemas práticos Esta
aplicabilidade prática tem sido sempre de especial importância para o 0
desenvolvimento das ciências geográficas
Ao mesmo tempo, seu valor prático cresce à medida que elas se p
desenvolvem. Seu papel, em particular, é especialmente grande nos países
socialistas em condições de economia piamficada e exploração e
desenvolvimento planejado dos recursos naturais, na utilização de terras
mávciR. técnicas agronômicas diferenciadas, no combate à erosão c solos áridos,
no desenvolvimento da irrigação c supnmento de água em regiões secas, etc, na

"ft314
I20
projeção de usinas hidrelétricas e na previsão das alterações de longo alcance na
natureza e no desenvolvimento econômico de áreas circunvizinhas, na
implantação de fenovias. rodovias, oleodutos e gasodutos e na construção de
aeroportos em condições naturais adversas; na construção de sistemas de
irrigação, de estruturas de melhoria das terras e canais de navegação; no estudo
de problemas da silvicultura, pesca, caça, elaboração de métodos de prospecção
mineral, etc.
Os planos de desenvolvimento econômico traçados pelo Programa do
Partido Comunista da União Soviética exigem, além de uma íntima cooperação
entre as ciências geográficas c a indústria, estudos mais detalhados das leis
geográficas necessárias para a solução coneta, em primeiro lugar, de problemas
ligados à eficiente localização geográfica das forças podutivas, à utilização mais
eficiente dos recursos naturais tendo cm conta sua preservação e reprodução, e
mudanças planejadas das condições naturais. Uma parte importante disso é o
trabalho direcionado para a alteração das condições climáticas.
Somando os avanços da geografia física dos últimos vinte anos, pode-se
notar que ela tem mudado de ciência caracterizadamente descritiva é cognitiva,
para uma ciência amplamente experimental e transformadora, essencial para a
alteração proposital das condiçõe naturais para benefício da economia e da
sociedade.
Hoje, o principal objetivo da geografia em todo o mundo, como
apontou I.P. Gerasimov, não c tanto "facilitar o pioneirismo em novas terras e
recursos naturais", como aconteceu até recentemente, mas principalmente
"proporcionar um serviço científico ao maior trabalho do homem dedicado à
utilização diversificada, e ainda mais intensiva dos recursos naturais já
descobertos e da transformação da natureza e da economia das regiões e países
já desenvolvidos".
Investigar esses problemas,' examinar os índices quantitativos
pertinentes à dinâmica e ao balanço de matéria e energia empregando métodos
desenvolvidos pela cibernética é de fundamental importância.
p

r TEXTO 6
P

Adriano Severo Figueiró


Eliane Foleto (Org.)
*
r
CAPÍTULO -1
0
0 UN PANORAMA IBERO-AMERICANO DE
P LA GEOGRAFIA FISICA

Maria Sala Sanjaume


r
p

Diálogos em Geografia Física


li
e

r
r
. D536 Diálogos em geografia física / Adriano Severo e
Eliane Foleto (org.). - Santa Maria : Ed. da
•• UFSM,
r
2011
208 p.: il.; 16x23 cm.

r
1. Geografia 2. Geografia física I. Severo,
Adrianc
II. Foleto, Eliane.
r
r CDU 911.2
ISBN 978-85-7391-141-1

Fichacatalográfica elaborada por Maristela Eckliardt CRB-10/737


Biblioteca Central - UFSM
r
r

123
CAPITULO 4

Í
UN PANORAMA IBERO-AMERICANO DE
LA GEOGRAFIA FISICA

Maria Sala Sanjaume

4.1 Introducción

Muchos de los aspectos que se van a tratar en este artículo sobre ciência bási
ca y epistemologia están entresacados dei Tema Geografia de la Enciclopédia
Digital EOLSS de la UNESCO titulada Encyclopaedia of Life-Support Systems,
dei que hc sido responsable y dentro dei que he escrito vários artículos. En este
artículo los textos que se resumen son los capítulos sobre Fundamentos de la
Geografia y sobre Teoria y Métodos en Geografia. La Enciclopédia puede con-
+1
sultarse en: www.eolss.net.
También se incluyen en este artículo algunos de los capítulos dei libro
sobre Teoria y Métodos en Geografia Física escrito por mi y por Ramón
Batalla. ^
En ei índice de temas tratados en la Enciclopédia (Tabla í), un aspecto
a considerar es la distribución que se ha hecho de los temas geográficos. En
primer lugar consideramos fundamental incluir tantos artículos sobre geo
grafia humana como geografia física, es decir dando a Ias dos ramas de la
geografia un tratamiento equivalente. En segundo lugar también pensamos
que era muy importante que se incluyeran dentro de un apartado propio
vários artículos sobre Geografia Técnica, aspecto tradicional de la geografia
y que consideramos fundamental con los nuevos avances actuales. No se han
incluído temas sobre Geografia Aplicada puesto que este aspecto entende
mos que forma parte de todos los temas geográficos, por Io que se pidió a los
diferentes autores que incluyeran esta temática en cada artículo, además de
que todo ei tema de Geografia Técnica puede también considerarse ciência
aplicada.

•»
*
124
p

p
^
p 78 Diálogos cm Geografia Fisica

Tabla í - índice de temas yautores enlaenciclopédia EOLSS sobre Geografia

* 6.14 Geography: SALA (SP)


6.14.1 Foundations of Geography: SALA (SP)
0 6.14.1.1 Main stages of the development: SALA (SP)
p 6.14.1.2 Theory and Methods in Geography:SALA (SP)
6.14.1.3 Geographical Education: GERBER.(AU)
6.14.2 Physical Geography: SLAYMAKER (CA)
p 6.14.2.1 Geomorphology: BREMER (DE)
6.14.2.2 Cümatology: KAZUKO URUSHIBARA-YOSHINO QA)
6.14.2.3 Hydro!ogy:SCARPATI(AR)
p 6.14.2.4 Biogeography: MEADOWS (SA)
p 6.14.2.5 Soil Geography:SALA. UBEDA & BERNIA (SP)
6.14.2.6 Coastal Systems:AGUSTINUS (NL)
p
6.14.2.7 Ocean Geography:VALLEGA (IT)
6.14.2.8 Mountain Geoecology: MESSERLI & IVES (CH.CA)
p
6.14.2.9 Natural Hazards:ALEXANDER (UK)
p
6.14.2.10 Land Degradation and Desertification: CONACHER (AU)
6.14.3 Human Geography: CARRERAS (SP)
6.14.3.1 Population Geography: FAUS & HIGUERAS (SP)
0 6.14.3.2 Cultural and Social Geography: CLAVAL (FR)
f 6.14.3.3 Geography of Agricultura:GILLMOR (IE)
6.14.3.4 Geography of Industries andTransporá: CONTI (IT)
6.14.3.5 Geography of Economic Activities: PARK (KO)
p 6.14.3.6 Urban Geography:AGUILAR (MX)
p 6.14.3.7 Medicai Geography: PHILLIPS (UK)
r 6.14.3.8 Political Geography: KOLOSSOV (RU)
6.14.3.9 Geography ofTourism: HALL (NZ)
P 6.14.3.10 Regional geography: BAILLY (CH)
6.14.4 Technkal Geography: ORMELING (ND)
p
r
6.14.4.1 Geodesy andTopography:ILLERT (DE)

P
6.14.4.2 Mapping and Atlas Production: ORMELING (ND)
«*- 6.14.4.3 RemoceSensing:VAN DERWEL (ND)
6.14.4.4 Geographical Information Systems:VAN DERWEL (ND)
6! 14.4.5 Modelling Geographical Systems: BAKER (AU)
0

p En la propuesta inicial de EOLSS se define la Geografia como ei estúdio


r de la superfície de la tierra. Como tal, es ei estúdio de la litosfera, hidrosfera,

P
r -

p 125
r
9

^
Àfíirirt Sala Sanjaume 79

biosfera y atmosfera, especialmente en relación a su aportación sobre Ias con


diciones que se rcquieren para mantener la vida humana. Se considera que
Ia Geografia contempla Ia colaboración entre ciências naturales y ciências so-
ciales, ei estúdio dei território natural, económico-social y territorial de los
9
fenômenos y sus componentes. Por ejemplo, en un tema tan actual como ei
de la desertificación la geografia estudiará los aspectos físicos y los sociales,
investigando tanto los efectos sobre ei suelo y la vegetación como Ias causas
relacionadas con la pobreza o la mala gestión dei território.
LaGeografia es un área muyantigua dei conocimiento humano, por Io que
a veces se la ha llamado "la madre de Ias ciências". Si bien está estrechamente
relacionada con la historia, también Io está con Ias ciências de la tierra. Con ei
tiempo la geografia ha pasado por un proceso de diversificación, relacionado
con su crecimiento, por una parte hacia una más profunda investigación de los ,«=,
diferentes componentes dei médio físico, y por ei otro lado de los componen
tes dcl sistema humano o socio-económico. Por tanto puede considerarsc que
la geografia tiene muchas utilidades puesto que combina los conocimientos
básicos dcl mundo natural con Ias complejas interrelaciones humanas con la ~

naturaleza. La geografia también promueve la sensibilización y conocimiento


ecológicos, Io cual estimula ei compromiso a proteger nuestro mundo.

#
4.2 La Geografia Física: definiciones y contenidos
9
Las definiciones clásicas de Geografia se refieren a ella como la disciplina que
trata de la tierra como morada de la humanidad, dei médio físico y de las in- #
teraccioncs entre este y la sociedad, de la organización espacial que todo ello
comporta. Por tanto la Geografia Física es, en primer lugar, una parte de la
Geografia puesto que estudia ei médio en que se desarrolla la actividad huma
na. Pero ai mismo tiempo, por los temas que trata, forma parte de las Ciências
Naturales. Se trata de una disciplina que engloba aspectos muy variados, y por
tanto tiene una gran diversidad interna. Ambos aspectos, la dualidad de raí- *•,
"•••

ces y la variedad temática determinan problemas que es necesario contemplar


Í
(Sala; Batalla, 1996).
Al tratar dei papel de la Geografia Fisica en los planes docentes Grcgory
(1985) define ei objetivo de la Geografia Física en la Universidad como una
preparación para que los estudiantes sean competentes en ei estúdio de los
problemas de la superfície de la tierra, y para que ello lleve a mejorar nuestra
comprensión de los procesos y sus efectos. Su campo de acción son ei es
túdio de las propiedades físicas de la superfície de la tierra, las cuales solo
pueden ser comprendidas y explicadas a través de la Física, la Química, la
Biologia y las Matemáticas.Según este autor la Geografia Física debería ser
9
ensenada a dos niveles, uno firmemente basado en Ciências para aquellos

9
9
126 A
80 Diálogos em Geografia Física

que quieran dedicarse a investigar especificamente en Geografia Física, y


otro basado en las ramas tradicionales de la disciplina (Geomorfologia,
Climatologia, Hidrologia, Biogeografía) para aquellos estudiantes que solo
necesiten conocer esta disciplina de forma complementaria y descriptiva.
Los orígenes de la Geografia se forjan en ei seno de las Ciências Naturales.
Recordemos que Humboldt, ei padre de la Geografia moderna, era un desta
cado naturalista alemán, como Io eran ei resto de hombres de ciência alemanes
creadores de la Geografia universitária. También ei norteamericano Davis, otra
piedra angular de la Geografia, procedia dei campo de las Ciências Naturales.
0 Y en Espafia, aunque muchos anos más tarde, los pilares de la Geografia fue-
0 ron hombres de ciências como Huguet dei Villar, Dantín Cereceda, Hernández
P Pacheco, Sole Sabaris. La situación actual es en muchos casos la inversa pues
to que ei conjunto de la Geografia se cultiva desde ei âmbito de las Ciências
P Sociales, lo cual puede plantear conflictos a la Geografia Física.
Sabemos que tradicionalmente la Geografia se ha basado en una amplia
r
visión dei mundo a escala global y regional, en ei estúdio de los paisajes, y en
la interrelación de los aspectos físicos y humanos. Sin embargo es innegable
P que desde las últimas décadas asistimos a un incremento de la especialización.
Paralelamente a la especialización se ha producido un mayor énfasis en ei es
P túdio de procesos dentro de todas las ramas, lo cual puede, hasta cierto punto,
P convertirse en un elemento unificador. Es ei caso dei estúdio de procesos en
0 sistemas integrados como la cuenca de drenaje, lo cual involucra la compren-
P sión de sistemas más amplios incluyendo la respuesta dei hombre y su impac
to. Estos estúdios agrupan muchos aspectos de la Geografia Física, implican
p
conceptos de estúdio integrado y tienen un interés creciente en los problemas
medioambientales.
Puede decirse que ei núcleo central de la Geografia Física ha sido tradi
P cionalmente ei estúdio dei relieve, con sus factores endógenos y exógenos. En
P segundo lugar aparece ei estúdio dei clima y de las águas. Esto lleva a algunos
P (Munoz, 1984) aplantear dos posiciones: ei reconocimiento deque la Geografia
Física es una amálgama artificial de ciências independientes y renunciar a la
P mítica unidad de la Geografia, o plantear la necesidad de elaborar una teoria y
unos métodos globales y verdaderamente geográficos, es decir conseguir una
Lntegración de sus componentes.
De hecho, aunque la tendência en Espana ha sido cn los últimos anos hacia
P
ei segundo delos aspectos (La Geografia Física Global ylaCiência dei Paisaje),
P lo cierto es que en un estúdio verdaderamente científico siempre debe haber un
r aspecto dominante, yq sealageomorfologia, ei clima, las águas o la vegetación,
e que pueda tratarse en profundidad yen base a la metodologia científica. Tanto
en ei campo de Ia investigación como en eide la docência cs necesario un aná-
Iisis riguroso de los detalles, ai que debe seguir ei intento de síntesis, de aplicar
losconceptos generales unificadores. Sin embargo, ei análisis dela constitución
r
p
p
r-
127
0
9

" Maria Sala Sanjaume 81

de cualquier disciplina pone de manifiesto que esta división interna en disci


plinas inconexas es más la norma que la excepción. En ei caso de las Ciências
Naturales, a las quepertenecela Geografia Fisica, solo hace falta ver los progra
9
mas de Geologia, Biologia o Física para darse cuenta queen todas ellas existen
9
especialidades. Y más aún, a partir de un determinado nivel, tanto en docência
como en investigación, aparecen subespecializaciones delas ramas principales. 9
En Geologia por ejemplo, en primer ciclo se imparten asignaturas que son 9
entre si totalmente diferentes, como cristalografia, pctrología,Jectánicar_pa-
kontología^sedimentologííuy estratigrafía. Y esta es solo una primera intro
ducción puesto que a nivel de segundo ciclo se profundiza en las diferentes
temáticas, como porejemplo en los cursos de petrología de rocas igneas, meta-
mórficas y sedimentadas. 9
En Biologia ei caso es parecido, con temas tan diversos como biologia ce
9
lular, animal, vegetal y humana, genética, microbiología, ecologia, fisiología
vegetal y animal, etc. También la Física contiene una gran diversidad interna
,pues la carrera secompone deasignaturas como electricidad, electrónica, ópti
ca, mecânica, cuántica, termología, geofísica, astronomia, astrofísica, etc. iQue
tendrá que ver la física nuclear con la física dei aire por ejemplo? Ysin embargo
ai final de su carrera los licenciados se consideran físicos.
Existen además campos científicos más modernos que se han desarrolla-
do como una amálgama de especialidades, y que ni tan siquiera constituyen
una licenciatura a nivel docente, como es ei caso de las Ciências dei Mar. En
ei Instituto de Ciências dei Mar de Barcelona, dentro dei Consejo Superior
de Investigaciones Científicas, conviven dos ramas distintas en procedência y
objetivos, la geológica y la biológica, cada una de cilas con sus consiguientes #
ramificaciones. 9
Así pues, tanto en la investigación como en la docência universitária, exis
ten temas y asignaturas con denominaciones concretas y específicas. Es por
tanto normal que también dentro de cada una de las disciplinas de la Geografia
Física existan diversidad de ramas y de enfoques.

4.3 Desarrollo dei pensamiento moderno en Geografia Física

9
Hay vários aspectos que iníluyen en ei pensamiento geográfico actual. Uno de
ellos es por supuesto ei bagaje histórico. Pero ei hecho de que la geografia sea
una disciplina acadêmica ha significado que ha estado influída por las princi
pales tendências intelectuales. 4%
<*

*>

128
^1
82
Diálogos cm Geografia Fisica

4.3.1 El contexto científico

El estúdio de los fenômenos físicos y sociales implica ei uso de ciertas cate


gorias de significado y de experiência. Por ejemplo, cuando dcscubrimos un
nucvo fenômeno sobre eicual no sabemos nada, generalmente la única manera
como podemos describirlo es en términos de similitud o dilerencia con algo
que ya conocemos. Por tanto todo nuevo conocimiento es entendido o inter
pretado a través de las lentes dei conocimiento pasado.
Las ideas de Darwin tuvieron un efecto profundo sobre ei conocimiento
científico moderno cn unaamplia gamadedisciplinas, incluyendo lageografia.
Sus ideas afectaron tanto la geografia física como la geografia humana, espe
cialmente en relación a la evolución, la supervivencia dei más fuerte y la cons-
trueción de modelos para explicar los procesos físicos y sociales. Los artículos
de Stoddart (1966) sobre ei impacto de Darwin en geografia y ei de Peet (1998)
sobre los orígenes sociales dei determinismo ambiental son ejemplos de este
hecho. También Livingstone (1992) en su libro sobre la tradición geográfica in-
cluye un capítulo sobrela evolución y losfundamentos de la disciplina en ei que
trata de la importância de Darwin en ei pensamiento geográfico. Un ejemplo
de como las ideas sobre la evolución fueron introducidas en geografia física en
losinícios deisigloXX son los trabajos de Davis, iniciados con eiartículo sobre
ei ciclo geográfico, publicado en 1899. La idea dei ciclo se basa en la clasifica-
ción genética de las formas dei terreno. Aunque Davis estableeió quelas formas
dei terreno dependen de la estruetura geológica, los procesos atmosféricos y ei
tiempo de actividad de los mismos, él considera que es ei tiempo ei elemento
que tiene un valor más práctico para la descripeión geográfica. En base a ello,
presenta un ciclo geográfico ideal en ei quelas formas evolucionan secuencial-
mente, de manera similar a los câmbios que se dan en las formas orgânicas. En
esta evolución ordenada hay un estádio inicial dejuveittud en cl que se forman
rapidamente los relieves, un estádio de madurez con mayores relieves y una
mayor variedad de formas, seguido de un período transicional de redueción dei
relicve que termina en un largo esladio de ancianidad con relieves muy suaves.
El ciclo se inicia de nuevo cuando movimientos tectónicos de Ievantamiento
vuelven ei relieve a un estádio de juventud.
En geografia humana la influencia de Darwin se centro en la selección na
tural y en las limitaciones que ei médio físico pone ai desarrollo de las socie
dades. Esto llevó a una visión determinista de la lucha por la supervivencia,
y las relaciones entre ei hombre y la naturaleza fueron centro de interés, y los
logroshumanos se explicaron como consecuencia de las condiciones naturales.
Se creyó que las sociedades naturales se parecían a los organismos animales y
que como ellos estaban fuertemente influenciados por las condiciones dei en
torno natural. Rateei se basó en estas ideas ai escribir, en 1882, un libro titulado
Antropogeografia o las influencias dei médio geográfico sobre la historia. De

129
Maria Sala Stiajaiiine 83

este punto devista determinista constituye un ejemplo ei trabajo deHuntington


de 1924 sobre ei caracterde las razas y la influencia sobre ellasdei médio físico,
la selección natural y cl desarrollo histórico.

4.3.2 El contexto institucional

Hay autores, como Johnston (1987) que consideran una disciplina acadêmica
como una sociedad en miniatura, con un sistema estratificado, unconjunto de
prêmios y sanciones, unaserie de burocracias, y un gran número de conflictos
interpersonales. Si bien una persona ajena a la Universidad puede percibir ei
trabajo acadêmico como objetivo, lo cierto es que se toman muchas decisiones
subjetivas, por ejemplo que estudiar y como, donde publicar los resultados de
la investigación, que ensenar, si hay que cuestionar ei trabajo de otros publica
mente, etc. Como en todas las decisiones humanas, se toman dentro de los con- 9
dicionamientos establecidos por una sociedad más amplia. La gran mayoría de %
los geógrafos acadêmicos son profesores de universidad o instituciones simi
lares, y se distinguen de otros geógrafos profesionales por su compromiso con
los três cânones básicos de Ia universidad: propagar, preservar y avanzar en ei
conocimiento. El avance dei conocimiento identifica a una disciplina acadêmi
ca, la naturaleza de su ensenanza se sigue de la naturaleza de su investigación.
Las principales formas de publicación de los resultados de las investigacio-
nes son las revistas científicas, que funcionan con procedimientos estándar para
revisar las contribuciones que reciben. Los manuscritos se someten ai editor, ei
cual buscaei consejo de acadêmicos cualificados en relación ei trabajo presenta-
do. Aunque ampliamente aceptado, hayque reconocer que esteprocedimiento se
lleva a cabo por personas humanas y que por tanto sus opiniones pueden estar
sesgadas o ser parciales, de manera que ei artículo puede ser rechazado por una 9
revista y aceptado por otra sin que haya sido alterado por sus autores. •
Algunos resultados de la investigación se publican en forma de libro por
companias comerciales para quienes ei interés principal es la rentabilidadentre
una amplia población estudiantil. El libro de texto puede ser innovador en la
manera en que ordena y presenta ei material, y puede beneficiarse de la re-
putación de su autor, pero generalmente no es un vehiculo para demostrar la
habilidad investigadora.
Los geógrafos piensan en la forma cn que lo hacen debido a las maneras 9
:
s en que se les ensenaa pensarsobreei mundo, lo cual a su vez surge de visiones 9
predominantes sobre como ei mundo puedeser conocido, cuales son los fines 9
apropiados dei conocimiento, y que clase de persones devicnen geógrafos. Si
9
bien los componentes científicos y humanistas han estado presentes durante
•*
mucho tiempo en geografia coexistiendo felizmente, ei conflicto surge de las
diferentes creencias y puntos de vista sobre los usos apropiados dei conoci 9
miento geográfico. 9
9
9

130 9
9
84
Diálogos cm Geografia Fisica

4.3.3 El contexto social

El conocimiento científico también se modela por ei contexto social cn ei se


produce. Esto sugicre que, más que pensar en la evolución de la ciência y las
ideas científicas como si tuvieran su propia lógica interna, la producción dei
conocimiento es un acto socialque debe ser entendido en su contexto. Pueden
encontrarse ejemplos de ello en todas las fases dei desarrolló dei pensamiento
geográfico. Por ejemplo, en ei siglo XIX, en Alemania Ratzel desarrolló una
teoria dei estado proponiendo que ei caracter y destino de un pueblo estaba
umbilicalmente ligado a un áreadefinida. En Estados Unidos ei punto de vista
de Ratzel fue propagado por Ellen Semple, quien lo utilizo para trazar ei curso
preciso de la historia americana, mientras que Huntington se fijó en ei clima
como ei principal orígen de la civilización. En todos estoscasos, así como en ei
determinismo de GriffithTaylor, loslazos constitutivos entre la teoria geográfi
ca y la perspectiva social se muestran claramente. Esto no significa que ei deter
minismo geográfico fuese una ideologia social, perosirve para recordamos que
las ideas y prácticas geográficastienen una historia social así como una historia
cognitiva. El marxismo también se ha convertidoen una epistemologia signifi
cativa que ha moldeado gran parte deipensamientogeográfico contemporâneo
en geografia humana. David Harvey ha tratado ei tema extensamente en mu
chos de sus artículos, en los que tratasobre la historia y condición presente de
la geografia bajo ei punto de vista dei materialismo histórico.

4.3.4 El contexto político

Se ha discutido mucho sobre como la geografia estuvo implicada en los impe-


rialismos curopeos y norteamericanos en los siglos XIX y XX, cn como esto ha
afectado nuestra comprensión dei mundo, y porque algunas categorias como
raza se consideran naturales y científicas. Livingston (1992) considera la geo
grafia un instrumento dei imperialismo porque a lo largo de su historia se ha
constituído a menudo como ayuda de campo dei militarismo. Se conoce desde
hace tiempo que los mapas fueron de vital importância en las guerras y por
tanto no es ninguna sorpresa que la geografia institucional floreciera en sus
princípios en las escuelas militares.
Las expansiones de ultramar levantaron un renovado interés por la geogra
fia y a princípios dei siglo XIX lanecesidad de sociedades geográficas se defen-
dió precisamente en base a quelageografia era vital paraclêxito imperial de la
nación. Por ello varias sociedades de este tipo fueron fundadas y dirigidas por
militares, y en algunos países continúan estando presentes en los cuadros di-
rectivos de estas sociedades, como en ei caso de Espana por ejemplo. También
pueden encontrarse libros de texto de geografia escritos por militares, como ei
dei general Berthaut pulicado en Paris ei 1909 y ei de Izquierdo publicado en

131
t
9
9
Maria SalaSanjaume 85


Granada ei 1945. Además, en ei siglo XX algunos geógrafos tuvieron papeles
importantes en las reconstrucciones post bélicos, y numerosos de ellos facilita-
ron sus habilidades a los gobiernos durante las dos guerras mundiales. ^
En eisiglo XIX hubo un debate considerable sobre ei tema de la aclimatación
9
porque Ia cuestión de la adaptabilidad de los blancos a los mundos tropicales y
subtropicales era importante a nivel internacional. Por esta razón los geógrafos
trabajaron juntamente con médicos para trazar la importância de los factores cli
máticos. Algunos encontraron enei determinismo ambiental lajustihcación dela
ideologia racial, y otros vieron en ei determinismo una doctrina con unpotencial
estratégico porque ei poder político mundial dependia de manera decisiva dei
controlde una parte especifica de território en ei Viejo Mundo.

4.3.5 Diversificación temática

9
Durante los anos 1950 y 1960 tuvo lugar una importante transformación de la
geografia puesto que la disciplina cambio su enfoque centrado en temas régio
nales para tratar más ampliamcnte aspectos sistemáticosy espaciales, así como
la utilización más generalizada de las matemáticas y la física para comprender
ei mundo. Abler, Marcus y Olson (1992) tratan ampliamenle ei hecho de que,
actualmente, los geógrafos se agrupan por especialidades, debido a la gran di
versidad de temas a los que aplican sus estúdios. La geografia es ahora una
disciplina que incorpora físicos, sociólogos y humanistas y por tanto ha am
f
pliado mucho los temas que trata. En relación a esta diversificación temática,
9
las sociedades geográficas de todo ei mundo han establecido grupos de estúdio
para compartir información sobresus respectivos intereses, lo cual promueve 9
una mejor comunicación en una disciplina de múltiples facetas a fin de adqui
rir identidad sin formar asociaciones independientes.
En geografia física ei progreso hacia estúdios con una mayor base científi
ca se considera que empezó con ei artículo dei geomorfólogo norteamericano
Strahler (1952) sobre las bases dinâmicas de la geomorfologia, en ei que propone
ei estúdio de las formas dei relieve en base a las leyes físicas de la naturaleza y en
9
ei uso de las matemáticas yla estadistica. Esta propuesta fue ei comienzo dei des-
plazamiento dei centro de la investigación geomorfológico dei enfoque histórico
deDavis a unageomorfologia basada en eiestúdio delosprocesos actuales como
modeladores de vertientes y valles. Las reaccionesa esteenfoque vinieron basica
mente de los regionalistas franceses y de los alemanes dei Este, con ei argumento
de que los estúdios clásicos integraban las ramas de geografia física y geografia
humana. Pero los estúdios basados en ei método científico fueron los más am- „
pliamente aceptados yaicabo depoço tiempo seaplicaron a todaslasramas dela
geografia física, especialmente en climatologia. *,
A partir de los nuevos enfoques y de la controvérsia generada por ellos
*
tuvo lugar una fruetífera diversificación, incluyendo un gran número de

132
Pt
p
p
m 86 Diálogos em Geografia Fisica
p
p subdivisiones dentro de cada uno de los tópicos principales que fueron con
p solidando. Por ejemplo, en geomorfologia varias ramas se cultivaron con inde
pendência, como ei estúdio de procesos actuales, Ias geomorfologías histórica,
p climática, eslructural, ambiental, regional, etc. Ymás tarde algunas matérias en
cada una de estas ramas también adquirieron cstatus independiente, especial
mente en la geomorfologia de procesos, donde tienen entidad propia ei estúdio
de vertientes, ei fluvial, las costas, etc. En climatologia las subdivisiones son las
climatologías analítica, dinâmica, sinóptica, regional, histórica y ambiental. En
P
biogeografía las especialidades se centran en la corologia, la biocenología, la
ecologia, la históricay la ambiental. Lo mismo puede decirse de la hidrologia
y la edafología, lascuales en principiose cultivaban dentro de la geomorfologia
y la biogeografía respectivamente.
r

4.4 Teorias y métodos

P
4.4.1 Introducción

r
Puesto que la geografia es una ciência de enfoques múltiples, ai estar en la en-
crueijada entre varias ciências incorpora teorias y métodos de vários campos
P cercanos. Por un lado está situada entre las ciências de la tierra o ciências natu
r rales, desde geologia a meteorologia y biologia, y por ei otro lado está también
P entre las ciências sociales, desde historia a economia y sociologia. Es por esta
razón que los geógrafos están continuamente discutiendo sobre objetivos, mé
0 todos y unidad de la geografia. No obstante, la unidad no puede ser metodo
lógicaporque usa tanto métodos de las ciências naturales como de Ias ciências
r
sociales. Esta variabilidad de orientaciones la hace una ciência muy sensible a
r los temas conjeturales en relación a lanecesidad de un conocimiento global in
p gerente a Ias preocupaciones sociales.
r En Ia década de los sesenta, en plena expansión delos métodos cuantitativos
en Geografia, Harvey (1969) se dio cuenta de que Ia llamada revolución cuan-
P titativa implicaba a su vez una revolución filosófica. Era la filosofia dei método
científico loque estaba implícito en la cuantificación puesto que esta obliga a se
P
guir las normas de la lógica científica. También la especialización ha Ilevado a
los geógrafos a un acercamiento cada vez mayor a las fuentes y métodos de las
p
disciplinas afines. Existe una nucva apreciación delas interrelaciones yTTe las in
terdependências entre disciplinas, pero no solo a nivel de métodos sino también
P de conceptos científicos. Algunos geógrafos físicos como Haincs-Young e Petch
p (1986) opinar) que para que esta ciência alcance ei rango que le corresponde den
p tro de Ias ciências de la tierra es necesario estar a su nivel tanto en todo Io refe
p rente a conocimientos y técnicas, como en cuanto ai método científico, y ver sus
r aplicaciones en nuestra disciplina.

r
P
r
13:
9
9
9
Maria Sala Sanjaume 87
9
9
4.4.2 Los princípios científicos básicos
9
9
Como en todas las ciências naturales, la investigación en geografia física sigue
9
los princípios de la ciência racional, esto es, considera la ciênciacomo una ac-
tividad ordenada y lógica, con juicios basados en razonamientos, y se ha desa- 9
rrollado y progresado a partir dei enfoque científico clásico hasta ei moderno
racionalismo crítico.
La ciência clásica o empírica tiene su origen en ei siglo XVI con Francis
Bacon, para quien ei conocimiento científico es seguro porque se basa en la 9
observación, la experiência y la medición. La experiência que proporciona la 9
observación y la experimentaciónes lo que distingue la ciênciade otras fuentes
de conocimiento. La tradición clásica afirma que ei conocimiento crece por la
paciente acumulación de hechos bien probados, con datos que se perciben por
los sentidos. Un elemento clave es ei concepto de inducción, ei proceso me
diante ei cual gencralizaciones fiablcs se obtienen a partir de un conjunto de
observaciones de la realidad. Las generalizaciones hechas a partir de Ia induc 9
ción se hacen una vez se han reunido todos los hechos sobre una matéria. Un m
ejemplo de los métodos de la ciência clásica lo constituye ei trabajo de Darwin. 9
Este enfoquebasadoen la inducción comporta lossiguientes pasos en ei quehacer
cientifico (figura 4.1): 1) observación y registro de hechos; 2) ordenación y clasi-
íicación de estos hechos; 3) derivación de generalizaciones a partir de los hechos
mediante inducción; 4) construcción de leyes y teorias.
Este enfoque tiene vários puntos débiles ya que no existen princípios de
verificación o de inducción seguros, y no se tiene en cuenta la dependência
teórica que ticnen todas las observaciones, puesto que en la práctica la observa 9
ciónsin teoria esimposible. Sinembargo, ensu momento significo una ruptura 9
con ei principio de autoridad y con cl método deductivo sin base de datos, por %
lo que ei conocimiento empírico represento ei inicio dei desarrolló científico. 9
Los objetivos de la ciência racíonalista son más ambiciosos en ei sentido 9
de que aspiran a poder llegar a hacer predicciones u observaciones acertadas, 9
formular teorias verdaderas, y llegar con ello a explicar como funciona ei mun
%
do. Esto conlleva hacer juicios, a elegir entre teorias contrastadas. Por esto es
necesario probar lo certero de las predicciones o la liabilidad de las observa
ciones. Cualquiera que sea la situación, ei racíonalista asume no solo que hay
alguna base racional y lógica que guia estos juicios sino también que hay una 9
realidad externa en la que las ideas pueden confrontarse, probarse, utilizando %
la experiência como base para llevar a cabo juicios sobre ideas y explicaciones. 9
Las hipótesis se prueban con datos empíricos y cuantas más hipótesis se
puedan comprobar más seguro se podrá estar de la validez de la teoria que
resulte positiva. En muchos casos es necesario desarrollar un diseno experi
mental paracomprobar una hipótesis para acumular evidencia especifica sobre
ei problema a resolver. A pesar de las críticas que como veremos han rccibido 9
*
9

9
3 9
88 Diálogos cm GeografiaFisica 1
0
P empirismo y racionalismo, lo cierto es que han generado progresos fundamen-
P tales en ei conocimiento dei mundo y de las cosas.
P
P
EXPERIÊNCIAS
r PERCEPTUALES

p HECHOS
NO ORDENADOS
0
r

DEFINICION
p CLASIFICACION
r MEDICION

r
r
HECHOS
ORDENADOS
p
p
0 GENERALIZACION
0 INDUCTIVA
P
P
P DESARROLLÓ DE
LEYESY TEORIAS
P

P
P EXPLICACION

Figura 4.1- Organigrama de la ciênciaclásica baconiana o inductiva


*

P
P Este enfoque anade una base teórica previa ai conocimiento empírico. Se
rcconoce la naturaleza apriorística de mucho dei conocimiento científico pues
incluye imágenes y nociones abstractas. Comporta los pasos siguientes (Figura
4.2): 1) observación y registro de hechos; 2) modelo a priorí; 3) formulación de
hipótesis; 4) diseno experimental de observaciones; 5) obtención de datos em
P
píricos; 6) verificación (si es negativa hay que rehacer ei modelo de partida); 7)
construcción de leyes y teorias y retroacción sobre ei modelo conceptual.
P

r
p
p 135
9
Maria SalaSanjaume 89
9
"•" 9
Pensadores posteriores llevaron a cabo importantes revisiones dei racio-
nalismo, las cuales desembocan en lo que ha venido en llamarse ei mciona-
lismo critico. Se acepta la tradición racíonalista pero se busca dar una justi-
ficación más rigurosa a este enfoque, pues ahora la búsqueda y la creencia
dcbcn rcstringirse a lo que pueda ser firmemente establecido. Popper (1934)
ha mostrado que los puntos débiles dei enfoque clásico pueden evitarse sus-
tituycndo la lógica induetiva por ei razonamiento deduetivo, y reconociendo 9
que la veriiicación no es logicamente posible, mientras que la falsificación si 9
que lo es. Esta es la basedei racionalismo crítico, es decir que ei conocimien 9
to científico viene dado por la dedueción de las consecuencias de las teorias 9
y después por ei intento de exponer su falsedad mediante pruebas críticas.
*
Si una teoria sobrevive a los intentos de falsificación entonces solo puede «I
concluirse que la evidencia la corrobora, pero no que está probada.
Predxclcn

9
Explicsción
9
9
<*
IDEAS SOCIALES E INTELECTUALES
Modelo cancepiual inicial 9
9
9
Problcim -> TEORIA >
FormuUciòn
de hipótetu
Oiscno
experimental >
Dados
empíricos
PrcdicciõrLfe Comprobaclòn Accpcación 9
' ~ critica

Rechazo
9

Figura 4.2 - Razonamiento hipotético deduetivo



9
9
4.4.3 Sobre ei trabajo de campo
9

Las observaciones directas como fuente principal de información es una


metodologia profundamente arraigada en toda la historia de la geografia.
En siglos pasados prestigiosos geógrafos han visitado tierras lejanas y han
vuelto con informes de sus impresiones y de sus observaciones detalladas
que han significado contribuciones fundamentales en ei saber geográfico.
Aunque las técnicas y equipo utilizados han evolucionado mucho, y hoy dia 9
existen métodos y técnicas de observación y muestreo muy sofisticadas, la
9
esencia de la observación directa se sigue manteniendo.
9
Si bien la investigación de campo es a menudo costosa tanto cn tiem
po como en dinero, y por tanto debe llevarse solo cuando es eslrictamente

9
9
9
136 9
9
p
90 Diálogos em Geografia Fisica

p necesario, hay algunos temas geográficos que solo pueden ser resueltos con
r datos que no pueden obtenerse de fuentes publicadas. Estos problemas sue-
p len ocurrir muy frecucnleniente en trabajos de tipo aplicado. Como sugieren
P Lounsbury eAldrich (1986) los problemas de investigación que frecuentemente
p requieren trabajode campo pueden clasificarse como sigue:
a) problemas a micro-escala en los que los datos que se requieren son tan
detallados que no existen fuentes o bases de datos, mapas, fotos aéreas sensores
aéreosdonde puedan encontrarse, como en ei estúdio de suelos;
p b) problemas relacionados con áreas dinâmicas en las que ocurren câmbios
P en períodos de tiempo cortos, como eneicaso delas crecidas fluviales o laerosión
r post incêndio;
p c)problemas querequieren información que nose refleja en aspectos visibles
dei paisaje, tales como ciertos tipos de suelos o los estúdios que requieren obser
p vación meteorológica;
p
d) en todas las ramas de la geografia física que requieren una observación y
una cartografia detalladas;
p
e) problemas relacionados conladinâmica ambiental y su evolución, comola
erosión yla regeneración de la vegetación dcspués de un incêndio;
r
f) cuando se requiere seleccionar áreas de estúdio paracontrolar câmbios en
P ei paisaje.
El trabajo de campo también es necesario cuando se quierc comprobar la
r valide/, de interpretaciones hechas por otros médios (cartografia, sensores re
P motos, etc). Pero sobre todo es esencial en la formación de futuros geógrafos,
r
y por tanto una herramienta básica en la didáctica y en la preparación para
futuros investigadores. En la preparación dei trabajo de campo, sobre todo
cuando se lleva a cabo con fines investigadores, es necesario tener en atenta
vários aspectos:
a) Formulación clara dcl problema que se pretende estudiar, lo cual permi
tirá establecer un plan de investigación y muestreo adecuados;
p b) Localización de un área adecuada donde llevar a cabo la investigación.
p No hay un tamano de área de estúdio especificamente recomendado, sino que
P dependerá dei tipo de fenômeno a investigar y de los métodos y técnicas que
se vayan a aplicar;
p
c) Formulación de hipótesis o formulación de posibles soluciones ai pro
f blema que se va a estudiar, los resultados que se espera encontrar con los datos
p que se planea recoger;
d) Identificación de los datos necesarios prévios que es preciso obtener y
de los complementarios que se pretenden obtener con ei trabajo de campo;
p e) Categorización o clasificación de los datos obtenidos en función de un
marco conceptual ya definido, así como la especiíicación de a la escala en que
p se han obtenido;
f) La adquisición de datos de campo se obtiene de três formas principa-
les (Figura 4.3): mediante la cartografia dcl fenômeno o paisaje; mediante

p 137
9
m
9
w MariaSala Sanjaume 91
9
9
entrevistas con cuestionarios previamente establecidos y pautados; utilizando 9
instrumentos de medición específicos (estaciones de aforo, colectores de sedi %
mento, pluviómetros, etc); 9
g) Procesando y analizando los datos obtenidos con métodos estadísticos
9
e informáticos;
h) Formulación de respuestas a las cuestione o problemas inicialmente es 9
tablecidos y comparación con resultados obtenidos en otras áreas y por otros 9
médios. 9

Un aspecto muy importante en ei trabajo de campo es la estimación de las 9


variables a través dei muestreo, esto es la elección calculada de las oSservacio- 9
nes que van a generar datos a partir de una pequena área representativa de otra
9
mucho más extensa. El muestreo puede ser:
9
a) sistemático: una red de puntos equidistantes en cada uno de los cuales se
llevan a cabo las observaciones/mediciones de un mismo fenômeno; 9
b) estratificado: división dei área de estúdio en áreas y sub-áreas represen 9
tativas de un fenômeno específico, cada una de las cueles con un conjunto de 9
puntos individualcs donde se muestrca ai azar; 9
c) en nido: se divide ei área de estúdio en unidades jerárquicas localizadas 9
una dentro de la otra. 9
Finalmente, recordar que muchos datos utilizados en geografia proceden
9
de basesde datos que han sido disenados con otros objetivos por investigadores
9
que no son geógrafos, como por ejemplo los datos meteorológicos, hidrológi-
9
cos, edáficos, geológicos, etc.
9
ADQUISICION DE DATOS
EN UM MARCO ESPACIAL 9
9
9
MAPEO ENTREVISTAS
*
9
9
PROCESOYANALISIS
DE DATOS 9
9
9

PRESENTACION
9
PRESENTACION CUANT1TATIVAY
CARTOGRÁFICA ESTADISTICA 9
9
9
CONCLUSIONES 9
9

Figura 4.3 - Procedimientos en base ai trabajo de campo 9


9
9

9
138 9
9
92 Diálogos em Geografia Fisica 1
p
4.4.4 Presentación y análisis de datos

El análisis de los datos de campo debería contestar, total o en parte, las pre-
p guntas planteadas en la formulación dei problema, así como confirmar o
p negar la hipótesis de trabajo. Laconfrontación de datos comprende métodos
cualitativos y métodos cuantitativos,así como ei uso de técnicas estadísticas
y de modelos.
p
La información primarían de o dato en bruto debe ser compilada y or
p ganizada para un posterior análisis. La información en mapas de base debe
p ser medida, las respuestas a cuestionarios tabuladas, y los datos a partir de
instrumentos de medición deben ser trazados en un gráfico o tabulados de
forma conveniente. La Compilación y tabulación de figuras es normalmen
te una tara sencíUa, aunque a menudo lenta. Desde este punto de vista ei
p análisis de datos de campo no difiere de os métodos de análisis utilizados
en otros problemas de investigación. Los métodos de análisis cartográfico,
r
cuantitativo y estadistico empleados y su grado de sofisticación dependeu
dei problema específico a resolver en ei campo.
Para los geógrafos los mapas de campo son más que ayudas orientativas.
Son instrumentos para registrar Ias relaciones entre observaciones. Los geó
P grafos han desarrollado técnicas de cartografia de campo tanto en geografia
t física como en geografia humana. Con la explosión de los sistemas de infor
mación geográfica (SIG), los sistemas de posicionamiento global (SPG), y
P tecnologias relacionadas, los geógrafos se sitúan en los primeros lugares en
los métodos automáticos de compilación, manipulación y análisis de obser
P
vaciones de campo.
0
En ei análisis cuantitativo, un cierto número de geógrafos han empeza-
P
do a apartarse de los enfoques estadísticos clásicos e ir hacia métodos más
P flexibles que incorporan una comprensión geográfica. El cambio desde la
P estimación directa a las técnicas de estimaciún indirectas que se basan en ei
P conocimiento de observaciones relacionadas para así estimar las condicio
r nes en áreas pequenas ilustra este cambio
P En ei análisis cualitativo se hace un contraste entre tiempo, que es visto
r como dimensional y unidireccional, y ei espacio, que es visto como multidi-
mensional y ordenado en formas diferentes. Para ei geógrafo cualitativo, que a
menudo cultiva ei terreno médio entrela universalidad de laciência y la parti-
r
cularidad dela historia, interpretar ei sentido dei cambio en ei espacio deviene
P ei objetivo y ei muestreo con un propósito la herramienta para este fin.
r
p

P
P
P
P
P
r 139
9
9

9
Maria Sala Sanjaume 93

9
4.5 La Geografia Física acadêmica
9
9

4.5.1 La Geografia Física en Espana


Las características y la evolución de Ia Geografia Física en Espana hansido tra
9
tadas, directao indirectamente, por vários autores (Albentosa 1984; Munoz,
1984; Sala; Batalla, 1996). Hasta ei ano 1983, con la aplicación de la Ley de 9
Reforma Universitária (L.R.U.), la Geografia Física estaba representada en la
Universidad espanola en las cátedras de Geografia Física y Geologia Aplicada
de las Facultades de Ciências. Además, antes dei ano 1973 losplanes de estúdio
de las Facultades de Letras no incluían asignaturas de contenido naturalista, o
sea de Geografia Física. Así pues, esta rama fundamental de la Geografia solo
se explicaba en las Facultades de Letras dentro de las asignaturas de Geografia
General o de Geografia Descriptiva. Fue en la Universidad de Barcelona y
gracias ai Plan Maluquer que empezaron a imparlirse asignaturas específicas
de Geografia Física, así como de especialización dentro de la misma como 9
Geomorfologia, Climatologia y Biogeografía. Siguiendoa Albentosa (1984) dis m
tinguimos três etapas bien diferenciadas en la evolución de la Geografia Fisica
en Espana, a partir de mediados de siglo.
La etapa de iniciación abarca ei período 1940-1957. Se caracteriza por ser
una continuación de lo que se hacía en las décadas anteriores, en las que pre
domina ei caracter descriptivo de los trabajos. Lo más destacablc es que du
rante esta época aparecen dos revistas de caracter exclusivamente geográfico,
9
Estúdios Geográficos en 1940, y Geographica en 1954, ambas dependientes dei
Consejo Superior de Investigaciones Científicas. La primera, de su Instituto 9
Juan Sebastián Elcano, de Madrid, la segunda, dei Instituto de Geografia 9
Aplicada, de Zaragoza. Sin embargo, en ambas las aportaciones científicas en ei
âmbito de la Geografia Física son modestas, tan solo ei 26,5 %, con la parricu-
laridad que de entre ellas ei 57 %correspondeu a Geomorfologia, hecho por lo
demás usual en todo ei mundo.
La etapa de desarrolló abarca desde finales de los anos cincuenta hasta
comienzo de los anos setenta (1958-1973). Se caracteriza porque los geógra
9
fos físicos llevan ya a cabo en profundidad trabajos de especialización^en
las diferentes ramas y con ello consolidan la Geografia Física como discipli- 9
9
na universitária enraizada en los Departamentos de Geografia, ubjeados en
Filosofia y Letras. No obstante solo ei 20,5 %de las publicaciones geográficas 9
corresponden a temas de naturalistas. Pero, si bien es cierto que la aportación
en Geografia Física continua estando dominada por científicos dei área de
Ciências naturales, las aportaciones procedentes de nuestros departamentos
comienzan a ocupar un lugar.
La consolidación de la disciplina se extiende desde los inícios de los anos
setenta hasta lo que para Albentosa era la actualidad, o sea los anos ochenta

I
140 9
p

94
Diálogos cm Geografia Fisica

(1973-1985). A lo largo dei período se detecta una creciente diversificación de


las ramas de laGeografia Física, lo que redunda en su progresiva consolidación.
Es a lo largo de estos anos cuando la Geografia Física adquiere entidad propia
y deja de estar supeditada a la Geografia Humana.
Prueba de elloesquelos Congresos Nacionales de Geografia, patrocinados
porla Asociación de Geógrafos Espanoles, incluyen, desde 1977, secciones espe
cíficas para la Geografia Física. Finalmente, remarcar como hito de esta etapa
ei beneficio que ha representado, en ei orden acadêmico e institucional para ei
0" conjunto de laGeografia Física, la aplicación de la L.R.U. yei desarrolló delos de
f cretos sobre Áreas de Conocimiento, delo que son un buen reflejo lacreación de
r muchos de los Departamentos Universitários. Con Ia L.R.U. la Geografia Física
es reconocida como área específica dentro de Ia Geografia, y deja porjanto de
r pertenecer ai área de Ciências. Esto comporta un notable aumento dei profeso-
rado universitário en esta área, si bien muy por debajo dei profesorado adscrito
a lasotrasdos áreas de conocimienlo: Geografia Humana y Geografia Regional.
Al finalizar los anos noventa (período 1986-1996) três son losaspectos que
p
merecen ser destacados sobre la situación de la Geografia Física: a) la amplia
r
apertura hacia ei exterior en todos los âmbitos; b) la creciente participación en
p proyectos interdisciplinares; y c) ei interés medioambiental relacionado sobre
0* todo con ei impacto de Ias actuaciones antrópicas.
Enrelación a la inlernacionalización delaGeografia Física, sindudafue im
portante ei tirón que represento Ia celebración en Barcelona de la Conferência
P Regional de la Unión Geográfica Internacional, durante la cual se reunieron en
distintos lugares de Espana muchas de Ias Comisiones y Grupos de Trabajo.
El trato directo con vários de los más destacados geógrafos animo a muchos
0
espanoles a participar de forma regular en los trabajos de la UGI. También se
P
produjo una asiniilación de tendências, metodologias y esquemas conceptuales
nucvos que han servido para propiciar enfoques diferentes sobre ei estúdio dei
P médio natural. Quizá fue enei âmbito de la Geomorfologia donde este impacto
0 fue más notable y donde ha tenido más continuidad.
0 En segundo lugar hay que destacar la creciente participación de los geó
r grafos físicos en proyectos de investigación nacionales e intcrnacionales, for
p mando parte o dirigiendo_equipos-mullidisciplinares. Este hecho se pone de
manifiesto tanto en trabajos que se canalizan aiamparo dei Programa Sectorial
de Promoción General dei Conocimiento (CAICYT, DGICYT) o en los dife
p rentes Programas Marco de Investigación Científica y Tecnológica de la CEE,
r especialmente en ei área de Médio Ambiente.
f En tercerlugar, la diversificación temática y larenovación metodológica han
0 1 Ilevado a concentrar csfuerzos orientados hacia ei estúdio los procesos actuales
r en todas las ramas de la Geografia Eísica. Yello ha desembocado en una mejor
P comprensión e interés hacia los problemas dei médio ambiente, sobre todo los
r
derivados, directa o indirectamente, dela actividad, delos impactos dei nombre.

141
P
9
MariaSalaSanjaume 95 ~-

Como heinos manifestado en otro lugar (Sala; Batalla, 1996), la presión


de algunos geógrafos para que a las dos áreas inicialmente propuestas por ei
Ministério dentro de la Geografia universitária, Geografia Física y Geografia
Humana, consiguió que se incluyera una tercera rama, algo inédito en cl resto 9
dei mundo, ydar ala Geografia Regional un tratamiento diferenciado, ignoran
9
do que tanto en Geografia Física como en Geografia Humana se trata ei tema
regional, como sedaen cualquier otraciência sin que por ello seconstituya en 9
área docente y científica aparte. La razón de ello fue la de preservar la unidad
de Ia geografia, algo más filosófico que real. El resultado de ello ha sido una
posición muy inferiorizada de la Geografia Física puesto que cl profesorado y
los temas que se imparten en Geografia Regional son fundamentalmente pro
fesorado de Geografia Humana. .«*,
A partir de finales de los anos noventa la decadência de la geografia física,
y con ella de la geografia en general, se ha ido agudizando en Espana, hasta
llegar a la situación actual, en la que nuevasdirectrices dei Ministériohan abo
lido Ias três ramas de geografia que se institucionalizaron en 1983, se reducen 9
considerablemente los cursos a impartir, sobre todo los de especialización, y
los departamentos de geografia pasan a formar parte de de la rama de Ciências
Sociales en lugar de estar ubicados en Humanidades como hasta ahora. Una
lástima que no se hayan situado en Ciências Naturales, como en las países más
avanzados de Europa (Gran Bretana y Alemania). A mi entender, la geografia
espanola inicio un proceso de suicídio colectivo cuando dcfendió ei concepto 9
tan poço moderno de la unidad de la geografia basada en ei estúdio regional,
un concepto éstc de la unidad casi religiosa en Espana en muchos campos, 9
incluído ei político. Menos mal que la pertenencia a la Unión Europea impide 9
que se lleven a cabo demasiados errores. 9

4.5.2 La Geografia Física en Ia Universidad de Barcelona 9


9
El Departamento deGeografia dela Universidad de Barcelona fue creado en di-
ciembrede 1966, siendosu director J.Vila Valentí y sus profesores S.Llobel, M.de
Bolos, E.Lluch, H.Capel y L.M.Albentosa. Al cabo de un ano ei Departamento
9
estaba constituído por dos profesores numerários, dos profesores adjuntos, un
jefe de práclicas, dos ayudantes y vários colaboradores. Las asignaturas que 9
se impartían eran, en relación ai Plan de estúdios entonces vigente, similar en
todo ei Estado Espanol: Geografia General y Regional dei Mundo (en segundo
curso), Geografia General Física y Humana (en tercer curso), y Geografia de
Espana (en cuarto curso). s
Aunque este Departamento de Geografia es ei núcleo donde fisicamente
se formo ei grupo de geógrafos físicos de Barcelona, bajo la tutela de Salvador
Llobet y Maria de Bolos, laGeografia Física como talse desarrolla en Cataluna
a partir de la Cátedra de Geografia Física dela Facultad de Ciências regida por

142
p

p
Diálogos cm Geografia Fisica
0

ei Dr. Lluís Sole Sabarís, desde la que ejerció su magistério y dio su impulso
p a todos los geógrafos, pero en especial a los geomorfólogos, en gran parte su
amistad con ei profesor Jean Tricart dela Universidad de Estrasburgo, en aquel
p entonces uno de los geomorfólogos de más renombre en Europa.
0 La posibilidad de adquirir una especialización en Geografia Física en nues-
0
tra Facultad se hizo factible con ei Plan Maluquer, aprobado por ei Ministério
de Educación y Ciênciaei 19 de septiembre de 1969 y queentro en vigor ei curso
0
1969-1970. Este Plan supuso una fundamental ruptura con los planes de estúdio
precedentes ai incorporar un margen muy grande de optatividad, una amplia
f gama de nuevas asignaturas, así como concebir Ias carreras en dos ciclos, un
f primer ciclo introduetorio de dos anos y un segundo ciclo de especialización
de três anos. El Plan Maluquer fue muy innovador para la entonces Facultad
P de Filosofia y Letras. A nuestro entender sus virtudes fueron mucho más ele
P vadas que sus defectos, pues, en conjunto, hizo que nos acercáramos ai sistema
0
europeo ai introducir más variedad de disciplinas, más flexibilidad y una orga-
nización en dos ciclos. Fue ei inicio de la profundización en muchas matérias,
P
lo cual favoreció que empezaran a llevarse a cabo tesinas y tesis dentro ya de
una especialización.
r Puesto que ei Plan Maluquerse habíaintroducido en Barcelona sin la apro-
bación dei Ministério de Educación, desde Madrid se impulso y se impuso en
r 1976 para toda Espana un plan que, desde la perspectiva de las universidades
espanolas fue un avance, resultó más restrictivo enlo quese refiere a laoptativi
p dad que se había alcanzado en la Universidad de Barcelona. Una modiíicación
p importante fue dar ai primer curso un caracter introduetorio muy general e
incluir asignaturas de tipo histórico-filosóíico. Sin embargo se consigue intro
ducir muchas más asignaturas de Geografia puesto que, por ejemplo, las quese
daban de forma alterna en ei Plan Maluquerpasan ahora a ser anuales. Para la
p Geografia Física representa un notable avance ya que esta esla primera vez que
0 se cursa como asignatura independiente, pasa a ser obligatoria para todos los
r estudiantes de Geografia, y una de las optativas recomendadas en la licencia
r tura de Historia. Además quedan oficialmente constituídas três modalidades o
especializaciones dentro de Geografia, las de Física, Humana y Regional, cada
0
una de ellas con un bloqueobligatorio.
Aunque los objetivos de la docência no están explicitados, lo cierto es que
las salidas profesionales más usuales eran, hasta hace poço, las docentes (uni
P
versitária y secundaria), las investigadoras (exclusivamente dentro dei mismo
Departamento) y las dei trabajo editorial. Sin embargo, en los últimos anos
puede detectarse un incremenJ,o de los puestos de trabajo obtenidos por nues-
0 trosalumnos enotros centros, como por ejemplo agencias dei médio ambiente,
r servicios cartográficos, programas de investigación y desarrolló (en institutos
r no geográficos), etc. Seguramente ello es debido a causas socioeconómicas,
pero estamosseguros de que también se debe a que se ha procurado dentro de
p
r
0

143
9
9
9
Maria SalaSanjaume 97 "-•

lo posible reorientar la docência, tanto dentro de los cursos como mediante


las asignaturas optativas, a fin de ir dando herramientas a los alumnos para
que paulatinamente puedan obtener puestos de trabajo más diversificados y en
relación a la actual demanda social.
9
Flan seguido otras reformas de los planes de estúdios a nivel dei Estado
9
Espanol, pero que no han significado ningún cambio fundamental como fue
ron los que se han resenado. El Plan de Estúdios actual de la Universidad de 9
Barcelona puede encontrarse por internet eiv.http://\vww.ub.edii/organitzacio/
estructura/departaments.htm
9
4.5.3 La Geografia Física en algunas universidades europeas
-*.

La Universidad de Amsterdam
En la Universidad de Amsterdam se crea un Departamento de Geografia
en 1947, pero en 1968 Geografia Física y Ciência dei Suelo pasan a formar un
solo Departamento, ei de Geografia Física y Ciência dei Suelo, ei cual está en-
cuadrado en la Facultad de Ciências. El objetivo docente general en Holanda es
prioritariamente cl de formarbuenosprofesionales que sean capaces de llevara
cabo trabajos prácticos, de ahí que tanto la organización dei trabajo como la de
la ensenanza y los estúdios estén marcados en estesentido.
Las salidas profesionales varían en función de la especialización, mejores
9
para losque hacen fisica y química de suelos, no tan buenas para los que hacen
geografia de suelos y geomorfologia, y las más ílojas para los que hacen eco 9
logia dei paisaje. De todas formas ai cabo de un ano de finalizar sus estúdios 9
todos los estudiantes han encontrado un trabajo, bien en investigación bien en
trabajos relacionados con ei médio ambiente.
Sus recursos didácticos son muy amplios gracias ai sistema de Programas
de Investigación y Docência financiados por ei Gobierno. Se trata de contra
tos de cinco anos de duración para llevar a cabo investigaciones que integren •••<

a los alumnos y que permitan equipar y mantener vários laboratórios y per-


sonal técnico. La valoración dei trabajo realizado dentro de estos programas
se basa en la calidad y número de publicaciones en revistas y editoriales in
9
ternacionalmente reconocidas. El trabajo está organizado de tal manera que
tanto profesores como alumnos trabajan 8 horas aidiaen Ias dependências dei
Departamento, cxcepto cuando seestá en trabajo decampo. Los estudiantes de
Geografia Física deben de haber cursado física, química y matemáticas en su
bachillerato o superar una prueba en estos temas.
En relación ai control de conocimientos se establece una distinción entre
los dos primeros cursos y los dos últimos. Mientras que en primero y segundo
se Uevan a cabo exámenes en ei sentido tradicional, en los dos últimos no hay
exámenes estructurados tal como se entiendcn en Francia o en Espana (tipo de

144
p yn
Diálogos em Geografia Fisica
0
r
examen, calendário), sino más bien una espécie de trato entre ei profesor y ei
P estudiante en ei que este se presenta a revisar sus conocimientos en ei momento
P en que se encuentra preparado para ello. Entonces presenta su trabajo (un pro-
P yecto que ha Ilevado a cabo) y lo discute con ei profesor.
0 En 1991 entro en vigor en todo ei país una nueva legislación en la que
P se ha Ilevado a cabo una reorganización de departamentos y ensenanzas con
P
ei fin de restringir y optimizar los presupuestos dedicados las Universidades.
Ello comporta que las especialidades a cursar por Departamento se limiten a
P
aquellas en Ias que existe un buen nivel de profesorado, acreditado fundamen
talmente en base a sus proyectos de investigación y publicaciones científicas.
Los estudiantes deberán, más que antes, cursar determinadas asignaturas en
P Departamentos distintos ai suyo.
r
r
r- La Universidad Libre de Berlfn
En la Universidad Libre de Berlín ei Instituto de Geografia fue creado en
1948. En la actualidad agrupaa las especialidades de GeografiaFisica, Geografia
P
Humana, Cartografia y forma parte de la Facultad de Ciências de Ia Tierra,
T que comprende los Institutos de Geografia, Geologia, Mineralogía^Geqfisica
P y Meteorologia. El objetivo general es promover ei estúdio de las ciências de la
tierra mediante la docência y la investigación universitárias.
Los fondos de financiación procedeu de la Universidad en lo que
0 se refiere a salários y en parle a la adquisición de instrumental tanto de
P campo como de laboratório. La otra fuente de ingresos es ei "Deutsche
Forschungsgemeinschaft" (Agencia Alemana para ei Desarrolló Científico),
P
que suministra fondos para la investigación y complementos a proyectos de
P
investigación internacionales. En cuanto a recursos didácticos se cuenta con
4 laboratórios (química, fisica de suelos, hidrologia, y canal de ensayos hi
dráulicos), además de biblioteca, una importantecolección cartográfica y una
r colección de fotografia aérea.
r La ensenanza consiste en clases teóricas, ejercicios, cursos de prácticas en
ei laboratório y cn ei campo, excursiones, y seminários. Al cabo de dos anos de
p estúdio ei estudiante debe examinarse para obtener un Diploma Universitário
o ei título intermédio para maestros. Estos primeros exámenes consisten cn
pruebas escritas. El grado final es ei Diploma de Estado, que suele conseguirse
0
después de 4 o 5 anos de estúdio. Los exámenes consisten en una combinación
de prueba oral y la presentación de un trabajo de final de carrera.
No hay una organización rígida de cursos y tierren lugar muchos câmbios
de asignaturas de un semestre a otro, puesto que los profesores sesientenorgu-
0 Uosos de tener Ia libertad de cambiar loscontenidos, e incluso Ia organización
de sus cursos, incluyendo seminários y asignaturas impartidas por profeso
p res extranjeros visitantes. La temática de los dos primeros anos se centra en

145
9
m
9
Maria Sala Sanjaume 99 *%

9
temas amplios, básicos de geografia, mientras que los três restantes son mucho
más especializados, fundamentalmente para los estudiantes que quieren ob
tener ei Diploma final. Cada estudiante debe escoger dos disciplinas afines a
la Geografia Física dentro dcl âmbito de ciências (generalmente se opta por m\
Geologia, Química, Biologia o Meteorologia), sobre las cuales debe cursar la
9
mitad de las matérias obligatorias de la carrera. Casi la mitad de los cursos y
seminários que se ofrecen son optativos, mientras que la otra mitad es obli- 9
gatoria. Se trata pues de una organización basada en ei trabajo y la libertad
individual, tanto a nivel de alumnos como a nivel de profesorado, es decir en
una confianza mutua.
Los principales temas de investigación versan sobre ei Cuaternario, las re-
giones áridas, Geografia Física deiÁsia interior, Introducción a la problemática
ambienta] dei Atlas, Geoquímica y sedimentología de los suelos, Geoecología
de los paisajes alemanes, Análisis y derecho medioambiental ^

La Universidad escocesa de Saint Andrews


La enseiianza de la Geografia en la Universidad de St.Andrews, la más an-
tigua de Escócia, está basada en latradición britânica de Oxford y Cambridge.
Aunque la ensenanza de la geografia en esta Universidad se remonta ai ano
.1935, ei desarrolló dei Departamento de Geografia en su estruetura y dimen
siones actuales se inicia en 1970. Los objetivos de la ensenanza son, además
de transmitir una serie de conocimientos, ei de desarrollar en ei alumno un
9
espíritu crítico sobre las ideas y teorias con las que deba enfrentarse, formar
9
una mente disciplinada y capazde un pensamiento independiente. Se trata por
tanto de una ensenanza más científica que técnica, aunque no por ello las asig 9
9
naturas de tipo técnico dejen de formar parte dei plan deestúdios.
Es muy interesante senalar queloscursos deGeografia puedenseguirse tan
to desde las Facultades de Letrascomo desde las de Ciências, o lo qu.e es lo mis-
mo, desde Geografia se imparten clases a estudiantes de Letras y a estudiantes
de Ciências. Así pues los Departamentos de Geografia de las Universidades de
Gran Bretana tienen la particularidad de estar a caballo entre las Facultades de
Ciências ylas de Letras. Los dos primeros cursos son comunes para Geografia
9
Física y Humana, además deque suelen seguir algunas de susasignaturas alum
9
nos de otras especialidades.
Los recursos didácticos de Geografia de St. Andrews aumentaron sensi- 9
blemente con su nueva ubicación cerca de los Departamentos de Geologia y
Química. Geografia tiene además un laboratório de palinología, una sección
de cartografia por ordenador yuna de publicaciones. Los recursos financieros
provienen de la Universidad y dei Consejo Nacional para ei Médio Ambiente.
La ensenanza consiste en un compêndio de clases magistrales, trabajos prácti-
cos, trabajo de campo, tutorias yseminários. EI trabajo de campo forma parte
9
9

9
146

9
100 Diálogosem Geografia Fisica 1
r
r
de la mayoría decursos tanto en Geografia Física como en Geografia Humana.
p Las tutorias y seminários se_utilizan para abarcar aspectos que no quedan cu-
r biertos por las clases y para ayudar a los estudiantes a desarrollar sus conoci
mientos geográficos mediante la discusión en pequenos grupos. Las tutorias
se llevan a cabo desde primer curso en grupos de 5-6 estudiantes mientras que
r los Seminários se inician ensegundo curso e involucran a 10-15 estudiantes. El
control de conocimientos es bastante complejo y se basa en exámenes y traba
0-
jos, pero menos de la mitad de la puntuación estácentrada en exámenes.
r
EI margen de elección temático es amplio pero dentro de un programa co-
r
herente previamente establecido. Así, losestúdios pueden estar totalmente ba-
p sados enGeografia o comportar unalicenciatura mixta tomando unporcentaje
r determinado de asignaturas de de los departamentos implicados; por ejemplo
geografia y geologia; geografia y botânica; geografia y deportes; geografia y pe
P dagogia; etc.
r Hay un núcleo de asignaturas obligatorias y un núcleo de asignaturas op-
tativas distribuídas en dos bloques que alternan anualmente, de manera que
r
doblan Ias opciones de los estudiantes en los dos aiios de especialidad. Los es
r
tudiantes sigucn 3 o 4 de estas matérias. Algunos de los temas en que se es-
f pecializan son los de geomorfologia fluvial y glacial, así como cronologia dei
Cuaternario, biogeografía y sus correspondientes aspectos aplicados.
Las salidas profesionales son buenas lo que se atribuye a la combinación
que comportan los estúdios de geografia entre temas de ciências y temas de
letras, puesto que les confiere adaptabilidada diferentes ofertas,y a que muchos
r de los temas de investigación de los alumnos durante su formación resultan de
interéssocial. Al igual que todos los licenciados en ei Reino Unido, solo un 25
% utiliza su licenciatura como cualificación específica, yesen ei caso de seguir
r
cursos de doctorado o cursos de especialización en planificación, cartografia y
r médio ambiente, con los cuales se abreeiabanico de posibilidades laborales ha
cia puestos de trabajo en agencias centrales y locales dei gobierno, educación,
editoriales y agencias de conservación dei médio ambiente. El resto encuentra
trabajo cn la banca, seguros, inmobiliarias, etc. Hay que tener presente que en
ei Reino Unido la salida profesional hacia la docência a nivel secundário pro-
r viene de Departamentos especializados en Didáctica y Pedagogia, aunque los
0 alumnos de los mismos siguen cursos dela especialidad quevan a impartir.

La Universidad Louis Pastcur de Strasbourg


p
El Departamento de Geografia de la Universidad de Strasbourg es uno de
0 los más anliguos de Francia pues secreó en 19.19, y también unode los más acre
p ditados, gracias sin duda en gran parte ai impulso y proyección internacional
que le dio jean Tricart después de su incorporación cn 1948. A raiz de la rees-
P trueturación aplicada a la Universidad en 1969 ei Departamento de Geografia
de Strasbourg pasó a formar parte de la Facullad de Ciências.
r

r
147
0
9

r Maria Sala Sanjaume 101


9

Además dei personal docente estrictamente universitário hay ungrupo de


trabajo interdisciplinar (climatólogos, hidrólogos, geomorfólogos, fitosociólo-
gos, ecólogos y agrônomos) financiado por ei C.N.R.S., ei Centro de Estúdios
9
e Investigaciones Eco-Geográficas (C.E.R.E.C), en ei que se agrupan docentes,
9
investigadores, técnicos yestudiantes de Maestria y Doctorado, por lo que sus
recursos, que son importantes en infraestructura de laboratórios y personal 9

técnico, benefician a los estudiantes de segundo ciclo.


Por lo que hace a la ensenanza, los dos primeros cursos tienen caracter
introduetorio dentro de laespecialidad de Geografia, terminados y aprobados
los cuales ei estudiante recibe un Diploma de Estúdios Universitários Generales
(D.E.U.G.). El tercer curso es ei de Licenciatura y se basa, como en ei caso an
terior, en ei seguimiento de cursos y la realización de exámenes. El cuarto cur
so es ei de Maestria y comporta, además de clases y exámenes, la realización
9
de un trabajo de investigación extenso, que se concreta en una memória en la
9
que cl estudiante trabaja un 70% dei curso y se presenta ante un tribunal, es
9
decir como una tesina. El quinto curso comporta un Diploma de Estúdios en
Profundidad (D.E.A.) y en él solamcnte se toman clases durante un cuatrimes-
tre, ei resto se dedica a realizar un trabajo de investigación. Existe la posibili-
dad llevar a cabo un D.E.U.G. con especialidad en Geografia pero partiendo
de la Facultad de Ciências, lo cual puede considerarse un intento de acercar
la Geografia Física francesa a los sistemas holandês, alemán y belga. Se basa
en un primer curso con asignaturas mayoritariamente de ciências más una de
9
Geografia Física, y un segundo curso conla mayor parte de las asignaturas dei
9
tronco de Geografia Física.
En los três primeros cursos domina ei sistema de clases con predomínio 9
de la ensenanza basada en ei discurso y donde ei profesor dieta y losalumnos
toman apuntes, aunque se facilita mucha información complementaria fotoco-
piada sin cargo para ei alumno. Apartir dei cuarto curso existe la posibilidad
de realizar trabajos dentro de proyectos de investigación coordinados entre cl
Departamento y ei C.N.R.S. Las salidas profesionales son en primer lugar la
administración dei Estado y las administraciones régionales (50 %), ensenanza
(25 %) e investigación. En cuanto a las asignaturas, en ei primer ciclo son prác-
ticamente todas obligatorias.

La Universidad deLiège
En las universidades belgas Ia Geografia se ensena dentro delas facultades
de ciências, y por ello en ei primer ciclo predomina una formación de base
común para todos los estudiantes de geografia con una carga importante de 9
temas de ciências.
9
En primer y segundo curso todas las asignaturas son obligatorias, ysu car
ga docente es de 21 horas a la semana en primero yde 27 horas a la semana en 9
9

9
9
9
148
102 Diálogos em Geografia Fisica

segundo. La mayor parte de Ias matérias están divididas en una parte teórica,
una parte práctica y una parte de trabajo de campo. Las prácticas consisten
en sesiones de ejercicios o de laboratório, organizadas en grupos de menos de
veinte estudiantes y dirigidos por personal científico especializado. El conoci
miento dei inglês se considera indispensable.
El control de conocimientos se lleva a cabo mediante exámenes organi
zados en dos sesiones, junio y septiembre. La primera sesión está precedida
de un período de estúdio de cuatro o cinco semanas en ei que no se llevan
a cabo ni cursos ni trabajos prácticos. Durante ei ano se realizan pruebas
sobre algunas de las malerias, especialmente en primer curso, las cuales sir-
ven principalmente para una autoevahiación de los conocimientos y de la
cualidad dei trabajo de los estudiantes. En algunos casos la superación de
estas pruebas puede significar la eliminación de matéria cn los exámenes. En
ei segundo ciclo ei estudiante escoge un tema de especialización sobre ei cual
deberá realizar un examen. Al finalizar los estúdios deberá además presentar
una memória sobre alguna cuestión relacionada con ei grupo de matérias
que ha elegido para ei examen temático. Esta memória, que es un trabajo
personal, deberá realizarse bajo la dirección de un profesor o un miembro
dei personal científico. El segundo semestre dei último curso está esencial-
mente consagrado a Ia finalización de la memória, que se habrá empezado
normalmente en tercer curso.
Las salidas profesionales que se contemplai! son la docência a diferentes
niveles, la investigación en diversas instituciones nacionales e internacionales,
la administración pública, y la industria de servicios.

4.5.4 Recapitulación

Aunque la información que poseemos sobre universidades europeas no es ex-


haustiva ni en todos los casoscomparable, es de todas formas posible destacar
algunos puntos.
En todas las Universidades, excepto en la de Amsterdam, la geografia for
ma un bloque único, es decir comprende tanto geografia fisica como geografia
humana, yambas conslituyen obligatoriamente parte dei primer ciclo. Sinem
bargo existe una importante carga docente en temas dei área de ciências, tales
como estadistica, matemáticas, geologia, y en algunos casos física y química.
El volumen de carga docente dedicada a prácticas es elevado, en muchos
casos cerca dei 50 %, y las salidas de campo forman parte integrante dei progra
ma docente. En todos y cada uno de los departamentos existe por lo menos un
laboratório para prácticas.
Hay un porcentaje más o menos elevado de personal técnico, así como de
personal investigador, este último algunas veces procedente de centros nacio
nales paralelos a la Universidad con la cual colaboram

149
Maria Sala Sanjaume 103
r
La proporción profesor-alumno varia en ei primer y en ei segundo ciclo.
En cl segundo puede llegar a ser de 1/1 o de 1/2. La relación profcsor-personal
técnico en algunos casos (Amsterdam) puede llegar a 1/1.
Si intentamos scnalar las diferencias entre estas universidades y la de
Barcelona, una de las más notables es la que se refiere a infraestruetura para
trabajos prácticos en un laboratório y en ei campo, tanto en material como
en personal técnico cualificado o en ayudantes. Otra diferencia notable es la
que se refiere a la formación en métodos y técnicas en ei campo científico. Sin
estas bases es prácticamente imposible que pueda, no ya competirse, sino se
guir minimamente ei ritmo de las universidades europeas. Bien es verdad que
los ejemplos expuestos lo son de centros de prestigio, pero por lo menos en
la Universidad de Barcelona se diria que la aspiración es alinearse entre estas
universidades.

4.6 El dilema actual entre Geografia Física y


Geografia Humana

Las recientes evoluciones en geografia física y geografia humana pareceu llevar


a las dos ramas principalesde esta ciência cada vez más a una separación, refle-
jo de la tensión entre dos maneras de entender la geografia: como una ciência
<
natural y como una ciência social. Por ello, las teorias y los métodos aplicados
son en muchos casosdiferentes y su extraordinário desarrolló desde la segunda
mitad dei siglo XX hace cada vez más difícil dominados todos. Sin embargo,
la introducción de las técnicas cuantitativas si que se extendió ai conjunto de
la geografia.

4.6.1 Evolución dentro de la Geografia Fisica

La geografia fisica tiene sus raíces enlos conceptos delaciência positiva yem
pírica, en las preguntas quese hace ei hombre sobre la naturaleza. Su desarrolló
lobo lugar en las ciências naturales de los siglos XVIII y XIX, se basa en la
apreciación darviniana dei cambio a través dei tiempo, y aspira a entender los
ambientes de la tierra a través de los métodoscientíficos positivistas. El núcleo
de la geografia física científica es ei estúdio delos procesos que tienen lugar en
la superfície dela tierra, aunque incluye ei conocimiento dei médio en relación
a la sociedad y las modificaciones humanas de los procesos naturales.
Muy pronto se hizo evidente que los hechos climatológicos, hidrológicos y
geomorfológicos podian ser reducidos a leycs matemáticas y geométricas, por
tanto poniéndolos como parte de un fenômeno global más que de una anomalia
local. El nuevo paradigma fue pronto adoptado por muchos geógrafos físicos por
que la utilización de métodos matemáticos proporciona pruebas precisas y uni
formes de los efectos de los fenômenos naturales. En geomorfologia e hidrologia

150
104 Diálogos cm Geografia Física "

la investigación con una orientación cuantitativa se produjo de manera amplia


por autores relevantes tales como Horton, Schumm, Wolman, Leopold y Dury.
En climatologia pronto de adoptaron los métodos cuantitatívns basados en los
estúdios pioncros de Thornthwaite y Hare. En ei estúdio de los suelos los geógra
fos siguieron los trabajos de Jenny y dei Servicio Americano de Conservación de
Suelos, y pronto fue posible utilizar laEcuación Universal de la Perdida de Suelo.
En biogeografía, la ctiantificación es la base dei estúdio de los ecosistemas, y su
introduetor engeografia fueStoddart. Con einúcleo científico dedicado aiestúdio
de procesos enlasuperfície delatierra, lageografia física incluye un enfoque para
entender ei médio en relación a la sociedad, en la modificación humana de los
procesos y modelosambientales, y en lasbases físicas para su manejo.

4.6.2 Evolución dentro de la Geografia Humana

EI estúdio empírico dei médio ambiente a fin de desarrollar y probar hipótesis


como base para teorias y leyes tuvo estúdios paralelos en la geografia humana
posterior a los anos 1950, con la búsqueda de leyes que gobiernen los procesos
espaciales. Pero estos métodos cuantitativosse adoptaron más lentamente y con
poça convieción, a veces incluso con una fuerte oposición de los geógrafos ré
gionales, lo cual no cs de extranar dad la tradición posibilista de la cscuela fran
cesa. La relación con la economia fue la que propicio la introducción de nue-
vas ideas y técnicas, cuyos primeros rastros fueron los de Thünen y ChristaUer
cn relación a las teorias de la localización de las actividades econômicas. Los
avances más significativos hacia unas bases metodológicas y filosóficas de una
escuela cuantitativa se deben a Schaefer, Bunge y Harvey, quienes sentaron las
bases para una geografia humana como una disciplina que busca las leyes cpie
rigen los fenômenos y que utiliza ei método cientifico.

4.6.3 Es posible la unidad en Geografia?

Como consecuencia de la revolución cuantitativa muchos geógrafos pensaron


queesta metodologia proporcionaria una unidad a lageografia. Haggett (1979)
creyó, por ejemplo, que la aceptación general de las técnicas cuantitativas, una
preparación matemática más completa de las nuevas generaciones, y la amplia
difusión de los ordenadores harían desaparecer los conflictos.
Sin embargo, lohnston (1987), en la introducción a la segunda edición de
su libro sobre la geografia y los geógrafos, separa la geografia humana de la
tísica, un enfoque por ei que ha sido muy criticado y acusado de hacer un flaco
servicio a la disciplina por ei hecho de avanzar esta separación. Pero la razón
que aduce para esta decisión es que encuentra los lazos entre geografia físi
ca y geografia humana, tal como se practican habitualmente, muy tênues. Así,

151
9
9
9
Maria SalaSanjaume 105 -**•,

9
explica que durante la era de la geografia como ciência dei espacio había un
interés común entre geógrafos físicos y humanos en cuestiones metodológi
cas, especialmente las de naturaleza estadística y matemática, pero a medida
que en ambas geografia se ha producido un distanciamiento de la descripeión
9
cuantitativa y una tendência aiestúdio de los procesos en ambas geografias, las
diferencias entre ellas se han magnificado. 9
Para Johnston pues hay muy poça base para los lazos con la geografia física 9
en los enfoques de una geografia humana como ciência deicomportamiento y de
la discusión humanística. Por supuesto que ei objeto de estúdio de la geografia
humana está estrechamente relacionado con cl de la geografia física, pero no hay
una necesidad aparente, ni unaevidencia en trabajos llevados a cabo,de una ínte-
gración delos doscampos tal ycomo se practican actualmente. Algunos discuten
que tal integración es, o debería ser, alcanzada a través dei estúdio de los recursos
9
terrestres, pero una revisión de laliteratura relevante hecha por ei mismo Johnston
9
no proporciona ninguna evidencia que respalde esta afirmación. Sin embargo
9
geografia física y humana sesobreponen y deberían alcanzarse benefícios de ello,
especialmente en un contexto pedagógico, y por tanto no parecerecomendable su
separación. Pero a pesar de todo hay quereconocer que en muchos casos hay más
conexión con otras disciplinas afines que entre las dos geografias. Los geógrafos
físicos han tenido y tienen papeles de liderazgo en ei desarrolló de metodologias,
induyendo la teoria de sistemas, eisensorio remoto, los sistemas de información
geográfica, ylaaplicación de modelos cuantitativos. En ambas geografias hay una
notable interacción con otras ciências, que comportan las contribuciones de geó
9
grafos a otras disciplinas y viceversa, tanto en estúdios concretos como enideas.
9
Doreen Massey (1999) ha investigado la posibilidad de que haya aspectos co-
munes entre geografia física y geografia human en temas emergentes, como la
conceptualización dei espacio, tiempo y espacio-tiempo. Argumenta que una de
las cosas que ha mantenido las geografias humana y física separadas por tanto
tiempo ha sido su relación con la física como un modelo asumido de ciência.
Propone que no solo esto es un modelo inadecuado de ciência sino que nos ha
dejado perdidos en nuestra conceptualización heredada tanto de espacio como de
tiempo. Para ella la urgência de pensar historicamente es ahora evidente tanto en
9
geografia física como en humana porque en ello estala base de unposible diálogo,
y también nos obliga a repensar nuestras nociones de espacio y tiempo. Massey 9
cree que algo de este enfoque está ya bien establecido dentro de la geografia fí
sica, por ejemplo en Barbara Kennedy, que mira la historia de la geomorfologia
bajo este enfoque. Argumenta que las influencias de Strahier y Chorley para un
enfoque dinâmico en geomorfologia opuesto ai histórico, es decir, su énfasis en
procesos inmanentes, equilíbrio ysin sujeción ai tiempo ha tenido algunos efectos
que ahora debieran ser cuestionados, puesto que ella cree que esto ha animado la
emergência de una historia de la disciplina presentada como ei domínio gradual
dei enfoque científico como opuesto ai histórico.
9
9

152

9
p
0"

r 106 Diálogos em Geografia Fisica "

p 4.7 El futuro

0
0 La sociedad marcadamente orientada hacia ei mercado pone un reto importan
P te ai trabajo aplicado de los geógrafos. Los estúdios aplicados han sido adop-
0
tados por un gran número de geógrafos, incluyendo los que trabajan en SIG,
y ei análisis espacial utilizando esta tecnologia puede intensificar los sistemas
de gestión de empresas permitiendo a los usuários ganar en competitividad cn
P
ei mercado de usuários sofisticados. El desarrolló y ensenanza de SIGda a los
0 estudiantesuna amplitud de habilidades flexibles para utilizar en losmercados
laborables que están continuamente reestructurándose, además de abrir vias
a un amplio abanico de aplicaciones. Por tanto los geógrafos están llamados a
f participar en una re-evaluación dei estado dei bienestar, enfocando la atención
0 en los limites tanto de las elecciones individuales como en las colectivas, y en
0
desarrollar habilidades dentro de los procesosde investigación y de desarrolló.
Esta posición situa a la geografia aplicada dentro dei enfoque de ciência espa
P
cial de la disciplina, la que es aplicable y está basada en estúdios empíricos. La
P clave está sin embargo en definir o preguntarse sobre cualquier trabajo si es
P relevante y para quién o para que lo es.
P Aprincípios de losanos1970 algunos destacados geógrafos fueron pregun-
0 tados sobre sus puntos de vista sobre ei futuro de la disciplina, pero poço de lo
que ellos sugirieron se refleja en lo que realmente ha pasado (FIaggett, 1979).
0 Las discusiones sobre como debe practicarse y ensenarse la geografia conli-
0
núan, lo cual refleja no solo las divisiones internas sino también las tendências
en las sociedades a las que losgeógrafos pertenecen.El contenido y ei contexto
de las discusiones futuras no pueden predecirse, pero lo que si puede sugerirse
0
es que la geografia ya no se caracterizará por un mono-paradigma dominante.
Cabe recordar que los avances científicos no se producen en un vacío social
0 sino como una parte integrante de la historia humana, dentro de la que ei ele
P mento de azar que surge de la personalidad y creatividad pcrsonales juega un
P papel importante. Y finalmente, recordar que estamos construyendo ei futuro
de la geografia a medida quela vamos practicando.
0
p
4.8 Referencias
P
r ABLER, R.F.; MARCUS, M.G.; OLSON, J.M. (eds.). Geography's inner worlds:
0 pervasive thèmes in contemporary American geography. New Jersey: Rutgers
University Press, 1992.
0
0 ALBENTOSA, L.M. La evolución de la Geografia Fisica en Espana. Geomorfologia
p y Climatologia. In: COLOQUIO IBÉRICO DE GEOGRAFIA, 3. Anais... 1984. p.
99-112.
0
0

0
153
-9
9
Maria Sala Sanjaume 107
9
9
GREGORY, K.J. The nature of Physical Geography. London: Arnold, 1985. 272 p.

HARVEY, D. Explanation in geography. In: ARNOLD, E. Teorias, leyes y modelos


en geografia, 1983, London: Alianza, 1969. *»,

HAGGETT, P. Geography: a modern synlhesis. New York: Harper mternational,


1979.

HAINES-YOUNG, R.H.; PETCH, J.R. Physical Geography:its natureand mcthods.


London: Harper & Row, 1986. 230 p.

JOHNSTON, RJ. Geographyand geographers: anglo-american human geography


9
since 1945. London: Arnold, 1987.
9
LIVINGTONE, D.N. The geographical tradition: episodes in the history of a
contested enterprise. London: Blackwell, 1992. ^

LOUNSBURY, J.F.; ALDR1CH. ET. Introduction to géographie field methods and


techniques in modern geographical research. London: Bell & Howell, 1986.

MASSEY, D. Space-time "science" and lhe relationshipbetwecn physical geography


and human geography. Trans.Inst.Br.Geogr, NS 24 p. 261-276, 1999.

MUNOZ, J. Métodos y técnicas recientes en Geografia Física: la renovación


9
metodológica y técnica de la Geografia Física espanola a través de los trabajos
publicados en ei período 1973-1982. In: VIII Col. Geog. Esp. Anais... Ponencia 1,
1984. p. 33-45.

PEET, R. Modern Geographical Thought. Oxford: Blackwell, 1998. 9


9
POPPER, K.R. The logic of scientific discovery. Hutchinson, London. Trad.
castellana (1973): La lógica de la investigación científica. Madrid: Alianza, 1934.
SALA, M.; BATALLA, R. Teoria y métodos en geografia física. Madrid: Sintesis.
[A summary ofthe théories and methods that underline physical geography today].
1996. q
STODDART, D.R. Darwirís impact on Geography. In: Association of American
Geographers. Anais... n. 56, p. 683-698,1966.

STRAHLER, N. Dynamic basis ofgeomorphology. Buli. Geol. Soe. Amer. LXIU, p.


923-938,1952.
G

9
9
9
9
9
9

9
9
9
9
154 9
p
r
0
TEXTO 7

r
Josefina Gómez Mendoza,
p
Júlio Munoz Jiménez,
p
0 y Nicolás Ortega Cantero
p
p

0
El pensamiento geográfico
0
0
'

Estúdio interpretativo y antologia de textos
0 ' (De Humboldt a las tendências radicales)
0
P
P
0 .
Segunda edición corregida y aumentada
r

0
Karl Ritter *
p
LA ORGANIZACIÓN DEL ESPACIO
0
EN LA SUPERFÍCIE DEL GLOBO Y SU FUNCION
P
EN EL DESARROLLÓ HISTÓRICO **
0

t
0
0
0
0
P
0
0
P
0
p
Alianza
0 Editorial
0
0
0
0
155
9

Karl Ritter *

LA ORGANIZACIÓN DEL ESPACIO 9


EN LA SUPERFÍCIE DEL GLOBO Y SU FUNCION
EN EL DESARROLLÓ HISTÓRICO ** 9
9
9

9
9
9
9
9
9
9
9
9
Examinemos un globo terrestre. Por muy grande que sea, no puede
9
aparecemos más que como una miniaturización y una representaáón im-
9
perfecta dei modelado externo de nuestro planeta. Sin embargo, su per-
fecta esfericidad, que contiene tanta diversidad, no deja de ejercer una
profunda influencia sobre nuestra iroaginación y nuestro espíritu. Lo que
nos sorprende ai observar un globo terrestre es la arbitrariedad que pre
side la distribución de las extensiones de água y de tierra. No hay espacios
9
matemáticos, ninguna construcción lineal o geométrica, ninguna sucesión
9
de líneas rectas, ningún punto; solo la red matemática establecida a partir
de la bóveda celeste nos permite medir artificialmente una realidad inapre-
hensible: los propios pólos no son más que puntos matemáticos defi
nidos en función de la rotación de Ia Tierra y cuya realidad se nos escapa
todavia. No hay simetria en ei conjunto arquitectónico de este Todo
+
terrestre, nada que lo emparente en este sentido con los edifícios cons
truídos por la mano dei hombre o con ei mundo vegetal y animal, cuyos
9
* Karl Ritter (1779-1859). Además dei que corresponde ai texto traducido en este
9
libro, entre sus trabajos principales se encuentran:
Ritter, K. (1822-1859): Die Erdkunde im Verbãltnis zur Natur und zur Gescbichte des
Menscben oder allgemeine vergleichende Géographie, ais sichere Grundlage des
Studiums und Unterricbts in pbysicalischen und hislorischen Wissenschafien, Ber-
lín, G. Reimer, 19 tomos, 21 vols. 9
Ritter, K. (1861): Gescbichte der Erdkunde und der Entdeckungen. Vorlesungen au
der Universitãt zu Berlin gehalten. Herausgegeben von H:- A. Daniel, Berlín, 9
\G. Reimer. t
** Ritter, C. (1850): «De rorganisation de 1'espace à la surface du globe et de
son role dans le cours de rhistoire» (Discurso pronunciado ei 1 de abril de 1850), en
Ritter, C. (1852): Intròduction à la géographie gênérale comparée. Traduction de
D. Nicolas-Obadia. Intròduction et notes de G. Nicolas-Obadia, Paris, Les Belles
Lettres, 1974, pp. 166-189. Traducción de Isabel Pérez-Villanueva Tovar. 9
9
168

156
0
—-.-.-.-.••.' _.-.--.".".•.«

Karl Ritter' 169

organismos presentan, tanto en los vegetales como en los animales y en


ei hombre, una base y una cúspide, una derecha y una izquierda. Si, este
Todo terrestre perfectamcnte asimétrico, ai no obedecer aparentemente
a ninguna regia y ser difícil de captar como un conjunto, nos deja una
impresión extrana y nos vemos obligados a utilizar diversos métodos de
clasificación para borrar la idea de caos que de él se desprende. Por eso
han interesado más hasta ahora sus partes constitutivas que su apariencia
r global, y los compêndios de geografia se han dedicado fundamentalmente
a describir sus partes. Habiéndose contentado hasta ahora con describir
y clasificar someramente las diferentes partes dei Todo, la geografia no
ha podido, en consecuencia, ocuparse de las relaciones y de las leyes ge-
nerales, que son las que unicamente pueden convertirla en una ciência
0
y darle su unidad.
0 Aunque la Tierra, como planeta, sea muy diferente de las represen-
taciones a escala reducida que de ella conocemos y que no nos dan más
que una idea simbólica de su modelado, hemos tenido que acudir a esas
miniaturizaciones artificiales dei globo terrestre para crcar un lenguaje
abstracto que nos permitiese hablar de ella como un Todo. Así es, .en
P
efecto, y no inspirándonos- directamente en la realidad terrestre, como
hemos podido elaborar la terminologia de las relaciones espaciales. Sin em
bargo, teniendo en cuenta que la .red matemática proyectada sobre la
Tierra a partir de la bóveda celeste se ha convertido así en ei elemento
determinante, esta terminologia ha permanecido- hasta ahora incompleta
0
y no permite actualmente una aproximación científica a un conjunto es-
tructurado considerado en sus extensiones horizontales y verticales o en
P sus funciones.
Existe una diferencia fundamental entre las obras de la naturaleza y las
creaciones dei hombre: por bellas, simétricas o acabadas que estas últimas
puedan parecer, un examen atento revelará su falta de cohesión y su tosca
trama. El tejido más fino, ei reloj más elegante, ei más hermoso cuadro,
ei pulido más liso dei mármol o de los metales nos reservaria, visto ai
microscópio, semejante sorpresa! Inversamente, la asimetría y Ia apariencia
informe de las obras de la naturaleza desaparecen con un examen profun
do. La lupa dei microscópio hace surgir en la tela de una arana, en la
estructura de una célula vegetal, en ei aparato circulatório de los animales,
en la estructura cristalina y molecular de los minerales, elementos y con
0
juntos de una textura siempre más fina. Pero las obras de la naturaleza
0 y las creaciones dei hombre difieren también por la amplitud y ei ca
racter que se trasluce eh su composición y en sus funciones. En efecto,
las investigaciones efectuadas en fisiología han revelado la existência de
P
una relación entre las fuerzas de la naturaleza; han permitido descubrir
sistemas y leyes naturales a los que la química, la física, la óptica y la me
cânica deben especialmente su existência.
0 <>No deberíamos volver a encontrar esta diferencia en ei caso dei mayor
cuerpo natural que conocemos, es decir, nuestro planeta, aunque es cier
to que no lo conocemos más que superficialmente... y su superfície mo-

0 •
157
•..*.:.
9
i
9

170 Antologia de textos


9
delada por las fuerzas ciegas de la naturaleza parece deber su apariencia
actual y tan extrana ai azar y ai desarrolló arbitrário de las águas y de 9
las tierras? Pero £cómo conciliar esta aprehensión global de nuestro
planeta con lo que sabemos de todo lo que en él vive, pueblos y demás;
con lo que conocemos de la aventura humana que en él se ha desarrolla-
do, y como conseguirlo si concebimos ei globo como ei lugar y la morada
que ha ofrecido ai hombre, durante ei tiempo de su paso por la Tierra,
ei marco necesario para desarrollarse?
Toda planta quiere tener y encuentra un suelo propicio para florecer
y dar frutos. Toda criatura, para prosperar, ha de vivir en su elemento,
dSerá ei hombre una excepción y será ei único en vivir en un médio
modelado por fuerzas ciegas que acosan la tierra, las águas y los aires,
teniendo en cuenta que ha asegurado su supervivencia durante milênios?
Aun reconociendo su gran riqueza y diversidad formal, por considerar
la Tierra, ese cuerpo inorgânico, como un todo rígido que ha. aparecido en
nuestro sistema para permanecer inmutable, ^habría que inducir que no está 9
en condiciones de procurar a nuestra espécie lo que necesita para desarro
llarse; habría que admitir que, contrariamente a todas las criaturas que
alberga, solo la Tierrra está desprovista de esa fuerza creadora que en
gendra una fuerte estructura interna? Todo nos lleva a no buscar en. ei
presente la imagen de la eternidad, a no confundir apariencia y esencia,
las impresiones que obtenemos de una cosa o de un fenômeno y la reali
dad de esa cosa o de ese fenômeno, a np interpretar las leyes naturales
establecidas como construcciones lógicas de nuestro intelecto, sino a con
sideradas como una feliz descubrimiento de un mundo fenoménico que
nos rodea y que todavia no habíamos logrado dilucidar. La gênesis de
ese enjambre de estrellas que constituyen las nebulosas planetárias, ei
estúdio de la formación de los vientos se cuentan entre las cosas que
nos han ensenado a no tachar de incoherente ei desorden aparente dei
mundo que nos rodea.
En efecto, cuanto más avanzamos en ei conocimiento de la distribu-
ción espacial en la.superfície dei globo terrestre y cuanto más nos intere-
samos, más alia de su desorden aparente, en la relación interna de sus
partes, más simetria y armonía descubrimos en él, y. en mayor medida
las ciências naturales y la historia pueden ayudarnos a comprender la 9
evolución de las relaciones, espaciales. Si, gtacias a la determinación astro
nômica de los lugares, a la geodesia, a la hidrografia, a la geologia, a la-
meteorologia y a la física, han podido realizarse hasta ahora grandes
progresos en matéria de orden espacial, queda todavia mucho por hacer
9
y podemos esperar conseguirlo mediante la intervención en ei estúdio de
las relaciones espaciales de nuestros conocimientos relativos a la historia
deNlos hombres y de los pueblos y a la distribución local de los productos
de los três reinos de la naturaleza. . ^
(...)
Los comentários que hemos hecho anteriormente sobre las dimensio-
-nes horizontales de los continentes nos dispensan de estudiar más dete-

I5S

9
p

p
p
Karl Ritter 171

nidamente los detalles de sus relaciones. Basta con recordar aqui que, cn
los três continentes dei Viejo Mundo, la forma oval de África, romboé-
e
drica de Ásia y triangular de Europa han determinado para cada uno de
*•
ellos três tipos de relaciones dimensionales. EI caracter uniforme que
adquieren èn África (ei mismo largo y ei mismo ancho cn longitud y en
latitud) se opone fundamentalmente ai que asumen en Europa. Aqui,
r
en efecto, la longitud este-oeste dei continente eqüivale a dos o três veces
su anchura, que decrece sucesivamente desde la base dei triângulo adosa-
p
da a Ásia hasta su vértice orientado hacia ei Atlântico. Si África, ese
0 cuerpo compacto y replegado sobre si mismo, está desprovista de toda
articuJación, ei corazón dei continente asiático, igual de macizo pero más
potente, es menos penetrable; ai este y ai sur se encuentra además muy
finamente articulado. Europa, por su parte, se abre en todas las direc-
ciones; no solo ai sur y ai oeste, sino hacia ei norte y hacia ei interior
mismo de las tierras cuyas ramificaciones han tenido tanta importância
como la que tuvo ei núcleo central respecto ai desarrolló dei proceso de
ávilización. Teniendo en cuenta la menor superfície de las tierras y la
mayor riqueza natural de los miembros aislados, en este caso la civilización
ha podido penetrar, en efecto; en ei interior de las tierras. El cuerpo más
recogido de Ásia no se abre en todas partes a los mares como ei de Euro
p
pa. Los mares no penetran allí en ei interior de las tierras, aunque las
p •hienden profundamente ai este y ai sur. No consiguen, pues, como en
Europa, instaurar un equilíbrio entre diferentes formas que se interpe-
netran. Así es como ei amplio núcleo central de este indivíduo terrestre
que es Ásia (y que se asemeja desde este punto de vista a la masa com
0
pacta dei conjunto de África) se ha encontrado privado de las ventajas
inherentes a sus articulaciones y de sus efectos. Si es hacia ei sur donde
0 la periferia de Ásia está mejor articulada, es hacia ei norte donde lo está
menos, con las ventajas y los inconvenientes que esto implica. Aunque
abarque una superfície igual a la mitad de la de Europa, los miembros
siguen siendo aqui mucho menos importantes que ei cuerpo compacto y
potente que ha conseguido frenar la evolución de la civilización en ei con
0
junto dei continente. Los pueblos de la periferia que habían alcanzado un
0 desarrolló superior han permanecido, en efecto, aislados en sus sistemas
peninsulares.
Si ei núcleo central dei continente asiático se ha mantenido, por tanto,
como la pátria monótona de los pueblos nômadas, sus antepaíses, sus
penínsulas articuladas y privilegiadas por la naturaleza —pensamos ahora
en China, cn Indochina, las índias, Arábia, Ásia Menor y sus subdivisio
nes— han constituído individualidades físicas, y humanas. Estas, sin em
bargo, no han sido capaces de propagar su civilización en ei interior dei
continente.
Al ser las costas africanas periféricas poço articuladas, son más cortas
que las de los demás continentes. De abi la pobreza de los contactos
entre ei mar y ei interior de las tierras y la dificultad de acceso ai corazón
dei continente. Las condiciones naturales y humanas han negado ai cuerpo
0
0
P
_ 159
_

9
9
172 Antologia de textos ^
inarticulado de África toda individualización. Teniendo en cuenta que aqui 9
los diversos extremos se sitúan a igual distancia dei interior de las tierras, 9
como la situación astronômica dei continente a un lado y otro dei ecua-
dor hace que los contrastes climáticos se repartan regularmente en las
zonas tropicales y subtropícales, todos los fenômenos característicos de 9
este indivíduo terrestre, que constituye ei verdadero Sur de la Tierra y
donde culmina ei mundo tropical, han conservado un caracter uniforme
y sin embargo particular. Esto es lo que explica que cl estado primitivo
y patriarcal en ei que viven los pueblos de este continente haya permane
cido ai margen de los progresos y dei tiempo, que África parezca obligada
a ofrecer todavia durante milênios asilo a la elaboración de un futuro 9
desconocido. Esta tierra presa dei inmovilismo no conoce efectivamente
más que desarrollos colectivos. Las plantas, los animales, los pueblos y
los hombres no evolucionan individualmente. Se encuenttan palmeras y ca-
mellos en los extremos norte y sur, este y oeste de la tierra africana.
La. raza negra, que constituye aqui la principal población autóctona, está
dispersa en todas las direcciones. Al igual que ei continente, no ha
conocido más que una evolución colectiva y somera que no ha favorecido
en absoluto la aparición de culturas, de Estados, de pueblos y de seres 9
fuertemente individualizados. Los diversos dialectos hablados por estas po-
blaciones negras convergen finalmente en una fuente lingüística común.
En este sentido, solo estrechas bandas costeras repartidas discontinuamen-
te en las regiones más favorecidas dei continente constituyen una excep-
9
ción. Pero esta situación privilegiada procede la mayor parte de las veces
9
de aportaciones exteriores.
Aunque no es más que parcialmente esférico, ei extraordinário desarro
lló costero de Ásia ha engendrado un mundo de fenômenos completamen
te diferentes. Los miembros articulados dei continente poseen aqui, èn-
todas partes, una individualidad propia. Aislados dei resto dei continente, 9
pero comunicados entre si por ei mar, han sido diversamente configura
9
dos en su totalidad por la naturaleza, sus montanas, sus valles, sus rios,
sus mares, sus vientos y sus productos. Sus propios pueblos y sus culturas
los convierten en mundos aparte. Esto es lo que explica por lo demás ei
caracter fuertemente diferenciado de las individualidades constituídas por
ei mundo chino, malayo, hindu, persa, árabe, sirio y próximo oriental.
Sin embargo, contrastando de forma sorprendente con ei cuerpo dei con
tinente que ha permanecido replegado entre si mismo, los progresos lleva-
dos a cabo por su civilización no han podido todavia influir o modificar
la vida de los nômadas que circulan por aquél desde hace milênios, esos
pueblos cuyos antepasados debieron dispersarse en los amplios espacios
pccidentales y que llamamos hoy mongoles, turcoraanos, kirguises, bukaros
(uzbekos), kalmukos y demás. Menos aún han podido alcanzar ei norte
dei continente, que, a pesar dei aspecto espectacular de los fenômenos
tipicamente orientales que se manifiestan en su inmenso território, se en-
cuentra despfovisto de esa armoniosa unidad que proporciona una civiliza
ción adquirida en común. Este estado de cosas se debe además igualmente
9
'• • 9
•- " 160 /• 9
9
P
m,- •' • .:...:..•..• • ..... ..!--..- sj±vl-i£Z-}~'_,*,;,_•',:
) -

Karl Ritter • • 173

ai caracter gigantesco de las formas naturales orientales, tanto más difi


cilmente comprensibles cuanto que no se cuenta con ningún dato histórico
sobre ellas. Y depende, finalmente, de la excesiva riqueza de los dones
y de los productos naturales que, debido a las variaciones climáticas, apa-
p
recen en este caso fuertemente contrastados. Extendiéndose desde ei ecua-
0 dor hasta las tierras polares, este continente posee, en efecto, sobre su
suelo las plantas y los animales más diversos. Se los encuentra no solo
a lo largo de las diferentes latitudes, sino, debido a su formidable exten-
sión de oeste a este, a lo largo de los meridianos que se reparten entre
0
un mundo oriental y un mundo occidental con caracteres fuertemente con
trastados. Para ilustrar esta oposición, bastará comparar entre si la civi
lización china y la civilización dei Próximo Oriente. Para ilustraria en ei
0 terreno de los resultados naturales, basta apuntar la presencia dei cocote-
ro, dei sagú, dei tigre en ei este, y de la palmera datilera y dei león ai
oeste; poner en paralelo, en lo que se refiere a Ásia septentrional y
meridional, una vegetación alpina, ei bosque de coníferas, ei reno y, por
otra parte, ei árbol dei pan, la cana de azúcar, ei pisang de anchas hojas,
P ei elefante, ei rinoceronte, ei tapir y ei mono.
A la riqueza inagotable de las relaciones naturales en esta parte dei
Globo, corresponde la diversidad de las relaciones humanas. Aunque desde
0
ei comienzo de las grandes migraciones este continente haya suministrado
a sus veclnos contingentes de población, nunca ha agotado sus recursos
P
humanos. Al contrario, siempre ha estado abundantemente provisto de
0 pueblos de raza, de talla y de color diferente, con modos de vida, nacio
nalidades, religiones, organización política, castas, Estados, cívilizaciones,
lenguas y etnias propias. Comparativamente y desde ei comienzo de la
P
historia de la humanidad, ningún otro continente ha podido mostrar se-
mejante diversidad. Por eso Ásia se encuentra en ei origen de todas las
P cívilizaciones humanas.
Europa es la amplia prolongación dei Ásia media. Según va, ai alejarse,
progresando hacia ei oeste, desarrolla sus superfícies con una autonomia
creciente. Así, y con miembros proporcionalmente más importantes que
P
ei cuerpo, supera a su vecina oriental precisamente en ei sentido de
que, no constituyendo obstáculo ni en altura ni en anchura, ei núcleo
P central no consigue aislar los miembros. Este indivíduo terrestre fuerte
mente compartimentado que es Europa ha podido, pues, conocer un des
arrolló armónico y unificado que ha condicionado desde ei comienzo su
^
caracter civilizador y ha antepuesto la armonía de las formas a la fuerza
de la matéria. El menor de los continentes estaba así destinado a dominar
a los más grandes. Así como Ásia, continente que se extiende sobre las
três zonas climáticas, beneficiándose de notables dones naturales y con
esencial predomínio de las pesadas masas de tierra, estaba abocada desde
su configuración a beneficiar con sus riquezas a los continentes vecinos
sin empobrecerse por ello , Europa, continente circunscrito a la zona tem-
pladã, finamente articulado, dotado de un relieve a escala humana y de
; formas continentales y marítimas que se interpenetran, estaba particular-

P
P
0 !
161
M

174 • Antologia de textos

mente predispuesta, por no disponer ni de los extremos ni de las riquezas


de aquélla, a acoger lo que le era extrano. La energia desplegada por sus t
pueblos industriosos para ordenar las condiciones locales la han hecho
apta para utilizar sus dones planetários de forma que ha producido una
civilización humana caracterizada por la armonía misma que le confiere
ei hecho de ser un lugar de paso que garantiza a todos los demás pueblos
dei Globo la mejor de las acogidas. Si se sabe que la vocación, que se ha
9
unido a la infinita riqueza de las formas a lo largo de la historia de esta
parte dei mundo que es Europa, se ha encontrado confirmada en la historia
universal, es menos sabido que estaba en cierta forma inscrita en ella
desde toda la eternidad; se ha atribuído ei honor unicamente ai hombre,
en este caso ei europeo, cuando solo lo merece en parte. Para ser conci
sos, no destacaremos en la estructura básica de Europa más que três de
sus relaciones características: ei desarrolló de sus costas, la articulación
de sus tierras septentrionales, las islãs que la rodean.
Desde ei punto de vista de la relación de su desarrolló costero con
su superfície, Europa es indiscutiblemente ei mayor de los continentes.
Si Ásia, cuya superfície es cinco veces la de Europa, posee 7.000 millas
(52.000 km.) de costas, África, con su superfície três veces superior a la
de Europa, no posee más que 3.800 (28.000 km.). Las 5.400 millas
(40.000 km.) dei litoral europeo alcanzan, por ei contrario, una longitud
igual a la dei ecuador. Aunque situada en ei corazón dei universo terres
tre, Europa, ai dejar sus articulaciones que penetren todos los mares dei
Viejo Mundo, se beneficia dei más rico contacto posible con ei mundo
marino. A esta cualidad de contacto se anaden una situación marítima
9
privilegiada respecto ai movirniento general de los mares y los vientos, y
9
una abundância de golfos y de puertos naturales cuya configuración, con-
secuencia lógica de la articulación dei continente, ha favorecido ei desarro
lló dei arte de Ia navegación, asegurándole así ei domínio de los mares.
Desde este punto de vista, es ei archipiélago britânico, con sus numerosos
puertos y sus costas bien recortadas-, ei que actualmente ocupa ei lugar 9
que tuvo en ei Mediterrâneo y durante la antigüedad la Grécia peninsu-
lar en su época de plenitud. Las costas árticas de Europa, banadas por 9
ei Báltico y ei mar dei Norte, profundamente hendidas por ei mar Blanco, 9
que se extienden por los distintos antepaíses,. islãs y penínsulas escan
dinavas, han asegurado a esta parte septentrional dei continente un des
arrolló tan rico como ei que proporcionan a la parte meridional las três
notables penínsulas de Grécia, Itália y Espana. El mundo escandinavo 9
confiere a Europa dei norte una gran superioridad sobre la vecina Ásia.
9
Por no estar tan bien articuladas, por estar separadas de la parte meridio
nal y mejor desarrollada- de Ásia, por padecer, encontrándose encajadas
entre las tierras polares y la alta Ásia central de los nômadas, una situa
ción doblemente desfavorable, por estar, finalmente, insuficientemente do
tadas por la naturaleza, las tierras lianas de Sibéria han sido tributarias
de la Europa' dei noreste en matéria de progreso y de civilización.

162 *>
,_•.-.-.•-• -•- •.-—

p
0

Kad Ritter

P
Finalmente, y en Comparación con los demás continentes, las islãs
i
que rodéan a Europa se distinguen por vários aspectos. Integradas, en
tanto que islãs costeras, ai território continental, enriqueceu, como ver-
daderas estaciones marítimas, las extensiones oceânicas satélites y dan más
amplitud ai Todo. Manteniendo con ei cuerpo y los miembros dei conti
nente una relación -de amplitud relativamente importante, han ofrecido
grandes superfícies favorables ai establecimiento de conexiones entre los
pueblos y las cívilizaciones que han contribuído mucho no solo a doblar la
superfície de los espacios considerados, sino a intensificar su desarrolló. No
son, sin embargo, pequenas islãs aisladas, archipiélagos rocosos alineados
en los oceanos o promontorios áridos y de difícil acceso; en efecto, Ingla
terra meridional es una prolongación natural dei norte de Francia, igual
que SicÜia de Calábria y Candía (Creta) de Morea. jlmaginemos sencilla-
mente cuál seria ei empobrecimiento de la historia, dei desarrolló local
y de las relaciones marítimas de Europa dei norte provocado por la súbita
desaparición dei archipiélago britânico! Privada de Seeland y de Fionia,
Ia península de Judandia no seria más que una simple lengua de arena;
en la antigüedad, sin .ei granero de trigo siciliano, la historia de Roma y
de Itália hubiera sido muy diferente; finalmente, y gracias a Creta, ei
, archipiélago egeo y las islãs jónicas han servido de puente a las civiliza-
ciones jónicas e indoeuropeas en Grécia y en Hesperia (Magna Grécia).
No tenemos la intención de analizar aqui las consecuencias de la ausên
cia total de islãs a lo largo de las costas africanas., a Ias que ni siquiera
P
pertenece la gran islã de Madagascar, aislada y rechazada hacia ei mundo
P oceânico por las comentes y los espacios marinos. Tambíém está fuera de
lugar intentar comprender las especificidades de la giganteca extensión
insular, en ei sudeste asiático, dei mundo malayo marítimo, es deár, dei
grupo mdochino y de sus prolongaciones en las islãs de la Sonda hacia
Austrália: ei mayor y más rico en individualidades dei planeta, puesto que
0
su superfície triangular es igual a la de Europa. .Este istmo asiático ofrece
por lo demás, a causa de su posición entre dos continentes, una cierta
analogia con ei istmo de Panamá, entre las dos Américas. Senalaremos
simplemente ei hecho de que la densidad demasiado elevada de estas islãs
tan estendidas y ricamente dotadas les ha permitido constituir un universo
P
autônomo con su propia población insular, los malayos. En efecto, no se
P pueden considerar estas islãs como miembros desgajados y dependientes
dei continente vecino y de su litoral, sino como miembros autônomos que,
independientemente de esta proximidad, han sido menos enriquecidos por
ei continente vecino de lo que lo han sido otras islãs costeras dei resto
^ dei mundo.
La observación de Estrabón a propósito de Sicilia, esto es, que las
articulaciones dirigidas hacia los continentes, y sobre todo las islãs, son las
partes dei mundo más ricamente dotadas, se confirma tan completamente
en ei archipiélago que se extiende de Ceilán a Nueva Guinea, que cada
una dé sus islãs parece haber recibido un capital específico de dones natu
rales que incluyen en ei proceso de desarrolló dei comercio universal en
0
P
r i
163
P
9
"9
9
9
176 " Antologia de textos

h zona ecuatorial. Así se encuentra, en Ceilán, ei elefante blanco, perlas,


canela y rubíes; en Sumatra rinocerontes, tapires, orangutanes, tintes
naturales 7 maderas preciosas; en Bangka los yacimientos de estano más
ricos dei mundo; en Borneo oro, diamantes y mil riquezas más; en Java -

ei alimento más nutritivo, la cebada, conocida desde la época de Tolomeo,


ei árbol dei pan y la cana de azúcar; las pequenas islas de la Sonda
tienen, cada una, especias patticulares; en las Molucas y en Nueva Gui-
nea, finalmente, las autênticas maderas preciosas, ei sagú, las palmeras de
aceite muy rico en sustancias nutritivas, Ias aves dei paraíso y numerosas
producciones de los três reinos de Ia Naturaleza han encontrado su pátria
sin tener que instalarse en ei continente. Aqui, en la más estrecha unión
de los mundos terrestres, oceânicos y tropicales, dotados de las más ricas
producciones de los três reinos de la Naturaleza, la vida física dei globo
terrestre aparece con toda su intensidad y su potência. Si ei grado más
9
alto de desarrolló y de civilización hubiera debido coincidir con una posi-
ción planetária muy favorable, aqui es donde dehiera haberse producido. 9
La ley que dirige ei mundo dei espíritu es, sin embargo, diferente de la
que gobierna ei mundo físico.
Si ei desmenuzamiento en Ias islas separadas dei continente hubiera
sido ei principio general de estructura de la Tierra, lo que vemos aqui
9
realizado en ei más alto grado, ei continente europeo, que tiene 150.000
léguas cuadradas (8.282.000 km2), hubiera podido dividirse en quince gran 9

des islas como Borneo, Sumatra, las Célebes, o comparables en su super


fície a Anatolia y a Espana; los pueblos de la Tierra hubieran estado
perfectamente aislados en una falta total de cohesión. En la forma de 9
Europa encontramos realizado, por ei contrario, ei contacto y la penefra-
9
áón recíproca más favorables, así como ei más perfecto equilíbrio entre
las oposiciones de las formas sólidas y fluidas en ei globo terrestre. No 0

encontramos por eso, en este caso, los inconvenientes de Ia excesiva articu


lación y dei desmenuzamiento dei archipiélago indonésio, tan opuesto a
las grandes masas continentales inarticuladas. En la fragmentación de la
corteza terrestre en ese archipiélago y en su concentración en las masas
terrestres compactas de África, tenemos dos formas extremas que actúan
diferentemente, incluso de forma opuesta, sobre las relaciones naturales
y humanas. Han debido ejercer ambas influencias negativas e inhibidoras
sobre ei desarrolló de sus primeros habitantes. En un caso, en la máxima
parcelación, la etnia más dividida y más desgarrada de la Tierra: los pue
blos malayos dei archipiélago indonésio; en otro, en la máxima compacti-
bilidad de las tierras, los diferentes grupos de pueblos negros se encuentran
en ei entorno natural más monótono, más uniforme y menos desarrollado,
que existe. ^
\ Estas dos formas terrestres resultan bastante poço favorables a la evo 9
lución que hace salir a los pueblos dei estado de barbárie primitiva. Entre
estos dos extremos, Europa, lejos de inhibir, estimula. Su superfície, me m
nos importante a escala humana y, por tanto, más rapidamente dominada
en ei tiempo, su desarrolló costero, sus artículaciones, sus islas, son otros

16-1
P

• Karl Ritter ' 177


s tantos dones que, en comparación con las formas insulares precedentes,
la han provisto de las condiciones espaciales naturales más propicias para
la realización precoz de su vocadón planetária inscrita desde ei origen en
su estructura. Como indivíduo terrestre quizá aparentemente menos pro
visto de dondes naturales, Europa estaba efectivamente destinada a con-
vertirse en ei crisol de las riquezas y de las tradiciones dei Viejo Mundo
ai mismo tiempo que en ei lugar privilegiado para ei desarrolló de la acti
vidad intelectual y espiritual apropiada para absorber y organizar ei con
p
junto de la humanidad. Posteriormente, esta vocación se ha extendido ai
0
conjunto más amplio constituído por ei Viejo y ei Nuevo Mimdo, que,
receptivos a todo, han podido librarse mejor de las coacciones naturales
locales, permitiendo así a sus pueblos alcanzar su pleno desarrolló humano.
En los encadenarnientos de causa a efecto que la Naturaleza y la His
toria nos muestran se puede prever, puesto que ei planeta parece tener
una vocación más nobíe revelada por la continuidad histórica, una organi
zación superior y que por lo demás no seria de naturaleza puramente
física. Esta organización debe ser fundamentalmente diferente de la de los
organismos naturales sustentados por ei planeta, que se mueven eri él y
dotados de una existência forzosamente más breve. Pues si los pensadores
que contemplan la superfície aparentemente disimétrica y caótica de la
P
Tierra se encuentran turbados por los resultados de su contemplación, ello
0 no se debe a la ausência de organización en las relaciones espaciales que
pueden ser analizadas gradas a estúdios más profundos.
A pesar dei desorden aparente en que se encuentra inmerso ei Globo
0
para un ojo inexperto, es en las diferencias entre superfícies y formas
donde reside ei secreto dei sistema interno y superior de organización
0
planetária que expresa una infinidad de fuerzas cuyos efectos invisibles
están en interacción. Estas fuerzas, que influyen en la Naturaleza y en
la Historia, actúan de una forma análoga a la actividad fisiológica que
determina la vida de los organismos vegetales y animales.
Es precisamente en la repartidón diferencial y en la amplitud irregular
de las extensiones de tierra y de água, así como en las temperaturas
0
variables que las acompanan necesariamente y en los movimientos aparen
temente desordenados de los vientos, donde reside la razón fundamental
de su ubicuidad. y de su interacción general. Así, ei hecho de que los
continentes tengan superfícies diferentes explica ei poderio de los pueblos
0-
y la posibilidad que les es dada de dominadas. El aparente azar que pre
side la disposición relativa de las masas de tierra refleja una ley cósmica
superior que ha determinado necesariamente todo ei proceso de desarrolló
de la humanidad. La separación a primera vjsta puramente física dei Viejo
y dd Nuevo Mundo, de los continentes y de las islas resulta ser la esencia
de la relación espacial universal. La desigual distribución de los dones
naturales es ei estimulante fundamental dei desarrolló de los intercâm
0
bios universales. La débil superfície de Europa y la armonía de sus formas
limitadas es la condidón de su libertad y de su capacidad de dominadón-
P ' (-)

165
p
0
0

0-
0

p
p <'•-.

0 V*3
0

r •

P
*
Organizador: Antônio Carlos Robert Moraes
p -,-'•,•
......

• -•*,--

p

*
r
0
0

P
p

4.0 ELEMENTO HUMANO NA GEOGRAFIA;


0 A HISTÓRIA EA GEOGRAFIA DOHOMEM
0

P
0

P
P
0
• •.

P
0

167
9
9
4. O ELEMENTO HUMANO NA GEOGRAFIA.
A HISTÓRIA E A GEOGRAFIA DO HOMEM 9
.': -" : L :: ..-
•'. . • •'
!...': *
§29. Tarefas da geografia do homem e sua tríplice divisão— Se consi
derarmos o homem dentro do quadro geral dá vida terrestre, hão nos seira ^
possível compreender o papel que ele ocupa ria' Tèrrá, a não ser seguindo «*
aquele mesmo'método do qual nos valemos pára estudar a difusão das plàn-:.
tas e dós animais.!Por isso a.geografia do hómèhv do mesmo rhoclo que a ^

zoogeógrafia e a fitogéografia, deverá descrever e representar cartográfica-


mente aqueles territórios onde sê nota a presença dò homem, sepãrandòV
parte da Terra que é pór ele habitada, ou ecumeno, daquelas que não 6 sãói
Ela estudará por òútrò lado á difusão dó hoiriem'déritro do ecúmenò e fixa
rá ós= resultados do seu estudo em mapas da densidade de populações pòli-
gráficas e itinerárias; E há medida em que a humanidade compreende raças, ..
povos è grupos étnicos menores, a geografia dò homem represehtáíámbem -
. á difusão destes elementos diversos através de mapas das raças humanas,
mapas etnográficos, inapas das línguas e mapas políticos. É essencialmente
9
a'esta parte dá nossa ciência que dedicamos a Parte II desta geógrájialdo
9
/ip/we/72 (1891). ••' ;; ",";-. L':r;:. ;.. ' ':. .-:;V; !\ > 9
: ;Á descrição e a representação do estado de coisas antropogèográfico:';
são úteis para-muitos objetivos da vida, do aprendizado, "do'trabalho cientí- .
fico; e; quando ambas sé realizam, pode-se dizer que foram cumpridas mui
tas dás tarefas práticas da geografia do homem. Mas á ciência nunca se sa- • . •
tisfaz por ter respondido à pergunta "ONDE?"; pois quando este guesito •
é resolvido, ela prossegue adiante e passa à pergunta "DE ONDE?'^. Já!ria
execução da sua tarefa descritiva, a geografia dó homem se encontrará diante
de uma grande quantidade de casos nos quais vêm se repetindo fenômenos
relativos ao território juntamente com fenômenos relativos à difusão do ele
mento humano. Passando agora à segunda parte da sua tarefa, esta ciência,

168 9
p
p
84 . .
P

ao examinar a área de difusão de cada raça e de cada povo, se colocará a


questão: "Como se formou esta área?"; e se.apresentarão então ao seu es-
* tudo os movimentos -do homem na sua dependência do território. Na verda-
i%'.,."' de ela se dará conta de;que nenhum povo teve origem no mesmo solo,em
'-?.. que habita então, e dai tirará a conclusão de que ele não poderia .mesmo
*% permanecer aí eternamente/Alguns povos se expandem e outros são expul-
'£•- sos. E diante de todos os movimentos que daí se seguem, a Terra não repre
senta já um elemento totalmente passivo, mas os direciona,' os obstaculari-
- ;.• za, os favorece, os torna lentos, os acelera, os desordena e os" ordena graças
. • • às suas condições incomensuravelmente variadas de posição,,de amplitude,
:.".. -de configuração, de riqueza de água e de vegetação. Quando a geografia se
r- .. aproxima do exame destes fenômenos ela entra*em contato com a história,
p que considera o solo como a pátria do cidadão, enquanto aquela o vê como
p ' :• a pátria da humanidade. Também a história considera a humanidade em mo-
r . . yimento,:embora não costume avançar através do estudo desta até o exame
... Üo território, enquanto-a geografia, ao contrário, não ignora jamais sua
0
"' presença.; ' . •'/•['•. '.'.". i
; As tarefas do terceiro grupo.referem-se ao estudo das influências que
0
a. natureza exercesobre o corpo e sobre o espírito dos indivíduos, e daísobre
ós povos. Trata-se portanto, essencialmente, de efeitos que se devem ap cli
p
ma, à configuração do solo, aos produtos vegetais ou animais do território.
\ Todos os fenômenos, da natureza,.passando através do intelecto, exercem
P r. uma influência às.vezes claramente visível, às vezes sutil e oculta sobre o
ser e sobre.as atitudes do homem, algumas vezes simplesmente se espelhan-
:: do nele, outras animando ou retardando.sua atividade intelectual. Assim ye-
-;, mos q ambiente físico refletir-se. na religião, na ciência, na poesia. Na ver-
,. dade o ,exame destas, influências compete mais à físiologia e à psicologia do
que à geografia; e isto tanto.máis na medida em auetais influências não per
manecem inativas no organismo como traços inanimados, mas continuam
a; produzir, seus efeitos na vida material e espiritual.do homem:, Contudo ;a
• geografia do homem ap descrever países e povos não poderá se desinteressar
pelos conhecimentos adquiridos nesta matéria, na mediçja em que estes to
cam diretamente todos os problemas relativos à aclimatação." •••..; ,.
r '1 . . . - ,:''-i-..-:
r
j §30.;A geografia é.nma ciência auxiliar? — Em contraposição à afir
mação hoje difundida de que a geografia é uma ciência auxiliar da história,
P
recordemos aqui a pergunta de Kant: "Qual das duas ciências existiu antes,
P a história ou a geografia?". Kant responde: "À geografia,está na base da
P história, porque os fatos históricos devem também ter um elemento ao qual
sereferir"37. Enquanto o historiador considera o solo como algo de acessó
rio, ele também atribuí ppucq valor aos serviços que a geografia presta, a
investigação histórica*com o estudo e a descrição deste; mas aqueles seryi-
0 ' -• ••; ••:•-
3? Physische Géographie, I, 12.
W)
0
85 *
9
ços lhe parecerão tanto maiores quanto maior é a importância que ele passa
a atribuir ao conhecimento do ambiente físico. A própria geografia pode con
tribuir para aumentar esse interesse dedicando-se intensamente ao estudo.do
elemento humano, com o.que estará tornando mais fácil à história a investi
gação das mutáveis relações que se estabelecem entre o solo e os aconteci I
mentos históricos que.se desenvolvem sobre este. Mas o nome de ciência au
xiliar não tem no caso nenhum sentido, pois qualquer ciência pode se tornar C'
útil-á. uma outra sem por isso se tornar sua serva. Não há nenhuma ciência C'
que sejatâo auxiliar, assim como não há ciência que não possa prestar algum
serviço a qualquer das ciências irmãs. É neste sentido que consideramos a geo-. .
grafia e a história da humanidade como ciências irmãs, do mesmo modo que
a geografia e a geologia. :- v í*
' '.'['••••] .;i,.0 • • .:'= ;.. '•• . ': - • "••:?!.•. ;.-- -.«.-•.- .. • •;;.••'•
•:;Assim estamos de acordo com Vambery ao entender que, em relação
ao território da Ásia Central e.das estepes européias,contíguas, deve-se sem 9
m
dúvida excluir a possibilidade de estabelecer uma distinção etnográfica,prèci-:.
sa no que se refere às'antigas migrações38. Desde que .esses territórios pós- .
suem o aspecto atual eles sempre receberam povos nômades. Mas se por trásA.
do véu das lendas já muito obscuras não é possível distinguir nitidamente ne- \
nhum.povo, e não havendo portanto a possibilidade da distinção.etnográfica,:.
resta sempre á possibilidade da distinção antropogeográfica: fossem turcos
ou arianos, os povos que habitaram aquelas terras de todo modo sempre -fo
ram pastores nômades. , ;•':•::. •'';' -il; ' •; '•'".'• i 9
. :Concoireu também para diminuir a importância que é dada à geogra-;
9
fia uma razão puramente literária, da qual muitos não se dão conta mas que
9
não deixa de ter eficácia. A história adquiriu na literatura um lugar emihen-
te graças à forma sob a qual são apresentadas muitas de suas obras, e!ao
espírito de que algumas destas se animam. Ora, isto é mais arte:dò que ciên- . .
cia. A geografia, propondo-se em geral a objetivos menos elevados e de üti-:
lidadé prática mais direta, raramente obteve uma tal excelência formal-.- E-•
por isso uma importante parcela da grande fama» considerada por'algunsi
exagerada, conquistada por Alexahder vòn Humboldt se deVè justamente •: •
a que a geografia encontrou nele finalmente,um escritor clássico como des-1
de á Antigüidade já nãò possuía. Por outroiádò.é compreensível.qüé or;es^- •
treitamento das relações entre a geografia e a história tenha servidó'p'ara tór-.;
hár cada vez mais manifesta a grandediferença'existente entre às duas cíêri- -c
cias sob o aspecto literário. Entre todos os geógrafos do sécuÍo:XyiII,;Pin^.-: .'
kèrtón só reconhece algum mérito literário,em D"Ãhville;e estéfoi-^ntre]to-.-:.
dos o qúé mais aproximou o estudo geográfico dá ciência hisfórieâvAlérh;:
disso Pinkerton afirmou, e com razão, qüe os antigos geógrafos trrmam maior .'
valor literário.que os modernos; constatação:que hão deve surpreender se se-
levar em conta que aqueles consideraram os •problemas geográficos sòbjas-. . 9
pectos gerais e se limitaram a descrever um muhdó pouco extenso bü apenas
0
nas suas linhas principais. A propósito djsso Pinkerton compara os 18 volu- m,
. . ' " ::•- . . .. : -•:•: V
9
•JB Ursprung der Magyaren, 1892, p. 9, 11 et seqs. ;:. '• •; . .-. • [ '• •;': :"= \
9
1
9
i

170 . ' • 9

9
i .

86 ; •; •: .
r • l
0
mesde!Büsching sobre• •'a• Europa"ao único e imortal volume de Estrabão.
\" : i
. Mas a crítica não se justifica inteiramente. Pela sua própria essência a geo-
',•-.• gçafia não pôde, assim como não podem as ciências naturais em geral, dar
i . • àJiteraturá. universal tantas obras clássicas quantas lhe pode dar a história;
1 * . estaínãàpoderá produzir apenas naquela parte da matéria geográfica que
V se' limita'com a história'e com a etnografia, e onde a exposição pode ter ca-
r '*. '- ráter narrativo: Mas nesta Consideração não há nada que possa diminuir a
r '•' importância que cabe à geografia ao lado da história, pois neste argumento
• •• as razões formais não têm valor de espécie alguma.1- ••
i •;.i : :r? >:. • ••:• :.,.• .'ò'h*.:. •.! . ; . ;-•• •• ' •• •• s/'.F*
! §31. Razões práticas que determinaram a afirmação do elemento hu
mano na geografia — A geografia já se ocupava com predileção particular
r dó homem e de suas obras muito antes que os fenômenos resultantes da união
do homem com a Terra fossem, pelo menos em parte, atribuídos ao seu es-
tudo;eisto por uma razão deordem exterior. Na história de toda a ciência
. ocorre queo homem rio princípio é tudo; depois, pouco a pouco, o objeto
. i efetivo do estudo se liberta do invólucro ideal para se lançar enfim, comple
tamente depurado, à investigação objetiva. No estudo geográfico este pro
cesso se realizou com uma lentidão particular. Por muito tempo se pensou
que as regiões terrestres tivessem importância apenasipelas suas relações com
0
o homem, e essas relações ocupam sempre a maior parte das obras também
de geografia científica. Por motivos de ordem prática ocorre que de todas
as coisas existentes sobre a superfície terrestre aquelas que pertencem ao ho
mem ou têm estreita relação com ele.se impõem em maior medida ao espíri-
^ to humano. Estrabão considerou Homero como.opai da geografia "por ter
p ele superado todos,os seus prédecessores e seus sucessores não apenas na ar
te, poética, mas talvez também no conhecimento da vida civil".: •..
Esta predileção pelo. elemento humano é sempre uma característica do
P estudo geográfico, mas é também um perigo constante que ameaça.seu cará
ter científico..Toda vez que uma ciência reúne ao mesmo tempo elementos
humanos e elementos naturais, são .os primeiros que invariavelmente predo
minam. Basta recordar Oi que aconteceu com a biologia geral pelo amplo es
paço que esta ciência dedicou a anatomia humana, à fisiologia e à psicolo
gia. Mas para reforçar esta tendência a que aqui se acenou concorre ainda
um segundo motivo, .também de ordem exterior, que é o fato de que na lite
0
ratura a descrição dos territórios e a descrição dos povos quase nãò sé'apre
sentam mais separadas uma da outra, e isto especialmente quando se trata
de países e povos longínquos. Ademais, é exatamente esta íntima ligação dos
dois elementos, que confere particular atrativo às narrações das .viagens. Por
isso ocorreu que ambos ps argumentos fossem estudados e tratados pelos
mesmos escritores, de modo que geografia descritiva e etnografia permane
cessem intimamente ligadas entre si tanto na investigação como no ensino.
Há finalmente uma terceira razão de caráter prático como as anterio
res que induz a geografia a:se ocupar com particular interesse do elemento
humano: esta deve ser buscada np abandono em que todas, as outras ciên
cias deixaram sempre o estudo de uma grande quantidade de fenômenos que
se referem ao homem.. Assim a investigação histórica inicia suas pesquisas
87
>•*

a partir do momento em que aparece o documento escrito; e a antropologia


até muito recentemente sé ocupava apenas ;dò corpo humano, de modo que
a história e a etnografia dos povos primitivos esemicivilizados ficassem in
teiramente com a geografia; e.està tinha que, querendo ou não, tomá-las
para'si, tanto que ainda hoje a etnografia é estudada e ensinada por geógra
fos e freqüentemente tem em comum com a geografia as mesmas revistas,
livros, bibliografias e obras cartográficas, •'.-vy.-y. : ?.•".••.•••>*m \ •
"1*Óra, à medida que a etnografia e a ciência social foram se desenvol
vendo por cõhfa própria, verificou-se na verdade como a antiga união da
geografia descritiva e da etnografia estava apoiada em grande medida em
razões de ordem exterior, mas ao mesmo tempo o desenvolvimento da geo- .
grafia do homem abriu um novo campo sobre o qual as duas ciências apare
cem novamente reunidas, sem com isto perder sua independência»
; Osfilósofos climatistas, ou seja, aqueiés qüe sustentam a teoria das rá
pidas transformações dos .povos por efeito do clima, distorceram e reviraram •
em todos os sentidos a natureza de modo a fazê-la servir a seus objetivos;
e nesse sentido suas teorias apresentam, sob o aspecto lógico, um certo inte
resse, embora de caráter negativo. Raras vezes ocorreu de a ciência trabalhar
por tão longo tempo com um material tão inadequado. Kant pretende demons 9
trar qüe toda a raça mongólica provém das regiões setentrionais, epor:isso
exagerou desmesuradamente as influências do clima frio. No rosto largo e sem 9
9
pêlos, no nariz longo, nos lábios finos, nos olhos semicerrados dos mongóis
9
ele vê modificações produzidas pelo clima infeliz das terras nórdicás,; onde
"tudo é árido". Assim/dos anões do norte quenãó existem de fato em lugar \
nenhum se fez uma raça especial; E. A. Zimmermann, ao contrário, escreve
que a presença de comunidades de anões na África e em Madagascar deve
ser atribuída à emigração de alguns indivíduos deficientes. À alta estatura dos.
patagôriios foi objeto de amplas discussões, pelo fato de que'estes habitam
muito próximos dos fuegos que são provavelmente anões. Mas se chegou a-..
afirmar que se as terras do hemisfério austral avançassem antes em direção
ao pólo, também os patagônios teriam altura inferior. Naquela época a geo
grafia da América permanecia completamente à mercê destas teorias. Assim,
para demonstrar que o fato. de os americanos, também das zonas tropicais, •
terem à cor mais claraJque os negros resulta unicamente de que a.América
tem climageral frio, induziram-nos repetidas vezes à pesquisa das influências
moderadoras do clima americano, até^ quèafinalmente Alexander von Hum
boldt não mais levasse esta afirmação* a um terieno positivo da observação
experimental, limitando-á assim dentro-de estreitas fronteiras. Entretanto Coh-
damihe afirmava que os.índios da América dó,Sul se tomam mais escuros
à medida.que se avança em direção ao equador; Bourguer achava que os ha
bitantes-da encosta pacífica emais fresca dós Andes são. mais claros que os
habitantes da encosta atlântica, mais quente., • • ••••.• .• ' j. • ;.! :•;(":.> i-1
A estas duas observações inexatas se referiram durante todo o século 9
•XVIII todos aqueles que quiseram demonstrar também na América a influência 9
do calor sobre a coloração escura da pele. Maupertuis, em; Vérius physi-
9
l
172
p
. íyi . r- VI . •

p O
88
. •_

0
que, II,.cap. I, afirma que os negros africanos habitam entre os trópicos
P
e formula, não apenas para a África mas para toda a Terra; a lei: "À medi
0
da que se afasta do equador, a cor dos povos se torna gradativamente mais
clara"; e explica este fato, como também a difusão gepgráfica dos povos
r-
anões.e dos gigantes, de um modo original, errado sem dúvida, mas sutil.
0 Quando, diz ele (op. cit., II, cap. Vil); anões, gigantes e negrosrse apresen
0 taram entre, os outros povos, a prepotência ou ó medo armou contra, eles
a maior parte do gênero humano, e a espécie humana mais numerosa deve
ria expulsar estas "raças disformes" para as regiões menos habitadas da su
0 perfície terrestre. Os anões recuaram em direção ao pólo norte, os gigantes
0 escolheram como sua sede o.território de Magalhães e ps negros foram mo
0 rar na zona tórrida.
;. Uma das circunstâncias mais características na evolução desta ciência
0
é que já hádois séculos Ortelius, que no seu mapa da África, contido no
seu Theatrum Orbis Terrarum de 1570, tinha chamado os indígenas:do Ca
bo; da Boa Esperança pelo; nome dznigérrimos, tinha chegado à conclusão
0
de-que a.causa da sua cor. não; podia ser atribuída ao mais intenso calor so
lar, porque nesse caso os habitantes do estreito de Magalhães também deve
P riam ser negros. Este.era portanto o caminho correto a ser seguido para se
0
compreender que os movimentos dos povos, dada sua breve duração, nada
têm a ver com as modificações das características raciais, que só se produ
p
zem em períodos muito longos. Infelizmente o fato de ter pretendido encon
trar uma relação entre estas características e o clima sempre impediu o estu-
do.geográfico de seguir por este, que.era o melhor caminho. Buffon, susten
tando o conceito de uma enorme adaptabilidade do organismo humano às
condições climáticas, foi quem contribuiu em maior medida para ireforçar
0
o antigo erro. E à sua influência não se subtraiu inteiramente nem mesmo
G.Forster, embora este como observador arguto tenha conseguido tirar uma
f
conclusão exata da premissa da natureza plástica, da massa humana. Nas
suas Anotações filosóficas feitas durante uma viagem ao redor do mundo
13_çf»' ' •..•'-'••.*•,•. . •' •' ' .. •'••.('

•Í "Se portanto a influência do clima é tão poderosa como afirma Buffon não
deve fazer muito tempo que a ilha de Malücolo é povoada, pois desde que vi-
:vem naquele clima moderado seus habitantes não mudaram ainda nem sua cor
0
negra originária nem os cabelos crespos". ". :.:.:- • ' •' ' '• :? 'i • ' :.
0

0 r §32. Que lugar cabe à geografia diante da história."—-A.grande e às.


0 vezes exagerada importância que se quer atribuir-ao elemento humano.no
r estudo geográfico serviu para tornar mais difícil a compreensão; das relações
0 que existem entre a geografia e a história. Que a história tenha necessidade
0
de recorrer à geografia para poder representar, medir, descrever o teatro dos:
acontecimentos políticos e as formações territoriais que daí resultam-; isso
foi compreendido claramente já por Ortelius quando este publicou seu pri
0
meiro mapa cartográfico.: Ortelius afirmou que a geografia e a cronologia
r são as duas colunas basilares da história. Dankwerth e Meier na sua Neue
0-
178532 ! 89
:
9
Landesbeschreibung der Herzogtümer SchleswigundHolstein (1652) consi
deram a geografia e a cronologia como os dois faróis principais da história.
Mas a história fez uso destas em graus muito diversos. Já há muito tempo , .
que as datas são consideradas como um elemento indispensável para a nar
rativa histórica; mas por outrolado mesmo nas obras mais profundas buscam- \ .
se freqüentemente ém Vão os dados numéricos relativos aos elementos geo
gráficos da história, como áreas, cifras da população, desenvolvimento das
cornunicaçõ.es_etc. Áté a geografia histórica ignorou de modo^estránhó os !. ^
dados relativos às dimensões dos territórios políticos, dos países, das pro
víncias etc. : . . . • : • -.. ,•,;•• úit:.:••' |; ..
É verdade que Karl Ritter afirmara: "O lugar da história não é junto
à natureza, mas dentro desta". Não obstante isso, no estudo geográfico a • .
importância atribuída ao elemento humano tinha de tal formai minimizado'-;.
9
o interesse pela natureza que Guthe, um verdadeiro seguidor de Ritter, atri-. •
9
buía à geografia a tarefa de nos fazer conhecer a Terra enquanto sede: do ;
9
homem. Na primeira edição, lançada em 1868, â&Lehrbuch der Géographie,.'.
9
que depois foi'tão profundamente transformado; por Hermann Wagner; de:;
modo a fazer dele o melhor tratado de geografia dos nossos tempos, a parte .. 9
que Guthe. dedica à geografia, física compreende 68 páginas*,, enquanto a ... 9
parte dedicada àcorograíia.eàgeografia política^ocupa 479 páginas. O pri-;-:
meiro parágrafo da introdução de Guthe assinala;, •.. . . .;,', . >
9
i"A geografia nós ensina a conhecer a Terra como sede do homem; èstárião. ., 9
•. :é de modo algum Uma simples descrição da Terra com seus mares etc.-j embora
:ao descrever a superfície do globo ela coloque o homem entre os outros seres,.' .
e.nos mostre como por um lado este se encontra em estado de dependência
'da
u a natureza
iiaLUicí.n que
ijui- o
u circunda
uiv-uiiua e.
t. como
u ; i u u por
p u i outro
u u u u tém;tentado
i u i i . n , i i i a u u se
oi» subtrair
ouuuaii aa éssá
vjou •

jdependêncià, com o que a geografia vem a constituir o elemento de conjunção . 9


.-entre, a:ciêhcia natural e. a história".. .• .';• /• \.:...;.J., • -.-' .-.,..V'..Í '••*.*? 9

É esta a ação dò.'conceito que Playfair havia expressado em 1808rió seu '••
System of geography: "O estudo da geografia é necessário para conhecer
o,teatxo da história". Mas esta é uma consideração de valor puramente prá-}
tico é foi um erro introduzi-la na ciência. : •;.> 'V.''•••••• 9
•Diante de concepções deste gênero é necessário afirmar enfaticamente .
9
que á' geografia deve antes de mais.nada;estudar è descrever a Terra, inde- •'•'
pendentemente de quaisquer considerações acerca do.elemento humano e his 9
tórico; e que a realização, desta tarefa, que é específica da geografia, deve
preceder o. cumprimento de outra tarefa qüe esta tem em'comum, com a
história no campo antropogeográfico. Mas as.duas tarefas são inseparáveis "••
uma dá outra. Certamente, para usar as palavras de Karl Ritter, "a ciência '
geográfica não pode desprezar o elemento histórico, se pretende ser verda
deiramente um estudo do território e não uma obra abstrata, uma moldura
• -i - ' . ';'; cii ':•'••', ;..:•.:•• ?' ' •*
* Wagner, Hermann. Trattato di geografia generale. Turim, Fratelli Bocca, 1911. v. 3. Nesta
edição, o volume 2, dedicado à geografia física, compreende 530 p. . ' . • ._,

9
174 . 9

9
~ . 90 ... ... * •... , . •
. . . . .

P .-,£•» -;/ •• ' . ? . .". .• •;•'•• • • •• . .


através da qual se veja o' espaço vazio e não o quadro que essa deve con-
'•'"',. ter''3?i Do mesmo modo:a história não pode desprezar a geografia por
que-os fatos que esta. contempla têm necessidade de um teatro onde se de-
\ . '; senvolver:: •''•• ' '•••••i".-.ij" :v? .•• 1- '•: r: •• •,-M !.-?": •:•-• ':••••• '•
•» .. .;;."esta deverá em todas as suas formas acolher em si, mais ou menos çlaramen-
... i'j'f."te, um elemento geogfáfico,.seja como em Tucídides eJohann von Müíler pre-
:';.'.{ :-.'. cedendo a narração de uma visão geral do território, seja como em Heródoto,
'"":• . ''.Tácito e outros mestresinserindo a descrição geográfica, no curso da narrati-
.. : "i''.: ;-ya, ou seja, finalmente como em outros escritores apenas aflorando pelemen-
;. .to geográfico e extraindo.dele só a entonação e a cor. Â<filospfia da história,
*• '1 'Atal como foi pensada .por Bacon e Leibniz, que;Herder esboçou e que outros
*»• :"; ;• •' irecentemente tentaram levar adiante seu desenvolvimento, teve que atribuir a
P . •...i. .:- este elemento geográfico.-.um lugar cada vez maior"4.;.:J .-.-.• .-•;.,:1 • -.',.
.*.! • '' Entretanto a tarefa.mais importante da geografia continuará sendo sem
pre á de estudar, descrevera representar a superfície terrestre: Porém, mes-
. nio: atribuindo à história' o estudo dos acontecimentos qüe sé sucedem no
têmpora geografia as condições de fato dò território,'não se pode esquecer
; que todo acontecimehto.se faz no espaço,'e por isso toda história possui seu
teatro. Tudo que hoje constitui o presente será história amanhã;,por isso
o material da geografia vai passando ininterruptamente pelas mãos da his-
, tória. Çompreende-se a partir daí que uma nítida separação entre as duas
ciências não seria logicamente possível, mas. que ao contrário é necessário,
• •' para-que ambas possam, desenvolver uma atividade profícua, que elas atuem
intimamente unidas..A.frase de Herder de que a história é uma geografia
em movimento permanece verdadeira também inversamente, e disso se se-
,. gue que a-história não pode-ser compreendida sem o território onde ela se
• desenvolve, eque a geografia0de qualquer .partevda Terra não; pode ser re
presentada sem conhecer a história qüe imprimiu sobre: esta suas pegadas.
Todo mapa tem que ser examinado tendo presentes os elementos históricos
aí referidos, do mesmo modo que sem o mapa não seria possível compreen-
der/nenj as modificações.das fronteiras/nem as variações do tráfico ou das
sedes humanas, nem os.movimentos dos povos/: !.".;•:=;•.;•• ' u- i:-ti •• : S's
'. | ;•; A'partir do conceito, que temos da posição do homem na natureza re
sulta, quanto é imperfeita a concepção que considera a importância do ele
mento geográfico na;historia partindo de critérios de ordem puramente ex-
f. teriores. Isto significa, para nos exprimir praticamente, que a introdução à
r
história de um país não deve ser uma simples descrição corográíícajistp por
que, mesmo que esta descrição seja colorida e fiel como a introdução à Ges-
chichte der SchweizerischenEidgenossenschaft de Johann von-Müller, ou
0
como a introdução à Griechische Geschichte de Curtius, ela contudo não
0 [• -' ': • . :• :' :,-•:•? • - - :.' ' •• • •-::•.-:• •••:-v. . ':.r\::.
0 —• t '.••. • - • . " . .
. J? Ueber das historische Élement in der geographischen Wissenschaft, conf. 1833. Publicado
0 na Einleitung zur allg.veügl.Géographie, p. 152. ":••"' -'. > :;. ; '.""• •" • '•'
•"'Ibid., p. 153. >' ••• ..•••=• '• >-'
I
,75
^
^
IQG/UFG 91 ^

atingirá minimamente o seu objetivo se não examinar além disso a relação 9
geográfica entre esse país e a inteira superfície terrestre e não nos mostrar 9
que ás influências recíprocas que se exercem entre povo e território e entre
este e o Estado são ininterruptas e governadas por rima lei de necessidade.

§33. A história universal deve abarcar toda á Terra — Mas nesta união
das duas ciências não se deve considerar uma, história limitada ao estreito vj m
círculo da"*6ür.ó£a e dos países mediterrâneos, assim como esta se nos apre 9
senta nas abordagens usuais.. , .:•,••;. i; , ,'"-. ,. 9
Na verdade a razão filosófica, da qual derivava essa-limitação, não pôde
9
impedirque a história acolhesse gradativamente.no seú seio unia parte cada •
vez maior daquela matéria, qüe de resto pertence à etnografia..E o estudo 9
comparado dos jpovos.uma vez iniciado não. podia certamente ser interròrh- . 9
pido. Não podia permanecer ignorada ajusta advertência de Heinrich Barth:
"Mesmo os movimentos dos povos da Áfricacentral têm sua história; e ape-.'
nas quando eles também passarem a fazer parte do grande quadro histórico
da humanidade poderá este.quadro aproximar-se da sua realização".4?... .
; Hoje uma história universal da civilização não.poderia.máis, sem con
tradizer seu próprio nome, eximir-se de considerar os mexicanos,;os jàpoiae-
ses„os malaios; e toda história dos Estados Unidos da Américatem que de- -
dicár .um grande espaço às condições dos povos primitivos que existem har . 4
quele território e aos acontecimentos que a eles sexeferem. Uma obra como «|
a História da Nova Inglaterra de Palfrey não seria còncebível se não tratasse
da influência política que .exerceu sobre a história universal a incidência! de 9
povosprivados de história, como fizeram Saíústio.e.Tácito em seus.capítu 9
los sobre a África. Mas em relação a isto a filosofia da.história não ilumi
9
nou em.nada a obra dos narradores. Um erro fundamental que falseia a cònr
sideração filosófica da história é, e tem sido senrpre, o desprezo ao elemento
geográfico, desprezo, que significa também uma visão.histórica limitada.
Pode-sé afirmar antes que toda a direção construtiva.da filosofia da história .
alemã não teria; sido forjada se aqueles cientistas tivessem atribuído maior
importância ao elemento geográfico. Kant* que .também foi; grande,amigo'
e conhecedor da geografia, foi o primeiro .aiintroduzir-se por uma-estrada , ... •
falsa,: que.Fichte, Schelling e Hegel seguiram depois, chegandoia ürh; resul
tado geograficamente absurdo.'A idéia de Kant de que a história.da;huma- • •.
nidade deva ser considerada como a realização de um projeto secreto da na
tureza, visando áefetuarümáconstituiçãopolíticainterna e exteriormente
perfeita, não tèriá sido possível se não com a tácita premissa de que ò proje
to compreendesse apenas a história da Europa, que a Europa devesse, por
assim dizer, fazer a história de todos os outros continentes, qüe provàVèl-
mente deveriam receber da Europa algum diá süás leis. Em Fichte esta pre- .^
.: -.'..• '•' .' ' ."•' '!;'" "'..' ' \". "-:-.' Y
—: •'.. '.-. '..rv ;-•? • **«'.;- --• j 9
"" Barth, Heinrich. Reisen in Nord Zentralafrika, II, p. 82. t !.

176 . . 9
92
p
p
missa se apresenta como a condição necessária paraa determinação dos seus
p períodos históricos, e.por isso se expressa aqui sem nenhuma atenção ao ele
0-
mento geográfico; pois este.pensador audacioso declara que se.limita a seguir
. aquele fio da civilização que conduz até nós, "interrogando.apenas a nossa
história, isto.é, a história da Europa civilizada, que é a sede atual da civiliza- •
•. çãô1, e desprezando outros fios secundários que não conduzem diretamente
a nós, coinp. a história da civilização chinesa e indiana"42.
•V;•''•.I A par com este cçnçeito.está p outro, também de Fichte, que admite
.que tenha existido um povo primitivo originário, no:* quala razão dominava
. "como um.instinto cego", que-regulava, sem constrição ou esforço, todos
\ • os eventos humanos. Mas a limitação do conceito de história se manifesta mais
qué em:qualquer outro em Hegel para quem, segundo uma expressão sua fre-
. qüentementé citada, apenas é história "aquela que constitui uma época es-
p .•. - sencial na evolução do espírito humano", e que por isso devem ser excluídas
do círculo das considerações histórico-filosóficas não só a zona glacial e a zo-
p . . na tórrida, "porqueo calor e o-frio são forças muito poderosas que não per
0
mitem ao espírito humano criar um. mundo próprio, mas igualmente a Áfri-
0 ' ca,|na medida em que não se observa aqui nenhum movimento de evolução".
P
e a-América,; cujos pensadores mais ágeis e mais modernos exclui, porém ape
nas formalmente, para representá-los depois em perspectiva. Estas idéias não
têm absolutamente nada de geográfico, e não refletem inteiramente a amplia-,
çãp do horizonte intelectual, que é sempre a conseqüência necessária e mais
importante do estudo da geografia, mas manifestam um enorme deslumbra
mento diante da natureza das coisas. E se observe, por outra parte, como es-
. sasjidéias deveriam seenraizar, a ponto de que o próprio Augusto Comte pô-
0 . de afirmar explicitamente.que seu estudo histórico-filosófico se limitava aos
poyos de raça branca, e por'outro lado dedicar uma preferência tão acentua-
. da :aos habitantes da Europa.ocidental, corrio aqueles que constituern uma
civilização mais avançada e representam a elite ouavantgarde de l'humanitéfz..
1 A história universal,tal como é entendida pelos nossos escritores de his
tória, está ainda muito longe de ser uma história da humanidade; mas tam
bém a história particular, que deveriatomar em grande consideração as ob
servações de caráter topográfico, raramente consegue tirar partido dos meios
que a ciência irmã lhe poderia _fornecer. ...
' Mas se deve observar que em Comte a limitação tem mais um caráter
meramente temporário e se move por uma razão metodológica: •... \. ?
"Leur appréciation spéciale doit être systématiquement ajournée jusqu'aü"mo
ment oú, les Iois principaíes dumouvement social ayant été ainsi appr&áées dans
P ,-.. . . ... . . •

42 Um filósofo da história, moderno e menos abs.olutp, acrescenta que se ele assim não;p tivesse
. feito, o sistema dos seus períodos seria inevitavelmenteconfrontado com a real variedade da ma- ,
teria histórica (Bernheim, E. Geschichtqforschung und Geschichtsphilosophiê, p.'27).' •
43 Phiiosqphie positive, lição 52? . . . -
: i

177
9
'•' ' ; 9
Í93
: " ' . • . ? 9
• j •'. •' . • '•" :- ••'- • 9
:; le cas leplus iavorable à leur pleine manifestation, il deviendra pbssible de pro- 9
!ceder à rexpHcatipn rationnelle des modificatioris plus ou moins importantes".

Se de fato, como diz Comte, a evolução histórica.tende a reunir toda a hu


manidade em uma sociedade tín/az* e todos os acontecimentos anteriores não
representam senão uma preparação para esta, então ele deveria-prever que
o movimento histórico acabaria por abarcar toda a Terra. '
i

"""i"1-—-_ .. *• .• •• . • ''••;•'••
• . . .
• ,
9
'• • 9
n
:


9
'
,9
: •• ••
:
i 9

9
: • 9
• : •.-:•••••.. • . • ?fe '..* • -

9
•':'''
1 . •
9
'•••: 9

t
Si

í"
I " .
9
'•• "-". ' 9
V
'•
•9


•9
.•••• -J • ..• :


9
•'• •
- .. :•' 9
».

: .
-. -v ;. . .,r.. • ': • • • :•••'• •
i ..« 9
. t

• !
t
- .
*•

•í

.: • .. >•»•'-*

X. •. »' i .'•"-' -f: . '• v

• •• ' .
: > •

» * * • . • • . "••(•
... .. - i
"/ .
'.." *>
•:;
•• ';. • ! •*•'.-

,jf, '•'•- > 9


9
' i
• •. . • .• - • • .. .••-' • •. • v

9
• * • • • 1 '
-; -

... • ":* •-. ... .*;. v .-.J. ..*.:.-'"•.* . .. y.- • t" ."' i- ,' 9
'. . i' •
9
i

I
' •' ...
•• ' ..
' ir -^ .< i •
• • . *
I

1
•9
. /.•:•.
. _. ; • '..-:: >; •/• • •*•'! i '-' * .
9
:• ; •.
'•- •:• ' ' . i • • " '' "...-. "•". •-..- .;-•*•'- i 9
_ •
. ; : - -.' -." • •'- .' ;•. . . t
t

1 - .

-
; 9

• •.'... I7S 9
-

9
0
• '• •' / '^ \s •• * -• - .
'

P
0
r

• n -. >;•••• .:; .«•-• ' :"•'••• *V-'. • *¥. •' ' •'•••- • •• •' : • ". . • :
. IÍ :*&«A •••-^/^:V- ;;;- -\ •• '. í*.- ?V* "^>*• f' .>: ,
0 ,•-:•/..••'.; ': • • h ..• ••;• •..-•"-•. -• ••. =;*•:»•• :. /••.•..•«
.-•':• • . > • •.':.-••- i . ..' •
r

r
.. •
0 •i

r i

• i, -'.- • •:. a . . : : .;
i \ • .; . . .': ' • -• • •.-=.•
, .. . I . . .j.. . . •, ..
'
,— w'í- • •

,:•
0

5. TAREFAS E MÉTODOS DA GEOGRAFIA DO HOMEM


0
\ >.'• ' ; «.' ••• 5"-'-.^'. ' • "•••• : •' "•
§34. A geografia do homem é uma ciência descritiva — Assim como
toda a geografia, também à geografia do homem é principalmente uma ciência
descritiva. O que significa, para se compreender exatamente, que esta. não
realiza um trabalho de investigação profunda. Consideremos que se p tra
balho de descrição não basta para.completar a obra. de uma ciência, este é
necessário porém para preparar suas conclusões. Não é uma falha para uma
ciência ser descritiva, desde que ela não se limite exclusivamente ao trabalho
0
de descrição, já que nesse caso a ciência não atingiria seus objetivos supre
mos; pois, quanto mais esta se detém nesse trabalho, tanto pior resulta sua
0
obra. De fato, se não houvesse outro motivo para induzir uma ciência a sair
0
do campo da pura descrição, as próprias exigências desta deveriam impeli-
P
la, pois entre todas as lições qüe a história da ciência nos fornece uma das
r
mais importantes é exatamente esta, que à medida que os acontecimentos
'. avançam, a descrição vai se tornando cada vez mais completa, mais profun-
daj mais intelectuais portanto mais clara. A propósito disto comparemos
as descrições botânicas de Gesner e Rauwolf ou as descrições zoológicas de
Linné com as descrições que se fazem atualmente com base em sistemas na-
. turais e levando em conta a paleontologia e a embriologia, j
Toda boa descrição presume o exato conhecimento do objetoqué deve
ser descrito, e, ao mesmo tempo, dos objetos afins mais ou menos próxi
mos, com os quais esse tem muitas características em comum. Desse modo,
uma vez conhecidas essas características, não é mais necessário refazer sua
descrição a cada novo objeto; mas basta, em vez disso, designar o. grupo
P
afim para saber com segurança que características se encontram no objeto
r
que a este pertence. Assim o nome rosaceae evoca em minha mente uma fa
0 mília de plantas que apresenta as principais características da rosa. O nome do
O
• . 17')
p
9
I78Ü35
Í95
gênero rosa me recorda por sua vez um grupo mais limitado de característi
cas particulares existentes no interior daquela família; finalmente bastam pou
quíssimas palavras para indicar as características, da rosa canina. Do; mesmo
modo a frase:' 'Os gregos são um povo pertencente à velha civilização medi-. •
terrânea" é suficiente para evocar em nossa mente muitas características éeo-. '
gráficas e étnicas. Por isso um bom trabalho descritivo pressupõe a existên 9

cia de uma classificação; não contudo semelhante àquela que, movida por 9
urriã espécie de horror vitae, considera os povos separadamente do .territó 9
rio que é a.sua base, e os estuda depois de tê-lqs destacado dá vida que os 9
anima; nesse caso pode ocorrer que organismos importantíssimos na exis-:
9
tência dos povos, como por exemplo as fronteiras, sejam considerados co
mo simples linhas ou divisórias, e não como instrumentos vivos no desen 9
volvimento dos fenômenos máximos cujo teatro,:é a Terra. . ! s:
;-;-- :'.,-..-'!-..": , - • ' t •..-•!> •.:*//. : • :••••'• .."{• ri
§35. A classificação antropogeográfica — Ávida dos povos e. dos Es- •
tados que possuem territórios semelhantes entre si apresenta também ferio-: •
menos análogos entre si que são por isso suscetíveis, de uma classificação;;.-.
e é necessário estabelecer essa classificação antes de prosseguir nó estudo cien-
tíficó. Esta é uma necessidade da qual não se dão conta aqueles que apise ••:':.
defrqntar com uma ciência descritiva pretendem,certamente estabelecer bis •
naturais. Hoje, no que se refere às classificações, a geografia do homem tem ;
uma tarefa muito ampla e não privada de dificuldades particulares. Tome
9
mos um exemplo. Os povos internos e os povos costeiros, os povos monta- -.
9
nhesés e ps povos insulares representam tipos que se encontram em todas. t
as zonas, variadíssimos em termos de extensão e de qualidade. As pequenas • '
e pobres tribos de esquimós da América ártica são comunidades costeiras
e insulares, assim, como os índios que moram adiante deles são povos inter- '•"
nos. O tipo rude, grosseiro, belicoso do filho da montanha e o do navegante r
e mercador refinado, hábil, pacífico, se nos apresentam por toda a parte^ào
longo da história da Grécia. Esquimós e índios, atenienses e trácios, fehíciòs •'• •
e hebreus são pequenas manifestações do grande contraste que se manifesta ."
entreicomunidades e. potências continentais e marítimas, e cuja influência 9
podemos verificar, em toda a história universal.,.':.. :,. *. , .' :• j; .jiiÇ-Ji'../• • 0
, Esta classificação natural que se baseia ria variedade dás sedes dos po
9
vos podeser levada muito além. Assim como a Terra sé apresenta tão vária- •
9
da, também são variadas as influências que ela exerce sobre os povos e'so--<
bre os Estados. Ornar é1 apenas um onde* quer que seja; mas os póVós,-os
Estados e as.cidades situadas no Oceano Atlântico desfrutam de condições
naturais diversas daquelas.-que se encontram no Pacífico, e o mesmo se diga
das comunidades do Mediterrâneo em relação àquelas que vivem no Bálti- r
co. As influências da natureza variam de.zona pára zona. Cada continente
e cada compartimento natural de um mesmo continente apresentam carac
terísticas particulares das quais participam os povos e os Estados que vivem m

nó seu território. Os Estados europeus e os Estados americanos serão sem- •


pre diversos entre si, mesmo que algum dia suas diferenças possam ser um
9
.9
180 • 9
9
p
p
0
96

0
tanto quanto atenuadas. Assim também os povos da América setentrional,
meridipnal e central constituíram sempre famílias naturais distintas.
r
•| -Além disso, assim como os homens pertencem a grupos naturais e de_
civilização diversos, a etnografia distingue entre povos negros e povos ín
dios, entre povos civilizados latinos ou germânicos e povos primitivos. Mas
; para à geografia do. homem a classificação mais óbvia e mais natural é a
que sebaseia em distinções geográficas, isto é, na posição e na natureza do
.. território habitado; e estabelecer esta classificação é precisamente uma de
suas. tarefas fundamentais.' Crê-se contribuir justamente para essa pbra em
'. cada uma das páginas qüe seguem44. •• :'••'•• • >'] "•
p .;•; •>:;. .-.V-. !•••••:•. •?.'•• • .,-.i::\'4'-r '""•.' :"V- :^:" •;:-•' "-• •'
0 í ' y ' §36. O método indutivo — A classificação representa o primeiro pas
so do método indutivo. Na verdade o processo de comparação se torna já
p
manifesto em todo o trabalho de classificação dos povos baseado no exame
das suas sedes; e o mais simples dos mapas etnográficos leva à comparação
p
dos vários territórios que este apresenta sob o aspecto da sua amplitude, po
p
sição e configuração. O mapa etnográfico representa o instrumento de in-
p
•/ düção próprio da geografia do homem. É sob este aspecto principalmen-
f ti' que a'antropogeografia é uma ciência comparada. A expressão géogra-
0
, fia comparada foi usada sem reservas depois que Karl Ritter fez dela pre-
0
\ missa da sua grande obra sobre a geografia da Ásia e dá África. Pela forma
: como a utiliza Karl Ritter está expressão significa a contraposição à géogra-
; fíà puramente descritiva- que é privada de conteúdo intelectual e por isso
imperfeita na sua descrição. Ritter poderia dizer do mesmo modo "vergeis-.
: tigté Erdkunde" em contraposição aos *lentgeistigte Erdkunde1'de seus
predecessores45..Mas estaremos correspondendo melhor à verdadeira natu-
p . .reza da geografia, se à geografia de Ritter dermos simplesmente a denomi
nação de "sintética". Esta denominação nos dará/ao mesmo tempo oportu
0
nidade de recordar como é inexata a concepção daqueles que consideram
a geografia como uma ciência dedutiva; porque, se é verdade que o geógra
0
fo tem os olhos voltados constantemente para toda a Terra e está sempre
. '"• pronto a passar das considerações de um fenômeno singular à consideração
de uma série de fenômenos; isto é, do procedimento analítico ao sintético,
0
esta disposição todavia não significa exatamente a renúncia ao método' in-

44i"V. a última parte da Geografia do homem, v. II: "Classificações e mapas antrópogeo-


gráficos". . . ....'.-' ' '". ' .. ; ~—^.^
•Enquanto Karl Ritter trabalhava na; geografia à qual ele deu, com um sentido" particular,
o nome de "comparada", ocorria que nesse mesmo ano de 18'31 a mesma denominação era
empregada em duas obras importantes, cada uma com um sentido completamente diverso, de
modo que se tinha ao mesmo tempo três tipos de "geografia comparada". Rennel, na sua obra
A ireatise on the comparative geography ofwestern Ásia (London, 1831), empregava o termo
compdrative geography em sentido puramente histórico, pretendendo designar o confronto en
tre as informações geográficas dos escritores antigos e dos modernos acerca de um mesmo ter
ritório. Por sua vez J. Yates utilizava a expressão comparative geography para indicar o con-
.fronto entre as formas de teYreno, e a consagrou no seu estudo Remarks on the formation of
alluvial deposits, publicado em 1S31 no New Philosophicaí Journal. • •

isi
9
97 _ 9
9
dutivo, mas simplesmente que usa como recurso um segundo procedimento,
do qual a geografia pode, em alguns casos, tirar:proveito. I
»" Se para a geografia a possibilidade do estudo experimental fosse tão am- •
pia como para as outras ciências, à necessidade dp procedimento comparati
vo seria menor. Mas se já para a geografia física é difícil a aplicação do méto
do experimental para estudar a sedimentação sobre um fundo do mar a 9 000
metros de profundidade, ou o amolecimento das rochas sob uma pressão tàn-
gericial-de.muitas atmosferas, seria totalmente impossível a repetição experi
mental dos fenômenos da vida com dimensões telúricas. Para o estudo destes
fenômenos só pode servir o experimento que nósapresenta a natureza mesma
mediante o repetir-se de processos análogos em condições diversas de posi
ção, de espaço e geográficas em geral. Do que se deduz due a geografia deve
realizar um amplo trabalho de comparação sem deixar.de examinar untfsó
ângulo:da Terra46.v .-•^•. :«»".. ..-. :.\;^:y.,:.\.- .-. '?v*\\ ^\>: " ' 9
. Seé verdade que ágeografia observa os mesmos fenômenos que são
estudados também por outras ciências, seu método contudo se distingue senv .
pre por esta sua tendência natural a ampliar seü:ângulo de visão, a realizar .
uma observação que eu diria hologeica, isto é, qüe abarca toda a Terra. As
sim; se a geografia, ao apresentar os povos separadamente em' seus mapas
0
cartográficos, presta fiel ajuda à etnografia, que-éstuda esses povos sob ias-. . .
9
pectos da sua língua, usos, costumes, ao mesmo-tempo a antropogeografia.
tende constantemente a representaros povoscomo úm todo,.como um con-' .: 9
9
junto compacto; a geografia do homem é portanto essencialmente unitária,,
enquanto a etnografia é essencialmente separadora. A descrição dos mares
pode,; é verdade, levar a distinguir a partir de seus contornos uma grande quan- :
tidade de golfos, baías, estreitos etc; mas está também pode se elevar.e esta-'.,
belecer, por exemplo, uma relação entre os três mediterrâneos!-^- romario,:
americano é austral-asiático considerados como tais; e é exatamente áo fazer
essa comparação que tf geógrafo terá ocasião de:assinalar como é legftrriiô ,'.
o outro conceito mais elevado, o conceito unitário do Oceano. Do mesmo :
modo o:antropogeógrafo passa do: estudo dos povos à concepção superior. ;
dá humanidade. De tal forma que da comparação nasce a síntese, çuja leirti-1::.
midade,ou melhor; cuja necessidade dentro dó estudo geográfico:nascefda••
difusão de alguns fenômenos paratoda a Terra; oü>pelo menos para ürria gran-\';
de parte desta.- í : ••• .•• ••'•.'•-•• [ v-'' '.-" ':••"• Í::1;,-"]'?,,V..:'' '
:; • Não desconheçamos portanto a grande ajuda que o critério holôgênicó\
presta ao estudo de cada um dos problemas antrópògeográficos.-Em uma época
como a nossa, na qual, em conseqüência da especialização,'cada ciência-se...:
fraciona em um grande número de pequenos estudos particulares,.é; uma Ver- .-
dadeira felicidade que ha ciência geográfica este fracionamento! nãó"sejalto-.
davia muito acentuado, de tal modo que o estudo; açiupossa ser sempre mi-r .
ciado^ e conduzido sobre bases de amplitude geral; peinanecéndo;-a- pos- 9
• í• • • • .•• •. ...••• . ' •' .'•-..•.i•••..- • . • ••• i "I ••.::*-•'.•. !'•''•
t- : • . ... • .-:. :.) • • . . - ' ;• • - » • •'-,-' i • :- ' ••'• I"-* .:•••••- j- •
9
46 Já Comte indicou explicitamente como um dos métodos da sociologia o experimento'indireto,
isto é, o estudo de certos desvios do desenvolvimento normal de um determinado fenômeno.
9
• • • .-...-;•
182 . *
P
0 _ !

98
0* ' -•':.-..;
J0± i i ' I

sibilidade de descobrir materiais de estudo completamente novos. O que po


rém não nos pode levar a esquecer que o método natural da pesquisa antro-
pogeográíica é sempre aquele, que é impulsionado pela determinação exata
dos fenômenos singularmente considerados.
...•• ..
0 "-. :lf-
"!•" . -. .• . - i
:!i$J-.i.s::m' \ '• . '"••• -i
:'1 .:.
-:•-. . • •
«*..*...' .
:.'">•:'-•
H...§37r O nexo histórico no estudo antropogeográfico — Quando em
preendemos p estudo de um determinado problema antropogeográfico, uma
-. reflexão nos aconselha a manter nossa visão dentro de um círculo de obserr
•; -vação restrita; isto é, a reflexão onde não há país, espelho de mar, monta
nha ou rio que possam ser considerados como objetos absolutamente inde^
'.; pendentes. Já Herder advertira que não se poderia*compreender a história
r
'." da! Alemanha fazendo referência apenas ao seu território, porque a Alema
nha também não representa senão um prolongamento do continente asiáti
0
co-. E além disso quem se arriscaria a afirmar que a este;mesmo território
0
da-,Europa central não poderiam ter chegado os descendentes de uma raça
euro-afriçana, que nos tempos pré-arianos ocupou os países.mediterrâneos
e penetrou profundamente.até dentro da África? •• r .... .
-;j; Ora, como acima da superfície sólida se movem as massas instáveis
dejágua e aquelas massas ainda mais móveis de atmosfera, o nexo que.se
estabelece entre um território e seus limítrofes não permanece inteiramente
r . limitado àquela ligação que é determinada pela continuidade das camadas
terrestres. Os movimentos aquáticos e atmosféricos servem pára ligar entre
si também os povos. Q Danúbio transporta ao Mar Negro areias extraídas
dos granitos da Floresta Negra,e as condições meteorológicas do nosso país
0
sofrem a influência^das inversões atmosféricas que nos chegam através do
0
Oceano Atlântico.depois de ter deixado as costas da.yirgínia,.do Labrador
r e da Islândia. Em conseqüência dessas mesmas correntes atmosféricas as águas
tépidas do Atlântico atingem as costas ocidentais da Europa influenciando
seu clima até nas regiões internas.. Se pensamos ainda nos frágeis navios de
Cristóvãp Colombo, impulsionados em pleno Oceano Atlântico por um ou
tro sistema de ventos em direção às índias Ocidentais, ou nas. migrações dos
polmésios das ilhas Tonga às Fidji, às Novas Hébridas, e mais além ainda
em direção oeste ao longo.da corrente pacífica sul-equatorial, isto vem nos
persuadir de quanto, é grande a influência histórica dos movimentos inorgâ
nicos. No que se refere ao Danúbio', o maior dos nossos estadistas afirmou,
é verdade, que os interesses políticos da Alemanha não são de modo algum
atingidos pela questão do Oriente. Contudo não se pode deixar de pensar
•que um rio, que representa um todo fisicamente indivisível, exerce-.também
e
no campo político uma função de ligação do mesmo modo que exerceu no
0
campo etnográfico. Quem poderia ainda hoje persistir naquela afirmação,
diante da crescente importância de todas as comunicações terrestres com a
Europa sul-oriental, que seguem exatamente a mesma direção do Danúbio?
Enfim as populações do baixo Danúbio vêm se aproximando do círculo da
civilização da Europa central, e esta aproximação se realizou na maior parte
seguindo as margens do grande rio; .- •l
r
183
0
9
99 9
•\ •• 9
., Desse modo um país representa, sem dúvida, um objeto em.si; mas ' '
ao mesmo tempo é também um elemento de.uma grande cadeia. Por si aquele
país é ura organismo, mas se torna um simples órgão se considerado dentro •
de uma série, dentro de um grupo, dentro de um.complexo de ordem supe
rior, e isto ocorre quer se trate de um povo dominado, ou tributário, ou de 9
rivado, ou membro de uma aliança, ou componente de um círculo civiliza- .
do. Diante do estudo antropogeográfico aqueíe povo se apresenta às.vezes :'
sob üm,.às vezes sob outro dos dois aspectos, e há como que uma luta contí
nua entre o organismo e o órgão. Por isso também no trabalho de investiga
ção vemos a síntese alternar-se em análise.. ..-,._• •;• ' ;
A geografia do homem deve estudar precisamente este alternar-se dós
dois aspectos toda vez que tomar em sentido amplo o aspecto territorial. Disso
se segue que ela hão deve considerar os povos como elementos inertes e mui-'
to menos como elementos fechados e encerrados:em si mesmos. Quando,
como ocorre na Polinésia ou no interior da Ásia, a indústria européia pene-,
tra em meio a um povo, sufocando a arte.e a:indústria indígenas com a in
trodução de grande quantidade de produtos, inferiores mas de bom merca 9
do, aquele povo todo perde súa vida própria e entra no rol daqueles que são
9
obrigados a viver recolhendo caucho, espremendo óleo de palma ou caçan
9
do elefantes para prover ao consumo europeu, e recebendo em troca tecidos .
9
transparentes,, aguardente adulterada com ácido sulfúrico, fuzis usados ou
9
roupas èm desuso, em suma, os dejetos das populações civilizadas. O orga-. .
nismo econômico daquele povo se extingue, é em muitos casos este fato as 9
9
sinala o princípio da atrofiação e do perecimento total do próprio povo. .0
organismo mais forte se sobrepôs ao mais fraco ep absorveu por toda par
te. Por outro lado pode-se observar ainda que Atenas não poderia ter vivido .
sem o trigo, a lenha, o cânhamo dos países situados ao longo da margem
setentrional do Mediterrâneo, assim como a Inglaterra passaria fome se não .
fossco pão e a carne fornecidos pela América setentrional, pela Europa orien
tal e .pela Austrália. . . . • • '..•...•; . :.* •...:•! m
0
§38. Necessidade de uma visão retrospectiva à história da Terra — Já
afirmamos antes (v. cap. 4) que os povbs devem ser estudados em relação
9
com toda a.Terça,e especialmente com .a evoluçãp desta. A este respeito a
geografia do. homem nos oferece um exemplo de como a condução dó estu-
do de um problema científico baseada em procedimentos superficiais leva ";
a graves! dificuldades, enquantp o:aprofundamento maior, da investigação
conduz a solução com muito menor esforço. Karl Ritter tentou muitas vezes "
nas süaS;descrições mostrar as ligações existentes entre os fenômenos geo- .
gráficos da natureza inorgânica e os fenômenos da humanidade;;mas.ele nãõ
se deu conta de que entre as duas ordens de fenômenos "existe um. nexo mui-. •'.
to mais profundo, representado pela correspondência entre as evoluções dos
dois elementos, que têm ambos suaraiz na Terra, tanto que se poderia di^er .
que existe entre esses elementos uma espécie de parentesco telúrico. Mais su
9
perficial ainda é o outro pensador, que gozada fama de ter demonstrado
9
'.'V ': •:.•">. !'
" ' I •
isi „ - i. . 9
100
r
0 I •: . " •
uma particular acuidade no estudo das relações de 'dependência que se esta
0
belecem entre à história e a natureza circundànte; queremos acenar a Henry
0-
Th'. Buckle que, no primeiro capítulo da suaHistória da civilização inglesa,
0
diz: "Se consideramos que o homem se encontra permanentemente em con
tato com o mundo exterior, devemos nos persuadir de que existe necessária^.
mente uma ligação entre ás ações do<homem e as leis da natureza". Nas con-
• cepções'deste gênero, em'que se fala apenas em coexistência, contato', de
pendência, a palavra que resolveria de fato o problema permanece inexpres-
sa;: é a palavra evoluçãoy •'•••'••••' [*' ••
\ Toda a história da humanidade é uma contínua evolução Sobre a-Ter-
ra é com a Terra; e não se trata de uma simples coexistência, mas humanida
de e Terra vivem, sofrem, progridem e envelhecem juntas. Basta pensar que
ligações profundas devem nascer de um tal gênero de coexistência para se
dar logo conta de como é supérflua toda pergunta que ponha em dúvida á
existência ou não de um nexo entre a Terra e o homem, a.influência ou não
0
que o território e todo o ambiente físico exercem sobre a história, sobre os
povos, sobre os Estados, sobre a sociedade humana. - "'• •'•• J '•'•'•-'. ••'
r
• :; Traduzido em linguagemprática o que foi dito acima significa que quan
do! no estudo antropogeográfico nos encontramos'diante de um fato cujas
0
condições atuais não bastam para explicar, então é necessário voltar os olhos
aopassado e buscar ar ás;causas que o presente não nos revela, sem o que
se cairia em um erro de lógica elementar. Neumann, baseando-se na' falta
de um nexo entre a divisão do gênero, humano em raças e as condições geo-
r gráficas presentes, tira daí a conclusão segura de que a etnografia científica
deve se apoiar unicamente np exame comparado das línguas. Más se este
cientista fosse levado a examinar um vale árido, estaria ele impedido de cons
tatar a falta de um nexo visível entre este efeito e uma outra causa qualquer
P
nãpmais visível, ou não teria ele também tentado encontrar uma causa de
terminada, que tivesse-dado lugar à formação dò vale e tivesse mais tarde
cessado? Do mesmo modo deve-se dizer que para o antropogeógrafo o pro
blema de como se deva explicar adifusão dos povos não é isolado, mesmo
que nas atuais condições'não pareça possível aqui a solução.
•• '••• '.k .•:••• .y..:K'rp£-*. • .- • .= •': ,,--.•. ^ ..--^i- •.
§39.! Limites da geografia dó homem — Se qualquer objeto, que seapre-
senta sobre a Terra ém um número bastante considerável e tenha uma rela
ção com o homem, pode ser estudado e representado sob o aspecto da sua
difusão geográfica, então atarefa da geografia do homemnãp.teria frontei
ras se esta ciência não tivesse èm si mesma as razões de uma limitação ade-
quada^ É pois necessário colocar a questão: quais são os limites da geogra
fia do homem? Para responder a isso basta considerar'que o objetivo da
antropogeografia épuramente científico e que porissoèla deve"deixar às
aplicações de geografia política,;de geografia1comercial etc. a'descrição de
todos os fenômenos que não têm importância essencial pára ácmele objeti
vou Aqui, como em qualquer outra ciência, deve-se impedir que o estudo
se aprofunde e se estenda além do quanto é necessário para tornar completo
r
101

o edifício científico. Para isso bastará ter;presente..que os atributos do lio:


9
mem, cuja difusão pode ser demonstrada e descrita, podem ter em relação
ao próprio homem uma importância muito diversa. E, na medida em .que
o estudo antropogeográfico se refere precisamente ao homem, terão interes
se científico apenas aqueles atributos que têm um vínculo muito estreito com '
o ser que os possui eps difunde, cuja difusão valha para iluminar a difusão .'.> 9
do homem. Não queremos porém dizercomisto que além do campo assim,
circunscritpcesse inteiramente a seriedade da investigação científica; mas a
geografia do"homem pode muito bem restringir-se a.estes limites sem jne-
nhum prejuízo da verdade. =.'. . .,*,/ •:• :• ys\- y.\ _•. j* . j•." •';
.A,geografia física é base e premissa;da geografia do homem; p que.-
9
porém não significa que esta deva fazer seus todos ps resultados daquela.
A geografia física se ocupa de uma grande quantidade de pesquisas cujo fruto . 9
não resulta em nenhuma vantagem para a antropogeografia. Na verdade a.;
vida em todas as. suas formas é um fenômeno superficial da nossa Terra, -:
e em muitos aspectos depende mais dò Sol do que do território; antes, esta
se manifesta mais nas partes baixas da superfície terrestre, especialmenteno
que se refere à vida do homem. É por isso que os relevos mais altos datejra
firme apresentam para a geografia do homem um interesse quase tão ínfimo* .
quanto as cavidades mais profundas do mar.iO estudo do cume de umamòn- •
tanha pode ter enorme importância do ponto de vista físico, mas pode hão]
ter absolutamente nenhuma importância do; ponto de vista antropogeográ 9
fico. iAssim também as condições que se manifestam no fundo de um lago.
9
ou de um rio, no.interior.de uma geleira, emuma terra polar inabitada, hão..
têm com a geografia do homem relação dè espécie alguma...;,: : ?• j?j r 9

' ':- j:*|- *•;.' A .»;*•**.?..'*'. .-"../' .•..-..: ,:--:'-..f-:v.":« :"-* •'.-• r'**£$*' k:' \'.
| §40. As leis ántropògeográficas — Assim como a geografia do homem
tem ém comum com as ciências naturais o método científico, ela ordena sua
matéria.do mesmo modo que estas, com base em classificações, e chega às...
suas conclusões pela via das comparações. O fato de ela estudar o homem.
em relação com seu território não dá lugar a nenhuma diferença, tanto mais ..
que coloca o homem dentro-da natureza e o considera nas suas relações recí-;
procas com a.Terra. A independência da vontade humana não impede que
a difusão geográfica do homem sofra a influência de condiçpes externas;!as-.;;
sim, por.exemplo, ele foi excluído das terras polares e das regiões mais ári-.;'.'
das como qualquer outra espécie vegetal ou animal. Do mesmo modo que
o fitógeógrafo delimita a área de difusão das palmeiras, o antropogeógrafo-.
delineia a área de difusão dos negros. E.se.o primeiro deduz da. presença
. atual deiuma mesma planta na África meridional e na Nova Guiné que aquela '.
planta se transferiu vagando pelo Oceano Índico, oü que ocorreu uma dupla
migração da pátria comum de origem, pòr exemplo, da índia, a mesmacon-,
clusão tira o segundo diante dos negros dá África e dos papuas. ,-. j: .
Do mesmo modo que todas as outras ciências que também compreen
deram o homem no rol de suas investigações, tampouco a antropogeografia
pode pretender descobrir leis que possam ser expressas através,de fórmulas .
• : . .-

186 .9
102
0

matemáticas. Assim como o homem, também o poyo possui uma vontade


p independente. Mas esta vontade, sempre que pretenda se expressar, deve le
0
var em conta as condições que a Terra impõe à existência humana e que re
0 presentam uma limitação para essa vontade. De fato, não há vontade hu
mana,que possáaumentar a área do planeta; nenhuma vontade humana po-
déria se sobrepor às forças que se opõem à vida em meio ao gelo persistente
das terras polares e das altas montanhas ou então nos desertos; e tampouco
poderá se formar jamais um Estado independente no pólo norte, nemsurgir
uma grande cidade,em meio às areias do Saara. Assim também a expansão
. territorial de um povo encontrará sempre limites impostos pelas condições
p> • \ externas. Um povo que se estende sobre um grande espaço será sempre me-
f* ; nos compacto que um povo concentrado sobre um pequeno território como
o dos- franceses. Um território situado em clima temperado possui maiores
recursos que um outro situado em clima frio; assim ar Suécia e a Noruega
consideradas juntas têm um território que supera em 2/5 a amplitude do ter
r
ritório da Alemanha, mas uma população que é apenas l/7;da alemã. . -
• .. '•. •«Nesses países a livre vontade dos povos pode sem dúvida atenuar mui
to o império destas limitações ou torná-lo mais suportável, mas/não poderá
jamais aboli-lo completamente. E por isso cada povo carrega ém si as carac
terísticas do seu território. Hoje a geografia do homem deve estudar os po
vos em relação às condições naturais às quais eles estão sujeitos, isto é,
considerá-los sempre unicamente sobre seu território: É sobre esteque a geo
grafia do homem vê além disso se definirem as leis que regulam a vida dos
povos; leis que precisam ser expressas em forma geográfica/Assim ela con
sidera o incremento e a decadência dos povos pela sua expansão territorial,
descobre entre os ingleses e os japoneses, entre os habitantes de Tonga e de
f Siinbo o repetir-se das mesmas influências derivadas da posição insular, e
considera os destinos da Grécia como conectados com os destinos da Ásia
anterior, sejam gregos ou persas, romanos ou turcos os povos que aí predo
minem. Assim também ageografiàdo homem veacentralidade-do império
germânico repetir-se no Estado africano de Bornu; naturalmente esses dois
Estados continuam sendo muito diversos para elaj mas apresentam uma ca- I
racterística comum: sesãò fortes exercem uma enorme influência exterior,
enquanto fracos se encontram em grave perigo: Esta é em qualquer parte
da Terra a vantagem e a desvantagem que confere a um Estado a.centralida-
de da posição política; isto porque todos os povos fortes visam alcançar o
mar ou à estender sobre este seu domínio, e tendem a se apoderar das gran
des vias1comerciais ou pelo menos dos seus pontos extremos. '"">-•—-.:. -
v Vê-se portanto como a extensão, a posição e a configuração dos terri
tórios fornecem os elementos para avaliar a vida dos povos aos quais estes
pertencem. Esses elementos permanecem constantes enquanto se toma em
consideração apenas o território; mudam porém às vezes quando se passa
ajeonsiderar também os povos em contato com o território. Assim depois
da queda de Cartago o território daquela república perdeu por longo tempo
P sua importância, e só em parte a readquiriu com o reflorescimento dos Esta-
IS7
103
9
dos bárbaros; mas desde que a ocupação francesa da Tunísia colocou aque
las terras nas mãos de uma grande potência, estas readquiriram, especial
mente em relação à Sicüia, toda a impprtância que tinham tido nos tempos
de Cartago. ••• •••.•.*•:.'. y."-.:...-•.•' - .
":.- É possível estabelecer portanto com dados de realidade antropogeo-
gráficos üma equação tal que uma só grandeza seja aqui desconhecida; a • ^
incógnita será sempre uma grandeza de tempo/Diante de determinadas con-
. diçõesdeLexténsão, de espaço, de posição, deverá necessariamente manifestar-. **,
se um certo fenômeno, mas não sè~i5õde dizer quando." Quando as observa
ções,das quais se dispõe se referem a período dè tempo bastante extenso,
entãoa constatação dò repetir-se daquele fenômeno-determinado confere 9
ao cálculo um grau de segurança também maior.' , 9
';• As óbjeções que se costuma levantar contra o valor das leis antròpo-
9
geográficas sè apoiam freqüentemente sobre erros de interpretação muito
9
elementares, como demonstra a crítica feita por Peschel a Ritter47. Diz ele
9
da Grécia: ' . • ;.'- L- •• j;
!'"••:'•
i "Aquele.era e é contudo o berço dos povos navegadores que foram os vénce-
,,dores de Salamina, masjá poderia ser também, em Helesponto, a capital do . ,*•
; Oriente,: naquele mesmo lugarondesurgiu Bizâncio e ondeestáhoje Constan-
. tinopla.e a frota turca decomposta. A natureza é sempre tão benigna quanto
•era naqueles tempos gloriosos, mas os habitantes daquelas terras hoje estão
' mudados. Portanto a influência das causas locais hão é senão Uma influência
negativa... Òs caracteres físicos de cada território oferecem a possibilidade de
• • desenvolvimentos diferentes. Más o fato de ter realizado um e não outro de-
: senvolvimerito constitui precisamente o mérito histórico de cada nação. O cur-
! so da história certamente tem relação com as leis físicas do território, más só .,
.; ' ; nas suas linhas gerais" (Ausland, 1859, n. 33). : ' =;•• V h k
No caso concreto nãó é a geografia do homem qüe está errada', más Peschel .
queesquece uma lei importante: que as influências que um país éxerçè sobre .
a história de seu povo não se devem apenas áo país em si, más tambêní aos .-
territórios entre ps quais este está compreendido. Por isso na crítica de PesJ.' •
chel, ássirn.comb em quase todos os autores qúé tratam das relações entre :
,as condições naturais da Grécia ea sua história, sé ignora o mais importante
entre todos os elementos dessa história,' isto é, a posição desta perünsúla4.qüe .*
se inclina em direção à Ásia, quase um elo dè.conjunção entréa Europa é
as costas orientais do Mediterrâneo. É exatamente esta posição que imprime . ^
à história helênica um caráter europeurasiático-tão profundo, cáfáterrqúè
se manifesta através de todas as contingências históricas tanto do seu flores-'
cimento como da sua decadência como o fio condutor ao qual; se. ligamtan 9
to a: expedição dos Argónautas como a guerra de Tróia, a batalha de Sàlà- 9
minà como as influências da civilização mesopotâmica e egípcia, o império 9
romano do Oriente como a dominação dós turcos. O elemento de debilida- 9
-. - i • .

. "DasAusland, 1867, n. 36 e 39; 1869, n. 9 e.39.. ..- -:i':..:- ; i •. v s, \Q


•i.
9
Í?V •' 188 . 9
•3 . ••• :
~ : • *- -
.• • ••-. •••

:,1P4 ..-;.!
de-que éinerente-a esta posição geográfica se tornou também mais sensível
pela configuração irrequieta do;território, de tal modo a fragmentar quais-
•quer operações que sejam mais amplas, de obstacularizar quaisquer podero
sas concentrações de forças, eisto pelo desmembramento e pelo corte tanto
no sentido- horizontal;(penínsulas eilhas) como em sentido vertical (progra-
fico), assimcomo pelalimitação da sua extensão. Posição, amplitude econ-.
figuração: esses são; os elementos de base e ao mesmo temRO. as hmitaçoes.
: :ppstas pela natureza àhistória da Grécia. Diante destes.elementos as condi-.
ções'fayoEáveis".da indústria marítima, o clima soberbo etc. assumem uma.
. importância totalmente secundária. No escrito que recordamos Peschel acres-..
•benta:'. ?'#precisamenté ap- vencer ps.obstáculos postos pela natureza, que
: resplandece ò gênio dos povos"; mas os gregos, mesmo na época do seu apo
geu', quando;seu. gênio resplandecia mais alto, não chegaram a se impor às
.' condições criadas pelas características fundamentais do seu território, so
bretudo pela posição geográfica, pela limitada extensão e pelo desmem
bramento. •" '.-•.. .. .. •'• .-';-• ;
r i .'•'•' . • . . . • • •*
l ' .. ;; .••••.: ' :- '
i Parece-nos que o exemplo acima reportado demonstra que, para po
der (realizar um estudo útil do vasto problema do qual tratamos, é necessá
rio primeiro fixar bem ós elementos que devem ser examinados quando se
quejr falar da influenciadas condições naturais sobre a história dos povos.
Êstç primeiro trabalho nos'conduzirá logo a um resultado importante, isto
é, à-eliminação de uma grande quantidade de argumentos não acessíveis à
abordagem geográfica, que pertencem, ao contrário, ,à fisiologia e à. psico
p
logia; são desse tipo todas aquelas influências que modificam o. caráter ou
as cpndições.físicas do homem0Resta-nos, poroutrorlado, p^estudo.de to-,
P
dosjos problemas puramente geográficos, ou seja, das influências que as con
0
dições naturais exercem sobre o modo de ser do homem ou sobre sua ativi
~

dade. As:'influências'do primeiro grupo podem ser. chamadas de estáticas,


e aç do.segundo, de mecânicas. Estas .últimas representam' precisamente, as
P condições diretamente impostas pela natureza a história, embora não se ex
P clua que essas condições possam influir spbre a história'também por via in-
. direta. Assim, pode acontecer que cada uma das modificações ocorridas nas
condições de. um pequeno número de homens concorra para determinar os
destinos históricos de comunidades situadas freqüentemente a enorme dis
tância, difundindo-se a poyps inteiros ou sendo transmitidas através :de de
terminadas'frações de povos. ... • ' „"•'"••' lí.'.'. -
0 "
§41. Leis antropogeográficas e estatísticas — A geografia do homem
tem em comum com a estatística a tarefa de estudar os fenômenos relativos
r
à vida dos povos e de buscar tudo que neles tem valor de lei. Mas os procedi-,
mentos das duas ciências são muito diversos. Os conceitos geográficos são
sempre localizados com exatidão; eles têm na base de uma latitude e de uma
longitude uma relação com elementos geográficos, como costas, interiores,
relevos e cursos de água. Se falo o nome de uma localidade logo aparece em
r
•189
' : • -• tos •

minha mente algo como um mapa de pálidos contornos, sobre oqual minha
memória fixa no ponto exato, e às vezes infortunadamente também em um '
ponto inexato, alocalidade em questão. Por isso os conceitos abstratos, que
nao tem nenhuma referência a uma localidadeexata, têm sempreum caráter
nao perfeitamente geográfico. Portanto em geografia, ao se-estudar um fe-* •
nômeno, será sempre muito útil separar uma da outra as características sin- •: '
gulares do fenômeno mesmo ebuscar entre eles os que são localizáveis, mais
do que apresentá-los todos sob a forma de uma soma que não teria outro
valor senão d"de um dado intermediário eserviria depois para compor ou- " •
tros cálculos privados de significado. Sãó um exemplo do gênero os estudos :
relativos ao recorte das costas ou à densidade^ de população. i .,
Hoje se faz grande alarde das médias estatísticas esquecendo-se da subs
tância dos problemas tratados. Em geral seobserva esse alarde também no
campo científico onde, como se se tratasse de uni jogo e sem se dar conta
do objetivo aò qual se visa, continuam a se juntar cálculos como se cada
um deles tivesse valor por si. Assim, por exemplo, admite-se que a popula
ção total da Terra ascenda a 1 500 milhões de homens, e calcula-se que em :
conseqüência a densidade da população terrestre seja de menos de 3 habir
tames por km2. Mas, como é de se notar, os homens habitam a Terra ape
nas numa faixa compreendida entre as regiões polares inabitadas, o chama- ?
do ecumeno, que, compreendendo terra e água juntas, ocupa cerca de 4/5
da superfície terrestre. E é apenas nessa área qüe ó gênero humano vive, ;de
tal modo qüe a cada quilômetro quadrado do ecumeno caberiam 4 habitan
tes. Além disso a porção maior do ecumeno é ocupada pelo mar; á área ha
bitada é menos de 1/3 da sua superfície total, e pòr isso é apenas a esta área
que se refere a população terrestre, cuja densidade sobe nesse caso para;12
habitantes por km2. Mas também no interior deste: ecumeno se apresentam
diferenças de densidade consideráveis. Assim a população da Alemanha é
quase cinco vezes mais densa que a da Rússia: é na própria Alemanha; se
observa que ná província de Lüneburg av densidade é de 39 habitantes subin- ;
do a 400 na província de Düsseldórf. • ' '"'.'•' !'•'• '•'\ m
§42. A predestinação e ã teleologia de Ritter — O conceito de predesti- *•'
nação referido a uma região terrestre levantou muitas objeçõese.protestos
por parte de mais.de um crítico, excessivamente sutil. Se" afirmo; que.'a. parte.. .' • 4
ocidental da Emopa e as penínsulas e os arquipélagos da Ásia oriental estão •
predestinados^ por sua estrutura extremamente fracionada, a ter seu próprio .*
desenvolvimento particuíar, eis que se insurge um dos filósofos; da história: '
; . . • . . . •' • . ' • "• : ; . i.
' ?'Que significa a expressão: ter seu próprio desenvolvimento particular? 'Áo • - ^
;'; :: '* considerar as coisas do ponto de vista da caúsalidadé'exterior pode-se dizer; ;
. • que alguma coisa esteja predestinada a algo? (...) Predestinação é um conceito
superficial, privado de conteúdo, enquanto ao contrário o conceito verdadei
ramente significativo é o de causalidade"48; ,j-, -. ;'. '-. .

9
Ritter, K. Der Welzug der Kultur, in "Die Kritlk"; 1897, n. 154.

190
- - ". ' i
- i

9
p ?«:♦. r
r .:.;o4.»c > x.
106
r < * *

Hpje se; pode notar que ò' vocábulo predestinação tem sido já utilizado tão
freqüentemente que se pode considerar justificado seu emprego na linguagem
antropogeográfica. Mas quero citar, extraindo-a da moderna literatura,.uma
p expressão de LeroyrBeauüeu49: "A unidade do território russo é tão natural
\ que nenhuma outra região da Terra, que não seja exatamente uma península
ou uma ilha, parece mais claramente predestinada a ser pátria de um povo
único' •. A frase citada não tem pütro significado que não este: que há territó
rios qüe, mercê da sua conformaçãp natural, são destinados a imprimir, ao
movimento histórico certas-formas e direções determinadas. É como se eu,
encontrando-me dentro de um vale'de montanha e olhando à minha volta,
p
dissesse: "Esta encosta está predestinada a dar lugar a uma torrente e aquela
0 . bacia a um lago". Quem não gostar da palavra predestinação diga ao .invés
disso atitude. É exatamente essa predestinação que a geografia deve estudar
e representar, ainda que em uma certa época a situação histórica'de um"certo
0
território pareça estar em^contradição com ela. Quando e como ps destinos
0
daquele território devem .se cumprir são argumentos que não têm interesse
para este estudo; e isto embora o olhar experimentado do historiador profun
do consiga ver aqui e ali os indícios daquela predestinação.mesmo sob. o véu
deiuma história que esteja, em.contradição com essa e pois com as deduções
geográficas.: Só quem conduzir seu exame aos elementos exteriores poderá ne
gar, embora a Grécia moderna esteja tão abaixo da Grécia antiga, a elevada
predestinação natural da.,peníhsula helênica (v. §40). .-../, vi
A susceptibilidade que uma palavra tão clara pôde despertar não é se
não a expressão da antiga animosidade cega e desconfiada contra qualquer
0
espécie de teleologia. Reflitamos um instante sobre algumas expressões como
esta, freqüentemente citada, que se encontra na introdução ao primeiro volu
me da Palestina de Ritter:: "•'•' .
' • \! ' •";• . •• *:•/-;--,••• •' ' '.'• • • ;'-' " •"•• -•••/• '
0
"> "Imaginar a história do povo de Israel em uma outra região terrestre que não
, seja a-Palestina dever-nos-ia parecer algo impossível. Em nenhuma outra terra
0 a história sacra poderia;ter tido um desenvolvimento tão rico como nesta terra,
claramente representando, para nós e.para todçs, os tempos vindouros*'.
Temos que confessar abertamente que tais expressões não nos chocam por
sua entonação ideológica; que.de todo modo não pode nos impressionar se
não exatamente como entonação; mas elas nos chamam a atenção pela rela
ção qüe têm com a teoria queRitter enunciou com uma segurança atéientão
desconhecida: "A história não está ao lado da natureza, mas dentro da pró-
r pria natureza". De resto, a paternidade destas idéias teleológicas não perten
ce ^propriamente a Ritter, masantes"^ Herder que, tanto nos~sèus-i?rcf/Míi'/e/i
r
como nas suas Ideén zur.Geschiçhte der Menschheit, se referira freqüente
0
mente ao conceito de que.se deve considerar a Terra como a habitação e o
exercício da humanidade, e corno sendo predestinada exatamente a esse obje
tivo; Herder reconhece a marca uniforme da mão criadora tanto nos esqui
P
mós apequenados, pelo frio como na organização sensual dos negros. É a
0 ' •••
- . _; _ : :. t . - i •
49 t. .- r— :.• t /..-.jx••_.• •*« -• .; •
L'empire des tsars, V. I (1 ed.), p. 33. •.••• •'• • • '•
P r

191
178532
107
• 2
9
••••• * I
Herder que pertence omote arguto: "Óu a natureza náo_teria criado a Áfri
ca, ou a África deveria ser antes de tudo dos. negros"50. . - : . ). * ' }. •
•:A este propósito se nos permita, diante.do:horror próximo do medo
que.os opositores de Ritter ostentavam diante da teleologia, observar que
na história de todas as ciências se pode constatar á compatibilidade dos con
ceitos teleológicos fundamentais com resultados da investigação propriamente
dita. Na verdade, diante de meus olhos e da minha mente, a natureza junto
com a-humanidade, que constituem o objeto único de qualquer ciência, pa-.
receriam os mesmos, fossem as suas leis manifestações acidentais, ou se òri-...
ginassem da vontade de um espírito criador. O cientista investiga as causas •
das quais derivam os efeitos que constituem o objeto da sua investigação, '
e não o torna nada incerto o fato de hão se saber se o fim último destes" fe
nômenos é preestabelecido por uma vontade superior, e se o jogo destas cau
sas e destes efeitos é guiado por uma inteligência superior. Aquilo que; es
sencialmente nos prefixamos é estabelecer se os.destinos dos povos são;em
alguma medida determinados pelo ambiente que os circunda. Karl Ritter parte
da convicção de que isto ocorre efetivamente, àpòiando-se em parte na crença
9
de uma divindade que dirija as coisas humanas, crença à qual ele dá a im
9
portância de uma hipótese científica, em parte aos resultados da sua obser- .
0
vaçãó. Pode-se dirigir a Ritter a séria crítica de ter ele sé fiado excessiva-. .
0
mente nesta hipótese, e de ter por isso, corri uma convicção tão profunda,
considerado a Terra como o educandário dahumanidade, e com isso se vol-. ".-.
tado ao estudo dos fenômenos que lhe pareceram confirmar essa crença, sem«
se armar de dúvida suficiente. Todavia não se deVe crer por isso que aquela "•
concepção teleológica tenha falseado todas as conclusões de Ritter e frustra-
do portanto todoo seu percurso científico. Se as chamadas "idéias-de Rit- ^
ter" não puderam se afirmar vigorosamente,: e:se a própria geografia não- :;
p.ôdetirar grande proveito delas, isto não tem absolutamente nada a^ver com .
9
a teleologia, mas foi apenas por isso qüe Ritter muito raramente enfrentou :
9
com decisão a abordagem dos problemas particulares, relativos ao argumento ..'
do qual tratamos. Esta é exatamente sua debilidade principal. Os trabalhos 9
de Ritter têm, por assim dizer, um caráter ;dé projeto.ou de esquema* e're- '; • 9
presehtam antes uma contínua demonstração da importância|dás relações 9
em questão e do modo como estas deveriam ser estudadas do qüeprpfuridas
investigações particulares.acerca da suáessêhcia e das suas.leis , í^,' *'f\,'.... . -

S0Ideen, VI, p. 4. CfVtãmbém VII, p. 3. -. .• -.>:;—í;•;*" 3 . • '•; ;•.'•*


51 Não podemos deixar de introduzir em seguida uma consideração de caráter puramente hu
mano: Ritter é um daqueles pensadores contra os quais a crítica não pode se mostrar severa
como é paramuitos outros. Suaexposição nãò é unilateral nem preconcebida, nem polêmica,
mas se percebe continuamente ao lê-la que se está diante dè um homem não apenas honesto,
mas inteiramente nobre, de tal modo que se empenha com o.intelectó è com o coraçãona inves-
ügação da verdade. Se este nosso juízo provocar por parte de alguns cidadãos da "república
dos cientistas" algum sinal de dúvida, nós achamos que na crítica a que as opiniões de um es
critor comoKarl Ritter possamdar lugar devem-se levar em conta o homem e os objetivos que
ele perseguiu. Por outro lado pode-se compreender que algumas das críticas que foram feitas
a Karl Ritter cabem não a ele propriamente, mas a seus discípulos. • -•• ••.*
9

192
»n ^ i i m ) n > m >> iiii^i^in^ > i <ii)>>ii')'>*

VIDAL, VIDAIS
TEXTOS DE GEOGRAFIA HUMANA,
GEOGRAFIA HUMANA:
REGIONAL E POLÍTICA
FUNDAMENTOS EPISTEMOLÓGICOS
DE UMA CIÊNCIA
Prefácio
PaulClaval Guilherme Ribeiro
*

TEXTO 9
Quanto maispassamos aspáginas do estudo da terra,
mais vemos que elas sãofolhas domesmo livro.
o (VlDAL DE LA BLACHE, l8j)6)

Cip-Brasil. Catalogação na fonte A s breves linhas a seguir têm por intuito identificar algumas das con
Sindicato Nacional dosEditores de Livros. RJ tribuições epistemológicas de Vidal delaBlache à ciência geográfica,
V691 Vidal. vjdais: textos de geografia humana, regional epolítica / domínio no qual teve papel central entre o final do século XDC e os anos
Rogério Hacsbaert. Sérgio Nunes Pereira, Guilherme Ribeiro 1950. Após uma difícil seleção, consideramos que o mais relevante de sua
(orgs.); prefácio Paul Claval. —Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. obra teórica em relação à GeografiaHumana encontra-se nos seguintes tra
2012.
1464p.: 23cm balhos:

Inclui bibliografia 1. "Prefáce ao Atlas general Vidal-Lablache, Histoire et Géographie"


ISBN 978-85-286-1621-7
A (1894);
1. Geografia humana. 2. Geografia política. 3. Identidade 2. "Lepríncipe de la géographie gênérale" (1896);
social. 4. Territorialidade humana. 5. Civilização. I. Costa, 3. "Leçon dbuverture du cours de géographie" (1899);
Rogério H. da (Rogério Haesbaert da), 1958-. II. Pereira.
Sérgio Nunes. III. Ribeiro, Guilherme. II.Titulo. III.Série. 4. "Les conditions géographiques des faits sociaux" (1902); ,
CDD: 304.2
12-6070 CDU:911.3 23
r»t»r»»tfff»rrrf(frtrMírf»í»»ft*»ttff»rMtfrrr»
VIDAL. VIDAIS GEOGRAFIA HUMANA
5. "La géographie humaine. Ses rapports avec la géographie de la vie" mento de seu autor, namedida em que enuncia omaior fundamento desua
(1903); àémarche: a unidade terrestre. ATerra é um todo, cujaspartes estão inter
6. "De 1'intcrpretation géographique des paysages" (1908); ligadas. Isso oconduz abuscar, sempre, uma visão de conjunto. Não existe
7. "Les genrcs de vie dans la géographie humainc. Premier artide" espaço ou fenômeno que possa serexplicado isoladamente. Essa perspectiva
(1911); advém das Ciências Naturais. Vidal percebe o mundo em movimento gra
8. "Les genres de vie dans la géographie humainc. Second article" ças aos eventos meteorológicos eaos acidentes geológicos. Assim, ecoando
(1911). um discurso cientifico caro ao século XIX, só se compreende a dinâmica
terrestre à luzde suas leis. Todavia, embora sejauna, a Terra nãoé homogê
A esses oito, acrescentaríamos pelo menos outros dois que, por já nea. Muito pelo contrário, os lugares cas paisagens revelam uma exuberante
terem sido vertidos em língua portuguesa, não foram incluídos: "Sur le diversidade. Nesse sentido, são perceptíveis ogeral eoparticular, costurados
sens et lbbjct de la géographie humaine" (Vidal de la Blache, 1912), pu entre si graças a um "principio de conexão que une os fenômenos geográri-
blicado como se fora a introdução do livro Príncipes de géographie humaine' . cos" (Vidal de la Blache, 1894:1). Na seqüência, pondera:
Vidal de laBlache, 1922); e"Des caracteresdistinetifs de la géographie" (Vidal
de la Blache, 1913), publicado na conhecida coletânea organizada por a característica de uma área é algo complexo, que resulta do con
Christofolctü (Christofolctü, 1982). De qualquer maneira, uma ressalva: junto de um grande número de aspectos eda maneira como eles
em boa parte de seus textos. Vidal promove uma discussão teórico-mc- se combinam e se modificam uns aos outros. £ preciso ir além c
todológica. Esclarecimento feito, adotaremos um procedimento simples: reconhecer que nenhuma parte da Terra contfm em si mesma sua
apontar, segundo a própria ordem cronológica dos artigos, os principais explicação. Só se descobre ojogo das condições locais com alguma
elementos que compõem a epistemologia geográfica vidaliana.: Para isso, clareza quando a observação se eleva para além de tais condições,
usaremos o recurso das citações. quando se,é capaz de apreender as analogias naturalmente condu
Embora tenha somente duas páginas, o "Préface ao Aüas general zidas pela generalidade das leis terrestres. Oestudo dos Alpes não
Vidal-Lablache, Histoirc etGéographie" ocupa lugar de destaque nopensa- avança sem o estudo das outras cadeias de soerguimento da era
recente; o estudo do Saara não ocorre sem o de outros desertos do
globo. Na realidade, a Terra é um todo cujas diferentes partes se
'• Como ésabido, esse livro i uma obra póstuma, tendo sido editado por Emmanucl esclarecem mutuamente. Seria colocar uma venda nos olhos estu
deMartonne, genro de Vldal. Aedição amplamente divulgada entre nós è da Editora dar uma região isoladamente, como seela não fizesse parte de utn
Cosmos, de Portugal, que simplesmente não avisou aos leitores que a introdução era, conjunto. (1894:1-2)
na verdade, um artigo escrito nove anos antes dos Príncipes. Não obstante, como se
trata do único livro de Vidal em português, noBrasil ficamos com a sensação deque
seu autor a ele se resumia... A seu turno, "Le príncipe dela géographie gênérale" retoma a mesma
:Para uma análise mais ampliada edetalhada da contribuição epistemológica de Vidal. idéia do"Préface", porém de modo ampliado. EVidal o faz de um jeito que.
consultar Ribeiro (2010). talvez, jamais tenha sido tão explícito: referenciando as bases episicmo-
24 25
ÕBO»t. vjewi w:wwM»WT»WT^«^«l.m-.CT.vt.j•*. ^ »:•wmwwwww ,-CTW».w.<,..»f-•»-=• .—>r..vww%- • - — • • -
> > >* * 9 9 » ^ 1 )11M11111M19M11 iiiinni >i -*>

VIDAL, VIDAIS GEOGRAFIA HUMANA

lógicas de seu método. No plano mais geral, destaca olegado da Ciência de Bacon, desde que o homem começou a dominar o conjunto dos
Moderna ria Bacon, Newton eBuffon. No plano específico da Geografia, fenômenos terrestres, chamaram a sua atenção. Muitas podem ser
enfatiza os nomes de Delisle, DAnville, Cassini eVarenius, mas, sobretudo, apenas aparentes, mas outras são reais; cias sãofundadas não sobre
as influências daqueles que mais omarcaram: Humboldt eRitter. "Le prín puros encontros exteriores, mas sobre relações deorigem e de cau
cipe de la géographie gênérale" é, decerto, um texto de teoria da Geografia, sas. Entre estas a aproximação se impõe, poiscada uma proporcio
mas fundamentalmente um texto de histeria dopensamentogeográfico, cuja na à outra seu tributo de explicação. Ogeógrafo c levado assim a
tradição científica te/e inicio, segundo ele, quando da irrupção da noção de projetar sobre o objeto que estuda todo o esclarecimento fornecido
unidade terrestre (Vidal de laBlache, 1896:141). pela comparação decasos análogos. (1896:129)
Desdobramento direto dessa noção éaarticulação entre as escalas. Re
petindo as lições aprendidas com Humboldt eRitter —oque apenas reforça O artigo seguinte está inscrito numa ocasião solene: a lição de aber
olugar incontestável ocupado pela Geografia alemã no desenvolvimento da tura do curso de Geografia na Faculdade de Letras da Sorbonne, em 1899.
Escola Francesa de Geografia —, Vidal faz questão de grifar acorrespondên Ocupando a cadeira vaga pela aposentadoria do historiador-geógrafo
cia entre os fenômenos, a necessidade de um olhar geral, o encadeamento Augustc Himly, Vidal assume o posto mais cobiçado da Geografia francesa
que reúne as partes e otodo. 1-m uma passagem irretocávd: esboçando o estado da arte dos conhecimentos geográficos (Humboldt,
Ritter e Buffonaparecem novamente, acompanhados desta vez por Peschel
S Aidéia de que a Terra éum todo, no qual as partes estão coordena e Redus), para cujo progresso as expedições, as descobertas e as inovações
das, proporciona àGeografia um princípio de método cujafccun- técnicas contribuíram diretamente. Tal como um tableau inacabado mas
didade aparece melhor àmedida que se amplia asua aplicação. Se que, a cada achado, uma feição seria desenhada, a dinâmica terrestre ia
nada existe isoladamente no organismo terrestre, se em todo lugar sendocadavezmais iluminada —ao mesmo tempo, porém, que surgiam
repercutem as leisgerais, de modo que não sepossa tocar uma parte novas interrogações. Tais viagens permitiam, porexemplo, a ampliação dos
semprovocar todo um encadeamento de causas cde efeitos, atarefa conhecimentos sobre o interior dos continentes. Sob a influência da conti-
do geógrafo toma um caráter diferente daquele que às vezes lhe é nentalidadc, observava ele, a adaptação de plantas, animais e mesmo gru
atribuído. Qualquer que seja afração da Terra que estude, ele não pos humanos se tornava mais difícil (Vidal de lu Blache, 1899:105).
pode nela sefechar. Um elemento geral se introduz em todo estudo Classificada por Vidal como ciência da terra (1899:107), cabia à
local. Não há de fato área cm que afisionomia não dependa de Geografia explicaressadiversidade. Nessesentido,novamente elelançamão
influências múltiplas elongínquas das quais importa determinar o da mirada de conjunto,dos encadeamentos, do "parentescoque une as regiões
local de origem. Cada área age imediatamente sobre sua vizinha e terrestres"(1899:106). Alémdisso, surge um "novo" elemento:a comparação.
cinfluenciada por ela. Fora mesmo de toda relação de vizinhança,
aação cada vez melhor reconhecida de leisgerais se traduzpor afi O que surpreende, depois que pudemos comparar sobre unia escala
nidades deformas oude climas que, sem alterar a individualidade maior osfenômenos da superfície terrestre, é a maravilhosa varie
própria de cada área, marca-a com características análogas. Estas dade de combinações que eles apresentam. Em todos os lugares,
analogias ou "conformidades", seguindo o termo muito conhecido taisfenômenos se mostram regidos por leisgerais, mas igualmente

26 27

-
PPPPPPPPPPPffPPpppPPPPPPffPPPPPPPfPPPPPPPPPPPP**
VIDAL, VIDAIS GEOGRAFIA HUMANA
modificados por circunstâncias locais de solo, relevo, clima e pelo Pensando assim, estabdecerá permanente contato com a Geologia (no
cruzamento entre todas as causas que concorrem a determinar a Tableau de la géographie de la France, por exemplo [Vidal de la Blache,
fisionomia das regiões. A gama de diferenças se estende. O clima 1903a]), a História (La Pèninsule Européene. VOcèan et la Méditerranée e
desértico nãose imprime da mesma forma sobre o Saara e sobre os La France de LEst [Vidal de la Blache, 1873, 1917, respectivamente]) e a
desertos daAustrália e da América. Encadeamentos diferentes de Sociologia. Com esta. dois anos depois de "Les conditions géographiques
fenômenos diversificam regiões que, em certos aspectos, são análo des faits sodaux", retomará umrico debate' (vide Rapports delaSociologie
gas. Cada região é a expressão de. uma série particular de causas c avec la Géographie [Vidal de la Blache, 1904]).
efeitos. (1899:107-108) Otítulo do artigo cm questão já ébem representativo. Quando Vidal
escreve que existem "condições geográficas" aintegrar "fatos soriais", sig
Em 1902, os Annalcs de Géographie publicam "Les conditions géogra nifica que, mesmo a Geografia não sendo, como a Sociologia e aHistória,
phiquesdes faits sociaux", conferência proferida na Ecole des Hautes Étu uma ciênda "puramente humana" (Vidal de la Blache, 1905:240) —afi
des Sociales. Mais especifico queos trabalhos anteriores, sua importànda, nal, ela parte da terra para ohomem, enão oinverso (Vidal de la Blache,
no entanto, reside na interdisciplinaridade enquanto instrumento meto 1903:240,1904:313), eé "ciência dos lugares, e não dos homens" (Vidal de
dológico de aperfeiçoamento da compreensão da realidade. Retomando o la Blache, 1913:229) —, isso não significa que não tenha seu papd no en
que já havia anunciado no "Préface" de 1894, isto é, a necessidade do "em tendimento dasociedade. Pelo contrário. Se fosse assim, ele não faria ques
préstimo às ciências vizinhas" (Vidal de la Blache, 1894:1), o diálogo com tão de explorar a novidade denominada, exatamente,géographie humaine.
outros campos de conhecimento perpassa toda a obra vidaliana. Numa Destarte, seriam pelo menos três as condições geográficas: posição,
conjuntura em que as ciências estavam muito preocupadas em definir seus aspectos físicos c extensão. Cada qual à sua maneira, tais aspectos deno
respectivos objetos, Vidal também o fez para a Geografia. Contudo, sua tam a tentativa vidaliana de fazer com que a Sociologia percebesse que a
clareza de que as ciências expressavam pontos de vista distintos, devendo
prevalecer não estes mas sim o entendimento dos fenômenos como um
todo, o levava a crer que ' Um dos auges deste debate ocorreu por conta das criticas teórico-metodológicas do
durkhcimiano François Símiand às monografias regionais de Demangeon, Blanchard,
as ciências da terra, e mesmo certas ciências do homem, acusam Vallaux. Vachcr e Sion. Aliás, esse c um texto muito interessante, pois uma simples
uma tendência a se desenvolver em um sentido mais geográfico. comparação seria suficiente para revelar o quanto sua concepção de ciência, que o
Esta tendência ê derivada das próprias necessidades de sua evo impelia àinterlocução permanente com as demais disciplinas, estava bem àfrente do
lução. Em seu avanço, elas têm reencontrado a Geografia cm seu praticado na época. De todo modo. independentemente de certas simplificações sobre
o que seria um fato geográfico, no geral o tom reprobatório de Simiand. focado na
caminho. Tudo isso é, na realidade, a expressão da unidade funda construção do objeto geográfico e sua relevância explicativa para a vida social, nos
mental que as religa. A relação entre elasnão consiste em simples parece pertinente (Simiand. 1906-1909). Antes os geógrafos tivessem discutido afun
transferénda de resultados, mas no fato deque estão mutuamen do com ele do que "acatado" a interpretação do historiador Lucien Febvre (que ele
te impregnadas em seus métodos. (Vidal de la Blache, 1899:107, próprio classificou como de defesa!) cm La Tcrrc et 1'èvolution humainc. Intròduction
destaque nosso) géographique à1'histoirc (Febvre, 1922).
28
29
......... . »-v,. * *•.«&**•*•)«•' • * *>•- --• ••• -......_—......., ,,.,.,.lj.ju . r»,*—^.
^ ^ 1 V> > ) 1 1 mnn fc9 9 9 9 9 9 9. 9 9 9 9 9 9.9 9 9 > * *> ** -> >>

VIDAL. VIDAIS
GEOGRAFIA HUMANA

Geografia interfere econstitui traços específicos das sociedades. Enlretanto, decivilização, verdadeiras entidades que poden:, mesmo em certas
não estamos diante de uma abordagem unilateral —algo que contrariaria circunstâncias, serem transportadas paraoutras partes? (1902:22)
seu corpus cientifico1. Reconhecendo o impacto do regime social nas condi
ções geográficas, condena aescravidão nos Estados Unidos eno Brasil subli No âmago de uma tessitura epistemológica elaborada c aperfeiçoada
nhando amá utilização do solo msplantations, que. segundo de. deveriam paulatinamente, talvez não fosse exagero sustentar que "La Géographie
servir para alimentar apopulação (Vidal de la Blache, 1902:21). Igualmente Humainc. Ses rapports avec la Géographie de la vie", de 1905, ocupa lugar
o faz com relação ao porto de Santos, considerado insalubre e distante — central. Ainda que não nos pareça adequado canonizar este ou aquele tra
dois fatores que, evidentemente, odescredendariam. Todavia, este éoporto balho numaescala hierárquica —que, namaioria dasvezes, mais confunde
mais aproveitado para oescoamento da produção de café, "verdadeiro para do que esclarece, sendo Vidal um caso deverasemblemático desse tipo de
doxo geográfico explicado pela utilidade comerdal" (1902:22). recorte—, no artigoem tda Vidal lançar-se-ia numa empreitada nada sim
Do ponto de vista do que seria a Geografia Humana vidaliana, "Les ples: a definição e delimitação de um "novo" ramo da ciênciageográfica: a
conditions géographiques des faits sociaux" explicita também o interesse Geografia Humana. Nos limites assaz estreitos de que dispomos, não fare
pda variedade de tipos emanifestações sodais. Hábitos, instrumentos, ves mos senão anotar três tópicosque nos parecemcapitais/
timentas calimentação de tribos africanas, rizicultores chineses, pastores Primeiro, uma observação de cunho aparentemente "editorial"
5 argelinos e cidadãos urbanos norte-americanos despertam sua atenção, mas que, ao nosso ver, ajuda a revelar parte das intenções do autor. "La
posto que demonstram como ohomem écapaz de. através das mais diferen Géographie Humaine" apareceu naRcvuc deSynthese Historiquc, periódico
tes técnicas, lidarcom as adversidades do meio. criado pelo filósofo-historiador Henri Berr em 1900 e que desfrutava de
considerâvd prestígio no ambiente intelectual francês de então. Por que
Oestudo, do qual esbocei alguns traços, poderia ser assimformula publicá-lo numa revista voltada menos para geógrafos e mais para historia
do: tradução da vida geográfica doglobo na vida social dos homens. dores? Sugeriríamos que, como se tratava de um esforço tcórico-mclodo-
lógico voltado para o esclarecimento doque seria a "novidade" "Geografia
Reencontramos nestasformas de civilização aexpressão de causas
i lumana", se acrescente a isso o imperativo vidaliano da interdisciplinari-
gerais que atuam sobre toda asuperfície da terra: posição, exten
dade e pode-se perceber que seria uma boa estratégia de divulgação publi-
são, clima etc Elas engendram condições sociais que, sem dúvida,
apresentam diversidades locais, mas que, entretanto, são compará
veis em zonas análogas. Trata-se. portanto, de uma geografia: geo ' Para aqueles que se dispuserem a pesquisar a obra vidaliana, fica a sugestão da enor
grafia humana ou geografia das civilizações. Contudo, phomem me semelhança entre esse artigo e o já citado "Sur le scns et Ibbict de la géographie
não está para anatureza ambiente em uma relação de dependência humaine". Publicado sete anos depois, praticamente como se fosse uma continuação
equiparávet àdos animais eplantas. Todavia, como elefez para que (tamanhas sãoassemelhanças entreambos), Vidal parece quererratificar as premissas
as condições de existência, contraídas cm certos ambientes, adqui epistemológicas quenorteavam suas investigações. Coincidência ou não, "Sur lescns
et lbbjet de la géographie humaine" também surgiu num periódico não geográfico: a
rissem consistência efixidez suficientes para tornarem-se formas Rcvue politique et littéraire (Vidalde la Blache, 1912).

>...
31
ppppppppppppppppppppppp p p p p p p p p p p p p p p p p p p p p + * p
VIDAL. VIDAIS GEOGRAFIA HUMANA
car o referido texto numa revista dessa natureza. Além disso, como a Revue origem que a.geografia botânica czoológica. £ddas que ela extrai
de Synthese foi concebida visando a renovação epistemológica dos estudos sua perspectiva. O método éanálogo, porém bem mais delicado
históricos, faria pleno sentido que um artigo pensado também para a reno na manipulação —como cmtoda ciência onde a inteligência e a
vação da Geografia surgisse, precisamente, nela. Afinal, para Vidal —não vontade humanas estão em jogo. (1903:223-224, destaque nosso,
podemos jamais esquecer que ele éhistoriador deformação —, aGeografia exceto a palavra "geografia" no começo do parágrafo)
era uma ciência histórica. Elesempreexplorou a historicidade dos eventos «
geográficos (conforme veremos no comentário do artigo seguinte). Em terceiro, uma feição epistemológica fundamental atravessa esse
Um segundo tópico: novamente fazendo referêndas elogiosas a texto: a total inexistência da dicotomia homem-nalureza. Ora, estamos
Humboldt, Ritter e, desta vez, a Ratzd (embora faça questão de demarcar diante de algo absolutamente central —sobretudo quando sabemos que a
que o elemento político não é o principal da Geografia Humana [Vidal de fragmentação é um dos aspectos mais característicos do modus operandi da
la Blache, 1903:231], traço distintivo face à Antropogeographic), Vidal não Ciência Moderna. Tal feição tem seu peso redobrado quando nos damos
se faz de rogado e assevera que esse novo ramo não advém de outro lugar contade oue estamos no seiode uma disciplina que, não naquda ocasião,
senão da Geografia Botânica e da Geografia Zoológica. O que de quer di mas sobretudo no decorrer da segunda metade do século XX, mostrou-se
zer com isso? Que, além de tomar de empréstimo o método das Ciências por demais inapta em articular de modo satisfatório o homem eomeio. Eis
Naturais —vide porém a crucial ressalva presentena citação logoa seguir uma lição vidaliana essencial —que osdescaminhos da história dopensa
—, caberáà Geografia Humanaa análise dos temasadaptação, distribuição mento geográfico trataram de apagar. Mesmo que não se concorde com o
c migração dos homens. Porém, não como o fazem as outras ciências afins, plano mais geral em que Vidal a inscreve, é mister recuperá-la.
mas no indissolúvel laço com o solo que tais temas admitem. Portanto,
para a Geografia Humana, tudo o que diz respeito ao homem está ligado Tanto nos procedimentos quanto nos resultados, a obra geográfi
ao meio em que ele vive — meio esse determinado tanto pelas condições
caé, essencialmente, biológica. Velhos hábitos delinguagem fazem
gerais quanto pelas circunstâncias locais.
com que, freqüentemente, consideremos a natureza e o homem
Esdarccendo as razões pelas quais a Geografia Humana é digna desse
como dois termos opostos, dois adversários em duelo. Entretanto,
nome, da
o homem não é "como um império num império"; ele faz parte da
criação vivente, seu colaborador mais ativo. Ele não age sobre a
estuda afisionomia terrestre modificada pelo homem; nisso ela é
natureza senão nela c por ela. £ entrando na disputa da concor
geografia. Ela não encara osfatos humanos senão em sua relação
rência dos seres, tomando partido, que ele afirma suas intenções.
com a superfície onde sedesenvolve o drama múltiplo da concor
rência dos seres vivos. Há, portanto, fatos sociais e políticos que (1903:222)
não entram cm sua competência, que se ligam a ela apenas indi
retamente e, assim, não hápor que ela se ocupar deles. A despeito Passemos agora à cidade de Genebra, sede do IX Congresso Interna
desta restrição, ela mantém inúmeros pontos de contato com essa cional deGeografia onde, em 1908, o autor apresentou "De 1'interpretation
ordem defatos. No entanto, este ramo da geografia tem a mesma géographique des paysages". De evidente valor didático, encontra-se aqui
32 33
» + + *** + *%<* n n n i v » > 1111 >>!>>> I } f1HMlMlt1l

VIDAL. VIDAIS GEOGRAFIA HUMANA

a preocupação conceituai com apaisagem. Àluz de uma abordagem an Em 1911, nosso investigado redigiria um textoque se tornaria célebre
corada na historicidade cno par homem-meio, tal conceito levava os geó dentro e forada Geografia: "Les genresde viedansla géographie humaine".
grafos ao contato direto com a natureza ecom as intervenções humanas Publicado emduaspartes nosAnnales deGéographie, eleé assazrepresenta
nela operadas. Chamando atenção para a prática dos trabalhos de campo tivo de como Vidalconcebia as rdações homem-natureza. Estamos falando
(Vidal de la Blache, 1908:59), para ele a paisagem, verdadeiro documento de um jogo, cujosprincipais atores são os homens,os animais e as plantas,
"vivo", representava achance de visualizar e. no momento seguinte, analisar onde, no processo de distribuição pelasuperfície terrestre, os recursosdis
as metamorfoses que incidiam sobre o meio c o homem. Era imperioso poníveis adquirem papel fulcral. Sim,trata-se precisamente da disputa pela
que ogeógrafo conhecesse acomposição fisico-quírnica ea biologia ter sobrevivência. Não por acaso, os argumentos são tecidos com o auxilio de
restres, cujas expressões aparentes eram solo, relevo, vegetação, hidrografia vocábulos bastante sintomáticos como adaptação, concorrência, evolução,
etc. Essa estrutura ia, aos poucos, assumindo outros contornos, visto que. equilíbrio, ação e, máxime, luta. Nessa vereda, reverberam com clareza me-
sujeita ao homem, a natureza exerda seu poder de adaptação; sujeito àna ridiana o debate envolvendo Lamarck e Darwin. Independentemente do
tureza, o homem exercia seu poder de transformação. Seja quando fixava alcanceda influênda de ambos em sua obra (Bcrdoulay c Soubeyran, 1991;
estabelecimentos, seja quando, num plano mais complexo, edificava indús Robic, 1993;Claval, 2001), o fato é que ambos conformam-se em matrizes de
trias, homem e natureza costuravam laços densos e multifacetados. sua Geografia Humana—c,lato sensu, da Geografia Moderna (Livingstonc,
1992).
§ Por suas obras e pela influência que exerce sobre ele mesmo e o Do ponto de vista humano, ora a natureza é inimiga, ora cúmplice.
mundo vivente, o homem èparte integrante da paisagem. Ele a A domesticação de animais c plantas, por exemplo, foi essencial para a ali
mentação. Igualmente, o milho teria facilitado a colonização da América
humaniza ea modifica de algumaforma. Por isso, oestudo de seus
estabelecimentos fixos éparticularmente sugestivo, visto que éde (Vidal de la Blache, 1911a:294). Seguindo esse raciocínio,
acordo com eles que se ordenam cultivos, jardins, inas de comuni (...) a ação do homem se exerce às expensas de associações
cação; eles são os pontos de apoio das modificações que o homem preexistentes, que lhe opõem uma resistência desigual. Se ele con
produz sobre a terra. Não posso desenvolver aqui os argumentos seguiu transformar a seufavor uma grande parte da Terra, não
exigidos por este novo aspecto da questão. Limitemo-nos a obser lhefaltam áreas ondefoi derrotado. Nasporções da Terra que con
var que os estabelecimentos humanos introduzem um elemento de seguiu humanizar, o sucesso sófoi obtido ao preço de uma ofen
fixidez nas relaçõesgeográficas. Oprópriofato de eles existirem já ê siva na qual, aliás, encontrou aliados; sua intervenção, por assim
umaforma de sobrevivência, pois representam um depósito que as dizer, desencadeou forças que estavam cm suspensão. Para consti
gerações anteriores deixam às seguintes, umfundo de valor que dis tuir gêneros de vida que o tornassem independente das chances de
pensa começar (do zero) tudo de novo. Além disso, a rede deestra alimentação cotidiana, o homem teve que destruir certas associa
das e aformação de relações assegura, cm todo caso, novas razões ções de seres vivos para formar outras. Teve que agrupar, por meio
deser. (1908:63) de elementos reunidos de diversos lados, sua clientela de animais
eplantas, fazendo-se assim ao mesmo tempo destruidor ccriador,

34 35
r e r r e f c r r c r r e t r c t e c e r r e rif f cf• p>p p p p p p p p-p p * <~ <r t t frrr
VIDAL. VIDAIS GEOGRAFIA HUMANA
quer dizer, realizando simultaneamente os dois alas nos quais se Gostaríamos de levantar uma hipótese. Para nós, a questão de fundo
resume a noção de vida. (1911:200) perseguida por Vidal é a seguinte: como o homem, ao mesmo tempo tão
tributário da natureza, foi capaz de superá-la (não totalmente, decerto),
Se, em qualquer ocasião, o homem nãopodeescapar das necessidades tornando habitávcl (econhecida) boa parte dasuperfície terrestre?
básicas de comer, beber, reproduzir e habitar, há um determinado quadro Enfim, estamos diante de um geógrafo que aperfeiçoou um método
natural que impõe certas condições para que isso ocorra. Como existem de investigação bastante rico para aépoca, contemplando sobremaneira os
vários quadros, existem também diferentes formas deadaptação ao meio: seguintes pontos:
eis os gêneros de vida. Caçadores, pastores, agricultores e pescadores (os
gêneros de vida são comunidades rurais), dotados de técnicas especificas i correlação, encadeamento e articulação entre as partes e o todo,
e exercendo pressões distintas num dado meio, conformarão, numa escala reconhecendo aspectos particulares porém sempre atrelados
de tempo multissecular (seu foco é nas permanências, e não nas mudanças à unidade terrestre —principal item metodológico de Vidal;
breves e rápidas), um mosaico de riquíssimo conteúdo social, cultural e ii. comparações sociológicas, culturais, geográficas ehistóricas, o que
paisagístico. Édessa forma queo homem se situa diante do meio. significa lambem intensa exploração do par passado-presente;
iii. trabalhos de campo/observação direta, cartografia e pesquisas
Um gênero de vida constituído implica uma ação metódica c contí em arquivos, ao mesmo tempo que se apropriava dos saberes
nua que age fortemente sobre a natureza ou, para falar como geó
geográficos populares; Mj
grafo, sobre afisionomia dasáreas. Sem dúvida, a açãodohomem se
iv. a natureza como fonte de inspiração em tç/mos de totalidade,
fezsentir sobre seu "ambiente" desde o dia em que sua mão armou-
dinamismo, coordenação e estabilidade/mudança (no que tange à
se de um instrumento: pode-se dizer que, desde osprimôrdios das
civilizações, essa ação não foi negligenciável. Mas totalmente dife
temporalidade); ênfase nos métodos das Ciências Naturais;
rente c o efeito dehábitos organizados e sistemáticos que esculpem
v. interdisciplinaridadc de vanguarda, transitando com habilidade
cada vez mais profundamente seus sulcos, impondo-se pela força
pela Ecologia, Geologia, Etnografia, Sociologia e História, numa
adquirida por gerações sucessivas, imprimindo suas marcas nos abordagem que pregava a unidade das ciências e, portanto, rejeitava
espíritos, direcionando em um sentido determinado todas asforças a fragmentação típica daCiência Moderna;
doprogresso. (1911:194) vi. presença recorrente da tradição alemã de Humboldt, Ritter, Ratzel
e, em menor medida, Peschel.
Adespeito decontrovérsias, "Les genres devie dans lagéographie hu
maine" reforça outro aspecto importante do método vidaliano: a integra A título de síntese do que representa a epistemologia geográfica vida
ção, a leitura não dissociativa enlre o homem e a natureza. Nesse sentido, liana, sugeriríamos que se trata de um tipo original de démarche que, indo
a Geografia se apresenta como uma estratégia, uma mirada científica a ex do território [sol] (em sua acepção mais fisica) ao homem e retornando
plicar como a diversidade de ambientes deve ser explorada de maneira a ao território (já modificado), admite um triplo movimento, capaz de dis
beneficiar o homem o máximo possivd. tinguir a Geografia das demais ciências: o epistemológico, concernente à
36 37
'-•'••• ' -..=. r ••,:••• *. .... .. - - . - , . . . - . » . . . . . . .......... ...V...%„...w- « - . ~ . . ^ . ^.«.W*V«.*.~~,*W^„V* ... — — . . , , « . «
^niim^^nm >>i^>>i>,)>>>>>ii>i nivnmii

VIDAL, VIDAI5 GEOGRAFIA HUMANA

relação homem-meio e seus desdobramentos; o histórico, atinente à trans CLAVAL, Paul (2001). Êpistétnologie de la Géographie. Paris: Nathan.
formação humana da natureza através da técnica e da cultura; eopolítico, FEBVRE, Lucien (1922). U terre et levolutibn humaine. Paris: La Renaissancc du
incidindo nasdisputas espaciais promovidas notadamente porEstados Na Livre.
cionais e Impérios.
LIVINGSTONE, David (1992). lhe geographical tradition. Oxford: Blackwell.
Trazendo suas contribuições para nossos dias, parece que a globaliza
ção acabou por lhedar razão, visto que, como exposto, defendia a unidade RIBEIRO, Guilherme (2010b). Interrogando a ciência: a concepção vidaliana de
terrestre e o encadeamento dos fenômenos como pilares epistemológicos Geografia. Confins [On Une], 8. URL: http://confins.revues.org/6295
da Geografia. Atualmente, quem, em sã consciência, pretende explicar o ROBIC, Marie-Clairc (1993). Ulnvention dela "Géographie Humaine" autournant
mundo fora dessa perspectiva? Porém, não ésó isso: face a um pensamento des annécs 1900: les vidtüiens et lecologie. In: CLAVAL, Paul (dir.). Autour
que jamais dicotomizou homem enatureza; que destacou d.paisagem como de Vidal de la Blache. La formation de lecolc française de Géographie. Paris:
rcvdadora das dinâmicas presente e pretérita de um dado lugar; que sem Éditions du CNRS.
pre refletiu a Geografia a partir da interlocução comas demais ciências; e SIMIAND, François (1906-1909). Bases géographiques de lavie sociale. LAnnêe
quegrifou o papel das técnicas e da circulação nasmudanças do meio e na Sociologique, vol. XI.
organização doespaço, não restam dúvidas deque Vidal influenciou as ge
VIDAL DELA BLACHE. Paul (1922). Príncipes degéographie humaine. Paris: Ar
rações posteriores muito mais doque elas mesmas admitiram —cuja ânsia
•á mand Colin.
de ruptura nem sempre era acompanhada de avanços teórico-melodológi-
cos vigorosos, tal como pode-se constatar a propósito da New Geography (1917). La France de l'Est (Lorraine-Alsacc). Paris: Armand Colin.
ede uma certa marxificação dos conteúdos geográficos levada adiante por (1913). Des caracteres distinetifs de la géographie. Annales de Géogra
alguns representantes da chamada Geografia Crítica. phie, ano XXII, n. 124,
Não obstante, sua herança epistemológica nos parece plenamente (1912). Sur le scns etlbbjet de la géographie humaine. Revue politique
atual, e, guardadas as devidas proporções, mantém certa correspondência et littéraire. n. 17, ano L, abril.
comdeterminadas orientações da pesquisa contemporânea.
(1911). Les genres de vie dans la géographie humaine. Premier articlc.
Annales de Géographie. anoXX, n.111,
Referências (1911a). Les genres de vie dans la géographie humaine. Deuxième arti-
de. Annales deGéographie, anoXX. n. 112.
BERDOULAY, Vincent, SOUBEYRAN. Olivier (1991). Larnarck. Darwin et Vidd: (1908). De Tinterprétatíon géographique des paysages. Neuvième
aux fondements naturalistes de lecolc française de géographie. Annales de Congrés International de Géographie, Genebra.
Géographie, vol. 100. n. 561-562.
(1904). Rapports de la Sociologie avec la Géographie. Revue Internacio
CHRISTOFOLETTI, Antônio (org.) (1962). Perspectivas da Geografia. São Paulo: naldeSociologie, anoXII, n. 5, maio.
DifeL-

38 3"
c r c e r r r r c e r e e * e e c c e e e e c * e c c c e e c r e e e c e e e e e c c e c e, p
VIDAL. VIDAIS
(1903). La géographie humaine. Ses rapports avec la géographie de la
vie. Revue de synthese historique, vol. 7,agosto-dezembro.
(1903a). Tableau de lagéographique dela France. Paris: Hachcttc.
_ (1902). Les conditions géographiques desfaits sociaux. Annales deGéo
graphie, ano XI, n. 55.
(1899). Leçon dbuverture du cours de Géographie. Annales de Géogra 1.1. "PREFÁCIO"
phie, ano VIII, n. 38.
AO ATLAS GERAL VIDAL-LABLACHE:
(1896). Le príncipe de la géographie gênérale. Annales de Géographie,
ano V, n. 20. HISTÓRIA E GEOGRAFIA*
(1894). Préface. In: VIDAL-LABLACHE, Paul. Histoire et Géographie. [1894]
Atlasgeneral. Paris: Armand Colin.
(1S73). La Pêninsulc curopéennc. UOcéan et la Méditerranée. Leçon
dbuverture du cours d'histoire et géographie àla faculte de lcttres de Nancy.
Paris et Nancy: Bergcr-Lcvrault. Ao término deste trabalho, devo voltar meus agradecimentos aos edi o
tores que, generosamente, puseram à minha disposição os meios para
realizá-lo. assim como aos colaboradores que me confiaram seu apoio.
Agrada-me tal dever e o fato de poder citar aqui os nomes dos Srs. Lucien
Gallois, maitre de conférences na Sorbonne; Pierre Camena dAlmeida,
maitre de conférences na Faculdade de Caen; e Louis Raveneau e Paul
Dupuy, agrégés de história e geografia. Devo particular agradecimento aos
Srs. Jules Welsch, professor naFaculdade de Ciências de Poitiers que, com
boa vontade, ocupou-se das cartas geológicas, e Charles Seignobos, maitre
de conférences na Sorbonne, que me forneceu preciosa ajuda na seção desse
Atlas relativo à Históriada Idade Médiae dos Tempos Modernos.'
• Atlas general Vidal-Lablaclic. Histoire et Géographie. Paris: Armand Colin, 1895. Tra
dução: Guilherme Ribeiro. Revisão: Roberta Ceva.
1Os rriapas que foram feitos cm colaboração com outros portam, no fim da infor
mação, as iniciais do colaborador cuja contribuição foi bem aproveitada. Entre tais
40 41
f i . - ^ r . . . r - , " - . r . . —.-• <ÜWt«»WW —-- -
•Ü^***-*^"*! >%%*'*<9%<t* >% 9 9 9 9 9 ) > ) 1.9 >* 9 9 9 99 9 9

VIDAL, VIDAIS "PREFACIO"

Assim, consentindo em acrescentar algo de suas ciências e de suas Nesta compilação, procurei reunir sobre cada região [contrée] o con
personalidades numa obra cuja inidativa devia, entretanto (sob o risco de junto das indicações necessárias para se obter uma visão lógica. O mapa
romper a unidade necessária), conformar-se a um plano ea disposições já político do pais aser estudado é acompanhado de um mapa físico; ambos
estabelecidas, tais colaboradores, mestres experimentados, conferiram-me se esclarecem mutuamente, encontrando complemento em mapas ou fi
amarca da mais deucada simpatia —e um encorajamento sem oqual meu guras esquemáticas nos quais a geologia, a climatologia e aestatística for
ardor talvez tivesse falhado, dadas alentidão cacomplexidade da tarefa. necem os temas. Essa espéde de dossiê — se me permitem a expressão
Também encontrei no Sr. Eugène Létot, desenhista-geógrafo, um auxi — constituído, de acordo com o caso, de modo mais ou menos completo,
liar dos mais devotaÜos. Pesquisa c interpretação de documentos, trabalho tem por objetivo situar sob o olhar o conjunto dos traços que compõem
de execução sob meu controle, repetidas revisões e correções: durante uma região [contrée], a fim de permitir que o pensamento estabdeça, entre
mais de dez anos, estes foram objetos de uma intensa comunhão de tra estes, uma ligação.
balho c combinação de esforços, por intermédio dos quais pude apreciar De fato, é nessa ligação que consiste a explicação geográfica de uma
os conhecimentos desse excelente colaborador. Sabe-se lá o que exige de região [cortfrée]. Vistos isoladamente, os traços que formam a fisionomia
paciência catenção uma elaboração que, por níveis, vai do esboço primário de um pays têm valor de um fato; contudo, só adquirem valor de noção
àcondição do mapa pronto para ser entregue ao compilador? Sem dúvida, científica quando reposicionados no encadeamento do qual fazem parte.
um trabalho carregado de satisfação, à medida que o modelo assume ex Apenas esse encadeamento é capaz de con ferir-lhes significado pleno. Para
pressiva fisionomia; porém, um trabalho misturado à decepção, quando a tornâ-lo visível, é preciso esforçar-sepor reconstituir, até o ponto que o es
execuçãovem trair intenções que nos eram valiosas! tado geral dosconhecimentos permitir, iodos osanéis dacadeia. Essa não é
Queria que este Atlas parecesse digno das boas intenções nde apücadas. uma preocupação supérflua; ao contrário, é condição indispensável para a
Numa obra de tamanho fôlego, é bem difícil evitar por completo os equí clareza buscar, na geologia e noclima, as chaves dorelevo eda hidrografia,
vocos. Espero que revisões atentas venham a eliminá-los. Serão levadas em bem como nascondições físicas as razões da distribuição doshabitantes e
consideração observações que algumas pessoas complacentes quiserem, por da posição das ddades. Não se negligencia impunemente os níveis inter
bem, me enviar. Talvez seja possívd aprimorar os mapas cuja execução dei mediários, que permitem recuperar a série de causas e efeitos,
xou adesejar. Se em rdação aos detalhes posso esperar indulgência por parte Assim, tentando mostrar uma região [contrée] sob diferentes aspectos
do público, este não éo caso para o método seguido na composição e no — tal como se submete a ângulos distintos as diversas faces do objeto que
desenho da obra. Sobre isso. ojulgamento não comporta sursis algum; eis por se quer conhecer —, não tive outro objetivo senão iluminar o principio de
que talvez não seja inútil acrescentar algumas breves explicações àquelas que conexão que une os fenômenos geográficos. Se fiz empréstimos a ciências
já figuram, atítulo de informação, abaixo de cada mapa. vizinhas, não foi apenas para levar o pensamento a temas diferentes, mas
para ddes retirar testemunhos úteis. Porexemplo, não foi a estatística que
tentei exprimir cm alguns mapas,e sim a geografia atravésdas estatísticas.
mapas, existe ao menos um onde tudo pertence ao signatário: Paris sob aRevolução (n. Não procurei repetiro sábio quesegue passo a passo e número a número a
46), trabalho absolutamente pessoal do Sr. Paul Dupuy. evolução de um fenômeno econômicoou sodal. mas somente extrair des-

42 43
eeeeeeeeeerfcfeeeeeercreeeeeeeeeeeeeerffffrrrerr
VIDAL. VIDAIS •PREFACIO"
ses números os meios através dos quais ageografia pode fundar uma noção. ciso admitir —, aumenta decomplexidade, dada a crescente exigência de
Quer se trate de fatos dimáticos, botânicos ou econômicos, foi a relação com análises mais exatas c a percepção, cada vez mais clara, da intervenção
o lugar que procurei observar. Onde se localizam determinados fenômenos de causas que remontam a um passado longínquo quanto ao atual estado
do clima, formas de vegetação ou agrupamentos de produtos, eis oelemento terrestre.
geográfico: aqude que permite capturar uma relação com o solo. Tais idéias —que só parecerão novidade àqueles que tenham esquecido
Assim, a característica de uma região [contrée] é algo complexo, resul as lições dos principais geógrafos de nosso século —me serviram de base
tado do conjunto de um grande número de aspectos e da maneira como eguiaram este trabalho. Não épreciso considerá-las como uma espéde de
eles se combinam e se modificam mutuamente. É preciso ir além e reco filosofia planando acima dos estudos geográficos sem a eles se incorporar;
nhecer que nenhuma parte da Terra contém em si mesma sua explicação. ao contrário, deve-se fazer um esforço para que elas se unam intimamente
Só se descobre o jogo das condições locais com alguma dareza quando às descrições das diferentes regiões [contrées], de modo que ageografia não
aobservação se eleva para além de tais condições, quando se écapaz de se divida em duas partes verdadeiramente desiguais cm valor: um esludo
apreender as analogias naturalmente conduzidas pela generalidade das leis geral, que seria aciência da Terra, euma série de descrições sem método
terrestres. O estudo dos Alpes não avança sem o estudo de outros dobra- e sem sentido. Para isso, a cartografia é, seguramente, o instrumento mais
mentos da era recente; o estudo do Saara não ocorre satisfatoriamente sem apropriado. Onde encontrar meio de expressão tão capaz de concentrar as
o de outros desertos do globo. Na realidade, a Terra é um todo, cujas di rdações que devemos apresentar, em conjunto, ao pensamento? Sobre isso,
3
ferentes partes se esclarecem mutuamente. Seria colocar uma venda nos é fato significativo que Karl Ritter,1 no período de sua vida em que fermen
olhos estudar uma região [contrée] isoladamente, como se ela não fizesse tavam as idéias que. mais tarde, inspirariam a Erdkunde, tenha começado
parte de um conjunto. por conferir-lhes uma forma cartográfica. Asérie coordenada de seis ma
Como fazer para responder a essa necessidade metodológica, numa pas por ele publicada de 1804 a 1806 sobre orografia ehipsometria, flora,
coleção cujas exigências me impediam de multiplicar excessivamente as cultivos, fauna e população da Europa foi o primeiro ensaio de aplicação
cartas gerais da Terra? Essa dificuldade me preocupou c, no emprego fre dos princípios metodológicos que a ciência geográfica deveria assimilar.
qüente de cartas, figuras e distintos meios de evocação, veremos meu de Sabemos o desenvolvimento queesse tipode cartografia recebeu na pátria
sejo de manter oespirito sempre atento ao conjunto, uma advertência para de Ritter.
não se separar o caso particular dos fatos gerais. No entanto, não posso Agora, écom prazer que deixo, àprópria obra, a responsabilidade de
iludir-me sobre ovalor desses procedimentos; oleitor terá que, quase sem defender sua causa. É um instrumento de trabalho, um ensaio de coorde-
pre, recorrer às cartas gerais para encontrar um comentário sobre as cartas
particulares.
Portanto, a geografia tem diante de si um belo e difícil problema: ex : Mesmo na época em que o autor viveu, seu nome era grafado ora com "C" (por
exemplo, nas citações de Ratzel). ora com "K" (como fazia o próprio Ritter no inicio
trair, do conjunto dos traços que compõem a fisionomia de uma região, doséculo XX). Mudanças ortográficas nalíngua alemã noslevaram a optar pelo uso
o encadeamento que os une c, nesse encadeamento, uma expressão das de "Karl" nestas traduções, tal como hoje c uülizado na Alemanha. Agradecemos a
leis gerais do organismo terrestre. Problema que, a cada dia —é pre- Leonardo Arames por estasinformações. (N.T.)
•!•; 45
.... ... ........... « w d ^ m e i M » , . ^ , , , , , ...,.„..,,........ .... ,...-- • .... ........ . . ... - . •-.•.v...r..v,-.-—.-r-~T?^—i--/—••v'.-»-.-»..".^^
nvi ) n n > ) > m i »)u> i > i • >>*>-> i i inmiiiin

VIDAL, VIDAIS

nação metódica; freqüentemente, a experiência me fazia sentir sua neces


sidade. Eu adedicaria de bom grado aesses jovens mestres, entre os quais
vi despertar o gosto por esses estudos e com os quais —sobretudo —se
retoma a preocupação em conferir à geografia o lugar dentíftco que lhe
convém.
Contudo, não esqueci que uma compilação desse gênero devia seruma
obra de informações —e não apenas de doutrina —, cabendo á ela forne 1.2. O PRINCÍPIO DA
cerde modo rápido e fácil todas as indicações que se tem o direito de lhe GEOGRAFIA GERAL*
indagar. Desejo ter logrado tal objetivo. Porém, devo admitir, queria que [1896]
as pessoasque folheassem essa coleçãose sentissem tentadas a estudá-la, a
seguir o fio que as religa, a se interessar pelas relações que ela procura su
gerir. Assim, tais cartas, inanimadas emaparénda, assumiriam vidadiante
de seus olhos. No século XVI, os cartógrafos apraziam-se ao escrever, no
frontispicio desuas obras, os títulos pomposos de"Teatro doMundo", "Es
pelho do Mundo". Foi-se o tempo dessas qualificações. Todavia, por que Aideia de que aTerra éum todo, no qual as partes estão coordenadas,
I um atlas atual —quando, certamente, as relações entre as coisas aparecem proporciona àGeografia um principio de método cuja fecundidade
emmaior quantidade ecom maior clareza —não pode pretender estimular aparece melhor à medida que se amplia a sua aplicação. Se nada existe
a curiosidade e oferecer matéria à reflexão? isoladamente no organismo terrestre, se em todo lugar repercutem as leis
gerais, de modo que não se possa tocar uma parte sem provocar todo um
encadeamento decausas e de efeitos, a tarefa do geógrafo toma umcará
ter diferente daquele que às vezes lhe éatribuído. Qualquer que seja afra
ção da Terra que estude, de não pode nela se fechar. Um elemento geral
seintroduz emtodo estudo local. Não háde fato área emque a fisionomia

•Versão original: "Le príncipede la Géographie Gênérale". Annales de Géographie. vol.


V, out. 1895 aset1896. Paris: Armand Colin Editores. Tradução: Rogério Haesbaert c
Svlvain Souchaud. As citações cnotas de rodapé (com exceção da numeração) foram
mantidas tais como notexto original deLa Blache; expressões repetidas pelo autor na
sua escritura original grega não foram aqui reproduzidas por restrições tipográficas,
sendo substituídas pelo símbolo |*).

47
46
eeeeccf < frrrrfrfffrcrrerceee»###ercfreecrcceee«
VIDAL. VIDAIS O PRINCÍPIO DA GEOGRAFIA GERAL
não dependa de influências múltiplas e longínquas das quais importa I
determinar o local de origem. Cada área age imediatamente sobre sua
vizinha e é influenciada por da. Fora mesmo de toda relação de vizi A ideia da unidade terrestre não foi estranha à antigüidade grega. Confusa
nhança, a ação cada vez melhor reconhecida de leis gerais se traduz por entreos primeiros teóricos da geografia (penso aqui nossábios jónicos que,
afinidades de formas ou de climas que, sem alterar aindividualidade pró mais de seis séculos antes da nossa era, raciocinavam sobre as causas físicas
pria de cada área, marca-a com características análogas. Estas analogias dos fenômenos), a concepção de um conjuntoordenado, cm que as coisas
ou "conformidades", seguindo o termo muito conhecido de Bacon, desde devem seu caráter ao lugar que ocupam, torna-se mais exatano momento
que o homem começou a dominar 0 conjunto dos fenômenos terrestres, cm que a noção de esfericidade da Terra introduz-se na ciência. Aparece
chamaram asua atenção. Muitas podem ser apenas aparentes, mas outras entãoa divisão do globo em zonas, cada umadelas supostamente comuni
são reais; elas são fundadas não sobre puros encontros exteriores, mas cando sua marca ao clima, à vegetação, à fauna e às raças humanas. Muito
sobre relações de origem ede causas. Entre estas aaproximação se impõe, cedo, como demonstrou Hugo Bergcr na sua recente Histoire dela Géogra
pois cada uma proporciona àoutra seu tributo de explicação. Ogeógrafo phie scientifique chez les Grecs,' vê-se desenhar o antagonismo entre duas
élevado assim a projetar, sobre o tema que estuda, todo oesclarecimento concepções diferentes da geografia. Uns estudam a Terra como um todo,
fornecido pela comparação de casos análogos. na sua unidade; para outros, a geografia é um repertório de informações
Énesse espirito que cada vez mais são tratadas nos nossos dias as ques ou descrições, onde, por uma inclinação natural, acumula-se tudo o que
tões geográficas. Teríamos apenas que escolher os exemplos. Esse ponto de pode almejar a curiosidade, mas com o risco de perder de vista o objeto
vista supõe, com certeza, uma ciènda suficientemente avançada para ser essencial, a própria Terra.
capaz de apreender oque há de regular no mecanismo dos agentes físicos, O grande mérito das escolas de Eratóstenes e de Ptolomeu foi o de
e paraseguir a sua açãosobre a maior parte, se não sobre a totalidade, do manter aberta a via cientifica, através do estudo geral da Terra.' Mas como
globo. Contudo, o printípio sobre oqual de repousa, eque poderíamos é fácil perceber a razão, o organismo terrestre apareceu-lhes como uma
formular recorrendo à idéia da unidade terrestre, está longe de ser novo unidade puramente matemática. A ideia que faziam das zonas terrestres
na ciência geográfica. Essa idéia se manifestou primeiro de um modo que foi, para eles, uma espécie de postulado que permitia porantecipação abar
car a totalidade do globo, como se já fosse ele realmente conhecido. Para
se poderia, de certa forma, denominar prematuro, já que oestado real do
Ptolomeu, por exemplo, as mesmas latitudes implicam os mesmosclimas,
conhecimento estava longe de lhe corresponder; ela, contudo, existe, fruti-
as mesmas plantas, os mesmos animais. É sobre esse princípio que a sua
fica, cdepois vai sendo retificada cse desenvolve pelos próprios progressos
crítica se apoia para coordenar e retificar as relações dos viajantes. A pre
da ciência.
sença numerosa [*] de elefantes, rinocerontes, a cor negra dos habitantes,
Talvez seja interessante retraçar a evolução dessa ideia, em que é in
contestável seu papel capital no transcurso do método geográfico. Êo que
irei tentar fazer nesta rápida apreciação. 1Geschichtc der wissenschafilichen Erdkunde der Griechcn. Leipzig, 1887-1893.
1É em nome da unidade terrestre que Eratóstenes critica severamenteas divisõestra
dicionais de partes do mundo.
48 49
• .-. -r.-.-.i.-7-.-í".-%•.-...— ••• --...vnni"»sitm ***&*&&»ÕS**tM<iMtt>ààÍ&*V<^^ • "*tí* ..,....-..-.—, l.i II.W • •••
* * * * * ^ I 9 9 %% 9 9 9 9 )>>^,>>>>>^>V>>>>>1>*,^^ ^1>^>^1I'%

VIDAL. VlDAIS O PRINCÍPIO DA GEOGRAFIA GERAL

são para ele indidos quedevem se reproduzir atéas mesmas distancias do homem, o mundo do Mediterrâneo não é, em si mesmo, propicio à,per
equador c não além, deconformidade com as analogias do meio [']. Ele cepção de relações gerais. Afragmentação dos contornos, que éum dos en
deduz a posição das áreas a partir dos aspectos de sua vegetação e de sua cantos dos horizontes greco-latinos, é também uma causa de obscuridade.
fauna, com uma segurança que não permite duvidar do valor absoluto que Nenhum mar é tão extenso, nenhuma forma de superfície é tão desenvol
se costumava então prestar ao criteríum matemático.' vida para que os fenômenos físicos ai se apresentem com aamplitude ea
Munidos das melhores determinações astronômicas; os antigos não simplicidade que as superfícies do Oceano ou das vastas planícies da Ásia
teriam caído nesta confusão. Até mesmo no campo que lhes era mais fa ou da América lhes imprimem. Cada compartimento do Mediterrâneo tem
miliar, o do Mediterrâneo, há anomalias singulares que com certeza lhes oseu regime de ventos ede correntes. Cada área ribeirinha tem oseu clima.
teriam chamado a atenção. Se, por exemplo, tivessem conseguido deter As causas locais dominam, pelo menos em aparência, e a influência das
minar as latitudes das margens do mar Negro e da Crimeia, do mesmo causas gerais, às quais pertencem todas as partes do organismo terrestre,
modo como determinaram as do vale do Ródano, teriam sido levados às não se deixa facilmente entrever.
causasque podem introduzir tais diferençasde natureza e de dima entre as As grandes expedições marítimas dos séculos XV e XVI romperam o
regiões situadas no mesmo paralelo;teriam percebido pelo menos a distãn- encantamento que a ciência geográfica mantivera ao redor do Mediterrâ
da que existe entre as zonas matemáticas e as divisões infinitamente mais neo. Descobriu-se então o que aexiguidade das dimensões e acomplicação
complexas que resultam da combinação de causas físicas. das formas não havia permitido discernir: o espetáculo de fatos gerais de
A imperfeição dos métodos de observação foi para a Geografia dos ordem fisica, simples nos seus efeitos, grandiosos no seu desenvolvimento,
antigos um princípiode fraqueza, aindamaisperceptível do queaquele que dotados de um caráter de permanência e de periodicidade.
provinha do espaço restrito no qual se estendiam os seus conhedmentos. As observações tornaram-se mais precisas porque a necessidade de se
Na realidade, os geógrafos dos dois primeiros séculos da nossa era dispu orientar longe das costas obrigou os navegantes a aperfeiçoar seus instru
nham de informaçõesque iam do Báltico ao Sudão, do Atlânticoaos mares mentos. E, a partir do momento em que os navegantes foram capazes de
da China; mas, apesar de terem aplicado suas observações a fenômenos determinar com precisão asua posição em termos de longitude elatitude,
tais como as marés, as monções e as chuvastropicais, a maior parte dessas asdesvios involuntários de rota começaram a abrir-lhes os olhos sobre as
informações carecia de precisão paradar bons resultados.* É sobretudo do correntes desconhecidas que cruzam a massa oceânica. O regime dos ven
ponto de vista do Mediterrâneo que eles enfocaram as ciências da Terra. tos revelou, longe das costas, um caráter de regularidade que não era co
Domínio admirável para o estudo dos fenômenos que modificam a super nhecido. Começou-se a dar conta dos traços gerais dessa circulação que
fície terrestre e mostram a crosta do globo sob um aspecto de permanente aciona amassa líquida eaérea doglobo eque joga umpapdtão importante
instabilidade. Não menos instrutivo sobre as relações da natureza com o naeconomia dos climas. Toda essa parte da vida terrestre havia escapado
à ciência antiga.
Na verdade, parece que os espaços marítimos tiveram a virtude de
1Ptol., Géographie, 1.9.4 —cí. Aristóteles, Tratado do Céu. 11,14.
iniciação para todas as descobertas fundamentais da Geografia. Foi a li
' Eles conheceram a monção de verão enue a África c a Índia, masnãohouve nenhum
nha curva dos mares que sugeriu ao homem a ideia da esfericidade da
indicio de que tenham percebido a influência desta monção sobre o clima da Índia.

:'C 51
(fffffcíffnrttffffrfíffífitrftf(Cffffffíífrffcf
VIDAL. VIDAIS O PRINCÍPIO DA GEOGRAFIA GERAL
Terra. Foram as navegações da Grécia ao Egito que, chamando-lhe a contra as costas orientais do antigo c novo continente uma das causas que
atenção sobre a diferença que aparece na posição dos astros durante esse determinaram a sua configuração.'
trajeto, sugeriram a ideia das dimensões relativamente restritas da esfera Quando os navegantes espanhóis começaram a freqüentar as cost3s
terrestre.1 São as viagens do século XVI que mostram os movimentos dos da Flórida, nãotardaram cm perceber que, subindo emlatitude, encontra
ventos c das águas. vam-se ventos de oeste, que foram chamados ventos de retorno. Após sees
Já Cristóvão Colombo, na sua terceira travessia (1498), reconhece que tabelecerem nas Filipinas, procuraram no Pacífico a repetição daquela zona
as águas do mar "se movem, como o céu", do Oriente ao Ocidente: Las deventos de oeste, de que necessitavam para suas relações com o México.
águas van con los ciclos. Pouco importa queele tenha se enganado sobre o Depois de vinte anos de sondagens, acabaram por encontrá-la. Einteres
sentido real do movimentodo céu;sua observação introduziana ciência a sante constatar nesse exemplo aaplicação à Geografia de um método igual
primeira noção desse amplo e grandioso movimento que, dos dois lados àquele do astrônomo, que descobre um planeta previamente determinado
do equador, arrasta juntas, no mesmo sentido, a massa líquida e a massa pelosseus cálculos.
de ar, lançadas uma e outra para trás pdo aumento de rapidez da rota Desejo apenas, com esses exemplos, mostrar amudança de perspectiva
ção terrestre. Quando, uns trinta anos depois, o fenômeno constatado no que então se introduziu no estudo do globo. Segundo a passagem muitas
Atlântico foi constatado também no Pacifico, ele surgiu no seu pleno ca vezes citada do Novum Organum,1 em que Bacon indica, como um im
ráter de generalidade que Colombo parecia ter adivinhado. Viu-se, além portante exemplo de conformidade, a analogia de formas entre a África c 00
o
f-l
das terras americanas, as mesmas correntes se reproduzirem nas mesmas a América do Sul, pode-se perceber o quão naturalmente se manifestava,
zonas, osmesmos movimentos fazendo oscilar cm massa os ares e aságuas. ao simples aspecto dos novos mapas, o sentido da generalidade dos fatos
Sabe-se quanta utilidade prática teve o conhecimento' dessa importante terrestres. Muitos outros depois dele, c a partir de novos indícios, nota
característica da circulação, igualmente relevante para os teóricos da Terra. ram formas menores no mesmo sentido, repetindo-se em menor ou maior
Buffon, dois séculos depois, acreditou terencontrado nesse afluxo das águas intensidade, rcproduzindo-se quase cm todo lugar na configuração dos
continentes, e repetiram a palavra, quod non temere accidit. Existe ai, de
fato, a expressão' "de um certo sistema natural de ordenamento terrestre";
1"Resulta da observação dos astros, nãosomente que a Terraé umaesfera, mas tam ou, como ainda foi sugerido pela indicação exterior do nosso planeta, a
bém que essaesfera não c grande."(Aristóteles, Traité du Ciei, II, 14) silhueta que chamaria aatenção de um observador ideal, supostamente ob-
' "Os navios que vão de Acapdco às Filipinas", escreve Varenius, "navegam durante
sessenta dias sem nenhuma troca devda, apesar de os marujos poderem dormir cm
paz sem se preocupar com o navio, que o próprio vento trata de conduzir ao porto." ; 'íliéorie dela Terre, I, p.50,p. 205 etc.(cd. Flourens).
Estas viagens espanholas do México àsFilipinas, com retorno pelo México, se efeti •Livro II, aforismo 27 (1620).
varamdurante doisséculos (a partir de 1571) com uma regularidade automática: era
♦ K. Ritter, Uber geographische Stellung und horizontale Ausbreitung der F.rdtheiic
recomendado permanecer nazona dosallscos para o trajeto de Acapulco a Manila e.
(1826). (Bnleitung zur allgcmeincn vergleichenden Géographie und Ahhandlungcn..
para o retorno, subir até os 35 graus de latitude norte, onde se encontrariam os ventos
de oeste. Berlim, 1852.)
52 53
.-,-.*.•.-.- •••-*• • -" - •.-. ....^-». -
.......
..»*• • • J ^ , „ . . . , - . — .« .. . .
»••-----—- --- - —
nvnm>m))r>) i > > \ > v> nmnm) i

VIDAL, VIDAIS O PRINCIPIO DA GEOGRAFIA GERAL

servando o disco terrestre no espaço, se oolhar dde pudesse atravessar a sobre asregras gerais, estuda cada áreaetc." Poderíamos a partir daiafirmar
zona de nuvens que/urva a nossa atmosfera.50 queo dualismo indicado porVarenius é apenas aparente, pois a relação en
tre as leis gerais e as descrições particulares, quesão a sua aplicação, cons
titui a unidade intima da geografia. Mas ninguém ainda haviaformulado
com tal nitidez a questão da geografia científica. Seu livro é uma série de
Aobra teórica que melhor traduziu oefeito dessa ampliação de horizontes análises, apresentadas soba forma de proposições seguidas de respostas, e,
foi otrabalho publicado em 1650,sob osignificativo titulo de Géographiegê apesardesta aparênciaescolástica, é de espirito bastante moderno.
nérale, por um alemão do norte estabdeddo na Holanda, Bernard Varenius. O tratado de Varenius contribuiu muito para fixar o pensamento geo
Ele era um médico, fortemente influenciado por estudos matemáticos, gráfico. Basta dizerque Isaac Newton lhe consagra, em 1681, uma edição
ao qual a permanênda em Amsterdã inspirou o gosto pela geografia. revista e aumentada." Mais tarde ainda, Buffon o cita com freqüência, c
Desde que os ingleses renunciaram às suas buscas de passagem pdo no muitos indícios permitem perceber que este livro não deixou de exercer
roeste, a Holanda era o único pais da Europa que. com os Van Diemen eos influência sobre suas idéias. Sabe-se que,na concepção que ele fazia da his
Tasman, ainda continuava a tradição das grandes viagens marítimas. Em tória naturaldos animais, o estudo da Terraé a base, pois,diz de, "ahistória
Paris, onde mais tarde seria instalado ocentro da déncia geográfica, não geral da Terra deve preceder a história particular de suasproduções"." Esta
existia ainda nem aAcademia de Ciências, nem oObservatório, eera para história, que ele procurava reconstituir deforma audaciosa nopassado, era
Amsterdã que convergiam as novas informações. Olivro de Varenius érico estudada também sob seu aspecto presente e, nestaparte de sua obra, em
em observações precisas provenientes dos navegadores. Suas idéias sobre que ele se mostra um geógrafo muito atento às explorações contemporâ
as divisões dos mares, os movimentos do Oceano, as ilhas, testemunham neas. Buffon segue nitidamente a tradição de Varenius. O queele chama de
estudo "da natureza cm escala ampla"1' não é, qualquer que seja a leitura,
uma precisão de conhedmentos cgrande segurança de generalização. Re
o desprezo do detalhe, mas a justa subordinação do detalhe ao conjunto.
sumindo os movimentos da massa liquida em uma fórmula que outros,
Profundamente imbuído do sentimento de ordem e de encadeamento dos
mais tarde, poderão aplicar àmassa de ar, ele diz: "Quando uma parte do
fenômenos, ele não pretende estudar a natureza com olhos de míope; de
Oceano se move, todo oOceano se move."" Um amplo sentido da conexão
não quer fracionar ostraços que, se forem isolados, lembram assílabas que
dos fenômenos terrestres se faz presente em toda asua obra. Ele explica, uma criança soletrasem a consciência da palavraà qual elas pertencem.
com perfeita consciência do seu método, oobjeto da ciência: "A geografia
édupla. Há uma geografia geral - quase totalmente negligendada ainda
hoje —euma especial. Aprimeira considera aTerra em sèu conjunto, ex '•' Bernhardi Vareni Géographie gencralis, etc, summa cura quam plurimis in heis
plicando as diferentes partes eos fenômenos gerais; asegunda, guiando-sc emcndaia... ab Isaaco Ncston. Cantabrlgiae, ex oficina loannis Hayes ceie berrimae
Academiae Typographi... MDCLXXXi.
0 Histoire etIhéorie dela Terre, vol. I, p.33.
*Ed. Suess, Das Antlitz der Erde, 1.1. p. 1.
" Histoire et Ihéorie de la Terre. São as próprias expressões do Cosmos de Humboldt
" Quum pars Occani movetur, totus movetur. (C 14, §2) (trad. Fayc, princip. p. II. introd. p. 34).

54
55
c ee cececccrrreecrcfrcfferrrcrcceceereerfceeeeeccf
VIDAL, VIDAIS O PRINCIPIO DA GEOGRAFIA GERAL
Faltava às generalizações da ciência de então a base de uma soma su fere a ligação de fatos já anteriormente observados ao conhecimento de
ficiente de observações precisas. Mas o século XVIII, seguindo neste sen fatos isolados, mesmo quando eles são fatos novos"" —expressão que pode
tido a obra do XVII, trabalhava, justamente, para colocar à disposição da apenas explicar um estado de incoerência ainda muito grande entre as di
ciência uma massa de dados seguros como ela nunca havia obtido, pelo versas partes da geografia. Ele combatia diretamente essa incoerência, pois
aperfeiçoamento dos instrumentos de observação e pela precisão enfim o que procurava alcançar era, sobretudo, a conexidade dos fenômenos c
introduzida nos mapas. O que havia sido o grande e antigo desideratum as influências reciprocas que se intercambiam entre as diversas partes do
daGeografia, a constituição do mapa do mundo, de um quadro fixo onde organismo terrestre. Botânico apaixonado, como ele nos diz," transmite à
pudessem ser registrados os fatos novos, se encontra em grande parte geografia o método de dassificação das ciências naturais, mas o principio
realizado pelo trabalho de Dclisle,de dAnville.de Cassini, no momento cm sobre o qual ele funda seus tipos de fisionomia vegetal exprime a relação
que iria começar a atividade do autor de Cosmos e do aulor de Allgcmeine da planta com o meio físico." Abotânica se torna geografia ao estudar o
Vergleichende Géographie."
que na fisionomia das formações vegetais reflete a altitude, ograu de umi
A ideia, em si,de uma Geografia geral fundada sobre o encadeamento
dade ou desequidão do ar etc. Na multiplicidade de temas sobre os quais
dos fenômenos não podia passar por nova; observamo-la emergir natu
exercitou seu pensamento, procurava sempre constituir o quadro de con
ralmente da revelação progressiva das grandes características do globo.
junto dosfatos.convencido de que, uma vez conhecida suarepartição ter
Não havia mesmo nada, como já salientamos, no sentido que Karl Ritter o
emprestava à palavra Geografia comparada, que implicasse uma ordem de
restre, as próprias rdações se apresentaram ao espirito. É assim que, das
pesquisas nova, que alcançasse o modo de transformação dos fenômenos: observações de temperatura que era possível reunir, ele retirava o traçado
das linhas isotermas. Será suficiente, mais tarde, estender o modo de repre
a comparação era, para ele, sobretudo, um instrumento apropriado para
provocar a manifestação,por oposição, da individualidade de cada ser. Para sentação a outros fenômenos para constituir o Aüas físico, cuja primeira
Humboldt, quetambém a empregava, a comparação era o meio de discer edição a Bcrghaus faria aparecer cm 1836, sob inspiração de Humboldt.
nir entre os fatos aquilo que eles ofereciam de comum em relação às leis Pois, acima de tudo, está o dom da expressão, da fórmula contundente que
terrestres.l, A originalidade está inteiramente nos desenvolvimentos e nas condensa em uma palavra, em uma frase" ou em uma cifra, uma soma
aplicações pelas quais esses dois grandes espíritos fecundaram um princi considerável de observações. A influência que ele exerceu sobre a geogra
pio já inserido na ciência. fia, vista de bomgradocomo sendomuito fecunda, consiste sobretudo nos
Humboldt se dedica, especialmente, à coordenação c à classificação tipos que ele criou, nos quadros metódicos de observação que constituiu.
dos fatos. Apesar de observador infaligável, ele próprio confessa que "pre-
u Humboldt (1769-1859); Ritter (1779-1859). " Rije indie Acquitwctial-Gegcndcn. —Eialeitung, p.3.
'* "Ich liebte die Hotanik mit Leidcnschaft" (Reise, id. ib.).
'* Ver no Cosmos (trad. Fayc, p. 82) a interessante passagem sobre a determinação
numérica dosvalores médios, "que representam o que hàde constante nos fenômenos " Physionomic desplantes, no Tablcaux de la nature (1808).
variáveis, e que constituema expressãodas leisfísicas". 10 Muitasfrases ficaram comoformações clássicas; bastaaqui que foi
56 57
...-..•-•'•.---. .*.'-•-• v---.- ..-...-..-.,. -.-- - v s . ^ « ^ - ^ — ,-wv.-.«•*• v».*
>vn^vnn>> > > ) n •9 9 9 *+* + %** mi) nn^iiii

VIDAL, VIDAIS O PRINCIPIO DA GEOGRAFIA GERAL

Ele sedestaca pormobilizar os fatos, convertê-los emfórmulas correntes e integrante, e não como anexo, quea obra histórica da humanidade encon
emdados comparáveis entresi." tra lugar na sua concepção da vida terrestre, como o mais ativo e o mais
Há entre Ritter c Humboldt, como é natural entre dois homens cujas poderoso dos elementos detransformação ede vida que aí se manifestam.-"'
vidas científicas foram paralelas, um fundo de idéias comuns. Devemos Não é em vão que as pesquisas do oricntalismo tenham conseguido em
considerar, diz Ritter, que "no objeto da geografia, como em todo orga sua época recuar no passado oslimites da história: a Ásia setorna para ele
nismo, a parte só pode ser alcançada pelo conjunto vivo"." Ele pretende não apenas a mais grandiosa expressão dos contrastes físicos que a terra
que sua obra seja "um esforço para abarcar as energias naturais em sua oferece, mas também o berço de nossas civilizações. E, combinando essas
conexidade".1' Se existe umadiferença entreos dois, ela nãoserefere a uma duas idéias, ele mostra como, das montanhas de Cabul até as extremidades
concepção outra das relações entre a natureza c o homem. Humboldt não ocidentais do Mediterrâneo, uma corrente geral, que tem seu principio nas
se expressou menos claramente que Ritter sobre a conexão íntima entre próprias bases da natureza fisica das áreas, levou rumo ao oeste raças hu
as duas ordens de fatos, físicos e humanos." A ideia de exduir o elemento manas e plantas, c fez desta parle da Ásia o Oriente do mundo do ponto de
humano da geografia não estaria presente no espirito desta geração dos vista da natureza e da história.1'
Humboldt edos Cavier. animada por uma concepção tão elevada de ideal Levado pela natureza de sua obra a efetuarsucessivamente a aplicação
cientifico. Seria ainda menos verdadeiro atribuir aRitter alguma concep desuasvisõesgeraisa áreasparticulares, o autor de Erdkunde deu-lhesuma
- ção naqual a geografia nãoseriamais do queumahistória sofisticada: "Êa forma concreta que aguça o sentido. Seriadifícil compreender tudo o que
variedade dasformas do solo queconstitui a base de todas asoutras."" encerra a ideia de posição geográfica (Weltstellung) se Ritter não houvesse
Mas aforça da inspiração histórica é uma das originalidades de Ritter. mostrado, colocando-se do ponto de vista de cada área, uma após a outra,
As palavras "Natur und Geschichte" são dois termos perpetuamente asso através de fatos e de exemplos, a profunda significação quea ela estávincu
ciados, entre os quais, sem cessar, gravita oseu pensamento. Écomo parte lada. Épelo fato de ele ter descrito analiticamente aÍndia, o Irã, a Palestina
etc. que não é mais permitido considerar as diversas partes da Terra como
uma justaposição inanimada," mas como um lugar reciproco de forças
" Mesma preocupação cm Ritter: ver Bcmerkungcn über Vcranschaulichungsmittel atuantes.
rãum licher Vcrhãltisse bei graphisclien Darstellungen durch Farm und Zahl (Einlei- Na verdade, o principio das reaçõesque as diferentes partes terrestres
tung... und Ablianlungen. p. 129 eseguintes).
exercem umas sobre as outras encontra-se na sua natureza física. Daí essas
'•' Uberdas historische Elcment in dergeographischcn Wissenchafi (1833) (Einleitung... análises pacientes emque Ritter passa minuciosamente em revista todos os
und Ablianlungen, p. 181).
•'"Strebcn nach Ubcrsiéhtder Naturwirkungen in ihrcm Zusammcnhange". (Einlciiung
zu dem Versuche einer allgemeinen vcrgleichenden Géographie, 1818. Em Einleitung... " Uberdas historische Elcment etc. (1832Einleitung... und Ablianlungen, p. 180).
und Ablianlungen, p.7). 37£r<«:umfe,v.VII,p.Z37.
' "Tudo oque faz nascer uma variedade qualquer de formas (...) imprime um modo !! "Das loblose statt des lebendigen ergreifen". (Ubcr das hist. Elcment... Em Einlei
particular ao estado social". (Cosmos, p. 350. trad. francesa) tung... und Abhandlungen, p. 180) Cf. o desenvolvimento de algumas dessas idéias na
:> Erdkunde, v. II, p.71 (1832). Anthropogcographic de Fr. Ratzel (v. II,Einleitung, ib. cap. 19 epassim).

r-a 59
c PP90PPPPPPPPPPPPPPPPPPré p p p p p p ppp p p P P p p p pp p pr c e
VIDAL. VIDAIS O PRINCÍPIO DA GEOGRAFIA GERAL
traços físicos próprios que irão imprimir uma certa impulsão à atividade a marca de um momento raro, aquele em que o feixe de conhecimentos
da natureza edo homem." Toda variedade, toda desigualdade e, com maior diversos que constitui uma ciência permanece ainda muito estreito para
razão, todo contraste são os pretextos de intercâmbios, de relações ede pe que seja possívd abarcar todo oconjunto. Até mesmo na linguagem falada
netração reríprocas. Eles põem em marcha todas as forças pelas quais, na pela ciénda, refletc-sc aimpressão das grandes perspectivas que oespirito
natureza, o equilíbrio rompido tende a se restabelecer, ou pelas quais, abarca. Épor vezes com tons de revelação que Humboldt eRitter falam das
na ordem dos fenômenos humanos, um desejo é despertado, uma necessi leis terrestres e da correspondência íntima entreos fenômenos.
dade é satisfeita, uma açãoexterior é solicitada. Pois seria difícil encontrar A ciência se espedalizou infinitamente nos nossos dias. Épor cami
uma palavra capaz de traduzir tudo o que implica de significação ampla e nhos diferentes, e muitas vezes sem ligação entre as diversas disciplinas
variada a palavra Ausgleichung, que aparece com tanta freqüência na termi que contribuem para a formação da Geografia, que prosseguiu a investi
nologia de Karl Ritter. Variedade para ele ésinônimo devida. Oscontrastes, gação sobre o estudo da Terra. Muitos entre os estudiosos que aí se enga
no contato dos quais osfenômenos brotam cm profusão, são como pontos
jaram, partindo de especialidades diversas, eram estranhos às tradições da
luminosos para os quais é atraída a sua atenção. Alguns ele caracterizou
Geografia geral. Portanto, foi a própria força dos fatos,que os reconduziu às
com traços magistrais: o contraste entre a planície c a montanha, entre as
idéias sobre as quais ela havia sido fundada.
áreas de cultivos e os desertos e, sobretudo, o maior de todos, aquele que
Se fosse necessária uma demonstração contundente da ideia, por nós
é um núcleo intenso de energias físicas e de relações humanas, a zona de
encontro entre as terras e os mares. As zonas em que eles se combinam em já reconhecida como tendo sido daramente expressada necessidade de li
poderc em número sãoincompaníveis centros deação. Êo casoda Grécia, gar os fatos ao conjunto eda insuficiência do detalhe para explicar-se por si
da Palestina e daquela parteda Ásia emqueasplanícies do Turâ e da Índia mesmo, não encontraríamos nada melhor do que a demonstração propor
se aproximam, no sopé das mais altasmontanhasdo globo." cionada pelos progressos da meteorologia. "Nos movimentos da atmosfera
nenhum lugar pode ser isolado; cada um age sobre o seu vizinho, c este
age novamente sobre ele" —aquele que fala dessa forma a linguagem de
Karl Ritter é Dovc," e seu método é aquele em que ele logo introduziu
Somos lcvados.a evocar essas idéias e a reconstituir tanto quanto possível de modo frutífero o estudo dos dimas. A cada dia constata-se que este
sua formação e seu encadeamento. Primeiro, porque sua fecundidade está fenômeno, antes visto como produto decausas locais, é naverdade a reper
longe deseresgotada c porque haveria ainda benefícios para aciéndaatual cussãode causasbem mais distantes e mais geraisdo queseacreditava. Não
se fortalecer. Além disso, elas apresentam um interesse histórico: trazem conheço nada que dê umsentimento mais vivo da solidariedade das dife
rentes regiões daTerra do queos mapas dotempo, cuja inidativa remonta a
" "Naturimpulscn." Leverrier e que colocam sob nossos olhos, dia a dia, o estado e a mardia
"Ver entre tantas outras passagens, Erdk, v. II, p. 74, id., v. VII, p. 353, p. 237 etc. Cf.
Ubcr rãumliche Anordnungen auf der Aussenseite des Erdballs. etc. (Einleitung... und
Ablianlungen, p. 240). 31 Dovc. DieKlimatischcn Verháltnisse des preussischcn Siaaies, v. 111, p.74.
60 61
* • - - rt........ . . . . . . . . » - ^ . . , ~ ^. . . ... ........-, ^ -
9 %^ 9 9 9 9 9 9 9 9 9 9 9 9 9 9 9 9 9 9 9 9 %9 ^"% 9 9 > illVllll^l^^^^*'*1*

VIDAL. VIDAIS O PRINCÍPIO DA GEOGRAFIA GERAL

das perturbações atmosféricas. Quando vemos uma tempestade formada termos se parecem, os pontos de vista diferem. Os geógrafos da primeira
sobre a zona daGulfstream [Corrente do Golfo] ou sobre os grandes lagos metade do século procuravam definir e classificar os fatos segundo suas
da América chegar à Noruega ou à Irlanda, passar sobre o Báltico, reper características presentes, sem que essas características fossem relacionadas
cutir sobre o golfo de Gênova c desencadear o mistral no vale do Ródano, com as causas que as produziram. Totalmente diferentes são as aproxima
parece que assistimos a uma experiência que torna sensívd a conexidade ções tentadas pelos geólogos ou pelos geógrafos contemporâneos. Quando,
das regiões terrestres, como a experiência de Foucault tornando possível o para compará-las, eles agrupam as margens, lacustres do Báltico eas pai
movimento da Terra. sagens de Minnesota, a Finlândia co Labrador, os Alpes e o Himalaia," a
Os geólogos não nos trazem testemunhos menos significativos. Grande Bada Americana c a Ásia Central," os fiordes da Noruega e os do
Aideia de um arranjo seguindo um plano gerd nostraços deconfiguração Alasca, da Patagônia e da Nova Zelândia, eles sãoconduzidos a essas apro
do globo é expressopor Dana como uma espécie de conclusão de todas as ximações pelo estudo das causas das quais elas são aexpressão. Éo conhe
suas pesquisas." "Eu fui levado a constatar", diz ele alhures, "nas ilhas do cimento aprofundado dos fenômenos próprios àação gladar que fornece a
Pacífico, em vez de um labirinto, um arranjo; a observar no aspecto das chave de conformidades que se impõem por si mesmas àatenção, eque faz
massas continentais, um sistema de analogias" assim se implantou no meu descobrir outras que de outro modo passariam despercebidas. Apartir do
espirito a concepção da Terracomosendo uma unidade."" As analogias, há momento cm que o progresso da geologia permitiu uma apreciação mais
muitotempo apontadas como indicadoras de algum plano geral, parecem exata dos efeitos que os agentes atmosféricos são capazes de exercer sobre
ressurgir sob a pena dos geólogos. "Nós observamos por todo o mundo", a superfície do relevo, muitos traços comuns foram explicados, e muitos
escreve M. J. Geikie, "que os traços da natureza bem-marcados são cons outros também foram revelados.
tantemente repetidos. Outros são marcados por um ar de semelhança geral Àluz das causas gerais em que o modo de ação se deixa apreender, as
que paira adma das diversidades locais."" afinidades foram reconhecidas como sendo mais numerosas, ao mesmo
Não haveria espaço paralembrar a importância da expressão atual des tempo que mais bem-fundadas. As descobertas contemporâneas, na África
sas idéias, seelas nãofossem a repetição doquefoi ditoantes, àsvezes quase e alhures, multiplicaram em muito a variedade dos fatos e mostram ou
nos mesmos termos. Porém, olhando maisde perto, percebemos que, se os tras combinações da fisionomia terrestre: nada veio enfraquecer, muito ao
contrário, a ideia de unidade. As linhas grandiosasde rugosidades que nos
revelou a ÁfricaOriental acentuaram de forma mais nítida uma ordem de
" Deep trougiis ofthe Occanic depression. Ele vé na disposição du ilhas c das profun fatos que soment